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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/22977-8.txt b/22977-8.txt new file mode 100644 index 0000000..602d7d0 --- /dev/null +++ b/22977-8.txt @@ -0,0 +1,6389 @@ +The Project Gutenberg EBook of Lagrimas Abençoadas, by Camilo Castelo Branco + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Lagrimas Abençoadas + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: October 12, 2007 [EBook #22977] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LAGRIMAS ABENÇOADAS *** + + + + +Produced by Manuela Alves e Pedro Saborano. (produced from +scanned images of public domain material from Google Book +Search) + + + + + + + + + +Nota do transcritor: + + Foram corrigidos diversos erros tipográficos menores, sem que seja + feita qualquer menção desse facto. As marcas [NT] identificam as notas + explicativas das alterações importantes ao texto original. + + +OBRAS + +DE + +CAMILLO CASTELLO BRANCO + +EDIÇÃO POPULAR + +LI + +LAGRIMAS ABENÇOADAS + + +VOLUMES PUBLICADOS + +N.^o 1--Coisas espantosas. + +N.^o 2--As tres irmans. + +N.^o 3--A engeitada. + +N.^o 4--Doze casamentos felizes. + +N.^o 5--O esqueleto. + +N.^o 6--O bem e o mal. + +N.^o 7--O senhor do Paço de Ninães. + +N.^o 8--Anathema. + +N.^o 9--A mulher fatal. + +N.^o 10--Cavar em ruinas. + +N.^os 11 e 12--Correspondencia epistolar + +N.^o 13--Divindade de Jesus + +N.^o 14--A doida do Candal. + +N.^o 15--Duas horas de leitura. + +N.^o 16--Fanny. + +N.^os 17,18 e 19--Novellas do Minho. + +N.^os 20 e 21--Horas de paz. + +N.^o 22--Agulha em palheiro. + +N.^o 23--O olho de vidro. + +N.^o 24--Annos de prosa. + +N.^o 25--Os brilhantes do brasileiro. + +N.^o 26--A bruxa do Monte-Cordova. + +N.^o 27--Carlota Angela. + +N.^o 28--Quatro horas innocentes. + +N.^o 29--As virtudes antigas--Um poeta portuguez... rico! + +N.^o 30--A filha do Doutor Negro. + +N.^o 31--Estrellas propicias. + +N.^o 32--A filha do regicida. + +N.^os 33 e 34--O demonio do ouro. + +N.^o 35--O regicida. + +N.^o 36--A filha do arcediago. + +N.^o 37--A neta do arcediago. + +N.^o 38--Delictos da Mocidade. + +N.^o 39--Onde está a felicidade? + +N.^o 40--Um homem de brios. + +N.^o 41--Memorias de Guilherme do Amaral. + +N.^os 42, 43 e 44--Mysterios de Lisboa. + +N.^os 45 e 46--Livro negro de padre Diniz. + +N.^os 47 e 48--O judeu. + +N.^o 49--Duas épocas da vida. + +N.^o 50--Estrellas funestas. + +N.^o 51--Lagrimas abençoadas. + + + +CAMILLO CASTELLO BRANCO + + +LAGRIMAS ABENÇOADAS + + +ROMANCE + + +QUARTA EDIÇÃO + +1906 + +Parceria Antonio Maria Pereira + +Livraria editora e Oficinas Typographica e de Encadernação + +Movidas a electricidade + +_Rua Augusta--44 a 54_ + +LISBOA + + +1906 + +OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO + +Movidas a electricidade + +Da Parceria Antonio Maria Pereira + +_Rua Augusta, 44, 46 e 48, 1.^o andar_ + +LISBOA + + + + +A QUEM LER + + +QUE FELICIDADE É POSSIVEL SOBRE A TERRA: tal é o pensamento d'este +romance. + +QUE FELICIDADE, CONFESSADA PELA CONSCIENCIA, É A UNICA VERDADEIRA: +quizera eu poder provar, assim como posso sentir. + +QUE A FELICIDADE VEM A PREÇO DE LAGRIMAS, COMO A CONSOLAÇÃO DO +SALVAMENTO A PREÇO DAS AGONIAS DO NAUFRAGIO: é um paradoxo, talvez, para +os que não conhecem a verdadeira felicidade, nem choraram as lagrimas +abençoadas da resignação. + +Este romance é religioso na essencia. Escreve-se ahi muitas vezes a +palavra DEUS. Evitam-se as imagens do deleite, o pasto de ociosos, +gastos do coração, e fallidos da alma. Os que buscam no romance qualquer +cousa que não sirva de nada para o espirito, não leiam este. + +Eu espero achar entendimentos que m'o recebam, e corações que m'o +agradeçam. + +Vereis ahi uma mulher, que não é uma chimera. Imaginei-a, primeiro, e +encontrei-a fóra da imaginação, depois. + +Maria, linda creatura da terra, é a rainha de dois diademas: um no céo: +os anjos, seus irmãos, tecem-lh'o das flores, que ella rega no mundo com +as suas lagrimas. Outro na terra: é a soberania da virtude, respeitada, +embora não compreendida, pelos homens que lhe acurvam o joelho. + +Eu sou um d'estes. + +E o meu romance é uma palavra d'esse cantico de louvor, que o espirito +não póde revelar aos que, no seu caminho, não parariam a +compreender-lh'o. + +Meditemos este assumpto. + +Ha ahi n'esse mundo material uma decidida negação para acompanhar o +espirito nas suas elevações. Eu sei-o. + +Um ou outro homem encosta a face á mão, abraça os horisontes com uma +vista scismadora, afina a harpa da sua alma pela toada sonorosa dos +pinhaes; compõe das notas lugubres da tempestade a harmonia tetrica, e +desfigura-se, e poetisa, e parece não querer nada de commum com a fraca +natureza humana. É o sentimental. + +O sentimentalismo, sem a religião, é uma mentira. + +O que ahi vae de phantastico e espiritualista nos affectos, é uma +exigencia da epoca, é um encargo que a mocidade se impoz, é a precisão +de variar. Diga-se tudo: é a moda. + +Não porque a vida seja feliz, e a natureza do homem precise inventar +amarguras, para que a felicidade o não enjoe; + +Não porque o espirito, extenuado em sensualidades procure, no ideal, +respirar o elemento de vida, que lhe é proprio; + +É porque as felicidades, saboreadas n'estes tempos não deixam no coração +motivo para um hymno. O homem, que não póde apagar na mente a faisca do +genio, que lhe desceu ao berço, ou mata a inspiração na orgia, ou +abysma-se com ella, por feretros e ossadas até materialisa'-la nas +fórmas repugnantes de uma dor monstruosa. + +E, se assim não fizer, o seu alaúde não tem sons, e o genio fallece-lhe +de impotencia. Mas o poeta quer este titulo; cantor quer a grinalda das +flores em troca da corôa de espinhos; é preciso cantar. + +Se lhe pedisseis, em vez de horrores, uma poesia banhada de luz celeste, +em que os mil reflexos de cima fossem as virtudes possiveis no mundo... + +Se lhe pedisseis, em vez da pagina sempre negra da sua vida, as +alvissimas alegrias de uma virgem, que, a fugir de um mundo, que se lhe +pinta ingrato á sua alma candida, se refugia aos pés de Maria, Rainha +das Virgens, a pedir-lhe o céo, como repouso inviolavel da innocencia... + +Se lhe pedisseis a doçura das lagrimas da pobre, que aconchega seus +filhos n'um envoltorio de andrajos, e ajoelha depois, entregando-os á +Providencia, para que, ao amanhecer, não sejam muito repetidos os seus +gritos de fome... + +Pedi. + +O poeta ha-de dizer-vos que a luz do céo é esse oceano de luz, que banha +a terra, quando as arvores florescem e as arvores saudam ao alvorecer um +sol esplendido. + +Ha-de falar-vos da virgem, arfando esperanças no seio immaculado, mas +esperanças todas d'aqui, todas embalsamadas pelo incensorio das paixões +terrenas. + +O pobre, esse que vale bem a pena de uma poesia, de uma pagina de +romance, é sempre a victima da má organisação social, e de uma mentirosa +economia politica. Vê'-lo-heis invectivar o rico, com toda a iracundia +de uma inoffensiva estrofe; mas o pobre que continua nas palhas da +miseria, esse não recebe uma consolação em nome do futuro, do céo, e das +promessas de Jesus Christo. É sempre o pobre recrutado para as fileiras +que guerreiam o rico. + +Eu pensei, uma vez, na vastidão de assumptos sobre que o sceptro do +talento extende o seu imperio. Chamando á reminiscencia o acervo de +leituras recreativas, que fiz, durante alguns annos, entrevi nos meus +tempos nebulosos o muito tempo consumido, os muitos volumes folheados, e +não poderei classificar-vos, em synopse de idéas, uma só que me +prestasse ao espirito, ou ao coração, ou á cabeça. + +Aprendi o desengano no romance, antes que a sociedade m'o desse. + +Libei na poesia do seculo a mentira, antes que o coração contaminado m'a +inspirasse. + +Aborreci-me de mim e das minhas leituras, como se o livro e a poesia +fossem um sarcasmo para quem nas más horas, lhe mendiga espairecimentos +para o espirito. + +Vislumbravam-me no escuro das minhas idéas religiosas uns clarôes +pallidos do que o romance e a poesia deveriam ser para adoçarem muitos +infortunios. Mas, que me pedissem a idéa formulada no livro! Faltava-me +a convicção das virtudes do balsamo para saber applica'-lo á ferida. + +Não tinha eu provado ainda as doçuras da religião para sentar-me com a +taça do Evangelho, á borda do caminho, e dizer ao peregrino cançado: + +Bebe!...................................... + +Dão-vos tedio estas minhas considerações? Não são vaidosas. Eu juro-vos +que me doeria muito se uma verdade, esboçada com amplos contornos, não +valesse mais que uma mentira, alinhada com o ouropel de um desusado +estylo. + +O que está dito é o prefacio do meu romance. Duas palavras resumem-n'o +laconicamente n'uma idéa conceituosa. + +Sei em que tempo escrevo, e comtudo, ouso nos estreitos limites de que +posso dispôr, ajustar em molde christão um genero, raras vezes assim +tratado, quer pela costumeira da forma, quer pelo estylo, quer pelas +leis da escola. + +Escrevo um romance, ou antes descanto em prosa uma virtude, porque não +desafinarei, em quanto possa, a lyra em que fiz soar algumas poesias, +unicas de que me não culpo, nem arrependo. As outras... + +Se eu pudesse avaliar a vossa opinião, consolava-me de não ser enganado +pela minha consciencia de christão e de artista. + +Porto--em 1853. + + + + +LAGRIMAS ABENÇOADAS + + + + +LIVRO I + + +I + +Disseram muitos dos que estavam em redor de uma creancinha, na pia do +baptismo, que na face d'ella havia uma luz mysteriosa, como a projecção +de um cirio invisivel, que, n'aquelle instante solemne, allumiasse, nas +mãos de um anjo, as cerimonias do sacramento augusto. Visão de boas +almas. + +Era uma menina de nove dias. + +Sua madrinha era Nossa Senhora da Conceição, fulgurante de mil lumes, no +seu docel de seda e prata, com as mãos cruzadas sobre o seio, com os +olhos extaticos no céo, como seguindo o trilho de estrellas por onde, +aos pés do Eterno, voejava o anjo da ANNUNCIAÇÃO. + +Seu padrinho era um duque, vestido de ouro, com as suas insignias de +general em chefe, com o seu thesouro de condecorações guerreiras a +cobrirem-lhe o peito, onde pulsava sangue de reis, que não valia mais, +por isso, em coração de homem. + +Seu pae era um coronel, fidalgo dos que primeiro o foram n'esta terra, +valente como o primeiro e o ultimo da sua linhagem, e honrado como +aquelle de seus avós, que morrera desterrado, em Tanger, por não +denunciar o que lhe fôra amigo desleal, embora traidor ao rei D. João +II. + +Era o coronel... que vos importa o nome?!... + +Sua mãe nascera dama de D. Maria I, crescera mimo de galanteria e +docilidade, emancipára-se donzella de todas as virtudes, casára-se, +mulher, exemplo das mais santas affeições de um marido, e fôra mãe como +póde se'-lo a mulher, depois que a Virgem Maria alimentou um filho, +depois que Jesus Christo rehabilitou a fascinada da serpente, depois que +a filha de Eva entrou no seu reconquistado Eden, a colher a flor da +dignidade, regada pelo sangue do filho de Maria. + + +II + +Este dia, jubilo de anjos, para os quaes os orvalhos do céo, fecundando +as aguas do baptismo, geram na terra um irmão; jubilo de seus paes, que, +depois de quatro filhos, tinham um novo penhor de innocencia para, em +seu nome, agradecer, com labios puros, as esmolas do céo; jubilo da +egreja catholica, que estremece de felicidade, quando entra em seu seio +um filho, que lhe gosta o leite da virtude, como sustento da +immortalidade: este dia amanheceu em 1827. + +Maria era o incentivo de tanta alegria. Nos braços de sua mãe, com o seu +olhar errante pelas faces desmaiadas d'ella, que parecia sorve'-la com +os seus beijos, como se aquelles fossem os ultimos; Maria, a afilhada da +Senhora da Conceição estava alli asseverando o que tantos diziam da luz +mysteriosa, que na pia do baptismo, lhe illuminava a face. + +A pureza dos anjos, não será como a santidade do predestinado!? E o +justo, na ultima hora da sua passagem na terra, quando o anjo da +serenidade lhe alveja o rosto com as suas azas transparentes, não será +como a creancinha immaculada, cuja alma vem brincar-lhe ao rosto com +toda a pureza e innocencia, que o halito creador lhe bafejou!? + +A mãe de Maria chorava e as suas lagrimas desconsolavam o pae, que as +não queria ver n'aquelle dia, n'aquella hora, tão faustosa, tão de gala +para os parentes, que se abraçavam em redor do leito. + +Mas fossem calar-lhe o presentimento no coração! Digam á flôr que não +penda amortecida sobre a haste, quando o sol se esconde! Digam ás +lagrimas, que estanquem nos olhos, quando o que chora não sabe d'onde +ellas nascem, nem o que contempla sabe a linguagem do espirito, para +consola'-lo em seus presentimentos sobrenaturaes! + +Porque é que aquella mãe não buscava o allivio no sorriso de seu marido? +Porque não olha ella para os seus? Que é tão consolador ahi como a +presença de um marido amado, quando a fraca mulher quer desafogo? + +Não bastam allivios do mundo para essas ancias. + +Deus! sim, para todas as afflicções, para todos os presagios, para todos +os temores, para todas as mães que vaticinam desventuras a suas filhas! + +Deus! E na sua imagem é que aquella mãe fitava os olhos. Depois, ao lado +de Christo, estava outra imagem: era Nossa Senhora da Conceição. Que lhe +dizia aquella pallida mulher, com sua filhinha nos braços? Ouviram-lhe +só as derradeiras palavras: + +«Minha Mae Santissima! entrego-vos a vossa afilhada!» + +Viram um sorriso nos labios de Maria. Seria um acto maquinal dos labios? +Porque é que os adultos não sorriem maquinalmente?... Lisongeiras +duvidas para o homem que pensa nos segredos do homem. + + +III + +Decorreram sete annos. + +Eu não devo aqui pintar um quadro de guerra. Seria salpicar de sangue a +tela onde me propuz traçar uma figura grandiosa, com o colorido suave da +religião. Abomino a historia, se é força lembra'-la a testemunhas +oculares. Ha ahi muitos escolhos que ludibriam os mais atilados pilotos. +Escandecencias politicas não se refrigeram com o orvalho do céo. Se do +pulpito o hyssope muitas vezes as exacerba, que fará d'aqui?! + +E tomára eu que estas linhas, pallido reflexo do que ha de +incommunicavel no meu coração, accendessem o amor de Deus, apagando a +flamma das inimizades humanas! Tomára eu lagrimas e dó, e paz e +esquecimento para os homens, que não devem aqui encher uma pagina de +odio n'um livro que aconselha a resignação. Durmam uns e outros o breve +somno, que vae do anoitecer da vida á alvorada do archanjo. +Ver-nos-hemos em volta do juiz, que, nos seus dias de réo entre a +humanidade pervertida, dissera: + +«Só a mim pertence julgar os bons e os maus!» + +Bemaventurados os que esperam. + + +IV + +1834! + +Foi um anno de muitas lagrimas. Debaixo d'este formoso céo esperdiçou-se +muito sangue. As espadas terçavam por duas causas, quando dois corações +do mesmo sangue, na vanguarda de dois exercitos irmãos, anciavam +aniquilarem-se. E, se, após o ruido das armas, se fazia o silencio +tetrico da morte, prorompiam depois os gritos das mães, das viuvas e dos +orphãos. Paiz, onde esta harmonia de angustias se levanta de milhares de +labios para o céo, prova-se no supremo infortunio, e symbolisa o +holocausto de uma vingança tremenda. + +Tremenda... como a de Gaza e Moab! + +«Que é dos teus edificios de marmore, cidade dos obeliscos!?» dizia o +propheta das lagrimas. + +Não vedes em Portugal os fustes das columnas dispersas na ruina dos +grandes edificios? + +Não vedes!--Pois que tem esta terra de commum com Moab e Gaza? + +Que tem?! + +O enviado de Deus responderia: + +«Que é dos teus edificios de virtude, terra da honra e da probidade?» + +«Que importam os coruchéos de vossos palacios, Balthazares do tempo, se +lá não está a cruz veladora das felicidades da vida?!» + + * * * * * + +Mãe de Maria, porque choravas tu? + +As tuas lagrimas já não eram um mysterio; + + * * * * * + + +V + +Uma vez, a esposa do coronel, com sua filhinha de sete annos, ajoelhava +diante da imagem da Senhora da Conceição e murmurava esta prece: + +«Virgem Maria, nunca a vossos pés caíram mais afflictas lagrimas! +Attendei-me, Senhora, que eu sou uma fraca mulher, mãe de cinco filhos, +esposa de um homem, que é o amparo d'esta pobre familia, que vos +ajoelha! Vêde, ó Mãe dos afflictos, que o tumulo de meu marido é o +tumulo d'estes orphãos, e o d'esta mãe desvalida, que não tem um palmo +de terra onde possa regar com suas lagrimas um fructo, que mate a fome +de seus filhos. Protegei-o, ó Senhora, n'esta guerra desastrosa, em que +a cada instante cáe um pae de familia, tão desgraçada como a minha! Eu +não vos peço as honras, e a subsistencia que meu marido ganhára no +serviço da sua patria: o que eu vos peço é muito mais... é a vida de meu +marido, mas só a vida, sem a gloria de vencedor, sem o premio do seu +sangue derramado, sem mais outra riqueza que a do coração que elle tem, +e a resignação com que vós, consoladora do infortunio, e eu, esposa +extremosa, lhe adoçaremos a desgraça! Os labios da vossa afilhada não +murmuram a oração de sua mãe, mas o seu coração é aquelle que vós lhe +déstes ha sete annos! Eu vos supplico em nome d'ella. Fazei que estes +olhos não sintam tão cedo o travo das lagrimas, que chora sua mãe! +Piedade para todos nós!... amparo para meu marido... compaixão para +todas as mães atribuladas, que, n'este momento, vos pedem, como eu, a +vida de seus maridos...» + +E era esta a oração que os suspiros não poderam cortar. Assim simples e +angustiada, confirmava a verdade de uma grande dor que não escolhe +palavras, nem se atavia das pompas do estylo. Quem orou n'um d'estes +lances, sublimes no tormento, pela explosão da agonia com que se +refugiam no céo, compreenderá o cunho pungente, marcando a mais +insignificante d'essas palavras, que proferiam os labios febris da +mulher consternada entre seus filhos. + +E, depois, a mãe de Maria foi deitar sua filha, e, acalentando-a, +estremecia ás vezes, como se os accessos de uma convulsão a não +deixassem aquietar-se ao lado do seu anjo. É que a cada trom remoto da +artilharia, nas linhas de Lisboa, aquella afflicta esposa de um homem de +guerra sentia o véo da viuvez descer-lhe na face, e o luto da orphandade +envolver aquellas cinco existencias, para nunca mais se mostrarem no +mundo com direito a serem amadas por alguem. E os outros quatro meninos +aconchegavam-se no regaço d'ella; fitavam-n'a, como os passageiros de um +barco em perigo fitam o semblante do homem a quem se confiaram; e, no +choro, modelado pelos gemidos de sua mãe, compunham uma consonancia de +vagidos, e brados, e soluços. Quando assim se soffre, a indifferença do +Eterno seria um cruel desengano para os infelizes, que se acolhem ao +abrigo das suas misericordias... Não haveria Deus: a justiça divina +seria uma astucia humana. + +A oração é um respiradouro de espirito, quando a mão da desventura o +comprime até lhe abafar a derradeira esperança na terra. A oração não +tem nada com este mundo. Pedir a justiça do céo para as injustiças da +terra e renunciar a toda a vingança, é pedir a felicidade de nossos +inimigos, porque Deus é misericordioso, e não precisa de fulminar o +poderoso para vingar o fraco. Orar é caír de joelhos, e muitas vezes não +articular dois sons de uma supplica: é não atinar com a linguagem de +falar a Deus, porque a sciencia do mal, exclusiva do homem, só inspira +ao desgraçado expressões para que os homens o compreendam. Aquella mãe +afflicta, quando orou, orava assim. Seu marido com o peito na frente de +regimento era o alvo das balas inimigas. Na sua frente um outro coronel, +escravo das suas convicções, da sua honra talvez, e pae de familia +tambem, ouvia o zumbir da metralha, como halito da morte a afflar-lhe os +cabellos. Mas a mãe de Maria pedia por ambos; e, quando a oração assim é +feita, o espirito de Deus está nos labios do que ora. + +Enxuga as tuas lagrimas, sorve as de teus filhos com teus beijos, mãe e +esposa, que o pae d'essas creanças, o homem, que traz no coração os +alentos de que te sustentas no mundo, não ha de a bala ou a espada +cortar-lhe os vinculos a que prendeste a tua melindrosa existencia. + +Não ha de, que teu marido entrou na guerra de irmãos com o coração +enlutado, como em arena fratricida, e, ao ouvir o som rispido da +trombeta que mandava morrer matando, muitas vezes eleva ao Senhor o +espirito atribulado, supplicando-lhe a reconciliação dos portuguezes. + +Não ha de, que, nas vesperas angustiosas de uma peleja, teu piedoso +marido, refugiando-se dos cabos de guerra que tripudiam e blasphemam +farejando o sangue da carnagem do dia seguinte, ergue as mãos ao Senhor, +supplicando-lhe que acceite no regaço da sua misericordia, uma viuva +desvalida, filhinhos desamparados, aos quaes a mão do vencedor não +extenderá mão esmoler, seja qual fôr o triumphante. + +Não ha de, atribulada mãe e esposa, porque as paixões clamorosas dos +impios não ensurdecem o céo aos rogos de um justo, que lava com lagrimas +cada gota de sangue de irmãos que lhe salpica a farda. + +Expande o teu coração opprimido no seio de Deus, dolorida mãe. + +Deixa rugir lá fóra o phrenesi dos odios civis, e acolhe-te, mulher +cortada de agonias, acolhe-te ao refugio da religião, respira ahi em +lagrimas a oppressão que os meigos carinhos de teus filhos não podem +consolar-te. + +Ao mesmo tempo que oras no meio d'elles, o coração de teu esposo comtigo +se ala para a região serena da paz e bemaventurança eterna. Sois duas +almas puras que se encontraram na terra, juntas ascendem a Deus na +oração, juntas hão de compartir as amarguras da pobreza, juntas hão de +receber a corôa triumphal no dia marcado á recompensa dos que choram na +terra. + +Assim lhe segredava o anjo da resignação alentos que a faziam confiar no +regresso de seu marido. Rodeada de seus filhos, a esposa do coronel, +fantasiava com Maria as venturas, que, ainda na pobreza, podem deliciar +corações enriquecidos pelos dons da amizade. Maria, tão joven e +innocentinha, compreendia as alegrias de sua mãe, e respondia a ellas +festejando a volta de seu pae, como se elle viesse já caminhando a +indemnisar-se dos trabalhos no goso da paz, no amor santo da familia, +nas donosas alegrias de uma obscuridade feliz. + +Mas estas esperanças eram a cada hora desvanecidas pelas más novas que +vinham do campo da batalha. O sobresalto da pobre mãe era constantemente +despertado aos trons da artilharia que jogava nas linhas de Lisboa. + + +VI + +O coronel... (já não era coronel) o homem da honra e da coragem +amanheceu um dia á porta de sua mulher. Trazia nas faces aquella magreza +livida que o sopro das batalhas, e o enervamento da fome estampam no +rosto do vencedor, e do vencido. Vencido era elle. Não trazia espada, +que a pureza, não aos pés do vencedor, mas sobre a acta de uma +capitulação, deixára ao bravo a consciencia da sua intrepidez. Nem uma +lagrima lhe escapou involuntaria dos olhos, quando, exauctorado e +desvalido, se collocou entre os derradeiros thesouros que lhe restavam: +sua esposa, e seus cinco filhos. Esses, sim, eram d'elle, eram de seu +coração como a virtude, emanação de Deus, é quasi sempre o unico +patrimonio do virtuoso. + +E é por isso que não houveram lagrimas, que assombrassem n'aquelles +labios o jubilo do sorriso. É por isso que paes e filhos caíram de +joelhos; e, no silencio de seus corações, Deus sabe a acção de graças, +que lhe subira aos pés de seu throno n'aquellas extaticas elevações de +alegria reconhecida. + +Ao levantarem-se, abraçaram-se, uma e muitas vezes; e quando as palavras +venceram a suffocação da surpresa, uma só voz, a de todos, exclamou: + +«Somos muito felizes! Bemdito seja Deus!» + + +VII + +Caír de elevada jerarchia, quando os braços da religião não amparam o +infeliz na queda, deve ser morrer! + +Altearmo'-nos a despeito de muitos, que não podem voejar tanto acima, é +provocar-lhes a inveja. Olha'-los em baixo, quando nos cospem o fel da +inveja, deve ser-lhes o maior dos castigos; mas, se d'ahi a mão de Deus +nos atira ao raso dos invejosos, se a desgraça nos marca, no meio +d'elles, um circulo onde rodar com o peso de affrontas, que a nossa +arrogancia enfardára... tal vida é a preexistencia do inferno. + +Ha tres remedios para alliviar angustias de tal lance: + +A resignação; + +O cynismo; + +O suicidio. + +A resignação não é só o amparo d'aquelle que resvala no precipicio das +honras d'este mundo; é mais: a resignação não deixa caír o homem, que +olha sempre, com temor, o despenhadeiro, em que de ao pé de si se +abysmaram colossos, e ruiram edificios fundados sobre areia. Levantado +pela Providencia, o homem, que teme a Deus, não se julga, no vertice das +glorias, posto ahi pela mão do destino. Quem lhe promette o dia de +ámanhã, vinculado aos acontecimentos de hoje? Quem lhe diz hoje que a +taça do seu mel ha de ámanhã trasbordar de lagrimas? Quem affiança á +aguia, dominadora dos espaços, que, de mais alto, o açor se libra para +abate'-la nas urzes? + +E, quando a nuvem do infortunio escurece aquellas alegrias, que formavam +o cortejo da nossa riqueza:--quando a sociedade nos retira os +contentamentos, vendidos pelo ouro, que perdemos... quem é esse destino +que accusamos? onde existe essa mentirosa fatalidade que nos humilhou? +onde encontraremos o primeiro acaso, que nos felicitára, e o segundo que +nos empobrecera? Não ha lagrimas que suavisem as ferocidades da _nossa +sina_, nem ameaças que a forcem a desmentir-se? Será obrigatorio o +punhal ou o veneno, porque _estava escripto o meu suicidio_!?... + +A providencia é a acção da Divindade. + +O grande da terra julgára-se grande na terra pela providencia. Era um +magestoso edificio aos olhos da humanidade, e fragil barro entre as mãos +de Deus. Quando o sopro da desventura lhe assolou as columnas, o grande, +só, e proscripto das ovações, _em que elle fôra o menos laureado_, era +ainda o grande na desgraça, na esperança, na humildade, na renuncia, e +na confiança. + +Esperava... o tumulo, e antes d'elle um saldo de contas com o mundo, +onde o rico deixa debitos enormes a solver. + +Humilhava-se diante Deus, que o abatera, não como um cego destino, mas +como um decreto, sanccionado no céo, cumprido na terra, e explicado no +dia das tremendas explicações dos mysterios, incompreensiveis aqui. +Humilhava-se diante dos homens que nunca humilhára; diante d'aquelles, +que puderam abandona'-lo, mas não escarnece'-lo pelo seu passado +orgulho. + +Renunciára quantas prerogativas o seu ouro lhe dera na sociedade; +quantas pompas lhe caíam ao encontro na sua estrada de flôres; quantas +esperanças idealisára, que mais o engrandecessem, na perspectiva do +mundo, sem adulterar as mercês do Creador. + +Confiava na humildade da oração, no pão de cada dia, no repouso +providencial de cada noite, porque no mundo nenhuma existencia vira +abandonada, nem a da ave que se levanta com a aurora, e louva ao +Creador, e vae procurar o alimento, que não deixou de vespera. + + +VIII + +Não é assim o cynico. + +Herdára um thesouro que seus paes lhe prepararam; e preparára elle em +seu coração todos os elementos para augmenta'-lo. + +Que o ouro augmenta, quando é lançado no cadinho da perversidade. E o +coração, ferido de avareza, é um segundo thesouro para quem herdou o +primeiro. O mais efficaz instrumento da caridade, o ouro, nas mãos do +avaro, converte-se em ferro de dois gumes: um que lhe entra no proprio +coração, outro no coração que lhe pede o obulo. + +É assim o cynico. + +Em cada degrau da sua escala de grandeza espirrava o sangue das faces +que calcava. Entre elle, e um circulo de victimas, que o rodearam, +fascinadas pelo brilho da sua auréola, erguia-se o anteparo da +irreligião. + +Quem lhe déra o sorriso feroz fôra a impiedade. + +Quem lhe alimentara as ancias de cevar-se em gosos, adubados em lagrimas +e sangue, fôra a impiedade. + +Quem lhe segredára os derradeiros segredos do crime, para que o enojo de +crimes repetidos lhe não esfriasse o amor sordido da vida, fôra a +impiedade. + +Quem lhe disséra que no tumulo para dentro não ha pobres para repellir, +nem corôas de virgem para desfolhar, nem faces lagrimosas para cuspir, +nem amigos para vender a inimigos, fôra a impiedade. + + +IX + +E, depois, a mão de Deus despenhou o cynico. + +No tremedal, onde caíra, roeram-n'o os vermes dos cadaveres que elle +fizera. + +E riu-se. + +Cobriram-n'o os improperios, e os sarcasmos de tantos, que elle +enxovalhára, sacudindo-lhes ás faces a lama das ruas com as rodas do seu +carro insultuoso. + +E riu-se. + +Teve que aceitar uma esmola, que, por escarneo lhe lançou ao chapéo um +d'aquelles que lh'a pedira, em vão, anceado de fome. + +E riu-se. + +Bateu á porta de seus creados, que medravam nas prodigalidades do amo: +pediu um bocado de pão, e responderam-lhe de dentro com uma gargalhada. + +E riu-se. + +Este é o cynico. + +E quando lhe aconselharam o suicidio, riu-se, e riu até morrer porque a +morte de cynico é uma risada na blasphemia. + + +X + +Lamentae o suicida, porque a sua ultima hora foi uma lucta horrivel +entre a desesperação, a incerteza, e, talvez a saudade. + +Ao ver-se pobre no mundo, considerou-se o homem sem vida social; mas a +vida physica, onde as frechas do desprezo lhe rasgavam até o coração, +era-lhe uma algema insoffrivel a maneata'-lo ao poste da vergonha. + +Feliz pelo destino, ou desgraçado pela fatalidade, o Lucifer, despenhado +d'este céo da terra, que a impiedade lhe deu, optou pelo tumulo entre +duas idéas: pobreza e impotencia. + +Impotente para vencer a sociedade que lhe não restituia o seu ouro, o +desesperado, aborrecendo a morte tanto como a vida, crava-se um punhal, +que nem elle sabe se o vinga dos homens, se o deita no tumulo, se o +sacrifica á justiça de Deus. + +O atheu pensára longas horas antes de erguer-se o patibulo; mas, nos +seus ultimos instantes, não era philosopho: era um algoz. + +A desesperação enervára-lhe o entendimento, e robustecera-lhe o braço. + +O cutello, no braço do algoz, não tem nada com o espirito. Um e outro +são machinas de morte. + + +XI + +E o coronel ***, e sua esposa, e seus filhinhos eram christãos. E oravam +na desgraça, e sorriam no infortunio, e esperavam. + +Esperança, filha dos céos! eterno cantico dos anjos!... bemdita sejas +tu. + + +XII + +E, quantas vezes, acarinhados pelas brandas lisonjas de uma esperança, +nos possuimos d'aquelle inoffensivo orgulho de felicidade, e tão perto +nos persuadimos que ella vem com toda a formosura real de um bello +sonho? E quando assim nos apressamos ao encontro d'essa linda chimera, +gerada nas entranhas do infortunio, não será tão triste deparar-se-nos +uma nova desgraça? + +Muito triste. É uma luz que se apaga. Um horisonte que se fecha. Uma +colheita de lagrimas na seara das esperanças. + +E o sorrir da resignação, e o levantar das mãos em fervente amor de +Deus, é a mais grandiosa attitude na desgraça. O infeliz é então um rei +no throno das angustias. O manto de retalhos tem a magestade da purpura. +Ignacio, o mendigo de Monserrate, é maior que o gentil-homem de Loyola. + + +XIII + +O coronel soffria muito; porque, a par do grupo querido de esposa e +filhos, nunca de seus olhos se afastava o aspecto da penuria. + +Á escuridade da indigencia não chega a luz do amor: deixar falar os +poetas. + +Ha sentimentos de miseria que os sentimentos da gloria não podem +eclipsar. A felicidade tem exaltações intermittentes de jubilo. Mas a +desgraça pensa sempre, fala sempre; vela á cabeceira do infeliz; +desperta-o com o aguilhão de um sonho mau; desmente-lhe as illusões; +ri-lhe a cada esperança; embrutece-o; retráe-lhe as expansões do +espirito. + +Onde a desgraça emmudece com a consciencia do penitente, que se levanta +dos pés do ministro dos perdões, é na presença da cruz. + +O coronel orava um dia com sua familia. Maria balbuciava as mesmas +palavras do pae, e parecia, com os olhos fixos n'elle, tomar-lh'as dos +labios como um beijo e um segredo de muita felicidade na muita +desventura. + +A sua oração era a dadiva do Christo: era aquella, que pendera dos +labios divinos do Mestre como orvalho para todos os ardores, como +balsamo para todas as chagas, como herança de amor para todas as +gerações de ingratos. + +Era esta a sua oração: + + +«Padre nosso, que estaes no céo, sanctificado seja o vosso nome; venha a +nós o vosso reino; seja feita a vossa vontade...» + + +XIV + +Alguem procurava o coronel. Amigo ou inimigo? O homem da honra nunca se +nega. O que fôra christão antes de politico, e pedira a Deus a paz de +seus irmãos, antes de mostrar-lhes, ao sol das batalhas, o lampejo de +uma espada escrava da obrigação, esse poude ser exauctorado de titulos +ás grandezas, de direito ao trabalho, de pão, e de liberdade, mas o +opprobrio não o desanima, nem o envergonha. + +A valentia moral não tem capitolios na sociedade immorigerada; mas +tem-os na consciencia do proprio que a experimenta. Um homem assim, +decaído do que fôra, apresenta-se altivo de certa soberania que parece +um triumpho, ultraje dos oppressores. + +O coronel, se tivesse a receber as felicitações _vendidas_ á sua patente +de general, talvez não consentisse que tão depressa fosse aberta a sua +porta. + +Abriram-n'a. + +O homem que entrára, sem dar o nome, era uma figura que, sem articular +palavra, impunha silencio aos que o recebiam. Trajava pobremente. + +Quem buscasse um modelo para a estatua da imagem do infortunio, +acha'-la-ia n'aquelle homem. + +E, sorrindo, offerecia a mão ao coronel, que viera, chamado por sua +esposa, a contempla'-lo rodeado dos filhos, que pareciam perguntar-lhe +quem era o extranho hospede. + +Aquelle silencio, precursor de lagrimas, não podia conter muitos minutos +corações anciosos. + +--«Quem é o senhor?» perguntou o coronel. + +--Quem sou eu?! respondeu o desconhecido.--Trinta annos de clausura, e +alguns mezes de trabalhos desfiguram a face de um irmão!... + +O coronel correra aos braços do hospede. Maria, organisação melindrosa, +que presentia já os calefrios de um enthusiasmo juvenil, estremecia +d'aquelle tremor nervoso, em que as lagrimas da alegria denunciam alma +vehemente, apaixonada por tudo que é grandioso. Sua mãe tomava a mão de +seu cunhado entre as suas, que pareciam erguidas em graças ao Altissimo. +As outras creanças volteavam alegres em redor do grupo, e figuravam +outros tantos anjos a solennisarem aquella festa na tristeza, e aquelle +jubiloso alvoroço do sangue, quando o espirito se confrangia na dôr. + + +XV + +Fr. Antonio dos Anjos fôra um oraculo de sciencia, e um exemplo de +santidade no seu mosteiro. Filho de paes opulentos, de virtudes, herança +de avós corajosos de braço e espirito, o seu patrimonio de resignação +não pudera a politica espoliadora apregoa'-lo na praça. Affeito a +encaminhar, com mão segura, pelas margens do abysmo, os que a dôr +extraviára, o monge amparava-se na altura da dignidade de martyr. No +centro d'aquella familia, quem mais paz e alegria soboreava no coração +era elle. Elle, sim, que trinta annos havia, despira as galas do mundo, +e envergára o habito que desfigura as fórmas do corpo, e as feições da +alma. Elle, sim, que trinta annos vivera pobre d'aquelle ouro que +afervora a adoração das multidões; e, então expulso da sua enxerga, e do +seu refeitorio, não geme a falta de um ouro, que nunca possuira. + + +XVI + +--«Quereis a historia dos meus trabalhos, não é verdade?» perguntava o +monge, com sua sobrinha Maria sentada nos joelhos, e com dois dos outros +abraçados. + +--«Sim, sim, queremos» respondeu Maria com extranha vivacidade. + +--«Não--replicou o coronel--não recordes penas que te não alliviam o +receio de outras maiores...» + +--«Não é assim...--tornou Frei Antonio--As afflicções, que se recordam +com serenidade, parecem zombar das afflicções por vir...» + +--«Conte, conte... meu tio» instou Maria com muita doçura, dando á voz a +terna inflexão de uma supplica. + +E frei Antonio, alegre como se contára apraziveis lances da fortuna, +contou assim o transito doloroso dos ultimos mezes da sua vida: + +«Viver trinta annos, vendo todos os dias o leito onde se espera morrer, +e a sepultura onde o repouso do corpo continuará, foi a minha vida do +mosteiro. Ao lado d'esse leito, e d'essa sepultura, vigia quasi sempre o +espirito, porque na terra nem ao justo é permittida completa +tranquillidade. Vigiar, é entregar ao espirito a guarda do coração; é +pôr os olhos em Deus, alonga'-los ao mundo da esperança, enxugar-lhes o +pranto por homens, que o desprezam e o desprezam porque o não +comprehendem. A vigilia de um monge, tem, ás vezes, dôres, que ninguem +póde imagina'-las, sem sentir-se abrasado do santo interesse da +humanidade, que se espedaça. + +«Não me viste saír da casa do nosso pae, meu irmão!... Eras creancinha, +e do colo de nossa mãe me deste um beijo, que me fez chorar, porque era +o ultimo, que me davas com labios de innocencia. Nunca mais te vi; mas +essas lagrimas, que te vejo agora, são as do meu irmão... é impossivel +que o não sejam. Sabias tu que eu existia?» + +--«Sabia, mas ha doze annos que não tive novas tuas» respondeu o +coronel. + +--«Ha doze annos... é verdade... Ha doze annos que frei Antonio dos +Anjos descera a um tumulo... O espirito vivia... mas o espirito do +penitente, vinculado pela expiação á imagem do seu crime, quebra os +vinculos do sangue, se os tem no mundo. + +A voz do padre balbuciava estas ultimas palavras, cortadas de pausas, +que traíam a sua serenidade contrafeita. + +Seguiram-se o silencio, e a anciedade. + +Frei Antonio, á custa de um grande sacrificio, e de uma penosa +recordação, explicou a seu irmão o extranho silencio de doze annos. + +Doze annos tinham sido o prazo em que as noites eram veladas pelo +remorso do homem, que tentára uma vez quebrar a alliança que fizera com +a renuncia de todos os gosos terrenos. Doze annos de purificação para +quem se manchara, um minuto, na rebeldia aos estatutos da sua ordem, +fôra um grande prazo, uma longa expiação, um zelo suicida, talvez! + +É que os homens não o comprehendem. Doze annos de crimes, e um momento +de remorso... isso sim, que, se não em todos os criminosos, em alguns +pelo menos, é verosimil e explicavel. + +Esses prodigios explica-os facilmente a philosophia materialista: não é +o remorso, nem os gemidos do bem torturado pelo mal, nem o temor de +Deus: é a organisação com seus mysterios. Mysterios na escola da +materia, onde a natureza, positiva e carnal, é tudo! Como é que da seiva +do erro se nutrem viçosas as vergonteas da verdade? As luzes faiscam do +seio das trevas. Ha máximas preciosas que brilham ao clarão dos +incendios philosophicos. + + +XVII + +Frei Antonio continuou: + +«Entro pobre em tua casa, meu irmão; porém a desgraça é uma riqueza, +quando com ella suavisamos desgraças alheias. Contando-te as minhas +amarguras não adoçarei as tuas? + +--«Deus--respondeu o coronel--suavisou-m'as antes de ti, meu irmão.» + +--Bemdito seja Deus!--tornou o padre--era essa a resposta que eu pediria +a Deus que te inspirasse!... pois bem... seja a minha historia um +passatempo... Peregrinareis comigo n'estes infernos da terra que os +homens crearam. Aqui me tendes com a tunica, e com esparto de Dante... +Serei para vós o que foi o poeta para a humanidade... recrear-vos-hei...» + +O frade afastára as bandas do capote, e deixára vêr o habito de S. +Francisco. A magestade da sua postura excitára um calefrio respeitoso em +todos, e elle mesmo, tocado pela consciencia do effeito religioso +d'aquelle acto, não susteve a lagrima do enthusiasmo, que é sempre +revelação de espiritos ardentes. Maria, alma tão cedo estreada na poesia +da dôr, cedo principiára a enlevar-se n'aquelles transportes, que a +tragedia excita em pessoas que vêem o theatro pelos olhos da innocencia, +e não podem desmentir o que vêem pelos calculos frios da razão. Maria, +pois, impressionára-se mais que seu pae e sua mãe da attitude pathetica +de seu tio. Mais tarde confessou ella que sentira dobrarem-se-lhe os +joelhos, e de certo ajoelhára, se frei Antonio lhe não tomasse as +mãosinhas que pareciam ajustarem-se em adoração extatica. + +Esta scena fôra muda. O silencio é o desafogo das grandes emoções, que +nos abafam o espirito, enturvando-nos a razão. Parece que a consciencia +precisa digerir esses alimentos extraordinarios, que são a vida energica +das almas flexiveis. + + +XVIII + +Proseguiu o frade: + +«Quando, ha quatro mezes, os religiosos de *** viram approximar-se a +hora de entregar as suas cellas á revolução, ajuntaram-se para +deliberarem sobre a sua vida, como homens que d'ahi a pouco não tinham +posição alguma no mundo, que lhes valesse um bocado de pão. Alguns eram +de casas remediadas, outros irmãos de fidalgos, sacrificados ao partido +que lhes assegurava os seus privilegios; mas nenhum contava com asilo +seguro no tecto paternal, porque o temor da perseguição fazia-nos pensar +que eramos homens expulsos da familia, e da sociedade. Entregámo-nos a +Deus. E, depois, no meio de nós estavam uns homens cobertos com o nosso +habito, vivendo comnosco ha muitos annos, ajoelhando comnosco ao mesmo +crucifixo, e comendo comnosco no mesmo refeitorio. Eram os nossos +maiores inimigos. Velavam-nos desde matinas a completas; desde a oração +commum do côro até ao ultimo padre nosso rezado no isolamento da cella. +Eram como os pretorianos de Nero syndicando os actos religiosos dos +agapes de Christo. Chamavam-se liberaes, illustrados e amigos dos +homens. De Deus sabia eu que elles o não eram. Dos homens, cruel amizade +era a sua, que precisava enfeitar o seu altar com o sangue dos seus +companheiros! + +«Nos ultimos mezes da nossa communidade... deixae-me dizer-vos uma +prophecia amarga: nos ultimos mezes das ordens religiosas em Portugal, +apresentaram-se aquelles padres ao prelado, e pediram a sua liberdade. +Prevenindo alguma ligeira censura, em nome da regra do patriarcha, +lembraram ao guardião que o punhal era a arma do homem livre, quando os +algozes da humanidade não accediam aos augustos preceitos da razão +natural. + +«O prelado era um justo, que chegára aos oitenta annos, com os cilicios +nos rins, vergando sob o peso de austeridade, alliviando quanto podia +esse gravame dos hombros menos rijos dos seus subordinados. A morte, +porém, era-lhe menos afflictiva que o pesar de uma tibieza de +disciplina. A sua resposta foi simples: + +«Deixemos vir a mão da liberdade bater á porta do mosteiro e seremos +todos livres então. Uns, livres para morrer no desamparo. Outros, livres +para viver de vergonha. Todos seremos livres. Em quanto a vós, meus +irmãos, pedirei aos servos de Deus n'esta casa que peçam ao Senhor para +vós as consolações e a prudencia que não posso dar-vos. Retirae-vos, que +sou chamado ao côro.» + +«Retiraram-se; mas, dois dias depois, ao amanhecer, foi aberta por +violencia a portaria. Alguns homens d'alli sahiram vestidos, e armados +como guerrilheiros. O padre porteiro, que subira á cella do prelado a +annunciar-lhe o acontecimento, encontrou um cadaver. Ao passar-lhe a mão +pela face topou um crucifixo inclinado sobre o seio. Ao agita'-lo, +humedeceu as mãos no sangue que borrifára os lençoes. Gritou. Acudiram +os monges. Em volta do seu leito ajoelharam homens que choravam. Não +tinham outra supplica, nem balbuciavam uma palavra. Um justo estava ali +morto: mataram-n'o seus irmãos, em nome de uma liberdade, que não +consentiu ao venerando ancião a liberdade de viver mais alguns dias. + +--Era preciso matarem-no para fugirem?--perguntou Maria com os olhos +turvos de lagrimas. + +--Não seria preciso, minha filha, mas as chaves do mosteiro são +entregues ao prelado: mataram-n'o, tirando-lh'as. + +--Mas o crucifixo,--replicou ella quem lh'o poria sobre a face? + +--Foi o moribundo a quem os assassinos deixaram tempo de pedir a Deus o +perdão dos seus matadores. + +--Que acontecimento tão triste, minha mãe!--exclamou assombrada a +menina, tomando entre as suas as mãos de sua mãe. E continuou: Eu não +pensei que os homens podiam fazer isso!... Quem me déra o céo para meus +paes e meus irmãos! + +--E para o tio padre, não, meu anjinho? + +--Meu tio tem certo o céo, porque tem soffrido muito, não é verdade? + +--Muito, minha menina; mas não é já bastante o que tenho soffrido? + +--Penso que sim... Eu não sei ainda a sua vida, mas lembra-me que meu +tio póde fazer que os homens sejam bons, dizendo-lhes historias que os +façam ter dó dos que soffrem. + +Olharam-se todos com admiração. É que Maria contava sete annos de edade; +e alguns mezes de soffrimento. Predestinação!?... + + +XIX + +«Ao anoitecer de um dia passado em orações e suffragios por alma do +nosso chorado prelado--continuou frei Antonio--ouviram-se tiros ao longe +do mosteiro. Eramos quarenta e tantos os monges assombrados pelo terror +não sei se da morte, se das injustiças da humanidade a quem não +offenderamos. A egreja, escura e silenciosa, afigurava-se-me um grande +tumulo, e um doce repouso. Ajoelhei. Ajoelharam todos. E lembra-me com +emoção o fervor d'aquellas preces murmuradas como a derradeira supplica +do que vae apparecer na presença de Deus. Os tiros avisinhavam-se, e o +alarido, ao principio confuso, era já perto um grito distincto: _morram +os frades! abaixo os ladrões!_ + +«Eram 23 de Outubro de 1833. Que noite aquella, santo Deus!... + +«As balas ouviamo'-las zumbir, e bater na parede da egreja, e nas +vidraças do zimborio. Todos os servos empregados na casa vieram +ajuntar-se ás nossas orações, acobertando-se com a protecção dos +ministros de Deus, como debeis mulheres, em semelhante lance, buscando o +invalido apoio de seus maridos. Nós não podiamos nada, quando á +debilidade de nossas forças moraes ajuntavamos a resignação, o abandono +de nossas vidas aos decretos da Providencia. Os paroxismos tinham sido +longos e trabalhosos. Uma hora de preparação para receber a morte, que +sentiamos avisinhar-se com a vozeria, e com os tiros, devera +quebrantar-nos o espirito, aniquilando-nos lentamente a esperança.» + +--E não tinham esperança nenhuma? Deus não podia salva'-los ainda? +perguntou Maria. + +--Nós, minha filha, não pediamos a Deus a vida: pediamos-lhe a salvação, +a vida da alma. A morte não nos atormentava: poderia a natureza +estremecer em nós com o terror do ferro, que no'-la daria; mas o Eterno +manda que o espirito proteja as fraquezas da materia. É muito grande a +providencia do Altissimo! Quando a morte se nos apresenta como um +decreto irresistivel, sentimo-nos tanto mais longe da terra, tanto mais +perto da eternidade, quanto a esperança da vida nos foge, e o frio da +morte se chega. O que seria a morte do impio, apegada á vida, se não +fosse esta resignação providencial, este esquecimento proprio, este +mortal entorpecimento do corpo, antes que o espirito se deprenda das +algemas, que parecem aperta'-lo mais na hora final?... Maria, tu +entendeste-me? + +--Penso que sim, meu tio. Deus quiz que a morte lhe parecesse um bem, em +comparação do mal que estava soffrendo: não é assim? + +--Sim, meu anjo. Deixa-me beijar-te que és uma boa parte da indemnisação +que a misericordia divina me dá pelos meus padecimentos. + + +XX + +«O mosteiro estava cercado de povo, attraído alli por um homem, que, +depois de conspurcar uma patente no exercito realista, e avexar com +despotismos os constitucionaes, viera buscar refugio entre nós.--Algumas +balas bateram contra a porta principal da egreja mas não puderam +vara'-la. Outras vinham, através das frestas, encravar-se nos altares. +Uma, batendo na lampada do SS. Sacramento, apagou-a, espargindo os +estilhaços de vidro sobre nossas cabeças. Não se ouvia uma exclamação de +dentro, nem um ai afflictivo dos que alli rezavam ajoelhados, quando um +de entre nós proferiu em voz alta o acto de contricção. Então, sim, as +lagrimas rebentaram de todos os olhos: o espirito resurgiu da prostração +em que caíra, e as vozes harmonisaram n'um murmurio profundo, arrebatado +e magestoso como um _de profundis_. + +«Os gritos de fóra eram ameaças de morte, sem excepção de pessoa, senão +abrissem a portaria. Nenhum de nós abandonou a sua humilde postura de +martyr. Sentimos que se arvoravam escadas ás janellas lateraes do +templo: ouvimos um machado, cem machados lascando as portas. O echo das +pancadas reboando pelas naves tinha em si um não sei que de terrivel, +que fazia arripiar os cabellos e gelar o coração! + +«Rasgada uma fenda na porta, entraram alguns poucos que franquearam as +portas á chusma de povo. + +«Era noite alta. Não se via ahi um homem grave sobre quem pesasse a +responsabilidade d'esta sacrilega violencia. O relogio do mosteiro dera +onze horas, e nunca tão melancholico me pareceu o som d'aquelle bronze, +que, havia quinhentos annos, chamava as turbas á oração, e n'aquelle +instante, assignalava a hora da carnificina dos ministros de Jesus +Christo. O tropel d'aquella gente denunciava uma multidão grande. +Sentimo'-los approximarem-se amotinados, gritando, uivando, rugindo, +como tigres que partiram as grades da jaula, como possessos que deliram +na sede febril de sangue. E, topando-nos de joelhos, virados para Deus, +e quietos como phantasmas immoveis, pararam. Reinou um silencio de +minutos. O anjo bom d'aquelles homens calou-lhes por momentos o grito +sanguinario. O pensamento do bem, a idéa de Deus passou-lhes pelo +coração instantanea e fugitiva como a restia do sol por entre as nuvens +torvas da tempestade. Os instrumentos do mal não podiam renunciar a sua +missão. Cada um de nós sentiu a mão de um inimigo arranca'-lo com +violencia á sua immobilidade. Um grito deu alento a todos os gritos. +_Morram!_ era o mais distincto, era o bramido sinistramente harmonioso +de muitas vozes. Senti algumas cronhadas d'arma acurvarem-me a cabeça +para as lageas do altar, salpicado do sangue que me resaltára do nariz e +da boca. Dos meus companheiros ouvi alguns gritos que me pareceram de +estertor; e senti que alguns vinham arrastados. + +«Não pude presencear as agonias de meus irmãos mixturadas com as minhas. +Uma bayonetada, varando-me uma perna, fez-me perder os sentidos, e cahir +com a cabeça no degrau do altar de Nossa Senhora, onde despertei +depois.» + + +XXI + +--No altar de Nossa Senhora... no altar de minha madrinha!... exclamou +Maria, com a face coberta de lagrimas.--E, depois, meu tio--continuou +ella--que lhe succedeu, quando tornou a si? Não lhe fizeram mais algum +mal? + +«Os flagellos não tinham ainda principiado, minha querida menina. Tu +verás que a dôr de um golpe, não punge tanto como o escarneo de uma +affronta moral. Quando recobrei o sentimento, pedi a Deus que me +fechasse os olhos, e logo em seguida lhe pedi perdão da minha supplica. +Compreendi nos meus padecimentos a expiação dos crimes da humanidade e a +redempção dos meus peccados. Fui ahi trazido a pontapés, quando o sangue +me escorrria da ferida. Fizeram-me, e aos meus companheiros, servir +canecas de vinho áquella gente, que se movia em ondas pelos dormitorios, +bramindo na embriaguez do seu odio. Quando a custo me pude desviar do +tumulto, comprimi com o meu lenço a ferida, e esperei ensejo de poder +fugir para morrer em paz debaixo de algum tecto piedoso. Não pude. Ao +amanhecer fomos levados á casa do noviciado, e fechados á chave com +vigias á porta, para não tentarmos o arrombamento. + +«Olhavamo-nos com uma especie de idiotismo doloroso. Não sabiamos +palavras de consolação, porque a amargura era extrema em todos. Em +tamanha afflicção tinhamos só a linguagem da afflicção: oravamos. E nem +um só reclinou a cabeça no chão para adormecer a agonia. Parece que o +travo da morte, assim demorada, adoçára o coração de tantos infelizes. +Nunca eu senti em mim tão santa, tão divina a influencia do temor de +Deus. Esperava amanhecer na eternidade, á luz da justiça eterna, e da +misericordia do Summo-Bem. A oração pelos meus inimigos era de um sabor +indizivel, de um allivio intimo, que tanto mais se prende á creatura +quanto ella se resigna nas tribulações! Bemdito seja nosso Senhor Jesus +Christo, que por cada afflicto reparte uma faisca d'aquelle incendio de +caridade em que expirára na cruz, pedindo a seu Pae o perdão para seus +matadores!» + +Frei Antonio não pudera, se quizesse, represar as lagrimas. A sua +familia chorava, porque a voz convulsa, soturna, e sombria do padre, +entrava no coração dos ouvintes, como as ultimas palavras do sacerdote +no espirito do christão agonisante. + +«O sol--proseguiu o padre--coava pelas frestas do noviciado uma restia +pallida, que illuminava um crucifixo, esquecido pela populaça. Se cada +um de nós fosse particularmente consultado em seu coração, no momento em +que aquelle raio do sol nos allumiou, dissera a devoção fervente com que +saudou a luz do céo, irradiando-se na effigie augusta do Creador do céo +e da terra. + +«Decorreu uma hora, sem que o silencio nos fosse quebrado por alguma +voz. Julgámos abandonado o mosteiro como cidade viuva de seus filhos e +espoliada das suas alfaias. Um de nós foi á porta escutar, e desmentiu +as nossas conjecturas. Junto á porta resonavam profundamente as nossas +guardas. + +«Soaram nove horas, quando os primeiros echos reboaram pelos +dormitorios. Como atalaias nocturnas, os brados reproduziram-se, +reforçaram e subiram ao alarido compacto com que principiaram. Os +vituperios vinham, como ondas sobrepostas, bater á porta do nosso +carcere. + +«A porta foi de improviso aberta. Mandaram-nos enfileirar. Cercaram-nos +como a animaes extranhos, que movem a curiosidade. Emquanto eramos +insultados por palavras de um outro menos soffrido e mais ultrajador, +cuspiam-nos na face, e arrancavam-nos os cabellos. As mulheres, com as +faces rubras do vinho, e com as linguas afiadas no sarcasmo villão e +truanesco do seu officio, soltavam-nos aos ouvidos risadas ferozes, +mixturadas com empuxões que nos davam ao capello, e aos cordões do +habito. Esta situação penosa e indizivel durou meia hora. + +«Mandaram-nos saír, escoltados, e fazer alto no pateo do mosteiro. Ahi +lançaram ao primeiro uma corda ao pescoço, que vinha encadeando um por +um até ao derradeiro monge. Depois mandaram-nos curvar o pescoço tanto +quanto fosse preciso para assentar uma albarda. Penduraram-nos algumas +campainhas ao pescoço, e mandaram-nos andar. + +«Caminhámos uma legua, e fizeram-nos parar para reconhecermos um cadaver +que se dizia pertencer ao brigadeiro realista Pessoa. Era effectivamente +o seu. Dias antes estivera elle em nossa casa, já de retirada para a +sua, visto que as forças sitiantes do Porto começavam a dispersar. +Pedimos-lhe que se acautelasse porque os seus maus feitos tinham +excitado o odio, e a vingança. Respondeu-nos, que tinha um +salvo-conducto na sua honra, e na sua consciencia pura. A sua +consciencia não devia estar tranquilla... Este mau homem fôra morto +n'uma ribanceira pedregosa que nos ficava ao lado esquerdo da estrada. + +«Caminhámos outra legua, e fomos mettidos n'uma cadeia, onde mal nos +podiamos mexer. As prisões do pescoço affligiam-nos muito; e a sentença +de morte fôra-nos lida quando entrámos, no caso de quebrarmos a +«arreata» como elles nos disseram. + +«Não vos posso contar com miudeza que tormentos provámos durante vinte +dias que ahi vivemos. O frio, a fome, a insomnia, a falta de respiração, +todas as privações que pode soffrer um homem, bemdito seja Deus, +complicaram-se ahi... Que padecimentos! A piedade tremia de +approximar-se do nosso infortunio. Homens bem trajados apiedavam-se; mas +temiam o povo esfarrapado. Algum boccado de pão vinha através de +difficuldades, e no ardor da sede as lagrimas serviam-nos de refrigerio +aos labios queimados da febre. + +No fim de vinte dias foi-nos dada a liberdade, sob a condição de não +caminharmos para o sul. A infracção d'esta lei implicava pena de morte. +Pensavam que viriamos procurar o exercito do sr. D. Miguel. A condição +era escusada para mim. Ministro de Deus, jurado á caridade e ás +humilhações, o meu braço, consagrado á elevação da hostia, não +levantaria o ferro contra homens, ou barbaros, ou portuguezes. Eu +maldigo em nome de Deus os meus irmãos que borrifaram de sangue a tunica +legada pelos apostolos. A arma do sacerdote é o coração votado a +abrandar a justiça do Altissimo, que faz dos homens o instrumento de sua +vingança contra homens. Se me chamassem ao mais perigoso de um combate +para acalmar, em nome de Deus e da caridade, as iras sanguinarias dos +partidos, eu cruzaria as balas, e as baionetas travadas, corajoso, como +um filho da patria, e um sacerdote de Christo. Viria, meu irmão, viria +ajoelhar-me na frente do teu regimento, e pedir-te em nome da tua esposa +e de teus filhos, que me deixasses fallar ao rei antes que mandasse voar +a morte das espingardas dos teus soldados.[1] + +Estás anciosa pela continuação da historia, minha menina? Olhas tanto +para mim!... Tens entristecido com as desventuras do teu pobre tio? + +--E tenho chorado... o tio não vê? + +--Vejo, vejo, menina. E sabias que no mundo havia homens que fizessem +assim padecer outros de quem não receberam alguma offensa? + +--Pensei que não... Meu pae, e minha mãe, e meus irmãos são todos tão +bons, tão meus amigos, tão dados uns com os outros... e eu não conhecia +mais ninguem. E como é possivel ser-se assim tão cruel, diga-me, meu +tio? + +--Digo... direi, minha filha... mais tarde... Queres agora o fim da +minha triste peregrinação até á casa de teus paes? + +--A tua casa, meu irmão--atalhou o coronel. + +--Sim, sim, a sua casa, meu caro irmão--disse a esposa do coronel. + +--Pois não somos nós todos a mesma familia?!--perguntou Maria com um +sorriso de candida alegria e admiração. + +--Graças vos sejam dadas, meu Deus!---exclamou o padre. + + [1] Se Fr. Antonio ampliasse um pouco mais estas suas reflexões + muito judiciosas, invectivaria os frades que, fóra das linhas de + Lisboa, despejavam fogo para os de dentro com uma coragem e + disciplina digna de granadeiros da guarda imperial. Alguns d'esses + estavam ahi provando pela pratica as theorias vociferadas do + pulpito, desde 1828 até 1832. Não foi mais do que lançar um + correame sobre o habito, e substituir ao som da palavra incendiaria + o som do arcabuz homicida. Se não receássemos desnaturalisar o + romance pondo na bocca de frei Antonio censuras inverosimeis aos da + sua politica, se é que elle tinha alguma além da do Evangelho, + seria elle o que nos poupasse o trabalho d'esta nota para que se + não diga que o auctor acoberta um pensamento hostil á liberdade, + afeiando o quadro inevitavel, no conflicto d'ella com o despotismo + em paroxismo. A leitores de má fé respondemos com a boa fé de + imaginarmos, antes de começar o romance, que os não teriamos... + + +XXII + +«Eramos vinte e dois homens abandonados á Providencia, sós com a nossa +desgraça, sem futuro e sem esperanças de alcançar um bocadinho de pão +mendigado. Eis a nossa situação. Era forçoso separarmo-nos. Companheiros +de noviciado, quasi amigos de infancia, condiscipulos, presos ao céo e +ao sacrificio por um laço commum, affeitos a harmonisar as nossas vozes +em acção de graças, a dobrar os joelhos no mesmo chão, a comermos á +mesma mesa, a soffrermos ao mesmo tempo os flagellos que attrairamos +sobre nós, porque em todas as nossas frontes fôra escripto o caracter +indelevel de nossa humildade... Eu não tento dizer-vos como foi amargo, +como foi chorado aquelle adeus... _para sempre!_ «Antes o martyrio, e +que nos apartem!» exclamava um em quanto outro, debulhado em lagrimas +nos braços de seus compaheiros, pedia um tumulo para todos nós! Foi um +lance cheio d'aquella nobre dôr, que tanto honra o coração humano. O +supplicio da separação d'aquella pequena sociedade cujos membros, não +cançados, não egoistas, amavam-se como virgens na esphera innocente dos +seus amores de collegio... podereis vós comprehende'-lo, meus amigos? +Não! Deus quer que não! É sentir-se a morte, que parece deixar no +coração um alento de vida para o tormento da saudade; mas aniquila todas +as alegrias, todas as esperanças... que são a vida na terra. + +«E separámo-nos!... que irresistivel imperio tem a desgraça, meus +filhos! Recuavamos a cada passo para um novo adeus, para um novo gemido, +convulso, apertado na garganta, como se a dôr nos fosse prohibida. Este +doloroso trance demorou-se muito. Alguem, condoído de nós, avisou-nos +dos rumores que corriam a nosso respeito na villa proxima. Dizia-se que +tencionavamos, reunidos, caminhar para onde nos fosse possivel pegar em +armas. A calumnia podia tudo então. O odio foi fertil em pretextos... +Ora o amor da vida fez calar o grito da saudade. Demos o ultimo Adeus. O +ultimo... foi o ultimo, meu Deus!... Diz-me o coração que sim. + +«Entrei n'uma aldeia, onde fôra prégar um anno antes. Pedi gasalhado na +casa de um lavrador. Foi-me negado. Não instei. Fui á porta de um +jornaleiro: achei-a franca. Era assim o seu coração, porque o pobre, sem +vergonha nem pesar de o ser, tem uma alma cheia de bondade. Pedi-lhe +umas palhas: deu-me a sua cama, a sua manta e o seu lençol de estopa. +Não lhe pedi mais nada: mas o pobre deu-me o seu caldo, o seu pão +amassado em suor, e o seu apresigo, producto das economias da semana +para solemnisar o dia do descanço. E adormeci abençoando o pão do pobre, +em quanto elle, sentado ao lar, rezava o seu rosario, ou espertava a +fogueira para me ser menos sensivel a pouca roupa da cama; O pobre será +sempre o eleito, o ente privilegiado para as virtudes praticas do +evangelho. Jesus Christo adoçou-lhe o travo da penuria, dando-lhe ao +espirito o antegosto das riquezas que enthesoura no céo. + +«Adormeci. + +«E alta noite, fui acordado em sobresalto pelo meu hospede. Ouvi tiros. +«Que é?» perguntei eu. Não sei ao certo, senhor. Ha pedaço que ouço +estes tiros, e estou com medo... «Que venham ter comnosco?» perguntei +eu. «Sim, senhor; mas eu vou ver o que é» respondeu o bom homem. + +«Eu quiz conte'-lo; mas elle convenceu-me da segurança da sua empresa. +Quando voltou, disse-me que tinham sido mortos dois frades do meu +convento em casa de um tal lavrador. Imaginae o meu terror. Quiz saltar +fóra da cama, trocar o meu habito por alguns farrapos e fugir; mas o +jornaleiro estorvou-me com boas razões. «A casa de um pobre, disse elle, +é mais segura.» Não a perseguem as grandes desgraças, porque tambem a +não procuram as grandes felicidades--disse eu na minha consciencia. Orei +por alma dos meus infelizes amigos, se o seu martyrio não era expiação +bastante de suas faltas. + +«Amanheceu, e tive mais informações. Dizia-se que dois monges +desfigurados vieram bater á porta do lavrador que me tinha recusado a +entrada. A porta fôra-lhes aberta, porque ninguem de casa os conheceu ao +principio. Recolhidos, foram logo conhecidos; mas era tal o seu +contentamento, e a sua linguagem que o lavrador adormeceu descançado com +os seus dois hospedes, que, por mais de uma vez, declararam com +arrogancia que já não eram frades. O lavrador não os comprehendeu. Mas, +alta noite, uma guerrilha forçara a porta, entrára e matára os dois +desgraçados que tiveram a louca ousadia de resistir com bacamartes, +depois de malogradas as suas razões. Surprehendeu-me esta noticia! +parecia-me um conto disparatado! + +«O jornaleiro arranjou-me um fato semelhante ao seu. Desfigurei-me. +Providencia de Deus! No instante em que me vestia, olhei para a ferida +que recebera na perna, e encontrei-a quasi cicatrizada! É quando o atheu +o reconheceria o anjo do Senhor, pensando as chagas da alma e do corpo +áquelles que o confessam! + +«Saí. O quinteiro do lavrador estava a trasbordar de povo. Conheci que +os cadaveres estavam no centro.--Atravessei a multidão, até junto do +carro onde os mortos estavam... recuei horrorisado! Senti precisão de +gritar: «justiça de Deus!» mas cedi a um sentimento egualmente grande. +Do meu peito saíu outro grito: «misericordia, meu Deus!» + +«Informei-me. Estes dois infelizes caminhavam para suas casas, com o +cofre das economias do convento. Eram os assassinos do venerando +prelado. + +«Aquelle sangue escrevera na face de taes homens uma lugubre sentença de +punição. Quem seriam os instrumentos de vingança? Ignora-se. + +«Meus amigos, erguei a Deus as mãos, e os corações. Oremos pelas almas +dos meus desgraçados companheiros!» + +E oraram de joelhos. Maria tremia como de susto. + + +XXIII + +Não me demorei tempo algum n'esta aldeia--disse frei Antonio--Pedi ao +meu pobre bemfeitor que me guardasse o meu habito, e prometti pagar-lhe +o seu, que elle me deu com lagrimas de contentamento. + +«Caminhei incognito, pedindo esmolas. Atravessei dez leguas para o +norte, e assim assegurava cada vez mais a minha vida, não infringindo a +condicional de morte, se eu caminhasse para o sul.» + +O padre soltou aqui um sorriso de ironia inoffensiva e continuou: + +«Achei-me no Valle d'Aguiar, ermo de paz, de tristeza santa. Cercado de +montanhas pedregosas, a planicie abrange duas leguas, e perde-se na +pittoresca Villa Pouca d'Aguiar. Tão profundo foi o meu desalento quando +ahi me vi. Quanto depressa me afiz áquellas varzeas, e áquelle céo que +parece firmar-se nas cristas das montanhas. + +--E como vivias ahi, Antonio? perguntou o coronel. + +«Vivia á sopa de um lavrador... Pasmas, meu irmão. + +--Entristece-me de ver a miseria a que póde descer um homem do teu +nascimento. + +«Do meu nascimento! disse o padre, sorrindo--O que é o meu +nascimento!... Essas jerarchias são filhas da nossa miseria; a desgraça +não conhece nem o fidalgo nem o jornaleiro... Não me lamentes, meu +irmão. O homem só reconhece a sua dignidade quando vive pelo trabalho do +braço ou da intelligencia. Que maior nobreza querias tu que eu tivesse? +Eu antes queria grangear assim nobremente o meu pão com o meu braço, e o +coração, cheio de vontade. E pensas tu que a sociedade estaria corrupta +pela jerarchia, se a ociosidade não estivesse em guerra constante com o +trabalho? Medita, meu irmão, e verás que este paiz tinha excrescencias, +que o obrigaram a deitar-se no doloroso leito de Procusto em que o +ouvimos gemer... e gememos todos. + +--Deixemos philosophias. A minha querida sobrinha quer que eu lhe diga +como vivia... + +--Isso já eu sei... era trabalhando...--atalhou Maria. + +--Trabalhando, sim, por um salario de jornaleiro, e agradecendo ao +Altissimo a robustez com que me dotara sentindo-me até com forças para +poder lançar mão da enxada, e roçar um carro de tojo. _Roçar um carro de +tojo_ é sentir a gente a cada instante a precisão de arrancar espinhos +que se cravam nas mãos e nos pés. É ir com as gabelas ás costas +empasta'-las no carro, arfar de cançado, limpar com a manga de uma +vestia de borel a face alagada de suor, carrear outra e outra gabela, +durante um dia inteiro interrompido por uma hora do dia em que se come +um caldo de couves, e umas batatas salpicadas de sal. Ajoelhava a pedir +a Deus coragem, forças e resignação: não lhe pedia melhor pão, nem +melhor vida. Sabei que o temor de Deus é uma renuncia, que a materia do +homem faz ao espirito, que é do Creador. A Providencia transfigura o +infeliz, ao passo que o infortunio lhe vae mudando em dôr as lagrimas. +E, se não, dizei-me: quem me obrigou a mim a occultar o nome que poderia +alliviar-me de alguns rudes trabalhos de lavoura? Não poderia eu ser +mestre de meninos? Não tenho eu o meu caracter de ministro do altar, e a +minha pobre intelligencia para remediar n'um pulpito o ministerio +apostolico? Tinha, e vivia em terra que me daria protecção. E, com tudo, +nunca me escasseou o alento para trabalho mais pesado, nunca me senti +doente ao levantar-me da minha enxerga, antes de amanhecer, para vigiar +os fructos, em que me estava garantido pela omnipotencia do Senhor o +premio do meu trabalho. Os monges primitivos da minha ordem como é que +viviam? Não cultivavam elles os seus campos, e não cosiam os pannos da +sua tunica? É que ainda então não viera o privilegio e a classe +sanctifiar a inercia do corpo em virtude da varia côr dos sangues. Santo +Deus, como são pasmosos os caprichos que rebaixam a magestade do homem +trabalhador, alteando ao fastigio do acatamento o ocioso por mercê de +uma herança!... + + +XXIV + +«Finda a guerra, expirava a condição da minha liberdade: caminhar sempre +para o norte. Comecei a soffrer saudades da minha familia. O coração +vaticinava-me que vós existieis. E, depois, a vontade era energica, e +irresistivel. Pareceu-me sobre-humano o estimulo. Despedi-me dos meus +bemfeitores. Rodearam-me os filhos, e chorámos todos. Traí-me em algumas +palavras que soltei. Arrebatou-me a poesia d'aquelle adeus. Fitaram-me +com espanto: queriam pedir-me perdão... «de que, meus filhos?» +perguntei-lhe eu!... Deus permittiu que eu me desmentisse. Parti. + +«Trilhei os passados vestigios da minha jornada. Paguei o vestido que o +jornaleiro me vendera. Recebi o meu habito: bem o vêdes; mas o capote? +perguntaes vós. O capote é a esmola de uma missa que devo ás almas do +Purgatorio. A fome estorvou-me o passo muitas vezes nas sessenta e cinco +leguas, que nos separavam. Á maneira do homicida, que foge á justiça dos +homens, perdi-me por atalhos e devezas, que me dobraram o caminho. Os +ultrajes vexaram-me quando a fimbria do meu habito me denunciava. +Algumas vezes tive em resposta, pedindo, uma ameaça, uma insolencia, um +epitheto injurioso. + +«Está fechada a minha Illiada de lagrimas. Deixae-me engrandecer até á +valentia moral do bravo capitão de Homero. Os cabellos branquearam-se-me +em tres mezes; mas venci a desgraça, porque nas mãos do Omnipotente fui +instrumento de fortaleza. + +«Meus amigos, não quero que a minha historia descaia em sermão. Eis-me +comvosco. Somos todos pobres, não é assim?» + +--Ninguem é pobre, quando ama, meu irmão--respondeu a esposa do coronel. + +--É uma grande verdade, minha irmã--proseguiu o frade--o amor é uma luz +que não deixa escurecer a vida; é reflectida do astro eterno; irradia-se +de Deus. E é verdade que me estimaes como vosso? Não vos obrigo á +resposta. Deus quer indemnisar-me. Estes meninos são os queridos do +Senhor: falam pelos labios da innocencia: vê-se que me amam, e me +querem: é assim, Maria? + +--Muito, meu querido tio!--E abraçava-o com enthusiasmo e alegria, como +se quizesse consolar os pezares do venerando velho. E abraçavam-n'o +todos. + +Frei Antonio dos Anjos, com seus sobrinhos nos braços, ajoelhou, +exclamando: + +--Graças vos sejam dadas, meu Deus! Destes o amor em recompensa ao homem +attribulado! Trouxestes o pobre velho pela mão ao seio da sua familia! +Provaste-o em todas as amarguras; e não consentiste que o fragil barro +fosse quebrado. + + + + +LIVRO II + + +I + +Tinha custado muito sangue, esterilmente derramado a solução de um +problema que, havia muitos seculos a humanidade procurava resolver: a +miseria. O processo escolhido em cada seculo para o mesmo resultado, +tinha sido identico: a guerra ao rico, em nome do proletario. A unica +situação real, que os homens podem consolidar no marulho fervente das +suas utopias, é conciliar pelo soccorro-mutuo duas idéas que parece +repellirem-se: a pobreza e a felicidade. Mas esta situação que as +escolas da philosophia materialista chamavam absurdo, realisa-se pelo +dogma da Associação que é a traducção da fraternidade, que o +christianismo afervora: é a felicidade do homem do trabalho sem attentar +contra o rico. Tão sublime idéa, tão grandes factos teem-se operado n'um +grande centro, que, inspirado por Deus, irradia uma luz evangelica por +todos os homens. + +Enlaçar n'um abraço voluntario a pobreza e o contentamento, esposar +estes dois predicados que luctam rancorosamente no coração da +humanidade, amiga'-los, move'-los a dulcificarem-se, identifica'-los +para que o divorcio os não desligue n'um repelão desesperado: tal +prodigio, um consorcio assim só na pratica do soccorro-mutuo pela +associação póde operar-se, porque é a genuina traducção do Evangelho que +Jesus nos deixou recommendado. + +O incredulo do christianismo e da associação ao passar na sua carruagem, +assaltado de cuidados, pela porta do operario, sente-se affrontado pelas +risadas alegres que lá vão dentro d'aquelle sotão raso com o chão. Tal +homem não possue o capital que mais felicidade produz. Não sabe que a +religião e o soccorro mutuo são o incentivo do trabalho. Compreende, +apenas, que o trabalho é o capital unico do proletario. Julga elle que o +artifice alquebrado de vigor, no fim do dia, atira com o corpo ás palhas +do repouso para mentir no somno aos flagellos do dia futuro. Não sabe +que o amor em todo o tempo, em todas as edades, e em toda a hora do dia, +é quasi um exclusivo do pobre. Não sabe que o artista é pae, é esposo, é +christão, e possue um thesouro de affectos que o deixam á beira do +tumulo para entrarem no seio de Deus, como paga de um emprestimo +contraído para adoçar as amarguras da terra. Não sabe que o +soccorro-mutuo derivado do trabalho faz a tranquilidade do homem +laborioso. + +A familia do coronel... era como a familia do artista. Alli, a pobreza +tinha sorrisos, a resignação um triumpho, e os desgraçados um exemplo. O +coronel ensinava primeiras lettras. Fr. Antonio dos Anjos ensinava +latim. A esposa do coronel com quatro filhos entrançavam cordões para +dragonas e pennachos. Maria, aos oito annos, copiava musica e fazia +flores. + +--O trabalho! meus filhos, o trabalho!--exclamava padre Antonio, +extendendo em veneranda postura o braço sobre a mesa, em redor da qual +uma familia alegremente saboreava um parco jantar. + +Estariam elles esquecidos do seu passado? como puderam amoldar-se +aquelles espiritos ás angustiadas urgencias, ao passadio mesquinho de +operarios? A soberba da educação não se rebella contra a lei oppressiva +da necessidade? + +Não. O anjo de Deus viera sentar-se no limiar do infeliz, e o demonio do +orgulho não póde tramar as conspirações do ocio contra a familia +laboriosa. Frei Antonio era o anjo dos alentos, da resignação, e das +esperanças. Venturas que elle via no futuro, ninguem as via; mas +acreditavam-nas todos, porque as suas promessas tinham a unção da +prophecia. E não era calculando eventualidades politicas, nem thronos +arruinados, nem batalhas feridas no seio da patria, que frei Antonio +aventurava promessas. D'onde a inspiração lhe vinha não sabia elle +dize'-lo; mas o santo homem nunca, se levantava dos pés da cruz, que não +trouxesse aos seus uma palavra de esperança, um vaticinio mysterioso. + +--É o céo que o tio nos promette...--dizia Maria, sorrindo para sua mãe, +e recortando a folha de um lyrio. + +--E que melhor promessa, minha filha?--respondeu a mãe sem levantar os +olhos do seu trabalho. + +--Queres dar a tua lição, menina?--perguntou frei Antonio, anediando os +cabellos negros de Maria. + +--Sim, meu tio, mas sem despegar do trabalho, porque tenho grande +tarefa. Hoje ha de, permittindo Deus, ficar prompta esta flor; disse-o a +mãe... senão... o tio bem sabe... + +--Senão o que, minha filha?--perguntou a mãe. + +--Senão...--tornou Maria sorrindo com graciosa malicia--não merendo. + +--O teu sorriso faz-me chorar...--disse a mãe, limpando os olhos, e +violentamente sorrindo. + +--Temos lagrimas? Ora vamos...--atalhou o padre, dando ás palavras um +tom de risonha ameaça. + +--Não, que minha mãe é assim!--tornou Maria.--Não póde mesmo a gente +fingir que é infeliz! Permitta Deus que todos se julguem tão venturosos +como eu. Tenho pae que amo tanto, e mãe que mais não posso amar! sou tão +feliz!... Minha mãe não podia ser tambem assim, se achasse a ventura no +meu amor?!... + +--Ó minha filha... exclamou a mãe.--Obrigas-me a pedir-te perdão... +Castiga-me Deus pelos labios da innocencia... Sim... eu sou muito +feliz... + +E abraçou-a impetuosamente como impellida por um amor que a +transportava. + +O coronel viera testemunhar este lance. Parou respeitosamente diante do +grupo, em que avultava o padre levantando machinalmente as mãos para o +céo, jubiloso de um sorriso todo alegria, todo luz, que parece +scintillar no semblante do justo. E o mais é que as lagrimas vieram +solennisar aquelles extremos de alegria! Choravam ambas, mãe e filha, +com as almas afinadas pela mesma emoção, pelo mesmo enthusiasmo no amor. + +Frei Antonio antevia a nova organisação economica e social que ha de +corrigir suavemente as velhas imperfeições da sociedade. + +--Mãe, filha, e todos nós--dizia o coronel--seremos felizes com as +vossas inspirações. + +--O contrario seria um crime, meu irmão!--respondeu frei Antonio, +tomando-as ambas, abraçadas ainda, entre os seus braços. + + +II + +A vida d'esta familia correra assim tres annos. O dia de hoje, empregado +em grangear a subsistencia do de ámanhã, promettia a mesma +tranquillidade nos dias successivos. E assim passavam. + +Frei Antonio era o mestre de Maria. A educação litteraria, que lhe dava, +não era simples. Apaixonado pelos seus, e pelo esplendor da sua patria, +frei Antonio affeiçoára o espirito de sua sobrinha aos moldes graves da +poesia portugueza do seculo 16.^o Fizera-a decorar a historia nos cantos +das epopêas; afinára-lhe o gosto no arrebatamento d'aquelle genio, que +deu lições de resignação aos desgraçados. Camões era mais que um poema +decorado por Maria. A cada verso era interrompida, e o poema tornava-se, +commentado pela eloquencia do padre, um fecundo manancial de moralidade. +O sabio não se contentava com o amor exclusivo da sua litteratura. Frei +Antonio amava alguns livros francezes, e os italianos de todos os +seculos. Maria aos dez annos conhecia as duas linguas, e lia, nas horas +vagas desoccupadas da noite, com percepção admiravel. As suas lições não +interrompiam o trabalho das flôres. Em quanto de entre os dedos lhe +brotava a rosa, incendiavam-se-lhe as faces, lindas como a flôr, pelo +calor nervoso com que expunha episodios de historia, adaptados á sua +intelligencia pelo estylo energico do seu tio. Seus irmãos, mais velhos +que ella, porfiavam em imita'-la, e sentiam-se feridos no amor proprio, +quando a viam voar pelo mundo da intelligencia, defeso á sua. Maria era +um prodigio--dizia o pae:--era forçoso reprimi'-la na audacia das suas +duvidas sobre motivos religiosos, porque frei Antonio com horror á +superstição e fanatismo não tolerava senão a religião na sua maior +pureza. «Maria, tinha uma razão, capaz de perder-se por muito energica» +accrescentava o mestre. + +Maria, aos doze annos, mostrava singular desenvolvimento de compreensão. +Não se lhe difficultavam as entidades ideaes da metaphysica, e +leccionava seus irmãos na arte de pensar, como se ao seu espirito +descessem do céo revelações das que encaminham a razão direita ao alvo +das verdades eternas. O juizo, porém, essa faculdade, que não tem ainda +o nome na sciencia do coração, esfriára-lhe o enthusiasmo, que, dois +annos antes, lhe acalorava a infantil eloquencia. Havia tristeza na +amostra do seu talento. Parecia violentar-se quando a estimulavam a +revelar a sua opinião em objectos de sabedoria. Até não queria ser +galardoada com applausos, e córava, se a faziam inveja de seus irmãos. +Pedia que a deixassem no seu officio de florista, dando-se por contente +do pouco que sabia, pois pouco bastava a uma mulher, que não podia +repousar a cabeça, e adormecer no seio da sciencia. A formosa artista +tivera um piano, em que dedilhava os seus primeiros ensaios, quando seus +paes o venderam. Tomara a peito um peso enorme de trabalho, esperando +accumular dinheiro que lhe restituisse o seu piano; e conseguiu-o, +quando o seu nome se fez celebre, n'aquelle genero de enfeites, que a +moda pagava caros. + +Em casa do coronel de ***, até esta epoca, nunca se reuniram a um chá +pessoas extranhas. Aquellas portas fecharam-se: o habito applaudiu essa +deliberação forçada pelas circumstancias; e, quando estas mudaram, não +foi levemente alterada a sabia economia, que tanto concorrera para a +felicidade d'aquella familia. + +Não obstante, o nome de D. Maria dos Prazeres não esquecia nos grandes +circulos, nos salões do luxo e da moda. A esse nome estava vinculado o +prestigio de uma familia illustre, nublada pelas tempestades politicas. +Pintava-se com traços exagerados, talvez, a transição da opulencia para +a miseria; faziam-se romances, mais ou menos idealisados pelo gosto da +epoca; contavam-se assombros de um genio que o infortunio acanhava, em +forçada obscuridade. Ninguem vira de perto D. Maria dos Prazeres, +ninguem a encontrára fóra da rua por onde ia á egreja; mancebos, porém, +que precisavam interessar na sociedade, cançada de logares communs, +diziam que a tinham ouvido um minuto, dois minutos, cinco minutos, +maravilhados da sua formosura, e pequenos diante da sua eloquencia. + + +III + +O nome de Fr. Antonio dos Anjos vulgarisou-se com o de sua sobrinha. A +ligação de mestre e discipula apregoava as duas pessoas com egual +elogio. + +Um fidalgo de Lisboa quiz conhecer o egresso. Achou-o semelhante aos +gabos, que o engrandeciam. Honrou-o com attenções e obsequios, que +occultavam um fim honesto. O fidalgo tinha um filho de dezoito annos, +rebelde aos rudimentos das boas sciencias, mas em demasia versado n'esta +alchymia do mundo, em que o libertino devora primeiro o cabedal da sua +virtude, e sacrifica depois a virtude alheia, como o escravo infeliz +d'aquelle prestigio queimava no cadinho a sua subsistencia, e seduzia +depois os outros a empobrecerem-se. + +Fr. Antonio, instigado pela caridade que lhe impunha a salvação de um +naufrago, acceitou a empresa, recusando a feliz perspectiva que devia +remunerar-lhe o seu trabalho. + +O padre considerou-se imprudente em annuir, quando viu a funesta +impressão que tal noticia causou em sua sobrinha, particularmente. +Roubarem-lhe o anjo da infancia, quando, adulta, mais carecia d'aquelle +esteio a que o seu coração se acostumava, era penalisa'-la com saudades +inconsolaveis: era uma crueza, não de um extranho, mas de seu tio, que +não tinha precisão de assoldadar-se ao pão alheio. Esta sua queixa, +justificada com profunda tristeza, e continuas lagrimas, pungia o +coração do velho até ao extremo de o lançar no leito da doença. Era +irremediavel a promessa indiscreta: a palavra de honra, que lhe fôra +pedida pelo fidalgo: a obrigação que se impoz de arrancar á +libertinagem, que dominava grande parte dos antigos fidalgos, um mancebo +perdido. + +Maria, quando viu adoecer seu tio, ministrou-lhe o balsamo da ferida. +Ella mesma, repesa da severidade de seu amor, pede-lhe que vá repartir +com os necessitados o pão da sciencia e da virtude, que, tão farto +repartia com ella. + +--Era peccaminoso o meu egoismo!...--lhe diz--Não pude vencer-me! O meu +coração é impetuoso. Meu tio não quiz remediar-me este defeito, +reprimindo-me a dedicação com que, ha seis annos, correspondo á sua +amizade. Ambos somos culpados; mas eu sou mais... Fui precipitada. +Lembrei-me que era abandonada, por ser esquecida algumas horas do +dia!... É forte creancisse, não é, meu tio? + +--Eu!... esquecer-te... minha filha!...--balbuciou o padre. + +--Bem o disse eu! É muito meu amigo... leva a minha imagem no seu +coração para onde fôr... tem-me ao seu lado nas suas orações... responde +ao meu coração que lhe pergunta a adivinhação d'estes segredos que eu +tenho aqui, e só meu tio me adivinha... é tudo isto... sim, meu caro +tio? + +--Sim, tudo, minha menina. + +--Oh meu tio!--continuou ella exaltada--não nos podemos separar. A +intelligencia é um fio electrico. Ha vibrações na minha alma, que, se +meu tio as não ouvisse, seriam perdidas, como as notas de uma harpa +tocadas pelo vento em cima de um sepulchro deserto. Meu pae, e minha +mãe, e meus irmãos, quero-os para o amor, quero-os para o coração, morro +pela sua felicidade se m'o exigirem; mas o meu espirito precisa de +alimento, a minha intelligencia quer um pasto ideal que não acho aqui, +se meu tio me desampara. Não vê que foi um impulso providencial, que o +trouxe aqui salvando-o de tantas mortes que lhe embaraçaram o caminho? +Eu não tenho sido ingrata a Deus: ergo-lhe as mãos todos os dias, +reconhecida, humilde, mas venturosa de ter nascido sua sobrinha!... Não +me faça persuadir que Deus olha com indifferença as minhas preces...[2] + +--Maria, interrompeu o padre, tu não pensaste o que dirias antes de +vires ao meu quarto!... Magoaram-me as tuas ultimas expressões... Não me +pareceram tuas... + +E Maria arquejava sem desafogo. Parecia não escutar o tio. + + [2]Nem sempre é inverosimil a linguagem figurada. Mais de um + critico, a estas horas, se indispõe contra as hyperboles de Maria, + aos quatorze annos tão espevitada! Pois creiam que não é justo o + seu reparo. Se lhes eu tivesse dito que Maria convivera nas salas + onde o lyrismo do coração não tem nada a fazer com a vida + positivissima que lá se vive, em linguagem chan e desenflorada de + figuras inuteis, tinham razão sobeja para dizerem que nunca por cá + toparam d'estas donzellas Ciceros ou donzellas Gongoras, como + quizerem. Attendam, porém, ao facto, se não teem a experiencia: + mulher instruida, ou presumida de instrucção, se lhe falta o trato + que precisa o estylo segundo as circumstancias, fala assim, e + escreve assim. Aquella filha de Manuel de Sousa e D. Magdalena de + Vilhena, que o immortal Garrett faz morrer de vergonha, em _Fr. + Luiz de Sousa_, era, com menos sete annos, muito mais espirituosa, + e, se querem, mais desnatural. O inverosimil é algumas vezes + verdadeiro, assim como + + _Le vrai peut quelque foi n'être pas vraisemblable._ + (Boileau, _Art. poet. c. 3.^e_). + +--Vem cá, minha filha--continuou elle, extendendo-lhe a mão, com um +sorriso affavel--vem cá. Que queres tu de mim? Não queres que eu vá +fazer um bom filho, e um bom cidadão? + +--Vá, vá, meu tio!--exclamou ella, com energia. + +--Não achas tão sublime a missão confiada por Deus ao padre velho, que +não tem outra herança a legar-te, senão a memoria da sua beneficencia? + +--Sim, sim... é o que ha de superior a tudo... ao amor, á vida, á +esperança... Sim, sim...dê-me esse irmão em crenças, veja-o subir para +Deus, impellido pela sua palavra inspirada... eu pedirei por elle; +trocaremos as nossas orações; elle pedirá por mim, porque a conversão de +um perdido enche o céo de alegria e faz exultar os anjos!... Elle ha de, +inspirado pelo céo, compreender, como nós já compreendemos, desde que +vivemos artistas, o que é o amor de Deus e a virtude do trabalho. + + +IV + +Frei, Antonio mudou a residencia para casa do fidalgo. Alvaro da +Silveira era o educando. São precisas algumas linhas do caracter d'este +mancebo. + +Nascera rico: primeira desgraça, quando um pae, herdeiro de opulencia e +libertinagem, sente a precisão de transmittir a seu filho a herança, +qual a recebera. Acalentado em berço de ouro, quando os primeiros annos +lhe deram a convicção da sua individualidade, reclamou a sua emancipação +dos carinhos maternos, que lhe eram pesados, e extremos do pae que o +enojavam por muito repetidos. O elogio acompanhava-o sempre em todas as +suas tentativas de independencia. Quando de seis annos rasgou o _A_, +_B_, _C_, na presença de um professor, que o contrariava, seus paes +riram-se do galhardo heroismo da creança, e exultaram de ve'-lo assim +brioso em tão verdes annos. Quando aos oito annos o viram espancar a +ama, que lhe prohibia apedrejar uns meninos pobres, que lhe pediam pão, +disseram-lhe que era feia aquella acção em menino fidalgo, e deram-se os +parabens, a occultas, de tão corajoso rasgo. Quando aos dez annos o +ouviram pedir dinheiro para gastar em seus caprichos de creança, +preliminares de lastimaveis depravações de mancebo, deram-lhe dinheiro, +com a condicional de não caír do cavallo, nem guiar o carrinho por +passagens mal gradadas. Quando aos quinze annos.... + +Seus paes atiraram-n'o ao tremedal de todos vicios. Deixaram medrar a +planta da má inclinação no clima proprio, naquella atmosphera de Lisboa, +onde os miasmas da corrupção lavravam desde que alguma classe degenerou +pela ociosidade, e pelos vicios da velha organisação social. A arvore +lavrou raizes até onde seus paes não previram, por mais que amigos e +extranhos lhes abalassem o coração d'aquelle profundo somno de um +affecto criminoso. As immoralidades do filho estamparam um estigma de +opprobrio nas faces dos paes. O jogo, contrariedade unica e pungente, +que na sociedade encontrava o libertino, arruinaria a fortuna d'uma +familia, de muitas familias opulentas se Alvaro da Silveira não +attendesse aos conselhos, ás primeiras admoestações de seu pae. Foram +baldadas. Alvaro ouviu-as com enfado, çom soberania, com desprezo, e +satisfez a irritabilidade de sua má indole, conduzindo á porta de seu +pae novos credores e novas vergonhas. + +E, depois, a intelligencia d'este mancebo era um repositorio de todos os +vicios, sem ao menos quinhoarem do ouropel da urbanidade que parece ás +vezes modificar a torpeza com que nos enojam em um licencioso, estupido +e villão. Alvaro era grosseiro no crime. Indignava os muitos que lhe não +eram somenos em dissolução mas menos brutaes que elle. As pustulas +n'aquelle cadaver mostravam-se ao clarão do vicio com todo o asco. O +homem perdido parecia renovar emoções, e satisfazer o instincto, +provocando á nausea uma sociedade cujo abandono lhe accendia um desejo +impotente de vingança. + +Fr. Antonio dos Anjos fôra chamado para preparar este homem a conhecer a +honra, levando-o pela vereda da religião. + + +V + +Alvaro da Silveira não fôra prevenido. A presença do sacerdote, +apresentado por seu pae, moveu-lhe uma curiosidade selvagem. Parecia-lhe +um sonho aquella visão extraordinaria, aquelle encontro tão disparatado +com a sua vida, o seu olhar idiota era eloquente ao mesmo tempo. +Revelava uma interrogação natural e desculpavel:--que me quer este +homem? + +Fr. Antonio, limitado ao seu ensino de portas a dentro, e alheio á vida +de Lisboa, não conhecia cabalmente a historia do seu discipulo. Os +traços que o pae lhe revelára eram logares communs da mocidade +desenfreada. Não é crivel que o padre bem informado, tentasse a empresa +de conquista'-lo para a virtude. E quem póde avaliar a coragem +religiosa? + +Alvaro sorriu, voltou as costas ao mestre, levando em galhofa o que lhe +não parecia cousa de serio alcance. Este grosseiro procedimento magoou +momentaneamente o padre; mas, repreendido pela caridade, aquietou +depressa os irritamentos do amor proprio. Foi então que o pae, tão +culpado como desditoso, desenrolou o sudario das desenvolturas de seu +filho. Chorava, arrependido do mimo com que o perdera, e perguntou +ancioso se seria possivel salva'-lo da sua ruina total. + +Fr. Antonio não conhecia limites á sua confiança em Deus. Convicto das +mercês visiveis que recebera da omnipotencia do Senhor, sentiu-se +illuminado de uma fé que lhe affiançava um prodigio. A peleja travada, +em nome da virtude, com o espirito do mal, tinha muitas vezes triumphado +de uma parte da humanidade, revoltada contra um só homem. Exemplos de +maiores maravilhas alentaram o sacerdote. Desde esse momento, afervorou +as suas preces ao Senhor, a cujo aceno a virtude, morta no coração do +impio, surgiria como a lagrima do remorso nos olhos de Magdalena. + + +VI + +Esse dia de estreia para a missão do padre, foi mais um decorrido nas +immoralidades do discipulo. + +Não viera a casa, durante o dia, e metade da noite. Parece que tudo +dormia no palacio; quando Fr. Antonio sentiu o rumor de um cavallo no +pateo. Orava ainda, fóra do leito, ajoelhado, com o lenço ensopado em +lagrimas de dorida saudade. A imagem de sua sobrinha não lhe consentia o +repouso, de noite; obrigava-o ás tribulações de um amante desprezado. E, +então, o ministro de Deus recolhia-se em oração, com a vehemencia de uma +esperança infallivel no refrigerio do céo. + +A essa hora, pois, chegava a casa Alvaro da Silveira. O seu quarto era +immediato ao do sacerdote. Entrou assobiando as reminiscencias das +cavatinas theatraes, e reclamou em brados imperiosos a ceia. Os servos +pontuaes como escravos aos caprichos rapidos dos patricios da Roma dos +imperadores, affluiam a servir o amo, que ordinariamente punia uma certa +demora com a ameaça formal de quatro chicotadas. Conduzida a ceia, +repellira os creados com desabrimento e ficára sósinho trauteando e +comendo promiscuamente. + +Alvaro acabava de cear, esquecido da apresentação do padre, quando ouviu +na porta um toque. + +--Entre quem é!--bradou elle. + +Quem quer que era cumpriu. A presença veneranda de Fr. Antonio, um passo +dentro do quarto, era uma impressão nova para o mancebo! +Involuntariamente sentiu curvar-se-lhe o pescoço á cortezia grave com +que o sacerdote o saudára. + +--Então ainda a pé?!--perguntou Alvaro. + +--Ainda a pé, e Deus sabe se me deitarei... As horas da noite são as +horas da oração. Parece que o ermo e o silencio excitam a conversação do +espirito com Deus... E v. ex.^a recolheu-se agora, não é verdade? + +--É verdade...--respondeu o mancebo com um embaraço, que revelava a sua +extranheza n'estes dialogos. + +--Precisa repousar--tornou o padre--Eu, como estava a pé, quiz dar-lhe +as boas noites. Agora recolho-me pedindo a Deus o seu descanço, como +condição da vida, para amanhã abrir os olhos á luz que bem póde não +alvorecer para nós. Fique v. ex.^a com Deus. + +E retirou-se. As ultimas palavras de Alvaro pareciam syllabas +desarticuladas. O frade ferira-lhe um orgão ainda virgem d'aquellas +impressões. Aquelle _memento_, áquella hora, por aquelle homem, +acordára-lhe o mais nobre dos pensamentos, que o materialismo lhe +adormecera nos gelos do coração: DEUS. Os confusos projectos do dia +seguinte aturdiam-se-lhe na cabeça, como alvoroçados pelo pregão da +morte, que mandava calar os designios humanos na presença do destino +eterno. + +O abalo fôra vehemente, mas pouco duradouro. Alvaro da Silveira +adormeceu. É que o som vibrado na corda da religião, devia esvaecer-se +entre o estrondo das paixões ruidosas, como o vagido da creança no +alarido das turbas amotinadas. + + +VII + +Alvaro da Silveira costumava tocar a campainha depois do meio dia, +quando alguma empresa impertinente lhe não assaltava o precioso somno da +manha. + +Fr. Antonio, prevenido, foi visitar sua familia, cuja ausencia lhe +parecia longa e incomportavel. Antes de sair trocou algumas palavras com +o dono da casa pedindo-lhe que entregasse a Deus a regeneração de seu +filho. + +Quando entrou na sala, sua sobrinha estava ao piano. Pé ante pé +firmou-se onde de longe podia contempla'-la, e surpreende'-la com +palmas. Reparou que o papel de estudo não era musica. Esperou. De +improviso, ao som melancolico das teclas casou-se uma melodia triste, +profundamente triste, como as convulsões de um longo gemido. Aquelle +papel continha a letra do canto. Que versos seriam aquelles? + +E o canto parou com a ultima nota do acompanhamento. Maria firmou os +cotovellos nos braços da cadeira, e escondeu o rosto entre as mãos. Ás +vezes corria as mãos pela testa, e deixava-as pender enlaçadas sobre o +regaço. As suas posturas eram todas afflictivas. + +--Que tens, minha filha--murmurou o padre caminhando para ella. + +Maria ergueu-se arrebatadamente; correu aos braços do tio, e não teve +exclamação que revelasse o alvoroço d'aquella surpresa. + +--Cantavas como um anjo--continuou o padre, acariciando-lhe a face +pousada no seu hombro--mas tão melancolico era o canto e a musica!... +Nunca te ouvi ainda esta lamentação! Vejamos que poesia é esta!... + +--Não, não, meu tio!,..--atalhou Maria, querendo affavelmente desvia'-lo +do piano. + +--Porque não? Mysterios para o teu amigo que t'os adivinha no coração? +Segredos para o teu mestre, Maria! + +--Não é segredo... é vergonha...--exclamou a linda menina com a voz +entrecortada--Esses versos fui eu que os fiz.. + +--E tens reservado para ti esse dom? Quando disseste ao teu velho tio +que fazias versos?--disse o padre sorrindo com meiguice. + +--Eu não sabia que o eram... Nem sei se o são...--balbuciou Maria, +córando, e procurando fugir de estar presente á leitura. + +Fr. Antonio levou-a pela mão ao piano. Tomou da estante a poesia, e leu: + + PRESENTIMENTO + + «Minha paz no infortunio, + Minha alegria na dôr, + Quem m'a déra, qual a tive, + Qual m'a déstes, vós, SENHOR! + + «Desbotou-se-me nos labios + Meu sorriso tão singelo... + E eu com elle premiava + Tanto amor, tanto desvelo!... + + «Tanto amor, que eu vos pedia, + Do que os anjos tem nos céos, + Para amar meus paes, meu tio, + Como vos amo, meu Deus! + + «Não scismei outras venturas, + Outros gosos não pedi: + Fui tão rica na pobreza... + Na pobreza empobreci. + + «Senti lagrimas no rosto... + Sei que tenho aqui no seio + Escondida uma tristeza + Que de vós, meu Deus, não veio! + + «Deu-m'a o mundo?... sim... daria... + Mas que mal ao mundo fiz!? + Serei eu de alguem inveja? + Pois que eu não seja feliz! + + «Volva o tempo da penuria, + Quando eu fiz a pobre flor, + Que me dava um pão regado + Com meu pranto e meu suor. + + «Dae-me as noites não dormidas + De trabalho e de alegria; + Meu orar na madrugada, + Quando, tão feliz, me erguia. + + «Oh meu Deus! se a humilde serva, + Não votaste ao soffrimento, + Abafae lhe a voz, que a punge, + D'um cruel presentimento!» + +Fr. Antonio lera commovido essas singelas quadras, cujo toque de +sentimento não póde enternecer-nos, talvez. Nos labios d'elle, tremulos +e nervosos, a poesia soava como um canto funebre. Que tristeza no +declamar! Poderia ter-se como uma elegia á innocencia de Maria? Por Deus +que não. O hymno, que transluzia da nuvem escura da sua tristeza, era +como a luz do relampago que aclara, de repente, um amplo espaço: era a +luz electrica das intelligencias privilegiadas; o abalo do presentimento +que quer saír do circulo do mysterio: a adivinhação do futuro. + +--Que é o que entristece a tua vida, Maria?--perguntou Fr. Antonio. + +--Já me lembrou se seria a muita felicidade, meu tio. + +--Não te compreendo... abre-me o teu coração sem reserva... Serias +culpada se fingisses a teu tio as razões do teu soffrimento... + +--Não posso mentir-lhe, meu tio... Não sei ainda o que é fingimento... +nunca na minha vida menti a alguem. Eu não sei porque estou triste. O +meu coração não m'o diz, e a minha tristeza nasce-me do coração, +esconde-se lá como um segredo afflictivo... E eu que mais hei de +dizer-lhe, meu caro amigo? Que peço muito a Deus que me não quebre este +calix de amargura, se a sua divina vontade ordena que eu o exgote. + +Maria enxugava as lagrimas copiosas, que pareciam esfriar-lhe o calor +febril das faces. Fr. Antonio, contemplativo, olhava para a sobrinha +silenciosa, como querendo ler-lhe no rosto a ultima palavra d'aquella +revelação confusa. + +O coronel entrou na sala, e correu a abraçar seu irmão, e dar a mão a +sua filha, que lh'a não beijara ainda. Maria, surpreendida, quiz, á +custa de um sorriso violento, converter em alegria aquella saudação; mas +a dôr de filha é necessario que seja peccaminosa para esconder-se aos +olhos de pae. O coronel e sua esposa velavam as tristezas de Maria como +lhe velariam perigosa enfermidade. Consultaram mutuamente os seus +temores; e a severa experiencia do mundo alguma vez lhes inspirou bem +tristes receios. Aos quatorze annos ha melancolias no coração de uma +virgem, que apenas tem de mysterioso a tendencia irresistivel, que Deus +lhe imprimiu para o ideal de um amor terreno, que, no altar da +innocencia, recebe uma adoração, senão semelhante, ao menos perfumada +com o mesmo incenso do amor divino. E a mãe de Maria recordava-se da sua +infancia, e perguntava a seu marido se as lagrimas da filha seriam as +precursoras de alguma paixão infeliz. Era indiscreta a pergunta. Não se +dera nunca o incentivo de suspeita. A vida de Maria não tinha um +instante mysterioso a seus paes. Trabalho e oração--não tinha outro +desvelo desde o amanhecer até á ultima benção pedida a seus paes. + +Maria, valendo-se da conversação do pae com o tio, retirara-se da sala. +O coronel assim o queria, para consultar o irmão, homem de Deus, que via +o coração dos outros com os olhos puros da probidade. Mas não são esses +olhos os mais penetrantes para devassar segredos, que se escondem no +coração apaixonado pelo mundo. Quem adivinha as luctas intimas do +espirito, escravisado aos caprichos das paixões, é o homem das paixões, +encanecido na amarga experiencia d'ellas. Bem pudera Maria dos Prazeres +agonizar nas tribulações de um amor criminoso, e sua morte ser um +mysterio para o padre que não sentia acordar em sua alma o echo dos +gemidos de sua sobrinha. O amor de Deus preenche todas as necessidades, +responde a todas as aspirações do coração de um justo. Não é o justo de +uma longa vida irreprehensivel quem póde arrancar ao penitente, que se +lhe ajoelha, uma revelação pungente, que o pejo emmudece nos labios. É +necessario profunda'-la com a sonda das proprias agonias. É necessario +adivinha'-la no espirito do penitente, a favor de um symptoma que revela +outro, de uma palavra solta que vae prender-se á explicação de um longo +silencio. E esta dolorosa syndicancia não póde exerce'-la a simples +theoria das paixões. + + +VIII + +A arte, que ensina a levantar o véo das paixões silenciosas, era +desnecessaria para Maria. A virgem não tinha segredos para alguem. +Podesse ella entender a transfiguração da sua alma, a magua confusa dos +seus novos pensamentos, que, bem feliz, pediria conselhos e consolações +á sua familia. + +--Mas aquelle silencio!...--dizia o coronel, replicando ás santas +convicções do padre, a respeito da innocencia de sua sobrinha. + +--Aquelle silencio...--dizia frei Antonio, consultando a consciencia, +que lhe respondia de prompto--aquelle silencio... é a falta de palavras +com que possamos fazer sentir aos outros uma idéa, que só a Divindade +nos compreende... As horas de tua filha não são empregadas como d'antes +na oração, no estudo e no trabalho? + +--São, de certo, e mais continuadas na oração. D'antes orava em commum. +Agora, encontramo'-la na hora do descanço, ajoelhada no sanctuario; mas +vejo-a perturbada, quando reza. Ha lagrimas, e até aqui só lhe viamos o +sorriso de consolação... Parece que n'aquelle orar, ha a supplica do +perdão para o crime que a accusa. + +--É impossivel!--exclamou o padre, energicamente commovido.--É +impossivel... não quero que em minha sobrinha se esconda um crime... uma +falta! É uma injuria, meu irmão! Peccaste contra a innocentinha, e +feriste-me a mim, que tenho formado aquelle coração, que Deus me confiou +para crear-lhe um anjo. + +--Meu irmão... não te afflijas... isto em mim é um receio. + +A interrupção do coronel era tardia para evitar a exaltação nervosa do +padre. As lagrimas davam-lhe ao rosto uma religiosa magestade. +Assombrava-o o terror de uma conjectura cruel, como se visse caír á +voragem do vicio a virtude, que elle, com sua propria mão, collocára em +throno tão perto do céo. O coronel, tambem commovido, sentia-se +nobremente exaltado pelo modesto orgulho de ter uma filha, cuja +innocencia merecia tão fervorosa defesa. Abraçando seu irmão, parecia +pedir-lhe carinhosamente desculpa do zelo paternal, que lhe inspirara +receios por aquella que pertencia menos a seu pae, que a seu mestre. O +lance era sublime; e o sentimento de ambos, vibrado na mesma corda, e +acalorada pelo mesmo amor, elevava-se até Deus em oração de graças por +Maria, anjo que lhes fôra dado como galardão á paciencia de muitos +soffrimentos. + + +IX + +Quem poderia consolar a triste nas suas amarguras? + +Quem póde cá da terra dissipar a nuvem, que escurece a face de uma +estrella? + +Quem póde, ao descair da tarde, reverdecer a corolla da flor desbotada +pelas sombras da noite? + +O futuro é o presente perpetuo da Divindade. Mas o espirito que se +enlucta, sem lamentar a viuvez de illusões perdidas, veste-se de negro, +como a virgem violentada a desposar no altar das lagrimas uma tribulação +futura. É o presentimento. + +Para as almas provadas em supplicios immerecidos, mas secretamente +providenciaes, o presentimento não é uma palavra sem significação. + +O cantico de Maria, cadenciado pelas quadras do seu hymno, era a unica +resposta, que ella podia dar se lhe perguntassem: + +--Anjo, porque soffres? + + +X + +Decorreram algumas horas, e Fr. Antonio não podia demorar a sua visita. +Alvaro da Silveira, fiel a seus habitos, deveria despertar ao meio dia. +O padre retirou com uma saudade profunda, e uma dôr nova. A ultima +afflicção de um justo quer Deus que seja a agonia do pensamento. A vida +n'elle é uma cadeia de pesares, que tem no esquife o ultimo élo. Fr. +Antonio, feliz com esta certeza, poderia fraquear na primeira lucta com +o soffrimento, mas a sua queda era sempre de joelhos aos pés da cruz. E +esta foi a sua postura, apenas entrou no quarto que lhe fôra dado em +casa de Silveira. + +A oração foi-lhe interrompida pelo toque da campainha. Esse som, que +provocava pragas aos servos da casa, como signal de estar acordado o +tigre familiar, foi para frei Antonio um despertador da oração em favor +d'aquelle, que tão longe de Deus, sem um decreto do céo, mal poderia ser +lá encaminhado pela debil mão de um peccador. E, terminada a oração, o +padre chamou o creado, que saía do quarto de Alvaro, e mandou a s. +exc.^a pedir licença para fazer-lhe companhia ao almoço. A resposta, +qual era de esperar, deferiu a humilde supplica, e Frei Antonio, +insinuante de brandura e civilidade, apresentou-se, pela terceira vez, +ao seu educando. + +A face d'este homem tinha uma alegre severidade, que não podia fitar-se +sem respeitosa sympathia. Alvaro da Silveira ao ve'-lo sentia uma +impressão extraordinaria, como não sentira na presença d'algum homem +celebre em valentia, em talento, em devassidão, em prodigalidades, e em +riqueza. A distincção da virtude ou do _fanatismo_, como elle dizia da +religião, parecia-lhe uma cousa nunca vista na boa sociedade! Para não +deixar-se vencer pelo panico da religião, Alvaro da Silveira dava-se uma +explicação muito natural d'aquelle phenomeno: era a falta de convivencia +com a classe dos padres. + +Na verdade o jesuitismo e a hypocrisia pelos seus abusos interesseiros, +tornando a religião instrumento innocente de uma politica facciosa, tem +dado causa a todos os homens de consciencia conspirarem a expulsa'-los +como vendilhões do templo. Essa a razão por que os falsos religiosos +blasphemam quando presentem que uma minima centelha da razão illumina o +campo da religião que elles pretendem pôr em trevas. Todo o homem +sensato e sãmente religioso soffre uma intima dôr quando os falsos +religiosos impellem os ignorantes, e alguns immorigerados como Alvaro da +Silveira, a irem lançar-se na impiedade, fugindo da hypocrisia, que +elles não sabem discernir da purissima religião do crucificado. + +Mas, a seu pesar, a entrada de Fr. Antonio, e as palavras urbanas, e +poucas, com que o saudára, continuavam a impressiona'-lo. + +--Dormiu v. ex.^a socegadamente, não é assim?--perguntou o padre. + +--Deliciosamente--respondeu Alvaro, apertando cortezmente a mão do +sacerdote.--E v. s.^a como se deu no seu novo quarto? + +--O melhor possivel. Um egresso, affeito a dormir na casa de um +lavrador, acharia boa pousada em todos os logares debaixo do céo. Uma +boa cama não abona sempre uma noite deliciosa ao que se deita n'ella. O +melhor gasalhado, senhor, é o que nos dá a consciencia quando +francamente se abre para receber-nos, e velar-nos o somno com o anjo da +paz. Deus defenda v. ex.^a de revolver-se um dia nos espinhos, que +perturbam o somno do mau, deitado em leito de cortinas douradas. + +--Então v. s.^a--tornou Alvaro--tem andado por casa de lavradores? Eu +cuidei que os frades eram ricos, e amigos das commodidades. Pelo menos é +o que se diz por ahi... + +--Os frades, senhor, não só eram ricos, mas tambem opulentos; procuravam +todas as commodidades, gosavam todas as delicias, todos os prazeres que +podem ser desfructados na vida material da terra. A ociosidade e a +riqueza perverteu-os. As excepções choravam tal aberração. Como que +olvidados do céo mergulharam-se n'uma politica inconveniente e injusta. +Em pena de Talião, a politica por elles hostilisada, por todos os meios, +tão obstinadamente, puniu-os expulsando-os das casas que não deviam mais +pertencer-lhes. + +Estava na mesa o taboleiro do almoço. Fr. Antonio pedia licença para +servir o discipulo. + +--Então v. s.^a não almoça?--perguntou Alvaro, offerecendo ao hospede +uma chavena, não recebida. + +--Almocei já, sr. Silveira. + +--Com o pae, não é verdade? + +--Não, senhor: com a minha familia. + +--Então v. s.^a tem familia em Lisboa? + +--Nasci em Lisboa, e tenho uma familia numerosa. + +--Naturalmente pobre... + +--Naturalmente, não, sr. Silveira; mas Deus indemnisou-a. Deu-lhe o amor +do trabalho, e a noite e o dia, para grangear o pão de uma hora. Tem +sido feliz, penso eu. O temor de Deus é a coragem com que se vencem os +infortunios... + +Alvaro, com a chavena esquecida na mão, escutava-o religiosamente. A +novidade da linguagem, e o gesto religioso apraziam-lhe, e creavam-lhe +desejos de ouvir o padre longo tempo. + + +XI + +--A sua familia é conhecida? + +Esta pergunta de Alvaro da Silveira é textualmente o inquerito +galhardamente fidalgo, que a nobreza d'estes reinos faz, antes de deixar +approximar-se por algum desconhecido, duvidosamente inscripto no livro +dos costados. Perdôe-se-nos o estylo; mas, desgraçadamente, tudo que é +ridiculo traz inçadas certas classes, e não sabemos, quando se farão +sérias, quando se approximarão um dia as familias, de modo que não +possamos sem offender a Deus, perguntar a nosso irmão se seu pae é +conhecido... + +--A minha familia--respondeu frei Antonio--foi conhecida; mas não é de +lamentar que seja hoje obscura. Mal d'ella se quizesse manter as vans +regalias da sociedade, que v. ex.^a chamou conhecida! Penso que a minha +familia não é conhecida. + +--Mas deve estar aparentada...--replicou o fidalgo, instando nas +perguntas inauferiveis da pragmatica heraldica. + +--Creio que sim... O coronel ***... + +--Já sei--interrompeu Alvaro--pois não!... é muito fidalgo, e está +aparentado com boa gente; mas não apparece. Então v. s.^a é tio de uma +menina muito falada?... + +--Muito falada!?--atalhou o padre com sobresalto. + +--Sim, senhor, dizem que é poeta, romantica, e muito linda. + +--É virtuosa, senhor Silveira. Não lhe conheço outra qualidade, que +valha a pena de mencionar-se. V. ex.^a já viu poesias ou romances, ou o +retrato de minha sobrinha? + +--Não, senhor, mas creio que não é mentira o que se diz. A opinião de +virtuosa tambem a tem; se não falei de virtude, é porque não sei +verdadeiramente o que é virtude; mas acredito que ella é uma excellente +menina a todos os respeitos. + +--A virtude, meu caro senhor, é a censura pratica do crime. Sabe v. +ex.^a o que é crime? + +--Tambem não--respondeu Alvaro com uma vaidosa entoação de +espirito-forte. + +--Eis ahi--disse Fr. Antonio sorrindo--uma violencia que está fazendo á +sua alma, sr. Silveira. V. ex.^a disse que minha sobrinha era dotada de +bellos attributos. Falou pela bôca da fama, e chamou-lhe poeta, +romantica e formosa. Se minha sobrinha, apesar d'estas decantadas +prendas e dons, que a sociedade encarece tanto, fosse má filha, e má +irmã, poderia ella cegar os olhos da sociedade com a sua formosura e +talento, para que lhe não vissem os defeitos... + +--De certo não. + +--Então é verdade, que a sociedade reprovaria o procedimento de minha +sobrinha? + +--Creio que sim. + +--E v. ex.^a? + +Alvaro ficou suspenso, e balbuciou, depois: + +--Eu... eu... naturalmente... + +--Juntava a sua voz á opinião publica--interrompeu o padre--embora v. +ex.^a não antipathisasse com os actos repreensiveis de minha sobrinha. + +--Assim é sempre--disse Silveira, com uma forçada resolução. + +--E assim será sempre, porque ha um juiz incorruptivel, chamado a +«verdade». As sentenças d'este juiz, embora fulminem as paixões +desatinadas, são sempre recebidas, senão pelo espirito de uma sociedade +gasta e immorigerada, ao menos por a consciencia d'essa sociedade. Ora a +innocencia é invulneravel ao contagio da corrupção, como a lampada do +templo ás exhalações pestilenciosas dos tumulos. A consciencia é o +pregoeiro das sentenças que a verdade profere, e v. ex.^a, +insensivelmente, apregoa. Será necessario dizer-lhe eu que sentimento é +esse que se serve de v. ex.^a, como de uma machina para se exprimir? É a +virtude, sr. Alvaro, é a virtude que faz realçar os dons de minha +sobrinha, que lhe dá a soberania de um anjo, que o crime não póde +encarar sem curvar-se servilmente: é a virtude, galardão ao principio do +bem, que triumpha na lucta incessante com o principio do mal. A verdade +não se desmente porque é o Evangelho identificado nos corações, e +Christo ha dezoito seculos, encarnado na humanidade... + +Alvaro parecia alegrar-se conforme ia perdendo o terreno, diante de um +tão generoso como irrespondivel adversario. + +Como se anciasse pela continuação da resposta do padre, quando este se +calou, tambem Alvaro não teve uma syllaba, das que se pedem á +«philosophia» irreconciliavel, para responder. + +--Crê na virtude, sr. Silveira?--perguntou o padre com summa bondade e +modestia. + +--Tinha-me dito que o crime e a virtude eram relativos--respondeu o +mancebo com ar de quem desacredita as doutrinas de um mestre que +respeita. + +--Tinham-lhe dito, senhor, que a consciencia universal era uma mentira. +Mentiram-lhe cruelmente, porque v. ex.^a não podia, sem horror, encarar +um filho que matou seu pae; um homem que traíu o seu bemfeitor; um juiz +que entregou um innocente ao carrasco; um seductor que atou uma pobre +mulher a um poste de ignominia eterna. V. ex.^a não póde, com +indifferença, apertar a mão a este homem, não é assim? + +--De certo: eu sou um extravagante, um vicioso, mas detesto infamias... + +--Que todo o mundo detesta; mas o mundo onde a luz da verdade venceu as +trevas do erro, que a palavra do Christo condemnou. + +--Mas diga-me v.^a sr.^a... não dizem que ha paizes onde os paes matam +os filhos, e os filhos os paes, legalmente? + +--Houve, e haverá ainda. Mas sabe v. ex.^a o que é permittido ahi pela +lei? É justamente o que é reprovado pelo christianismo. + +--Mas a consciencia não se revolta contra taes actos sem que seja +preciso que o christianismo os declare criminosos? + +--Revolta, sim. Quando as virgens indianas se lançavam nos tumulos dos +maridos, ou nas fogueiras legalmente accesas, as lagrimas, vencendo a +coragem da superstição religiosa, desciam nas faces de uma familia, que +seria injuriada se não cedesse em holocausto a desgraçada viuva. Os +gritos d'esta eram os gritos da consciencia contra a lei barbara; eram a +adivinhação da verdade denunciada pelo filho de Deus. Os filhos, que +matavam os paes, eram algozes que a lei fizera, como entre nós a lei faz +um carrasco. Poderemos nós argumentar contra a piedade, contra a +virtude, e contra o amor porque um justiçado morre entre os braços de um +homem, que executa a sentença de um juiz?! Persuade-se alguem que o +homicidio legal, na consciencia do algoz, é um acto de amor e caridade? + +--Penso que não. + +--Pois bem, senhor Silveira; respeite a sua propria dignidade, já que os +homens sem crença, sem Deus e sem esperança, lh'a quizeram aviltar, +dizendo-lhe que o crime e a virtude são relativos... + +Fr. Antonio fez menção de levantar-se e continuou: + +--Tenho-o talvez privado dos seus divertimentos... + +--Não, senhor... pelo contrario tem-me dado momentos de muita +satisfação... + +--Encho-me de prazer, se o consegui... E como tenho a honra de ser +hospede de v. ex.^a... + +--Mestre...--interrompeu Alvaro com alegria sincera. + +--Não posso acceitar esse lisongeiro titulo;--_amigo_, se v. ex.^a me +quizer honrar com este parentesco. + +--Não me embaraça... Tenho muito prazer em que esteja...--disse Alvaro, +apertando-lhe cordealmente a mão. + +--Tenho obrigações a cumprir para com Deus: não faltará tempo proveitoso +para os meus deveres com o proximo. Não sabe v. ex.^a que os padres teem +um breviario, que a cada hora do dia lhe recorda o dever de orar por +aquelles, que não cedem alguns minutos á oração? Filhos de Deus, pedimos +uns pelos outros; e Jesus Christo beneficiou-nos com a riqueza da prece, +com este patrimonio commum a todos os irmãos... E não é isto uma +consolação para os que são atheus por contagio e não por convicções; +fanaticos e supersticiosos por ignorancia e por estupidez? + +--A respeito de atheismo... tenho... minhas... duvidas...--disse Alvaro +com palavras entrecortadas por aquella pausa emphatica, semelhante á +ironia dos sabios, segundo a moda. + +--Pois bem... Temos zelo e vontade para acertarmos... Deus hade +conceder-nos o tempo, que é o desengano de todas as duvidas... Até outra +occasião... + +E retirou-se contra os desejos de Alvaro. Mas fr. Antonio conhecia o +coração do homem. Chamara-o Deus para uma empresa trabalhosa. A força +descia-lhe do céo. Não era em si que elle confiava. + + +XII + +Mal o padre saíra, entrou Gonçalo da Silveira. Era o pae que procurava o +filho: cumprimentou-o com a sua habitual frieza: mas o que de outras +vezes era proposito, poderia então suppôr-se distracção. Alvaro +absorvido nos seus pensamentos, quaesquer que elles fossem, parecia +meditar uma das suas heroicas façanhas, sobresaltado, como quem recua +diante de algum perigo assustador. Julgara-o assim o pae, julga-lo-iam +assim os domesticos, e os cumplices, elle proprio, talvez, se se visse +n'um espelho. + +--Que tens?... pareces-me somnambulo!?--disse o pae. + +E Alvaro affavelmente respondeu: + +--Pelo contrario: estou acordadissimo... muito accordado, penso eu. + +--Falaste com o egresso? + +--Sim, senhor. + +--Que te pareceu? + +--Um homem bom, virtuoso e extraordinario. + +--É realmente... que a virtude tornou-se em nossos dias uma apparição +extraordinaria, e milagrosa,.. Gostaste d'elle? + +--Quem me dera ser o que elle é... + +--Isso é que é extraordinario, meu filho--exclamou o velho. + +--Amar um bem, que não podemos possuir, é tão proprio do homem... Que +acha o pae de extraordinario, n'este meu desejo: + +--Muito, muito, meu caro Alvaro!... Tu hontem não falavas assim... + +--Tambem meu pae não amava a formosura de minha mãe, antes de +conhece'-la... A virtude é como a virgem, que um homem estragado vê na +vertigem de uma orgia, mas não póde ama'-la sem approximar-se realmente +do original d'essa sombra phantastica. Sabe meu pae o que eu amo em +padre Antonio? É a transparencia d'aquella face, que deixa vêr um bello +coração. Amo-lhe a paz, a firmeza, a confiança com que censura os +crimes, sem irritar o amor proprio do criminoso. Amo-lhe a independencia +com que falla, e a soberania com que responde. Parece que Deus o manda +falar! É um bello caracter! A sociedade, se conhecesse este homem, +adorava-o! + +O jubilo de Gonçalo da Silveira era um delirio. Parece que lhe não +ouvira as ultimas palavras. A emoção sublimára-se até ás lagrimas. +Alvaro tocado por uma scena, que nunca elle se julgára capaz de +estimular, recebera seu pae nos braços, com vehemencia, com transporte, +com amor de filho, sentimento para elle novo! + + +XIII + +Do abalo á conversão vae um grande espaço, eriçado de espinhos, que, +primeiro, medram nas lagrimas, e, no fim, se transformam em flores. + +Amar a virtude não é esposa'-la. Rainha de dois mundos, com formosura +immortal, a sua posse custa muitos sacrificios. No estrado do seu +throno, pisam-se as paixões do mundo. Os labios, que a saudam, devem ter +sido abrazados pela oração contricta. + +Os olhos que a contemplam, devem ter sido manancial de lagrimas +purificadoras das maculas hediondas do vicio. + +Mas ha muito que soffrer desde o amor á posse. + +Alvaro da Silveira enamorou-se do anjo do bem, que lhe transluzira de +entre a nuvem com que o ministro de Deus lhe escondia um novo mundo. +Agitára-se-lhe o sangue no coração, e, no scepticismo, a esperança, que +é a vida do espirito. Sentia-se com mais vida, mais alentos e idéas +novas. Aprendera a pensar. Mas o pensamento é o gerador das convicções; +e as convicções são absolutamente um dom exclusivo da verdade; e a +verdade é a perpetua conversação de Deus com o homem. Para Alvaro +existia DEUS! + + +XIV + +A incredulidade tem um sorriso de escarneo para estas transfigurações. +Erma do coração, e fistulada nas entranhas pela podridão do epicurismo, +ri-se, ri-se, ri-se como um demente a quem ninguem contesta o direito de +rir. + + +XV + +Fr. Antonio dos Anjos concluira a sua reza. Gonçalo da Silveira esperava +anciosamente o ensejo de visita'-lo. Mal ouviu passos no quarto, entrou. +Riam-se-lhe as feições, e pulava-lhe o coração na face. O sacerdote +achou-se nos braços do velho pae, que soluçava expressões de +reconhecimento. + +O padre maravilhava-se. + +--Pois a que devo eu esta commoção de agradecimentos?--perguntava elle +enternecido. + +--Salvou meu filho!--exclamava o fidalgo, beijando-lhe as +mãos.--Amenisou-me a velhice... Deu-me um bom fim de vida, e uma boa +morte. Vós arrancastes meu filho do mau caminho. + +Era bem justificado o pasmo de frei Antonio! Gonçalo da Silveira +contara-lhe o que vinha de passar com Alvaro. Exagerára, talvez, as suas +expressões, as palavras do filho, os elogios do mestre, e as esperanças +da sua boa alma. Frei Antonio, que não podia attribuir-se a rapida +mudança do neophito, agradecia tacitamente a Deus o raio luminoso de +graça que fizera baixar ao coração escuro do convertido. Depois, quando +a commoção do contentamento serenou em Silveira, o padre, magestoso como +um propheta, apontou para o crucifixo. + +--É alli--exclamou com uma voz vibrante e pathetica.--É alli, que v. +exc.^a deve ajoelhar e agradecer. + +Gonçalo da Silveira ajoelhou. Pouco mais atraz ajoelhára o padre. + +O lance era sublime, o que ha de mais sublime debaixo do céo. Adorar com +mais fervor, só os anjos na presença immediata do Altissimo! + +Alvaro entrava no quarto do padre, cuja porta ficára meio aberta. Ao ver +seu pae n'aquella postura extranha, e mais atraz, o vulto immovel do +levita, recuou machinalmente. + +Que sentimento o fez recuar? Não saberia elle dize'-lo! Susteve-se +irresoluto. Ergueram-se os que oravam, e ambos olhavam para a porta. +Viram Alvaro, que parecia ceder ao pejo. Pejo! um tal sentimento nas +faces petrificadas pelo gelo da libertinagem! Pejo no mancebo, que se +vangloriava de um cynismo inalteravel! + +--Não quer entrar na sua casa, sr. Alvaro?--perguntou Fr. Antonio, +collocando-se cortezmente fóra da porta do quarto. + +--Vim perturba'-lo...--murmurou Alvaro, hesitando entrar. + +--Não era possivel...--O espirito quanto mais se avisinha de Deus, menos +cede ás perturbações... Nós oravamos com fé, e ardor. E, demais, a +entrada de v. exc.^a não podia distrair-nos para mal. + +Alvaro tinha entrado. + +Agitou-se uma conversação variada entre as tres pessoas. Fr. Antonio, +que vivera na casa do agricultor nas provincias do norte, falava de +agricultura. Gonçalo parecia versado n'este ramo, e applaudia os +melhoramentos, a que elle devia um duplicado rendimento das suas grandes +propriedades. Alvaro escutava, pela primeira vez, um discurso serio, +especialmente sobre agricultura, que elle ignorava desde a estação das +sementeiras á das colheitas. E não parecia enfastiado, com quanto +guardasse um justificado silencio na materia. + +Era já outra a conversa. Frei Antonio estudava a maneira de entreter a +attenção do discipulo. Falou d'esta litteratura amena, que se tornou +universal por ser perigosa, por ser destruidora dos costumes, e dos +estudos sérios. Falou de romances, como falaria de livros canonicos. + +Conhecia-os como um vigilante examinador da origem da immoralidade. +Alvaro conhecia alguns e honrava-os com a posse privilegiada de uma +pequena estante que decorava no seu quarto. Fr. Antonio reparava nas +encadernações de marroquim douradas, e nos titulos com que os +licenciosos _Paulo de Kock_ e _Pigault Lebrun_ assignalaram os seus +thesouros de libertinagem, escandalos da prevertida arte de imprimir. + +Alvaro que não podia impugnar os argumentos do padre, e tivera a +louvavel modestia de ouvi'-lo apenas, não quiz deixar-lhe plena gloria +de triumpho, sem uma observação que elle julgava um golpe certeiro: + +--Mas sua sobrinha--diz elle--é romantica... + +--Que é ser minha sobrinha romantica?--atalhou o padre, sorrindo. + +--Lê romances, escreve romances, pensa como nos romances... emfim, não +vive, nem pensa, nem fala como a maior parte das mulheres... + +--Ora ahi está uma definição de mestre!--disse o padre, soltando uma +risada que parecia um motejo, se não fosse sua.--O romancista deve ser +uma coisa bem extraordinaria!--proseguiu elle, batendo levemente no +hombro do discipulo.--Quem me parece romantico, segundo a arte, é v. +exc.^a, sr. Alvaro. + +--Eu!?--interrompeu Alvaro com innocente admiração. + +--Sim, meu caro senhor. Não póde assim fazer-se uma idéa tão singular de +uma pobre rapariga, sem contempla-la pelos olhos de uma imaginação +maravilhosa! Minha sobrinha é uma artista que trabalha muito para +sustentar-se, e vestir-se. Ora isto é muito positivo, muito trivial, +muito commum com a vida do pobres, onde nunca entrou a palavra romance. +Minha sobrinha nas horas furtadas ao trabalho, lê os livros que eu +escolhi para a sua cultura espiritual, mas todos elles conselheiros da +virtude, da probidade, da paciencia, e do temor de Deus. A sciencia +profana, que eu affeiçoei ás necessidades do seu espirito, é muito +pouca, porque, se fosse muita, seria um desperdicio de tempo, e de +canceira inutil. A sciencia de ser boa filha, boa esposa e boa mãe, +limita-se a muito poucas regras; e uma mulher não precisa outra +sciencia. Minha sobrinha não leu ainda romances. Sabe que existem +enredos torpes, escriptos em bella linguagem, como os cadaveres fetidos +envoltos nos velludos prateados da eça; mas os seus dedos não levantaram +ainda esse envoltorio de podridão. Minha sobrinha fala esta linguagem, +senão geral, a melhor que os filhos podem aprender para falarem a seus +paes, porque minha sobrinha conhece apenas o metal de voz de sua +familia... É isto que v. ex.^a chama «mulher romantica?» + +Alvaro demorou a resposta. + +--Eu pensava--balbuciou elle--outra cousa... O mundo engana-se muito nos +seus juizos. + +--Pois--tornou o padre com tristeza--que juizos são os do mundo a +respeito d'ella? + +--Eu lhe digo... O mundo chama romantica uma mulher, como muitas +mulheres, que os romances nos pintam. Por exemplo, uma virgem, que vive +n'um sonho continuado; que vê anjos onde as mulheres prosaicas não vêem +nada; que scisma em continuas tristezas, ao lado dos que vivem n'uma +continua gargalhada; que busca a solidão, encosta a face pallida á mão +direita, como a estatua da melancolia, e se devora incessantemente sem +poder explicar o motivo por que se devora. É o ideal que a mata; é a +febre d'uma paixão indefinivel que a consome, é a esperança de um sonho, +de que não acorda; é finalmente, a poesia, o romantismo. + +Frei Antonio ouvira religiosamente este harmonico de palavras, que +algumas vezes lhe pareceram desapegadas, e vasias de sentido. +Respeitador das conveniencias, fez calar a verdade austera, que o +mandava pedir uma definição logica de todo aquelle espiritualismo, de +toda aquella linguagem refolhuda. Absteve-se da sua auctoridade, e +transigiu discretamente. + +--Serão esses--diz elle--os predicados da mulher romantica; mas o que eu +posso conscienciosamente asseverar a v. ex.^a, é que minha sobrinha está +tão longe de ser romantica, quão longe de compreender a definição que o +meu amigo acaba de dar. + + +XVI + +Duas occorrencias vieram interromper a pratica: um creado, entregando +uma carta a frei Antonio dos Anjos; outro participando a chegada do sr. +conde de ***, que procurava Alvaro da Silveira. Este fez um gesto de +enfado, e saíu. Aquelle, pediu licença, e abriu a carta. Gonçalo da +Silveira retirou-se menos alegre, mas esperançado na mudança de seu +filho. + +Em quanto o padre lê a carta, entremos no quarto de Alvaro. + + +XVII + +O conde de *** era um homem de trinta annos, typo de galhardia na +libertinagem, esbelto, gentil, apesar de resequido, na face, por certa +aridez da dissolução, que requeima o corpo, ao passo que o viço da alma +vae fenecendo. + +O açor, pairando sobre a avesinha desprevenida, apenas viu que um rapaz +de quinze annos transpozera o limiar do grande mundo, abateu o vôo, +aferrou-o com as garras das paixões licenciosas, e desappareceu com a +presa através de uma atmosphera, onde o veneno se respirava pelo filtro +do prazer. Alvaro da Silveira foi a presa. + +Muitos dos mais apontados em certa sociedade libertina de Lisboa, mescla +de beaterio, hypocrisia, e despejo, quando viram Alvaro da Silveira +ligado ao conde de ***, disseram: «está perdido!» E quem o não diria? + +O conde tinha uma instrucção mediana, que puzera ao serviço da sua +immoralidade. No seu principio, quando a favor do seu nascimento, era +bem recebido nos salões de Lisboa, o conde insultava graciosamente a sã +religião e a piedade. Lera com pertinacia alguns d'esses livros immoraes +e grosseiros aos vinte annos, para grangear um bom cabedal de motejos +contra a religião, e emancipar-se com elles de uma leitura a que +sacrificava as longas horas da noite, como um sobrinho que se violenta, +em noite de orgia, a ficar em casa com o velho tio, porque é esse o +preço de uma herança, que deve, á farta, indemnisa'-lo depois. + +Aos vinte e cinco annos sabia tudo quanto era preciso para insultar a +Deus em nome de uma sciencia impia. Apostolo infatigavel da +immoralidade, não respeitava sexo, nem edade, quando vibrava a ironia, +pungente como uma frecha de fogo, ao seio da moral christã. A donzellas, +a mães, a creanças, a velhas, a religiosas, e a devassas falava sempre +no mesmo estylo. Se acontecia ser mal recebido, assumia uma auctoridade +pedagogica, dava-se um ar de respeito, e justificava o que dissera em +tom de mofa discursando contra o christianismo que elle dizia sepultado +para sempre no tumulo que lhe abrira a sciencia. + +Alvaro da Silveira descreu espontaneamente. Não deu trabalho ao +companheiro, nem quiz profundar uma questão que lhe não importava. A +negação formal era a ultima palavra da impiedade constituida em +sciencia. A Alvaro bastava-lhe saber essa ultima palavra. + +Todavia, a assiduidade da companhia, e o habito de escutar o seu amigo +em polemicas, animadas pela fé de uma parte, e da outra pelo orgulho, +deixaram-lhe uma tintura scientifica de atheismo. + +Alvaro não recebera de seus paes educação religiosa. Esta falta +desmentia a classe d'onde viera. A jerarchia dos brazões em Portugal, +com quanto viciosa, parece gloriar-se com o seu privilegio de fé, e de +virtudes christãs... _extra-muros_. A educação ahi é mais religiosa que +scientifica: é mais para Deus que para o mundo. Não é milagre encontrar +cá fóra o representante de oito seculos de heroes virtuosos e bravos, +enxovalhando-se na lama das covardias e das torpezas: mas raro +encontrareis no colo materno, uma creança de sangue _illustre_, como lá +se diz, cuja primeira palavra articulada não seja DEUS. + +Alvaro da Silveira era uma excepção; o instrumento--quem sabe?--de um +acto providencial. + + +XVIII + +Os esplendidos festins da depravação não se fechavam para alguem. Ponto +era que o conviva fosse bem apresentado, e fechasse os labios da critica +com mordaça de ouro. Já sabeis que Alvaro era rico, e quem o levou pela +mão até o ultimo degrau da escada da immoralidade, fôra um conde tão +rico e tão nobre como elle. + +Este homem pavoneava-se de ter conquistado um nome, que exprimia uma +seita. Chamavam-lhe cynico, e elle gloriava-se do nome. A sociedade +nunca o maltratára, mas elle dizia que tinha uma vingança solemne a +tirar da sociedade. Algoz da honra de muitas familias, a sua guilhotina +era a calumnia, quando não podia mostrar as mãos salpicadas do sangue +das victimas. Velava alta noite a porta de um amigo, que o recebera de +dia, para que os passageiros, ao ve'-lo, o considerassem amante de sua +irmã. Quando o murmurio do descredito chegava aos ouvidos do pae, que +rejeitava a mão de um traidor que o visitava, o conde não tinha duvida +em offerecer galhardamente a esse pae uma pistola, ou um florete. Se o +ancião recuava diante da morte, ou da idéa do abandono em que ficava sua +familia, o cynico ria-se-lhe na face, e chamava-lhe _cobarde_ nas +praças, ou nos salões. + +Assim como conduzira pela mão Alvaro da Silveira ás bachanaes, mais de +uma virgem fôra conduzida por elle á ultima estação da licença. E, +depois, o maldito de Deus, e dos homens, aprazia-se de contemplar o +desenfreamento d'essas mulheres, como se fossem feras, restituidas á sua +liberdade. + +Estas linhas, esboçadas á pressa e com repugnancia, traçam a physionomia +moral do conde que entrára para o quarto de Alvaro da Silveira. + + +XIX + +A carta que Frei Antonio recebera, era de sua sobrinha. Era este o seu +conteudo: + +«Pedi licença a meus paes para escrever-lhe, meu caro tio, e sorriram á +minha supplica. Como não pude adormecer a noite passada, trabalhei e +conclui a ultima encommenda de flôres que tinha. Graças ao Senhor, já +vieram novas encommendas; mas eu sinto-me fatigada dos braços, e não +posso continuar. No espirito sinto eu muita vida, e não posso nem quero +vencer esta consoladora força que o impelle para meu tio. Penso que o +não verei hoje; mas... cedi agora á maneira commum de se exprimir a +gente... eu vejo meu tio em todos os instantes e logares... Deixa-me +escrever uma verdade, que não teria forças de dizer-lhe?... Deus quer +que meu tio seja o prisma por onde eu devo contempla'-lo. Será isto uma +fraqueza de razão, ou uma liberdade peccaminosa? Peccado seria eu calar +este pensamento, que o meu querido mestre pode repreender. + +«Estou triste, como ha pouco. Eu adivinho alguma infelicidade. Sinto-me +com tanta coragem para ella!... Mas a natureza humana, e especialmente o +espirito da mulher, e especialmente o meu espirito, é muito fraco. +Espero tanto em Deus!... tanto em Maria Santissima!... e parece que uma +voz, nem humana, nem divina, me diz que fuja, que trema, que recue ao +combate do infortunio contra a paciencia! Muito triste é isto, meu caro +tio! A minha vida tem faltas, que eu devo expiar? Porque m'as não dizem, +se me amam?! + +«Persigo-o muito, eu bem o sei! Não o deixo em paz, quando tão +necessaria lhe é para estudar a grande lucta em que está empenhado! Não +sei as forças do seu discipulo, mas eu admiro mais a conversão de Santo +Agostinho que as victorias de Alexandre. Aqui estou eu a fazer-me +vaidosa e sabia diante de meu tio, que tambem conhece a minha humilde +ignorancia!... É que estou affeita a conversarmos como escrevo. + +«E a minha melancolia? E os meus versos? Nem me disse se tinham as +syllabas todas, ou quantas deviam ter mais! Nem valia a pena... Adeus, +meu extremoso amigo! Meu pae, e minha mãe, e meus irmãos estão muito +saudosos. Não se esqueça um instante da sua familia que o ama tanto como +a sua sobrinha + + _Maria._» + +--Coitadinha!...--murmurou padre Antonio, dobrando a carta--És um anjo! + + +XX + +O conde tomára uma postura comica de pasmo, quando Alvaro entrou no +quarto. Alguma cousa o impressionára; mas em homens taes as impressões +são fugitivas, e frouxas, porque não ha ahi enthusiasmo, nem grandeza +n'essas almas caídas do sublime para o raso dos sentimentos grosseiros e +triviaes. + +O procedimento do seu amigo devia maravilha'-lo. Era extraordinario! +Apenas entrou no quarto, Alvaro extendera-lhe friamente a mão, e +mandára-o sentar-se com um gesto, muito significativo de fastio. Que o +hospede lhe era aborrecido, bem o denunciava elle no franzir da testa, +onde por força vem á luz da physionomia sentimentos que a delicadeza +quizera algumas vezes abafar. + +--Doe-te a cabeça?--perguntou o conde. + +--Não... doe-me o espirito--respondeu Alvaro. + +--As dôres do espirito, matam-se com _espirito_... mas é de vinho... +Bebe... Obriga a materia a pensar de outra maneira, como diz _Rousseau_. + +--E diz _Rousseau_ que a materia pensa?--perguntou Alvaro, com um +sorriso motejador. + +--Que duvida!... A materia organisada, chamada homem, é uma cousa que +pensa. Quando pensa mal, isto é, quando nos apoquenta, modifica-se a +materia, imprimindo lhe uma acção nova. A maneira de modifica'-la é +simplicissima. Disseste que estavas triste, não é verdade? + +--Sim. + +--Pois bem: bebe cognac, come fiambre, afoga-o em vinho de Setubal, que +é de mais a mais um triumpho patriotico sobre o _Champagne e Bordeus_. +Seja o que fôr o bolo alimenticio, que alojas no estomago, é materia: +esta, posta em contacto com a materia que pensa, altera-a; e d'esta +alteração chimica e physiologica resulta um novo ser pensante, uma +solemne pirraça á tristeza. + +O conde esperava merecer uma risada com a sua dissaborida theoria. Foi +para elle uma segunda surpresa o silencio de Alvaro da Silveira. N'este +silencio transparecia o desprezo a que nos movem as chufas desengraçadas +de um truão, _invita Minerva_, que nos noja, quando pensa recrear-nos. O +conde não estava affeito a estas decepções. O orgulho doía-se. Alvaro +seria o ultimo de quem elle devia esperar um mau acolhimento. + +--Agora vejo eu--disse elle contrafazendo o pejo, que mais acertadamente +chamariamos _despejo_.--Agora vejo eu, que o teu cerebro de hoje +conspira contra a tua felicidade de hontem... que tens tu, mancebo +gentil? A brisa da noite desfolhou-te a rosa, que te embalsamava o +olphato do coração? Sonhaste alguma virgem de olhos garços, que não +pudeste realizar em materia corrente e sonante n'estes reinos? + +Alvaro, nem um sorriso! Era demais para _tanto espirito_! O conde só +agora compreendeu que os seus ditos causticavam a paciencia do +discipulo. Este, apesar de molestado, não queria ser incivil. O +predominio do conde sobre o seu genio não estava inteiramente extincto. +Era-lhe necessario justificar-se de algum modo. Qualquer evasiva podia +servir-lhe; mas a transfiguração do seu caracter, n'aquelle momento, não +lhe permittia uma mentira. Bem podera Alvaro queixar-se de um +padecimento physico, e tinha bem justificada a sua indolencia para as +caricias folgazãs do conde; mas não o fez assim, e, se consultarmos o +coração humano, ouviremos um applauso á franqueza que depois ostentava +Alvaro. É que, se, por ventura, um sentimento novo acorda em nós desejos +bons, o primeiro d'esses desejos é communicar aos outros uma felicidade, +que tanto menos egoista, tanto mais perfeita se nos afigura. A passagem +da indifferença para a observancia da religião revela-se sempre com +esses symptomas. O zelo de um neophito manifesta-se mais corajoso e +ardente que o apostolado de um orador feito, e encanecido em desalojar a +impiedade dos seus ultimos reductos. E depois, no espirito illuminado +pela effusão rapida e imperceptivel da graça divina, ha um desejo forte, +uma vaidade santa de attrair espiritos contumazes, de curvar os joelhos +arrogantes, e de vencer razões, cuja pertinacia nos parece impossivel na +presença dos argumentos que humilharam a nossa. O que então se dá na +alma é uma paixão sublime. A eloquencia do que fala, convicto de +verdades que lhe promettem uma aspiração immortal, parece um emprestimo +da linguagem dos anjos. Ei'-los ahi, de repente, credulos, os apostolos, +que extendiam ha pouco as redes no lago de Gethsemani, e surgem agora +entre os interpretes da lei, nas praças da Galiléa, falando linguas que +nunca ouviram. + + +XXI + +Alvaro da Silveira sentira-se capaz de converter um impio. Ha pouco +ainda, balbuciára as primeiras palavras de fé, e crê-se já robusto para +vibrar a funda contra o gigante do materialismo cuja arrogancia não +vencem forças de homem, sem o impulso divino, que arrojára a pedra que +prostrou o gigante philisteu. + +--Que tens tu?--repetiu o conde. + +--O que eu tenho--respondeu Alvaro--é o desejo de um amigo; mas queria +um amigo, que nascesse n'este momento, e n'um momento me comprehendesse. +Não podes avaliar-me, conde. Se pudesses, ser-te-hia bastante uma só +palavra... + +--Pois bem--replicou o conde--diz ao menos essa palavra... ou diz sequer +tres palavras conceituosas como as de Cesar... + +--Ora attende-me. Tendo nós vivido sempre juntos nunca me persuadi que +pudesse estar tão longe de ti como estou agora. + +--Serás tu romantico?! atalhou o conde dando-se uns ares grutescos de +espanto. + +--Se ouvisses--tornou Alvaro sorrindo--a definição que ha pouco ouvi do +que é ser romantico, e se concordasses com ella, respondia-te que estava +romantico. + +--Pois quem anda cá por casa a dar definições? Teu pae deu agora n'essa? + +--Não foi meu pae... Meu pae o que soube foi definir a minha posição. + +--Apre! Estás mysterioso como o boi Apis! Vou-me embora, que não sei ler +geroglyphos humanos. Palavra de honra! Soletra lá o conceito d'essa +charada, do contrario vou-te mandar preparar quarto na enfermaria de S. +José. + +--Então queres saber quem define os homens e as cousas cá em casa? + +--Quero conhecer esse escolastico; deve ser um monstro de paciencia +humana! + +--É um padre! + +--Um padre? exclamou o conde, erguendo-se, e apertando as mãos á +cabeça--um padre em casa de Alvaro da Silveira! Malagrida em 1844 a +fazer exercicios espirituaes contra os exercicios da materia!... + + +XXII + +N'este momento, abriu-se a porta do quarto. Os que a abriram eram o pae +de Alvaro, e fr. Antonio dos Anjos. + +A presença do sacerdote devia augmentar o pasmo comico do conde; mas a +impressão foi diversa. Este homem do grande mundo perdia muito da sua +altivez sarcastica, se não tinha em redor de si um rancho que lhe +applaudisse as chufas. A unica pessoa de sua confiança, n'aquelle +momento, era Alvaro, mas este apostata do «grande tom» não era hoje o +homem de hontem. E, por tanto, o desenvolto conde na presença do padre +sentiu-se embaraçado, como devera sentir-se o padre na presença de tres +cavalheiros da força moral do conde. + +Frei Antonio dirigiu sua humilde saudação ao cavalheiro, que não +conhecia. Alvaro apresentando-lh'o, disse: + +--Tenho a honra de lhe apresentar o meu amigo conde de ***. É mais velho +do que eu, mas posso dizer affoutamente que sabe menos do que eu da +verdadeira sciencia. + +--A verdadeira sciencia--disse o padre--é um exclusivo de Deus, e não +tem academias cá na terra. + +--Concordo absolutamente na negativa--disse emphaticamente o conde. + +--Então em que é que concordas? perguntou Alvaro. + +--Em que não se sabe nada a respeito da verdadeira sciencia. + +--E em que é que não concorda, senhor?--interrompeu frei Antonio, com +risonha benevolencia. + +--No exclusivo divino em que vossa reverendissima monopolisa a +sciencia--responde o conde sorrindo sardonicamente á palavra +reverendissima. + +--Não me parecem respeitosas as palavras da resposta--retorquiu o +padre--mas nem por isso hesitarei em fazer-me comprehender melhor, para +depois avaliar a opinião de v. ex.^a. Quando eu disse que a verdadeira +sciencia era um exclusivo de Deus, poderia fazer-me entender melhor se +dissesse que o objecto do estudo que promettia consequencias seguras de +principios certos, é Deus. Se v. ex.^a quizer insistir na primeira +intelligencia que deu ás minhas palavras «que a verdadeira sciencia é um +exclusivo da divindade, porque só Deus é omnipotente...» + +--Assim reza a cartilha do padre Ignacio--interrompeu o conde com +acatamento ironico. + +--É verdade--replicou o padre--a cartilha do padre Ignacio, que v. ex.^a +citou em ar de mofa, assim o diz e deve dize-'lo, porque essa cartilha, +por onde estudam os meninos, contém as verdades eternas como ellas foram +recebidas pelos sabios e illustrados doutores da egreja. E como é +possivel que não sôe bem aos ouvidos de v. ex.^a esta minha linguagem, +buscada de emprestimo na cartilha do padre Ignacio, eu não poderei, +falando-lhe a sciencia de Deus, empregar os termos que a falsa +philosophia emprega contra Deus. + +--V. s.^a faz uma grave injustiça á philosophia. Sem a +philosophia--disse o conde, assumindo um ar de séria profundidade--sem a +philosophia não poderiam os padres da seita christã seduzir o espirito +dos homens, a ponto de convencer alguns menos reflectidos, da divindade +do christianismo. + +--E por tanto--acudiu o padre--deixe-me v. ex.^a concluir que a +philosophia é uma mentira, por isso que os padres da seita christã, como +v. ex.^a gratuitamente appelida a egreja catholica, se serviram d'ella +astuciosamente para convencer os menos reflectidos. Ora pergunto eu +agora, quaes são os mais reflectidos? + +--São os que vêem as cousas pelos olhos de uma rasão illustrada! + +--Mas a rasão illustrada não é a philosophia? + +-É. + +--Logo a rasão illustrada é uma mentira, por isso que a philosophia é +uma mentira, que seduz os menos reflectidos a julgarem divino, o que não +passa de uma humana impostura. Póde v. ex.^a elucidar-me n'esta grave +questão, que não vem resolvida na cartilha do mestre Ignacio? + +O conde embaraçado, e surprehendido pela argumentação escolastica do +padre, parecia engasgar-se n'uma resposta, cuja frivolidade lhe estava +bem denunciada no rubor que lhe subia á face. Este rubor era a +arrogancia despeitada. Frei Antonio, repeso de assolar tão cedo o fragil +edificio do seu adversario, remediou o mal que, segundo a sua humildade, +tinha feito, dando elle proprio a mão ao fraco contendor. + +--Estou como v. ex.^a persuadido--disse elle--que ha uma philosophia á +qual faria grave injustiça, se não dissesse que muito lhe devemos por +nos ter aplanado algumas difficuldades em sciencia. Estas difficuldades +vencidas serviram a causa de Deus, e confirmaram verdades claras que a +razão humana julgára mysterios. Citar-lhe-ei um exemplo. Ha um seculo +escreveu-se contra o christianismo, e disse-se que a religião assim +chamada era um encadeamento de embustes desde Moysés até Jesus Christo, +desde o Genesis até o Evangelho. Os que assim escreviam eram +philosophos, sr. conde? + +--De certo, porque os que assim escreveram foram Voltaire, d'Alembert, +Holbac... + +--E outros muitos que não é força citar. Pois, senhor, esses reputados +philosophos disseram que Moysés era uma impostura, por isso que a +philosophia não podia consentir que a relação dos successos da creação +do mundo, descripta no Genesis, fosse verdadeira. Passados annos, as +academias scientificas, especialmente a sociedade de Calecut, +expressamente organisada para testificar ou destruir o testemunho de +Moysés, declara que é impossivel compreender a cosmogonia, isto é, a +formação do mundo, sem admittir as infalliveis bases de sciencia, +escriptas ha cinco mil annos nos livros do povo hebreu. Agora pergunto +eu se devemos julgar philosophos os primeiros que negaram Moysés, ou os +segundos, que, partindo das veredas da incredulidade para o caminho +recto da sciencia, declararam, após cem annos de progresso em sciencias +naturaes, que a narração do Genesis era a unica admissivel em verdadeira +philosophia. Se acreditamos os primeiros a sciencia é uma mentira, por +isso que tanto mais progride tanto mais se afasta da verdade. Se +acreditamos os segundos, os primeiros eram os mentirosos, e por tanto eu +proclamarei a philosophia progressiva como aquella que conduz ao +conhecimento de Deus, tanto quanto é possivel ás indagações da limitada +razão do homem. + +--A razão do homem não é limitada--retorquiu o conde.--Á razão do homem +é que devemos o vasto terreno da sciencia, grangeado pelos esforços +d'esses homens que conquistaram verdades axiomaticas, sem as armas do +Evangelho, e sem as esterilisadoras argucias da theologia. A razão do +homem é amplissima e immensa com Deus, porque Deus é a razão. + +--Não estamos já na questão que discutimos--tornou o padre.--V. ex.^a +devia destruir os meus argumentos, provando-me que os verdadeiros +philosophos eram os do seculo passado que desthronaram Moysés do seu +prestigio de legislador inspirado directamente de Deus. Devia provar-me +que a sciencia moderna, restaurando as tradições da historia antiga, e +restituindo Moysés ao patriarchado das primitivas verdades, era uma nova +impostura, ou a continuação d'aquella sordida ignorancia que Voltaire +combateu triumphantemente, segundo a maneira por que v. ex.^a vê as +cousas. E, estando eu muito convencido da impossibilidade que v. ex.^a +ha de encontrar em provar-me as theses que lhe apontei, vou responder á +apologia que fez á razão do homem. + +Não ha duvida que a razão humana procura todos os dias tirar, em +sciencia, novas consequencias de velhos principios; e effectivamente +esse incansavel trabalho do espirito humano, ancioso de progredir, tem +conseguido tudo isto que nos maravilha nas sciencias e nas artes. Já vê +v. ex.^a que eu concedo grandes fóros, e sublimes honras á razão; mas, +já que tão opulenta a considero, não terei escrupulo em pedir-lhe que me +explique os principios de que ella tira as suas consequencias +scientificas. Pedirei aos chimicos, que me expliquem o seu grande +principio axiomatico da «affinidade». Responde-me v. ex.^a em nome +d'elles? + +--Eu de certo não, porque ninguem soube dizer o que era affinidade. + +--Não é tanto assim. Os chimicos dizem que a affinidade é a força que +attráe as moleculas de differente natureza. Respondem assim, porque +observaram a combinação d'essas moleculas; mas queria eu que me fosse +explicada a natureza d'essa força, o segredo d'esse movimento de corpos +inertes, sem que a mão do homem lhe imprima tal movimento. É a +«attracção» dizem os physicos, mas o que é a attracção? D'onde vem a +força impulsiva que faz girar o globo que habitamos em redor de um outro +globo, que não conhecemos? + +--Não temos precisão de conhecer até á evidencia esses segredos da +creação. + +--Mas v. ex.^a concede que o Creador não os ignora? + +--Seria um absurdo não o conceder. + +--E a razão humana não póde conhece'-los? + +--Já disse que não. + +--Mas v. ex.^a disse que Deus é a razão humana! Eu sinto grandes +difficuldades em combinar a sua these com as consequencias que se tiram +d'ella. Se a razão humana é Deus, o homem é forçosamente divino pela +celeste razão que o illumina. Se o homem, com a sua razão, não póde +profundar os segredos da creação, eu não posso conceder que Deus, pelo +facto de modificar-se em «razão» unindo-se á humanidade, reservasse para +si certos mysterios como «Deus», e cedesse a si proprio o conhecimento +de certas e determinadas verdades como «razão.» + +--Não combinamos em principios, meu caro senhor, e d'ahi vem a +desintelligencia em que estamos nas consequencias. Eu vou explicar-me +com clareza: Eu digo que a razão do homem é uma emanação de Deus. + +--Mas eu não entendo, sr. conde, o que é, e como se opera essa emanação +de Deus. Deus é indivisivel; Deus é inalteravel; Deus é immutavel. Não +posso, por mais abstractas que sejam as minhas intuições, imaginar que a +emanação de Deus não seja uma parte de Deus; e, por tanto, não concebo +como essa parte seja substancialmente diversa do todo. Deus considerado +em si, segundo v. ex.^a, é omnisciente, e vê os segredos da sua obra: +Deus, convertido em razão pelo effeito da emanação, segundo os mesmos +principios, perde os attributos de Deus omnisciente, e restringe-se ao +conhecimento de algumas verdades, por meio das quaes é impossivel +conhecer os mysterios, que ha perto de seis mil annos, os homens debalde +tentam descortinar. + +--Pois v. s.^a não admitte que todo o ser creado é uma emanação de Deus? + +--Não, senhor, não admitto. + +--Essa é boa! Pois a creação não é uma producção de Deus? + +--E a producção é por ventura uma emanação? A estatua de barro que sáe +das mãos do esculptor é uma emanação de esculptor? Deus incorporeo +poderia materialisar-se nas massas inertes, que foram producto de sua +omnipotencia, tanto como o homem que foi feito á sua imagem? + +--Ahi está um grande embaraço para mim. Não comprehendo como o homem +corporeo foi feito pelo modelo de Deus incorporeo. + +--A imagem de Deus, sr. conde, é a alma, não é o involucro material da +alma. Memoria, vontade, intelligencia são os traços d'essa physionomia +espiritual affeiçoada pelo typo divino. Attribuimos á memoria tudo o que +sabemos, diz S. Bernardo, posto que esta sciencia não seja a causa de +nossos pensamentos; attribuimos á intelligencia, e algumas vezes á +memoria, tudo o que o pensamento nos mostra verdadeiro; imputamos á +operação da vontade tudo o que reconhecemos ser bom e verdadeiro pelo +soccorro da intelligencia. A memoria nos assemelha ao Pae, a +intelligencia ao filho, a vontade ao Espirito Santo. Seja-me permittido +citar Santo Ambrosio, em quanto v. ex.^a invoca os textos de Voltaire. +«Do mesmo modo que Deus, diz elle, creador do homem á sua semelhança, é +caridoso bom e justo, doce e soffredor, puro e misericordioso... assim o +homem foi creado para possuir a caridade, ser bom e justo, doce e +paciente, puro e misericordioso. Quanto mais o homem sente em si essas +virtudes, mais se approxima de Deus, e mais semelhança tem com elle. +Mas, se ulcerado pelo crime e pelo vicio, elle se afasta e degenera +d'esta nobre semelhança com o seu Creador, descerá á realidade d'estas +palavras escriptas em predicção bem desgraçada: «O homem não compreendeu +a sua elevada posição; comparou-se aos irracionaes, e assemelhou-se a +elles.» + +--Parece-me muito metaphysica a sua explicação, sr. padre. Eu gosto da +geometria em todas as demonstrações, e não admitto verdades sem +evidencia mathematica. O seu Santo Ambrosio e S. Bernardo explicariam +perfeitamente a semelhança do homem com o seu Creador, mas foi n'esses +tempos em que falavam ás turbas credulas, que juravam em suas palavras +sem entende'-los. Hoje é muito perigoso esse assumpto, e não me consta +que desde o seculo do grande Rei, desde Bossuet até Frayssinous, algum +orador christão torture a intelligencia do seu auditorio, querendo á +força persuadir-lhe que o homem foi creado á semelhança de Deus! + +--V. ex.^a não tem obrigação de ter lido tudo; mas tambem a não tem de +calumniar Bossuet. Se a memoria não me falha, eu lhe cito as palavras +textuaes do grande orador: «Façamos o homem; e proferidas estas +palavras, a imagem da Trindade appareceu. Ostenta-se luminosa na +creatura racional: semelhante ao Pae tem o ser; semelhante ao Filho tem +a intelligencia; semelhante ao Espirito Santo tem o amor; semelhante ao +Pae, e ao Filho, e ao Espirito Santo, tem, no seu ser, na sua +intelligencia, e no seu amor uma mesma felicidade, uma mesma vida. Feliz +creatura, e verdadeiramente semelhante, se ella se occupa unicamente +d'elle! Então, perfeita no seu ser, na sua intelligencia, e no seu amor, +conhece quanto é, ama quanto conhece: seu ser e suas operações são +inseparaveis; Deus torna-se a perfeição do seu ser; a nutrição immortal +da sua intelligencia, e a vida do seu amor... Ditosa creatura, se sabe +conservar a sua felicidade!» + +--Esta é a doutrina de S. Bernardo, de S. Ambrosio, de Bossuet, de +Frayssinous, e de todos aquelles que bebem o leite da fé no seio da +esposa de Jesus Christo. + +--Não duvido; mas não compreendo. O que eu sei é que repugna com a menos +desenvolvida razão a semelhança espiritual do homem com Deus. Eu conheço +homens tão degradados da honra, tão hediondos de crimes, que reputára-me +blasphemo se os considerasse semelhantes no typo divino. + +--Ha de ter paciencia de escutar-me com a attenção de philosopho, se não +póde prestar-me outra.--A revelação figura-nos o homem, não só como o +mais perfeito de todos os seres animados, mas ainda como o rei da +natureza, para o qual foram feitas todas as cousas. Por ella aprendemos +que Deus fez o homem á sua imagem e semelhança, para que presidisse ao +universo. Sabemos ainda que, depois de dar-lhe uma companheira, disse a +ambos: «Crescei e multiplicae, enchei a terra da vossa posteridade, +submettei a vossas leis tudo o que respira; pois tudo é feito para vós.» +«Vós o fizestes senhor de todas as vossas obras!--exclama o +psalmista--todos os entes vivos são submissos ao seu imperio, e +destinados para seu uso.» É verdade que a escriptura varia a linguagem, +quando lembra ao homem a sua construcção de terra, que em terra se +tornará. Assim era necessario para suffocar os orgulhos do coração. Não +é, porém, o longo viver sobre a terra que constitue a dignidade do +homem. Não é sobre a terra, que a felicidade lhe sahirá ao encontro. +Creado para Deus e para a eternidade, só no seio de Deus, e no seio da +eternidade poderá ser feliz d'esse goso inalteravel que não se finda. É +aqui onde começa a cadeia de objecções por parte da incredulidade. Nega +primeiramente que o homem fosse feito á semelhança de Deus. Quem quizer, +porém, convencer-se d'esta verdade, observe com attenção o modo como a +alma exerce suas funcções, e o dominio que ella tem sobre o involucro de +materia inerte, que lhe obedece: Consideremos a variedade infinita das +nossas idéas, a rapidez com que ellas se formam, a communicação por +intermedio da palavra, a fidelidade da nossa memoria, esse presentimento +que raras vezes nos engana, tudo parece approximar-nos da suprema +intelligencia, que abraça de um lance o céo e a terra, as passadas, as +presentes e as futuras revelações da humanidade. A alma, quando furiosas +paixões a não agitam, é capaz de reprimir seus desejos; de acalmar seus +movimentos desordenados, de dirigir sua vontade, e ahi se observa uma, +posto que imperfeita, imitação do imperio que Deus exerce sobre todos os +seres. O sentimento que ella tem de sua immortalidade, seu olhar +penetrante nas profundidades do futuro, e suas esperanças anciosas além +do tumulo, são indicações do seu destino, assignalado por Deus. + +--Essa imagem de Deus--atalhou o conde--está bem degenerada; e, se o não +está, Deus é um ente bem imperfeito. + +--Concordo--tornou o padre--que não é muito semelhante esta imagem do +homem imperfeito com a do seu perfeito Creador; era-o, comtudo, no +momento da creação; foi o peccado que o desfigurou. Mas se o homem +degenerou por causa do peccado, lapso da sua innocencia primitiva, foi +depois regenerado pelo sangue do Salvador, e, assim resgatado, tornou-se +pela graça filho de Deus. O homem, no estado de innocencia, devia +dominar-se, dominar as creaturas todas, e viver perfeitamente com Deus, +seu creador. Eu quereria poder aqui especificar a substancia da alma, +para satisfazer plenamente ás duvidas do sr. conde, mas, se eu posso +provar que a sua espiritualidade está provada pela sua origem, devemos +convir que tudo mais nos é desconhecido. Porque Deus soprou o barro que +amassára, não se segue que a alma humana é uma porção de Divindade, como +os antigos egypcios acreditavam: esta supposição levar-nos-ia ao +pantheismo, de todos os systemas o mais insensato. Deus é um espirito, o +espirito é indivisivel; e, recebendo cada homem no halito creador uma +porção de Divindade, cada homem seria um Deus. O que devemos entender do +sopro de Deus não é uma emanação da substancia, mas sim a creação de uma +substancia semelhante, isto é, espiritual, mas nunca identica ao Supremo +Espirito. + +--Não existe entre o corpo e essa substancia espiritual uma união +real?--interrogou o conde. + +--Certamente, existe, porque o corpo é o instrumento de que a alma se +serve para obter o conhecimento dos objectos. + +--Mas qual é a natureza d'essa união? + +--Essa questão não póde ser solvida pelos homens: é um mysterio +d'aquelles em que a Divindade se manifesta com mais magestade ao debil +entendimento da humanidade. Se, porém, não é possivel chegar á ultima +consequencia d'essa pergunta, não é difficil provar-lhe que uma tal +união existe. A alma possue sobre o corpo a soberania e a independencia +da vontade; rege-o pelo pensamento, sem comprehender a disposição dos +órgãos que rege, e sem que perceba a potencia que move e anima as +fibras. Sabe, por ventura, v. ex.^a explicar-me a natureza de certas +operações incognitas, que se passam em si? Sem a degradação produzida +pelo peccado, este imperio da alma não acharia estorvos no seu +exercicio; mas, no estado actual, a vontade é muitas vezes vencida pela +resistencia dos sentidos. + +--Pois bem, tornou o conde--eu ponho de parte a esteril pretenção de +querer saber onde está a alma, e peço que me diga, sr. padre, que culpa +tenho eu no peccado de Adão, para estar pagando as suas dividas? Isto +parece-me uma flagrante injustiça! + +--Deus é soberanamente sabio, bom, e misericordioso; disse-nos que o +peccado de Adão era uma herança de culpa para todos os seus +descendentes; devemos acredita'-lo. São-nos desconhecidos os motivos +d'esta responsabilidade; mas não se segue que possamos, como ignorantes, +alcunhar de injusto o Altissimo. N'este mundo ha alguma cousa +semelhante. Diz-se que as faltas são pessoaes, e que a vergonha de uma +acção criminosa deve só recair n'aquelle que a pratica. E, quando um +crime estrondoso se dá que é o que nós fazemos? perseguimos com odio e +com desprezo o condemnado e a familia do condemnado, até lhe cortarmos +os vinculos que a prendem á sociedade. Não quero dizer que Deus sinta +estas repugnancias proprias dos homens, porque não sabemos o motivo +porque elle produziu obras, que apenas podemos contemplar; o que dizemos +é que Deus é infinito, eterno, e que a pena do peccado, para estar em +proporção com a sua natureza, deve ser eterna e infinita. No estado de +innocencia, o homem tinha a luz da sua intelligencia, e, degradado pela +culpa, caíu nas trevas; de senhor absoluto da sua vontade tornou-se +escravo dos sentidos; pelo repouso e felicidade que possuia, trocou a +tristeza e o tumultuar das paixões, que o infelicitaram: em logar da +vida espiritual e eterna, encontrou a vida material e a morte. + +O conde atalhou as razões do padre, espreguiçando-se rudemente, abrindo +a boca, esfregando os olhos, com a mais sensivel ostentação de escarneo. +Fr. Antonio sorriu-se com bondade, e disse para o pae de Alvaro: + +--Eis aqui como a philosophia do orgulho, esta rainha comica do mundo, +responde aos que lhe perguntam pelos seus fóros de realeza... + +--Não é isso, sr. padre--interrompeu o conde.--É que eu passei uma noite +pouco orthodoxa e não posso digerir o succo nutriente da sua theologia +sem dormir algumas horas, para restabelecer a boa harmonia entre as +funcções do entendimento e as dos sentidos. Bem sabe v. s.^a que os +apostolos dormiram, e mais era Christo quem lhes pediu que velassem. Ora +eu não tenho a audacia de comparar-me a Cefas, e vossa reverencia não +quer de certo tambem comparar-se ao Mestre... Meus senhores, a minha +noite começa agora... Vou dormir, naturalmente sonharei com S. João +Chrysostomo, e S. Bernardo... Boas noites. + + +XXIII + +As argucias galhofeiras do conde não agradaram a algum dos ouvintes. +Alvaro pareceu vexar-se d'aquella despedida, mais insultuosa que +engraçada, ao padre. Este, porém, supposto que vexado, não se denunciou +pelo mais ligeiro gesto de enfadamento. A coragem para receber +impassivel as ironias sarcasticas da incredulidade, dera-lh'a a +desgraça, e aconselhára-lh'-a a caridade. + +Na ausencia do conde, Alvaro e seu pae esperavam do padre palavras +resentidas; e maravilharam-se quando lhe ouviram dizer com profunda +compaixão: + +--O desgraçado precisa muito das orações de um justo!... Quem me déra +sê-lo para que a luz do céo lhe descesse ao espirito, antes que o +desalento do mundo lhe aconselhasse a religião como refugio das extremas +desgraças da vida! Oh! quando isso acontecer... muito infeliz deve elle +ter sido!... + +Desde este momento apertaram-se os vinculos de piedade, de sympathia +religiosa que prendiam Alvaro e o frade. O mancebo vira a vergonhosa +retirada do seu antigo mestre de atheismo, e decidira-se de coração a +favor do modesto triumpho do humilde padre. Como espirito illuminado +pela fé, Alvaro precisava formar a sua razão pelos elementos de uma +philosophia que Fr. Antonio lhe dissera existir, mas que não era aquella +do seu amigo conde. + +O estudo attencioso, reflexivo, e continuado tornou-se a vida, quasi +invariavel, do educando. Uma transição, assim rapida, assentava o padre +que não podia, sem intervenção divina, explicar a improvisa regeneração +de um homem, que deixára no mundo mil incentivos de paixões que o não +tinham enfastiado ainda. + +A vergonha da virtude, que não pudera vingar n'um coração ulcerado de +vicios, principiou a desabrochar flôres que enfeitavam a conversão do +mancebo d'essas galas de educação, que parecem vindas do berço e +herdadas dos paes. Era o imperio da religião, e unicamente da religião. + +Fr. Antonio dos Anjos, vaidoso com razão da obra, cujo instrumento elle +fôra, não cessava de agradecer ao Altissimo a escolha que fizera de um +peccador para a conversão de outro peccador, para quem o remorso seria +tardio. + + +XXIV + +Na «grande roda», falava-se muito da conversão de Alvaro. Infelizmente, +porém, esta conversão tomaram-na irrisoriamente a maior parte d'aquelles +que se occupavam d'ella, por não terem um caso semelhante de que se +occuparem. Os da sua plana, particularmente, pareciam vexados da +religiosidade do seu antigo camarada, que tão bellas esperanças dava de +correr parelhas no cynismo philosophico do conde. + +Na incerteza de semelhante boato, muitos vieram procurar Alvaro, e +acharam-no prompto sempre a recebe'-los; se, todavia, os seus hospedes +tentavam chama'-lo ao assumpto, que ali os trouxera, Alvaro contava-lhes +uma historia assim resumida: + +«Eu era discipulo do conde ***, assim como vós o sois. Casualmente o meu +mestre de philosophia falsa encontrou-se com outro que me dizia ser o +mestre da verdadeira philosophia. Disputaram por algumas horas: o +primeiro, quando se viu esmagado no seu orgulho, fugiu, cantando um +hymno em seu triumpho, mas um hymno injurioso ao modesto vencedor. +Sabeis o que depois me fez alistar na escola do frade, e fugir á escola +do conde? Foi, talvez, muito pouco: vi que o frade pediu a Deus a +conversão do conde que o insultára, e insultára a Deus.» + +Os que o ouviram diziam depois: «Aquelle pobre Alvaro endoudeceu!... +Coitado!... Seria uma paixão infeliz? Seria desorganisação do +cerebro?... Seria alguma grande perda no jogo?» + + + + +LIVRO III + + +I + +Eram passados seis mezes depois que frei Antonio dos Anjos tomára a seu +cargo a educação de Alvaro. Este mancebo, vivendo uma vida quasi de +reclusão e de immobilidade corporal, fazia grande violencia ao corpo, se +bem que á alma não fazia nenhuma. É que a materia, posto que sujeita á +vontade do espirito, adquire certos habitos, que não seguem facilmente +as modificações do espirito, principalmente quando estas são bôas e +aquelles máos. É como o relevo aberto no marmore pela mão do homem, cuja +imperiosa vontade não póde desfigurá'-los sem que a mão os destrua. + +E a passagem da vida agitada para a meditação sedentaria fôra em Alvaro +rapida, talvez de mais. Fr. Antonio conhecia a inconveniencia d'esta +transição; mas superior a taes receios, o religioso esperava que, na +conversão do seu discípulo, se operasse um continuado milagre. + +A Providencia, porém, imprimira no espirito do mancebo o impulso da +graça, e deixára-o sósinho na lucta do bem e do mal, para que as fadigas +do seu triumpho lhe fossem expiações das cobardias em que se deixára +vencer. + +Ao cabo de seis mezes, Alvaro da Silveira dera sensiveis mostras de um +abatimento, não de espirito, não de coragem, mas d'essa languidez de +todos os orgãos, que parece o cançasso de uma febre intermitente. A +melancolia fizera-o mais concentrado, mais solitario, e até mais +aborrecido de si e dos outros. O estudo não lhe valia já de distracção, +nem as praticas eloquentes do mestre lhe captivavam o espirito. Quasi +sempre fechado no seu quarto, Alvaro, por fim, repellia os alimentos que +lhe levavam, e carregava o sobrolho ás admoestações que o pae ou o +mestre lhe faziam. Frei Antonio quiz ver n'este estado critico os +elementos ainda não inflammados de uma reacção. Tremeu com a idéa de não +vingarem os fructos da boa semente que elle, com tanto esmero e tanta +esperança, cultivára n'aquelle coração desbravado, ao que parecia, dos +espinhos da impiedade. Orou fervorosamente, pediu com anciedade a +tutella do céo para aquelle orphão de pae, de amigos, e de mestre que +pudessem ampara'-lo na sua recaída no abysmo, d'onde parecia ser salvo. +O santo homem chegára a persuadir-se que os seus trabalhos seriam +inuteis, porque o senhor queria puni'-lo da vaidade que elle tivera em +faze'-los proveitosos. + + +II + +N'este conflicto de doridos pensamentos em que a alma do padre andava +trabalhada, inspirou-lhe a sua afflicção um pensamento que longas e +veladas noites lhe alvoroçou o espirito, antes que seus labios o +proferissem. + +Fr. Antonio lembrou-se de conduzir Alvaro á sociedade; leva'lo elle +proprio ao mundo, e buscar ahi em roda de pessoas que se interessassem, +tanto como elle, na regeneração d'aquelle mancebo. + +Mas as relações do egresso eram muito poucas, e quasi se limitavam ás do +parentesco, e ás novas que adquirira na casa em que vivia. + +Onde elle, cheio de confiança, poderia apresentar seu discipulo era em +sua casa, na roda de sua familia, onde desde 1834 não tinha entrado uma +pessoa extranha dessas que são apresentadas pelo seu nome, pela sua +posição, ou pelo seu dinheiro. Ahi, porém, vivia uma menina que não +sabia ainda distinguir o homem que nascera bom, e bom perserverára, do +homem que fôra mau e parecia bom. + +A consciencia do padre não lhe aconselhava confiadamente esse passo, +cuja firmeza era toda responsabilidade sua, porque bem sabia elle que +Alvaro da Silveira, apresentado ao coronel, seria recebido como filho, +e, apresentado a Maria, seria recebido como irmão. + +E foi por isso que em sua alma se debateram com violencia dois +sentimentos oppostos: a confiança e a prevenção. + +Ou porque do céo lhe descesse a inspiração, ou porque as propensões de +sua indole lhe fizessem ver a face do bem empanada pelo véo da maliciosa +suspeita, frei Antonio convidou Alvaro para acompanha'-lo a casa de sua +familia, onde, se quizesse, encontraria as affeições que se encontram +n'uma familia recolhida, que, de ordinario, parece desvelar-se em +communicar aos extranhos a felicidade de amor que lhe trasborda do seio. + +Alvaro, sem fingir-se, não apreciou muito o convite, mas não se recusou +a elle. O habito de obedecer aos insinuantes conselhos do padre foi +talvez o unico movel, que o fez acceitar um offerecimento, que lhe não +promettia distracção á profunda tristeza que se lhe entranhára no +espirito. + +Frei Antonio compreendera esta hesitação, e n'ella viu um prospero +agouro. Seriam illusões de uma boa alma? + + +III + +O padre prevenira sua familia da proxima visita que lhe era destinada. A +mãe de Maria, tão innocente como sua filha, e tão confiada na prudencia +de seu cunhado como na de seu proprio marido, recebeu a noticia com +jubiloso assentimento. O coronel fitou em seu irmão um olhar de +interrogação, que devia ser uma pergunta intima, que os labios tinham +medo de balbuciar: «Por ventura nada receias tu, meu irmão? Sabes que ao +pé de minha filha só póde sentar-se um anjo como ella? Tens a certeza de +que esse mancebo entra em minha casa como no sanctuario da honra?» Frei +Antonio lêra estas perguntas nos olhos de seu irmão, e, como se +precisasse de empregar a palavra que o coronel não ousava pedir-lhe, o +padre apertou-lhe a mão com ternura, e murmurou a meia voz: «Não +temas!... tu és honrado, tua mulher é uma santa, tua filha é um anjo... +Eu serei um peccador, mas não sereis vós os que haveis de expiar as +minhas culpas... Não temas, meu irmão.» + +Maria, quando a nova lhe foi dada, experimentou uma sensação, d'essas +raras sensações que não hão de ter nunca na terra uma palavra fiel que +as defina. Ao ver que nos labios de sua mãe estava um riso de +beneplacito e contentamento, Maria sorriu tambem machinalmente, e ficou +silenciosa, durante a longa conversação que se travára a este respeito. + +Recolhida, comtudo, ao calado abrigo do seu quarto, ao mystico colloquio +das suas tristezas com a imagem de Maria Santissima, a melindrosa menina +consultava-se, com doloroso interesse, no que seria essa nuvem escura de +melancolia, que viera turvar-lhe o espirito, quando ouviu dizer que +Alvaro da Silveira, por cuja conversão tantas vezes ella orára, ia ser +recebido como amigo no seio de sua familia. + +Esta interrogação era como as consultas que nós fazemos do nosso proprio +destino; era como a anciedade vã de levantarmos a cortina do nosso +quadro de existencia d'aqui a annos. Maria quando uma vez escrevera uma +poesia intitulada _presentimento_, dissera tudo quanto podia dizer, vira +o futuro quanto podia ve'-lo, caminhára através da vida quanto podia +caminhar; e, como se os passos lhe cançassem, parou, chorando. É que o +seu poema fôra uma prophecia de lagrimas nunca represadas. + + +IV + +A apparição de Alvaro em casa do coronel impressionou extranhamente +aquella numerosa familia, cuja maior parte não se recordava de ver na +sua sala um extranho. + +Maria foi como sua mãe cumprimenta'-lo, e, pela hesitação em que ia, +pudera julgar-se que a violentavam. O acanhamento das suas maneiras, a +inflexão tremida das suas poucas palavras, denunciariam uma inculta +rapariga d'aldeia, a quem por passatempo aparamentaram de vestidos +senhorís. Na grande roda seria fertil assumpto de risos e gracejos. + +Alvaro, por uma d'essas incoherencias da natureza humana, revelava um +acanhamento quasi semelhante ao de Maria. A prevenção em que o vimos a +respeito d'ella, o conceito sublime que a religião lhe ensinára a fazer +das suas virtudes, e, mais que tudo, a belleza d'essa menina, que elle +nunca encontrára nos bailes, nem, semelhante a ella, se recordava ter +visto outra, foi por ventura tudo isto a extranha emoção que o +sobresaltou e collocou, como costuma dizer-se, n'uma falsa posição. + +E, demais, quem sabe se assim ficam explicados os embaraços de Alvaro? + +Qual de nós não teve na vida uma situação semelhante, d'onde melhor +possa ver a de Alvaro da Silveira? + +Quem é o homem forte e senhor de si, quando a virtude e a formosura, +illuminando a mulher de um santo prestigio, lhe fascinam os olhos da +face e os da alma? + +E, quando o espirito, purgado das fezes da irreligião, contempla a +mulher virtuosa como a depositaria de sentimentos que mais genuinamente +simulam o amor de Deus, é tão natural esse enlevo, esse culto, essa +idolatria no homem que poude encontrar um anjo, onde não esperava já +encontrar senão estimulos de paixões materiaes!... + +Nem se explica de outra maneira a surpresa de Alvaro na presença de +Maria dos Prazeres. + +A virtude tem uma fascinação particular sobre o homem, que não desceu, +na escala da depravação, a ponto de negar a existencia de corações +immaculados. Anojado de estudar a mulher, modelada nas fórmas +invariaveis do salão, onde todas são semelhantes a cada uma, Alvaro da +Silveira, abaixou os olhos diante da primeira mulher, que, em outros +tempos, poderia abater-lhe o orgulho. + +Foi n'esse respeitoso silencio, n'esse involuntario acanhamento de +maneiras, que o mancebo justificou a regeneração do seu caracter. Mezes +antes, se o tivessem apresentado a Maria, ve'-lo-iam empregar todos os +recursos da eloquencia, adaptada a todas as mulheres do «grande mundo» +intimamente persuadido de que aquella, deslumbrada pelos ouropeis da +phrase, saudaria em sua alma a apparição de uma sympathia ardente pelo +genio, pelo talento palavroso, e pelos arrebiques da lingua estudada. + +O coronel, attencioso observador da approximação de Alvaro, gostou do +pejo com que sua filha foi recebida. Frei Antonio a quem competia +encetar uma conversação em que respirassem aquellas duas almas +retraídas, principiou a elogiar modestamente as qualidades do seu amigo. +Alvaro, silencioso, principiava a affligir-se da sua absoluta +esterilidade de idéas, quando, em boa civilidade, lhe convinha agradecer +o acolhimento com que era especialisado n'aquella casa. Não se +acreditaria esta perplexidade, se cada qual não pudesse justifica'-la +com um momento semelhante na sua vida. + +Alvaro achou a inspiração na propria fraqueza, que o mortificava. +Voltando-se para frei Antonio, com as faces rosadas, disse com voz +tremula: + +--Eu creio que perdi na solidão os habitos do mundo, meu caro mestre. +Nem já sei falar, e era d'antes um falador importuno!... A sua familia +deve fazer de mim uma idéa triste... + +--Porque?--interrompeu a mãe de Maria, com insinuante delicadeza. + +--Porque, minha senhora?--retorquiu Alvaro--porque me acho aqui coacto, +entrei aqui grosseiramente, como um saloio que vestiram de casaca, e de +um modo que v. ex.^a de certo não esperava receber um hospede que vive +na roda onde as etiquetas chegam a ser enfadonhas pela demasia de +reparos. + +--Ora, sr. Alvaro--interveio o coronel--nós sabemos o que são essas +cortezias, e palavreados da tal roda, que v. ex.^a frequentou. Minha +filha Maria, essa não as sabe de certo; mas pouco lucrariam, ella, se as +aprendesse e v. ex.^a se lh'as ensinasse. Aqui, a unica pessoa +exigente--continuou o coronel, sorrindo--exigente das genuinas etiquetas +da côrte é talvez v. ex.^a que de lá vem. Tenha, porém, paciencia, se +nos encontra sem o polimento com que se envernizam os mimosos da +fortuna, alegres sempre e sempre cuidadosos de ensaiar-se, quando a +ociosidade os enfastia, na arte de agradar. Aqui tem v. ex.^a as idéas a +respeito dos galhardos faladores de salão, que, segundo ouvi dizer, por +ahi se chamam _fazedores de espirito_. Sejam lá o que forem, eu aprecio +muito a economia de palavras com que v. ex.^a abriu as relações com esta +familia ignorada. Até por generosidade, nenhum hospede, chegado a esta +casa deve exigir de nós os tratamentos apurados de uma refinada +delicadeza. Não os sabemos, nem poderiamos sustenta'-los. Tudo isto vem +a serenar a impaciencia com que o sr. Alvaro da Silveira parece +queixar-se das idéas, que lhe não abundaram, quando tivemos a honra de o +receber. + + +V + +Em quanto o coronel prendia os olhos attenciosos de Alvaro, Maria, +cobrando novos alentos d'aquella especie de familiaridade adquirida +pelas franquezas de seu pae, levantava os olhos meio timidos para frei +Antonio, que até então não desviára os seus das faces encarnadas de sua +sobrinha. Alvaro continuou com o coronel um dialogo sobre o assumpto das +etiquetas, que ambos julgavam, umas vezes, indispensaveis, e, outras, +fastidiosas, em quanto Maria, convidada por seu tio, foi sentar-se +contrafeita ao piano e suspendeu a travada conversação dos dois, que á +primeira corrida do teclado, levaram instinctivamente os olhos e os +corações para o rosto incendiado da formosa menina. + +O que ella tocou não se recordava Alvaro de o ter ouvido. A meia voz +perguntou á mãe de Maria a que opera pertencia aquelle rico trecho de +musica. Em resposta teve um sorriso de modestia, a que o mancebo achou +duvidosa explicação, e, pouco depois compreendeu, quando frei Antonio, +alma franca, e sem reservas de falsa modestia, declarou que a musica era +de sua sobrinha. Maria córou, e apressou-se a declarar que não era +absolutamente original aquella composição modelada por alguns fragmentos +de musica, que ouvira no orgão das Theresinhas. A evasiva não era de +todo inexacta. Maria, affeiçoada á musica do templo, nas suas +composições, procurava sempre como texto as notas que mais lhe afinassem +com o profundo sentimento de terna melancolia, que a dominava, nos +ultimos mezes da sua existencia. + +Frei Antonio estava sendo penoso á natural modestia, filha do pudor, que +a cada instante, se manifestava no rosto purpurino de sua sobrinha. +Homem extranho ás mil conversações com que a sociedade consome as horas +em inutil trocadilho de palavras, entendia que o mais judicioso +passatempo, e até o mais commodo ao espirito de sua educanda, devia ser +a litteratura. Por isso chamou a campo sua sobrinha, e obrigou-a pela +obediencia a entremetter-se em questões, que o proprio Alvaro de bom +grado não quizera quinhoar, com receio de não sair-se bem. Maria, quando +os primeiros terrores se desvaneceram, era sublime aos olhos do hospede, +que a não concebera tão elevada a respeito de certas cousas, que se +dizem, quando a auctoridade dos annos, gastos em aprender, lhes dá um +tom de certeza que, quasi sempre, ajusta mal com a natural simplicidade +de uma senhora. + +Falava-se em romances. Frei Antonio dos Anjos empenhava os seus vastos +recursos scientificos em condemnar esse genero de leitura. Alvaro +abraçava a opinião de seu mestre, e citava-se a si como victima das +perniciosas leituras da sua infancia. O coronel e sua esposa applaudiam +a rejeição dos romances. Maria, porém, e só ella, cheia de humildade, +sem levantar os olhos dos dedos rosados, que se distraiam correndo a +bainha do lenço, contrariava as opiniões dos inimigos dos romances, +depois que a cada um ouvira as razões, mais ou menos fortes, com que a +leitura do tempo era votada ao exterminio. A sua argumentação era +concisa, e quasi sempre balbuciante d'aquelle temor tão proprio em annos +verdes, em presença de um extranho, de um pae, e de um sabio. + + +VI + +Uma hora de convivencia entre pessoas, que sinceramente se communicam em +francas manifestações do que são, é bastante para a familiaridade, para +a estima, e para isto que o coração ambiciona, este bem-estar, nascido +da confiança, inteira e desprevenida, que depositamos em uma roda de +amigos. Raro, porém, estas rodas se deparam. _Amigo_ é uma palavra +profanada pelo uso, e barateada a cada homem que se nos apresenta, como +a _palavra de honra_, que por ahi anda desvirtuando a honra e a amizade. + +As delicias da conversação, expansiva como a confidencia, e +despreoccupada como a ingenuidade, essa não se conhece nos salões, onde +o epigramma recebe os louros da eloquencia, e o espirito acerado e +cortante conquista as ovações do talento. A murmuração, bem salgada de +ironias galhofeiras, é a raínha das conversações, coroada pelo diadema +da hilaridade, que, muitas vezes, não poupa o primeiro da roda, que se +retira, nem o dono da casa, que fica, pela sua parte, cotejando os +vicios dos seus hospedes _espirituosos_. + +D'esta feição eram as praticas, em que Alvaro da Silveira, adestrado +pelo conde de *** primára como bom artista de _equivocos_, e +trocadilhos, em que o sarcasmo acre e engenhoso, pegava delicadamente +pelos cabellos da victima, e a empalava nos tractos da zombaria, iguaria +saborosa, a unica, talvez, para os paladares estragados. + +Era, pois, uma novidade para o seu espirito aquella franca exposição de +sentimentos, de mais a mais interessantes pelo lado da intelligencia, e +sympathicos para o coração de todos, e especialmente do mancebo, que se +extasiava, na presença de um talento de mulher, flôr aberta em +exhalações de um novo perfume, para elle, que nunca a vira tão bella e +tão fascinadora no dom da palavra. + +Maria compartira de sentimento de confiança, que viera dissipar os +temores de Alvaro. Sem a candura, e a innocencia, na franca exposição +das suas idéas ácerca de romances, Maria não diria tanto, nem se lançára +tão seguramente na opinião contraria á de todos. A sincera menina, +ingenua como as suas intenções, viu no mancebo, que tão aceite era aos +seus, um amigo digno de se lhe dizer tudo o que, em cousas litterarias, +se diria a frei Antonio dos Anjos. + +Alvaro da Silveira estava sendo digno da sua confiança. E tanto o era, +que uma nobre vaidade lhe alegrava o espirito, ao ver-se, tão depressa, +merecedor da franqueza com que o recebiam, e da irmandade, com que Maria +dos Prazeres lhe respondia aos seus argumentos na questão em que todos +se interessavam. + +Frei Antonio era um sabio; mas os sabios de todas as posições sociaes, e +particularmente os sabios creados no claustro, sustentam prejuizos, que +as mediocridades lhes combatem com as debeis armas de uma sciencia +superficial. Frei Antonio pensava mal dos romances, por que lera um ou +dois, ou mil d'esses que por ahi envergonham a arte, e indignam o pudor. +Alvaro da Silveira, que devorára tudo quanto os ultimos annos tinham +creado de mais licencioso na litteratura franceza, odiava então os +romances aos quaes erradamente imputava os seus desvios. O coronel e sua +mulher jurava nas palavras de frei Antonio. Maria, porém, que não lera +romances, nem mostrára o mais leve desejo de os ler, apresentava na +defesa de tal leitura o instincto da adivinhação, a presciencia do +talento, que um relampago, ás vezes, parece alumiar de improviso. + +--Eu não sei--dizia ella--como os romances possam perturbar a minha +tranquillidade! Que é o que elles dizem? Contam a vida como ella é; +matam as illusões de quem a suppõe melhor; antecipam o conhecimento da +realidade? Isso que tem? Um bom mestre, encarregado de levar pela mão o +discipulo na estrada do mundo, cheia de precipicios, que é o que faz +senão apontar ao innocente os abysmos, que se escondem debaixo das rosas +seductoras? Que é o que tem feito meu tio a meu respeito? não é +levantar-me a cortina do que são segredos para mim, e mostrar-me a +triste realidade do que por ahi ha, apenas agradavel aos olhos da +innocencia? Eu penso que o romance, espelho fiel das boas e más +situações da vida, não póde fazer-me desejar o que é vicio, nem +aborrecer o que é virtude... + +--Mas se o romance--interrompeu Alvaro--descreve o crime com as bellas +tintas da seducção? + +--Não importa, o escuro do quadro lá está no crime: as fezes do absyntho +lá estão no fundo do calix--retorquiu Maria--não sei se digo a verdade: +mas imagino que ha nos romances um mau principio, que só deve prejudicar +as pessoas, que os lêem com o coração arruinado, e os olhos fartos já de +ver a realidade de tudo o que ha mau. É natural que o romance, para +fazer bons certos actos do seu heroe, precise de aniquilar a moral +religiosa d'esses actos, e justifica'-los pela moral da falsa +philosophia. Isto me tem dito meu tio muitas vezes, e eu tenho pensado, +outras tantas, na influencia que poderiam exercer sobre o meu espirito +essas más doutrinas, revestidas de seductoras falsidades. Nenhuma, creio +em Deus e em mim, que não. Mal de mim, e da minha fé, se o primeiro +incredulo, com talento de bem escrever, e falsificar a verdade, pudesse +alvoroçar a minha consciencia, a ponto de destruir com a pagina de um +livro o que eu recebi pela educação, pela meditação, e pelo estudo!... +Tomára eu saber tudo o que o mundo tem de bom e de mau... que me +dissessem a flôr em que a aspide se esconde, e o espinho que muitas +vezes, soffrido com resignação, nos póde dar depois momentos de prazer. +O que eu acho triste e perigoso é crescer, tocar a altura em que a +intelligencia raciocina, e o coração se emancipa dos descuidos da +mocidade, ser mulher, entrar no mundo, julga'-lo a continuação do seio +de sua familia, e ter de perguntar a cada instante á cabeça, que não +sabe, até que ponto são razoaveis os preceitos do coração... + +Maria foi de improviso tocada pelo receio de se ter excedido. Córou, e +abaixou os olhos, como se sua mãe lhe significasse, em um gesto, o +desgosto de ouvi'-la. + +Alvaro, suspenso dos labios d'ella, fascinado pelo som d'aquella voz, +que parecia exercer o imperio do silencio sobre o coração de todos, +sentia-se elevado a um assombro de admiração, onde quasi sempre o +respeito profundo, ou o amor repentino se assenhoreiam do talento e do +espirito. + +Era um amor, que nascia, e respirava uma atmosphera embalsamada de +perfumes, amor, que nunca, em suas passadas affeições, lhe coára no +coração a vida suavissima da paixão tranquilla, sem sobresaltos de +remorso, sem temores de culpa, e sem receios de insultar a Deus ou aos +homens. No coração de Maria, o que se passava era uma sensação de +ternura, o desabrochar de uma nova flôr de amizade para offerecer a +Alvaro, como a offertaria a um seu irmão, que viesse de longe, pela +primeira vez, reconhecer a sua irmã. Se, todavia, lhe perguntassem o +segredo mais intimo da sua existencia desde aquelle dia, ella não teria +nenhum a revelar. O mais que poderia accrescentar ao que a sua familia +sabia do seu coração, a respeito de Alvaro, é que desde o dia, em que o +viu, as suas orações por elle foram mais repetidas, mais fervorosas, e +mais tocadas pelo interesse de uma amiga, que quizera gloriar-se de ter +concorrido para a regeneração de um anjo. + + +VII + +Á primeira visita succederam outras. + +Alvaro realisára as esperanças do padre. A sombria tristeza, que +assustára o mestre, cedeu a uma alegria doce que sorria no semblante do +discipulo. O pae d'este, compartindo no contentamento do filho, quiz +tambem conhecer o asylo de paz santa onde Alvaro fôra encontrar a +felicidade, que o mancebo dizia não ser cousa impossivel na terra, desde +que visitara a obscura familia de frei Antonio. + +Redobrou o prazer do padre. O velho fidalgo foi acolhido como pae de um +moço que era alli estimado como parente e recebido sem vislumbre de +suspeita má. As noites passavam rapidas para todos. Cousas pequenas, +passatempos quasi pueris, entretinham velhos e moços. Silveira, tão +zeloso da honra do coronel como elle proprio, espionava as intenções de +seu filho, como quem receia que a virtude não esteja ainda tão enraizada +n'aquelle coração juvenil, que o torne frio para os mil encantos de +Maria dos Prazeres. + +Eis aqui um dialogo entre o pae e o filho, quinze dias depois que +frequentaram juntos a casa do coronel. + +--Parece-me que és feliz, Alvaro. + +--Sou, meu pae, sou muito feliz. Se eu dissesse que não sou, era ingrato +a Deus. + +--Pois, filho, sê digno das mercês que Deus te faz. Põe da tua parte a +força e a virtude para continuar a Merece'-las. A virtude, Alvaro, a +virtude. Nunca te esqueça esta palavra: seja sempre a tua ancora, se a +tempestade vier depois da bonança... + +--Nunca a esquecerei, meu pae. Cada dia se me dobram as forças para +vencer o mal. As reminiscencias do passado affligem-me e envergonham-me. +Em quanto eu olhar assim para o homem que fui, nunca me será preciso +luctar com as tempestades, em que o refugio está na ancora da virtude. + +--Pois sim, filho; mas por mais risonho que esteja o céo e calmoso o +mar, não largues nunca a ancora: tem-a sempre apertada ao coração, +porque é lá d'onde rebentam as maiores tempestades. + +--No coração? Eu creio, pae meu, creio que é nas tempestades do coração +que se morre... + +--Se a virtude nos não vale... + +--A intenção com que me diz essas palavras... + +--É boa, Alvaro; é a intenção com que um bom pae aconselha um bom filho, +e até um mau filho. Que perda para todos nós se o coração que se te +renova hoje, meu filho, obedecesse a uma impressão das que se não deixam +vencer por pequenas resistencias... + +--Fale, fale, meu pae... tenho precisão de ouvi'-lo porque preciso que +me anime a falar-lhe. + +--Adivinhei a tua alma? + +--Não sei o que vae dizer-me... Quer-me falar da... + +--Da filha do coronel... quero falar-te d'esse anjo que nos tem captivos +a ambos, e nem eu sei qual de nós daria mais depressa a vida para que +nunca um desgosto por nossa causa lhe banhe de lagrimas a face. + +--Que desgosto podemos dar-lhe, meu pae? + +--Que sentes por ella, Alvaro? + +--O pae adivinhou-me... _é um anjo que nos tem captivos a ambos_; mas o +meu captiveiro é cheio de consolações, é uma prisão que me não custa +desgostos nem frenesis... Não vê que sou tão feliz assim? Se me dão a +liberdade, fazem-me desgraçado. Amá'-la... + +--Amá-la!?...--interrompeu o pae com sobresalto. + +--Amá'-la, sim, pois não é isto amá'-la? O que sinto, o que senti, +vendo-a uma só vez, tem alguma semelhança com tudo o que me fez +vertigens do coração n'outro tempo? Amá'-la, sem que eu lh'o diga, +adorá'-la, com a devoção dos justos, recolhe'-la em segredo á minha +alma, e tão em segredo que nunca ella possa temer uma só palavra menos +innocente que todas as nossas conversações... ama'-la, assim, meu pae, +provocar as tempestades do coração? + +--É, filho. + +--É? então, meu Deus, não ha virtude que resista ao impulso de uma +mulher! O homem, que quizer viver em boa paz com o céo, ha de renunciar +a tudo que está na terra proclamando a grandeza de Deus. A religião, que +nos não veda o amor, está em contradição com a virtude... + +--Não está, Alvaro. A religião creou um sacramento para santificar o +enlace dos corações que se inclinam para um fim justo, para uma união em +que a virtude é o vinculo de cuja quebra ha tremendas contas a dar, e +grandes expiações a soffrer na terra. + +--Pois bem, meu pae... + +Alvaro sustára o pensamento que vinha aos labios, em quanto as lagrimas +se mostraram. + +--Diz, Alvaro. Tu ias dizer alguma cousa que te fez chorar. É +sensibilidade ou arrependimento? + +--Melhor é que o não diga, meu pae... Eu preciso estudar-lhe o coração. + +--De D. Maria dos Prazeres? não é necessario, filho. O coração d'essa +menina não é um livro fechado, é um espelho. Vê-lh'o na face, nas +palavras, na educação... + +--Não é o coração de Maria dos Prazeres. + +--Pois qual? + +--O de meu pae. + +--É o coração de um pae... que mais queres que te diga? + +--Gosta de Maria dos Prazeres? + +--Se gosto!... Não te tenho eu dito que o coronel não deve queixar-se +das injustiças dos homens em quanto lhe deixam o throno d'aquella filha? + +--O pae quereria ter uma assim? + +--Quizera assim dar-te uma irmã, filho... Oh se queria!... + +--E uma esposa?--disse Alvaro balbuciante. + +O pae não respondeu. As palpebras cerraram-se-lhe, que era esse o seu +costume na meditação. Com os dedos da mão direita comprimiu o labio +inferior, tirando por elle. Passou a mão esquerda por entre os cabellos; +e, depois de alguns segundos, disse: + +--Queria. + +--Queria assim dar-me um esposa? + +--Queria. E serias tu digno d'ella? + +--Não ouso responder. + +--Pois medita. + +Silveira ergueu-se. Tomou a mão do filho, e apertou-lh'a com commoção, +dizendo-lhe como quem profere um juramento na presença de Deus: + +--O homem que maltratar aquella mulher deve dar terriveis contas da sua +crueldade. Medita, Alvaro. + +E deixou-o. + + +VIII + +Ao mesmo tempo, Maria dos Prazeres, e sua mãe, tinham o seguinte +dialogo: + +--Se tivesses uma amiga muito do coração, minha filha, não terias pesar +se ella te adivinhasse um segredo que tu deverias ter-lhe confiado? + +--Pesar... conforme, minha mãe... Ha segredos... + +--Que se não dizem a uma amiga? + +--Que se não dizem por que se não sabem dizer... + +--E sentir, sim? + +--Porque me faz semelhante pergunta, minha querida mãe? Não se queixe de +mim, não? + +--Pois eu vou queixar-me, Maria?! + +--Falou-me em pesar... e eu começo a senti'-lo... + +--De que? + +--Se eu pudesse... se eu soubesse dizer-lhe o que sinto... Deus sabe que +o meu coração é incapaz de se esconder aos seus olhos, e mais depressa +se esconde aos meus. + +--Nada tens dito a teu tio, filha? + +--De que?... diga, mãe, eu que devia ter dito a meu tio? + +--Tudo o que sentes hoje, assim como lhe dizias tudo o que se passava em +tua alma. + +--E eu sei!... + +--Sei eu, Maria. Olha, filha.. O amor de tua mãe, de teu pae, de teu bom +tio, de teus queridos irmãos é um amor immenso; é, eu e tu sabemos que +é; mas... olha... ha no teu coração espaço para mais amor... Córas, +Maria? Vês como a tua alma vem falar-me no teu semblante? + +«Pois porque não, se essa alma é a minha, a da minha filha que não póde +estar calada diante de mim, ainda que os labios se não abram! Sei tudo, +Maria. Agora, se não queres que te fale como mãe, aqui me tens como +amiga. Vamos... levanta para mim os teus olhos... conversemos sósinhas. +Tu amas Alvaro. A tua melancolia é amor. Esse córar, quando não accusa +uma culpa escondida, é amor. Na tua edade, se o contentamento foge do +coração, é que não cabem lá os gosos serenos da innocencia, mixturados +com as esperanças vagas, com os desejos desconhecidos, com as saudades +de não sei que recordações de uma outra vida em que todas as nossas se +povoam de anjos. + +«Ha um mez, filha, não me entenderias esta linguagem. Hoje sou eu a que +falo por ti, e cada palavra que me ouves, é um peso que te levanto de +sobre o coração, não é? Assim é que tu querias falar-me, e eu +desopprimo-te, explicando a confissão que tens nos labios, e não +confessas. Pois bem, Maria, louvores sejam dados á tua bella alma! A tua +sensibilidade não póde ser só da tua familia: deve extender-se a tudo +que te rodeia. + +«Eu esperava isto desde o momento em que vi entrar n'esta casa um homem +protegido pela confiança de meu cunhado. Sem virtudes, Alvaro não seria +aqui trazido; e, sem virtudes, Deus não quereria que tu sentisses por +elle a sympathia que prende a innocencia á honradez. Poderei enganar-me +eu, que sou velha? Posso, filha... E que farás tu que és creança? +Estaremos ambas enganadas, amando-o ambas. Porque eu tambem o amo, +filha; estou familiarisada com elle, vejo-o aqui entrar sem me sentir +constrangida. Custa-me a crer que o conheço ha tão pouco tempo!... + +«E teu pae? Fala-me d'elle com certo interesse que me parece +providencial. Nunca me disse que reparasse nas tuas acções, nem +reflectisse nas palavras de Alvaro. E eu, reflectindo, ainda lhe não +ouvi uma que desdiga das primeiras. Sempre a mesma bondade, o mesmo +acanhamento honesto, a mesma docilidade, e não sei que interesse de +filho por mim, e de irmão por ti. Teu tio, cada vez mais alegre com +estas relações; teu pae, nem a mais ligeira sombra de desconfiança; teus +irmãos querem-lhe como a ti; o pae d'elle quer por força que sejamos +seus parentes, e diz-me que veiu saber entre nós o que era a felicidade +domestica... Jesus! é impossivel que tudo isto seja engano! + +«Oh minha filha, o teu coração é puro, e eu quero ouvi'-lo mais a elle +do que ouvir-me a mim. Diz-me se não agouras uma grande felicidade para +ti, e para os teus? Confessa-me o que pensas quando estás triste... Diz, +diz, Maria... + +A filha atirou-se a chorar ao seio da mãe. Balbuciava palavras sem +sentido. O coração batia forte, e o tremor convulso dos braços, em redor +do collo de sua mãe, suppria a falta de expressão. + +Assim as encontrou frei Antonio entrando sem se annunciar. + + +IX + +--N'esta casa chora-se mais do que se reza--disse o padre. + +--Não são peccaminosas as nossas lagrimas, meu irmão...--disse a mãe de +Maria. + +--Pois então dizei-me por que choraes. + +--Logo, logo... + +Maria beijou a mão do tio, e saía, enxugando as lagrimas. + +--Onde vaes tu, menina?--disse o velho. + +--Vou trabalhar, meu tio. + +--Havemos de falar logo. + +Ella saiu, e o frade disse a sua cunhada: + +--Vá chamar seu marido e venha com elle. + +O coronel entrava n'este momento. + +--Ei'-lo aqui. Ora vinde cá ambos; temos muito que dizer e que pensar. +Dizei-me cá: o que vos diz o coração a respeito de Alvaro? + +--Bem; parece-me um bom moço. + +--E o vosso, minha irmã? + +--Tenho-lhe affeição de mãe, estou familiarisada com elle como se o +conhecesse desde creancinha. + +--E sabeis o que Maria pensa a respeito d'elle? + +--Soube-o--disse a cunhada--no momento em que meu irmão entrou. As +lagrimas que viu nos olhos d'ella eram a confissão do seu segredo. + +--Pois que disse ella?--atalhou o coronel. + +--Nada, quasi nada... Vendo que eu lhe adivinhava o coração, +lançou-se-me ao pescoço, chorando. Disse quanto podia dizer. + +--Ama-o, em summa--disse o frade--Não admira; o moço é digno d'ella, e a +Providencia quer que se amem... + +--E que tem ella que esperar d'esse amor?--interrompeu o coronel. + +--Tem que esperar as consequencias de uma affeição approvada por seus +paes... + +--Se elles a approvarem, meu irmão. + +--Pois tu reprovas o amor da tua filha a Alvaro da Silveira?! Eu fico +por elle... Quereis melhor fiador? Dou-vos a virtude de Maria. Se a nós +não defendermos, defende-se ella. + +--Sabes pouco do mundo, meu irmão--redarguiu o coronel. + +--Não sei muito, não; mas o que é preciso saber para o nosso caso, sei-o +de auctoridade certa, que é o presentimento bom que me dá resolução. O +pae de Alvaro diz-me que seu filho quer Maria para sua esposa, e elle +pede-a para sua filha. Que respondeis? + +--Eu respondo que sim, que lh'a dou com toda a vontade, com todo o +coração--disse a mãe de Maria. + +--E eu--disse o coronel--respondo que estudes bem o caracter d'esse +moço, e quando, passados mezes, não vier algum accidente inopinado +alterar a opinião que tens do seu merecimento, virás então consultar a +minha vontade. + +--Dizes bem, meu irmão--tornou o egresso--Penso ter-me enganado, e ainda +agora caí em mim, e na fraqueza dos meus juizos. Disseste bem: eu +conheço pouco do mundo. + +--E não sabes--continuou o coronel---que certos homens, sem serem +hypocritas, apparecem inesperadamente bons; ás vezes uma pequena +alteração no seu modo de pensar, produz grandes mudanças na vida +exterior. Eu recordo-me de um grande phenomeno na minha vida de mancebo. +Aos dezoito annos era eu rapaz desenvolto, vicioso, desobediente a +nossos paes, e desprezador de alguns deveres bem sagrados. Amava o +escandalo estrondoso; e a publicidade das minhas loucuras desvanecia-me. +Vi esta mulher, que é tua cunhada, e amei-a. Os paes d'ella eram +exemplares de virtude, e quem houvesse de merecer-lh'a devia ser +virtuoso. O talvez menos habilitado para lh'a pedir era eu. Resolvi ser +hypocrita; deu nos olhos a minha improvisada virtude, e consegui levar a +nova da minha conversão ao conhecimento da familia de minha mulher. +Senti augmentar-se o meu amor ao passo que a violencia, que eu me fazia +para ser bom apparentemente, ia deminuindo. Até cheguei a convencer-me +de que os virtuosos sem mascara eram felizes. Pedi minha mulher, e +concederam-m'a. Casei... e depois... + +--Foste sempre um bom marido...--interrompeu ella. + +--Se tu o dizes, devo acredita'-lo, e a consciencia tambem me diz que o +fui; porém, a explicação da minha reforma tem alguma cousa singular. +Fiz-me bom por orgulho, primeiro. Os nossos conhecidos, e +particularmente os meus rivaes, diziam que eu te faria desgraçada. +Entrou o meu amor proprio no combate, e tu foste feliz. Quando o mundo +já não reparava nos meus actos, e calava envergonhado os seus +vaticinios, era eu teu amigo, teu verdadeiro amigo, sentia-te muito +dentro do coração, e já não poderia, se quizesse, expulsar-te de lá. +Appliquemos o conto: Alvaro da Silveira, com quem sympathiso, foi o que +tu sabes, meu irmão. + +«Ainda não ha quatro mezes que o encontraste entregue aos prazeres de um +gosto pervertido. Em poucos dias mudaste-lhe as inclinações; mas o +aborrecimento em que o viste, deu-te receios de que o teu balsamo fosse +inefficaz. Conduziste esse homem a minha casa; conheci que Maria o +impressionára, e, depois de dois mezes de frequencia constante, Alvaro +quer casar com minha filha. Quando se ama, meu irmão, é facil fingir +dois mezes uma virtude que não tem raizes no espirito, e as que tem +sómente no coração morrem, quando o amor acaba. Não duvido que Alvaro +ame extremosamente minha filha; mas receio que não seja amigo d'ella: +cousas muito diversas, cuja diversidade só bem se conhece dos trinta +annos em deante. Um casamento rico não me lisongeia. Habituei-me a esta +pobreza, e sou feliz, não sei até se alguma vez o fui mais do que hoje. +Maria tambem é feliz. Vê, sem deslumbrar-se, os esplendores da +sociedade. Sentiu privações em creança, e hoje, não as sentindo, +agradece a Deus uma prosperidade que seria indigencia, se ella tivesse +conhecido a abundancia, o fausto, e as demasias de prazeres e dissabores +que sua mãe conheceu. Não a casemos para a fazermos rica. Se esse moço +póde dar-lhe ao espirito novos gosos, seja elle embora seu marido; eu, +porém, não creio que elle possa communicar-lhe o que não sente. +Estuda-o, meu irmão; estuda'-lo é esperar. Entretanto Maria aprenderá de +sua mãe as lições que deve receber uma menina que vae ser mulher. + + +X + +Frei Antonio era esperado anciosamente de Alvaro. Dos labios do frade +pendia a sua felicidade. Fôra elle encarregado por Silveira de propor ao +coronel o casamento, com que o pae queria recompensar as virtudes de uma +familia, á qual devia a regeneração de seu filho. + +O egresso recebera com tristeza o enthusiasmo do discipulo. +«Esperemos»--foi a sua unica palavra. Alvaro sentiu-se ferido no seu +amor-proprio, e experimentou um abalo do seu genio. Se o padre soubesse +ler nos olhos o coração, veria mover-se a areia sobre que fôra levantado +o edificio da virtude de Alvaro. + +O velho Silveira não se doeu menos das reflexões do coronel. +Irritára-lhe a sua fidalga susceptibilidade. Pretextando-se incommodos +de Alvaro, suspenderam-se alguns dias as visitas. + +Maria, porém, extranha aos reparos de seu pae, não vendo em tres noites +seguidas Alvaro, denunciou a impaciencia da saudade. + + +XI + +Silenciosa em sua magua, Maria deixava-se adivinhar, mas não gemia, nem +perguntava a causa do ar sombrio de seu pae. Esperava anciosa as noites, +via entrar seu tio só, e nem por um lanço de olhos lagrimosos lhe +perguntava que mal fizera ella a Alvaro. + +A pena, porém, era grande, e sem desafogo. Maria sentiu a desdita que +presentira, um anno antes; compreendeu a significação amarga d'aquelles +singelos versos que fizera nascer uma musica triste, filha da sua +imaginação. + +Adoeceu, sem queixar-se; caíu no leito, quando já não podia esconder de +seu pae a febre constante que a extenuava. + +Veiu o medico do corpo, e conheceu que a dor estava na alma. Frei +Antonio sabia que ella podia morrer d'aquella febre. Foi, com sua +cunhada ao pé do leito de Maria, e disse: + +--Menina, o nosso amigo Alvaro vem hoje visitar-te, se tiveres forças, +sáe da cama e vem agradecer-lhe o cuidado; se não, outro dia será. + +Aumentou o rubor nas faces das enferma. Voou-lhe um innocente sorriso de +ventura nos labios. Parou-lhe de repente, a vertigem do sangue. +Reappareceu-lhe o sol do coração, a florescencia da phantasia, o céo dos +seus extases, e a claridade radiosa do seu ar balsamico. Era a que fôra, +quando se lançára a chorar de feliz nos braços maternaes. + + +XII + +E dizia o coronel a seu irmão: + +--Deus me livre de ser cruel para minha filha... Os homens muito +experimentados na desgraça vêem tudo pela face peor. Póde ser que sejam +dignos um do outro. Casem embora, e queira o céo que eu me arrependa mil +vezes de ter agourado mal d'este casamento. Diz a Alvaro que lhe dou +minha filha, e diz-lhe mais--que vae com ella a minha vida, vida que eu +lhe dou, pois antes quero perde'-la, se hei-de um dia vê'-la infeliz. +Que elle me mate, antes de fazer chorar Maria as primeiras lagrimas de +arrependimento. + +--Não sabes como elle lhe quer...--disse o padre. + +--Tambem eu queria muito ás flores em quanto o viço d'ellas não +desmaiava na minha mão. Depois, que valia uma flor sem perfume, sem +seiva, amarellecida? Via-a caír sem dó, folha a folha, e, descuidado +d'ella por amor das outras, punha-lhe em cima um pé indifferente. +Compreendes o que é o homem, meu irmão? Melhor o compreenderás assim; +não t'o quero pintar na linguagem propria... Na mão de Alvaro será Maria +o que as flores foram na minha? + + +XIII + +Foi restaurada a confiança entre as duas familias. Consentiram-se +expansões sem testemunhas aos dois amantes. + +A nuvem que lhes encobrira alguns dias o bello horisonte do seu destino, +afervorára-os para mais da alma saudarem a reapparição, para mais se +quererem. + +Alvaro apressava o enlace. O coronel não o retardava nem o accelerava. +Entrára-lhe profundamente a desconfiança na alma. Sua mulher tentava em +vão destruir-lh'a. O frade chegava até a considera-la peccaminosa e +ingrata aos favores do céo. Maria nem sequer imaginava que podia ser-se +infeliz na situação d'ella; e contristava-se por não ver seu pae alegre +como todos. + + +XIV + +Frei Antonio foi o ministro do sacramento. Abençoou-os na capella de +Alvaro da Silveira. A um dia de jubilo, seguiram-se muitos dias de +felicidade intima. Em casa, porém, do coronel, chorava-se muito. Faltava +alli a alma d'aquella familia. Os irmãos de Maria, alguns ainda +creanças, estavam affeitos ao seu regaço, ás suas lições, e ás suas +carinhosas repreensões. O coronel não queria ver a cadeira em que Maria +se sentava, o piano, o açafate da costura, tudo que parecia chorar com +elle a falta da sua dona. Sentava-se a familia triste e taciturna em +redor da mesa. Olhavam todos, sem consolar-se, para o logar de Maria, e +rompiam de todos os olhos as lagrimas. Erguiam-se, vendo o pae +erguer-se; apenas a mãe ficava, com o coração partido, dando o exemplo +da resignação, e consolando com palavras animosas, esforço mais intenso +na dôr que a dôr de todos. Ao oitavo dia a esposa veiu visitar sua +familia. Foi recebida em alvoroço. Queriam beija'-la todos ao mesmo +tempo. Os irmãos mais novos perguntavam-lhe se ficava para sempre. +Maria, entre risonha e lacrimosa, repartia-se em affagos por todos, +desejando alguns instantes de solidão com sua mãe. + +--És feliz, minha filha?--perguntava-lhe o coronel. + +--Sou, meu pae, quanto se pode ser, longe dos seus. Falta-me lá esta +familia; ainda não pude, nem poderei considerar-me desligada d'esta +casa. Parece-me até que sou mais d'aqui, e que a outra é uma casa de +emprestimo. + +O coronel voltou-se para sua mulher, e disse: + +--Sentias isto quando casaste comigo? Tinhas assim saudades de tua +familia? + +--Não...--disse a mãe de Maria. + +--Então...--tornou o coronel--tua filha é menos feliz do que tu foste! +No goso da abundancia tem occasião de sentir saudades da pobreza que +deixou. + +--O pae--replicou Maria--engana-se, ou não póde sentir como sente uma +mulher. Minha mãe havia de sentir o que eu sinto; é que já se não +lembra... Pois haverá felicidade que me faça esquecer a minha familia?! +Eu não sei o que é abundancia nem pobreza. Ainda não pude ver a +differenca que vae do que deixei ao que hoje tenho, senão pelo coração. +Sou feliz com Alvaro, mas seria mais feliz se Alvaro vivesse como irmão +dos meus irmãos, aqui... + +Alvaro entrava n'este momento, repartindo por todos amabilidades, +chamando manos a seus cunhados, queixando-se de que o não tenham +visitado, convidando-os para o seu camarote, offerecendo-lhes as suas +carruagens. + +--Cousa notavel!--dizia o coronel, tirando á parte frei Antonio que +tambem concorrera á primeira visita de sua sobrinha.--Cousa notavel! As +maneiras acanhadas de Alvaro desappareceram. Todos aquelles modos, a +munificencia com que nos dispensa os seus favores, tem um ar de +orgulhoso triumpho que me intimida. Ha alli alguma cousa que parece +dizer. «Casei com vossa filha pobre, e tenho a fidalga generosidade de +vos querer elevar com ella!» Não te parece? + +--Parece-me que estás contaminado da má fé do mundo. + + +XV + +Felicidade, o que és tu? Engano providencial que nos alimentas na +alternativa do desejo e do desengano. Amiga cruel que nos foges com a +esperança, apenas os labios sentem o travo do absyntho que a taça do +prazer esconde no fundo. + +Quem te encontrou n'esta vida, felicidade? O que eras tu, quando eu te +via espargindo flôres desde o meu obscuro cantinho até aos imaginados +horisontes do meu destino? + +O que és tu hoje, phantasma severo que desdobras o teu manto negro sobre +a esperança, que, momentos antes, mandaste luzir no meu despertar de +infeliz? + +Felicidade, o que serás tu, se não és a filha dos homens, morredoura +como elles, soberba do teu nome, embaindo, com a mascara do opulento, os +pobres que te esperam, cavando, cada vez mais fundo, no coração do +ambicioso, o vácuo da cobiça, chegando aos labios do sequioso, que te +busca na terra, a esponja acerba do desengano? + +Porque te não vejo eu debaixo do docel dos principes da terra? +Enfloraste os berços de Carlos I e Luiz XVI: porque deixaste borrifar de +sangue no cadafalso as tuas grinaldas? + +Busquei-te no seio da familia laboriosa, que aceitou humildemente a +condemnação do eterno trabalhar, do suor copioso das fadigas. Não +estavas lá. O braço trabalhador enervou-o a fome, no anno da +esterilidade, e as creancinhas d'esse homem, sem cobiça de mais pão que +o necessario á sua familia, vagiam pendentes dos seios aridos de sua +mãe. + +Busquei-te na mediocridade honesta, na alegria da independencia. Era +falso esse existir na vida. A mediocridade anciava saír da sua esphera; +a alegria da independencia era um sonho de infelizes servos; a +independencia era uma situação mentirosa como o teu nome. + +Estarias tu na gloria das batalhas? Se fizeste Cesar o primeiro de Roma, +porque o não salvaste do punhal de Bruto? + +Na gloria da virtude? E a cicuta de Socrates? e a guilhotina de +Malherbe? Como estremaste os destinos de Séneca e Nero? de Virginia e +Aggripina? Quando és tu o galardão da virtude, a socia fiel do nobre +espirito, o premio benemerito do coração immaculado? + +Na gloria da sabedoria? + +Entraste, por ventura, na alma do philosopho, que tentou levar as +multidões ao teu sanctuario? Orvalhaste-lhe a aridez do espirito +abraseado em ancias de achar-te aqui? Déste a Cicero, teu apostolo +inspirado, a resignação na morte? Estará o teu busto levantado sobre as +ossadas de centenares de homens prodigiosos, poetas que fizeram seculos, +honras perpetuas das nações, pisados pela desgraça, mortos de fome de +pão e de ti, que lhes mandaste arrastar a mortalha por toda a vida? + +Passarás ao menos uma primavera, no coração da virgem, que te chama do +céo, que te crê filha de Deus, que se acolhe ao teu regaço como a asylo +inviolavel de innocentes, que te vê na ternura maternal, que te beija +nos labios de seus irmãos, que te respeita nas palavras ungidas de um +velho, que te abraça soffrega na idolatria de um amante, que aperta ao +seio todos os teus dons, cingindo-se ao seio do esposo estremecido? + +Não, maldita da esperança, tu não estás entre nós. Existirias na terra, +se entre os homens e Deus não estivesse o infinito. + + +XVI + +--Maria vive triste...--dizia padre Antonio dos Anjos a sua +cunhada.--Não diga isto a seu marido, minha irmã. Poder-me-hei ter +enganado, e não lhe antecipemos um dissabor. + +--E porque não vem ella a nossa casa?!--perguntou a mãe afflicta.--Ha um +mez que nos não visita, disse aos irmãos que não tornassem lá sem ella +os chamar... Alvaro já a trata mal? já a não amará?! + +--Alvaro vive triste como ella. Encontram-se poucas vezes; ainda se não +deram as mais ligeiras desavenças entre elles; mas o silencio quando nos +reunimos todos á mesa, é profundo entre ambos. Fogem de encontrar-se nos +olhares; e, sem causa proxima, as lagrimas caem ás vezes sobre o prato +de Maria. O pae de Alvaro pergunta-me o que tem seu filho. Interroga-o, +e elle responde-lhe que não tem nada. Eu interrogo Maria, e ella pede-me +que rogue a Deus por ella. + +--É pois muito desgraçada a minha filha!--exclamou a lagrimosa +senhora--Fomos nós que fizemos a infelicidade d'ella. Fui eu, fui eu só! +Era eu quem devia destruir-lhe este amor no seu principio. Fiz o +contrario... Dei-lhe azo para que tudo me confessasse, applaudi-lhe o +puro sentimento que a levava ao coração de um homem que eu julgava digno +d'ella; animei-a até a proferir palavras que o pudor lhe não deixava +saír do coração! Minha pobre filha, é tua mãe quem te fez infeliz! Que +direi eu a meu marido, quando elle me pedir conta da felicidade do nosso +anjo, d'aquella santa que tantas lagrimas nos enxugou, e nós não podemos +enxugar as d'ella... Podemos, podemos...--proseguiu ella com +exaltação.--Que venha para a nossa companhia; vá, meu irmão, vá +dizer-lhe que o coração de sua mãe só póde achar allivio ao seu remorso, +sentindo-a chorar no meu seio... Vá, vá, antes que meu marido saiba que +ella vive assim... Traga-m'a, póde ser que meu marido se não queixe na +presença d'ella... Não se lembre que ella é casada... Não ha lei divina +que obrigue uma mulher a ser victima de seu marido... + +--Basta, minha irmã!--interrompeu com brandura o padre--Não multiplique +com o seu amor de mãe os soffrimentos de Maria... Ella não se queixa. +Quer que a sua dôr seja um segredo para seu proprio tio, e bem sabe que +minha sobrinha me fez o confidente das suas alegrias e pesares... Póde +ser que esta sombra de melancolia seja uma nuvem. Não vamos nós +precipitadamente desafiar uma tempestade, que nem se quer nos ameaça. O +anjo do Senhor está ao pé de Maria, e um desgosto passageiro é muitas +vezes uma experiencia que Deus manda para a purificação das suas +escolhidas. Confiança na justiça divina, minha irmã. Alvaro tem de +responder hoje ás perguntas de seu pae, e talvez ás minhas. Póde haver +n'esta melancolia de ambos uma causa dada por ambos. O silencio de Maria +faz-me suspeitar que ella não tem bastante confiança na razão da sua +tristeza. Póde ser que a demasiada saudade dos seus, manifestada ao +marido, o tenha desgostado. Se tal fôr, é preciso dizer a minha sobrinha +que o sacramento do matrimonio opera uma suave mudança nas ligações de +familia. O amor de esposa tem uma santidade superior ao de filha: +augmentam as obrigações, e vem com ellas o dever do sacrificio. Eu +conheço pouco do coração humano; mas o de Maria sinto-o pensar, e +sentir, e desejar dentro do meu. Maria deve amar e ama deveras seu +marido; porém esse amor sem fausto, sem bailes, sem theatro, sem +jantares, e sem visitas importunas e ociosas ser-lhe-ia mais grato, mais +em concordancia com o seu natural. Ora, pois, minha irmã, menos +lagrimas, e mais reflexão. Repito que não diga a seu marido que eu vim +aqui fazer-lhe o mal que não imaginava. + + +XVII + +O velho Silveira chamou seu filho, e disse: + +--Que tristeza é a tua, e a da tua mulher, Alvaro? + +--Não falemos n'isso, meu pae. O soffrimento calado é o mais nobre, o +soffrimento irremediavel é creancice expo'-lo á piedade dos outros. + +--Soffrimento irremediavel!? De que soffres? Estás arrependido de casar +com esta menina que adoravas tanto?! Aborreces... enfastiou-te este +anjo?! + +--Não me enfastiou... receio que venha a enfastiar-me... Está bom, meu +pae, mudemos de pratica. Para onde vamos nós a ares este anno? + +--Que modos são esses, Alvaro! Entrou outra vez em ti o demonio da +perdição!? Foi, pois, uma mentira, uma impostura, uma infame astucia a +tua emenda? + +--Não dou motivo para semelhantes suspeitas, meu pae. O meu proceder é +hoje como era ha quatro mezes. Ouvi'-lo-hei, senhor, mas v. ex.^a não me +accuse sem fundar a sua accusação. + +--É possivel que já não ames Maria?!--replicou o pae--Em que desdiz +ella do que tu e eu esperavamos, Alvaro? + +--Pois eu não a amo?! O pae que quer que eu faça? Ser-me-ha preciso +trazer ao collo minha mulher para o persuadir de que a amo?! Eu não sei +fazer carinhos piegas... Creio que ella não dirá que a trato mal, nem a +privo dos seus prazeres... + +--Que prazeres! Pois a pobre menina raras vezes sae do seu quarto, raras +vezes, ha quinze dias a esta parte, se encontra comtigo... que prazeres +lhe dás, Alvaro? É isto o que tu planizavas quando me pediste que +empenhasse ao coronel a minha palavra de honra como abono do teu +procedimento para que elle te não negasse a filha? Vejo que preparas +para os meus ultimos dias uma grande deshonra, e um grande remorso! Com +que cara me apresentarei ao coronel logo que elle saiba os surdos +padecimentos da nobre menina, que não solta um gemido queixoso! +Explica-te, Alvaro; não te offendo, sequer, pedindo-te, como pae, uma +explicação d'essa frieza para com ella... O que é isto? + +--Pois eu obedeço, senhor, respondendo em toda a verdade da minha alma. +Creia que soffro, respondendo assim; mas eu preciso dizer a terrivel +verdade que me esmaga o coração. Maria não é a mulher, que eu devia +procurar. Enganei-me. Foi um desencontro, uma desgraça, uma horrivel +illusão! Eu não sou digno d'ella. Fui atraiçoado pelo amor que Maria me +inspirou; julguei-me capaz de occupar, toda a vida, o coração com a +posse d'ella. O demonio venceu. Sinto-me enfastiado; tenho o gelo da +indifferença na alma, violento este sentimento amargo a confessar as +virtudes de minha mulher: vejo-a formosa, reconheço que é um anjo, mas +não posso, ao pé d'ella, passar um quarto de hora sem fastio. Parece que +o meu arrefecimento lhe passou á alma. Vejo-a triste, responde-me +chorando se lhe pergunto que motivos tem de tristeza, evita-me quando eu +faço sobre mim um grande esforço em mostrar-lhe agrado... Em fim, meu +pae, não era eu o homem que devia fazer a felicidade d'esta mulher... +Sou incapaz de a maltratar, terei com ella todas as attenções de irmão; +mas... é necessario que deixe de sentir o que sinto... A violencia é +inutil... o amor não se crava no coração como quem crava um punhal... +Basta-me o meu infortunio de não poder ama'-la. Os desgraçados como eu +são amaldiçoados pela sociedade, e Deus sabe se elles não são mais +dignos de piedade que de maldição!... Não poder ama'-la como a adorei ha +tres mezes! Isto é angustioso, meu pae! Por quem é, não me aggrave as +minhas dôres com as suas censuras... Não receie nada por ella... Eu +tirarei da delicadeza todos os pretextos para que ella se capacite de +que ainda a amo. É uma piedosa mentira em que meu pae, por meu bem, e +d'ella, e de todos nós, deve consentir, e até empregar a sua influencia +auxiliadora. Consiga v. ex.^a que ella saia do quarto, que vá aos +theatros, que vá aos bailes, que frequente as nossas immensas relações, +que aprenda na sociedade com outras mulheres a esquecer os infortunios +domesticos, que eu farei o mesmo... + +--É uma alliança infame, que tu queres que eu proteja?--interrompeu o +velho. + +--Como _alliança infame_!--redarguiu o filho. + +--Sim! consentes a tua mulher... + +--O que? queira dizer, meu pae! + +--Tenho vergonha de o proferir!... + +--Então não me comprehendeu, ou me julga um homem destituido de honra. +Lembre-se que sou seu filho, senhor! Eu não quero fazer com minha mulher +allianças infames. Quero que ella não faça consistir a sua felicidade +sómente na minha convivencia de todas as horas, e de todos os instantes. +Quero que ella reparta os seus desejos, e as suas idéas por tudo que +possa dar-lhe uma distracção honesta, e concedida ás senhoras da sua +posição. Não quero que o seu amor á solidão me force, me algeme a um +gosto que não tenho. Estamos na sociedade, eu sou um rapaz, e quero +viver para a sociedade. Gosar não é offender a Deus, como lhe incutiram +a ella. Nunca a levei aos theatros, aos bailes, a uma visita, que não +tivesse primeiro que destruir-lhe os preconceitos com que a crearam. +Está sentada ao piano, ou ao bastidor: quer meu pae que eu esteja alli +constantemente ao pé d'ella, repetindo-lhe as phrases cançadas de um +amor de convenção? É hypocrisia com que não posso... + +O velho voltára as costas ao filho, e confundira as lagrimas com as de +padre Antonio que se fizera annunciar. + + +XVIII + +Alvaro falára pela bocca de todos os maridos maus ou infelizes, quando a +libertinagem os não cura do veneno do desgosto com o veneno da deshonra. +Era de certo o enojo, esse desfallecimento de alma incuravel, esse +morrer do amor que nunca mais resuscita, quando a mulher que o causa é +esposa, e quando o homem que o recebe não tem a força de virtude que +converte a piedade em estima. + +A paciencia de Maria azedava ainda mais o desgosto de Alvaro, porque as +lagrimas em silencio eram a mais pungente censura que ella podia fazer +ao seu procedimento. + +A melancolia do padre, cuja convivencia elle afastava, e o sobrecenho do +pae, irritavam-n'o até ao frenesi de raiva ás algemas que lhe queriam +lançar á sua liberdade. + +O padre aconselhava-lhe os bailes, e os passatempos que a sua indole +apreciava. Pedia á sobrinha que o acompanhasse para compartir dos +prazeres de seu marido; mas a pobre menina, se alguma vez accedia ao que +lhe era imposto como dever de mulher casada, ia levar á sociedade o +espectaculo da sua tristeza, e dar incentivo de arguições, umas justas, +outras exageradas ao procedimento de Alvaro da Silveira. + +Menos instada por seu marido, e por seu tio, e por seu extremoso sogro, +que lhe era segundo pae, deixou de saír, e mui raras vezes visitou sua +mãe, porque não podia mentir ás suspeitosas perguntas de seu pae, a +respeito da felicidade que o marido lhe dava. + +Alvaro, pouco a pouco, foi-se absolvendo de seus deveres, e respeitos á +sociedade. Estudou o viver e o sentir dos maridos no circulo das suas +brilhantes relações, e viu que entre tantos havia só um que pudesse +atirar-lhe uma pedra. Entendeu que podia ser-se um homem importante aos +homens, e importante ás mulheres, embora casado, embora propenso a +esquecer-se todos os dias que o era. Relaxados os deveres, seguiu-se a +tibieza nas apparencias do decoro, e da delicadeza, ultima ferida que +uma mulher com dignidade póde receber de um mau marido. + +O seu antigo amigo conde de *** foi reintegrado na sua particular +estima. Era já recebido no seu quarto, era o seu confidente em segredos +dignos de ambos, era tudo o que póde ser um amigo intimo, menos relação +de sua mulher. Maria regeitára com imperio, pouco natural ao seu +caracter humilde, a apresentação do conde. Ouvira falar d'este homem em +casa de seu pae, ao tio, e ao sogro, de modo que lhe ganhou asco, e não +podia vencer o sobresalto com que ouvia annunciar um tal nome, que seu +proprio marido, tres mezes antes, banira das suas relações. + +Na primavera d'esse anno, Alvaro partiu com o conde, e outros de egual +porte para o campo, em busca de touros para as corridas do campo de +Santa Anna. Demoraram-se vinte dias n'essa gloriosa expedição digna dos +netos de Vasco da Gama e de Affonso de Albuquerque... Durante esse +tempo, Maria não teve de seu marido um bilhete, nem uma saudade. De +volta, Alvaro achou sua mulher gravemente enferma d'essa molestia que +entra no coração, e filtra de lá o veneno da morte por todas as fibras. + +Disse-lhe palavras consoladoras, instigadas pelo espinho do remorso, +palavras calculadas na frieza do seu desamor; mas a idéa satanica da +viuvez entrou-lhe na alma com a esperança de uma felicidade imprevista. + +É horrivel! mas não duvideis... Olhae de redor de vós... + + +XIX + +Foram aconselhados a Maria ares do campo. Saíu de Lisboa para Collares, +acompanhada por seu tio, e dois creados. Alvaro partira para Villa +Franca, e de uma quinta, muito conhecida nos arrabaldes d'aquella villa, +fazia as suas excursões á caça, em que entreteve um mez, distraído de +tudo; e embebido no seu affecto remoçado ao inseparavel conde. + +Entretanto, Maria déra largas ao coração abafado. Padre Antonio sabia a +causa do soffrimento, mas affectava extranheza, para não auctorisar +queixumes de mulher casada. Fazia grandes rodeios aconselhando a sua +sobrinha a resignação, porém, simulando, sempre, que não conhecia motivo +para tristeza tão inconsolavel. + +Uma vez, Maria, cançou na lucta comsigo mesma, e fixou no tio os seus +grandes olhos arrasados de lagrimas. Era um olhar de soffrimento que +reage, uma accusação ao homem que concorrera para o seu infortunio, e +parecia impor-lhe a violencia da mudez, a morte surda sem a inoffensiva +respiração de uma queixa. + +Frei Antonio entendeu-a, e disse: + +--Fala, minha querida sobrinha, accusa-me, e depois pediremos ambos ao +Senhor que nos dê melhor vida a ambos. + + +XX + +A mulher de Alvaro da Silveira balbuciou: + +--Não o accuso, meu tio; peço-lhe sómente que me deixe chorar. É bem +pouco pedir; mas eu sinto um grande conforto n'este unico prazer dos +infelizes. + +--O da oração é maior, minha sobrinha...--atalhou o padre. + +--Pois eu não oro, meu tio? É quando sinto mais dentro do coração a +doçura das lagrimas. Ou peça a Deus paciencia para soffrer até ao fim, +sem que a minha familia o saiba; ou peça que se digne tocar o coração de +meu marido, choro sempre, e fico sempre mais desopprimida. + +--Mas os teus dias são sempre eguaes, filha. Estás cada vez mais +abatida, mais magra, e mais febril. + +--Que importa o corpo? O que eu recebo de Deus é a força da alma... A +morte não lh'a peço, por que sei que não faria com ella a felicidade de +Alvaro... É impossivel que o remorso o não castigue depois... Isso é que +eu não queria... O Senhor me livre de ser o instrumento das torturas +d'alguem... E, se eu morresse, a nossa pobre familia soffria muito... +minha mãe, seguir-me-ia, e os meus irmãos pequeninos nos braços de meu +pobre pae... matal-o-iam com carinhos... É por isso que eu não peço a +morte... + +--Não peças, Maria. Diz-me o coração que terás melhores dias da tua +existencia, e que eu hei de ve'-los ainda. + +--Oxalá... e como serão esses dias, meu tio? + +--Será quando teu marido voltar ao que era quando te queria tanto. + +--Pois esse amor póde por ventura tornar? + +--Pois não póde, filha?! Estás passando por uma dolorosa provação; é +impossivel que não recebas n'este mundo o premio da tua constancia. +Assim como Alvaro passou do mal para o bem, e depois recaiu no mal, o +anjo, que o alumiou uma vez, ha de alumia'-lo outra, minha sobrinha. +Quando menos o esperarmos, estará comnosco, para nos restituir o bom +coração que nos roubou. Crê, e ora, minha filha. Oremos ambos. As nossas +supplicas sejam por elle, e deixemos ao senhor apiedar-se de todos, +quando a sua bondade quizer. + + +XXI + +Padre Antonio, horas depois, enviava um proprio com uma longa carta a +Villa Franca. Era um humilde requerimento ao coração de Alvaro. +Lembrava-lhe, com delicadeza, os seus deveres. Contava-lhe o viver +attribulado de sua sobrinha, pedia-lhe encarecidamente que viesse +vê'-la, ou consentisse que algumas pessoas da familia d'ella a +acompanhassem no ermo em que vivia. + +O fidalgo recebera a carta no pospasto de um festim em que se +banqueteavam os caçadores, commemorando as façanhas venatorias do dia. O +conde de ***, chamado por Alvaro a conselho redigiu e escreveu a +resposta á carta, visto que o seu amigo, turbado de vinho, apenas tinha +entendimento para conhecer que o frade o incommodava, como parapeito dos +tiros de sua mulher. A resposta, por tanto, foi simples e peremptoria. +Alvaro agradecia muito os pios conselhos do padre, sentia muito os +incommodos de sua mulher; recusava, porém, acceder á convivencia pedida, +e approveitava a occasião para observar a sua reverendissima que a sua +pertinaz assistencia em casa d'elle Alvaro era pouco delicada, +provando-se que não havia n'essa casa meninos para educar. Terminava, +ordenando que sua mulher se recolhesse a Lisboa quanto antes, visto que +os ares campestres não conseguiam alliviar os seus padecimentos. + +Esta carta foi lida a Alvaro, que deu no hombro do seu secretario uma +sonora palmada, como signal de applauso e gratidão. + + +XXII + +Frei Antonio fôra assistir ao trespasse de um moribundo, e não estava em +casa quando chegou o conductor da resposta. Foi Maria que recebeu a +carta, e vendo a letra inesperada de seu marido, sobresaltou-a tanto o +prazer, que nem sequer reflectiu para abri'-la. + +Leu... E mal viu as ultimas linhas. Entrou em tremuras, escondeu a carta +no seio deixando uma parte visivel; luctou como querendo segurar o +alento que lhe fugia; mas debalde. Padre Antonio ergueu-a desmaiada de +um canapé, quando voltou. Tirou-lhe do seio a carta; leu-a, e tornou a +insinua'-la sem a sobrinha dar fé. Esta, recuperando os sentidos, viu ao +pé de si o tio, com ar risonho, trahindo-se em algumas palavras +confortadoras; mas a pobre senhora, de momento a momento, levava a mão +ao seio para certificar-se de que a carta lhe não fôra tirada. + +--Então o que foi isso, minha filha?--perguntou o padre. + +--Um desmaio, resultado da grande fraqueza que tenho, de um passeio que +dei longo de mais para as minhas forças... + +--Pois tu saíste, Maria? Não enganes o teu tio. + +Aqui, Maria córava, e o frade vinha logo com o remedio, fugindo para +outra idéa. + +Depois de uma hora em que dois corações angustiados estiveram a +enganar-se mutuamente, padre Antonio abraçou sua sobrinha; e disse: + +--Olha, menina, o extremo do soffrimento não se póde dizer qual é, nem +quando chega; por isso não direi ao certo que as nossas penas estão a +passar por serem culminantes. Mas é de fé para mim, filha, que isto +assim não póde demorar-se muito. A piedade do Altissimo está por +instantes a amercear-se de nós. Maria, fica no teu quarto; pensa n'essa +carta que tens no seio, eu vou pensar tambem; e, passada uma hora +estaremos juntos. Antes, porém, de decidir, Maria, pede ao senhor a luz +da graça. + +Maria ficára como engolfada em profundo pasmo com a mão no seio. O frade +saíra. + + +XXIII + +Passada uma hora e um quarto, foi a sobrinha, atemorisada pela falta, +que entrou subtilmente no quarto de seu tio. O velho estava de joelhos +diante de uma cruz. Sentiu-a entrar, voltou um pouco a face, e disse: + +--Espera um bocadinho, menina; eu falo-te já. + +Maria ajoelhou ao pé d'elle. + +--Pois sim, oremos juntos: disse o padre--se já resolveste, pede comigo +ao Senhor que mude a tua tenção, se ella não é do seu agrado. + +Decorridos alguns minutos ergueram-se ambos. + +--Pensei, meu tio--disse Maria. + +--E então? + +--Creio que Deus permitte a minha vontade: o tio me dará a certeza da +minha fé, se não se oppuzer. + +--Pois diz, filha. + +--Eu fujo a meu marido. + +--Como? foges a teu marido?!--atalhou o velho espantado. + +--Acolho-me ao seio de Deus, para morrer tranquilla. + +--Entendi; minha filha!--exclamou elle com jubilo abraçando-a.--Queres +dizer que entras n'um convento. + +--Sim, sim. + +--Foi a minha idéa, quando orava... + +--Sim? então, bemdito seja Deus!--disse Maria erguendo as mãos com +arrebatamento.--Já vejo que o Senhor approva a minha resolução. Eu pedi +muito á Virgem que lh'a inspirasse, meu tio. Vou para as Therezinhas. +Tenho lá muitas amigas que me hão de fazer digna de orar com ellas. +Trabalharei para viver em flôres, em recorte de papeis, em tudo, por que +pouco me basta. Poderei ve'-lo todos os dias, meu tio, e verei meus +paes, e meus irmãos. Se Alvaro um dia me quizer, elle irá procurar-me, e +eu serei sempre o que sou e o que fui. Não lhe tenho odio, não tenho. +Sei que elle ha de ser ainda muito infeliz, e talvez seja eu, depois de +meu tio, quem lhe restitua a boa alma que elle tinha quando o conheci. + +--Tu choras. Maria?--interrompeu o padre carinhosamente--Levas saudades +de Alvaro, não levas? + +--Saudades? não sei que sentimento é este!... parece-se mais com o da +compaixão. É como se eu dissesse: podiamos ser ambos tão felizes!.. e +assim não se sabe qual de nós será o mais desgraçado! É o que eu sinto, +meu tio. Já vê que o estimo ainda como se fosse um meu irmão perdido de +vicios, que maltratasse sua familia, e que eu tivesse conhecido enchendo +de carinhos minha mãe e meus irmãos. Lembra-me que elle era tão amigo de +todos! entrava na nossa casa como se fosse nosso... agradecia tanto o +nosso bom agasalho, sem saber que nós ficavamos sempre tristes quando +elle nos deixava... É porque eu choro, meu tio... Isto é saudade do que +elle foi, e compaixão do que é.... Paciencia... Vou para as +Therezinhas... Imaginei-me sempre lá desde creança, não se lembra? No +tempo em que eu cantava aquellas palavras tristes, pensava tanto em +pedir a minha mãe que me deixasse entrar no convento, ainda que fosse +como creada... + +--E hoje, Maria... talvez... tenhas de entrar como creada... + +--E isso que tem, meu tio?! Pois nas Carmelitas não entravam tantas +senhoras distinctas que faziam a cozinha ás semanas? Que tem que eu seja +creada? Alvaro não póde envergonhar-se d'isso; porque ha muitas +situações vergonhosas para um marido, mas esta--a de servir--não é uma +d'essas... pois não? + +Maria córou proferindo algumas d'essas ultimas palavras. Fr. Antonio +depois de abraça'-la, disse: + +--Eu vou para Lisboa, minha sobrinha. Falarei com a prioreza; veremos +como has de entrar; antes, porém d'esse passo, é preciso que escrevas a +Alvaro. + +--Pedindo-lhe consentimento? + +--Sim. + +--Se m'o nega?! não vou? + +--Vaes, Maria. A petição é a humildade da esposa; mas a fuga é o ultimo +direito da victima. Onde ha algoz não ha marido. + + +XXIV + +Era assim a carta de Maria a seu marido: + +«Foste enganado por uma chimera, Alvaro. Não era eu a mulher digna do +teu amor. Quando vi apertar-se o teu coração á dôr do arrependimento, +tive mais compaixão de ti do que de mim. Eu, pobre mulher, posso soffrer +e chorar, sem ser vista. Tu, Alvaro, nascido para os prazeres do mundo, +cuja privação o meu amor não podia recompensar-te, soffrerias muito, se +não tivesses animo de affastar com a ponta do pé os deveres, e esquecer +que eu sou, ao mesmo tempo, tua escrava e tua tyranna. + +«Felizmente que adoptaste o melhor expediente. + +«Penso que as distracções, longe de mim, te deixam sentir as doçuras da +liberdade. És, talvez, feliz. Se o és, Alvaro, olha que esse bem peço-o +eu constantemente a Deus para ti. Não te deixes vencer jámais do +remorso. Os meus padecimentos, bem o sabes, não se alliviam em queixas. +Nunca te pedi explicação da tua frieza, nem te dei uma palavra +aborrecida por outra. Até as lagrimas te escondia, não é verdade? Se me +surpreendias chorando, antes queria mentir-te uma invenção, que +exacerbar-te com as minhas lastimas o pesar de me teres dado o direito +de te arguir. Quando assim se soffre, Alvaro, não ha idéa de vingança, +nem se aceita com prazer a expiação de quem nos mortifica. + +«Vamos tratar da tua felicidade, meu caro irmão. Deixa-me dar-te este +titulo que tem tanto do affecto como da razão. Entre nós já não existe o +grande amor, que me parece ser inflexivel aos dictames do juizo. Podemos +suavemente caminhar cada um para seu lado, sem voltarmos as costas com +arremesso. É o que eu queria, e espero consegui'-lo, porque, sendo eu +tão fraca, a força que sinto para dar um passo em teu bem, é Deus que +m'a dá, e dar-m'a-ha até ao fim. + +«Deixo-te mais livre do que vives, Alvaro. Vou entrar n'um convento, e +vou pobre como vim para tua casa. Sentirei lá que és meu marido, porque +não cessarei de orar por ti, e offerecer em desconto das minhas e das +tuas faltas o tempo que Deus me der de vida. + +«Conheço que nasci para a solidão e para os prazeres ignorados da vida +obscura. Esta consciencia e a absolvição de algumas cruezas do teu +caracter para comigo. Tu precisavas de uma mulher que te disputasse na +sociedade uma parte da tua gloria. Querias, talvez, abrilhantar-me aos +olhos dos outros com o reflexo da tua luz. E eu, educada na pobreza e na +simplicidade, não pude, por mais que quiz, contrafazer a minha indole. +Fui arrastada pelo dever aos raros bailes onde me levaste; voltava de lá +contente com a esperança de estar sósinha comtigo, e muitas vezes me +deixaste sósinha com a minha saudade; e tornaste aos bailes a aproveitar +as horas que eu te aguava com a minha inexoravel melancolia. + +«Era então que eu te lastimava, por teres sido enganado pelo coração, +quando me dizias que a vida no ermo, só comigo, era o teu sonho de +ventura, e amaldiçoavas o brilho perfido da sociedade que te não deixára +mais cedo ver o que é este mundo, com os olhos da razão. + +«Se me não tivesses dito isto, Alvaro, eu seria muito culpada por +aceitar o sacrificio da tua liberdade. Fomos enganados ambos. Pensava eu +que era verdadeiro o teu fastio dos prazeres ruidosos e vãos; cuidei até +que o meu maior merecimento para ti estava no desprezo com que eu ouvia +lá fóra do meu cantinho o bulicio da vida opulenta. Aqui está porque eu +não te peço perdão de ter querido ser, contra a vontade de meu bom pae, +tua mulher. D'esta culpa quem me ha de perdoar é o pobre velho, e eu +conto com a bondade da sua alma. + +«Aqui tens, pois, o meu destino, Alvaro. Vou para um convento; não devo, +porém, sahir de tua casa sem praticar este acto de humildade, rogando o +teu consentimento. Quasi certa de que m'o dás, vou fazer os meus +ligeiros preparativos. Ainda não disse tudo, Alvaro... Se um dia +sentires a penosa necessidade de falar a alguem que te diga palavras de +allivio, procura-me, vae sem receio de encontrares uma queixosa. Eu +farei quanto puder em teu bem contra o mal que o mundo te houver feito. +Chamarei á tua alma as reminiscencias do que ella foi, quando eu t'a +mereci, furtando-a ás outras paixões. Vae procurar-me, Alvaro, e acharás +sempre uma irmã. + +«De tudo o que te disse n'esta longa carta, deves tirar a certeza de +que, muito longe de odiar-te, estimo-te, sou tua amiga, offereço a minha +vida pelo dom da tua ventura; mas quizera, Alvaro, que essa ventura não +fosse mentirosa. A que presentemente gosas não póde ser duradoura, nem +filha do espirito. + +Adeus. + + Tua mulher + + _Maria dos Prazeres._» + + +XXV + +Maria entrou no quarto do padre. Estava elle ajuntando n'um sacco os +seus livros, e uma pouca de roupa branca. + +--Já escreveste, filha?! Vamos ver a tua cartinha...--disse elle +continuando o seu serviço--Eu estou aqui ajuntando estes farrapos, e +estes quatro livros. A nossa bagagem, Maria, é tão pequena, que a póde +um frade velho transportar debaixo de um braço. Ora vamos lá; lê a tua +cartinha. + +Maria leu, affectando serenidade. Não podia, comtudo. De instante a +instante, havia embargo de soluços, lagrimas pertinazes, e alterações na +côr. Padre Antonio tomou-lhe das mãos a carta, e leu-a em voz alta. + +--Está muito boa--disse elle, afagando as faces de Maria--Vou mandar o +proprio a Villa-Franca. Ámanhã por noite, está cá a resposta. Eu virei +então saber qual ella foi. + +--Pois meu tio, já hoje me deixa?!--interrompeu Maria com vehemencia. + +--Pois então, menina? A minha licença acaba logo que a trouxa esteja +prompta. Eu não extranho isto... Quando me mandaram saír do meu convento +que era a minha casa, saí logo; agora mandam-me saír de uma casa, que +não é minha, que hei de eu fazer? Saír mais depressa ainda, se é +possivel, e sacudir á saída da porta o pó dos meus sapatos. De mais a +mais, bem sabes que preciso falar á madre prioreza das Therezinhas no +teu agasalho, que ainda não sabemos como será, e todo o tempo é pouco... +Nada de lagrimas! Pelo amor de Deus, recebem-se todas as amarguras com +olhos enxutos. O merecimento aqui não é chorar, é rir para o céo. Ha uma +só causa justa para lagrimas, Maria: vem a ser a offensa a Deus, que é +Pae, ou aos homens, que são nossos irmãos. D'estes peccados, absolvo-te +eu, menina, que os não tens. A offendida és tu, e, por conseguinte, +perdão para os homens, e oração de graças ao Senhor. + + +XXVI + +Alvaro da Silveira recebeu a carta, quando saía para Santarem, onde o +esperava um brilhante sarau, em que era rainha uma nobre dama que se +deixara ferir do nobre caçador. Era, portanto, muito improprio o ensejo +da carta, cuja generosidade tinha para elle o valor odioso de uma +accusação mascarada. Foi esta a opinião do seu amigo conde. + +Alvaro respondeu vocalmente que mais tarde responderia por escripto. O +portado, industriado pelo padre, replicou humildemente que não voltava +sem resposta, ou signal de ter sido recebida a carta. Perguntou-lhe +Alvaro quem lh'a tinha dado. O creado falou a verdade. «Pois esse +hypocrita ainda lá está?» exclamou irado o fidalgo... «Leva--continuou +elle--ahi vae o signal de que recebi a carta».--E entregou-lhe, aberta, +a carta de sua mulher. + +Tal foi a resposta que Maria recebeu. Diga quem puder as lagrimas que +este desprezo lhe custou. O frade respeitou-as tanto, que em logar de +consola'-la com a paciencia, eloquente sempre em seus labios, chorou +tambem. + +--Vamos, filha--disse elle por fim. + +--Já?! de noite?--reflectiu ella. + +--Tens medo, Maria? A noite vae melhor ao estado da nossa alma... +Chegaremos de madrugada á tua nova casa. Passarás o dia no locutorio com +a nossa familia. + +--Pois está tudo arranjado? + +--Tudo, Maria, tudo providencialmente arranjado. Vaes ser hospeda da +sr.^a escrivã, em quanto eu não posso por meios certos que Deus me ha de +deparar comprar-te uma cella no convento. Depois, o teu trabalho +dar-te-ha uma subsistencia certa. Fallaremos, fallaremos... Vamos +embora. + +Maria foi, quasi desfallecida, encostada ao hombro do padre, até +entrarem n'uma sege de praça que os esperava no portão. Grande, porém, +foi a surpresa da attribulada senhora, quando ao entrar na sege, foi +apertada por uns braços que só podiam ser de mãe pelo afago com que lhe +bebiam as lagrimas da face. + +O choro de ambas embargava as palavras soluçadas. O que ellas, porém, +queriam dizer-se era pedirem-se perdão mutuamente; a mãe á filha, por +lhe haver afervorado e absolvido o amor a Alvaro; a filha á mãe porque +fraqueava no martyrio, e, sem pedir-lhe conselho, abandonava aos juizos +da sociedade a explicação da sua fuga, talvez bem infamada. + + +XXVII + +A sege parou defronte do mosteiro. + +Rompia a manhã. Tão lindo estava o céo, tão balsamico o ar ao pé do +arvoredo do convento, as aves deleitavam tanto o coração, o múrmuro +despertar da natureza tão meigos arrobos filtrava ao seio de Maria, que, +enlevada em mudo regalo, docemente lhe marejavam nos olhos as lagrimas +de um contentamento infantil, se não eram antes o respirar suavissimo da +abafação angustiosa em que penára. + +Aberto o portão exterior, frei Antonio entrou com sua cunhada e +sobrinha. Algumas religiosas desceram á portaria, e levaram comsigo mãe +e filha, felicitando esta com grandes jubilos, e inventando graças para +a desassombrarem da sua tristeza. Sabiam-lhe bem a maguada vida, e a +virtude santa, aquellas servas do Senhor. A Mãe de Jesus, protectora +sempre invocada de Maria, tocou talvez o coração das carinhosas freiras +que parecem porfiar qual mais mimos e agrados fará á querida hospeda. + +D'ahi a pouco volveu ao mosteiro Fr. Antonio com a familia toda. O +coronel esmoreceu d'aquelle seu grande animo vendo a magreza cadaverica +da filha. O velho, alimpando as lagrimas, fez que nenhuns olhos ficassem +enxutos. Diante d'aquella magestosa dôr, não houve uma só pessoa que +tivesse espirito para consola'-lo. O padre, esse, o que mais ali soffria +talvez, abaixava humildemente a cabeça diante de seu irmão, como quem +confessa a maior culpa de tamanha desventura. + +Uma das religiosas, querendo consolar, censurou sem asperidão, ainda +assim, o proceder inhumano de Alvaro da Silveira. + +Maria fez um gesto de desagrado, e, sentindo amargamente que lh'o não +entendesse a freira condoida, disse: + +--Alvaro da Silveira é meu marido, minha senhora. Deus é que julga as +nossas acções... Eu preciso a piedade de toda a gente; mas não queria +que ella custasse a Alvaro a sua condemnação. Meu marido não é mais +feliz que eu. Por isso que estou muito certa d'isto, peço ás senhoras +d'esta casa que roguem a Deus por elle, quando lhe rogarem por mim. + +Ficaram como assombrados todos os animos, e apiedados todos os corações. +Ninguem, durante aquelle dia, proferiu o nome de Alvaro. + +Á tarde houve um adeus de muito chorar; mas, ao dia seguinte, lá estavam +os irmãosinhos e a mãe da secular, e o tio padre, uns para chorar com +ella, outros para distrai-la com as suas innocentes graças. + + +XXVIII + +Maria trabalhava em flores, em costura, em tudo que fazia independente o +seu parco passadio; e, desde o segundo dia, oração e trabalho +alternavam-se, afóra as horas das lagrimas, que eram de noite, sósinha, +a occultas das consolações, ás vezes importunas, das amigas--que todas o +eram. + +Frei Antonio foi um dia mui alegre ao locutorio, e disse isto a Maria: + +--O pae de Alvaro foi hoje a nossa casa, attribulado que fazia dó! É +homem honrado, e quer-te como a filha. Sabia tudo, e abraçou-se a teu +pae, pedindo-lhe compaixão para o mais desgraçado dos paes. Queria +vêr-te, não se afoutava a vir sem licença nossa. Concedemos-lh'a todos +com muito prazer. D'aqui a pouco está comnosco, filha. Pede uma grade +para o receberes. + +E, ditas estas e mais algumas palavras da alvoroçada Maria, o velho +Silveira chegou-se ao locutorio, dizendo que queria abraçar sua filha. O +claustro negava-lhe satisfazer tal desejo e d'ali foi para uma grade +onde foi pathetica a scena. Maria não se queixava, ao mesmo tempo que o +velho amaldiçoava o filho. Ella, então, punha as mãos supplicantes, +pedindo-lhe que levantasse a maldição de sobre o infeliz Alvaro. + +Siveira apertava a mão do padre, e dizia: + +--Com este nobre e santo coração recompensa o Senhor todos os +padecimentos de uma familia; esta virtude, porém, exacerba a minha +magua, porque eu sou pae de um monstro, e este anjo é victima d'elle, +e... talvez minha. Fui eu que lh'a pedi, sr. padre Antonio... + +Occorriam então as pacientes reflexões de Maria, querendo absolver todos +os que promoveram o seu casamento. E, sem affectação de virtude, a +christã de coração e ensino, dizia que mais devia agradecer a Deus as +provações em que puzera a sua fé, e a sua esperança no premio celestial. + +Silveira quiz saber que vida era a da sua nora. Contou-lh'a o padre. O +velho, pasmado de tanta resignação, quiz logo alli chamar a prioreza +para dizer-lhe que n'aquelle mesmo dia, a esposa de seu filho era uma +secular com fartos meios de subsistencia, e com todas as regalias +possiveis n'um convento. + +Maria atalhou a liberalidade do sogro, dizendo que não acceitaria um +ceitil em quanto pudesse trabalhar. + +Foram, pois, baldados esforços de sogro e tio. Não havia, com razões, +demove'-la do seu proposito. As que se lhe davam eram frivolas. Silveira +queria que sua nora tivesse alli a grandeza do seu nascimento. A isto +replicava ella que nascera mui pobre, e cria que o saír da sua +obscuridade fôra infelicitar-se, e rebuscar novas pompas seria reincidir +na desgraça voluntariamente. Só no trabalho esperava allivio--dizia +ella; e por misericordia pedia que a deixassem com os seus recursos, +porque a aptidão para o trabalho fôra o seu inexhaurivel patrimonio. + + + + +LIVRO ULTIMO + + +I + +Desde 1835 até 1842, a historia de Alvaro da Silveira é a historia de +todos os homens perdidos. + +A reclusão de sua mulher, no principio, recebeu-a como um ataque aos +seus direitos de marido, e quasi esteve, por orgulho, a requerer um +divorcio, ou, ainda mais, a annulação do casamento. + +Outras idéas vieram desenlea'-lo d'esta preoccupação periodica. O seu +amigo conde chasqueava-lhe a demasiada susceptibilidade, dizendo-lhe que +poucos maridos deviam tanto á fortuna, que por tão suave processo, o +descartára a elle do tropeço conjugal. + +O velho Silveira saíu d'este mundo, um anno depois que Maria entrára no +convento ralado de penas, infamado pelas immoralidades de Alvaro, que, +de collaboração com o conde, redigira os famosos estatutos para a +chamada _sociedade do delirio_. Ao estrondo das primeiras impudencias, o +pobre pae correu a querer salvar o filho. Foi recebido com desdém, e +repellido com o desprezo ás suas instancias. O velho coração não podia +com o golpe. Morreu sem filho ao pé do leito, quasi desamparado dos +parentes que o inculpavam na educação licenciosa de Alvaro. Quem lhe +ministrou as consolações do trespasse, foi um extranho. Frei Antonio dos +Anjos, ao qual o senhor de uma grande casa disse á hora da morte, que as +dissipações de Alvaro não lhe tinham deixado seis vintens para mandar +dizer por sua alma uma missa. + + +II + +O marido de Maria viajava então por França, onde lhe foi a nova da morte +de seu pae. Alvaro melhorava de meios, porque os recursos, que seu pae +lhe dava com quanto superiores ao rendimento de sua casa, não bastavam á +dissipação. + +Veiu prestes a Lisboa tomar conta dos seus vinculos. + +Procurando um usurario que lh'os acceitasse como hypotheca de alguns +contos de réis, ninguem os queria por mais do valor dos rendimentos de +tres annos, porque a magreza livida de Alvaro aterrava os agiotas. + +Um mercieiro, antigo creado de seu pae, sabendo que o fidalgo barateava +á usura os seus bens, apresentou-se-lhe para acceita'-los como hypotheca +de uma somma quasi egual ao valor d'elles. + +Alvaro abençoou o seu destino, e receoso de que o mercieiro se +arrependesse, apressou o contracto. + +O comprador, porém, clausulou que em sua mão ficaria uma certa somma +para acudir ás necessidades da esposa do vendedor, se ella um dia as +sentisse. Alvaro acceitou essa hesitação maravilhado de que o inepto +logista não pedisse a assignatura consentanea de sua mulher! + +Este mercieiro conhecia frei Antonio dos Anjos. Captivo do benevolo +interesse d'elle, o padre fôra-lhe contando os infelizes acontecimentos +d'aquella casa. O velho creado de Gonçalo da Silveira, quando soube que +seu amo expirára, quasi desamparado, sem seis vintens em dinheiro para +uma missa, chorou, e protestou valer ao filho, quando o soccorro lhe +aproveitasse depois de uma lição amarga. + + +III + +Em 1842, Alvaro fugindo aos credores de Pariz, de Londres, de Madrid, de +onde quer que desbaratou o seu e o alheio, appareceu em Lisboa pedindo +ao mercieiro que lhe valesse. A desgraça quebrára-lhe a soberba. Alvaro +pedia com humildade, se não era antes relaxamento, soccorro ao creado de +sua casa. O logista deu-lhe a quantia que ficára, como em deposito, para +ser dada a Maria, dizendo que ella a mandára entregar a seu marido. + +Recebeu-a com indifferença, e consumiu-a obscuramente em uma roda que +não era a sua, na convivencia de individuos que, sómente no abysmo da +desgraça, sem honra, se encontram. + +Padre Antonio dos Anjos não sabia dizer a Maria, onde seu marido estava. +O mercieiro é que não perdeu de vista o filho de seu amo, com a mira de +levanta'-lo, quando elle abrisse os olhos no extremo caír de perdição. + +Foi elle, pois, quem deu ao frade miudas novas de Alvaro de Silveira. +Umas vezes recebia dos parentes uma dadiva, como esmola. Outras, +achava-se entre a gentalha, buscando nas fezes sociaes esquecer os +explendores que dissipára. Eis ahi que chegava a mão mysteriosa do +logista. + + +IV + +Um dia, Alvaro da Silveira quiz annullar o contracto feito com o +desconhecido bemfeitor. Aconselharam-n'o que a acção de dolo devia ser +intentada por sua mulher contra o comprador fraudulento dos vinculos. +Alvaro escreveu a sua mulher uma carta, onde se via um espirito +embrutecido pela desgraça, um ar de cynica indifferença, não affectada, +porque é ella o caracteristico do homem a seus proprios olhos +desprezivel. N'esta carta, pedia Alvaro a Maria que o coadjuvasse a +resgatar os bens de que dependia a farta subsistencia de ambos. + +Maria respondeu que não podia demandar o comprador de uns bens que ella +nunca julgára seus. Accrescentava que os unicos bens de sua posse eram a +propriedade do trabalho; e o resultado d'elle reparti'-lo-ia irmãmente +com seu marido, se elle o acceitasse. O padre quiz ser portador d'esta +carta. + +Alvaro não poude evitar a presença do tio de sua mulher. Estava elle +vivendo em um quarto de emprestimo na casa de um homem, que lh'o +offerecera, não conhecido seu. A providencial espionagem do mercieiro +preparára-lhe esse quarto, ao mesmo tempo que o avisavam das intenções +de Alvaro, ácerca dos rendimentos comprados. + +Eis aqui o que disseram Alvaro e o padre. + +--Que futuro será o seu, sr. Alvaro? + +--A continuação do presente, quando sua sobrinha não queira tirar-me +d'elle. + +--Minha sobrinha?! + +--Sim. Se minha mulher annullar a escriptura que assignei do trespasse +dos meus rendimentos por vinte annos... + +--Já viu o que minha sobrinha lhe diz. + +--Então, seremos ambos desgraçados, e eu mais de que ella, porque fui +creado na opulencia, e ella... + +--Na miseria: póde v. ex.^a acabar a phrase que nos não envergonha. +Maria offerece a seu marido um quinhão da sua miseria. + +--Não entendo... + +--Reparte com seu marido o salario de seu trabalho. + +--Está zombando? Que póde minha mulher repartir? + +--Migalhas. + +--Eu não vivo de migalhas, nem queria que ella vivesse. Agradeço-lhe +esse offerecimento que me faz. Se é castigo com que me pune, bem +castigado estou, sr. frei Antonio. Diga-lhe que aos desgraçados da minha +especie perdôa-se, porque a necessidade é um supplicio infernal para o +homem que teve. + +--E, comtudo, a honra na pobreza rehabilita o desgraçado. + +--Não é n'este tempo, nem n'esta sociedade... E, de mais, eu não sou +deshonrado. Tenho gasto muito, tenho dissipado tudo, mas esse muito, +esse tudo era meu. + +--Tem v. ex.^a orgulho do seu feito! + +--Tenho; tenho legitimo orgulho de ter fugido á sociedade antes que ella +me repellisse. + +--E se ella o abraçasse na sua pobreza? + +--O senhor não conhece os homens. Se os conhecesse, sua sobrinha seria +hoje a feliz virtuosa que foi. + +--E é, se não feliz, virtuosa... mais, pela paciencia, e pela +esperança... + +--Esperança!... + +--Esperança, sim, de o ver rehabilitado perante ella e o mundo. Ouça-me, +sr. Alvaro. Comece hoje a ser amigo de sua mulher, se póde. Verá o que é +um anjo. Verá como ella o faz esquecer da sua posição infeliz n'este +mundo. Aquelle poder de Deus, que as minhas mãos indignas não souberam +empregar na sua regeneração, verá v. ex.^a o que é nas mãos da +pobresinha recolhida de Sant'Anna. Queira ve'-la, que ella não lhe +fugirá. Vá ve'-la. Não cuide que tem de pedir perdões, accusando-se de +ingratidões e crueldades. Vá como se não tivessem corrido seis annos sem +se verem, sem se escreverem. A sua salvação é ella que a tem no thesouro +da nobre alma que Deus lhe enche todos os dias de conforto e +esperança... + +Alvaro escutára o longo discurso do padre, sem quebrar-lhe a successão +de palavras qual d'ellas mais tocante. + +Frei Antonio por fim, abraçando-o com carinhosa effusão, perguntou: + +--Vae, sr. Alvaro? + +--Irei, se assim o quizer. + +As muitas lagrimas de Maria, as de sua familia, as orações religiosas +que pediam a Jesus Misericordioso a regeneração de Alvaro, começaram a +florir, para fructos abençoados. + + +V + +O padre separára-se no caminho, por suppor que a sua assistencia +constrangeria Alvaro na presença de Maria dos Prazeres. Alvaro, porém, +desde que se viu só, e á porta do mosteiro, desanimou. + +Não foi o receio de ser accusado de ingrato e cruel que o susteve. Essas +accusações já o frade lhe tinha dito que as não ouviria. O que lhe +esfriou o alvoroço com que ia, foi um sentimento de vergonha de si +proprio. Acostumado a deixar-se sempre guiar, sem combate, pelas +primeiras impressões, boas ou más, Alvaro, depressa annuira a procurar +sua mulher, e mais depressa foi vencido pelo orgulho que lhe dizia +quanto elle ia ser pequeno diante de sua mulher. + +A soberba apraz-se, ás vezes, escarnecer as suas victimas, depois que as +acha despenhadas na miseria. É quando ella se converte em castigo duro, +tormento incomparavel. Em quanto rico, Alvaro, mordido pela serpente da +soberba, acudiu á dôr da chaga com o balsamo do ouro, essa alavanca +poderosa do capricho e da vingança. Pobre, a ferretoada da vibora +entrava-lhe até ao coração, e d'ahi lavrava ulcerosa, porque a miseria +constante lh'a estava descarnando sempre. + +Por isso o pobre orgulhoso será entre os mais desgraçados o primeiro. Se +Deus se não amercear das angustias, que espedaçam o homem caído em +miseria do alto da grandeza, o inferno das dôres indescriptiveis estará +no coração d'esse Lucifer despenhado. + + +VI + +Maria recebeu esta carta: + +«É o teu amor, ou a tua piedade que me chama, Maria? Se amor...! como +hei de eu acredita'-lo? que fiz eu que te não mereça odio? onde póde +estar esse amor, depois de seis annos de ingratidões, e esquecimento, a +peor de todas?! Esquecimento, não. Lembravas-me, Maria, e sabes quando, +e com mais amargura? Quando me sentia caír. A cada empurrão que o +destino, ou o Deus da vingança, me dava para este abysmo, era então que +eu te via, despenhada por mim, vendo-me caír; mas que differença entre +as nossas quedas! Eu a precipitar-te e um anjo do céo a erguer-te para +onde a minha alma desesperada não póde já desafogar as suas afflicções! + +--Não pódes amar-me, Maria, não pódes. A compaixão, se outro affecto me +não tens, essa não a acceito. Além de certo extremo de infortunio, está +o egoismo na desgraça, o desprezo da piedade vã se não é antes +humilhadora. Deixa-me esperar a mórte, n'este lodaçal em que vivo. A +esperança não póde mais entrar em minha alma. Adeus. + + _Alvaro_». + + +VII + +As lagrimas de Maria desfaziam as linhas que ella escreveu, em seguida á +leitura d'esta carta. A penna obedecia ao ardor do coração. Era a +primeira vez que ella o escutava, e lhe obedecia sem consultar primeiro +o padre. + +Era assim a resposta que Alvaro recebia pelo mesmo portador: + +«Vem, meu amigo. Deus te guie o coração que a sua divina mão abriu ao +arrependimento. Tu és ainda muito rico: do thesouro de amor que te dei, +e tu rejeitaste, não dissipei um só dos carinhos com que heide +restituir-te..., restituir-te, não digo bem, com que heide dar-te uma +felicidade nova, nunca experimentada. O infortunio fez-te bom. Tu +precisas de mim e eu hoje tenho um santo orgulho de ser a unica pessoa +que tens por ti, um coração amigo. Esse egoismo na desgraça é uma +soberba blasfema. Deus não te desamparou, meu amigo. Se de mim não +queres consolações, vem ao menos ver como eu choro a perda das tuas +esperanças. + + _Maria_». + + +VIII + +O orgulho de Alvaro succumbiu. No dia seguinte, procurou Maria. Desta +vez, não o abandonou o animo á porta do mosteiro. A primeira pessoa que +viu no pateo foi o seu mestre, o tio de sua mulher. + +Eram oito horas da manhã. Frei Antonio entrava no templo para +sacrificar, e convidou Alvaro a segui'-lo, porque Maria estava no côro, +e, só depois da missa, viria ao locutorio. + +O abstrahido moço, entrou ne egreja e ajoelhou. Maria soltára, no seio +de uma amiga, um _ai_ que o denunciára. A amiga, electrisada pelas +lagrimas felizes da secular, pediu á prelada se lhe consentia que +tocasse o orgão durante a missa. Obtido o consentimento, fez soar, +magestosa de tristeza, tristeza suavissima que dulcifica as lagrimas, a +musica do _Te-Deum laudamus_. + +Na fronte de Alvaro eriçaram-se os cabellos: a felicidade +trasbordava-lhe do seio em lagrimas, corria-lhe o corpo o calefrio do +arrebatamento, esse phenomeno inexplicavel que tantas vezes abala as +organisações delicadas. + + +IX + +Soube-se logo a causa da perturbação de Maria. A prelada quiz saber +porque chorava assim. A docil senhora não podia nem devia esconder o +motivo das suas lagrimas. Pediu uma grade para receber seu marido, e a +prioreza, ensinada pelo coração que adivinhava os desejos de Maria, +pediu-lhe para acompanha'-la á grade. A mulher de Alvaro apertou-a ao +seio com alvoroço de contentamento. + +--Venha comigo, minha mãe,--disse ella--Eu preciso que elle ouça as +palavras que Deus manda ao seu coração. Dê-lhe a elle a felicidade no +infortunio como m'a deu a mim. Não espero que elle me dê um amor como eu +o esperava antes de experimentar as angustias do desprezo; mas se for +possivel converte'-lo ao temor de Deus, elle ha-de estimar-me, e com a +minha estima soffrerá os trabalhos da vida, sem a impaciencia que o faz +blasfemar. Oh! meu Deus! elle é tão novo e tão desgraçado! Que longa +vida de desesperação será a d'elle, se não conseguirmos mostrar-lhe que +se póde ser pobre e feliz! + +A prelada pediu cinco minutos de espera. Recolheu-se em oração ao seu +oratorio, e voltou com o sorriso de esperança para Maria, e a confiança +em Deus no coração. + +Entraram na grade. + + +X + +Alvaro estava em pé, com os olhos fitos na porta por onde Maria devia +entrar. A prioreza, apenas entrou com a secular pela mão, disse mui +affavelmente: + +--Eu não esperei que me apresentassem o sr. Alvaro para ter o prazer de +cumprimenta'-lo. Conheci n'esta casa suas tias-avós, conheci sua mãe, e +seu pae e toda a sua familia. Até conheci um anjinho do céo, que me +disseram ser esposa de v. ex.^a Tratei de averiguar se era verdade. O +mundo dizia que sim, o anjinho tambem dizia que sim, e eu disse sempre +que não, porque não acho natural que o possuidor de um thesouro, vindo +do céo, o lançasse de si. Teima a minha Maria em dizer que é sua, e eu +digo que não póde ser senão de quem eu quizer. Agora é minha filha e não +póde ser sua esposa, sem que v. ex.^a m'a venha pedir com todas as +formalidades de noivo. + +--E dar-m'a-ha v. ex.^a?--perguntou Alvaro correspondendo com +jovialidade á graça risonha da prelada. + +--Dou-lh'a--replicou a prelada--com uma condição. Há de vir viver ao pé +de nós. + +--Como, minha senhora?! + +--Ha-de vir viver comnosco. Aposto que está lá fazendo seus entes de +razão contra a violação do claustro? Eu lhe digo, meu genro, uma freira, +que tem uma filha como esta, dá um testemunho de que se deixou arrastar +por alguma d'essas paixões feias que são a origem d'estes anjos tão +lindos! V. ex.^a está-se rindo?! Então ouça-me agora seriamente, e esta +Maria, que está chorando e rindo ao mesmo tempo, escute tambem. O sr. +Alvaro vem viver comnosco, não é bem comnosco, porque entre a nossa casa +e a sua ha uma parede. Então já sabe para onde vae? + +--Não, minha senhora; espero as ordens de v. ex.^a. + +--Vae para casa do nosso capellão, que é um egresso chamado Antonio dos +Anjos, um santo, que foi algum tempo mestre de uma creança traquinas, +que andou por esse mundo de Christo a fazer travessuras, e me dizem que +ainda aqui ha-de vir para ser muito meu amigo, e talvez para me pedir +contas de um coração que eu, sem sua ordem, recolhi ao meu, para ambos +pedirem juntos ao Senhor das misericordias a redempção de um escravo do +mal, tão digno de ser o que eu sei; e Deus quer que elle seja. + +Maria rompeu em soluços e lagrimas. A prelada tomou-lhe para o seio a +face, como se afagasse uma creança. Alvaro estava immovel, com os olhos +rasos de lagrimas postos no sympathico grupo da encanecida prioreza e da +ainda formosa Maria. + + + +XI + +--Assim a chorar (continuou a freira mudando para o tom jovial) não +podemos combinar as nossas escripturas de casamento, nem as precedencias +que hão de dar-se antes de se unirem os meus filhos. O sr. Alvaro ha de +estar dois mezes na companhia do nosso capellão: ha de vir todos os dias +a esta grade almoçar com a sua velha sogra e com a sua futura esposa; ha +de vir todas as tardes saber como está o rheumatismo da decrepita +prelada, e traduzir-me do francez um sermão do padre Massillon, porque +eu já não posso ler. Quando não estiver para ler á velha, ha de me +contar o que viu nas suas viagens. Para tornarmos bem amena esta santa +vida que projectamos, ha de vir para esta grade o dote que eu dou á +minha menina: é um piano, e ella ha de perder o seu natural acanhamento +e tocar umas musicas tristes que levam a consolação ao espirito, e +trazem de dentro um tributo de lagrimas aos olhos. Ora, pois, meu genro, +responda se está pelas condições que eu acabo de propor-lhe. + +--Minha senhora...--balbuciou Alvaro. + +--Não está?!--interrompeu a prelada. + +--Se estivesse ao pé de v. ex.^a... beijar-lhe-ia essa mão, que sinto no +coração arrancando-me os espinhos que m'o rasgavam. Deixe-me verter este +pranto que é uma respiração de homem que se salva da morte de asfixia. +Respondam as minhas lagrimas, senhora, eu não posso dizer mais nada. + +--Eu vos agradeço, meu Deus!--exclamou a freira erguendo as mãos, e +ajoelhando, com a face pendida para o seio. Fôra como um toque celeste o +d'aquella transição do sorriso para a humildade magestosa d'aquella +postura, em que Alvaro e Maria pareciam absorvidos, contemplando-se, e +contemplando-a, mudamente. + + +XII + +Fr. Antonio dos Anjos, sabendo que a prelada o mandára entrar na grade +passados alguns minutos, chegou no ensejo em que a veneranda senhora +limpava as lagrimas. + +--São lagrimas de felicidade...--exclamou ella--Venha compartir do nosso +jubilo, Fr. Antonio. Ahi tem o seu discipulo, que vem do mundo mais +instruido do que foi das suas lições. Traz a sciencia da desgraça, e +entende que para ser um sabio completo só lhe falta a sciencia da +resignação. Essa é que o padre capellão lhe ha de ensinar. Já sabe que o +seu quarto ha de ser mobilado por mim, e conforme fôr do meu agrado? +Pois ha de ver como uma freira caduca tem ainda o gosto apurado. Hoje ha +de remediar-se com a cama que o padre lhe der; amanhã ha de ter um +quarto que nem um palmito. Os quadros hão de ser os que a minha filha me +deu; são flôres que significam o aroma que vae da oração até Deus; são +um cãosinho que é o symbolo da amizade; é uma cruz que significa o +throno onde todas as angustias são coroadas soberanas da gloria +eterna... em fim, são obras de muito lavor e de muita paciencia, +desbotadas quasi todas pelas lagrimas. Ora pois, está tocando ao côro; +eu vou lá pedir a Deus que abençoe a escolha que fiz de um genro, e a +minha filha, que está mais para chorar, qual quer, vir enxugar essas +lagrimas aos pés da cruz, ou ficar aqui? + +Maria não respondeu. Frei Antonio interrogou com os olhos a vontade de +Alvaro, e conheceu-o opprimido. + +--Vão, vão--disse o padre--Nós voltaremos. + +--Maria!--disse Alvaro--eu ainda te não ouvi uma palavra. Seja só uma... +diz-me: «perdôo-te.» + +Maria exclamou entre soluços: + +--Deus sabe que nunca te accusei; se me tivesse queixado com ira, +pedia-te perdão agora. + +--É, pois certo, meu Deus?--disse Alvaro. + +--O que?--perguntou a prioreza. + +--É certo que é possivel a felicidade para mim? + + +XIII + +Alvaro da Silveira hospedou-se em casa do capellão. As suas horas eram +repartidas conforme o programma da prioreza. Frei Antonio já não ousava +confiar em si, e suffocava sempre a alegria do coração que exultava com +a rehabilitação de Alvaro. + +Maria, porém, acreditava-o, e a prelada tambem. Alvaro parecia feliz com +ellas, feliz com o padre, feliz com a leitura em que empregava o tempo +livre. + +Ninguem lhe falava no seu passado, nem elle proferia palavra que +despertasse recordações. Tambem não falava no futuro, e, se Maria +vaticinava delicias na pobreza, o melancolico moço revelava um +soffrimento doloroso como a vergonha ou como o remorso. + +O passadio de Alvaro era superior ás posses do egresso. Um dia perguntou +elle se a capellania consentia tanto. Frei Antonio respondeu que podia +muito o trabalho de Maria. Alvaro chorou, ergueu-se da mesa, e exclamou: + +--Estou punido, meu Deus! + + +XIV + +Alvaro, procurando Maria, disse-lhe: + +--Não abusarei das tuas bondades, anjo. Vivo do teu trabalho, +agradeço-te de joelhos a esmola, e não posso continua'-la a receber. + +Maria soltou um grito do coração e disse a Alvaro que a não matasse. + +--De joelhos sou eu que te peço, meu amigo--exclamou ella--que me não +abandones. Recompensa-me do muito que soffri, permittindo que eu sinta a +santa felicidade de trabalhar para nós ambos. Oh! tu não sabes avaliar +que ventura é esta! Se tivesses nascido pobre como eu, se tivesses +ajudado com o teu talento a comprar o pão de teus paes e teus irmãos, +não tinhas a crueldade de me roubar este prazer. Ó Alvaro, diz-me que é +certo viveres para mim e para a esperança de melhores dias. Diz-me que +entre a minha alma e a tua não ha uma linha de distancia que separe as +nossas ultimas migalhas de pão. + + +XV + +Passados dois mezes encontraram-se frei Antonio e o mercieiro que tinha +emprestado dinheiro sobre os rendimentos da casa de Alvaro. + +--Já sabe tudo?--perguntou o padre. + +--Sei tudo--disse o lojista--O rapaz está outro. Vae ver sua mulher +todos os dias, e ouvi dizer que chorava os seus peccados. Que faz elle +agora se está arrependido? Porque não tira a pobre senhora do convento? +Que se arremedeiem com pouco, e vivam juntos. + +--É pouco de mais o que elles têem para viverem. + +--Eu darei o que lhes faltar; mas requeiro debaixo de juramento que +nunca a minha protecção seja sabida por algum d'elles. + +Oito dias depois, Maria dos Prazeres, ou dos Anjos como a chrismaram no +convento, para que o sobrenome não fosse uma falsidade, saiu do convento +para uma pequena casa, onde seu marido a esperava com a face inundada de +lagrimas felizes. + +Aquelle viver dos tres era um santo frenesi de amor; Vinham compartir +d'aquella alegria o coronel, a mãe de Maria, seus irmãos, e até a +prioreza quiz acompanhar sua filha para lhe conter (dizia ella) os +impetos amorosos da lua de mel. O padre estava sempre em continua acção +de graças. Ria e chorava ao mesmo tempo o bom do velho. No arrebatamento +da alegria abraçava a prelada que tinha sempre um equivoco mui engraçado +que dizer-lhe n'esses expansivos abraços: riam-se todos e o coronel +rejuvenescia da intempestiva velhice. + +--Quem dá os meios para esta casa?--perguntava elle. + +--A providencia de Deus--respondia o irmão. + +--D'onde vem este dinheiro no principio de cada mez?--perguntava Maria. + +--Da Providencia de Deus--replicava o tio ás repetidas instancias. + + +XVI + +Alvaro da Silveira inspirava receios de reincidencia ao padre. A sua +primeira conversão parecia sincera e firme, e o anjo do bem abandonára-o +ás presas do vicio resurgente. A segunda, semelhante á primeira, com +quanto abonada pela experiencia de duras penas, poderia, chegando ao +extremo, não vingar. Fr. Antonio temia o tempo, tremia em segredo; e não +ousava dizer os seus temores á sobrinha ou á irmã. + +O marido de Maria, penetrando o coração do padre, dissera-lhe: + +--Conheça o coração humano, meu caro bemfeitor. A minha conversão +religiosa foi um abalo que devia parar. Eu era um homem que achava +pequeno o mundo. Scismára muitas vezes na eternidade, quando voltava com +enojo as costas aos vicios satisfeitos. O meu espirito, immergido no +lodo, não podia voejar acima do que os olhos abrangiam, e os sentidos +confirmavam. Refazia-me novamente de forças para a libertinagem, +procurava-lhe com cynica avidez as faces novas e, desesperado de +encontra'-las, invocava outra vez a idéa confusa do meu destino. + +«Quando frei Antonio me appareceu, a minha alma era um vacuo horrivel. +Ouvi-o, era a primeira vez que a voz de um homem respondia ás minhas +perguntas a Deus. Affiz-me a considera'-lo um justo, alteei-me onde os +seus vôos me chamavam, e sentia rejuvenescer a minha alma de viço e +alentos nunca experimentados. Maria, este anjo de Deus, fez que o meu +coração se purificasse ao mesmo tempo que o espirito se regenerava. O +amor que lhe dei, immenso e fervoroso, não era mentira; nem podia +sê'-lo, por que a mentira não se sustenta á custa do sacrificio da +liberdade. + +«O amor d'ella era para mim uma emanação do amor divino. No dia em que +aquella ardente fé nos divinos preceitos se entibiasse, arrefeceria +tambem o amor a sua sobrinha. Estavam vinculados ambos os affectos: +dependiam um do outro. A religião era como a lampada suspensa no meio do +templo que reflecte o seu clarão em todos os altares. Logo que se +apagou, fizeram-se trevas em todas as minhas affeições nobres, em todas, +até vergonha senti de haver tido remorso dos meus vicios. Foi por isso +que a sua presença, padre Antonio, me aborrecia, que os conselhos de meu +pobre pae me enfastiavam, e que as lagrimas de minha mulher me levavam +desde o desagrado até ao odio. Isto foi horrivel, mas verdadeiro. + +«Como a luz da religião se extinguiu em minha alma, não sei. Lembra-me +que me assaltaram saudades de uma sociedade que me ridicularisava a +conversão e o casamento. Saudades de uma vida mesclada de tedios e de +alegrias. Necessidade de alargar o circulo de ferro que me apertava a +respiração. Era o crime que me visitava com todas as suas galas +perfidas. Era o anjo mau da tentação que triumphava, pintando-me +insignificante de espirito, de «fortuna», e de belleza uma mulher que +parecia violentar-me a adquirir os seus habitos mesquinhamente caseiros +e de baixa condição. + +«Ultrajei a minha pobre victima com o desprezo, e depois pensei que a +mataria com o abandono. Fui um infame dos infames que se não definem. + +«Nenhum homem experimentou affrontas semelhantes ás que eu devorei. +Todos os meus haveres hypothequei-os ao vicio, e ao crime. Nunca tive +uma alegria de alma por um punhado de ouro. Arrojava-o com desesperação +aos abysmos onde me diziam que era possivel arrancar-se das mãos do +diabo uma sentença de prazer novo. Nunca, nunca! Tocaria a ultima balisa +da indigencia, se o meu fausto não apparentasse uma riqueza. Pedi +quantias, algumas das quaes não pagarei jámais, porque estou pobre, e +outras paguei-as com o vilipendio merecido de um carcere. + +«Algumas vezes vi uma sombra veneranda, padre Antonio, e pavorosos +sonhos eram aquelles em que eu via minha mulher a expirar-lhe nos +braços. + +«Revivia-me então a necessidade de gritar pela misericordia divina; mas +o grito de contricção era suffocado por um riso blasphemo. Quando o +infortunio é superior ás forças humanas apaga-se a luz da razão, fica o +espirito na escuridade da demencia, e já não ha alma que se refugie na +esperança de uma vida melhor. + +«Hoje, sim, frei Antonio. Já não é uma organisação susceptivel de +impressões que obedece á eloquencia da sua palavra religiosa. Hoje é o +desgraçado, que sente no coração fendido de golpes o poder do balsamo +divino, ministrado pela mão d'aquella que victimei. O perdão da martyr é +o que me está testemunhando a misericordia do céo. Vejo n'ella a +omnipotencia de Deus: não a procuro nos livros, não a preciso da +argumentação; não quero que me combatam com o raciocinio a impiedade que +o meu coração rejeita. Creio em Deus, meu caro mestre, creio no céo, +creio no inferno, creio em tudo que preciso crer para caír de joelhos +aos seus pés, e supplicar-lhe que não duvide um momento da minha +rehabilitação.» + +Padre Antonio recebera-o nos braços, soluçando palavras de benção, e de +felicidade inexprimivel. + + +XVII + +N'um dia de 1839[NT], frei Antonio é chamado a casa de Joaquim Nunes; o +lojista, antigo creado de Gonçalo da Silveira. Vae, e acha-o enfermo. + +--Sr. frei Antonio--disse o merceeiro--chamei-o para me ajudar a saldar +as minhas contas com o mundo, para levar diante de Deus os meus livros +de rasão sem nodoa. Estou muito doente, e não espero nada da medicina. O +que eu tenho a dizer-lhe, não é o receio da morte que m'o faz dizer. Ha +dias que eu preparava esta occasião, e oxalá que sendo a vontade de +Deus, eu sobrevivesse á resolução que tomei. Ora diga-me; como se porta +o sr. Alvaro? + +--Melhor do que as minhas ambições. + +--Já não teme que elle torne ao caminho da perdição? + +--Confio em Deus, não é n'elle, nem em mim, confio em Deus que não. + +--Elle sabe que sou eu o que lhe dou as mezadas? + +--Não sabe: cumpri religiosamente a sua vontade. + +--Deve ter dito muito mal do avarento creado de seu pae... + +--Nem uma palavra, desde que está em minha companhia. Parece que +confessa com o seu silencio gratidão á mão generosa que o soccorre. + +--Ora diga-me, sr. fr. Antonio, envergonhar-se-ha elle de vir visitar um +creado antigo da sua casa, doente? + +--Ó senhor, isso é duvidar do coração de meu sobrinho; essa licença +estava eu para pedir-lh'a... + +--Pois que venha, e venha tambem sua mulher, desejo ve'-los, e o mais +breve que possa ser. + + +XVIII + +No mesmo dia, Alvaro, Maria, e frei Antonio dos Anjos visitaram o +merceeiro Joaquim Nunes. + +As lagrimas inexplicaveis deslisavam copiosas pelas faces do enfermo. +Maria, cuja sensibilidade respondia logo á dôr extranha, acariciou o +velho, e fez que Alvaro esquecesse a diminuta repugnancia que sentia em +afagar um homem que possuia os seus bens, e o imaginaria capaz de +humilhar-se para rehavê'-los. + +--Estou quasi só--disse o lojista---Tenho sido só toda a minha vida, e +agora sinto necessidade d'uma familia. Queria eu pedir á sr.^a D. Maria +e ao sr. Alvaro, e ao sr. fr. Antonio que me deixassem ir morrer a casa +do filho de meu amo. Fazem-me a caridade de me acceitar em sua casa? + +--Deus permitta que as suas forças o deixem ir para a nossa +companhia!--exclamou a sobrinha do padre. + +--Poucas forças tenho; mas transportar-me-hei n'uma cadeira, e o sr. +padre Antonio tomará conta das chaves d'esta casa. O meu commercio +acabou; não devo, e os que me devem fôram riscados dos meus livros. Os +meus negocios da vida estão fechados. Agora queria morrer vendo duas +pessoas felizes ao pé de mim, e tendo á minha cabeceira um santo homem +que me ajude a pedir a Deus o perdão das minhas culpas. Se eu vencer a +doença, viveremos todos, ponto é que o sr. Alvaro tenha a bondade de +sentar á sua mesa um homem do povo que foi escudeiro de seu pae. + +Alvaro apertou-lhe, commovido, a mão. Maria, do outro lado do leito, +limpava-lhe com o seu lenço o suor que lhe inundava a fronte e fr. +Antonio, com palavras de jubilo, annunciava ao enfermo que não morreria +ainda para testemunhar e ter quinhão na felicidade de seus sobrinhos. + + +XIX + +Joaquim Nunes passou para a residencia de frei Antonio. + +Nos primeiros dias a sua doença recrudesceu, consequencia do abalo +physico e moral da mudança. + +Depois, um ar de melhora fez crear esperanças aos facultativos. +Esperanças não mentidas fôram essas, porque ao cabo de um mez de +alternativas, o enfermo entrou em convalescença, e veiu a +restabelecer-se. + +No primeiro dia que saíu a passeio, de sege, trouxe comsigo um +tabellião. + +Chamou á sua presença os consortes, e fez ler um testamento, em que +instituia Alvaro da Silveira e sua mulher seus universaes herdeiros. O +testamento foi alli rasgado e o tabellião lavrou uma escriptura de +doação de todos os seus bens a Alvaro e sua mulher, com a condição de o +alimentarem na sua companhia. As especies sommadas dos bens doados +excediam a meio milhão. + + +XX + +Esta dotação não alterou a felicidade d'aquella familia. Correram muitas +lagrimas de alegria, mas essa alegria era a da gratidão, era o expansivo +respirar das quatro nobres almas que alli se vincularam n'uma só +vontade. + +E a vontade de Joaquim Nunes respeitavam-n'a todos. Quiz elle que Alvaro +fosse viver no palacete de seu pae, quiz que revivesse o antigo fausto +d'aquella casa, quiz que a familia de Maria fosse a de todos. +Cumpriram-se os seus bons desejos. + +A felicidade d'esta numerosa familia é indescriptivel. Até 1849, em que +todos viviam, nenhum d'aquelles semblantes fôra annuveado pela tristeza. + +Alvaro é um modelo de honra. Frei Antonio um santo, que está +constantemente agradecendo ao Senhor o galardão de tamanhas angustias. +Maria, a amiga intima da baroneza de Amares, como o leitor a veria no +HOMEM DE BRIOS, é um anjo que anda em cata de soffrimentos para +consola'-los. Joaquim Nunes no centro d'aquella familia, é um homem +adorado, que, em 1849, jogava a bisca de nove com o coronel. + +Bemdito seja Deus que tem estes apostolos a glorifica'-lo na terra! + + +FIM + + + [NT] Nota de Transcrição: No original aparece 1839, apesar de não + estar coerente com a linha temporal do romance. O ano de 1849 é + referido mais adiante na obra pelo que deve ser esta a data + correcta. + + + + + + +End of Project Gutenberg's Lagrimas Abençoadas, by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LAGRIMAS ABENÇOADAS *** + +***** This file should be named 22977-8.txt or 22977-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/2/9/7/22977/ + +Produced by Manuela Alves e Pedro Saborano. (produced from +scanned images of public domain material from Google Book +Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Lagrimas Abençoadas + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: October 12, 2007 [EBook #22977] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LAGRIMAS ABENÇOADAS *** + + + + +Produced by Manuela Alves e Pedro Saborano. (produced from +scanned images of public domain material from Google Book +Search) + + + + + + +</pre> + + +<div class="footnote"> +<p><b>Nota do transcritor:</b></p> + +<p>Foram corrigidos diversos erros tipográficos menores, sem que seja + feita qualquer menção desse facto. As marcas <sup>[NT]</sup> identificam as notas + explicativas das alterações importantes ao texto original.</p> +</div> + +<h3>OBRAS</h3> + +<h4>DE</h4> + +<h4>CAMILLO CASTELLO BRANCO</h4> + +<h5>EDIÇÃO POPULAR</h5> + +<h3>LI</h3> + +<h2>LAGRIMAS ABENÇOADAS</h2> + + +<div id="lista_coleccao"> +<h3>VOLUMES PUBLICADOS</h3> +<table width="100%"><tr><td width="50%" valign="top" > +<ul> +<li>N.<sup>o</sup> 1--Coisas espantosas.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 2--As tres irmans.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 3--A engeitada.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 4--Doze casamentos +felizes.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 5--O esqueleto.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 6--O bem e o mal.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 7--O senhor do Paço +de Ninães.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 8--Anathema.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 9--A mulher fatal.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 10--Cavar em ruinas.</li> + +<li>N.<sup>os</sup> 11 e 12--Correspondencia +epistolar</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 13--Divindade de Jesus</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 14--A doida do Candal.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 15--Duas horas de leitura.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 16--Fanny.</li> + +<li>N.<sup>os</sup> 17,18 e 19--Novellas +do Minho.</li> + +<li>N.<sup>os</sup> 20 e 21--Horas de paz.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 22--Agulha em palheiro.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 23--O olho de vidro.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 24--Annos de prosa.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 25--Os brilhantes do +brasileiro.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 26--A bruxa do Monte-Cordova.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 27--Carlota Angela.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 28--Quatro horas innocentes.</li> +</ul></td><td valign="top"><ul> +<li>N.<sup>o</sup> 29--As virtudes antigas--Um +poeta portuguez... +rico!</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 30--A filha do Doutor +Negro.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 31--Estrellas propicias.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 32--A filha do regicida.</li> + +<li>N.<sup>os</sup> 33 e 34--O demonio +do ouro.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 35--O regicida.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 36--A filha do arcediago.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 37--A neta do arcediago.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 38--Delictos da Mocidade.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 39--Onde está a felicidade?</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 40--Um homem de +brios.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 41--Memorias de Guilherme +do Amaral.</li> + +<li>N.<sup>os</sup> 42, 43 e 44--Mysterios +de Lisboa.</li> + +<li>N.<sup>os</sup> 45 e 46--Livro negro +de padre Diniz.</li> + +<li>N.<sup>os</sup> 47 e 48--O judeu.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 49--Duas épocas da +vida.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 50--Estrellas funestas.</li> + +<li>N.<sup>o</sup> 51--Lagrimas abençoadas.</li> +</ul> +</td> +</tr> +</table> +</div> +<div class="ppagina"> + +<p><i>CAMILLO CASTELLO BRANCO</i></p> + +<h1>LAGRIMAS ABENÇOADAS</h1> + +<h3>ROMANCE</h3> + +<h4>QUARTA EDIÇÃO</h4> + +<p>1906<br> + +<span class='small-caps'>Parceria Antonio Maria Pereira </span><br> + +Livraria editora e Oficinas Typographica e de Encadernação<br> + +Movidas a electricidade<br> + +<i>Rua Augusta--44 a 54</i><br> + +LISBOA</p><br> +</div> +<span class='pagenum'> 4 </span> + +<div class="centrado"> +<p>1906<br> + +OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO<br> + +Movidas a electricidade<br> + +Da Parceria Antonio Maria Pereira<br> + +<i>Rua Augusta, 44, 46 e 48, 1.<sup>o</sup> andar</i><br> + +LISBOA</p> +</div> +<span class='pagenum'> 5 </span> + + + + +<h2>A QUEM LER</h2> + + +<p>QUE FELICIDADE É POSSIVEL SOBRE A TERRA: tal é o pensamento d'este +romance.</p> + +<p>QUE FELICIDADE, CONFESSADA PELA CONSCIENCIA, É A UNICA VERDADEIRA: +quizera eu poder provar, assim como posso sentir.</p> + +<p>QUE A FELICIDADE VEM A PREÇO DE LAGRIMAS, COMO A CONSOLAÇÃO DO +SALVAMENTO A PREÇO DAS AGONIAS DO NAUFRAGIO: é um paradoxo, talvez, para +os que não conhecem a verdadeira felicidade, nem choraram as lagrimas +abençoadas da resignação.</p> + +<p>Este romance é religioso na essencia. Escreve-se ahi muitas vezes a +palavra DEUS. Evitam-se as imagens do deleite, o pasto de ociosos, +gastos do coração, e fallidos da alma. Os que buscam no romance qualquer +cousa que não sirva de nada para o espirito, não leiam este.</p> + +<p>Eu espero achar entendimentos que m'o recebam, e corações que m'o +agradeçam.</p> + +<p>Vereis ahi uma mulher, que não é uma chimera. <span class='pagenum'> 6 </span> Imaginei-a, +primeiro, e encontrei-a fóra da imaginação, depois.</p> + +<p>Maria, linda creatura da terra, é a rainha de dois diademas: um no céo: +os anjos, seus irmãos, tecem-lh'o das flores, que ella rega no mundo com +as suas lagrimas. Outro na terra: é a soberania da virtude, respeitada, +embora não compreendida, pelos homens que lhe acurvam o joelho.</p> + +<p>Eu sou um d'estes.</p> + +<p>E o meu romance é uma palavra d'esse cantico de louvor, que o espirito +não póde revelar aos que, no seu caminho, não parariam a +compreender-lh'o.</p> + +<p>Meditemos este assumpto.</p> + +<p>Ha ahi n'esse mundo material uma decidida negação para acompanhar o +espirito nas suas elevações. Eu sei-o.</p> + +<p>Um ou outro homem encosta a face á mão, abraça os horisontes com uma +vista scismadora, afina a harpa da sua alma pela toada sonorosa dos +pinhaes; compõe das notas lugubres da tempestade a harmonia tetrica, e +desfigura-se, e poetisa, e parece não querer nada de commum com a fraca +natureza humana. É o sentimental.</p> + +<p>O sentimentalismo, sem a religião, é uma mentira.</p> + +<p>O que ahi vae de phantastico e espiritualista nos affectos, é uma +exigencia da epoca, é um encargo que a mocidade se impoz, é a precisão +de variar. Diga-se tudo: é a moda.</p> + +<p>Não porque a vida seja feliz, e a natureza do homem <span class='pagenum'> 7 </span> precise +inventar amarguras, para que a felicidade o não enjoe;</p> + +<p>Não porque o espirito, extenuado em sensualidades procure, no ideal, +respirar o elemento de vida, que lhe é proprio;</p> + +<p>É porque as felicidades, saboreadas n'estes tempos não deixam no coração +motivo para um hymno. O homem, que não póde apagar na mente a faisca do +genio, que lhe desceu ao berço, ou mata a inspiração na orgia, ou +abysma-se com ella, por feretros e ossadas até materialisa'-la nas +fórmas repugnantes de uma dor monstruosa.</p> + +<p>E, se assim não fizer, o seu alaúde não tem sons, e o genio fallece-lhe +de impotencia. Mas o poeta quer este titulo; cantor quer a grinalda das +flores em troca da corôa de espinhos; é preciso cantar.</p> + +<p>Se lhe pedisseis, em vez de horrores, uma poesia banhada de luz celeste, +em que os mil reflexos de cima fossem as virtudes possiveis no mundo...</p> + +<p>Se lhe pedisseis, em vez da pagina sempre negra da sua vida, as +alvissimas alegrias de uma virgem, que, a fugir de um mundo, que se lhe +pinta ingrato á sua alma candida, se refugia aos pés de Maria, Rainha +das Virgens, a pedir-lhe o céo, como repouso inviolavel da innocencia...</p> + +<p>Se lhe pedisseis a doçura das lagrimas da pobre, que aconchega seus +filhos n'um envoltorio de andrajos, e ajoelha depois, entregando-os á +Providencia, para que, <span class='pagenum'> 8 </span> ao amanhecer, não sejam muito repetidos +os seus gritos de fome...</p> + +<p>Pedi.</p> + +<p>O poeta ha-de dizer-vos que a luz do céo é esse oceano de luz, que banha +a terra, quando as arvores florescem e as arvores saudam ao alvorecer um +sol esplendido.</p> + +<p>Ha-de falar-vos da virgem, arfando esperanças no seio immaculado, mas +esperanças todas d'aqui, todas embalsamadas pelo incensorio das paixões +terrenas.</p> + +<p>O pobre, esse que vale bem a pena de uma poesia, de uma pagina de +romance, é sempre a victima da má organisação social, e de uma mentirosa +economia politica. Vê'-lo-heis invectivar o rico, com toda a iracundia +de uma inoffensiva estrofe; mas o pobre que continua nas palhas da +miseria, esse não recebe uma consolação em nome do futuro, do céo, e das +promessas de Jesus Christo. É sempre o pobre recrutado para as fileiras +que guerreiam o rico.</p> + +<p>Eu pensei, uma vez, na vastidão de assumptos sobre que o sceptro do +talento extende o seu imperio. Chamando á reminiscencia o acervo de +leituras recreativas, que fiz, durante alguns annos, entrevi nos meus +tempos nebulosos o muito tempo consumido, os muitos volumes folheados, e +não poderei classificar-vos, em synopse de idéas, uma só que me +prestasse ao espirito, ou ao coração, ou á cabeça.</p> + +<p>Aprendi o desengano no romance, antes que a sociedade m'o desse.</p> <span class='pagenum'> 9 </span> + +<p>Libei na poesia do seculo a mentira, antes que o coração contaminado m'a +inspirasse.</p> + +<p>Aborreci-me de mim e das minhas leituras, como se o livro e a poesia +fossem um sarcasmo para quem nas más horas, lhe mendiga espairecimentos +para o espirito.</p> + +<p>Vislumbravam-me no escuro das minhas idéas religiosas uns clarôes +pallidos do que o romance e a poesia deveriam ser para adoçarem muitos +infortunios. Mas, que me pedissem a idéa formulada no livro! Faltava-me +a convicção das virtudes do balsamo para saber applica'-lo á ferida.</p> + +<p>Não tinha eu provado ainda as doçuras da religião para sentar-me com a +taça do Evangelho, á borda do caminho, e dizer ao peregrino cançado:</p> + +<p>Bebe!......................................</p> + +<p>Dão-vos tedio estas minhas considerações? Não são vaidosas. Eu juro-vos +que me doeria muito se uma verdade, esboçada com amplos contornos, não +valesse mais que uma mentira, alinhada com o ouropel de um desusado +estylo.</p> + +<p>O que está dito é o prefacio do meu romance. Duas palavras resumem-n'o +laconicamente n'uma idéa conceituosa.</p> + +<p>Sei em que tempo escrevo, e comtudo, ouso nos estreitos limites de que +posso dispôr, ajustar em molde christão um genero, raras vezes assim +tratado, quer pela costumeira da forma, quer pelo estylo, quer pelas +leis da escola.</p> + +<p>Escrevo um romance, ou antes descanto em prosa <span class='pagenum'> 10 </span> uma virtude, +porque não desafinarei, em quanto possa, a lyra em que fiz soar algumas +poesias, unicas de que me não culpo, nem arrependo. As outras...</p> + +<p>Se eu pudesse avaliar a vossa opinião, consolava-me de não ser enganado +pela minha consciencia de christão e de artista.</p> + +<p>Porto--em 1853.</p> <span class='pagenum'> 11 </span> + + + + +<h1><span class='small-caps'>Lagrimas abençoadas </span></h1> + + + + +<h2>LIVRO I</h2> + + +<h3>I</h3> + +<p>Disseram muitos dos que estavam em redor de uma creancinha, na pia do +baptismo, que na face d'ella havia uma luz mysteriosa, como a projecção +de um cirio invisivel, que, n'aquelle instante solemne, allumiasse, nas +mãos de um anjo, as cerimonias do sacramento augusto. Visão de boas +almas.</p> + +<p>Era uma menina de nove dias.</p> + +<p>Sua madrinha era Nossa Senhora da Conceição, fulgurante de mil lumes, no +seu docel de seda e prata, com as mãos cruzadas sobre o seio, com os +olhos extaticos no céo, como seguindo o trilho de estrellas por onde, +aos pés do Eterno, voejava o anjo da ANNUNCIAÇÃO.</p> <span class='pagenum'> 12 </span> + +<p>Seu padrinho era um duque, vestido de ouro, com as suas insignias de +general em chefe, com o seu thesouro de condecorações guerreiras a +cobrirem-lhe o peito, onde pulsava sangue de reis, que não valia mais, +por isso, em coração de homem.</p> + +<p>Seu pae era um coronel, fidalgo dos que primeiro o foram n'esta terra, +valente como o primeiro e o ultimo da sua linhagem, e honrado como +aquelle de seus avós, que morrera desterrado, em Tanger, por não +denunciar o que lhe fôra amigo desleal, embora traidor ao rei D. João +II.</p> + +<p>Era o coronel... que vos importa o nome?!...</p> + +<p>Sua mãe nascera dama de D. Maria I, crescera mimo de galanteria e +docilidade, emancipára-se donzella de todas as virtudes, casára-se, +mulher, exemplo das mais santas affeições de um marido, e fôra mãe como +póde se'-lo a mulher, depois que a Virgem Maria alimentou um filho, +depois que Jesus Christo rehabilitou a fascinada da serpente, depois que +a filha de Eva entrou no seu reconquistado Eden, a colher a flor da +dignidade, regada pelo sangue do filho de Maria.</p> <span class='pagenum'> 13 </span> + + +<h3>II</h3> + +<p>Este dia, jubilo de anjos, para os quaes os orvalhos do céo, fecundando +as aguas do baptismo, geram na terra um irmão; jubilo de seus paes, que, +depois de quatro filhos, tinham um novo penhor de innocencia para, em +seu nome, agradecer, com labios puros, as esmolas do céo; jubilo da +egreja catholica, que estremece de felicidade, quando entra em seu seio +um filho, que lhe gosta o leite da virtude, como sustento da +immortalidade: este dia amanheceu em 1827.</p> + +<p>Maria era o incentivo de tanta alegria. Nos braços de sua mãe, com o seu +olhar errante pelas faces desmaiadas d'ella, que parecia sorve'-la com +os seus beijos, como se aquelles fossem os ultimos; Maria, a afilhada da +Senhora da Conceição estava alli asseverando o que tantos diziam da luz +mysteriosa, que na pia do baptismo, lhe illuminava a face.</p> + +<p>A pureza dos anjos, não será como a santidade do predestinado!? E o +justo, na ultima hora da sua passagem na terra, quando o anjo da +serenidade lhe alveja o rosto com as suas azas transparentes, não será +como a creancinha immaculada, cuja alma vem brincar-lhe ao rosto com +toda a pureza e innocencia, que o halito creador lhe bafejou!?</p> + +<p>A mãe de Maria chorava e as suas lagrimas desconsolavam <span class='pagenum'> 14 </span> o pae, +que as não queria ver n'aquelle dia, n'aquella hora, tão faustosa, tão +de gala para os parentes, que se abraçavam em redor do leito.</p> + +<p>Mas fossem calar-lhe o presentimento no coração! Digam á flôr que não +penda amortecida sobre a haste, quando o sol se esconde! Digam ás +lagrimas, que estanquem nos olhos, quando o que chora não sabe d'onde +ellas nascem, nem o que contempla sabe a linguagem do espirito, para +consola'-lo em seus presentimentos sobrenaturaes!</p> + +<p>Porque é que aquella mãe não buscava o allivio no sorriso de seu marido? +Porque não olha ella para os seus? Que é tão consolador ahi como a +presença de um marido amado, quando a fraca mulher quer desafogo?</p> + +<p>Não bastam allivios do mundo para essas ancias.</p> + +<p>Deus! sim, para todas as afflicções, para todos os presagios, para todos +os temores, para todas as mães que vaticinam desventuras a suas filhas!</p> + +<p>Deus! E na sua imagem é que aquella mãe fitava os olhos. Depois, ao lado +de Christo, estava outra imagem: era Nossa Senhora da Conceição. Que lhe +dizia aquella pallida mulher, com sua filhinha nos braços? Ouviram-lhe +só as derradeiras palavras:</p> + +<p>«Minha Mae Santissima! entrego-vos a vossa afilhada!»</p> + +<p>Viram um sorriso nos labios de Maria. Seria um acto maquinal dos labios? +Porque é que os adultos não sorriem maquinalmente?... Lisongeiras +duvidas para o homem que pensa nos segredos do homem.</p> <span class='pagenum'> 15 </span> + + +<h3>III</h3> + +<p>Decorreram sete annos.</p> + +<p>Eu não devo aqui pintar um quadro de guerra. Seria salpicar de sangue a +tela onde me propuz traçar uma figura grandiosa, com o colorido suave da +religião. Abomino a historia, se é força lembra'-la a testemunhas +oculares. Ha ahi muitos escolhos que ludibriam os mais atilados pilotos. +Escandecencias politicas não se refrigeram com o orvalho do céo. Se do +pulpito o hyssope muitas vezes as exacerba, que fará d'aqui?!</p> + +<p>E tomára eu que estas linhas, pallido reflexo do que ha de +incommunicavel no meu coração, accendessem o amor de Deus, apagando a +flamma das inimizades humanas! Tomára eu lagrimas e dó, e paz e +esquecimento para os homens, que não devem aqui encher uma pagina de +odio n'um livro que aconselha a resignação. Durmam uns e outros o breve +somno, que vae do anoitecer da vida á alvorada do archanjo. +Ver-nos-hemos em volta do juiz, que, nos seus dias de réo entre a +humanidade pervertida, dissera:</p> + +<p>«Só a mim pertence julgar os bons e os maus!»</p> + +<p>Bemaventurados os que esperam.</p> <span class='pagenum'> 16 </span> + + +<h3>IV</h3> + +<p>1834!</p> + +<p>Foi um anno de muitas lagrimas. Debaixo d'este formoso céo esperdiçou-se +muito sangue. As espadas terçavam por duas causas, quando dois corações +do mesmo sangue, na vanguarda de dois exercitos irmãos, anciavam +aniquilarem-se. E, se, após o ruido das armas, se fazia o silencio +tetrico da morte, prorompiam depois os gritos das mães, das viuvas e dos +orphãos. Paiz, onde esta harmonia de angustias se levanta de milhares de +labios para o céo, prova-se no supremo infortunio, e symbolisa o +holocausto de uma vingança tremenda.</p> + +<p>Tremenda... como a de Gaza e Moab!</p> + +<p>«Que é dos teus edificios de marmore, cidade dos obeliscos!?» dizia o +propheta das lagrimas.</p> + +<p>Não vedes em Portugal os fustes das columnas dispersas na ruina dos +grandes edificios?</p> + +<p>Não vedes!--Pois que tem esta terra de commum com Moab e Gaza?</p> + +<p>Que tem?!</p> + +<p>O enviado de Deus responderia:</p> + +<p>«Que é dos teus edificios de virtude, terra da honra e da probidade?»</p> + +<p>«Que importam os coruchéos de vossos palacios, Balthazares do tempo, se +lá não está a cruz veladora das felicidades da vida?!»</p> <span class='pagenum'> 17 </span> + +<hr> + +<p>Mãe de Maria, porque choravas tu?</p> + +<p>As tuas lagrimas já não eram um mysterio;</p> + +<hr> + + +<h3>V</h3> + +<p>Uma vez, a esposa do coronel, com sua filhinha de sete annos, ajoelhava +diante da imagem da Senhora da Conceição e murmurava esta prece:</p> + +<p>«Virgem Maria, nunca a vossos pés caíram mais afflictas lagrimas! +Attendei-me, Senhora, que eu sou uma fraca mulher, mãe de cinco filhos, +esposa de um homem, que é o amparo d'esta pobre familia, que vos +ajoelha! Vêde, ó Mãe dos afflictos, que o tumulo de meu marido é o +tumulo d'estes orphãos, e o d'esta mãe desvalida, que não tem um palmo +de terra onde possa regar com suas lagrimas um fructo, que mate a fome +de seus filhos. Protegei-o, ó Senhora, n'esta guerra desastrosa, em que +a cada instante cáe um pae de familia, tão desgraçada como a minha! Eu +não vos peço as honras, e a subsistencia que meu marido ganhára no +serviço da sua patria: o que eu vos peço é muito mais... é a vida de meu +marido, mas só a vida, sem a gloria de vencedor, sem o premio do seu +sangue derramado, <span class='pagenum'> 18 </span> sem mais outra riqueza que a do coração que +elle tem, e a resignação com que vós, consoladora do infortunio, e eu, +esposa extremosa, lhe adoçaremos a desgraça! Os labios da vossa afilhada +não murmuram a oração de sua mãe, mas o seu coração é aquelle que vós +lhe déstes ha sete annos! Eu vos supplico em nome d'ella. Fazei que +estes olhos não sintam tão cedo o travo das lagrimas, que chora sua mãe! +Piedade para todos nós!... amparo para meu marido... compaixão para +todas as mães atribuladas, que, n'este momento, vos pedem, como eu, a +vida de seus maridos...»</p> + +<p>E era esta a oração que os suspiros não poderam cortar. Assim simples e +angustiada, confirmava a verdade de uma grande dor que não escolhe +palavras, nem se atavia das pompas do estylo. Quem orou n'um d'estes +lances, sublimes no tormento, pela explosão da agonia com que se +refugiam no céo, compreenderá o cunho pungente, marcando a mais +insignificante d'essas palavras, que proferiam os labios febris da +mulher consternada entre seus filhos.</p> + +<p>E, depois, a mãe de Maria foi deitar sua filha, e, acalentando-a, +estremecia ás vezes, como se os accessos de uma convulsão a não +deixassem aquietar-se ao lado do seu anjo. É que a cada trom remoto da +artilharia, nas linhas de Lisboa, aquella afflicta esposa de um homem de +guerra sentia o véo da viuvez descer-lhe na face, e o luto da orphandade +envolver aquellas cinco existencias, para nunca mais se mostrarem no +mundo com direito a serem amadas por alguem. E os outros <span class='pagenum'> 19 </span> quatro +meninos aconchegavam-se no regaço d'ella; fitavam-n'a, como os +passageiros de um barco em perigo fitam o semblante do homem a quem se +confiaram; e, no choro, modelado pelos gemidos de sua mãe, compunham uma +consonancia de vagidos, e brados, e soluços. Quando assim se soffre, a +indifferença do Eterno seria um cruel desengano para os infelizes, que +se acolhem ao abrigo das suas misericordias... Não haveria Deus: a +justiça divina seria uma astucia humana.</p> + +<p>A oração é um respiradouro de espirito, quando a mão da desventura o +comprime até lhe abafar a derradeira esperança na terra. A oração não +tem nada com este mundo. Pedir a justiça do céo para as injustiças da +terra e renunciar a toda a vingança, é pedir a felicidade de nossos +inimigos, porque Deus é misericordioso, e não precisa de fulminar o +poderoso para vingar o fraco. Orar é caír de joelhos, e muitas vezes não +articular dois sons de uma supplica: é não atinar com a linguagem de +falar a Deus, porque a sciencia do mal, exclusiva do homem, só inspira +ao desgraçado expressões para que os homens o compreendam. Aquella mãe +afflicta, quando orou, orava assim. Seu marido com o peito na frente de +regimento era o alvo das balas inimigas. Na sua frente um outro coronel, +escravo das suas convicções, da sua honra talvez, e pae de familia +tambem, ouvia o zumbir da metralha, como halito da morte a afflar-lhe os +cabellos. Mas a mãe de Maria pedia por ambos; e, quando a oração assim é +feita, o espirito de Deus está nos labios do que ora.</p> <span class='pagenum'> 20 </span> + +<p>Enxuga as tuas lagrimas, sorve as de teus filhos com teus beijos, mãe e +esposa, que o pae d'essas creanças, o homem, que traz no coração os +alentos de que te sustentas no mundo, não ha de a bala ou a espada +cortar-lhe os vinculos a que prendeste a tua melindrosa existencia.</p> + +<p>Não ha de, que teu marido entrou na guerra de irmãos com o coração +enlutado, como em arena fratricida, e, ao ouvir o som rispido da +trombeta que mandava morrer matando, muitas vezes eleva ao Senhor o +espirito atribulado, supplicando-lhe a reconciliação dos portuguezes.</p> + +<p>Não ha de, que, nas vesperas angustiosas de uma peleja, teu piedoso +marido, refugiando-se dos cabos de guerra que tripudiam e blasphemam +farejando o sangue da carnagem do dia seguinte, ergue as mãos ao Senhor, +supplicando-lhe que acceite no regaço da sua misericordia, uma viuva +desvalida, filhinhos desamparados, aos quaes a mão do vencedor não +extenderá mão esmoler, seja qual fôr o triumphante.</p> + +<p>Não ha de, atribulada mãe e esposa, porque as paixões clamorosas dos +impios não ensurdecem o céo aos rogos de um justo, que lava com lagrimas +cada gota de sangue de irmãos que lhe salpica a farda.</p> + +<p>Expande o teu coração opprimido no seio de Deus, dolorida mãe.</p> + +<p>Deixa rugir lá fóra o phrenesi dos odios civis, e acolhe-te, mulher +cortada de agonias, acolhe-te ao refugio da religião, respira ahi em +lagrimas a oppressão que os <span class='pagenum'> 21 </span> meigos carinhos de teus filhos não +podem consolar-te.</p> + +<p>Ao mesmo tempo que oras no meio d'elles, o coração de teu esposo comtigo +se ala para a região serena da paz e bemaventurança eterna. Sois duas +almas puras que se encontraram na terra, juntas ascendem a Deus na +oração, juntas hão de compartir as amarguras da pobreza, juntas hão de +receber a corôa triumphal no dia marcado á recompensa dos que choram na +terra.</p> + +<p>Assim lhe segredava o anjo da resignação alentos que a faziam confiar no +regresso de seu marido. Rodeada de seus filhos, a esposa do coronel, +fantasiava com Maria as venturas, que, ainda na pobreza, podem deliciar +corações enriquecidos pelos dons da amizade. Maria, tão joven e +innocentinha, compreendia as alegrias de sua mãe, e respondia a ellas +festejando a volta de seu pae, como se elle viesse já caminhando a +indemnisar-se dos trabalhos no goso da paz, no amor santo da familia, +nas donosas alegrias de uma obscuridade feliz.</p> + +<p>Mas estas esperanças eram a cada hora desvanecidas pelas más novas que +vinham do campo da batalha. O sobresalto da pobre mãe era constantemente +despertado aos trons da artilharia que jogava nas linhas de Lisboa.</p> +<span class='pagenum'> 22 </span> + + +<h3>VI</h3> + +<p>O coronel... (já não era coronel) o homem da honra e da coragem +amanheceu um dia á porta de sua mulher. Trazia nas faces aquella magreza +livida que o sopro das batalhas, e o enervamento da fome estampam no +rosto do vencedor, e do vencido. Vencido era elle. Não trazia espada, +que a pureza, não aos pés do vencedor, mas sobre a acta de uma +capitulação, deixára ao bravo a consciencia da sua intrepidez. Nem uma +lagrima lhe escapou involuntaria dos olhos, quando, exauctorado e +desvalido, se collocou entre os derradeiros thesouros que lhe restavam: +sua esposa, e seus cinco filhos. Esses, sim, eram d'elle, eram de seu +coração como a virtude, emanação de Deus, é quasi sempre o unico +patrimonio do virtuoso.</p> + +<p>E é por isso que não houveram lagrimas, que assombrassem n'aquelles +labios o jubilo do sorriso. É por isso que paes e filhos caíram de +joelhos; e, no silencio de seus corações, Deus sabe a acção de graças, +que lhe subira aos pés de seu throno n'aquellas extaticas elevações de +alegria reconhecida.</p> + +<p>Ao levantarem-se, abraçaram-se, uma e muitas vezes; e quando as palavras +venceram a suffocação da surpresa, uma só voz, a de todos, exclamou:</p> + +<p>«Somos muito felizes! Bemdito seja Deus!»</p> <span class='pagenum'> 23 </span> + + +<h3>VII</h3> + +<p>Caír de elevada jerarchia, quando os braços da religião não amparam o +infeliz na queda, deve ser morrer!</p> + +<p>Altearmo'-nos a despeito de muitos, que não podem voejar tanto acima, é +provocar-lhes a inveja. Olha'-los em baixo, quando nos cospem o fel da +inveja, deve ser-lhes o maior dos castigos; mas, se d'ahi a mão de Deus +nos atira ao raso dos invejosos, se a desgraça nos marca, no meio +d'elles, um circulo onde rodar com o peso de affrontas, que a nossa +arrogancia enfardára... tal vida é a preexistencia do inferno.</p> + +<p>Ha tres remedios para alliviar angustias de tal lance:</p> + +<p>A resignação;</p> + +<p>O cynismo;</p> + +<p>O suicidio.</p> + +<p>A resignação não é só o amparo d'aquelle que resvala no precipicio das +honras d'este mundo; é mais: a resignação não deixa caír o homem, que +olha sempre, com temor, o despenhadeiro, em que de ao pé de si se +abysmaram colossos, e ruiram edificios fundados sobre areia. Levantado +pela Providencia, o homem, que teme a Deus, não se julga, no vertice das +glorias, posto ahi pela mão do destino. Quem lhe promette o dia de +ámanhã, vinculado aos acontecimentos de hoje? Quem lhe diz hoje que a +taça do seu mel ha de ámanhã trasbordar <span class='pagenum'> 24 </span> de lagrimas? Quem +affiança á aguia, dominadora dos espaços, que, de mais alto, o açor se +libra para abate'-la nas urzes?</p> + +<p>E, quando a nuvem do infortunio escurece aquellas alegrias, que formavam +o cortejo da nossa riqueza:--quando a sociedade nos retira os +contentamentos, vendidos pelo ouro, que perdemos... quem é esse destino +que accusamos? onde existe essa mentirosa fatalidade que nos humilhou? +onde encontraremos o primeiro acaso, que nos felicitára, e o segundo que +nos empobrecera? Não ha lagrimas que suavisem as ferocidades da <i>nossa +sina</i>, nem ameaças que a forcem a desmentir-se? Será obrigatorio o +punhal ou o veneno, porque <i>estava escripto o meu suicidio</i>!?...</p> + +<p>A providencia é a acção da Divindade.</p> + +<p>O grande da terra julgára-se grande na terra pela providencia. Era um +magestoso edificio aos olhos da humanidade, e fragil barro entre as mãos +de Deus. Quando o sopro da desventura lhe assolou as columnas, o grande, +só, e proscripto das ovações, <i>em que elle fôra o menos laureado</i>, era +ainda o grande na desgraça, na esperança, na humildade, na renuncia, e +na confiança.</p> + +<p>Esperava... o tumulo, e antes d'elle um saldo de contas com o mundo, +onde o rico deixa debitos enormes a solver.</p> + +<p>Humilhava-se diante Deus, que o abatera, não como um cego destino, mas +como um decreto, sanccionado no céo, cumprido na terra, e explicado no +dia das tremendas <span class='pagenum'> 25 </span> explicações dos mysterios, incompreensiveis +aqui. Humilhava-se diante dos homens que nunca humilhára; diante +d'aquelles, que puderam abandona'-lo, mas não escarnece'-lo pelo seu +passado orgulho.</p> + +<p>Renunciára quantas prerogativas o seu ouro lhe dera na sociedade; +quantas pompas lhe caíam ao encontro na sua estrada de flôres; quantas +esperanças idealisára, que mais o engrandecessem, na perspectiva do +mundo, sem adulterar as mercês do Creador.</p> + +<p>Confiava na humildade da oração, no pão de cada dia, no repouso +providencial de cada noite, porque no mundo nenhuma existencia vira +abandonada, nem a da ave que se levanta com a aurora, e louva ao +Creador, e vae procurar o alimento, que não deixou de vespera.</p> + + +<h3>VIII</h3> + +<p>Não é assim o cynico.</p> + +<p>Herdára um thesouro que seus paes lhe prepararam; e preparára elle em +seu coração todos os elementos para augmenta'-lo.</p> + +<p>Que o ouro augmenta, quando é lançado no cadinho da perversidade. E o +coração, ferido de avareza, é um segundo thesouro para quem herdou o +primeiro. O mais efficaz instrumento da caridade, o ouro, nas mãos do +<span class='pagenum'> 26 </span> avaro, converte-se em ferro de dois gumes: um que lhe entra no +proprio coração, outro no coração que lhe pede o obulo.</p> + +<p>É assim o cynico.</p> + +<p>Em cada degrau da sua escala de grandeza espirrava o sangue das faces +que calcava. Entre elle, e um circulo de victimas, que o rodearam, +fascinadas pelo brilho da sua auréola, erguia-se o anteparo da +irreligião.</p> + +<p>Quem lhe déra o sorriso feroz fôra a impiedade.</p> + +<p>Quem lhe alimentara as ancias de cevar-se em gosos, adubados em lagrimas +e sangue, fôra a impiedade.</p> + +<p>Quem lhe segredára os derradeiros segredos do crime, para que o enojo de +crimes repetidos lhe não esfriasse o amor sordido da vida, fôra a +impiedade.</p> + +<p>Quem lhe disséra que no tumulo para dentro não ha pobres para repellir, +nem corôas de virgem para desfolhar, nem faces lagrimosas para cuspir, +nem amigos para vender a inimigos, fôra a impiedade.</p> + + +<h3>IX</h3> + +<p>E, depois, a mão de Deus despenhou o cynico.</p> + +<p>No tremedal, onde caíra, roeram-n'o os vermes dos cadaveres que elle +fizera.</p> + +<p>E riu-se.</p> <span class='pagenum'> 27 </span> + +<p>Cobriram-n'o os improperios, e os sarcasmos de tantos, que elle +enxovalhára, sacudindo-lhes ás faces a lama das ruas com as rodas do seu +carro insultuoso.</p> + +<p>E riu-se.</p> + +<p>Teve que aceitar uma esmola, que, por escarneo lhe lançou ao chapéo um +d'aquelles que lh'a pedira, em vão, anceado de fome.</p> + +<p>E riu-se.</p> + +<p>Bateu á porta de seus creados, que medravam nas prodigalidades do amo: +pediu um bocado de pão, e responderam-lhe de dentro com uma gargalhada.</p> + +<p>E riu-se.</p> + +<p>Este é o cynico.</p> + +<p>E quando lhe aconselharam o suicidio, riu-se, e riu até morrer porque a +morte de cynico é uma risada na blasphemia.</p> + + +<h3>X</h3> + +<p>Lamentae o suicida, porque a sua ultima hora foi uma lucta horrivel +entre a desesperação, a incerteza, e, talvez a saudade.</p> + +<p>Ao ver-se pobre no mundo, considerou-se o homem sem vida social; mas a +vida physica, onde as frechas do desprezo lhe rasgavam até o coração, +era-lhe uma algema insoffrivel a maneata'-lo ao poste da vergonha.</p> <span class='pagenum'> +28 </span> + +<p>Feliz pelo destino, ou desgraçado pela fatalidade, o Lucifer, despenhado +d'este céo da terra, que a impiedade lhe deu, optou pelo tumulo entre +duas idéas: pobreza e impotencia.</p> + +<p>Impotente para vencer a sociedade que lhe não restituia o seu ouro, o +desesperado, aborrecendo a morte tanto como a vida, crava-se um punhal, +que nem elle sabe se o vinga dos homens, se o deita no tumulo, se o +sacrifica á justiça de Deus.</p> + +<p>O atheu pensára longas horas antes de erguer-se o patibulo; mas, nos +seus ultimos instantes, não era philosopho: era um algoz.</p> + +<p>A desesperação enervára-lhe o entendimento, e robustecera-lhe o braço.</p> + +<p>O cutello, no braço do algoz, não tem nada com o espirito. Um e outro +são machinas de morte.</p> + + +<h3>XI</h3> + +<p>E o coronel ***, e sua esposa, e seus filhinhos eram christãos. E oravam +na desgraça, e sorriam no infortunio, e esperavam.</p> + +<p>Esperança, filha dos céos! eterno cantico dos anjos!... bemdita sejas +tu.</p> <span class='pagenum'> 29 </span> + + +<h3>XII</h3> + +<p>E, quantas vezes, acarinhados pelas brandas lisonjas de uma esperança, +nos possuimos d'aquelle inoffensivo orgulho de felicidade, e tão perto +nos persuadimos que ella vem com toda a formosura real de um bello +sonho? E quando assim nos apressamos ao encontro d'essa linda chimera, +gerada nas entranhas do infortunio, não será tão triste deparar-se-nos +uma nova desgraça?</p> + +<p>Muito triste. É uma luz que se apaga. Um horisonte que se fecha. Uma +colheita de lagrimas na seara das esperanças.</p> + +<p>E o sorrir da resignação, e o levantar das mãos em fervente amor de +Deus, é a mais grandiosa attitude na desgraça. O infeliz é então um rei +no throno das angustias. O manto de retalhos tem a magestade da purpura. +Ignacio, o mendigo de Monserrate, é maior que o gentil-homem de Loyola.</p> + + +<h3>XIII</h3> + +<p>O coronel soffria muito; porque, a par do grupo querido de esposa e +filhos, nunca de seus olhos se afastava o aspecto da penuria.</p> <span class='pagenum'> 30 </span> + +<p>Á escuridade da indigencia não chega a luz do amor: deixar falar os +poetas.</p> + +<p>Ha sentimentos de miseria que os sentimentos da gloria não podem +eclipsar. A felicidade tem exaltações intermittentes de jubilo. Mas a +desgraça pensa sempre, fala sempre; vela á cabeceira do infeliz; +desperta-o com o aguilhão de um sonho mau; desmente-lhe as illusões; +ri-lhe a cada esperança; embrutece-o; retráe-lhe as expansões do +espirito.</p> + +<p>Onde a desgraça emmudece com a consciencia do penitente, que se levanta +dos pés do ministro dos perdões, é na presença da cruz.</p> + +<p>O coronel orava um dia com sua familia. Maria balbuciava as mesmas +palavras do pae, e parecia, com os olhos fixos n'elle, tomar-lh'as dos +labios como um beijo e um segredo de muita felicidade na muita +desventura.</p> + +<p>A sua oração era a dadiva do Christo: era aquella, que pendera dos +labios divinos do Mestre como orvalho para todos os ardores, como +balsamo para todas as chagas, como herança de amor para todas as +gerações de ingratos.</p> + +<p>Era esta a sua oração:</p> <br> + +<p>«Padre nosso, que estaes no céo, sanctificado seja o vosso nome; venha a +nós o vosso reino; seja feita a vossa vontade...»</p> <span class='pagenum'> 31 </span> + + +<h3>XIV</h3> + +<p>Alguem procurava o coronel. Amigo ou inimigo? O homem da honra nunca se +nega. O que fôra christão antes de politico, e pedira a Deus a paz de +seus irmãos, antes de mostrar-lhes, ao sol das batalhas, o lampejo de +uma espada escrava da obrigação, esse poude ser exauctorado de titulos +ás grandezas, de direito ao trabalho, de pão, e de liberdade, mas o +opprobrio não o desanima, nem o envergonha.</p> + +<p>A valentia moral não tem capitolios na sociedade immorigerada; mas +tem-os na consciencia do proprio que a experimenta. Um homem assim, +decaído do que fôra, apresenta-se altivo de certa soberania que parece +um triumpho, ultraje dos oppressores.</p> + +<p>O coronel, se tivesse a receber as felicitações <i>vendidas</i> á sua patente +de general, talvez não consentisse que tão depressa fosse aberta a sua +porta.</p> + +<p>Abriram-n'a.</p> + +<p>O homem que entrára, sem dar o nome, era uma figura que, sem articular +palavra, impunha silencio aos que o recebiam. Trajava pobremente.</p> + +<p>Quem buscasse um modelo para a estatua da imagem do infortunio, +acha'-la-ia n'aquelle homem.</p> + +<p>E, sorrindo, offerecia a mão ao coronel, que viera, chamado por sua +esposa, a contempla'-lo rodeado dos <span class='pagenum'> 32 </span> filhos, que pareciam +perguntar-lhe quem era o extranho hospede.</p> + +<p>Aquelle silencio, precursor de lagrimas, não podia conter muitos minutos +corações anciosos.</p> + +<p>--«Quem é o senhor?» perguntou o coronel.</p> + +<p>--Quem sou eu?! respondeu o desconhecido.--Trinta annos de clausura, e +alguns mezes de trabalhos desfiguram a face de um irmão!...</p> + +<p>O coronel correra aos braços do hospede. Maria, organisação melindrosa, +que presentia já os calefrios de um enthusiasmo juvenil, estremecia +d'aquelle tremor nervoso, em que as lagrimas da alegria denunciam alma +vehemente, apaixonada por tudo que é grandioso. Sua mãe tomava a mão de +seu cunhado entre as suas, que pareciam erguidas em graças ao Altissimo. +As outras creanças volteavam alegres em redor do grupo, e figuravam +outros tantos anjos a solennisarem aquella festa na tristeza, e aquelle +jubiloso alvoroço do sangue, quando o espirito se confrangia na dôr.</p> + + +<h3>XV</h3> + +<p>Fr. Antonio dos Anjos fôra um oraculo de sciencia, e um exemplo de +santidade no seu mosteiro. Filho de paes opulentos, de virtudes, herança +de avós corajosos <span class='pagenum'> 33 </span> de braço e espirito, o seu patrimonio de +resignação não pudera a politica espoliadora apregoa'-lo na praça. +Affeito a encaminhar, com mão segura, pelas margens do abysmo, os que a +dôr extraviára, o monge amparava-se na altura da dignidade de martyr. No +centro d'aquella familia, quem mais paz e alegria soboreava no coração +era elle. Elle, sim, que trinta annos havia, despira as galas do mundo, +e envergára o habito que desfigura as fórmas do corpo, e as feições da +alma. Elle, sim, que trinta annos vivera pobre d'aquelle ouro que +afervora a adoração das multidões; e, então expulso da sua enxerga, e do +seu refeitorio, não geme a falta de um ouro, que nunca possuira.</p> + + +<h3>XVI</h3> + +<p>--«Quereis a historia dos meus trabalhos, não é verdade?» perguntava o +monge, com sua sobrinha Maria sentada nos joelhos, e com dois dos outros +abraçados.</p> + +<p>--«Sim, sim, queremos» respondeu Maria com extranha vivacidade.</p> + +<p>--«Não--replicou o coronel--não recordes penas que te não alliviam o +receio de outras maiores...»</p> + +<p>--«Não é assim...--tornou Frei Antonio--As afflicções, que se recordam +com serenidade, parecem zombar das afflicções por vir...»</p> <span class='pagenum'> 34 </span> + +<p>--«Conte, conte... meu tio» instou Maria com muita doçura, dando á voz a +terna inflexão de uma supplica.</p> + +<p>E frei Antonio, alegre como se contára apraziveis lances da fortuna, +contou assim o transito doloroso dos ultimos mezes da sua vida:</p> + +<p>«Viver trinta annos, vendo todos os dias o leito onde se espera morrer, +e a sepultura onde o repouso do corpo continuará, foi a minha vida do +mosteiro. Ao lado d'esse leito, e d'essa sepultura, vigia quasi sempre o +espirito, porque na terra nem ao justo é permittida completa +tranquillidade. Vigiar, é entregar ao espirito a guarda do coração; é +pôr os olhos em Deus, alonga'-los ao mundo da esperança, enxugar-lhes o +pranto por homens, que o desprezam e o desprezam porque o não +comprehendem. A vigilia de um monge, tem, ás vezes, dôres, que ninguem +póde imagina'-las, sem sentir-se abrasado do santo interesse da +humanidade, que se espedaça.</p> + +<p>«Não me viste saír da casa do nosso pae, meu irmão!... Eras creancinha, +e do colo de nossa mãe me deste um beijo, que me fez chorar, porque era +o ultimo, que me davas com labios de innocencia. Nunca mais te vi; mas +essas lagrimas, que te vejo agora, são as do meu irmão... é impossivel +que o não sejam. Sabias tu que eu existia?»</p> + +<p>--«Sabia, mas ha doze annos que não tive novas tuas» respondeu o +coronel.</p> + +<p>--«Ha doze annos... é verdade... Ha doze annos que frei Antonio dos +Anjos descera a um tumulo... O <span class='pagenum'> 35 </span> espirito vivia... mas o espirito +do penitente, vinculado pela expiação á imagem do seu crime, quebra os +vinculos do sangue, se os tem no mundo.</p> + +<p>A voz do padre balbuciava estas ultimas palavras, cortadas de pausas, +que traíam a sua serenidade contrafeita.</p> + +<p>Seguiram-se o silencio, e a anciedade.</p> + +<p>Frei Antonio, á custa de um grande sacrificio, e de uma penosa +recordação, explicou a seu irmão o extranho silencio de doze annos.</p> + +<p>Doze annos tinham sido o prazo em que as noites eram veladas pelo +remorso do homem, que tentára uma vez quebrar a alliança que fizera com +a renuncia de todos os gosos terrenos. Doze annos de purificação para +quem se manchara, um minuto, na rebeldia aos estatutos da sua ordem, +fôra um grande prazo, uma longa expiação, um zelo suicida, talvez!</p> + +<p>É que os homens não o comprehendem. Doze annos de crimes, e um momento +de remorso... isso sim, que, se não em todos os criminosos, em alguns +pelo menos, é verosimil e explicavel.</p> + +<p>Esses prodigios explica-os facilmente a philosophia materialista: não é +o remorso, nem os gemidos do bem torturado pelo mal, nem o temor de +Deus: é a organisação com seus mysterios. Mysterios na escola da +materia, onde a natureza, positiva e carnal, é tudo! Como é que da seiva +do erro se nutrem viçosas as vergonteas da verdade? As luzes faiscam do +seio das trevas. Ha máximas preciosas que brilham ao clarão dos +incendios philosophicos.</p> <span class='pagenum'> 36 </span> + + +<h3>XVII</h3> + +<p>Frei Antonio continuou:</p> + +<p>«Entro pobre em tua casa, meu irmão; porém a desgraça é uma riqueza, +quando com ella suavisamos desgraças alheias. Contando-te as minhas +amarguras não adoçarei as tuas?</p> + +<p>--«Deus--respondeu o coronel--suavisou-m'as antes de ti, meu irmão.»</p> + +<p>--Bemdito seja Deus!--tornou o padre--era essa a resposta que eu pediria +a Deus que te inspirasse!... pois bem... seja a minha historia um +passatempo... Peregrinareis comigo n'estes infernos da terra que os +homens crearam. Aqui me tendes com a tunica, e com esparto de Dante... +Serei para vós o que foi o poeta para a humanidade... recrear-vos-hei...»</p> + +<p>O frade afastára as bandas do capote, e deixára vêr o habito de S. +Francisco. A magestade da sua postura excitára um calefrio respeitoso em +todos, e elle mesmo, tocado pela consciencia do effeito religioso +d'aquelle acto, não susteve a lagrima do enthusiasmo, que é sempre +revelação de espiritos ardentes. Maria, alma tão cedo estreada na poesia +da dôr, cedo principiára a enlevar-se n'aquelles transportes, que a +tragedia excita em pessoas que vêem o theatro pelos olhos da innocencia, +e não <span class='pagenum'> 37 </span> podem desmentir o que vêem pelos calculos frios da razão. +Maria, pois, impressionára-se mais que seu pae e sua mãe da attitude +pathetica de seu tio. Mais tarde confessou ella que sentira +dobrarem-se-lhe os joelhos, e de certo ajoelhára, se frei Antonio lhe +não tomasse as mãosinhas que pareciam ajustarem-se em adoração extatica.</p> + +<p>Esta scena fôra muda. O silencio é o desafogo das grandes emoções, que +nos abafam o espirito, enturvando-nos a razão. Parece que a consciencia +precisa digerir esses alimentos extraordinarios, que são a vida energica +das almas flexiveis.</p> + + +<h3>XVIII</h3> + +<p>Proseguiu o frade:</p> + +<p>«Quando, ha quatro mezes, os religiosos de *** viram approximar-se a +hora de entregar as suas cellas á revolução, ajuntaram-se para +deliberarem sobre a sua vida, como homens que d'ahi a pouco não tinham +posição alguma no mundo, que lhes valesse um bocado de pão. Alguns eram +de casas remediadas, outros irmãos de fidalgos, sacrificados ao partido +que lhes assegurava os seus privilegios; mas nenhum contava com asilo +seguro no tecto paternal, porque o temor da perseguição fazia-nos pensar +que eramos homens expulsos da familia, <span class='pagenum'> 38 </span> e da sociedade. +Entregámo-nos a Deus. E, depois, no meio de nós estavam uns homens +cobertos com o nosso habito, vivendo comnosco ha muitos annos, +ajoelhando comnosco ao mesmo crucifixo, e comendo comnosco no mesmo +refeitorio. Eram os nossos maiores inimigos. Velavam-nos desde matinas a +completas; desde a oração commum do côro até ao ultimo padre nosso +rezado no isolamento da cella. Eram como os pretorianos de Nero +syndicando os actos religiosos dos agapes de Christo. Chamavam-se +liberaes, illustrados e amigos dos homens. De Deus sabia eu que elles o +não eram. Dos homens, cruel amizade era a sua, que precisava enfeitar o +seu altar com o sangue dos seus companheiros!</p> + +<p>«Nos ultimos mezes da nossa communidade... deixae-me dizer-vos uma +prophecia amarga: nos ultimos mezes das ordens religiosas em Portugal, +apresentaram-se aquelles padres ao prelado, e pediram a sua liberdade. +Prevenindo alguma ligeira censura, em nome da regra do patriarcha, +lembraram ao guardião que o punhal era a arma do homem livre, quando os +algozes da humanidade não accediam aos augustos preceitos da razão +natural.</p> + +<p>«O prelado era um justo, que chegára aos oitenta annos, com os cilicios +nos rins, vergando sob o peso de austeridade, alliviando quanto podia +esse gravame dos hombros menos rijos dos seus subordinados. A morte, +porém, era-lhe menos afflictiva que o pesar de uma tibieza de +disciplina. A sua resposta foi simples:</p> <span class='pagenum'> 39 </span> + +<p>«Deixemos vir a mão da liberdade bater á porta do mosteiro e seremos +todos livres então. Uns, livres para morrer no desamparo. Outros, livres +para viver de vergonha. Todos seremos livres. Em quanto a vós, meus +irmãos, pedirei aos servos de Deus n'esta casa que peçam ao Senhor para +vós as consolações e a prudencia que não posso dar-vos. Retirae-vos, que +sou chamado ao côro.»</p> + +<p>«Retiraram-se; mas, dois dias depois, ao amanhecer, foi aberta por +violencia a portaria. Alguns homens d'alli sahiram vestidos, e armados +como guerrilheiros. O padre porteiro, que subira á cella do prelado a +annunciar-lhe o acontecimento, encontrou um cadaver. Ao passar-lhe a mão +pela face topou um crucifixo inclinado sobre o seio. Ao agita'-lo, +humedeceu as mãos no sangue que borrifára os lençoes. Gritou. Acudiram +os monges. Em volta do seu leito ajoelharam homens que choravam. Não +tinham outra supplica, nem balbuciavam uma palavra. Um justo estava ali +morto: mataram-n'o seus irmãos, em nome de uma liberdade, que não +consentiu ao venerando ancião a liberdade de viver mais alguns dias.</p> + +<p>--Era preciso matarem-no para fugirem?--perguntou Maria com os olhos +turvos de lagrimas.</p> + +<p>--Não seria preciso, minha filha, mas as chaves do mosteiro são +entregues ao prelado: mataram-n'o, tirando-lh'as.</p> + +<p>--Mas o crucifixo,--replicou ella quem lh'o poria sobre a face?</p> <span class='pagenum'> 40 </span> + +<p>--Foi o moribundo a quem os assassinos deixaram tempo de pedir a Deus o +perdão dos seus matadores.</p> + +<p>--Que acontecimento tão triste, minha mãe!--exclamou assombrada a +menina, tomando entre as suas as mãos de sua mãe. E continuou: Eu não +pensei que os homens podiam fazer isso!... Quem me déra o céo para meus +paes e meus irmãos!</p> + +<p>--E para o tio padre, não, meu anjinho?</p> + +<p>--Meu tio tem certo o céo, porque tem soffrido muito, não é verdade?</p> + +<p>--Muito, minha menina; mas não é já bastante o que tenho soffrido?</p> + +<p>--Penso que sim... Eu não sei ainda a sua vida, mas lembra-me que meu +tio póde fazer que os homens sejam bons, dizendo-lhes historias que os +façam ter dó dos que soffrem.</p> + +<p>Olharam-se todos com admiração. É que Maria contava sete annos de edade; +e alguns mezes de soffrimento. Predestinação!?...</p> + + +<h3>XIX</h3> + +<p>«Ao anoitecer de um dia passado em orações e suffragios por alma do +nosso chorado prelado--continuou frei Antonio--ouviram-se tiros ao longe +do mosteiro. <span class='pagenum'> 41 </span> Eramos quarenta e tantos os monges assombrados +pelo terror não sei se da morte, se das injustiças da humanidade a quem +não offenderamos. A egreja, escura e silenciosa, afigurava-se-me um +grande tumulo, e um doce repouso. Ajoelhei. Ajoelharam todos. E +lembra-me com emoção o fervor d'aquellas preces murmuradas como a +derradeira supplica do que vae apparecer na presença de Deus. Os tiros +avisinhavam-se, e o alarido, ao principio confuso, era já perto um grito +distincto: <i>morram os frades! abaixo os ladrões!</i></p> + +<p>«Eram 23 de Outubro de 1833. Que noite aquella, santo Deus!...</p> + +<p>«As balas ouviamo'-las zumbir, e bater na parede da egreja, e nas +vidraças do zimborio. Todos os servos empregados na casa vieram +ajuntar-se ás nossas orações, acobertando-se com a protecção dos +ministros de Deus, como debeis mulheres, em semelhante lance, buscando o +invalido apoio de seus maridos. Nós não podiamos nada, quando á +debilidade de nossas forças moraes ajuntavamos a resignação, o abandono +de nossas vidas aos decretos da Providencia. Os paroxismos tinham sido +longos e trabalhosos. Uma hora de preparação para receber a morte, que +sentiamos avisinhar-se com a vozeria, e com os tiros, devera +quebrantar-nos o espirito, aniquilando-nos lentamente a esperança.»</p> + +<p>--E não tinham esperança nenhuma? Deus não podia salva'-los ainda? +perguntou Maria.</p> + +<p>--Nós, minha filha, não pediamos a Deus a vida: pediamos-lhe a salvação, +a vida da alma. A morte não nos <span class='pagenum'> 42 </span> atormentava: poderia a natureza +estremecer em nós com o terror do ferro, que no'-la daria; mas o Eterno +manda que o espirito proteja as fraquezas da materia. É muito grande a +providencia do Altissimo! Quando a morte se nos apresenta como um +decreto irresistivel, sentimo-nos tanto mais longe da terra, tanto mais +perto da eternidade, quanto a esperança da vida nos foge, e o frio da +morte se chega. O que seria a morte do impio, apegada á vida, se não +fosse esta resignação providencial, este esquecimento proprio, este +mortal entorpecimento do corpo, antes que o espirito se deprenda das +algemas, que parecem aperta'-lo mais na hora final?... Maria, tu +entendeste-me?</p> + +<p>--Penso que sim, meu tio. Deus quiz que a morte lhe parecesse um bem, em +comparação do mal que estava soffrendo: não é assim?</p> + +<p>--Sim, meu anjo. Deixa-me beijar-te que és uma boa parte da indemnisação +que a misericordia divina me dá pelos meus padecimentos.</p> + + +<h3>XX</h3> + +<p>«O mosteiro estava cercado de povo, attraído alli por um homem, que, +depois de conspurcar uma patente no exercito realista, e avexar com +despotismos os constitucionaes, viera buscar refugio entre nós.--Algumas +balas <span class='pagenum'> 43 </span> bateram contra a porta principal da egreja mas não +puderam vara'-la. Outras vinham, através das frestas, encravar-se nos +altares. Uma, batendo na lampada do SS. Sacramento, apagou-a, espargindo +os estilhaços de vidro sobre nossas cabeças. Não se ouvia uma exclamação +de dentro, nem um ai afflictivo dos que alli rezavam ajoelhados, quando +um de entre nós proferiu em voz alta o acto de contricção. Então, sim, +as lagrimas rebentaram de todos os olhos: o espirito resurgiu da +prostração em que caíra, e as vozes harmonisaram n'um murmurio profundo, +arrebatado e magestoso como um <i>de profundis</i>.</p> + +<p>«Os gritos de fóra eram ameaças de morte, sem excepção de pessoa, senão +abrissem a portaria. Nenhum de nós abandonou a sua humilde postura de +martyr. Sentimos que se arvoravam escadas ás janellas lateraes do +templo: ouvimos um machado, cem machados lascando as portas. O echo das +pancadas reboando pelas naves tinha em si um não sei que de terrivel, +que fazia arripiar os cabellos e gelar o coração!</p> + +<p>«Rasgada uma fenda na porta, entraram alguns poucos que franquearam as +portas á chusma de povo.</p> + +<p>«Era noite alta. Não se via ahi um homem grave sobre quem pesasse a +responsabilidade d'esta sacrilega violencia. O relogio do mosteiro dera +onze horas, e nunca tão melancholico me pareceu o som d'aquelle bronze, +que, havia quinhentos annos, chamava as turbas á oração, e n'aquelle +instante, assignalava a hora da carnificina dos ministros de Jesus +Christo. O tropel d'aquella <span class='pagenum'> 44 </span> gente denunciava uma multidão +grande. Sentimo'-los approximarem-se amotinados, gritando, uivando, +rugindo, como tigres que partiram as grades da jaula, como possessos que +deliram na sede febril de sangue. E, topando-nos de joelhos, virados +para Deus, e quietos como phantasmas immoveis, pararam. Reinou um +silencio de minutos. O anjo bom d'aquelles homens calou-lhes por +momentos o grito sanguinario. O pensamento do bem, a idéa de Deus +passou-lhes pelo coração instantanea e fugitiva como a restia do sol por +entre as nuvens torvas da tempestade. Os instrumentos do mal não podiam +renunciar a sua missão. Cada um de nós sentiu a mão de um inimigo +arranca'-lo com violencia á sua immobilidade. Um grito deu alento a +todos os gritos. <i>Morram!</i> era o mais distincto, era o bramido +sinistramente harmonioso de muitas vozes. Senti algumas cronhadas d'arma +acurvarem-me a cabeça para as lageas do altar, salpicado do sangue que +me resaltára do nariz e da boca. Dos meus companheiros ouvi alguns +gritos que me pareceram de estertor; e senti que alguns vinham +arrastados.</p> + +<p>«Não pude presencear as agonias de meus irmãos mixturadas com as minhas. +Uma bayonetada, varando-me uma perna, fez-me perder os sentidos, e cahir +com a cabeça no degrau do altar de Nossa Senhora, onde despertei +depois.»</p> <span class='pagenum'> 45 </span> + + +<h3>XXI</h3> + +<p>--No altar de Nossa Senhora... no altar de minha madrinha!... exclamou +Maria, com a face coberta de lagrimas.--E, depois, meu tio--continuou +ella--que lhe succedeu, quando tornou a si? Não lhe fizeram mais algum +mal?</p> + +<p>«Os flagellos não tinham ainda principiado, minha querida menina. Tu +verás que a dôr de um golpe, não punge tanto como o escarneo de uma +affronta moral. Quando recobrei o sentimento, pedi a Deus que me +fechasse os olhos, e logo em seguida lhe pedi perdão da minha supplica. +Compreendi nos meus padecimentos a expiação dos crimes da humanidade e a +redempção dos meus peccados. Fui ahi trazido a pontapés, quando o sangue +me escorrria da ferida. Fizeram-me, e aos meus companheiros, servir +canecas de vinho áquella gente, que se movia em ondas pelos dormitorios, +bramindo na embriaguez do seu odio. Quando a custo me pude desviar do +tumulto, comprimi com o meu lenço a ferida, e esperei ensejo de poder +fugir para morrer em paz debaixo de algum tecto piedoso. Não pude. Ao +amanhecer fomos levados á casa do noviciado, e fechados á chave com +vigias á porta, para não tentarmos o arrombamento.</p> <span class='pagenum'> 46 </span> + +<p>«Olhavamo-nos com uma especie de idiotismo doloroso. Não sabiamos +palavras de consolação, porque a amargura era extrema em todos. Em +tamanha afflicção tinhamos só a linguagem da afflicção: oravamos. E nem +um só reclinou a cabeça no chão para adormecer a agonia. Parece que o +travo da morte, assim demorada, adoçára o coração de tantos infelizes. +Nunca eu senti em mim tão santa, tão divina a influencia do temor de +Deus. Esperava amanhecer na eternidade, á luz da justiça eterna, e da +misericordia do Summo-Bem. A oração pelos meus inimigos era de um sabor +indizivel, de um allivio intimo, que tanto mais se prende á creatura +quanto ella se resigna nas tribulações! Bemdito seja nosso Senhor Jesus +Christo, que por cada afflicto reparte uma faisca d'aquelle incendio de +caridade em que expirára na cruz, pedindo a seu Pae o perdão para seus +matadores!»</p> + +<p>Frei Antonio não pudera, se quizesse, represar as lagrimas. A sua +familia chorava, porque a voz convulsa, soturna, e sombria do padre, +entrava no coração dos ouvintes, como as ultimas palavras do sacerdote +no espirito do christão agonisante.</p> + +<p>«O sol--proseguiu o padre--coava pelas frestas do noviciado uma restia +pallida, que illuminava um crucifixo, esquecido pela populaça. Se cada +um de nós fosse particularmente consultado em seu coração, no momento em +que aquelle raio do sol nos allumiou, dissera a devoção fervente com que +saudou a luz do céo, irradiando-se na effigie augusta do Creador do céo +e da terra.</p> <span class='pagenum'> 47 </span> + +<p>«Decorreu uma hora, sem que o silencio nos fosse quebrado por alguma +voz. Julgámos abandonado o mosteiro como cidade viuva de seus filhos e +espoliada das suas alfaias. Um de nós foi á porta escutar, e desmentiu +as nossas conjecturas. Junto á porta resonavam profundamente as nossas +guardas.</p> + +<p>«Soaram nove horas, quando os primeiros echos reboaram pelos +dormitorios. Como atalaias nocturnas, os brados reproduziram-se, +reforçaram e subiram ao alarido compacto com que principiaram. Os +vituperios vinham, como ondas sobrepostas, bater á porta do nosso +carcere.</p> + +<p>«A porta foi de improviso aberta. Mandaram-nos enfileirar. Cercaram-nos +como a animaes extranhos, que movem a curiosidade. Emquanto eramos +insultados por palavras de um outro menos soffrido e mais ultrajador, +cuspiam-nos na face, e arrancavam-nos os cabellos. As mulheres, com as +faces rubras do vinho, e com as linguas afiadas no sarcasmo villão e +truanesco do seu officio, soltavam-nos aos ouvidos risadas ferozes, +mixturadas com empuxões que nos davam ao capello, e aos cordões do +habito. Esta situação penosa e indizivel durou meia hora.</p> + +<p>«Mandaram-nos saír, escoltados, e fazer alto no pateo do mosteiro. Ahi +lançaram ao primeiro uma corda ao pescoço, que vinha encadeando um por +um até ao derradeiro monge. Depois mandaram-nos curvar o pescoço tanto +quanto fosse preciso para assentar uma albarda. Penduraram-nos algumas +campainhas ao pescoço, e mandaram-nos andar.</p> <span class='pagenum'> 48 </span> + +<p>«Caminhámos uma legua, e fizeram-nos parar para reconhecermos um cadaver +que se dizia pertencer ao brigadeiro realista Pessoa. Era effectivamente +o seu. Dias antes estivera elle em nossa casa, já de retirada para a +sua, visto que as forças sitiantes do Porto começavam a dispersar. +Pedimos-lhe que se acautelasse porque os seus maus feitos tinham +excitado o odio, e a vingança. Respondeu-nos, que tinha um +salvo-conducto na sua honra, e na sua consciencia pura. A sua +consciencia não devia estar tranquilla... Este mau homem fôra morto +n'uma ribanceira pedregosa que nos ficava ao lado esquerdo da estrada.</p> + +<p>«Caminhámos outra legua, e fomos mettidos n'uma cadeia, onde mal nos +podiamos mexer. As prisões do pescoço affligiam-nos muito; e a sentença +de morte fôra-nos lida quando entrámos, no caso de quebrarmos a +«arreata» como elles nos disseram.</p> + +<p>«Não vos posso contar com miudeza que tormentos provámos durante vinte +dias que ahi vivemos. O frio, a fome, a insomnia, a falta de respiração, +todas as privações que pode soffrer um homem, bemdito seja Deus, +complicaram-se ahi... Que padecimentos! A piedade tremia de +approximar-se do nosso infortunio. Homens bem trajados apiedavam-se; mas +temiam o povo esfarrapado. Algum boccado de pão vinha através de +difficuldades, e no ardor da sede as lagrimas serviam-nos de refrigerio +aos labios queimados da febre.</p> + +<p>No fim de vinte dias foi-nos dada a liberdade, sob a condição de não +caminharmos para o sul. A infracção <span class='pagenum'> 49 </span> d'esta lei implicava pena +de morte. Pensavam que viriamos procurar o exercito do sr. D. Miguel. A +condição era escusada para mim. Ministro de Deus, jurado á caridade e ás +humilhações, o meu braço, consagrado á elevação da hostia, não +levantaria o ferro contra homens, ou barbaros, ou portuguezes. Eu +maldigo em nome de Deus os meus irmãos que borrifaram de sangue a tunica +legada pelos apostolos. A arma do sacerdote é o coração votado a +abrandar a justiça do Altissimo, que faz dos homens o instrumento de sua +vingança contra homens. Se me chamassem ao mais perigoso de um combate +para acalmar, em nome de Deus e da caridade, as iras sanguinarias dos +partidos, eu cruzaria as balas, e as baionetas travadas, corajoso, como +um filho da patria, e um sacerdote de Christo. Viria, meu irmão, viria +ajoelhar-me na frente do teu regimento, e pedir-te em nome da tua esposa +e de teus filhos, que me deixasses fallar ao rei antes que mandasse voar +a morte das espingardas dos teus soldados.<a href="#nota1"><sup>[1]</sup></a></p> <span class='pagenum'> 50 </span> + +<p>Estás anciosa pela continuação da historia, minha menina? Olhas tanto +para mim!... Tens entristecido com as desventuras do teu pobre tio?</p> + +<p>--E tenho chorado... o tio não vê?</p> + +<p>--Vejo, vejo, menina. E sabias que no mundo havia homens que fizessem +assim padecer outros de quem não receberam alguma offensa?</p> + +<p>--Pensei que não... Meu pae, e minha mãe, e meus irmãos são todos tão +bons, tão meus amigos, tão dados uns com os outros... e eu não conhecia +mais ninguem. E como é possivel ser-se assim tão cruel, diga-me, meu +tio?</p> + +<p>--Digo... direi, minha filha... mais tarde... Queres agora o fim da +minha triste peregrinação até á casa de teus paes?</p> + +<p>--A tua casa, meu irmão--atalhou o coronel.</p> + +<p>--Sim, sim, a sua casa, meu caro irmão--disse a esposa do coronel.</p> + +<p>--Pois não somos nós todos a mesma familia?!--perguntou Maria com um +sorriso de candida alegria e admiração.</p> <span class='pagenum'> 51 </span> + +<p>--Graças vos sejam dadas, meu Deus!---exclamou o padre.</p> + +<div class="footnote"> <p><a name="nota1">[1]</a> Se Fr. Antonio ampliasse um pouco mais estas suas reflexões muito +judiciosas, invectivaria os frades que, fóra das linhas de Lisboa, +despejavam fogo para os de dentro com uma coragem e disciplina digna de +granadeiros da guarda imperial. Alguns d'esses estavam ahi provando pela +pratica as theorias vociferadas do pulpito, desde 1828 até 1832. Não foi +mais do que lançar um correame sobre o habito, e substituir ao som da +palavra incendiaria o som do arcabuz homicida. Se não receássemos +desnaturalisar o romance pondo na bocca de frei Antonio censuras +inverosimeis aos da sua politica, se é que elle tinha alguma além da do +Evangelho, seria elle o que nos poupasse o trabalho d'esta nota para que +se não diga que o auctor acoberta um pensamento hostil á liberdade, +afeiando o quadro inevitavel, no conflicto d'ella com o despotismo em +paroxismo. A leitores de má fé respondemos com a boa fé de imaginarmos, +antes de começar o romance, que os não teriamos...</p> </div> + + +<h3>XXII</h3> + +<p>«Eramos vinte e dois homens abandonados á Providencia, sós com a nossa +desgraça, sem futuro e sem esperanças de alcançar um bocadinho de pão +mendigado. Eis a nossa situação. Era forçoso separarmo-nos. Companheiros +de noviciado, quasi amigos de infancia, condiscipulos, presos ao céo e +ao sacrificio por um laço commum, affeitos a harmonisar as nossas vozes +em acção de graças, a dobrar os joelhos no mesmo chão, a comermos á +mesma mesa, a soffrermos ao mesmo tempo os flagellos que attrairamos +sobre nós, porque em todas as nossas frontes fôra escripto o caracter +indelevel de nossa humildade... Eu não tento dizer-vos como foi amargo, +como foi chorado aquelle adeus... <i>para sempre!</i> «Antes o martyrio, e +que nos apartem!» exclamava um em quanto outro, debulhado em lagrimas +nos braços de seus compaheiros, pedia um tumulo para todos nós! Foi um +lance cheio d'aquella nobre dôr, que tanto honra o coração humano. O +supplicio da separação d'aquella pequena sociedade cujos membros, não +cançados, não egoistas, amavam-se como virgens na esphera innocente dos +seus amores de collegio... podereis vós comprehende'-lo, meus amigos? +Não! Deus <span class='pagenum'> 52 </span> quer que não! É sentir-se a morte, que parece deixar +no coração um alento de vida para o tormento da saudade; mas aniquila +todas as alegrias, todas as esperanças... que são a vida na terra.</p> + +<p>«E separámo-nos!... que irresistivel imperio tem a desgraça, meus +filhos! Recuavamos a cada passo para um novo adeus, para um novo gemido, +convulso, apertado na garganta, como se a dôr nos fosse prohibida. Este +doloroso trance demorou-se muito. Alguem, condoído de nós, avisou-nos +dos rumores que corriam a nosso respeito na villa proxima. Dizia-se que +tencionavamos, reunidos, caminhar para onde nos fosse possivel pegar em +armas. A calumnia podia tudo então. O odio foi fertil em pretextos... +Ora o amor da vida fez calar o grito da saudade. Demos o ultimo Adeus. O +ultimo... foi o ultimo, meu Deus!... Diz-me o coração que sim.</p> + +<p>«Entrei n'uma aldeia, onde fôra prégar um anno antes. Pedi gasalhado na +casa de um lavrador. Foi-me negado. Não instei. Fui á porta de um +jornaleiro: achei-a franca. Era assim o seu coração, porque o pobre, sem +vergonha nem pesar de o ser, tem uma alma cheia de bondade. Pedi-lhe +umas palhas: deu-me a sua cama, a sua manta e o seu lençol de estopa. +Não lhe pedi mais nada: mas o pobre deu-me o seu caldo, o seu pão +amassado em suor, e o seu apresigo, producto das economias da semana +para solemnisar o dia do descanço. E adormeci abençoando o pão do pobre, +em quanto elle, sentado ao lar, rezava o seu rosario, ou espertava a +fogueira <span class='pagenum'> 53 </span> para me ser menos sensivel a pouca roupa da cama; O +pobre será sempre o eleito, o ente privilegiado para as virtudes +praticas do evangelho. Jesus Christo adoçou-lhe o travo da penuria, +dando-lhe ao espirito o antegosto das riquezas que enthesoura no céo.</p> + +<p>«Adormeci.</p> + +<p>«E alta noite, fui acordado em sobresalto pelo meu hospede. Ouvi tiros. +«Que é?» perguntei eu. Não sei ao certo, senhor. Ha pedaço que ouço +estes tiros, e estou com medo... «Que venham ter comnosco?» perguntei +eu. «Sim, senhor; mas eu vou ver o que é» respondeu o bom homem.</p> + +<p>«Eu quiz conte'-lo; mas elle convenceu-me da segurança da sua empresa. +Quando voltou, disse-me que tinham sido mortos dois frades do meu +convento em casa de um tal lavrador. Imaginae o meu terror. Quiz saltar +fóra da cama, trocar o meu habito por alguns farrapos e fugir; mas o +jornaleiro estorvou-me com boas razões. «A casa de um pobre, disse elle, +é mais segura.» Não a perseguem as grandes desgraças, porque tambem a +não procuram as grandes felicidades--disse eu na minha consciencia. Orei +por alma dos meus infelizes amigos, se o seu martyrio não era expiação +bastante de suas faltas.</p> + +<p>«Amanheceu, e tive mais informações. Dizia-se que dois monges +desfigurados vieram bater á porta do lavrador que me tinha recusado a +entrada. A porta fôra-lhes aberta, porque ninguem de casa os conheceu ao +principio. Recolhidos, foram logo conhecidos; mas era tal o <span class='pagenum'> 54 </span> seu +contentamento, e a sua linguagem que o lavrador adormeceu descançado com +os seus dois hospedes, que, por mais de uma vez, declararam com +arrogancia que já não eram frades. O lavrador não os comprehendeu. Mas, +alta noite, uma guerrilha forçara a porta, entrára e matára os dois +desgraçados que tiveram a louca ousadia de resistir com bacamartes, +depois de malogradas as suas razões. Surprehendeu-me esta noticia! +parecia-me um conto disparatado!</p> + +<p>«O jornaleiro arranjou-me um fato semelhante ao seu. Desfigurei-me. +Providencia de Deus! No instante em que me vestia, olhei para a ferida +que recebera na perna, e encontrei-a quasi cicatrizada! É quando o atheu +o reconheceria o anjo do Senhor, pensando as chagas da alma e do corpo +áquelles que o confessam!</p> + +<p>«Saí. O quinteiro do lavrador estava a trasbordar de povo. Conheci que +os cadaveres estavam no centro.--Atravessei a multidão, até junto do +carro onde os mortos estavam... recuei horrorisado! Senti precisão de +gritar: «justiça de Deus!» mas cedi a um sentimento egualmente grande. +Do meu peito saíu outro grito: «misericordia, meu Deus!»</p> + +<p>«Informei-me. Estes dois infelizes caminhavam para suas casas, com o +cofre das economias do convento. Eram os assassinos do venerando +prelado.</p> + +<p>«Aquelle sangue escrevera na face de taes homens uma lugubre sentença de +punição. Quem seriam os instrumentos de vingança? Ignora-se.</p> + +<p>«Meus amigos, erguei a Deus as mãos, e os corações. <span class='pagenum'> 55 </span> Oremos +pelas almas dos meus desgraçados companheiros!»</p> + +<p>E oraram de joelhos. Maria tremia como de susto.</p> + + +<h3>XXIII</h3> + +<p>Não me demorei tempo algum n'esta aldeia--disse frei Antonio--Pedi ao +meu pobre bemfeitor que me guardasse o meu habito, e prometti pagar-lhe +o seu, que elle me deu com lagrimas de contentamento.</p> + +<p>«Caminhei incognito, pedindo esmolas. Atravessei dez leguas para o +norte, e assim assegurava cada vez mais a minha vida, não infringindo a +condicional de morte, se eu caminhasse para o sul.»</p> + +<p>O padre soltou aqui um sorriso de ironia inoffensiva e continuou:</p> + +<p>«Achei-me no Valle d'Aguiar, ermo de paz, de tristeza santa. Cercado de +montanhas pedregosas, a planicie abrange duas leguas, e perde-se na +pittoresca Villa Pouca d'Aguiar. Tão profundo foi o meu desalento quando +ahi me vi. Quanto depressa me afiz áquellas varzeas, e áquelle céo que +parece firmar-se nas cristas das montanhas.</p> + +<p>--E como vivias ahi, Antonio? perguntou o coronel.</p> + +<p>«Vivia á sopa de um lavrador... Pasmas, meu irmão.</p> <span class='pagenum'> 56 </span> + +<p>--Entristece-me de ver a miseria a que póde descer um homem do teu +nascimento.</p> + +<p>«Do meu nascimento! disse o padre, sorrindo--O que é o meu +nascimento!... Essas jerarchias são filhas da nossa miseria; a desgraça +não conhece nem o fidalgo nem o jornaleiro... Não me lamentes, meu +irmão. O homem só reconhece a sua dignidade quando vive pelo trabalho do +braço ou da intelligencia. Que maior nobreza querias tu que eu tivesse? +Eu antes queria grangear assim nobremente o meu pão com o meu braço, e o +coração, cheio de vontade. E pensas tu que a sociedade estaria corrupta +pela jerarchia, se a ociosidade não estivesse em guerra constante com o +trabalho? Medita, meu irmão, e verás que este paiz tinha excrescencias, +que o obrigaram a deitar-se no doloroso leito de Procusto em que o +ouvimos gemer... e gememos todos.</p> + +<p>--Deixemos philosophias. A minha querida sobrinha quer que eu lhe diga +como vivia...</p> + +<p>--Isso já eu sei... era trabalhando...--atalhou Maria.</p> + +<p>--Trabalhando, sim, por um salario de jornaleiro, e agradecendo ao +Altissimo a robustez com que me dotara sentindo-me até com forças para +poder lançar mão da enxada, e roçar um carro de tojo. <i>Roçar um carro de +tojo</i> é sentir a gente a cada instante a precisão de arrancar espinhos +que se cravam nas mãos e nos pés. É ir com as gabelas ás costas +empasta'-las no carro, arfar de cançado, limpar com a manga de uma +vestia de borel a face <span class='pagenum'> 57 </span> alagada de suor, carrear outra e outra +gabela, durante um dia inteiro interrompido por uma hora do dia em que +se come um caldo de couves, e umas batatas salpicadas de sal. Ajoelhava +a pedir a Deus coragem, forças e resignação: não lhe pedia melhor pão, +nem melhor vida. Sabei que o temor de Deus é uma renuncia, que a materia +do homem faz ao espirito, que é do Creador. A Providencia transfigura o +infeliz, ao passo que o infortunio lhe vae mudando em dôr as lagrimas. +E, se não, dizei-me: quem me obrigou a mim a occultar o nome que poderia +alliviar-me de alguns rudes trabalhos de lavoura? Não poderia eu ser +mestre de meninos? Não tenho eu o meu caracter de ministro do altar, e a +minha pobre intelligencia para remediar n'um pulpito o ministerio +apostolico? Tinha, e vivia em terra que me daria protecção. E, com tudo, +nunca me escasseou o alento para trabalho mais pesado, nunca me senti +doente ao levantar-me da minha enxerga, antes de amanhecer, para vigiar +os fructos, em que me estava garantido pela omnipotencia do Senhor o +premio do meu trabalho. Os monges primitivos da minha ordem como é que +viviam? Não cultivavam elles os seus campos, e não cosiam os pannos da +sua tunica? É que ainda então não viera o privilegio e a classe +sanctifiar a inercia do corpo em virtude da varia côr dos sangues. Santo +Deus, como são pasmosos os caprichos que rebaixam a magestade do homem +trabalhador, alteando ao fastigio do acatamento o ocioso por mercê de +uma herança!...</p> <span class='pagenum'> 58 </span> + + +<h3>XXIV</h3> + +<p>«Finda a guerra, expirava a condição da minha liberdade: caminhar sempre +para o norte. Comecei a soffrer saudades da minha familia. O coração +vaticinava-me que vós existieis. E, depois, a vontade era energica, e +irresistivel. Pareceu-me sobre-humano o estimulo. Despedi-me dos meus +bemfeitores. Rodearam-me os filhos, e chorámos todos. Traí-me em algumas +palavras que soltei. Arrebatou-me a poesia d'aquelle adeus. Fitaram-me +com espanto: queriam pedir-me perdão... «de que, meus filhos?» +perguntei-lhe eu!... Deus permittiu que eu me desmentisse. Parti.</p> + +<p>«Trilhei os passados vestigios da minha jornada. Paguei o vestido que o +jornaleiro me vendera. Recebi o meu habito: bem o vêdes; mas o capote? +perguntaes vós. O capote é a esmola de uma missa que devo ás almas do +Purgatorio. A fome estorvou-me o passo muitas vezes nas sessenta e cinco +leguas, que nos separavam. Á maneira do homicida, que foge á justiça dos +homens, perdi-me por atalhos e devezas, que me dobraram o caminho. Os +ultrajes vexaram-me quando a fimbria do meu habito me denunciava. +Algumas vezes tive em resposta, pedindo, uma ameaça, uma insolencia, um +epitheto injurioso.</p> <span class='pagenum'> 59 </span> + +<p>«Está fechada a minha Illiada de lagrimas. Deixae-me engrandecer até á +valentia moral do bravo capitão de Homero. Os cabellos branquearam-se-me +em tres mezes; mas venci a desgraça, porque nas mãos do Omnipotente fui +instrumento de fortaleza.</p> + +<p>«Meus amigos, não quero que a minha historia descaia em sermão. Eis-me +comvosco. Somos todos pobres, não é assim?»</p> + +<p>--Ninguem é pobre, quando ama, meu irmão--respondeu a esposa do coronel.</p> + +<p>--É uma grande verdade, minha irmã--proseguiu o frade--o amor é uma luz +que não deixa escurecer a vida; é reflectida do astro eterno; irradia-se +de Deus. E é verdade que me estimaes como vosso? Não vos obrigo á +resposta. Deus quer indemnisar-me. Estes meninos são os queridos do +Senhor: falam pelos labios da innocencia: vê-se que me amam, e me +querem: é assim, Maria?</p> + +<p>--Muito, meu querido tio!--E abraçava-o com enthusiasmo e alegria, como +se quizesse consolar os pezares do venerando velho. E abraçavam-n'o +todos.</p> + +<p>Frei Antonio dos Anjos, com seus sobrinhos nos braços, ajoelhou, +exclamando:</p> + +<p>--Graças vos sejam dadas, meu Deus! Destes o amor em recompensa ao homem +attribulado! Trouxestes o pobre velho pela mão ao seio da sua familia! +Provaste-o em todas as amarguras; e não consentiste que o fragil barro +fosse quebrado.</p> <span class='pagenum'> 61 </span> + + + + +<h2>LIVRO II</h2> + + +<h3>I</h3> + +<p>Tinha custado muito sangue, esterilmente derramado a solução de um +problema que, havia muitos seculos a humanidade procurava resolver: a +miseria. O processo escolhido em cada seculo para o mesmo resultado, +tinha sido identico: a guerra ao rico, em nome do proletario. A unica +situação real, que os homens podem consolidar no marulho fervente das +suas utopias, é conciliar pelo soccorro-mutuo duas idéas que parece +repellirem-se: a pobreza e a felicidade. Mas esta situação que as +escolas da philosophia materialista chamavam absurdo, realisa-se pelo +dogma da Associação que é a traducção da fraternidade, que o +christianismo afervora: é a felicidade do homem do trabalho sem attentar +contra o rico. Tão sublime idéa, tão grandes factos teem-se operado +<span class='pagenum'> 62 </span> n'um grande centro, que, inspirado por Deus, irradia uma luz +evangelica por todos os homens.</p> + +<p>Enlaçar n'um abraço voluntario a pobreza e o contentamento, esposar +estes dois predicados que luctam rancorosamente no coração da +humanidade, amiga'-los, move'-los a dulcificarem-se, identifica'-los +para que o divorcio os não desligue n'um repelão desesperado: tal +prodigio, um consorcio assim só na pratica do soccorro-mutuo pela +associação póde operar-se, porque é a genuina traducção do Evangelho que +Jesus nos deixou recommendado.</p> + +<p>O incredulo do christianismo e da associação ao passar na sua carruagem, +assaltado de cuidados, pela porta do operario, sente-se affrontado pelas +risadas alegres que lá vão dentro d'aquelle sotão raso com o chão. Tal +homem não possue o capital que mais felicidade produz. Não sabe que a +religião e o soccorro mutuo são o incentivo do trabalho. Compreende, +apenas, que o trabalho é o capital unico do proletario. Julga elle que o +artifice alquebrado de vigor, no fim do dia, atira com o corpo ás palhas +do repouso para mentir no somno aos flagellos do dia futuro. Não sabe +que o amor em todo o tempo, em todas as edades, e em toda a hora do dia, +é quasi um exclusivo do pobre. Não sabe que o artista é pae, é esposo, é +christão, e possue um thesouro de affectos que o deixam á beira do +tumulo para entrarem no seio de Deus, como paga de um emprestimo +contraído para adoçar as amarguras da terra. Não sabe que o +soccorro-mutuo derivado do trabalho faz a tranquilidade do homem +laborioso.</p> <span class='pagenum'> 63 </span> + +<p>A familia do coronel... era como a familia do artista. Alli, a pobreza +tinha sorrisos, a resignação um triumpho, e os desgraçados um exemplo. O +coronel ensinava primeiras lettras. Fr. Antonio dos Anjos ensinava +latim. A esposa do coronel com quatro filhos entrançavam cordões para +dragonas e pennachos. Maria, aos oito annos, copiava musica e fazia +flores.</p> + +<p>--O trabalho! meus filhos, o trabalho!--exclamava padre Antonio, +extendendo em veneranda postura o braço sobre a mesa, em redor da qual +uma familia alegremente saboreava um parco jantar.</p> + +<p>Estariam elles esquecidos do seu passado? como puderam amoldar-se +aquelles espiritos ás angustiadas urgencias, ao passadio mesquinho de +operarios? A soberba da educação não se rebella contra a lei oppressiva +da necessidade?</p> + +<p>Não. O anjo de Deus viera sentar-se no limiar do infeliz, e o demonio do +orgulho não póde tramar as conspirações do ocio contra a familia +laboriosa. Frei Antonio era o anjo dos alentos, da resignação, e das +esperanças. Venturas que elle via no futuro, ninguem as via; mas +acreditavam-nas todos, porque as suas promessas tinham a unção da +prophecia. E não era calculando eventualidades politicas, nem thronos +arruinados, nem batalhas feridas no seio da patria, que frei Antonio +aventurava promessas. D'onde a inspiração lhe vinha não sabia elle +dize'-lo; mas o santo homem nunca, se levantava dos pés da cruz, que não +trouxesse aos seus uma palavra de esperança, um vaticinio mysterioso.</p> +<span class='pagenum'> 64 </span> + +<p>--É o céo que o tio nos promette...--dizia Maria, sorrindo para sua mãe, +e recortando a folha de um lyrio.</p> + +<p>--E que melhor promessa, minha filha?--respondeu a mãe sem levantar os +olhos do seu trabalho.</p> + +<p>--Queres dar a tua lição, menina?--perguntou frei Antonio, anediando os +cabellos negros de Maria.</p> + +<p>--Sim, meu tio, mas sem despegar do trabalho, porque tenho grande +tarefa. Hoje ha de, permittindo Deus, ficar prompta esta flor; disse-o a +mãe... senão... o tio bem sabe...</p> + +<p>--Senão o que, minha filha?--perguntou a mãe.</p> + +<p>--Senão...--tornou Maria sorrindo com graciosa malicia--não merendo.</p> + +<p>--O teu sorriso faz-me chorar...--disse a mãe, limpando os olhos, e +violentamente sorrindo.</p> + +<p>--Temos lagrimas? Ora vamos...--atalhou o padre, dando ás palavras um +tom de risonha ameaça.</p> + +<p>--Não, que minha mãe é assim!--tornou Maria.--Não póde mesmo a gente +fingir que é infeliz! Permitta Deus que todos se julguem tão venturosos +como eu. Tenho pae que amo tanto, e mãe que mais não posso amar! sou tão +feliz!... Minha mãe não podia ser tambem assim, se achasse a ventura no +meu amor?!...</p> + +<p>--Ó minha filha... exclamou a mãe.--Obrigas-me a pedir-te perdão... +Castiga-me Deus pelos labios da innocencia... Sim... eu sou muito +feliz...</p> + +<p>E abraçou-a impetuosamente como impellida por um amor que a +transportava.</p> <span class='pagenum'> 65 </span> + +<p>O coronel viera testemunhar este lance. Parou respeitosamente diante do +grupo, em que avultava o padre levantando machinalmente as mãos para o +céo, jubiloso de um sorriso todo alegria, todo luz, que parece +scintillar no semblante do justo. E o mais é que as lagrimas vieram +solennisar aquelles extremos de alegria! Choravam ambas, mãe e filha, +com as almas afinadas pela mesma emoção, pelo mesmo enthusiasmo no amor.</p> + +<p>Frei Antonio antevia a nova organisação economica e social que ha de +corrigir suavemente as velhas imperfeições da sociedade.</p> + +<p>--Mãe, filha, e todos nós--dizia o coronel--seremos felizes com as +vossas inspirações.</p> + +<p>--O contrario seria um crime, meu irmão!--respondeu frei Antonio, +tomando-as ambas, abraçadas ainda, entre os seus braços.</p> + + +<h3>II</h3> + +<p>A vida d'esta familia correra assim tres annos. O dia de hoje, empregado +em grangear a subsistencia do de ámanhã, promettia a mesma +tranquillidade nos dias successivos. E assim passavam.</p> + +<p>Frei Antonio era o mestre de Maria. A educação litteraria, que lhe dava, +não era simples. Apaixonado pelos seus, e pelo esplendor da sua patria, +frei Antonio <span class='pagenum'> 66 </span> affeiçoára o espirito de sua sobrinha aos moldes +graves da poesia portugueza do seculo 16.<sup>o</sup> Fizera-a decorar a historia +nos cantos das epopêas; afinára-lhe o gosto no arrebatamento d'aquelle +genio, que deu lições de resignação aos desgraçados. Camões era mais que +um poema decorado por Maria. A cada verso era interrompida, e o poema +tornava-se, commentado pela eloquencia do padre, um fecundo manancial de +moralidade. O sabio não se contentava com o amor exclusivo da sua +litteratura. Frei Antonio amava alguns livros francezes, e os italianos +de todos os seculos. Maria aos dez annos conhecia as duas linguas, e +lia, nas horas vagas desoccupadas da noite, com percepção admiravel. As +suas lições não interrompiam o trabalho das flôres. Em quanto de entre +os dedos lhe brotava a rosa, incendiavam-se-lhe as faces, lindas como a +flôr, pelo calor nervoso com que expunha episodios de historia, +adaptados á sua intelligencia pelo estylo energico do seu tio. Seus +irmãos, mais velhos que ella, porfiavam em imita'-la, e sentiam-se +feridos no amor proprio, quando a viam voar pelo mundo da intelligencia, +defeso á sua. Maria era um prodigio--dizia o pae:--era forçoso +reprimi'-la na audacia das suas duvidas sobre motivos religiosos, porque +frei Antonio com horror á superstição e fanatismo não tolerava senão a +religião na sua maior pureza. «Maria, tinha uma razão, capaz de +perder-se por muito energica» accrescentava o mestre.</p> + +<p>Maria, aos doze annos, mostrava singular desenvolvimento de compreensão. +Não se lhe difficultavam as <span class='pagenum'> 67 </span> entidades ideaes da metaphysica, e +leccionava seus irmãos na arte de pensar, como se ao seu espirito +descessem do céo revelações das que encaminham a razão direita ao alvo +das verdades eternas. O juizo, porém, essa faculdade, que não tem ainda +o nome na sciencia do coração, esfriára-lhe o enthusiasmo, que, dois +annos antes, lhe acalorava a infantil eloquencia. Havia tristeza na +amostra do seu talento. Parecia violentar-se quando a estimulavam a +revelar a sua opinião em objectos de sabedoria. Até não queria ser +galardoada com applausos, e córava, se a faziam inveja de seus irmãos. +Pedia que a deixassem no seu officio de florista, dando-se por contente +do pouco que sabia, pois pouco bastava a uma mulher, que não podia +repousar a cabeça, e adormecer no seio da sciencia. A formosa artista +tivera um piano, em que dedilhava os seus primeiros ensaios, quando seus +paes o venderam. Tomara a peito um peso enorme de trabalho, esperando +accumular dinheiro que lhe restituisse o seu piano; e conseguiu-o, +quando o seu nome se fez celebre, n'aquelle genero de enfeites, que a +moda pagava caros.</p> + +<p>Em casa do coronel de ***, até esta epoca, nunca se reuniram a um chá +pessoas extranhas. Aquellas portas fecharam-se: o habito applaudiu essa +deliberação forçada pelas circumstancias; e, quando estas mudaram, não +foi levemente alterada a sabia economia, que tanto concorrera para a +felicidade d'aquella familia.</p> + +<p>Não obstante, o nome de D. Maria dos Prazeres não esquecia nos grandes +circulos, nos salões do luxo e da <span class='pagenum'> 68 </span> moda. A esse nome estava +vinculado o prestigio de uma familia illustre, nublada pelas tempestades +politicas. Pintava-se com traços exagerados, talvez, a transição da +opulencia para a miseria; faziam-se romances, mais ou menos idealisados +pelo gosto da epoca; contavam-se assombros de um genio que o infortunio +acanhava, em forçada obscuridade. Ninguem vira de perto D. Maria dos +Prazeres, ninguem a encontrára fóra da rua por onde ia á egreja; +mancebos, porém, que precisavam interessar na sociedade, cançada de +logares communs, diziam que a tinham ouvido um minuto, dois minutos, +cinco minutos, maravilhados da sua formosura, e pequenos diante da sua +eloquencia.</p> + + +<h3>III</h3> + +<P>O nome de Fr. Antonio dos Anjos vulgarisou-se com o de sua sobrinha. A +ligação de mestre e discipula apregoava as duas pessoas com egual +elogio.</P> + +<P>Um fidalgo de Lisboa quiz conhecer o egresso. Achou-o semelhante aos +gabos, que o engrandeciam. Honrou-o com attenções e obsequios, que +occultavam um fim honesto. O fidalgo tinha um filho de dezoito annos, +rebelde aos rudimentos das boas sciencias, mas em demasia versado n'esta +alchymia do mundo, em <span class='pagenum'> 69 </span> que o libertino devora primeiro o cabedal +da sua virtude, e sacrifica depois a virtude alheia, como o escravo +infeliz d'aquelle prestigio queimava no cadinho a sua subsistencia, e +seduzia depois os outros a empobrecerem-se.</P> + +<P>Fr. Antonio, instigado pela caridade que lhe impunha a salvação de um +naufrago, acceitou a empresa, recusando a feliz perspectiva que devia +remunerar-lhe o seu trabalho.</P> + +<P>O padre considerou-se imprudente em annuir, quando viu a funesta +impressão que tal noticia causou em sua sobrinha, particularmente. +Roubarem-lhe o anjo da infancia, quando, adulta, mais carecia d'aquelle +esteio a que o seu coração se acostumava, era penalisa'-la com saudades +inconsolaveis: era uma crueza, não de um extranho, mas de seu tio, que +não tinha precisão de assoldadar-se ao pão alheio. Esta sua queixa, +justificada com profunda tristeza, e continuas lagrimas, pungia o +coração do velho até ao extremo de o lançar no leito da doença. Era +irremediavel a promessa indiscreta: a palavra de honra, que lhe fôra +pedida pelo fidalgo: a obrigação que se impoz de arrancar á +libertinagem, que dominava grande parte dos antigos fidalgos, um mancebo +perdido.</P> + +<P>Maria, quando viu adoecer seu tio, ministrou-lhe o balsamo da ferida. +Ella mesma, repesa da severidade de seu amor, pede-lhe que vá repartir +com os necessitados o pão da sciencia e da virtude, que, tão farto +repartia com ella.</P> <span class='pagenum'> 70 </span> + +<P>--Era peccaminoso o meu egoismo!...--lhe diz--Não pude vencer-me! O meu +coração é impetuoso. Meu tio não quiz remediar-me este defeito, +reprimindo-me a dedicação com que, ha seis annos, correspondo á sua +amizade. Ambos somos culpados; mas eu sou mais... Fui precipitada. +Lembrei-me que era abandonada, por ser esquecida algumas horas do +dia!... É forte creancisse, não é, meu tio?</P> + +<P>--Eu!... esquecer-te... minha filha!...--balbuciou o padre.</P> + +<P>--Bem o disse eu! É muito meu amigo... leva a minha imagem no seu +coração para onde fôr... tem-me ao seu lado nas suas orações... responde +ao meu coração que lhe pergunta a adivinhação d'estes segredos que eu +tenho aqui, e só meu tio me adivinha... é tudo isto... sim, meu caro +tio?</P> + +<P>--Sim, tudo, minha menina.</P> + +<P>--Oh meu tio!--continuou ella exaltada--não nos podemos separar. A +intelligencia é um fio electrico. Ha vibrações na minha alma, que, se +meu tio as não ouvisse, seriam perdidas, como as notas de uma harpa +tocadas pelo vento em cima de um sepulchro deserto. Meu pae, e minha +mãe, e meus irmãos, quero-os para o amor, quero-os para o coração, morro +pela sua felicidade se m'o exigirem; mas o meu espirito precisa de +alimento, a minha intelligencia quer um pasto ideal que não acho aqui, +se meu tio me desampara. Não vê que foi um impulso providencial, que o +trouxe aqui salvando-o de tantas mortes que lhe embaraçaram o caminho? +<span class='pagenum'> 71 </span> Eu não tenho sido ingrata a Deus: ergo-lhe as mãos todos os +dias, reconhecida, humilde, mas venturosa de ter nascido sua +sobrinha!... Não me faça persuadir que Deus olha com indifferença as +minhas preces...<a href="#nota2"><sup>[2]</sup></a></P> + +<P>--Maria, interrompeu o padre, tu não pensaste o que dirias antes de +vires ao meu quarto!... Magoaram-me as tuas ultimas expressões... Não me +pareceram tuas...</P> + +<P>E Maria arquejava sem desafogo. Parecia não escutar o tio.</P> + +<div class="footnote"> <p><a name="nota2">[2]</a> Nem sempre é inverosimil a linguagem figurada. Mais de um critico, +a estas horas, se indispõe contra as hyperboles de Maria, aos quatorze +annos tão espevitada! Pois creiam que não é justo o seu reparo. Se lhes +eu tivesse dito que Maria convivera nas salas onde o lyrismo do coração +não tem nada a fazer com a vida positivissima que lá se vive, em +linguagem chan e desenflorada de figuras inuteis, tinham razão sobeja +para dizerem que nunca por cá toparam d'estas donzellas Ciceros ou +donzellas Gongoras, como quizerem. Attendam, porém, ao facto, se não +teem a experiencia: mulher instruida, ou presumida de instrucção, se lhe +falta o trato que precisa o estylo segundo as circumstancias, fala +assim, e escreve assim. Aquella filha de Manuel de Sousa e D. Magdalena +de Vilhena, que o immortal Garrett faz morrer de vergonha, em <i>Fr. Luiz +de Sousa</i>, era, com menos sete annos, muito mais espirituosa, e, se +querem, mais desnatural. O inverosimil é algumas vezes verdadeiro, assim +como</p> + +<div class="poesia"> +<i>Le vrai peut quelque foi n'être pas vraisemblable.</i> +</div> +<p class="direita">(<span class='small-caps'>Boileau </span>, <i>Art. +poet. c. 3.<sup>e</sup></i>).</p> +</div> +<span class='pagenum'> 72 </span> + +<P>--Vem cá, minha filha--continuou elle, extendendo-lhe a mão, com um +sorriso affavel--vem cá. Que queres tu de mim? Não queres que eu vá +fazer um bom filho, e um bom cidadão?</P> + +<P>--Vá, vá, meu tio!--exclamou ella, com energia.</P> + +<P>--Não achas tão sublime a missão confiada por Deus ao padre velho, que +não tem outra herança a legar-te, senão a memoria da sua beneficencia?</P> + +<P>--Sim, sim... é o que ha de superior a tudo... ao amor, á vida, á +esperança... Sim, sim...dê-me esse irmão em crenças, veja-o subir para +Deus, impellido pela sua palavra inspirada... eu pedirei por elle; +trocaremos as nossas orações; elle pedirá por mim, porque a conversão de +um perdido enche o céo de alegria e faz exultar os anjos!... Elle ha de, +inspirado pelo céo, compreender, como nós já compreendemos, desde que +vivemos artistas, o que é o amor de Deus e a virtude do trabalho.</P> + + +<h3>IV</h3> + +<P>Frei, Antonio mudou a residencia para casa do fidalgo. Alvaro da +Silveira era o educando. São precisas algumas linhas do caracter d'este +mancebo.</P> + +<P>Nascera rico: primeira desgraça, quando um pae, herdeiro de opulencia e +libertinagem, sente a precisão de <span class='pagenum'> 73 </span> transmittir a seu filho a +herança, qual a recebera. Acalentado em berço de ouro, quando os +primeiros annos lhe deram a convicção da sua individualidade, reclamou a +sua emancipação dos carinhos maternos, que lhe eram pesados, e extremos +do pae que o enojavam por muito repetidos. O elogio acompanhava-o sempre +em todas as suas tentativas de independencia. Quando de seis annos +rasgou o <I>A</I>, <I>B</I>, <I>C</I>, na presença de um professor, que o contrariava, seus +paes riram-se do galhardo heroismo da creança, e exultaram de ve'-lo +assim brioso em tão verdes annos. Quando aos oito annos o viram espancar +a ama, que lhe prohibia apedrejar uns meninos pobres, que lhe pediam +pão, disseram-lhe que era feia aquella acção em menino fidalgo, e +deram-se os parabens, a occultas, de tão corajoso rasgo. Quando aos dez +annos o ouviram pedir dinheiro para gastar em seus caprichos de creança, +preliminares de lastimaveis depravações de mancebo, deram-lhe dinheiro, +com a condicional de não caír do cavallo, nem guiar o carrinho por +passagens mal gradadas. Quando aos quinze annos....</P> + +<P>Seus paes atiraram-n'o ao tremedal de todos vicios. Deixaram medrar a +planta da má inclinação no clima proprio, naquella atmosphera de Lisboa, +onde os miasmas da corrupção lavravam desde que alguma classe degenerou +pela ociosidade, e pelos vicios da velha organisação social. A arvore +lavrou raizes até onde seus paes não previram, por mais que amigos e +extranhos lhes abalassem o coração d'aquelle profundo somno de um +affecto criminoso. As immoralidades do filho estamparam <span class='pagenum'> 74 </span> um +estigma de opprobrio nas faces dos paes. O jogo, contrariedade unica e +pungente, que na sociedade encontrava o libertino, arruinaria a fortuna +d'uma familia, de muitas familias opulentas se Alvaro da Silveira não +attendesse aos conselhos, ás primeiras admoestações de seu pae. Foram +baldadas. Alvaro ouviu-as com enfado, çom soberania, com desprezo, e +satisfez a irritabilidade de sua má indole, conduzindo á porta de seu +pae novos credores e novas vergonhas.</P> + +<P>E, depois, a intelligencia d'este mancebo era um repositorio de todos os +vicios, sem ao menos quinhoarem do ouropel da urbanidade que parece ás +vezes modificar a torpeza com que nos enojam em um licencioso, estupido +e villão. Alvaro era grosseiro no crime. Indignava os muitos que lhe não +eram somenos em dissolução mas menos brutaes que elle. As pustulas +n'aquelle cadaver mostravam-se ao clarão do vicio com todo o asco. O +homem perdido parecia renovar emoções, e satisfazer o instincto, +provocando á nausea uma sociedade cujo abandono lhe accendia um desejo +impotente de vingança.</P> + +<P>Fr. Antonio dos Anjos fôra chamado para preparar este homem a conhecer a +honra, levando-o pela vereda da religião.</P> <span class='pagenum'> 75 </span> + + +<h3>V</h3> + +<p>Alvaro da Silveira não fôra prevenido. A presença do sacerdote, +apresentado por seu pae, moveu-lhe uma curiosidade selvagem. Parecia-lhe +um sonho aquella visão extraordinaria, aquelle encontro tão disparatado +com a sua vida, o seu olhar idiota era eloquente ao mesmo tempo. +Revelava uma interrogação natural e desculpavel:--que me quer este +homem?</p> + +<p>Fr. Antonio, limitado ao seu ensino de portas a dentro, e alheio á vida +de Lisboa, não conhecia cabalmente a historia do seu discipulo. Os +traços que o pae lhe revelára eram logares communs da mocidade +desenfreada. Não é crivel que o padre bem informado, tentasse a empresa +de conquista'-lo para a virtude. E quem póde avaliar a coragem +religiosa?</p> + +<p>Alvaro sorriu, voltou as costas ao mestre, levando em galhofa o que lhe +não parecia cousa de serio alcance. Este grosseiro procedimento magoou +momentaneamente o padre; mas, repreendido pela caridade, aquietou +depressa os irritamentos do amor proprio. Foi então que o pae, tão +culpado como desditoso, desenrolou o sudario das desenvolturas de seu +filho. Chorava, arrependido do mimo com que o perdera, e perguntou +ancioso se seria possivel salva'-lo da sua ruina total.</p> <span class='pagenum'> 76 </span> + +<p>Fr. Antonio não conhecia limites á sua confiança em Deus. Convicto das +mercês visiveis que recebera da omnipotencia do Senhor, sentiu-se +illuminado de uma fé que lhe affiançava um prodigio. A peleja travada, +em nome da virtude, com o espirito do mal, tinha muitas vezes triumphado +de uma parte da humanidade, revoltada contra um só homem. Exemplos de +maiores maravilhas alentaram o sacerdote. Desde esse momento, afervorou +as suas preces ao Senhor, a cujo aceno a virtude, morta no coração do +impio, surgiria como a lagrima do remorso nos olhos de Magdalena.</p> + + +<h3>VI</h3> + +<p>Esse dia de estreia para a missão do padre, foi mais um decorrido nas +immoralidades do discipulo.</p> + +<p>Não viera a casa, durante o dia, e metade da noite. Parece que tudo +dormia no palacio; quando Fr. Antonio sentiu o rumor de um cavallo no +pateo. Orava ainda, fóra do leito, ajoelhado, com o lenço ensopado em +lagrimas de dorida saudade. A imagem de sua sobrinha não lhe consentia o +repouso, de noite; obrigava-o ás tribulações de um amante desprezado. E, +então, o ministro de Deus recolhia-se em oração, com a vehemencia de uma +esperança infallivel no refrigerio do céo.</p> <span class='pagenum'> 77 </span> + +<p>A essa hora, pois, chegava a casa Alvaro da Silveira. O seu quarto era +immediato ao do sacerdote. Entrou assobiando as reminiscencias das +cavatinas theatraes, e reclamou em brados imperiosos a ceia. Os servos +pontuaes como escravos aos caprichos rapidos dos patricios da Roma dos +imperadores, affluiam a servir o amo, que ordinariamente punia uma certa +demora com a ameaça formal de quatro chicotadas. Conduzida a ceia, +repellira os creados com desabrimento e ficára sósinho trauteando e +comendo promiscuamente.</p> + +<p>Alvaro acabava de cear, esquecido da apresentação do padre, quando ouviu +na porta um toque.</p> + +<p>--Entre quem é!--bradou elle.</p> + +<p>Quem quer que era cumpriu. A presença veneranda de Fr. Antonio, um passo +dentro do quarto, era uma impressão nova para o mancebo! +Involuntariamente sentiu curvar-se-lhe o pescoço á cortezia grave com +que o sacerdote o saudára.</p> + +<p>--Então ainda a pé?!--perguntou Alvaro.</p> + +<p>--Ainda a pé, e Deus sabe se me deitarei... As horas da noite são as +horas da oração. Parece que o ermo e o silencio excitam a conversação do +espirito com Deus... E v. ex.<sup>a</sup> recolheu-se agora, não é verdade?</p> + +<p>--É verdade...--respondeu o mancebo com um embaraço, que revelava a sua +extranheza n'estes dialogos.</p> + +<p>--Precisa repousar--tornou o padre--Eu, como estava a pé, quiz dar-lhe +as boas noites. Agora recolho-me <span class='pagenum'> 78 </span> pedindo a Deus o seu descanço, +como condição da vida, para amanhã abrir os olhos á luz que bem póde não +alvorecer para nós. Fique v. ex.<sup>a</sup> com Deus.</p> + +<p>E retirou-se. As ultimas palavras de Alvaro pareciam syllabas +desarticuladas. O frade ferira-lhe um orgão ainda virgem d'aquellas +impressões. Aquelle <i>memento</i>, áquella hora, por aquelle homem, +acordára-lhe o mais nobre dos pensamentos, que o materialismo lhe +adormecera nos gelos do coração: DEUS. Os confusos projectos do dia +seguinte aturdiam-se-lhe na cabeça, como alvoroçados pelo pregão da +morte, que mandava calar os designios humanos na presença do destino +eterno.</p> + +<p>O abalo fôra vehemente, mas pouco duradouro. Alvaro da Silveira +adormeceu. É que o som vibrado na corda da religião, devia esvaecer-se +entre o estrondo das paixões ruidosas, como o vagido da creança no +alarido das turbas amotinadas.</p> + + +<h3>VII</h3> + +<p>Alvaro da Silveira costumava tocar a campainha depois do meio dia, +quando alguma empresa impertinente lhe não assaltava o precioso somno da +manha.</p> + +<p>Fr. Antonio, prevenido, foi visitar sua familia, cuja ausencia lhe +parecia longa e incomportavel. Antes de sair trocou algumas palavras com +o dono da casa pedindo-lhe <span class='pagenum'> 79 </span> que entregasse a Deus a regeneração +de seu filho.</p> + +<p>Quando entrou na sala, sua sobrinha estava ao piano. Pé ante pé +firmou-se onde de longe podia contempla'-la, e surpreende'-la com +palmas. Reparou que o papel de estudo não era musica. Esperou. De +improviso, ao som melancolico das teclas casou-se uma melodia triste, +profundamente triste, como as convulsões de um longo gemido. Aquelle +papel continha a letra do canto. Que versos seriam aquelles?</p> + +<p>E o canto parou com a ultima nota do acompanhamento. Maria firmou os +cotovellos nos braços da cadeira, e escondeu o rosto entre as mãos. Ás +vezes corria as mãos pela testa, e deixava-as pender enlaçadas sobre o +regaço. As suas posturas eram todas afflictivas.</p> + +<p>--Que tens, minha filha--murmurou o padre caminhando para ella.</p> + +<p>Maria ergueu-se arrebatadamente; correu aos braços do tio, e não teve +exclamação que revelasse o alvoroço d'aquella surpresa.</p> + +<p>--Cantavas como um anjo--continuou o padre, acariciando-lhe a face +pousada no seu hombro--mas tão melancolico era o canto e a musica!... +Nunca te ouvi ainda esta lamentação! Vejamos que poesia é esta!...</p> + +<p>--Não, não, meu tio!,..--atalhou Maria, querendo affavelmente desvia'-lo +do piano.</p> + +<p>--Porque não? Mysterios para o teu amigo que t'os adivinha no coração? +Segredos para o teu mestre, Maria!</p> + +<p>--Não é segredo... é vergonha...--exclamou a <span class='pagenum'> 80 </span> linda menina com a +voz entrecortada--Esses versos fui eu que os fiz..</p> + +<p>--E tens reservado para ti esse dom? Quando disseste ao teu velho tio +que fazias versos?--disse o padre sorrindo com meiguice.</p> + +<p>--Eu não sabia que o eram... Nem sei se o são...--balbuciou Maria, +córando, e procurando fugir de estar presente á leitura.</p> + +<p>Fr. Antonio levou-a pela mão ao piano. Tomou da estante a poesia, e leu:</p> + +<div class="poesia"> +PRESENTIMENTO<br> +<br> +«Minha paz no infortunio,<br> +Minha alegria na dôr,<br> +Quem m'a déra, qual a tive,<br> +Qual m'a déstes, vós, <span class="small-caps">Senhor</span>!<br> +<br> +«Desbotou-se-me nos labios<br> +Meu sorriso tão singelo...<br> +E eu com elle premiava<br> +Tanto amor, tanto desvelo!...<br> +<br> +«Tanto amor, que eu vos pedia,<br> +Do que os anjos tem nos céos,<br> +Para amar meus paes, meu tio,<br> +Como vos amo, meu Deus!<br> +<br> +«Não scismei outras venturas,<br> +Outros gosos não pedi:<br> +Fui tão rica na pobreza...<br> +Na pobreza empobreci.<br> +<span class='pagenum'> 81 </span> +<br> +«Senti lagrimas no rosto...<br> +Sei que tenho aqui no seio<br> +Escondida uma tristeza<br> +Que de vós, meu Deus, não veio!<br> +<br> +«Deu-m'a o mundo?... sim... daria...<br> +Mas que mal ao mundo fiz!?<br> +Serei eu de alguem inveja?<br> +Pois que eu não seja feliz!<br> +<br> +«Volva o tempo da penuria,<br> +Quando eu fiz a pobre flor,<br> +Que me dava um pão regado<br> +Com meu pranto e meu suor.<br> +<br> +«Dae-me as noites não dormidas<br> +De trabalho e de alegria;<br> +Meu orar na madrugada,<br> +Quando, tão feliz, me erguia.<br> +<br> +«Oh meu Deus! se a humilde serva,<br> +Não votaste ao soffrimento,<br> +Abafae lhe a voz, que a punge,<br> +D'um cruel presentimento!»<br> +</div> + +<p>Fr. Antonio lera commovido essas singelas quadras, cujo toque de +sentimento não póde enternecer-nos, talvez. Nos labios d'elle, tremulos +e nervosos, a poesia soava como um canto funebre. Que tristeza no +declamar! Poderia ter-se como uma elegia á innocencia de Maria? Por Deus +que não. O hymno, que transluzia da nuvem escura da sua tristeza, era +como a luz do relampago <span class='pagenum'> 82 </span> que aclara, de repente, um amplo +espaço: era a luz electrica das intelligencias privilegiadas; o abalo do +presentimento que quer saír do circulo do mysterio: a adivinhação do +futuro.</p> + +<p>--Que é o que entristece a tua vida, Maria?--perguntou Fr. Antonio.</p> + +<p>--Já me lembrou se seria a muita felicidade, meu tio.</p> + +<p>--Não te compreendo... abre-me o teu coração sem reserva... Serias +culpada se fingisses a teu tio as razões do teu soffrimento...</p> + +<p>--Não posso mentir-lhe, meu tio... Não sei ainda o que é fingimento... +nunca na minha vida menti a alguem. Eu não sei porque estou triste. O +meu coração não m'o diz, e a minha tristeza nasce-me do coração, +esconde-se lá como um segredo afflictivo... E eu que mais hei de +dizer-lhe, meu caro amigo? Que peço muito a Deus que me não quebre este +calix de amargura, se a sua divina vontade ordena que eu o exgote.</p> + +<p>Maria enxugava as lagrimas copiosas, que pareciam esfriar-lhe o calor +febril das faces. Fr. Antonio, contemplativo, olhava para a sobrinha +silenciosa, como querendo ler-lhe no rosto a ultima palavra d'aquella +revelação confusa.</p> + +<p>O coronel entrou na sala, e correu a abraçar seu irmão, e dar a mão a +sua filha, que lh'a não beijara ainda. Maria, surpreendida, quiz, á +custa de um sorriso violento, converter em alegria aquella saudação; mas +a dôr de filha é necessario que seja peccaminosa para esconder-se <span class='pagenum'> +83 </span> aos olhos de pae. O coronel e sua esposa velavam as tristezas de +Maria como lhe velariam perigosa enfermidade. Consultaram mutuamente os +seus temores; e a severa experiencia do mundo alguma vez lhes inspirou +bem tristes receios. Aos quatorze annos ha melancolias no coração de uma +virgem, que apenas tem de mysterioso a tendencia irresistivel, que Deus +lhe imprimiu para o ideal de um amor terreno, que, no altar da +innocencia, recebe uma adoração, senão semelhante, ao menos perfumada +com o mesmo incenso do amor divino. E a mãe de Maria recordava-se da sua +infancia, e perguntava a seu marido se as lagrimas da filha seriam as +precursoras de alguma paixão infeliz. Era indiscreta a pergunta. Não se +dera nunca o incentivo de suspeita. A vida de Maria não tinha um +instante mysterioso a seus paes. Trabalho e oração--não tinha outro +desvelo desde o amanhecer até á ultima benção pedida a seus paes.</p> + +<p>Maria, valendo-se da conversação do pae com o tio, retirara-se da sala. +O coronel assim o queria, para consultar o irmão, homem de Deus, que via +o coração dos outros com os olhos puros da probidade. Mas não são esses +olhos os mais penetrantes para devassar segredos, que se escondem no +coração apaixonado pelo mundo. Quem adivinha as luctas intimas do +espirito, escravisado aos caprichos das paixões, é o homem das paixões, +encanecido na amarga experiencia d'ellas. Bem pudera Maria dos Prazeres +agonizar nas tribulações de um amor criminoso, e sua morte ser um +mysterio para o padre que não sentia acordar em sua alma o echo dos +<span class='pagenum'> 84 </span> gemidos de sua sobrinha. O amor de Deus preenche todas as +necessidades, responde a todas as aspirações do coração de um justo. Não +é o justo de uma longa vida irreprehensivel quem póde arrancar ao +penitente, que se lhe ajoelha, uma revelação pungente, que o pejo +emmudece nos labios. É necessario profunda'-la com a sonda das proprias +agonias. É necessario adivinha'-la no espirito do penitente, a favor de +um symptoma que revela outro, de uma palavra solta que vae prender-se á +explicação de um longo silencio. E esta dolorosa syndicancia não póde +exerce'-la a simples theoria das paixões.</p> + + +<h3>VIII</h3> + +<p>A arte, que ensina a levantar o véo das paixões silenciosas, era +desnecessaria para Maria. A virgem não tinha segredos para alguem. +Podesse ella entender a transfiguração da sua alma, a magua confusa dos +seus novos pensamentos, que, bem feliz, pediria conselhos e consolações +á sua familia.</p> + +<p>--Mas aquelle silencio!...--dizia o coronel, replicando ás santas +convicções do padre, a respeito da innocencia de sua sobrinha. + +<p>--Aquelle silencio...--dizia frei Antonio, consultando a consciencia, +que lhe respondia de prompto--aquelle <span class='pagenum'> 85 </span> silencio... é a falta de +palavras com que possamos fazer sentir aos outros uma idéa, que só a +Divindade nos compreende... As horas de tua filha não são empregadas +como d'antes na oração, no estudo e no trabalho?</p> + +<p>--São, de certo, e mais continuadas na oração. D'antes orava em commum. +Agora, encontramo'-la na hora do descanço, ajoelhada no sanctuario; mas +vejo-a perturbada, quando reza. Ha lagrimas, e até aqui só lhe viamos o +sorriso de consolação... Parece que n'aquelle orar, ha a supplica do +perdão para o crime que a accusa.</p> + +<p>--É impossivel!--exclamou o padre, energicamente commovido.--É +impossivel... não quero que em minha sobrinha se esconda um crime... uma +falta! É uma injuria, meu irmão! Peccaste contra a innocentinha, e +feriste-me a mim, que tenho formado aquelle coração, que Deus me confiou +para crear-lhe um anjo.</p> + +<p>--Meu irmão... não te afflijas... isto em mim é um receio.</p> + +<p>A interrupção do coronel era tardia para evitar a exaltação nervosa do +padre. As lagrimas davam-lhe ao rosto uma religiosa magestade. +Assombrava-o o terror de uma conjectura cruel, como se visse caír á +voragem do vicio a virtude, que elle, com sua propria mão, collocára em +throno tão perto do céo. O coronel, tambem commovido, sentia-se +nobremente exaltado pelo modesto orgulho de ter uma filha, cuja +innocencia merecia tão fervorosa defesa. Abraçando seu irmão, parecia +pedir-lhe <span class='pagenum'> 86 </span> carinhosamente desculpa do zelo paternal, que lhe +inspirara receios por aquella que pertencia menos a seu pae, que a seu +mestre. O lance era sublime; e o sentimento de ambos, vibrado na mesma +corda, e acalorada pelo mesmo amor, elevava-se até Deus em oração de +graças por Maria, anjo que lhes fôra dado como galardão á paciencia de +muitos soffrimentos.</p> + + +<h3>IX</h3> + +<p>Quem poderia consolar a triste nas suas amarguras?</p> + +<p>Quem póde cá da terra dissipar a nuvem, que escurece a face de uma +estrella?</p> + +<p>Quem póde, ao descair da tarde, reverdecer a corolla da flor desbotada +pelas sombras da noite?</p> + +<p>O futuro é o presente perpetuo da Divindade. Mas o espirito que se +enlucta, sem lamentar a viuvez de illusões perdidas, veste-se de negro, +como a virgem violentada a desposar no altar das lagrimas uma tribulação +futura. É o presentimento.</p> + +<p>Para as almas provadas em supplicios immerecidos, mas secretamente +providenciaes, o presentimento não é uma palavra sem significação.</p> + +<p>O cantico de Maria, cadenciado pelas quadras do seu hymno, era a unica +resposta, que ella podia dar se lhe perguntassem:</p> + +<p>--Anjo, porque soffres?</p> <span class='pagenum'> 87 </span> + + +<h3>X</h3> + +<p>Decorreram algumas horas, e Fr. Antonio não podia demorar a sua visita. +Alvaro da Silveira, fiel a seus habitos, deveria despertar ao meio dia. +O padre retirou com uma saudade profunda, e uma dôr nova. A ultima +afflicção de um justo quer Deus que seja a agonia do pensamento. A vida +n'elle é uma cadeia de pesares, que tem no esquife o ultimo élo. Fr. +Antonio, feliz com esta certeza, poderia fraquear na primeira lucta com +o soffrimento, mas a sua queda era sempre de joelhos aos pés da cruz. E +esta foi a sua postura, apenas entrou no quarto que lhe fôra dado em +casa de Silveira.</p> + +<p>A oração foi-lhe interrompida pelo toque da campainha. Esse som, que +provocava pragas aos servos da casa, como signal de estar acordado o +tigre familiar, foi para frei Antonio um despertador da oração em favor +d'aquelle, que tão longe de Deus, sem um decreto do céo, mal poderia ser +lá encaminhado pela debil mão de um peccador. E, terminada a oração, o +padre chamou o creado, que saía do quarto de Alvaro, e mandou a s. exc.<sup>a</sup> +pedir licença para fazer-lhe companhia ao almoço. A resposta, qual era +de esperar, deferiu a humilde supplica, e Frei Antonio, insinuante de +brandura e civilidade, apresentou-se, pela terceira vez, ao seu +educando.</p> <span class='pagenum'> 88 </span> + +<p>A face d'este homem tinha uma alegre severidade, que não podia fitar-se +sem respeitosa sympathia. Alvaro da Silveira ao ve'-lo sentia uma +impressão extraordinaria, como não sentira na presença d'algum homem +celebre em valentia, em talento, em devassidão, em prodigalidades, e em +riqueza. A distincção da virtude ou do <i>fanatismo</i>, como elle dizia da +religião, parecia-lhe uma cousa nunca vista na boa sociedade! Para não +deixar-se vencer pelo panico da religião, Alvaro da Silveira dava-se uma +explicação muito natural d'aquelle phenomeno: era a falta de convivencia +com a classe dos padres.</p> + +<p>Na verdade o jesuitismo e a hypocrisia pelos seus abusos interesseiros, +tornando a religião instrumento innocente de uma politica facciosa, tem +dado causa a todos os homens de consciencia conspirarem a expulsa'-los +como vendilhões do templo. Essa a razão por que os falsos religiosos +blasphemam quando presentem que uma minima centelha da razão illumina o +campo da religião que elles pretendem pôr em trevas. Todo o homem +sensato e sãmente religioso soffre uma intima dôr quando os falsos +religiosos impellem os ignorantes, e alguns immorigerados como Alvaro da +Silveira, a irem lançar-se na impiedade, fugindo da hypocrisia, que +elles não sabem discernir da purissima religião do crucificado.</p> + +<p>Mas, a seu pesar, a entrada de Fr. Antonio, e as palavras urbanas, e +poucas, com que o saudára, continuavam a impressiona'-lo.</p> <span class='pagenum'> 89 </span> + +<p>--Dormiu v. ex.<sup>a</sup> socegadamente, não é assim?--perguntou o padre.</p> + +<p>--Deliciosamente--respondeu Alvaro, apertando cortezmente a mão do +sacerdote.--E v. s.<sup>a</sup> como se deu no seu novo quarto?</p> + +<p>--O melhor possivel. Um egresso, affeito a dormir na casa de um +lavrador, acharia boa pousada em todos os logares debaixo do céo. Uma +boa cama não abona sempre uma noite deliciosa ao que se deita n'ella. O +melhor gasalhado, senhor, é o que nos dá a consciencia quando +francamente se abre para receber-nos, e velar-nos o somno com o anjo da +paz. Deus defenda v. ex.<sup>a</sup> de revolver-se um dia nos espinhos, que +perturbam o somno do mau, deitado em leito de cortinas douradas.</p> + +<p>--Então v. s.<sup>a</sup>--tornou Alvaro--tem andado por casa de lavradores? Eu +cuidei que os frades eram ricos, e amigos das commodidades. Pelo menos é +o que se diz por ahi...</p> + +<p>--Os frades, senhor, não só eram ricos, mas tambem opulentos; procuravam +todas as commodidades, gosavam todas as delicias, todos os prazeres que +podem ser desfructados na vida material da terra. A ociosidade e a +riqueza perverteu-os. As excepções choravam tal aberração. Como que +olvidados do céo mergulharam-se n'uma politica inconveniente e injusta. +Em pena de Talião, a politica por elles hostilisada, por todos os meios, +tão obstinadamente, puniu-os expulsando-os das casas que não deviam mais +pertencer-lhes.</p> <span class='pagenum'> 90 </span> + +<p>Estava na mesa o taboleiro do almoço. Fr. Antonio pedia licença para +servir o discipulo.</p> + +<p>--Então v. s.<sup>a</sup> não almoça?--perguntou Alvaro, offerecendo ao hospede uma +chavena, não recebida.</p> + +<p>--Almocei já, sr. Silveira.</p> + +<p>--Com o pae, não é verdade?</p> + +<p>--Não, senhor: com a minha familia.</p> + +<p>--Então v. s.<sup>a</sup> tem familia em Lisboa?</p> + +<p>--Nasci em Lisboa, e tenho uma familia numerosa.</p> + +<p>--Naturalmente pobre...</p> + +<p>--Naturalmente, não, sr. Silveira; mas Deus indemnisou-a. Deu-lhe o amor +do trabalho, e a noite e o dia, para grangear o pão de uma hora. Tem +sido feliz, penso eu. O temor de Deus é a coragem com que se vencem os +infortunios...</p> + +<p>Alvaro, com a chavena esquecida na mão, escutava-o religiosamente. A +novidade da linguagem, e o gesto religioso apraziam-lhe, e creavam-lhe +desejos de ouvir o padre longo tempo.</p> + + +<h3>XI</h3> + +<p>--A sua familia é conhecida?</p> + +<p>Esta pergunta de Alvaro da Silveira é textualmente o inquerito +galhardamente fidalgo, que a nobreza d'estes reinos faz, antes de deixar +approximar-se por algum <span class='pagenum'> 91 </span> desconhecido, duvidosamente inscripto +no livro dos costados. Perdôe-se-nos o estylo; mas, desgraçadamente, +tudo que é ridiculo traz inçadas certas classes, e não sabemos, quando +se farão sérias, quando se approximarão um dia as familias, de modo que +não possamos sem offender a Deus, perguntar a nosso irmão se seu pae é +conhecido...</p> + +<p>--A minha familia--respondeu frei Antonio--foi conhecida; mas não é de +lamentar que seja hoje obscura. Mal d'ella se quizesse manter as vans +regalias da sociedade, que v. ex.<sup>a</sup> chamou conhecida! Penso que a minha +familia não é conhecida.</p> + +<p>--Mas deve estar aparentada...--replicou o fidalgo, instando nas +perguntas inauferiveis da pragmatica heraldica.</p> + +<p>--Creio que sim... O coronel ***...</p> + +<p>--Já sei--interrompeu Alvaro--pois não!... é muito fidalgo, e está +aparentado com boa gente; mas não apparece. Então v. s.<sup>a</sup> é tio de uma +menina muito falada?...</p> + +<p>--Muito falada!?--atalhou o padre com sobresalto. + +<p>--Sim, senhor, dizem que é poeta, romantica, e muito linda.</p> + +<p>--É virtuosa, senhor Silveira. Não lhe conheço outra qualidade, que +valha a pena de mencionar-se. V. ex.<sup>a</sup> já viu poesias ou romances, ou o +retrato de minha sobrinha?</p> + +<p>--Não, senhor, mas creio que não é mentira o que se diz. A opinião de +virtuosa tambem a tem; se não <span class='pagenum'> 92 </span> falei de virtude, é porque não +sei verdadeiramente o que é virtude; mas acredito que ella é uma +excellente menina a todos os respeitos.</p> + +<p>--A virtude, meu caro senhor, é a censura pratica do crime. Sabe v. ex.<sup>a</sup> +o que é crime?</p> + +<p>--Tambem não--respondeu Alvaro com uma vaidosa entoação de +espirito-forte.</p> + +<p>--Eis ahi--disse Fr. Antonio sorrindo--uma violencia que está fazendo á +sua alma, sr. Silveira. V. ex.<sup>a</sup> disse que minha sobrinha era dotada de +bellos attributos. Falou pela bôca da fama, e chamou-lhe poeta, +romantica e formosa. Se minha sobrinha, apesar d'estas decantadas +prendas e dons, que a sociedade encarece tanto, fosse má filha, e má +irmã, poderia ella cegar os olhos da sociedade com a sua formosura e +talento, para que lhe não vissem os defeitos...</p> + +<p>--De certo não.</p> + +<p>--Então é verdade, que a sociedade reprovaria o procedimento de minha +sobrinha?</p> + +<p>--Creio que sim.</p> + +<p>--E v. ex.<sup>a</sup>?</p> + +<p>Alvaro ficou suspenso, e balbuciou, depois:</p> + +<p>--Eu... eu... naturalmente...</p> + +<p>--Juntava a sua voz á opinião publica--interrompeu o padre--embora v. +ex.<sup>a</sup> não antipathisasse com os actos repreensiveis de minha sobrinha.</p> + +<p>--Assim é sempre--disse Silveira, com uma forçada resolução.</p> + +<p>--E assim será sempre, porque ha um juiz incorruptivel, <span class='pagenum'> 93 </span> chamado +a «verdade». As sentenças d'este juiz, embora fulminem as paixões +desatinadas, são sempre recebidas, senão pelo espirito de uma sociedade +gasta e immorigerada, ao menos por a consciencia d'essa sociedade. Ora a +innocencia é invulneravel ao contagio da corrupção, como a lampada do +templo ás exhalações pestilenciosas dos tumulos. A consciencia é o +pregoeiro das sentenças que a verdade profere, e v. ex.<sup>a</sup>, +insensivelmente, apregoa. Será necessario dizer-lhe eu que sentimento é +esse que se serve de v. ex.<sup>a</sup>, como de uma machina para se exprimir? É a +virtude, sr. Alvaro, é a virtude que faz realçar os dons de minha +sobrinha, que lhe dá a soberania de um anjo, que o crime não póde +encarar sem curvar-se servilmente: é a virtude, galardão ao principio do +bem, que triumpha na lucta incessante com o principio do mal. A verdade +não se desmente porque é o Evangelho identificado nos corações, e +Christo ha dezoito seculos, encarnado na humanidade...</p> + +<p>Alvaro parecia alegrar-se conforme ia perdendo o terreno, diante de um +tão generoso como irrespondivel adversario.</p> + +<p>Como se anciasse pela continuação da resposta do padre, quando este se +calou, tambem Alvaro não teve uma syllaba, das que se pedem á +«philosophia» irreconciliavel, para responder.</p> + +<p>--Crê na virtude, sr. Silveira?--perguntou o padre com summa bondade e +modestia.</p> + +<p>--Tinha-me dito que o crime e a virtude eram relativos--respondeu <span class='pagenum'> +94 </span> o mancebo com ar de quem desacredita as doutrinas de um mestre que +respeita.</p> + +<p>--Tinham-lhe dito, senhor, que a consciencia universal era uma mentira. +Mentiram-lhe cruelmente, porque v. ex.<sup>a</sup> não podia, sem horror, encarar +um filho que matou seu pae; um homem que traíu o seu bemfeitor; um juiz +que entregou um innocente ao carrasco; um seductor que atou uma pobre +mulher a um poste de ignominia eterna. V. ex.<sup>a</sup> não póde, com +indifferença, apertar a mão a este homem, não é assim?</p> + +<p>--De certo: eu sou um extravagante, um vicioso, mas detesto infamias...</p> + +<p>--Que todo o mundo detesta; mas o mundo onde a luz da verdade venceu as +trevas do erro, que a palavra do Christo condemnou.</p> + +<p>--Mas diga-me v.<sup>a</sup> sr.<sup>a</sup>... não dizem que ha paizes onde os paes matam os +filhos, e os filhos os paes, legalmente?</p> + +<p>--Houve, e haverá ainda. Mas sabe v. ex.<sup>a</sup> o que é permittido ahi pela +lei? É justamente o que é reprovado pelo christianismo.</p> + +<p>--Mas a consciencia não se revolta contra taes actos sem que seja +preciso que o christianismo os declare criminosos?</p> + +<p>--Revolta, sim. Quando as virgens indianas se lançavam nos tumulos dos +maridos, ou nas fogueiras legalmente accesas, as lagrimas, vencendo a +coragem da superstição religiosa, desciam nas faces de uma familia, que +seria injuriada se não cedesse em holocausto a desgraçada <span class='pagenum'> 95 </span> +viuva. Os gritos d'esta eram os gritos da consciencia contra a lei +barbara; eram a adivinhação da verdade denunciada pelo filho de Deus. Os +filhos, que matavam os paes, eram algozes que a lei fizera, como entre +nós a lei faz um carrasco. Poderemos nós argumentar contra a piedade, +contra a virtude, e contra o amor porque um justiçado morre entre os +braços de um homem, que executa a sentença de um juiz?! Persuade-se +alguem que o homicidio legal, na consciencia do algoz, é um acto de amor +e caridade?</p> + +<p>--Penso que não.</p> + +<p>--Pois bem, senhor Silveira; respeite a sua propria dignidade, já que os +homens sem crença, sem Deus e sem esperança, lh'a quizeram aviltar, +dizendo-lhe que o crime e a virtude são relativos...</p> + +<p>Fr. Antonio fez menção de levantar-se e continuou:</p> + +<p>--Tenho-o talvez privado dos seus divertimentos...</p> + +<p>--Não, senhor... pelo contrario tem-me dado momentos de muita +satisfação...</p> + +<p>--Encho-me de prazer, se o consegui... E como tenho a honra de ser +hospede de v. ex.<sup>a</sup>...</p> + +<p>--Mestre...--interrompeu Alvaro com alegria sincera.</p> + +<p>--Não posso acceitar esse lisongeiro titulo;--<i>amigo</i>, se v. ex.<sup>a</sup> me +quizer honrar com este parentesco.</p> + +<p>--Não me embaraça... Tenho muito prazer em que esteja...--disse Alvaro, +apertando-lhe cordealmente a mão.</p> + +<p>--Tenho obrigações a cumprir para com Deus: não <span class='pagenum'> 96 </span> faltará tempo +proveitoso para os meus deveres com o proximo. Não sabe v. ex.<sup>a</sup> que os +padres teem um breviario, que a cada hora do dia lhe recorda o dever de +orar por aquelles, que não cedem alguns minutos á oração? Filhos de +Deus, pedimos uns pelos outros; e Jesus Christo beneficiou-nos com a +riqueza da prece, com este patrimonio commum a todos os irmãos... E não +é isto uma consolação para os que são atheus por contagio e não por +convicções; fanaticos e supersticiosos por ignorancia e por estupidez?</p> + +<p>--A respeito de atheismo... tenho... minhas... duvidas...--disse Alvaro +com palavras entrecortadas por aquella pausa emphatica, semelhante á +ironia dos sabios, segundo a moda.</p> + +<p>--Pois bem... Temos zelo e vontade para acertarmos... Deus hade +conceder-nos o tempo, que é o desengano de todas as duvidas... Até outra +occasião...</p> + +<p>E retirou-se contra os desejos de Alvaro. Mas fr. Antonio conhecia o +coração do homem. Chamara-o Deus para uma empresa trabalhosa. A força +descia-lhe do céo. Não era em si que elle confiava.</p> + + +<h3>XII</h3> + +<p>Mal o padre saíra, entrou Gonçalo da Silveira. Era o pae que procurava o +filho: cumprimentou-o com a sua <span class='pagenum'> 97 </span> habitual frieza: mas o que de +outras vezes era proposito, poderia então suppôr-se distracção. Alvaro +absorvido nos seus pensamentos, quaesquer que elles fossem, parecia +meditar uma das suas heroicas façanhas, sobresaltado, como quem recua +diante de algum perigo assustador. Julgara-o assim o pae, julga-lo-iam +assim os domesticos, e os cumplices, elle proprio, talvez, se se visse +n'um espelho.</p> + +<p>--Que tens?... pareces-me somnambulo!?--disse o pae.</p> + +<p>E Alvaro affavelmente respondeu:</p> + +<p>--Pelo contrario: estou acordadissimo... muito accordado, penso eu.</p> + +<p>--Falaste com o egresso?</p> + +<p>--Sim, senhor.</p> + +<p>--Que te pareceu?</p> + +<p>--Um homem bom, virtuoso e extraordinario.</p> + +<p>--É realmente... que a virtude tornou-se em nossos dias uma apparição +extraordinaria, e milagrosa,.. Gostaste d'elle?</p> + +<p>--Quem me dera ser o que elle é...</p> + +<p>--Isso é que é extraordinario, meu filho--exclamou o velho.</p> + +<p>--Amar um bem, que não podemos possuir, é tão proprio do homem... Que +acha o pae de extraordinario, n'este meu desejo:</p> + +<p>--Muito, muito, meu caro Alvaro!... Tu hontem não falavas assim...</p> + +<p>--Tambem meu pae não amava a formosura de minha <span class='pagenum'> 98 </span> mãe, antes de +conhece'-la... A virtude é como a virgem, que um homem estragado vê na +vertigem de uma orgia, mas não póde ama'-la sem approximar-se realmente +do original d'essa sombra phantastica. Sabe meu pae o que eu amo em +padre Antonio? É a transparencia d'aquella face, que deixa vêr um bello +coração. Amo-lhe a paz, a firmeza, a confiança com que censura os +crimes, sem irritar o amor proprio do criminoso. Amo-lhe a independencia +com que falla, e a soberania com que responde. Parece que Deus o manda +falar! É um bello caracter! A sociedade, se conhecesse este homem, +adorava-o!</p> + +<p>O jubilo de Gonçalo da Silveira era um delirio. Parece que lhe não +ouvira as ultimas palavras. A emoção sublimára-se até ás lagrimas. +Alvaro tocado por uma scena, que nunca elle se julgára capaz de +estimular, recebera seu pae nos braços, com vehemencia, com transporte, +com amor de filho, sentimento para elle novo!</p> + + +<h3>XIII</h3> + +<p>Do abalo á conversão vae um grande espaço, eriçado de espinhos, que, +primeiro, medram nas lagrimas, e, no fim, se transformam em flores.</p> + +<p>Amar a virtude não é esposa'-la. Rainha de dois mundos, <span class='pagenum'> 99 </span> com +formosura immortal, a sua posse custa muitos sacrificios. No estrado do +seu throno, pisam-se as paixões do mundo. Os labios, que a saudam, devem +ter sido abrazados pela oração contricta.</p> + +<p>Os olhos que a contemplam, devem ter sido manancial de lagrimas +purificadoras das maculas hediondas do vicio.</p> + +<p>Mas ha muito que soffrer desde o amor á posse.</p> + +<p>Alvaro da Silveira enamorou-se do anjo do bem, que lhe transluzira de +entre a nuvem com que o ministro de Deus lhe escondia um novo mundo. +Agitára-se-lhe o sangue no coração, e, no scepticismo, a esperança, que +é a vida do espirito. Sentia-se com mais vida, mais alentos e idéas +novas. Aprendera a pensar. Mas o pensamento é o gerador das convicções; +e as convicções são absolutamente um dom exclusivo da verdade; e a +verdade é a perpetua conversação de Deus com o homem. Para Alvaro +existia DEUS!</p> + + +<h3>XIV</h3> + +<p>A incredulidade tem um sorriso de escarneo para estas transfigurações. +Erma do coração, e fistulada nas entranhas pela podridão do epicurismo, +ri-se, ri-se, ri-se como um demente a quem ninguem contesta o direito de +rir.</p> <span class='pagenum'> 100 </span> + + +<h3>XV</h3> + +<p>Fr. Antonio dos Anjos concluira a sua reza. Gonçalo da Silveira esperava +anciosamente o ensejo de visita'-lo. Mal ouviu passos no quarto, entrou. +Riam-se-lhe as feições, e pulava-lhe o coração na face. O sacerdote +achou-se nos braços do velho pae, que soluçava expressões de +reconhecimento.</p> + +<p>O padre maravilhava-se.</p> + +<p>--Pois a que devo eu esta commoção de agradecimentos?--perguntava elle +enternecido.</p> + +<p>--Salvou meu filho!--exclamava o fidalgo, beijando-lhe as +mãos.--Amenisou-me a velhice... Deu-me um bom fim de vida, e uma boa +morte. Vós arrancastes meu filho do mau caminho.</p> + +<p>Era bem justificado o pasmo de frei Antonio! Gonçalo da Silveira +contara-lhe o que vinha de passar com Alvaro. Exagerára, talvez, as suas +expressões, as palavras do filho, os elogios do mestre, e as esperanças +da sua boa alma. Frei Antonio, que não podia attribuir-se a rapida +mudança do neophito, agradecia tacitamente a Deus o raio luminoso de +graça que fizera baixar ao coração escuro do convertido. Depois, quando +a commoção do contentamento serenou em Silveira, o padre, magestoso como +um propheta, apontou para o crucifixo.</p> <span class='pagenum'> 101 </span> + +<p>--É alli--exclamou com uma voz vibrante e pathetica.--É alli, que v. +exc.<sup>a</sup> deve ajoelhar e agradecer.</p> + +<p>Gonçalo da Silveira ajoelhou. Pouco mais atraz ajoelhára o padre.</p> + +<p>O lance era sublime, o que ha de mais sublime debaixo do céo. Adorar com +mais fervor, só os anjos na presença immediata do Altissimo!</p> + +<p>Alvaro entrava no quarto do padre, cuja porta ficára meio aberta. Ao ver +seu pae n'aquella postura extranha, e mais atraz, o vulto immovel do +levita, recuou machinalmente.</p> + +<p>Que sentimento o fez recuar? Não saberia elle dize'-lo! Susteve-se +irresoluto. Ergueram-se os que oravam, e ambos olhavam para a porta. +Viram Alvaro, que parecia ceder ao pejo. Pejo! um tal sentimento nas +faces petrificadas pelo gelo da libertinagem! Pejo no mancebo, que se +vangloriava de um cynismo inalteravel!</p> + +<p>--Não quer entrar na sua casa, sr. Alvaro?--perguntou Fr. Antonio, +collocando-se cortezmente fóra da porta do quarto.</p> + +<p>--Vim perturba'-lo...--murmurou Alvaro, hesitando entrar.</p> + +<p>--Não era possivel...--O espirito quanto mais se avisinha de Deus, menos +cede ás perturbações... Nós oravamos com fé, e ardor. E, demais, a +entrada de v. exc.<sup>a</sup> não podia distrair-nos para mal.</p> + +<p>Alvaro tinha entrado.</p> + +<p>Agitou-se uma conversação variada entre as tres pessoas. Fr. Antonio, +que vivera na casa do agricultor nas <span class='pagenum'> 102 </span> provincias do norte, +falava de agricultura. Gonçalo parecia versado n'este ramo, e applaudia +os melhoramentos, a que elle devia um duplicado rendimento das suas +grandes propriedades. Alvaro escutava, pela primeira vez, um discurso +serio, especialmente sobre agricultura, que elle ignorava desde a +estação das sementeiras á das colheitas. E não parecia enfastiado, com +quanto guardasse um justificado silencio na materia.</p> + +<p>Era já outra a conversa. Frei Antonio estudava a maneira de entreter a +attenção do discipulo. Falou d'esta litteratura amena, que se tornou +universal por ser perigosa, por ser destruidora dos costumes, e dos +estudos sérios. Falou de romances, como falaria de livros canonicos.</p> + +<p>Conhecia-os como um vigilante examinador da origem da immoralidade. +Alvaro conhecia alguns e honrava-os com a posse privilegiada de uma +pequena estante que decorava no seu quarto. Fr. Antonio reparava nas +encadernações de marroquim douradas, e nos titulos com que os +licenciosos <i>Paulo de Kock</i> e <i>Pigault Lebrun</i> assignalaram os seus +thesouros de libertinagem, escandalos da prevertida arte de imprimir.</p> + +<p>Alvaro que não podia impugnar os argumentos do padre, e tivera a +louvavel modestia de ouvi'-lo apenas, não quiz deixar-lhe plena gloria +de triumpho, sem uma observação que elle julgava um golpe certeiro:</p> + +<p>--Mas sua sobrinha--diz elle--é romantica...</p> + +<p>--Que é ser minha sobrinha romantica?--atalhou o padre, sorrindo.</p> <span class='pagenum'> +103 </span> + +<p>--Lê romances, escreve romances, pensa como nos romances... emfim, não +vive, nem pensa, nem fala como a maior parte das mulheres...</p> + +<p>--Ora ahi está uma definição de mestre!--disse o padre, soltando uma +risada que parecia um motejo, se não fosse sua.--O romancista deve ser +uma coisa bem extraordinaria!--proseguiu elle, batendo levemente no +hombro do discipulo.--Quem me parece romantico, segundo a arte, é v. +exc.<sup>a</sup>, sr. Alvaro.</p> + +<p>--Eu!?--interrompeu Alvaro com innocente admiração.</p> + +<p>--Sim, meu caro senhor. Não póde assim fazer-se uma idéa tão singular de +uma pobre rapariga, sem contempla-la pelos olhos de uma imaginação +maravilhosa! Minha sobrinha é uma artista que trabalha muito para +sustentar-se, e vestir-se. Ora isto é muito positivo, muito trivial, +muito commum com a vida do pobres, onde nunca entrou a palavra romance. +Minha sobrinha nas horas furtadas ao trabalho, lê os livros que eu +escolhi para a sua cultura espiritual, mas todos elles conselheiros da +virtude, da probidade, da paciencia, e do temor de Deus. A sciencia +profana, que eu affeiçoei ás necessidades do seu espirito, é muito +pouca, porque, se fosse muita, seria um desperdicio de tempo, e de +canceira inutil. A sciencia de ser boa filha, boa esposa e boa mãe, +limita-se a muito poucas regras; e uma mulher não precisa outra +sciencia. Minha sobrinha não leu ainda romances. Sabe que existem +enredos torpes, escriptos em bella linguagem, como os cadaveres fetidos +envoltos <span class='pagenum'> 104 </span> nos velludos prateados da eça; mas os seus dedos não +levantaram ainda esse envoltorio de podridão. Minha sobrinha fala esta +linguagem, senão geral, a melhor que os filhos podem aprender para +falarem a seus paes, porque minha sobrinha conhece apenas o metal de voz +de sua familia... É isto que v. ex.<sup>a</sup> chama «mulher romantica?»</p> + +<p>Alvaro demorou a resposta.</p> + +<p>--Eu pensava--balbuciou elle--outra cousa... O mundo engana-se muito nos +seus juizos.</p> + +<p>--Pois--tornou o padre com tristeza--que juizos são os do mundo a +respeito d'ella?</p> + +<p>--Eu lhe digo... O mundo chama romantica uma mulher, como muitas +mulheres, que os romances nos pintam. Por exemplo, uma virgem, que vive +n'um sonho continuado; que vê anjos onde as mulheres prosaicas não vêem +nada; que scisma em continuas tristezas, ao lado dos que vivem n'uma +continua gargalhada; que busca a solidão, encosta a face pallida á mão +direita, como a estatua da melancolia, e se devora incessantemente sem +poder explicar o motivo por que se devora. É o ideal que a mata; é a +febre d'uma paixão indefinivel que a consome, é a esperança de um sonho, +de que não acorda; é finalmente, a poesia, o romantismo.</p> + +<p>Frei Antonio ouvira religiosamente este harmonico de palavras, que +algumas vezes lhe pareceram desapegadas, e vasias de sentido. +Respeitador das conveniencias, fez calar a verdade austera, que o +mandava pedir uma definição logica de todo aquelle espiritualismo, de +toda <span class='pagenum'> 105 </span> aquella linguagem refolhuda. Absteve-se da sua +auctoridade, e transigiu discretamente.</p> + +<p>--Serão esses--diz elle--os predicados da mulher romantica; mas o que eu +posso conscienciosamente asseverar a v. ex.<sup>a</sup>, é que minha sobrinha está +tão longe de ser romantica, quão longe de compreender a definição que o +meu amigo acaba de dar.</p> + + +<h3>XVI</h3> + +<p>Duas occorrencias vieram interromper a pratica: um creado, entregando +uma carta a frei Antonio dos Anjos; outro participando a chegada do sr. +conde de ***, que procurava Alvaro da Silveira. Este fez um gesto de +enfado, e saíu. Aquelle, pediu licença, e abriu a carta. Gonçalo da +Silveira retirou-se menos alegre, mas esperançado na mudança de seu +filho.</p> + +<p>Em quanto o padre lê a carta, entremos no quarto de Alvaro.</p> + + +<h3>XVII</h3> + +<p>O conde de *** era um homem de trinta annos, typo de galhardia na +libertinagem, esbelto, gentil, apesar <span class='pagenum'> 106 </span> de resequido, na face, +por certa aridez da dissolução, que requeima o corpo, ao passo que o +viço da alma vae fenecendo.</p> + +<p>O açor, pairando sobre a avesinha desprevenida, apenas viu que um rapaz +de quinze annos transpozera o limiar do grande mundo, abateu o vôo, +aferrou-o com as garras das paixões licenciosas, e desappareceu com a +presa através de uma atmosphera, onde o veneno se respirava pelo filtro +do prazer. Alvaro da Silveira foi a presa.</p> + +<p>Muitos dos mais apontados em certa sociedade libertina de Lisboa, mescla +de beaterio, hypocrisia, e despejo, quando viram Alvaro da Silveira +ligado ao conde de ***, disseram: «está perdido!» E quem o não diria?</p> + +<p>O conde tinha uma instrucção mediana, que puzera ao serviço da sua +immoralidade. No seu principio, quando a favor do seu nascimento, era +bem recebido nos salões de Lisboa, o conde insultava graciosamente a sã +religião e a piedade. Lera com pertinacia alguns d'esses livros immoraes +e grosseiros aos vinte annos, para grangear um bom cabedal de motejos +contra a religião, e emancipar-se com elles de uma leitura a que +sacrificava as longas horas da noite, como um sobrinho que se violenta, +em noite de orgia, a ficar em casa com o velho tio, porque é esse o +preço de uma herança, que deve, á farta, indemnisa'-lo depois.</p> + +<p>Aos vinte e cinco annos sabia tudo quanto era preciso para insultar a +Deus em nome de uma sciencia impia. <span class='pagenum'> 107 </span> Apostolo infatigavel da +immoralidade, não respeitava sexo, nem edade, quando vibrava a ironia, +pungente como uma frecha de fogo, ao seio da moral christã. A donzellas, +a mães, a creanças, a velhas, a religiosas, e a devassas falava sempre +no mesmo estylo. Se acontecia ser mal recebido, assumia uma auctoridade +pedagogica, dava-se um ar de respeito, e justificava o que dissera em +tom de mofa discursando contra o christianismo que elle dizia sepultado +para sempre no tumulo que lhe abrira a sciencia.</p> + +<p>Alvaro da Silveira descreu espontaneamente. Não deu trabalho ao +companheiro, nem quiz profundar uma questão que lhe não importava. A +negação formal era a ultima palavra da impiedade constituida em +sciencia. A Alvaro bastava-lhe saber essa ultima palavra.</p> + +<p>Todavia, a assiduidade da companhia, e o habito de escutar o seu amigo +em polemicas, animadas pela fé de uma parte, e da outra pelo orgulho, +deixaram-lhe uma tintura scientifica de atheismo.</p> + +<p>Alvaro não recebera de seus paes educação religiosa. Esta falta +desmentia a classe d'onde viera. A jerarchia dos brazões em Portugal, +com quanto viciosa, parece gloriar-se com o seu privilegio de fé, e de +virtudes christãs... <i>extra-muros</i>. A educação ahi é mais religiosa que +scientifica: é mais para Deus que para o mundo. Não é milagre encontrar +cá fóra o representante de oito seculos de heroes virtuosos e bravos, +enxovalhando-se na lama das covardias e das torpezas: mas raro +encontrareis no colo materno, uma creança de sangue <i>illustre</i>, <span class='pagenum'> 108 +</span> como lá se diz, cuja primeira palavra articulada não seja DEUS.</p> + +<p>Alvaro da Silveira era uma excepção; o instrumento--quem sabe?--de um +acto providencial.</p> + + +<h3>XVIII</h3> + +<p>Os esplendidos festins da depravação não se fechavam para alguem. Ponto +era que o conviva fosse bem apresentado, e fechasse os labios da critica +com mordaça de ouro. Já sabeis que Alvaro era rico, e quem o levou pela +mão até o ultimo degrau da escada da immoralidade, fôra um conde tão +rico e tão nobre como elle.</p> + +<p>Este homem pavoneava-se de ter conquistado um nome, que exprimia uma +seita. Chamavam-lhe cynico, e elle gloriava-se do nome. A sociedade +nunca o maltratára, mas elle dizia que tinha uma vingança solemne a +tirar da sociedade. Algoz da honra de muitas familias, a sua guilhotina +era a calumnia, quando não podia mostrar as mãos salpicadas do sangue +das victimas. Velava alta noite a porta de um amigo, que o recebera de +dia, para que os passageiros, ao ve'-lo, o considerassem amante de sua +irmã. Quando o murmurio do descredito chegava aos ouvidos do pae, que +rejeitava a mão de um traidor que o visitava, o conde não tinha duvida +<span class='pagenum'> 109 </span> em offerecer galhardamente a esse pae uma pistola, ou um +florete. Se o ancião recuava diante da morte, ou da idéa do abandono em +que ficava sua familia, o cynico ria-se-lhe na face, e chamava-lhe +<i>cobarde</i> nas praças, ou nos salões.</p> + +<p>Assim como conduzira pela mão Alvaro da Silveira ás bachanaes, mais de +uma virgem fôra conduzida por elle á ultima estação da licença. E, +depois, o maldito de Deus, e dos homens, aprazia-se de contemplar o +desenfreamento d'essas mulheres, como se fossem feras, restituidas á sua +liberdade.</p> + +<p>Estas linhas, esboçadas á pressa e com repugnancia, traçam a physionomia +moral do conde que entrára para o quarto de Alvaro da Silveira.</p> + + +<h3>XIX</h3> + +<p>A carta que Frei Antonio recebera, era de sua sobrinha. Era este o seu +conteudo:</p> + +<p>«Pedi licença a meus paes para escrever-lhe, meu caro tio, e sorriram á +minha supplica. Como não pude adormecer a noite passada, trabalhei e +conclui a ultima encommenda de flôres que tinha. Graças ao Senhor, já +vieram novas encommendas; mas eu sinto-me fatigada dos braços, e não +posso continuar. No espirito sinto eu <span class='pagenum'> 110 </span> muita vida, e não posso +nem quero vencer esta consoladora força que o impelle para meu tio. +Penso que o não verei hoje; mas... cedi agora á maneira commum de se +exprimir a gente... eu vejo meu tio em todos os instantes e logares... +Deixa-me escrever uma verdade, que não teria forças de dizer-lhe?... +Deus quer que meu tio seja o prisma por onde eu devo contempla'-lo. Será +isto uma fraqueza de razão, ou uma liberdade peccaminosa? Peccado seria +eu calar este pensamento, que o meu querido mestre pode repreender.</p> + +<p>«Estou triste, como ha pouco. Eu adivinho alguma infelicidade. Sinto-me +com tanta coragem para ella!... Mas a natureza humana, e especialmente o +espirito da mulher, e especialmente o meu espirito, é muito fraco. +Espero tanto em Deus!... tanto em Maria Santissima!... e parece que uma +voz, nem humana, nem divina, me diz que fuja, que trema, que recue ao +combate do infortunio contra a paciencia! Muito triste é isto, meu caro +tio! A minha vida tem faltas, que eu devo expiar? Porque m'as não dizem, +se me amam?!</p> + +<p>«Persigo-o muito, eu bem o sei! Não o deixo em paz, quando tão +necessaria lhe é para estudar a grande lucta em que está empenhado! Não +sei as forças do seu discipulo, mas eu admiro mais a conversão de Santo +Agostinho que as victorias de Alexandre. Aqui estou eu a fazer-me +vaidosa e sabia diante de meu tio, que tambem conhece a minha humilde +ignorancia!... É que estou affeita a conversarmos como escrevo.</p> + +<p>«E a minha melancolia? E os meus versos? Nem me <span class='pagenum'> 111 </span> disse se +tinham as syllabas todas, ou quantas deviam ter mais! Nem valia a +pena... Adeus, meu extremoso amigo! Meu pae, e minha mãe, e meus irmãos +estão muito saudosos. Não se esqueça um instante da sua familia que o +ama tanto como a sua sobrinha</p> + +<p class="direita"><i>Maria.</i>»</p> + +<p>--Coitadinha!...--murmurou padre Antonio, dobrando a carta--És um anjo!</p> + + +<h3>XX</h3> + +<p>O conde tomára uma postura comica de pasmo, quando Alvaro entrou no +quarto. Alguma cousa o impressionára; mas em homens taes as impressões +são fugitivas, e frouxas, porque não ha ahi enthusiasmo, nem grandeza +n'essas almas caídas do sublime para o raso dos sentimentos grosseiros e +triviaes.</p> + +<p>O procedimento do seu amigo devia maravilha'-lo. Era extraordinario! +Apenas entrou no quarto, Alvaro extendera-lhe friamente a mão, e +mandára-o sentar-se com um gesto, muito significativo de fastio. Que o +hospede lhe era aborrecido, bem o denunciava elle no franzir da testa, +onde por força vem á luz da physionomia <span class='pagenum'> 112 </span> sentimentos que a +delicadeza quizera algumas vezes abafar.</p> + +<p>--Doe-te a cabeça?--perguntou o conde.</p> + +<p>--Não... doe-me o espirito--respondeu Alvaro.</p> + +<p>--As dôres do espirito, matam-se com <i>espirito</i>... mas é de vinho... +Bebe... Obriga a materia a pensar de outra maneira, como diz <i>Rousseau</i>.</p> + +<p>--E diz <i>Rousseau</i> que a materia pensa?--perguntou Alvaro, com um +sorriso motejador.</p> + +<p>--Que duvida!... A materia organisada, chamada homem, é uma cousa que +pensa. Quando pensa mal, isto é, quando nos apoquenta, modifica-se a +materia, imprimindo lhe uma acção nova. A maneira de modifica'-la é +simplicissima. Disseste que estavas triste, não é verdade?</p> + +<p>--Sim.</p> + +<p>--Pois bem: bebe cognac, come fiambre, afoga-o em vinho de Setubal, que +é de mais a mais um triumpho patriotico sobre o <i>Champagne e Bordeus</i>. +Seja o que fôr o bolo alimenticio, que alojas no estomago, é materia: +esta, posta em contacto com a materia que pensa, altera-a; e d'esta +alteração chimica e physiologica resulta um novo ser pensante, uma +solemne pirraça á tristeza.</p> + +<p>O conde esperava merecer uma risada com a sua dissaborida theoria. Foi +para elle uma segunda surpresa o silencio de Alvaro da Silveira. N'este +silencio transparecia o desprezo a que nos movem as chufas desengraçadas +de um truão, <i>invita Minerva</i>, que nos noja, quando pensa recrear-nos. O +conde não estava affeito <span class='pagenum'> 113 </span> a estas decepções. O orgulho doía-se. +Alvaro seria o ultimo de quem elle devia esperar um mau acolhimento.</p> + +<p>--Agora vejo eu--disse elle contrafazendo o pejo, que mais acertadamente +chamariamos <i>despejo</i>.--Agora vejo eu, que o teu cerebro de hoje +conspira contra a tua felicidade de hontem... que tens tu, mancebo +gentil? A brisa da noite desfolhou-te a rosa, que te embalsamava o +olphato do coração? Sonhaste alguma virgem de olhos garços, que não +pudeste realizar em materia corrente e sonante n'estes reinos?</p> + +<p>Alvaro, nem um sorriso! Era demais para <i>tanto espirito</i>! O conde só +agora compreendeu que os seus ditos causticavam a paciencia do +discipulo. Este, apesar de molestado, não queria ser incivil. O +predominio do conde sobre o seu genio não estava inteiramente extincto. +Era-lhe necessario justificar-se de algum modo. Qualquer evasiva podia +servir-lhe; mas a transfiguração do seu caracter, n'aquelle momento, não +lhe permittia uma mentira. Bem podera Alvaro queixar-se de um +padecimento physico, e tinha bem justificada a sua indolencia para as +caricias folgazãs do conde; mas não o fez assim, e, se consultarmos o +coração humano, ouviremos um applauso á franqueza que depois ostentava +Alvaro. É que, se, por ventura, um sentimento novo acorda em nós desejos +bons, o primeiro d'esses desejos é communicar aos outros uma felicidade, +que tanto menos egoista, tanto mais perfeita se nos afigura. A passagem +da indifferença para a observancia da religião revela-se sempre com +esses symptomas. O zelo de um neophito manifesta-se <span class='pagenum'> 114 </span> mais +corajoso e ardente que o apostolado de um orador feito, e encanecido em +desalojar a impiedade dos seus ultimos reductos. E depois, no espirito +illuminado pela effusão rapida e imperceptivel da graça divina, ha um +desejo forte, uma vaidade santa de attrair espiritos contumazes, de +curvar os joelhos arrogantes, e de vencer razões, cuja pertinacia nos +parece impossivel na presença dos argumentos que humilharam a nossa. O +que então se dá na alma é uma paixão sublime. A eloquencia do que fala, +convicto de verdades que lhe promettem uma aspiração immortal, parece um +emprestimo da linguagem dos anjos. Ei'-los ahi, de repente, credulos, os +apostolos, que extendiam ha pouco as redes no lago de Gethsemani, e +surgem agora entre os interpretes da lei, nas praças da Galiléa, falando +linguas que nunca ouviram.</p> + + +<h3>XXI</h3> + +<p>Alvaro da Silveira sentira-se capaz de converter um impio. Ha pouco +ainda, balbuciára as primeiras palavras de fé, e crê-se já robusto para +vibrar a funda contra o gigante do materialismo cuja arrogancia não +vencem forças de homem, sem o impulso divino, que arrojára a pedra que +prostrou o gigante philisteu.</p> + +<p>--Que tens tu?--repetiu o conde.</p> <span class='pagenum'> 115 </span> + +<p>--O que eu tenho--respondeu Alvaro--é o desejo de um amigo; mas queria +um amigo, que nascesse n'este momento, e n'um momento me comprehendesse. +Não podes avaliar-me, conde. Se pudesses, ser-te-hia bastante uma só +palavra...</p> + +<p>--Pois bem--replicou o conde--diz ao menos essa palavra... ou diz sequer +tres palavras conceituosas como as de Cesar...</p> + +<p>--Ora attende-me. Tendo nós vivido sempre juntos nunca me persuadi que +pudesse estar tão longe de ti como estou agora.</p> + +<p>--Serás tu romantico?! atalhou o conde dando-se uns ares grutescos de +espanto.</p> + +<p>--Se ouvisses--tornou Alvaro sorrindo--a definição que ha pouco ouvi do +que é ser romantico, e se concordasses com ella, respondia-te que estava +romantico.</p> + +<p>--Pois quem anda cá por casa a dar definições? Teu pae deu agora n'essa?</p> + +<p>--Não foi meu pae... Meu pae o que soube foi definir a minha posição.</p> + +<p>--Apre! Estás mysterioso como o boi Apis! Vou-me embora, que não sei ler +geroglyphos humanos. Palavra de honra! Soletra lá o conceito d'essa +charada, do contrario vou-te mandar preparar quarto na enfermaria de S. +José.</p> + +<p>--Então queres saber quem define os homens e as cousas cá em casa?</p> + +<p>--Quero conhecer esse escolastico; deve ser um monstro de paciencia +humana!</p> <span class='pagenum'> 116 </span> + +<p>--É um padre!</p> + +<p>--Um padre? exclamou o conde, erguendo-se, e apertando as mãos á +cabeça--um padre em casa de Alvaro da Silveira! Malagrida em 1844 a +fazer exercicios espirituaes contra os exercicios da materia!...</p> + + +<h3>XXII</h3> + +<p>N'este momento, abriu-se a porta do quarto. Os que a abriram eram o pae +de Alvaro, e fr. Antonio dos Anjos.</p> + +<p>A presença do sacerdote devia augmentar o pasmo comico do conde; mas a +impressão foi diversa. Este homem do grande mundo perdia muito da sua +altivez sarcastica, se não tinha em redor de si um rancho que lhe +applaudisse as chufas. A unica pessoa de sua confiança, n'aquelle +momento, era Alvaro, mas este apostata do «grande tom» não era hoje o +homem de hontem. E, por tanto, o desenvolto conde na presença do padre +sentiu-se embaraçado, como devera sentir-se o padre na presença de tres +cavalheiros da força moral do conde.</p> + +<p>Frei Antonio dirigiu sua humilde saudação ao cavalheiro, que não +conhecia. Alvaro apresentando-lh'o, disse:</p> + +<p>--Tenho a honra de lhe apresentar o meu amigo conde <span class='pagenum'> 117 </span> de ***. É +mais velho do que eu, mas posso dizer affoutamente que sabe menos do que +eu da verdadeira sciencia.</p> + +<p>--A verdadeira sciencia--disse o padre--é um exclusivo de Deus, e não +tem academias cá na terra.</p> + +<p>--Concordo absolutamente na negativa--disse emphaticamente o conde.</p> + +<p>--Então em que é que concordas? perguntou Alvaro.</p> + +<p>--Em que não se sabe nada a respeito da verdadeira sciencia.</p> + +<p>--E em que é que não concorda, senhor?--interrompeu frei Antonio, com +risonha benevolencia.</p> + +<p>--No exclusivo divino em que vossa reverendissima monopolisa a +sciencia--responde o conde sorrindo sardonicamente á palavra +reverendissima.</p> + +<p>--Não me parecem respeitosas as palavras da resposta--retorquiu o +padre--mas nem por isso hesitarei em fazer-me comprehender melhor, para +depois avaliar a opinião de v. ex.<sup>a</sup>. Quando eu disse que a verdadeira +sciencia era um exclusivo de Deus, poderia fazer-me entender melhor se +dissesse que o objecto do estudo que promettia consequencias seguras de +principios certos, é Deus. Se v. ex.<sup>a</sup> quizer insistir na primeira +intelligencia que deu ás minhas palavras «que a verdadeira sciencia é um +exclusivo da divindade, porque só Deus é omnipotente...»</p> + +<p>--Assim reza a cartilha do padre Ignacio--interrompeu o conde com +acatamento ironico.</p> + +<p>--É verdade--replicou o padre--a cartilha do padre <span class='pagenum'> 118 </span> Ignacio, +que v. ex.<sup>a</sup> citou em ar de mofa, assim o diz e deve dize-'lo, porque +essa cartilha, por onde estudam os meninos, contém as verdades eternas +como ellas foram recebidas pelos sabios e illustrados doutores da +egreja. E como é possivel que não sôe bem aos ouvidos de v. ex.<sup>a</sup> esta +minha linguagem, buscada de emprestimo na cartilha do padre Ignacio, eu +não poderei, falando-lhe a sciencia de Deus, empregar os termos que a +falsa philosophia emprega contra Deus.</p> + +<p>--V. s.<sup>a</sup> faz uma grave injustiça á philosophia. Sem a philosophia--disse +o conde, assumindo um ar de séria profundidade--sem a philosophia não +poderiam os padres da seita christã seduzir o espirito dos homens, a +ponto de convencer alguns menos reflectidos, da divindade do +christianismo.</p> + +<p>--E por tanto--acudiu o padre--deixe-me v. ex.<sup>a</sup> concluir que a +philosophia é uma mentira, por isso que os padres da seita christã, como +v. ex.<sup>a</sup> gratuitamente appelida a egreja catholica, se serviram d'ella +astuciosamente para convencer os menos reflectidos. Ora pergunto eu +agora, quaes são os mais reflectidos?</p> + +<p>--São os que vêem as cousas pelos olhos de uma rasão illustrada!</p> + +<p>--Mas a rasão illustrada não é a philosophia?</p> + +<p>-É.</p> + +<p>--Logo a rasão illustrada é uma mentira, por isso que a philosophia é +uma mentira, que seduz os menos reflectidos a julgarem divino, o que não +passa de uma humana impostura. Póde v. ex.<sup>a</sup> elucidar-me n'esta grave +<span class='pagenum'> 119 </span> questão, que não vem resolvida na cartilha do mestre Ignacio?</p> + +<p>O conde embaraçado, e surprehendido pela argumentação escolastica do +padre, parecia engasgar-se n'uma resposta, cuja frivolidade lhe estava +bem denunciada no rubor que lhe subia á face. Este rubor era a +arrogancia despeitada. Frei Antonio, repeso de assolar tão cedo o fragil +edificio do seu adversario, remediou o mal que, segundo a sua humildade, +tinha feito, dando elle proprio a mão ao fraco contendor.</p> + +<p>--Estou como v. ex.<sup>a</sup> persuadido--disse elle--que ha uma philosophia á +qual faria grave injustiça, se não dissesse que muito lhe devemos por +nos ter aplanado algumas difficuldades em sciencia. Estas difficuldades +vencidas serviram a causa de Deus, e confirmaram verdades claras que a +razão humana julgára mysterios. Citar-lhe-ei um exemplo. Ha um seculo +escreveu-se contra o christianismo, e disse-se que a religião assim +chamada era um encadeamento de embustes desde Moysés até Jesus Christo, +desde o Genesis até o Evangelho. Os que assim escreviam eram +philosophos, sr. conde?</p> + +<p>--De certo, porque os que assim escreveram foram Voltaire, d'Alembert, +Holbac...</p> + +<p>--E outros muitos que não é força citar. Pois, senhor, esses reputados +philosophos disseram que Moysés era uma impostura, por isso que a +philosophia não podia consentir que a relação dos successos da creação +do mundo, descripta no Genesis, fosse verdadeira. Passados annos, as +academias scientificas, <span class='pagenum'> 120 </span> especialmente a sociedade de Calecut, +expressamente organisada para testificar ou destruir o testemunho de +Moysés, declara que é impossivel compreender a cosmogonia, isto é, a +formação do mundo, sem admittir as infalliveis bases de sciencia, +escriptas ha cinco mil annos nos livros do povo hebreu. Agora pergunto +eu se devemos julgar philosophos os primeiros que negaram Moysés, ou os +segundos, que, partindo das veredas da incredulidade para o caminho +recto da sciencia, declararam, após cem annos de progresso em sciencias +naturaes, que a narração do Genesis era a unica admissivel em verdadeira +philosophia. Se acreditamos os primeiros a sciencia é uma mentira, por +isso que tanto mais progride tanto mais se afasta da verdade. Se +acreditamos os segundos, os primeiros eram os mentirosos, e por tanto eu +proclamarei a philosophia progressiva como aquella que conduz ao +conhecimento de Deus, tanto quanto é possivel ás indagações da limitada +razão do homem.</p> + +<p>--A razão do homem não é limitada--retorquiu o conde.--Á razão do homem +é que devemos o vasto terreno da sciencia, grangeado pelos esforços +d'esses homens que conquistaram verdades axiomaticas, sem as armas do +Evangelho, e sem as esterilisadoras argucias da theologia. A razão do +homem é amplissima e immensa com Deus, porque Deus é a razão.</p> + +<p>--Não estamos já na questão que discutimos--tornou o padre.--V. ex.<sup>a</sup> +devia destruir os meus argumentos, provando-me que os verdadeiros +philosophos eram os do seculo passado que desthronaram Moysés do seu +prestigio <span class='pagenum'> 121 </span> de legislador inspirado directamente de Deus. Devia +provar-me que a sciencia moderna, restaurando as tradições da historia +antiga, e restituindo Moysés ao patriarchado das primitivas verdades, +era uma nova impostura, ou a continuação d'aquella sordida ignorancia +que Voltaire combateu triumphantemente, segundo a maneira por que v. +ex.<sup>a</sup> vê as cousas. E, estando eu muito convencido da impossibilidade que +v. ex.<sup>a</sup> ha de encontrar em provar-me as theses que lhe apontei, vou +responder á apologia que fez á razão do homem.</p> + +<p>Não ha duvida que a razão humana procura todos os dias tirar, em +sciencia, novas consequencias de velhos principios; e effectivamente +esse incansavel trabalho do espirito humano, ancioso de progredir, tem +conseguido tudo isto que nos maravilha nas sciencias e nas artes. Já vê +v. ex.<sup>a</sup> que eu concedo grandes fóros, e sublimes honras á razão; mas, já +que tão opulenta a considero, não terei escrupulo em pedir-lhe que me +explique os principios de que ella tira as suas consequencias +scientificas. Pedirei aos chimicos, que me expliquem o seu grande +principio axiomatico da «affinidade». Responde-me v. ex.<sup>a</sup> em nome +d'elles?</p> + +<p>--Eu de certo não, porque ninguem soube dizer o que era affinidade.</p> + +<p>--Não é tanto assim. Os chimicos dizem que a affinidade é a força que +attráe as moleculas de differente natureza. Respondem assim, porque +observaram a combinação d'essas moleculas; mas queria eu que me fosse +explicada a natureza d'essa força, o segredo d'esse movimento <span class='pagenum'> 122 </span> +de corpos inertes, sem que a mão do homem lhe imprima tal movimento. É a +«attracção» dizem os physicos, mas o que é a attracção? D'onde vem a +força impulsiva que faz girar o globo que habitamos em redor de um outro +globo, que não conhecemos?</p> + +<p>--Não temos precisão de conhecer até á evidencia esses segredos da +creação.</p> + +<p>--Mas v. ex.<sup>a</sup> concede que o Creador não os ignora?</p> + +<p>--Seria um absurdo não o conceder.</p> + +<p>--E a razão humana não póde conhece'-los?</p> + +<p>--Já disse que não.</p> + +<p>--Mas v. ex.<sup>a</sup> disse que Deus é a razão humana! Eu sinto grandes +difficuldades em combinar a sua these com as consequencias que se tiram +d'ella. Se a razão humana é Deus, o homem é forçosamente divino pela +celeste razão que o illumina. Se o homem, com a sua razão, não póde +profundar os segredos da creação, eu não posso conceder que Deus, pelo +facto de modificar-se em «razão» unindo-se á humanidade, reservasse para +si certos mysterios como «Deus», e cedesse a si proprio o conhecimento +de certas e determinadas verdades como «razão.»</p> + +<p>--Não combinamos em principios, meu caro senhor, e d'ahi vem a +desintelligencia em que estamos nas consequencias. Eu vou explicar-me +com clareza: Eu digo que a razão do homem é uma emanação de Deus.</p> + +<p>--Mas eu não entendo, sr. conde, o que é, e como se opera essa emanação +de Deus. Deus é indivisivel; Deus é inalteravel; Deus é immutavel. Não +posso, por <span class='pagenum'> 123 </span> mais abstractas que sejam as minhas intuições, +imaginar que a emanação de Deus não seja uma parte de Deus; e, por +tanto, não concebo como essa parte seja substancialmente diversa do +todo. Deus considerado em si, segundo v. ex.<sup>a</sup>, é omnisciente, e vê os +segredos da sua obra: Deus, convertido em razão pelo effeito da +emanação, segundo os mesmos principios, perde os attributos de Deus +omnisciente, e restringe-se ao conhecimento de algumas verdades, por +meio das quaes é impossivel conhecer os mysterios, que ha perto de seis +mil annos, os homens debalde tentam descortinar.</p> + +<p>--Pois v. s.<sup>a</sup> não admitte que todo o ser creado é uma emanação de Deus?</p> + +<p>--Não, senhor, não admitto.</p> + +<p>--Essa é boa! Pois a creação não é uma producção de Deus?</p> + +<p>--E a producção é por ventura uma emanação? A estatua de barro que sáe +das mãos do esculptor é uma emanação de esculptor? Deus incorporeo +poderia materialisar-se nas massas inertes, que foram producto de sua +omnipotencia, tanto como o homem que foi feito á sua imagem?</p> + +<p>--Ahi está um grande embaraço para mim. Não comprehendo como o homem +corporeo foi feito pelo modelo de Deus incorporeo.</p> + +<p>--A imagem de Deus, sr. conde, é a alma, não é o involucro material da +alma. Memoria, vontade, intelligencia são os traços d'essa physionomia +espiritual affeiçoada pelo typo divino. Attribuimos á memoria tudo o +<span class='pagenum'> 124 </span> que sabemos, diz S. Bernardo, posto que esta sciencia não seja +a causa de nossos pensamentos; attribuimos á intelligencia, e algumas +vezes á memoria, tudo o que o pensamento nos mostra verdadeiro; +imputamos á operação da vontade tudo o que reconhecemos ser bom e +verdadeiro pelo soccorro da intelligencia. A memoria nos assemelha ao +Pae, a intelligencia ao filho, a vontade ao Espirito Santo. Seja-me +permittido citar Santo Ambrosio, em quanto v. ex.<sup>a</sup> invoca os textos de +Voltaire. «Do mesmo modo que Deus, diz elle, creador do homem á sua +semelhança, é caridoso bom e justo, doce e soffredor, puro e +misericordioso... assim o homem foi creado para possuir a caridade, ser +bom e justo, doce e paciente, puro e misericordioso. Quanto mais o homem +sente em si essas virtudes, mais se approxima de Deus, e mais semelhança +tem com elle. Mas, se ulcerado pelo crime e pelo vicio, elle se afasta e +degenera d'esta nobre semelhança com o seu Creador, descerá á realidade +d'estas palavras escriptas em predicção bem desgraçada: «O homem não +compreendeu a sua elevada posição; comparou-se aos irracionaes, e +assemelhou-se a elles.»</p> + +<p>--Parece-me muito metaphysica a sua explicação, sr. padre. Eu gosto da +geometria em todas as demonstrações, e não admitto verdades sem +evidencia mathematica. O seu Santo Ambrosio e S. Bernardo explicariam +perfeitamente a semelhança do homem com o seu Creador, mas foi n'esses +tempos em que falavam ás turbas credulas, que juravam em suas palavras +sem entende'-los. Hoje é muito perigoso esse assumpto, e <span class='pagenum'> 125 </span> não +me consta que desde o seculo do grande Rei, desde Bossuet até +Frayssinous, algum orador christão torture a intelligencia do seu +auditorio, querendo á força persuadir-lhe que o homem foi creado á +semelhança de Deus!</p> + +<p>--V. ex.<sup>a</sup> não tem obrigação de ter lido tudo; mas tambem a não tem de +calumniar Bossuet. Se a memoria não me falha, eu lhe cito as palavras +textuaes do grande orador: «Façamos o homem; e proferidas estas +palavras, a imagem da Trindade appareceu. Ostenta-se luminosa na +creatura racional: semelhante ao Pae tem o ser; semelhante ao Filho tem +a intelligencia; semelhante ao Espirito Santo tem o amor; semelhante ao +Pae, e ao Filho, e ao Espirito Santo, tem, no seu ser, na sua +intelligencia, e no seu amor uma mesma felicidade, uma mesma vida. Feliz +creatura, e verdadeiramente semelhante, se ella se occupa unicamente +d'elle! Então, perfeita no seu ser, na sua intelligencia, e no seu amor, +conhece quanto é, ama quanto conhece: seu ser e suas operações são +inseparaveis; Deus torna-se a perfeição do seu ser; a nutrição immortal +da sua intelligencia, e a vida do seu amor... Ditosa creatura, se sabe +conservar a sua felicidade!»</p> + +<p>--Esta é a doutrina de S. Bernardo, de S. Ambrosio, de Bossuet, de +Frayssinous, e de todos aquelles que bebem o leite da fé no seio da +esposa de Jesus Christo.</p> + +<p>--Não duvido; mas não compreendo. O que eu sei é que repugna com a menos +desenvolvida razão a semelhança espiritual do homem com Deus. Eu conheço +homens <span class='pagenum'> 126 </span> tão degradados da honra, tão hediondos de crimes, que +reputára-me blasphemo se os considerasse semelhantes no typo divino.</p> + +<p>--Ha de ter paciencia de escutar-me com a attenção de philosopho, se não +póde prestar-me outra.--A revelação figura-nos o homem, não só como o +mais perfeito de todos os seres animados, mas ainda como o rei da +natureza, para o qual foram feitas todas as cousas. Por ella aprendemos +que Deus fez o homem á sua imagem e semelhança, para que presidisse ao +universo. Sabemos ainda que, depois de dar-lhe uma companheira, disse a +ambos: «Crescei e multiplicae, enchei a terra da vossa posteridade, +submettei a vossas leis tudo o que respira; pois tudo é feito para vós.» +«Vós o fizestes senhor de todas as vossas obras!--exclama o +psalmista--todos os entes vivos são submissos ao seu imperio, e +destinados para seu uso.» É verdade que a escriptura varia a linguagem, +quando lembra ao homem a sua construcção de terra, que em terra se +tornará. Assim era necessario para suffocar os orgulhos do coração. Não +é, porém, o longo viver sobre a terra que constitue a dignidade do +homem. Não é sobre a terra, que a felicidade lhe sahirá ao encontro. +Creado para Deus e para a eternidade, só no seio de Deus, e no seio da +eternidade poderá ser feliz d'esse goso inalteravel que não se finda. É +aqui onde começa a cadeia de objecções por parte da incredulidade. Nega +primeiramente que o homem fosse feito á semelhança de Deus. Quem quizer, +porém, convencer-se d'esta verdade, observe com <span class='pagenum'> 127 </span> attenção o +modo como a alma exerce suas funcções, e o dominio que ella tem sobre o +involucro de materia inerte, que lhe obedece: Consideremos a variedade +infinita das nossas idéas, a rapidez com que ellas se formam, a +communicação por intermedio da palavra, a fidelidade da nossa memoria, +esse presentimento que raras vezes nos engana, tudo parece +approximar-nos da suprema intelligencia, que abraça de um lance o céo e +a terra, as passadas, as presentes e as futuras revelações da +humanidade. A alma, quando furiosas paixões a não agitam, é capaz de +reprimir seus desejos; de acalmar seus movimentos desordenados, de +dirigir sua vontade, e ahi se observa uma, posto que imperfeita, +imitação do imperio que Deus exerce sobre todos os seres. O sentimento +que ella tem de sua immortalidade, seu olhar penetrante nas +profundidades do futuro, e suas esperanças anciosas além do tumulo, são +indicações do seu destino, assignalado por Deus.</p> + +<p>--Essa imagem de Deus--atalhou o conde--está bem degenerada; e, se o não +está, Deus é um ente bem imperfeito.</p> + +<p>--Concordo--tornou o padre--que não é muito semelhante esta imagem do +homem imperfeito com a do seu perfeito Creador; era-o, comtudo, no +momento da creação; foi o peccado que o desfigurou. Mas se o homem +degenerou por causa do peccado, lapso da sua innocencia primitiva, foi +depois regenerado pelo sangue do Salvador, e, assim resgatado, tornou-se +pela graça filho de Deus. O homem, no estado de innocencia, devia +dominar-se, <span class='pagenum'> 128 </span> dominar as creaturas todas, e viver perfeitamente +com Deus, seu creador. Eu quereria poder aqui especificar a substancia +da alma, para satisfazer plenamente ás duvidas do sr. conde, mas, se eu +posso provar que a sua espiritualidade está provada pela sua origem, +devemos convir que tudo mais nos é desconhecido. Porque Deus soprou o +barro que amassára, não se segue que a alma humana é uma porção de +Divindade, como os antigos egypcios acreditavam: esta supposição +levar-nos-ia ao pantheismo, de todos os systemas o mais insensato. Deus +é um espirito, o espirito é indivisivel; e, recebendo cada homem no +halito creador uma porção de Divindade, cada homem seria um Deus. O que +devemos entender do sopro de Deus não é uma emanação da substancia, mas +sim a creação de uma substancia semelhante, isto é, espiritual, mas +nunca identica ao Supremo Espirito.</p> + +<p>--Não existe entre o corpo e essa substancia espiritual uma união +real?--interrogou o conde.</p> + +<p>--Certamente, existe, porque o corpo é o instrumento de que a alma se +serve para obter o conhecimento dos objectos.</p> + +<p>--Mas qual é a natureza d'essa união?</p> + +<p>--Essa questão não póde ser solvida pelos homens: é um mysterio +d'aquelles em que a Divindade se manifesta com mais magestade ao debil +entendimento da humanidade. Se, porém, não é possivel chegar á ultima +consequencia d'essa pergunta, não é difficil provar-lhe que uma tal +união existe. A alma possue sobre o corpo a soberania e a independencia +<span class='pagenum'> 129 </span> da vontade; rege-o pelo pensamento, sem comprehender a +disposição dos órgãos que rege, e sem que perceba a potencia que move e +anima as fibras. Sabe, por ventura, v. ex.<sup>a</sup> explicar-me a natureza de +certas operações incognitas, que se passam em si? Sem a degradação +produzida pelo peccado, este imperio da alma não acharia estorvos no seu +exercicio; mas, no estado actual, a vontade é muitas vezes vencida pela +resistencia dos sentidos.</p> + +<p>--Pois bem, tornou o conde--eu ponho de parte a esteril pretenção de +querer saber onde está a alma, e peço que me diga, sr. padre, que culpa +tenho eu no peccado de Adão, para estar pagando as suas dividas? Isto +parece-me uma flagrante injustiça!</p> + +<p>--Deus é soberanamente sabio, bom, e misericordioso; disse-nos que o +peccado de Adão era uma herança de culpa para todos os seus +descendentes; devemos acredita'-lo. São-nos desconhecidos os motivos +d'esta responsabilidade; mas não se segue que possamos, como ignorantes, +alcunhar de injusto o Altissimo. N'este mundo ha alguma cousa +semelhante. Diz-se que as faltas são pessoaes, e que a vergonha de uma +acção criminosa deve só recair n'aquelle que a pratica. E, quando um +crime estrondoso se dá que é o que nós fazemos? perseguimos com odio e +com desprezo o condemnado e a familia do condemnado, até lhe cortarmos +os vinculos que a prendem á sociedade. Não quero dizer que Deus sinta +estas repugnancias proprias dos homens, porque não sabemos o motivo +porque elle produziu obras, que apenas <span class='pagenum'> 130 </span> podemos contemplar; o +que dizemos é que Deus é infinito, eterno, e que a pena do peccado, para +estar em proporção com a sua natureza, deve ser eterna e infinita. No +estado de innocencia, o homem tinha a luz da sua intelligencia, e, +degradado pela culpa, caíu nas trevas; de senhor absoluto da sua vontade +tornou-se escravo dos sentidos; pelo repouso e felicidade que possuia, +trocou a tristeza e o tumultuar das paixões, que o infelicitaram: em +logar da vida espiritual e eterna, encontrou a vida material e a morte.</p> + +<p>O conde atalhou as razões do padre, espreguiçando-se rudemente, abrindo +a boca, esfregando os olhos, com a mais sensivel ostentação de escarneo. +Fr. Antonio sorriu-se com bondade, e disse para o pae de Alvaro:</p> + +<p>--Eis aqui como a philosophia do orgulho, esta rainha comica do mundo, +responde aos que lhe perguntam pelos seus fóros de realeza...</p> + +<p>--Não é isso, sr. padre--interrompeu o conde.--É que eu passei uma noite +pouco orthodoxa e não posso digerir o succo nutriente da sua theologia +sem dormir algumas horas, para restabelecer a boa harmonia entre as +funcções do entendimento e as dos sentidos. Bem sabe v. s.<sup>a</sup> que os +apostolos dormiram, e mais era Christo quem lhes pediu que velassem. Ora +eu não tenho a audacia de comparar-me a Cefas, e vossa reverencia não +quer de certo tambem comparar-se ao Mestre... Meus senhores, a minha +noite começa agora... Vou dormir, naturalmente sonharei com S. João +Chrysostomo, e S. Bernardo... Boas noites.</p> <span class='pagenum'> 131 </span> + + +<h3>XXIII</h3> + +<p>As argucias galhofeiras do conde não agradaram a algum dos ouvintes. +Alvaro pareceu vexar-se d'aquella despedida, mais insultuosa que +engraçada, ao padre. Este, porém, supposto que vexado, não se denunciou +pelo mais ligeiro gesto de enfadamento. A coragem para receber +impassivel as ironias sarcasticas da incredulidade, dera-lh'a a +desgraça, e aconselhára-lh'-a a caridade.</p> + +<p>Na ausencia do conde, Alvaro e seu pae esperavam do padre palavras +resentidas; e maravilharam-se quando lhe ouviram dizer com profunda +compaixão:</p> + +<p>--O desgraçado precisa muito das orações de um justo!... Quem me déra +sê-lo para que a luz do céo lhe descesse ao espirito, antes que o +desalento do mundo lhe aconselhasse a religião como refugio das extremas +desgraças da vida! Oh! quando isso acontecer... muito infeliz deve elle +ter sido!...</p> + +<p>Desde este momento apertaram-se os vinculos de piedade, de sympathia +religiosa que prendiam Alvaro e o frade. O mancebo vira a vergonhosa +retirada do seu antigo mestre de atheismo, e decidira-se de coração a +favor do modesto triumpho do humilde padre. Como espirito illuminado +pela fé, Alvaro precisava formar a sua razão pelos elementos de uma +philosophia que <span class='pagenum'> 132 </span> Fr. Antonio lhe dissera existir, mas que não +era aquella do seu amigo conde.</p> + +<p>O estudo attencioso, reflexivo, e continuado tornou-se a vida, quasi +invariavel, do educando. Uma transição, assim rapida, assentava o padre +que não podia, sem intervenção divina, explicar a improvisa regeneração +de um homem, que deixára no mundo mil incentivos de paixões que o não +tinham enfastiado ainda.</p> + +<p>A vergonha da virtude, que não pudera vingar n'um coração ulcerado de +vicios, principiou a desabrochar flôres que enfeitavam a conversão do +mancebo d'essas galas de educação, que parecem vindas do berço e +herdadas dos paes. Era o imperio da religião, e unicamente da religião.</p> + +<p>Fr. Antonio dos Anjos, vaidoso com razão da obra, cujo instrumento elle +fôra, não cessava de agradecer ao Altissimo a escolha que fizera de um +peccador para a conversão de outro peccador, para quem o remorso seria +tardio.</p> + + +<h3>XXIV</h3> + +<p>Na «grande roda», falava-se muito da conversão de Alvaro. Infelizmente, +porém, esta conversão tomaram-na irrisoriamente a maior parte d'aquelles +que se occupavam d'ella, por não terem um caso semelhante de que <span class='pagenum'> +133 </span> se occuparem. Os da sua plana, particularmente, pareciam vexados da +religiosidade do seu antigo camarada, que tão bellas esperanças dava de +correr parelhas no cynismo philosophico do conde.</p> + +<p>Na incerteza de semelhante boato, muitos vieram procurar Alvaro, e +acharam-no prompto sempre a recebe'-los; se, todavia, os seus hospedes +tentavam chama'-lo ao assumpto, que ali os trouxera, Alvaro contava-lhes +uma historia assim resumida:</p> + +<p>«Eu era discipulo do conde ***, assim como vós o sois. Casualmente o meu +mestre de philosophia falsa encontrou-se com outro que me dizia ser o +mestre da verdadeira philosophia. Disputaram por algumas horas: o +primeiro, quando se viu esmagado no seu orgulho, fugiu, cantando um +hymno em seu triumpho, mas um hymno injurioso ao modesto vencedor. +Sabeis o que depois me fez alistar na escola do frade, e fugir á escola +do conde? Foi, talvez, muito pouco: vi que o frade pediu a Deus a +conversão do conde que o insultára, e insultára a Deus.»</p> + +<p>Os que o ouviram diziam depois: «Aquelle pobre Alvaro endoudeceu!... +Coitado!... Seria uma paixão infeliz? Seria desorganisação do +cerebro?... Seria alguma grande perda no jogo?»</p> <span class='pagenum'> 134 </span> <span class='pagenum'> 135 </span> + + + + +<h2>LIVRO III</h2> + + +<h3>I</h3> + +<p>Eram passados seis mezes depois que frei Antonio dos Anjos tomára a seu +cargo a educação de Alvaro. Este mancebo, vivendo uma vida quasi de +reclusão e de immobilidade corporal, fazia grande violencia ao corpo, se +bem que á alma não fazia nenhuma. É que a materia, posto que sujeita á +vontade do espirito, adquire certos habitos, que não seguem facilmente +as modificações do espirito, principalmente quando estas são bôas e +aquelles máos. É como o relevo aberto no marmore pela mão do homem, cuja +imperiosa vontade não póde desfigurá'-los sem que a mão os destrua.</p> + +<p>E a passagem da vida agitada para a meditação sedentaria fôra em Alvaro +rapida, talvez de mais. Fr. Antonio conhecia a inconveniencia d'esta +transição; mas superior a taes receios, o religioso esperava que, na +conversão do seu discípulo, se operasse um continuado milagre.</p> <span class='pagenum'> 136 </span> + +<p>A Providencia, porém, imprimira no espirito do mancebo o impulso da +graça, e deixára-o sósinho na lucta do bem e do mal, para que as fadigas +do seu triumpho lhe fossem expiações das cobardias em que se deixára +vencer.</p> + +<p>Ao cabo de seis mezes, Alvaro da Silveira dera sensiveis mostras de um +abatimento, não de espirito, não de coragem, mas d'essa languidez de +todos os orgãos, que parece o cançasso de uma febre intermitente. A +melancolia fizera-o mais concentrado, mais solitario, e até mais +aborrecido de si e dos outros. O estudo não lhe valia já de distracção, +nem as praticas eloquentes do mestre lhe captivavam o espirito. Quasi +sempre fechado no seu quarto, Alvaro, por fim, repellia os alimentos que +lhe levavam, e carregava o sobrolho ás admoestações que o pae ou o +mestre lhe faziam. Frei Antonio quiz ver n'este estado critico os +elementos ainda não inflammados de uma reacção. Tremeu com a idéa de não +vingarem os fructos da boa semente que elle, com tanto esmero e tanta +esperança, cultivára n'aquelle coração desbravado, ao que parecia, dos +espinhos da impiedade. Orou fervorosamente, pediu com anciedade a +tutella do céo para aquelle orphão de pae, de amigos, e de mestre que +pudessem ampara'-lo na sua recaída no abysmo, d'onde parecia ser salvo. +O santo homem chegára a persuadir-se que os seus trabalhos seriam +inuteis, porque o senhor queria puni'-lo da vaidade que elle tivera em +faze'-los proveitosos.</p> <span class='pagenum'> 137 </span> + + +<h3>II</h3> + +<p>N'este conflicto de doridos pensamentos em que a alma do padre andava +trabalhada, inspirou-lhe a sua afflicção um pensamento que longas e +veladas noites lhe alvoroçou o espirito, antes que seus labios o +proferissem.</p> + +<p>Fr. Antonio lembrou-se de conduzir Alvaro á sociedade; leva'lo elle +proprio ao mundo, e buscar ahi em roda de pessoas que se interessassem, +tanto como elle, na regeneração d'aquelle mancebo.</p> + +<p>Mas as relações do egresso eram muito poucas, e quasi se limitavam ás do +parentesco, e ás novas que adquirira na casa em que vivia.</p> + +<p>Onde elle, cheio de confiança, poderia apresentar seu discipulo era em +sua casa, na roda de sua familia, onde desde 1834 não tinha entrado uma +pessoa extranha dessas que são apresentadas pelo seu nome, pela sua +posição, ou pelo seu dinheiro. Ahi, porém, vivia uma menina que não +sabia ainda distinguir o homem que nascera bom, e bom perserverára, do +homem que fôra mau e parecia bom.</p> + +<p>A consciencia do padre não lhe aconselhava confiadamente esse passo, +cuja firmeza era toda responsabilidade sua, porque bem sabia elle que +Alvaro da Silveira, apresentado ao coronel, seria recebido como filho, +e, apresentado a Maria, seria recebido como irmão.</p> <span class='pagenum'> 138 </span> + +<p>E foi por isso que em sua alma se debateram com violencia dois +sentimentos oppostos: a confiança e a prevenção.</p> + +<p>Ou porque do céo lhe descesse a inspiração, ou porque as propensões de +sua indole lhe fizessem ver a face do bem empanada pelo véo da maliciosa +suspeita, frei Antonio convidou Alvaro para acompanha'-lo a casa de sua +familia, onde, se quizesse, encontraria as affeições que se encontram +n'uma familia recolhida, que, de ordinario, parece desvelar-se em +communicar aos extranhos a felicidade de amor que lhe trasborda do seio.</p> + +<p>Alvaro, sem fingir-se, não apreciou muito o convite, mas não se recusou +a elle. O habito de obedecer aos insinuantes conselhos do padre foi +talvez o unico movel, que o fez acceitar um offerecimento, que lhe não +promettia distracção á profunda tristeza que se lhe entranhára no +espirito.</p> + +<p>Frei Antonio compreendera esta hesitação, e n'ella viu um prospero +agouro. Seriam illusões de uma boa alma?</p> + + +<h3>III</h3> + +<p>O padre prevenira sua familia da proxima visita que lhe era destinada. A +mãe de Maria, tão innocente como sua filha, e tão confiada na prudencia +de seu cunhado como na de seu proprio marido, recebeu a noticia com +<span class='pagenum'> 139 </span> jubiloso assentimento. O coronel fitou em seu irmão um olhar +de interrogação, que devia ser uma pergunta intima, que os labios tinham +medo de balbuciar: «Por ventura nada receias tu, meu irmão? Sabes que ao +pé de minha filha só póde sentar-se um anjo como ella? Tens a certeza de +que esse mancebo entra em minha casa como no sanctuario da honra?» Frei +Antonio lêra estas perguntas nos olhos de seu irmão, e, como se +precisasse de empregar a palavra que o coronel não ousava pedir-lhe, o +padre apertou-lhe a mão com ternura, e murmurou a meia voz: «Não +temas!... tu és honrado, tua mulher é uma santa, tua filha é um anjo... +Eu serei um peccador, mas não sereis vós os que haveis de expiar as +minhas culpas... Não temas, meu irmão.»</p> + +<p>Maria, quando a nova lhe foi dada, experimentou uma sensação, d'essas +raras sensações que não hão de ter nunca na terra uma palavra fiel que +as defina. Ao ver que nos labios de sua mãe estava um riso de +beneplacito e contentamento, Maria sorriu tambem machinalmente, e ficou +silenciosa, durante a longa conversação que se travára a este respeito.</p> + +<p>Recolhida, comtudo, ao calado abrigo do seu quarto, ao mystico colloquio +das suas tristezas com a imagem de Maria Santissima, a melindrosa menina +consultava-se, com doloroso interesse, no que seria essa nuvem escura de +melancolia, que viera turvar-lhe o espirito, quando ouviu dizer que +Alvaro da Silveira, por cuja conversão tantas vezes ella orára, ia ser +recebido como amigo no seio de sua familia.</p> <span class='pagenum'> 140 </span> + +<p>Esta interrogação era como as consultas que nós fazemos do nosso proprio +destino; era como a anciedade vã de levantarmos a cortina do nosso +quadro de existencia d'aqui a annos. Maria quando uma vez escrevera uma +poesia intitulada <i>presentimento</i>, dissera tudo quanto podia dizer, vira +o futuro quanto podia ve'-lo, caminhára através da vida quanto podia +caminhar; e, como se os passos lhe cançassem, parou, chorando. É que o +seu poema fôra uma prophecia de lagrimas nunca represadas.</p> + + +<h3>IV</h3> + +<p>A apparição de Alvaro em casa do coronel impressionou extranhamente +aquella numerosa familia, cuja maior parte não se recordava de ver na +sua sala um extranho.</p> + +<p>Maria foi como sua mãe cumprimenta'-lo, e, pela hesitação em que ia, +pudera julgar-se que a violentavam. O acanhamento das suas maneiras, a +inflexão tremida das suas poucas palavras, denunciariam uma inculta +rapariga d'aldeia, a quem por passatempo aparamentaram de vestidos +senhorís. Na grande roda seria fertil assumpto de risos e gracejos.</p> + +<p>Alvaro, por uma d'essas incoherencias da natureza humana, revelava um +acanhamento quasi semelhante <span class='pagenum'> 141 </span> ao de Maria. A prevenção em que o +vimos a respeito d'ella, o conceito sublime que a religião lhe ensinára +a fazer das suas virtudes, e, mais que tudo, a belleza d'essa menina, +que elle nunca encontrára nos bailes, nem, semelhante a ella, se +recordava ter visto outra, foi por ventura tudo isto a extranha emoção +que o sobresaltou e collocou, como costuma dizer-se, n'uma falsa +posição.</p> + +<p>E, demais, quem sabe se assim ficam explicados os embaraços de Alvaro?</p> + +<p>Qual de nós não teve na vida uma situação semelhante, d'onde melhor +possa ver a de Alvaro da Silveira?</p> + +<p>Quem é o homem forte e senhor de si, quando a virtude e a formosura, +illuminando a mulher de um santo prestigio, lhe fascinam os olhos da +face e os da alma?</p> + +<p>E, quando o espirito, purgado das fezes da irreligião, contempla a +mulher virtuosa como a depositaria de sentimentos que mais genuinamente +simulam o amor de Deus, é tão natural esse enlevo, esse culto, essa +idolatria no homem que poude encontrar um anjo, onde não esperava já +encontrar senão estimulos de paixões materiaes!...</p> + +<p>Nem se explica de outra maneira a surpresa de Alvaro na presença de +Maria dos Prazeres.</p> + +<p>A virtude tem uma fascinação particular sobre o homem, que não desceu, +na escala da depravação, a ponto de negar a existencia de corações +immaculados. Anojado <span class='pagenum'> 142 </span> de estudar a mulher, modelada nas fórmas +invariaveis do salão, onde todas são semelhantes a cada uma, Alvaro da +Silveira, abaixou os olhos diante da primeira mulher, que, em outros +tempos, poderia abater-lhe o orgulho.</p> + +<p>Foi n'esse respeitoso silencio, n'esse involuntario acanhamento de +maneiras, que o mancebo justificou a regeneração do seu caracter. Mezes +antes, se o tivessem apresentado a Maria, ve'-lo-iam empregar todos os +recursos da eloquencia, adaptada a todas as mulheres do «grande mundo» +intimamente persuadido de que aquella, deslumbrada pelos ouropeis da +phrase, saudaria em sua alma a apparição de uma sympathia ardente pelo +genio, pelo talento palavroso, e pelos arrebiques da lingua estudada.</p> + +<p>O coronel, attencioso observador da approximação de Alvaro, gostou do +pejo com que sua filha foi recebida. Frei Antonio a quem competia +encetar uma conversação em que respirassem aquellas duas almas +retraídas, principiou a elogiar modestamente as qualidades do seu amigo. +Alvaro, silencioso, principiava a affligir-se da sua absoluta +esterilidade de idéas, quando, em boa civilidade, lhe convinha agradecer +o acolhimento com que era especialisado n'aquella casa. Não se +acreditaria esta perplexidade, se cada qual não pudesse justifica'-la +com um momento semelhante na sua vida.</p> + +<p>Alvaro achou a inspiração na propria fraqueza, que o mortificava. +Voltando-se para frei Antonio, com as faces rosadas, disse com voz +tremula:</p> <span class='pagenum'> 143 </span> + +<p>--Eu creio que perdi na solidão os habitos do mundo, meu caro mestre. +Nem já sei falar, e era d'antes um falador importuno!... A sua familia +deve fazer de mim uma idéa triste...</p> + +<p>--Porque?--interrompeu a mãe de Maria, com insinuante delicadeza.</p> + +<p>--Porque, minha senhora?--retorquiu Alvaro--porque me acho aqui coacto, +entrei aqui grosseiramente, como um saloio que vestiram de casaca, e de +um modo que v. ex.<sup>a</sup> de certo não esperava receber um hospede que vive na +roda onde as etiquetas chegam a ser enfadonhas pela demasia de reparos.</p> + +<p>--Ora, sr. Alvaro--interveio o coronel--nós sabemos o que são essas +cortezias, e palavreados da tal roda, que v. ex.<sup>a</sup> frequentou. Minha +filha Maria, essa não as sabe de certo; mas pouco lucrariam, ella, se as +aprendesse e v. ex.<sup>a</sup> se lh'as ensinasse. Aqui, a unica pessoa +exigente--continuou o coronel, sorrindo--exigente das genuinas etiquetas +da côrte é talvez v. ex.<sup>a</sup> que de lá vem. Tenha, porém, paciencia, se nos +encontra sem o polimento com que se envernizam os mimosos da fortuna, +alegres sempre e sempre cuidadosos de ensaiar-se, quando a ociosidade os +enfastia, na arte de agradar. Aqui tem v. ex.<sup>a</sup> as idéas a respeito dos +galhardos faladores de salão, que, segundo ouvi dizer, por ahi se chamam +<i>fazedores de espirito</i>. Sejam lá o que forem, eu aprecio muito a +economia de palavras com que v. ex.<sup>a</sup> abriu as relações com esta familia +ignorada. Até por generosidade, nenhum hospede, chegado a esta casa deve +exigir <span class='pagenum'> 144 </span> de nós os tratamentos apurados de uma refinada +delicadeza. Não os sabemos, nem poderiamos sustenta'-los. Tudo isto vem +a serenar a impaciencia com que o sr. Alvaro da Silveira parece +queixar-se das idéas, que lhe não abundaram, quando tivemos a honra de o +receber.</p> + + +<h3>V</h3> + +<p>Em quanto o coronel prendia os olhos attenciosos de Alvaro, Maria, +cobrando novos alentos d'aquella especie de familiaridade adquirida +pelas franquezas de seu pae, levantava os olhos meio timidos para frei +Antonio, que até então não desviára os seus das faces encarnadas de sua +sobrinha. Alvaro continuou com o coronel um dialogo sobre o assumpto das +etiquetas, que ambos julgavam, umas vezes, indispensaveis, e, outras, +fastidiosas, em quanto Maria, convidada por seu tio, foi sentar-se +contrafeita ao piano e suspendeu a travada conversação dos dois, que á +primeira corrida do teclado, levaram instinctivamente os olhos e os +corações para o rosto incendiado da formosa menina.</p> + +<p>O que ella tocou não se recordava Alvaro de o ter ouvido. A meia voz +perguntou á mãe de Maria a que opera pertencia aquelle rico trecho de +musica. Em resposta teve um sorriso de modestia, a que o mancebo <span class='pagenum'> +145 </span> achou duvidosa explicação, e, pouco depois compreendeu, quando frei +Antonio, alma franca, e sem reservas de falsa modestia, declarou que a +musica era de sua sobrinha. Maria córou, e apressou-se a declarar que +não era absolutamente original aquella composição modelada por alguns +fragmentos de musica, que ouvira no orgão das Theresinhas. A evasiva não +era de todo inexacta. Maria, affeiçoada á musica do templo, nas suas +composições, procurava sempre como texto as notas que mais lhe afinassem +com o profundo sentimento de terna melancolia, que a dominava, nos +ultimos mezes da sua existencia.</p> + +<p>Frei Antonio estava sendo penoso á natural modestia, filha do pudor, que +a cada instante, se manifestava no rosto purpurino de sua sobrinha. +Homem extranho ás mil conversações com que a sociedade consome as horas +em inutil trocadilho de palavras, entendia que o mais judicioso +passatempo, e até o mais commodo ao espirito de sua educanda, devia ser +a litteratura. Por isso chamou a campo sua sobrinha, e obrigou-a pela +obediencia a entremetter-se em questões, que o proprio Alvaro de bom +grado não quizera quinhoar, com receio de não sair-se bem. Maria, quando +os primeiros terrores se desvaneceram, era sublime aos olhos do hospede, +que a não concebera tão elevada a respeito de certas cousas, que se +dizem, quando a auctoridade dos annos, gastos em aprender, lhes dá um +tom de certeza que, quasi sempre, ajusta mal com a natural simplicidade +de uma senhora.</p> <span class='pagenum'> 146 </span> + +<p>Falava-se em romances. Frei Antonio dos Anjos empenhava os seus vastos +recursos scientificos em condemnar esse genero de leitura. Alvaro +abraçava a opinião de seu mestre, e citava-se a si como victima das +perniciosas leituras da sua infancia. O coronel e sua esposa applaudiam +a rejeição dos romances. Maria, porém, e só ella, cheia de humildade, +sem levantar os olhos dos dedos rosados, que se distraiam correndo a +bainha do lenço, contrariava as opiniões dos inimigos dos romances, +depois que a cada um ouvira as razões, mais ou menos fortes, com que a +leitura do tempo era votada ao exterminio. A sua argumentação era +concisa, e quasi sempre balbuciante d'aquelle temor tão proprio em annos +verdes, em presença de um extranho, de um pae, e de um sabio.</p> + + +<h3>VI</h3> + +<p>Uma hora de convivencia entre pessoas, que sinceramente se communicam em +francas manifestações do que são, é bastante para a familiaridade, para +a estima, e para isto que o coração ambiciona, este bem-estar, nascido +da confiança, inteira e desprevenida, que depositamos em uma roda de +amigos. Raro, porém, estas rodas se deparam. <i>Amigo</i> é uma palavra +profanada pelo uso, e barateada a cada homem que se nos apresenta, <span class='pagenum'> +147 </span> como a <i>palavra de honra</i>, que por ahi anda desvirtuando a honra e +a amizade.</p> + +<p>As delicias da conversação, expansiva como a confidencia, e +despreoccupada como a ingenuidade, essa não se conhece nos salões, onde +o epigramma recebe os louros da eloquencia, e o espirito acerado e +cortante conquista as ovações do talento. A murmuração, bem salgada de +ironias galhofeiras, é a raínha das conversações, coroada pelo diadema +da hilaridade, que, muitas vezes, não poupa o primeiro da roda, que se +retira, nem o dono da casa, que fica, pela sua parte, cotejando os +vicios dos seus hospedes <i>espirituosos</i>.</p> + +<p>D'esta feição eram as praticas, em que Alvaro da Silveira, adestrado +pelo conde de *** primára como bom artista de <i>equivocos</i>, e +trocadilhos, em que o sarcasmo acre e engenhoso, pegava delicadamente +pelos cabellos da victima, e a empalava nos tractos da zombaria, iguaria +saborosa, a unica, talvez, para os paladares estragados.</p> + +<p>Era, pois, uma novidade para o seu espirito aquella franca exposição de +sentimentos, de mais a mais interessantes pelo lado da intelligencia, e +sympathicos para o coração de todos, e especialmente do mancebo, que se +extasiava, na presença de um talento de mulher, flôr aberta em +exhalações de um novo perfume, para elle, que nunca a vira tão bella e +tão fascinadora no dom da palavra.</p> + +<p>Maria compartira de sentimento de confiança, que viera dissipar os +temores de Alvaro. Sem a candura, e <span class='pagenum'> 148 </span> a innocencia, na franca +exposição das suas idéas ácerca de romances, Maria não diria tanto, nem +se lançára tão seguramente na opinião contraria á de todos. A sincera +menina, ingenua como as suas intenções, viu no mancebo, que tão aceite +era aos seus, um amigo digno de se lhe dizer tudo o que, em cousas +litterarias, se diria a frei Antonio dos Anjos.</p> + +<p>Alvaro da Silveira estava sendo digno da sua confiança. E tanto o era, +que uma nobre vaidade lhe alegrava o espirito, ao ver-se, tão depressa, +merecedor da franqueza com que o recebiam, e da irmandade, com que Maria +dos Prazeres lhe respondia aos seus argumentos na questão em que todos +se interessavam.</p> + +<p>Frei Antonio era um sabio; mas os sabios de todas as posições sociaes, e +particularmente os sabios creados no claustro, sustentam prejuizos, que +as mediocridades lhes combatem com as debeis armas de uma sciencia +superficial. Frei Antonio pensava mal dos romances, por que lera um ou +dois, ou mil d'esses que por ahi envergonham a arte, e indignam o pudor. +Alvaro da Silveira, que devorára tudo quanto os ultimos annos tinham +creado de mais licencioso na litteratura franceza, odiava então os +romances aos quaes erradamente imputava os seus desvios. O coronel e sua +mulher jurava nas palavras de frei Antonio. Maria, porém, que não lera +romances, nem mostrára o mais leve desejo de os ler, apresentava na +defesa de tal leitura o instincto da adivinhação, a presciencia do +talento, que um relampago, ás vezes, parece alumiar de improviso.</p> <span class='pagenum'> +149 </span> + +<p>--Eu não sei--dizia ella--como os romances possam perturbar a minha +tranquillidade! Que é o que elles dizem? Contam a vida como ella é; +matam as illusões de quem a suppõe melhor; antecipam o conhecimento da +realidade? Isso que tem? Um bom mestre, encarregado de levar pela mão o +discipulo na estrada do mundo, cheia de precipicios, que é o que faz +senão apontar ao innocente os abysmos, que se escondem debaixo das rosas +seductoras? Que é o que tem feito meu tio a meu respeito? não é +levantar-me a cortina do que são segredos para mim, e mostrar-me a +triste realidade do que por ahi ha, apenas agradavel aos olhos da +innocencia? Eu penso que o romance, espelho fiel das boas e más +situações da vida, não póde fazer-me desejar o que é vicio, nem +aborrecer o que é virtude...</p> + +<p>--Mas se o romance--interrompeu Alvaro--descreve o crime com as bellas +tintas da seducção?</p> + +<p>--Não importa, o escuro do quadro lá está no crime: as fezes do absyntho +lá estão no fundo do calix--retorquiu Maria--não sei se digo a verdade: +mas imagino que ha nos romances um mau principio, que só deve prejudicar +as pessoas, que os lêem com o coração arruinado, e os olhos fartos já de +ver a realidade de tudo o que ha mau. É natural que o romance, para +fazer bons certos actos do seu heroe, precise de aniquilar a moral +religiosa d'esses actos, e justifica'-los pela moral da falsa +philosophia. Isto me tem dito meu tio muitas vezes, e eu tenho pensado, +outras tantas, na influencia que poderiam exercer sobre o meu espirito +essas más doutrinas, <span class='pagenum'> 150 </span> revestidas de seductoras falsidades. +Nenhuma, creio em Deus e em mim, que não. Mal de mim, e da minha fé, se +o primeiro incredulo, com talento de bem escrever, e falsificar a +verdade, pudesse alvoroçar a minha consciencia, a ponto de destruir com +a pagina de um livro o que eu recebi pela educação, pela meditação, e +pelo estudo!... Tomára eu saber tudo o que o mundo tem de bom e de +mau... que me dissessem a flôr em que a aspide se esconde, e o espinho +que muitas vezes, soffrido com resignação, nos póde dar depois momentos +de prazer. O que eu acho triste e perigoso é crescer, tocar a altura em +que a intelligencia raciocina, e o coração se emancipa dos descuidos da +mocidade, ser mulher, entrar no mundo, julga'-lo a continuação do seio +de sua familia, e ter de perguntar a cada instante á cabeça, que não +sabe, até que ponto são razoaveis os preceitos do coração...</p> + +<p>Maria foi de improviso tocada pelo receio de se ter excedido. Córou, e +abaixou os olhos, como se sua mãe lhe significasse, em um gesto, o +desgosto de ouvi'-la.</p> + +<p>Alvaro, suspenso dos labios d'ella, fascinado pelo som d'aquella voz, +que parecia exercer o imperio do silencio sobre o coração de todos, +sentia-se elevado a um assombro de admiração, onde quasi sempre o +respeito profundo, ou o amor repentino se assenhoreiam do talento e do +espirito.</p> + +<p>Era um amor, que nascia, e respirava uma atmosphera embalsamada de +perfumes, amor, que nunca, em suas passadas affeições, lhe coára no +coração a vida <span class='pagenum'> 151 </span> suavissima da paixão tranquilla, sem +sobresaltos de remorso, sem temores de culpa, e sem receios de insultar +a Deus ou aos homens. No coração de Maria, o que se passava era uma +sensação de ternura, o desabrochar de uma nova flôr de amizade para +offerecer a Alvaro, como a offertaria a um seu irmão, que viesse de +longe, pela primeira vez, reconhecer a sua irmã. Se, todavia, lhe +perguntassem o segredo mais intimo da sua existencia desde aquelle dia, +ella não teria nenhum a revelar. O mais que poderia accrescentar ao que +a sua familia sabia do seu coração, a respeito de Alvaro, é que desde o +dia, em que o viu, as suas orações por elle foram mais repetidas, mais +fervorosas, e mais tocadas pelo interesse de uma amiga, que quizera +gloriar-se de ter concorrido para a regeneração de um anjo.</p> + + +<h3>VII</h3> + +<p>Á primeira visita succederam outras.</p> + +<p>Alvaro realisára as esperanças do padre. A sombria tristeza, que +assustára o mestre, cedeu a uma alegria doce que sorria no semblante do +discipulo. O pae d'este, compartindo no contentamento do filho, quiz +tambem conhecer o asylo de paz santa onde Alvaro fôra encontrar a +felicidade, que o mancebo dizia não ser cousa impossivel <span class='pagenum'> 152 </span> na +terra, desde que visitara a obscura familia de frei Antonio.</p> + +<p>Redobrou o prazer do padre. O velho fidalgo foi acolhido como pae de um +moço que era alli estimado como parente e recebido sem vislumbre de +suspeita má. As noites passavam rapidas para todos. Cousas pequenas, +passatempos quasi pueris, entretinham velhos e moços. Silveira, tão +zeloso da honra do coronel como elle proprio, espionava as intenções de +seu filho, como quem receia que a virtude não esteja ainda tão enraizada +n'aquelle coração juvenil, que o torne frio para os mil encantos de +Maria dos Prazeres.</p> + +<p>Eis aqui um dialogo entre o pae e o filho, quinze dias depois que +frequentaram juntos a casa do coronel.</p> + +<p>--Parece-me que és feliz, Alvaro.</p> + +<p>--Sou, meu pae, sou muito feliz. Se eu dissesse que não sou, era ingrato +a Deus.</p> + +<p>--Pois, filho, sê digno das mercês que Deus te faz. Põe da tua parte a +força e a virtude para continuar a Merece'-las. A virtude, Alvaro, a +virtude. Nunca te esqueça esta palavra: seja sempre a tua ancora, se a +tempestade vier depois da bonança...</p> + +<p>--Nunca a esquecerei, meu pae. Cada dia se me dobram as forças para +vencer o mal. As reminiscencias do passado affligem-me e envergonham-me. +Em quanto eu olhar assim para o homem que fui, nunca me será preciso +luctar com as tempestades, em que o refugio está na ancora da virtude.</p> + +<p>--Pois sim, filho; mas por mais risonho que esteja <span class='pagenum'> 153 </span> o céo e +calmoso o mar, não largues nunca a ancora: tem-a sempre apertada ao +coração, porque é lá d'onde rebentam as maiores tempestades.</p> + +<p>--No coração? Eu creio, pae meu, creio que é nas tempestades do coração +que se morre...</p> + +<p>--Se a virtude nos não vale...</p> + +<p>--A intenção com que me diz essas palavras...</p> + +<p>--É boa, Alvaro; é a intenção com que um bom pae aconselha um bom filho, +e até um mau filho. Que perda para todos nós se o coração que se te +renova hoje, meu filho, obedecesse a uma impressão das que se não deixam +vencer por pequenas resistencias...</p> + +<p>--Fale, fale, meu pae... tenho precisão de ouvi'-lo porque preciso que +me anime a falar-lhe.</p> + +<p>--Adivinhei a tua alma?</p> + +<p>--Não sei o que vae dizer-me... Quer-me falar da...</p> + +<p>--Da filha do coronel... quero falar-te d'esse anjo que nos tem captivos +a ambos, e nem eu sei qual de nós daria mais depressa a vida para que +nunca um desgosto por nossa causa lhe banhe de lagrimas a face.</p> + +<p>--Que desgosto podemos dar-lhe, meu pae?</p> + +<p>--Que sentes por ella, Alvaro?</p> + +<p>--O pae adivinhou-me... <i>é um anjo que nos tem captivos a ambos</i>; mas o +meu captiveiro é cheio de consolações, é uma prisão que me não custa +desgostos nem frenesis... Não vê que sou tão feliz assim? Se me dão a +liberdade, fazem-me desgraçado. Amá'-la...</p> + +<p>--Amá-la!?...--interrompeu o pae com sobresalto.</p> <span class='pagenum'> 154 </span> + +<p>--Amá'-la, sim, pois não é isto amá'-la? O que sinto, o que senti, +vendo-a uma só vez, tem alguma semelhança com tudo o que me fez +vertigens do coração n'outro tempo? Amá'-la, sem que eu lh'o diga, +adorá'-la, com a devoção dos justos, recolhe'-la em segredo á minha +alma, e tão em segredo que nunca ella possa temer uma só palavra menos +innocente que todas as nossas conversações... ama'-la, assim, meu pae, +provocar as tempestades do coração?</p> + +<p>--É, filho.</p> + +<p>--É? então, meu Deus, não ha virtude que resista ao impulso de uma +mulher! O homem, que quizer viver em boa paz com o céo, ha de renunciar +a tudo que está na terra proclamando a grandeza de Deus. A religião, que +nos não veda o amor, está em contradição com a virtude...</p> + +<p>--Não está, Alvaro. A religião creou um sacramento para santificar o +enlace dos corações que se inclinam para um fim justo, para uma união em +que a virtude é o vinculo de cuja quebra ha tremendas contas a dar, e +grandes expiações a soffrer na terra.</p> + +<p>--Pois bem, meu pae...</p> + +<p>Alvaro sustára o pensamento que vinha aos labios, em quanto as lagrimas +se mostraram.</p> + +<p>--Diz, Alvaro. Tu ias dizer alguma cousa que te fez chorar. É +sensibilidade ou arrependimento?</p> + +<p>--Melhor é que o não diga, meu pae... Eu preciso estudar-lhe o coração.</p> + +<p>--De D. Maria dos Prazeres? não é necessario, filho. <span class='pagenum'> 155 </span> O coração +d'essa menina não é um livro fechado, é um espelho. Vê-lh'o na face, nas +palavras, na educação...</p> + +<p>--Não é o coração de Maria dos Prazeres.</p> + +<p>--Pois qual?</p> + +<p>--O de meu pae.</p> + +<p>--É o coração de um pae... que mais queres que te diga?</p> + +<p>--Gosta de Maria dos Prazeres?</p> + +<p>--Se gosto!... Não te tenho eu dito que o coronel não deve queixar-se +das injustiças dos homens em quanto lhe deixam o throno d'aquella filha?</p> + +<p>--O pae quereria ter uma assim?</p> + +<p>--Quizera assim dar-te uma irmã, filho... Oh se queria!...</p> + +<p>--E uma esposa?--disse Alvaro balbuciante.</p> + +<p>O pae não respondeu. As palpebras cerraram-se-lhe, que era esse o seu +costume na meditação. Com os dedos da mão direita comprimiu o labio +inferior, tirando por elle. Passou a mão esquerda por entre os cabellos; +e, depois de alguns segundos, disse:</p> + +<p>--Queria.</p> + +<p>--Queria assim dar-me um esposa?</p> + +<p>--Queria. E serias tu digno d'ella?</p> + +<p>--Não ouso responder.</p> + +<p>--Pois medita.</p> + +<p>Silveira ergueu-se. Tomou a mão do filho, e apertou-lh'a com commoção, +dizendo-lhe como quem profere um juramento na presença de Deus:</p> <span class='pagenum'> 156 +</span> + +<p>--O homem que maltratar aquella mulher deve dar terriveis contas da sua +crueldade. Medita, Alvaro.</p> + +<p>E deixou-o.</p> + + +<h3>VIII</h3> + +<p>Ao mesmo tempo, Maria dos Prazeres, e sua mãe, tinham o seguinte +dialogo:</p> + +<p>--Se tivesses uma amiga muito do coração, minha filha, não terias pesar +se ella te adivinhasse um segredo que tu deverias ter-lhe confiado?</p> + +<p>--Pesar... conforme, minha mãe... Ha segredos...</p> + +<p>--Que se não dizem a uma amiga?</p> + +<p>--Que se não dizem por que se não sabem dizer...</p> + +<p>--E sentir, sim?</p> + +<p>--Porque me faz semelhante pergunta, minha querida mãe? Não se queixe de +mim, não?</p> + +<p>--Pois eu vou queixar-me, Maria?!</p> + +<p>--Falou-me em pesar... e eu começo a senti'-lo...</p> + +<p>--De que?</p> + +<p>--Se eu pudesse... se eu soubesse dizer-lhe o que sinto... Deus sabe que +o meu coração é incapaz de se esconder aos seus olhos, e mais depressa +se esconde aos meus.</p> + +<p>--Nada tens dito a teu tio, filha?</p> + +<p>--De que?... diga, mãe, eu que devia ter dito a meu tio?</p> <span class='pagenum'> 157 </span> + +<p>--Tudo o que sentes hoje, assim como lhe dizias tudo o que se passava em +tua alma.</p> + +<p>--E eu sei!...</p> + +<p>--Sei eu, Maria. Olha, filha.. O amor de tua mãe, de teu pae, de teu bom +tio, de teus queridos irmãos é um amor immenso; é, eu e tu sabemos que +é; mas... olha... ha no teu coração espaço para mais amor... Córas, +Maria? Vês como a tua alma vem falar-me no teu semblante?</p> + +<p>«Pois porque não, se essa alma é a minha, a da minha filha que não póde +estar calada diante de mim, ainda que os labios se não abram! Sei tudo, +Maria. Agora, se não queres que te fale como mãe, aqui me tens como +amiga. Vamos... levanta para mim os teus olhos... conversemos sósinhas. +Tu amas Alvaro. A tua melancolia é amor. Esse córar, quando não accusa +uma culpa escondida, é amor. Na tua edade, se o contentamento foge do +coração, é que não cabem lá os gosos serenos da innocencia, mixturados +com as esperanças vagas, com os desejos desconhecidos, com as saudades +de não sei que recordações de uma outra vida em que todas as nossas se +povoam de anjos.</p> + +<p>«Ha um mez, filha, não me entenderias esta linguagem. Hoje sou eu a que +falo por ti, e cada palavra que me ouves, é um peso que te levanto de +sobre o coração, não é? Assim é que tu querias falar-me, e eu +desopprimo-te, explicando a confissão que tens nos labios, e não +confessas. Pois bem, Maria, louvores sejam dados á tua bella alma! A tua +sensibilidade não póde ser só <span class='pagenum'> 158 </span> da tua familia: deve extender-se +a tudo que te rodeia.</p> + +<p>«Eu esperava isto desde o momento em que vi entrar n'esta casa um homem +protegido pela confiança de meu cunhado. Sem virtudes, Alvaro não seria +aqui trazido; e, sem virtudes, Deus não quereria que tu sentisses por +elle a sympathia que prende a innocencia á honradez. Poderei enganar-me +eu, que sou velha? Posso, filha... E que farás tu que és creança? +Estaremos ambas enganadas, amando-o ambas. Porque eu tambem o amo, +filha; estou familiarisada com elle, vejo-o aqui entrar sem me sentir +constrangida. Custa-me a crer que o conheço ha tão pouco tempo!...</p> + +<p>«E teu pae? Fala-me d'elle com certo interesse que me parece +providencial. Nunca me disse que reparasse nas tuas acções, nem +reflectisse nas palavras de Alvaro. E eu, reflectindo, ainda lhe não +ouvi uma que desdiga das primeiras. Sempre a mesma bondade, o mesmo +acanhamento honesto, a mesma docilidade, e não sei que interesse de +filho por mim, e de irmão por ti. Teu tio, cada vez mais alegre com +estas relações; teu pae, nem a mais ligeira sombra de desconfiança; teus +irmãos querem-lhe como a ti; o pae d'elle quer por força que sejamos +seus parentes, e diz-me que veiu saber entre nós o que era a felicidade +domestica... Jesus! é impossivel que tudo isto seja engano!</p> + +<p>«Oh minha filha, o teu coração é puro, e eu quero ouvi'-lo mais a elle +do que ouvir-me a mim. Diz-me se não agouras uma grande felicidade para +ti, e para os <span class='pagenum'> 159 </span> teus? Confessa-me o que pensas quando estás +triste... Diz, diz, Maria...</p> + +<p>A filha atirou-se a chorar ao seio da mãe. Balbuciava palavras sem +sentido. O coração batia forte, e o tremor convulso dos braços, em redor +do collo de sua mãe, suppria a falta de expressão.</p> + +<p>Assim as encontrou frei Antonio entrando sem se annunciar.</p> + + +<h3>IX</h3> + +<p>--N'esta casa chora-se mais do que se reza--disse o padre.</p> + +<p>--Não são peccaminosas as nossas lagrimas, meu irmão...--disse a mãe de +Maria.</p> + +<p>--Pois então dizei-me por que choraes.</p> + +<p>--Logo, logo...</p> + +<p>Maria beijou a mão do tio, e saía, enxugando as lagrimas.</p> + +<p>--Onde vaes tu, menina?--disse o velho.</p> + +<p>--Vou trabalhar, meu tio.</p> + +<p>--Havemos de falar logo.</p> + +<p>Ella saiu, e o frade disse a sua cunhada:</p> + +<p>--Vá chamar seu marido e venha com elle.</p> + +<p>O coronel entrava n'este momento.</p> + +<p>--Ei'-lo aqui. Ora vinde cá ambos; temos muito que <span class='pagenum'> 160 </span> dizer e que +pensar. Dizei-me cá: o que vos diz o coração a respeito de Alvaro?</p> + +<p>--Bem; parece-me um bom moço.</p> + +<p>--E o vosso, minha irmã?</p> + +<p>--Tenho-lhe affeição de mãe, estou familiarisada com elle como se o +conhecesse desde creancinha.</p> + +<p>--E sabeis o que Maria pensa a respeito d'elle?</p> + +<p>--Soube-o--disse a cunhada--no momento em que meu irmão entrou. As +lagrimas que viu nos olhos d'ella eram a confissão do seu segredo.</p> + +<p>--Pois que disse ella?--atalhou o coronel.</p> + +<p>--Nada, quasi nada... Vendo que eu lhe adivinhava o coração, +lançou-se-me ao pescoço, chorando. Disse quanto podia dizer.</p> + +<p>--Ama-o, em summa--disse o frade--Não admira; o moço é digno d'ella, e a +Providencia quer que se amem...</p> + +<p>--E que tem ella que esperar d'esse amor?--interrompeu o coronel.</p> + +<p>--Tem que esperar as consequencias de uma affeição approvada por seus +paes...</p> + +<p>--Se elles a approvarem, meu irmão.</p> + +<p>--Pois tu reprovas o amor da tua filha a Alvaro da Silveira?! Eu fico +por elle... Quereis melhor fiador? Dou-vos a virtude de Maria. Se a nós +não defendermos, defende-se ella.</p> + +<p>--Sabes pouco do mundo, meu irmão--redarguiu o coronel.</p> + +<p>--Não sei muito, não; mas o que é preciso saber <span class='pagenum'> 161 </span> para o nosso +caso, sei-o de auctoridade certa, que é o presentimento bom que me dá +resolução. O pae de Alvaro diz-me que seu filho quer Maria para sua +esposa, e elle pede-a para sua filha. Que respondeis?</p> + +<p>--Eu respondo que sim, que lh'a dou com toda a vontade, com todo o +coração--disse a mãe de Maria.</p> + +<p>--E eu--disse o coronel--respondo que estudes bem o caracter d'esse +moço, e quando, passados mezes, não vier algum accidente inopinado +alterar a opinião que tens do seu merecimento, virás então consultar a +minha vontade.</p> + +<p>--Dizes bem, meu irmão--tornou o egresso--Penso ter-me enganado, e ainda +agora caí em mim, e na fraqueza dos meus juizos. Disseste bem: eu +conheço pouco do mundo.</p> + +<p>--E não sabes--continuou o coronel---que certos homens, sem serem +hypocritas, apparecem inesperadamente bons; ás vezes uma pequena +alteração no seu modo de pensar, produz grandes mudanças na vida +exterior. Eu recordo-me de um grande phenomeno na minha vida de mancebo. +Aos dezoito annos era eu rapaz desenvolto, vicioso, desobediente a +nossos paes, e desprezador de alguns deveres bem sagrados. Amava o +escandalo estrondoso; e a publicidade das minhas loucuras desvanecia-me. +Vi esta mulher, que é tua cunhada, e amei-a. Os paes d'ella eram +exemplares de virtude, e quem houvesse de merecer-lh'a devia ser +virtuoso. O talvez menos habilitado para lh'a pedir era eu. Resolvi ser +hypocrita; deu nos olhos a minha improvisada virtude, <span class='pagenum'> 162 </span> e +consegui levar a nova da minha conversão ao conhecimento da familia de +minha mulher. Senti augmentar-se o meu amor ao passo que a violencia, +que eu me fazia para ser bom apparentemente, ia deminuindo. Até cheguei +a convencer-me de que os virtuosos sem mascara eram felizes. Pedi minha +mulher, e concederam-m'a. Casei... e depois...</p> + +<p>--Foste sempre um bom marido...--interrompeu ella.</p> + +<p>--Se tu o dizes, devo acredita'-lo, e a consciencia tambem me diz que o +fui; porém, a explicação da minha reforma tem alguma cousa singular. +Fiz-me bom por orgulho, primeiro. Os nossos conhecidos, e +particularmente os meus rivaes, diziam que eu te faria desgraçada. +Entrou o meu amor proprio no combate, e tu foste feliz. Quando o mundo +já não reparava nos meus actos, e calava envergonhado os seus +vaticinios, era eu teu amigo, teu verdadeiro amigo, sentia-te muito +dentro do coração, e já não poderia, se quizesse, expulsar-te de lá. +Appliquemos o conto: Alvaro da Silveira, com quem sympathiso, foi o que +tu sabes, meu irmão.</p> + +<p>«Ainda não ha quatro mezes que o encontraste entregue aos prazeres de um +gosto pervertido. Em poucos dias mudaste-lhe as inclinações; mas o +aborrecimento em que o viste, deu-te receios de que o teu balsamo fosse +inefficaz. Conduziste esse homem a minha casa; conheci que Maria o +impressionára, e, depois de dois mezes de frequencia constante, Alvaro +quer casar com minha filha. Quando se ama, meu irmão, é facil fingir +<span class='pagenum'> 163 </span> dois mezes uma virtude que não tem raizes no espirito, e as +que tem sómente no coração morrem, quando o amor acaba. Não duvido que +Alvaro ame extremosamente minha filha; mas receio que não seja amigo +d'ella: cousas muito diversas, cuja diversidade só bem se conhece dos +trinta annos em deante. Um casamento rico não me lisongeia. Habituei-me +a esta pobreza, e sou feliz, não sei até se alguma vez o fui mais do que +hoje. Maria tambem é feliz. Vê, sem deslumbrar-se, os esplendores da +sociedade. Sentiu privações em creança, e hoje, não as sentindo, +agradece a Deus uma prosperidade que seria indigencia, se ella tivesse +conhecido a abundancia, o fausto, e as demasias de prazeres e dissabores +que sua mãe conheceu. Não a casemos para a fazermos rica. Se esse moço +póde dar-lhe ao espirito novos gosos, seja elle embora seu marido; eu, +porém, não creio que elle possa communicar-lhe o que não sente. +Estuda-o, meu irmão; estuda'-lo é esperar. Entretanto Maria aprenderá de +sua mãe as lições que deve receber uma menina que vae ser mulher.</p> + + +<h3>X</h3> + +<p>Frei Antonio era esperado anciosamente de Alvaro. Dos labios do frade +pendia a sua felicidade. Fôra elle encarregado por Silveira de propor ao +coronel o casamento, <span class='pagenum'> 164 </span> com que o pae queria recompensar as +virtudes de uma familia, á qual devia a regeneração de seu filho.</p> + +<p>O egresso recebera com tristeza o enthusiasmo do discipulo. +«Esperemos»--foi a sua unica palavra. Alvaro sentiu-se ferido no seu +amor-proprio, e experimentou um abalo do seu genio. Se o padre soubesse +ler nos olhos o coração, veria mover-se a areia sobre que fôra levantado +o edificio da virtude de Alvaro.</p> + +<p>O velho Silveira não se doeu menos das reflexões do coronel. +Irritára-lhe a sua fidalga susceptibilidade. Pretextando-se incommodos +de Alvaro, suspenderam-se alguns dias as visitas.</p> + +<p>Maria, porém, extranha aos reparos de seu pae, não vendo em tres noites +seguidas Alvaro, denunciou a impaciencia da saudade.</p> + + +<h3>XI</h3> + +<p>Silenciosa em sua magua, Maria deixava-se adivinhar, mas não gemia, nem +perguntava a causa do ar sombrio de seu pae. Esperava anciosa as noites, +via entrar seu tio só, e nem por um lanço de olhos lagrimosos lhe +perguntava que mal fizera ella a Alvaro.</p> + +<p>A pena, porém, era grande, e sem desafogo. Maria sentiu a desdita que +presentira, um anno antes; compreendeu a significação amarga d'aquelles +singelos versos <span class='pagenum'> 165 </span> que fizera nascer uma musica triste, filha da +sua imaginação.</p> + +<p>Adoeceu, sem queixar-se; caíu no leito, quando já não podia esconder de +seu pae a febre constante que a extenuava.</p> + +<p>Veiu o medico do corpo, e conheceu que a dor estava na alma. Frei +Antonio sabia que ella podia morrer d'aquella febre. Foi, com sua +cunhada ao pé do leito de Maria, e disse:</p> + +<p>--Menina, o nosso amigo Alvaro vem hoje visitar-te, se tiveres forças, +sáe da cama e vem agradecer-lhe o cuidado; se não, outro dia será.</p> + +<p>Aumentou o rubor nas faces das enferma. Voou-lhe um innocente sorriso de +ventura nos labios. Parou-lhe de repente, a vertigem do sangue. +Reappareceu-lhe o sol do coração, a florescencia da phantasia, o céo dos +seus extases, e a claridade radiosa do seu ar balsamico. Era a que fôra, +quando se lançára a chorar de feliz nos braços maternaes.</p> + + +<h3>XII</h3> + +<p>E dizia o coronel a seu irmão:</p> + +<p>--Deus me livre de ser cruel para minha filha... Os homens muito +experimentados na desgraça vêem tudo pela face peor. Póde ser que sejam +dignos um do <span class='pagenum'> 166 </span> outro. Casem embora, e queira o céo que eu me +arrependa mil vezes de ter agourado mal d'este casamento. Diz a Alvaro +que lhe dou minha filha, e diz-lhe mais--que vae com ella a minha vida, +vida que eu lhe dou, pois antes quero perde'-la, se hei-de um dia vê'-la +infeliz. Que elle me mate, antes de fazer chorar Maria as primeiras +lagrimas de arrependimento.</p> + +<p>--Não sabes como elle lhe quer...--disse o padre.</p> + +<p>--Tambem eu queria muito ás flores em quanto o viço d'ellas não +desmaiava na minha mão. Depois, que valia uma flor sem perfume, sem +seiva, amarellecida? Via-a caír sem dó, folha a folha, e, descuidado +d'ella por amor das outras, punha-lhe em cima um pé indifferente. +Compreendes o que é o homem, meu irmão? Melhor o compreenderás assim; +não t'o quero pintar na linguagem propria... Na mão de Alvaro será Maria +o que as flores foram na minha?</p> + + +<h3>XIII</h3> + +<p>Foi restaurada a confiança entre as duas familias. Consentiram-se +expansões sem testemunhas aos dois amantes.</p> + +<p>A nuvem que lhes encobrira alguns dias o bello horisonte do seu destino, +afervorára-os para mais da alma saudarem a reapparição, para mais se +quererem.</p> <span class='pagenum'> 167 </span> + +<p>Alvaro apressava o enlace. O coronel não o retardava nem o accelerava. +Entrára-lhe profundamente a desconfiança na alma. Sua mulher tentava em +vão destruir-lh'a. O frade chegava até a considera-la peccaminosa e +ingrata aos favores do céo. Maria nem sequer imaginava que podia ser-se +infeliz na situação d'ella; e contristava-se por não ver seu pae alegre +como todos.</p> + + +<h3>XIV</h3> + +<p>Frei Antonio foi o ministro do sacramento. Abençoou-os na capella de +Alvaro da Silveira. A um dia de jubilo, seguiram-se muitos dias de +felicidade intima. Em casa, porém, do coronel, chorava-se muito. Faltava +alli a alma d'aquella familia. Os irmãos de Maria, alguns ainda +creanças, estavam affeitos ao seu regaço, ás suas lições, e ás suas +carinhosas repreensões. O coronel não queria ver a cadeira em que Maria +se sentava, o piano, o açafate da costura, tudo que parecia chorar com +elle a falta da sua dona. Sentava-se a familia triste e taciturna em +redor da mesa. Olhavam todos, sem consolar-se, para o logar de Maria, e +rompiam de todos os olhos as lagrimas. Erguiam-se, vendo o pae +erguer-se; apenas a mãe ficava, com o coração partido, dando o exemplo +da resignação, e consolando com palavras animosas, esforço <span class='pagenum'> 168 </span> +mais intenso na dôr que a dôr de todos. Ao oitavo dia a esposa veiu +visitar sua familia. Foi recebida em alvoroço. Queriam beija'-la todos +ao mesmo tempo. Os irmãos mais novos perguntavam-lhe se ficava para +sempre. Maria, entre risonha e lacrimosa, repartia-se em affagos por +todos, desejando alguns instantes de solidão com sua mãe.</p> + +<p>--És feliz, minha filha?--perguntava-lhe o coronel.</p> + +<p>--Sou, meu pae, quanto se pode ser, longe dos seus. Falta-me lá esta +familia; ainda não pude, nem poderei considerar-me desligada d'esta +casa. Parece-me até que sou mais d'aqui, e que a outra é uma casa de +emprestimo.</p> + +<p>O coronel voltou-se para sua mulher, e disse:</p> + +<p>--Sentias isto quando casaste comigo? Tinhas assim saudades de tua +familia?</p> + +<p>--Não...--disse a mãe de Maria.</p> + +<p>--Então...--tornou o coronel--tua filha é menos feliz do que tu foste! +No goso da abundancia tem occasião de sentir saudades da pobreza que +deixou.</p> + +<p>--O pae--replicou Maria--engana-se, ou não póde sentir como sente uma +mulher. Minha mãe havia de sentir o que eu sinto; é que já se não +lembra... Pois haverá felicidade que me faça esquecer a minha familia?! +Eu não sei o que é abundancia nem pobreza. Ainda não pude ver a +differenca que vae do que deixei ao que hoje tenho, senão pelo coração. +Sou feliz com Alvaro, mas seria mais feliz se Alvaro vivesse como irmão +dos meus irmãos, aqui...</p> <span class='pagenum'> 169 </span> + +<p>Alvaro entrava n'este momento, repartindo por todos amabilidades, +chamando manos a seus cunhados, queixando-se de que o não tenham +visitado, convidando-os para o seu camarote, offerecendo-lhes as suas +carruagens.</p> + +<p>--Cousa notavel!--dizia o coronel, tirando á parte frei Antonio que +tambem concorrera á primeira visita de sua sobrinha.--Cousa notavel! As +maneiras acanhadas de Alvaro desappareceram. Todos aquelles modos, a +munificencia com que nos dispensa os seus favores, tem um ar de +orgulhoso triumpho que me intimida. Ha alli alguma cousa que parece +dizer. «Casei com vossa filha pobre, e tenho a fidalga generosidade de +vos querer elevar com ella!» Não te parece?</p> + +<p>--Parece-me que estás contaminado da má fé do mundo.</p> + + +<h3>XV</h3> + +<p>Felicidade, o que és tu? Engano providencial que nos alimentas na +alternativa do desejo e do desengano. Amiga cruel que nos foges com a +esperança, apenas os labios sentem o travo do absyntho que a taça do +prazer esconde no fundo.</p> + +<p>Quem te encontrou n'esta vida, felicidade? O que eras tu, quando eu te +via espargindo flôres desde o meu <span class='pagenum'> 170 </span> obscuro cantinho até aos +imaginados horisontes do meu destino?</p> + +<p>O que és tu hoje, phantasma severo que desdobras o teu manto negro sobre +a esperança, que, momentos antes, mandaste luzir no meu despertar de +infeliz?</p> + +<p>Felicidade, o que serás tu, se não és a filha dos homens, morredoura +como elles, soberba do teu nome, embaindo, com a mascara do opulento, os +pobres que te esperam, cavando, cada vez mais fundo, no coração do +ambicioso, o vácuo da cobiça, chegando aos labios do sequioso, que te +busca na terra, a esponja acerba do desengano?</p> + +<p>Porque te não vejo eu debaixo do docel dos principes da terra? +Enfloraste os berços de Carlos I e Luiz XVI: porque deixaste borrifar de +sangue no cadafalso as tuas grinaldas?</p> + +<p>Busquei-te no seio da familia laboriosa, que aceitou humildemente a +condemnação do eterno trabalhar, do suor copioso das fadigas. Não +estavas lá. O braço trabalhador enervou-o a fome, no anno da +esterilidade, e as creancinhas d'esse homem, sem cobiça de mais pão que +o necessario á sua familia, vagiam pendentes dos seios aridos de sua +mãe.</p> + +<p>Busquei-te na mediocridade honesta, na alegria da independencia. Era +falso esse existir na vida. A mediocridade anciava saír da sua esphera; +a alegria da independencia era um sonho de infelizes servos; a +independencia era uma situação mentirosa como o teu nome.</p> + +<p>Estarias tu na gloria das batalhas? Se fizeste Cesar <span class='pagenum'> 171 </span> o +primeiro de Roma, porque o não salvaste do punhal de Bruto?</p> + +<p>Na gloria da virtude? E a cicuta de Socrates? e a guilhotina de +Malherbe? Como estremaste os destinos de Séneca e Nero? de Virginia e +Aggripina? Quando és tu o galardão da virtude, a socia fiel do nobre +espirito, o premio benemerito do coração immaculado?</p> + +<p>Na gloria da sabedoria?</p> + +<p>Entraste, por ventura, na alma do philosopho, que tentou levar as +multidões ao teu sanctuario? Orvalhaste-lhe a aridez do espirito +abraseado em ancias de achar-te aqui? Déste a Cicero, teu apostolo +inspirado, a resignação na morte? Estará o teu busto levantado sobre as +ossadas de centenares de homens prodigiosos, poetas que fizeram seculos, +honras perpetuas das nações, pisados pela desgraça, mortos de fome de +pão e de ti, que lhes mandaste arrastar a mortalha por toda a vida?</p> + +<p>Passarás ao menos uma primavera, no coração da virgem, que te chama do +céo, que te crê filha de Deus, que se acolhe ao teu regaço como a asylo +inviolavel de innocentes, que te vê na ternura maternal, que te beija +nos labios de seus irmãos, que te respeita nas palavras ungidas de um +velho, que te abraça soffrega na idolatria de um amante, que aperta ao +seio todos os teus dons, cingindo-se ao seio do esposo estremecido?</p> + +<p>Não, maldita da esperança, tu não estás entre nós. Existirias na terra, +se entre os homens e Deus não estivesse o infinito.</p> <span class='pagenum'> 172 </span> + + +<h3>XVI</h3> + +<p>--Maria vive triste...--dizia padre Antonio dos Anjos a sua +cunhada.--Não diga isto a seu marido, minha irmã. Poder-me-hei ter +enganado, e não lhe antecipemos um dissabor.</p> + +<p>--E porque não vem ella a nossa casa?!--perguntou a mãe afflicta.--Ha um +mez que nos não visita, disse aos irmãos que não tornassem lá sem ella +os chamar... Alvaro já a trata mal? já a não amará?!</p> + +<p>--Alvaro vive triste como ella. Encontram-se poucas vezes; ainda se não +deram as mais ligeiras desavenças entre elles; mas o silencio quando nos +reunimos todos á mesa, é profundo entre ambos. Fogem de encontrar-se nos +olhares; e, sem causa proxima, as lagrimas caem ás vezes sobre o prato +de Maria. O pae de Alvaro pergunta-me o que tem seu filho. Interroga-o, +e elle responde-lhe que não tem nada. Eu interrogo Maria, e ella pede-me +que rogue a Deus por ella.</p> + +<p>--É pois muito desgraçada a minha filha!--exclamou a lagrimosa +senhora--Fomos nós que fizemos a infelicidade d'ella. Fui eu, fui eu só! +Era eu quem devia destruir-lhe este amor no seu principio. Fiz o +contrario... Dei-lhe azo para que tudo me confessasse, applaudi-lhe o +puro sentimento que a levava ao coração <span class='pagenum'> 173 </span> de um homem que eu +julgava digno d'ella; animei-a até a proferir palavras que o pudor lhe +não deixava saír do coração! Minha pobre filha, é tua mãe quem te fez +infeliz! Que direi eu a meu marido, quando elle me pedir conta da +felicidade do nosso anjo, d'aquella santa que tantas lagrimas nos +enxugou, e nós não podemos enxugar as d'ella... Podemos, +podemos...--proseguiu ella com exaltação.--Que venha para a nossa +companhia; vá, meu irmão, vá dizer-lhe que o coração de sua mãe só póde +achar allivio ao seu remorso, sentindo-a chorar no meu seio... Vá, vá, +antes que meu marido saiba que ella vive assim... Traga-m'a, póde ser +que meu marido se não queixe na presença d'ella... Não se lembre que +ella é casada... Não ha lei divina que obrigue uma mulher a ser victima +de seu marido...</p> + +<p>--Basta, minha irmã!--interrompeu com brandura o padre--Não multiplique +com o seu amor de mãe os soffrimentos de Maria... Ella não se queixa. +Quer que a sua dôr seja um segredo para seu proprio tio, e bem sabe que +minha sobrinha me fez o confidente das suas alegrias e pesares... Póde +ser que esta sombra de melancolia seja uma nuvem. Não vamos nós +precipitadamente desafiar uma tempestade, que nem se quer nos ameaça. O +anjo do Senhor está ao pé de Maria, e um desgosto passageiro é muitas +vezes uma experiencia que Deus manda para a purificação das suas +escolhidas. Confiança na justiça divina, minha irmã. Alvaro tem de +responder hoje ás perguntas de seu pae, e talvez ás minhas. Póde haver +n'esta melancolia de ambos <span class='pagenum'> 174 </span> uma causa dada por ambos. O +silencio de Maria faz-me suspeitar que ella não tem bastante confiança +na razão da sua tristeza. Póde ser que a demasiada saudade dos seus, +manifestada ao marido, o tenha desgostado. Se tal fôr, é preciso dizer a +minha sobrinha que o sacramento do matrimonio opera uma suave mudança +nas ligações de familia. O amor de esposa tem uma santidade superior ao +de filha: augmentam as obrigações, e vem com ellas o dever do +sacrificio. Eu conheço pouco do coração humano; mas o de Maria sinto-o +pensar, e sentir, e desejar dentro do meu. Maria deve amar e ama deveras +seu marido; porém esse amor sem fausto, sem bailes, sem theatro, sem +jantares, e sem visitas importunas e ociosas ser-lhe-ia mais grato, mais +em concordancia com o seu natural. Ora, pois, minha irmã, menos +lagrimas, e mais reflexão. Repito que não diga a seu marido que eu vim +aqui fazer-lhe o mal que não imaginava.</p> + + +<h3>XVII</h3> + +<p>O velho Silveira chamou seu filho, e disse:</p> + +<p>--Que tristeza é a tua, e a da tua mulher, Alvaro?</p> + +<p>--Não falemos n'isso, meu pae. O soffrimento calado é o mais nobre, o +soffrimento irremediavel é creancice expo'-lo á piedade dos outros.</p> +<span class='pagenum'> 175 </span> + +<p>--Soffrimento irremediavel!? De que soffres? Estás arrependido de casar +com esta menina que adoravas tanto?! Aborreces... enfastiou-te este +anjo?!</p> + +<p>--Não me enfastiou... receio que venha a enfastiar-me... Está bom, meu +pae, mudemos de pratica. Para onde vamos nós a ares este anno?</p> + +<p>--Que modos são esses, Alvaro! Entrou outra vez em ti o demonio da +perdição!? Foi, pois, uma mentira, uma impostura, uma infame astucia a +tua emenda?</p> + +<p>--Não dou motivo para semelhantes suspeitas, meu pae. O meu proceder é +hoje como era ha quatro mezes. Ouvi'-lo-hei, senhor, mas v. ex.<sup>a</sup> não me +accuse sem fundar a sua accusação.</p> + +<p>--É possivel que já não ames Maria?!--replicou o pae--Em que desdiz +ella do que tu e eu esperavamos, Alvaro?</p> + +<p>--Pois eu não a amo?! O pae que quer que eu faça? Ser-me-ha preciso +trazer ao collo minha mulher para o persuadir de que a amo?! Eu não sei +fazer carinhos piegas... Creio que ella não dirá que a trato mal, nem a +privo dos seus prazeres...</p> + +<p>--Que prazeres! Pois a pobre menina raras vezes sae do seu quarto, raras +vezes, ha quinze dias a esta parte, se encontra comtigo... que prazeres +lhe dás, Alvaro? É isto o que tu planizavas quando me pediste que +empenhasse ao coronel a minha palavra de honra como abono do teu +procedimento para que elle te não negasse a filha? Vejo que preparas +para os meus ultimos dias uma grande deshonra, e um grande remorso! +<span class='pagenum'> 176 </span> Com que cara me apresentarei ao coronel logo que elle saiba os +surdos padecimentos da nobre menina, que não solta um gemido queixoso! +Explica-te, Alvaro; não te offendo, sequer, pedindo-te, como pae, uma +explicação d'essa frieza para com ella... O que é isto?</p> + +<p>--Pois eu obedeço, senhor, respondendo em toda a verdade da minha alma. +Creia que soffro, respondendo assim; mas eu preciso dizer a terrivel +verdade que me esmaga o coração. Maria não é a mulher, que eu devia +procurar. Enganei-me. Foi um desencontro, uma desgraça, uma horrivel +illusão! Eu não sou digno d'ella. Fui atraiçoado pelo amor que Maria me +inspirou; julguei-me capaz de occupar, toda a vida, o coração com a +posse d'ella. O demonio venceu. Sinto-me enfastiado; tenho o gelo da +indifferença na alma, violento este sentimento amargo a confessar as +virtudes de minha mulher: vejo-a formosa, reconheço que é um anjo, mas +não posso, ao pé d'ella, passar um quarto de hora sem fastio. Parece que +o meu arrefecimento lhe passou á alma. Vejo-a triste, responde-me +chorando se lhe pergunto que motivos tem de tristeza, evita-me quando eu +faço sobre mim um grande esforço em mostrar-lhe agrado... Em fim, meu +pae, não era eu o homem que devia fazer a felicidade d'esta mulher... +Sou incapaz de a maltratar, terei com ella todas as attenções de irmão; +mas... é necessario que deixe de sentir o que sinto... A violencia é +inutil... o amor não se crava no coração como quem crava um punhal... +Basta-me o meu infortunio de não poder ama'-la. Os desgraçados como eu +<span class='pagenum'> 177 </span> são amaldiçoados pela sociedade, e Deus sabe se elles não são +mais dignos de piedade que de maldição!... Não poder ama'-la como a +adorei ha tres mezes! Isto é angustioso, meu pae! Por quem é, não me +aggrave as minhas dôres com as suas censuras... Não receie nada por +ella... Eu tirarei da delicadeza todos os pretextos para que ella se +capacite de que ainda a amo. É uma piedosa mentira em que meu pae, por +meu bem, e d'ella, e de todos nós, deve consentir, e até empregar a sua +influencia auxiliadora. Consiga v. ex.<sup>a</sup> que ella saia do quarto, que vá +aos theatros, que vá aos bailes, que frequente as nossas immensas +relações, que aprenda na sociedade com outras mulheres a esquecer os +infortunios domesticos, que eu farei o mesmo...</p> + +<p>--É uma alliança infame, que tu queres que eu proteja?--interrompeu o +velho.</p> + +<p>--Como <i>alliança infame</i>!--redarguiu o filho.</p> + +<p>--Sim! consentes a tua mulher...</p> + +<p>--O que? queira dizer, meu pae!</p> + +<p>--Tenho vergonha de o proferir!...</p> + +<p>--Então não me comprehendeu, ou me julga um homem destituido de honra. +Lembre-se que sou seu filho, senhor! Eu não quero fazer com minha mulher +allianças infames. Quero que ella não faça consistir a sua felicidade +sómente na minha convivencia de todas as horas, e de todos os instantes. +Quero que ella reparta os seus desejos, e as suas idéas por tudo que +possa dar-lhe uma distracção honesta, e concedida ás senhoras da sua +posição. Não quero que o seu amor á solidão me force, <span class='pagenum'> 178 </span> me +algeme a um gosto que não tenho. Estamos na sociedade, eu sou um rapaz, +e quero viver para a sociedade. Gosar não é offender a Deus, como lhe +incutiram a ella. Nunca a levei aos theatros, aos bailes, a uma visita, +que não tivesse primeiro que destruir-lhe os preconceitos com que a +crearam. Está sentada ao piano, ou ao bastidor: quer meu pae que eu +esteja alli constantemente ao pé d'ella, repetindo-lhe as phrases +cançadas de um amor de convenção? É hypocrisia com que não posso...</p> + +<p>O velho voltára as costas ao filho, e confundira as lagrimas com as de +padre Antonio que se fizera annunciar.</p> + + +<h3>XVIII</h3> + +<p>Alvaro falára pela bocca de todos os maridos maus ou infelizes, quando a +libertinagem os não cura do veneno do desgosto com o veneno da deshonra. +Era de certo o enojo, esse desfallecimento de alma incuravel, esse +morrer do amor que nunca mais resuscita, quando a mulher que o causa é +esposa, e quando o homem que o recebe não tem a força de virtude que +converte a piedade em estima.</p> + +<p>A paciencia de Maria azedava ainda mais o desgosto de Alvaro, porque as +lagrimas em silencio eram a mais <span class='pagenum'> 179 </span> pungente censura que ella +podia fazer ao seu procedimento.</p> + +<p>A melancolia do padre, cuja convivencia elle afastava, e o sobrecenho do +pae, irritavam-n'o até ao frenesi de raiva ás algemas que lhe queriam +lançar á sua liberdade.</p> + +<p>O padre aconselhava-lhe os bailes, e os passatempos que a sua indole +apreciava. Pedia á sobrinha que o acompanhasse para compartir dos +prazeres de seu marido; mas a pobre menina, se alguma vez accedia ao que +lhe era imposto como dever de mulher casada, ia levar á sociedade o +espectaculo da sua tristeza, e dar incentivo de arguições, umas justas, +outras exageradas ao procedimento de Alvaro da Silveira.</p> + +<p>Menos instada por seu marido, e por seu tio, e por seu extremoso sogro, +que lhe era segundo pae, deixou de saír, e mui raras vezes visitou sua +mãe, porque não podia mentir ás suspeitosas perguntas de seu pae, a +respeito da felicidade que o marido lhe dava.</p> + +<p>Alvaro, pouco a pouco, foi-se absolvendo de seus deveres, e respeitos á +sociedade. Estudou o viver e o sentir dos maridos no circulo das suas +brilhantes relações, e viu que entre tantos havia só um que pudesse +atirar-lhe uma pedra. Entendeu que podia ser-se um homem importante aos +homens, e importante ás mulheres, embora casado, embora propenso a +esquecer-se todos os dias que o era. Relaxados os deveres, seguiu-se a +tibieza nas apparencias do decoro, e da delicadeza, ultima ferida que +uma mulher com dignidade póde receber de um mau marido.</p> <span class='pagenum'> 180 </span> + +<p>O seu antigo amigo conde de *** foi reintegrado na sua particular +estima. Era já recebido no seu quarto, era o seu confidente em segredos +dignos de ambos, era tudo o que póde ser um amigo intimo, menos relação +de sua mulher. Maria regeitára com imperio, pouco natural ao seu +caracter humilde, a apresentação do conde. Ouvira falar d'este homem em +casa de seu pae, ao tio, e ao sogro, de modo que lhe ganhou asco, e não +podia vencer o sobresalto com que ouvia annunciar um tal nome, que seu +proprio marido, tres mezes antes, banira das suas relações.</p> + +<p>Na primavera d'esse anno, Alvaro partiu com o conde, e outros de egual +porte para o campo, em busca de touros para as corridas do campo de +Santa Anna. Demoraram-se vinte dias n'essa gloriosa expedição digna dos +netos de Vasco da Gama e de Affonso de Albuquerque... Durante esse +tempo, Maria não teve de seu marido um bilhete, nem uma saudade. De +volta, Alvaro achou sua mulher gravemente enferma d'essa molestia que +entra no coração, e filtra de lá o veneno da morte por todas as fibras.</p> + +<p>Disse-lhe palavras consoladoras, instigadas pelo espinho do remorso, +palavras calculadas na frieza do seu desamor; mas a idéa satanica da +viuvez entrou-lhe na alma com a esperança de uma felicidade imprevista.</p> + +<p>É horrivel! mas não duvideis... Olhae de redor de vós...</p> <span class='pagenum'> 181 </span> + + +<h3>XIX</h3> + +<p>Foram aconselhados a Maria ares do campo. Saíu de Lisboa para Collares, +acompanhada por seu tio, e dois creados. Alvaro partira para Villa +Franca, e de uma quinta, muito conhecida nos arrabaldes d'aquella villa, +fazia as suas excursões á caça, em que entreteve um mez, distraído de +tudo; e embebido no seu affecto remoçado ao inseparavel conde.</p> + +<p>Entretanto, Maria déra largas ao coração abafado. Padre Antonio sabia a +causa do soffrimento, mas affectava extranheza, para não auctorisar +queixumes de mulher casada. Fazia grandes rodeios aconselhando a sua +sobrinha a resignação, porém, simulando, sempre, que não conhecia motivo +para tristeza tão inconsolavel.</p> + +<p>Uma vez, Maria, cançou na lucta comsigo mesma, e fixou no tio os seus +grandes olhos arrasados de lagrimas. Era um olhar de soffrimento que +reage, uma accusação ao homem que concorrera para o seu infortunio, e +parecia impor-lhe a violencia da mudez, a morte surda sem a inoffensiva +respiração de uma queixa.</p> + +<p>Frei Antonio entendeu-a, e disse:</p> + +<p>--Fala, minha querida sobrinha, accusa-me, e depois pediremos ambos ao +Senhor que nos dê melhor vida a ambos.</p> <span class='pagenum'> 182 </span> + + +<h3>XX</h3> + +<p>A mulher de Alvaro da Silveira balbuciou:</p> + +<p>--Não o accuso, meu tio; peço-lhe sómente que me deixe chorar. É bem +pouco pedir; mas eu sinto um grande conforto n'este unico prazer dos +infelizes.</p> + +<p>--O da oração é maior, minha sobrinha...--atalhou o padre.</p> + +<p>--Pois eu não oro, meu tio? É quando sinto mais dentro do coração a +doçura das lagrimas. Ou peça a Deus paciencia para soffrer até ao fim, +sem que a minha familia o saiba; ou peça que se digne tocar o coração de +meu marido, choro sempre, e fico sempre mais desopprimida.</p> + +<p>--Mas os teus dias são sempre eguaes, filha. Estás cada vez mais +abatida, mais magra, e mais febril.</p> + +<p>--Que importa o corpo? O que eu recebo de Deus é a força da alma... A +morte não lh'a peço, por que sei que não faria com ella a felicidade de +Alvaro... É impossivel que o remorso o não castigue depois... Isso é que +eu não queria... O Senhor me livre de ser o instrumento das torturas +d'alguem... E, se eu morresse, a nossa pobre familia soffria muito... +minha mãe, seguir-me-ia, e os meus irmãos pequeninos nos braços de meu +pobre pae... matal-o-iam com carinhos... É por isso que eu não peço a +morte...</p> <span class='pagenum'> 183 </span> + +<p>--Não peças, Maria. Diz-me o coração que terás melhores dias da tua +existencia, e que eu hei de ve'-los ainda.</p> + +<p>--Oxalá... e como serão esses dias, meu tio?</p> + +<p>--Será quando teu marido voltar ao que era quando te queria tanto.</p> + +<p>--Pois esse amor póde por ventura tornar?</p> + +<p>--Pois não póde, filha?! Estás passando por uma dolorosa provação; é +impossivel que não recebas n'este mundo o premio da tua constancia. +Assim como Alvaro passou do mal para o bem, e depois recaiu no mal, o +anjo, que o alumiou uma vez, ha de alumia'-lo outra, minha sobrinha. +Quando menos o esperarmos, estará comnosco, para nos restituir o bom +coração que nos roubou. Crê, e ora, minha filha. Oremos ambos. As nossas +supplicas sejam por elle, e deixemos ao senhor apiedar-se de todos, +quando a sua bondade quizer.</p> + + +<h3>XXI</h3> + +<p>Padre Antonio, horas depois, enviava um proprio com uma longa carta a +Villa Franca. Era um humilde requerimento ao coração de Alvaro. +Lembrava-lhe, com delicadeza, os seus deveres. Contava-lhe o viver +attribulado de sua sobrinha, pedia-lhe encarecidamente que viesse +vê'-la, <span class='pagenum'> 184 </span> ou consentisse que algumas pessoas da familia d'ella a +acompanhassem no ermo em que vivia.</p> + +<p>O fidalgo recebera a carta no pospasto de um festim em que se +banqueteavam os caçadores, commemorando as façanhas venatorias do dia. O +conde de ***, chamado por Alvaro a conselho redigiu e escreveu a +resposta á carta, visto que o seu amigo, turbado de vinho, apenas tinha +entendimento para conhecer que o frade o incommodava, como parapeito dos +tiros de sua mulher. A resposta, por tanto, foi simples e peremptoria. +Alvaro agradecia muito os pios conselhos do padre, sentia muito os +incommodos de sua mulher; recusava, porém, acceder á convivencia pedida, +e approveitava a occasião para observar a sua reverendissima que a sua +pertinaz assistencia em casa d'elle Alvaro era pouco delicada, +provando-se que não havia n'essa casa meninos para educar. Terminava, +ordenando que sua mulher se recolhesse a Lisboa quanto antes, visto que +os ares campestres não conseguiam alliviar os seus padecimentos.</p> + +<p>Esta carta foi lida a Alvaro, que deu no hombro do seu secretario uma +sonora palmada, como signal de applauso e gratidão.</p> <span class='pagenum'> 185 </span> + + +<h3>XXII</h3> + +<p>Frei Antonio fôra assistir ao trespasse de um moribundo, e não estava em +casa quando chegou o conductor da resposta. Foi Maria que recebeu a +carta, e vendo a letra inesperada de seu marido, sobresaltou-a tanto o +prazer, que nem sequer reflectiu para abri'-la.</p> + +<p>Leu... E mal viu as ultimas linhas. Entrou em tremuras, escondeu a carta +no seio deixando uma parte visivel; luctou como querendo segurar o +alento que lhe fugia; mas debalde. Padre Antonio ergueu-a desmaiada de +um canapé, quando voltou. Tirou-lhe do seio a carta; leu-a, e tornou a +insinua'-la sem a sobrinha dar fé. Esta, recuperando os sentidos, viu ao +pé de si o tio, com ar risonho, trahindo-se em algumas palavras +confortadoras; mas a pobre senhora, de momento a momento, levava a mão +ao seio para certificar-se de que a carta lhe não fôra tirada.</p> + +<p>--Então o que foi isso, minha filha?--perguntou o padre.</p> + +<p>--Um desmaio, resultado da grande fraqueza que tenho, de um passeio que +dei longo de mais para as minhas forças...</p> + +<p>--Pois tu saíste, Maria? Não enganes o teu tio.</p> + +<p>Aqui, Maria córava, e o frade vinha logo com o remedio, fugindo para +outra idéa.</p> <span class='pagenum'> 186 </span> + +<p>Depois de uma hora em que dois corações angustiados estiveram a +enganar-se mutuamente, padre Antonio abraçou sua sobrinha; e disse:</p> + +<p>--Olha, menina, o extremo do soffrimento não se póde dizer qual é, nem +quando chega; por isso não direi ao certo que as nossas penas estão a +passar por serem culminantes. Mas é de fé para mim, filha, que isto +assim não póde demorar-se muito. A piedade do Altissimo está por +instantes a amercear-se de nós. Maria, fica no teu quarto; pensa n'essa +carta que tens no seio, eu vou pensar tambem; e, passada uma hora +estaremos juntos. Antes, porém, de decidir, Maria, pede ao senhor a luz +da graça.</p> + +<p>Maria ficára como engolfada em profundo pasmo com a mão no seio. O frade +saíra.</p> + + +<h3>XXIII</h3> + +<p>Passada uma hora e um quarto, foi a sobrinha, atemorisada pela falta, +que entrou subtilmente no quarto de seu tio. O velho estava de joelhos +diante de uma cruz. Sentiu-a entrar, voltou um pouco a face, e disse:</p> + +<p>--Espera um bocadinho, menina; eu falo-te já.</p> + +<p>Maria ajoelhou ao pé d'elle.</p> + +<p>--Pois sim, oremos juntos: disse o padre--se já resolveste, <span class='pagenum'> 187 </span> +pede comigo ao Senhor que mude a tua tenção, se ella não é do seu +agrado.</p> + +<p>Decorridos alguns minutos ergueram-se ambos.</p> + +<p>--Pensei, meu tio--disse Maria.</p> + +<p>--E então?</p> + +<p>--Creio que Deus permitte a minha vontade: o tio me dará a certeza da +minha fé, se não se oppuzer.</p> + +<p>--Pois diz, filha.</p> + +<p>--Eu fujo a meu marido.</p> + +<p>--Como? foges a teu marido?!--atalhou o velho espantado.</p> + +<p>--Acolho-me ao seio de Deus, para morrer tranquilla.</p> + +<p>--Entendi; minha filha!--exclamou elle com jubilo abraçando-a.--Queres +dizer que entras n'um convento.</p> + +<p>--Sim, sim.</p> + +<p>--Foi a minha idéa, quando orava...</p> + +<p>--Sim? então, bemdito seja Deus!--disse Maria erguendo as mãos com +arrebatamento.--Já vejo que o Senhor approva a minha resolução. Eu pedi +muito á Virgem que lh'a inspirasse, meu tio. Vou para as Therezinhas. +Tenho lá muitas amigas que me hão de fazer digna de orar com ellas. +Trabalharei para viver em flôres, em recorte de papeis, em tudo, por que +pouco me basta. Poderei ve'-lo todos os dias, meu tio, e verei meus +paes, e meus irmãos. Se Alvaro um dia me quizer, elle irá procurar-me, e +eu serei sempre o que sou e o que fui. Não lhe tenho odio, não tenho. +Sei que elle ha de ser ainda muito infeliz, e talvez seja eu, depois de +meu tio, <span class='pagenum'> 188 </span> quem lhe restitua a boa alma que elle tinha quando o +conheci.</p> + +<p>--Tu choras. Maria?--interrompeu o padre carinhosamente--Levas saudades +de Alvaro, não levas?</p> + +<p>--Saudades? não sei que sentimento é este!... parece-se mais com o da +compaixão. É como se eu dissesse: podiamos ser ambos tão felizes!.. e +assim não se sabe qual de nós será o mais desgraçado! É o que eu sinto, +meu tio. Já vê que o estimo ainda como se fosse um meu irmão perdido de +vicios, que maltratasse sua familia, e que eu tivesse conhecido enchendo +de carinhos minha mãe e meus irmãos. Lembra-me que elle era tão amigo de +todos! entrava na nossa casa como se fosse nosso... agradecia tanto o +nosso bom agasalho, sem saber que nós ficavamos sempre tristes quando +elle nos deixava... É porque eu choro, meu tio... Isto é saudade do que +elle foi, e compaixão do que é.... Paciencia... Vou para as +Therezinhas... Imaginei-me sempre lá desde creança, não se lembra? No +tempo em que eu cantava aquellas palavras tristes, pensava tanto em +pedir a minha mãe que me deixasse entrar no convento, ainda que fosse +como creada...</p> + +<p>--E hoje, Maria... talvez... tenhas de entrar como creada...</p> + +<p>--E isso que tem, meu tio?! Pois nas Carmelitas não entravam tantas +senhoras distinctas que faziam a cozinha ás semanas? Que tem que eu seja +creada? Alvaro não póde envergonhar-se d'isso; porque ha muitas <span class='pagenum'> 189 +</span> situações vergonhosas para um marido, mas esta--a de servir--não é uma +d'essas... pois não?</p> + +<p>Maria córou proferindo algumas d'essas ultimas palavras. Fr. Antonio +depois de abraça'-la, disse:</p> + +<p>--Eu vou para Lisboa, minha sobrinha. Falarei com a prioreza; veremos +como has de entrar; antes, porém d'esse passo, é preciso que escrevas a +Alvaro.</p> + +<p>--Pedindo-lhe consentimento?</p> + +<p>--Sim.</p> + +<p>--Se m'o nega?! não vou?</p> + +<p>--Vaes, Maria. A petição é a humildade da esposa; mas a fuga é o ultimo +direito da victima. Onde ha algoz não ha marido.</p> + + +<h3>XXIV</h3> + +<p>Era assim a carta de Maria a seu marido:</p> + +<p>«Foste enganado por uma chimera, Alvaro. Não era eu a mulher digna do +teu amor. Quando vi apertar-se o teu coração á dôr do arrependimento, +tive mais compaixão de ti do que de mim. Eu, pobre mulher, posso soffrer +e chorar, sem ser vista. Tu, Alvaro, nascido para os prazeres do mundo, +cuja privação o meu amor não podia recompensar-te, soffrerias muito, se +não tivesses animo de affastar com a ponta do pé os deveres, e esquecer +que eu sou, ao mesmo tempo, tua escrava e tua tyranna.</p> <span class='pagenum'> 190 </span> + +<p>«Felizmente que adoptaste o melhor expediente.</p> + +<p>«Penso que as distracções, longe de mim, te deixam sentir as doçuras da +liberdade. És, talvez, feliz. Se o és, Alvaro, olha que esse bem peço-o +eu constantemente a Deus para ti. Não te deixes vencer jámais do +remorso. Os meus padecimentos, bem o sabes, não se alliviam em queixas. +Nunca te pedi explicação da tua frieza, nem te dei uma palavra +aborrecida por outra. Até as lagrimas te escondia, não é verdade? Se me +surpreendias chorando, antes queria mentir-te uma invenção, que +exacerbar-te com as minhas lastimas o pesar de me teres dado o direito +de te arguir. Quando assim se soffre, Alvaro, não ha idéa de vingança, +nem se aceita com prazer a expiação de quem nos mortifica.</p> + +<p>«Vamos tratar da tua felicidade, meu caro irmão. Deixa-me dar-te este +titulo que tem tanto do affecto como da razão. Entre nós já não existe o +grande amor, que me parece ser inflexivel aos dictames do juizo. Podemos +suavemente caminhar cada um para seu lado, sem voltarmos as costas com +arremesso. É o que eu queria, e espero consegui'-lo, porque, sendo eu +tão fraca, a força que sinto para dar um passo em teu bem, é Deus que +m'a dá, e dar-m'a-ha até ao fim.</p> + +<p>«Deixo-te mais livre do que vives, Alvaro. Vou entrar n'um convento, e +vou pobre como vim para tua casa. Sentirei lá que és meu marido, porque +não cessarei de orar por ti, e offerecer em desconto das minhas e das +tuas faltas o tempo que Deus me der de vida.</p> + +<p>«Conheço que nasci para a solidão e para os prazeres <span class='pagenum'> 191 </span> ignorados +da vida obscura. Esta consciencia e a absolvição de algumas cruezas do +teu caracter para comigo. Tu precisavas de uma mulher que te disputasse +na sociedade uma parte da tua gloria. Querias, talvez, abrilhantar-me +aos olhos dos outros com o reflexo da tua luz. E eu, educada na pobreza +e na simplicidade, não pude, por mais que quiz, contrafazer a minha +indole. Fui arrastada pelo dever aos raros bailes onde me levaste; +voltava de lá contente com a esperança de estar sósinha comtigo, e +muitas vezes me deixaste sósinha com a minha saudade; e tornaste aos +bailes a aproveitar as horas que eu te aguava com a minha inexoravel +melancolia.</p> + +<p>«Era então que eu te lastimava, por teres sido enganado pelo coração, +quando me dizias que a vida no ermo, só comigo, era o teu sonho de +ventura, e amaldiçoavas o brilho perfido da sociedade que te não deixára +mais cedo ver o que é este mundo, com os olhos da razão.</p> + +<p>«Se me não tivesses dito isto, Alvaro, eu seria muito culpada por +aceitar o sacrificio da tua liberdade. Fomos enganados ambos. Pensava eu +que era verdadeiro o teu fastio dos prazeres ruidosos e vãos; cuidei até +que o meu maior merecimento para ti estava no desprezo com que eu ouvia +lá fóra do meu cantinho o bulicio da vida opulenta. Aqui está porque eu +não te peço perdão de ter querido ser, contra a vontade de meu bom pae, +tua mulher. D'esta culpa quem me ha de perdoar é o pobre velho, e eu +conto com a bondade da sua alma.</p> <span class='pagenum'> 192 </span> + +<p>«Aqui tens, pois, o meu destino, Alvaro. Vou para um convento; não devo, +porém, sahir de tua casa sem praticar este acto de humildade, rogando o +teu consentimento. Quasi certa de que m'o dás, vou fazer os meus +ligeiros preparativos. Ainda não disse tudo, Alvaro... Se um dia +sentires a penosa necessidade de falar a alguem que te diga palavras de +allivio, procura-me, vae sem receio de encontrares uma queixosa. Eu +farei quanto puder em teu bem contra o mal que o mundo te houver feito. +Chamarei á tua alma as reminiscencias do que ella foi, quando eu t'a +mereci, furtando-a ás outras paixões. Vae procurar-me, Alvaro, e acharás +sempre uma irmã.</p> + +<p>«De tudo o que te disse n'esta longa carta, deves tirar a certeza de +que, muito longe de odiar-te, estimo-te, sou tua amiga, offereço a minha +vida pelo dom da tua ventura; mas quizera, Alvaro, que essa ventura não +fosse mentirosa. A que presentemente gosas não póde ser duradoura, nem +filha do espirito.</p> + +<p>Adeus.</p> + +<p class="direita">Tua mulher</p> + +<p class="direita"><i>Maria dos Prazeres.</i>»</p> + +<span class='pagenum'> 193 </span> + + +<h3>XXV</h3> + +<p>Maria entrou no quarto do padre. Estava elle ajuntando n'um sacco os +seus livros, e uma pouca de roupa branca.</p> + +<p>--Já escreveste, filha?! Vamos ver a tua cartinha...--disse elle +continuando o seu serviço--Eu estou aqui ajuntando estes farrapos, e +estes quatro livros. A nossa bagagem, Maria, é tão pequena, que a póde +um frade velho transportar debaixo de um braço. Ora vamos lá; lê a tua +cartinha.</p> + +<p>Maria leu, affectando serenidade. Não podia, comtudo. De instante a +instante, havia embargo de soluços, lagrimas pertinazes, e alterações na +côr. Padre Antonio tomou-lhe das mãos a carta, e leu-a em voz alta.</p> + +<p>--Está muito boa--disse elle, afagando as faces de Maria--Vou mandar o +proprio a Villa-Franca. Ámanhã por noite, está cá a resposta. Eu virei +então saber qual ella foi.</p> + +<p>--Pois meu tio, já hoje me deixa?!--interrompeu Maria com vehemencia.</p> + +<p>--Pois então, menina? A minha licença acaba logo que a trouxa esteja +prompta. Eu não extranho isto... Quando me mandaram saír do meu convento +que era a minha casa, saí logo; agora mandam-me saír de uma <span class='pagenum'> 194 </span> +casa, que não é minha, que hei de eu fazer? Saír mais depressa ainda, se +é possivel, e sacudir á saída da porta o pó dos meus sapatos. De mais a +mais, bem sabes que preciso falar á madre prioreza das Therezinhas no +teu agasalho, que ainda não sabemos como será, e todo o tempo é pouco... +Nada de lagrimas! Pelo amor de Deus, recebem-se todas as amarguras com +olhos enxutos. O merecimento aqui não é chorar, é rir para o céo. Ha uma +só causa justa para lagrimas, Maria: vem a ser a offensa a Deus, que é +Pae, ou aos homens, que são nossos irmãos. D'estes peccados, absolvo-te +eu, menina, que os não tens. A offendida és tu, e, por conseguinte, +perdão para os homens, e oração de graças ao Senhor.</p> + + +<h3>XXVI</h3> + +<p>Alvaro da Silveira recebeu a carta, quando saía para Santarem, onde o +esperava um brilhante sarau, em que era rainha uma nobre dama que se +deixara ferir do nobre caçador. Era, portanto, muito improprio o ensejo +da carta, cuja generosidade tinha para elle o valor odioso de uma +accusação mascarada. Foi esta a opinião do seu amigo conde.</p> + +<p>Alvaro respondeu vocalmente que mais tarde responderia por escripto. O +portado, industriado pelo padre, <span class='pagenum'> 195 </span> replicou humildemente que não +voltava sem resposta, ou signal de ter sido recebida a carta. +Perguntou-lhe Alvaro quem lh'a tinha dado. O creado falou a verdade. +«Pois esse hypocrita ainda lá está?» exclamou irado o fidalgo... +«Leva--continuou elle--ahi vae o signal de que recebi a carta».--E +entregou-lhe, aberta, a carta de sua mulher.</p> + +<p>Tal foi a resposta que Maria recebeu. Diga quem puder as lagrimas que +este desprezo lhe custou. O frade respeitou-as tanto, que em logar de +consola'-la com a paciencia, eloquente sempre em seus labios, chorou +tambem.</p> + +<p>--Vamos, filha--disse elle por fim.</p> + +<p>--Já?! de noite?--reflectiu ella.</p> + +<p>--Tens medo, Maria? A noite vae melhor ao estado da nossa alma... +Chegaremos de madrugada á tua nova casa. Passarás o dia no locutorio com +a nossa familia.</p> + +<p>--Pois está tudo arranjado?</p> + +<p>--Tudo, Maria, tudo providencialmente arranjado. Vaes ser hospeda da +sr.<sup>a</sup> escrivã, em quanto eu não posso por meios certos que Deus me ha de +deparar comprar-te uma cella no convento. Depois, o teu trabalho +dar-te-ha uma subsistencia certa. Fallaremos, fallaremos... Vamos +embora.</p> + +<p>Maria foi, quasi desfallecida, encostada ao hombro do padre, até +entrarem n'uma sege de praça que os esperava no portão. Grande, porém, +foi a surpresa da attribulada senhora, quando ao entrar na sege, foi +apertada <span class='pagenum'> 196 </span> por uns braços que só podiam ser de mãe pelo afago +com que lhe bebiam as lagrimas da face.</p> + +<p>O choro de ambas embargava as palavras soluçadas. O que ellas, porém, +queriam dizer-se era pedirem-se perdão mutuamente; a mãe á filha, por +lhe haver afervorado e absolvido o amor a Alvaro; a filha á mãe porque +fraqueava no martyrio, e, sem pedir-lhe conselho, abandonava aos juizos +da sociedade a explicação da sua fuga, talvez bem infamada.</p> + + +<h3>XXVII</h3> + +<p>A sege parou defronte do mosteiro.</p> + +<p>Rompia a manhã. Tão lindo estava o céo, tão balsamico o ar ao pé do +arvoredo do convento, as aves deleitavam tanto o coração, o múrmuro +despertar da natureza tão meigos arrobos filtrava ao seio de Maria, que, +enlevada em mudo regalo, docemente lhe marejavam nos olhos as lagrimas +de um contentamento infantil, se não eram antes o respirar suavissimo da +abafação angustiosa em que penára.</p> + +<p>Aberto o portão exterior, frei Antonio entrou com sua cunhada e +sobrinha. Algumas religiosas desceram á portaria, e levaram comsigo mãe +e filha, felicitando esta com grandes jubilos, e inventando graças para +a desassombrarem <span class='pagenum'> 197 </span> da sua tristeza. Sabiam-lhe bem a maguada +vida, e a virtude santa, aquellas servas do Senhor. A Mãe de Jesus, +protectora sempre invocada de Maria, tocou talvez o coração das +carinhosas freiras que parecem porfiar qual mais mimos e agrados fará á +querida hospeda.</p> + +<p>D'ahi a pouco volveu ao mosteiro Fr. Antonio com a familia toda. O +coronel esmoreceu d'aquelle seu grande animo vendo a magreza cadaverica +da filha. O velho, alimpando as lagrimas, fez que nenhuns olhos ficassem +enxutos. Diante d'aquella magestosa dôr, não houve uma só pessoa que +tivesse espirito para consola'-lo. O padre, esse, o que mais ali soffria +talvez, abaixava humildemente a cabeça diante de seu irmão, como quem +confessa a maior culpa de tamanha desventura.</p> + +<p>Uma das religiosas, querendo consolar, censurou sem asperidão, ainda +assim, o proceder inhumano de Alvaro da Silveira.</p> + +<p>Maria fez um gesto de desagrado, e, sentindo amargamente que lh'o não +entendesse a freira condoida, disse:</p> + +<p>--Alvaro da Silveira é meu marido, minha senhora. Deus é que julga as +nossas acções... Eu preciso a piedade de toda a gente; mas não queria +que ella custasse a Alvaro a sua condemnação. Meu marido não é mais +feliz que eu. Por isso que estou muito certa d'isto, peço ás senhoras +d'esta casa que roguem a Deus por elle, quando lhe rogarem por mim.</p> + +<p>Ficaram como assombrados todos os animos, e apiedados <span class='pagenum'> 198 </span> todos os +corações. Ninguem, durante aquelle dia, proferiu o nome de Alvaro.</p> + +<p>Á tarde houve um adeus de muito chorar; mas, ao dia seguinte, lá estavam +os irmãosinhos e a mãe da secular, e o tio padre, uns para chorar com +ella, outros para distrai-la com as suas innocentes graças.</p> + + +<h3>XXVIII</h3> + +<p>Maria trabalhava em flores, em costura, em tudo que fazia independente o +seu parco passadio; e, desde o segundo dia, oração e trabalho +alternavam-se, afóra as horas das lagrimas, que eram de noite, sósinha, +a occultas das consolações, ás vezes importunas, das amigas--que todas o +eram.</p> + +<p>Frei Antonio foi um dia mui alegre ao locutorio, e disse isto a Maria:</p> + +<p>--O pae de Alvaro foi hoje a nossa casa, attribulado que fazia dó! É +homem honrado, e quer-te como a filha. Sabia tudo, e abraçou-se a teu +pae, pedindo-lhe compaixão para o mais desgraçado dos paes. Queria +vêr-te, não se afoutava a vir sem licença nossa. Concedemos-lh'a todos +com muito prazer. D'aqui a pouco está comnosco, filha. Pede uma grade +para o receberes.</p> + +<p>E, ditas estas e mais algumas palavras da alvoroçada <span class='pagenum'> 199 </span> Maria, o +velho Silveira chegou-se ao locutorio, dizendo que queria abraçar sua +filha. O claustro negava-lhe satisfazer tal desejo e d'ali foi para uma +grade onde foi pathetica a scena. Maria não se queixava, ao mesmo tempo +que o velho amaldiçoava o filho. Ella, então, punha as mãos +supplicantes, pedindo-lhe que levantasse a maldição de sobre o infeliz +Alvaro.</p> + +<p>Siveira apertava a mão do padre, e dizia:</p> + +<p>--Com este nobre e santo coração recompensa o Senhor todos os +padecimentos de uma familia; esta virtude, porém, exacerba a minha +magua, porque eu sou pae de um monstro, e este anjo é victima d'elle, +e... talvez minha. Fui eu que lh'a pedi, sr. padre Antonio...</p> + +<p>Occorriam então as pacientes reflexões de Maria, querendo absolver todos +os que promoveram o seu casamento. E, sem affectação de virtude, a +christã de coração e ensino, dizia que mais devia agradecer a Deus as +provações em que puzera a sua fé, e a sua esperança no premio celestial.</p> + +<p>Silveira quiz saber que vida era a da sua nora. Contou-lh'a o padre. O +velho, pasmado de tanta resignação, quiz logo alli chamar a prioreza +para dizer-lhe que n'aquelle mesmo dia, a esposa de seu filho era uma +secular com fartos meios de subsistencia, e com todas as regalias +possiveis n'um convento.</p> + +<p>Maria atalhou a liberalidade do sogro, dizendo que não acceitaria um +ceitil em quanto pudesse trabalhar.</p> + +<p>Foram, pois, baldados esforços de sogro e tio. Não havia, com razões, +demove'-la do seu proposito. As que <span class='pagenum'> 200 </span> se lhe davam eram +frivolas. Silveira queria que sua nora tivesse alli a grandeza do seu +nascimento. A isto replicava ella que nascera mui pobre, e cria que o +saír da sua obscuridade fôra infelicitar-se, e rebuscar novas pompas +seria reincidir na desgraça voluntariamente. Só no trabalho esperava +allivio--dizia ella; e por misericordia pedia que a deixassem com os +seus recursos, porque a aptidão para o trabalho fôra o seu inexhaurivel +patrimonio.</p> <span class='pagenum'> 201 </span> + + + + +<h2>LIVRO ULTIMO</h2> + + +<h3>I</h3> + +<p>Desde 1835 até 1842, a historia de Alvaro da Silveira é a historia de +todos os homens perdidos.</p> + +<p>A reclusão de sua mulher, no principio, recebeu-a como um ataque aos +seus direitos de marido, e quasi esteve, por orgulho, a requerer um +divorcio, ou, ainda mais, a annulação do casamento.</p> + +<p>Outras idéas vieram desenlea'-lo d'esta preoccupação periodica. O seu +amigo conde chasqueava-lhe a demasiada susceptibilidade, dizendo-lhe que +poucos maridos deviam tanto á fortuna, que por tão suave processo, o +descartára a elle do tropeço conjugal.</p> + +<p>O velho Silveira saíu d'este mundo, um anno depois que Maria entrára no +convento ralado de penas, infamado pelas immoralidades de Alvaro, que, +de collaboração com o conde, redigira os famosos estatutos para a +chamada <i>sociedade do delirio</i>. Ao estrondo das primeiras <span class='pagenum'> 202 </span> +impudencias, o pobre pae correu a querer salvar o filho. Foi recebido +com desdém, e repellido com o desprezo ás suas instancias. O velho +coração não podia com o golpe. Morreu sem filho ao pé do leito, quasi +desamparado dos parentes que o inculpavam na educação licenciosa de +Alvaro. Quem lhe ministrou as consolações do trespasse, foi um extranho. +Frei Antonio dos Anjos, ao qual o senhor de uma grande casa disse á hora +da morte, que as dissipações de Alvaro não lhe tinham deixado seis +vintens para mandar dizer por sua alma uma missa.</p> + + +<h3>II</h3> + +<p>O marido de Maria viajava então por França, onde lhe foi a nova da morte +de seu pae. Alvaro melhorava de meios, porque os recursos, que seu pae +lhe dava com quanto superiores ao rendimento de sua casa, não bastavam á +dissipação.</p> + +<p>Veiu prestes a Lisboa tomar conta dos seus vinculos.</p> + +<p>Procurando um usurario que lh'os acceitasse como hypotheca de alguns +contos de réis, ninguem os queria por mais do valor dos rendimentos de +tres annos, porque a magreza livida de Alvaro aterrava os agiotas.</p> + +<p>Um mercieiro, antigo creado de seu pae, sabendo que o fidalgo barateava +á usura os seus bens, apresentou-se-lhe <span class='pagenum'> 203 </span> para acceita'-los como +hypotheca de uma somma quasi egual ao valor d'elles.</p> + +<p>Alvaro abençoou o seu destino, e receoso de que o mercieiro se +arrependesse, apressou o contracto.</p> + +<p>O comprador, porém, clausulou que em sua mão ficaria uma certa somma +para acudir ás necessidades da esposa do vendedor, se ella um dia as +sentisse. Alvaro acceitou essa hesitação maravilhado de que o inepto +logista não pedisse a assignatura consentanea de sua mulher!</p> + +<p>Este mercieiro conhecia frei Antonio dos Anjos. Captivo do benevolo +interesse d'elle, o padre fôra-lhe contando os infelizes acontecimentos +d'aquella casa. O velho creado de Gonçalo da Silveira, quando soube que +seu amo expirára, quasi desamparado, sem seis vintens em dinheiro para +uma missa, chorou, e protestou valer ao filho, quando o soccorro lhe +aproveitasse depois de uma lição amarga.</p> + + +<h3>III</h3> + +<p>Em 1842, Alvaro fugindo aos credores de Pariz, de Londres, de Madrid, de +onde quer que desbaratou o seu e o alheio, appareceu em Lisboa pedindo +ao mercieiro que lhe valesse. A desgraça quebrára-lhe a soberba. Alvaro +pedia com humildade, se não era antes relaxamento, <span class='pagenum'> 204 </span> soccorro ao +creado de sua casa. O logista deu-lhe a quantia que ficára, como em +deposito, para ser dada a Maria, dizendo que ella a mandára entregar a +seu marido.</p> + +<p>Recebeu-a com indifferença, e consumiu-a obscuramente em uma roda que +não era a sua, na convivencia de individuos que, sómente no abysmo da +desgraça, sem honra, se encontram.</p> + +<p>Padre Antonio dos Anjos não sabia dizer a Maria, onde seu marido estava. +O mercieiro é que não perdeu de vista o filho de seu amo, com a mira de +levanta'-lo, quando elle abrisse os olhos no extremo caír de perdição.</p> + +<p>Foi elle, pois, quem deu ao frade miudas novas de Alvaro de Silveira. +Umas vezes recebia dos parentes uma dadiva, como esmola. Outras, +achava-se entre a gentalha, buscando nas fezes sociaes esquecer os +explendores que dissipára. Eis ahi que chegava a mão mysteriosa do +logista.</p> + + +<h3>IV</h3> + +<p>Um dia, Alvaro da Silveira quiz annullar o contracto feito com o +desconhecido bemfeitor. Aconselharam-n'o que a acção de dolo devia ser +intentada por sua mulher contra o comprador fraudulento dos vinculos. +Alvaro <span class='pagenum'> 205 </span> escreveu a sua mulher uma carta, onde se via um +espirito embrutecido pela desgraça, um ar de cynica indifferença, não +affectada, porque é ella o caracteristico do homem a seus proprios olhos +desprezivel. N'esta carta, pedia Alvaro a Maria que o coadjuvasse a +resgatar os bens de que dependia a farta subsistencia de ambos.</p> + +<p>Maria respondeu que não podia demandar o comprador de uns bens que ella +nunca julgára seus. Accrescentava que os unicos bens de sua posse eram a +propriedade do trabalho; e o resultado d'elle reparti'-lo-ia irmãmente +com seu marido, se elle o acceitasse. O padre quiz ser portador d'esta +carta.</p> + +<p>Alvaro não poude evitar a presença do tio de sua mulher. Estava elle +vivendo em um quarto de emprestimo na casa de um homem, que lh'o +offerecera, não conhecido seu. A providencial espionagem do mercieiro +preparára-lhe esse quarto, ao mesmo tempo que o avisavam das intenções +de Alvaro, ácerca dos rendimentos comprados.</p> + +<p>Eis aqui o que disseram Alvaro e o padre.</p> + +<p>--Que futuro será o seu, sr. Alvaro?</p> + +<p>--A continuação do presente, quando sua sobrinha não queira tirar-me +d'elle.</p> + +<p>--Minha sobrinha?!</p> + +<p>--Sim. Se minha mulher annullar a escriptura que assignei do trespasse +dos meus rendimentos por vinte annos...</p> + +<p>--Já viu o que minha sobrinha lhe diz.</p> + +<p>--Então, seremos ambos desgraçados, e eu mais de <span class='pagenum'> 206 </span> que ella, +porque fui creado na opulencia, e ella...</p> + +<p>--Na miseria: póde v. ex.<sup>a</sup> acabar a phrase que nos não envergonha. Maria +offerece a seu marido um quinhão da sua miseria.</p> + +<p>--Não entendo...</p> + +<p>--Reparte com seu marido o salario de seu trabalho.</p> + +<p>--Está zombando? Que póde minha mulher repartir?</p> + +<p>--Migalhas.</p> + +<p>--Eu não vivo de migalhas, nem queria que ella vivesse. Agradeço-lhe +esse offerecimento que me faz. Se é castigo com que me pune, bem +castigado estou, sr. frei Antonio. Diga-lhe que aos desgraçados da minha +especie perdôa-se, porque a necessidade é um supplicio infernal para o +homem que teve.</p> + +<p>--E, comtudo, a honra na pobreza rehabilita o desgraçado.</p> + +<p>--Não é n'este tempo, nem n'esta sociedade... E, de mais, eu não sou +deshonrado. Tenho gasto muito, tenho dissipado tudo, mas esse muito, +esse tudo era meu.</p> + +<p>--Tem v. ex.<sup>a</sup> orgulho do seu feito!</p> + +<p>--Tenho; tenho legitimo orgulho de ter fugido á sociedade antes que ella +me repellisse.</p> + +<p>--E se ella o abraçasse na sua pobreza?</p> + +<p>--O senhor não conhece os homens. Se os conhecesse, sua sobrinha seria +hoje a feliz virtuosa que foi.</p> + +<p>--E é, se não feliz, virtuosa... mais, pela paciencia, e pela +esperança...</p> + +<p>--Esperança!...</p> <span class='pagenum'> 207 </span> + +<p>--Esperança, sim, de o ver rehabilitado perante ella e o mundo. Ouça-me, +sr. Alvaro. Comece hoje a ser amigo de sua mulher, se póde. Verá o que é +um anjo. Verá como ella o faz esquecer da sua posição infeliz n'este +mundo. Aquelle poder de Deus, que as minhas mãos indignas não souberam +empregar na sua regeneração, verá v. ex.<sup>a</sup> o que é nas mãos da pobresinha +recolhida de Sant'Anna. Queira ve'-la, que ella não lhe fugirá. Vá +ve'-la. Não cuide que tem de pedir perdões, accusando-se de ingratidões +e crueldades. Vá como se não tivessem corrido seis annos sem se verem, +sem se escreverem. A sua salvação é ella que a tem no thesouro da nobre +alma que Deus lhe enche todos os dias de conforto e esperança...</p> + +<p>Alvaro escutára o longo discurso do padre, sem quebrar-lhe a successão +de palavras qual d'ellas mais tocante.</p> + +<p>Frei Antonio por fim, abraçando-o com carinhosa effusão, perguntou:</p> + +<p>--Vae, sr. Alvaro?</p> + +<p>--Irei, se assim o quizer.</p> + +<p>As muitas lagrimas de Maria, as de sua familia, as orações religiosas +que pediam a Jesus Misericordioso a regeneração de Alvaro, começaram a +florir, para fructos abençoados.</p> <span class='pagenum'> 208 </span> + + +<h3>V</h3> + +<p>O padre separára-se no caminho, por suppor que a sua assistencia +constrangeria Alvaro na presença de Maria dos Prazeres. Alvaro, porém, +desde que se viu só, e á porta do mosteiro, desanimou.</p> + +<p>Não foi o receio de ser accusado de ingrato e cruel que o susteve. Essas +accusações já o frade lhe tinha dito que as não ouviria. O que lhe +esfriou o alvoroço com que ia, foi um sentimento de vergonha de si +proprio. Acostumado a deixar-se sempre guiar, sem combate, pelas +primeiras impressões, boas ou más, Alvaro, depressa annuira a procurar +sua mulher, e mais depressa foi vencido pelo orgulho que lhe dizia +quanto elle ia ser pequeno diante de sua mulher.</p> + +<p>A soberba apraz-se, ás vezes, escarnecer as suas victimas, depois que as +acha despenhadas na miseria. É quando ella se converte em castigo duro, +tormento incomparavel. Em quanto rico, Alvaro, mordido pela serpente da +soberba, acudiu á dôr da chaga com o balsamo do ouro, essa alavanca +poderosa do capricho e da vingança. Pobre, a ferretoada da vibora +entrava-lhe até ao coração, e d'ahi lavrava ulcerosa, porque a miseria +constante lh'a estava descarnando sempre.</p> + +<p>Por isso o pobre orgulhoso será entre os mais desgraçados <span class='pagenum'> 209 </span> o +primeiro. Se Deus se não amercear das angustias, que espedaçam o homem +caído em miseria do alto da grandeza, o inferno das dôres +indescriptiveis estará no coração d'esse Lucifer despenhado.</p> + + +<h3>VI</h3> + +<p>Maria recebeu esta carta:</p> + +<p>«É o teu amor, ou a tua piedade que me chama, Maria? Se amor...! como +hei de eu acredita'-lo? que fiz eu que te não mereça odio? onde póde +estar esse amor, depois de seis annos de ingratidões, e esquecimento, a +peor de todas?! Esquecimento, não. Lembravas-me, Maria, e sabes quando, +e com mais amargura? Quando me sentia caír. A cada empurrão que o +destino, ou o Deus da vingança, me dava para este abysmo, era então que +eu te via, despenhada por mim, vendo-me caír; mas que differença entre +as nossas quedas! Eu a precipitar-te e um anjo do céo a erguer-te para +onde a minha alma desesperada não póde já desafogar as suas afflicções!</p> + +<p>--Não pódes amar-me, Maria, não pódes. A compaixão, se outro affecto me +não tens, essa não a acceito. Além de certo extremo de infortunio, está +o egoismo na desgraça, o desprezo da piedade vã se não é antes +humilhadora. <span class='pagenum'> 210 </span> Deixa-me esperar a mórte, n'este lodaçal em que +vivo. A esperança não póde mais entrar em minha alma. Adeus.</p> + +<p class="direita"><i>Alvaro</i>».</p> + + +<h3>VII</h3> + +<p>As lagrimas de Maria desfaziam as linhas que ella escreveu, em seguida á +leitura d'esta carta. A penna obedecia ao ardor do coração. Era a +primeira vez que ella o escutava, e lhe obedecia sem consultar primeiro +o padre.</p> + +<p>Era assim a resposta que Alvaro recebia pelo mesmo portador:</p> + +<p>«Vem, meu amigo. Deus te guie o coração que a sua divina mão abriu ao +arrependimento. Tu és ainda muito rico: do thesouro de amor que te dei, +e tu rejeitaste, não dissipei um só dos carinhos com que heide +restituir-te..., restituir-te, não digo bem, com que heide dar-te uma +felicidade nova, nunca experimentada. O infortunio fez-te bom. Tu +precisas de mim e eu hoje tenho um santo orgulho de ser a unica pessoa +que tens por ti, um coração amigo. Esse egoismo na desgraça é uma +soberba blasfema. Deus não te desamparou, meu amigo. Se de mim não +queres consolações, vem ao menos ver como eu choro a perda das tuas +esperanças.</p> + +<p class="direita"><i>Maria</i>».</p> <span class='pagenum'> 211 </span> + + +<h3>VIII</h3> + +<p>O orgulho de Alvaro succumbiu. No dia seguinte, procurou Maria. Desta +vez, não o abandonou o animo á porta do mosteiro. A primeira pessoa que +viu no pateo foi o seu mestre, o tio de sua mulher.</p> + +<p>Eram oito horas da manhã. Frei Antonio entrava no templo para +sacrificar, e convidou Alvaro a segui'-lo, porque Maria estava no côro, +e, só depois da missa, viria ao locutorio.</p> + +<p>O abstrahido moço, entrou ne egreja e ajoelhou. Maria soltára, no seio +de uma amiga, um <i>ai</i> que o denunciára. A amiga, electrisada pelas +lagrimas felizes da secular, pediu á prelada se lhe consentia que +tocasse o orgão durante a missa. Obtido o consentimento, fez soar, +magestosa de tristeza, tristeza suavissima que dulcifica as lagrimas, a +musica do <i>Te-Deum laudamus</i>.</p> + +<p>Na fronte de Alvaro eriçaram-se os cabellos: a felicidade +trasbordava-lhe do seio em lagrimas, corria-lhe o corpo o calefrio do +arrebatamento, esse phenomeno inexplicavel que tantas vezes abala as +organisações delicadas.</p> <span class='pagenum'> 212 </span> + + +<h3>IX</h3> + +<p>Soube-se logo a causa da perturbação de Maria. A prelada quiz saber +porque chorava assim. A docil senhora não podia nem devia esconder o +motivo das suas lagrimas. Pediu uma grade para receber seu marido, e a +prioreza, ensinada pelo coração que adivinhava os desejos de Maria, +pediu-lhe para acompanha'-la á grade. A mulher de Alvaro apertou-a ao +seio com alvoroço de contentamento.</p> + +<p>--Venha comigo, minha mãe,--disse ella--Eu preciso que elle ouça as +palavras que Deus manda ao seu coração. Dê-lhe a elle a felicidade no +infortunio como m'a deu a mim. Não espero que elle me dê um amor como eu +o esperava antes de experimentar as angustias do desprezo; mas se for +possivel converte'-lo ao temor de Deus, elle ha-de estimar-me, e com a +minha estima soffrerá os trabalhos da vida, sem a impaciencia que o faz +blasfemar. Oh! meu Deus! elle é tão novo e tão desgraçado! Que longa +vida de desesperação será a d'elle, se não conseguirmos mostrar-lhe que +se póde ser pobre e feliz!</p> + +<p>A prelada pediu cinco minutos de espera. Recolheu-se em oração ao seu +oratorio, e voltou com o sorriso de esperança para Maria, e a confiança +em Deus no coração.</p> + +<p>Entraram na grade.</p> <span class='pagenum'> 213 </span> + + +<h3>X</h3> + +<p>Alvaro estava em pé, com os olhos fitos na porta por onde Maria devia +entrar. A prioreza, apenas entrou com a secular pela mão, disse mui +affavelmente:</p> + +<p>--Eu não esperei que me apresentassem o sr. Alvaro para ter o prazer de +cumprimenta'-lo. Conheci n'esta casa suas tias-avós, conheci sua mãe, e +seu pae e toda a sua familia. Até conheci um anjinho do céo, que me +disseram ser esposa de v. ex.<sup>a</sup> Tratei de averiguar se era verdade. O +mundo dizia que sim, o anjinho tambem dizia que sim, e eu disse sempre +que não, porque não acho natural que o possuidor de um thesouro, vindo +do céo, o lançasse de si. Teima a minha Maria em dizer que é sua, e eu +digo que não póde ser senão de quem eu quizer. Agora é minha filha e não +póde ser sua esposa, sem que v. ex.<sup>a</sup> m'a venha pedir com todas as +formalidades de noivo.</p> + +<p>--E dar-m'a-ha v. ex.<sup>a</sup>?--perguntou Alvaro correspondendo com jovialidade +á graça risonha da prelada.</p> + +<p>--Dou-lh'a--replicou a prelada--com uma condição. Há de vir viver ao pé +de nós.</p> + +<p>--Como, minha senhora?!</p> + +<p>--Ha-de vir viver comnosco. Aposto que está lá fazendo seus entes de +razão contra a violação do claustro? <span class='pagenum'> 214 </span> Eu lhe digo, meu genro, +uma freira, que tem uma filha como esta, dá um testemunho de que se +deixou arrastar por alguma d'essas paixões feias que são a origem +d'estes anjos tão lindos! V. ex.<sup>a</sup> está-se rindo?! Então ouça-me agora +seriamente, e esta Maria, que está chorando e rindo ao mesmo tempo, +escute tambem. O sr. Alvaro vem viver comnosco, não é bem comnosco, +porque entre a nossa casa e a sua ha uma parede. Então já sabe para onde +vae?</p> + +<p><p>--Não, minha senhora; espero as ordens de v. ex.<sup>a</sup>.</p> + +<p>--Vae para casa do nosso capellão, que é um egresso chamado Antonio dos +Anjos, um santo, que foi algum tempo mestre de uma creança traquinas, +que andou por esse mundo de Christo a fazer travessuras, e me dizem que +ainda aqui ha-de vir para ser muito meu amigo, e talvez para me pedir +contas de um coração que eu, sem sua ordem, recolhi ao meu, para ambos +pedirem juntos ao Senhor das misericordias a redempção de um escravo do +mal, tão digno de ser o que eu sei; e Deus quer que elle seja.</p> + +<p>Maria rompeu em soluços e lagrimas. A prelada tomou-lhe para o seio a +face, como se afagasse uma creança. Alvaro estava immovel, com os olhos +rasos de lagrimas postos no sympathico grupo da encanecida prioreza e da +ainda formosa Maria.</p> + +<span class='pagenum'> 215 </span> + + +<h3>XI</h3> + +<p>--Assim a chorar (continuou a freira mudando para o tom jovial) não +podemos combinar as nossas escripturas de casamento, nem as precedencias +que hão de dar-se antes de se unirem os meus filhos. O sr. Alvaro ha de +estar dois mezes na companhia do nosso capellão: ha de vir todos os dias +a esta grade almoçar com a sua velha sogra e com a sua futura esposa; ha +de vir todas as tardes saber como está o rheumatismo da decrepita +prelada, e traduzir-me do francez um sermão do padre Massillon, porque +eu já não posso ler. Quando não estiver para ler á velha, ha de me +contar o que viu nas suas viagens. Para tornarmos bem amena esta santa +vida que projectamos, ha de vir para esta grade o dote que eu dou á +minha menina: é um piano, e ella ha de perder o seu natural acanhamento +e tocar umas musicas tristes que levam a consolação ao espirito, e +trazem de dentro um tributo de lagrimas aos olhos. Ora, pois, meu genro, +responda se está pelas condições que eu acabo de propor-lhe.</p> + +<p>--Minha senhora...--balbuciou Alvaro.</p> + +<p>--Não está?!--interrompeu a prelada.</p> + +<p>--Se estivesse ao pé de v. ex.<sup>a</sup>... beijar-lhe-ia essa mão, que sinto no +coração arrancando-me os espinhos <span class='pagenum'> 216 </span> que m'o rasgavam. Deixe-me +verter este pranto que é uma respiração de homem que se salva da morte +de asfixia. Respondam as minhas lagrimas, senhora, eu não posso dizer +mais nada.</p> + +<p>--Eu vos agradeço, meu Deus!--exclamou a freira erguendo as mãos, e +ajoelhando, com a face pendida para o seio. Fôra como um toque celeste o +d'aquella transição do sorriso para a humildade magestosa d'aquella +postura, em que Alvaro e Maria pareciam absorvidos, contemplando-se, e +contemplando-a, mudamente.</p> + + +<h3>XII</h3> + +<p>Fr. Antonio dos Anjos, sabendo que a prelada o mandára entrar na grade +passados alguns minutos, chegou no ensejo em que a veneranda senhora +limpava as lagrimas.</p> + +<p>--São lagrimas de felicidade...--exclamou ella--Venha compartir do nosso +jubilo, Fr. Antonio. Ahi tem o seu discipulo, que vem do mundo mais +instruido do que foi das suas lições. Traz a sciencia da desgraça, e +entende que para ser um sabio completo só lhe falta a sciencia da +resignação. Essa é que o padre capellão lhe ha de ensinar. Já sabe que o +seu quarto ha de ser mobilado por mim, e conforme fôr do meu agrado? +Pois <span class='pagenum'> 217 </span> ha de ver como uma freira caduca tem ainda o gosto +apurado. Hoje ha de remediar-se com a cama que o padre lhe der; amanhã +ha de ter um quarto que nem um palmito. Os quadros hão de ser os que a +minha filha me deu; são flôres que significam o aroma que vae da oração +até Deus; são um cãosinho que é o symbolo da amizade; é uma cruz que +significa o throno onde todas as angustias são coroadas soberanas da +gloria eterna... em fim, são obras de muito lavor e de muita paciencia, +desbotadas quasi todas pelas lagrimas. Ora pois, está tocando ao côro; +eu vou lá pedir a Deus que abençoe a escolha que fiz de um genro, e a +minha filha, que está mais para chorar, qual quer, vir enxugar essas +lagrimas aos pés da cruz, ou ficar aqui?</p> + +<p>Maria não respondeu. Frei Antonio interrogou com os olhos a vontade de +Alvaro, e conheceu-o opprimido.</p> + +<p>--Vão, vão--disse o padre--Nós voltaremos.</p> + +<p>--Maria!--disse Alvaro--eu ainda te não ouvi uma palavra. Seja só uma... +diz-me: «perdôo-te.»</p> + +<p>Maria exclamou entre soluços:</p> + +<p>--Deus sabe que nunca te accusei; se me tivesse queixado com ira, +pedia-te perdão agora.</p> + +<p>--É, pois certo, meu Deus?--disse Alvaro.</p> + +<p>--O que?--perguntou a prioreza.</p> + +<p>--É certo que é possivel a felicidade para mim?</p> <span class='pagenum'> 218 </span> + + +<h3>XIII</h3> + +<p>Alvaro da Silveira hospedou-se em casa do capellão. As suas horas eram +repartidas conforme o programma da prioreza. Frei Antonio já não ousava +confiar em si, e suffocava sempre a alegria do coração que exultava com +a rehabilitação de Alvaro.</p> + +<p>Maria, porém, acreditava-o, e a prelada tambem. Alvaro parecia feliz com +ellas, feliz com o padre, feliz com a leitura em que empregava o tempo +livre.</p> + +<p>Ninguem lhe falava no seu passado, nem elle proferia palavra que +despertasse recordações. Tambem não falava no futuro, e, se Maria +vaticinava delicias na pobreza, o melancolico moço revelava um +soffrimento doloroso como a vergonha ou como o remorso.</p> + +<p>O passadio de Alvaro era superior ás posses do egresso. Um dia perguntou +elle se a capellania consentia tanto. Frei Antonio respondeu que podia +muito o trabalho de Maria. Alvaro chorou, ergueu-se da mesa, e exclamou:</p> + +<p>--Estou punido, meu Deus!</p> <span class='pagenum'> 219 </span> + + +<h3>XIV</h3> + +<p>Alvaro, procurando Maria, disse-lhe:</p> + +<p>--Não abusarei das tuas bondades, anjo. Vivo do teu trabalho, +agradeço-te de joelhos a esmola, e não posso continua'-la a receber.</p> + +<p>Maria soltou um grito do coração e disse a Alvaro que a não matasse.</p> + +<p>--De joelhos sou eu que te peço, meu amigo--exclamou ella--que me não +abandones. Recompensa-me do muito que soffri, permittindo que eu sinta a +santa felicidade de trabalhar para nós ambos. Oh! tu não sabes avaliar +que ventura é esta! Se tivesses nascido pobre como eu, se tivesses +ajudado com o teu talento a comprar o pão de teus paes e teus irmãos, +não tinhas a crueldade de me roubar este prazer. Ó Alvaro, diz-me que é +certo viveres para mim e para a esperança de melhores dias. Diz-me que +entre a minha alma e a tua não ha uma linha de distancia que separe as +nossas ultimas migalhas de pão.</p> <span class='pagenum'> 220 </span> + + +<h3>XV</h3> + +<p>Passados dois mezes encontraram-se frei Antonio e o mercieiro que tinha +emprestado dinheiro sobre os rendimentos da casa de Alvaro.</p> + +<p>--Já sabe tudo?--perguntou o padre.</p> + +<p>--Sei tudo--disse o lojista--O rapaz está outro. Vae ver sua mulher +todos os dias, e ouvi dizer que chorava os seus peccados. Que faz elle +agora se está arrependido? Porque não tira a pobre senhora do convento? +Que se arremedeiem com pouco, e vivam juntos.</p> + +<p>--É pouco de mais o que elles têem para viverem.</p> + +<p>--Eu darei o que lhes faltar; mas requeiro debaixo de juramento que +nunca a minha protecção seja sabida por algum d'elles.</p> + +<p>Oito dias depois, Maria dos Prazeres, ou dos Anjos como a chrismaram no +convento, para que o sobrenome não fosse uma falsidade, saiu do convento +para uma pequena casa, onde seu marido a esperava com a face inundada de +lagrimas felizes.</p> + +<p>Aquelle viver dos tres era um santo frenesi de amor; Vinham compartir +d'aquella alegria o coronel, a mãe de Maria, seus irmãos, e até a +prioreza quiz acompanhar sua filha para lhe conter (dizia ella) os +impetos amorosos da lua de mel. O padre estava sempre em continua <span class='pagenum'> +221 </span> acção de graças. Ria e chorava ao mesmo tempo o bom do velho. No +arrebatamento da alegria abraçava a prelada que tinha sempre um equivoco +mui engraçado que dizer-lhe n'esses expansivos abraços: riam-se todos e +o coronel rejuvenescia da intempestiva velhice.</p> + +<p>--Quem dá os meios para esta casa?--perguntava elle.</p> + +<p>--A providencia de Deus--respondia o irmão.</p> + +<p>--D'onde vem este dinheiro no principio de cada mez?--perguntava Maria.</p> + +<p>--Da Providencia de Deus--replicava o tio ás repetidas instancias.</p> + + +<h3>XVI</h3> + +<p>Alvaro da Silveira inspirava receios de reincidencia ao padre. A sua +primeira conversão parecia sincera e firme, e o anjo do bem abandonára-o +ás presas do vicio resurgente. A segunda, semelhante á primeira, com +quanto abonada pela experiencia de duras penas, poderia, chegando ao +extremo, não vingar. Fr. Antonio temia o tempo, tremia em segredo; e não +ousava dizer os seus temores á sobrinha ou á irmã.</p> + +<p>O marido de Maria, penetrando o coração do padre, dissera-lhe:</p> + +<p>--Conheça o coração humano, meu caro bemfeitor. <span class='pagenum'> 222 </span> A minha +conversão religiosa foi um abalo que devia parar. Eu era um homem que +achava pequeno o mundo. Scismára muitas vezes na eternidade, quando +voltava com enojo as costas aos vicios satisfeitos. O meu espirito, +immergido no lodo, não podia voejar acima do que os olhos abrangiam, e +os sentidos confirmavam. Refazia-me novamente de forças para a +libertinagem, procurava-lhe com cynica avidez as faces novas e, +desesperado de encontra'-las, invocava outra vez a idéa confusa do meu +destino.</p> + +<p>«Quando frei Antonio me appareceu, a minha alma era um vacuo horrivel. +Ouvi-o, era a primeira vez que a voz de um homem respondia ás minhas +perguntas a Deus. Affiz-me a considera'-lo um justo, alteei-me onde os +seus vôos me chamavam, e sentia rejuvenescer a minha alma de viço e +alentos nunca experimentados. Maria, este anjo de Deus, fez que o meu +coração se purificasse ao mesmo tempo que o espirito se regenerava. O +amor que lhe dei, immenso e fervoroso, não era mentira; nem podia +sê'-lo, por que a mentira não se sustenta á custa do sacrificio da +liberdade.</p> + +<p>«O amor d'ella era para mim uma emanação do amor divino. No dia em que +aquella ardente fé nos divinos preceitos se entibiasse, arrefeceria +tambem o amor a sua sobrinha. Estavam vinculados ambos os affectos: +dependiam um do outro. A religião era como a lampada suspensa no meio do +templo que reflecte o seu clarão em todos os altares. Logo que se +apagou, fizeram-se trevas em todas as minhas affeições nobres, em todas, +<span class='pagenum'> 223 </span> até vergonha senti de haver tido remorso dos meus vicios. Foi +por isso que a sua presença, padre Antonio, me aborrecia, que os +conselhos de meu pobre pae me enfastiavam, e que as lagrimas de minha +mulher me levavam desde o desagrado até ao odio. Isto foi horrivel, mas +verdadeiro.</p> + +<p>«Como a luz da religião se extinguiu em minha alma, não sei. Lembra-me +que me assaltaram saudades de uma sociedade que me ridicularisava a +conversão e o casamento. Saudades de uma vida mesclada de tedios e de +alegrias. Necessidade de alargar o circulo de ferro que me apertava a +respiração. Era o crime que me visitava com todas as suas galas +perfidas. Era o anjo mau da tentação que triumphava, pintando-me +insignificante de espirito, de «fortuna», e de belleza uma mulher que +parecia violentar-me a adquirir os seus habitos mesquinhamente caseiros +e de baixa condição.</p> + +<p>«Ultrajei a minha pobre victima com o desprezo, e depois pensei que a +mataria com o abandono. Fui um infame dos infames que se não definem.</p> + +<p>«Nenhum homem experimentou affrontas semelhantes ás que eu devorei. +Todos os meus haveres hypothequei-os ao vicio, e ao crime. Nunca tive +uma alegria de alma por um punhado de ouro. Arrojava-o com desesperação +aos abysmos onde me diziam que era possivel arrancar-se das mãos do +diabo uma sentença de prazer novo. Nunca, nunca! Tocaria a ultima balisa +da indigencia, se o meu fausto não apparentasse uma riqueza. Pedi +quantias, algumas das quaes não pagarei jámais, <span class='pagenum'> 224 </span> porque estou +pobre, e outras paguei-as com o vilipendio merecido de um carcere.</p> + +<p>«Algumas vezes vi uma sombra veneranda, padre Antonio, e pavorosos +sonhos eram aquelles em que eu via minha mulher a expirar-lhe nos +braços.</p> + +<p>«Revivia-me então a necessidade de gritar pela misericordia divina; mas +o grito de contricção era suffocado por um riso blasphemo. Quando o +infortunio é superior ás forças humanas apaga-se a luz da razão, fica o +espirito na escuridade da demencia, e já não ha alma que se refugie na +esperança de uma vida melhor.</p> + +<p>«Hoje, sim, frei Antonio. Já não é uma organisação susceptivel de +impressões que obedece á eloquencia da sua palavra religiosa. Hoje é o +desgraçado, que sente no coração fendido de golpes o poder do balsamo +divino, ministrado pela mão d'aquella que victimei. O perdão da martyr é +o que me está testemunhando a misericordia do céo. Vejo n'ella a +omnipotencia de Deus: não a procuro nos livros, não a preciso da +argumentação; não quero que me combatam com o raciocinio a impiedade que +o meu coração rejeita. Creio em Deus, meu caro mestre, creio no céo, +creio no inferno, creio em tudo que preciso crer para caír de joelhos +aos seus pés, e supplicar-lhe que não duvide um momento da minha +rehabilitação.»</p> + +<p>Padre Antonio recebera-o nos braços, soluçando palavras de benção, e de +felicidade inexprimivel.</p> <span class='pagenum'> 225 </span> + + +<h3>XVII</h3> + +<p>N'um dia de 1839<a href="#nota_nt1"><sup>[NT]</sup></a>, frei Antonio é chamado a casa de Joaquim Nunes; o +lojista, antigo creado de Gonçalo da Silveira. Vae, e acha-o enfermo.</p> + +<p>--Sr. frei Antonio--disse o merceeiro--chamei-o para me ajudar a saldar +as minhas contas com o mundo, para levar diante de Deus os meus livros +de rasão sem nodoa. Estou muito doente, e não espero nada da medicina. O +que eu tenho a dizer-lhe, não é o receio da morte que m'o faz dizer. Ha +dias que eu preparava esta occasião, e oxalá que sendo a vontade de +Deus, eu sobrevivesse á resolução que tomei. Ora diga-me; como se porta +o sr. Alvaro?</p> + +<p>--Melhor do que as minhas ambições.</p> + +<p>--Já não teme que elle torne ao caminho da perdição?</p> + +<p>--Confio em Deus, não é n'elle, nem em mim, confio em Deus que não.</p> + +<p>--Elle sabe que sou eu o que lhe dou as mezadas?</p> + +<p>--Não sabe: cumpri religiosamente a sua vontade.</p> + +<p>--Deve ter dito muito mal do avarento creado de seu pae...</p> + +<p>--Nem uma palavra, desde que está em minha companhia. Parece que +confessa com o seu silencio gratidão á mão generosa que o soccorre.</p> +<span class='pagenum'> 226 </span> + +<p>--Ora diga-me, sr. fr. Antonio, envergonhar-se-ha elle de vir visitar um +creado antigo da sua casa, doente?</p> + +<p>--Ó senhor, isso é duvidar do coração de meu sobrinho; essa licença +estava eu para pedir-lh'a...</p> + +<p>--Pois que venha, e venha tambem sua mulher, desejo ve'-los, e o mais +breve que possa ser.</p> + + +<h3>XVIII</h3> + +<p>No mesmo dia, Alvaro, Maria, e frei Antonio dos Anjos visitaram o +merceeiro Joaquim Nunes.</p> + +<p>As lagrimas inexplicaveis deslisavam copiosas pelas faces do enfermo. +Maria, cuja sensibilidade respondia logo á dôr extranha, acariciou o +velho, e fez que Alvaro esquecesse a diminuta repugnancia que sentia em +afagar um homem que possuia os seus bens, e o imaginaria capaz de +humilhar-se para rehavê'-los.</p> + +<p>--Estou quasi só--disse o lojista---Tenho sido só toda a minha vida, e +agora sinto necessidade d'uma familia. Queria eu pedir á sr.<sup>a</sup> D. Maria e +ao sr. Alvaro, e ao sr. fr. Antonio que me deixassem ir morrer a casa do +filho de meu amo. Fazem-me a caridade de me acceitar em sua casa?</p> + +<p>--Deus permitta que as suas forças o deixem ir para <span class='pagenum'> 227 </span> a nossa +companhia!--exclamou a sobrinha do padre.</p> + +<p>--Poucas forças tenho; mas transportar-me-hei n'uma cadeira, e o sr. +padre Antonio tomará conta das chaves d'esta casa. O meu commercio +acabou; não devo, e os que me devem fôram riscados dos meus livros. Os +meus negocios da vida estão fechados. Agora queria morrer vendo duas +pessoas felizes ao pé de mim, e tendo á minha cabeceira um santo homem +que me ajude a pedir a Deus o perdão das minhas culpas. Se eu vencer a +doença, viveremos todos, ponto é que o sr. Alvaro tenha a bondade de +sentar á sua mesa um homem do povo que foi escudeiro de seu pae.</p> + +<p>Alvaro apertou-lhe, commovido, a mão. Maria, do outro lado do leito, +limpava-lhe com o seu lenço o suor que lhe inundava a fronte e fr. +Antonio, com palavras de jubilo, annunciava ao enfermo que não morreria +ainda para testemunhar e ter quinhão na felicidade de seus sobrinhos.</p> + + +<h3>XIX</h3> + +<p>Joaquim Nunes passou para a residencia de frei Antonio.</p> + +<p>Nos primeiros dias a sua doença recrudesceu, consequencia do abalo +physico e moral da mudança.</p> + +<p>Depois, um ar de melhora fez crear esperanças aos <span class='pagenum'> 228 </span> +facultativos. Esperanças não mentidas fôram essas, porque ao cabo de um +mez de alternativas, o enfermo entrou em convalescença, e veiu a +restabelecer-se.</p> + +<p>No primeiro dia que saíu a passeio, de sege, trouxe comsigo um +tabellião.</p> + +<p>Chamou á sua presença os consortes, e fez ler um testamento, em que +instituia Alvaro da Silveira e sua mulher seus universaes herdeiros. O +testamento foi alli rasgado e o tabellião lavrou uma escriptura de +doação de todos os seus bens a Alvaro e sua mulher, com a condição de o +alimentarem na sua companhia. As especies sommadas dos bens doados +excediam a meio milhão.</p> + + +<h3>XX</h3> + +<p>Esta dotação não alterou a felicidade d'aquella familia. Correram muitas +lagrimas de alegria, mas essa alegria era a da gratidão, era o expansivo +respirar das quatro nobres almas que alli se vincularam n'uma só +vontade.</p> + +<p>E a vontade de Joaquim Nunes respeitavam-n'a todos. Quiz elle que Alvaro +fosse viver no palacete de seu pae, quiz que revivesse o antigo fausto +d'aquella casa, quiz que a familia de Maria fosse a de todos. +Cumpriram-se os seus bons desejos.</p> <span class='pagenum'> 229 </span> + +<p>A felicidade d'esta numerosa familia é indescriptivel. Até 1849, em que +todos viviam, nenhum d'aquelles semblantes fôra annuveado pela tristeza.</p> + +<p>Alvaro é um modelo de honra. Frei Antonio um santo, que está +constantemente agradecendo ao Senhor o galardão de tamanhas angustias. +Maria, a amiga intima da baroneza de Amares, como o leitor a veria no +HOMEM DE BRIOS, é um anjo que anda em cata de soffrimentos para +consola'-los. Joaquim Nunes no centro d'aquella familia, é um homem +adorado, que, em 1849, jogava a bisca de nove com o coronel.</p> + +<p>Bemdito seja Deus que tem estes apostolos a glorifica'-lo na terra!</p> + +<p class="centrado">FIM</p> + +<p class="footnote"><a name="nota_nt1">[NT]</a> Nota de Transcrição: No original aparece 1839, apesar de não estar +coerente com a linha temporal do romance. O ano de 1849 é referido mais +adiante na obra pelo que deve ser esta a data correcta.</p> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's Lagrimas Abençoadas, by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LAGRIMAS ABENÇOADAS *** + +***** This file should be named 22977-h.htm or 22977-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/2/9/7/22977/ + +Produced by Manuela Alves e Pedro Saborano. (produced from +scanned images of public domain material from Google Book +Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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