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+The Project Gutenberg EBook of Lagrimas Abençoadas, by Camilo Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+
+Title: Lagrimas Abençoadas
+
+Author: Camilo Castelo Branco
+
+Release Date: October 12, 2007 [EBook #22977]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LAGRIMAS ABENÇOADAS ***
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+
+Produced by Manuela Alves e Pedro Saborano. (produced from
+scanned images of public domain material from Google Book
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+Nota do transcritor:
+
+ Foram corrigidos diversos erros tipográficos menores, sem que seja
+ feita qualquer menção desse facto. As marcas [NT] identificam as notas
+ explicativas das alterações importantes ao texto original.
+
+
+OBRAS
+
+DE
+
+CAMILLO CASTELLO BRANCO
+
+EDIÇÃO POPULAR
+
+LI
+
+LAGRIMAS ABENÇOADAS
+
+
+VOLUMES PUBLICADOS
+
+N.^o 1--Coisas espantosas.
+
+N.^o 2--As tres irmans.
+
+N.^o 3--A engeitada.
+
+N.^o 4--Doze casamentos felizes.
+
+N.^o 5--O esqueleto.
+
+N.^o 6--O bem e o mal.
+
+N.^o 7--O senhor do Paço de Ninães.
+
+N.^o 8--Anathema.
+
+N.^o 9--A mulher fatal.
+
+N.^o 10--Cavar em ruinas.
+
+N.^os 11 e 12--Correspondencia epistolar
+
+N.^o 13--Divindade de Jesus
+
+N.^o 14--A doida do Candal.
+
+N.^o 15--Duas horas de leitura.
+
+N.^o 16--Fanny.
+
+N.^os 17,18 e 19--Novellas do Minho.
+
+N.^os 20 e 21--Horas de paz.
+
+N.^o 22--Agulha em palheiro.
+
+N.^o 23--O olho de vidro.
+
+N.^o 24--Annos de prosa.
+
+N.^o 25--Os brilhantes do brasileiro.
+
+N.^o 26--A bruxa do Monte-Cordova.
+
+N.^o 27--Carlota Angela.
+
+N.^o 28--Quatro horas innocentes.
+
+N.^o 29--As virtudes antigas--Um poeta portuguez... rico!
+
+N.^o 30--A filha do Doutor Negro.
+
+N.^o 31--Estrellas propicias.
+
+N.^o 32--A filha do regicida.
+
+N.^os 33 e 34--O demonio do ouro.
+
+N.^o 35--O regicida.
+
+N.^o 36--A filha do arcediago.
+
+N.^o 37--A neta do arcediago.
+
+N.^o 38--Delictos da Mocidade.
+
+N.^o 39--Onde está a felicidade?
+
+N.^o 40--Um homem de brios.
+
+N.^o 41--Memorias de Guilherme do Amaral.
+
+N.^os 42, 43 e 44--Mysterios de Lisboa.
+
+N.^os 45 e 46--Livro negro de padre Diniz.
+
+N.^os 47 e 48--O judeu.
+
+N.^o 49--Duas épocas da vida.
+
+N.^o 50--Estrellas funestas.
+
+N.^o 51--Lagrimas abençoadas.
+
+
+
+CAMILLO CASTELLO BRANCO
+
+
+LAGRIMAS ABENÇOADAS
+
+
+ROMANCE
+
+
+QUARTA EDIÇÃO
+
+1906
+
+Parceria Antonio Maria Pereira
+
+Livraria editora e Oficinas Typographica e de Encadernação
+
+Movidas a electricidade
+
+_Rua Augusta--44 a 54_
+
+LISBOA
+
+
+1906
+
+OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO
+
+Movidas a electricidade
+
+Da Parceria Antonio Maria Pereira
+
+_Rua Augusta, 44, 46 e 48, 1.^o andar_
+
+LISBOA
+
+
+
+
+A QUEM LER
+
+
+QUE FELICIDADE É POSSIVEL SOBRE A TERRA: tal é o pensamento d'este
+romance.
+
+QUE FELICIDADE, CONFESSADA PELA CONSCIENCIA, É A UNICA VERDADEIRA:
+quizera eu poder provar, assim como posso sentir.
+
+QUE A FELICIDADE VEM A PREÇO DE LAGRIMAS, COMO A CONSOLAÇÃO DO
+SALVAMENTO A PREÇO DAS AGONIAS DO NAUFRAGIO: é um paradoxo, talvez, para
+os que não conhecem a verdadeira felicidade, nem choraram as lagrimas
+abençoadas da resignação.
+
+Este romance é religioso na essencia. Escreve-se ahi muitas vezes a
+palavra DEUS. Evitam-se as imagens do deleite, o pasto de ociosos,
+gastos do coração, e fallidos da alma. Os que buscam no romance qualquer
+cousa que não sirva de nada para o espirito, não leiam este.
+
+Eu espero achar entendimentos que m'o recebam, e corações que m'o
+agradeçam.
+
+Vereis ahi uma mulher, que não é uma chimera. Imaginei-a, primeiro, e
+encontrei-a fóra da imaginação, depois.
+
+Maria, linda creatura da terra, é a rainha de dois diademas: um no céo:
+os anjos, seus irmãos, tecem-lh'o das flores, que ella rega no mundo com
+as suas lagrimas. Outro na terra: é a soberania da virtude, respeitada,
+embora não compreendida, pelos homens que lhe acurvam o joelho.
+
+Eu sou um d'estes.
+
+E o meu romance é uma palavra d'esse cantico de louvor, que o espirito
+não póde revelar aos que, no seu caminho, não parariam a
+compreender-lh'o.
+
+Meditemos este assumpto.
+
+Ha ahi n'esse mundo material uma decidida negação para acompanhar o
+espirito nas suas elevações. Eu sei-o.
+
+Um ou outro homem encosta a face á mão, abraça os horisontes com uma
+vista scismadora, afina a harpa da sua alma pela toada sonorosa dos
+pinhaes; compõe das notas lugubres da tempestade a harmonia tetrica, e
+desfigura-se, e poetisa, e parece não querer nada de commum com a fraca
+natureza humana. É o sentimental.
+
+O sentimentalismo, sem a religião, é uma mentira.
+
+O que ahi vae de phantastico e espiritualista nos affectos, é uma
+exigencia da epoca, é um encargo que a mocidade se impoz, é a precisão
+de variar. Diga-se tudo: é a moda.
+
+Não porque a vida seja feliz, e a natureza do homem precise inventar
+amarguras, para que a felicidade o não enjoe;
+
+Não porque o espirito, extenuado em sensualidades procure, no ideal,
+respirar o elemento de vida, que lhe é proprio;
+
+É porque as felicidades, saboreadas n'estes tempos não deixam no coração
+motivo para um hymno. O homem, que não póde apagar na mente a faisca do
+genio, que lhe desceu ao berço, ou mata a inspiração na orgia, ou
+abysma-se com ella, por feretros e ossadas até materialisa'-la nas
+fórmas repugnantes de uma dor monstruosa.
+
+E, se assim não fizer, o seu alaúde não tem sons, e o genio fallece-lhe
+de impotencia. Mas o poeta quer este titulo; cantor quer a grinalda das
+flores em troca da corôa de espinhos; é preciso cantar.
+
+Se lhe pedisseis, em vez de horrores, uma poesia banhada de luz celeste,
+em que os mil reflexos de cima fossem as virtudes possiveis no mundo...
+
+Se lhe pedisseis, em vez da pagina sempre negra da sua vida, as
+alvissimas alegrias de uma virgem, que, a fugir de um mundo, que se lhe
+pinta ingrato á sua alma candida, se refugia aos pés de Maria, Rainha
+das Virgens, a pedir-lhe o céo, como repouso inviolavel da innocencia...
+
+Se lhe pedisseis a doçura das lagrimas da pobre, que aconchega seus
+filhos n'um envoltorio de andrajos, e ajoelha depois, entregando-os á
+Providencia, para que, ao amanhecer, não sejam muito repetidos os seus
+gritos de fome...
+
+Pedi.
+
+O poeta ha-de dizer-vos que a luz do céo é esse oceano de luz, que banha
+a terra, quando as arvores florescem e as arvores saudam ao alvorecer um
+sol esplendido.
+
+Ha-de falar-vos da virgem, arfando esperanças no seio immaculado, mas
+esperanças todas d'aqui, todas embalsamadas pelo incensorio das paixões
+terrenas.
+
+O pobre, esse que vale bem a pena de uma poesia, de uma pagina de
+romance, é sempre a victima da má organisação social, e de uma mentirosa
+economia politica. Vê'-lo-heis invectivar o rico, com toda a iracundia
+de uma inoffensiva estrofe; mas o pobre que continua nas palhas da
+miseria, esse não recebe uma consolação em nome do futuro, do céo, e das
+promessas de Jesus Christo. É sempre o pobre recrutado para as fileiras
+que guerreiam o rico.
+
+Eu pensei, uma vez, na vastidão de assumptos sobre que o sceptro do
+talento extende o seu imperio. Chamando á reminiscencia o acervo de
+leituras recreativas, que fiz, durante alguns annos, entrevi nos meus
+tempos nebulosos o muito tempo consumido, os muitos volumes folheados, e
+não poderei classificar-vos, em synopse de idéas, uma só que me
+prestasse ao espirito, ou ao coração, ou á cabeça.
+
+Aprendi o desengano no romance, antes que a sociedade m'o desse.
+
+Libei na poesia do seculo a mentira, antes que o coração contaminado m'a
+inspirasse.
+
+Aborreci-me de mim e das minhas leituras, como se o livro e a poesia
+fossem um sarcasmo para quem nas más horas, lhe mendiga espairecimentos
+para o espirito.
+
+Vislumbravam-me no escuro das minhas idéas religiosas uns clarôes
+pallidos do que o romance e a poesia deveriam ser para adoçarem muitos
+infortunios. Mas, que me pedissem a idéa formulada no livro! Faltava-me
+a convicção das virtudes do balsamo para saber applica'-lo á ferida.
+
+Não tinha eu provado ainda as doçuras da religião para sentar-me com a
+taça do Evangelho, á borda do caminho, e dizer ao peregrino cançado:
+
+Bebe!......................................
+
+Dão-vos tedio estas minhas considerações? Não são vaidosas. Eu juro-vos
+que me doeria muito se uma verdade, esboçada com amplos contornos, não
+valesse mais que uma mentira, alinhada com o ouropel de um desusado
+estylo.
+
+O que está dito é o prefacio do meu romance. Duas palavras resumem-n'o
+laconicamente n'uma idéa conceituosa.
+
+Sei em que tempo escrevo, e comtudo, ouso nos estreitos limites de que
+posso dispôr, ajustar em molde christão um genero, raras vezes assim
+tratado, quer pela costumeira da forma, quer pelo estylo, quer pelas
+leis da escola.
+
+Escrevo um romance, ou antes descanto em prosa uma virtude, porque não
+desafinarei, em quanto possa, a lyra em que fiz soar algumas poesias,
+unicas de que me não culpo, nem arrependo. As outras...
+
+Se eu pudesse avaliar a vossa opinião, consolava-me de não ser enganado
+pela minha consciencia de christão e de artista.
+
+Porto--em 1853.
+
+
+
+
+LAGRIMAS ABENÇOADAS
+
+
+
+
+LIVRO I
+
+
+I
+
+Disseram muitos dos que estavam em redor de uma creancinha, na pia do
+baptismo, que na face d'ella havia uma luz mysteriosa, como a projecção
+de um cirio invisivel, que, n'aquelle instante solemne, allumiasse, nas
+mãos de um anjo, as cerimonias do sacramento augusto. Visão de boas
+almas.
+
+Era uma menina de nove dias.
+
+Sua madrinha era Nossa Senhora da Conceição, fulgurante de mil lumes, no
+seu docel de seda e prata, com as mãos cruzadas sobre o seio, com os
+olhos extaticos no céo, como seguindo o trilho de estrellas por onde,
+aos pés do Eterno, voejava o anjo da ANNUNCIAÇÃO.
+
+Seu padrinho era um duque, vestido de ouro, com as suas insignias de
+general em chefe, com o seu thesouro de condecorações guerreiras a
+cobrirem-lhe o peito, onde pulsava sangue de reis, que não valia mais,
+por isso, em coração de homem.
+
+Seu pae era um coronel, fidalgo dos que primeiro o foram n'esta terra,
+valente como o primeiro e o ultimo da sua linhagem, e honrado como
+aquelle de seus avós, que morrera desterrado, em Tanger, por não
+denunciar o que lhe fôra amigo desleal, embora traidor ao rei D. João
+II.
+
+Era o coronel... que vos importa o nome?!...
+
+Sua mãe nascera dama de D. Maria I, crescera mimo de galanteria e
+docilidade, emancipára-se donzella de todas as virtudes, casára-se,
+mulher, exemplo das mais santas affeições de um marido, e fôra mãe como
+póde se'-lo a mulher, depois que a Virgem Maria alimentou um filho,
+depois que Jesus Christo rehabilitou a fascinada da serpente, depois que
+a filha de Eva entrou no seu reconquistado Eden, a colher a flor da
+dignidade, regada pelo sangue do filho de Maria.
+
+
+II
+
+Este dia, jubilo de anjos, para os quaes os orvalhos do céo, fecundando
+as aguas do baptismo, geram na terra um irmão; jubilo de seus paes, que,
+depois de quatro filhos, tinham um novo penhor de innocencia para, em
+seu nome, agradecer, com labios puros, as esmolas do céo; jubilo da
+egreja catholica, que estremece de felicidade, quando entra em seu seio
+um filho, que lhe gosta o leite da virtude, como sustento da
+immortalidade: este dia amanheceu em 1827.
+
+Maria era o incentivo de tanta alegria. Nos braços de sua mãe, com o seu
+olhar errante pelas faces desmaiadas d'ella, que parecia sorve'-la com
+os seus beijos, como se aquelles fossem os ultimos; Maria, a afilhada da
+Senhora da Conceição estava alli asseverando o que tantos diziam da luz
+mysteriosa, que na pia do baptismo, lhe illuminava a face.
+
+A pureza dos anjos, não será como a santidade do predestinado!? E o
+justo, na ultima hora da sua passagem na terra, quando o anjo da
+serenidade lhe alveja o rosto com as suas azas transparentes, não será
+como a creancinha immaculada, cuja alma vem brincar-lhe ao rosto com
+toda a pureza e innocencia, que o halito creador lhe bafejou!?
+
+A mãe de Maria chorava e as suas lagrimas desconsolavam o pae, que as
+não queria ver n'aquelle dia, n'aquella hora, tão faustosa, tão de gala
+para os parentes, que se abraçavam em redor do leito.
+
+Mas fossem calar-lhe o presentimento no coração! Digam á flôr que não
+penda amortecida sobre a haste, quando o sol se esconde! Digam ás
+lagrimas, que estanquem nos olhos, quando o que chora não sabe d'onde
+ellas nascem, nem o que contempla sabe a linguagem do espirito, para
+consola'-lo em seus presentimentos sobrenaturaes!
+
+Porque é que aquella mãe não buscava o allivio no sorriso de seu marido?
+Porque não olha ella para os seus? Que é tão consolador ahi como a
+presença de um marido amado, quando a fraca mulher quer desafogo?
+
+Não bastam allivios do mundo para essas ancias.
+
+Deus! sim, para todas as afflicções, para todos os presagios, para todos
+os temores, para todas as mães que vaticinam desventuras a suas filhas!
+
+Deus! E na sua imagem é que aquella mãe fitava os olhos. Depois, ao lado
+de Christo, estava outra imagem: era Nossa Senhora da Conceição. Que lhe
+dizia aquella pallida mulher, com sua filhinha nos braços? Ouviram-lhe
+só as derradeiras palavras:
+
+«Minha Mae Santissima! entrego-vos a vossa afilhada!»
+
+Viram um sorriso nos labios de Maria. Seria um acto maquinal dos labios?
+Porque é que os adultos não sorriem maquinalmente?... Lisongeiras
+duvidas para o homem que pensa nos segredos do homem.
+
+
+III
+
+Decorreram sete annos.
+
+Eu não devo aqui pintar um quadro de guerra. Seria salpicar de sangue a
+tela onde me propuz traçar uma figura grandiosa, com o colorido suave da
+religião. Abomino a historia, se é força lembra'-la a testemunhas
+oculares. Ha ahi muitos escolhos que ludibriam os mais atilados pilotos.
+Escandecencias politicas não se refrigeram com o orvalho do céo. Se do
+pulpito o hyssope muitas vezes as exacerba, que fará d'aqui?!
+
+E tomára eu que estas linhas, pallido reflexo do que ha de
+incommunicavel no meu coração, accendessem o amor de Deus, apagando a
+flamma das inimizades humanas! Tomára eu lagrimas e dó, e paz e
+esquecimento para os homens, que não devem aqui encher uma pagina de
+odio n'um livro que aconselha a resignação. Durmam uns e outros o breve
+somno, que vae do anoitecer da vida á alvorada do archanjo.
+Ver-nos-hemos em volta do juiz, que, nos seus dias de réo entre a
+humanidade pervertida, dissera:
+
+«Só a mim pertence julgar os bons e os maus!»
+
+Bemaventurados os que esperam.
+
+
+IV
+
+1834!
+
+Foi um anno de muitas lagrimas. Debaixo d'este formoso céo esperdiçou-se
+muito sangue. As espadas terçavam por duas causas, quando dois corações
+do mesmo sangue, na vanguarda de dois exercitos irmãos, anciavam
+aniquilarem-se. E, se, após o ruido das armas, se fazia o silencio
+tetrico da morte, prorompiam depois os gritos das mães, das viuvas e dos
+orphãos. Paiz, onde esta harmonia de angustias se levanta de milhares de
+labios para o céo, prova-se no supremo infortunio, e symbolisa o
+holocausto de uma vingança tremenda.
+
+Tremenda... como a de Gaza e Moab!
+
+«Que é dos teus edificios de marmore, cidade dos obeliscos!?» dizia o
+propheta das lagrimas.
+
+Não vedes em Portugal os fustes das columnas dispersas na ruina dos
+grandes edificios?
+
+Não vedes!--Pois que tem esta terra de commum com Moab e Gaza?
+
+Que tem?!
+
+O enviado de Deus responderia:
+
+«Que é dos teus edificios de virtude, terra da honra e da probidade?»
+
+«Que importam os coruchéos de vossos palacios, Balthazares do tempo, se
+lá não está a cruz veladora das felicidades da vida?!»
+
+ * * * * *
+
+Mãe de Maria, porque choravas tu?
+
+As tuas lagrimas já não eram um mysterio;
+
+ * * * * *
+
+
+V
+
+Uma vez, a esposa do coronel, com sua filhinha de sete annos, ajoelhava
+diante da imagem da Senhora da Conceição e murmurava esta prece:
+
+«Virgem Maria, nunca a vossos pés caíram mais afflictas lagrimas!
+Attendei-me, Senhora, que eu sou uma fraca mulher, mãe de cinco filhos,
+esposa de um homem, que é o amparo d'esta pobre familia, que vos
+ajoelha! Vêde, ó Mãe dos afflictos, que o tumulo de meu marido é o
+tumulo d'estes orphãos, e o d'esta mãe desvalida, que não tem um palmo
+de terra onde possa regar com suas lagrimas um fructo, que mate a fome
+de seus filhos. Protegei-o, ó Senhora, n'esta guerra desastrosa, em que
+a cada instante cáe um pae de familia, tão desgraçada como a minha! Eu
+não vos peço as honras, e a subsistencia que meu marido ganhára no
+serviço da sua patria: o que eu vos peço é muito mais... é a vida de meu
+marido, mas só a vida, sem a gloria de vencedor, sem o premio do seu
+sangue derramado, sem mais outra riqueza que a do coração que elle tem,
+e a resignação com que vós, consoladora do infortunio, e eu, esposa
+extremosa, lhe adoçaremos a desgraça! Os labios da vossa afilhada não
+murmuram a oração de sua mãe, mas o seu coração é aquelle que vós lhe
+déstes ha sete annos! Eu vos supplico em nome d'ella. Fazei que estes
+olhos não sintam tão cedo o travo das lagrimas, que chora sua mãe!
+Piedade para todos nós!... amparo para meu marido... compaixão para
+todas as mães atribuladas, que, n'este momento, vos pedem, como eu, a
+vida de seus maridos...»
+
+E era esta a oração que os suspiros não poderam cortar. Assim simples e
+angustiada, confirmava a verdade de uma grande dor que não escolhe
+palavras, nem se atavia das pompas do estylo. Quem orou n'um d'estes
+lances, sublimes no tormento, pela explosão da agonia com que se
+refugiam no céo, compreenderá o cunho pungente, marcando a mais
+insignificante d'essas palavras, que proferiam os labios febris da
+mulher consternada entre seus filhos.
+
+E, depois, a mãe de Maria foi deitar sua filha, e, acalentando-a,
+estremecia ás vezes, como se os accessos de uma convulsão a não
+deixassem aquietar-se ao lado do seu anjo. É que a cada trom remoto da
+artilharia, nas linhas de Lisboa, aquella afflicta esposa de um homem de
+guerra sentia o véo da viuvez descer-lhe na face, e o luto da orphandade
+envolver aquellas cinco existencias, para nunca mais se mostrarem no
+mundo com direito a serem amadas por alguem. E os outros quatro meninos
+aconchegavam-se no regaço d'ella; fitavam-n'a, como os passageiros de um
+barco em perigo fitam o semblante do homem a quem se confiaram; e, no
+choro, modelado pelos gemidos de sua mãe, compunham uma consonancia de
+vagidos, e brados, e soluços. Quando assim se soffre, a indifferença do
+Eterno seria um cruel desengano para os infelizes, que se acolhem ao
+abrigo das suas misericordias... Não haveria Deus: a justiça divina
+seria uma astucia humana.
+
+A oração é um respiradouro de espirito, quando a mão da desventura o
+comprime até lhe abafar a derradeira esperança na terra. A oração não
+tem nada com este mundo. Pedir a justiça do céo para as injustiças da
+terra e renunciar a toda a vingança, é pedir a felicidade de nossos
+inimigos, porque Deus é misericordioso, e não precisa de fulminar o
+poderoso para vingar o fraco. Orar é caír de joelhos, e muitas vezes não
+articular dois sons de uma supplica: é não atinar com a linguagem de
+falar a Deus, porque a sciencia do mal, exclusiva do homem, só inspira
+ao desgraçado expressões para que os homens o compreendam. Aquella mãe
+afflicta, quando orou, orava assim. Seu marido com o peito na frente de
+regimento era o alvo das balas inimigas. Na sua frente um outro coronel,
+escravo das suas convicções, da sua honra talvez, e pae de familia
+tambem, ouvia o zumbir da metralha, como halito da morte a afflar-lhe os
+cabellos. Mas a mãe de Maria pedia por ambos; e, quando a oração assim é
+feita, o espirito de Deus está nos labios do que ora.
+
+Enxuga as tuas lagrimas, sorve as de teus filhos com teus beijos, mãe e
+esposa, que o pae d'essas creanças, o homem, que traz no coração os
+alentos de que te sustentas no mundo, não ha de a bala ou a espada
+cortar-lhe os vinculos a que prendeste a tua melindrosa existencia.
+
+Não ha de, que teu marido entrou na guerra de irmãos com o coração
+enlutado, como em arena fratricida, e, ao ouvir o som rispido da
+trombeta que mandava morrer matando, muitas vezes eleva ao Senhor o
+espirito atribulado, supplicando-lhe a reconciliação dos portuguezes.
+
+Não ha de, que, nas vesperas angustiosas de uma peleja, teu piedoso
+marido, refugiando-se dos cabos de guerra que tripudiam e blasphemam
+farejando o sangue da carnagem do dia seguinte, ergue as mãos ao Senhor,
+supplicando-lhe que acceite no regaço da sua misericordia, uma viuva
+desvalida, filhinhos desamparados, aos quaes a mão do vencedor não
+extenderá mão esmoler, seja qual fôr o triumphante.
+
+Não ha de, atribulada mãe e esposa, porque as paixões clamorosas dos
+impios não ensurdecem o céo aos rogos de um justo, que lava com lagrimas
+cada gota de sangue de irmãos que lhe salpica a farda.
+
+Expande o teu coração opprimido no seio de Deus, dolorida mãe.
+
+Deixa rugir lá fóra o phrenesi dos odios civis, e acolhe-te, mulher
+cortada de agonias, acolhe-te ao refugio da religião, respira ahi em
+lagrimas a oppressão que os meigos carinhos de teus filhos não podem
+consolar-te.
+
+Ao mesmo tempo que oras no meio d'elles, o coração de teu esposo comtigo
+se ala para a região serena da paz e bemaventurança eterna. Sois duas
+almas puras que se encontraram na terra, juntas ascendem a Deus na
+oração, juntas hão de compartir as amarguras da pobreza, juntas hão de
+receber a corôa triumphal no dia marcado á recompensa dos que choram na
+terra.
+
+Assim lhe segredava o anjo da resignação alentos que a faziam confiar no
+regresso de seu marido. Rodeada de seus filhos, a esposa do coronel,
+fantasiava com Maria as venturas, que, ainda na pobreza, podem deliciar
+corações enriquecidos pelos dons da amizade. Maria, tão joven e
+innocentinha, compreendia as alegrias de sua mãe, e respondia a ellas
+festejando a volta de seu pae, como se elle viesse já caminhando a
+indemnisar-se dos trabalhos no goso da paz, no amor santo da familia,
+nas donosas alegrias de uma obscuridade feliz.
+
+Mas estas esperanças eram a cada hora desvanecidas pelas más novas que
+vinham do campo da batalha. O sobresalto da pobre mãe era constantemente
+despertado aos trons da artilharia que jogava nas linhas de Lisboa.
+
+
+VI
+
+O coronel... (já não era coronel) o homem da honra e da coragem
+amanheceu um dia á porta de sua mulher. Trazia nas faces aquella magreza
+livida que o sopro das batalhas, e o enervamento da fome estampam no
+rosto do vencedor, e do vencido. Vencido era elle. Não trazia espada,
+que a pureza, não aos pés do vencedor, mas sobre a acta de uma
+capitulação, deixára ao bravo a consciencia da sua intrepidez. Nem uma
+lagrima lhe escapou involuntaria dos olhos, quando, exauctorado e
+desvalido, se collocou entre os derradeiros thesouros que lhe restavam:
+sua esposa, e seus cinco filhos. Esses, sim, eram d'elle, eram de seu
+coração como a virtude, emanação de Deus, é quasi sempre o unico
+patrimonio do virtuoso.
+
+E é por isso que não houveram lagrimas, que assombrassem n'aquelles
+labios o jubilo do sorriso. É por isso que paes e filhos caíram de
+joelhos; e, no silencio de seus corações, Deus sabe a acção de graças,
+que lhe subira aos pés de seu throno n'aquellas extaticas elevações de
+alegria reconhecida.
+
+Ao levantarem-se, abraçaram-se, uma e muitas vezes; e quando as palavras
+venceram a suffocação da surpresa, uma só voz, a de todos, exclamou:
+
+«Somos muito felizes! Bemdito seja Deus!»
+
+
+VII
+
+Caír de elevada jerarchia, quando os braços da religião não amparam o
+infeliz na queda, deve ser morrer!
+
+Altearmo'-nos a despeito de muitos, que não podem voejar tanto acima, é
+provocar-lhes a inveja. Olha'-los em baixo, quando nos cospem o fel da
+inveja, deve ser-lhes o maior dos castigos; mas, se d'ahi a mão de Deus
+nos atira ao raso dos invejosos, se a desgraça nos marca, no meio
+d'elles, um circulo onde rodar com o peso de affrontas, que a nossa
+arrogancia enfardára... tal vida é a preexistencia do inferno.
+
+Ha tres remedios para alliviar angustias de tal lance:
+
+A resignação;
+
+O cynismo;
+
+O suicidio.
+
+A resignação não é só o amparo d'aquelle que resvala no precipicio das
+honras d'este mundo; é mais: a resignação não deixa caír o homem, que
+olha sempre, com temor, o despenhadeiro, em que de ao pé de si se
+abysmaram colossos, e ruiram edificios fundados sobre areia. Levantado
+pela Providencia, o homem, que teme a Deus, não se julga, no vertice das
+glorias, posto ahi pela mão do destino. Quem lhe promette o dia de
+ámanhã, vinculado aos acontecimentos de hoje? Quem lhe diz hoje que a
+taça do seu mel ha de ámanhã trasbordar de lagrimas? Quem affiança á
+aguia, dominadora dos espaços, que, de mais alto, o açor se libra para
+abate'-la nas urzes?
+
+E, quando a nuvem do infortunio escurece aquellas alegrias, que formavam
+o cortejo da nossa riqueza:--quando a sociedade nos retira os
+contentamentos, vendidos pelo ouro, que perdemos... quem é esse destino
+que accusamos? onde existe essa mentirosa fatalidade que nos humilhou?
+onde encontraremos o primeiro acaso, que nos felicitára, e o segundo que
+nos empobrecera? Não ha lagrimas que suavisem as ferocidades da _nossa
+sina_, nem ameaças que a forcem a desmentir-se? Será obrigatorio o
+punhal ou o veneno, porque _estava escripto o meu suicidio_!?...
+
+A providencia é a acção da Divindade.
+
+O grande da terra julgára-se grande na terra pela providencia. Era um
+magestoso edificio aos olhos da humanidade, e fragil barro entre as mãos
+de Deus. Quando o sopro da desventura lhe assolou as columnas, o grande,
+só, e proscripto das ovações, _em que elle fôra o menos laureado_, era
+ainda o grande na desgraça, na esperança, na humildade, na renuncia, e
+na confiança.
+
+Esperava... o tumulo, e antes d'elle um saldo de contas com o mundo,
+onde o rico deixa debitos enormes a solver.
+
+Humilhava-se diante Deus, que o abatera, não como um cego destino, mas
+como um decreto, sanccionado no céo, cumprido na terra, e explicado no
+dia das tremendas explicações dos mysterios, incompreensiveis aqui.
+Humilhava-se diante dos homens que nunca humilhára; diante d'aquelles,
+que puderam abandona'-lo, mas não escarnece'-lo pelo seu passado
+orgulho.
+
+Renunciára quantas prerogativas o seu ouro lhe dera na sociedade;
+quantas pompas lhe caíam ao encontro na sua estrada de flôres; quantas
+esperanças idealisára, que mais o engrandecessem, na perspectiva do
+mundo, sem adulterar as mercês do Creador.
+
+Confiava na humildade da oração, no pão de cada dia, no repouso
+providencial de cada noite, porque no mundo nenhuma existencia vira
+abandonada, nem a da ave que se levanta com a aurora, e louva ao
+Creador, e vae procurar o alimento, que não deixou de vespera.
+
+
+VIII
+
+Não é assim o cynico.
+
+Herdára um thesouro que seus paes lhe prepararam; e preparára elle em
+seu coração todos os elementos para augmenta'-lo.
+
+Que o ouro augmenta, quando é lançado no cadinho da perversidade. E o
+coração, ferido de avareza, é um segundo thesouro para quem herdou o
+primeiro. O mais efficaz instrumento da caridade, o ouro, nas mãos do
+avaro, converte-se em ferro de dois gumes: um que lhe entra no proprio
+coração, outro no coração que lhe pede o obulo.
+
+É assim o cynico.
+
+Em cada degrau da sua escala de grandeza espirrava o sangue das faces
+que calcava. Entre elle, e um circulo de victimas, que o rodearam,
+fascinadas pelo brilho da sua auréola, erguia-se o anteparo da
+irreligião.
+
+Quem lhe déra o sorriso feroz fôra a impiedade.
+
+Quem lhe alimentara as ancias de cevar-se em gosos, adubados em lagrimas
+e sangue, fôra a impiedade.
+
+Quem lhe segredára os derradeiros segredos do crime, para que o enojo de
+crimes repetidos lhe não esfriasse o amor sordido da vida, fôra a
+impiedade.
+
+Quem lhe disséra que no tumulo para dentro não ha pobres para repellir,
+nem corôas de virgem para desfolhar, nem faces lagrimosas para cuspir,
+nem amigos para vender a inimigos, fôra a impiedade.
+
+
+IX
+
+E, depois, a mão de Deus despenhou o cynico.
+
+No tremedal, onde caíra, roeram-n'o os vermes dos cadaveres que elle
+fizera.
+
+E riu-se.
+
+Cobriram-n'o os improperios, e os sarcasmos de tantos, que elle
+enxovalhára, sacudindo-lhes ás faces a lama das ruas com as rodas do seu
+carro insultuoso.
+
+E riu-se.
+
+Teve que aceitar uma esmola, que, por escarneo lhe lançou ao chapéo um
+d'aquelles que lh'a pedira, em vão, anceado de fome.
+
+E riu-se.
+
+Bateu á porta de seus creados, que medravam nas prodigalidades do amo:
+pediu um bocado de pão, e responderam-lhe de dentro com uma gargalhada.
+
+E riu-se.
+
+Este é o cynico.
+
+E quando lhe aconselharam o suicidio, riu-se, e riu até morrer porque a
+morte de cynico é uma risada na blasphemia.
+
+
+X
+
+Lamentae o suicida, porque a sua ultima hora foi uma lucta horrivel
+entre a desesperação, a incerteza, e, talvez a saudade.
+
+Ao ver-se pobre no mundo, considerou-se o homem sem vida social; mas a
+vida physica, onde as frechas do desprezo lhe rasgavam até o coração,
+era-lhe uma algema insoffrivel a maneata'-lo ao poste da vergonha.
+
+Feliz pelo destino, ou desgraçado pela fatalidade, o Lucifer, despenhado
+d'este céo da terra, que a impiedade lhe deu, optou pelo tumulo entre
+duas idéas: pobreza e impotencia.
+
+Impotente para vencer a sociedade que lhe não restituia o seu ouro, o
+desesperado, aborrecendo a morte tanto como a vida, crava-se um punhal,
+que nem elle sabe se o vinga dos homens, se o deita no tumulo, se o
+sacrifica á justiça de Deus.
+
+O atheu pensára longas horas antes de erguer-se o patibulo; mas, nos
+seus ultimos instantes, não era philosopho: era um algoz.
+
+A desesperação enervára-lhe o entendimento, e robustecera-lhe o braço.
+
+O cutello, no braço do algoz, não tem nada com o espirito. Um e outro
+são machinas de morte.
+
+
+XI
+
+E o coronel ***, e sua esposa, e seus filhinhos eram christãos. E oravam
+na desgraça, e sorriam no infortunio, e esperavam.
+
+Esperança, filha dos céos! eterno cantico dos anjos!... bemdita sejas
+tu.
+
+
+XII
+
+E, quantas vezes, acarinhados pelas brandas lisonjas de uma esperança,
+nos possuimos d'aquelle inoffensivo orgulho de felicidade, e tão perto
+nos persuadimos que ella vem com toda a formosura real de um bello
+sonho? E quando assim nos apressamos ao encontro d'essa linda chimera,
+gerada nas entranhas do infortunio, não será tão triste deparar-se-nos
+uma nova desgraça?
+
+Muito triste. É uma luz que se apaga. Um horisonte que se fecha. Uma
+colheita de lagrimas na seara das esperanças.
+
+E o sorrir da resignação, e o levantar das mãos em fervente amor de
+Deus, é a mais grandiosa attitude na desgraça. O infeliz é então um rei
+no throno das angustias. O manto de retalhos tem a magestade da purpura.
+Ignacio, o mendigo de Monserrate, é maior que o gentil-homem de Loyola.
+
+
+XIII
+
+O coronel soffria muito; porque, a par do grupo querido de esposa e
+filhos, nunca de seus olhos se afastava o aspecto da penuria.
+
+Á escuridade da indigencia não chega a luz do amor: deixar falar os
+poetas.
+
+Ha sentimentos de miseria que os sentimentos da gloria não podem
+eclipsar. A felicidade tem exaltações intermittentes de jubilo. Mas a
+desgraça pensa sempre, fala sempre; vela á cabeceira do infeliz;
+desperta-o com o aguilhão de um sonho mau; desmente-lhe as illusões;
+ri-lhe a cada esperança; embrutece-o; retráe-lhe as expansões do
+espirito.
+
+Onde a desgraça emmudece com a consciencia do penitente, que se levanta
+dos pés do ministro dos perdões, é na presença da cruz.
+
+O coronel orava um dia com sua familia. Maria balbuciava as mesmas
+palavras do pae, e parecia, com os olhos fixos n'elle, tomar-lh'as dos
+labios como um beijo e um segredo de muita felicidade na muita
+desventura.
+
+A sua oração era a dadiva do Christo: era aquella, que pendera dos
+labios divinos do Mestre como orvalho para todos os ardores, como
+balsamo para todas as chagas, como herança de amor para todas as
+gerações de ingratos.
+
+Era esta a sua oração:
+
+
+«Padre nosso, que estaes no céo, sanctificado seja o vosso nome; venha a
+nós o vosso reino; seja feita a vossa vontade...»
+
+
+XIV
+
+Alguem procurava o coronel. Amigo ou inimigo? O homem da honra nunca se
+nega. O que fôra christão antes de politico, e pedira a Deus a paz de
+seus irmãos, antes de mostrar-lhes, ao sol das batalhas, o lampejo de
+uma espada escrava da obrigação, esse poude ser exauctorado de titulos
+ás grandezas, de direito ao trabalho, de pão, e de liberdade, mas o
+opprobrio não o desanima, nem o envergonha.
+
+A valentia moral não tem capitolios na sociedade immorigerada; mas
+tem-os na consciencia do proprio que a experimenta. Um homem assim,
+decaído do que fôra, apresenta-se altivo de certa soberania que parece
+um triumpho, ultraje dos oppressores.
+
+O coronel, se tivesse a receber as felicitações _vendidas_ á sua patente
+de general, talvez não consentisse que tão depressa fosse aberta a sua
+porta.
+
+Abriram-n'a.
+
+O homem que entrára, sem dar o nome, era uma figura que, sem articular
+palavra, impunha silencio aos que o recebiam. Trajava pobremente.
+
+Quem buscasse um modelo para a estatua da imagem do infortunio,
+acha'-la-ia n'aquelle homem.
+
+E, sorrindo, offerecia a mão ao coronel, que viera, chamado por sua
+esposa, a contempla'-lo rodeado dos filhos, que pareciam perguntar-lhe
+quem era o extranho hospede.
+
+Aquelle silencio, precursor de lagrimas, não podia conter muitos minutos
+corações anciosos.
+
+--«Quem é o senhor?» perguntou o coronel.
+
+--Quem sou eu?! respondeu o desconhecido.--Trinta annos de clausura, e
+alguns mezes de trabalhos desfiguram a face de um irmão!...
+
+O coronel correra aos braços do hospede. Maria, organisação melindrosa,
+que presentia já os calefrios de um enthusiasmo juvenil, estremecia
+d'aquelle tremor nervoso, em que as lagrimas da alegria denunciam alma
+vehemente, apaixonada por tudo que é grandioso. Sua mãe tomava a mão de
+seu cunhado entre as suas, que pareciam erguidas em graças ao Altissimo.
+As outras creanças volteavam alegres em redor do grupo, e figuravam
+outros tantos anjos a solennisarem aquella festa na tristeza, e aquelle
+jubiloso alvoroço do sangue, quando o espirito se confrangia na dôr.
+
+
+XV
+
+Fr. Antonio dos Anjos fôra um oraculo de sciencia, e um exemplo de
+santidade no seu mosteiro. Filho de paes opulentos, de virtudes, herança
+de avós corajosos de braço e espirito, o seu patrimonio de resignação
+não pudera a politica espoliadora apregoa'-lo na praça. Affeito a
+encaminhar, com mão segura, pelas margens do abysmo, os que a dôr
+extraviára, o monge amparava-se na altura da dignidade de martyr. No
+centro d'aquella familia, quem mais paz e alegria soboreava no coração
+era elle. Elle, sim, que trinta annos havia, despira as galas do mundo,
+e envergára o habito que desfigura as fórmas do corpo, e as feições da
+alma. Elle, sim, que trinta annos vivera pobre d'aquelle ouro que
+afervora a adoração das multidões; e, então expulso da sua enxerga, e do
+seu refeitorio, não geme a falta de um ouro, que nunca possuira.
+
+
+XVI
+
+--«Quereis a historia dos meus trabalhos, não é verdade?» perguntava o
+monge, com sua sobrinha Maria sentada nos joelhos, e com dois dos outros
+abraçados.
+
+--«Sim, sim, queremos» respondeu Maria com extranha vivacidade.
+
+--«Não--replicou o coronel--não recordes penas que te não alliviam o
+receio de outras maiores...»
+
+--«Não é assim...--tornou Frei Antonio--As afflicções, que se recordam
+com serenidade, parecem zombar das afflicções por vir...»
+
+--«Conte, conte... meu tio» instou Maria com muita doçura, dando á voz a
+terna inflexão de uma supplica.
+
+E frei Antonio, alegre como se contára apraziveis lances da fortuna,
+contou assim o transito doloroso dos ultimos mezes da sua vida:
+
+«Viver trinta annos, vendo todos os dias o leito onde se espera morrer,
+e a sepultura onde o repouso do corpo continuará, foi a minha vida do
+mosteiro. Ao lado d'esse leito, e d'essa sepultura, vigia quasi sempre o
+espirito, porque na terra nem ao justo é permittida completa
+tranquillidade. Vigiar, é entregar ao espirito a guarda do coração; é
+pôr os olhos em Deus, alonga'-los ao mundo da esperança, enxugar-lhes o
+pranto por homens, que o desprezam e o desprezam porque o não
+comprehendem. A vigilia de um monge, tem, ás vezes, dôres, que ninguem
+póde imagina'-las, sem sentir-se abrasado do santo interesse da
+humanidade, que se espedaça.
+
+«Não me viste saír da casa do nosso pae, meu irmão!... Eras creancinha,
+e do colo de nossa mãe me deste um beijo, que me fez chorar, porque era
+o ultimo, que me davas com labios de innocencia. Nunca mais te vi; mas
+essas lagrimas, que te vejo agora, são as do meu irmão... é impossivel
+que o não sejam. Sabias tu que eu existia?»
+
+--«Sabia, mas ha doze annos que não tive novas tuas» respondeu o
+coronel.
+
+--«Ha doze annos... é verdade... Ha doze annos que frei Antonio dos
+Anjos descera a um tumulo... O espirito vivia... mas o espirito do
+penitente, vinculado pela expiação á imagem do seu crime, quebra os
+vinculos do sangue, se os tem no mundo.
+
+A voz do padre balbuciava estas ultimas palavras, cortadas de pausas,
+que traíam a sua serenidade contrafeita.
+
+Seguiram-se o silencio, e a anciedade.
+
+Frei Antonio, á custa de um grande sacrificio, e de uma penosa
+recordação, explicou a seu irmão o extranho silencio de doze annos.
+
+Doze annos tinham sido o prazo em que as noites eram veladas pelo
+remorso do homem, que tentára uma vez quebrar a alliança que fizera com
+a renuncia de todos os gosos terrenos. Doze annos de purificação para
+quem se manchara, um minuto, na rebeldia aos estatutos da sua ordem,
+fôra um grande prazo, uma longa expiação, um zelo suicida, talvez!
+
+É que os homens não o comprehendem. Doze annos de crimes, e um momento
+de remorso... isso sim, que, se não em todos os criminosos, em alguns
+pelo menos, é verosimil e explicavel.
+
+Esses prodigios explica-os facilmente a philosophia materialista: não é
+o remorso, nem os gemidos do bem torturado pelo mal, nem o temor de
+Deus: é a organisação com seus mysterios. Mysterios na escola da
+materia, onde a natureza, positiva e carnal, é tudo! Como é que da seiva
+do erro se nutrem viçosas as vergonteas da verdade? As luzes faiscam do
+seio das trevas. Ha máximas preciosas que brilham ao clarão dos
+incendios philosophicos.
+
+
+XVII
+
+Frei Antonio continuou:
+
+«Entro pobre em tua casa, meu irmão; porém a desgraça é uma riqueza,
+quando com ella suavisamos desgraças alheias. Contando-te as minhas
+amarguras não adoçarei as tuas?
+
+--«Deus--respondeu o coronel--suavisou-m'as antes de ti, meu irmão.»
+
+--Bemdito seja Deus!--tornou o padre--era essa a resposta que eu pediria
+a Deus que te inspirasse!... pois bem... seja a minha historia um
+passatempo... Peregrinareis comigo n'estes infernos da terra que os
+homens crearam. Aqui me tendes com a tunica, e com esparto de Dante...
+Serei para vós o que foi o poeta para a humanidade... recrear-vos-hei...»
+
+O frade afastára as bandas do capote, e deixára vêr o habito de S.
+Francisco. A magestade da sua postura excitára um calefrio respeitoso em
+todos, e elle mesmo, tocado pela consciencia do effeito religioso
+d'aquelle acto, não susteve a lagrima do enthusiasmo, que é sempre
+revelação de espiritos ardentes. Maria, alma tão cedo estreada na poesia
+da dôr, cedo principiára a enlevar-se n'aquelles transportes, que a
+tragedia excita em pessoas que vêem o theatro pelos olhos da innocencia,
+e não podem desmentir o que vêem pelos calculos frios da razão. Maria,
+pois, impressionára-se mais que seu pae e sua mãe da attitude pathetica
+de seu tio. Mais tarde confessou ella que sentira dobrarem-se-lhe os
+joelhos, e de certo ajoelhára, se frei Antonio lhe não tomasse as
+mãosinhas que pareciam ajustarem-se em adoração extatica.
+
+Esta scena fôra muda. O silencio é o desafogo das grandes emoções, que
+nos abafam o espirito, enturvando-nos a razão. Parece que a consciencia
+precisa digerir esses alimentos extraordinarios, que são a vida energica
+das almas flexiveis.
+
+
+XVIII
+
+Proseguiu o frade:
+
+«Quando, ha quatro mezes, os religiosos de *** viram approximar-se a
+hora de entregar as suas cellas á revolução, ajuntaram-se para
+deliberarem sobre a sua vida, como homens que d'ahi a pouco não tinham
+posição alguma no mundo, que lhes valesse um bocado de pão. Alguns eram
+de casas remediadas, outros irmãos de fidalgos, sacrificados ao partido
+que lhes assegurava os seus privilegios; mas nenhum contava com asilo
+seguro no tecto paternal, porque o temor da perseguição fazia-nos pensar
+que eramos homens expulsos da familia, e da sociedade. Entregámo-nos a
+Deus. E, depois, no meio de nós estavam uns homens cobertos com o nosso
+habito, vivendo comnosco ha muitos annos, ajoelhando comnosco ao mesmo
+crucifixo, e comendo comnosco no mesmo refeitorio. Eram os nossos
+maiores inimigos. Velavam-nos desde matinas a completas; desde a oração
+commum do côro até ao ultimo padre nosso rezado no isolamento da cella.
+Eram como os pretorianos de Nero syndicando os actos religiosos dos
+agapes de Christo. Chamavam-se liberaes, illustrados e amigos dos
+homens. De Deus sabia eu que elles o não eram. Dos homens, cruel amizade
+era a sua, que precisava enfeitar o seu altar com o sangue dos seus
+companheiros!
+
+«Nos ultimos mezes da nossa communidade... deixae-me dizer-vos uma
+prophecia amarga: nos ultimos mezes das ordens religiosas em Portugal,
+apresentaram-se aquelles padres ao prelado, e pediram a sua liberdade.
+Prevenindo alguma ligeira censura, em nome da regra do patriarcha,
+lembraram ao guardião que o punhal era a arma do homem livre, quando os
+algozes da humanidade não accediam aos augustos preceitos da razão
+natural.
+
+«O prelado era um justo, que chegára aos oitenta annos, com os cilicios
+nos rins, vergando sob o peso de austeridade, alliviando quanto podia
+esse gravame dos hombros menos rijos dos seus subordinados. A morte,
+porém, era-lhe menos afflictiva que o pesar de uma tibieza de
+disciplina. A sua resposta foi simples:
+
+«Deixemos vir a mão da liberdade bater á porta do mosteiro e seremos
+todos livres então. Uns, livres para morrer no desamparo. Outros, livres
+para viver de vergonha. Todos seremos livres. Em quanto a vós, meus
+irmãos, pedirei aos servos de Deus n'esta casa que peçam ao Senhor para
+vós as consolações e a prudencia que não posso dar-vos. Retirae-vos, que
+sou chamado ao côro.»
+
+«Retiraram-se; mas, dois dias depois, ao amanhecer, foi aberta por
+violencia a portaria. Alguns homens d'alli sahiram vestidos, e armados
+como guerrilheiros. O padre porteiro, que subira á cella do prelado a
+annunciar-lhe o acontecimento, encontrou um cadaver. Ao passar-lhe a mão
+pela face topou um crucifixo inclinado sobre o seio. Ao agita'-lo,
+humedeceu as mãos no sangue que borrifára os lençoes. Gritou. Acudiram
+os monges. Em volta do seu leito ajoelharam homens que choravam. Não
+tinham outra supplica, nem balbuciavam uma palavra. Um justo estava ali
+morto: mataram-n'o seus irmãos, em nome de uma liberdade, que não
+consentiu ao venerando ancião a liberdade de viver mais alguns dias.
+
+--Era preciso matarem-no para fugirem?--perguntou Maria com os olhos
+turvos de lagrimas.
+
+--Não seria preciso, minha filha, mas as chaves do mosteiro são
+entregues ao prelado: mataram-n'o, tirando-lh'as.
+
+--Mas o crucifixo,--replicou ella quem lh'o poria sobre a face?
+
+--Foi o moribundo a quem os assassinos deixaram tempo de pedir a Deus o
+perdão dos seus matadores.
+
+--Que acontecimento tão triste, minha mãe!--exclamou assombrada a
+menina, tomando entre as suas as mãos de sua mãe. E continuou: Eu não
+pensei que os homens podiam fazer isso!... Quem me déra o céo para meus
+paes e meus irmãos!
+
+--E para o tio padre, não, meu anjinho?
+
+--Meu tio tem certo o céo, porque tem soffrido muito, não é verdade?
+
+--Muito, minha menina; mas não é já bastante o que tenho soffrido?
+
+--Penso que sim... Eu não sei ainda a sua vida, mas lembra-me que meu
+tio póde fazer que os homens sejam bons, dizendo-lhes historias que os
+façam ter dó dos que soffrem.
+
+Olharam-se todos com admiração. É que Maria contava sete annos de edade;
+e alguns mezes de soffrimento. Predestinação!?...
+
+
+XIX
+
+«Ao anoitecer de um dia passado em orações e suffragios por alma do
+nosso chorado prelado--continuou frei Antonio--ouviram-se tiros ao longe
+do mosteiro. Eramos quarenta e tantos os monges assombrados pelo terror
+não sei se da morte, se das injustiças da humanidade a quem não
+offenderamos. A egreja, escura e silenciosa, afigurava-se-me um grande
+tumulo, e um doce repouso. Ajoelhei. Ajoelharam todos. E lembra-me com
+emoção o fervor d'aquellas preces murmuradas como a derradeira supplica
+do que vae apparecer na presença de Deus. Os tiros avisinhavam-se, e o
+alarido, ao principio confuso, era já perto um grito distincto: _morram
+os frades! abaixo os ladrões!_
+
+«Eram 23 de Outubro de 1833. Que noite aquella, santo Deus!...
+
+«As balas ouviamo'-las zumbir, e bater na parede da egreja, e nas
+vidraças do zimborio. Todos os servos empregados na casa vieram
+ajuntar-se ás nossas orações, acobertando-se com a protecção dos
+ministros de Deus, como debeis mulheres, em semelhante lance, buscando o
+invalido apoio de seus maridos. Nós não podiamos nada, quando á
+debilidade de nossas forças moraes ajuntavamos a resignação, o abandono
+de nossas vidas aos decretos da Providencia. Os paroxismos tinham sido
+longos e trabalhosos. Uma hora de preparação para receber a morte, que
+sentiamos avisinhar-se com a vozeria, e com os tiros, devera
+quebrantar-nos o espirito, aniquilando-nos lentamente a esperança.»
+
+--E não tinham esperança nenhuma? Deus não podia salva'-los ainda?
+perguntou Maria.
+
+--Nós, minha filha, não pediamos a Deus a vida: pediamos-lhe a salvação,
+a vida da alma. A morte não nos atormentava: poderia a natureza
+estremecer em nós com o terror do ferro, que no'-la daria; mas o Eterno
+manda que o espirito proteja as fraquezas da materia. É muito grande a
+providencia do Altissimo! Quando a morte se nos apresenta como um
+decreto irresistivel, sentimo-nos tanto mais longe da terra, tanto mais
+perto da eternidade, quanto a esperança da vida nos foge, e o frio da
+morte se chega. O que seria a morte do impio, apegada á vida, se não
+fosse esta resignação providencial, este esquecimento proprio, este
+mortal entorpecimento do corpo, antes que o espirito se deprenda das
+algemas, que parecem aperta'-lo mais na hora final?... Maria, tu
+entendeste-me?
+
+--Penso que sim, meu tio. Deus quiz que a morte lhe parecesse um bem, em
+comparação do mal que estava soffrendo: não é assim?
+
+--Sim, meu anjo. Deixa-me beijar-te que és uma boa parte da indemnisação
+que a misericordia divina me dá pelos meus padecimentos.
+
+
+XX
+
+«O mosteiro estava cercado de povo, attraído alli por um homem, que,
+depois de conspurcar uma patente no exercito realista, e avexar com
+despotismos os constitucionaes, viera buscar refugio entre nós.--Algumas
+balas bateram contra a porta principal da egreja mas não puderam
+vara'-la. Outras vinham, através das frestas, encravar-se nos altares.
+Uma, batendo na lampada do SS. Sacramento, apagou-a, espargindo os
+estilhaços de vidro sobre nossas cabeças. Não se ouvia uma exclamação de
+dentro, nem um ai afflictivo dos que alli rezavam ajoelhados, quando um
+de entre nós proferiu em voz alta o acto de contricção. Então, sim, as
+lagrimas rebentaram de todos os olhos: o espirito resurgiu da prostração
+em que caíra, e as vozes harmonisaram n'um murmurio profundo, arrebatado
+e magestoso como um _de profundis_.
+
+«Os gritos de fóra eram ameaças de morte, sem excepção de pessoa, senão
+abrissem a portaria. Nenhum de nós abandonou a sua humilde postura de
+martyr. Sentimos que se arvoravam escadas ás janellas lateraes do
+templo: ouvimos um machado, cem machados lascando as portas. O echo das
+pancadas reboando pelas naves tinha em si um não sei que de terrivel,
+que fazia arripiar os cabellos e gelar o coração!
+
+«Rasgada uma fenda na porta, entraram alguns poucos que franquearam as
+portas á chusma de povo.
+
+«Era noite alta. Não se via ahi um homem grave sobre quem pesasse a
+responsabilidade d'esta sacrilega violencia. O relogio do mosteiro dera
+onze horas, e nunca tão melancholico me pareceu o som d'aquelle bronze,
+que, havia quinhentos annos, chamava as turbas á oração, e n'aquelle
+instante, assignalava a hora da carnificina dos ministros de Jesus
+Christo. O tropel d'aquella gente denunciava uma multidão grande.
+Sentimo'-los approximarem-se amotinados, gritando, uivando, rugindo,
+como tigres que partiram as grades da jaula, como possessos que deliram
+na sede febril de sangue. E, topando-nos de joelhos, virados para Deus,
+e quietos como phantasmas immoveis, pararam. Reinou um silencio de
+minutos. O anjo bom d'aquelles homens calou-lhes por momentos o grito
+sanguinario. O pensamento do bem, a idéa de Deus passou-lhes pelo
+coração instantanea e fugitiva como a restia do sol por entre as nuvens
+torvas da tempestade. Os instrumentos do mal não podiam renunciar a sua
+missão. Cada um de nós sentiu a mão de um inimigo arranca'-lo com
+violencia á sua immobilidade. Um grito deu alento a todos os gritos.
+_Morram!_ era o mais distincto, era o bramido sinistramente harmonioso
+de muitas vozes. Senti algumas cronhadas d'arma acurvarem-me a cabeça
+para as lageas do altar, salpicado do sangue que me resaltára do nariz e
+da boca. Dos meus companheiros ouvi alguns gritos que me pareceram de
+estertor; e senti que alguns vinham arrastados.
+
+«Não pude presencear as agonias de meus irmãos mixturadas com as minhas.
+Uma bayonetada, varando-me uma perna, fez-me perder os sentidos, e cahir
+com a cabeça no degrau do altar de Nossa Senhora, onde despertei
+depois.»
+
+
+XXI
+
+--No altar de Nossa Senhora... no altar de minha madrinha!... exclamou
+Maria, com a face coberta de lagrimas.--E, depois, meu tio--continuou
+ella--que lhe succedeu, quando tornou a si? Não lhe fizeram mais algum
+mal?
+
+«Os flagellos não tinham ainda principiado, minha querida menina. Tu
+verás que a dôr de um golpe, não punge tanto como o escarneo de uma
+affronta moral. Quando recobrei o sentimento, pedi a Deus que me
+fechasse os olhos, e logo em seguida lhe pedi perdão da minha supplica.
+Compreendi nos meus padecimentos a expiação dos crimes da humanidade e a
+redempção dos meus peccados. Fui ahi trazido a pontapés, quando o sangue
+me escorrria da ferida. Fizeram-me, e aos meus companheiros, servir
+canecas de vinho áquella gente, que se movia em ondas pelos dormitorios,
+bramindo na embriaguez do seu odio. Quando a custo me pude desviar do
+tumulto, comprimi com o meu lenço a ferida, e esperei ensejo de poder
+fugir para morrer em paz debaixo de algum tecto piedoso. Não pude. Ao
+amanhecer fomos levados á casa do noviciado, e fechados á chave com
+vigias á porta, para não tentarmos o arrombamento.
+
+«Olhavamo-nos com uma especie de idiotismo doloroso. Não sabiamos
+palavras de consolação, porque a amargura era extrema em todos. Em
+tamanha afflicção tinhamos só a linguagem da afflicção: oravamos. E nem
+um só reclinou a cabeça no chão para adormecer a agonia. Parece que o
+travo da morte, assim demorada, adoçára o coração de tantos infelizes.
+Nunca eu senti em mim tão santa, tão divina a influencia do temor de
+Deus. Esperava amanhecer na eternidade, á luz da justiça eterna, e da
+misericordia do Summo-Bem. A oração pelos meus inimigos era de um sabor
+indizivel, de um allivio intimo, que tanto mais se prende á creatura
+quanto ella se resigna nas tribulações! Bemdito seja nosso Senhor Jesus
+Christo, que por cada afflicto reparte uma faisca d'aquelle incendio de
+caridade em que expirára na cruz, pedindo a seu Pae o perdão para seus
+matadores!»
+
+Frei Antonio não pudera, se quizesse, represar as lagrimas. A sua
+familia chorava, porque a voz convulsa, soturna, e sombria do padre,
+entrava no coração dos ouvintes, como as ultimas palavras do sacerdote
+no espirito do christão agonisante.
+
+«O sol--proseguiu o padre--coava pelas frestas do noviciado uma restia
+pallida, que illuminava um crucifixo, esquecido pela populaça. Se cada
+um de nós fosse particularmente consultado em seu coração, no momento em
+que aquelle raio do sol nos allumiou, dissera a devoção fervente com que
+saudou a luz do céo, irradiando-se na effigie augusta do Creador do céo
+e da terra.
+
+«Decorreu uma hora, sem que o silencio nos fosse quebrado por alguma
+voz. Julgámos abandonado o mosteiro como cidade viuva de seus filhos e
+espoliada das suas alfaias. Um de nós foi á porta escutar, e desmentiu
+as nossas conjecturas. Junto á porta resonavam profundamente as nossas
+guardas.
+
+«Soaram nove horas, quando os primeiros echos reboaram pelos
+dormitorios. Como atalaias nocturnas, os brados reproduziram-se,
+reforçaram e subiram ao alarido compacto com que principiaram. Os
+vituperios vinham, como ondas sobrepostas, bater á porta do nosso
+carcere.
+
+«A porta foi de improviso aberta. Mandaram-nos enfileirar. Cercaram-nos
+como a animaes extranhos, que movem a curiosidade. Emquanto eramos
+insultados por palavras de um outro menos soffrido e mais ultrajador,
+cuspiam-nos na face, e arrancavam-nos os cabellos. As mulheres, com as
+faces rubras do vinho, e com as linguas afiadas no sarcasmo villão e
+truanesco do seu officio, soltavam-nos aos ouvidos risadas ferozes,
+mixturadas com empuxões que nos davam ao capello, e aos cordões do
+habito. Esta situação penosa e indizivel durou meia hora.
+
+«Mandaram-nos saír, escoltados, e fazer alto no pateo do mosteiro. Ahi
+lançaram ao primeiro uma corda ao pescoço, que vinha encadeando um por
+um até ao derradeiro monge. Depois mandaram-nos curvar o pescoço tanto
+quanto fosse preciso para assentar uma albarda. Penduraram-nos algumas
+campainhas ao pescoço, e mandaram-nos andar.
+
+«Caminhámos uma legua, e fizeram-nos parar para reconhecermos um cadaver
+que se dizia pertencer ao brigadeiro realista Pessoa. Era effectivamente
+o seu. Dias antes estivera elle em nossa casa, já de retirada para a
+sua, visto que as forças sitiantes do Porto começavam a dispersar.
+Pedimos-lhe que se acautelasse porque os seus maus feitos tinham
+excitado o odio, e a vingança. Respondeu-nos, que tinha um
+salvo-conducto na sua honra, e na sua consciencia pura. A sua
+consciencia não devia estar tranquilla... Este mau homem fôra morto
+n'uma ribanceira pedregosa que nos ficava ao lado esquerdo da estrada.
+
+«Caminhámos outra legua, e fomos mettidos n'uma cadeia, onde mal nos
+podiamos mexer. As prisões do pescoço affligiam-nos muito; e a sentença
+de morte fôra-nos lida quando entrámos, no caso de quebrarmos a
+«arreata» como elles nos disseram.
+
+«Não vos posso contar com miudeza que tormentos provámos durante vinte
+dias que ahi vivemos. O frio, a fome, a insomnia, a falta de respiração,
+todas as privações que pode soffrer um homem, bemdito seja Deus,
+complicaram-se ahi... Que padecimentos! A piedade tremia de
+approximar-se do nosso infortunio. Homens bem trajados apiedavam-se; mas
+temiam o povo esfarrapado. Algum boccado de pão vinha através de
+difficuldades, e no ardor da sede as lagrimas serviam-nos de refrigerio
+aos labios queimados da febre.
+
+No fim de vinte dias foi-nos dada a liberdade, sob a condição de não
+caminharmos para o sul. A infracção d'esta lei implicava pena de morte.
+Pensavam que viriamos procurar o exercito do sr. D. Miguel. A condição
+era escusada para mim. Ministro de Deus, jurado á caridade e ás
+humilhações, o meu braço, consagrado á elevação da hostia, não
+levantaria o ferro contra homens, ou barbaros, ou portuguezes. Eu
+maldigo em nome de Deus os meus irmãos que borrifaram de sangue a tunica
+legada pelos apostolos. A arma do sacerdote é o coração votado a
+abrandar a justiça do Altissimo, que faz dos homens o instrumento de sua
+vingança contra homens. Se me chamassem ao mais perigoso de um combate
+para acalmar, em nome de Deus e da caridade, as iras sanguinarias dos
+partidos, eu cruzaria as balas, e as baionetas travadas, corajoso, como
+um filho da patria, e um sacerdote de Christo. Viria, meu irmão, viria
+ajoelhar-me na frente do teu regimento, e pedir-te em nome da tua esposa
+e de teus filhos, que me deixasses fallar ao rei antes que mandasse voar
+a morte das espingardas dos teus soldados.[1]
+
+Estás anciosa pela continuação da historia, minha menina? Olhas tanto
+para mim!... Tens entristecido com as desventuras do teu pobre tio?
+
+--E tenho chorado... o tio não vê?
+
+--Vejo, vejo, menina. E sabias que no mundo havia homens que fizessem
+assim padecer outros de quem não receberam alguma offensa?
+
+--Pensei que não... Meu pae, e minha mãe, e meus irmãos são todos tão
+bons, tão meus amigos, tão dados uns com os outros... e eu não conhecia
+mais ninguem. E como é possivel ser-se assim tão cruel, diga-me, meu
+tio?
+
+--Digo... direi, minha filha... mais tarde... Queres agora o fim da
+minha triste peregrinação até á casa de teus paes?
+
+--A tua casa, meu irmão--atalhou o coronel.
+
+--Sim, sim, a sua casa, meu caro irmão--disse a esposa do coronel.
+
+--Pois não somos nós todos a mesma familia?!--perguntou Maria com um
+sorriso de candida alegria e admiração.
+
+--Graças vos sejam dadas, meu Deus!---exclamou o padre.
+
+ [1] Se Fr. Antonio ampliasse um pouco mais estas suas reflexões
+ muito judiciosas, invectivaria os frades que, fóra das linhas de
+ Lisboa, despejavam fogo para os de dentro com uma coragem e
+ disciplina digna de granadeiros da guarda imperial. Alguns d'esses
+ estavam ahi provando pela pratica as theorias vociferadas do
+ pulpito, desde 1828 até 1832. Não foi mais do que lançar um
+ correame sobre o habito, e substituir ao som da palavra incendiaria
+ o som do arcabuz homicida. Se não receássemos desnaturalisar o
+ romance pondo na bocca de frei Antonio censuras inverosimeis aos da
+ sua politica, se é que elle tinha alguma além da do Evangelho,
+ seria elle o que nos poupasse o trabalho d'esta nota para que se
+ não diga que o auctor acoberta um pensamento hostil á liberdade,
+ afeiando o quadro inevitavel, no conflicto d'ella com o despotismo
+ em paroxismo. A leitores de má fé respondemos com a boa fé de
+ imaginarmos, antes de começar o romance, que os não teriamos...
+
+
+XXII
+
+«Eramos vinte e dois homens abandonados á Providencia, sós com a nossa
+desgraça, sem futuro e sem esperanças de alcançar um bocadinho de pão
+mendigado. Eis a nossa situação. Era forçoso separarmo-nos. Companheiros
+de noviciado, quasi amigos de infancia, condiscipulos, presos ao céo e
+ao sacrificio por um laço commum, affeitos a harmonisar as nossas vozes
+em acção de graças, a dobrar os joelhos no mesmo chão, a comermos á
+mesma mesa, a soffrermos ao mesmo tempo os flagellos que attrairamos
+sobre nós, porque em todas as nossas frontes fôra escripto o caracter
+indelevel de nossa humildade... Eu não tento dizer-vos como foi amargo,
+como foi chorado aquelle adeus... _para sempre!_ «Antes o martyrio, e
+que nos apartem!» exclamava um em quanto outro, debulhado em lagrimas
+nos braços de seus compaheiros, pedia um tumulo para todos nós! Foi um
+lance cheio d'aquella nobre dôr, que tanto honra o coração humano. O
+supplicio da separação d'aquella pequena sociedade cujos membros, não
+cançados, não egoistas, amavam-se como virgens na esphera innocente dos
+seus amores de collegio... podereis vós comprehende'-lo, meus amigos?
+Não! Deus quer que não! É sentir-se a morte, que parece deixar no
+coração um alento de vida para o tormento da saudade; mas aniquila todas
+as alegrias, todas as esperanças... que são a vida na terra.
+
+«E separámo-nos!... que irresistivel imperio tem a desgraça, meus
+filhos! Recuavamos a cada passo para um novo adeus, para um novo gemido,
+convulso, apertado na garganta, como se a dôr nos fosse prohibida. Este
+doloroso trance demorou-se muito. Alguem, condoído de nós, avisou-nos
+dos rumores que corriam a nosso respeito na villa proxima. Dizia-se que
+tencionavamos, reunidos, caminhar para onde nos fosse possivel pegar em
+armas. A calumnia podia tudo então. O odio foi fertil em pretextos...
+Ora o amor da vida fez calar o grito da saudade. Demos o ultimo Adeus. O
+ultimo... foi o ultimo, meu Deus!... Diz-me o coração que sim.
+
+«Entrei n'uma aldeia, onde fôra prégar um anno antes. Pedi gasalhado na
+casa de um lavrador. Foi-me negado. Não instei. Fui á porta de um
+jornaleiro: achei-a franca. Era assim o seu coração, porque o pobre, sem
+vergonha nem pesar de o ser, tem uma alma cheia de bondade. Pedi-lhe
+umas palhas: deu-me a sua cama, a sua manta e o seu lençol de estopa.
+Não lhe pedi mais nada: mas o pobre deu-me o seu caldo, o seu pão
+amassado em suor, e o seu apresigo, producto das economias da semana
+para solemnisar o dia do descanço. E adormeci abençoando o pão do pobre,
+em quanto elle, sentado ao lar, rezava o seu rosario, ou espertava a
+fogueira para me ser menos sensivel a pouca roupa da cama; O pobre será
+sempre o eleito, o ente privilegiado para as virtudes praticas do
+evangelho. Jesus Christo adoçou-lhe o travo da penuria, dando-lhe ao
+espirito o antegosto das riquezas que enthesoura no céo.
+
+«Adormeci.
+
+«E alta noite, fui acordado em sobresalto pelo meu hospede. Ouvi tiros.
+«Que é?» perguntei eu. Não sei ao certo, senhor. Ha pedaço que ouço
+estes tiros, e estou com medo... «Que venham ter comnosco?» perguntei
+eu. «Sim, senhor; mas eu vou ver o que é» respondeu o bom homem.
+
+«Eu quiz conte'-lo; mas elle convenceu-me da segurança da sua empresa.
+Quando voltou, disse-me que tinham sido mortos dois frades do meu
+convento em casa de um tal lavrador. Imaginae o meu terror. Quiz saltar
+fóra da cama, trocar o meu habito por alguns farrapos e fugir; mas o
+jornaleiro estorvou-me com boas razões. «A casa de um pobre, disse elle,
+é mais segura.» Não a perseguem as grandes desgraças, porque tambem a
+não procuram as grandes felicidades--disse eu na minha consciencia. Orei
+por alma dos meus infelizes amigos, se o seu martyrio não era expiação
+bastante de suas faltas.
+
+«Amanheceu, e tive mais informações. Dizia-se que dois monges
+desfigurados vieram bater á porta do lavrador que me tinha recusado a
+entrada. A porta fôra-lhes aberta, porque ninguem de casa os conheceu ao
+principio. Recolhidos, foram logo conhecidos; mas era tal o seu
+contentamento, e a sua linguagem que o lavrador adormeceu descançado com
+os seus dois hospedes, que, por mais de uma vez, declararam com
+arrogancia que já não eram frades. O lavrador não os comprehendeu. Mas,
+alta noite, uma guerrilha forçara a porta, entrára e matára os dois
+desgraçados que tiveram a louca ousadia de resistir com bacamartes,
+depois de malogradas as suas razões. Surprehendeu-me esta noticia!
+parecia-me um conto disparatado!
+
+«O jornaleiro arranjou-me um fato semelhante ao seu. Desfigurei-me.
+Providencia de Deus! No instante em que me vestia, olhei para a ferida
+que recebera na perna, e encontrei-a quasi cicatrizada! É quando o atheu
+o reconheceria o anjo do Senhor, pensando as chagas da alma e do corpo
+áquelles que o confessam!
+
+«Saí. O quinteiro do lavrador estava a trasbordar de povo. Conheci que
+os cadaveres estavam no centro.--Atravessei a multidão, até junto do
+carro onde os mortos estavam... recuei horrorisado! Senti precisão de
+gritar: «justiça de Deus!» mas cedi a um sentimento egualmente grande.
+Do meu peito saíu outro grito: «misericordia, meu Deus!»
+
+«Informei-me. Estes dois infelizes caminhavam para suas casas, com o
+cofre das economias do convento. Eram os assassinos do venerando
+prelado.
+
+«Aquelle sangue escrevera na face de taes homens uma lugubre sentença de
+punição. Quem seriam os instrumentos de vingança? Ignora-se.
+
+«Meus amigos, erguei a Deus as mãos, e os corações. Oremos pelas almas
+dos meus desgraçados companheiros!»
+
+E oraram de joelhos. Maria tremia como de susto.
+
+
+XXIII
+
+Não me demorei tempo algum n'esta aldeia--disse frei Antonio--Pedi ao
+meu pobre bemfeitor que me guardasse o meu habito, e prometti pagar-lhe
+o seu, que elle me deu com lagrimas de contentamento.
+
+«Caminhei incognito, pedindo esmolas. Atravessei dez leguas para o
+norte, e assim assegurava cada vez mais a minha vida, não infringindo a
+condicional de morte, se eu caminhasse para o sul.»
+
+O padre soltou aqui um sorriso de ironia inoffensiva e continuou:
+
+«Achei-me no Valle d'Aguiar, ermo de paz, de tristeza santa. Cercado de
+montanhas pedregosas, a planicie abrange duas leguas, e perde-se na
+pittoresca Villa Pouca d'Aguiar. Tão profundo foi o meu desalento quando
+ahi me vi. Quanto depressa me afiz áquellas varzeas, e áquelle céo que
+parece firmar-se nas cristas das montanhas.
+
+--E como vivias ahi, Antonio? perguntou o coronel.
+
+«Vivia á sopa de um lavrador... Pasmas, meu irmão.
+
+--Entristece-me de ver a miseria a que póde descer um homem do teu
+nascimento.
+
+«Do meu nascimento! disse o padre, sorrindo--O que é o meu
+nascimento!... Essas jerarchias são filhas da nossa miseria; a desgraça
+não conhece nem o fidalgo nem o jornaleiro... Não me lamentes, meu
+irmão. O homem só reconhece a sua dignidade quando vive pelo trabalho do
+braço ou da intelligencia. Que maior nobreza querias tu que eu tivesse?
+Eu antes queria grangear assim nobremente o meu pão com o meu braço, e o
+coração, cheio de vontade. E pensas tu que a sociedade estaria corrupta
+pela jerarchia, se a ociosidade não estivesse em guerra constante com o
+trabalho? Medita, meu irmão, e verás que este paiz tinha excrescencias,
+que o obrigaram a deitar-se no doloroso leito de Procusto em que o
+ouvimos gemer... e gememos todos.
+
+--Deixemos philosophias. A minha querida sobrinha quer que eu lhe diga
+como vivia...
+
+--Isso já eu sei... era trabalhando...--atalhou Maria.
+
+--Trabalhando, sim, por um salario de jornaleiro, e agradecendo ao
+Altissimo a robustez com que me dotara sentindo-me até com forças para
+poder lançar mão da enxada, e roçar um carro de tojo. _Roçar um carro de
+tojo_ é sentir a gente a cada instante a precisão de arrancar espinhos
+que se cravam nas mãos e nos pés. É ir com as gabelas ás costas
+empasta'-las no carro, arfar de cançado, limpar com a manga de uma
+vestia de borel a face alagada de suor, carrear outra e outra gabela,
+durante um dia inteiro interrompido por uma hora do dia em que se come
+um caldo de couves, e umas batatas salpicadas de sal. Ajoelhava a pedir
+a Deus coragem, forças e resignação: não lhe pedia melhor pão, nem
+melhor vida. Sabei que o temor de Deus é uma renuncia, que a materia do
+homem faz ao espirito, que é do Creador. A Providencia transfigura o
+infeliz, ao passo que o infortunio lhe vae mudando em dôr as lagrimas.
+E, se não, dizei-me: quem me obrigou a mim a occultar o nome que poderia
+alliviar-me de alguns rudes trabalhos de lavoura? Não poderia eu ser
+mestre de meninos? Não tenho eu o meu caracter de ministro do altar, e a
+minha pobre intelligencia para remediar n'um pulpito o ministerio
+apostolico? Tinha, e vivia em terra que me daria protecção. E, com tudo,
+nunca me escasseou o alento para trabalho mais pesado, nunca me senti
+doente ao levantar-me da minha enxerga, antes de amanhecer, para vigiar
+os fructos, em que me estava garantido pela omnipotencia do Senhor o
+premio do meu trabalho. Os monges primitivos da minha ordem como é que
+viviam? Não cultivavam elles os seus campos, e não cosiam os pannos da
+sua tunica? É que ainda então não viera o privilegio e a classe
+sanctifiar a inercia do corpo em virtude da varia côr dos sangues. Santo
+Deus, como são pasmosos os caprichos que rebaixam a magestade do homem
+trabalhador, alteando ao fastigio do acatamento o ocioso por mercê de
+uma herança!...
+
+
+XXIV
+
+«Finda a guerra, expirava a condição da minha liberdade: caminhar sempre
+para o norte. Comecei a soffrer saudades da minha familia. O coração
+vaticinava-me que vós existieis. E, depois, a vontade era energica, e
+irresistivel. Pareceu-me sobre-humano o estimulo. Despedi-me dos meus
+bemfeitores. Rodearam-me os filhos, e chorámos todos. Traí-me em algumas
+palavras que soltei. Arrebatou-me a poesia d'aquelle adeus. Fitaram-me
+com espanto: queriam pedir-me perdão... «de que, meus filhos?»
+perguntei-lhe eu!... Deus permittiu que eu me desmentisse. Parti.
+
+«Trilhei os passados vestigios da minha jornada. Paguei o vestido que o
+jornaleiro me vendera. Recebi o meu habito: bem o vêdes; mas o capote?
+perguntaes vós. O capote é a esmola de uma missa que devo ás almas do
+Purgatorio. A fome estorvou-me o passo muitas vezes nas sessenta e cinco
+leguas, que nos separavam. Á maneira do homicida, que foge á justiça dos
+homens, perdi-me por atalhos e devezas, que me dobraram o caminho. Os
+ultrajes vexaram-me quando a fimbria do meu habito me denunciava.
+Algumas vezes tive em resposta, pedindo, uma ameaça, uma insolencia, um
+epitheto injurioso.
+
+«Está fechada a minha Illiada de lagrimas. Deixae-me engrandecer até á
+valentia moral do bravo capitão de Homero. Os cabellos branquearam-se-me
+em tres mezes; mas venci a desgraça, porque nas mãos do Omnipotente fui
+instrumento de fortaleza.
+
+«Meus amigos, não quero que a minha historia descaia em sermão. Eis-me
+comvosco. Somos todos pobres, não é assim?»
+
+--Ninguem é pobre, quando ama, meu irmão--respondeu a esposa do coronel.
+
+--É uma grande verdade, minha irmã--proseguiu o frade--o amor é uma luz
+que não deixa escurecer a vida; é reflectida do astro eterno; irradia-se
+de Deus. E é verdade que me estimaes como vosso? Não vos obrigo á
+resposta. Deus quer indemnisar-me. Estes meninos são os queridos do
+Senhor: falam pelos labios da innocencia: vê-se que me amam, e me
+querem: é assim, Maria?
+
+--Muito, meu querido tio!--E abraçava-o com enthusiasmo e alegria, como
+se quizesse consolar os pezares do venerando velho. E abraçavam-n'o
+todos.
+
+Frei Antonio dos Anjos, com seus sobrinhos nos braços, ajoelhou,
+exclamando:
+
+--Graças vos sejam dadas, meu Deus! Destes o amor em recompensa ao homem
+attribulado! Trouxestes o pobre velho pela mão ao seio da sua familia!
+Provaste-o em todas as amarguras; e não consentiste que o fragil barro
+fosse quebrado.
+
+
+
+
+LIVRO II
+
+
+I
+
+Tinha custado muito sangue, esterilmente derramado a solução de um
+problema que, havia muitos seculos a humanidade procurava resolver: a
+miseria. O processo escolhido em cada seculo para o mesmo resultado,
+tinha sido identico: a guerra ao rico, em nome do proletario. A unica
+situação real, que os homens podem consolidar no marulho fervente das
+suas utopias, é conciliar pelo soccorro-mutuo duas idéas que parece
+repellirem-se: a pobreza e a felicidade. Mas esta situação que as
+escolas da philosophia materialista chamavam absurdo, realisa-se pelo
+dogma da Associação que é a traducção da fraternidade, que o
+christianismo afervora: é a felicidade do homem do trabalho sem attentar
+contra o rico. Tão sublime idéa, tão grandes factos teem-se operado n'um
+grande centro, que, inspirado por Deus, irradia uma luz evangelica por
+todos os homens.
+
+Enlaçar n'um abraço voluntario a pobreza e o contentamento, esposar
+estes dois predicados que luctam rancorosamente no coração da
+humanidade, amiga'-los, move'-los a dulcificarem-se, identifica'-los
+para que o divorcio os não desligue n'um repelão desesperado: tal
+prodigio, um consorcio assim só na pratica do soccorro-mutuo pela
+associação póde operar-se, porque é a genuina traducção do Evangelho que
+Jesus nos deixou recommendado.
+
+O incredulo do christianismo e da associação ao passar na sua carruagem,
+assaltado de cuidados, pela porta do operario, sente-se affrontado pelas
+risadas alegres que lá vão dentro d'aquelle sotão raso com o chão. Tal
+homem não possue o capital que mais felicidade produz. Não sabe que a
+religião e o soccorro mutuo são o incentivo do trabalho. Compreende,
+apenas, que o trabalho é o capital unico do proletario. Julga elle que o
+artifice alquebrado de vigor, no fim do dia, atira com o corpo ás palhas
+do repouso para mentir no somno aos flagellos do dia futuro. Não sabe
+que o amor em todo o tempo, em todas as edades, e em toda a hora do dia,
+é quasi um exclusivo do pobre. Não sabe que o artista é pae, é esposo, é
+christão, e possue um thesouro de affectos que o deixam á beira do
+tumulo para entrarem no seio de Deus, como paga de um emprestimo
+contraído para adoçar as amarguras da terra. Não sabe que o
+soccorro-mutuo derivado do trabalho faz a tranquilidade do homem
+laborioso.
+
+A familia do coronel... era como a familia do artista. Alli, a pobreza
+tinha sorrisos, a resignação um triumpho, e os desgraçados um exemplo. O
+coronel ensinava primeiras lettras. Fr. Antonio dos Anjos ensinava
+latim. A esposa do coronel com quatro filhos entrançavam cordões para
+dragonas e pennachos. Maria, aos oito annos, copiava musica e fazia
+flores.
+
+--O trabalho! meus filhos, o trabalho!--exclamava padre Antonio,
+extendendo em veneranda postura o braço sobre a mesa, em redor da qual
+uma familia alegremente saboreava um parco jantar.
+
+Estariam elles esquecidos do seu passado? como puderam amoldar-se
+aquelles espiritos ás angustiadas urgencias, ao passadio mesquinho de
+operarios? A soberba da educação não se rebella contra a lei oppressiva
+da necessidade?
+
+Não. O anjo de Deus viera sentar-se no limiar do infeliz, e o demonio do
+orgulho não póde tramar as conspirações do ocio contra a familia
+laboriosa. Frei Antonio era o anjo dos alentos, da resignação, e das
+esperanças. Venturas que elle via no futuro, ninguem as via; mas
+acreditavam-nas todos, porque as suas promessas tinham a unção da
+prophecia. E não era calculando eventualidades politicas, nem thronos
+arruinados, nem batalhas feridas no seio da patria, que frei Antonio
+aventurava promessas. D'onde a inspiração lhe vinha não sabia elle
+dize'-lo; mas o santo homem nunca, se levantava dos pés da cruz, que não
+trouxesse aos seus uma palavra de esperança, um vaticinio mysterioso.
+
+--É o céo que o tio nos promette...--dizia Maria, sorrindo para sua mãe,
+e recortando a folha de um lyrio.
+
+--E que melhor promessa, minha filha?--respondeu a mãe sem levantar os
+olhos do seu trabalho.
+
+--Queres dar a tua lição, menina?--perguntou frei Antonio, anediando os
+cabellos negros de Maria.
+
+--Sim, meu tio, mas sem despegar do trabalho, porque tenho grande
+tarefa. Hoje ha de, permittindo Deus, ficar prompta esta flor; disse-o a
+mãe... senão... o tio bem sabe...
+
+--Senão o que, minha filha?--perguntou a mãe.
+
+--Senão...--tornou Maria sorrindo com graciosa malicia--não merendo.
+
+--O teu sorriso faz-me chorar...--disse a mãe, limpando os olhos, e
+violentamente sorrindo.
+
+--Temos lagrimas? Ora vamos...--atalhou o padre, dando ás palavras um
+tom de risonha ameaça.
+
+--Não, que minha mãe é assim!--tornou Maria.--Não póde mesmo a gente
+fingir que é infeliz! Permitta Deus que todos se julguem tão venturosos
+como eu. Tenho pae que amo tanto, e mãe que mais não posso amar! sou tão
+feliz!... Minha mãe não podia ser tambem assim, se achasse a ventura no
+meu amor?!...
+
+--Ó minha filha... exclamou a mãe.--Obrigas-me a pedir-te perdão...
+Castiga-me Deus pelos labios da innocencia... Sim... eu sou muito
+feliz...
+
+E abraçou-a impetuosamente como impellida por um amor que a
+transportava.
+
+O coronel viera testemunhar este lance. Parou respeitosamente diante do
+grupo, em que avultava o padre levantando machinalmente as mãos para o
+céo, jubiloso de um sorriso todo alegria, todo luz, que parece
+scintillar no semblante do justo. E o mais é que as lagrimas vieram
+solennisar aquelles extremos de alegria! Choravam ambas, mãe e filha,
+com as almas afinadas pela mesma emoção, pelo mesmo enthusiasmo no amor.
+
+Frei Antonio antevia a nova organisação economica e social que ha de
+corrigir suavemente as velhas imperfeições da sociedade.
+
+--Mãe, filha, e todos nós--dizia o coronel--seremos felizes com as
+vossas inspirações.
+
+--O contrario seria um crime, meu irmão!--respondeu frei Antonio,
+tomando-as ambas, abraçadas ainda, entre os seus braços.
+
+
+II
+
+A vida d'esta familia correra assim tres annos. O dia de hoje, empregado
+em grangear a subsistencia do de ámanhã, promettia a mesma
+tranquillidade nos dias successivos. E assim passavam.
+
+Frei Antonio era o mestre de Maria. A educação litteraria, que lhe dava,
+não era simples. Apaixonado pelos seus, e pelo esplendor da sua patria,
+frei Antonio affeiçoára o espirito de sua sobrinha aos moldes graves da
+poesia portugueza do seculo 16.^o Fizera-a decorar a historia nos cantos
+das epopêas; afinára-lhe o gosto no arrebatamento d'aquelle genio, que
+deu lições de resignação aos desgraçados. Camões era mais que um poema
+decorado por Maria. A cada verso era interrompida, e o poema tornava-se,
+commentado pela eloquencia do padre, um fecundo manancial de moralidade.
+O sabio não se contentava com o amor exclusivo da sua litteratura. Frei
+Antonio amava alguns livros francezes, e os italianos de todos os
+seculos. Maria aos dez annos conhecia as duas linguas, e lia, nas horas
+vagas desoccupadas da noite, com percepção admiravel. As suas lições não
+interrompiam o trabalho das flôres. Em quanto de entre os dedos lhe
+brotava a rosa, incendiavam-se-lhe as faces, lindas como a flôr, pelo
+calor nervoso com que expunha episodios de historia, adaptados á sua
+intelligencia pelo estylo energico do seu tio. Seus irmãos, mais velhos
+que ella, porfiavam em imita'-la, e sentiam-se feridos no amor proprio,
+quando a viam voar pelo mundo da intelligencia, defeso á sua. Maria era
+um prodigio--dizia o pae:--era forçoso reprimi'-la na audacia das suas
+duvidas sobre motivos religiosos, porque frei Antonio com horror á
+superstição e fanatismo não tolerava senão a religião na sua maior
+pureza. «Maria, tinha uma razão, capaz de perder-se por muito energica»
+accrescentava o mestre.
+
+Maria, aos doze annos, mostrava singular desenvolvimento de compreensão.
+Não se lhe difficultavam as entidades ideaes da metaphysica, e
+leccionava seus irmãos na arte de pensar, como se ao seu espirito
+descessem do céo revelações das que encaminham a razão direita ao alvo
+das verdades eternas. O juizo, porém, essa faculdade, que não tem ainda
+o nome na sciencia do coração, esfriára-lhe o enthusiasmo, que, dois
+annos antes, lhe acalorava a infantil eloquencia. Havia tristeza na
+amostra do seu talento. Parecia violentar-se quando a estimulavam a
+revelar a sua opinião em objectos de sabedoria. Até não queria ser
+galardoada com applausos, e córava, se a faziam inveja de seus irmãos.
+Pedia que a deixassem no seu officio de florista, dando-se por contente
+do pouco que sabia, pois pouco bastava a uma mulher, que não podia
+repousar a cabeça, e adormecer no seio da sciencia. A formosa artista
+tivera um piano, em que dedilhava os seus primeiros ensaios, quando seus
+paes o venderam. Tomara a peito um peso enorme de trabalho, esperando
+accumular dinheiro que lhe restituisse o seu piano; e conseguiu-o,
+quando o seu nome se fez celebre, n'aquelle genero de enfeites, que a
+moda pagava caros.
+
+Em casa do coronel de ***, até esta epoca, nunca se reuniram a um chá
+pessoas extranhas. Aquellas portas fecharam-se: o habito applaudiu essa
+deliberação forçada pelas circumstancias; e, quando estas mudaram, não
+foi levemente alterada a sabia economia, que tanto concorrera para a
+felicidade d'aquella familia.
+
+Não obstante, o nome de D. Maria dos Prazeres não esquecia nos grandes
+circulos, nos salões do luxo e da moda. A esse nome estava vinculado o
+prestigio de uma familia illustre, nublada pelas tempestades politicas.
+Pintava-se com traços exagerados, talvez, a transição da opulencia para
+a miseria; faziam-se romances, mais ou menos idealisados pelo gosto da
+epoca; contavam-se assombros de um genio que o infortunio acanhava, em
+forçada obscuridade. Ninguem vira de perto D. Maria dos Prazeres,
+ninguem a encontrára fóra da rua por onde ia á egreja; mancebos, porém,
+que precisavam interessar na sociedade, cançada de logares communs,
+diziam que a tinham ouvido um minuto, dois minutos, cinco minutos,
+maravilhados da sua formosura, e pequenos diante da sua eloquencia.
+
+
+III
+
+O nome de Fr. Antonio dos Anjos vulgarisou-se com o de sua sobrinha. A
+ligação de mestre e discipula apregoava as duas pessoas com egual
+elogio.
+
+Um fidalgo de Lisboa quiz conhecer o egresso. Achou-o semelhante aos
+gabos, que o engrandeciam. Honrou-o com attenções e obsequios, que
+occultavam um fim honesto. O fidalgo tinha um filho de dezoito annos,
+rebelde aos rudimentos das boas sciencias, mas em demasia versado n'esta
+alchymia do mundo, em que o libertino devora primeiro o cabedal da sua
+virtude, e sacrifica depois a virtude alheia, como o escravo infeliz
+d'aquelle prestigio queimava no cadinho a sua subsistencia, e seduzia
+depois os outros a empobrecerem-se.
+
+Fr. Antonio, instigado pela caridade que lhe impunha a salvação de um
+naufrago, acceitou a empresa, recusando a feliz perspectiva que devia
+remunerar-lhe o seu trabalho.
+
+O padre considerou-se imprudente em annuir, quando viu a funesta
+impressão que tal noticia causou em sua sobrinha, particularmente.
+Roubarem-lhe o anjo da infancia, quando, adulta, mais carecia d'aquelle
+esteio a que o seu coração se acostumava, era penalisa'-la com saudades
+inconsolaveis: era uma crueza, não de um extranho, mas de seu tio, que
+não tinha precisão de assoldadar-se ao pão alheio. Esta sua queixa,
+justificada com profunda tristeza, e continuas lagrimas, pungia o
+coração do velho até ao extremo de o lançar no leito da doença. Era
+irremediavel a promessa indiscreta: a palavra de honra, que lhe fôra
+pedida pelo fidalgo: a obrigação que se impoz de arrancar á
+libertinagem, que dominava grande parte dos antigos fidalgos, um mancebo
+perdido.
+
+Maria, quando viu adoecer seu tio, ministrou-lhe o balsamo da ferida.
+Ella mesma, repesa da severidade de seu amor, pede-lhe que vá repartir
+com os necessitados o pão da sciencia e da virtude, que, tão farto
+repartia com ella.
+
+--Era peccaminoso o meu egoismo!...--lhe diz--Não pude vencer-me! O meu
+coração é impetuoso. Meu tio não quiz remediar-me este defeito,
+reprimindo-me a dedicação com que, ha seis annos, correspondo á sua
+amizade. Ambos somos culpados; mas eu sou mais... Fui precipitada.
+Lembrei-me que era abandonada, por ser esquecida algumas horas do
+dia!... É forte creancisse, não é, meu tio?
+
+--Eu!... esquecer-te... minha filha!...--balbuciou o padre.
+
+--Bem o disse eu! É muito meu amigo... leva a minha imagem no seu
+coração para onde fôr... tem-me ao seu lado nas suas orações... responde
+ao meu coração que lhe pergunta a adivinhação d'estes segredos que eu
+tenho aqui, e só meu tio me adivinha... é tudo isto... sim, meu caro
+tio?
+
+--Sim, tudo, minha menina.
+
+--Oh meu tio!--continuou ella exaltada--não nos podemos separar. A
+intelligencia é um fio electrico. Ha vibrações na minha alma, que, se
+meu tio as não ouvisse, seriam perdidas, como as notas de uma harpa
+tocadas pelo vento em cima de um sepulchro deserto. Meu pae, e minha
+mãe, e meus irmãos, quero-os para o amor, quero-os para o coração, morro
+pela sua felicidade se m'o exigirem; mas o meu espirito precisa de
+alimento, a minha intelligencia quer um pasto ideal que não acho aqui,
+se meu tio me desampara. Não vê que foi um impulso providencial, que o
+trouxe aqui salvando-o de tantas mortes que lhe embaraçaram o caminho?
+Eu não tenho sido ingrata a Deus: ergo-lhe as mãos todos os dias,
+reconhecida, humilde, mas venturosa de ter nascido sua sobrinha!... Não
+me faça persuadir que Deus olha com indifferença as minhas preces...[2]
+
+--Maria, interrompeu o padre, tu não pensaste o que dirias antes de
+vires ao meu quarto!... Magoaram-me as tuas ultimas expressões... Não me
+pareceram tuas...
+
+E Maria arquejava sem desafogo. Parecia não escutar o tio.
+
+ [2]Nem sempre é inverosimil a linguagem figurada. Mais de um
+ critico, a estas horas, se indispõe contra as hyperboles de Maria,
+ aos quatorze annos tão espevitada! Pois creiam que não é justo o
+ seu reparo. Se lhes eu tivesse dito que Maria convivera nas salas
+ onde o lyrismo do coração não tem nada a fazer com a vida
+ positivissima que lá se vive, em linguagem chan e desenflorada de
+ figuras inuteis, tinham razão sobeja para dizerem que nunca por cá
+ toparam d'estas donzellas Ciceros ou donzellas Gongoras, como
+ quizerem. Attendam, porém, ao facto, se não teem a experiencia:
+ mulher instruida, ou presumida de instrucção, se lhe falta o trato
+ que precisa o estylo segundo as circumstancias, fala assim, e
+ escreve assim. Aquella filha de Manuel de Sousa e D. Magdalena de
+ Vilhena, que o immortal Garrett faz morrer de vergonha, em _Fr.
+ Luiz de Sousa_, era, com menos sete annos, muito mais espirituosa,
+ e, se querem, mais desnatural. O inverosimil é algumas vezes
+ verdadeiro, assim como
+
+ _Le vrai peut quelque foi n'être pas vraisemblable._
+ (Boileau, _Art. poet. c. 3.^e_).
+
+--Vem cá, minha filha--continuou elle, extendendo-lhe a mão, com um
+sorriso affavel--vem cá. Que queres tu de mim? Não queres que eu vá
+fazer um bom filho, e um bom cidadão?
+
+--Vá, vá, meu tio!--exclamou ella, com energia.
+
+--Não achas tão sublime a missão confiada por Deus ao padre velho, que
+não tem outra herança a legar-te, senão a memoria da sua beneficencia?
+
+--Sim, sim... é o que ha de superior a tudo... ao amor, á vida, á
+esperança... Sim, sim...dê-me esse irmão em crenças, veja-o subir para
+Deus, impellido pela sua palavra inspirada... eu pedirei por elle;
+trocaremos as nossas orações; elle pedirá por mim, porque a conversão de
+um perdido enche o céo de alegria e faz exultar os anjos!... Elle ha de,
+inspirado pelo céo, compreender, como nós já compreendemos, desde que
+vivemos artistas, o que é o amor de Deus e a virtude do trabalho.
+
+
+IV
+
+Frei, Antonio mudou a residencia para casa do fidalgo. Alvaro da
+Silveira era o educando. São precisas algumas linhas do caracter d'este
+mancebo.
+
+Nascera rico: primeira desgraça, quando um pae, herdeiro de opulencia e
+libertinagem, sente a precisão de transmittir a seu filho a herança,
+qual a recebera. Acalentado em berço de ouro, quando os primeiros annos
+lhe deram a convicção da sua individualidade, reclamou a sua emancipação
+dos carinhos maternos, que lhe eram pesados, e extremos do pae que o
+enojavam por muito repetidos. O elogio acompanhava-o sempre em todas as
+suas tentativas de independencia. Quando de seis annos rasgou o _A_,
+_B_, _C_, na presença de um professor, que o contrariava, seus paes
+riram-se do galhardo heroismo da creança, e exultaram de ve'-lo assim
+brioso em tão verdes annos. Quando aos oito annos o viram espancar a
+ama, que lhe prohibia apedrejar uns meninos pobres, que lhe pediam pão,
+disseram-lhe que era feia aquella acção em menino fidalgo, e deram-se os
+parabens, a occultas, de tão corajoso rasgo. Quando aos dez annos o
+ouviram pedir dinheiro para gastar em seus caprichos de creança,
+preliminares de lastimaveis depravações de mancebo, deram-lhe dinheiro,
+com a condicional de não caír do cavallo, nem guiar o carrinho por
+passagens mal gradadas. Quando aos quinze annos....
+
+Seus paes atiraram-n'o ao tremedal de todos vicios. Deixaram medrar a
+planta da má inclinação no clima proprio, naquella atmosphera de Lisboa,
+onde os miasmas da corrupção lavravam desde que alguma classe degenerou
+pela ociosidade, e pelos vicios da velha organisação social. A arvore
+lavrou raizes até onde seus paes não previram, por mais que amigos e
+extranhos lhes abalassem o coração d'aquelle profundo somno de um
+affecto criminoso. As immoralidades do filho estamparam um estigma de
+opprobrio nas faces dos paes. O jogo, contrariedade unica e pungente,
+que na sociedade encontrava o libertino, arruinaria a fortuna d'uma
+familia, de muitas familias opulentas se Alvaro da Silveira não
+attendesse aos conselhos, ás primeiras admoestações de seu pae. Foram
+baldadas. Alvaro ouviu-as com enfado, çom soberania, com desprezo, e
+satisfez a irritabilidade de sua má indole, conduzindo á porta de seu
+pae novos credores e novas vergonhas.
+
+E, depois, a intelligencia d'este mancebo era um repositorio de todos os
+vicios, sem ao menos quinhoarem do ouropel da urbanidade que parece ás
+vezes modificar a torpeza com que nos enojam em um licencioso, estupido
+e villão. Alvaro era grosseiro no crime. Indignava os muitos que lhe não
+eram somenos em dissolução mas menos brutaes que elle. As pustulas
+n'aquelle cadaver mostravam-se ao clarão do vicio com todo o asco. O
+homem perdido parecia renovar emoções, e satisfazer o instincto,
+provocando á nausea uma sociedade cujo abandono lhe accendia um desejo
+impotente de vingança.
+
+Fr. Antonio dos Anjos fôra chamado para preparar este homem a conhecer a
+honra, levando-o pela vereda da religião.
+
+
+V
+
+Alvaro da Silveira não fôra prevenido. A presença do sacerdote,
+apresentado por seu pae, moveu-lhe uma curiosidade selvagem. Parecia-lhe
+um sonho aquella visão extraordinaria, aquelle encontro tão disparatado
+com a sua vida, o seu olhar idiota era eloquente ao mesmo tempo.
+Revelava uma interrogação natural e desculpavel:--que me quer este
+homem?
+
+Fr. Antonio, limitado ao seu ensino de portas a dentro, e alheio á vida
+de Lisboa, não conhecia cabalmente a historia do seu discipulo. Os
+traços que o pae lhe revelára eram logares communs da mocidade
+desenfreada. Não é crivel que o padre bem informado, tentasse a empresa
+de conquista'-lo para a virtude. E quem póde avaliar a coragem
+religiosa?
+
+Alvaro sorriu, voltou as costas ao mestre, levando em galhofa o que lhe
+não parecia cousa de serio alcance. Este grosseiro procedimento magoou
+momentaneamente o padre; mas, repreendido pela caridade, aquietou
+depressa os irritamentos do amor proprio. Foi então que o pae, tão
+culpado como desditoso, desenrolou o sudario das desenvolturas de seu
+filho. Chorava, arrependido do mimo com que o perdera, e perguntou
+ancioso se seria possivel salva'-lo da sua ruina total.
+
+Fr. Antonio não conhecia limites á sua confiança em Deus. Convicto das
+mercês visiveis que recebera da omnipotencia do Senhor, sentiu-se
+illuminado de uma fé que lhe affiançava um prodigio. A peleja travada,
+em nome da virtude, com o espirito do mal, tinha muitas vezes triumphado
+de uma parte da humanidade, revoltada contra um só homem. Exemplos de
+maiores maravilhas alentaram o sacerdote. Desde esse momento, afervorou
+as suas preces ao Senhor, a cujo aceno a virtude, morta no coração do
+impio, surgiria como a lagrima do remorso nos olhos de Magdalena.
+
+
+VI
+
+Esse dia de estreia para a missão do padre, foi mais um decorrido nas
+immoralidades do discipulo.
+
+Não viera a casa, durante o dia, e metade da noite. Parece que tudo
+dormia no palacio; quando Fr. Antonio sentiu o rumor de um cavallo no
+pateo. Orava ainda, fóra do leito, ajoelhado, com o lenço ensopado em
+lagrimas de dorida saudade. A imagem de sua sobrinha não lhe consentia o
+repouso, de noite; obrigava-o ás tribulações de um amante desprezado. E,
+então, o ministro de Deus recolhia-se em oração, com a vehemencia de uma
+esperança infallivel no refrigerio do céo.
+
+A essa hora, pois, chegava a casa Alvaro da Silveira. O seu quarto era
+immediato ao do sacerdote. Entrou assobiando as reminiscencias das
+cavatinas theatraes, e reclamou em brados imperiosos a ceia. Os servos
+pontuaes como escravos aos caprichos rapidos dos patricios da Roma dos
+imperadores, affluiam a servir o amo, que ordinariamente punia uma certa
+demora com a ameaça formal de quatro chicotadas. Conduzida a ceia,
+repellira os creados com desabrimento e ficára sósinho trauteando e
+comendo promiscuamente.
+
+Alvaro acabava de cear, esquecido da apresentação do padre, quando ouviu
+na porta um toque.
+
+--Entre quem é!--bradou elle.
+
+Quem quer que era cumpriu. A presença veneranda de Fr. Antonio, um passo
+dentro do quarto, era uma impressão nova para o mancebo!
+Involuntariamente sentiu curvar-se-lhe o pescoço á cortezia grave com
+que o sacerdote o saudára.
+
+--Então ainda a pé?!--perguntou Alvaro.
+
+--Ainda a pé, e Deus sabe se me deitarei... As horas da noite são as
+horas da oração. Parece que o ermo e o silencio excitam a conversação do
+espirito com Deus... E v. ex.^a recolheu-se agora, não é verdade?
+
+--É verdade...--respondeu o mancebo com um embaraço, que revelava a sua
+extranheza n'estes dialogos.
+
+--Precisa repousar--tornou o padre--Eu, como estava a pé, quiz dar-lhe
+as boas noites. Agora recolho-me pedindo a Deus o seu descanço, como
+condição da vida, para amanhã abrir os olhos á luz que bem póde não
+alvorecer para nós. Fique v. ex.^a com Deus.
+
+E retirou-se. As ultimas palavras de Alvaro pareciam syllabas
+desarticuladas. O frade ferira-lhe um orgão ainda virgem d'aquellas
+impressões. Aquelle _memento_, áquella hora, por aquelle homem,
+acordára-lhe o mais nobre dos pensamentos, que o materialismo lhe
+adormecera nos gelos do coração: DEUS. Os confusos projectos do dia
+seguinte aturdiam-se-lhe na cabeça, como alvoroçados pelo pregão da
+morte, que mandava calar os designios humanos na presença do destino
+eterno.
+
+O abalo fôra vehemente, mas pouco duradouro. Alvaro da Silveira
+adormeceu. É que o som vibrado na corda da religião, devia esvaecer-se
+entre o estrondo das paixões ruidosas, como o vagido da creança no
+alarido das turbas amotinadas.
+
+
+VII
+
+Alvaro da Silveira costumava tocar a campainha depois do meio dia,
+quando alguma empresa impertinente lhe não assaltava o precioso somno da
+manha.
+
+Fr. Antonio, prevenido, foi visitar sua familia, cuja ausencia lhe
+parecia longa e incomportavel. Antes de sair trocou algumas palavras com
+o dono da casa pedindo-lhe que entregasse a Deus a regeneração de seu
+filho.
+
+Quando entrou na sala, sua sobrinha estava ao piano. Pé ante pé
+firmou-se onde de longe podia contempla'-la, e surpreende'-la com
+palmas. Reparou que o papel de estudo não era musica. Esperou. De
+improviso, ao som melancolico das teclas casou-se uma melodia triste,
+profundamente triste, como as convulsões de um longo gemido. Aquelle
+papel continha a letra do canto. Que versos seriam aquelles?
+
+E o canto parou com a ultima nota do acompanhamento. Maria firmou os
+cotovellos nos braços da cadeira, e escondeu o rosto entre as mãos. Ás
+vezes corria as mãos pela testa, e deixava-as pender enlaçadas sobre o
+regaço. As suas posturas eram todas afflictivas.
+
+--Que tens, minha filha--murmurou o padre caminhando para ella.
+
+Maria ergueu-se arrebatadamente; correu aos braços do tio, e não teve
+exclamação que revelasse o alvoroço d'aquella surpresa.
+
+--Cantavas como um anjo--continuou o padre, acariciando-lhe a face
+pousada no seu hombro--mas tão melancolico era o canto e a musica!...
+Nunca te ouvi ainda esta lamentação! Vejamos que poesia é esta!...
+
+--Não, não, meu tio!,..--atalhou Maria, querendo affavelmente desvia'-lo
+do piano.
+
+--Porque não? Mysterios para o teu amigo que t'os adivinha no coração?
+Segredos para o teu mestre, Maria!
+
+--Não é segredo... é vergonha...--exclamou a linda menina com a voz
+entrecortada--Esses versos fui eu que os fiz..
+
+--E tens reservado para ti esse dom? Quando disseste ao teu velho tio
+que fazias versos?--disse o padre sorrindo com meiguice.
+
+--Eu não sabia que o eram... Nem sei se o são...--balbuciou Maria,
+córando, e procurando fugir de estar presente á leitura.
+
+Fr. Antonio levou-a pela mão ao piano. Tomou da estante a poesia, e leu:
+
+ PRESENTIMENTO
+
+ «Minha paz no infortunio,
+ Minha alegria na dôr,
+ Quem m'a déra, qual a tive,
+ Qual m'a déstes, vós, SENHOR!
+
+ «Desbotou-se-me nos labios
+ Meu sorriso tão singelo...
+ E eu com elle premiava
+ Tanto amor, tanto desvelo!...
+
+ «Tanto amor, que eu vos pedia,
+ Do que os anjos tem nos céos,
+ Para amar meus paes, meu tio,
+ Como vos amo, meu Deus!
+
+ «Não scismei outras venturas,
+ Outros gosos não pedi:
+ Fui tão rica na pobreza...
+ Na pobreza empobreci.
+
+ «Senti lagrimas no rosto...
+ Sei que tenho aqui no seio
+ Escondida uma tristeza
+ Que de vós, meu Deus, não veio!
+
+ «Deu-m'a o mundo?... sim... daria...
+ Mas que mal ao mundo fiz!?
+ Serei eu de alguem inveja?
+ Pois que eu não seja feliz!
+
+ «Volva o tempo da penuria,
+ Quando eu fiz a pobre flor,
+ Que me dava um pão regado
+ Com meu pranto e meu suor.
+
+ «Dae-me as noites não dormidas
+ De trabalho e de alegria;
+ Meu orar na madrugada,
+ Quando, tão feliz, me erguia.
+
+ «Oh meu Deus! se a humilde serva,
+ Não votaste ao soffrimento,
+ Abafae lhe a voz, que a punge,
+ D'um cruel presentimento!»
+
+Fr. Antonio lera commovido essas singelas quadras, cujo toque de
+sentimento não póde enternecer-nos, talvez. Nos labios d'elle, tremulos
+e nervosos, a poesia soava como um canto funebre. Que tristeza no
+declamar! Poderia ter-se como uma elegia á innocencia de Maria? Por Deus
+que não. O hymno, que transluzia da nuvem escura da sua tristeza, era
+como a luz do relampago que aclara, de repente, um amplo espaço: era a
+luz electrica das intelligencias privilegiadas; o abalo do presentimento
+que quer saír do circulo do mysterio: a adivinhação do futuro.
+
+--Que é o que entristece a tua vida, Maria?--perguntou Fr. Antonio.
+
+--Já me lembrou se seria a muita felicidade, meu tio.
+
+--Não te compreendo... abre-me o teu coração sem reserva... Serias
+culpada se fingisses a teu tio as razões do teu soffrimento...
+
+--Não posso mentir-lhe, meu tio... Não sei ainda o que é fingimento...
+nunca na minha vida menti a alguem. Eu não sei porque estou triste. O
+meu coração não m'o diz, e a minha tristeza nasce-me do coração,
+esconde-se lá como um segredo afflictivo... E eu que mais hei de
+dizer-lhe, meu caro amigo? Que peço muito a Deus que me não quebre este
+calix de amargura, se a sua divina vontade ordena que eu o exgote.
+
+Maria enxugava as lagrimas copiosas, que pareciam esfriar-lhe o calor
+febril das faces. Fr. Antonio, contemplativo, olhava para a sobrinha
+silenciosa, como querendo ler-lhe no rosto a ultima palavra d'aquella
+revelação confusa.
+
+O coronel entrou na sala, e correu a abraçar seu irmão, e dar a mão a
+sua filha, que lh'a não beijara ainda. Maria, surpreendida, quiz, á
+custa de um sorriso violento, converter em alegria aquella saudação; mas
+a dôr de filha é necessario que seja peccaminosa para esconder-se aos
+olhos de pae. O coronel e sua esposa velavam as tristezas de Maria como
+lhe velariam perigosa enfermidade. Consultaram mutuamente os seus
+temores; e a severa experiencia do mundo alguma vez lhes inspirou bem
+tristes receios. Aos quatorze annos ha melancolias no coração de uma
+virgem, que apenas tem de mysterioso a tendencia irresistivel, que Deus
+lhe imprimiu para o ideal de um amor terreno, que, no altar da
+innocencia, recebe uma adoração, senão semelhante, ao menos perfumada
+com o mesmo incenso do amor divino. E a mãe de Maria recordava-se da sua
+infancia, e perguntava a seu marido se as lagrimas da filha seriam as
+precursoras de alguma paixão infeliz. Era indiscreta a pergunta. Não se
+dera nunca o incentivo de suspeita. A vida de Maria não tinha um
+instante mysterioso a seus paes. Trabalho e oração--não tinha outro
+desvelo desde o amanhecer até á ultima benção pedida a seus paes.
+
+Maria, valendo-se da conversação do pae com o tio, retirara-se da sala.
+O coronel assim o queria, para consultar o irmão, homem de Deus, que via
+o coração dos outros com os olhos puros da probidade. Mas não são esses
+olhos os mais penetrantes para devassar segredos, que se escondem no
+coração apaixonado pelo mundo. Quem adivinha as luctas intimas do
+espirito, escravisado aos caprichos das paixões, é o homem das paixões,
+encanecido na amarga experiencia d'ellas. Bem pudera Maria dos Prazeres
+agonizar nas tribulações de um amor criminoso, e sua morte ser um
+mysterio para o padre que não sentia acordar em sua alma o echo dos
+gemidos de sua sobrinha. O amor de Deus preenche todas as necessidades,
+responde a todas as aspirações do coração de um justo. Não é o justo de
+uma longa vida irreprehensivel quem póde arrancar ao penitente, que se
+lhe ajoelha, uma revelação pungente, que o pejo emmudece nos labios. É
+necessario profunda'-la com a sonda das proprias agonias. É necessario
+adivinha'-la no espirito do penitente, a favor de um symptoma que revela
+outro, de uma palavra solta que vae prender-se á explicação de um longo
+silencio. E esta dolorosa syndicancia não póde exerce'-la a simples
+theoria das paixões.
+
+
+VIII
+
+A arte, que ensina a levantar o véo das paixões silenciosas, era
+desnecessaria para Maria. A virgem não tinha segredos para alguem.
+Podesse ella entender a transfiguração da sua alma, a magua confusa dos
+seus novos pensamentos, que, bem feliz, pediria conselhos e consolações
+á sua familia.
+
+--Mas aquelle silencio!...--dizia o coronel, replicando ás santas
+convicções do padre, a respeito da innocencia de sua sobrinha.
+
+--Aquelle silencio...--dizia frei Antonio, consultando a consciencia,
+que lhe respondia de prompto--aquelle silencio... é a falta de palavras
+com que possamos fazer sentir aos outros uma idéa, que só a Divindade
+nos compreende... As horas de tua filha não são empregadas como d'antes
+na oração, no estudo e no trabalho?
+
+--São, de certo, e mais continuadas na oração. D'antes orava em commum.
+Agora, encontramo'-la na hora do descanço, ajoelhada no sanctuario; mas
+vejo-a perturbada, quando reza. Ha lagrimas, e até aqui só lhe viamos o
+sorriso de consolação... Parece que n'aquelle orar, ha a supplica do
+perdão para o crime que a accusa.
+
+--É impossivel!--exclamou o padre, energicamente commovido.--É
+impossivel... não quero que em minha sobrinha se esconda um crime... uma
+falta! É uma injuria, meu irmão! Peccaste contra a innocentinha, e
+feriste-me a mim, que tenho formado aquelle coração, que Deus me confiou
+para crear-lhe um anjo.
+
+--Meu irmão... não te afflijas... isto em mim é um receio.
+
+A interrupção do coronel era tardia para evitar a exaltação nervosa do
+padre. As lagrimas davam-lhe ao rosto uma religiosa magestade.
+Assombrava-o o terror de uma conjectura cruel, como se visse caír á
+voragem do vicio a virtude, que elle, com sua propria mão, collocára em
+throno tão perto do céo. O coronel, tambem commovido, sentia-se
+nobremente exaltado pelo modesto orgulho de ter uma filha, cuja
+innocencia merecia tão fervorosa defesa. Abraçando seu irmão, parecia
+pedir-lhe carinhosamente desculpa do zelo paternal, que lhe inspirara
+receios por aquella que pertencia menos a seu pae, que a seu mestre. O
+lance era sublime; e o sentimento de ambos, vibrado na mesma corda, e
+acalorada pelo mesmo amor, elevava-se até Deus em oração de graças por
+Maria, anjo que lhes fôra dado como galardão á paciencia de muitos
+soffrimentos.
+
+
+IX
+
+Quem poderia consolar a triste nas suas amarguras?
+
+Quem póde cá da terra dissipar a nuvem, que escurece a face de uma
+estrella?
+
+Quem póde, ao descair da tarde, reverdecer a corolla da flor desbotada
+pelas sombras da noite?
+
+O futuro é o presente perpetuo da Divindade. Mas o espirito que se
+enlucta, sem lamentar a viuvez de illusões perdidas, veste-se de negro,
+como a virgem violentada a desposar no altar das lagrimas uma tribulação
+futura. É o presentimento.
+
+Para as almas provadas em supplicios immerecidos, mas secretamente
+providenciaes, o presentimento não é uma palavra sem significação.
+
+O cantico de Maria, cadenciado pelas quadras do seu hymno, era a unica
+resposta, que ella podia dar se lhe perguntassem:
+
+--Anjo, porque soffres?
+
+
+X
+
+Decorreram algumas horas, e Fr. Antonio não podia demorar a sua visita.
+Alvaro da Silveira, fiel a seus habitos, deveria despertar ao meio dia.
+O padre retirou com uma saudade profunda, e uma dôr nova. A ultima
+afflicção de um justo quer Deus que seja a agonia do pensamento. A vida
+n'elle é uma cadeia de pesares, que tem no esquife o ultimo élo. Fr.
+Antonio, feliz com esta certeza, poderia fraquear na primeira lucta com
+o soffrimento, mas a sua queda era sempre de joelhos aos pés da cruz. E
+esta foi a sua postura, apenas entrou no quarto que lhe fôra dado em
+casa de Silveira.
+
+A oração foi-lhe interrompida pelo toque da campainha. Esse som, que
+provocava pragas aos servos da casa, como signal de estar acordado o
+tigre familiar, foi para frei Antonio um despertador da oração em favor
+d'aquelle, que tão longe de Deus, sem um decreto do céo, mal poderia ser
+lá encaminhado pela debil mão de um peccador. E, terminada a oração, o
+padre chamou o creado, que saía do quarto de Alvaro, e mandou a s.
+exc.^a pedir licença para fazer-lhe companhia ao almoço. A resposta,
+qual era de esperar, deferiu a humilde supplica, e Frei Antonio,
+insinuante de brandura e civilidade, apresentou-se, pela terceira vez,
+ao seu educando.
+
+A face d'este homem tinha uma alegre severidade, que não podia fitar-se
+sem respeitosa sympathia. Alvaro da Silveira ao ve'-lo sentia uma
+impressão extraordinaria, como não sentira na presença d'algum homem
+celebre em valentia, em talento, em devassidão, em prodigalidades, e em
+riqueza. A distincção da virtude ou do _fanatismo_, como elle dizia da
+religião, parecia-lhe uma cousa nunca vista na boa sociedade! Para não
+deixar-se vencer pelo panico da religião, Alvaro da Silveira dava-se uma
+explicação muito natural d'aquelle phenomeno: era a falta de convivencia
+com a classe dos padres.
+
+Na verdade o jesuitismo e a hypocrisia pelos seus abusos interesseiros,
+tornando a religião instrumento innocente de uma politica facciosa, tem
+dado causa a todos os homens de consciencia conspirarem a expulsa'-los
+como vendilhões do templo. Essa a razão por que os falsos religiosos
+blasphemam quando presentem que uma minima centelha da razão illumina o
+campo da religião que elles pretendem pôr em trevas. Todo o homem
+sensato e sãmente religioso soffre uma intima dôr quando os falsos
+religiosos impellem os ignorantes, e alguns immorigerados como Alvaro da
+Silveira, a irem lançar-se na impiedade, fugindo da hypocrisia, que
+elles não sabem discernir da purissima religião do crucificado.
+
+Mas, a seu pesar, a entrada de Fr. Antonio, e as palavras urbanas, e
+poucas, com que o saudára, continuavam a impressiona'-lo.
+
+--Dormiu v. ex.^a socegadamente, não é assim?--perguntou o padre.
+
+--Deliciosamente--respondeu Alvaro, apertando cortezmente a mão do
+sacerdote.--E v. s.^a como se deu no seu novo quarto?
+
+--O melhor possivel. Um egresso, affeito a dormir na casa de um
+lavrador, acharia boa pousada em todos os logares debaixo do céo. Uma
+boa cama não abona sempre uma noite deliciosa ao que se deita n'ella. O
+melhor gasalhado, senhor, é o que nos dá a consciencia quando
+francamente se abre para receber-nos, e velar-nos o somno com o anjo da
+paz. Deus defenda v. ex.^a de revolver-se um dia nos espinhos, que
+perturbam o somno do mau, deitado em leito de cortinas douradas.
+
+--Então v. s.^a--tornou Alvaro--tem andado por casa de lavradores? Eu
+cuidei que os frades eram ricos, e amigos das commodidades. Pelo menos é
+o que se diz por ahi...
+
+--Os frades, senhor, não só eram ricos, mas tambem opulentos; procuravam
+todas as commodidades, gosavam todas as delicias, todos os prazeres que
+podem ser desfructados na vida material da terra. A ociosidade e a
+riqueza perverteu-os. As excepções choravam tal aberração. Como que
+olvidados do céo mergulharam-se n'uma politica inconveniente e injusta.
+Em pena de Talião, a politica por elles hostilisada, por todos os meios,
+tão obstinadamente, puniu-os expulsando-os das casas que não deviam mais
+pertencer-lhes.
+
+Estava na mesa o taboleiro do almoço. Fr. Antonio pedia licença para
+servir o discipulo.
+
+--Então v. s.^a não almoça?--perguntou Alvaro, offerecendo ao hospede
+uma chavena, não recebida.
+
+--Almocei já, sr. Silveira.
+
+--Com o pae, não é verdade?
+
+--Não, senhor: com a minha familia.
+
+--Então v. s.^a tem familia em Lisboa?
+
+--Nasci em Lisboa, e tenho uma familia numerosa.
+
+--Naturalmente pobre...
+
+--Naturalmente, não, sr. Silveira; mas Deus indemnisou-a. Deu-lhe o amor
+do trabalho, e a noite e o dia, para grangear o pão de uma hora. Tem
+sido feliz, penso eu. O temor de Deus é a coragem com que se vencem os
+infortunios...
+
+Alvaro, com a chavena esquecida na mão, escutava-o religiosamente. A
+novidade da linguagem, e o gesto religioso apraziam-lhe, e creavam-lhe
+desejos de ouvir o padre longo tempo.
+
+
+XI
+
+--A sua familia é conhecida?
+
+Esta pergunta de Alvaro da Silveira é textualmente o inquerito
+galhardamente fidalgo, que a nobreza d'estes reinos faz, antes de deixar
+approximar-se por algum desconhecido, duvidosamente inscripto no livro
+dos costados. Perdôe-se-nos o estylo; mas, desgraçadamente, tudo que é
+ridiculo traz inçadas certas classes, e não sabemos, quando se farão
+sérias, quando se approximarão um dia as familias, de modo que não
+possamos sem offender a Deus, perguntar a nosso irmão se seu pae é
+conhecido...
+
+--A minha familia--respondeu frei Antonio--foi conhecida; mas não é de
+lamentar que seja hoje obscura. Mal d'ella se quizesse manter as vans
+regalias da sociedade, que v. ex.^a chamou conhecida! Penso que a minha
+familia não é conhecida.
+
+--Mas deve estar aparentada...--replicou o fidalgo, instando nas
+perguntas inauferiveis da pragmatica heraldica.
+
+--Creio que sim... O coronel ***...
+
+--Já sei--interrompeu Alvaro--pois não!... é muito fidalgo, e está
+aparentado com boa gente; mas não apparece. Então v. s.^a é tio de uma
+menina muito falada?...
+
+--Muito falada!?--atalhou o padre com sobresalto.
+
+--Sim, senhor, dizem que é poeta, romantica, e muito linda.
+
+--É virtuosa, senhor Silveira. Não lhe conheço outra qualidade, que
+valha a pena de mencionar-se. V. ex.^a já viu poesias ou romances, ou o
+retrato de minha sobrinha?
+
+--Não, senhor, mas creio que não é mentira o que se diz. A opinião de
+virtuosa tambem a tem; se não falei de virtude, é porque não sei
+verdadeiramente o que é virtude; mas acredito que ella é uma excellente
+menina a todos os respeitos.
+
+--A virtude, meu caro senhor, é a censura pratica do crime. Sabe v.
+ex.^a o que é crime?
+
+--Tambem não--respondeu Alvaro com uma vaidosa entoação de
+espirito-forte.
+
+--Eis ahi--disse Fr. Antonio sorrindo--uma violencia que está fazendo á
+sua alma, sr. Silveira. V. ex.^a disse que minha sobrinha era dotada de
+bellos attributos. Falou pela bôca da fama, e chamou-lhe poeta,
+romantica e formosa. Se minha sobrinha, apesar d'estas decantadas
+prendas e dons, que a sociedade encarece tanto, fosse má filha, e má
+irmã, poderia ella cegar os olhos da sociedade com a sua formosura e
+talento, para que lhe não vissem os defeitos...
+
+--De certo não.
+
+--Então é verdade, que a sociedade reprovaria o procedimento de minha
+sobrinha?
+
+--Creio que sim.
+
+--E v. ex.^a?
+
+Alvaro ficou suspenso, e balbuciou, depois:
+
+--Eu... eu... naturalmente...
+
+--Juntava a sua voz á opinião publica--interrompeu o padre--embora v.
+ex.^a não antipathisasse com os actos repreensiveis de minha sobrinha.
+
+--Assim é sempre--disse Silveira, com uma forçada resolução.
+
+--E assim será sempre, porque ha um juiz incorruptivel, chamado a
+«verdade». As sentenças d'este juiz, embora fulminem as paixões
+desatinadas, são sempre recebidas, senão pelo espirito de uma sociedade
+gasta e immorigerada, ao menos por a consciencia d'essa sociedade. Ora a
+innocencia é invulneravel ao contagio da corrupção, como a lampada do
+templo ás exhalações pestilenciosas dos tumulos. A consciencia é o
+pregoeiro das sentenças que a verdade profere, e v. ex.^a,
+insensivelmente, apregoa. Será necessario dizer-lhe eu que sentimento é
+esse que se serve de v. ex.^a, como de uma machina para se exprimir? É a
+virtude, sr. Alvaro, é a virtude que faz realçar os dons de minha
+sobrinha, que lhe dá a soberania de um anjo, que o crime não póde
+encarar sem curvar-se servilmente: é a virtude, galardão ao principio do
+bem, que triumpha na lucta incessante com o principio do mal. A verdade
+não se desmente porque é o Evangelho identificado nos corações, e
+Christo ha dezoito seculos, encarnado na humanidade...
+
+Alvaro parecia alegrar-se conforme ia perdendo o terreno, diante de um
+tão generoso como irrespondivel adversario.
+
+Como se anciasse pela continuação da resposta do padre, quando este se
+calou, tambem Alvaro não teve uma syllaba, das que se pedem á
+«philosophia» irreconciliavel, para responder.
+
+--Crê na virtude, sr. Silveira?--perguntou o padre com summa bondade e
+modestia.
+
+--Tinha-me dito que o crime e a virtude eram relativos--respondeu o
+mancebo com ar de quem desacredita as doutrinas de um mestre que
+respeita.
+
+--Tinham-lhe dito, senhor, que a consciencia universal era uma mentira.
+Mentiram-lhe cruelmente, porque v. ex.^a não podia, sem horror, encarar
+um filho que matou seu pae; um homem que traíu o seu bemfeitor; um juiz
+que entregou um innocente ao carrasco; um seductor que atou uma pobre
+mulher a um poste de ignominia eterna. V. ex.^a não póde, com
+indifferença, apertar a mão a este homem, não é assim?
+
+--De certo: eu sou um extravagante, um vicioso, mas detesto infamias...
+
+--Que todo o mundo detesta; mas o mundo onde a luz da verdade venceu as
+trevas do erro, que a palavra do Christo condemnou.
+
+--Mas diga-me v.^a sr.^a... não dizem que ha paizes onde os paes matam
+os filhos, e os filhos os paes, legalmente?
+
+--Houve, e haverá ainda. Mas sabe v. ex.^a o que é permittido ahi pela
+lei? É justamente o que é reprovado pelo christianismo.
+
+--Mas a consciencia não se revolta contra taes actos sem que seja
+preciso que o christianismo os declare criminosos?
+
+--Revolta, sim. Quando as virgens indianas se lançavam nos tumulos dos
+maridos, ou nas fogueiras legalmente accesas, as lagrimas, vencendo a
+coragem da superstição religiosa, desciam nas faces de uma familia, que
+seria injuriada se não cedesse em holocausto a desgraçada viuva. Os
+gritos d'esta eram os gritos da consciencia contra a lei barbara; eram a
+adivinhação da verdade denunciada pelo filho de Deus. Os filhos, que
+matavam os paes, eram algozes que a lei fizera, como entre nós a lei faz
+um carrasco. Poderemos nós argumentar contra a piedade, contra a
+virtude, e contra o amor porque um justiçado morre entre os braços de um
+homem, que executa a sentença de um juiz?! Persuade-se alguem que o
+homicidio legal, na consciencia do algoz, é um acto de amor e caridade?
+
+--Penso que não.
+
+--Pois bem, senhor Silveira; respeite a sua propria dignidade, já que os
+homens sem crença, sem Deus e sem esperança, lh'a quizeram aviltar,
+dizendo-lhe que o crime e a virtude são relativos...
+
+Fr. Antonio fez menção de levantar-se e continuou:
+
+--Tenho-o talvez privado dos seus divertimentos...
+
+--Não, senhor... pelo contrario tem-me dado momentos de muita
+satisfação...
+
+--Encho-me de prazer, se o consegui... E como tenho a honra de ser
+hospede de v. ex.^a...
+
+--Mestre...--interrompeu Alvaro com alegria sincera.
+
+--Não posso acceitar esse lisongeiro titulo;--_amigo_, se v. ex.^a me
+quizer honrar com este parentesco.
+
+--Não me embaraça... Tenho muito prazer em que esteja...--disse Alvaro,
+apertando-lhe cordealmente a mão.
+
+--Tenho obrigações a cumprir para com Deus: não faltará tempo proveitoso
+para os meus deveres com o proximo. Não sabe v. ex.^a que os padres teem
+um breviario, que a cada hora do dia lhe recorda o dever de orar por
+aquelles, que não cedem alguns minutos á oração? Filhos de Deus, pedimos
+uns pelos outros; e Jesus Christo beneficiou-nos com a riqueza da prece,
+com este patrimonio commum a todos os irmãos... E não é isto uma
+consolação para os que são atheus por contagio e não por convicções;
+fanaticos e supersticiosos por ignorancia e por estupidez?
+
+--A respeito de atheismo... tenho... minhas... duvidas...--disse Alvaro
+com palavras entrecortadas por aquella pausa emphatica, semelhante á
+ironia dos sabios, segundo a moda.
+
+--Pois bem... Temos zelo e vontade para acertarmos... Deus hade
+conceder-nos o tempo, que é o desengano de todas as duvidas... Até outra
+occasião...
+
+E retirou-se contra os desejos de Alvaro. Mas fr. Antonio conhecia o
+coração do homem. Chamara-o Deus para uma empresa trabalhosa. A força
+descia-lhe do céo. Não era em si que elle confiava.
+
+
+XII
+
+Mal o padre saíra, entrou Gonçalo da Silveira. Era o pae que procurava o
+filho: cumprimentou-o com a sua habitual frieza: mas o que de outras
+vezes era proposito, poderia então suppôr-se distracção. Alvaro
+absorvido nos seus pensamentos, quaesquer que elles fossem, parecia
+meditar uma das suas heroicas façanhas, sobresaltado, como quem recua
+diante de algum perigo assustador. Julgara-o assim o pae, julga-lo-iam
+assim os domesticos, e os cumplices, elle proprio, talvez, se se visse
+n'um espelho.
+
+--Que tens?... pareces-me somnambulo!?--disse o pae.
+
+E Alvaro affavelmente respondeu:
+
+--Pelo contrario: estou acordadissimo... muito accordado, penso eu.
+
+--Falaste com o egresso?
+
+--Sim, senhor.
+
+--Que te pareceu?
+
+--Um homem bom, virtuoso e extraordinario.
+
+--É realmente... que a virtude tornou-se em nossos dias uma apparição
+extraordinaria, e milagrosa,.. Gostaste d'elle?
+
+--Quem me dera ser o que elle é...
+
+--Isso é que é extraordinario, meu filho--exclamou o velho.
+
+--Amar um bem, que não podemos possuir, é tão proprio do homem... Que
+acha o pae de extraordinario, n'este meu desejo:
+
+--Muito, muito, meu caro Alvaro!... Tu hontem não falavas assim...
+
+--Tambem meu pae não amava a formosura de minha mãe, antes de
+conhece'-la... A virtude é como a virgem, que um homem estragado vê na
+vertigem de uma orgia, mas não póde ama'-la sem approximar-se realmente
+do original d'essa sombra phantastica. Sabe meu pae o que eu amo em
+padre Antonio? É a transparencia d'aquella face, que deixa vêr um bello
+coração. Amo-lhe a paz, a firmeza, a confiança com que censura os
+crimes, sem irritar o amor proprio do criminoso. Amo-lhe a independencia
+com que falla, e a soberania com que responde. Parece que Deus o manda
+falar! É um bello caracter! A sociedade, se conhecesse este homem,
+adorava-o!
+
+O jubilo de Gonçalo da Silveira era um delirio. Parece que lhe não
+ouvira as ultimas palavras. A emoção sublimára-se até ás lagrimas.
+Alvaro tocado por uma scena, que nunca elle se julgára capaz de
+estimular, recebera seu pae nos braços, com vehemencia, com transporte,
+com amor de filho, sentimento para elle novo!
+
+
+XIII
+
+Do abalo á conversão vae um grande espaço, eriçado de espinhos, que,
+primeiro, medram nas lagrimas, e, no fim, se transformam em flores.
+
+Amar a virtude não é esposa'-la. Rainha de dois mundos, com formosura
+immortal, a sua posse custa muitos sacrificios. No estrado do seu
+throno, pisam-se as paixões do mundo. Os labios, que a saudam, devem ter
+sido abrazados pela oração contricta.
+
+Os olhos que a contemplam, devem ter sido manancial de lagrimas
+purificadoras das maculas hediondas do vicio.
+
+Mas ha muito que soffrer desde o amor á posse.
+
+Alvaro da Silveira enamorou-se do anjo do bem, que lhe transluzira de
+entre a nuvem com que o ministro de Deus lhe escondia um novo mundo.
+Agitára-se-lhe o sangue no coração, e, no scepticismo, a esperança, que
+é a vida do espirito. Sentia-se com mais vida, mais alentos e idéas
+novas. Aprendera a pensar. Mas o pensamento é o gerador das convicções;
+e as convicções são absolutamente um dom exclusivo da verdade; e a
+verdade é a perpetua conversação de Deus com o homem. Para Alvaro
+existia DEUS!
+
+
+XIV
+
+A incredulidade tem um sorriso de escarneo para estas transfigurações.
+Erma do coração, e fistulada nas entranhas pela podridão do epicurismo,
+ri-se, ri-se, ri-se como um demente a quem ninguem contesta o direito de
+rir.
+
+
+XV
+
+Fr. Antonio dos Anjos concluira a sua reza. Gonçalo da Silveira esperava
+anciosamente o ensejo de visita'-lo. Mal ouviu passos no quarto, entrou.
+Riam-se-lhe as feições, e pulava-lhe o coração na face. O sacerdote
+achou-se nos braços do velho pae, que soluçava expressões de
+reconhecimento.
+
+O padre maravilhava-se.
+
+--Pois a que devo eu esta commoção de agradecimentos?--perguntava elle
+enternecido.
+
+--Salvou meu filho!--exclamava o fidalgo, beijando-lhe as
+mãos.--Amenisou-me a velhice... Deu-me um bom fim de vida, e uma boa
+morte. Vós arrancastes meu filho do mau caminho.
+
+Era bem justificado o pasmo de frei Antonio! Gonçalo da Silveira
+contara-lhe o que vinha de passar com Alvaro. Exagerára, talvez, as suas
+expressões, as palavras do filho, os elogios do mestre, e as esperanças
+da sua boa alma. Frei Antonio, que não podia attribuir-se a rapida
+mudança do neophito, agradecia tacitamente a Deus o raio luminoso de
+graça que fizera baixar ao coração escuro do convertido. Depois, quando
+a commoção do contentamento serenou em Silveira, o padre, magestoso como
+um propheta, apontou para o crucifixo.
+
+--É alli--exclamou com uma voz vibrante e pathetica.--É alli, que v.
+exc.^a deve ajoelhar e agradecer.
+
+Gonçalo da Silveira ajoelhou. Pouco mais atraz ajoelhára o padre.
+
+O lance era sublime, o que ha de mais sublime debaixo do céo. Adorar com
+mais fervor, só os anjos na presença immediata do Altissimo!
+
+Alvaro entrava no quarto do padre, cuja porta ficára meio aberta. Ao ver
+seu pae n'aquella postura extranha, e mais atraz, o vulto immovel do
+levita, recuou machinalmente.
+
+Que sentimento o fez recuar? Não saberia elle dize'-lo! Susteve-se
+irresoluto. Ergueram-se os que oravam, e ambos olhavam para a porta.
+Viram Alvaro, que parecia ceder ao pejo. Pejo! um tal sentimento nas
+faces petrificadas pelo gelo da libertinagem! Pejo no mancebo, que se
+vangloriava de um cynismo inalteravel!
+
+--Não quer entrar na sua casa, sr. Alvaro?--perguntou Fr. Antonio,
+collocando-se cortezmente fóra da porta do quarto.
+
+--Vim perturba'-lo...--murmurou Alvaro, hesitando entrar.
+
+--Não era possivel...--O espirito quanto mais se avisinha de Deus, menos
+cede ás perturbações... Nós oravamos com fé, e ardor. E, demais, a
+entrada de v. exc.^a não podia distrair-nos para mal.
+
+Alvaro tinha entrado.
+
+Agitou-se uma conversação variada entre as tres pessoas. Fr. Antonio,
+que vivera na casa do agricultor nas provincias do norte, falava de
+agricultura. Gonçalo parecia versado n'este ramo, e applaudia os
+melhoramentos, a que elle devia um duplicado rendimento das suas grandes
+propriedades. Alvaro escutava, pela primeira vez, um discurso serio,
+especialmente sobre agricultura, que elle ignorava desde a estação das
+sementeiras á das colheitas. E não parecia enfastiado, com quanto
+guardasse um justificado silencio na materia.
+
+Era já outra a conversa. Frei Antonio estudava a maneira de entreter a
+attenção do discipulo. Falou d'esta litteratura amena, que se tornou
+universal por ser perigosa, por ser destruidora dos costumes, e dos
+estudos sérios. Falou de romances, como falaria de livros canonicos.
+
+Conhecia-os como um vigilante examinador da origem da immoralidade.
+Alvaro conhecia alguns e honrava-os com a posse privilegiada de uma
+pequena estante que decorava no seu quarto. Fr. Antonio reparava nas
+encadernações de marroquim douradas, e nos titulos com que os
+licenciosos _Paulo de Kock_ e _Pigault Lebrun_ assignalaram os seus
+thesouros de libertinagem, escandalos da prevertida arte de imprimir.
+
+Alvaro que não podia impugnar os argumentos do padre, e tivera a
+louvavel modestia de ouvi'-lo apenas, não quiz deixar-lhe plena gloria
+de triumpho, sem uma observação que elle julgava um golpe certeiro:
+
+--Mas sua sobrinha--diz elle--é romantica...
+
+--Que é ser minha sobrinha romantica?--atalhou o padre, sorrindo.
+
+--Lê romances, escreve romances, pensa como nos romances... emfim, não
+vive, nem pensa, nem fala como a maior parte das mulheres...
+
+--Ora ahi está uma definição de mestre!--disse o padre, soltando uma
+risada que parecia um motejo, se não fosse sua.--O romancista deve ser
+uma coisa bem extraordinaria!--proseguiu elle, batendo levemente no
+hombro do discipulo.--Quem me parece romantico, segundo a arte, é v.
+exc.^a, sr. Alvaro.
+
+--Eu!?--interrompeu Alvaro com innocente admiração.
+
+--Sim, meu caro senhor. Não póde assim fazer-se uma idéa tão singular de
+uma pobre rapariga, sem contempla-la pelos olhos de uma imaginação
+maravilhosa! Minha sobrinha é uma artista que trabalha muito para
+sustentar-se, e vestir-se. Ora isto é muito positivo, muito trivial,
+muito commum com a vida do pobres, onde nunca entrou a palavra romance.
+Minha sobrinha nas horas furtadas ao trabalho, lê os livros que eu
+escolhi para a sua cultura espiritual, mas todos elles conselheiros da
+virtude, da probidade, da paciencia, e do temor de Deus. A sciencia
+profana, que eu affeiçoei ás necessidades do seu espirito, é muito
+pouca, porque, se fosse muita, seria um desperdicio de tempo, e de
+canceira inutil. A sciencia de ser boa filha, boa esposa e boa mãe,
+limita-se a muito poucas regras; e uma mulher não precisa outra
+sciencia. Minha sobrinha não leu ainda romances. Sabe que existem
+enredos torpes, escriptos em bella linguagem, como os cadaveres fetidos
+envoltos nos velludos prateados da eça; mas os seus dedos não levantaram
+ainda esse envoltorio de podridão. Minha sobrinha fala esta linguagem,
+senão geral, a melhor que os filhos podem aprender para falarem a seus
+paes, porque minha sobrinha conhece apenas o metal de voz de sua
+familia... É isto que v. ex.^a chama «mulher romantica?»
+
+Alvaro demorou a resposta.
+
+--Eu pensava--balbuciou elle--outra cousa... O mundo engana-se muito nos
+seus juizos.
+
+--Pois--tornou o padre com tristeza--que juizos são os do mundo a
+respeito d'ella?
+
+--Eu lhe digo... O mundo chama romantica uma mulher, como muitas
+mulheres, que os romances nos pintam. Por exemplo, uma virgem, que vive
+n'um sonho continuado; que vê anjos onde as mulheres prosaicas não vêem
+nada; que scisma em continuas tristezas, ao lado dos que vivem n'uma
+continua gargalhada; que busca a solidão, encosta a face pallida á mão
+direita, como a estatua da melancolia, e se devora incessantemente sem
+poder explicar o motivo por que se devora. É o ideal que a mata; é a
+febre d'uma paixão indefinivel que a consome, é a esperança de um sonho,
+de que não acorda; é finalmente, a poesia, o romantismo.
+
+Frei Antonio ouvira religiosamente este harmonico de palavras, que
+algumas vezes lhe pareceram desapegadas, e vasias de sentido.
+Respeitador das conveniencias, fez calar a verdade austera, que o
+mandava pedir uma definição logica de todo aquelle espiritualismo, de
+toda aquella linguagem refolhuda. Absteve-se da sua auctoridade, e
+transigiu discretamente.
+
+--Serão esses--diz elle--os predicados da mulher romantica; mas o que eu
+posso conscienciosamente asseverar a v. ex.^a, é que minha sobrinha está
+tão longe de ser romantica, quão longe de compreender a definição que o
+meu amigo acaba de dar.
+
+
+XVI
+
+Duas occorrencias vieram interromper a pratica: um creado, entregando
+uma carta a frei Antonio dos Anjos; outro participando a chegada do sr.
+conde de ***, que procurava Alvaro da Silveira. Este fez um gesto de
+enfado, e saíu. Aquelle, pediu licença, e abriu a carta. Gonçalo da
+Silveira retirou-se menos alegre, mas esperançado na mudança de seu
+filho.
+
+Em quanto o padre lê a carta, entremos no quarto de Alvaro.
+
+
+XVII
+
+O conde de *** era um homem de trinta annos, typo de galhardia na
+libertinagem, esbelto, gentil, apesar de resequido, na face, por certa
+aridez da dissolução, que requeima o corpo, ao passo que o viço da alma
+vae fenecendo.
+
+O açor, pairando sobre a avesinha desprevenida, apenas viu que um rapaz
+de quinze annos transpozera o limiar do grande mundo, abateu o vôo,
+aferrou-o com as garras das paixões licenciosas, e desappareceu com a
+presa através de uma atmosphera, onde o veneno se respirava pelo filtro
+do prazer. Alvaro da Silveira foi a presa.
+
+Muitos dos mais apontados em certa sociedade libertina de Lisboa, mescla
+de beaterio, hypocrisia, e despejo, quando viram Alvaro da Silveira
+ligado ao conde de ***, disseram: «está perdido!» E quem o não diria?
+
+O conde tinha uma instrucção mediana, que puzera ao serviço da sua
+immoralidade. No seu principio, quando a favor do seu nascimento, era
+bem recebido nos salões de Lisboa, o conde insultava graciosamente a sã
+religião e a piedade. Lera com pertinacia alguns d'esses livros immoraes
+e grosseiros aos vinte annos, para grangear um bom cabedal de motejos
+contra a religião, e emancipar-se com elles de uma leitura a que
+sacrificava as longas horas da noite, como um sobrinho que se violenta,
+em noite de orgia, a ficar em casa com o velho tio, porque é esse o
+preço de uma herança, que deve, á farta, indemnisa'-lo depois.
+
+Aos vinte e cinco annos sabia tudo quanto era preciso para insultar a
+Deus em nome de uma sciencia impia. Apostolo infatigavel da
+immoralidade, não respeitava sexo, nem edade, quando vibrava a ironia,
+pungente como uma frecha de fogo, ao seio da moral christã. A donzellas,
+a mães, a creanças, a velhas, a religiosas, e a devassas falava sempre
+no mesmo estylo. Se acontecia ser mal recebido, assumia uma auctoridade
+pedagogica, dava-se um ar de respeito, e justificava o que dissera em
+tom de mofa discursando contra o christianismo que elle dizia sepultado
+para sempre no tumulo que lhe abrira a sciencia.
+
+Alvaro da Silveira descreu espontaneamente. Não deu trabalho ao
+companheiro, nem quiz profundar uma questão que lhe não importava. A
+negação formal era a ultima palavra da impiedade constituida em
+sciencia. A Alvaro bastava-lhe saber essa ultima palavra.
+
+Todavia, a assiduidade da companhia, e o habito de escutar o seu amigo
+em polemicas, animadas pela fé de uma parte, e da outra pelo orgulho,
+deixaram-lhe uma tintura scientifica de atheismo.
+
+Alvaro não recebera de seus paes educação religiosa. Esta falta
+desmentia a classe d'onde viera. A jerarchia dos brazões em Portugal,
+com quanto viciosa, parece gloriar-se com o seu privilegio de fé, e de
+virtudes christãs... _extra-muros_. A educação ahi é mais religiosa que
+scientifica: é mais para Deus que para o mundo. Não é milagre encontrar
+cá fóra o representante de oito seculos de heroes virtuosos e bravos,
+enxovalhando-se na lama das covardias e das torpezas: mas raro
+encontrareis no colo materno, uma creança de sangue _illustre_, como lá
+se diz, cuja primeira palavra articulada não seja DEUS.
+
+Alvaro da Silveira era uma excepção; o instrumento--quem sabe?--de um
+acto providencial.
+
+
+XVIII
+
+Os esplendidos festins da depravação não se fechavam para alguem. Ponto
+era que o conviva fosse bem apresentado, e fechasse os labios da critica
+com mordaça de ouro. Já sabeis que Alvaro era rico, e quem o levou pela
+mão até o ultimo degrau da escada da immoralidade, fôra um conde tão
+rico e tão nobre como elle.
+
+Este homem pavoneava-se de ter conquistado um nome, que exprimia uma
+seita. Chamavam-lhe cynico, e elle gloriava-se do nome. A sociedade
+nunca o maltratára, mas elle dizia que tinha uma vingança solemne a
+tirar da sociedade. Algoz da honra de muitas familias, a sua guilhotina
+era a calumnia, quando não podia mostrar as mãos salpicadas do sangue
+das victimas. Velava alta noite a porta de um amigo, que o recebera de
+dia, para que os passageiros, ao ve'-lo, o considerassem amante de sua
+irmã. Quando o murmurio do descredito chegava aos ouvidos do pae, que
+rejeitava a mão de um traidor que o visitava, o conde não tinha duvida
+em offerecer galhardamente a esse pae uma pistola, ou um florete. Se o
+ancião recuava diante da morte, ou da idéa do abandono em que ficava sua
+familia, o cynico ria-se-lhe na face, e chamava-lhe _cobarde_ nas
+praças, ou nos salões.
+
+Assim como conduzira pela mão Alvaro da Silveira ás bachanaes, mais de
+uma virgem fôra conduzida por elle á ultima estação da licença. E,
+depois, o maldito de Deus, e dos homens, aprazia-se de contemplar o
+desenfreamento d'essas mulheres, como se fossem feras, restituidas á sua
+liberdade.
+
+Estas linhas, esboçadas á pressa e com repugnancia, traçam a physionomia
+moral do conde que entrára para o quarto de Alvaro da Silveira.
+
+
+XIX
+
+A carta que Frei Antonio recebera, era de sua sobrinha. Era este o seu
+conteudo:
+
+«Pedi licença a meus paes para escrever-lhe, meu caro tio, e sorriram á
+minha supplica. Como não pude adormecer a noite passada, trabalhei e
+conclui a ultima encommenda de flôres que tinha. Graças ao Senhor, já
+vieram novas encommendas; mas eu sinto-me fatigada dos braços, e não
+posso continuar. No espirito sinto eu muita vida, e não posso nem quero
+vencer esta consoladora força que o impelle para meu tio. Penso que o
+não verei hoje; mas... cedi agora á maneira commum de se exprimir a
+gente... eu vejo meu tio em todos os instantes e logares... Deixa-me
+escrever uma verdade, que não teria forças de dizer-lhe?... Deus quer
+que meu tio seja o prisma por onde eu devo contempla'-lo. Será isto uma
+fraqueza de razão, ou uma liberdade peccaminosa? Peccado seria eu calar
+este pensamento, que o meu querido mestre pode repreender.
+
+«Estou triste, como ha pouco. Eu adivinho alguma infelicidade. Sinto-me
+com tanta coragem para ella!... Mas a natureza humana, e especialmente o
+espirito da mulher, e especialmente o meu espirito, é muito fraco.
+Espero tanto em Deus!... tanto em Maria Santissima!... e parece que uma
+voz, nem humana, nem divina, me diz que fuja, que trema, que recue ao
+combate do infortunio contra a paciencia! Muito triste é isto, meu caro
+tio! A minha vida tem faltas, que eu devo expiar? Porque m'as não dizem,
+se me amam?!
+
+«Persigo-o muito, eu bem o sei! Não o deixo em paz, quando tão
+necessaria lhe é para estudar a grande lucta em que está empenhado! Não
+sei as forças do seu discipulo, mas eu admiro mais a conversão de Santo
+Agostinho que as victorias de Alexandre. Aqui estou eu a fazer-me
+vaidosa e sabia diante de meu tio, que tambem conhece a minha humilde
+ignorancia!... É que estou affeita a conversarmos como escrevo.
+
+«E a minha melancolia? E os meus versos? Nem me disse se tinham as
+syllabas todas, ou quantas deviam ter mais! Nem valia a pena... Adeus,
+meu extremoso amigo! Meu pae, e minha mãe, e meus irmãos estão muito
+saudosos. Não se esqueça um instante da sua familia que o ama tanto como
+a sua sobrinha
+
+ _Maria._»
+
+--Coitadinha!...--murmurou padre Antonio, dobrando a carta--És um anjo!
+
+
+XX
+
+O conde tomára uma postura comica de pasmo, quando Alvaro entrou no
+quarto. Alguma cousa o impressionára; mas em homens taes as impressões
+são fugitivas, e frouxas, porque não ha ahi enthusiasmo, nem grandeza
+n'essas almas caídas do sublime para o raso dos sentimentos grosseiros e
+triviaes.
+
+O procedimento do seu amigo devia maravilha'-lo. Era extraordinario!
+Apenas entrou no quarto, Alvaro extendera-lhe friamente a mão, e
+mandára-o sentar-se com um gesto, muito significativo de fastio. Que o
+hospede lhe era aborrecido, bem o denunciava elle no franzir da testa,
+onde por força vem á luz da physionomia sentimentos que a delicadeza
+quizera algumas vezes abafar.
+
+--Doe-te a cabeça?--perguntou o conde.
+
+--Não... doe-me o espirito--respondeu Alvaro.
+
+--As dôres do espirito, matam-se com _espirito_... mas é de vinho...
+Bebe... Obriga a materia a pensar de outra maneira, como diz _Rousseau_.
+
+--E diz _Rousseau_ que a materia pensa?--perguntou Alvaro, com um
+sorriso motejador.
+
+--Que duvida!... A materia organisada, chamada homem, é uma cousa que
+pensa. Quando pensa mal, isto é, quando nos apoquenta, modifica-se a
+materia, imprimindo lhe uma acção nova. A maneira de modifica'-la é
+simplicissima. Disseste que estavas triste, não é verdade?
+
+--Sim.
+
+--Pois bem: bebe cognac, come fiambre, afoga-o em vinho de Setubal, que
+é de mais a mais um triumpho patriotico sobre o _Champagne e Bordeus_.
+Seja o que fôr o bolo alimenticio, que alojas no estomago, é materia:
+esta, posta em contacto com a materia que pensa, altera-a; e d'esta
+alteração chimica e physiologica resulta um novo ser pensante, uma
+solemne pirraça á tristeza.
+
+O conde esperava merecer uma risada com a sua dissaborida theoria. Foi
+para elle uma segunda surpresa o silencio de Alvaro da Silveira. N'este
+silencio transparecia o desprezo a que nos movem as chufas desengraçadas
+de um truão, _invita Minerva_, que nos noja, quando pensa recrear-nos. O
+conde não estava affeito a estas decepções. O orgulho doía-se. Alvaro
+seria o ultimo de quem elle devia esperar um mau acolhimento.
+
+--Agora vejo eu--disse elle contrafazendo o pejo, que mais acertadamente
+chamariamos _despejo_.--Agora vejo eu, que o teu cerebro de hoje
+conspira contra a tua felicidade de hontem... que tens tu, mancebo
+gentil? A brisa da noite desfolhou-te a rosa, que te embalsamava o
+olphato do coração? Sonhaste alguma virgem de olhos garços, que não
+pudeste realizar em materia corrente e sonante n'estes reinos?
+
+Alvaro, nem um sorriso! Era demais para _tanto espirito_! O conde só
+agora compreendeu que os seus ditos causticavam a paciencia do
+discipulo. Este, apesar de molestado, não queria ser incivil. O
+predominio do conde sobre o seu genio não estava inteiramente extincto.
+Era-lhe necessario justificar-se de algum modo. Qualquer evasiva podia
+servir-lhe; mas a transfiguração do seu caracter, n'aquelle momento, não
+lhe permittia uma mentira. Bem podera Alvaro queixar-se de um
+padecimento physico, e tinha bem justificada a sua indolencia para as
+caricias folgazãs do conde; mas não o fez assim, e, se consultarmos o
+coração humano, ouviremos um applauso á franqueza que depois ostentava
+Alvaro. É que, se, por ventura, um sentimento novo acorda em nós desejos
+bons, o primeiro d'esses desejos é communicar aos outros uma felicidade,
+que tanto menos egoista, tanto mais perfeita se nos afigura. A passagem
+da indifferença para a observancia da religião revela-se sempre com
+esses symptomas. O zelo de um neophito manifesta-se mais corajoso e
+ardente que o apostolado de um orador feito, e encanecido em desalojar a
+impiedade dos seus ultimos reductos. E depois, no espirito illuminado
+pela effusão rapida e imperceptivel da graça divina, ha um desejo forte,
+uma vaidade santa de attrair espiritos contumazes, de curvar os joelhos
+arrogantes, e de vencer razões, cuja pertinacia nos parece impossivel na
+presença dos argumentos que humilharam a nossa. O que então se dá na
+alma é uma paixão sublime. A eloquencia do que fala, convicto de
+verdades que lhe promettem uma aspiração immortal, parece um emprestimo
+da linguagem dos anjos. Ei'-los ahi, de repente, credulos, os apostolos,
+que extendiam ha pouco as redes no lago de Gethsemani, e surgem agora
+entre os interpretes da lei, nas praças da Galiléa, falando linguas que
+nunca ouviram.
+
+
+XXI
+
+Alvaro da Silveira sentira-se capaz de converter um impio. Ha pouco
+ainda, balbuciára as primeiras palavras de fé, e crê-se já robusto para
+vibrar a funda contra o gigante do materialismo cuja arrogancia não
+vencem forças de homem, sem o impulso divino, que arrojára a pedra que
+prostrou o gigante philisteu.
+
+--Que tens tu?--repetiu o conde.
+
+--O que eu tenho--respondeu Alvaro--é o desejo de um amigo; mas queria
+um amigo, que nascesse n'este momento, e n'um momento me comprehendesse.
+Não podes avaliar-me, conde. Se pudesses, ser-te-hia bastante uma só
+palavra...
+
+--Pois bem--replicou o conde--diz ao menos essa palavra... ou diz sequer
+tres palavras conceituosas como as de Cesar...
+
+--Ora attende-me. Tendo nós vivido sempre juntos nunca me persuadi que
+pudesse estar tão longe de ti como estou agora.
+
+--Serás tu romantico?! atalhou o conde dando-se uns ares grutescos de
+espanto.
+
+--Se ouvisses--tornou Alvaro sorrindo--a definição que ha pouco ouvi do
+que é ser romantico, e se concordasses com ella, respondia-te que estava
+romantico.
+
+--Pois quem anda cá por casa a dar definições? Teu pae deu agora n'essa?
+
+--Não foi meu pae... Meu pae o que soube foi definir a minha posição.
+
+--Apre! Estás mysterioso como o boi Apis! Vou-me embora, que não sei ler
+geroglyphos humanos. Palavra de honra! Soletra lá o conceito d'essa
+charada, do contrario vou-te mandar preparar quarto na enfermaria de S.
+José.
+
+--Então queres saber quem define os homens e as cousas cá em casa?
+
+--Quero conhecer esse escolastico; deve ser um monstro de paciencia
+humana!
+
+--É um padre!
+
+--Um padre? exclamou o conde, erguendo-se, e apertando as mãos á
+cabeça--um padre em casa de Alvaro da Silveira! Malagrida em 1844 a
+fazer exercicios espirituaes contra os exercicios da materia!...
+
+
+XXII
+
+N'este momento, abriu-se a porta do quarto. Os que a abriram eram o pae
+de Alvaro, e fr. Antonio dos Anjos.
+
+A presença do sacerdote devia augmentar o pasmo comico do conde; mas a
+impressão foi diversa. Este homem do grande mundo perdia muito da sua
+altivez sarcastica, se não tinha em redor de si um rancho que lhe
+applaudisse as chufas. A unica pessoa de sua confiança, n'aquelle
+momento, era Alvaro, mas este apostata do «grande tom» não era hoje o
+homem de hontem. E, por tanto, o desenvolto conde na presença do padre
+sentiu-se embaraçado, como devera sentir-se o padre na presença de tres
+cavalheiros da força moral do conde.
+
+Frei Antonio dirigiu sua humilde saudação ao cavalheiro, que não
+conhecia. Alvaro apresentando-lh'o, disse:
+
+--Tenho a honra de lhe apresentar o meu amigo conde de ***. É mais velho
+do que eu, mas posso dizer affoutamente que sabe menos do que eu da
+verdadeira sciencia.
+
+--A verdadeira sciencia--disse o padre--é um exclusivo de Deus, e não
+tem academias cá na terra.
+
+--Concordo absolutamente na negativa--disse emphaticamente o conde.
+
+--Então em que é que concordas? perguntou Alvaro.
+
+--Em que não se sabe nada a respeito da verdadeira sciencia.
+
+--E em que é que não concorda, senhor?--interrompeu frei Antonio, com
+risonha benevolencia.
+
+--No exclusivo divino em que vossa reverendissima monopolisa a
+sciencia--responde o conde sorrindo sardonicamente á palavra
+reverendissima.
+
+--Não me parecem respeitosas as palavras da resposta--retorquiu o
+padre--mas nem por isso hesitarei em fazer-me comprehender melhor, para
+depois avaliar a opinião de v. ex.^a. Quando eu disse que a verdadeira
+sciencia era um exclusivo de Deus, poderia fazer-me entender melhor se
+dissesse que o objecto do estudo que promettia consequencias seguras de
+principios certos, é Deus. Se v. ex.^a quizer insistir na primeira
+intelligencia que deu ás minhas palavras «que a verdadeira sciencia é um
+exclusivo da divindade, porque só Deus é omnipotente...»
+
+--Assim reza a cartilha do padre Ignacio--interrompeu o conde com
+acatamento ironico.
+
+--É verdade--replicou o padre--a cartilha do padre Ignacio, que v. ex.^a
+citou em ar de mofa, assim o diz e deve dize-'lo, porque essa cartilha,
+por onde estudam os meninos, contém as verdades eternas como ellas foram
+recebidas pelos sabios e illustrados doutores da egreja. E como é
+possivel que não sôe bem aos ouvidos de v. ex.^a esta minha linguagem,
+buscada de emprestimo na cartilha do padre Ignacio, eu não poderei,
+falando-lhe a sciencia de Deus, empregar os termos que a falsa
+philosophia emprega contra Deus.
+
+--V. s.^a faz uma grave injustiça á philosophia. Sem a
+philosophia--disse o conde, assumindo um ar de séria profundidade--sem a
+philosophia não poderiam os padres da seita christã seduzir o espirito
+dos homens, a ponto de convencer alguns menos reflectidos, da divindade
+do christianismo.
+
+--E por tanto--acudiu o padre--deixe-me v. ex.^a concluir que a
+philosophia é uma mentira, por isso que os padres da seita christã, como
+v. ex.^a gratuitamente appelida a egreja catholica, se serviram d'ella
+astuciosamente para convencer os menos reflectidos. Ora pergunto eu
+agora, quaes são os mais reflectidos?
+
+--São os que vêem as cousas pelos olhos de uma rasão illustrada!
+
+--Mas a rasão illustrada não é a philosophia?
+
+-É.
+
+--Logo a rasão illustrada é uma mentira, por isso que a philosophia é
+uma mentira, que seduz os menos reflectidos a julgarem divino, o que não
+passa de uma humana impostura. Póde v. ex.^a elucidar-me n'esta grave
+questão, que não vem resolvida na cartilha do mestre Ignacio?
+
+O conde embaraçado, e surprehendido pela argumentação escolastica do
+padre, parecia engasgar-se n'uma resposta, cuja frivolidade lhe estava
+bem denunciada no rubor que lhe subia á face. Este rubor era a
+arrogancia despeitada. Frei Antonio, repeso de assolar tão cedo o fragil
+edificio do seu adversario, remediou o mal que, segundo a sua humildade,
+tinha feito, dando elle proprio a mão ao fraco contendor.
+
+--Estou como v. ex.^a persuadido--disse elle--que ha uma philosophia á
+qual faria grave injustiça, se não dissesse que muito lhe devemos por
+nos ter aplanado algumas difficuldades em sciencia. Estas difficuldades
+vencidas serviram a causa de Deus, e confirmaram verdades claras que a
+razão humana julgára mysterios. Citar-lhe-ei um exemplo. Ha um seculo
+escreveu-se contra o christianismo, e disse-se que a religião assim
+chamada era um encadeamento de embustes desde Moysés até Jesus Christo,
+desde o Genesis até o Evangelho. Os que assim escreviam eram
+philosophos, sr. conde?
+
+--De certo, porque os que assim escreveram foram Voltaire, d'Alembert,
+Holbac...
+
+--E outros muitos que não é força citar. Pois, senhor, esses reputados
+philosophos disseram que Moysés era uma impostura, por isso que a
+philosophia não podia consentir que a relação dos successos da creação
+do mundo, descripta no Genesis, fosse verdadeira. Passados annos, as
+academias scientificas, especialmente a sociedade de Calecut,
+expressamente organisada para testificar ou destruir o testemunho de
+Moysés, declara que é impossivel compreender a cosmogonia, isto é, a
+formação do mundo, sem admittir as infalliveis bases de sciencia,
+escriptas ha cinco mil annos nos livros do povo hebreu. Agora pergunto
+eu se devemos julgar philosophos os primeiros que negaram Moysés, ou os
+segundos, que, partindo das veredas da incredulidade para o caminho
+recto da sciencia, declararam, após cem annos de progresso em sciencias
+naturaes, que a narração do Genesis era a unica admissivel em verdadeira
+philosophia. Se acreditamos os primeiros a sciencia é uma mentira, por
+isso que tanto mais progride tanto mais se afasta da verdade. Se
+acreditamos os segundos, os primeiros eram os mentirosos, e por tanto eu
+proclamarei a philosophia progressiva como aquella que conduz ao
+conhecimento de Deus, tanto quanto é possivel ás indagações da limitada
+razão do homem.
+
+--A razão do homem não é limitada--retorquiu o conde.--Á razão do homem
+é que devemos o vasto terreno da sciencia, grangeado pelos esforços
+d'esses homens que conquistaram verdades axiomaticas, sem as armas do
+Evangelho, e sem as esterilisadoras argucias da theologia. A razão do
+homem é amplissima e immensa com Deus, porque Deus é a razão.
+
+--Não estamos já na questão que discutimos--tornou o padre.--V. ex.^a
+devia destruir os meus argumentos, provando-me que os verdadeiros
+philosophos eram os do seculo passado que desthronaram Moysés do seu
+prestigio de legislador inspirado directamente de Deus. Devia provar-me
+que a sciencia moderna, restaurando as tradições da historia antiga, e
+restituindo Moysés ao patriarchado das primitivas verdades, era uma nova
+impostura, ou a continuação d'aquella sordida ignorancia que Voltaire
+combateu triumphantemente, segundo a maneira por que v. ex.^a vê as
+cousas. E, estando eu muito convencido da impossibilidade que v. ex.^a
+ha de encontrar em provar-me as theses que lhe apontei, vou responder á
+apologia que fez á razão do homem.
+
+Não ha duvida que a razão humana procura todos os dias tirar, em
+sciencia, novas consequencias de velhos principios; e effectivamente
+esse incansavel trabalho do espirito humano, ancioso de progredir, tem
+conseguido tudo isto que nos maravilha nas sciencias e nas artes. Já vê
+v. ex.^a que eu concedo grandes fóros, e sublimes honras á razão; mas,
+já que tão opulenta a considero, não terei escrupulo em pedir-lhe que me
+explique os principios de que ella tira as suas consequencias
+scientificas. Pedirei aos chimicos, que me expliquem o seu grande
+principio axiomatico da «affinidade». Responde-me v. ex.^a em nome
+d'elles?
+
+--Eu de certo não, porque ninguem soube dizer o que era affinidade.
+
+--Não é tanto assim. Os chimicos dizem que a affinidade é a força que
+attráe as moleculas de differente natureza. Respondem assim, porque
+observaram a combinação d'essas moleculas; mas queria eu que me fosse
+explicada a natureza d'essa força, o segredo d'esse movimento de corpos
+inertes, sem que a mão do homem lhe imprima tal movimento. É a
+«attracção» dizem os physicos, mas o que é a attracção? D'onde vem a
+força impulsiva que faz girar o globo que habitamos em redor de um outro
+globo, que não conhecemos?
+
+--Não temos precisão de conhecer até á evidencia esses segredos da
+creação.
+
+--Mas v. ex.^a concede que o Creador não os ignora?
+
+--Seria um absurdo não o conceder.
+
+--E a razão humana não póde conhece'-los?
+
+--Já disse que não.
+
+--Mas v. ex.^a disse que Deus é a razão humana! Eu sinto grandes
+difficuldades em combinar a sua these com as consequencias que se tiram
+d'ella. Se a razão humana é Deus, o homem é forçosamente divino pela
+celeste razão que o illumina. Se o homem, com a sua razão, não póde
+profundar os segredos da creação, eu não posso conceder que Deus, pelo
+facto de modificar-se em «razão» unindo-se á humanidade, reservasse para
+si certos mysterios como «Deus», e cedesse a si proprio o conhecimento
+de certas e determinadas verdades como «razão.»
+
+--Não combinamos em principios, meu caro senhor, e d'ahi vem a
+desintelligencia em que estamos nas consequencias. Eu vou explicar-me
+com clareza: Eu digo que a razão do homem é uma emanação de Deus.
+
+--Mas eu não entendo, sr. conde, o que é, e como se opera essa emanação
+de Deus. Deus é indivisivel; Deus é inalteravel; Deus é immutavel. Não
+posso, por mais abstractas que sejam as minhas intuições, imaginar que a
+emanação de Deus não seja uma parte de Deus; e, por tanto, não concebo
+como essa parte seja substancialmente diversa do todo. Deus considerado
+em si, segundo v. ex.^a, é omnisciente, e vê os segredos da sua obra:
+Deus, convertido em razão pelo effeito da emanação, segundo os mesmos
+principios, perde os attributos de Deus omnisciente, e restringe-se ao
+conhecimento de algumas verdades, por meio das quaes é impossivel
+conhecer os mysterios, que ha perto de seis mil annos, os homens debalde
+tentam descortinar.
+
+--Pois v. s.^a não admitte que todo o ser creado é uma emanação de Deus?
+
+--Não, senhor, não admitto.
+
+--Essa é boa! Pois a creação não é uma producção de Deus?
+
+--E a producção é por ventura uma emanação? A estatua de barro que sáe
+das mãos do esculptor é uma emanação de esculptor? Deus incorporeo
+poderia materialisar-se nas massas inertes, que foram producto de sua
+omnipotencia, tanto como o homem que foi feito á sua imagem?
+
+--Ahi está um grande embaraço para mim. Não comprehendo como o homem
+corporeo foi feito pelo modelo de Deus incorporeo.
+
+--A imagem de Deus, sr. conde, é a alma, não é o involucro material da
+alma. Memoria, vontade, intelligencia são os traços d'essa physionomia
+espiritual affeiçoada pelo typo divino. Attribuimos á memoria tudo o que
+sabemos, diz S. Bernardo, posto que esta sciencia não seja a causa de
+nossos pensamentos; attribuimos á intelligencia, e algumas vezes á
+memoria, tudo o que o pensamento nos mostra verdadeiro; imputamos á
+operação da vontade tudo o que reconhecemos ser bom e verdadeiro pelo
+soccorro da intelligencia. A memoria nos assemelha ao Pae, a
+intelligencia ao filho, a vontade ao Espirito Santo. Seja-me permittido
+citar Santo Ambrosio, em quanto v. ex.^a invoca os textos de Voltaire.
+«Do mesmo modo que Deus, diz elle, creador do homem á sua semelhança, é
+caridoso bom e justo, doce e soffredor, puro e misericordioso... assim o
+homem foi creado para possuir a caridade, ser bom e justo, doce e
+paciente, puro e misericordioso. Quanto mais o homem sente em si essas
+virtudes, mais se approxima de Deus, e mais semelhança tem com elle.
+Mas, se ulcerado pelo crime e pelo vicio, elle se afasta e degenera
+d'esta nobre semelhança com o seu Creador, descerá á realidade d'estas
+palavras escriptas em predicção bem desgraçada: «O homem não compreendeu
+a sua elevada posição; comparou-se aos irracionaes, e assemelhou-se a
+elles.»
+
+--Parece-me muito metaphysica a sua explicação, sr. padre. Eu gosto da
+geometria em todas as demonstrações, e não admitto verdades sem
+evidencia mathematica. O seu Santo Ambrosio e S. Bernardo explicariam
+perfeitamente a semelhança do homem com o seu Creador, mas foi n'esses
+tempos em que falavam ás turbas credulas, que juravam em suas palavras
+sem entende'-los. Hoje é muito perigoso esse assumpto, e não me consta
+que desde o seculo do grande Rei, desde Bossuet até Frayssinous, algum
+orador christão torture a intelligencia do seu auditorio, querendo á
+força persuadir-lhe que o homem foi creado á semelhança de Deus!
+
+--V. ex.^a não tem obrigação de ter lido tudo; mas tambem a não tem de
+calumniar Bossuet. Se a memoria não me falha, eu lhe cito as palavras
+textuaes do grande orador: «Façamos o homem; e proferidas estas
+palavras, a imagem da Trindade appareceu. Ostenta-se luminosa na
+creatura racional: semelhante ao Pae tem o ser; semelhante ao Filho tem
+a intelligencia; semelhante ao Espirito Santo tem o amor; semelhante ao
+Pae, e ao Filho, e ao Espirito Santo, tem, no seu ser, na sua
+intelligencia, e no seu amor uma mesma felicidade, uma mesma vida. Feliz
+creatura, e verdadeiramente semelhante, se ella se occupa unicamente
+d'elle! Então, perfeita no seu ser, na sua intelligencia, e no seu amor,
+conhece quanto é, ama quanto conhece: seu ser e suas operações são
+inseparaveis; Deus torna-se a perfeição do seu ser; a nutrição immortal
+da sua intelligencia, e a vida do seu amor... Ditosa creatura, se sabe
+conservar a sua felicidade!»
+
+--Esta é a doutrina de S. Bernardo, de S. Ambrosio, de Bossuet, de
+Frayssinous, e de todos aquelles que bebem o leite da fé no seio da
+esposa de Jesus Christo.
+
+--Não duvido; mas não compreendo. O que eu sei é que repugna com a menos
+desenvolvida razão a semelhança espiritual do homem com Deus. Eu conheço
+homens tão degradados da honra, tão hediondos de crimes, que reputára-me
+blasphemo se os considerasse semelhantes no typo divino.
+
+--Ha de ter paciencia de escutar-me com a attenção de philosopho, se não
+póde prestar-me outra.--A revelação figura-nos o homem, não só como o
+mais perfeito de todos os seres animados, mas ainda como o rei da
+natureza, para o qual foram feitas todas as cousas. Por ella aprendemos
+que Deus fez o homem á sua imagem e semelhança, para que presidisse ao
+universo. Sabemos ainda que, depois de dar-lhe uma companheira, disse a
+ambos: «Crescei e multiplicae, enchei a terra da vossa posteridade,
+submettei a vossas leis tudo o que respira; pois tudo é feito para vós.»
+«Vós o fizestes senhor de todas as vossas obras!--exclama o
+psalmista--todos os entes vivos são submissos ao seu imperio, e
+destinados para seu uso.» É verdade que a escriptura varia a linguagem,
+quando lembra ao homem a sua construcção de terra, que em terra se
+tornará. Assim era necessario para suffocar os orgulhos do coração. Não
+é, porém, o longo viver sobre a terra que constitue a dignidade do
+homem. Não é sobre a terra, que a felicidade lhe sahirá ao encontro.
+Creado para Deus e para a eternidade, só no seio de Deus, e no seio da
+eternidade poderá ser feliz d'esse goso inalteravel que não se finda. É
+aqui onde começa a cadeia de objecções por parte da incredulidade. Nega
+primeiramente que o homem fosse feito á semelhança de Deus. Quem quizer,
+porém, convencer-se d'esta verdade, observe com attenção o modo como a
+alma exerce suas funcções, e o dominio que ella tem sobre o involucro de
+materia inerte, que lhe obedece: Consideremos a variedade infinita das
+nossas idéas, a rapidez com que ellas se formam, a communicação por
+intermedio da palavra, a fidelidade da nossa memoria, esse presentimento
+que raras vezes nos engana, tudo parece approximar-nos da suprema
+intelligencia, que abraça de um lance o céo e a terra, as passadas, as
+presentes e as futuras revelações da humanidade. A alma, quando furiosas
+paixões a não agitam, é capaz de reprimir seus desejos; de acalmar seus
+movimentos desordenados, de dirigir sua vontade, e ahi se observa uma,
+posto que imperfeita, imitação do imperio que Deus exerce sobre todos os
+seres. O sentimento que ella tem de sua immortalidade, seu olhar
+penetrante nas profundidades do futuro, e suas esperanças anciosas além
+do tumulo, são indicações do seu destino, assignalado por Deus.
+
+--Essa imagem de Deus--atalhou o conde--está bem degenerada; e, se o não
+está, Deus é um ente bem imperfeito.
+
+--Concordo--tornou o padre--que não é muito semelhante esta imagem do
+homem imperfeito com a do seu perfeito Creador; era-o, comtudo, no
+momento da creação; foi o peccado que o desfigurou. Mas se o homem
+degenerou por causa do peccado, lapso da sua innocencia primitiva, foi
+depois regenerado pelo sangue do Salvador, e, assim resgatado, tornou-se
+pela graça filho de Deus. O homem, no estado de innocencia, devia
+dominar-se, dominar as creaturas todas, e viver perfeitamente com Deus,
+seu creador. Eu quereria poder aqui especificar a substancia da alma,
+para satisfazer plenamente ás duvidas do sr. conde, mas, se eu posso
+provar que a sua espiritualidade está provada pela sua origem, devemos
+convir que tudo mais nos é desconhecido. Porque Deus soprou o barro que
+amassára, não se segue que a alma humana é uma porção de Divindade, como
+os antigos egypcios acreditavam: esta supposição levar-nos-ia ao
+pantheismo, de todos os systemas o mais insensato. Deus é um espirito, o
+espirito é indivisivel; e, recebendo cada homem no halito creador uma
+porção de Divindade, cada homem seria um Deus. O que devemos entender do
+sopro de Deus não é uma emanação da substancia, mas sim a creação de uma
+substancia semelhante, isto é, espiritual, mas nunca identica ao Supremo
+Espirito.
+
+--Não existe entre o corpo e essa substancia espiritual uma união
+real?--interrogou o conde.
+
+--Certamente, existe, porque o corpo é o instrumento de que a alma se
+serve para obter o conhecimento dos objectos.
+
+--Mas qual é a natureza d'essa união?
+
+--Essa questão não póde ser solvida pelos homens: é um mysterio
+d'aquelles em que a Divindade se manifesta com mais magestade ao debil
+entendimento da humanidade. Se, porém, não é possivel chegar á ultima
+consequencia d'essa pergunta, não é difficil provar-lhe que uma tal
+união existe. A alma possue sobre o corpo a soberania e a independencia
+da vontade; rege-o pelo pensamento, sem comprehender a disposição dos
+órgãos que rege, e sem que perceba a potencia que move e anima as
+fibras. Sabe, por ventura, v. ex.^a explicar-me a natureza de certas
+operações incognitas, que se passam em si? Sem a degradação produzida
+pelo peccado, este imperio da alma não acharia estorvos no seu
+exercicio; mas, no estado actual, a vontade é muitas vezes vencida pela
+resistencia dos sentidos.
+
+--Pois bem, tornou o conde--eu ponho de parte a esteril pretenção de
+querer saber onde está a alma, e peço que me diga, sr. padre, que culpa
+tenho eu no peccado de Adão, para estar pagando as suas dividas? Isto
+parece-me uma flagrante injustiça!
+
+--Deus é soberanamente sabio, bom, e misericordioso; disse-nos que o
+peccado de Adão era uma herança de culpa para todos os seus
+descendentes; devemos acredita'-lo. São-nos desconhecidos os motivos
+d'esta responsabilidade; mas não se segue que possamos, como ignorantes,
+alcunhar de injusto o Altissimo. N'este mundo ha alguma cousa
+semelhante. Diz-se que as faltas são pessoaes, e que a vergonha de uma
+acção criminosa deve só recair n'aquelle que a pratica. E, quando um
+crime estrondoso se dá que é o que nós fazemos? perseguimos com odio e
+com desprezo o condemnado e a familia do condemnado, até lhe cortarmos
+os vinculos que a prendem á sociedade. Não quero dizer que Deus sinta
+estas repugnancias proprias dos homens, porque não sabemos o motivo
+porque elle produziu obras, que apenas podemos contemplar; o que dizemos
+é que Deus é infinito, eterno, e que a pena do peccado, para estar em
+proporção com a sua natureza, deve ser eterna e infinita. No estado de
+innocencia, o homem tinha a luz da sua intelligencia, e, degradado pela
+culpa, caíu nas trevas; de senhor absoluto da sua vontade tornou-se
+escravo dos sentidos; pelo repouso e felicidade que possuia, trocou a
+tristeza e o tumultuar das paixões, que o infelicitaram: em logar da
+vida espiritual e eterna, encontrou a vida material e a morte.
+
+O conde atalhou as razões do padre, espreguiçando-se rudemente, abrindo
+a boca, esfregando os olhos, com a mais sensivel ostentação de escarneo.
+Fr. Antonio sorriu-se com bondade, e disse para o pae de Alvaro:
+
+--Eis aqui como a philosophia do orgulho, esta rainha comica do mundo,
+responde aos que lhe perguntam pelos seus fóros de realeza...
+
+--Não é isso, sr. padre--interrompeu o conde.--É que eu passei uma noite
+pouco orthodoxa e não posso digerir o succo nutriente da sua theologia
+sem dormir algumas horas, para restabelecer a boa harmonia entre as
+funcções do entendimento e as dos sentidos. Bem sabe v. s.^a que os
+apostolos dormiram, e mais era Christo quem lhes pediu que velassem. Ora
+eu não tenho a audacia de comparar-me a Cefas, e vossa reverencia não
+quer de certo tambem comparar-se ao Mestre... Meus senhores, a minha
+noite começa agora... Vou dormir, naturalmente sonharei com S. João
+Chrysostomo, e S. Bernardo... Boas noites.
+
+
+XXIII
+
+As argucias galhofeiras do conde não agradaram a algum dos ouvintes.
+Alvaro pareceu vexar-se d'aquella despedida, mais insultuosa que
+engraçada, ao padre. Este, porém, supposto que vexado, não se denunciou
+pelo mais ligeiro gesto de enfadamento. A coragem para receber
+impassivel as ironias sarcasticas da incredulidade, dera-lh'a a
+desgraça, e aconselhára-lh'-a a caridade.
+
+Na ausencia do conde, Alvaro e seu pae esperavam do padre palavras
+resentidas; e maravilharam-se quando lhe ouviram dizer com profunda
+compaixão:
+
+--O desgraçado precisa muito das orações de um justo!... Quem me déra
+sê-lo para que a luz do céo lhe descesse ao espirito, antes que o
+desalento do mundo lhe aconselhasse a religião como refugio das extremas
+desgraças da vida! Oh! quando isso acontecer... muito infeliz deve elle
+ter sido!...
+
+Desde este momento apertaram-se os vinculos de piedade, de sympathia
+religiosa que prendiam Alvaro e o frade. O mancebo vira a vergonhosa
+retirada do seu antigo mestre de atheismo, e decidira-se de coração a
+favor do modesto triumpho do humilde padre. Como espirito illuminado
+pela fé, Alvaro precisava formar a sua razão pelos elementos de uma
+philosophia que Fr. Antonio lhe dissera existir, mas que não era aquella
+do seu amigo conde.
+
+O estudo attencioso, reflexivo, e continuado tornou-se a vida, quasi
+invariavel, do educando. Uma transição, assim rapida, assentava o padre
+que não podia, sem intervenção divina, explicar a improvisa regeneração
+de um homem, que deixára no mundo mil incentivos de paixões que o não
+tinham enfastiado ainda.
+
+A vergonha da virtude, que não pudera vingar n'um coração ulcerado de
+vicios, principiou a desabrochar flôres que enfeitavam a conversão do
+mancebo d'essas galas de educação, que parecem vindas do berço e
+herdadas dos paes. Era o imperio da religião, e unicamente da religião.
+
+Fr. Antonio dos Anjos, vaidoso com razão da obra, cujo instrumento elle
+fôra, não cessava de agradecer ao Altissimo a escolha que fizera de um
+peccador para a conversão de outro peccador, para quem o remorso seria
+tardio.
+
+
+XXIV
+
+Na «grande roda», falava-se muito da conversão de Alvaro. Infelizmente,
+porém, esta conversão tomaram-na irrisoriamente a maior parte d'aquelles
+que se occupavam d'ella, por não terem um caso semelhante de que se
+occuparem. Os da sua plana, particularmente, pareciam vexados da
+religiosidade do seu antigo camarada, que tão bellas esperanças dava de
+correr parelhas no cynismo philosophico do conde.
+
+Na incerteza de semelhante boato, muitos vieram procurar Alvaro, e
+acharam-no prompto sempre a recebe'-los; se, todavia, os seus hospedes
+tentavam chama'-lo ao assumpto, que ali os trouxera, Alvaro contava-lhes
+uma historia assim resumida:
+
+«Eu era discipulo do conde ***, assim como vós o sois. Casualmente o meu
+mestre de philosophia falsa encontrou-se com outro que me dizia ser o
+mestre da verdadeira philosophia. Disputaram por algumas horas: o
+primeiro, quando se viu esmagado no seu orgulho, fugiu, cantando um
+hymno em seu triumpho, mas um hymno injurioso ao modesto vencedor.
+Sabeis o que depois me fez alistar na escola do frade, e fugir á escola
+do conde? Foi, talvez, muito pouco: vi que o frade pediu a Deus a
+conversão do conde que o insultára, e insultára a Deus.»
+
+Os que o ouviram diziam depois: «Aquelle pobre Alvaro endoudeceu!...
+Coitado!... Seria uma paixão infeliz? Seria desorganisação do
+cerebro?... Seria alguma grande perda no jogo?»
+
+
+
+
+LIVRO III
+
+
+I
+
+Eram passados seis mezes depois que frei Antonio dos Anjos tomára a seu
+cargo a educação de Alvaro. Este mancebo, vivendo uma vida quasi de
+reclusão e de immobilidade corporal, fazia grande violencia ao corpo, se
+bem que á alma não fazia nenhuma. É que a materia, posto que sujeita á
+vontade do espirito, adquire certos habitos, que não seguem facilmente
+as modificações do espirito, principalmente quando estas são bôas e
+aquelles máos. É como o relevo aberto no marmore pela mão do homem, cuja
+imperiosa vontade não póde desfigurá'-los sem que a mão os destrua.
+
+E a passagem da vida agitada para a meditação sedentaria fôra em Alvaro
+rapida, talvez de mais. Fr. Antonio conhecia a inconveniencia d'esta
+transição; mas superior a taes receios, o religioso esperava que, na
+conversão do seu discípulo, se operasse um continuado milagre.
+
+A Providencia, porém, imprimira no espirito do mancebo o impulso da
+graça, e deixára-o sósinho na lucta do bem e do mal, para que as fadigas
+do seu triumpho lhe fossem expiações das cobardias em que se deixára
+vencer.
+
+Ao cabo de seis mezes, Alvaro da Silveira dera sensiveis mostras de um
+abatimento, não de espirito, não de coragem, mas d'essa languidez de
+todos os orgãos, que parece o cançasso de uma febre intermitente. A
+melancolia fizera-o mais concentrado, mais solitario, e até mais
+aborrecido de si e dos outros. O estudo não lhe valia já de distracção,
+nem as praticas eloquentes do mestre lhe captivavam o espirito. Quasi
+sempre fechado no seu quarto, Alvaro, por fim, repellia os alimentos que
+lhe levavam, e carregava o sobrolho ás admoestações que o pae ou o
+mestre lhe faziam. Frei Antonio quiz ver n'este estado critico os
+elementos ainda não inflammados de uma reacção. Tremeu com a idéa de não
+vingarem os fructos da boa semente que elle, com tanto esmero e tanta
+esperança, cultivára n'aquelle coração desbravado, ao que parecia, dos
+espinhos da impiedade. Orou fervorosamente, pediu com anciedade a
+tutella do céo para aquelle orphão de pae, de amigos, e de mestre que
+pudessem ampara'-lo na sua recaída no abysmo, d'onde parecia ser salvo.
+O santo homem chegára a persuadir-se que os seus trabalhos seriam
+inuteis, porque o senhor queria puni'-lo da vaidade que elle tivera em
+faze'-los proveitosos.
+
+
+II
+
+N'este conflicto de doridos pensamentos em que a alma do padre andava
+trabalhada, inspirou-lhe a sua afflicção um pensamento que longas e
+veladas noites lhe alvoroçou o espirito, antes que seus labios o
+proferissem.
+
+Fr. Antonio lembrou-se de conduzir Alvaro á sociedade; leva'lo elle
+proprio ao mundo, e buscar ahi em roda de pessoas que se interessassem,
+tanto como elle, na regeneração d'aquelle mancebo.
+
+Mas as relações do egresso eram muito poucas, e quasi se limitavam ás do
+parentesco, e ás novas que adquirira na casa em que vivia.
+
+Onde elle, cheio de confiança, poderia apresentar seu discipulo era em
+sua casa, na roda de sua familia, onde desde 1834 não tinha entrado uma
+pessoa extranha dessas que são apresentadas pelo seu nome, pela sua
+posição, ou pelo seu dinheiro. Ahi, porém, vivia uma menina que não
+sabia ainda distinguir o homem que nascera bom, e bom perserverára, do
+homem que fôra mau e parecia bom.
+
+A consciencia do padre não lhe aconselhava confiadamente esse passo,
+cuja firmeza era toda responsabilidade sua, porque bem sabia elle que
+Alvaro da Silveira, apresentado ao coronel, seria recebido como filho,
+e, apresentado a Maria, seria recebido como irmão.
+
+E foi por isso que em sua alma se debateram com violencia dois
+sentimentos oppostos: a confiança e a prevenção.
+
+Ou porque do céo lhe descesse a inspiração, ou porque as propensões de
+sua indole lhe fizessem ver a face do bem empanada pelo véo da maliciosa
+suspeita, frei Antonio convidou Alvaro para acompanha'-lo a casa de sua
+familia, onde, se quizesse, encontraria as affeições que se encontram
+n'uma familia recolhida, que, de ordinario, parece desvelar-se em
+communicar aos extranhos a felicidade de amor que lhe trasborda do seio.
+
+Alvaro, sem fingir-se, não apreciou muito o convite, mas não se recusou
+a elle. O habito de obedecer aos insinuantes conselhos do padre foi
+talvez o unico movel, que o fez acceitar um offerecimento, que lhe não
+promettia distracção á profunda tristeza que se lhe entranhára no
+espirito.
+
+Frei Antonio compreendera esta hesitação, e n'ella viu um prospero
+agouro. Seriam illusões de uma boa alma?
+
+
+III
+
+O padre prevenira sua familia da proxima visita que lhe era destinada. A
+mãe de Maria, tão innocente como sua filha, e tão confiada na prudencia
+de seu cunhado como na de seu proprio marido, recebeu a noticia com
+jubiloso assentimento. O coronel fitou em seu irmão um olhar de
+interrogação, que devia ser uma pergunta intima, que os labios tinham
+medo de balbuciar: «Por ventura nada receias tu, meu irmão? Sabes que ao
+pé de minha filha só póde sentar-se um anjo como ella? Tens a certeza de
+que esse mancebo entra em minha casa como no sanctuario da honra?» Frei
+Antonio lêra estas perguntas nos olhos de seu irmão, e, como se
+precisasse de empregar a palavra que o coronel não ousava pedir-lhe, o
+padre apertou-lhe a mão com ternura, e murmurou a meia voz: «Não
+temas!... tu és honrado, tua mulher é uma santa, tua filha é um anjo...
+Eu serei um peccador, mas não sereis vós os que haveis de expiar as
+minhas culpas... Não temas, meu irmão.»
+
+Maria, quando a nova lhe foi dada, experimentou uma sensação, d'essas
+raras sensações que não hão de ter nunca na terra uma palavra fiel que
+as defina. Ao ver que nos labios de sua mãe estava um riso de
+beneplacito e contentamento, Maria sorriu tambem machinalmente, e ficou
+silenciosa, durante a longa conversação que se travára a este respeito.
+
+Recolhida, comtudo, ao calado abrigo do seu quarto, ao mystico colloquio
+das suas tristezas com a imagem de Maria Santissima, a melindrosa menina
+consultava-se, com doloroso interesse, no que seria essa nuvem escura de
+melancolia, que viera turvar-lhe o espirito, quando ouviu dizer que
+Alvaro da Silveira, por cuja conversão tantas vezes ella orára, ia ser
+recebido como amigo no seio de sua familia.
+
+Esta interrogação era como as consultas que nós fazemos do nosso proprio
+destino; era como a anciedade vã de levantarmos a cortina do nosso
+quadro de existencia d'aqui a annos. Maria quando uma vez escrevera uma
+poesia intitulada _presentimento_, dissera tudo quanto podia dizer, vira
+o futuro quanto podia ve'-lo, caminhára através da vida quanto podia
+caminhar; e, como se os passos lhe cançassem, parou, chorando. É que o
+seu poema fôra uma prophecia de lagrimas nunca represadas.
+
+
+IV
+
+A apparição de Alvaro em casa do coronel impressionou extranhamente
+aquella numerosa familia, cuja maior parte não se recordava de ver na
+sua sala um extranho.
+
+Maria foi como sua mãe cumprimenta'-lo, e, pela hesitação em que ia,
+pudera julgar-se que a violentavam. O acanhamento das suas maneiras, a
+inflexão tremida das suas poucas palavras, denunciariam uma inculta
+rapariga d'aldeia, a quem por passatempo aparamentaram de vestidos
+senhorís. Na grande roda seria fertil assumpto de risos e gracejos.
+
+Alvaro, por uma d'essas incoherencias da natureza humana, revelava um
+acanhamento quasi semelhante ao de Maria. A prevenção em que o vimos a
+respeito d'ella, o conceito sublime que a religião lhe ensinára a fazer
+das suas virtudes, e, mais que tudo, a belleza d'essa menina, que elle
+nunca encontrára nos bailes, nem, semelhante a ella, se recordava ter
+visto outra, foi por ventura tudo isto a extranha emoção que o
+sobresaltou e collocou, como costuma dizer-se, n'uma falsa posição.
+
+E, demais, quem sabe se assim ficam explicados os embaraços de Alvaro?
+
+Qual de nós não teve na vida uma situação semelhante, d'onde melhor
+possa ver a de Alvaro da Silveira?
+
+Quem é o homem forte e senhor de si, quando a virtude e a formosura,
+illuminando a mulher de um santo prestigio, lhe fascinam os olhos da
+face e os da alma?
+
+E, quando o espirito, purgado das fezes da irreligião, contempla a
+mulher virtuosa como a depositaria de sentimentos que mais genuinamente
+simulam o amor de Deus, é tão natural esse enlevo, esse culto, essa
+idolatria no homem que poude encontrar um anjo, onde não esperava já
+encontrar senão estimulos de paixões materiaes!...
+
+Nem se explica de outra maneira a surpresa de Alvaro na presença de
+Maria dos Prazeres.
+
+A virtude tem uma fascinação particular sobre o homem, que não desceu,
+na escala da depravação, a ponto de negar a existencia de corações
+immaculados. Anojado de estudar a mulher, modelada nas fórmas
+invariaveis do salão, onde todas são semelhantes a cada uma, Alvaro da
+Silveira, abaixou os olhos diante da primeira mulher, que, em outros
+tempos, poderia abater-lhe o orgulho.
+
+Foi n'esse respeitoso silencio, n'esse involuntario acanhamento de
+maneiras, que o mancebo justificou a regeneração do seu caracter. Mezes
+antes, se o tivessem apresentado a Maria, ve'-lo-iam empregar todos os
+recursos da eloquencia, adaptada a todas as mulheres do «grande mundo»
+intimamente persuadido de que aquella, deslumbrada pelos ouropeis da
+phrase, saudaria em sua alma a apparição de uma sympathia ardente pelo
+genio, pelo talento palavroso, e pelos arrebiques da lingua estudada.
+
+O coronel, attencioso observador da approximação de Alvaro, gostou do
+pejo com que sua filha foi recebida. Frei Antonio a quem competia
+encetar uma conversação em que respirassem aquellas duas almas
+retraídas, principiou a elogiar modestamente as qualidades do seu amigo.
+Alvaro, silencioso, principiava a affligir-se da sua absoluta
+esterilidade de idéas, quando, em boa civilidade, lhe convinha agradecer
+o acolhimento com que era especialisado n'aquella casa. Não se
+acreditaria esta perplexidade, se cada qual não pudesse justifica'-la
+com um momento semelhante na sua vida.
+
+Alvaro achou a inspiração na propria fraqueza, que o mortificava.
+Voltando-se para frei Antonio, com as faces rosadas, disse com voz
+tremula:
+
+--Eu creio que perdi na solidão os habitos do mundo, meu caro mestre.
+Nem já sei falar, e era d'antes um falador importuno!... A sua familia
+deve fazer de mim uma idéa triste...
+
+--Porque?--interrompeu a mãe de Maria, com insinuante delicadeza.
+
+--Porque, minha senhora?--retorquiu Alvaro--porque me acho aqui coacto,
+entrei aqui grosseiramente, como um saloio que vestiram de casaca, e de
+um modo que v. ex.^a de certo não esperava receber um hospede que vive
+na roda onde as etiquetas chegam a ser enfadonhas pela demasia de
+reparos.
+
+--Ora, sr. Alvaro--interveio o coronel--nós sabemos o que são essas
+cortezias, e palavreados da tal roda, que v. ex.^a frequentou. Minha
+filha Maria, essa não as sabe de certo; mas pouco lucrariam, ella, se as
+aprendesse e v. ex.^a se lh'as ensinasse. Aqui, a unica pessoa
+exigente--continuou o coronel, sorrindo--exigente das genuinas etiquetas
+da côrte é talvez v. ex.^a que de lá vem. Tenha, porém, paciencia, se
+nos encontra sem o polimento com que se envernizam os mimosos da
+fortuna, alegres sempre e sempre cuidadosos de ensaiar-se, quando a
+ociosidade os enfastia, na arte de agradar. Aqui tem v. ex.^a as idéas a
+respeito dos galhardos faladores de salão, que, segundo ouvi dizer, por
+ahi se chamam _fazedores de espirito_. Sejam lá o que forem, eu aprecio
+muito a economia de palavras com que v. ex.^a abriu as relações com esta
+familia ignorada. Até por generosidade, nenhum hospede, chegado a esta
+casa deve exigir de nós os tratamentos apurados de uma refinada
+delicadeza. Não os sabemos, nem poderiamos sustenta'-los. Tudo isto vem
+a serenar a impaciencia com que o sr. Alvaro da Silveira parece
+queixar-se das idéas, que lhe não abundaram, quando tivemos a honra de o
+receber.
+
+
+V
+
+Em quanto o coronel prendia os olhos attenciosos de Alvaro, Maria,
+cobrando novos alentos d'aquella especie de familiaridade adquirida
+pelas franquezas de seu pae, levantava os olhos meio timidos para frei
+Antonio, que até então não desviára os seus das faces encarnadas de sua
+sobrinha. Alvaro continuou com o coronel um dialogo sobre o assumpto das
+etiquetas, que ambos julgavam, umas vezes, indispensaveis, e, outras,
+fastidiosas, em quanto Maria, convidada por seu tio, foi sentar-se
+contrafeita ao piano e suspendeu a travada conversação dos dois, que á
+primeira corrida do teclado, levaram instinctivamente os olhos e os
+corações para o rosto incendiado da formosa menina.
+
+O que ella tocou não se recordava Alvaro de o ter ouvido. A meia voz
+perguntou á mãe de Maria a que opera pertencia aquelle rico trecho de
+musica. Em resposta teve um sorriso de modestia, a que o mancebo achou
+duvidosa explicação, e, pouco depois compreendeu, quando frei Antonio,
+alma franca, e sem reservas de falsa modestia, declarou que a musica era
+de sua sobrinha. Maria córou, e apressou-se a declarar que não era
+absolutamente original aquella composição modelada por alguns fragmentos
+de musica, que ouvira no orgão das Theresinhas. A evasiva não era de
+todo inexacta. Maria, affeiçoada á musica do templo, nas suas
+composições, procurava sempre como texto as notas que mais lhe afinassem
+com o profundo sentimento de terna melancolia, que a dominava, nos
+ultimos mezes da sua existencia.
+
+Frei Antonio estava sendo penoso á natural modestia, filha do pudor, que
+a cada instante, se manifestava no rosto purpurino de sua sobrinha.
+Homem extranho ás mil conversações com que a sociedade consome as horas
+em inutil trocadilho de palavras, entendia que o mais judicioso
+passatempo, e até o mais commodo ao espirito de sua educanda, devia ser
+a litteratura. Por isso chamou a campo sua sobrinha, e obrigou-a pela
+obediencia a entremetter-se em questões, que o proprio Alvaro de bom
+grado não quizera quinhoar, com receio de não sair-se bem. Maria, quando
+os primeiros terrores se desvaneceram, era sublime aos olhos do hospede,
+que a não concebera tão elevada a respeito de certas cousas, que se
+dizem, quando a auctoridade dos annos, gastos em aprender, lhes dá um
+tom de certeza que, quasi sempre, ajusta mal com a natural simplicidade
+de uma senhora.
+
+Falava-se em romances. Frei Antonio dos Anjos empenhava os seus vastos
+recursos scientificos em condemnar esse genero de leitura. Alvaro
+abraçava a opinião de seu mestre, e citava-se a si como victima das
+perniciosas leituras da sua infancia. O coronel e sua esposa applaudiam
+a rejeição dos romances. Maria, porém, e só ella, cheia de humildade,
+sem levantar os olhos dos dedos rosados, que se distraiam correndo a
+bainha do lenço, contrariava as opiniões dos inimigos dos romances,
+depois que a cada um ouvira as razões, mais ou menos fortes, com que a
+leitura do tempo era votada ao exterminio. A sua argumentação era
+concisa, e quasi sempre balbuciante d'aquelle temor tão proprio em annos
+verdes, em presença de um extranho, de um pae, e de um sabio.
+
+
+VI
+
+Uma hora de convivencia entre pessoas, que sinceramente se communicam em
+francas manifestações do que são, é bastante para a familiaridade, para
+a estima, e para isto que o coração ambiciona, este bem-estar, nascido
+da confiança, inteira e desprevenida, que depositamos em uma roda de
+amigos. Raro, porém, estas rodas se deparam. _Amigo_ é uma palavra
+profanada pelo uso, e barateada a cada homem que se nos apresenta, como
+a _palavra de honra_, que por ahi anda desvirtuando a honra e a amizade.
+
+As delicias da conversação, expansiva como a confidencia, e
+despreoccupada como a ingenuidade, essa não se conhece nos salões, onde
+o epigramma recebe os louros da eloquencia, e o espirito acerado e
+cortante conquista as ovações do talento. A murmuração, bem salgada de
+ironias galhofeiras, é a raínha das conversações, coroada pelo diadema
+da hilaridade, que, muitas vezes, não poupa o primeiro da roda, que se
+retira, nem o dono da casa, que fica, pela sua parte, cotejando os
+vicios dos seus hospedes _espirituosos_.
+
+D'esta feição eram as praticas, em que Alvaro da Silveira, adestrado
+pelo conde de *** primára como bom artista de _equivocos_, e
+trocadilhos, em que o sarcasmo acre e engenhoso, pegava delicadamente
+pelos cabellos da victima, e a empalava nos tractos da zombaria, iguaria
+saborosa, a unica, talvez, para os paladares estragados.
+
+Era, pois, uma novidade para o seu espirito aquella franca exposição de
+sentimentos, de mais a mais interessantes pelo lado da intelligencia, e
+sympathicos para o coração de todos, e especialmente do mancebo, que se
+extasiava, na presença de um talento de mulher, flôr aberta em
+exhalações de um novo perfume, para elle, que nunca a vira tão bella e
+tão fascinadora no dom da palavra.
+
+Maria compartira de sentimento de confiança, que viera dissipar os
+temores de Alvaro. Sem a candura, e a innocencia, na franca exposição
+das suas idéas ácerca de romances, Maria não diria tanto, nem se lançára
+tão seguramente na opinião contraria á de todos. A sincera menina,
+ingenua como as suas intenções, viu no mancebo, que tão aceite era aos
+seus, um amigo digno de se lhe dizer tudo o que, em cousas litterarias,
+se diria a frei Antonio dos Anjos.
+
+Alvaro da Silveira estava sendo digno da sua confiança. E tanto o era,
+que uma nobre vaidade lhe alegrava o espirito, ao ver-se, tão depressa,
+merecedor da franqueza com que o recebiam, e da irmandade, com que Maria
+dos Prazeres lhe respondia aos seus argumentos na questão em que todos
+se interessavam.
+
+Frei Antonio era um sabio; mas os sabios de todas as posições sociaes, e
+particularmente os sabios creados no claustro, sustentam prejuizos, que
+as mediocridades lhes combatem com as debeis armas de uma sciencia
+superficial. Frei Antonio pensava mal dos romances, por que lera um ou
+dois, ou mil d'esses que por ahi envergonham a arte, e indignam o pudor.
+Alvaro da Silveira, que devorára tudo quanto os ultimos annos tinham
+creado de mais licencioso na litteratura franceza, odiava então os
+romances aos quaes erradamente imputava os seus desvios. O coronel e sua
+mulher jurava nas palavras de frei Antonio. Maria, porém, que não lera
+romances, nem mostrára o mais leve desejo de os ler, apresentava na
+defesa de tal leitura o instincto da adivinhação, a presciencia do
+talento, que um relampago, ás vezes, parece alumiar de improviso.
+
+--Eu não sei--dizia ella--como os romances possam perturbar a minha
+tranquillidade! Que é o que elles dizem? Contam a vida como ella é;
+matam as illusões de quem a suppõe melhor; antecipam o conhecimento da
+realidade? Isso que tem? Um bom mestre, encarregado de levar pela mão o
+discipulo na estrada do mundo, cheia de precipicios, que é o que faz
+senão apontar ao innocente os abysmos, que se escondem debaixo das rosas
+seductoras? Que é o que tem feito meu tio a meu respeito? não é
+levantar-me a cortina do que são segredos para mim, e mostrar-me a
+triste realidade do que por ahi ha, apenas agradavel aos olhos da
+innocencia? Eu penso que o romance, espelho fiel das boas e más
+situações da vida, não póde fazer-me desejar o que é vicio, nem
+aborrecer o que é virtude...
+
+--Mas se o romance--interrompeu Alvaro--descreve o crime com as bellas
+tintas da seducção?
+
+--Não importa, o escuro do quadro lá está no crime: as fezes do absyntho
+lá estão no fundo do calix--retorquiu Maria--não sei se digo a verdade:
+mas imagino que ha nos romances um mau principio, que só deve prejudicar
+as pessoas, que os lêem com o coração arruinado, e os olhos fartos já de
+ver a realidade de tudo o que ha mau. É natural que o romance, para
+fazer bons certos actos do seu heroe, precise de aniquilar a moral
+religiosa d'esses actos, e justifica'-los pela moral da falsa
+philosophia. Isto me tem dito meu tio muitas vezes, e eu tenho pensado,
+outras tantas, na influencia que poderiam exercer sobre o meu espirito
+essas más doutrinas, revestidas de seductoras falsidades. Nenhuma, creio
+em Deus e em mim, que não. Mal de mim, e da minha fé, se o primeiro
+incredulo, com talento de bem escrever, e falsificar a verdade, pudesse
+alvoroçar a minha consciencia, a ponto de destruir com a pagina de um
+livro o que eu recebi pela educação, pela meditação, e pelo estudo!...
+Tomára eu saber tudo o que o mundo tem de bom e de mau... que me
+dissessem a flôr em que a aspide se esconde, e o espinho que muitas
+vezes, soffrido com resignação, nos póde dar depois momentos de prazer.
+O que eu acho triste e perigoso é crescer, tocar a altura em que a
+intelligencia raciocina, e o coração se emancipa dos descuidos da
+mocidade, ser mulher, entrar no mundo, julga'-lo a continuação do seio
+de sua familia, e ter de perguntar a cada instante á cabeça, que não
+sabe, até que ponto são razoaveis os preceitos do coração...
+
+Maria foi de improviso tocada pelo receio de se ter excedido. Córou, e
+abaixou os olhos, como se sua mãe lhe significasse, em um gesto, o
+desgosto de ouvi'-la.
+
+Alvaro, suspenso dos labios d'ella, fascinado pelo som d'aquella voz,
+que parecia exercer o imperio do silencio sobre o coração de todos,
+sentia-se elevado a um assombro de admiração, onde quasi sempre o
+respeito profundo, ou o amor repentino se assenhoreiam do talento e do
+espirito.
+
+Era um amor, que nascia, e respirava uma atmosphera embalsamada de
+perfumes, amor, que nunca, em suas passadas affeições, lhe coára no
+coração a vida suavissima da paixão tranquilla, sem sobresaltos de
+remorso, sem temores de culpa, e sem receios de insultar a Deus ou aos
+homens. No coração de Maria, o que se passava era uma sensação de
+ternura, o desabrochar de uma nova flôr de amizade para offerecer a
+Alvaro, como a offertaria a um seu irmão, que viesse de longe, pela
+primeira vez, reconhecer a sua irmã. Se, todavia, lhe perguntassem o
+segredo mais intimo da sua existencia desde aquelle dia, ella não teria
+nenhum a revelar. O mais que poderia accrescentar ao que a sua familia
+sabia do seu coração, a respeito de Alvaro, é que desde o dia, em que o
+viu, as suas orações por elle foram mais repetidas, mais fervorosas, e
+mais tocadas pelo interesse de uma amiga, que quizera gloriar-se de ter
+concorrido para a regeneração de um anjo.
+
+
+VII
+
+Á primeira visita succederam outras.
+
+Alvaro realisára as esperanças do padre. A sombria tristeza, que
+assustára o mestre, cedeu a uma alegria doce que sorria no semblante do
+discipulo. O pae d'este, compartindo no contentamento do filho, quiz
+tambem conhecer o asylo de paz santa onde Alvaro fôra encontrar a
+felicidade, que o mancebo dizia não ser cousa impossivel na terra, desde
+que visitara a obscura familia de frei Antonio.
+
+Redobrou o prazer do padre. O velho fidalgo foi acolhido como pae de um
+moço que era alli estimado como parente e recebido sem vislumbre de
+suspeita má. As noites passavam rapidas para todos. Cousas pequenas,
+passatempos quasi pueris, entretinham velhos e moços. Silveira, tão
+zeloso da honra do coronel como elle proprio, espionava as intenções de
+seu filho, como quem receia que a virtude não esteja ainda tão enraizada
+n'aquelle coração juvenil, que o torne frio para os mil encantos de
+Maria dos Prazeres.
+
+Eis aqui um dialogo entre o pae e o filho, quinze dias depois que
+frequentaram juntos a casa do coronel.
+
+--Parece-me que és feliz, Alvaro.
+
+--Sou, meu pae, sou muito feliz. Se eu dissesse que não sou, era ingrato
+a Deus.
+
+--Pois, filho, sê digno das mercês que Deus te faz. Põe da tua parte a
+força e a virtude para continuar a Merece'-las. A virtude, Alvaro, a
+virtude. Nunca te esqueça esta palavra: seja sempre a tua ancora, se a
+tempestade vier depois da bonança...
+
+--Nunca a esquecerei, meu pae. Cada dia se me dobram as forças para
+vencer o mal. As reminiscencias do passado affligem-me e envergonham-me.
+Em quanto eu olhar assim para o homem que fui, nunca me será preciso
+luctar com as tempestades, em que o refugio está na ancora da virtude.
+
+--Pois sim, filho; mas por mais risonho que esteja o céo e calmoso o
+mar, não largues nunca a ancora: tem-a sempre apertada ao coração,
+porque é lá d'onde rebentam as maiores tempestades.
+
+--No coração? Eu creio, pae meu, creio que é nas tempestades do coração
+que se morre...
+
+--Se a virtude nos não vale...
+
+--A intenção com que me diz essas palavras...
+
+--É boa, Alvaro; é a intenção com que um bom pae aconselha um bom filho,
+e até um mau filho. Que perda para todos nós se o coração que se te
+renova hoje, meu filho, obedecesse a uma impressão das que se não deixam
+vencer por pequenas resistencias...
+
+--Fale, fale, meu pae... tenho precisão de ouvi'-lo porque preciso que
+me anime a falar-lhe.
+
+--Adivinhei a tua alma?
+
+--Não sei o que vae dizer-me... Quer-me falar da...
+
+--Da filha do coronel... quero falar-te d'esse anjo que nos tem captivos
+a ambos, e nem eu sei qual de nós daria mais depressa a vida para que
+nunca um desgosto por nossa causa lhe banhe de lagrimas a face.
+
+--Que desgosto podemos dar-lhe, meu pae?
+
+--Que sentes por ella, Alvaro?
+
+--O pae adivinhou-me... _é um anjo que nos tem captivos a ambos_; mas o
+meu captiveiro é cheio de consolações, é uma prisão que me não custa
+desgostos nem frenesis... Não vê que sou tão feliz assim? Se me dão a
+liberdade, fazem-me desgraçado. Amá'-la...
+
+--Amá-la!?...--interrompeu o pae com sobresalto.
+
+--Amá'-la, sim, pois não é isto amá'-la? O que sinto, o que senti,
+vendo-a uma só vez, tem alguma semelhança com tudo o que me fez
+vertigens do coração n'outro tempo? Amá'-la, sem que eu lh'o diga,
+adorá'-la, com a devoção dos justos, recolhe'-la em segredo á minha
+alma, e tão em segredo que nunca ella possa temer uma só palavra menos
+innocente que todas as nossas conversações... ama'-la, assim, meu pae,
+provocar as tempestades do coração?
+
+--É, filho.
+
+--É? então, meu Deus, não ha virtude que resista ao impulso de uma
+mulher! O homem, que quizer viver em boa paz com o céo, ha de renunciar
+a tudo que está na terra proclamando a grandeza de Deus. A religião, que
+nos não veda o amor, está em contradição com a virtude...
+
+--Não está, Alvaro. A religião creou um sacramento para santificar o
+enlace dos corações que se inclinam para um fim justo, para uma união em
+que a virtude é o vinculo de cuja quebra ha tremendas contas a dar, e
+grandes expiações a soffrer na terra.
+
+--Pois bem, meu pae...
+
+Alvaro sustára o pensamento que vinha aos labios, em quanto as lagrimas
+se mostraram.
+
+--Diz, Alvaro. Tu ias dizer alguma cousa que te fez chorar. É
+sensibilidade ou arrependimento?
+
+--Melhor é que o não diga, meu pae... Eu preciso estudar-lhe o coração.
+
+--De D. Maria dos Prazeres? não é necessario, filho. O coração d'essa
+menina não é um livro fechado, é um espelho. Vê-lh'o na face, nas
+palavras, na educação...
+
+--Não é o coração de Maria dos Prazeres.
+
+--Pois qual?
+
+--O de meu pae.
+
+--É o coração de um pae... que mais queres que te diga?
+
+--Gosta de Maria dos Prazeres?
+
+--Se gosto!... Não te tenho eu dito que o coronel não deve queixar-se
+das injustiças dos homens em quanto lhe deixam o throno d'aquella filha?
+
+--O pae quereria ter uma assim?
+
+--Quizera assim dar-te uma irmã, filho... Oh se queria!...
+
+--E uma esposa?--disse Alvaro balbuciante.
+
+O pae não respondeu. As palpebras cerraram-se-lhe, que era esse o seu
+costume na meditação. Com os dedos da mão direita comprimiu o labio
+inferior, tirando por elle. Passou a mão esquerda por entre os cabellos;
+e, depois de alguns segundos, disse:
+
+--Queria.
+
+--Queria assim dar-me um esposa?
+
+--Queria. E serias tu digno d'ella?
+
+--Não ouso responder.
+
+--Pois medita.
+
+Silveira ergueu-se. Tomou a mão do filho, e apertou-lh'a com commoção,
+dizendo-lhe como quem profere um juramento na presença de Deus:
+
+--O homem que maltratar aquella mulher deve dar terriveis contas da sua
+crueldade. Medita, Alvaro.
+
+E deixou-o.
+
+
+VIII
+
+Ao mesmo tempo, Maria dos Prazeres, e sua mãe, tinham o seguinte
+dialogo:
+
+--Se tivesses uma amiga muito do coração, minha filha, não terias pesar
+se ella te adivinhasse um segredo que tu deverias ter-lhe confiado?
+
+--Pesar... conforme, minha mãe... Ha segredos...
+
+--Que se não dizem a uma amiga?
+
+--Que se não dizem por que se não sabem dizer...
+
+--E sentir, sim?
+
+--Porque me faz semelhante pergunta, minha querida mãe? Não se queixe de
+mim, não?
+
+--Pois eu vou queixar-me, Maria?!
+
+--Falou-me em pesar... e eu começo a senti'-lo...
+
+--De que?
+
+--Se eu pudesse... se eu soubesse dizer-lhe o que sinto... Deus sabe que
+o meu coração é incapaz de se esconder aos seus olhos, e mais depressa
+se esconde aos meus.
+
+--Nada tens dito a teu tio, filha?
+
+--De que?... diga, mãe, eu que devia ter dito a meu tio?
+
+--Tudo o que sentes hoje, assim como lhe dizias tudo o que se passava em
+tua alma.
+
+--E eu sei!...
+
+--Sei eu, Maria. Olha, filha.. O amor de tua mãe, de teu pae, de teu bom
+tio, de teus queridos irmãos é um amor immenso; é, eu e tu sabemos que
+é; mas... olha... ha no teu coração espaço para mais amor... Córas,
+Maria? Vês como a tua alma vem falar-me no teu semblante?
+
+«Pois porque não, se essa alma é a minha, a da minha filha que não póde
+estar calada diante de mim, ainda que os labios se não abram! Sei tudo,
+Maria. Agora, se não queres que te fale como mãe, aqui me tens como
+amiga. Vamos... levanta para mim os teus olhos... conversemos sósinhas.
+Tu amas Alvaro. A tua melancolia é amor. Esse córar, quando não accusa
+uma culpa escondida, é amor. Na tua edade, se o contentamento foge do
+coração, é que não cabem lá os gosos serenos da innocencia, mixturados
+com as esperanças vagas, com os desejos desconhecidos, com as saudades
+de não sei que recordações de uma outra vida em que todas as nossas se
+povoam de anjos.
+
+«Ha um mez, filha, não me entenderias esta linguagem. Hoje sou eu a que
+falo por ti, e cada palavra que me ouves, é um peso que te levanto de
+sobre o coração, não é? Assim é que tu querias falar-me, e eu
+desopprimo-te, explicando a confissão que tens nos labios, e não
+confessas. Pois bem, Maria, louvores sejam dados á tua bella alma! A tua
+sensibilidade não póde ser só da tua familia: deve extender-se a tudo
+que te rodeia.
+
+«Eu esperava isto desde o momento em que vi entrar n'esta casa um homem
+protegido pela confiança de meu cunhado. Sem virtudes, Alvaro não seria
+aqui trazido; e, sem virtudes, Deus não quereria que tu sentisses por
+elle a sympathia que prende a innocencia á honradez. Poderei enganar-me
+eu, que sou velha? Posso, filha... E que farás tu que és creança?
+Estaremos ambas enganadas, amando-o ambas. Porque eu tambem o amo,
+filha; estou familiarisada com elle, vejo-o aqui entrar sem me sentir
+constrangida. Custa-me a crer que o conheço ha tão pouco tempo!...
+
+«E teu pae? Fala-me d'elle com certo interesse que me parece
+providencial. Nunca me disse que reparasse nas tuas acções, nem
+reflectisse nas palavras de Alvaro. E eu, reflectindo, ainda lhe não
+ouvi uma que desdiga das primeiras. Sempre a mesma bondade, o mesmo
+acanhamento honesto, a mesma docilidade, e não sei que interesse de
+filho por mim, e de irmão por ti. Teu tio, cada vez mais alegre com
+estas relações; teu pae, nem a mais ligeira sombra de desconfiança; teus
+irmãos querem-lhe como a ti; o pae d'elle quer por força que sejamos
+seus parentes, e diz-me que veiu saber entre nós o que era a felicidade
+domestica... Jesus! é impossivel que tudo isto seja engano!
+
+«Oh minha filha, o teu coração é puro, e eu quero ouvi'-lo mais a elle
+do que ouvir-me a mim. Diz-me se não agouras uma grande felicidade para
+ti, e para os teus? Confessa-me o que pensas quando estás triste... Diz,
+diz, Maria...
+
+A filha atirou-se a chorar ao seio da mãe. Balbuciava palavras sem
+sentido. O coração batia forte, e o tremor convulso dos braços, em redor
+do collo de sua mãe, suppria a falta de expressão.
+
+Assim as encontrou frei Antonio entrando sem se annunciar.
+
+
+IX
+
+--N'esta casa chora-se mais do que se reza--disse o padre.
+
+--Não são peccaminosas as nossas lagrimas, meu irmão...--disse a mãe de
+Maria.
+
+--Pois então dizei-me por que choraes.
+
+--Logo, logo...
+
+Maria beijou a mão do tio, e saía, enxugando as lagrimas.
+
+--Onde vaes tu, menina?--disse o velho.
+
+--Vou trabalhar, meu tio.
+
+--Havemos de falar logo.
+
+Ella saiu, e o frade disse a sua cunhada:
+
+--Vá chamar seu marido e venha com elle.
+
+O coronel entrava n'este momento.
+
+--Ei'-lo aqui. Ora vinde cá ambos; temos muito que dizer e que pensar.
+Dizei-me cá: o que vos diz o coração a respeito de Alvaro?
+
+--Bem; parece-me um bom moço.
+
+--E o vosso, minha irmã?
+
+--Tenho-lhe affeição de mãe, estou familiarisada com elle como se o
+conhecesse desde creancinha.
+
+--E sabeis o que Maria pensa a respeito d'elle?
+
+--Soube-o--disse a cunhada--no momento em que meu irmão entrou. As
+lagrimas que viu nos olhos d'ella eram a confissão do seu segredo.
+
+--Pois que disse ella?--atalhou o coronel.
+
+--Nada, quasi nada... Vendo que eu lhe adivinhava o coração,
+lançou-se-me ao pescoço, chorando. Disse quanto podia dizer.
+
+--Ama-o, em summa--disse o frade--Não admira; o moço é digno d'ella, e a
+Providencia quer que se amem...
+
+--E que tem ella que esperar d'esse amor?--interrompeu o coronel.
+
+--Tem que esperar as consequencias de uma affeição approvada por seus
+paes...
+
+--Se elles a approvarem, meu irmão.
+
+--Pois tu reprovas o amor da tua filha a Alvaro da Silveira?! Eu fico
+por elle... Quereis melhor fiador? Dou-vos a virtude de Maria. Se a nós
+não defendermos, defende-se ella.
+
+--Sabes pouco do mundo, meu irmão--redarguiu o coronel.
+
+--Não sei muito, não; mas o que é preciso saber para o nosso caso, sei-o
+de auctoridade certa, que é o presentimento bom que me dá resolução. O
+pae de Alvaro diz-me que seu filho quer Maria para sua esposa, e elle
+pede-a para sua filha. Que respondeis?
+
+--Eu respondo que sim, que lh'a dou com toda a vontade, com todo o
+coração--disse a mãe de Maria.
+
+--E eu--disse o coronel--respondo que estudes bem o caracter d'esse
+moço, e quando, passados mezes, não vier algum accidente inopinado
+alterar a opinião que tens do seu merecimento, virás então consultar a
+minha vontade.
+
+--Dizes bem, meu irmão--tornou o egresso--Penso ter-me enganado, e ainda
+agora caí em mim, e na fraqueza dos meus juizos. Disseste bem: eu
+conheço pouco do mundo.
+
+--E não sabes--continuou o coronel---que certos homens, sem serem
+hypocritas, apparecem inesperadamente bons; ás vezes uma pequena
+alteração no seu modo de pensar, produz grandes mudanças na vida
+exterior. Eu recordo-me de um grande phenomeno na minha vida de mancebo.
+Aos dezoito annos era eu rapaz desenvolto, vicioso, desobediente a
+nossos paes, e desprezador de alguns deveres bem sagrados. Amava o
+escandalo estrondoso; e a publicidade das minhas loucuras desvanecia-me.
+Vi esta mulher, que é tua cunhada, e amei-a. Os paes d'ella eram
+exemplares de virtude, e quem houvesse de merecer-lh'a devia ser
+virtuoso. O talvez menos habilitado para lh'a pedir era eu. Resolvi ser
+hypocrita; deu nos olhos a minha improvisada virtude, e consegui levar a
+nova da minha conversão ao conhecimento da familia de minha mulher.
+Senti augmentar-se o meu amor ao passo que a violencia, que eu me fazia
+para ser bom apparentemente, ia deminuindo. Até cheguei a convencer-me
+de que os virtuosos sem mascara eram felizes. Pedi minha mulher, e
+concederam-m'a. Casei... e depois...
+
+--Foste sempre um bom marido...--interrompeu ella.
+
+--Se tu o dizes, devo acredita'-lo, e a consciencia tambem me diz que o
+fui; porém, a explicação da minha reforma tem alguma cousa singular.
+Fiz-me bom por orgulho, primeiro. Os nossos conhecidos, e
+particularmente os meus rivaes, diziam que eu te faria desgraçada.
+Entrou o meu amor proprio no combate, e tu foste feliz. Quando o mundo
+já não reparava nos meus actos, e calava envergonhado os seus
+vaticinios, era eu teu amigo, teu verdadeiro amigo, sentia-te muito
+dentro do coração, e já não poderia, se quizesse, expulsar-te de lá.
+Appliquemos o conto: Alvaro da Silveira, com quem sympathiso, foi o que
+tu sabes, meu irmão.
+
+«Ainda não ha quatro mezes que o encontraste entregue aos prazeres de um
+gosto pervertido. Em poucos dias mudaste-lhe as inclinações; mas o
+aborrecimento em que o viste, deu-te receios de que o teu balsamo fosse
+inefficaz. Conduziste esse homem a minha casa; conheci que Maria o
+impressionára, e, depois de dois mezes de frequencia constante, Alvaro
+quer casar com minha filha. Quando se ama, meu irmão, é facil fingir
+dois mezes uma virtude que não tem raizes no espirito, e as que tem
+sómente no coração morrem, quando o amor acaba. Não duvido que Alvaro
+ame extremosamente minha filha; mas receio que não seja amigo d'ella:
+cousas muito diversas, cuja diversidade só bem se conhece dos trinta
+annos em deante. Um casamento rico não me lisongeia. Habituei-me a esta
+pobreza, e sou feliz, não sei até se alguma vez o fui mais do que hoje.
+Maria tambem é feliz. Vê, sem deslumbrar-se, os esplendores da
+sociedade. Sentiu privações em creança, e hoje, não as sentindo,
+agradece a Deus uma prosperidade que seria indigencia, se ella tivesse
+conhecido a abundancia, o fausto, e as demasias de prazeres e dissabores
+que sua mãe conheceu. Não a casemos para a fazermos rica. Se esse moço
+póde dar-lhe ao espirito novos gosos, seja elle embora seu marido; eu,
+porém, não creio que elle possa communicar-lhe o que não sente.
+Estuda-o, meu irmão; estuda'-lo é esperar. Entretanto Maria aprenderá de
+sua mãe as lições que deve receber uma menina que vae ser mulher.
+
+
+X
+
+Frei Antonio era esperado anciosamente de Alvaro. Dos labios do frade
+pendia a sua felicidade. Fôra elle encarregado por Silveira de propor ao
+coronel o casamento, com que o pae queria recompensar as virtudes de uma
+familia, á qual devia a regeneração de seu filho.
+
+O egresso recebera com tristeza o enthusiasmo do discipulo.
+«Esperemos»--foi a sua unica palavra. Alvaro sentiu-se ferido no seu
+amor-proprio, e experimentou um abalo do seu genio. Se o padre soubesse
+ler nos olhos o coração, veria mover-se a areia sobre que fôra levantado
+o edificio da virtude de Alvaro.
+
+O velho Silveira não se doeu menos das reflexões do coronel.
+Irritára-lhe a sua fidalga susceptibilidade. Pretextando-se incommodos
+de Alvaro, suspenderam-se alguns dias as visitas.
+
+Maria, porém, extranha aos reparos de seu pae, não vendo em tres noites
+seguidas Alvaro, denunciou a impaciencia da saudade.
+
+
+XI
+
+Silenciosa em sua magua, Maria deixava-se adivinhar, mas não gemia, nem
+perguntava a causa do ar sombrio de seu pae. Esperava anciosa as noites,
+via entrar seu tio só, e nem por um lanço de olhos lagrimosos lhe
+perguntava que mal fizera ella a Alvaro.
+
+A pena, porém, era grande, e sem desafogo. Maria sentiu a desdita que
+presentira, um anno antes; compreendeu a significação amarga d'aquelles
+singelos versos que fizera nascer uma musica triste, filha da sua
+imaginação.
+
+Adoeceu, sem queixar-se; caíu no leito, quando já não podia esconder de
+seu pae a febre constante que a extenuava.
+
+Veiu o medico do corpo, e conheceu que a dor estava na alma. Frei
+Antonio sabia que ella podia morrer d'aquella febre. Foi, com sua
+cunhada ao pé do leito de Maria, e disse:
+
+--Menina, o nosso amigo Alvaro vem hoje visitar-te, se tiveres forças,
+sáe da cama e vem agradecer-lhe o cuidado; se não, outro dia será.
+
+Aumentou o rubor nas faces das enferma. Voou-lhe um innocente sorriso de
+ventura nos labios. Parou-lhe de repente, a vertigem do sangue.
+Reappareceu-lhe o sol do coração, a florescencia da phantasia, o céo dos
+seus extases, e a claridade radiosa do seu ar balsamico. Era a que fôra,
+quando se lançára a chorar de feliz nos braços maternaes.
+
+
+XII
+
+E dizia o coronel a seu irmão:
+
+--Deus me livre de ser cruel para minha filha... Os homens muito
+experimentados na desgraça vêem tudo pela face peor. Póde ser que sejam
+dignos um do outro. Casem embora, e queira o céo que eu me arrependa mil
+vezes de ter agourado mal d'este casamento. Diz a Alvaro que lhe dou
+minha filha, e diz-lhe mais--que vae com ella a minha vida, vida que eu
+lhe dou, pois antes quero perde'-la, se hei-de um dia vê'-la infeliz.
+Que elle me mate, antes de fazer chorar Maria as primeiras lagrimas de
+arrependimento.
+
+--Não sabes como elle lhe quer...--disse o padre.
+
+--Tambem eu queria muito ás flores em quanto o viço d'ellas não
+desmaiava na minha mão. Depois, que valia uma flor sem perfume, sem
+seiva, amarellecida? Via-a caír sem dó, folha a folha, e, descuidado
+d'ella por amor das outras, punha-lhe em cima um pé indifferente.
+Compreendes o que é o homem, meu irmão? Melhor o compreenderás assim;
+não t'o quero pintar na linguagem propria... Na mão de Alvaro será Maria
+o que as flores foram na minha?
+
+
+XIII
+
+Foi restaurada a confiança entre as duas familias. Consentiram-se
+expansões sem testemunhas aos dois amantes.
+
+A nuvem que lhes encobrira alguns dias o bello horisonte do seu destino,
+afervorára-os para mais da alma saudarem a reapparição, para mais se
+quererem.
+
+Alvaro apressava o enlace. O coronel não o retardava nem o accelerava.
+Entrára-lhe profundamente a desconfiança na alma. Sua mulher tentava em
+vão destruir-lh'a. O frade chegava até a considera-la peccaminosa e
+ingrata aos favores do céo. Maria nem sequer imaginava que podia ser-se
+infeliz na situação d'ella; e contristava-se por não ver seu pae alegre
+como todos.
+
+
+XIV
+
+Frei Antonio foi o ministro do sacramento. Abençoou-os na capella de
+Alvaro da Silveira. A um dia de jubilo, seguiram-se muitos dias de
+felicidade intima. Em casa, porém, do coronel, chorava-se muito. Faltava
+alli a alma d'aquella familia. Os irmãos de Maria, alguns ainda
+creanças, estavam affeitos ao seu regaço, ás suas lições, e ás suas
+carinhosas repreensões. O coronel não queria ver a cadeira em que Maria
+se sentava, o piano, o açafate da costura, tudo que parecia chorar com
+elle a falta da sua dona. Sentava-se a familia triste e taciturna em
+redor da mesa. Olhavam todos, sem consolar-se, para o logar de Maria, e
+rompiam de todos os olhos as lagrimas. Erguiam-se, vendo o pae
+erguer-se; apenas a mãe ficava, com o coração partido, dando o exemplo
+da resignação, e consolando com palavras animosas, esforço mais intenso
+na dôr que a dôr de todos. Ao oitavo dia a esposa veiu visitar sua
+familia. Foi recebida em alvoroço. Queriam beija'-la todos ao mesmo
+tempo. Os irmãos mais novos perguntavam-lhe se ficava para sempre.
+Maria, entre risonha e lacrimosa, repartia-se em affagos por todos,
+desejando alguns instantes de solidão com sua mãe.
+
+--És feliz, minha filha?--perguntava-lhe o coronel.
+
+--Sou, meu pae, quanto se pode ser, longe dos seus. Falta-me lá esta
+familia; ainda não pude, nem poderei considerar-me desligada d'esta
+casa. Parece-me até que sou mais d'aqui, e que a outra é uma casa de
+emprestimo.
+
+O coronel voltou-se para sua mulher, e disse:
+
+--Sentias isto quando casaste comigo? Tinhas assim saudades de tua
+familia?
+
+--Não...--disse a mãe de Maria.
+
+--Então...--tornou o coronel--tua filha é menos feliz do que tu foste!
+No goso da abundancia tem occasião de sentir saudades da pobreza que
+deixou.
+
+--O pae--replicou Maria--engana-se, ou não póde sentir como sente uma
+mulher. Minha mãe havia de sentir o que eu sinto; é que já se não
+lembra... Pois haverá felicidade que me faça esquecer a minha familia?!
+Eu não sei o que é abundancia nem pobreza. Ainda não pude ver a
+differenca que vae do que deixei ao que hoje tenho, senão pelo coração.
+Sou feliz com Alvaro, mas seria mais feliz se Alvaro vivesse como irmão
+dos meus irmãos, aqui...
+
+Alvaro entrava n'este momento, repartindo por todos amabilidades,
+chamando manos a seus cunhados, queixando-se de que o não tenham
+visitado, convidando-os para o seu camarote, offerecendo-lhes as suas
+carruagens.
+
+--Cousa notavel!--dizia o coronel, tirando á parte frei Antonio que
+tambem concorrera á primeira visita de sua sobrinha.--Cousa notavel! As
+maneiras acanhadas de Alvaro desappareceram. Todos aquelles modos, a
+munificencia com que nos dispensa os seus favores, tem um ar de
+orgulhoso triumpho que me intimida. Ha alli alguma cousa que parece
+dizer. «Casei com vossa filha pobre, e tenho a fidalga generosidade de
+vos querer elevar com ella!» Não te parece?
+
+--Parece-me que estás contaminado da má fé do mundo.
+
+
+XV
+
+Felicidade, o que és tu? Engano providencial que nos alimentas na
+alternativa do desejo e do desengano. Amiga cruel que nos foges com a
+esperança, apenas os labios sentem o travo do absyntho que a taça do
+prazer esconde no fundo.
+
+Quem te encontrou n'esta vida, felicidade? O que eras tu, quando eu te
+via espargindo flôres desde o meu obscuro cantinho até aos imaginados
+horisontes do meu destino?
+
+O que és tu hoje, phantasma severo que desdobras o teu manto negro sobre
+a esperança, que, momentos antes, mandaste luzir no meu despertar de
+infeliz?
+
+Felicidade, o que serás tu, se não és a filha dos homens, morredoura
+como elles, soberba do teu nome, embaindo, com a mascara do opulento, os
+pobres que te esperam, cavando, cada vez mais fundo, no coração do
+ambicioso, o vácuo da cobiça, chegando aos labios do sequioso, que te
+busca na terra, a esponja acerba do desengano?
+
+Porque te não vejo eu debaixo do docel dos principes da terra?
+Enfloraste os berços de Carlos I e Luiz XVI: porque deixaste borrifar de
+sangue no cadafalso as tuas grinaldas?
+
+Busquei-te no seio da familia laboriosa, que aceitou humildemente a
+condemnação do eterno trabalhar, do suor copioso das fadigas. Não
+estavas lá. O braço trabalhador enervou-o a fome, no anno da
+esterilidade, e as creancinhas d'esse homem, sem cobiça de mais pão que
+o necessario á sua familia, vagiam pendentes dos seios aridos de sua
+mãe.
+
+Busquei-te na mediocridade honesta, na alegria da independencia. Era
+falso esse existir na vida. A mediocridade anciava saír da sua esphera;
+a alegria da independencia era um sonho de infelizes servos; a
+independencia era uma situação mentirosa como o teu nome.
+
+Estarias tu na gloria das batalhas? Se fizeste Cesar o primeiro de Roma,
+porque o não salvaste do punhal de Bruto?
+
+Na gloria da virtude? E a cicuta de Socrates? e a guilhotina de
+Malherbe? Como estremaste os destinos de Séneca e Nero? de Virginia e
+Aggripina? Quando és tu o galardão da virtude, a socia fiel do nobre
+espirito, o premio benemerito do coração immaculado?
+
+Na gloria da sabedoria?
+
+Entraste, por ventura, na alma do philosopho, que tentou levar as
+multidões ao teu sanctuario? Orvalhaste-lhe a aridez do espirito
+abraseado em ancias de achar-te aqui? Déste a Cicero, teu apostolo
+inspirado, a resignação na morte? Estará o teu busto levantado sobre as
+ossadas de centenares de homens prodigiosos, poetas que fizeram seculos,
+honras perpetuas das nações, pisados pela desgraça, mortos de fome de
+pão e de ti, que lhes mandaste arrastar a mortalha por toda a vida?
+
+Passarás ao menos uma primavera, no coração da virgem, que te chama do
+céo, que te crê filha de Deus, que se acolhe ao teu regaço como a asylo
+inviolavel de innocentes, que te vê na ternura maternal, que te beija
+nos labios de seus irmãos, que te respeita nas palavras ungidas de um
+velho, que te abraça soffrega na idolatria de um amante, que aperta ao
+seio todos os teus dons, cingindo-se ao seio do esposo estremecido?
+
+Não, maldita da esperança, tu não estás entre nós. Existirias na terra,
+se entre os homens e Deus não estivesse o infinito.
+
+
+XVI
+
+--Maria vive triste...--dizia padre Antonio dos Anjos a sua
+cunhada.--Não diga isto a seu marido, minha irmã. Poder-me-hei ter
+enganado, e não lhe antecipemos um dissabor.
+
+--E porque não vem ella a nossa casa?!--perguntou a mãe afflicta.--Ha um
+mez que nos não visita, disse aos irmãos que não tornassem lá sem ella
+os chamar... Alvaro já a trata mal? já a não amará?!
+
+--Alvaro vive triste como ella. Encontram-se poucas vezes; ainda se não
+deram as mais ligeiras desavenças entre elles; mas o silencio quando nos
+reunimos todos á mesa, é profundo entre ambos. Fogem de encontrar-se nos
+olhares; e, sem causa proxima, as lagrimas caem ás vezes sobre o prato
+de Maria. O pae de Alvaro pergunta-me o que tem seu filho. Interroga-o,
+e elle responde-lhe que não tem nada. Eu interrogo Maria, e ella pede-me
+que rogue a Deus por ella.
+
+--É pois muito desgraçada a minha filha!--exclamou a lagrimosa
+senhora--Fomos nós que fizemos a infelicidade d'ella. Fui eu, fui eu só!
+Era eu quem devia destruir-lhe este amor no seu principio. Fiz o
+contrario... Dei-lhe azo para que tudo me confessasse, applaudi-lhe o
+puro sentimento que a levava ao coração de um homem que eu julgava digno
+d'ella; animei-a até a proferir palavras que o pudor lhe não deixava
+saír do coração! Minha pobre filha, é tua mãe quem te fez infeliz! Que
+direi eu a meu marido, quando elle me pedir conta da felicidade do nosso
+anjo, d'aquella santa que tantas lagrimas nos enxugou, e nós não podemos
+enxugar as d'ella... Podemos, podemos...--proseguiu ella com
+exaltação.--Que venha para a nossa companhia; vá, meu irmão, vá
+dizer-lhe que o coração de sua mãe só póde achar allivio ao seu remorso,
+sentindo-a chorar no meu seio... Vá, vá, antes que meu marido saiba que
+ella vive assim... Traga-m'a, póde ser que meu marido se não queixe na
+presença d'ella... Não se lembre que ella é casada... Não ha lei divina
+que obrigue uma mulher a ser victima de seu marido...
+
+--Basta, minha irmã!--interrompeu com brandura o padre--Não multiplique
+com o seu amor de mãe os soffrimentos de Maria... Ella não se queixa.
+Quer que a sua dôr seja um segredo para seu proprio tio, e bem sabe que
+minha sobrinha me fez o confidente das suas alegrias e pesares... Póde
+ser que esta sombra de melancolia seja uma nuvem. Não vamos nós
+precipitadamente desafiar uma tempestade, que nem se quer nos ameaça. O
+anjo do Senhor está ao pé de Maria, e um desgosto passageiro é muitas
+vezes uma experiencia que Deus manda para a purificação das suas
+escolhidas. Confiança na justiça divina, minha irmã. Alvaro tem de
+responder hoje ás perguntas de seu pae, e talvez ás minhas. Póde haver
+n'esta melancolia de ambos uma causa dada por ambos. O silencio de Maria
+faz-me suspeitar que ella não tem bastante confiança na razão da sua
+tristeza. Póde ser que a demasiada saudade dos seus, manifestada ao
+marido, o tenha desgostado. Se tal fôr, é preciso dizer a minha sobrinha
+que o sacramento do matrimonio opera uma suave mudança nas ligações de
+familia. O amor de esposa tem uma santidade superior ao de filha:
+augmentam as obrigações, e vem com ellas o dever do sacrificio. Eu
+conheço pouco do coração humano; mas o de Maria sinto-o pensar, e
+sentir, e desejar dentro do meu. Maria deve amar e ama deveras seu
+marido; porém esse amor sem fausto, sem bailes, sem theatro, sem
+jantares, e sem visitas importunas e ociosas ser-lhe-ia mais grato, mais
+em concordancia com o seu natural. Ora, pois, minha irmã, menos
+lagrimas, e mais reflexão. Repito que não diga a seu marido que eu vim
+aqui fazer-lhe o mal que não imaginava.
+
+
+XVII
+
+O velho Silveira chamou seu filho, e disse:
+
+--Que tristeza é a tua, e a da tua mulher, Alvaro?
+
+--Não falemos n'isso, meu pae. O soffrimento calado é o mais nobre, o
+soffrimento irremediavel é creancice expo'-lo á piedade dos outros.
+
+--Soffrimento irremediavel!? De que soffres? Estás arrependido de casar
+com esta menina que adoravas tanto?! Aborreces... enfastiou-te este
+anjo?!
+
+--Não me enfastiou... receio que venha a enfastiar-me... Está bom, meu
+pae, mudemos de pratica. Para onde vamos nós a ares este anno?
+
+--Que modos são esses, Alvaro! Entrou outra vez em ti o demonio da
+perdição!? Foi, pois, uma mentira, uma impostura, uma infame astucia a
+tua emenda?
+
+--Não dou motivo para semelhantes suspeitas, meu pae. O meu proceder é
+hoje como era ha quatro mezes. Ouvi'-lo-hei, senhor, mas v. ex.^a não me
+accuse sem fundar a sua accusação.
+
+--É possivel que já não ames Maria?!--replicou o pae--Em que desdiz
+ella do que tu e eu esperavamos, Alvaro?
+
+--Pois eu não a amo?! O pae que quer que eu faça? Ser-me-ha preciso
+trazer ao collo minha mulher para o persuadir de que a amo?! Eu não sei
+fazer carinhos piegas... Creio que ella não dirá que a trato mal, nem a
+privo dos seus prazeres...
+
+--Que prazeres! Pois a pobre menina raras vezes sae do seu quarto, raras
+vezes, ha quinze dias a esta parte, se encontra comtigo... que prazeres
+lhe dás, Alvaro? É isto o que tu planizavas quando me pediste que
+empenhasse ao coronel a minha palavra de honra como abono do teu
+procedimento para que elle te não negasse a filha? Vejo que preparas
+para os meus ultimos dias uma grande deshonra, e um grande remorso! Com
+que cara me apresentarei ao coronel logo que elle saiba os surdos
+padecimentos da nobre menina, que não solta um gemido queixoso!
+Explica-te, Alvaro; não te offendo, sequer, pedindo-te, como pae, uma
+explicação d'essa frieza para com ella... O que é isto?
+
+--Pois eu obedeço, senhor, respondendo em toda a verdade da minha alma.
+Creia que soffro, respondendo assim; mas eu preciso dizer a terrivel
+verdade que me esmaga o coração. Maria não é a mulher, que eu devia
+procurar. Enganei-me. Foi um desencontro, uma desgraça, uma horrivel
+illusão! Eu não sou digno d'ella. Fui atraiçoado pelo amor que Maria me
+inspirou; julguei-me capaz de occupar, toda a vida, o coração com a
+posse d'ella. O demonio venceu. Sinto-me enfastiado; tenho o gelo da
+indifferença na alma, violento este sentimento amargo a confessar as
+virtudes de minha mulher: vejo-a formosa, reconheço que é um anjo, mas
+não posso, ao pé d'ella, passar um quarto de hora sem fastio. Parece que
+o meu arrefecimento lhe passou á alma. Vejo-a triste, responde-me
+chorando se lhe pergunto que motivos tem de tristeza, evita-me quando eu
+faço sobre mim um grande esforço em mostrar-lhe agrado... Em fim, meu
+pae, não era eu o homem que devia fazer a felicidade d'esta mulher...
+Sou incapaz de a maltratar, terei com ella todas as attenções de irmão;
+mas... é necessario que deixe de sentir o que sinto... A violencia é
+inutil... o amor não se crava no coração como quem crava um punhal...
+Basta-me o meu infortunio de não poder ama'-la. Os desgraçados como eu
+são amaldiçoados pela sociedade, e Deus sabe se elles não são mais
+dignos de piedade que de maldição!... Não poder ama'-la como a adorei ha
+tres mezes! Isto é angustioso, meu pae! Por quem é, não me aggrave as
+minhas dôres com as suas censuras... Não receie nada por ella... Eu
+tirarei da delicadeza todos os pretextos para que ella se capacite de
+que ainda a amo. É uma piedosa mentira em que meu pae, por meu bem, e
+d'ella, e de todos nós, deve consentir, e até empregar a sua influencia
+auxiliadora. Consiga v. ex.^a que ella saia do quarto, que vá aos
+theatros, que vá aos bailes, que frequente as nossas immensas relações,
+que aprenda na sociedade com outras mulheres a esquecer os infortunios
+domesticos, que eu farei o mesmo...
+
+--É uma alliança infame, que tu queres que eu proteja?--interrompeu o
+velho.
+
+--Como _alliança infame_!--redarguiu o filho.
+
+--Sim! consentes a tua mulher...
+
+--O que? queira dizer, meu pae!
+
+--Tenho vergonha de o proferir!...
+
+--Então não me comprehendeu, ou me julga um homem destituido de honra.
+Lembre-se que sou seu filho, senhor! Eu não quero fazer com minha mulher
+allianças infames. Quero que ella não faça consistir a sua felicidade
+sómente na minha convivencia de todas as horas, e de todos os instantes.
+Quero que ella reparta os seus desejos, e as suas idéas por tudo que
+possa dar-lhe uma distracção honesta, e concedida ás senhoras da sua
+posição. Não quero que o seu amor á solidão me force, me algeme a um
+gosto que não tenho. Estamos na sociedade, eu sou um rapaz, e quero
+viver para a sociedade. Gosar não é offender a Deus, como lhe incutiram
+a ella. Nunca a levei aos theatros, aos bailes, a uma visita, que não
+tivesse primeiro que destruir-lhe os preconceitos com que a crearam.
+Está sentada ao piano, ou ao bastidor: quer meu pae que eu esteja alli
+constantemente ao pé d'ella, repetindo-lhe as phrases cançadas de um
+amor de convenção? É hypocrisia com que não posso...
+
+O velho voltára as costas ao filho, e confundira as lagrimas com as de
+padre Antonio que se fizera annunciar.
+
+
+XVIII
+
+Alvaro falára pela bocca de todos os maridos maus ou infelizes, quando a
+libertinagem os não cura do veneno do desgosto com o veneno da deshonra.
+Era de certo o enojo, esse desfallecimento de alma incuravel, esse
+morrer do amor que nunca mais resuscita, quando a mulher que o causa é
+esposa, e quando o homem que o recebe não tem a força de virtude que
+converte a piedade em estima.
+
+A paciencia de Maria azedava ainda mais o desgosto de Alvaro, porque as
+lagrimas em silencio eram a mais pungente censura que ella podia fazer
+ao seu procedimento.
+
+A melancolia do padre, cuja convivencia elle afastava, e o sobrecenho do
+pae, irritavam-n'o até ao frenesi de raiva ás algemas que lhe queriam
+lançar á sua liberdade.
+
+O padre aconselhava-lhe os bailes, e os passatempos que a sua indole
+apreciava. Pedia á sobrinha que o acompanhasse para compartir dos
+prazeres de seu marido; mas a pobre menina, se alguma vez accedia ao que
+lhe era imposto como dever de mulher casada, ia levar á sociedade o
+espectaculo da sua tristeza, e dar incentivo de arguições, umas justas,
+outras exageradas ao procedimento de Alvaro da Silveira.
+
+Menos instada por seu marido, e por seu tio, e por seu extremoso sogro,
+que lhe era segundo pae, deixou de saír, e mui raras vezes visitou sua
+mãe, porque não podia mentir ás suspeitosas perguntas de seu pae, a
+respeito da felicidade que o marido lhe dava.
+
+Alvaro, pouco a pouco, foi-se absolvendo de seus deveres, e respeitos á
+sociedade. Estudou o viver e o sentir dos maridos no circulo das suas
+brilhantes relações, e viu que entre tantos havia só um que pudesse
+atirar-lhe uma pedra. Entendeu que podia ser-se um homem importante aos
+homens, e importante ás mulheres, embora casado, embora propenso a
+esquecer-se todos os dias que o era. Relaxados os deveres, seguiu-se a
+tibieza nas apparencias do decoro, e da delicadeza, ultima ferida que
+uma mulher com dignidade póde receber de um mau marido.
+
+O seu antigo amigo conde de *** foi reintegrado na sua particular
+estima. Era já recebido no seu quarto, era o seu confidente em segredos
+dignos de ambos, era tudo o que póde ser um amigo intimo, menos relação
+de sua mulher. Maria regeitára com imperio, pouco natural ao seu
+caracter humilde, a apresentação do conde. Ouvira falar d'este homem em
+casa de seu pae, ao tio, e ao sogro, de modo que lhe ganhou asco, e não
+podia vencer o sobresalto com que ouvia annunciar um tal nome, que seu
+proprio marido, tres mezes antes, banira das suas relações.
+
+Na primavera d'esse anno, Alvaro partiu com o conde, e outros de egual
+porte para o campo, em busca de touros para as corridas do campo de
+Santa Anna. Demoraram-se vinte dias n'essa gloriosa expedição digna dos
+netos de Vasco da Gama e de Affonso de Albuquerque... Durante esse
+tempo, Maria não teve de seu marido um bilhete, nem uma saudade. De
+volta, Alvaro achou sua mulher gravemente enferma d'essa molestia que
+entra no coração, e filtra de lá o veneno da morte por todas as fibras.
+
+Disse-lhe palavras consoladoras, instigadas pelo espinho do remorso,
+palavras calculadas na frieza do seu desamor; mas a idéa satanica da
+viuvez entrou-lhe na alma com a esperança de uma felicidade imprevista.
+
+É horrivel! mas não duvideis... Olhae de redor de vós...
+
+
+XIX
+
+Foram aconselhados a Maria ares do campo. Saíu de Lisboa para Collares,
+acompanhada por seu tio, e dois creados. Alvaro partira para Villa
+Franca, e de uma quinta, muito conhecida nos arrabaldes d'aquella villa,
+fazia as suas excursões á caça, em que entreteve um mez, distraído de
+tudo; e embebido no seu affecto remoçado ao inseparavel conde.
+
+Entretanto, Maria déra largas ao coração abafado. Padre Antonio sabia a
+causa do soffrimento, mas affectava extranheza, para não auctorisar
+queixumes de mulher casada. Fazia grandes rodeios aconselhando a sua
+sobrinha a resignação, porém, simulando, sempre, que não conhecia motivo
+para tristeza tão inconsolavel.
+
+Uma vez, Maria, cançou na lucta comsigo mesma, e fixou no tio os seus
+grandes olhos arrasados de lagrimas. Era um olhar de soffrimento que
+reage, uma accusação ao homem que concorrera para o seu infortunio, e
+parecia impor-lhe a violencia da mudez, a morte surda sem a inoffensiva
+respiração de uma queixa.
+
+Frei Antonio entendeu-a, e disse:
+
+--Fala, minha querida sobrinha, accusa-me, e depois pediremos ambos ao
+Senhor que nos dê melhor vida a ambos.
+
+
+XX
+
+A mulher de Alvaro da Silveira balbuciou:
+
+--Não o accuso, meu tio; peço-lhe sómente que me deixe chorar. É bem
+pouco pedir; mas eu sinto um grande conforto n'este unico prazer dos
+infelizes.
+
+--O da oração é maior, minha sobrinha...--atalhou o padre.
+
+--Pois eu não oro, meu tio? É quando sinto mais dentro do coração a
+doçura das lagrimas. Ou peça a Deus paciencia para soffrer até ao fim,
+sem que a minha familia o saiba; ou peça que se digne tocar o coração de
+meu marido, choro sempre, e fico sempre mais desopprimida.
+
+--Mas os teus dias são sempre eguaes, filha. Estás cada vez mais
+abatida, mais magra, e mais febril.
+
+--Que importa o corpo? O que eu recebo de Deus é a força da alma... A
+morte não lh'a peço, por que sei que não faria com ella a felicidade de
+Alvaro... É impossivel que o remorso o não castigue depois... Isso é que
+eu não queria... O Senhor me livre de ser o instrumento das torturas
+d'alguem... E, se eu morresse, a nossa pobre familia soffria muito...
+minha mãe, seguir-me-ia, e os meus irmãos pequeninos nos braços de meu
+pobre pae... matal-o-iam com carinhos... É por isso que eu não peço a
+morte...
+
+--Não peças, Maria. Diz-me o coração que terás melhores dias da tua
+existencia, e que eu hei de ve'-los ainda.
+
+--Oxalá... e como serão esses dias, meu tio?
+
+--Será quando teu marido voltar ao que era quando te queria tanto.
+
+--Pois esse amor póde por ventura tornar?
+
+--Pois não póde, filha?! Estás passando por uma dolorosa provação; é
+impossivel que não recebas n'este mundo o premio da tua constancia.
+Assim como Alvaro passou do mal para o bem, e depois recaiu no mal, o
+anjo, que o alumiou uma vez, ha de alumia'-lo outra, minha sobrinha.
+Quando menos o esperarmos, estará comnosco, para nos restituir o bom
+coração que nos roubou. Crê, e ora, minha filha. Oremos ambos. As nossas
+supplicas sejam por elle, e deixemos ao senhor apiedar-se de todos,
+quando a sua bondade quizer.
+
+
+XXI
+
+Padre Antonio, horas depois, enviava um proprio com uma longa carta a
+Villa Franca. Era um humilde requerimento ao coração de Alvaro.
+Lembrava-lhe, com delicadeza, os seus deveres. Contava-lhe o viver
+attribulado de sua sobrinha, pedia-lhe encarecidamente que viesse
+vê'-la, ou consentisse que algumas pessoas da familia d'ella a
+acompanhassem no ermo em que vivia.
+
+O fidalgo recebera a carta no pospasto de um festim em que se
+banqueteavam os caçadores, commemorando as façanhas venatorias do dia. O
+conde de ***, chamado por Alvaro a conselho redigiu e escreveu a
+resposta á carta, visto que o seu amigo, turbado de vinho, apenas tinha
+entendimento para conhecer que o frade o incommodava, como parapeito dos
+tiros de sua mulher. A resposta, por tanto, foi simples e peremptoria.
+Alvaro agradecia muito os pios conselhos do padre, sentia muito os
+incommodos de sua mulher; recusava, porém, acceder á convivencia pedida,
+e approveitava a occasião para observar a sua reverendissima que a sua
+pertinaz assistencia em casa d'elle Alvaro era pouco delicada,
+provando-se que não havia n'essa casa meninos para educar. Terminava,
+ordenando que sua mulher se recolhesse a Lisboa quanto antes, visto que
+os ares campestres não conseguiam alliviar os seus padecimentos.
+
+Esta carta foi lida a Alvaro, que deu no hombro do seu secretario uma
+sonora palmada, como signal de applauso e gratidão.
+
+
+XXII
+
+Frei Antonio fôra assistir ao trespasse de um moribundo, e não estava em
+casa quando chegou o conductor da resposta. Foi Maria que recebeu a
+carta, e vendo a letra inesperada de seu marido, sobresaltou-a tanto o
+prazer, que nem sequer reflectiu para abri'-la.
+
+Leu... E mal viu as ultimas linhas. Entrou em tremuras, escondeu a carta
+no seio deixando uma parte visivel; luctou como querendo segurar o
+alento que lhe fugia; mas debalde. Padre Antonio ergueu-a desmaiada de
+um canapé, quando voltou. Tirou-lhe do seio a carta; leu-a, e tornou a
+insinua'-la sem a sobrinha dar fé. Esta, recuperando os sentidos, viu ao
+pé de si o tio, com ar risonho, trahindo-se em algumas palavras
+confortadoras; mas a pobre senhora, de momento a momento, levava a mão
+ao seio para certificar-se de que a carta lhe não fôra tirada.
+
+--Então o que foi isso, minha filha?--perguntou o padre.
+
+--Um desmaio, resultado da grande fraqueza que tenho, de um passeio que
+dei longo de mais para as minhas forças...
+
+--Pois tu saíste, Maria? Não enganes o teu tio.
+
+Aqui, Maria córava, e o frade vinha logo com o remedio, fugindo para
+outra idéa.
+
+Depois de uma hora em que dois corações angustiados estiveram a
+enganar-se mutuamente, padre Antonio abraçou sua sobrinha; e disse:
+
+--Olha, menina, o extremo do soffrimento não se póde dizer qual é, nem
+quando chega; por isso não direi ao certo que as nossas penas estão a
+passar por serem culminantes. Mas é de fé para mim, filha, que isto
+assim não póde demorar-se muito. A piedade do Altissimo está por
+instantes a amercear-se de nós. Maria, fica no teu quarto; pensa n'essa
+carta que tens no seio, eu vou pensar tambem; e, passada uma hora
+estaremos juntos. Antes, porém, de decidir, Maria, pede ao senhor a luz
+da graça.
+
+Maria ficára como engolfada em profundo pasmo com a mão no seio. O frade
+saíra.
+
+
+XXIII
+
+Passada uma hora e um quarto, foi a sobrinha, atemorisada pela falta,
+que entrou subtilmente no quarto de seu tio. O velho estava de joelhos
+diante de uma cruz. Sentiu-a entrar, voltou um pouco a face, e disse:
+
+--Espera um bocadinho, menina; eu falo-te já.
+
+Maria ajoelhou ao pé d'elle.
+
+--Pois sim, oremos juntos: disse o padre--se já resolveste, pede comigo
+ao Senhor que mude a tua tenção, se ella não é do seu agrado.
+
+Decorridos alguns minutos ergueram-se ambos.
+
+--Pensei, meu tio--disse Maria.
+
+--E então?
+
+--Creio que Deus permitte a minha vontade: o tio me dará a certeza da
+minha fé, se não se oppuzer.
+
+--Pois diz, filha.
+
+--Eu fujo a meu marido.
+
+--Como? foges a teu marido?!--atalhou o velho espantado.
+
+--Acolho-me ao seio de Deus, para morrer tranquilla.
+
+--Entendi; minha filha!--exclamou elle com jubilo abraçando-a.--Queres
+dizer que entras n'um convento.
+
+--Sim, sim.
+
+--Foi a minha idéa, quando orava...
+
+--Sim? então, bemdito seja Deus!--disse Maria erguendo as mãos com
+arrebatamento.--Já vejo que o Senhor approva a minha resolução. Eu pedi
+muito á Virgem que lh'a inspirasse, meu tio. Vou para as Therezinhas.
+Tenho lá muitas amigas que me hão de fazer digna de orar com ellas.
+Trabalharei para viver em flôres, em recorte de papeis, em tudo, por que
+pouco me basta. Poderei ve'-lo todos os dias, meu tio, e verei meus
+paes, e meus irmãos. Se Alvaro um dia me quizer, elle irá procurar-me, e
+eu serei sempre o que sou e o que fui. Não lhe tenho odio, não tenho.
+Sei que elle ha de ser ainda muito infeliz, e talvez seja eu, depois de
+meu tio, quem lhe restitua a boa alma que elle tinha quando o conheci.
+
+--Tu choras. Maria?--interrompeu o padre carinhosamente--Levas saudades
+de Alvaro, não levas?
+
+--Saudades? não sei que sentimento é este!... parece-se mais com o da
+compaixão. É como se eu dissesse: podiamos ser ambos tão felizes!.. e
+assim não se sabe qual de nós será o mais desgraçado! É o que eu sinto,
+meu tio. Já vê que o estimo ainda como se fosse um meu irmão perdido de
+vicios, que maltratasse sua familia, e que eu tivesse conhecido enchendo
+de carinhos minha mãe e meus irmãos. Lembra-me que elle era tão amigo de
+todos! entrava na nossa casa como se fosse nosso... agradecia tanto o
+nosso bom agasalho, sem saber que nós ficavamos sempre tristes quando
+elle nos deixava... É porque eu choro, meu tio... Isto é saudade do que
+elle foi, e compaixão do que é.... Paciencia... Vou para as
+Therezinhas... Imaginei-me sempre lá desde creança, não se lembra? No
+tempo em que eu cantava aquellas palavras tristes, pensava tanto em
+pedir a minha mãe que me deixasse entrar no convento, ainda que fosse
+como creada...
+
+--E hoje, Maria... talvez... tenhas de entrar como creada...
+
+--E isso que tem, meu tio?! Pois nas Carmelitas não entravam tantas
+senhoras distinctas que faziam a cozinha ás semanas? Que tem que eu seja
+creada? Alvaro não póde envergonhar-se d'isso; porque ha muitas
+situações vergonhosas para um marido, mas esta--a de servir--não é uma
+d'essas... pois não?
+
+Maria córou proferindo algumas d'essas ultimas palavras. Fr. Antonio
+depois de abraça'-la, disse:
+
+--Eu vou para Lisboa, minha sobrinha. Falarei com a prioreza; veremos
+como has de entrar; antes, porém d'esse passo, é preciso que escrevas a
+Alvaro.
+
+--Pedindo-lhe consentimento?
+
+--Sim.
+
+--Se m'o nega?! não vou?
+
+--Vaes, Maria. A petição é a humildade da esposa; mas a fuga é o ultimo
+direito da victima. Onde ha algoz não ha marido.
+
+
+XXIV
+
+Era assim a carta de Maria a seu marido:
+
+«Foste enganado por uma chimera, Alvaro. Não era eu a mulher digna do
+teu amor. Quando vi apertar-se o teu coração á dôr do arrependimento,
+tive mais compaixão de ti do que de mim. Eu, pobre mulher, posso soffrer
+e chorar, sem ser vista. Tu, Alvaro, nascido para os prazeres do mundo,
+cuja privação o meu amor não podia recompensar-te, soffrerias muito, se
+não tivesses animo de affastar com a ponta do pé os deveres, e esquecer
+que eu sou, ao mesmo tempo, tua escrava e tua tyranna.
+
+«Felizmente que adoptaste o melhor expediente.
+
+«Penso que as distracções, longe de mim, te deixam sentir as doçuras da
+liberdade. És, talvez, feliz. Se o és, Alvaro, olha que esse bem peço-o
+eu constantemente a Deus para ti. Não te deixes vencer jámais do
+remorso. Os meus padecimentos, bem o sabes, não se alliviam em queixas.
+Nunca te pedi explicação da tua frieza, nem te dei uma palavra
+aborrecida por outra. Até as lagrimas te escondia, não é verdade? Se me
+surpreendias chorando, antes queria mentir-te uma invenção, que
+exacerbar-te com as minhas lastimas o pesar de me teres dado o direito
+de te arguir. Quando assim se soffre, Alvaro, não ha idéa de vingança,
+nem se aceita com prazer a expiação de quem nos mortifica.
+
+«Vamos tratar da tua felicidade, meu caro irmão. Deixa-me dar-te este
+titulo que tem tanto do affecto como da razão. Entre nós já não existe o
+grande amor, que me parece ser inflexivel aos dictames do juizo. Podemos
+suavemente caminhar cada um para seu lado, sem voltarmos as costas com
+arremesso. É o que eu queria, e espero consegui'-lo, porque, sendo eu
+tão fraca, a força que sinto para dar um passo em teu bem, é Deus que
+m'a dá, e dar-m'a-ha até ao fim.
+
+«Deixo-te mais livre do que vives, Alvaro. Vou entrar n'um convento, e
+vou pobre como vim para tua casa. Sentirei lá que és meu marido, porque
+não cessarei de orar por ti, e offerecer em desconto das minhas e das
+tuas faltas o tempo que Deus me der de vida.
+
+«Conheço que nasci para a solidão e para os prazeres ignorados da vida
+obscura. Esta consciencia e a absolvição de algumas cruezas do teu
+caracter para comigo. Tu precisavas de uma mulher que te disputasse na
+sociedade uma parte da tua gloria. Querias, talvez, abrilhantar-me aos
+olhos dos outros com o reflexo da tua luz. E eu, educada na pobreza e na
+simplicidade, não pude, por mais que quiz, contrafazer a minha indole.
+Fui arrastada pelo dever aos raros bailes onde me levaste; voltava de lá
+contente com a esperança de estar sósinha comtigo, e muitas vezes me
+deixaste sósinha com a minha saudade; e tornaste aos bailes a aproveitar
+as horas que eu te aguava com a minha inexoravel melancolia.
+
+«Era então que eu te lastimava, por teres sido enganado pelo coração,
+quando me dizias que a vida no ermo, só comigo, era o teu sonho de
+ventura, e amaldiçoavas o brilho perfido da sociedade que te não deixára
+mais cedo ver o que é este mundo, com os olhos da razão.
+
+«Se me não tivesses dito isto, Alvaro, eu seria muito culpada por
+aceitar o sacrificio da tua liberdade. Fomos enganados ambos. Pensava eu
+que era verdadeiro o teu fastio dos prazeres ruidosos e vãos; cuidei até
+que o meu maior merecimento para ti estava no desprezo com que eu ouvia
+lá fóra do meu cantinho o bulicio da vida opulenta. Aqui está porque eu
+não te peço perdão de ter querido ser, contra a vontade de meu bom pae,
+tua mulher. D'esta culpa quem me ha de perdoar é o pobre velho, e eu
+conto com a bondade da sua alma.
+
+«Aqui tens, pois, o meu destino, Alvaro. Vou para um convento; não devo,
+porém, sahir de tua casa sem praticar este acto de humildade, rogando o
+teu consentimento. Quasi certa de que m'o dás, vou fazer os meus
+ligeiros preparativos. Ainda não disse tudo, Alvaro... Se um dia
+sentires a penosa necessidade de falar a alguem que te diga palavras de
+allivio, procura-me, vae sem receio de encontrares uma queixosa. Eu
+farei quanto puder em teu bem contra o mal que o mundo te houver feito.
+Chamarei á tua alma as reminiscencias do que ella foi, quando eu t'a
+mereci, furtando-a ás outras paixões. Vae procurar-me, Alvaro, e acharás
+sempre uma irmã.
+
+«De tudo o que te disse n'esta longa carta, deves tirar a certeza de
+que, muito longe de odiar-te, estimo-te, sou tua amiga, offereço a minha
+vida pelo dom da tua ventura; mas quizera, Alvaro, que essa ventura não
+fosse mentirosa. A que presentemente gosas não póde ser duradoura, nem
+filha do espirito.
+
+Adeus.
+
+ Tua mulher
+
+ _Maria dos Prazeres._»
+
+
+XXV
+
+Maria entrou no quarto do padre. Estava elle ajuntando n'um sacco os
+seus livros, e uma pouca de roupa branca.
+
+--Já escreveste, filha?! Vamos ver a tua cartinha...--disse elle
+continuando o seu serviço--Eu estou aqui ajuntando estes farrapos, e
+estes quatro livros. A nossa bagagem, Maria, é tão pequena, que a póde
+um frade velho transportar debaixo de um braço. Ora vamos lá; lê a tua
+cartinha.
+
+Maria leu, affectando serenidade. Não podia, comtudo. De instante a
+instante, havia embargo de soluços, lagrimas pertinazes, e alterações na
+côr. Padre Antonio tomou-lhe das mãos a carta, e leu-a em voz alta.
+
+--Está muito boa--disse elle, afagando as faces de Maria--Vou mandar o
+proprio a Villa-Franca. Ámanhã por noite, está cá a resposta. Eu virei
+então saber qual ella foi.
+
+--Pois meu tio, já hoje me deixa?!--interrompeu Maria com vehemencia.
+
+--Pois então, menina? A minha licença acaba logo que a trouxa esteja
+prompta. Eu não extranho isto... Quando me mandaram saír do meu convento
+que era a minha casa, saí logo; agora mandam-me saír de uma casa, que
+não é minha, que hei de eu fazer? Saír mais depressa ainda, se é
+possivel, e sacudir á saída da porta o pó dos meus sapatos. De mais a
+mais, bem sabes que preciso falar á madre prioreza das Therezinhas no
+teu agasalho, que ainda não sabemos como será, e todo o tempo é pouco...
+Nada de lagrimas! Pelo amor de Deus, recebem-se todas as amarguras com
+olhos enxutos. O merecimento aqui não é chorar, é rir para o céo. Ha uma
+só causa justa para lagrimas, Maria: vem a ser a offensa a Deus, que é
+Pae, ou aos homens, que são nossos irmãos. D'estes peccados, absolvo-te
+eu, menina, que os não tens. A offendida és tu, e, por conseguinte,
+perdão para os homens, e oração de graças ao Senhor.
+
+
+XXVI
+
+Alvaro da Silveira recebeu a carta, quando saía para Santarem, onde o
+esperava um brilhante sarau, em que era rainha uma nobre dama que se
+deixara ferir do nobre caçador. Era, portanto, muito improprio o ensejo
+da carta, cuja generosidade tinha para elle o valor odioso de uma
+accusação mascarada. Foi esta a opinião do seu amigo conde.
+
+Alvaro respondeu vocalmente que mais tarde responderia por escripto. O
+portado, industriado pelo padre, replicou humildemente que não voltava
+sem resposta, ou signal de ter sido recebida a carta. Perguntou-lhe
+Alvaro quem lh'a tinha dado. O creado falou a verdade. «Pois esse
+hypocrita ainda lá está?» exclamou irado o fidalgo... «Leva--continuou
+elle--ahi vae o signal de que recebi a carta».--E entregou-lhe, aberta,
+a carta de sua mulher.
+
+Tal foi a resposta que Maria recebeu. Diga quem puder as lagrimas que
+este desprezo lhe custou. O frade respeitou-as tanto, que em logar de
+consola'-la com a paciencia, eloquente sempre em seus labios, chorou
+tambem.
+
+--Vamos, filha--disse elle por fim.
+
+--Já?! de noite?--reflectiu ella.
+
+--Tens medo, Maria? A noite vae melhor ao estado da nossa alma...
+Chegaremos de madrugada á tua nova casa. Passarás o dia no locutorio com
+a nossa familia.
+
+--Pois está tudo arranjado?
+
+--Tudo, Maria, tudo providencialmente arranjado. Vaes ser hospeda da
+sr.^a escrivã, em quanto eu não posso por meios certos que Deus me ha de
+deparar comprar-te uma cella no convento. Depois, o teu trabalho
+dar-te-ha uma subsistencia certa. Fallaremos, fallaremos... Vamos
+embora.
+
+Maria foi, quasi desfallecida, encostada ao hombro do padre, até
+entrarem n'uma sege de praça que os esperava no portão. Grande, porém,
+foi a surpresa da attribulada senhora, quando ao entrar na sege, foi
+apertada por uns braços que só podiam ser de mãe pelo afago com que lhe
+bebiam as lagrimas da face.
+
+O choro de ambas embargava as palavras soluçadas. O que ellas, porém,
+queriam dizer-se era pedirem-se perdão mutuamente; a mãe á filha, por
+lhe haver afervorado e absolvido o amor a Alvaro; a filha á mãe porque
+fraqueava no martyrio, e, sem pedir-lhe conselho, abandonava aos juizos
+da sociedade a explicação da sua fuga, talvez bem infamada.
+
+
+XXVII
+
+A sege parou defronte do mosteiro.
+
+Rompia a manhã. Tão lindo estava o céo, tão balsamico o ar ao pé do
+arvoredo do convento, as aves deleitavam tanto o coração, o múrmuro
+despertar da natureza tão meigos arrobos filtrava ao seio de Maria, que,
+enlevada em mudo regalo, docemente lhe marejavam nos olhos as lagrimas
+de um contentamento infantil, se não eram antes o respirar suavissimo da
+abafação angustiosa em que penára.
+
+Aberto o portão exterior, frei Antonio entrou com sua cunhada e
+sobrinha. Algumas religiosas desceram á portaria, e levaram comsigo mãe
+e filha, felicitando esta com grandes jubilos, e inventando graças para
+a desassombrarem da sua tristeza. Sabiam-lhe bem a maguada vida, e a
+virtude santa, aquellas servas do Senhor. A Mãe de Jesus, protectora
+sempre invocada de Maria, tocou talvez o coração das carinhosas freiras
+que parecem porfiar qual mais mimos e agrados fará á querida hospeda.
+
+D'ahi a pouco volveu ao mosteiro Fr. Antonio com a familia toda. O
+coronel esmoreceu d'aquelle seu grande animo vendo a magreza cadaverica
+da filha. O velho, alimpando as lagrimas, fez que nenhuns olhos ficassem
+enxutos. Diante d'aquella magestosa dôr, não houve uma só pessoa que
+tivesse espirito para consola'-lo. O padre, esse, o que mais ali soffria
+talvez, abaixava humildemente a cabeça diante de seu irmão, como quem
+confessa a maior culpa de tamanha desventura.
+
+Uma das religiosas, querendo consolar, censurou sem asperidão, ainda
+assim, o proceder inhumano de Alvaro da Silveira.
+
+Maria fez um gesto de desagrado, e, sentindo amargamente que lh'o não
+entendesse a freira condoida, disse:
+
+--Alvaro da Silveira é meu marido, minha senhora. Deus é que julga as
+nossas acções... Eu preciso a piedade de toda a gente; mas não queria
+que ella custasse a Alvaro a sua condemnação. Meu marido não é mais
+feliz que eu. Por isso que estou muito certa d'isto, peço ás senhoras
+d'esta casa que roguem a Deus por elle, quando lhe rogarem por mim.
+
+Ficaram como assombrados todos os animos, e apiedados todos os corações.
+Ninguem, durante aquelle dia, proferiu o nome de Alvaro.
+
+Á tarde houve um adeus de muito chorar; mas, ao dia seguinte, lá estavam
+os irmãosinhos e a mãe da secular, e o tio padre, uns para chorar com
+ella, outros para distrai-la com as suas innocentes graças.
+
+
+XXVIII
+
+Maria trabalhava em flores, em costura, em tudo que fazia independente o
+seu parco passadio; e, desde o segundo dia, oração e trabalho
+alternavam-se, afóra as horas das lagrimas, que eram de noite, sósinha,
+a occultas das consolações, ás vezes importunas, das amigas--que todas o
+eram.
+
+Frei Antonio foi um dia mui alegre ao locutorio, e disse isto a Maria:
+
+--O pae de Alvaro foi hoje a nossa casa, attribulado que fazia dó! É
+homem honrado, e quer-te como a filha. Sabia tudo, e abraçou-se a teu
+pae, pedindo-lhe compaixão para o mais desgraçado dos paes. Queria
+vêr-te, não se afoutava a vir sem licença nossa. Concedemos-lh'a todos
+com muito prazer. D'aqui a pouco está comnosco, filha. Pede uma grade
+para o receberes.
+
+E, ditas estas e mais algumas palavras da alvoroçada Maria, o velho
+Silveira chegou-se ao locutorio, dizendo que queria abraçar sua filha. O
+claustro negava-lhe satisfazer tal desejo e d'ali foi para uma grade
+onde foi pathetica a scena. Maria não se queixava, ao mesmo tempo que o
+velho amaldiçoava o filho. Ella, então, punha as mãos supplicantes,
+pedindo-lhe que levantasse a maldição de sobre o infeliz Alvaro.
+
+Siveira apertava a mão do padre, e dizia:
+
+--Com este nobre e santo coração recompensa o Senhor todos os
+padecimentos de uma familia; esta virtude, porém, exacerba a minha
+magua, porque eu sou pae de um monstro, e este anjo é victima d'elle,
+e... talvez minha. Fui eu que lh'a pedi, sr. padre Antonio...
+
+Occorriam então as pacientes reflexões de Maria, querendo absolver todos
+os que promoveram o seu casamento. E, sem affectação de virtude, a
+christã de coração e ensino, dizia que mais devia agradecer a Deus as
+provações em que puzera a sua fé, e a sua esperança no premio celestial.
+
+Silveira quiz saber que vida era a da sua nora. Contou-lh'a o padre. O
+velho, pasmado de tanta resignação, quiz logo alli chamar a prioreza
+para dizer-lhe que n'aquelle mesmo dia, a esposa de seu filho era uma
+secular com fartos meios de subsistencia, e com todas as regalias
+possiveis n'um convento.
+
+Maria atalhou a liberalidade do sogro, dizendo que não acceitaria um
+ceitil em quanto pudesse trabalhar.
+
+Foram, pois, baldados esforços de sogro e tio. Não havia, com razões,
+demove'-la do seu proposito. As que se lhe davam eram frivolas. Silveira
+queria que sua nora tivesse alli a grandeza do seu nascimento. A isto
+replicava ella que nascera mui pobre, e cria que o saír da sua
+obscuridade fôra infelicitar-se, e rebuscar novas pompas seria reincidir
+na desgraça voluntariamente. Só no trabalho esperava allivio--dizia
+ella; e por misericordia pedia que a deixassem com os seus recursos,
+porque a aptidão para o trabalho fôra o seu inexhaurivel patrimonio.
+
+
+
+
+LIVRO ULTIMO
+
+
+I
+
+Desde 1835 até 1842, a historia de Alvaro da Silveira é a historia de
+todos os homens perdidos.
+
+A reclusão de sua mulher, no principio, recebeu-a como um ataque aos
+seus direitos de marido, e quasi esteve, por orgulho, a requerer um
+divorcio, ou, ainda mais, a annulação do casamento.
+
+Outras idéas vieram desenlea'-lo d'esta preoccupação periodica. O seu
+amigo conde chasqueava-lhe a demasiada susceptibilidade, dizendo-lhe que
+poucos maridos deviam tanto á fortuna, que por tão suave processo, o
+descartára a elle do tropeço conjugal.
+
+O velho Silveira saíu d'este mundo, um anno depois que Maria entrára no
+convento ralado de penas, infamado pelas immoralidades de Alvaro, que,
+de collaboração com o conde, redigira os famosos estatutos para a
+chamada _sociedade do delirio_. Ao estrondo das primeiras impudencias, o
+pobre pae correu a querer salvar o filho. Foi recebido com desdém, e
+repellido com o desprezo ás suas instancias. O velho coração não podia
+com o golpe. Morreu sem filho ao pé do leito, quasi desamparado dos
+parentes que o inculpavam na educação licenciosa de Alvaro. Quem lhe
+ministrou as consolações do trespasse, foi um extranho. Frei Antonio dos
+Anjos, ao qual o senhor de uma grande casa disse á hora da morte, que as
+dissipações de Alvaro não lhe tinham deixado seis vintens para mandar
+dizer por sua alma uma missa.
+
+
+II
+
+O marido de Maria viajava então por França, onde lhe foi a nova da morte
+de seu pae. Alvaro melhorava de meios, porque os recursos, que seu pae
+lhe dava com quanto superiores ao rendimento de sua casa, não bastavam á
+dissipação.
+
+Veiu prestes a Lisboa tomar conta dos seus vinculos.
+
+Procurando um usurario que lh'os acceitasse como hypotheca de alguns
+contos de réis, ninguem os queria por mais do valor dos rendimentos de
+tres annos, porque a magreza livida de Alvaro aterrava os agiotas.
+
+Um mercieiro, antigo creado de seu pae, sabendo que o fidalgo barateava
+á usura os seus bens, apresentou-se-lhe para acceita'-los como hypotheca
+de uma somma quasi egual ao valor d'elles.
+
+Alvaro abençoou o seu destino, e receoso de que o mercieiro se
+arrependesse, apressou o contracto.
+
+O comprador, porém, clausulou que em sua mão ficaria uma certa somma
+para acudir ás necessidades da esposa do vendedor, se ella um dia as
+sentisse. Alvaro acceitou essa hesitação maravilhado de que o inepto
+logista não pedisse a assignatura consentanea de sua mulher!
+
+Este mercieiro conhecia frei Antonio dos Anjos. Captivo do benevolo
+interesse d'elle, o padre fôra-lhe contando os infelizes acontecimentos
+d'aquella casa. O velho creado de Gonçalo da Silveira, quando soube que
+seu amo expirára, quasi desamparado, sem seis vintens em dinheiro para
+uma missa, chorou, e protestou valer ao filho, quando o soccorro lhe
+aproveitasse depois de uma lição amarga.
+
+
+III
+
+Em 1842, Alvaro fugindo aos credores de Pariz, de Londres, de Madrid, de
+onde quer que desbaratou o seu e o alheio, appareceu em Lisboa pedindo
+ao mercieiro que lhe valesse. A desgraça quebrára-lhe a soberba. Alvaro
+pedia com humildade, se não era antes relaxamento, soccorro ao creado de
+sua casa. O logista deu-lhe a quantia que ficára, como em deposito, para
+ser dada a Maria, dizendo que ella a mandára entregar a seu marido.
+
+Recebeu-a com indifferença, e consumiu-a obscuramente em uma roda que
+não era a sua, na convivencia de individuos que, sómente no abysmo da
+desgraça, sem honra, se encontram.
+
+Padre Antonio dos Anjos não sabia dizer a Maria, onde seu marido estava.
+O mercieiro é que não perdeu de vista o filho de seu amo, com a mira de
+levanta'-lo, quando elle abrisse os olhos no extremo caír de perdição.
+
+Foi elle, pois, quem deu ao frade miudas novas de Alvaro de Silveira.
+Umas vezes recebia dos parentes uma dadiva, como esmola. Outras,
+achava-se entre a gentalha, buscando nas fezes sociaes esquecer os
+explendores que dissipára. Eis ahi que chegava a mão mysteriosa do
+logista.
+
+
+IV
+
+Um dia, Alvaro da Silveira quiz annullar o contracto feito com o
+desconhecido bemfeitor. Aconselharam-n'o que a acção de dolo devia ser
+intentada por sua mulher contra o comprador fraudulento dos vinculos.
+Alvaro escreveu a sua mulher uma carta, onde se via um espirito
+embrutecido pela desgraça, um ar de cynica indifferença, não affectada,
+porque é ella o caracteristico do homem a seus proprios olhos
+desprezivel. N'esta carta, pedia Alvaro a Maria que o coadjuvasse a
+resgatar os bens de que dependia a farta subsistencia de ambos.
+
+Maria respondeu que não podia demandar o comprador de uns bens que ella
+nunca julgára seus. Accrescentava que os unicos bens de sua posse eram a
+propriedade do trabalho; e o resultado d'elle reparti'-lo-ia irmãmente
+com seu marido, se elle o acceitasse. O padre quiz ser portador d'esta
+carta.
+
+Alvaro não poude evitar a presença do tio de sua mulher. Estava elle
+vivendo em um quarto de emprestimo na casa de um homem, que lh'o
+offerecera, não conhecido seu. A providencial espionagem do mercieiro
+preparára-lhe esse quarto, ao mesmo tempo que o avisavam das intenções
+de Alvaro, ácerca dos rendimentos comprados.
+
+Eis aqui o que disseram Alvaro e o padre.
+
+--Que futuro será o seu, sr. Alvaro?
+
+--A continuação do presente, quando sua sobrinha não queira tirar-me
+d'elle.
+
+--Minha sobrinha?!
+
+--Sim. Se minha mulher annullar a escriptura que assignei do trespasse
+dos meus rendimentos por vinte annos...
+
+--Já viu o que minha sobrinha lhe diz.
+
+--Então, seremos ambos desgraçados, e eu mais de que ella, porque fui
+creado na opulencia, e ella...
+
+--Na miseria: póde v. ex.^a acabar a phrase que nos não envergonha.
+Maria offerece a seu marido um quinhão da sua miseria.
+
+--Não entendo...
+
+--Reparte com seu marido o salario de seu trabalho.
+
+--Está zombando? Que póde minha mulher repartir?
+
+--Migalhas.
+
+--Eu não vivo de migalhas, nem queria que ella vivesse. Agradeço-lhe
+esse offerecimento que me faz. Se é castigo com que me pune, bem
+castigado estou, sr. frei Antonio. Diga-lhe que aos desgraçados da minha
+especie perdôa-se, porque a necessidade é um supplicio infernal para o
+homem que teve.
+
+--E, comtudo, a honra na pobreza rehabilita o desgraçado.
+
+--Não é n'este tempo, nem n'esta sociedade... E, de mais, eu não sou
+deshonrado. Tenho gasto muito, tenho dissipado tudo, mas esse muito,
+esse tudo era meu.
+
+--Tem v. ex.^a orgulho do seu feito!
+
+--Tenho; tenho legitimo orgulho de ter fugido á sociedade antes que ella
+me repellisse.
+
+--E se ella o abraçasse na sua pobreza?
+
+--O senhor não conhece os homens. Se os conhecesse, sua sobrinha seria
+hoje a feliz virtuosa que foi.
+
+--E é, se não feliz, virtuosa... mais, pela paciencia, e pela
+esperança...
+
+--Esperança!...
+
+--Esperança, sim, de o ver rehabilitado perante ella e o mundo. Ouça-me,
+sr. Alvaro. Comece hoje a ser amigo de sua mulher, se póde. Verá o que é
+um anjo. Verá como ella o faz esquecer da sua posição infeliz n'este
+mundo. Aquelle poder de Deus, que as minhas mãos indignas não souberam
+empregar na sua regeneração, verá v. ex.^a o que é nas mãos da
+pobresinha recolhida de Sant'Anna. Queira ve'-la, que ella não lhe
+fugirá. Vá ve'-la. Não cuide que tem de pedir perdões, accusando-se de
+ingratidões e crueldades. Vá como se não tivessem corrido seis annos sem
+se verem, sem se escreverem. A sua salvação é ella que a tem no thesouro
+da nobre alma que Deus lhe enche todos os dias de conforto e
+esperança...
+
+Alvaro escutára o longo discurso do padre, sem quebrar-lhe a successão
+de palavras qual d'ellas mais tocante.
+
+Frei Antonio por fim, abraçando-o com carinhosa effusão, perguntou:
+
+--Vae, sr. Alvaro?
+
+--Irei, se assim o quizer.
+
+As muitas lagrimas de Maria, as de sua familia, as orações religiosas
+que pediam a Jesus Misericordioso a regeneração de Alvaro, começaram a
+florir, para fructos abençoados.
+
+
+V
+
+O padre separára-se no caminho, por suppor que a sua assistencia
+constrangeria Alvaro na presença de Maria dos Prazeres. Alvaro, porém,
+desde que se viu só, e á porta do mosteiro, desanimou.
+
+Não foi o receio de ser accusado de ingrato e cruel que o susteve. Essas
+accusações já o frade lhe tinha dito que as não ouviria. O que lhe
+esfriou o alvoroço com que ia, foi um sentimento de vergonha de si
+proprio. Acostumado a deixar-se sempre guiar, sem combate, pelas
+primeiras impressões, boas ou más, Alvaro, depressa annuira a procurar
+sua mulher, e mais depressa foi vencido pelo orgulho que lhe dizia
+quanto elle ia ser pequeno diante de sua mulher.
+
+A soberba apraz-se, ás vezes, escarnecer as suas victimas, depois que as
+acha despenhadas na miseria. É quando ella se converte em castigo duro,
+tormento incomparavel. Em quanto rico, Alvaro, mordido pela serpente da
+soberba, acudiu á dôr da chaga com o balsamo do ouro, essa alavanca
+poderosa do capricho e da vingança. Pobre, a ferretoada da vibora
+entrava-lhe até ao coração, e d'ahi lavrava ulcerosa, porque a miseria
+constante lh'a estava descarnando sempre.
+
+Por isso o pobre orgulhoso será entre os mais desgraçados o primeiro. Se
+Deus se não amercear das angustias, que espedaçam o homem caído em
+miseria do alto da grandeza, o inferno das dôres indescriptiveis estará
+no coração d'esse Lucifer despenhado.
+
+
+VI
+
+Maria recebeu esta carta:
+
+«É o teu amor, ou a tua piedade que me chama, Maria? Se amor...! como
+hei de eu acredita'-lo? que fiz eu que te não mereça odio? onde póde
+estar esse amor, depois de seis annos de ingratidões, e esquecimento, a
+peor de todas?! Esquecimento, não. Lembravas-me, Maria, e sabes quando,
+e com mais amargura? Quando me sentia caír. A cada empurrão que o
+destino, ou o Deus da vingança, me dava para este abysmo, era então que
+eu te via, despenhada por mim, vendo-me caír; mas que differença entre
+as nossas quedas! Eu a precipitar-te e um anjo do céo a erguer-te para
+onde a minha alma desesperada não póde já desafogar as suas afflicções!
+
+--Não pódes amar-me, Maria, não pódes. A compaixão, se outro affecto me
+não tens, essa não a acceito. Além de certo extremo de infortunio, está
+o egoismo na desgraça, o desprezo da piedade vã se não é antes
+humilhadora. Deixa-me esperar a mórte, n'este lodaçal em que vivo. A
+esperança não póde mais entrar em minha alma. Adeus.
+
+ _Alvaro_».
+
+
+VII
+
+As lagrimas de Maria desfaziam as linhas que ella escreveu, em seguida á
+leitura d'esta carta. A penna obedecia ao ardor do coração. Era a
+primeira vez que ella o escutava, e lhe obedecia sem consultar primeiro
+o padre.
+
+Era assim a resposta que Alvaro recebia pelo mesmo portador:
+
+«Vem, meu amigo. Deus te guie o coração que a sua divina mão abriu ao
+arrependimento. Tu és ainda muito rico: do thesouro de amor que te dei,
+e tu rejeitaste, não dissipei um só dos carinhos com que heide
+restituir-te..., restituir-te, não digo bem, com que heide dar-te uma
+felicidade nova, nunca experimentada. O infortunio fez-te bom. Tu
+precisas de mim e eu hoje tenho um santo orgulho de ser a unica pessoa
+que tens por ti, um coração amigo. Esse egoismo na desgraça é uma
+soberba blasfema. Deus não te desamparou, meu amigo. Se de mim não
+queres consolações, vem ao menos ver como eu choro a perda das tuas
+esperanças.
+
+ _Maria_».
+
+
+VIII
+
+O orgulho de Alvaro succumbiu. No dia seguinte, procurou Maria. Desta
+vez, não o abandonou o animo á porta do mosteiro. A primeira pessoa que
+viu no pateo foi o seu mestre, o tio de sua mulher.
+
+Eram oito horas da manhã. Frei Antonio entrava no templo para
+sacrificar, e convidou Alvaro a segui'-lo, porque Maria estava no côro,
+e, só depois da missa, viria ao locutorio.
+
+O abstrahido moço, entrou ne egreja e ajoelhou. Maria soltára, no seio
+de uma amiga, um _ai_ que o denunciára. A amiga, electrisada pelas
+lagrimas felizes da secular, pediu á prelada se lhe consentia que
+tocasse o orgão durante a missa. Obtido o consentimento, fez soar,
+magestosa de tristeza, tristeza suavissima que dulcifica as lagrimas, a
+musica do _Te-Deum laudamus_.
+
+Na fronte de Alvaro eriçaram-se os cabellos: a felicidade
+trasbordava-lhe do seio em lagrimas, corria-lhe o corpo o calefrio do
+arrebatamento, esse phenomeno inexplicavel que tantas vezes abala as
+organisações delicadas.
+
+
+IX
+
+Soube-se logo a causa da perturbação de Maria. A prelada quiz saber
+porque chorava assim. A docil senhora não podia nem devia esconder o
+motivo das suas lagrimas. Pediu uma grade para receber seu marido, e a
+prioreza, ensinada pelo coração que adivinhava os desejos de Maria,
+pediu-lhe para acompanha'-la á grade. A mulher de Alvaro apertou-a ao
+seio com alvoroço de contentamento.
+
+--Venha comigo, minha mãe,--disse ella--Eu preciso que elle ouça as
+palavras que Deus manda ao seu coração. Dê-lhe a elle a felicidade no
+infortunio como m'a deu a mim. Não espero que elle me dê um amor como eu
+o esperava antes de experimentar as angustias do desprezo; mas se for
+possivel converte'-lo ao temor de Deus, elle ha-de estimar-me, e com a
+minha estima soffrerá os trabalhos da vida, sem a impaciencia que o faz
+blasfemar. Oh! meu Deus! elle é tão novo e tão desgraçado! Que longa
+vida de desesperação será a d'elle, se não conseguirmos mostrar-lhe que
+se póde ser pobre e feliz!
+
+A prelada pediu cinco minutos de espera. Recolheu-se em oração ao seu
+oratorio, e voltou com o sorriso de esperança para Maria, e a confiança
+em Deus no coração.
+
+Entraram na grade.
+
+
+X
+
+Alvaro estava em pé, com os olhos fitos na porta por onde Maria devia
+entrar. A prioreza, apenas entrou com a secular pela mão, disse mui
+affavelmente:
+
+--Eu não esperei que me apresentassem o sr. Alvaro para ter o prazer de
+cumprimenta'-lo. Conheci n'esta casa suas tias-avós, conheci sua mãe, e
+seu pae e toda a sua familia. Até conheci um anjinho do céo, que me
+disseram ser esposa de v. ex.^a Tratei de averiguar se era verdade. O
+mundo dizia que sim, o anjinho tambem dizia que sim, e eu disse sempre
+que não, porque não acho natural que o possuidor de um thesouro, vindo
+do céo, o lançasse de si. Teima a minha Maria em dizer que é sua, e eu
+digo que não póde ser senão de quem eu quizer. Agora é minha filha e não
+póde ser sua esposa, sem que v. ex.^a m'a venha pedir com todas as
+formalidades de noivo.
+
+--E dar-m'a-ha v. ex.^a?--perguntou Alvaro correspondendo com
+jovialidade á graça risonha da prelada.
+
+--Dou-lh'a--replicou a prelada--com uma condição. Há de vir viver ao pé
+de nós.
+
+--Como, minha senhora?!
+
+--Ha-de vir viver comnosco. Aposto que está lá fazendo seus entes de
+razão contra a violação do claustro? Eu lhe digo, meu genro, uma freira,
+que tem uma filha como esta, dá um testemunho de que se deixou arrastar
+por alguma d'essas paixões feias que são a origem d'estes anjos tão
+lindos! V. ex.^a está-se rindo?! Então ouça-me agora seriamente, e esta
+Maria, que está chorando e rindo ao mesmo tempo, escute tambem. O sr.
+Alvaro vem viver comnosco, não é bem comnosco, porque entre a nossa casa
+e a sua ha uma parede. Então já sabe para onde vae?
+
+--Não, minha senhora; espero as ordens de v. ex.^a.
+
+--Vae para casa do nosso capellão, que é um egresso chamado Antonio dos
+Anjos, um santo, que foi algum tempo mestre de uma creança traquinas,
+que andou por esse mundo de Christo a fazer travessuras, e me dizem que
+ainda aqui ha-de vir para ser muito meu amigo, e talvez para me pedir
+contas de um coração que eu, sem sua ordem, recolhi ao meu, para ambos
+pedirem juntos ao Senhor das misericordias a redempção de um escravo do
+mal, tão digno de ser o que eu sei; e Deus quer que elle seja.
+
+Maria rompeu em soluços e lagrimas. A prelada tomou-lhe para o seio a
+face, como se afagasse uma creança. Alvaro estava immovel, com os olhos
+rasos de lagrimas postos no sympathico grupo da encanecida prioreza e da
+ainda formosa Maria.
+
+
+
+XI
+
+--Assim a chorar (continuou a freira mudando para o tom jovial) não
+podemos combinar as nossas escripturas de casamento, nem as precedencias
+que hão de dar-se antes de se unirem os meus filhos. O sr. Alvaro ha de
+estar dois mezes na companhia do nosso capellão: ha de vir todos os dias
+a esta grade almoçar com a sua velha sogra e com a sua futura esposa; ha
+de vir todas as tardes saber como está o rheumatismo da decrepita
+prelada, e traduzir-me do francez um sermão do padre Massillon, porque
+eu já não posso ler. Quando não estiver para ler á velha, ha de me
+contar o que viu nas suas viagens. Para tornarmos bem amena esta santa
+vida que projectamos, ha de vir para esta grade o dote que eu dou á
+minha menina: é um piano, e ella ha de perder o seu natural acanhamento
+e tocar umas musicas tristes que levam a consolação ao espirito, e
+trazem de dentro um tributo de lagrimas aos olhos. Ora, pois, meu genro,
+responda se está pelas condições que eu acabo de propor-lhe.
+
+--Minha senhora...--balbuciou Alvaro.
+
+--Não está?!--interrompeu a prelada.
+
+--Se estivesse ao pé de v. ex.^a... beijar-lhe-ia essa mão, que sinto no
+coração arrancando-me os espinhos que m'o rasgavam. Deixe-me verter este
+pranto que é uma respiração de homem que se salva da morte de asfixia.
+Respondam as minhas lagrimas, senhora, eu não posso dizer mais nada.
+
+--Eu vos agradeço, meu Deus!--exclamou a freira erguendo as mãos, e
+ajoelhando, com a face pendida para o seio. Fôra como um toque celeste o
+d'aquella transição do sorriso para a humildade magestosa d'aquella
+postura, em que Alvaro e Maria pareciam absorvidos, contemplando-se, e
+contemplando-a, mudamente.
+
+
+XII
+
+Fr. Antonio dos Anjos, sabendo que a prelada o mandára entrar na grade
+passados alguns minutos, chegou no ensejo em que a veneranda senhora
+limpava as lagrimas.
+
+--São lagrimas de felicidade...--exclamou ella--Venha compartir do nosso
+jubilo, Fr. Antonio. Ahi tem o seu discipulo, que vem do mundo mais
+instruido do que foi das suas lições. Traz a sciencia da desgraça, e
+entende que para ser um sabio completo só lhe falta a sciencia da
+resignação. Essa é que o padre capellão lhe ha de ensinar. Já sabe que o
+seu quarto ha de ser mobilado por mim, e conforme fôr do meu agrado?
+Pois ha de ver como uma freira caduca tem ainda o gosto apurado. Hoje ha
+de remediar-se com a cama que o padre lhe der; amanhã ha de ter um
+quarto que nem um palmito. Os quadros hão de ser os que a minha filha me
+deu; são flôres que significam o aroma que vae da oração até Deus; são
+um cãosinho que é o symbolo da amizade; é uma cruz que significa o
+throno onde todas as angustias são coroadas soberanas da gloria
+eterna... em fim, são obras de muito lavor e de muita paciencia,
+desbotadas quasi todas pelas lagrimas. Ora pois, está tocando ao côro;
+eu vou lá pedir a Deus que abençoe a escolha que fiz de um genro, e a
+minha filha, que está mais para chorar, qual quer, vir enxugar essas
+lagrimas aos pés da cruz, ou ficar aqui?
+
+Maria não respondeu. Frei Antonio interrogou com os olhos a vontade de
+Alvaro, e conheceu-o opprimido.
+
+--Vão, vão--disse o padre--Nós voltaremos.
+
+--Maria!--disse Alvaro--eu ainda te não ouvi uma palavra. Seja só uma...
+diz-me: «perdôo-te.»
+
+Maria exclamou entre soluços:
+
+--Deus sabe que nunca te accusei; se me tivesse queixado com ira,
+pedia-te perdão agora.
+
+--É, pois certo, meu Deus?--disse Alvaro.
+
+--O que?--perguntou a prioreza.
+
+--É certo que é possivel a felicidade para mim?
+
+
+XIII
+
+Alvaro da Silveira hospedou-se em casa do capellão. As suas horas eram
+repartidas conforme o programma da prioreza. Frei Antonio já não ousava
+confiar em si, e suffocava sempre a alegria do coração que exultava com
+a rehabilitação de Alvaro.
+
+Maria, porém, acreditava-o, e a prelada tambem. Alvaro parecia feliz com
+ellas, feliz com o padre, feliz com a leitura em que empregava o tempo
+livre.
+
+Ninguem lhe falava no seu passado, nem elle proferia palavra que
+despertasse recordações. Tambem não falava no futuro, e, se Maria
+vaticinava delicias na pobreza, o melancolico moço revelava um
+soffrimento doloroso como a vergonha ou como o remorso.
+
+O passadio de Alvaro era superior ás posses do egresso. Um dia perguntou
+elle se a capellania consentia tanto. Frei Antonio respondeu que podia
+muito o trabalho de Maria. Alvaro chorou, ergueu-se da mesa, e exclamou:
+
+--Estou punido, meu Deus!
+
+
+XIV
+
+Alvaro, procurando Maria, disse-lhe:
+
+--Não abusarei das tuas bondades, anjo. Vivo do teu trabalho,
+agradeço-te de joelhos a esmola, e não posso continua'-la a receber.
+
+Maria soltou um grito do coração e disse a Alvaro que a não matasse.
+
+--De joelhos sou eu que te peço, meu amigo--exclamou ella--que me não
+abandones. Recompensa-me do muito que soffri, permittindo que eu sinta a
+santa felicidade de trabalhar para nós ambos. Oh! tu não sabes avaliar
+que ventura é esta! Se tivesses nascido pobre como eu, se tivesses
+ajudado com o teu talento a comprar o pão de teus paes e teus irmãos,
+não tinhas a crueldade de me roubar este prazer. Ó Alvaro, diz-me que é
+certo viveres para mim e para a esperança de melhores dias. Diz-me que
+entre a minha alma e a tua não ha uma linha de distancia que separe as
+nossas ultimas migalhas de pão.
+
+
+XV
+
+Passados dois mezes encontraram-se frei Antonio e o mercieiro que tinha
+emprestado dinheiro sobre os rendimentos da casa de Alvaro.
+
+--Já sabe tudo?--perguntou o padre.
+
+--Sei tudo--disse o lojista--O rapaz está outro. Vae ver sua mulher
+todos os dias, e ouvi dizer que chorava os seus peccados. Que faz elle
+agora se está arrependido? Porque não tira a pobre senhora do convento?
+Que se arremedeiem com pouco, e vivam juntos.
+
+--É pouco de mais o que elles têem para viverem.
+
+--Eu darei o que lhes faltar; mas requeiro debaixo de juramento que
+nunca a minha protecção seja sabida por algum d'elles.
+
+Oito dias depois, Maria dos Prazeres, ou dos Anjos como a chrismaram no
+convento, para que o sobrenome não fosse uma falsidade, saiu do convento
+para uma pequena casa, onde seu marido a esperava com a face inundada de
+lagrimas felizes.
+
+Aquelle viver dos tres era um santo frenesi de amor; Vinham compartir
+d'aquella alegria o coronel, a mãe de Maria, seus irmãos, e até a
+prioreza quiz acompanhar sua filha para lhe conter (dizia ella) os
+impetos amorosos da lua de mel. O padre estava sempre em continua acção
+de graças. Ria e chorava ao mesmo tempo o bom do velho. No arrebatamento
+da alegria abraçava a prelada que tinha sempre um equivoco mui engraçado
+que dizer-lhe n'esses expansivos abraços: riam-se todos e o coronel
+rejuvenescia da intempestiva velhice.
+
+--Quem dá os meios para esta casa?--perguntava elle.
+
+--A providencia de Deus--respondia o irmão.
+
+--D'onde vem este dinheiro no principio de cada mez?--perguntava Maria.
+
+--Da Providencia de Deus--replicava o tio ás repetidas instancias.
+
+
+XVI
+
+Alvaro da Silveira inspirava receios de reincidencia ao padre. A sua
+primeira conversão parecia sincera e firme, e o anjo do bem abandonára-o
+ás presas do vicio resurgente. A segunda, semelhante á primeira, com
+quanto abonada pela experiencia de duras penas, poderia, chegando ao
+extremo, não vingar. Fr. Antonio temia o tempo, tremia em segredo; e não
+ousava dizer os seus temores á sobrinha ou á irmã.
+
+O marido de Maria, penetrando o coração do padre, dissera-lhe:
+
+--Conheça o coração humano, meu caro bemfeitor. A minha conversão
+religiosa foi um abalo que devia parar. Eu era um homem que achava
+pequeno o mundo. Scismára muitas vezes na eternidade, quando voltava com
+enojo as costas aos vicios satisfeitos. O meu espirito, immergido no
+lodo, não podia voejar acima do que os olhos abrangiam, e os sentidos
+confirmavam. Refazia-me novamente de forças para a libertinagem,
+procurava-lhe com cynica avidez as faces novas e, desesperado de
+encontra'-las, invocava outra vez a idéa confusa do meu destino.
+
+«Quando frei Antonio me appareceu, a minha alma era um vacuo horrivel.
+Ouvi-o, era a primeira vez que a voz de um homem respondia ás minhas
+perguntas a Deus. Affiz-me a considera'-lo um justo, alteei-me onde os
+seus vôos me chamavam, e sentia rejuvenescer a minha alma de viço e
+alentos nunca experimentados. Maria, este anjo de Deus, fez que o meu
+coração se purificasse ao mesmo tempo que o espirito se regenerava. O
+amor que lhe dei, immenso e fervoroso, não era mentira; nem podia
+sê'-lo, por que a mentira não se sustenta á custa do sacrificio da
+liberdade.
+
+«O amor d'ella era para mim uma emanação do amor divino. No dia em que
+aquella ardente fé nos divinos preceitos se entibiasse, arrefeceria
+tambem o amor a sua sobrinha. Estavam vinculados ambos os affectos:
+dependiam um do outro. A religião era como a lampada suspensa no meio do
+templo que reflecte o seu clarão em todos os altares. Logo que se
+apagou, fizeram-se trevas em todas as minhas affeições nobres, em todas,
+até vergonha senti de haver tido remorso dos meus vicios. Foi por isso
+que a sua presença, padre Antonio, me aborrecia, que os conselhos de meu
+pobre pae me enfastiavam, e que as lagrimas de minha mulher me levavam
+desde o desagrado até ao odio. Isto foi horrivel, mas verdadeiro.
+
+«Como a luz da religião se extinguiu em minha alma, não sei. Lembra-me
+que me assaltaram saudades de uma sociedade que me ridicularisava a
+conversão e o casamento. Saudades de uma vida mesclada de tedios e de
+alegrias. Necessidade de alargar o circulo de ferro que me apertava a
+respiração. Era o crime que me visitava com todas as suas galas
+perfidas. Era o anjo mau da tentação que triumphava, pintando-me
+insignificante de espirito, de «fortuna», e de belleza uma mulher que
+parecia violentar-me a adquirir os seus habitos mesquinhamente caseiros
+e de baixa condição.
+
+«Ultrajei a minha pobre victima com o desprezo, e depois pensei que a
+mataria com o abandono. Fui um infame dos infames que se não definem.
+
+«Nenhum homem experimentou affrontas semelhantes ás que eu devorei.
+Todos os meus haveres hypothequei-os ao vicio, e ao crime. Nunca tive
+uma alegria de alma por um punhado de ouro. Arrojava-o com desesperação
+aos abysmos onde me diziam que era possivel arrancar-se das mãos do
+diabo uma sentença de prazer novo. Nunca, nunca! Tocaria a ultima balisa
+da indigencia, se o meu fausto não apparentasse uma riqueza. Pedi
+quantias, algumas das quaes não pagarei jámais, porque estou pobre, e
+outras paguei-as com o vilipendio merecido de um carcere.
+
+«Algumas vezes vi uma sombra veneranda, padre Antonio, e pavorosos
+sonhos eram aquelles em que eu via minha mulher a expirar-lhe nos
+braços.
+
+«Revivia-me então a necessidade de gritar pela misericordia divina; mas
+o grito de contricção era suffocado por um riso blasphemo. Quando o
+infortunio é superior ás forças humanas apaga-se a luz da razão, fica o
+espirito na escuridade da demencia, e já não ha alma que se refugie na
+esperança de uma vida melhor.
+
+«Hoje, sim, frei Antonio. Já não é uma organisação susceptivel de
+impressões que obedece á eloquencia da sua palavra religiosa. Hoje é o
+desgraçado, que sente no coração fendido de golpes o poder do balsamo
+divino, ministrado pela mão d'aquella que victimei. O perdão da martyr é
+o que me está testemunhando a misericordia do céo. Vejo n'ella a
+omnipotencia de Deus: não a procuro nos livros, não a preciso da
+argumentação; não quero que me combatam com o raciocinio a impiedade que
+o meu coração rejeita. Creio em Deus, meu caro mestre, creio no céo,
+creio no inferno, creio em tudo que preciso crer para caír de joelhos
+aos seus pés, e supplicar-lhe que não duvide um momento da minha
+rehabilitação.»
+
+Padre Antonio recebera-o nos braços, soluçando palavras de benção, e de
+felicidade inexprimivel.
+
+
+XVII
+
+N'um dia de 1839[NT], frei Antonio é chamado a casa de Joaquim Nunes; o
+lojista, antigo creado de Gonçalo da Silveira. Vae, e acha-o enfermo.
+
+--Sr. frei Antonio--disse o merceeiro--chamei-o para me ajudar a saldar
+as minhas contas com o mundo, para levar diante de Deus os meus livros
+de rasão sem nodoa. Estou muito doente, e não espero nada da medicina. O
+que eu tenho a dizer-lhe, não é o receio da morte que m'o faz dizer. Ha
+dias que eu preparava esta occasião, e oxalá que sendo a vontade de
+Deus, eu sobrevivesse á resolução que tomei. Ora diga-me; como se porta
+o sr. Alvaro?
+
+--Melhor do que as minhas ambições.
+
+--Já não teme que elle torne ao caminho da perdição?
+
+--Confio em Deus, não é n'elle, nem em mim, confio em Deus que não.
+
+--Elle sabe que sou eu o que lhe dou as mezadas?
+
+--Não sabe: cumpri religiosamente a sua vontade.
+
+--Deve ter dito muito mal do avarento creado de seu pae...
+
+--Nem uma palavra, desde que está em minha companhia. Parece que
+confessa com o seu silencio gratidão á mão generosa que o soccorre.
+
+--Ora diga-me, sr. fr. Antonio, envergonhar-se-ha elle de vir visitar um
+creado antigo da sua casa, doente?
+
+--Ó senhor, isso é duvidar do coração de meu sobrinho; essa licença
+estava eu para pedir-lh'a...
+
+--Pois que venha, e venha tambem sua mulher, desejo ve'-los, e o mais
+breve que possa ser.
+
+
+XVIII
+
+No mesmo dia, Alvaro, Maria, e frei Antonio dos Anjos visitaram o
+merceeiro Joaquim Nunes.
+
+As lagrimas inexplicaveis deslisavam copiosas pelas faces do enfermo.
+Maria, cuja sensibilidade respondia logo á dôr extranha, acariciou o
+velho, e fez que Alvaro esquecesse a diminuta repugnancia que sentia em
+afagar um homem que possuia os seus bens, e o imaginaria capaz de
+humilhar-se para rehavê'-los.
+
+--Estou quasi só--disse o lojista---Tenho sido só toda a minha vida, e
+agora sinto necessidade d'uma familia. Queria eu pedir á sr.^a D. Maria
+e ao sr. Alvaro, e ao sr. fr. Antonio que me deixassem ir morrer a casa
+do filho de meu amo. Fazem-me a caridade de me acceitar em sua casa?
+
+--Deus permitta que as suas forças o deixem ir para a nossa
+companhia!--exclamou a sobrinha do padre.
+
+--Poucas forças tenho; mas transportar-me-hei n'uma cadeira, e o sr.
+padre Antonio tomará conta das chaves d'esta casa. O meu commercio
+acabou; não devo, e os que me devem fôram riscados dos meus livros. Os
+meus negocios da vida estão fechados. Agora queria morrer vendo duas
+pessoas felizes ao pé de mim, e tendo á minha cabeceira um santo homem
+que me ajude a pedir a Deus o perdão das minhas culpas. Se eu vencer a
+doença, viveremos todos, ponto é que o sr. Alvaro tenha a bondade de
+sentar á sua mesa um homem do povo que foi escudeiro de seu pae.
+
+Alvaro apertou-lhe, commovido, a mão. Maria, do outro lado do leito,
+limpava-lhe com o seu lenço o suor que lhe inundava a fronte e fr.
+Antonio, com palavras de jubilo, annunciava ao enfermo que não morreria
+ainda para testemunhar e ter quinhão na felicidade de seus sobrinhos.
+
+
+XIX
+
+Joaquim Nunes passou para a residencia de frei Antonio.
+
+Nos primeiros dias a sua doença recrudesceu, consequencia do abalo
+physico e moral da mudança.
+
+Depois, um ar de melhora fez crear esperanças aos facultativos.
+Esperanças não mentidas fôram essas, porque ao cabo de um mez de
+alternativas, o enfermo entrou em convalescença, e veiu a
+restabelecer-se.
+
+No primeiro dia que saíu a passeio, de sege, trouxe comsigo um
+tabellião.
+
+Chamou á sua presença os consortes, e fez ler um testamento, em que
+instituia Alvaro da Silveira e sua mulher seus universaes herdeiros. O
+testamento foi alli rasgado e o tabellião lavrou uma escriptura de
+doação de todos os seus bens a Alvaro e sua mulher, com a condição de o
+alimentarem na sua companhia. As especies sommadas dos bens doados
+excediam a meio milhão.
+
+
+XX
+
+Esta dotação não alterou a felicidade d'aquella familia. Correram muitas
+lagrimas de alegria, mas essa alegria era a da gratidão, era o expansivo
+respirar das quatro nobres almas que alli se vincularam n'uma só
+vontade.
+
+E a vontade de Joaquim Nunes respeitavam-n'a todos. Quiz elle que Alvaro
+fosse viver no palacete de seu pae, quiz que revivesse o antigo fausto
+d'aquella casa, quiz que a familia de Maria fosse a de todos.
+Cumpriram-se os seus bons desejos.
+
+A felicidade d'esta numerosa familia é indescriptivel. Até 1849, em que
+todos viviam, nenhum d'aquelles semblantes fôra annuveado pela tristeza.
+
+Alvaro é um modelo de honra. Frei Antonio um santo, que está
+constantemente agradecendo ao Senhor o galardão de tamanhas angustias.
+Maria, a amiga intima da baroneza de Amares, como o leitor a veria no
+HOMEM DE BRIOS, é um anjo que anda em cata de soffrimentos para
+consola'-los. Joaquim Nunes no centro d'aquella familia, é um homem
+adorado, que, em 1849, jogava a bisca de nove com o coronel.
+
+Bemdito seja Deus que tem estes apostolos a glorifica'-lo na terra!
+
+
+FIM
+
+
+ [NT] Nota de Transcrição: No original aparece 1839, apesar de não
+ estar coerente com a linha temporal do romance. O ano de 1849 é
+ referido mais adiante na obra pelo que deve ser esta a data
+ correcta.
+
+
+
+
+
+
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+
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+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
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+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
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+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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+
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+ <title>Lagrimas Abençoadas</title>
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+The Project Gutenberg EBook of Lagrimas Abençoadas, by Camilo Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Lagrimas Abençoadas
+
+Author: Camilo Castelo Branco
+
+Release Date: October 12, 2007 [EBook #22977]
+
+Language: Portuguese
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+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LAGRIMAS ABENÇOADAS ***
+
+
+
+
+Produced by Manuela Alves e Pedro Saborano. (produced from
+scanned images of public domain material from Google Book
+Search)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<div class="footnote">
+<p><b>Nota do transcritor:</b></p>
+
+<p>Foram corrigidos diversos erros tipográficos menores, sem que seja
+ feita qualquer menção desse facto. As marcas <sup>[NT]</sup> identificam as notas
+ explicativas das alterações importantes ao texto original.</p>
+</div>
+
+<h3>OBRAS</h3>
+
+<h4>DE</h4>
+
+<h4>CAMILLO CASTELLO BRANCO</h4>
+
+<h5>EDIÇÃO POPULAR</h5>
+
+<h3>LI</h3>
+
+<h2>LAGRIMAS ABENÇOADAS</h2>
+
+
+<div id="lista_coleccao">
+<h3>VOLUMES PUBLICADOS</h3>
+<table width="100%"><tr><td width="50%" valign="top" >
+<ul>
+<li>N.<sup>o</sup> 1--Coisas espantosas.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 2--As tres irmans.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 3--A engeitada.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 4--Doze casamentos
+felizes.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 5--O esqueleto.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 6--O bem e o mal.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 7--O senhor do Paço
+de Ninães.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 8--Anathema.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 9--A mulher fatal.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 10--Cavar em ruinas.</li>
+
+<li>N.<sup>os</sup> 11 e 12--Correspondencia
+epistolar</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 13--Divindade de Jesus</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 14--A doida do Candal.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 15--Duas horas de leitura.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 16--Fanny.</li>
+
+<li>N.<sup>os</sup> 17,18 e 19--Novellas
+do Minho.</li>
+
+<li>N.<sup>os</sup> 20 e 21--Horas de paz.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 22--Agulha em palheiro.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 23--O olho de vidro.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 24--Annos de prosa.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 25--Os brilhantes do
+brasileiro.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 26--A bruxa do Monte-Cordova.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 27--Carlota Angela.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 28--Quatro horas innocentes.</li>
+</ul></td><td valign="top"><ul>
+<li>N.<sup>o</sup> 29--As virtudes antigas--Um
+poeta portuguez...
+rico!</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 30--A filha do Doutor
+Negro.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 31--Estrellas propicias.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 32--A filha do regicida.</li>
+
+<li>N.<sup>os</sup> 33 e 34--O demonio
+do ouro.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 35--O regicida.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 36--A filha do arcediago.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 37--A neta do arcediago.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 38--Delictos da Mocidade.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 39--Onde está a felicidade?</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 40--Um homem de
+brios.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 41--Memorias de Guilherme
+do Amaral.</li>
+
+<li>N.<sup>os</sup> 42, 43 e 44--Mysterios
+de Lisboa.</li>
+
+<li>N.<sup>os</sup> 45 e 46--Livro negro
+de padre Diniz.</li>
+
+<li>N.<sup>os</sup> 47 e 48--O judeu.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 49--Duas épocas da
+vida.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 50--Estrellas funestas.</li>
+
+<li>N.<sup>o</sup> 51--Lagrimas abençoadas.</li>
+</ul>
+</td>
+</tr>
+</table>
+</div>
+<div class="ppagina">
+
+<p><i>CAMILLO CASTELLO BRANCO</i></p>
+
+<h1>LAGRIMAS ABENÇOADAS</h1>
+
+<h3>ROMANCE</h3>
+
+<h4>QUARTA EDIÇÃO</h4>
+
+<p>1906<br>
+
+<span class='small-caps'>Parceria Antonio Maria Pereira </span><br>
+
+Livraria editora e Oficinas Typographica e de Encadernação<br>
+
+Movidas a electricidade<br>
+
+<i>Rua Augusta--44 a 54</i><br>
+
+LISBOA</p><br>
+</div>
+<span class='pagenum'> 4 </span>
+
+<div class="centrado">
+<p>1906<br>
+
+OFFICINAS TYPOGRAPHICA E DE ENCADERNAÇÃO<br>
+
+Movidas a electricidade<br>
+
+Da Parceria Antonio Maria Pereira<br>
+
+<i>Rua Augusta, 44, 46 e 48, 1.<sup>o</sup> andar</i><br>
+
+LISBOA</p>
+</div>
+<span class='pagenum'> 5 </span>
+
+
+
+
+<h2>A QUEM LER</h2>
+
+
+<p>QUE FELICIDADE É POSSIVEL SOBRE A TERRA: tal é o pensamento d'este
+romance.</p>
+
+<p>QUE FELICIDADE, CONFESSADA PELA CONSCIENCIA, É A UNICA VERDADEIRA:
+quizera eu poder provar, assim como posso sentir.</p>
+
+<p>QUE A FELICIDADE VEM A PREÇO DE LAGRIMAS, COMO A CONSOLAÇÃO DO
+SALVAMENTO A PREÇO DAS AGONIAS DO NAUFRAGIO: é um paradoxo, talvez, para
+os que não conhecem a verdadeira felicidade, nem choraram as lagrimas
+abençoadas da resignação.</p>
+
+<p>Este romance é religioso na essencia. Escreve-se ahi muitas vezes a
+palavra DEUS. Evitam-se as imagens do deleite, o pasto de ociosos,
+gastos do coração, e fallidos da alma. Os que buscam no romance qualquer
+cousa que não sirva de nada para o espirito, não leiam este.</p>
+
+<p>Eu espero achar entendimentos que m'o recebam, e corações que m'o
+agradeçam.</p>
+
+<p>Vereis ahi uma mulher, que não é uma chimera. <span class='pagenum'> 6 </span> Imaginei-a,
+primeiro, e encontrei-a fóra da imaginação, depois.</p>
+
+<p>Maria, linda creatura da terra, é a rainha de dois diademas: um no céo:
+os anjos, seus irmãos, tecem-lh'o das flores, que ella rega no mundo com
+as suas lagrimas. Outro na terra: é a soberania da virtude, respeitada,
+embora não compreendida, pelos homens que lhe acurvam o joelho.</p>
+
+<p>Eu sou um d'estes.</p>
+
+<p>E o meu romance é uma palavra d'esse cantico de louvor, que o espirito
+não póde revelar aos que, no seu caminho, não parariam a
+compreender-lh'o.</p>
+
+<p>Meditemos este assumpto.</p>
+
+<p>Ha ahi n'esse mundo material uma decidida negação para acompanhar o
+espirito nas suas elevações. Eu sei-o.</p>
+
+<p>Um ou outro homem encosta a face á mão, abraça os horisontes com uma
+vista scismadora, afina a harpa da sua alma pela toada sonorosa dos
+pinhaes; compõe das notas lugubres da tempestade a harmonia tetrica, e
+desfigura-se, e poetisa, e parece não querer nada de commum com a fraca
+natureza humana. É o sentimental.</p>
+
+<p>O sentimentalismo, sem a religião, é uma mentira.</p>
+
+<p>O que ahi vae de phantastico e espiritualista nos affectos, é uma
+exigencia da epoca, é um encargo que a mocidade se impoz, é a precisão
+de variar. Diga-se tudo: é a moda.</p>
+
+<p>Não porque a vida seja feliz, e a natureza do homem <span class='pagenum'> 7 </span> precise
+inventar amarguras, para que a felicidade o não enjoe;</p>
+
+<p>Não porque o espirito, extenuado em sensualidades procure, no ideal,
+respirar o elemento de vida, que lhe é proprio;</p>
+
+<p>É porque as felicidades, saboreadas n'estes tempos não deixam no coração
+motivo para um hymno. O homem, que não póde apagar na mente a faisca do
+genio, que lhe desceu ao berço, ou mata a inspiração na orgia, ou
+abysma-se com ella, por feretros e ossadas até materialisa'-la nas
+fórmas repugnantes de uma dor monstruosa.</p>
+
+<p>E, se assim não fizer, o seu alaúde não tem sons, e o genio fallece-lhe
+de impotencia. Mas o poeta quer este titulo; cantor quer a grinalda das
+flores em troca da corôa de espinhos; é preciso cantar.</p>
+
+<p>Se lhe pedisseis, em vez de horrores, uma poesia banhada de luz celeste,
+em que os mil reflexos de cima fossem as virtudes possiveis no mundo...</p>
+
+<p>Se lhe pedisseis, em vez da pagina sempre negra da sua vida, as
+alvissimas alegrias de uma virgem, que, a fugir de um mundo, que se lhe
+pinta ingrato á sua alma candida, se refugia aos pés de Maria, Rainha
+das Virgens, a pedir-lhe o céo, como repouso inviolavel da innocencia...</p>
+
+<p>Se lhe pedisseis a doçura das lagrimas da pobre, que aconchega seus
+filhos n'um envoltorio de andrajos, e ajoelha depois, entregando-os á
+Providencia, para que, <span class='pagenum'> 8 </span> ao amanhecer, não sejam muito repetidos
+os seus gritos de fome...</p>
+
+<p>Pedi.</p>
+
+<p>O poeta ha-de dizer-vos que a luz do céo é esse oceano de luz, que banha
+a terra, quando as arvores florescem e as arvores saudam ao alvorecer um
+sol esplendido.</p>
+
+<p>Ha-de falar-vos da virgem, arfando esperanças no seio immaculado, mas
+esperanças todas d'aqui, todas embalsamadas pelo incensorio das paixões
+terrenas.</p>
+
+<p>O pobre, esse que vale bem a pena de uma poesia, de uma pagina de
+romance, é sempre a victima da má organisação social, e de uma mentirosa
+economia politica. Vê'-lo-heis invectivar o rico, com toda a iracundia
+de uma inoffensiva estrofe; mas o pobre que continua nas palhas da
+miseria, esse não recebe uma consolação em nome do futuro, do céo, e das
+promessas de Jesus Christo. É sempre o pobre recrutado para as fileiras
+que guerreiam o rico.</p>
+
+<p>Eu pensei, uma vez, na vastidão de assumptos sobre que o sceptro do
+talento extende o seu imperio. Chamando á reminiscencia o acervo de
+leituras recreativas, que fiz, durante alguns annos, entrevi nos meus
+tempos nebulosos o muito tempo consumido, os muitos volumes folheados, e
+não poderei classificar-vos, em synopse de idéas, uma só que me
+prestasse ao espirito, ou ao coração, ou á cabeça.</p>
+
+<p>Aprendi o desengano no romance, antes que a sociedade m'o desse.</p> <span class='pagenum'> 9 </span>
+
+<p>Libei na poesia do seculo a mentira, antes que o coração contaminado m'a
+inspirasse.</p>
+
+<p>Aborreci-me de mim e das minhas leituras, como se o livro e a poesia
+fossem um sarcasmo para quem nas más horas, lhe mendiga espairecimentos
+para o espirito.</p>
+
+<p>Vislumbravam-me no escuro das minhas idéas religiosas uns clarôes
+pallidos do que o romance e a poesia deveriam ser para adoçarem muitos
+infortunios. Mas, que me pedissem a idéa formulada no livro! Faltava-me
+a convicção das virtudes do balsamo para saber applica'-lo á ferida.</p>
+
+<p>Não tinha eu provado ainda as doçuras da religião para sentar-me com a
+taça do Evangelho, á borda do caminho, e dizer ao peregrino cançado:</p>
+
+<p>Bebe!......................................</p>
+
+<p>Dão-vos tedio estas minhas considerações? Não são vaidosas. Eu juro-vos
+que me doeria muito se uma verdade, esboçada com amplos contornos, não
+valesse mais que uma mentira, alinhada com o ouropel de um desusado
+estylo.</p>
+
+<p>O que está dito é o prefacio do meu romance. Duas palavras resumem-n'o
+laconicamente n'uma idéa conceituosa.</p>
+
+<p>Sei em que tempo escrevo, e comtudo, ouso nos estreitos limites de que
+posso dispôr, ajustar em molde christão um genero, raras vezes assim
+tratado, quer pela costumeira da forma, quer pelo estylo, quer pelas
+leis da escola.</p>
+
+<p>Escrevo um romance, ou antes descanto em prosa <span class='pagenum'> 10 </span> uma virtude,
+porque não desafinarei, em quanto possa, a lyra em que fiz soar algumas
+poesias, unicas de que me não culpo, nem arrependo. As outras...</p>
+
+<p>Se eu pudesse avaliar a vossa opinião, consolava-me de não ser enganado
+pela minha consciencia de christão e de artista.</p>
+
+<p>Porto--em 1853.</p> <span class='pagenum'> 11 </span>
+
+
+
+
+<h1><span class='small-caps'>Lagrimas abençoadas </span></h1>
+
+
+
+
+<h2>LIVRO I</h2>
+
+
+<h3>I</h3>
+
+<p>Disseram muitos dos que estavam em redor de uma creancinha, na pia do
+baptismo, que na face d'ella havia uma luz mysteriosa, como a projecção
+de um cirio invisivel, que, n'aquelle instante solemne, allumiasse, nas
+mãos de um anjo, as cerimonias do sacramento augusto. Visão de boas
+almas.</p>
+
+<p>Era uma menina de nove dias.</p>
+
+<p>Sua madrinha era Nossa Senhora da Conceição, fulgurante de mil lumes, no
+seu docel de seda e prata, com as mãos cruzadas sobre o seio, com os
+olhos extaticos no céo, como seguindo o trilho de estrellas por onde,
+aos pés do Eterno, voejava o anjo da ANNUNCIAÇÃO.</p> <span class='pagenum'> 12 </span>
+
+<p>Seu padrinho era um duque, vestido de ouro, com as suas insignias de
+general em chefe, com o seu thesouro de condecorações guerreiras a
+cobrirem-lhe o peito, onde pulsava sangue de reis, que não valia mais,
+por isso, em coração de homem.</p>
+
+<p>Seu pae era um coronel, fidalgo dos que primeiro o foram n'esta terra,
+valente como o primeiro e o ultimo da sua linhagem, e honrado como
+aquelle de seus avós, que morrera desterrado, em Tanger, por não
+denunciar o que lhe fôra amigo desleal, embora traidor ao rei D. João
+II.</p>
+
+<p>Era o coronel... que vos importa o nome?!...</p>
+
+<p>Sua mãe nascera dama de D. Maria I, crescera mimo de galanteria e
+docilidade, emancipára-se donzella de todas as virtudes, casára-se,
+mulher, exemplo das mais santas affeições de um marido, e fôra mãe como
+póde se'-lo a mulher, depois que a Virgem Maria alimentou um filho,
+depois que Jesus Christo rehabilitou a fascinada da serpente, depois que
+a filha de Eva entrou no seu reconquistado Eden, a colher a flor da
+dignidade, regada pelo sangue do filho de Maria.</p> <span class='pagenum'> 13 </span>
+
+
+<h3>II</h3>
+
+<p>Este dia, jubilo de anjos, para os quaes os orvalhos do céo, fecundando
+as aguas do baptismo, geram na terra um irmão; jubilo de seus paes, que,
+depois de quatro filhos, tinham um novo penhor de innocencia para, em
+seu nome, agradecer, com labios puros, as esmolas do céo; jubilo da
+egreja catholica, que estremece de felicidade, quando entra em seu seio
+um filho, que lhe gosta o leite da virtude, como sustento da
+immortalidade: este dia amanheceu em 1827.</p>
+
+<p>Maria era o incentivo de tanta alegria. Nos braços de sua mãe, com o seu
+olhar errante pelas faces desmaiadas d'ella, que parecia sorve'-la com
+os seus beijos, como se aquelles fossem os ultimos; Maria, a afilhada da
+Senhora da Conceição estava alli asseverando o que tantos diziam da luz
+mysteriosa, que na pia do baptismo, lhe illuminava a face.</p>
+
+<p>A pureza dos anjos, não será como a santidade do predestinado!? E o
+justo, na ultima hora da sua passagem na terra, quando o anjo da
+serenidade lhe alveja o rosto com as suas azas transparentes, não será
+como a creancinha immaculada, cuja alma vem brincar-lhe ao rosto com
+toda a pureza e innocencia, que o halito creador lhe bafejou!?</p>
+
+<p>A mãe de Maria chorava e as suas lagrimas desconsolavam <span class='pagenum'> 14 </span> o pae,
+que as não queria ver n'aquelle dia, n'aquella hora, tão faustosa, tão
+de gala para os parentes, que se abraçavam em redor do leito.</p>
+
+<p>Mas fossem calar-lhe o presentimento no coração! Digam á flôr que não
+penda amortecida sobre a haste, quando o sol se esconde! Digam ás
+lagrimas, que estanquem nos olhos, quando o que chora não sabe d'onde
+ellas nascem, nem o que contempla sabe a linguagem do espirito, para
+consola'-lo em seus presentimentos sobrenaturaes!</p>
+
+<p>Porque é que aquella mãe não buscava o allivio no sorriso de seu marido?
+Porque não olha ella para os seus? Que é tão consolador ahi como a
+presença de um marido amado, quando a fraca mulher quer desafogo?</p>
+
+<p>Não bastam allivios do mundo para essas ancias.</p>
+
+<p>Deus! sim, para todas as afflicções, para todos os presagios, para todos
+os temores, para todas as mães que vaticinam desventuras a suas filhas!</p>
+
+<p>Deus! E na sua imagem é que aquella mãe fitava os olhos. Depois, ao lado
+de Christo, estava outra imagem: era Nossa Senhora da Conceição. Que lhe
+dizia aquella pallida mulher, com sua filhinha nos braços? Ouviram-lhe
+só as derradeiras palavras:</p>
+
+<p>«Minha Mae Santissima! entrego-vos a vossa afilhada!»</p>
+
+<p>Viram um sorriso nos labios de Maria. Seria um acto maquinal dos labios?
+Porque é que os adultos não sorriem maquinalmente?... Lisongeiras
+duvidas para o homem que pensa nos segredos do homem.</p> <span class='pagenum'> 15 </span>
+
+
+<h3>III</h3>
+
+<p>Decorreram sete annos.</p>
+
+<p>Eu não devo aqui pintar um quadro de guerra. Seria salpicar de sangue a
+tela onde me propuz traçar uma figura grandiosa, com o colorido suave da
+religião. Abomino a historia, se é força lembra'-la a testemunhas
+oculares. Ha ahi muitos escolhos que ludibriam os mais atilados pilotos.
+Escandecencias politicas não se refrigeram com o orvalho do céo. Se do
+pulpito o hyssope muitas vezes as exacerba, que fará d'aqui?!</p>
+
+<p>E tomára eu que estas linhas, pallido reflexo do que ha de
+incommunicavel no meu coração, accendessem o amor de Deus, apagando a
+flamma das inimizades humanas! Tomára eu lagrimas e dó, e paz e
+esquecimento para os homens, que não devem aqui encher uma pagina de
+odio n'um livro que aconselha a resignação. Durmam uns e outros o breve
+somno, que vae do anoitecer da vida á alvorada do archanjo.
+Ver-nos-hemos em volta do juiz, que, nos seus dias de réo entre a
+humanidade pervertida, dissera:</p>
+
+<p>«Só a mim pertence julgar os bons e os maus!»</p>
+
+<p>Bemaventurados os que esperam.</p> <span class='pagenum'> 16 </span>
+
+
+<h3>IV</h3>
+
+<p>1834!</p>
+
+<p>Foi um anno de muitas lagrimas. Debaixo d'este formoso céo esperdiçou-se
+muito sangue. As espadas terçavam por duas causas, quando dois corações
+do mesmo sangue, na vanguarda de dois exercitos irmãos, anciavam
+aniquilarem-se. E, se, após o ruido das armas, se fazia o silencio
+tetrico da morte, prorompiam depois os gritos das mães, das viuvas e dos
+orphãos. Paiz, onde esta harmonia de angustias se levanta de milhares de
+labios para o céo, prova-se no supremo infortunio, e symbolisa o
+holocausto de uma vingança tremenda.</p>
+
+<p>Tremenda... como a de Gaza e Moab!</p>
+
+<p>«Que é dos teus edificios de marmore, cidade dos obeliscos!?» dizia o
+propheta das lagrimas.</p>
+
+<p>Não vedes em Portugal os fustes das columnas dispersas na ruina dos
+grandes edificios?</p>
+
+<p>Não vedes!--Pois que tem esta terra de commum com Moab e Gaza?</p>
+
+<p>Que tem?!</p>
+
+<p>O enviado de Deus responderia:</p>
+
+<p>«Que é dos teus edificios de virtude, terra da honra e da probidade?»</p>
+
+<p>«Que importam os coruchéos de vossos palacios, Balthazares do tempo, se
+lá não está a cruz veladora das felicidades da vida?!»</p> <span class='pagenum'> 17 </span>
+
+<hr>
+
+<p>Mãe de Maria, porque choravas tu?</p>
+
+<p>As tuas lagrimas já não eram um mysterio;</p>
+
+<hr>
+
+
+<h3>V</h3>
+
+<p>Uma vez, a esposa do coronel, com sua filhinha de sete annos, ajoelhava
+diante da imagem da Senhora da Conceição e murmurava esta prece:</p>
+
+<p>«Virgem Maria, nunca a vossos pés caíram mais afflictas lagrimas!
+Attendei-me, Senhora, que eu sou uma fraca mulher, mãe de cinco filhos,
+esposa de um homem, que é o amparo d'esta pobre familia, que vos
+ajoelha! Vêde, ó Mãe dos afflictos, que o tumulo de meu marido é o
+tumulo d'estes orphãos, e o d'esta mãe desvalida, que não tem um palmo
+de terra onde possa regar com suas lagrimas um fructo, que mate a fome
+de seus filhos. Protegei-o, ó Senhora, n'esta guerra desastrosa, em que
+a cada instante cáe um pae de familia, tão desgraçada como a minha! Eu
+não vos peço as honras, e a subsistencia que meu marido ganhára no
+serviço da sua patria: o que eu vos peço é muito mais... é a vida de meu
+marido, mas só a vida, sem a gloria de vencedor, sem o premio do seu
+sangue derramado, <span class='pagenum'> 18 </span> sem mais outra riqueza que a do coração que
+elle tem, e a resignação com que vós, consoladora do infortunio, e eu,
+esposa extremosa, lhe adoçaremos a desgraça! Os labios da vossa afilhada
+não murmuram a oração de sua mãe, mas o seu coração é aquelle que vós
+lhe déstes ha sete annos! Eu vos supplico em nome d'ella. Fazei que
+estes olhos não sintam tão cedo o travo das lagrimas, que chora sua mãe!
+Piedade para todos nós!... amparo para meu marido... compaixão para
+todas as mães atribuladas, que, n'este momento, vos pedem, como eu, a
+vida de seus maridos...»</p>
+
+<p>E era esta a oração que os suspiros não poderam cortar. Assim simples e
+angustiada, confirmava a verdade de uma grande dor que não escolhe
+palavras, nem se atavia das pompas do estylo. Quem orou n'um d'estes
+lances, sublimes no tormento, pela explosão da agonia com que se
+refugiam no céo, compreenderá o cunho pungente, marcando a mais
+insignificante d'essas palavras, que proferiam os labios febris da
+mulher consternada entre seus filhos.</p>
+
+<p>E, depois, a mãe de Maria foi deitar sua filha, e, acalentando-a,
+estremecia ás vezes, como se os accessos de uma convulsão a não
+deixassem aquietar-se ao lado do seu anjo. É que a cada trom remoto da
+artilharia, nas linhas de Lisboa, aquella afflicta esposa de um homem de
+guerra sentia o véo da viuvez descer-lhe na face, e o luto da orphandade
+envolver aquellas cinco existencias, para nunca mais se mostrarem no
+mundo com direito a serem amadas por alguem. E os outros <span class='pagenum'> 19 </span> quatro
+meninos aconchegavam-se no regaço d'ella; fitavam-n'a, como os
+passageiros de um barco em perigo fitam o semblante do homem a quem se
+confiaram; e, no choro, modelado pelos gemidos de sua mãe, compunham uma
+consonancia de vagidos, e brados, e soluços. Quando assim se soffre, a
+indifferença do Eterno seria um cruel desengano para os infelizes, que
+se acolhem ao abrigo das suas misericordias... Não haveria Deus: a
+justiça divina seria uma astucia humana.</p>
+
+<p>A oração é um respiradouro de espirito, quando a mão da desventura o
+comprime até lhe abafar a derradeira esperança na terra. A oração não
+tem nada com este mundo. Pedir a justiça do céo para as injustiças da
+terra e renunciar a toda a vingança, é pedir a felicidade de nossos
+inimigos, porque Deus é misericordioso, e não precisa de fulminar o
+poderoso para vingar o fraco. Orar é caír de joelhos, e muitas vezes não
+articular dois sons de uma supplica: é não atinar com a linguagem de
+falar a Deus, porque a sciencia do mal, exclusiva do homem, só inspira
+ao desgraçado expressões para que os homens o compreendam. Aquella mãe
+afflicta, quando orou, orava assim. Seu marido com o peito na frente de
+regimento era o alvo das balas inimigas. Na sua frente um outro coronel,
+escravo das suas convicções, da sua honra talvez, e pae de familia
+tambem, ouvia o zumbir da metralha, como halito da morte a afflar-lhe os
+cabellos. Mas a mãe de Maria pedia por ambos; e, quando a oração assim é
+feita, o espirito de Deus está nos labios do que ora.</p> <span class='pagenum'> 20 </span>
+
+<p>Enxuga as tuas lagrimas, sorve as de teus filhos com teus beijos, mãe e
+esposa, que o pae d'essas creanças, o homem, que traz no coração os
+alentos de que te sustentas no mundo, não ha de a bala ou a espada
+cortar-lhe os vinculos a que prendeste a tua melindrosa existencia.</p>
+
+<p>Não ha de, que teu marido entrou na guerra de irmãos com o coração
+enlutado, como em arena fratricida, e, ao ouvir o som rispido da
+trombeta que mandava morrer matando, muitas vezes eleva ao Senhor o
+espirito atribulado, supplicando-lhe a reconciliação dos portuguezes.</p>
+
+<p>Não ha de, que, nas vesperas angustiosas de uma peleja, teu piedoso
+marido, refugiando-se dos cabos de guerra que tripudiam e blasphemam
+farejando o sangue da carnagem do dia seguinte, ergue as mãos ao Senhor,
+supplicando-lhe que acceite no regaço da sua misericordia, uma viuva
+desvalida, filhinhos desamparados, aos quaes a mão do vencedor não
+extenderá mão esmoler, seja qual fôr o triumphante.</p>
+
+<p>Não ha de, atribulada mãe e esposa, porque as paixões clamorosas dos
+impios não ensurdecem o céo aos rogos de um justo, que lava com lagrimas
+cada gota de sangue de irmãos que lhe salpica a farda.</p>
+
+<p>Expande o teu coração opprimido no seio de Deus, dolorida mãe.</p>
+
+<p>Deixa rugir lá fóra o phrenesi dos odios civis, e acolhe-te, mulher
+cortada de agonias, acolhe-te ao refugio da religião, respira ahi em
+lagrimas a oppressão que os <span class='pagenum'> 21 </span> meigos carinhos de teus filhos não
+podem consolar-te.</p>
+
+<p>Ao mesmo tempo que oras no meio d'elles, o coração de teu esposo comtigo
+se ala para a região serena da paz e bemaventurança eterna. Sois duas
+almas puras que se encontraram na terra, juntas ascendem a Deus na
+oração, juntas hão de compartir as amarguras da pobreza, juntas hão de
+receber a corôa triumphal no dia marcado á recompensa dos que choram na
+terra.</p>
+
+<p>Assim lhe segredava o anjo da resignação alentos que a faziam confiar no
+regresso de seu marido. Rodeada de seus filhos, a esposa do coronel,
+fantasiava com Maria as venturas, que, ainda na pobreza, podem deliciar
+corações enriquecidos pelos dons da amizade. Maria, tão joven e
+innocentinha, compreendia as alegrias de sua mãe, e respondia a ellas
+festejando a volta de seu pae, como se elle viesse já caminhando a
+indemnisar-se dos trabalhos no goso da paz, no amor santo da familia,
+nas donosas alegrias de uma obscuridade feliz.</p>
+
+<p>Mas estas esperanças eram a cada hora desvanecidas pelas más novas que
+vinham do campo da batalha. O sobresalto da pobre mãe era constantemente
+despertado aos trons da artilharia que jogava nas linhas de Lisboa.</p>
+<span class='pagenum'> 22 </span>
+
+
+<h3>VI</h3>
+
+<p>O coronel... (já não era coronel) o homem da honra e da coragem
+amanheceu um dia á porta de sua mulher. Trazia nas faces aquella magreza
+livida que o sopro das batalhas, e o enervamento da fome estampam no
+rosto do vencedor, e do vencido. Vencido era elle. Não trazia espada,
+que a pureza, não aos pés do vencedor, mas sobre a acta de uma
+capitulação, deixára ao bravo a consciencia da sua intrepidez. Nem uma
+lagrima lhe escapou involuntaria dos olhos, quando, exauctorado e
+desvalido, se collocou entre os derradeiros thesouros que lhe restavam:
+sua esposa, e seus cinco filhos. Esses, sim, eram d'elle, eram de seu
+coração como a virtude, emanação de Deus, é quasi sempre o unico
+patrimonio do virtuoso.</p>
+
+<p>E é por isso que não houveram lagrimas, que assombrassem n'aquelles
+labios o jubilo do sorriso. É por isso que paes e filhos caíram de
+joelhos; e, no silencio de seus corações, Deus sabe a acção de graças,
+que lhe subira aos pés de seu throno n'aquellas extaticas elevações de
+alegria reconhecida.</p>
+
+<p>Ao levantarem-se, abraçaram-se, uma e muitas vezes; e quando as palavras
+venceram a suffocação da surpresa, uma só voz, a de todos, exclamou:</p>
+
+<p>«Somos muito felizes! Bemdito seja Deus!»</p> <span class='pagenum'> 23 </span>
+
+
+<h3>VII</h3>
+
+<p>Caír de elevada jerarchia, quando os braços da religião não amparam o
+infeliz na queda, deve ser morrer!</p>
+
+<p>Altearmo'-nos a despeito de muitos, que não podem voejar tanto acima, é
+provocar-lhes a inveja. Olha'-los em baixo, quando nos cospem o fel da
+inveja, deve ser-lhes o maior dos castigos; mas, se d'ahi a mão de Deus
+nos atira ao raso dos invejosos, se a desgraça nos marca, no meio
+d'elles, um circulo onde rodar com o peso de affrontas, que a nossa
+arrogancia enfardára... tal vida é a preexistencia do inferno.</p>
+
+<p>Ha tres remedios para alliviar angustias de tal lance:</p>
+
+<p>A resignação;</p>
+
+<p>O cynismo;</p>
+
+<p>O suicidio.</p>
+
+<p>A resignação não é só o amparo d'aquelle que resvala no precipicio das
+honras d'este mundo; é mais: a resignação não deixa caír o homem, que
+olha sempre, com temor, o despenhadeiro, em que de ao pé de si se
+abysmaram colossos, e ruiram edificios fundados sobre areia. Levantado
+pela Providencia, o homem, que teme a Deus, não se julga, no vertice das
+glorias, posto ahi pela mão do destino. Quem lhe promette o dia de
+ámanhã, vinculado aos acontecimentos de hoje? Quem lhe diz hoje que a
+taça do seu mel ha de ámanhã trasbordar <span class='pagenum'> 24 </span> de lagrimas? Quem
+affiança á aguia, dominadora dos espaços, que, de mais alto, o açor se
+libra para abate'-la nas urzes?</p>
+
+<p>E, quando a nuvem do infortunio escurece aquellas alegrias, que formavam
+o cortejo da nossa riqueza:--quando a sociedade nos retira os
+contentamentos, vendidos pelo ouro, que perdemos... quem é esse destino
+que accusamos? onde existe essa mentirosa fatalidade que nos humilhou?
+onde encontraremos o primeiro acaso, que nos felicitára, e o segundo que
+nos empobrecera? Não ha lagrimas que suavisem as ferocidades da <i>nossa
+sina</i>, nem ameaças que a forcem a desmentir-se? Será obrigatorio o
+punhal ou o veneno, porque <i>estava escripto o meu suicidio</i>!?...</p>
+
+<p>A providencia é a acção da Divindade.</p>
+
+<p>O grande da terra julgára-se grande na terra pela providencia. Era um
+magestoso edificio aos olhos da humanidade, e fragil barro entre as mãos
+de Deus. Quando o sopro da desventura lhe assolou as columnas, o grande,
+só, e proscripto das ovações, <i>em que elle fôra o menos laureado</i>, era
+ainda o grande na desgraça, na esperança, na humildade, na renuncia, e
+na confiança.</p>
+
+<p>Esperava... o tumulo, e antes d'elle um saldo de contas com o mundo,
+onde o rico deixa debitos enormes a solver.</p>
+
+<p>Humilhava-se diante Deus, que o abatera, não como um cego destino, mas
+como um decreto, sanccionado no céo, cumprido na terra, e explicado no
+dia das tremendas <span class='pagenum'> 25 </span> explicações dos mysterios, incompreensiveis
+aqui. Humilhava-se diante dos homens que nunca humilhára; diante
+d'aquelles, que puderam abandona'-lo, mas não escarnece'-lo pelo seu
+passado orgulho.</p>
+
+<p>Renunciára quantas prerogativas o seu ouro lhe dera na sociedade;
+quantas pompas lhe caíam ao encontro na sua estrada de flôres; quantas
+esperanças idealisára, que mais o engrandecessem, na perspectiva do
+mundo, sem adulterar as mercês do Creador.</p>
+
+<p>Confiava na humildade da oração, no pão de cada dia, no repouso
+providencial de cada noite, porque no mundo nenhuma existencia vira
+abandonada, nem a da ave que se levanta com a aurora, e louva ao
+Creador, e vae procurar o alimento, que não deixou de vespera.</p>
+
+
+<h3>VIII</h3>
+
+<p>Não é assim o cynico.</p>
+
+<p>Herdára um thesouro que seus paes lhe prepararam; e preparára elle em
+seu coração todos os elementos para augmenta'-lo.</p>
+
+<p>Que o ouro augmenta, quando é lançado no cadinho da perversidade. E o
+coração, ferido de avareza, é um segundo thesouro para quem herdou o
+primeiro. O mais efficaz instrumento da caridade, o ouro, nas mãos do
+<span class='pagenum'> 26 </span> avaro, converte-se em ferro de dois gumes: um que lhe entra no
+proprio coração, outro no coração que lhe pede o obulo.</p>
+
+<p>É assim o cynico.</p>
+
+<p>Em cada degrau da sua escala de grandeza espirrava o sangue das faces
+que calcava. Entre elle, e um circulo de victimas, que o rodearam,
+fascinadas pelo brilho da sua auréola, erguia-se o anteparo da
+irreligião.</p>
+
+<p>Quem lhe déra o sorriso feroz fôra a impiedade.</p>
+
+<p>Quem lhe alimentara as ancias de cevar-se em gosos, adubados em lagrimas
+e sangue, fôra a impiedade.</p>
+
+<p>Quem lhe segredára os derradeiros segredos do crime, para que o enojo de
+crimes repetidos lhe não esfriasse o amor sordido da vida, fôra a
+impiedade.</p>
+
+<p>Quem lhe disséra que no tumulo para dentro não ha pobres para repellir,
+nem corôas de virgem para desfolhar, nem faces lagrimosas para cuspir,
+nem amigos para vender a inimigos, fôra a impiedade.</p>
+
+
+<h3>IX</h3>
+
+<p>E, depois, a mão de Deus despenhou o cynico.</p>
+
+<p>No tremedal, onde caíra, roeram-n'o os vermes dos cadaveres que elle
+fizera.</p>
+
+<p>E riu-se.</p> <span class='pagenum'> 27 </span>
+
+<p>Cobriram-n'o os improperios, e os sarcasmos de tantos, que elle
+enxovalhára, sacudindo-lhes ás faces a lama das ruas com as rodas do seu
+carro insultuoso.</p>
+
+<p>E riu-se.</p>
+
+<p>Teve que aceitar uma esmola, que, por escarneo lhe lançou ao chapéo um
+d'aquelles que lh'a pedira, em vão, anceado de fome.</p>
+
+<p>E riu-se.</p>
+
+<p>Bateu á porta de seus creados, que medravam nas prodigalidades do amo:
+pediu um bocado de pão, e responderam-lhe de dentro com uma gargalhada.</p>
+
+<p>E riu-se.</p>
+
+<p>Este é o cynico.</p>
+
+<p>E quando lhe aconselharam o suicidio, riu-se, e riu até morrer porque a
+morte de cynico é uma risada na blasphemia.</p>
+
+
+<h3>X</h3>
+
+<p>Lamentae o suicida, porque a sua ultima hora foi uma lucta horrivel
+entre a desesperação, a incerteza, e, talvez a saudade.</p>
+
+<p>Ao ver-se pobre no mundo, considerou-se o homem sem vida social; mas a
+vida physica, onde as frechas do desprezo lhe rasgavam até o coração,
+era-lhe uma algema insoffrivel a maneata'-lo ao poste da vergonha.</p> <span class='pagenum'>
+28 </span>
+
+<p>Feliz pelo destino, ou desgraçado pela fatalidade, o Lucifer, despenhado
+d'este céo da terra, que a impiedade lhe deu, optou pelo tumulo entre
+duas idéas: pobreza e impotencia.</p>
+
+<p>Impotente para vencer a sociedade que lhe não restituia o seu ouro, o
+desesperado, aborrecendo a morte tanto como a vida, crava-se um punhal,
+que nem elle sabe se o vinga dos homens, se o deita no tumulo, se o
+sacrifica á justiça de Deus.</p>
+
+<p>O atheu pensára longas horas antes de erguer-se o patibulo; mas, nos
+seus ultimos instantes, não era philosopho: era um algoz.</p>
+
+<p>A desesperação enervára-lhe o entendimento, e robustecera-lhe o braço.</p>
+
+<p>O cutello, no braço do algoz, não tem nada com o espirito. Um e outro
+são machinas de morte.</p>
+
+
+<h3>XI</h3>
+
+<p>E o coronel ***, e sua esposa, e seus filhinhos eram christãos. E oravam
+na desgraça, e sorriam no infortunio, e esperavam.</p>
+
+<p>Esperança, filha dos céos! eterno cantico dos anjos!... bemdita sejas
+tu.</p> <span class='pagenum'> 29 </span>
+
+
+<h3>XII</h3>
+
+<p>E, quantas vezes, acarinhados pelas brandas lisonjas de uma esperança,
+nos possuimos d'aquelle inoffensivo orgulho de felicidade, e tão perto
+nos persuadimos que ella vem com toda a formosura real de um bello
+sonho? E quando assim nos apressamos ao encontro d'essa linda chimera,
+gerada nas entranhas do infortunio, não será tão triste deparar-se-nos
+uma nova desgraça?</p>
+
+<p>Muito triste. É uma luz que se apaga. Um horisonte que se fecha. Uma
+colheita de lagrimas na seara das esperanças.</p>
+
+<p>E o sorrir da resignação, e o levantar das mãos em fervente amor de
+Deus, é a mais grandiosa attitude na desgraça. O infeliz é então um rei
+no throno das angustias. O manto de retalhos tem a magestade da purpura.
+Ignacio, o mendigo de Monserrate, é maior que o gentil-homem de Loyola.</p>
+
+
+<h3>XIII</h3>
+
+<p>O coronel soffria muito; porque, a par do grupo querido de esposa e
+filhos, nunca de seus olhos se afastava o aspecto da penuria.</p> <span class='pagenum'> 30 </span>
+
+<p>Á escuridade da indigencia não chega a luz do amor: deixar falar os
+poetas.</p>
+
+<p>Ha sentimentos de miseria que os sentimentos da gloria não podem
+eclipsar. A felicidade tem exaltações intermittentes de jubilo. Mas a
+desgraça pensa sempre, fala sempre; vela á cabeceira do infeliz;
+desperta-o com o aguilhão de um sonho mau; desmente-lhe as illusões;
+ri-lhe a cada esperança; embrutece-o; retráe-lhe as expansões do
+espirito.</p>
+
+<p>Onde a desgraça emmudece com a consciencia do penitente, que se levanta
+dos pés do ministro dos perdões, é na presença da cruz.</p>
+
+<p>O coronel orava um dia com sua familia. Maria balbuciava as mesmas
+palavras do pae, e parecia, com os olhos fixos n'elle, tomar-lh'as dos
+labios como um beijo e um segredo de muita felicidade na muita
+desventura.</p>
+
+<p>A sua oração era a dadiva do Christo: era aquella, que pendera dos
+labios divinos do Mestre como orvalho para todos os ardores, como
+balsamo para todas as chagas, como herança de amor para todas as
+gerações de ingratos.</p>
+
+<p>Era esta a sua oração:</p> <br>
+
+<p>«Padre nosso, que estaes no céo, sanctificado seja o vosso nome; venha a
+nós o vosso reino; seja feita a vossa vontade...»</p> <span class='pagenum'> 31 </span>
+
+
+<h3>XIV</h3>
+
+<p>Alguem procurava o coronel. Amigo ou inimigo? O homem da honra nunca se
+nega. O que fôra christão antes de politico, e pedira a Deus a paz de
+seus irmãos, antes de mostrar-lhes, ao sol das batalhas, o lampejo de
+uma espada escrava da obrigação, esse poude ser exauctorado de titulos
+ás grandezas, de direito ao trabalho, de pão, e de liberdade, mas o
+opprobrio não o desanima, nem o envergonha.</p>
+
+<p>A valentia moral não tem capitolios na sociedade immorigerada; mas
+tem-os na consciencia do proprio que a experimenta. Um homem assim,
+decaído do que fôra, apresenta-se altivo de certa soberania que parece
+um triumpho, ultraje dos oppressores.</p>
+
+<p>O coronel, se tivesse a receber as felicitações <i>vendidas</i> á sua patente
+de general, talvez não consentisse que tão depressa fosse aberta a sua
+porta.</p>
+
+<p>Abriram-n'a.</p>
+
+<p>O homem que entrára, sem dar o nome, era uma figura que, sem articular
+palavra, impunha silencio aos que o recebiam. Trajava pobremente.</p>
+
+<p>Quem buscasse um modelo para a estatua da imagem do infortunio,
+acha'-la-ia n'aquelle homem.</p>
+
+<p>E, sorrindo, offerecia a mão ao coronel, que viera, chamado por sua
+esposa, a contempla'-lo rodeado dos <span class='pagenum'> 32 </span> filhos, que pareciam
+perguntar-lhe quem era o extranho hospede.</p>
+
+<p>Aquelle silencio, precursor de lagrimas, não podia conter muitos minutos
+corações anciosos.</p>
+
+<p>--«Quem é o senhor?» perguntou o coronel.</p>
+
+<p>--Quem sou eu?! respondeu o desconhecido.--Trinta annos de clausura, e
+alguns mezes de trabalhos desfiguram a face de um irmão!...</p>
+
+<p>O coronel correra aos braços do hospede. Maria, organisação melindrosa,
+que presentia já os calefrios de um enthusiasmo juvenil, estremecia
+d'aquelle tremor nervoso, em que as lagrimas da alegria denunciam alma
+vehemente, apaixonada por tudo que é grandioso. Sua mãe tomava a mão de
+seu cunhado entre as suas, que pareciam erguidas em graças ao Altissimo.
+As outras creanças volteavam alegres em redor do grupo, e figuravam
+outros tantos anjos a solennisarem aquella festa na tristeza, e aquelle
+jubiloso alvoroço do sangue, quando o espirito se confrangia na dôr.</p>
+
+
+<h3>XV</h3>
+
+<p>Fr. Antonio dos Anjos fôra um oraculo de sciencia, e um exemplo de
+santidade no seu mosteiro. Filho de paes opulentos, de virtudes, herança
+de avós corajosos <span class='pagenum'> 33 </span> de braço e espirito, o seu patrimonio de
+resignação não pudera a politica espoliadora apregoa'-lo na praça.
+Affeito a encaminhar, com mão segura, pelas margens do abysmo, os que a
+dôr extraviára, o monge amparava-se na altura da dignidade de martyr. No
+centro d'aquella familia, quem mais paz e alegria soboreava no coração
+era elle. Elle, sim, que trinta annos havia, despira as galas do mundo,
+e envergára o habito que desfigura as fórmas do corpo, e as feições da
+alma. Elle, sim, que trinta annos vivera pobre d'aquelle ouro que
+afervora a adoração das multidões; e, então expulso da sua enxerga, e do
+seu refeitorio, não geme a falta de um ouro, que nunca possuira.</p>
+
+
+<h3>XVI</h3>
+
+<p>--«Quereis a historia dos meus trabalhos, não é verdade?» perguntava o
+monge, com sua sobrinha Maria sentada nos joelhos, e com dois dos outros
+abraçados.</p>
+
+<p>--«Sim, sim, queremos» respondeu Maria com extranha vivacidade.</p>
+
+<p>--«Não--replicou o coronel--não recordes penas que te não alliviam o
+receio de outras maiores...»</p>
+
+<p>--«Não é assim...--tornou Frei Antonio--As afflicções, que se recordam
+com serenidade, parecem zombar das afflicções por vir...»</p> <span class='pagenum'> 34 </span>
+
+<p>--«Conte, conte... meu tio» instou Maria com muita doçura, dando á voz a
+terna inflexão de uma supplica.</p>
+
+<p>E frei Antonio, alegre como se contára apraziveis lances da fortuna,
+contou assim o transito doloroso dos ultimos mezes da sua vida:</p>
+
+<p>«Viver trinta annos, vendo todos os dias o leito onde se espera morrer,
+e a sepultura onde o repouso do corpo continuará, foi a minha vida do
+mosteiro. Ao lado d'esse leito, e d'essa sepultura, vigia quasi sempre o
+espirito, porque na terra nem ao justo é permittida completa
+tranquillidade. Vigiar, é entregar ao espirito a guarda do coração; é
+pôr os olhos em Deus, alonga'-los ao mundo da esperança, enxugar-lhes o
+pranto por homens, que o desprezam e o desprezam porque o não
+comprehendem. A vigilia de um monge, tem, ás vezes, dôres, que ninguem
+póde imagina'-las, sem sentir-se abrasado do santo interesse da
+humanidade, que se espedaça.</p>
+
+<p>«Não me viste saír da casa do nosso pae, meu irmão!... Eras creancinha,
+e do colo de nossa mãe me deste um beijo, que me fez chorar, porque era
+o ultimo, que me davas com labios de innocencia. Nunca mais te vi; mas
+essas lagrimas, que te vejo agora, são as do meu irmão... é impossivel
+que o não sejam. Sabias tu que eu existia?»</p>
+
+<p>--«Sabia, mas ha doze annos que não tive novas tuas» respondeu o
+coronel.</p>
+
+<p>--«Ha doze annos... é verdade... Ha doze annos que frei Antonio dos
+Anjos descera a um tumulo... O <span class='pagenum'> 35 </span> espirito vivia... mas o espirito
+do penitente, vinculado pela expiação á imagem do seu crime, quebra os
+vinculos do sangue, se os tem no mundo.</p>
+
+<p>A voz do padre balbuciava estas ultimas palavras, cortadas de pausas,
+que traíam a sua serenidade contrafeita.</p>
+
+<p>Seguiram-se o silencio, e a anciedade.</p>
+
+<p>Frei Antonio, á custa de um grande sacrificio, e de uma penosa
+recordação, explicou a seu irmão o extranho silencio de doze annos.</p>
+
+<p>Doze annos tinham sido o prazo em que as noites eram veladas pelo
+remorso do homem, que tentára uma vez quebrar a alliança que fizera com
+a renuncia de todos os gosos terrenos. Doze annos de purificação para
+quem se manchara, um minuto, na rebeldia aos estatutos da sua ordem,
+fôra um grande prazo, uma longa expiação, um zelo suicida, talvez!</p>
+
+<p>É que os homens não o comprehendem. Doze annos de crimes, e um momento
+de remorso... isso sim, que, se não em todos os criminosos, em alguns
+pelo menos, é verosimil e explicavel.</p>
+
+<p>Esses prodigios explica-os facilmente a philosophia materialista: não é
+o remorso, nem os gemidos do bem torturado pelo mal, nem o temor de
+Deus: é a organisação com seus mysterios. Mysterios na escola da
+materia, onde a natureza, positiva e carnal, é tudo! Como é que da seiva
+do erro se nutrem viçosas as vergonteas da verdade? As luzes faiscam do
+seio das trevas. Ha máximas preciosas que brilham ao clarão dos
+incendios philosophicos.</p> <span class='pagenum'> 36 </span>
+
+
+<h3>XVII</h3>
+
+<p>Frei Antonio continuou:</p>
+
+<p>«Entro pobre em tua casa, meu irmão; porém a desgraça é uma riqueza,
+quando com ella suavisamos desgraças alheias. Contando-te as minhas
+amarguras não adoçarei as tuas?</p>
+
+<p>--«Deus--respondeu o coronel--suavisou-m'as antes de ti, meu irmão.»</p>
+
+<p>--Bemdito seja Deus!--tornou o padre--era essa a resposta que eu pediria
+a Deus que te inspirasse!... pois bem... seja a minha historia um
+passatempo... Peregrinareis comigo n'estes infernos da terra que os
+homens crearam. Aqui me tendes com a tunica, e com esparto de Dante...
+Serei para vós o que foi o poeta para a humanidade... recrear-vos-hei...»</p>
+
+<p>O frade afastára as bandas do capote, e deixára vêr o habito de S.
+Francisco. A magestade da sua postura excitára um calefrio respeitoso em
+todos, e elle mesmo, tocado pela consciencia do effeito religioso
+d'aquelle acto, não susteve a lagrima do enthusiasmo, que é sempre
+revelação de espiritos ardentes. Maria, alma tão cedo estreada na poesia
+da dôr, cedo principiára a enlevar-se n'aquelles transportes, que a
+tragedia excita em pessoas que vêem o theatro pelos olhos da innocencia,
+e não <span class='pagenum'> 37 </span> podem desmentir o que vêem pelos calculos frios da razão.
+Maria, pois, impressionára-se mais que seu pae e sua mãe da attitude
+pathetica de seu tio. Mais tarde confessou ella que sentira
+dobrarem-se-lhe os joelhos, e de certo ajoelhára, se frei Antonio lhe
+não tomasse as mãosinhas que pareciam ajustarem-se em adoração extatica.</p>
+
+<p>Esta scena fôra muda. O silencio é o desafogo das grandes emoções, que
+nos abafam o espirito, enturvando-nos a razão. Parece que a consciencia
+precisa digerir esses alimentos extraordinarios, que são a vida energica
+das almas flexiveis.</p>
+
+
+<h3>XVIII</h3>
+
+<p>Proseguiu o frade:</p>
+
+<p>«Quando, ha quatro mezes, os religiosos de *** viram approximar-se a
+hora de entregar as suas cellas á revolução, ajuntaram-se para
+deliberarem sobre a sua vida, como homens que d'ahi a pouco não tinham
+posição alguma no mundo, que lhes valesse um bocado de pão. Alguns eram
+de casas remediadas, outros irmãos de fidalgos, sacrificados ao partido
+que lhes assegurava os seus privilegios; mas nenhum contava com asilo
+seguro no tecto paternal, porque o temor da perseguição fazia-nos pensar
+que eramos homens expulsos da familia, <span class='pagenum'> 38 </span> e da sociedade.
+Entregámo-nos a Deus. E, depois, no meio de nós estavam uns homens
+cobertos com o nosso habito, vivendo comnosco ha muitos annos,
+ajoelhando comnosco ao mesmo crucifixo, e comendo comnosco no mesmo
+refeitorio. Eram os nossos maiores inimigos. Velavam-nos desde matinas a
+completas; desde a oração commum do côro até ao ultimo padre nosso
+rezado no isolamento da cella. Eram como os pretorianos de Nero
+syndicando os actos religiosos dos agapes de Christo. Chamavam-se
+liberaes, illustrados e amigos dos homens. De Deus sabia eu que elles o
+não eram. Dos homens, cruel amizade era a sua, que precisava enfeitar o
+seu altar com o sangue dos seus companheiros!</p>
+
+<p>«Nos ultimos mezes da nossa communidade... deixae-me dizer-vos uma
+prophecia amarga: nos ultimos mezes das ordens religiosas em Portugal,
+apresentaram-se aquelles padres ao prelado, e pediram a sua liberdade.
+Prevenindo alguma ligeira censura, em nome da regra do patriarcha,
+lembraram ao guardião que o punhal era a arma do homem livre, quando os
+algozes da humanidade não accediam aos augustos preceitos da razão
+natural.</p>
+
+<p>«O prelado era um justo, que chegára aos oitenta annos, com os cilicios
+nos rins, vergando sob o peso de austeridade, alliviando quanto podia
+esse gravame dos hombros menos rijos dos seus subordinados. A morte,
+porém, era-lhe menos afflictiva que o pesar de uma tibieza de
+disciplina. A sua resposta foi simples:</p> <span class='pagenum'> 39 </span>
+
+<p>«Deixemos vir a mão da liberdade bater á porta do mosteiro e seremos
+todos livres então. Uns, livres para morrer no desamparo. Outros, livres
+para viver de vergonha. Todos seremos livres. Em quanto a vós, meus
+irmãos, pedirei aos servos de Deus n'esta casa que peçam ao Senhor para
+vós as consolações e a prudencia que não posso dar-vos. Retirae-vos, que
+sou chamado ao côro.»</p>
+
+<p>«Retiraram-se; mas, dois dias depois, ao amanhecer, foi aberta por
+violencia a portaria. Alguns homens d'alli sahiram vestidos, e armados
+como guerrilheiros. O padre porteiro, que subira á cella do prelado a
+annunciar-lhe o acontecimento, encontrou um cadaver. Ao passar-lhe a mão
+pela face topou um crucifixo inclinado sobre o seio. Ao agita'-lo,
+humedeceu as mãos no sangue que borrifára os lençoes. Gritou. Acudiram
+os monges. Em volta do seu leito ajoelharam homens que choravam. Não
+tinham outra supplica, nem balbuciavam uma palavra. Um justo estava ali
+morto: mataram-n'o seus irmãos, em nome de uma liberdade, que não
+consentiu ao venerando ancião a liberdade de viver mais alguns dias.</p>
+
+<p>--Era preciso matarem-no para fugirem?--perguntou Maria com os olhos
+turvos de lagrimas.</p>
+
+<p>--Não seria preciso, minha filha, mas as chaves do mosteiro são
+entregues ao prelado: mataram-n'o, tirando-lh'as.</p>
+
+<p>--Mas o crucifixo,--replicou ella quem lh'o poria sobre a face?</p> <span class='pagenum'> 40 </span>
+
+<p>--Foi o moribundo a quem os assassinos deixaram tempo de pedir a Deus o
+perdão dos seus matadores.</p>
+
+<p>--Que acontecimento tão triste, minha mãe!--exclamou assombrada a
+menina, tomando entre as suas as mãos de sua mãe. E continuou: Eu não
+pensei que os homens podiam fazer isso!... Quem me déra o céo para meus
+paes e meus irmãos!</p>
+
+<p>--E para o tio padre, não, meu anjinho?</p>
+
+<p>--Meu tio tem certo o céo, porque tem soffrido muito, não é verdade?</p>
+
+<p>--Muito, minha menina; mas não é já bastante o que tenho soffrido?</p>
+
+<p>--Penso que sim... Eu não sei ainda a sua vida, mas lembra-me que meu
+tio póde fazer que os homens sejam bons, dizendo-lhes historias que os
+façam ter dó dos que soffrem.</p>
+
+<p>Olharam-se todos com admiração. É que Maria contava sete annos de edade;
+e alguns mezes de soffrimento. Predestinação!?...</p>
+
+
+<h3>XIX</h3>
+
+<p>«Ao anoitecer de um dia passado em orações e suffragios por alma do
+nosso chorado prelado--continuou frei Antonio--ouviram-se tiros ao longe
+do mosteiro. <span class='pagenum'> 41 </span> Eramos quarenta e tantos os monges assombrados
+pelo terror não sei se da morte, se das injustiças da humanidade a quem
+não offenderamos. A egreja, escura e silenciosa, afigurava-se-me um
+grande tumulo, e um doce repouso. Ajoelhei. Ajoelharam todos. E
+lembra-me com emoção o fervor d'aquellas preces murmuradas como a
+derradeira supplica do que vae apparecer na presença de Deus. Os tiros
+avisinhavam-se, e o alarido, ao principio confuso, era já perto um grito
+distincto: <i>morram os frades! abaixo os ladrões!</i></p>
+
+<p>«Eram 23 de Outubro de 1833. Que noite aquella, santo Deus!...</p>
+
+<p>«As balas ouviamo'-las zumbir, e bater na parede da egreja, e nas
+vidraças do zimborio. Todos os servos empregados na casa vieram
+ajuntar-se ás nossas orações, acobertando-se com a protecção dos
+ministros de Deus, como debeis mulheres, em semelhante lance, buscando o
+invalido apoio de seus maridos. Nós não podiamos nada, quando á
+debilidade de nossas forças moraes ajuntavamos a resignação, o abandono
+de nossas vidas aos decretos da Providencia. Os paroxismos tinham sido
+longos e trabalhosos. Uma hora de preparação para receber a morte, que
+sentiamos avisinhar-se com a vozeria, e com os tiros, devera
+quebrantar-nos o espirito, aniquilando-nos lentamente a esperança.»</p>
+
+<p>--E não tinham esperança nenhuma? Deus não podia salva'-los ainda?
+perguntou Maria.</p>
+
+<p>--Nós, minha filha, não pediamos a Deus a vida: pediamos-lhe a salvação,
+a vida da alma. A morte não nos <span class='pagenum'> 42 </span> atormentava: poderia a natureza
+estremecer em nós com o terror do ferro, que no'-la daria; mas o Eterno
+manda que o espirito proteja as fraquezas da materia. É muito grande a
+providencia do Altissimo! Quando a morte se nos apresenta como um
+decreto irresistivel, sentimo-nos tanto mais longe da terra, tanto mais
+perto da eternidade, quanto a esperança da vida nos foge, e o frio da
+morte se chega. O que seria a morte do impio, apegada á vida, se não
+fosse esta resignação providencial, este esquecimento proprio, este
+mortal entorpecimento do corpo, antes que o espirito se deprenda das
+algemas, que parecem aperta'-lo mais na hora final?... Maria, tu
+entendeste-me?</p>
+
+<p>--Penso que sim, meu tio. Deus quiz que a morte lhe parecesse um bem, em
+comparação do mal que estava soffrendo: não é assim?</p>
+
+<p>--Sim, meu anjo. Deixa-me beijar-te que és uma boa parte da indemnisação
+que a misericordia divina me dá pelos meus padecimentos.</p>
+
+
+<h3>XX</h3>
+
+<p>«O mosteiro estava cercado de povo, attraído alli por um homem, que,
+depois de conspurcar uma patente no exercito realista, e avexar com
+despotismos os constitucionaes, viera buscar refugio entre nós.--Algumas
+balas <span class='pagenum'> 43 </span> bateram contra a porta principal da egreja mas não
+puderam vara'-la. Outras vinham, através das frestas, encravar-se nos
+altares. Uma, batendo na lampada do SS. Sacramento, apagou-a, espargindo
+os estilhaços de vidro sobre nossas cabeças. Não se ouvia uma exclamação
+de dentro, nem um ai afflictivo dos que alli rezavam ajoelhados, quando
+um de entre nós proferiu em voz alta o acto de contricção. Então, sim,
+as lagrimas rebentaram de todos os olhos: o espirito resurgiu da
+prostração em que caíra, e as vozes harmonisaram n'um murmurio profundo,
+arrebatado e magestoso como um <i>de profundis</i>.</p>
+
+<p>«Os gritos de fóra eram ameaças de morte, sem excepção de pessoa, senão
+abrissem a portaria. Nenhum de nós abandonou a sua humilde postura de
+martyr. Sentimos que se arvoravam escadas ás janellas lateraes do
+templo: ouvimos um machado, cem machados lascando as portas. O echo das
+pancadas reboando pelas naves tinha em si um não sei que de terrivel,
+que fazia arripiar os cabellos e gelar o coração!</p>
+
+<p>«Rasgada uma fenda na porta, entraram alguns poucos que franquearam as
+portas á chusma de povo.</p>
+
+<p>«Era noite alta. Não se via ahi um homem grave sobre quem pesasse a
+responsabilidade d'esta sacrilega violencia. O relogio do mosteiro dera
+onze horas, e nunca tão melancholico me pareceu o som d'aquelle bronze,
+que, havia quinhentos annos, chamava as turbas á oração, e n'aquelle
+instante, assignalava a hora da carnificina dos ministros de Jesus
+Christo. O tropel d'aquella <span class='pagenum'> 44 </span> gente denunciava uma multidão
+grande. Sentimo'-los approximarem-se amotinados, gritando, uivando,
+rugindo, como tigres que partiram as grades da jaula, como possessos que
+deliram na sede febril de sangue. E, topando-nos de joelhos, virados
+para Deus, e quietos como phantasmas immoveis, pararam. Reinou um
+silencio de minutos. O anjo bom d'aquelles homens calou-lhes por
+momentos o grito sanguinario. O pensamento do bem, a idéa de Deus
+passou-lhes pelo coração instantanea e fugitiva como a restia do sol por
+entre as nuvens torvas da tempestade. Os instrumentos do mal não podiam
+renunciar a sua missão. Cada um de nós sentiu a mão de um inimigo
+arranca'-lo com violencia á sua immobilidade. Um grito deu alento a
+todos os gritos. <i>Morram!</i> era o mais distincto, era o bramido
+sinistramente harmonioso de muitas vozes. Senti algumas cronhadas d'arma
+acurvarem-me a cabeça para as lageas do altar, salpicado do sangue que
+me resaltára do nariz e da boca. Dos meus companheiros ouvi alguns
+gritos que me pareceram de estertor; e senti que alguns vinham
+arrastados.</p>
+
+<p>«Não pude presencear as agonias de meus irmãos mixturadas com as minhas.
+Uma bayonetada, varando-me uma perna, fez-me perder os sentidos, e cahir
+com a cabeça no degrau do altar de Nossa Senhora, onde despertei
+depois.»</p> <span class='pagenum'> 45 </span>
+
+
+<h3>XXI</h3>
+
+<p>--No altar de Nossa Senhora... no altar de minha madrinha!... exclamou
+Maria, com a face coberta de lagrimas.--E, depois, meu tio--continuou
+ella--que lhe succedeu, quando tornou a si? Não lhe fizeram mais algum
+mal?</p>
+
+<p>«Os flagellos não tinham ainda principiado, minha querida menina. Tu
+verás que a dôr de um golpe, não punge tanto como o escarneo de uma
+affronta moral. Quando recobrei o sentimento, pedi a Deus que me
+fechasse os olhos, e logo em seguida lhe pedi perdão da minha supplica.
+Compreendi nos meus padecimentos a expiação dos crimes da humanidade e a
+redempção dos meus peccados. Fui ahi trazido a pontapés, quando o sangue
+me escorrria da ferida. Fizeram-me, e aos meus companheiros, servir
+canecas de vinho áquella gente, que se movia em ondas pelos dormitorios,
+bramindo na embriaguez do seu odio. Quando a custo me pude desviar do
+tumulto, comprimi com o meu lenço a ferida, e esperei ensejo de poder
+fugir para morrer em paz debaixo de algum tecto piedoso. Não pude. Ao
+amanhecer fomos levados á casa do noviciado, e fechados á chave com
+vigias á porta, para não tentarmos o arrombamento.</p> <span class='pagenum'> 46 </span>
+
+<p>«Olhavamo-nos com uma especie de idiotismo doloroso. Não sabiamos
+palavras de consolação, porque a amargura era extrema em todos. Em
+tamanha afflicção tinhamos só a linguagem da afflicção: oravamos. E nem
+um só reclinou a cabeça no chão para adormecer a agonia. Parece que o
+travo da morte, assim demorada, adoçára o coração de tantos infelizes.
+Nunca eu senti em mim tão santa, tão divina a influencia do temor de
+Deus. Esperava amanhecer na eternidade, á luz da justiça eterna, e da
+misericordia do Summo-Bem. A oração pelos meus inimigos era de um sabor
+indizivel, de um allivio intimo, que tanto mais se prende á creatura
+quanto ella se resigna nas tribulações! Bemdito seja nosso Senhor Jesus
+Christo, que por cada afflicto reparte uma faisca d'aquelle incendio de
+caridade em que expirára na cruz, pedindo a seu Pae o perdão para seus
+matadores!»</p>
+
+<p>Frei Antonio não pudera, se quizesse, represar as lagrimas. A sua
+familia chorava, porque a voz convulsa, soturna, e sombria do padre,
+entrava no coração dos ouvintes, como as ultimas palavras do sacerdote
+no espirito do christão agonisante.</p>
+
+<p>«O sol--proseguiu o padre--coava pelas frestas do noviciado uma restia
+pallida, que illuminava um crucifixo, esquecido pela populaça. Se cada
+um de nós fosse particularmente consultado em seu coração, no momento em
+que aquelle raio do sol nos allumiou, dissera a devoção fervente com que
+saudou a luz do céo, irradiando-se na effigie augusta do Creador do céo
+e da terra.</p> <span class='pagenum'> 47 </span>
+
+<p>«Decorreu uma hora, sem que o silencio nos fosse quebrado por alguma
+voz. Julgámos abandonado o mosteiro como cidade viuva de seus filhos e
+espoliada das suas alfaias. Um de nós foi á porta escutar, e desmentiu
+as nossas conjecturas. Junto á porta resonavam profundamente as nossas
+guardas.</p>
+
+<p>«Soaram nove horas, quando os primeiros echos reboaram pelos
+dormitorios. Como atalaias nocturnas, os brados reproduziram-se,
+reforçaram e subiram ao alarido compacto com que principiaram. Os
+vituperios vinham, como ondas sobrepostas, bater á porta do nosso
+carcere.</p>
+
+<p>«A porta foi de improviso aberta. Mandaram-nos enfileirar. Cercaram-nos
+como a animaes extranhos, que movem a curiosidade. Emquanto eramos
+insultados por palavras de um outro menos soffrido e mais ultrajador,
+cuspiam-nos na face, e arrancavam-nos os cabellos. As mulheres, com as
+faces rubras do vinho, e com as linguas afiadas no sarcasmo villão e
+truanesco do seu officio, soltavam-nos aos ouvidos risadas ferozes,
+mixturadas com empuxões que nos davam ao capello, e aos cordões do
+habito. Esta situação penosa e indizivel durou meia hora.</p>
+
+<p>«Mandaram-nos saír, escoltados, e fazer alto no pateo do mosteiro. Ahi
+lançaram ao primeiro uma corda ao pescoço, que vinha encadeando um por
+um até ao derradeiro monge. Depois mandaram-nos curvar o pescoço tanto
+quanto fosse preciso para assentar uma albarda. Penduraram-nos algumas
+campainhas ao pescoço, e mandaram-nos andar.</p> <span class='pagenum'> 48 </span>
+
+<p>«Caminhámos uma legua, e fizeram-nos parar para reconhecermos um cadaver
+que se dizia pertencer ao brigadeiro realista Pessoa. Era effectivamente
+o seu. Dias antes estivera elle em nossa casa, já de retirada para a
+sua, visto que as forças sitiantes do Porto começavam a dispersar.
+Pedimos-lhe que se acautelasse porque os seus maus feitos tinham
+excitado o odio, e a vingança. Respondeu-nos, que tinha um
+salvo-conducto na sua honra, e na sua consciencia pura. A sua
+consciencia não devia estar tranquilla... Este mau homem fôra morto
+n'uma ribanceira pedregosa que nos ficava ao lado esquerdo da estrada.</p>
+
+<p>«Caminhámos outra legua, e fomos mettidos n'uma cadeia, onde mal nos
+podiamos mexer. As prisões do pescoço affligiam-nos muito; e a sentença
+de morte fôra-nos lida quando entrámos, no caso de quebrarmos a
+«arreata» como elles nos disseram.</p>
+
+<p>«Não vos posso contar com miudeza que tormentos provámos durante vinte
+dias que ahi vivemos. O frio, a fome, a insomnia, a falta de respiração,
+todas as privações que pode soffrer um homem, bemdito seja Deus,
+complicaram-se ahi... Que padecimentos! A piedade tremia de
+approximar-se do nosso infortunio. Homens bem trajados apiedavam-se; mas
+temiam o povo esfarrapado. Algum boccado de pão vinha através de
+difficuldades, e no ardor da sede as lagrimas serviam-nos de refrigerio
+aos labios queimados da febre.</p>
+
+<p>No fim de vinte dias foi-nos dada a liberdade, sob a condição de não
+caminharmos para o sul. A infracção <span class='pagenum'> 49 </span> d'esta lei implicava pena
+de morte. Pensavam que viriamos procurar o exercito do sr. D. Miguel. A
+condição era escusada para mim. Ministro de Deus, jurado á caridade e ás
+humilhações, o meu braço, consagrado á elevação da hostia, não
+levantaria o ferro contra homens, ou barbaros, ou portuguezes. Eu
+maldigo em nome de Deus os meus irmãos que borrifaram de sangue a tunica
+legada pelos apostolos. A arma do sacerdote é o coração votado a
+abrandar a justiça do Altissimo, que faz dos homens o instrumento de sua
+vingança contra homens. Se me chamassem ao mais perigoso de um combate
+para acalmar, em nome de Deus e da caridade, as iras sanguinarias dos
+partidos, eu cruzaria as balas, e as baionetas travadas, corajoso, como
+um filho da patria, e um sacerdote de Christo. Viria, meu irmão, viria
+ajoelhar-me na frente do teu regimento, e pedir-te em nome da tua esposa
+e de teus filhos, que me deixasses fallar ao rei antes que mandasse voar
+a morte das espingardas dos teus soldados.<a href="#nota1"><sup>[1]</sup></a></p> <span class='pagenum'> 50 </span>
+
+<p>Estás anciosa pela continuação da historia, minha menina? Olhas tanto
+para mim!... Tens entristecido com as desventuras do teu pobre tio?</p>
+
+<p>--E tenho chorado... o tio não vê?</p>
+
+<p>--Vejo, vejo, menina. E sabias que no mundo havia homens que fizessem
+assim padecer outros de quem não receberam alguma offensa?</p>
+
+<p>--Pensei que não... Meu pae, e minha mãe, e meus irmãos são todos tão
+bons, tão meus amigos, tão dados uns com os outros... e eu não conhecia
+mais ninguem. E como é possivel ser-se assim tão cruel, diga-me, meu
+tio?</p>
+
+<p>--Digo... direi, minha filha... mais tarde... Queres agora o fim da
+minha triste peregrinação até á casa de teus paes?</p>
+
+<p>--A tua casa, meu irmão--atalhou o coronel.</p>
+
+<p>--Sim, sim, a sua casa, meu caro irmão--disse a esposa do coronel.</p>
+
+<p>--Pois não somos nós todos a mesma familia?!--perguntou Maria com um
+sorriso de candida alegria e admiração.</p> <span class='pagenum'> 51 </span>
+
+<p>--Graças vos sejam dadas, meu Deus!---exclamou o padre.</p>
+
+<div class="footnote"> <p><a name="nota1">[1]</a> Se Fr. Antonio ampliasse um pouco mais estas suas reflexões muito
+judiciosas, invectivaria os frades que, fóra das linhas de Lisboa,
+despejavam fogo para os de dentro com uma coragem e disciplina digna de
+granadeiros da guarda imperial. Alguns d'esses estavam ahi provando pela
+pratica as theorias vociferadas do pulpito, desde 1828 até 1832. Não foi
+mais do que lançar um correame sobre o habito, e substituir ao som da
+palavra incendiaria o som do arcabuz homicida. Se não receássemos
+desnaturalisar o romance pondo na bocca de frei Antonio censuras
+inverosimeis aos da sua politica, se é que elle tinha alguma além da do
+Evangelho, seria elle o que nos poupasse o trabalho d'esta nota para que
+se não diga que o auctor acoberta um pensamento hostil á liberdade,
+afeiando o quadro inevitavel, no conflicto d'ella com o despotismo em
+paroxismo. A leitores de má fé respondemos com a boa fé de imaginarmos,
+antes de começar o romance, que os não teriamos...</p> </div>
+
+
+<h3>XXII</h3>
+
+<p>«Eramos vinte e dois homens abandonados á Providencia, sós com a nossa
+desgraça, sem futuro e sem esperanças de alcançar um bocadinho de pão
+mendigado. Eis a nossa situação. Era forçoso separarmo-nos. Companheiros
+de noviciado, quasi amigos de infancia, condiscipulos, presos ao céo e
+ao sacrificio por um laço commum, affeitos a harmonisar as nossas vozes
+em acção de graças, a dobrar os joelhos no mesmo chão, a comermos á
+mesma mesa, a soffrermos ao mesmo tempo os flagellos que attrairamos
+sobre nós, porque em todas as nossas frontes fôra escripto o caracter
+indelevel de nossa humildade... Eu não tento dizer-vos como foi amargo,
+como foi chorado aquelle adeus... <i>para sempre!</i> «Antes o martyrio, e
+que nos apartem!» exclamava um em quanto outro, debulhado em lagrimas
+nos braços de seus compaheiros, pedia um tumulo para todos nós! Foi um
+lance cheio d'aquella nobre dôr, que tanto honra o coração humano. O
+supplicio da separação d'aquella pequena sociedade cujos membros, não
+cançados, não egoistas, amavam-se como virgens na esphera innocente dos
+seus amores de collegio... podereis vós comprehende'-lo, meus amigos?
+Não! Deus <span class='pagenum'> 52 </span> quer que não! É sentir-se a morte, que parece deixar
+no coração um alento de vida para o tormento da saudade; mas aniquila
+todas as alegrias, todas as esperanças... que são a vida na terra.</p>
+
+<p>«E separámo-nos!... que irresistivel imperio tem a desgraça, meus
+filhos! Recuavamos a cada passo para um novo adeus, para um novo gemido,
+convulso, apertado na garganta, como se a dôr nos fosse prohibida. Este
+doloroso trance demorou-se muito. Alguem, condoído de nós, avisou-nos
+dos rumores que corriam a nosso respeito na villa proxima. Dizia-se que
+tencionavamos, reunidos, caminhar para onde nos fosse possivel pegar em
+armas. A calumnia podia tudo então. O odio foi fertil em pretextos...
+Ora o amor da vida fez calar o grito da saudade. Demos o ultimo Adeus. O
+ultimo... foi o ultimo, meu Deus!... Diz-me o coração que sim.</p>
+
+<p>«Entrei n'uma aldeia, onde fôra prégar um anno antes. Pedi gasalhado na
+casa de um lavrador. Foi-me negado. Não instei. Fui á porta de um
+jornaleiro: achei-a franca. Era assim o seu coração, porque o pobre, sem
+vergonha nem pesar de o ser, tem uma alma cheia de bondade. Pedi-lhe
+umas palhas: deu-me a sua cama, a sua manta e o seu lençol de estopa.
+Não lhe pedi mais nada: mas o pobre deu-me o seu caldo, o seu pão
+amassado em suor, e o seu apresigo, producto das economias da semana
+para solemnisar o dia do descanço. E adormeci abençoando o pão do pobre,
+em quanto elle, sentado ao lar, rezava o seu rosario, ou espertava a
+fogueira <span class='pagenum'> 53 </span> para me ser menos sensivel a pouca roupa da cama; O
+pobre será sempre o eleito, o ente privilegiado para as virtudes
+praticas do evangelho. Jesus Christo adoçou-lhe o travo da penuria,
+dando-lhe ao espirito o antegosto das riquezas que enthesoura no céo.</p>
+
+<p>«Adormeci.</p>
+
+<p>«E alta noite, fui acordado em sobresalto pelo meu hospede. Ouvi tiros.
+«Que é?» perguntei eu. Não sei ao certo, senhor. Ha pedaço que ouço
+estes tiros, e estou com medo... «Que venham ter comnosco?» perguntei
+eu. «Sim, senhor; mas eu vou ver o que é» respondeu o bom homem.</p>
+
+<p>«Eu quiz conte'-lo; mas elle convenceu-me da segurança da sua empresa.
+Quando voltou, disse-me que tinham sido mortos dois frades do meu
+convento em casa de um tal lavrador. Imaginae o meu terror. Quiz saltar
+fóra da cama, trocar o meu habito por alguns farrapos e fugir; mas o
+jornaleiro estorvou-me com boas razões. «A casa de um pobre, disse elle,
+é mais segura.» Não a perseguem as grandes desgraças, porque tambem a
+não procuram as grandes felicidades--disse eu na minha consciencia. Orei
+por alma dos meus infelizes amigos, se o seu martyrio não era expiação
+bastante de suas faltas.</p>
+
+<p>«Amanheceu, e tive mais informações. Dizia-se que dois monges
+desfigurados vieram bater á porta do lavrador que me tinha recusado a
+entrada. A porta fôra-lhes aberta, porque ninguem de casa os conheceu ao
+principio. Recolhidos, foram logo conhecidos; mas era tal o <span class='pagenum'> 54 </span> seu
+contentamento, e a sua linguagem que o lavrador adormeceu descançado com
+os seus dois hospedes, que, por mais de uma vez, declararam com
+arrogancia que já não eram frades. O lavrador não os comprehendeu. Mas,
+alta noite, uma guerrilha forçara a porta, entrára e matára os dois
+desgraçados que tiveram a louca ousadia de resistir com bacamartes,
+depois de malogradas as suas razões. Surprehendeu-me esta noticia!
+parecia-me um conto disparatado!</p>
+
+<p>«O jornaleiro arranjou-me um fato semelhante ao seu. Desfigurei-me.
+Providencia de Deus! No instante em que me vestia, olhei para a ferida
+que recebera na perna, e encontrei-a quasi cicatrizada! É quando o atheu
+o reconheceria o anjo do Senhor, pensando as chagas da alma e do corpo
+áquelles que o confessam!</p>
+
+<p>«Saí. O quinteiro do lavrador estava a trasbordar de povo. Conheci que
+os cadaveres estavam no centro.--Atravessei a multidão, até junto do
+carro onde os mortos estavam... recuei horrorisado! Senti precisão de
+gritar: «justiça de Deus!» mas cedi a um sentimento egualmente grande.
+Do meu peito saíu outro grito: «misericordia, meu Deus!»</p>
+
+<p>«Informei-me. Estes dois infelizes caminhavam para suas casas, com o
+cofre das economias do convento. Eram os assassinos do venerando
+prelado.</p>
+
+<p>«Aquelle sangue escrevera na face de taes homens uma lugubre sentença de
+punição. Quem seriam os instrumentos de vingança? Ignora-se.</p>
+
+<p>«Meus amigos, erguei a Deus as mãos, e os corações. <span class='pagenum'> 55 </span> Oremos
+pelas almas dos meus desgraçados companheiros!»</p>
+
+<p>E oraram de joelhos. Maria tremia como de susto.</p>
+
+
+<h3>XXIII</h3>
+
+<p>Não me demorei tempo algum n'esta aldeia--disse frei Antonio--Pedi ao
+meu pobre bemfeitor que me guardasse o meu habito, e prometti pagar-lhe
+o seu, que elle me deu com lagrimas de contentamento.</p>
+
+<p>«Caminhei incognito, pedindo esmolas. Atravessei dez leguas para o
+norte, e assim assegurava cada vez mais a minha vida, não infringindo a
+condicional de morte, se eu caminhasse para o sul.»</p>
+
+<p>O padre soltou aqui um sorriso de ironia inoffensiva e continuou:</p>
+
+<p>«Achei-me no Valle d'Aguiar, ermo de paz, de tristeza santa. Cercado de
+montanhas pedregosas, a planicie abrange duas leguas, e perde-se na
+pittoresca Villa Pouca d'Aguiar. Tão profundo foi o meu desalento quando
+ahi me vi. Quanto depressa me afiz áquellas varzeas, e áquelle céo que
+parece firmar-se nas cristas das montanhas.</p>
+
+<p>--E como vivias ahi, Antonio? perguntou o coronel.</p>
+
+<p>«Vivia á sopa de um lavrador... Pasmas, meu irmão.</p> <span class='pagenum'> 56 </span>
+
+<p>--Entristece-me de ver a miseria a que póde descer um homem do teu
+nascimento.</p>
+
+<p>«Do meu nascimento! disse o padre, sorrindo--O que é o meu
+nascimento!... Essas jerarchias são filhas da nossa miseria; a desgraça
+não conhece nem o fidalgo nem o jornaleiro... Não me lamentes, meu
+irmão. O homem só reconhece a sua dignidade quando vive pelo trabalho do
+braço ou da intelligencia. Que maior nobreza querias tu que eu tivesse?
+Eu antes queria grangear assim nobremente o meu pão com o meu braço, e o
+coração, cheio de vontade. E pensas tu que a sociedade estaria corrupta
+pela jerarchia, se a ociosidade não estivesse em guerra constante com o
+trabalho? Medita, meu irmão, e verás que este paiz tinha excrescencias,
+que o obrigaram a deitar-se no doloroso leito de Procusto em que o
+ouvimos gemer... e gememos todos.</p>
+
+<p>--Deixemos philosophias. A minha querida sobrinha quer que eu lhe diga
+como vivia...</p>
+
+<p>--Isso já eu sei... era trabalhando...--atalhou Maria.</p>
+
+<p>--Trabalhando, sim, por um salario de jornaleiro, e agradecendo ao
+Altissimo a robustez com que me dotara sentindo-me até com forças para
+poder lançar mão da enxada, e roçar um carro de tojo. <i>Roçar um carro de
+tojo</i> é sentir a gente a cada instante a precisão de arrancar espinhos
+que se cravam nas mãos e nos pés. É ir com as gabelas ás costas
+empasta'-las no carro, arfar de cançado, limpar com a manga de uma
+vestia de borel a face <span class='pagenum'> 57 </span> alagada de suor, carrear outra e outra
+gabela, durante um dia inteiro interrompido por uma hora do dia em que
+se come um caldo de couves, e umas batatas salpicadas de sal. Ajoelhava
+a pedir a Deus coragem, forças e resignação: não lhe pedia melhor pão,
+nem melhor vida. Sabei que o temor de Deus é uma renuncia, que a materia
+do homem faz ao espirito, que é do Creador. A Providencia transfigura o
+infeliz, ao passo que o infortunio lhe vae mudando em dôr as lagrimas.
+E, se não, dizei-me: quem me obrigou a mim a occultar o nome que poderia
+alliviar-me de alguns rudes trabalhos de lavoura? Não poderia eu ser
+mestre de meninos? Não tenho eu o meu caracter de ministro do altar, e a
+minha pobre intelligencia para remediar n'um pulpito o ministerio
+apostolico? Tinha, e vivia em terra que me daria protecção. E, com tudo,
+nunca me escasseou o alento para trabalho mais pesado, nunca me senti
+doente ao levantar-me da minha enxerga, antes de amanhecer, para vigiar
+os fructos, em que me estava garantido pela omnipotencia do Senhor o
+premio do meu trabalho. Os monges primitivos da minha ordem como é que
+viviam? Não cultivavam elles os seus campos, e não cosiam os pannos da
+sua tunica? É que ainda então não viera o privilegio e a classe
+sanctifiar a inercia do corpo em virtude da varia côr dos sangues. Santo
+Deus, como são pasmosos os caprichos que rebaixam a magestade do homem
+trabalhador, alteando ao fastigio do acatamento o ocioso por mercê de
+uma herança!...</p> <span class='pagenum'> 58 </span>
+
+
+<h3>XXIV</h3>
+
+<p>«Finda a guerra, expirava a condição da minha liberdade: caminhar sempre
+para o norte. Comecei a soffrer saudades da minha familia. O coração
+vaticinava-me que vós existieis. E, depois, a vontade era energica, e
+irresistivel. Pareceu-me sobre-humano o estimulo. Despedi-me dos meus
+bemfeitores. Rodearam-me os filhos, e chorámos todos. Traí-me em algumas
+palavras que soltei. Arrebatou-me a poesia d'aquelle adeus. Fitaram-me
+com espanto: queriam pedir-me perdão... «de que, meus filhos?»
+perguntei-lhe eu!... Deus permittiu que eu me desmentisse. Parti.</p>
+
+<p>«Trilhei os passados vestigios da minha jornada. Paguei o vestido que o
+jornaleiro me vendera. Recebi o meu habito: bem o vêdes; mas o capote?
+perguntaes vós. O capote é a esmola de uma missa que devo ás almas do
+Purgatorio. A fome estorvou-me o passo muitas vezes nas sessenta e cinco
+leguas, que nos separavam. Á maneira do homicida, que foge á justiça dos
+homens, perdi-me por atalhos e devezas, que me dobraram o caminho. Os
+ultrajes vexaram-me quando a fimbria do meu habito me denunciava.
+Algumas vezes tive em resposta, pedindo, uma ameaça, uma insolencia, um
+epitheto injurioso.</p> <span class='pagenum'> 59 </span>
+
+<p>«Está fechada a minha Illiada de lagrimas. Deixae-me engrandecer até á
+valentia moral do bravo capitão de Homero. Os cabellos branquearam-se-me
+em tres mezes; mas venci a desgraça, porque nas mãos do Omnipotente fui
+instrumento de fortaleza.</p>
+
+<p>«Meus amigos, não quero que a minha historia descaia em sermão. Eis-me
+comvosco. Somos todos pobres, não é assim?»</p>
+
+<p>--Ninguem é pobre, quando ama, meu irmão--respondeu a esposa do coronel.</p>
+
+<p>--É uma grande verdade, minha irmã--proseguiu o frade--o amor é uma luz
+que não deixa escurecer a vida; é reflectida do astro eterno; irradia-se
+de Deus. E é verdade que me estimaes como vosso? Não vos obrigo á
+resposta. Deus quer indemnisar-me. Estes meninos são os queridos do
+Senhor: falam pelos labios da innocencia: vê-se que me amam, e me
+querem: é assim, Maria?</p>
+
+<p>--Muito, meu querido tio!--E abraçava-o com enthusiasmo e alegria, como
+se quizesse consolar os pezares do venerando velho. E abraçavam-n'o
+todos.</p>
+
+<p>Frei Antonio dos Anjos, com seus sobrinhos nos braços, ajoelhou,
+exclamando:</p>
+
+<p>--Graças vos sejam dadas, meu Deus! Destes o amor em recompensa ao homem
+attribulado! Trouxestes o pobre velho pela mão ao seio da sua familia!
+Provaste-o em todas as amarguras; e não consentiste que o fragil barro
+fosse quebrado.</p> <span class='pagenum'> 61 </span>
+
+
+
+
+<h2>LIVRO II</h2>
+
+
+<h3>I</h3>
+
+<p>Tinha custado muito sangue, esterilmente derramado a solução de um
+problema que, havia muitos seculos a humanidade procurava resolver: a
+miseria. O processo escolhido em cada seculo para o mesmo resultado,
+tinha sido identico: a guerra ao rico, em nome do proletario. A unica
+situação real, que os homens podem consolidar no marulho fervente das
+suas utopias, é conciliar pelo soccorro-mutuo duas idéas que parece
+repellirem-se: a pobreza e a felicidade. Mas esta situação que as
+escolas da philosophia materialista chamavam absurdo, realisa-se pelo
+dogma da Associação que é a traducção da fraternidade, que o
+christianismo afervora: é a felicidade do homem do trabalho sem attentar
+contra o rico. Tão sublime idéa, tão grandes factos teem-se operado
+<span class='pagenum'> 62 </span> n'um grande centro, que, inspirado por Deus, irradia uma luz
+evangelica por todos os homens.</p>
+
+<p>Enlaçar n'um abraço voluntario a pobreza e o contentamento, esposar
+estes dois predicados que luctam rancorosamente no coração da
+humanidade, amiga'-los, move'-los a dulcificarem-se, identifica'-los
+para que o divorcio os não desligue n'um repelão desesperado: tal
+prodigio, um consorcio assim só na pratica do soccorro-mutuo pela
+associação póde operar-se, porque é a genuina traducção do Evangelho que
+Jesus nos deixou recommendado.</p>
+
+<p>O incredulo do christianismo e da associação ao passar na sua carruagem,
+assaltado de cuidados, pela porta do operario, sente-se affrontado pelas
+risadas alegres que lá vão dentro d'aquelle sotão raso com o chão. Tal
+homem não possue o capital que mais felicidade produz. Não sabe que a
+religião e o soccorro mutuo são o incentivo do trabalho. Compreende,
+apenas, que o trabalho é o capital unico do proletario. Julga elle que o
+artifice alquebrado de vigor, no fim do dia, atira com o corpo ás palhas
+do repouso para mentir no somno aos flagellos do dia futuro. Não sabe
+que o amor em todo o tempo, em todas as edades, e em toda a hora do dia,
+é quasi um exclusivo do pobre. Não sabe que o artista é pae, é esposo, é
+christão, e possue um thesouro de affectos que o deixam á beira do
+tumulo para entrarem no seio de Deus, como paga de um emprestimo
+contraído para adoçar as amarguras da terra. Não sabe que o
+soccorro-mutuo derivado do trabalho faz a tranquilidade do homem
+laborioso.</p> <span class='pagenum'> 63 </span>
+
+<p>A familia do coronel... era como a familia do artista. Alli, a pobreza
+tinha sorrisos, a resignação um triumpho, e os desgraçados um exemplo. O
+coronel ensinava primeiras lettras. Fr. Antonio dos Anjos ensinava
+latim. A esposa do coronel com quatro filhos entrançavam cordões para
+dragonas e pennachos. Maria, aos oito annos, copiava musica e fazia
+flores.</p>
+
+<p>--O trabalho! meus filhos, o trabalho!--exclamava padre Antonio,
+extendendo em veneranda postura o braço sobre a mesa, em redor da qual
+uma familia alegremente saboreava um parco jantar.</p>
+
+<p>Estariam elles esquecidos do seu passado? como puderam amoldar-se
+aquelles espiritos ás angustiadas urgencias, ao passadio mesquinho de
+operarios? A soberba da educação não se rebella contra a lei oppressiva
+da necessidade?</p>
+
+<p>Não. O anjo de Deus viera sentar-se no limiar do infeliz, e o demonio do
+orgulho não póde tramar as conspirações do ocio contra a familia
+laboriosa. Frei Antonio era o anjo dos alentos, da resignação, e das
+esperanças. Venturas que elle via no futuro, ninguem as via; mas
+acreditavam-nas todos, porque as suas promessas tinham a unção da
+prophecia. E não era calculando eventualidades politicas, nem thronos
+arruinados, nem batalhas feridas no seio da patria, que frei Antonio
+aventurava promessas. D'onde a inspiração lhe vinha não sabia elle
+dize'-lo; mas o santo homem nunca, se levantava dos pés da cruz, que não
+trouxesse aos seus uma palavra de esperança, um vaticinio mysterioso.</p>
+<span class='pagenum'> 64 </span>
+
+<p>--É o céo que o tio nos promette...--dizia Maria, sorrindo para sua mãe,
+e recortando a folha de um lyrio.</p>
+
+<p>--E que melhor promessa, minha filha?--respondeu a mãe sem levantar os
+olhos do seu trabalho.</p>
+
+<p>--Queres dar a tua lição, menina?--perguntou frei Antonio, anediando os
+cabellos negros de Maria.</p>
+
+<p>--Sim, meu tio, mas sem despegar do trabalho, porque tenho grande
+tarefa. Hoje ha de, permittindo Deus, ficar prompta esta flor; disse-o a
+mãe... senão... o tio bem sabe...</p>
+
+<p>--Senão o que, minha filha?--perguntou a mãe.</p>
+
+<p>--Senão...--tornou Maria sorrindo com graciosa malicia--não merendo.</p>
+
+<p>--O teu sorriso faz-me chorar...--disse a mãe, limpando os olhos, e
+violentamente sorrindo.</p>
+
+<p>--Temos lagrimas? Ora vamos...--atalhou o padre, dando ás palavras um
+tom de risonha ameaça.</p>
+
+<p>--Não, que minha mãe é assim!--tornou Maria.--Não póde mesmo a gente
+fingir que é infeliz! Permitta Deus que todos se julguem tão venturosos
+como eu. Tenho pae que amo tanto, e mãe que mais não posso amar! sou tão
+feliz!... Minha mãe não podia ser tambem assim, se achasse a ventura no
+meu amor?!...</p>
+
+<p>--Ó minha filha... exclamou a mãe.--Obrigas-me a pedir-te perdão...
+Castiga-me Deus pelos labios da innocencia... Sim... eu sou muito
+feliz...</p>
+
+<p>E abraçou-a impetuosamente como impellida por um amor que a
+transportava.</p> <span class='pagenum'> 65 </span>
+
+<p>O coronel viera testemunhar este lance. Parou respeitosamente diante do
+grupo, em que avultava o padre levantando machinalmente as mãos para o
+céo, jubiloso de um sorriso todo alegria, todo luz, que parece
+scintillar no semblante do justo. E o mais é que as lagrimas vieram
+solennisar aquelles extremos de alegria! Choravam ambas, mãe e filha,
+com as almas afinadas pela mesma emoção, pelo mesmo enthusiasmo no amor.</p>
+
+<p>Frei Antonio antevia a nova organisação economica e social que ha de
+corrigir suavemente as velhas imperfeições da sociedade.</p>
+
+<p>--Mãe, filha, e todos nós--dizia o coronel--seremos felizes com as
+vossas inspirações.</p>
+
+<p>--O contrario seria um crime, meu irmão!--respondeu frei Antonio,
+tomando-as ambas, abraçadas ainda, entre os seus braços.</p>
+
+
+<h3>II</h3>
+
+<p>A vida d'esta familia correra assim tres annos. O dia de hoje, empregado
+em grangear a subsistencia do de ámanhã, promettia a mesma
+tranquillidade nos dias successivos. E assim passavam.</p>
+
+<p>Frei Antonio era o mestre de Maria. A educação litteraria, que lhe dava,
+não era simples. Apaixonado pelos seus, e pelo esplendor da sua patria,
+frei Antonio <span class='pagenum'> 66 </span> affeiçoára o espirito de sua sobrinha aos moldes
+graves da poesia portugueza do seculo 16.<sup>o</sup> Fizera-a decorar a historia
+nos cantos das epopêas; afinára-lhe o gosto no arrebatamento d'aquelle
+genio, que deu lições de resignação aos desgraçados. Camões era mais que
+um poema decorado por Maria. A cada verso era interrompida, e o poema
+tornava-se, commentado pela eloquencia do padre, um fecundo manancial de
+moralidade. O sabio não se contentava com o amor exclusivo da sua
+litteratura. Frei Antonio amava alguns livros francezes, e os italianos
+de todos os seculos. Maria aos dez annos conhecia as duas linguas, e
+lia, nas horas vagas desoccupadas da noite, com percepção admiravel. As
+suas lições não interrompiam o trabalho das flôres. Em quanto de entre
+os dedos lhe brotava a rosa, incendiavam-se-lhe as faces, lindas como a
+flôr, pelo calor nervoso com que expunha episodios de historia,
+adaptados á sua intelligencia pelo estylo energico do seu tio. Seus
+irmãos, mais velhos que ella, porfiavam em imita'-la, e sentiam-se
+feridos no amor proprio, quando a viam voar pelo mundo da intelligencia,
+defeso á sua. Maria era um prodigio--dizia o pae:--era forçoso
+reprimi'-la na audacia das suas duvidas sobre motivos religiosos, porque
+frei Antonio com horror á superstição e fanatismo não tolerava senão a
+religião na sua maior pureza. «Maria, tinha uma razão, capaz de
+perder-se por muito energica» accrescentava o mestre.</p>
+
+<p>Maria, aos doze annos, mostrava singular desenvolvimento de compreensão.
+Não se lhe difficultavam as <span class='pagenum'> 67 </span> entidades ideaes da metaphysica, e
+leccionava seus irmãos na arte de pensar, como se ao seu espirito
+descessem do céo revelações das que encaminham a razão direita ao alvo
+das verdades eternas. O juizo, porém, essa faculdade, que não tem ainda
+o nome na sciencia do coração, esfriára-lhe o enthusiasmo, que, dois
+annos antes, lhe acalorava a infantil eloquencia. Havia tristeza na
+amostra do seu talento. Parecia violentar-se quando a estimulavam a
+revelar a sua opinião em objectos de sabedoria. Até não queria ser
+galardoada com applausos, e córava, se a faziam inveja de seus irmãos.
+Pedia que a deixassem no seu officio de florista, dando-se por contente
+do pouco que sabia, pois pouco bastava a uma mulher, que não podia
+repousar a cabeça, e adormecer no seio da sciencia. A formosa artista
+tivera um piano, em que dedilhava os seus primeiros ensaios, quando seus
+paes o venderam. Tomara a peito um peso enorme de trabalho, esperando
+accumular dinheiro que lhe restituisse o seu piano; e conseguiu-o,
+quando o seu nome se fez celebre, n'aquelle genero de enfeites, que a
+moda pagava caros.</p>
+
+<p>Em casa do coronel de ***, até esta epoca, nunca se reuniram a um chá
+pessoas extranhas. Aquellas portas fecharam-se: o habito applaudiu essa
+deliberação forçada pelas circumstancias; e, quando estas mudaram, não
+foi levemente alterada a sabia economia, que tanto concorrera para a
+felicidade d'aquella familia.</p>
+
+<p>Não obstante, o nome de D. Maria dos Prazeres não esquecia nos grandes
+circulos, nos salões do luxo e da <span class='pagenum'> 68 </span> moda. A esse nome estava
+vinculado o prestigio de uma familia illustre, nublada pelas tempestades
+politicas. Pintava-se com traços exagerados, talvez, a transição da
+opulencia para a miseria; faziam-se romances, mais ou menos idealisados
+pelo gosto da epoca; contavam-se assombros de um genio que o infortunio
+acanhava, em forçada obscuridade. Ninguem vira de perto D. Maria dos
+Prazeres, ninguem a encontrára fóra da rua por onde ia á egreja;
+mancebos, porém, que precisavam interessar na sociedade, cançada de
+logares communs, diziam que a tinham ouvido um minuto, dois minutos,
+cinco minutos, maravilhados da sua formosura, e pequenos diante da sua
+eloquencia.</p>
+
+
+<h3>III</h3>
+
+<P>O nome de Fr. Antonio dos Anjos vulgarisou-se com o de sua sobrinha. A
+ligação de mestre e discipula apregoava as duas pessoas com egual
+elogio.</P>
+
+<P>Um fidalgo de Lisboa quiz conhecer o egresso. Achou-o semelhante aos
+gabos, que o engrandeciam. Honrou-o com attenções e obsequios, que
+occultavam um fim honesto. O fidalgo tinha um filho de dezoito annos,
+rebelde aos rudimentos das boas sciencias, mas em demasia versado n'esta
+alchymia do mundo, em <span class='pagenum'> 69 </span> que o libertino devora primeiro o cabedal
+da sua virtude, e sacrifica depois a virtude alheia, como o escravo
+infeliz d'aquelle prestigio queimava no cadinho a sua subsistencia, e
+seduzia depois os outros a empobrecerem-se.</P>
+
+<P>Fr. Antonio, instigado pela caridade que lhe impunha a salvação de um
+naufrago, acceitou a empresa, recusando a feliz perspectiva que devia
+remunerar-lhe o seu trabalho.</P>
+
+<P>O padre considerou-se imprudente em annuir, quando viu a funesta
+impressão que tal noticia causou em sua sobrinha, particularmente.
+Roubarem-lhe o anjo da infancia, quando, adulta, mais carecia d'aquelle
+esteio a que o seu coração se acostumava, era penalisa'-la com saudades
+inconsolaveis: era uma crueza, não de um extranho, mas de seu tio, que
+não tinha precisão de assoldadar-se ao pão alheio. Esta sua queixa,
+justificada com profunda tristeza, e continuas lagrimas, pungia o
+coração do velho até ao extremo de o lançar no leito da doença. Era
+irremediavel a promessa indiscreta: a palavra de honra, que lhe fôra
+pedida pelo fidalgo: a obrigação que se impoz de arrancar á
+libertinagem, que dominava grande parte dos antigos fidalgos, um mancebo
+perdido.</P>
+
+<P>Maria, quando viu adoecer seu tio, ministrou-lhe o balsamo da ferida.
+Ella mesma, repesa da severidade de seu amor, pede-lhe que vá repartir
+com os necessitados o pão da sciencia e da virtude, que, tão farto
+repartia com ella.</P> <span class='pagenum'> 70 </span>
+
+<P>--Era peccaminoso o meu egoismo!...--lhe diz--Não pude vencer-me! O meu
+coração é impetuoso. Meu tio não quiz remediar-me este defeito,
+reprimindo-me a dedicação com que, ha seis annos, correspondo á sua
+amizade. Ambos somos culpados; mas eu sou mais... Fui precipitada.
+Lembrei-me que era abandonada, por ser esquecida algumas horas do
+dia!... É forte creancisse, não é, meu tio?</P>
+
+<P>--Eu!... esquecer-te... minha filha!...--balbuciou o padre.</P>
+
+<P>--Bem o disse eu! É muito meu amigo... leva a minha imagem no seu
+coração para onde fôr... tem-me ao seu lado nas suas orações... responde
+ao meu coração que lhe pergunta a adivinhação d'estes segredos que eu
+tenho aqui, e só meu tio me adivinha... é tudo isto... sim, meu caro
+tio?</P>
+
+<P>--Sim, tudo, minha menina.</P>
+
+<P>--Oh meu tio!--continuou ella exaltada--não nos podemos separar. A
+intelligencia é um fio electrico. Ha vibrações na minha alma, que, se
+meu tio as não ouvisse, seriam perdidas, como as notas de uma harpa
+tocadas pelo vento em cima de um sepulchro deserto. Meu pae, e minha
+mãe, e meus irmãos, quero-os para o amor, quero-os para o coração, morro
+pela sua felicidade se m'o exigirem; mas o meu espirito precisa de
+alimento, a minha intelligencia quer um pasto ideal que não acho aqui,
+se meu tio me desampara. Não vê que foi um impulso providencial, que o
+trouxe aqui salvando-o de tantas mortes que lhe embaraçaram o caminho?
+<span class='pagenum'> 71 </span> Eu não tenho sido ingrata a Deus: ergo-lhe as mãos todos os
+dias, reconhecida, humilde, mas venturosa de ter nascido sua
+sobrinha!... Não me faça persuadir que Deus olha com indifferença as
+minhas preces...<a href="#nota2"><sup>[2]</sup></a></P>
+
+<P>--Maria, interrompeu o padre, tu não pensaste o que dirias antes de
+vires ao meu quarto!... Magoaram-me as tuas ultimas expressões... Não me
+pareceram tuas...</P>
+
+<P>E Maria arquejava sem desafogo. Parecia não escutar o tio.</P>
+
+<div class="footnote"> <p><a name="nota2">[2]</a> Nem sempre é inverosimil a linguagem figurada. Mais de um critico,
+a estas horas, se indispõe contra as hyperboles de Maria, aos quatorze
+annos tão espevitada! Pois creiam que não é justo o seu reparo. Se lhes
+eu tivesse dito que Maria convivera nas salas onde o lyrismo do coração
+não tem nada a fazer com a vida positivissima que lá se vive, em
+linguagem chan e desenflorada de figuras inuteis, tinham razão sobeja
+para dizerem que nunca por cá toparam d'estas donzellas Ciceros ou
+donzellas Gongoras, como quizerem. Attendam, porém, ao facto, se não
+teem a experiencia: mulher instruida, ou presumida de instrucção, se lhe
+falta o trato que precisa o estylo segundo as circumstancias, fala
+assim, e escreve assim. Aquella filha de Manuel de Sousa e D. Magdalena
+de Vilhena, que o immortal Garrett faz morrer de vergonha, em <i>Fr. Luiz
+de Sousa</i>, era, com menos sete annos, muito mais espirituosa, e, se
+querem, mais desnatural. O inverosimil é algumas vezes verdadeiro, assim
+como</p>
+
+<div class="poesia">
+<i>Le vrai peut quelque foi n'être pas vraisemblable.</i>
+</div>
+<p class="direita">(<span class='small-caps'>Boileau </span>, <i>Art.
+poet. c. 3.<sup>e</sup></i>).</p>
+</div>
+<span class='pagenum'> 72 </span>
+
+<P>--Vem cá, minha filha--continuou elle, extendendo-lhe a mão, com um
+sorriso affavel--vem cá. Que queres tu de mim? Não queres que eu vá
+fazer um bom filho, e um bom cidadão?</P>
+
+<P>--Vá, vá, meu tio!--exclamou ella, com energia.</P>
+
+<P>--Não achas tão sublime a missão confiada por Deus ao padre velho, que
+não tem outra herança a legar-te, senão a memoria da sua beneficencia?</P>
+
+<P>--Sim, sim... é o que ha de superior a tudo... ao amor, á vida, á
+esperança... Sim, sim...dê-me esse irmão em crenças, veja-o subir para
+Deus, impellido pela sua palavra inspirada... eu pedirei por elle;
+trocaremos as nossas orações; elle pedirá por mim, porque a conversão de
+um perdido enche o céo de alegria e faz exultar os anjos!... Elle ha de,
+inspirado pelo céo, compreender, como nós já compreendemos, desde que
+vivemos artistas, o que é o amor de Deus e a virtude do trabalho.</P>
+
+
+<h3>IV</h3>
+
+<P>Frei, Antonio mudou a residencia para casa do fidalgo. Alvaro da
+Silveira era o educando. São precisas algumas linhas do caracter d'este
+mancebo.</P>
+
+<P>Nascera rico: primeira desgraça, quando um pae, herdeiro de opulencia e
+libertinagem, sente a precisão de <span class='pagenum'> 73 </span> transmittir a seu filho a
+herança, qual a recebera. Acalentado em berço de ouro, quando os
+primeiros annos lhe deram a convicção da sua individualidade, reclamou a
+sua emancipação dos carinhos maternos, que lhe eram pesados, e extremos
+do pae que o enojavam por muito repetidos. O elogio acompanhava-o sempre
+em todas as suas tentativas de independencia. Quando de seis annos
+rasgou o <I>A</I>, <I>B</I>, <I>C</I>, na presença de um professor, que o contrariava, seus
+paes riram-se do galhardo heroismo da creança, e exultaram de ve'-lo
+assim brioso em tão verdes annos. Quando aos oito annos o viram espancar
+a ama, que lhe prohibia apedrejar uns meninos pobres, que lhe pediam
+pão, disseram-lhe que era feia aquella acção em menino fidalgo, e
+deram-se os parabens, a occultas, de tão corajoso rasgo. Quando aos dez
+annos o ouviram pedir dinheiro para gastar em seus caprichos de creança,
+preliminares de lastimaveis depravações de mancebo, deram-lhe dinheiro,
+com a condicional de não caír do cavallo, nem guiar o carrinho por
+passagens mal gradadas. Quando aos quinze annos....</P>
+
+<P>Seus paes atiraram-n'o ao tremedal de todos vicios. Deixaram medrar a
+planta da má inclinação no clima proprio, naquella atmosphera de Lisboa,
+onde os miasmas da corrupção lavravam desde que alguma classe degenerou
+pela ociosidade, e pelos vicios da velha organisação social. A arvore
+lavrou raizes até onde seus paes não previram, por mais que amigos e
+extranhos lhes abalassem o coração d'aquelle profundo somno de um
+affecto criminoso. As immoralidades do filho estamparam <span class='pagenum'> 74 </span> um
+estigma de opprobrio nas faces dos paes. O jogo, contrariedade unica e
+pungente, que na sociedade encontrava o libertino, arruinaria a fortuna
+d'uma familia, de muitas familias opulentas se Alvaro da Silveira não
+attendesse aos conselhos, ás primeiras admoestações de seu pae. Foram
+baldadas. Alvaro ouviu-as com enfado, çom soberania, com desprezo, e
+satisfez a irritabilidade de sua má indole, conduzindo á porta de seu
+pae novos credores e novas vergonhas.</P>
+
+<P>E, depois, a intelligencia d'este mancebo era um repositorio de todos os
+vicios, sem ao menos quinhoarem do ouropel da urbanidade que parece ás
+vezes modificar a torpeza com que nos enojam em um licencioso, estupido
+e villão. Alvaro era grosseiro no crime. Indignava os muitos que lhe não
+eram somenos em dissolução mas menos brutaes que elle. As pustulas
+n'aquelle cadaver mostravam-se ao clarão do vicio com todo o asco. O
+homem perdido parecia renovar emoções, e satisfazer o instincto,
+provocando á nausea uma sociedade cujo abandono lhe accendia um desejo
+impotente de vingança.</P>
+
+<P>Fr. Antonio dos Anjos fôra chamado para preparar este homem a conhecer a
+honra, levando-o pela vereda da religião.</P> <span class='pagenum'> 75 </span>
+
+
+<h3>V</h3>
+
+<p>Alvaro da Silveira não fôra prevenido. A presença do sacerdote,
+apresentado por seu pae, moveu-lhe uma curiosidade selvagem. Parecia-lhe
+um sonho aquella visão extraordinaria, aquelle encontro tão disparatado
+com a sua vida, o seu olhar idiota era eloquente ao mesmo tempo.
+Revelava uma interrogação natural e desculpavel:--que me quer este
+homem?</p>
+
+<p>Fr. Antonio, limitado ao seu ensino de portas a dentro, e alheio á vida
+de Lisboa, não conhecia cabalmente a historia do seu discipulo. Os
+traços que o pae lhe revelára eram logares communs da mocidade
+desenfreada. Não é crivel que o padre bem informado, tentasse a empresa
+de conquista'-lo para a virtude. E quem póde avaliar a coragem
+religiosa?</p>
+
+<p>Alvaro sorriu, voltou as costas ao mestre, levando em galhofa o que lhe
+não parecia cousa de serio alcance. Este grosseiro procedimento magoou
+momentaneamente o padre; mas, repreendido pela caridade, aquietou
+depressa os irritamentos do amor proprio. Foi então que o pae, tão
+culpado como desditoso, desenrolou o sudario das desenvolturas de seu
+filho. Chorava, arrependido do mimo com que o perdera, e perguntou
+ancioso se seria possivel salva'-lo da sua ruina total.</p> <span class='pagenum'> 76 </span>
+
+<p>Fr. Antonio não conhecia limites á sua confiança em Deus. Convicto das
+mercês visiveis que recebera da omnipotencia do Senhor, sentiu-se
+illuminado de uma fé que lhe affiançava um prodigio. A peleja travada,
+em nome da virtude, com o espirito do mal, tinha muitas vezes triumphado
+de uma parte da humanidade, revoltada contra um só homem. Exemplos de
+maiores maravilhas alentaram o sacerdote. Desde esse momento, afervorou
+as suas preces ao Senhor, a cujo aceno a virtude, morta no coração do
+impio, surgiria como a lagrima do remorso nos olhos de Magdalena.</p>
+
+
+<h3>VI</h3>
+
+<p>Esse dia de estreia para a missão do padre, foi mais um decorrido nas
+immoralidades do discipulo.</p>
+
+<p>Não viera a casa, durante o dia, e metade da noite. Parece que tudo
+dormia no palacio; quando Fr. Antonio sentiu o rumor de um cavallo no
+pateo. Orava ainda, fóra do leito, ajoelhado, com o lenço ensopado em
+lagrimas de dorida saudade. A imagem de sua sobrinha não lhe consentia o
+repouso, de noite; obrigava-o ás tribulações de um amante desprezado. E,
+então, o ministro de Deus recolhia-se em oração, com a vehemencia de uma
+esperança infallivel no refrigerio do céo.</p> <span class='pagenum'> 77 </span>
+
+<p>A essa hora, pois, chegava a casa Alvaro da Silveira. O seu quarto era
+immediato ao do sacerdote. Entrou assobiando as reminiscencias das
+cavatinas theatraes, e reclamou em brados imperiosos a ceia. Os servos
+pontuaes como escravos aos caprichos rapidos dos patricios da Roma dos
+imperadores, affluiam a servir o amo, que ordinariamente punia uma certa
+demora com a ameaça formal de quatro chicotadas. Conduzida a ceia,
+repellira os creados com desabrimento e ficára sósinho trauteando e
+comendo promiscuamente.</p>
+
+<p>Alvaro acabava de cear, esquecido da apresentação do padre, quando ouviu
+na porta um toque.</p>
+
+<p>--Entre quem é!--bradou elle.</p>
+
+<p>Quem quer que era cumpriu. A presença veneranda de Fr. Antonio, um passo
+dentro do quarto, era uma impressão nova para o mancebo!
+Involuntariamente sentiu curvar-se-lhe o pescoço á cortezia grave com
+que o sacerdote o saudára.</p>
+
+<p>--Então ainda a pé?!--perguntou Alvaro.</p>
+
+<p>--Ainda a pé, e Deus sabe se me deitarei... As horas da noite são as
+horas da oração. Parece que o ermo e o silencio excitam a conversação do
+espirito com Deus... E v. ex.<sup>a</sup> recolheu-se agora, não é verdade?</p>
+
+<p>--É verdade...--respondeu o mancebo com um embaraço, que revelava a sua
+extranheza n'estes dialogos.</p>
+
+<p>--Precisa repousar--tornou o padre--Eu, como estava a pé, quiz dar-lhe
+as boas noites. Agora recolho-me <span class='pagenum'> 78 </span> pedindo a Deus o seu descanço,
+como condição da vida, para amanhã abrir os olhos á luz que bem póde não
+alvorecer para nós. Fique v. ex.<sup>a</sup> com Deus.</p>
+
+<p>E retirou-se. As ultimas palavras de Alvaro pareciam syllabas
+desarticuladas. O frade ferira-lhe um orgão ainda virgem d'aquellas
+impressões. Aquelle <i>memento</i>, áquella hora, por aquelle homem,
+acordára-lhe o mais nobre dos pensamentos, que o materialismo lhe
+adormecera nos gelos do coração: DEUS. Os confusos projectos do dia
+seguinte aturdiam-se-lhe na cabeça, como alvoroçados pelo pregão da
+morte, que mandava calar os designios humanos na presença do destino
+eterno.</p>
+
+<p>O abalo fôra vehemente, mas pouco duradouro. Alvaro da Silveira
+adormeceu. É que o som vibrado na corda da religião, devia esvaecer-se
+entre o estrondo das paixões ruidosas, como o vagido da creança no
+alarido das turbas amotinadas.</p>
+
+
+<h3>VII</h3>
+
+<p>Alvaro da Silveira costumava tocar a campainha depois do meio dia,
+quando alguma empresa impertinente lhe não assaltava o precioso somno da
+manha.</p>
+
+<p>Fr. Antonio, prevenido, foi visitar sua familia, cuja ausencia lhe
+parecia longa e incomportavel. Antes de sair trocou algumas palavras com
+o dono da casa pedindo-lhe <span class='pagenum'> 79 </span> que entregasse a Deus a regeneração
+de seu filho.</p>
+
+<p>Quando entrou na sala, sua sobrinha estava ao piano. Pé ante pé
+firmou-se onde de longe podia contempla'-la, e surpreende'-la com
+palmas. Reparou que o papel de estudo não era musica. Esperou. De
+improviso, ao som melancolico das teclas casou-se uma melodia triste,
+profundamente triste, como as convulsões de um longo gemido. Aquelle
+papel continha a letra do canto. Que versos seriam aquelles?</p>
+
+<p>E o canto parou com a ultima nota do acompanhamento. Maria firmou os
+cotovellos nos braços da cadeira, e escondeu o rosto entre as mãos. Ás
+vezes corria as mãos pela testa, e deixava-as pender enlaçadas sobre o
+regaço. As suas posturas eram todas afflictivas.</p>
+
+<p>--Que tens, minha filha--murmurou o padre caminhando para ella.</p>
+
+<p>Maria ergueu-se arrebatadamente; correu aos braços do tio, e não teve
+exclamação que revelasse o alvoroço d'aquella surpresa.</p>
+
+<p>--Cantavas como um anjo--continuou o padre, acariciando-lhe a face
+pousada no seu hombro--mas tão melancolico era o canto e a musica!...
+Nunca te ouvi ainda esta lamentação! Vejamos que poesia é esta!...</p>
+
+<p>--Não, não, meu tio!,..--atalhou Maria, querendo affavelmente desvia'-lo
+do piano.</p>
+
+<p>--Porque não? Mysterios para o teu amigo que t'os adivinha no coração?
+Segredos para o teu mestre, Maria!</p>
+
+<p>--Não é segredo... é vergonha...--exclamou a <span class='pagenum'> 80 </span> linda menina com a
+voz entrecortada--Esses versos fui eu que os fiz..</p>
+
+<p>--E tens reservado para ti esse dom? Quando disseste ao teu velho tio
+que fazias versos?--disse o padre sorrindo com meiguice.</p>
+
+<p>--Eu não sabia que o eram... Nem sei se o são...--balbuciou Maria,
+córando, e procurando fugir de estar presente á leitura.</p>
+
+<p>Fr. Antonio levou-a pela mão ao piano. Tomou da estante a poesia, e leu:</p>
+
+<div class="poesia">
+PRESENTIMENTO<br>
+<br>
+«Minha paz no infortunio,<br>
+Minha alegria na dôr,<br>
+Quem m'a déra, qual a tive,<br>
+Qual m'a déstes, vós, <span class="small-caps">Senhor</span>!<br>
+<br>
+«Desbotou-se-me nos labios<br>
+Meu sorriso tão singelo...<br>
+E eu com elle premiava<br>
+Tanto amor, tanto desvelo!...<br>
+<br>
+«Tanto amor, que eu vos pedia,<br>
+Do que os anjos tem nos céos,<br>
+Para amar meus paes, meu tio,<br>
+Como vos amo, meu Deus!<br>
+<br>
+«Não scismei outras venturas,<br>
+Outros gosos não pedi:<br>
+Fui tão rica na pobreza...<br>
+Na pobreza empobreci.<br>
+<span class='pagenum'> 81 </span>
+<br>
+«Senti lagrimas no rosto...<br>
+Sei que tenho aqui no seio<br>
+Escondida uma tristeza<br>
+Que de vós, meu Deus, não veio!<br>
+<br>
+«Deu-m'a o mundo?... sim... daria...<br>
+Mas que mal ao mundo fiz!?<br>
+Serei eu de alguem inveja?<br>
+Pois que eu não seja feliz!<br>
+<br>
+«Volva o tempo da penuria,<br>
+Quando eu fiz a pobre flor,<br>
+Que me dava um pão regado<br>
+Com meu pranto e meu suor.<br>
+<br>
+«Dae-me as noites não dormidas<br>
+De trabalho e de alegria;<br>
+Meu orar na madrugada,<br>
+Quando, tão feliz, me erguia.<br>
+<br>
+«Oh meu Deus! se a humilde serva,<br>
+Não votaste ao soffrimento,<br>
+Abafae lhe a voz, que a punge,<br>
+D'um cruel presentimento!»<br>
+</div>
+
+<p>Fr. Antonio lera commovido essas singelas quadras, cujo toque de
+sentimento não póde enternecer-nos, talvez. Nos labios d'elle, tremulos
+e nervosos, a poesia soava como um canto funebre. Que tristeza no
+declamar! Poderia ter-se como uma elegia á innocencia de Maria? Por Deus
+que não. O hymno, que transluzia da nuvem escura da sua tristeza, era
+como a luz do relampago <span class='pagenum'> 82 </span> que aclara, de repente, um amplo
+espaço: era a luz electrica das intelligencias privilegiadas; o abalo do
+presentimento que quer saír do circulo do mysterio: a adivinhação do
+futuro.</p>
+
+<p>--Que é o que entristece a tua vida, Maria?--perguntou Fr. Antonio.</p>
+
+<p>--Já me lembrou se seria a muita felicidade, meu tio.</p>
+
+<p>--Não te compreendo... abre-me o teu coração sem reserva... Serias
+culpada se fingisses a teu tio as razões do teu soffrimento...</p>
+
+<p>--Não posso mentir-lhe, meu tio... Não sei ainda o que é fingimento...
+nunca na minha vida menti a alguem. Eu não sei porque estou triste. O
+meu coração não m'o diz, e a minha tristeza nasce-me do coração,
+esconde-se lá como um segredo afflictivo... E eu que mais hei de
+dizer-lhe, meu caro amigo? Que peço muito a Deus que me não quebre este
+calix de amargura, se a sua divina vontade ordena que eu o exgote.</p>
+
+<p>Maria enxugava as lagrimas copiosas, que pareciam esfriar-lhe o calor
+febril das faces. Fr. Antonio, contemplativo, olhava para a sobrinha
+silenciosa, como querendo ler-lhe no rosto a ultima palavra d'aquella
+revelação confusa.</p>
+
+<p>O coronel entrou na sala, e correu a abraçar seu irmão, e dar a mão a
+sua filha, que lh'a não beijara ainda. Maria, surpreendida, quiz, á
+custa de um sorriso violento, converter em alegria aquella saudação; mas
+a dôr de filha é necessario que seja peccaminosa para esconder-se <span class='pagenum'>
+83 </span> aos olhos de pae. O coronel e sua esposa velavam as tristezas de
+Maria como lhe velariam perigosa enfermidade. Consultaram mutuamente os
+seus temores; e a severa experiencia do mundo alguma vez lhes inspirou
+bem tristes receios. Aos quatorze annos ha melancolias no coração de uma
+virgem, que apenas tem de mysterioso a tendencia irresistivel, que Deus
+lhe imprimiu para o ideal de um amor terreno, que, no altar da
+innocencia, recebe uma adoração, senão semelhante, ao menos perfumada
+com o mesmo incenso do amor divino. E a mãe de Maria recordava-se da sua
+infancia, e perguntava a seu marido se as lagrimas da filha seriam as
+precursoras de alguma paixão infeliz. Era indiscreta a pergunta. Não se
+dera nunca o incentivo de suspeita. A vida de Maria não tinha um
+instante mysterioso a seus paes. Trabalho e oração--não tinha outro
+desvelo desde o amanhecer até á ultima benção pedida a seus paes.</p>
+
+<p>Maria, valendo-se da conversação do pae com o tio, retirara-se da sala.
+O coronel assim o queria, para consultar o irmão, homem de Deus, que via
+o coração dos outros com os olhos puros da probidade. Mas não são esses
+olhos os mais penetrantes para devassar segredos, que se escondem no
+coração apaixonado pelo mundo. Quem adivinha as luctas intimas do
+espirito, escravisado aos caprichos das paixões, é o homem das paixões,
+encanecido na amarga experiencia d'ellas. Bem pudera Maria dos Prazeres
+agonizar nas tribulações de um amor criminoso, e sua morte ser um
+mysterio para o padre que não sentia acordar em sua alma o echo dos
+<span class='pagenum'> 84 </span> gemidos de sua sobrinha. O amor de Deus preenche todas as
+necessidades, responde a todas as aspirações do coração de um justo. Não
+é o justo de uma longa vida irreprehensivel quem póde arrancar ao
+penitente, que se lhe ajoelha, uma revelação pungente, que o pejo
+emmudece nos labios. É necessario profunda'-la com a sonda das proprias
+agonias. É necessario adivinha'-la no espirito do penitente, a favor de
+um symptoma que revela outro, de uma palavra solta que vae prender-se á
+explicação de um longo silencio. E esta dolorosa syndicancia não póde
+exerce'-la a simples theoria das paixões.</p>
+
+
+<h3>VIII</h3>
+
+<p>A arte, que ensina a levantar o véo das paixões silenciosas, era
+desnecessaria para Maria. A virgem não tinha segredos para alguem.
+Podesse ella entender a transfiguração da sua alma, a magua confusa dos
+seus novos pensamentos, que, bem feliz, pediria conselhos e consolações
+á sua familia.</p>
+
+<p>--Mas aquelle silencio!...--dizia o coronel, replicando ás santas
+convicções do padre, a respeito da innocencia de sua sobrinha.
+
+<p>--Aquelle silencio...--dizia frei Antonio, consultando a consciencia,
+que lhe respondia de prompto--aquelle <span class='pagenum'> 85 </span> silencio... é a falta de
+palavras com que possamos fazer sentir aos outros uma idéa, que só a
+Divindade nos compreende... As horas de tua filha não são empregadas
+como d'antes na oração, no estudo e no trabalho?</p>
+
+<p>--São, de certo, e mais continuadas na oração. D'antes orava em commum.
+Agora, encontramo'-la na hora do descanço, ajoelhada no sanctuario; mas
+vejo-a perturbada, quando reza. Ha lagrimas, e até aqui só lhe viamos o
+sorriso de consolação... Parece que n'aquelle orar, ha a supplica do
+perdão para o crime que a accusa.</p>
+
+<p>--É impossivel!--exclamou o padre, energicamente commovido.--É
+impossivel... não quero que em minha sobrinha se esconda um crime... uma
+falta! É uma injuria, meu irmão! Peccaste contra a innocentinha, e
+feriste-me a mim, que tenho formado aquelle coração, que Deus me confiou
+para crear-lhe um anjo.</p>
+
+<p>--Meu irmão... não te afflijas... isto em mim é um receio.</p>
+
+<p>A interrupção do coronel era tardia para evitar a exaltação nervosa do
+padre. As lagrimas davam-lhe ao rosto uma religiosa magestade.
+Assombrava-o o terror de uma conjectura cruel, como se visse caír á
+voragem do vicio a virtude, que elle, com sua propria mão, collocára em
+throno tão perto do céo. O coronel, tambem commovido, sentia-se
+nobremente exaltado pelo modesto orgulho de ter uma filha, cuja
+innocencia merecia tão fervorosa defesa. Abraçando seu irmão, parecia
+pedir-lhe <span class='pagenum'> 86 </span> carinhosamente desculpa do zelo paternal, que lhe
+inspirara receios por aquella que pertencia menos a seu pae, que a seu
+mestre. O lance era sublime; e o sentimento de ambos, vibrado na mesma
+corda, e acalorada pelo mesmo amor, elevava-se até Deus em oração de
+graças por Maria, anjo que lhes fôra dado como galardão á paciencia de
+muitos soffrimentos.</p>
+
+
+<h3>IX</h3>
+
+<p>Quem poderia consolar a triste nas suas amarguras?</p>
+
+<p>Quem póde cá da terra dissipar a nuvem, que escurece a face de uma
+estrella?</p>
+
+<p>Quem póde, ao descair da tarde, reverdecer a corolla da flor desbotada
+pelas sombras da noite?</p>
+
+<p>O futuro é o presente perpetuo da Divindade. Mas o espirito que se
+enlucta, sem lamentar a viuvez de illusões perdidas, veste-se de negro,
+como a virgem violentada a desposar no altar das lagrimas uma tribulação
+futura. É o presentimento.</p>
+
+<p>Para as almas provadas em supplicios immerecidos, mas secretamente
+providenciaes, o presentimento não é uma palavra sem significação.</p>
+
+<p>O cantico de Maria, cadenciado pelas quadras do seu hymno, era a unica
+resposta, que ella podia dar se lhe perguntassem:</p>
+
+<p>--Anjo, porque soffres?</p> <span class='pagenum'> 87 </span>
+
+
+<h3>X</h3>
+
+<p>Decorreram algumas horas, e Fr. Antonio não podia demorar a sua visita.
+Alvaro da Silveira, fiel a seus habitos, deveria despertar ao meio dia.
+O padre retirou com uma saudade profunda, e uma dôr nova. A ultima
+afflicção de um justo quer Deus que seja a agonia do pensamento. A vida
+n'elle é uma cadeia de pesares, que tem no esquife o ultimo élo. Fr.
+Antonio, feliz com esta certeza, poderia fraquear na primeira lucta com
+o soffrimento, mas a sua queda era sempre de joelhos aos pés da cruz. E
+esta foi a sua postura, apenas entrou no quarto que lhe fôra dado em
+casa de Silveira.</p>
+
+<p>A oração foi-lhe interrompida pelo toque da campainha. Esse som, que
+provocava pragas aos servos da casa, como signal de estar acordado o
+tigre familiar, foi para frei Antonio um despertador da oração em favor
+d'aquelle, que tão longe de Deus, sem um decreto do céo, mal poderia ser
+lá encaminhado pela debil mão de um peccador. E, terminada a oração, o
+padre chamou o creado, que saía do quarto de Alvaro, e mandou a s. exc.<sup>a</sup>
+pedir licença para fazer-lhe companhia ao almoço. A resposta, qual era
+de esperar, deferiu a humilde supplica, e Frei Antonio, insinuante de
+brandura e civilidade, apresentou-se, pela terceira vez, ao seu
+educando.</p> <span class='pagenum'> 88 </span>
+
+<p>A face d'este homem tinha uma alegre severidade, que não podia fitar-se
+sem respeitosa sympathia. Alvaro da Silveira ao ve'-lo sentia uma
+impressão extraordinaria, como não sentira na presença d'algum homem
+celebre em valentia, em talento, em devassidão, em prodigalidades, e em
+riqueza. A distincção da virtude ou do <i>fanatismo</i>, como elle dizia da
+religião, parecia-lhe uma cousa nunca vista na boa sociedade! Para não
+deixar-se vencer pelo panico da religião, Alvaro da Silveira dava-se uma
+explicação muito natural d'aquelle phenomeno: era a falta de convivencia
+com a classe dos padres.</p>
+
+<p>Na verdade o jesuitismo e a hypocrisia pelos seus abusos interesseiros,
+tornando a religião instrumento innocente de uma politica facciosa, tem
+dado causa a todos os homens de consciencia conspirarem a expulsa'-los
+como vendilhões do templo. Essa a razão por que os falsos religiosos
+blasphemam quando presentem que uma minima centelha da razão illumina o
+campo da religião que elles pretendem pôr em trevas. Todo o homem
+sensato e sãmente religioso soffre uma intima dôr quando os falsos
+religiosos impellem os ignorantes, e alguns immorigerados como Alvaro da
+Silveira, a irem lançar-se na impiedade, fugindo da hypocrisia, que
+elles não sabem discernir da purissima religião do crucificado.</p>
+
+<p>Mas, a seu pesar, a entrada de Fr. Antonio, e as palavras urbanas, e
+poucas, com que o saudára, continuavam a impressiona'-lo.</p> <span class='pagenum'> 89 </span>
+
+<p>--Dormiu v. ex.<sup>a</sup> socegadamente, não é assim?--perguntou o padre.</p>
+
+<p>--Deliciosamente--respondeu Alvaro, apertando cortezmente a mão do
+sacerdote.--E v. s.<sup>a</sup> como se deu no seu novo quarto?</p>
+
+<p>--O melhor possivel. Um egresso, affeito a dormir na casa de um
+lavrador, acharia boa pousada em todos os logares debaixo do céo. Uma
+boa cama não abona sempre uma noite deliciosa ao que se deita n'ella. O
+melhor gasalhado, senhor, é o que nos dá a consciencia quando
+francamente se abre para receber-nos, e velar-nos o somno com o anjo da
+paz. Deus defenda v. ex.<sup>a</sup> de revolver-se um dia nos espinhos, que
+perturbam o somno do mau, deitado em leito de cortinas douradas.</p>
+
+<p>--Então v. s.<sup>a</sup>--tornou Alvaro--tem andado por casa de lavradores? Eu
+cuidei que os frades eram ricos, e amigos das commodidades. Pelo menos é
+o que se diz por ahi...</p>
+
+<p>--Os frades, senhor, não só eram ricos, mas tambem opulentos; procuravam
+todas as commodidades, gosavam todas as delicias, todos os prazeres que
+podem ser desfructados na vida material da terra. A ociosidade e a
+riqueza perverteu-os. As excepções choravam tal aberração. Como que
+olvidados do céo mergulharam-se n'uma politica inconveniente e injusta.
+Em pena de Talião, a politica por elles hostilisada, por todos os meios,
+tão obstinadamente, puniu-os expulsando-os das casas que não deviam mais
+pertencer-lhes.</p> <span class='pagenum'> 90 </span>
+
+<p>Estava na mesa o taboleiro do almoço. Fr. Antonio pedia licença para
+servir o discipulo.</p>
+
+<p>--Então v. s.<sup>a</sup> não almoça?--perguntou Alvaro, offerecendo ao hospede uma
+chavena, não recebida.</p>
+
+<p>--Almocei já, sr. Silveira.</p>
+
+<p>--Com o pae, não é verdade?</p>
+
+<p>--Não, senhor: com a minha familia.</p>
+
+<p>--Então v. s.<sup>a</sup> tem familia em Lisboa?</p>
+
+<p>--Nasci em Lisboa, e tenho uma familia numerosa.</p>
+
+<p>--Naturalmente pobre...</p>
+
+<p>--Naturalmente, não, sr. Silveira; mas Deus indemnisou-a. Deu-lhe o amor
+do trabalho, e a noite e o dia, para grangear o pão de uma hora. Tem
+sido feliz, penso eu. O temor de Deus é a coragem com que se vencem os
+infortunios...</p>
+
+<p>Alvaro, com a chavena esquecida na mão, escutava-o religiosamente. A
+novidade da linguagem, e o gesto religioso apraziam-lhe, e creavam-lhe
+desejos de ouvir o padre longo tempo.</p>
+
+
+<h3>XI</h3>
+
+<p>--A sua familia é conhecida?</p>
+
+<p>Esta pergunta de Alvaro da Silveira é textualmente o inquerito
+galhardamente fidalgo, que a nobreza d'estes reinos faz, antes de deixar
+approximar-se por algum <span class='pagenum'> 91 </span> desconhecido, duvidosamente inscripto
+no livro dos costados. Perdôe-se-nos o estylo; mas, desgraçadamente,
+tudo que é ridiculo traz inçadas certas classes, e não sabemos, quando
+se farão sérias, quando se approximarão um dia as familias, de modo que
+não possamos sem offender a Deus, perguntar a nosso irmão se seu pae é
+conhecido...</p>
+
+<p>--A minha familia--respondeu frei Antonio--foi conhecida; mas não é de
+lamentar que seja hoje obscura. Mal d'ella se quizesse manter as vans
+regalias da sociedade, que v. ex.<sup>a</sup> chamou conhecida! Penso que a minha
+familia não é conhecida.</p>
+
+<p>--Mas deve estar aparentada...--replicou o fidalgo, instando nas
+perguntas inauferiveis da pragmatica heraldica.</p>
+
+<p>--Creio que sim... O coronel ***...</p>
+
+<p>--Já sei--interrompeu Alvaro--pois não!... é muito fidalgo, e está
+aparentado com boa gente; mas não apparece. Então v. s.<sup>a</sup> é tio de uma
+menina muito falada?...</p>
+
+<p>--Muito falada!?--atalhou o padre com sobresalto.
+
+<p>--Sim, senhor, dizem que é poeta, romantica, e muito linda.</p>
+
+<p>--É virtuosa, senhor Silveira. Não lhe conheço outra qualidade, que
+valha a pena de mencionar-se. V. ex.<sup>a</sup> já viu poesias ou romances, ou o
+retrato de minha sobrinha?</p>
+
+<p>--Não, senhor, mas creio que não é mentira o que se diz. A opinião de
+virtuosa tambem a tem; se não <span class='pagenum'> 92 </span> falei de virtude, é porque não
+sei verdadeiramente o que é virtude; mas acredito que ella é uma
+excellente menina a todos os respeitos.</p>
+
+<p>--A virtude, meu caro senhor, é a censura pratica do crime. Sabe v. ex.<sup>a</sup>
+o que é crime?</p>
+
+<p>--Tambem não--respondeu Alvaro com uma vaidosa entoação de
+espirito-forte.</p>
+
+<p>--Eis ahi--disse Fr. Antonio sorrindo--uma violencia que está fazendo á
+sua alma, sr. Silveira. V. ex.<sup>a</sup> disse que minha sobrinha era dotada de
+bellos attributos. Falou pela bôca da fama, e chamou-lhe poeta,
+romantica e formosa. Se minha sobrinha, apesar d'estas decantadas
+prendas e dons, que a sociedade encarece tanto, fosse má filha, e má
+irmã, poderia ella cegar os olhos da sociedade com a sua formosura e
+talento, para que lhe não vissem os defeitos...</p>
+
+<p>--De certo não.</p>
+
+<p>--Então é verdade, que a sociedade reprovaria o procedimento de minha
+sobrinha?</p>
+
+<p>--Creio que sim.</p>
+
+<p>--E v. ex.<sup>a</sup>?</p>
+
+<p>Alvaro ficou suspenso, e balbuciou, depois:</p>
+
+<p>--Eu... eu... naturalmente...</p>
+
+<p>--Juntava a sua voz á opinião publica--interrompeu o padre--embora v.
+ex.<sup>a</sup> não antipathisasse com os actos repreensiveis de minha sobrinha.</p>
+
+<p>--Assim é sempre--disse Silveira, com uma forçada resolução.</p>
+
+<p>--E assim será sempre, porque ha um juiz incorruptivel, <span class='pagenum'> 93 </span> chamado
+a «verdade». As sentenças d'este juiz, embora fulminem as paixões
+desatinadas, são sempre recebidas, senão pelo espirito de uma sociedade
+gasta e immorigerada, ao menos por a consciencia d'essa sociedade. Ora a
+innocencia é invulneravel ao contagio da corrupção, como a lampada do
+templo ás exhalações pestilenciosas dos tumulos. A consciencia é o
+pregoeiro das sentenças que a verdade profere, e v. ex.<sup>a</sup>,
+insensivelmente, apregoa. Será necessario dizer-lhe eu que sentimento é
+esse que se serve de v. ex.<sup>a</sup>, como de uma machina para se exprimir? É a
+virtude, sr. Alvaro, é a virtude que faz realçar os dons de minha
+sobrinha, que lhe dá a soberania de um anjo, que o crime não póde
+encarar sem curvar-se servilmente: é a virtude, galardão ao principio do
+bem, que triumpha na lucta incessante com o principio do mal. A verdade
+não se desmente porque é o Evangelho identificado nos corações, e
+Christo ha dezoito seculos, encarnado na humanidade...</p>
+
+<p>Alvaro parecia alegrar-se conforme ia perdendo o terreno, diante de um
+tão generoso como irrespondivel adversario.</p>
+
+<p>Como se anciasse pela continuação da resposta do padre, quando este se
+calou, tambem Alvaro não teve uma syllaba, das que se pedem á
+«philosophia» irreconciliavel, para responder.</p>
+
+<p>--Crê na virtude, sr. Silveira?--perguntou o padre com summa bondade e
+modestia.</p>
+
+<p>--Tinha-me dito que o crime e a virtude eram relativos--respondeu <span class='pagenum'>
+94 </span> o mancebo com ar de quem desacredita as doutrinas de um mestre que
+respeita.</p>
+
+<p>--Tinham-lhe dito, senhor, que a consciencia universal era uma mentira.
+Mentiram-lhe cruelmente, porque v. ex.<sup>a</sup> não podia, sem horror, encarar
+um filho que matou seu pae; um homem que traíu o seu bemfeitor; um juiz
+que entregou um innocente ao carrasco; um seductor que atou uma pobre
+mulher a um poste de ignominia eterna. V. ex.<sup>a</sup> não póde, com
+indifferença, apertar a mão a este homem, não é assim?</p>
+
+<p>--De certo: eu sou um extravagante, um vicioso, mas detesto infamias...</p>
+
+<p>--Que todo o mundo detesta; mas o mundo onde a luz da verdade venceu as
+trevas do erro, que a palavra do Christo condemnou.</p>
+
+<p>--Mas diga-me v.<sup>a</sup> sr.<sup>a</sup>... não dizem que ha paizes onde os paes matam os
+filhos, e os filhos os paes, legalmente?</p>
+
+<p>--Houve, e haverá ainda. Mas sabe v. ex.<sup>a</sup> o que é permittido ahi pela
+lei? É justamente o que é reprovado pelo christianismo.</p>
+
+<p>--Mas a consciencia não se revolta contra taes actos sem que seja
+preciso que o christianismo os declare criminosos?</p>
+
+<p>--Revolta, sim. Quando as virgens indianas se lançavam nos tumulos dos
+maridos, ou nas fogueiras legalmente accesas, as lagrimas, vencendo a
+coragem da superstição religiosa, desciam nas faces de uma familia, que
+seria injuriada se não cedesse em holocausto a desgraçada <span class='pagenum'> 95 </span>
+viuva. Os gritos d'esta eram os gritos da consciencia contra a lei
+barbara; eram a adivinhação da verdade denunciada pelo filho de Deus. Os
+filhos, que matavam os paes, eram algozes que a lei fizera, como entre
+nós a lei faz um carrasco. Poderemos nós argumentar contra a piedade,
+contra a virtude, e contra o amor porque um justiçado morre entre os
+braços de um homem, que executa a sentença de um juiz?! Persuade-se
+alguem que o homicidio legal, na consciencia do algoz, é um acto de amor
+e caridade?</p>
+
+<p>--Penso que não.</p>
+
+<p>--Pois bem, senhor Silveira; respeite a sua propria dignidade, já que os
+homens sem crença, sem Deus e sem esperança, lh'a quizeram aviltar,
+dizendo-lhe que o crime e a virtude são relativos...</p>
+
+<p>Fr. Antonio fez menção de levantar-se e continuou:</p>
+
+<p>--Tenho-o talvez privado dos seus divertimentos...</p>
+
+<p>--Não, senhor... pelo contrario tem-me dado momentos de muita
+satisfação...</p>
+
+<p>--Encho-me de prazer, se o consegui... E como tenho a honra de ser
+hospede de v. ex.<sup>a</sup>...</p>
+
+<p>--Mestre...--interrompeu Alvaro com alegria sincera.</p>
+
+<p>--Não posso acceitar esse lisongeiro titulo;--<i>amigo</i>, se v. ex.<sup>a</sup> me
+quizer honrar com este parentesco.</p>
+
+<p>--Não me embaraça... Tenho muito prazer em que esteja...--disse Alvaro,
+apertando-lhe cordealmente a mão.</p>
+
+<p>--Tenho obrigações a cumprir para com Deus: não <span class='pagenum'> 96 </span> faltará tempo
+proveitoso para os meus deveres com o proximo. Não sabe v. ex.<sup>a</sup> que os
+padres teem um breviario, que a cada hora do dia lhe recorda o dever de
+orar por aquelles, que não cedem alguns minutos á oração? Filhos de
+Deus, pedimos uns pelos outros; e Jesus Christo beneficiou-nos com a
+riqueza da prece, com este patrimonio commum a todos os irmãos... E não
+é isto uma consolação para os que são atheus por contagio e não por
+convicções; fanaticos e supersticiosos por ignorancia e por estupidez?</p>
+
+<p>--A respeito de atheismo... tenho... minhas... duvidas...--disse Alvaro
+com palavras entrecortadas por aquella pausa emphatica, semelhante á
+ironia dos sabios, segundo a moda.</p>
+
+<p>--Pois bem... Temos zelo e vontade para acertarmos... Deus hade
+conceder-nos o tempo, que é o desengano de todas as duvidas... Até outra
+occasião...</p>
+
+<p>E retirou-se contra os desejos de Alvaro. Mas fr. Antonio conhecia o
+coração do homem. Chamara-o Deus para uma empresa trabalhosa. A força
+descia-lhe do céo. Não era em si que elle confiava.</p>
+
+
+<h3>XII</h3>
+
+<p>Mal o padre saíra, entrou Gonçalo da Silveira. Era o pae que procurava o
+filho: cumprimentou-o com a sua <span class='pagenum'> 97 </span> habitual frieza: mas o que de
+outras vezes era proposito, poderia então suppôr-se distracção. Alvaro
+absorvido nos seus pensamentos, quaesquer que elles fossem, parecia
+meditar uma das suas heroicas façanhas, sobresaltado, como quem recua
+diante de algum perigo assustador. Julgara-o assim o pae, julga-lo-iam
+assim os domesticos, e os cumplices, elle proprio, talvez, se se visse
+n'um espelho.</p>
+
+<p>--Que tens?... pareces-me somnambulo!?--disse o pae.</p>
+
+<p>E Alvaro affavelmente respondeu:</p>
+
+<p>--Pelo contrario: estou acordadissimo... muito accordado, penso eu.</p>
+
+<p>--Falaste com o egresso?</p>
+
+<p>--Sim, senhor.</p>
+
+<p>--Que te pareceu?</p>
+
+<p>--Um homem bom, virtuoso e extraordinario.</p>
+
+<p>--É realmente... que a virtude tornou-se em nossos dias uma apparição
+extraordinaria, e milagrosa,.. Gostaste d'elle?</p>
+
+<p>--Quem me dera ser o que elle é...</p>
+
+<p>--Isso é que é extraordinario, meu filho--exclamou o velho.</p>
+
+<p>--Amar um bem, que não podemos possuir, é tão proprio do homem... Que
+acha o pae de extraordinario, n'este meu desejo:</p>
+
+<p>--Muito, muito, meu caro Alvaro!... Tu hontem não falavas assim...</p>
+
+<p>--Tambem meu pae não amava a formosura de minha <span class='pagenum'> 98 </span> mãe, antes de
+conhece'-la... A virtude é como a virgem, que um homem estragado vê na
+vertigem de uma orgia, mas não póde ama'-la sem approximar-se realmente
+do original d'essa sombra phantastica. Sabe meu pae o que eu amo em
+padre Antonio? É a transparencia d'aquella face, que deixa vêr um bello
+coração. Amo-lhe a paz, a firmeza, a confiança com que censura os
+crimes, sem irritar o amor proprio do criminoso. Amo-lhe a independencia
+com que falla, e a soberania com que responde. Parece que Deus o manda
+falar! É um bello caracter! A sociedade, se conhecesse este homem,
+adorava-o!</p>
+
+<p>O jubilo de Gonçalo da Silveira era um delirio. Parece que lhe não
+ouvira as ultimas palavras. A emoção sublimára-se até ás lagrimas.
+Alvaro tocado por uma scena, que nunca elle se julgára capaz de
+estimular, recebera seu pae nos braços, com vehemencia, com transporte,
+com amor de filho, sentimento para elle novo!</p>
+
+
+<h3>XIII</h3>
+
+<p>Do abalo á conversão vae um grande espaço, eriçado de espinhos, que,
+primeiro, medram nas lagrimas, e, no fim, se transformam em flores.</p>
+
+<p>Amar a virtude não é esposa'-la. Rainha de dois mundos, <span class='pagenum'> 99 </span> com
+formosura immortal, a sua posse custa muitos sacrificios. No estrado do
+seu throno, pisam-se as paixões do mundo. Os labios, que a saudam, devem
+ter sido abrazados pela oração contricta.</p>
+
+<p>Os olhos que a contemplam, devem ter sido manancial de lagrimas
+purificadoras das maculas hediondas do vicio.</p>
+
+<p>Mas ha muito que soffrer desde o amor á posse.</p>
+
+<p>Alvaro da Silveira enamorou-se do anjo do bem, que lhe transluzira de
+entre a nuvem com que o ministro de Deus lhe escondia um novo mundo.
+Agitára-se-lhe o sangue no coração, e, no scepticismo, a esperança, que
+é a vida do espirito. Sentia-se com mais vida, mais alentos e idéas
+novas. Aprendera a pensar. Mas o pensamento é o gerador das convicções;
+e as convicções são absolutamente um dom exclusivo da verdade; e a
+verdade é a perpetua conversação de Deus com o homem. Para Alvaro
+existia DEUS!</p>
+
+
+<h3>XIV</h3>
+
+<p>A incredulidade tem um sorriso de escarneo para estas transfigurações.
+Erma do coração, e fistulada nas entranhas pela podridão do epicurismo,
+ri-se, ri-se, ri-se como um demente a quem ninguem contesta o direito de
+rir.</p> <span class='pagenum'> 100 </span>
+
+
+<h3>XV</h3>
+
+<p>Fr. Antonio dos Anjos concluira a sua reza. Gonçalo da Silveira esperava
+anciosamente o ensejo de visita'-lo. Mal ouviu passos no quarto, entrou.
+Riam-se-lhe as feições, e pulava-lhe o coração na face. O sacerdote
+achou-se nos braços do velho pae, que soluçava expressões de
+reconhecimento.</p>
+
+<p>O padre maravilhava-se.</p>
+
+<p>--Pois a que devo eu esta commoção de agradecimentos?--perguntava elle
+enternecido.</p>
+
+<p>--Salvou meu filho!--exclamava o fidalgo, beijando-lhe as
+mãos.--Amenisou-me a velhice... Deu-me um bom fim de vida, e uma boa
+morte. Vós arrancastes meu filho do mau caminho.</p>
+
+<p>Era bem justificado o pasmo de frei Antonio! Gonçalo da Silveira
+contara-lhe o que vinha de passar com Alvaro. Exagerára, talvez, as suas
+expressões, as palavras do filho, os elogios do mestre, e as esperanças
+da sua boa alma. Frei Antonio, que não podia attribuir-se a rapida
+mudança do neophito, agradecia tacitamente a Deus o raio luminoso de
+graça que fizera baixar ao coração escuro do convertido. Depois, quando
+a commoção do contentamento serenou em Silveira, o padre, magestoso como
+um propheta, apontou para o crucifixo.</p> <span class='pagenum'> 101 </span>
+
+<p>--É alli--exclamou com uma voz vibrante e pathetica.--É alli, que v.
+exc.<sup>a</sup> deve ajoelhar e agradecer.</p>
+
+<p>Gonçalo da Silveira ajoelhou. Pouco mais atraz ajoelhára o padre.</p>
+
+<p>O lance era sublime, o que ha de mais sublime debaixo do céo. Adorar com
+mais fervor, só os anjos na presença immediata do Altissimo!</p>
+
+<p>Alvaro entrava no quarto do padre, cuja porta ficára meio aberta. Ao ver
+seu pae n'aquella postura extranha, e mais atraz, o vulto immovel do
+levita, recuou machinalmente.</p>
+
+<p>Que sentimento o fez recuar? Não saberia elle dize'-lo! Susteve-se
+irresoluto. Ergueram-se os que oravam, e ambos olhavam para a porta.
+Viram Alvaro, que parecia ceder ao pejo. Pejo! um tal sentimento nas
+faces petrificadas pelo gelo da libertinagem! Pejo no mancebo, que se
+vangloriava de um cynismo inalteravel!</p>
+
+<p>--Não quer entrar na sua casa, sr. Alvaro?--perguntou Fr. Antonio,
+collocando-se cortezmente fóra da porta do quarto.</p>
+
+<p>--Vim perturba'-lo...--murmurou Alvaro, hesitando entrar.</p>
+
+<p>--Não era possivel...--O espirito quanto mais se avisinha de Deus, menos
+cede ás perturbações... Nós oravamos com fé, e ardor. E, demais, a
+entrada de v. exc.<sup>a</sup> não podia distrair-nos para mal.</p>
+
+<p>Alvaro tinha entrado.</p>
+
+<p>Agitou-se uma conversação variada entre as tres pessoas. Fr. Antonio,
+que vivera na casa do agricultor nas <span class='pagenum'> 102 </span> provincias do norte,
+falava de agricultura. Gonçalo parecia versado n'este ramo, e applaudia
+os melhoramentos, a que elle devia um duplicado rendimento das suas
+grandes propriedades. Alvaro escutava, pela primeira vez, um discurso
+serio, especialmente sobre agricultura, que elle ignorava desde a
+estação das sementeiras á das colheitas. E não parecia enfastiado, com
+quanto guardasse um justificado silencio na materia.</p>
+
+<p>Era já outra a conversa. Frei Antonio estudava a maneira de entreter a
+attenção do discipulo. Falou d'esta litteratura amena, que se tornou
+universal por ser perigosa, por ser destruidora dos costumes, e dos
+estudos sérios. Falou de romances, como falaria de livros canonicos.</p>
+
+<p>Conhecia-os como um vigilante examinador da origem da immoralidade.
+Alvaro conhecia alguns e honrava-os com a posse privilegiada de uma
+pequena estante que decorava no seu quarto. Fr. Antonio reparava nas
+encadernações de marroquim douradas, e nos titulos com que os
+licenciosos <i>Paulo de Kock</i> e <i>Pigault Lebrun</i> assignalaram os seus
+thesouros de libertinagem, escandalos da prevertida arte de imprimir.</p>
+
+<p>Alvaro que não podia impugnar os argumentos do padre, e tivera a
+louvavel modestia de ouvi'-lo apenas, não quiz deixar-lhe plena gloria
+de triumpho, sem uma observação que elle julgava um golpe certeiro:</p>
+
+<p>--Mas sua sobrinha--diz elle--é romantica...</p>
+
+<p>--Que é ser minha sobrinha romantica?--atalhou o padre, sorrindo.</p> <span class='pagenum'>
+103 </span>
+
+<p>--Lê romances, escreve romances, pensa como nos romances... emfim, não
+vive, nem pensa, nem fala como a maior parte das mulheres...</p>
+
+<p>--Ora ahi está uma definição de mestre!--disse o padre, soltando uma
+risada que parecia um motejo, se não fosse sua.--O romancista deve ser
+uma coisa bem extraordinaria!--proseguiu elle, batendo levemente no
+hombro do discipulo.--Quem me parece romantico, segundo a arte, é v.
+exc.<sup>a</sup>, sr. Alvaro.</p>
+
+<p>--Eu!?--interrompeu Alvaro com innocente admiração.</p>
+
+<p>--Sim, meu caro senhor. Não póde assim fazer-se uma idéa tão singular de
+uma pobre rapariga, sem contempla-la pelos olhos de uma imaginação
+maravilhosa! Minha sobrinha é uma artista que trabalha muito para
+sustentar-se, e vestir-se. Ora isto é muito positivo, muito trivial,
+muito commum com a vida do pobres, onde nunca entrou a palavra romance.
+Minha sobrinha nas horas furtadas ao trabalho, lê os livros que eu
+escolhi para a sua cultura espiritual, mas todos elles conselheiros da
+virtude, da probidade, da paciencia, e do temor de Deus. A sciencia
+profana, que eu affeiçoei ás necessidades do seu espirito, é muito
+pouca, porque, se fosse muita, seria um desperdicio de tempo, e de
+canceira inutil. A sciencia de ser boa filha, boa esposa e boa mãe,
+limita-se a muito poucas regras; e uma mulher não precisa outra
+sciencia. Minha sobrinha não leu ainda romances. Sabe que existem
+enredos torpes, escriptos em bella linguagem, como os cadaveres fetidos
+envoltos <span class='pagenum'> 104 </span> nos velludos prateados da eça; mas os seus dedos não
+levantaram ainda esse envoltorio de podridão. Minha sobrinha fala esta
+linguagem, senão geral, a melhor que os filhos podem aprender para
+falarem a seus paes, porque minha sobrinha conhece apenas o metal de voz
+de sua familia... É isto que v. ex.<sup>a</sup> chama «mulher romantica?»</p>
+
+<p>Alvaro demorou a resposta.</p>
+
+<p>--Eu pensava--balbuciou elle--outra cousa... O mundo engana-se muito nos
+seus juizos.</p>
+
+<p>--Pois--tornou o padre com tristeza--que juizos são os do mundo a
+respeito d'ella?</p>
+
+<p>--Eu lhe digo... O mundo chama romantica uma mulher, como muitas
+mulheres, que os romances nos pintam. Por exemplo, uma virgem, que vive
+n'um sonho continuado; que vê anjos onde as mulheres prosaicas não vêem
+nada; que scisma em continuas tristezas, ao lado dos que vivem n'uma
+continua gargalhada; que busca a solidão, encosta a face pallida á mão
+direita, como a estatua da melancolia, e se devora incessantemente sem
+poder explicar o motivo por que se devora. É o ideal que a mata; é a
+febre d'uma paixão indefinivel que a consome, é a esperança de um sonho,
+de que não acorda; é finalmente, a poesia, o romantismo.</p>
+
+<p>Frei Antonio ouvira religiosamente este harmonico de palavras, que
+algumas vezes lhe pareceram desapegadas, e vasias de sentido.
+Respeitador das conveniencias, fez calar a verdade austera, que o
+mandava pedir uma definição logica de todo aquelle espiritualismo, de
+toda <span class='pagenum'> 105 </span> aquella linguagem refolhuda. Absteve-se da sua
+auctoridade, e transigiu discretamente.</p>
+
+<p>--Serão esses--diz elle--os predicados da mulher romantica; mas o que eu
+posso conscienciosamente asseverar a v. ex.<sup>a</sup>, é que minha sobrinha está
+tão longe de ser romantica, quão longe de compreender a definição que o
+meu amigo acaba de dar.</p>
+
+
+<h3>XVI</h3>
+
+<p>Duas occorrencias vieram interromper a pratica: um creado, entregando
+uma carta a frei Antonio dos Anjos; outro participando a chegada do sr.
+conde de ***, que procurava Alvaro da Silveira. Este fez um gesto de
+enfado, e saíu. Aquelle, pediu licença, e abriu a carta. Gonçalo da
+Silveira retirou-se menos alegre, mas esperançado na mudança de seu
+filho.</p>
+
+<p>Em quanto o padre lê a carta, entremos no quarto de Alvaro.</p>
+
+
+<h3>XVII</h3>
+
+<p>O conde de *** era um homem de trinta annos, typo de galhardia na
+libertinagem, esbelto, gentil, apesar <span class='pagenum'> 106 </span> de resequido, na face,
+por certa aridez da dissolução, que requeima o corpo, ao passo que o
+viço da alma vae fenecendo.</p>
+
+<p>O açor, pairando sobre a avesinha desprevenida, apenas viu que um rapaz
+de quinze annos transpozera o limiar do grande mundo, abateu o vôo,
+aferrou-o com as garras das paixões licenciosas, e desappareceu com a
+presa através de uma atmosphera, onde o veneno se respirava pelo filtro
+do prazer. Alvaro da Silveira foi a presa.</p>
+
+<p>Muitos dos mais apontados em certa sociedade libertina de Lisboa, mescla
+de beaterio, hypocrisia, e despejo, quando viram Alvaro da Silveira
+ligado ao conde de ***, disseram: «está perdido!» E quem o não diria?</p>
+
+<p>O conde tinha uma instrucção mediana, que puzera ao serviço da sua
+immoralidade. No seu principio, quando a favor do seu nascimento, era
+bem recebido nos salões de Lisboa, o conde insultava graciosamente a sã
+religião e a piedade. Lera com pertinacia alguns d'esses livros immoraes
+e grosseiros aos vinte annos, para grangear um bom cabedal de motejos
+contra a religião, e emancipar-se com elles de uma leitura a que
+sacrificava as longas horas da noite, como um sobrinho que se violenta,
+em noite de orgia, a ficar em casa com o velho tio, porque é esse o
+preço de uma herança, que deve, á farta, indemnisa'-lo depois.</p>
+
+<p>Aos vinte e cinco annos sabia tudo quanto era preciso para insultar a
+Deus em nome de uma sciencia impia. <span class='pagenum'> 107 </span> Apostolo infatigavel da
+immoralidade, não respeitava sexo, nem edade, quando vibrava a ironia,
+pungente como uma frecha de fogo, ao seio da moral christã. A donzellas,
+a mães, a creanças, a velhas, a religiosas, e a devassas falava sempre
+no mesmo estylo. Se acontecia ser mal recebido, assumia uma auctoridade
+pedagogica, dava-se um ar de respeito, e justificava o que dissera em
+tom de mofa discursando contra o christianismo que elle dizia sepultado
+para sempre no tumulo que lhe abrira a sciencia.</p>
+
+<p>Alvaro da Silveira descreu espontaneamente. Não deu trabalho ao
+companheiro, nem quiz profundar uma questão que lhe não importava. A
+negação formal era a ultima palavra da impiedade constituida em
+sciencia. A Alvaro bastava-lhe saber essa ultima palavra.</p>
+
+<p>Todavia, a assiduidade da companhia, e o habito de escutar o seu amigo
+em polemicas, animadas pela fé de uma parte, e da outra pelo orgulho,
+deixaram-lhe uma tintura scientifica de atheismo.</p>
+
+<p>Alvaro não recebera de seus paes educação religiosa. Esta falta
+desmentia a classe d'onde viera. A jerarchia dos brazões em Portugal,
+com quanto viciosa, parece gloriar-se com o seu privilegio de fé, e de
+virtudes christãs... <i>extra-muros</i>. A educação ahi é mais religiosa que
+scientifica: é mais para Deus que para o mundo. Não é milagre encontrar
+cá fóra o representante de oito seculos de heroes virtuosos e bravos,
+enxovalhando-se na lama das covardias e das torpezas: mas raro
+encontrareis no colo materno, uma creança de sangue <i>illustre</i>, <span class='pagenum'> 108
+</span> como lá se diz, cuja primeira palavra articulada não seja DEUS.</p>
+
+<p>Alvaro da Silveira era uma excepção; o instrumento--quem sabe?--de um
+acto providencial.</p>
+
+
+<h3>XVIII</h3>
+
+<p>Os esplendidos festins da depravação não se fechavam para alguem. Ponto
+era que o conviva fosse bem apresentado, e fechasse os labios da critica
+com mordaça de ouro. Já sabeis que Alvaro era rico, e quem o levou pela
+mão até o ultimo degrau da escada da immoralidade, fôra um conde tão
+rico e tão nobre como elle.</p>
+
+<p>Este homem pavoneava-se de ter conquistado um nome, que exprimia uma
+seita. Chamavam-lhe cynico, e elle gloriava-se do nome. A sociedade
+nunca o maltratára, mas elle dizia que tinha uma vingança solemne a
+tirar da sociedade. Algoz da honra de muitas familias, a sua guilhotina
+era a calumnia, quando não podia mostrar as mãos salpicadas do sangue
+das victimas. Velava alta noite a porta de um amigo, que o recebera de
+dia, para que os passageiros, ao ve'-lo, o considerassem amante de sua
+irmã. Quando o murmurio do descredito chegava aos ouvidos do pae, que
+rejeitava a mão de um traidor que o visitava, o conde não tinha duvida
+<span class='pagenum'> 109 </span> em offerecer galhardamente a esse pae uma pistola, ou um
+florete. Se o ancião recuava diante da morte, ou da idéa do abandono em
+que ficava sua familia, o cynico ria-se-lhe na face, e chamava-lhe
+<i>cobarde</i> nas praças, ou nos salões.</p>
+
+<p>Assim como conduzira pela mão Alvaro da Silveira ás bachanaes, mais de
+uma virgem fôra conduzida por elle á ultima estação da licença. E,
+depois, o maldito de Deus, e dos homens, aprazia-se de contemplar o
+desenfreamento d'essas mulheres, como se fossem feras, restituidas á sua
+liberdade.</p>
+
+<p>Estas linhas, esboçadas á pressa e com repugnancia, traçam a physionomia
+moral do conde que entrára para o quarto de Alvaro da Silveira.</p>
+
+
+<h3>XIX</h3>
+
+<p>A carta que Frei Antonio recebera, era de sua sobrinha. Era este o seu
+conteudo:</p>
+
+<p>«Pedi licença a meus paes para escrever-lhe, meu caro tio, e sorriram á
+minha supplica. Como não pude adormecer a noite passada, trabalhei e
+conclui a ultima encommenda de flôres que tinha. Graças ao Senhor, já
+vieram novas encommendas; mas eu sinto-me fatigada dos braços, e não
+posso continuar. No espirito sinto eu <span class='pagenum'> 110 </span> muita vida, e não posso
+nem quero vencer esta consoladora força que o impelle para meu tio.
+Penso que o não verei hoje; mas... cedi agora á maneira commum de se
+exprimir a gente... eu vejo meu tio em todos os instantes e logares...
+Deixa-me escrever uma verdade, que não teria forças de dizer-lhe?...
+Deus quer que meu tio seja o prisma por onde eu devo contempla'-lo. Será
+isto uma fraqueza de razão, ou uma liberdade peccaminosa? Peccado seria
+eu calar este pensamento, que o meu querido mestre pode repreender.</p>
+
+<p>«Estou triste, como ha pouco. Eu adivinho alguma infelicidade. Sinto-me
+com tanta coragem para ella!... Mas a natureza humana, e especialmente o
+espirito da mulher, e especialmente o meu espirito, é muito fraco.
+Espero tanto em Deus!... tanto em Maria Santissima!... e parece que uma
+voz, nem humana, nem divina, me diz que fuja, que trema, que recue ao
+combate do infortunio contra a paciencia! Muito triste é isto, meu caro
+tio! A minha vida tem faltas, que eu devo expiar? Porque m'as não dizem,
+se me amam?!</p>
+
+<p>«Persigo-o muito, eu bem o sei! Não o deixo em paz, quando tão
+necessaria lhe é para estudar a grande lucta em que está empenhado! Não
+sei as forças do seu discipulo, mas eu admiro mais a conversão de Santo
+Agostinho que as victorias de Alexandre. Aqui estou eu a fazer-me
+vaidosa e sabia diante de meu tio, que tambem conhece a minha humilde
+ignorancia!... É que estou affeita a conversarmos como escrevo.</p>
+
+<p>«E a minha melancolia? E os meus versos? Nem me <span class='pagenum'> 111 </span> disse se
+tinham as syllabas todas, ou quantas deviam ter mais! Nem valia a
+pena... Adeus, meu extremoso amigo! Meu pae, e minha mãe, e meus irmãos
+estão muito saudosos. Não se esqueça um instante da sua familia que o
+ama tanto como a sua sobrinha</p>
+
+<p class="direita"><i>Maria.</i>»</p>
+
+<p>--Coitadinha!...--murmurou padre Antonio, dobrando a carta--És um anjo!</p>
+
+
+<h3>XX</h3>
+
+<p>O conde tomára uma postura comica de pasmo, quando Alvaro entrou no
+quarto. Alguma cousa o impressionára; mas em homens taes as impressões
+são fugitivas, e frouxas, porque não ha ahi enthusiasmo, nem grandeza
+n'essas almas caídas do sublime para o raso dos sentimentos grosseiros e
+triviaes.</p>
+
+<p>O procedimento do seu amigo devia maravilha'-lo. Era extraordinario!
+Apenas entrou no quarto, Alvaro extendera-lhe friamente a mão, e
+mandára-o sentar-se com um gesto, muito significativo de fastio. Que o
+hospede lhe era aborrecido, bem o denunciava elle no franzir da testa,
+onde por força vem á luz da physionomia <span class='pagenum'> 112 </span> sentimentos que a
+delicadeza quizera algumas vezes abafar.</p>
+
+<p>--Doe-te a cabeça?--perguntou o conde.</p>
+
+<p>--Não... doe-me o espirito--respondeu Alvaro.</p>
+
+<p>--As dôres do espirito, matam-se com <i>espirito</i>... mas é de vinho...
+Bebe... Obriga a materia a pensar de outra maneira, como diz <i>Rousseau</i>.</p>
+
+<p>--E diz <i>Rousseau</i> que a materia pensa?--perguntou Alvaro, com um
+sorriso motejador.</p>
+
+<p>--Que duvida!... A materia organisada, chamada homem, é uma cousa que
+pensa. Quando pensa mal, isto é, quando nos apoquenta, modifica-se a
+materia, imprimindo lhe uma acção nova. A maneira de modifica'-la é
+simplicissima. Disseste que estavas triste, não é verdade?</p>
+
+<p>--Sim.</p>
+
+<p>--Pois bem: bebe cognac, come fiambre, afoga-o em vinho de Setubal, que
+é de mais a mais um triumpho patriotico sobre o <i>Champagne e Bordeus</i>.
+Seja o que fôr o bolo alimenticio, que alojas no estomago, é materia:
+esta, posta em contacto com a materia que pensa, altera-a; e d'esta
+alteração chimica e physiologica resulta um novo ser pensante, uma
+solemne pirraça á tristeza.</p>
+
+<p>O conde esperava merecer uma risada com a sua dissaborida theoria. Foi
+para elle uma segunda surpresa o silencio de Alvaro da Silveira. N'este
+silencio transparecia o desprezo a que nos movem as chufas desengraçadas
+de um truão, <i>invita Minerva</i>, que nos noja, quando pensa recrear-nos. O
+conde não estava affeito <span class='pagenum'> 113 </span> a estas decepções. O orgulho doía-se.
+Alvaro seria o ultimo de quem elle devia esperar um mau acolhimento.</p>
+
+<p>--Agora vejo eu--disse elle contrafazendo o pejo, que mais acertadamente
+chamariamos <i>despejo</i>.--Agora vejo eu, que o teu cerebro de hoje
+conspira contra a tua felicidade de hontem... que tens tu, mancebo
+gentil? A brisa da noite desfolhou-te a rosa, que te embalsamava o
+olphato do coração? Sonhaste alguma virgem de olhos garços, que não
+pudeste realizar em materia corrente e sonante n'estes reinos?</p>
+
+<p>Alvaro, nem um sorriso! Era demais para <i>tanto espirito</i>! O conde só
+agora compreendeu que os seus ditos causticavam a paciencia do
+discipulo. Este, apesar de molestado, não queria ser incivil. O
+predominio do conde sobre o seu genio não estava inteiramente extincto.
+Era-lhe necessario justificar-se de algum modo. Qualquer evasiva podia
+servir-lhe; mas a transfiguração do seu caracter, n'aquelle momento, não
+lhe permittia uma mentira. Bem podera Alvaro queixar-se de um
+padecimento physico, e tinha bem justificada a sua indolencia para as
+caricias folgazãs do conde; mas não o fez assim, e, se consultarmos o
+coração humano, ouviremos um applauso á franqueza que depois ostentava
+Alvaro. É que, se, por ventura, um sentimento novo acorda em nós desejos
+bons, o primeiro d'esses desejos é communicar aos outros uma felicidade,
+que tanto menos egoista, tanto mais perfeita se nos afigura. A passagem
+da indifferença para a observancia da religião revela-se sempre com
+esses symptomas. O zelo de um neophito manifesta-se <span class='pagenum'> 114 </span> mais
+corajoso e ardente que o apostolado de um orador feito, e encanecido em
+desalojar a impiedade dos seus ultimos reductos. E depois, no espirito
+illuminado pela effusão rapida e imperceptivel da graça divina, ha um
+desejo forte, uma vaidade santa de attrair espiritos contumazes, de
+curvar os joelhos arrogantes, e de vencer razões, cuja pertinacia nos
+parece impossivel na presença dos argumentos que humilharam a nossa. O
+que então se dá na alma é uma paixão sublime. A eloquencia do que fala,
+convicto de verdades que lhe promettem uma aspiração immortal, parece um
+emprestimo da linguagem dos anjos. Ei'-los ahi, de repente, credulos, os
+apostolos, que extendiam ha pouco as redes no lago de Gethsemani, e
+surgem agora entre os interpretes da lei, nas praças da Galiléa, falando
+linguas que nunca ouviram.</p>
+
+
+<h3>XXI</h3>
+
+<p>Alvaro da Silveira sentira-se capaz de converter um impio. Ha pouco
+ainda, balbuciára as primeiras palavras de fé, e crê-se já robusto para
+vibrar a funda contra o gigante do materialismo cuja arrogancia não
+vencem forças de homem, sem o impulso divino, que arrojára a pedra que
+prostrou o gigante philisteu.</p>
+
+<p>--Que tens tu?--repetiu o conde.</p> <span class='pagenum'> 115 </span>
+
+<p>--O que eu tenho--respondeu Alvaro--é o desejo de um amigo; mas queria
+um amigo, que nascesse n'este momento, e n'um momento me comprehendesse.
+Não podes avaliar-me, conde. Se pudesses, ser-te-hia bastante uma só
+palavra...</p>
+
+<p>--Pois bem--replicou o conde--diz ao menos essa palavra... ou diz sequer
+tres palavras conceituosas como as de Cesar...</p>
+
+<p>--Ora attende-me. Tendo nós vivido sempre juntos nunca me persuadi que
+pudesse estar tão longe de ti como estou agora.</p>
+
+<p>--Serás tu romantico?! atalhou o conde dando-se uns ares grutescos de
+espanto.</p>
+
+<p>--Se ouvisses--tornou Alvaro sorrindo--a definição que ha pouco ouvi do
+que é ser romantico, e se concordasses com ella, respondia-te que estava
+romantico.</p>
+
+<p>--Pois quem anda cá por casa a dar definições? Teu pae deu agora n'essa?</p>
+
+<p>--Não foi meu pae... Meu pae o que soube foi definir a minha posição.</p>
+
+<p>--Apre! Estás mysterioso como o boi Apis! Vou-me embora, que não sei ler
+geroglyphos humanos. Palavra de honra! Soletra lá o conceito d'essa
+charada, do contrario vou-te mandar preparar quarto na enfermaria de S.
+José.</p>
+
+<p>--Então queres saber quem define os homens e as cousas cá em casa?</p>
+
+<p>--Quero conhecer esse escolastico; deve ser um monstro de paciencia
+humana!</p> <span class='pagenum'> 116 </span>
+
+<p>--É um padre!</p>
+
+<p>--Um padre? exclamou o conde, erguendo-se, e apertando as mãos á
+cabeça--um padre em casa de Alvaro da Silveira! Malagrida em 1844 a
+fazer exercicios espirituaes contra os exercicios da materia!...</p>
+
+
+<h3>XXII</h3>
+
+<p>N'este momento, abriu-se a porta do quarto. Os que a abriram eram o pae
+de Alvaro, e fr. Antonio dos Anjos.</p>
+
+<p>A presença do sacerdote devia augmentar o pasmo comico do conde; mas a
+impressão foi diversa. Este homem do grande mundo perdia muito da sua
+altivez sarcastica, se não tinha em redor de si um rancho que lhe
+applaudisse as chufas. A unica pessoa de sua confiança, n'aquelle
+momento, era Alvaro, mas este apostata do «grande tom» não era hoje o
+homem de hontem. E, por tanto, o desenvolto conde na presença do padre
+sentiu-se embaraçado, como devera sentir-se o padre na presença de tres
+cavalheiros da força moral do conde.</p>
+
+<p>Frei Antonio dirigiu sua humilde saudação ao cavalheiro, que não
+conhecia. Alvaro apresentando-lh'o, disse:</p>
+
+<p>--Tenho a honra de lhe apresentar o meu amigo conde <span class='pagenum'> 117 </span> de ***. É
+mais velho do que eu, mas posso dizer affoutamente que sabe menos do que
+eu da verdadeira sciencia.</p>
+
+<p>--A verdadeira sciencia--disse o padre--é um exclusivo de Deus, e não
+tem academias cá na terra.</p>
+
+<p>--Concordo absolutamente na negativa--disse emphaticamente o conde.</p>
+
+<p>--Então em que é que concordas? perguntou Alvaro.</p>
+
+<p>--Em que não se sabe nada a respeito da verdadeira sciencia.</p>
+
+<p>--E em que é que não concorda, senhor?--interrompeu frei Antonio, com
+risonha benevolencia.</p>
+
+<p>--No exclusivo divino em que vossa reverendissima monopolisa a
+sciencia--responde o conde sorrindo sardonicamente á palavra
+reverendissima.</p>
+
+<p>--Não me parecem respeitosas as palavras da resposta--retorquiu o
+padre--mas nem por isso hesitarei em fazer-me comprehender melhor, para
+depois avaliar a opinião de v. ex.<sup>a</sup>. Quando eu disse que a verdadeira
+sciencia era um exclusivo de Deus, poderia fazer-me entender melhor se
+dissesse que o objecto do estudo que promettia consequencias seguras de
+principios certos, é Deus. Se v. ex.<sup>a</sup> quizer insistir na primeira
+intelligencia que deu ás minhas palavras «que a verdadeira sciencia é um
+exclusivo da divindade, porque só Deus é omnipotente...»</p>
+
+<p>--Assim reza a cartilha do padre Ignacio--interrompeu o conde com
+acatamento ironico.</p>
+
+<p>--É verdade--replicou o padre--a cartilha do padre <span class='pagenum'> 118 </span> Ignacio,
+que v. ex.<sup>a</sup> citou em ar de mofa, assim o diz e deve dize-'lo, porque
+essa cartilha, por onde estudam os meninos, contém as verdades eternas
+como ellas foram recebidas pelos sabios e illustrados doutores da
+egreja. E como é possivel que não sôe bem aos ouvidos de v. ex.<sup>a</sup> esta
+minha linguagem, buscada de emprestimo na cartilha do padre Ignacio, eu
+não poderei, falando-lhe a sciencia de Deus, empregar os termos que a
+falsa philosophia emprega contra Deus.</p>
+
+<p>--V. s.<sup>a</sup> faz uma grave injustiça á philosophia. Sem a philosophia--disse
+o conde, assumindo um ar de séria profundidade--sem a philosophia não
+poderiam os padres da seita christã seduzir o espirito dos homens, a
+ponto de convencer alguns menos reflectidos, da divindade do
+christianismo.</p>
+
+<p>--E por tanto--acudiu o padre--deixe-me v. ex.<sup>a</sup> concluir que a
+philosophia é uma mentira, por isso que os padres da seita christã, como
+v. ex.<sup>a</sup> gratuitamente appelida a egreja catholica, se serviram d'ella
+astuciosamente para convencer os menos reflectidos. Ora pergunto eu
+agora, quaes são os mais reflectidos?</p>
+
+<p>--São os que vêem as cousas pelos olhos de uma rasão illustrada!</p>
+
+<p>--Mas a rasão illustrada não é a philosophia?</p>
+
+<p>-É.</p>
+
+<p>--Logo a rasão illustrada é uma mentira, por isso que a philosophia é
+uma mentira, que seduz os menos reflectidos a julgarem divino, o que não
+passa de uma humana impostura. Póde v. ex.<sup>a</sup> elucidar-me n'esta grave
+<span class='pagenum'> 119 </span> questão, que não vem resolvida na cartilha do mestre Ignacio?</p>
+
+<p>O conde embaraçado, e surprehendido pela argumentação escolastica do
+padre, parecia engasgar-se n'uma resposta, cuja frivolidade lhe estava
+bem denunciada no rubor que lhe subia á face. Este rubor era a
+arrogancia despeitada. Frei Antonio, repeso de assolar tão cedo o fragil
+edificio do seu adversario, remediou o mal que, segundo a sua humildade,
+tinha feito, dando elle proprio a mão ao fraco contendor.</p>
+
+<p>--Estou como v. ex.<sup>a</sup> persuadido--disse elle--que ha uma philosophia á
+qual faria grave injustiça, se não dissesse que muito lhe devemos por
+nos ter aplanado algumas difficuldades em sciencia. Estas difficuldades
+vencidas serviram a causa de Deus, e confirmaram verdades claras que a
+razão humana julgára mysterios. Citar-lhe-ei um exemplo. Ha um seculo
+escreveu-se contra o christianismo, e disse-se que a religião assim
+chamada era um encadeamento de embustes desde Moysés até Jesus Christo,
+desde o Genesis até o Evangelho. Os que assim escreviam eram
+philosophos, sr. conde?</p>
+
+<p>--De certo, porque os que assim escreveram foram Voltaire, d'Alembert,
+Holbac...</p>
+
+<p>--E outros muitos que não é força citar. Pois, senhor, esses reputados
+philosophos disseram que Moysés era uma impostura, por isso que a
+philosophia não podia consentir que a relação dos successos da creação
+do mundo, descripta no Genesis, fosse verdadeira. Passados annos, as
+academias scientificas, <span class='pagenum'> 120 </span> especialmente a sociedade de Calecut,
+expressamente organisada para testificar ou destruir o testemunho de
+Moysés, declara que é impossivel compreender a cosmogonia, isto é, a
+formação do mundo, sem admittir as infalliveis bases de sciencia,
+escriptas ha cinco mil annos nos livros do povo hebreu. Agora pergunto
+eu se devemos julgar philosophos os primeiros que negaram Moysés, ou os
+segundos, que, partindo das veredas da incredulidade para o caminho
+recto da sciencia, declararam, após cem annos de progresso em sciencias
+naturaes, que a narração do Genesis era a unica admissivel em verdadeira
+philosophia. Se acreditamos os primeiros a sciencia é uma mentira, por
+isso que tanto mais progride tanto mais se afasta da verdade. Se
+acreditamos os segundos, os primeiros eram os mentirosos, e por tanto eu
+proclamarei a philosophia progressiva como aquella que conduz ao
+conhecimento de Deus, tanto quanto é possivel ás indagações da limitada
+razão do homem.</p>
+
+<p>--A razão do homem não é limitada--retorquiu o conde.--Á razão do homem
+é que devemos o vasto terreno da sciencia, grangeado pelos esforços
+d'esses homens que conquistaram verdades axiomaticas, sem as armas do
+Evangelho, e sem as esterilisadoras argucias da theologia. A razão do
+homem é amplissima e immensa com Deus, porque Deus é a razão.</p>
+
+<p>--Não estamos já na questão que discutimos--tornou o padre.--V. ex.<sup>a</sup>
+devia destruir os meus argumentos, provando-me que os verdadeiros
+philosophos eram os do seculo passado que desthronaram Moysés do seu
+prestigio <span class='pagenum'> 121 </span> de legislador inspirado directamente de Deus. Devia
+provar-me que a sciencia moderna, restaurando as tradições da historia
+antiga, e restituindo Moysés ao patriarchado das primitivas verdades,
+era uma nova impostura, ou a continuação d'aquella sordida ignorancia
+que Voltaire combateu triumphantemente, segundo a maneira por que v.
+ex.<sup>a</sup> vê as cousas. E, estando eu muito convencido da impossibilidade que
+v. ex.<sup>a</sup> ha de encontrar em provar-me as theses que lhe apontei, vou
+responder á apologia que fez á razão do homem.</p>
+
+<p>Não ha duvida que a razão humana procura todos os dias tirar, em
+sciencia, novas consequencias de velhos principios; e effectivamente
+esse incansavel trabalho do espirito humano, ancioso de progredir, tem
+conseguido tudo isto que nos maravilha nas sciencias e nas artes. Já vê
+v. ex.<sup>a</sup> que eu concedo grandes fóros, e sublimes honras á razão; mas, já
+que tão opulenta a considero, não terei escrupulo em pedir-lhe que me
+explique os principios de que ella tira as suas consequencias
+scientificas. Pedirei aos chimicos, que me expliquem o seu grande
+principio axiomatico da «affinidade». Responde-me v. ex.<sup>a</sup> em nome
+d'elles?</p>
+
+<p>--Eu de certo não, porque ninguem soube dizer o que era affinidade.</p>
+
+<p>--Não é tanto assim. Os chimicos dizem que a affinidade é a força que
+attráe as moleculas de differente natureza. Respondem assim, porque
+observaram a combinação d'essas moleculas; mas queria eu que me fosse
+explicada a natureza d'essa força, o segredo d'esse movimento <span class='pagenum'> 122 </span>
+de corpos inertes, sem que a mão do homem lhe imprima tal movimento. É a
+«attracção» dizem os physicos, mas o que é a attracção? D'onde vem a
+força impulsiva que faz girar o globo que habitamos em redor de um outro
+globo, que não conhecemos?</p>
+
+<p>--Não temos precisão de conhecer até á evidencia esses segredos da
+creação.</p>
+
+<p>--Mas v. ex.<sup>a</sup> concede que o Creador não os ignora?</p>
+
+<p>--Seria um absurdo não o conceder.</p>
+
+<p>--E a razão humana não póde conhece'-los?</p>
+
+<p>--Já disse que não.</p>
+
+<p>--Mas v. ex.<sup>a</sup> disse que Deus é a razão humana! Eu sinto grandes
+difficuldades em combinar a sua these com as consequencias que se tiram
+d'ella. Se a razão humana é Deus, o homem é forçosamente divino pela
+celeste razão que o illumina. Se o homem, com a sua razão, não póde
+profundar os segredos da creação, eu não posso conceder que Deus, pelo
+facto de modificar-se em «razão» unindo-se á humanidade, reservasse para
+si certos mysterios como «Deus», e cedesse a si proprio o conhecimento
+de certas e determinadas verdades como «razão.»</p>
+
+<p>--Não combinamos em principios, meu caro senhor, e d'ahi vem a
+desintelligencia em que estamos nas consequencias. Eu vou explicar-me
+com clareza: Eu digo que a razão do homem é uma emanação de Deus.</p>
+
+<p>--Mas eu não entendo, sr. conde, o que é, e como se opera essa emanação
+de Deus. Deus é indivisivel; Deus é inalteravel; Deus é immutavel. Não
+posso, por <span class='pagenum'> 123 </span> mais abstractas que sejam as minhas intuições,
+imaginar que a emanação de Deus não seja uma parte de Deus; e, por
+tanto, não concebo como essa parte seja substancialmente diversa do
+todo. Deus considerado em si, segundo v. ex.<sup>a</sup>, é omnisciente, e vê os
+segredos da sua obra: Deus, convertido em razão pelo effeito da
+emanação, segundo os mesmos principios, perde os attributos de Deus
+omnisciente, e restringe-se ao conhecimento de algumas verdades, por
+meio das quaes é impossivel conhecer os mysterios, que ha perto de seis
+mil annos, os homens debalde tentam descortinar.</p>
+
+<p>--Pois v. s.<sup>a</sup> não admitte que todo o ser creado é uma emanação de Deus?</p>
+
+<p>--Não, senhor, não admitto.</p>
+
+<p>--Essa é boa! Pois a creação não é uma producção de Deus?</p>
+
+<p>--E a producção é por ventura uma emanação? A estatua de barro que sáe
+das mãos do esculptor é uma emanação de esculptor? Deus incorporeo
+poderia materialisar-se nas massas inertes, que foram producto de sua
+omnipotencia, tanto como o homem que foi feito á sua imagem?</p>
+
+<p>--Ahi está um grande embaraço para mim. Não comprehendo como o homem
+corporeo foi feito pelo modelo de Deus incorporeo.</p>
+
+<p>--A imagem de Deus, sr. conde, é a alma, não é o involucro material da
+alma. Memoria, vontade, intelligencia são os traços d'essa physionomia
+espiritual affeiçoada pelo typo divino. Attribuimos á memoria tudo o
+<span class='pagenum'> 124 </span> que sabemos, diz S. Bernardo, posto que esta sciencia não seja
+a causa de nossos pensamentos; attribuimos á intelligencia, e algumas
+vezes á memoria, tudo o que o pensamento nos mostra verdadeiro;
+imputamos á operação da vontade tudo o que reconhecemos ser bom e
+verdadeiro pelo soccorro da intelligencia. A memoria nos assemelha ao
+Pae, a intelligencia ao filho, a vontade ao Espirito Santo. Seja-me
+permittido citar Santo Ambrosio, em quanto v. ex.<sup>a</sup> invoca os textos de
+Voltaire. «Do mesmo modo que Deus, diz elle, creador do homem á sua
+semelhança, é caridoso bom e justo, doce e soffredor, puro e
+misericordioso... assim o homem foi creado para possuir a caridade, ser
+bom e justo, doce e paciente, puro e misericordioso. Quanto mais o homem
+sente em si essas virtudes, mais se approxima de Deus, e mais semelhança
+tem com elle. Mas, se ulcerado pelo crime e pelo vicio, elle se afasta e
+degenera d'esta nobre semelhança com o seu Creador, descerá á realidade
+d'estas palavras escriptas em predicção bem desgraçada: «O homem não
+compreendeu a sua elevada posição; comparou-se aos irracionaes, e
+assemelhou-se a elles.»</p>
+
+<p>--Parece-me muito metaphysica a sua explicação, sr. padre. Eu gosto da
+geometria em todas as demonstrações, e não admitto verdades sem
+evidencia mathematica. O seu Santo Ambrosio e S. Bernardo explicariam
+perfeitamente a semelhança do homem com o seu Creador, mas foi n'esses
+tempos em que falavam ás turbas credulas, que juravam em suas palavras
+sem entende'-los. Hoje é muito perigoso esse assumpto, e <span class='pagenum'> 125 </span> não
+me consta que desde o seculo do grande Rei, desde Bossuet até
+Frayssinous, algum orador christão torture a intelligencia do seu
+auditorio, querendo á força persuadir-lhe que o homem foi creado á
+semelhança de Deus!</p>
+
+<p>--V. ex.<sup>a</sup> não tem obrigação de ter lido tudo; mas tambem a não tem de
+calumniar Bossuet. Se a memoria não me falha, eu lhe cito as palavras
+textuaes do grande orador: «Façamos o homem; e proferidas estas
+palavras, a imagem da Trindade appareceu. Ostenta-se luminosa na
+creatura racional: semelhante ao Pae tem o ser; semelhante ao Filho tem
+a intelligencia; semelhante ao Espirito Santo tem o amor; semelhante ao
+Pae, e ao Filho, e ao Espirito Santo, tem, no seu ser, na sua
+intelligencia, e no seu amor uma mesma felicidade, uma mesma vida. Feliz
+creatura, e verdadeiramente semelhante, se ella se occupa unicamente
+d'elle! Então, perfeita no seu ser, na sua intelligencia, e no seu amor,
+conhece quanto é, ama quanto conhece: seu ser e suas operações são
+inseparaveis; Deus torna-se a perfeição do seu ser; a nutrição immortal
+da sua intelligencia, e a vida do seu amor... Ditosa creatura, se sabe
+conservar a sua felicidade!»</p>
+
+<p>--Esta é a doutrina de S. Bernardo, de S. Ambrosio, de Bossuet, de
+Frayssinous, e de todos aquelles que bebem o leite da fé no seio da
+esposa de Jesus Christo.</p>
+
+<p>--Não duvido; mas não compreendo. O que eu sei é que repugna com a menos
+desenvolvida razão a semelhança espiritual do homem com Deus. Eu conheço
+homens <span class='pagenum'> 126 </span> tão degradados da honra, tão hediondos de crimes, que
+reputára-me blasphemo se os considerasse semelhantes no typo divino.</p>
+
+<p>--Ha de ter paciencia de escutar-me com a attenção de philosopho, se não
+póde prestar-me outra.--A revelação figura-nos o homem, não só como o
+mais perfeito de todos os seres animados, mas ainda como o rei da
+natureza, para o qual foram feitas todas as cousas. Por ella aprendemos
+que Deus fez o homem á sua imagem e semelhança, para que presidisse ao
+universo. Sabemos ainda que, depois de dar-lhe uma companheira, disse a
+ambos: «Crescei e multiplicae, enchei a terra da vossa posteridade,
+submettei a vossas leis tudo o que respira; pois tudo é feito para vós.»
+«Vós o fizestes senhor de todas as vossas obras!--exclama o
+psalmista--todos os entes vivos são submissos ao seu imperio, e
+destinados para seu uso.» É verdade que a escriptura varia a linguagem,
+quando lembra ao homem a sua construcção de terra, que em terra se
+tornará. Assim era necessario para suffocar os orgulhos do coração. Não
+é, porém, o longo viver sobre a terra que constitue a dignidade do
+homem. Não é sobre a terra, que a felicidade lhe sahirá ao encontro.
+Creado para Deus e para a eternidade, só no seio de Deus, e no seio da
+eternidade poderá ser feliz d'esse goso inalteravel que não se finda. É
+aqui onde começa a cadeia de objecções por parte da incredulidade. Nega
+primeiramente que o homem fosse feito á semelhança de Deus. Quem quizer,
+porém, convencer-se d'esta verdade, observe com <span class='pagenum'> 127 </span> attenção o
+modo como a alma exerce suas funcções, e o dominio que ella tem sobre o
+involucro de materia inerte, que lhe obedece: Consideremos a variedade
+infinita das nossas idéas, a rapidez com que ellas se formam, a
+communicação por intermedio da palavra, a fidelidade da nossa memoria,
+esse presentimento que raras vezes nos engana, tudo parece
+approximar-nos da suprema intelligencia, que abraça de um lance o céo e
+a terra, as passadas, as presentes e as futuras revelações da
+humanidade. A alma, quando furiosas paixões a não agitam, é capaz de
+reprimir seus desejos; de acalmar seus movimentos desordenados, de
+dirigir sua vontade, e ahi se observa uma, posto que imperfeita,
+imitação do imperio que Deus exerce sobre todos os seres. O sentimento
+que ella tem de sua immortalidade, seu olhar penetrante nas
+profundidades do futuro, e suas esperanças anciosas além do tumulo, são
+indicações do seu destino, assignalado por Deus.</p>
+
+<p>--Essa imagem de Deus--atalhou o conde--está bem degenerada; e, se o não
+está, Deus é um ente bem imperfeito.</p>
+
+<p>--Concordo--tornou o padre--que não é muito semelhante esta imagem do
+homem imperfeito com a do seu perfeito Creador; era-o, comtudo, no
+momento da creação; foi o peccado que o desfigurou. Mas se o homem
+degenerou por causa do peccado, lapso da sua innocencia primitiva, foi
+depois regenerado pelo sangue do Salvador, e, assim resgatado, tornou-se
+pela graça filho de Deus. O homem, no estado de innocencia, devia
+dominar-se, <span class='pagenum'> 128 </span> dominar as creaturas todas, e viver perfeitamente
+com Deus, seu creador. Eu quereria poder aqui especificar a substancia
+da alma, para satisfazer plenamente ás duvidas do sr. conde, mas, se eu
+posso provar que a sua espiritualidade está provada pela sua origem,
+devemos convir que tudo mais nos é desconhecido. Porque Deus soprou o
+barro que amassára, não se segue que a alma humana é uma porção de
+Divindade, como os antigos egypcios acreditavam: esta supposição
+levar-nos-ia ao pantheismo, de todos os systemas o mais insensato. Deus
+é um espirito, o espirito é indivisivel; e, recebendo cada homem no
+halito creador uma porção de Divindade, cada homem seria um Deus. O que
+devemos entender do sopro de Deus não é uma emanação da substancia, mas
+sim a creação de uma substancia semelhante, isto é, espiritual, mas
+nunca identica ao Supremo Espirito.</p>
+
+<p>--Não existe entre o corpo e essa substancia espiritual uma união
+real?--interrogou o conde.</p>
+
+<p>--Certamente, existe, porque o corpo é o instrumento de que a alma se
+serve para obter o conhecimento dos objectos.</p>
+
+<p>--Mas qual é a natureza d'essa união?</p>
+
+<p>--Essa questão não póde ser solvida pelos homens: é um mysterio
+d'aquelles em que a Divindade se manifesta com mais magestade ao debil
+entendimento da humanidade. Se, porém, não é possivel chegar á ultima
+consequencia d'essa pergunta, não é difficil provar-lhe que uma tal
+união existe. A alma possue sobre o corpo a soberania e a independencia
+<span class='pagenum'> 129 </span> da vontade; rege-o pelo pensamento, sem comprehender a
+disposição dos órgãos que rege, e sem que perceba a potencia que move e
+anima as fibras. Sabe, por ventura, v. ex.<sup>a</sup> explicar-me a natureza de
+certas operações incognitas, que se passam em si? Sem a degradação
+produzida pelo peccado, este imperio da alma não acharia estorvos no seu
+exercicio; mas, no estado actual, a vontade é muitas vezes vencida pela
+resistencia dos sentidos.</p>
+
+<p>--Pois bem, tornou o conde--eu ponho de parte a esteril pretenção de
+querer saber onde está a alma, e peço que me diga, sr. padre, que culpa
+tenho eu no peccado de Adão, para estar pagando as suas dividas? Isto
+parece-me uma flagrante injustiça!</p>
+
+<p>--Deus é soberanamente sabio, bom, e misericordioso; disse-nos que o
+peccado de Adão era uma herança de culpa para todos os seus
+descendentes; devemos acredita'-lo. São-nos desconhecidos os motivos
+d'esta responsabilidade; mas não se segue que possamos, como ignorantes,
+alcunhar de injusto o Altissimo. N'este mundo ha alguma cousa
+semelhante. Diz-se que as faltas são pessoaes, e que a vergonha de uma
+acção criminosa deve só recair n'aquelle que a pratica. E, quando um
+crime estrondoso se dá que é o que nós fazemos? perseguimos com odio e
+com desprezo o condemnado e a familia do condemnado, até lhe cortarmos
+os vinculos que a prendem á sociedade. Não quero dizer que Deus sinta
+estas repugnancias proprias dos homens, porque não sabemos o motivo
+porque elle produziu obras, que apenas <span class='pagenum'> 130 </span> podemos contemplar; o
+que dizemos é que Deus é infinito, eterno, e que a pena do peccado, para
+estar em proporção com a sua natureza, deve ser eterna e infinita. No
+estado de innocencia, o homem tinha a luz da sua intelligencia, e,
+degradado pela culpa, caíu nas trevas; de senhor absoluto da sua vontade
+tornou-se escravo dos sentidos; pelo repouso e felicidade que possuia,
+trocou a tristeza e o tumultuar das paixões, que o infelicitaram: em
+logar da vida espiritual e eterna, encontrou a vida material e a morte.</p>
+
+<p>O conde atalhou as razões do padre, espreguiçando-se rudemente, abrindo
+a boca, esfregando os olhos, com a mais sensivel ostentação de escarneo.
+Fr. Antonio sorriu-se com bondade, e disse para o pae de Alvaro:</p>
+
+<p>--Eis aqui como a philosophia do orgulho, esta rainha comica do mundo,
+responde aos que lhe perguntam pelos seus fóros de realeza...</p>
+
+<p>--Não é isso, sr. padre--interrompeu o conde.--É que eu passei uma noite
+pouco orthodoxa e não posso digerir o succo nutriente da sua theologia
+sem dormir algumas horas, para restabelecer a boa harmonia entre as
+funcções do entendimento e as dos sentidos. Bem sabe v. s.<sup>a</sup> que os
+apostolos dormiram, e mais era Christo quem lhes pediu que velassem. Ora
+eu não tenho a audacia de comparar-me a Cefas, e vossa reverencia não
+quer de certo tambem comparar-se ao Mestre... Meus senhores, a minha
+noite começa agora... Vou dormir, naturalmente sonharei com S. João
+Chrysostomo, e S. Bernardo... Boas noites.</p> <span class='pagenum'> 131 </span>
+
+
+<h3>XXIII</h3>
+
+<p>As argucias galhofeiras do conde não agradaram a algum dos ouvintes.
+Alvaro pareceu vexar-se d'aquella despedida, mais insultuosa que
+engraçada, ao padre. Este, porém, supposto que vexado, não se denunciou
+pelo mais ligeiro gesto de enfadamento. A coragem para receber
+impassivel as ironias sarcasticas da incredulidade, dera-lh'a a
+desgraça, e aconselhára-lh'-a a caridade.</p>
+
+<p>Na ausencia do conde, Alvaro e seu pae esperavam do padre palavras
+resentidas; e maravilharam-se quando lhe ouviram dizer com profunda
+compaixão:</p>
+
+<p>--O desgraçado precisa muito das orações de um justo!... Quem me déra
+sê-lo para que a luz do céo lhe descesse ao espirito, antes que o
+desalento do mundo lhe aconselhasse a religião como refugio das extremas
+desgraças da vida! Oh! quando isso acontecer... muito infeliz deve elle
+ter sido!...</p>
+
+<p>Desde este momento apertaram-se os vinculos de piedade, de sympathia
+religiosa que prendiam Alvaro e o frade. O mancebo vira a vergonhosa
+retirada do seu antigo mestre de atheismo, e decidira-se de coração a
+favor do modesto triumpho do humilde padre. Como espirito illuminado
+pela fé, Alvaro precisava formar a sua razão pelos elementos de uma
+philosophia que <span class='pagenum'> 132 </span> Fr. Antonio lhe dissera existir, mas que não
+era aquella do seu amigo conde.</p>
+
+<p>O estudo attencioso, reflexivo, e continuado tornou-se a vida, quasi
+invariavel, do educando. Uma transição, assim rapida, assentava o padre
+que não podia, sem intervenção divina, explicar a improvisa regeneração
+de um homem, que deixára no mundo mil incentivos de paixões que o não
+tinham enfastiado ainda.</p>
+
+<p>A vergonha da virtude, que não pudera vingar n'um coração ulcerado de
+vicios, principiou a desabrochar flôres que enfeitavam a conversão do
+mancebo d'essas galas de educação, que parecem vindas do berço e
+herdadas dos paes. Era o imperio da religião, e unicamente da religião.</p>
+
+<p>Fr. Antonio dos Anjos, vaidoso com razão da obra, cujo instrumento elle
+fôra, não cessava de agradecer ao Altissimo a escolha que fizera de um
+peccador para a conversão de outro peccador, para quem o remorso seria
+tardio.</p>
+
+
+<h3>XXIV</h3>
+
+<p>Na «grande roda», falava-se muito da conversão de Alvaro. Infelizmente,
+porém, esta conversão tomaram-na irrisoriamente a maior parte d'aquelles
+que se occupavam d'ella, por não terem um caso semelhante de que <span class='pagenum'>
+133 </span> se occuparem. Os da sua plana, particularmente, pareciam vexados da
+religiosidade do seu antigo camarada, que tão bellas esperanças dava de
+correr parelhas no cynismo philosophico do conde.</p>
+
+<p>Na incerteza de semelhante boato, muitos vieram procurar Alvaro, e
+acharam-no prompto sempre a recebe'-los; se, todavia, os seus hospedes
+tentavam chama'-lo ao assumpto, que ali os trouxera, Alvaro contava-lhes
+uma historia assim resumida:</p>
+
+<p>«Eu era discipulo do conde ***, assim como vós o sois. Casualmente o meu
+mestre de philosophia falsa encontrou-se com outro que me dizia ser o
+mestre da verdadeira philosophia. Disputaram por algumas horas: o
+primeiro, quando se viu esmagado no seu orgulho, fugiu, cantando um
+hymno em seu triumpho, mas um hymno injurioso ao modesto vencedor.
+Sabeis o que depois me fez alistar na escola do frade, e fugir á escola
+do conde? Foi, talvez, muito pouco: vi que o frade pediu a Deus a
+conversão do conde que o insultára, e insultára a Deus.»</p>
+
+<p>Os que o ouviram diziam depois: «Aquelle pobre Alvaro endoudeceu!...
+Coitado!... Seria uma paixão infeliz? Seria desorganisação do
+cerebro?... Seria alguma grande perda no jogo?»</p> <span class='pagenum'> 134 </span> <span class='pagenum'> 135 </span>
+
+
+
+
+<h2>LIVRO III</h2>
+
+
+<h3>I</h3>
+
+<p>Eram passados seis mezes depois que frei Antonio dos Anjos tomára a seu
+cargo a educação de Alvaro. Este mancebo, vivendo uma vida quasi de
+reclusão e de immobilidade corporal, fazia grande violencia ao corpo, se
+bem que á alma não fazia nenhuma. É que a materia, posto que sujeita á
+vontade do espirito, adquire certos habitos, que não seguem facilmente
+as modificações do espirito, principalmente quando estas são bôas e
+aquelles máos. É como o relevo aberto no marmore pela mão do homem, cuja
+imperiosa vontade não póde desfigurá'-los sem que a mão os destrua.</p>
+
+<p>E a passagem da vida agitada para a meditação sedentaria fôra em Alvaro
+rapida, talvez de mais. Fr. Antonio conhecia a inconveniencia d'esta
+transição; mas superior a taes receios, o religioso esperava que, na
+conversão do seu discípulo, se operasse um continuado milagre.</p> <span class='pagenum'> 136 </span>
+
+<p>A Providencia, porém, imprimira no espirito do mancebo o impulso da
+graça, e deixára-o sósinho na lucta do bem e do mal, para que as fadigas
+do seu triumpho lhe fossem expiações das cobardias em que se deixára
+vencer.</p>
+
+<p>Ao cabo de seis mezes, Alvaro da Silveira dera sensiveis mostras de um
+abatimento, não de espirito, não de coragem, mas d'essa languidez de
+todos os orgãos, que parece o cançasso de uma febre intermitente. A
+melancolia fizera-o mais concentrado, mais solitario, e até mais
+aborrecido de si e dos outros. O estudo não lhe valia já de distracção,
+nem as praticas eloquentes do mestre lhe captivavam o espirito. Quasi
+sempre fechado no seu quarto, Alvaro, por fim, repellia os alimentos que
+lhe levavam, e carregava o sobrolho ás admoestações que o pae ou o
+mestre lhe faziam. Frei Antonio quiz ver n'este estado critico os
+elementos ainda não inflammados de uma reacção. Tremeu com a idéa de não
+vingarem os fructos da boa semente que elle, com tanto esmero e tanta
+esperança, cultivára n'aquelle coração desbravado, ao que parecia, dos
+espinhos da impiedade. Orou fervorosamente, pediu com anciedade a
+tutella do céo para aquelle orphão de pae, de amigos, e de mestre que
+pudessem ampara'-lo na sua recaída no abysmo, d'onde parecia ser salvo.
+O santo homem chegára a persuadir-se que os seus trabalhos seriam
+inuteis, porque o senhor queria puni'-lo da vaidade que elle tivera em
+faze'-los proveitosos.</p> <span class='pagenum'> 137 </span>
+
+
+<h3>II</h3>
+
+<p>N'este conflicto de doridos pensamentos em que a alma do padre andava
+trabalhada, inspirou-lhe a sua afflicção um pensamento que longas e
+veladas noites lhe alvoroçou o espirito, antes que seus labios o
+proferissem.</p>
+
+<p>Fr. Antonio lembrou-se de conduzir Alvaro á sociedade; leva'lo elle
+proprio ao mundo, e buscar ahi em roda de pessoas que se interessassem,
+tanto como elle, na regeneração d'aquelle mancebo.</p>
+
+<p>Mas as relações do egresso eram muito poucas, e quasi se limitavam ás do
+parentesco, e ás novas que adquirira na casa em que vivia.</p>
+
+<p>Onde elle, cheio de confiança, poderia apresentar seu discipulo era em
+sua casa, na roda de sua familia, onde desde 1834 não tinha entrado uma
+pessoa extranha dessas que são apresentadas pelo seu nome, pela sua
+posição, ou pelo seu dinheiro. Ahi, porém, vivia uma menina que não
+sabia ainda distinguir o homem que nascera bom, e bom perserverára, do
+homem que fôra mau e parecia bom.</p>
+
+<p>A consciencia do padre não lhe aconselhava confiadamente esse passo,
+cuja firmeza era toda responsabilidade sua, porque bem sabia elle que
+Alvaro da Silveira, apresentado ao coronel, seria recebido como filho,
+e, apresentado a Maria, seria recebido como irmão.</p> <span class='pagenum'> 138 </span>
+
+<p>E foi por isso que em sua alma se debateram com violencia dois
+sentimentos oppostos: a confiança e a prevenção.</p>
+
+<p>Ou porque do céo lhe descesse a inspiração, ou porque as propensões de
+sua indole lhe fizessem ver a face do bem empanada pelo véo da maliciosa
+suspeita, frei Antonio convidou Alvaro para acompanha'-lo a casa de sua
+familia, onde, se quizesse, encontraria as affeições que se encontram
+n'uma familia recolhida, que, de ordinario, parece desvelar-se em
+communicar aos extranhos a felicidade de amor que lhe trasborda do seio.</p>
+
+<p>Alvaro, sem fingir-se, não apreciou muito o convite, mas não se recusou
+a elle. O habito de obedecer aos insinuantes conselhos do padre foi
+talvez o unico movel, que o fez acceitar um offerecimento, que lhe não
+promettia distracção á profunda tristeza que se lhe entranhára no
+espirito.</p>
+
+<p>Frei Antonio compreendera esta hesitação, e n'ella viu um prospero
+agouro. Seriam illusões de uma boa alma?</p>
+
+
+<h3>III</h3>
+
+<p>O padre prevenira sua familia da proxima visita que lhe era destinada. A
+mãe de Maria, tão innocente como sua filha, e tão confiada na prudencia
+de seu cunhado como na de seu proprio marido, recebeu a noticia com
+<span class='pagenum'> 139 </span> jubiloso assentimento. O coronel fitou em seu irmão um olhar
+de interrogação, que devia ser uma pergunta intima, que os labios tinham
+medo de balbuciar: «Por ventura nada receias tu, meu irmão? Sabes que ao
+pé de minha filha só póde sentar-se um anjo como ella? Tens a certeza de
+que esse mancebo entra em minha casa como no sanctuario da honra?» Frei
+Antonio lêra estas perguntas nos olhos de seu irmão, e, como se
+precisasse de empregar a palavra que o coronel não ousava pedir-lhe, o
+padre apertou-lhe a mão com ternura, e murmurou a meia voz: «Não
+temas!... tu és honrado, tua mulher é uma santa, tua filha é um anjo...
+Eu serei um peccador, mas não sereis vós os que haveis de expiar as
+minhas culpas... Não temas, meu irmão.»</p>
+
+<p>Maria, quando a nova lhe foi dada, experimentou uma sensação, d'essas
+raras sensações que não hão de ter nunca na terra uma palavra fiel que
+as defina. Ao ver que nos labios de sua mãe estava um riso de
+beneplacito e contentamento, Maria sorriu tambem machinalmente, e ficou
+silenciosa, durante a longa conversação que se travára a este respeito.</p>
+
+<p>Recolhida, comtudo, ao calado abrigo do seu quarto, ao mystico colloquio
+das suas tristezas com a imagem de Maria Santissima, a melindrosa menina
+consultava-se, com doloroso interesse, no que seria essa nuvem escura de
+melancolia, que viera turvar-lhe o espirito, quando ouviu dizer que
+Alvaro da Silveira, por cuja conversão tantas vezes ella orára, ia ser
+recebido como amigo no seio de sua familia.</p> <span class='pagenum'> 140 </span>
+
+<p>Esta interrogação era como as consultas que nós fazemos do nosso proprio
+destino; era como a anciedade vã de levantarmos a cortina do nosso
+quadro de existencia d'aqui a annos. Maria quando uma vez escrevera uma
+poesia intitulada <i>presentimento</i>, dissera tudo quanto podia dizer, vira
+o futuro quanto podia ve'-lo, caminhára através da vida quanto podia
+caminhar; e, como se os passos lhe cançassem, parou, chorando. É que o
+seu poema fôra uma prophecia de lagrimas nunca represadas.</p>
+
+
+<h3>IV</h3>
+
+<p>A apparição de Alvaro em casa do coronel impressionou extranhamente
+aquella numerosa familia, cuja maior parte não se recordava de ver na
+sua sala um extranho.</p>
+
+<p>Maria foi como sua mãe cumprimenta'-lo, e, pela hesitação em que ia,
+pudera julgar-se que a violentavam. O acanhamento das suas maneiras, a
+inflexão tremida das suas poucas palavras, denunciariam uma inculta
+rapariga d'aldeia, a quem por passatempo aparamentaram de vestidos
+senhorís. Na grande roda seria fertil assumpto de risos e gracejos.</p>
+
+<p>Alvaro, por uma d'essas incoherencias da natureza humana, revelava um
+acanhamento quasi semelhante <span class='pagenum'> 141 </span> ao de Maria. A prevenção em que o
+vimos a respeito d'ella, o conceito sublime que a religião lhe ensinára
+a fazer das suas virtudes, e, mais que tudo, a belleza d'essa menina,
+que elle nunca encontrára nos bailes, nem, semelhante a ella, se
+recordava ter visto outra, foi por ventura tudo isto a extranha emoção
+que o sobresaltou e collocou, como costuma dizer-se, n'uma falsa
+posição.</p>
+
+<p>E, demais, quem sabe se assim ficam explicados os embaraços de Alvaro?</p>
+
+<p>Qual de nós não teve na vida uma situação semelhante, d'onde melhor
+possa ver a de Alvaro da Silveira?</p>
+
+<p>Quem é o homem forte e senhor de si, quando a virtude e a formosura,
+illuminando a mulher de um santo prestigio, lhe fascinam os olhos da
+face e os da alma?</p>
+
+<p>E, quando o espirito, purgado das fezes da irreligião, contempla a
+mulher virtuosa como a depositaria de sentimentos que mais genuinamente
+simulam o amor de Deus, é tão natural esse enlevo, esse culto, essa
+idolatria no homem que poude encontrar um anjo, onde não esperava já
+encontrar senão estimulos de paixões materiaes!...</p>
+
+<p>Nem se explica de outra maneira a surpresa de Alvaro na presença de
+Maria dos Prazeres.</p>
+
+<p>A virtude tem uma fascinação particular sobre o homem, que não desceu,
+na escala da depravação, a ponto de negar a existencia de corações
+immaculados. Anojado <span class='pagenum'> 142 </span> de estudar a mulher, modelada nas fórmas
+invariaveis do salão, onde todas são semelhantes a cada uma, Alvaro da
+Silveira, abaixou os olhos diante da primeira mulher, que, em outros
+tempos, poderia abater-lhe o orgulho.</p>
+
+<p>Foi n'esse respeitoso silencio, n'esse involuntario acanhamento de
+maneiras, que o mancebo justificou a regeneração do seu caracter. Mezes
+antes, se o tivessem apresentado a Maria, ve'-lo-iam empregar todos os
+recursos da eloquencia, adaptada a todas as mulheres do «grande mundo»
+intimamente persuadido de que aquella, deslumbrada pelos ouropeis da
+phrase, saudaria em sua alma a apparição de uma sympathia ardente pelo
+genio, pelo talento palavroso, e pelos arrebiques da lingua estudada.</p>
+
+<p>O coronel, attencioso observador da approximação de Alvaro, gostou do
+pejo com que sua filha foi recebida. Frei Antonio a quem competia
+encetar uma conversação em que respirassem aquellas duas almas
+retraídas, principiou a elogiar modestamente as qualidades do seu amigo.
+Alvaro, silencioso, principiava a affligir-se da sua absoluta
+esterilidade de idéas, quando, em boa civilidade, lhe convinha agradecer
+o acolhimento com que era especialisado n'aquella casa. Não se
+acreditaria esta perplexidade, se cada qual não pudesse justifica'-la
+com um momento semelhante na sua vida.</p>
+
+<p>Alvaro achou a inspiração na propria fraqueza, que o mortificava.
+Voltando-se para frei Antonio, com as faces rosadas, disse com voz
+tremula:</p> <span class='pagenum'> 143 </span>
+
+<p>--Eu creio que perdi na solidão os habitos do mundo, meu caro mestre.
+Nem já sei falar, e era d'antes um falador importuno!... A sua familia
+deve fazer de mim uma idéa triste...</p>
+
+<p>--Porque?--interrompeu a mãe de Maria, com insinuante delicadeza.</p>
+
+<p>--Porque, minha senhora?--retorquiu Alvaro--porque me acho aqui coacto,
+entrei aqui grosseiramente, como um saloio que vestiram de casaca, e de
+um modo que v. ex.<sup>a</sup> de certo não esperava receber um hospede que vive na
+roda onde as etiquetas chegam a ser enfadonhas pela demasia de reparos.</p>
+
+<p>--Ora, sr. Alvaro--interveio o coronel--nós sabemos o que são essas
+cortezias, e palavreados da tal roda, que v. ex.<sup>a</sup> frequentou. Minha
+filha Maria, essa não as sabe de certo; mas pouco lucrariam, ella, se as
+aprendesse e v. ex.<sup>a</sup> se lh'as ensinasse. Aqui, a unica pessoa
+exigente--continuou o coronel, sorrindo--exigente das genuinas etiquetas
+da côrte é talvez v. ex.<sup>a</sup> que de lá vem. Tenha, porém, paciencia, se nos
+encontra sem o polimento com que se envernizam os mimosos da fortuna,
+alegres sempre e sempre cuidadosos de ensaiar-se, quando a ociosidade os
+enfastia, na arte de agradar. Aqui tem v. ex.<sup>a</sup> as idéas a respeito dos
+galhardos faladores de salão, que, segundo ouvi dizer, por ahi se chamam
+<i>fazedores de espirito</i>. Sejam lá o que forem, eu aprecio muito a
+economia de palavras com que v. ex.<sup>a</sup> abriu as relações com esta familia
+ignorada. Até por generosidade, nenhum hospede, chegado a esta casa deve
+exigir <span class='pagenum'> 144 </span> de nós os tratamentos apurados de uma refinada
+delicadeza. Não os sabemos, nem poderiamos sustenta'-los. Tudo isto vem
+a serenar a impaciencia com que o sr. Alvaro da Silveira parece
+queixar-se das idéas, que lhe não abundaram, quando tivemos a honra de o
+receber.</p>
+
+
+<h3>V</h3>
+
+<p>Em quanto o coronel prendia os olhos attenciosos de Alvaro, Maria,
+cobrando novos alentos d'aquella especie de familiaridade adquirida
+pelas franquezas de seu pae, levantava os olhos meio timidos para frei
+Antonio, que até então não desviára os seus das faces encarnadas de sua
+sobrinha. Alvaro continuou com o coronel um dialogo sobre o assumpto das
+etiquetas, que ambos julgavam, umas vezes, indispensaveis, e, outras,
+fastidiosas, em quanto Maria, convidada por seu tio, foi sentar-se
+contrafeita ao piano e suspendeu a travada conversação dos dois, que á
+primeira corrida do teclado, levaram instinctivamente os olhos e os
+corações para o rosto incendiado da formosa menina.</p>
+
+<p>O que ella tocou não se recordava Alvaro de o ter ouvido. A meia voz
+perguntou á mãe de Maria a que opera pertencia aquelle rico trecho de
+musica. Em resposta teve um sorriso de modestia, a que o mancebo <span class='pagenum'>
+145 </span> achou duvidosa explicação, e, pouco depois compreendeu, quando frei
+Antonio, alma franca, e sem reservas de falsa modestia, declarou que a
+musica era de sua sobrinha. Maria córou, e apressou-se a declarar que
+não era absolutamente original aquella composição modelada por alguns
+fragmentos de musica, que ouvira no orgão das Theresinhas. A evasiva não
+era de todo inexacta. Maria, affeiçoada á musica do templo, nas suas
+composições, procurava sempre como texto as notas que mais lhe afinassem
+com o profundo sentimento de terna melancolia, que a dominava, nos
+ultimos mezes da sua existencia.</p>
+
+<p>Frei Antonio estava sendo penoso á natural modestia, filha do pudor, que
+a cada instante, se manifestava no rosto purpurino de sua sobrinha.
+Homem extranho ás mil conversações com que a sociedade consome as horas
+em inutil trocadilho de palavras, entendia que o mais judicioso
+passatempo, e até o mais commodo ao espirito de sua educanda, devia ser
+a litteratura. Por isso chamou a campo sua sobrinha, e obrigou-a pela
+obediencia a entremetter-se em questões, que o proprio Alvaro de bom
+grado não quizera quinhoar, com receio de não sair-se bem. Maria, quando
+os primeiros terrores se desvaneceram, era sublime aos olhos do hospede,
+que a não concebera tão elevada a respeito de certas cousas, que se
+dizem, quando a auctoridade dos annos, gastos em aprender, lhes dá um
+tom de certeza que, quasi sempre, ajusta mal com a natural simplicidade
+de uma senhora.</p> <span class='pagenum'> 146 </span>
+
+<p>Falava-se em romances. Frei Antonio dos Anjos empenhava os seus vastos
+recursos scientificos em condemnar esse genero de leitura. Alvaro
+abraçava a opinião de seu mestre, e citava-se a si como victima das
+perniciosas leituras da sua infancia. O coronel e sua esposa applaudiam
+a rejeição dos romances. Maria, porém, e só ella, cheia de humildade,
+sem levantar os olhos dos dedos rosados, que se distraiam correndo a
+bainha do lenço, contrariava as opiniões dos inimigos dos romances,
+depois que a cada um ouvira as razões, mais ou menos fortes, com que a
+leitura do tempo era votada ao exterminio. A sua argumentação era
+concisa, e quasi sempre balbuciante d'aquelle temor tão proprio em annos
+verdes, em presença de um extranho, de um pae, e de um sabio.</p>
+
+
+<h3>VI</h3>
+
+<p>Uma hora de convivencia entre pessoas, que sinceramente se communicam em
+francas manifestações do que são, é bastante para a familiaridade, para
+a estima, e para isto que o coração ambiciona, este bem-estar, nascido
+da confiança, inteira e desprevenida, que depositamos em uma roda de
+amigos. Raro, porém, estas rodas se deparam. <i>Amigo</i> é uma palavra
+profanada pelo uso, e barateada a cada homem que se nos apresenta, <span class='pagenum'>
+147 </span> como a <i>palavra de honra</i>, que por ahi anda desvirtuando a honra e
+a amizade.</p>
+
+<p>As delicias da conversação, expansiva como a confidencia, e
+despreoccupada como a ingenuidade, essa não se conhece nos salões, onde
+o epigramma recebe os louros da eloquencia, e o espirito acerado e
+cortante conquista as ovações do talento. A murmuração, bem salgada de
+ironias galhofeiras, é a raínha das conversações, coroada pelo diadema
+da hilaridade, que, muitas vezes, não poupa o primeiro da roda, que se
+retira, nem o dono da casa, que fica, pela sua parte, cotejando os
+vicios dos seus hospedes <i>espirituosos</i>.</p>
+
+<p>D'esta feição eram as praticas, em que Alvaro da Silveira, adestrado
+pelo conde de *** primára como bom artista de <i>equivocos</i>, e
+trocadilhos, em que o sarcasmo acre e engenhoso, pegava delicadamente
+pelos cabellos da victima, e a empalava nos tractos da zombaria, iguaria
+saborosa, a unica, talvez, para os paladares estragados.</p>
+
+<p>Era, pois, uma novidade para o seu espirito aquella franca exposição de
+sentimentos, de mais a mais interessantes pelo lado da intelligencia, e
+sympathicos para o coração de todos, e especialmente do mancebo, que se
+extasiava, na presença de um talento de mulher, flôr aberta em
+exhalações de um novo perfume, para elle, que nunca a vira tão bella e
+tão fascinadora no dom da palavra.</p>
+
+<p>Maria compartira de sentimento de confiança, que viera dissipar os
+temores de Alvaro. Sem a candura, e <span class='pagenum'> 148 </span> a innocencia, na franca
+exposição das suas idéas ácerca de romances, Maria não diria tanto, nem
+se lançára tão seguramente na opinião contraria á de todos. A sincera
+menina, ingenua como as suas intenções, viu no mancebo, que tão aceite
+era aos seus, um amigo digno de se lhe dizer tudo o que, em cousas
+litterarias, se diria a frei Antonio dos Anjos.</p>
+
+<p>Alvaro da Silveira estava sendo digno da sua confiança. E tanto o era,
+que uma nobre vaidade lhe alegrava o espirito, ao ver-se, tão depressa,
+merecedor da franqueza com que o recebiam, e da irmandade, com que Maria
+dos Prazeres lhe respondia aos seus argumentos na questão em que todos
+se interessavam.</p>
+
+<p>Frei Antonio era um sabio; mas os sabios de todas as posições sociaes, e
+particularmente os sabios creados no claustro, sustentam prejuizos, que
+as mediocridades lhes combatem com as debeis armas de uma sciencia
+superficial. Frei Antonio pensava mal dos romances, por que lera um ou
+dois, ou mil d'esses que por ahi envergonham a arte, e indignam o pudor.
+Alvaro da Silveira, que devorára tudo quanto os ultimos annos tinham
+creado de mais licencioso na litteratura franceza, odiava então os
+romances aos quaes erradamente imputava os seus desvios. O coronel e sua
+mulher jurava nas palavras de frei Antonio. Maria, porém, que não lera
+romances, nem mostrára o mais leve desejo de os ler, apresentava na
+defesa de tal leitura o instincto da adivinhação, a presciencia do
+talento, que um relampago, ás vezes, parece alumiar de improviso.</p> <span class='pagenum'>
+149 </span>
+
+<p>--Eu não sei--dizia ella--como os romances possam perturbar a minha
+tranquillidade! Que é o que elles dizem? Contam a vida como ella é;
+matam as illusões de quem a suppõe melhor; antecipam o conhecimento da
+realidade? Isso que tem? Um bom mestre, encarregado de levar pela mão o
+discipulo na estrada do mundo, cheia de precipicios, que é o que faz
+senão apontar ao innocente os abysmos, que se escondem debaixo das rosas
+seductoras? Que é o que tem feito meu tio a meu respeito? não é
+levantar-me a cortina do que são segredos para mim, e mostrar-me a
+triste realidade do que por ahi ha, apenas agradavel aos olhos da
+innocencia? Eu penso que o romance, espelho fiel das boas e más
+situações da vida, não póde fazer-me desejar o que é vicio, nem
+aborrecer o que é virtude...</p>
+
+<p>--Mas se o romance--interrompeu Alvaro--descreve o crime com as bellas
+tintas da seducção?</p>
+
+<p>--Não importa, o escuro do quadro lá está no crime: as fezes do absyntho
+lá estão no fundo do calix--retorquiu Maria--não sei se digo a verdade:
+mas imagino que ha nos romances um mau principio, que só deve prejudicar
+as pessoas, que os lêem com o coração arruinado, e os olhos fartos já de
+ver a realidade de tudo o que ha mau. É natural que o romance, para
+fazer bons certos actos do seu heroe, precise de aniquilar a moral
+religiosa d'esses actos, e justifica'-los pela moral da falsa
+philosophia. Isto me tem dito meu tio muitas vezes, e eu tenho pensado,
+outras tantas, na influencia que poderiam exercer sobre o meu espirito
+essas más doutrinas, <span class='pagenum'> 150 </span> revestidas de seductoras falsidades.
+Nenhuma, creio em Deus e em mim, que não. Mal de mim, e da minha fé, se
+o primeiro incredulo, com talento de bem escrever, e falsificar a
+verdade, pudesse alvoroçar a minha consciencia, a ponto de destruir com
+a pagina de um livro o que eu recebi pela educação, pela meditação, e
+pelo estudo!... Tomára eu saber tudo o que o mundo tem de bom e de
+mau... que me dissessem a flôr em que a aspide se esconde, e o espinho
+que muitas vezes, soffrido com resignação, nos póde dar depois momentos
+de prazer. O que eu acho triste e perigoso é crescer, tocar a altura em
+que a intelligencia raciocina, e o coração se emancipa dos descuidos da
+mocidade, ser mulher, entrar no mundo, julga'-lo a continuação do seio
+de sua familia, e ter de perguntar a cada instante á cabeça, que não
+sabe, até que ponto são razoaveis os preceitos do coração...</p>
+
+<p>Maria foi de improviso tocada pelo receio de se ter excedido. Córou, e
+abaixou os olhos, como se sua mãe lhe significasse, em um gesto, o
+desgosto de ouvi'-la.</p>
+
+<p>Alvaro, suspenso dos labios d'ella, fascinado pelo som d'aquella voz,
+que parecia exercer o imperio do silencio sobre o coração de todos,
+sentia-se elevado a um assombro de admiração, onde quasi sempre o
+respeito profundo, ou o amor repentino se assenhoreiam do talento e do
+espirito.</p>
+
+<p>Era um amor, que nascia, e respirava uma atmosphera embalsamada de
+perfumes, amor, que nunca, em suas passadas affeições, lhe coára no
+coração a vida <span class='pagenum'> 151 </span> suavissima da paixão tranquilla, sem
+sobresaltos de remorso, sem temores de culpa, e sem receios de insultar
+a Deus ou aos homens. No coração de Maria, o que se passava era uma
+sensação de ternura, o desabrochar de uma nova flôr de amizade para
+offerecer a Alvaro, como a offertaria a um seu irmão, que viesse de
+longe, pela primeira vez, reconhecer a sua irmã. Se, todavia, lhe
+perguntassem o segredo mais intimo da sua existencia desde aquelle dia,
+ella não teria nenhum a revelar. O mais que poderia accrescentar ao que
+a sua familia sabia do seu coração, a respeito de Alvaro, é que desde o
+dia, em que o viu, as suas orações por elle foram mais repetidas, mais
+fervorosas, e mais tocadas pelo interesse de uma amiga, que quizera
+gloriar-se de ter concorrido para a regeneração de um anjo.</p>
+
+
+<h3>VII</h3>
+
+<p>Á primeira visita succederam outras.</p>
+
+<p>Alvaro realisára as esperanças do padre. A sombria tristeza, que
+assustára o mestre, cedeu a uma alegria doce que sorria no semblante do
+discipulo. O pae d'este, compartindo no contentamento do filho, quiz
+tambem conhecer o asylo de paz santa onde Alvaro fôra encontrar a
+felicidade, que o mancebo dizia não ser cousa impossivel <span class='pagenum'> 152 </span> na
+terra, desde que visitara a obscura familia de frei Antonio.</p>
+
+<p>Redobrou o prazer do padre. O velho fidalgo foi acolhido como pae de um
+moço que era alli estimado como parente e recebido sem vislumbre de
+suspeita má. As noites passavam rapidas para todos. Cousas pequenas,
+passatempos quasi pueris, entretinham velhos e moços. Silveira, tão
+zeloso da honra do coronel como elle proprio, espionava as intenções de
+seu filho, como quem receia que a virtude não esteja ainda tão enraizada
+n'aquelle coração juvenil, que o torne frio para os mil encantos de
+Maria dos Prazeres.</p>
+
+<p>Eis aqui um dialogo entre o pae e o filho, quinze dias depois que
+frequentaram juntos a casa do coronel.</p>
+
+<p>--Parece-me que és feliz, Alvaro.</p>
+
+<p>--Sou, meu pae, sou muito feliz. Se eu dissesse que não sou, era ingrato
+a Deus.</p>
+
+<p>--Pois, filho, sê digno das mercês que Deus te faz. Põe da tua parte a
+força e a virtude para continuar a Merece'-las. A virtude, Alvaro, a
+virtude. Nunca te esqueça esta palavra: seja sempre a tua ancora, se a
+tempestade vier depois da bonança...</p>
+
+<p>--Nunca a esquecerei, meu pae. Cada dia se me dobram as forças para
+vencer o mal. As reminiscencias do passado affligem-me e envergonham-me.
+Em quanto eu olhar assim para o homem que fui, nunca me será preciso
+luctar com as tempestades, em que o refugio está na ancora da virtude.</p>
+
+<p>--Pois sim, filho; mas por mais risonho que esteja <span class='pagenum'> 153 </span> o céo e
+calmoso o mar, não largues nunca a ancora: tem-a sempre apertada ao
+coração, porque é lá d'onde rebentam as maiores tempestades.</p>
+
+<p>--No coração? Eu creio, pae meu, creio que é nas tempestades do coração
+que se morre...</p>
+
+<p>--Se a virtude nos não vale...</p>
+
+<p>--A intenção com que me diz essas palavras...</p>
+
+<p>--É boa, Alvaro; é a intenção com que um bom pae aconselha um bom filho,
+e até um mau filho. Que perda para todos nós se o coração que se te
+renova hoje, meu filho, obedecesse a uma impressão das que se não deixam
+vencer por pequenas resistencias...</p>
+
+<p>--Fale, fale, meu pae... tenho precisão de ouvi'-lo porque preciso que
+me anime a falar-lhe.</p>
+
+<p>--Adivinhei a tua alma?</p>
+
+<p>--Não sei o que vae dizer-me... Quer-me falar da...</p>
+
+<p>--Da filha do coronel... quero falar-te d'esse anjo que nos tem captivos
+a ambos, e nem eu sei qual de nós daria mais depressa a vida para que
+nunca um desgosto por nossa causa lhe banhe de lagrimas a face.</p>
+
+<p>--Que desgosto podemos dar-lhe, meu pae?</p>
+
+<p>--Que sentes por ella, Alvaro?</p>
+
+<p>--O pae adivinhou-me... <i>é um anjo que nos tem captivos a ambos</i>; mas o
+meu captiveiro é cheio de consolações, é uma prisão que me não custa
+desgostos nem frenesis... Não vê que sou tão feliz assim? Se me dão a
+liberdade, fazem-me desgraçado. Amá'-la...</p>
+
+<p>--Amá-la!?...--interrompeu o pae com sobresalto.</p> <span class='pagenum'> 154 </span>
+
+<p>--Amá'-la, sim, pois não é isto amá'-la? O que sinto, o que senti,
+vendo-a uma só vez, tem alguma semelhança com tudo o que me fez
+vertigens do coração n'outro tempo? Amá'-la, sem que eu lh'o diga,
+adorá'-la, com a devoção dos justos, recolhe'-la em segredo á minha
+alma, e tão em segredo que nunca ella possa temer uma só palavra menos
+innocente que todas as nossas conversações... ama'-la, assim, meu pae,
+provocar as tempestades do coração?</p>
+
+<p>--É, filho.</p>
+
+<p>--É? então, meu Deus, não ha virtude que resista ao impulso de uma
+mulher! O homem, que quizer viver em boa paz com o céo, ha de renunciar
+a tudo que está na terra proclamando a grandeza de Deus. A religião, que
+nos não veda o amor, está em contradição com a virtude...</p>
+
+<p>--Não está, Alvaro. A religião creou um sacramento para santificar o
+enlace dos corações que se inclinam para um fim justo, para uma união em
+que a virtude é o vinculo de cuja quebra ha tremendas contas a dar, e
+grandes expiações a soffrer na terra.</p>
+
+<p>--Pois bem, meu pae...</p>
+
+<p>Alvaro sustára o pensamento que vinha aos labios, em quanto as lagrimas
+se mostraram.</p>
+
+<p>--Diz, Alvaro. Tu ias dizer alguma cousa que te fez chorar. É
+sensibilidade ou arrependimento?</p>
+
+<p>--Melhor é que o não diga, meu pae... Eu preciso estudar-lhe o coração.</p>
+
+<p>--De D. Maria dos Prazeres? não é necessario, filho. <span class='pagenum'> 155 </span> O coração
+d'essa menina não é um livro fechado, é um espelho. Vê-lh'o na face, nas
+palavras, na educação...</p>
+
+<p>--Não é o coração de Maria dos Prazeres.</p>
+
+<p>--Pois qual?</p>
+
+<p>--O de meu pae.</p>
+
+<p>--É o coração de um pae... que mais queres que te diga?</p>
+
+<p>--Gosta de Maria dos Prazeres?</p>
+
+<p>--Se gosto!... Não te tenho eu dito que o coronel não deve queixar-se
+das injustiças dos homens em quanto lhe deixam o throno d'aquella filha?</p>
+
+<p>--O pae quereria ter uma assim?</p>
+
+<p>--Quizera assim dar-te uma irmã, filho... Oh se queria!...</p>
+
+<p>--E uma esposa?--disse Alvaro balbuciante.</p>
+
+<p>O pae não respondeu. As palpebras cerraram-se-lhe, que era esse o seu
+costume na meditação. Com os dedos da mão direita comprimiu o labio
+inferior, tirando por elle. Passou a mão esquerda por entre os cabellos;
+e, depois de alguns segundos, disse:</p>
+
+<p>--Queria.</p>
+
+<p>--Queria assim dar-me um esposa?</p>
+
+<p>--Queria. E serias tu digno d'ella?</p>
+
+<p>--Não ouso responder.</p>
+
+<p>--Pois medita.</p>
+
+<p>Silveira ergueu-se. Tomou a mão do filho, e apertou-lh'a com commoção,
+dizendo-lhe como quem profere um juramento na presença de Deus:</p> <span class='pagenum'> 156
+</span>
+
+<p>--O homem que maltratar aquella mulher deve dar terriveis contas da sua
+crueldade. Medita, Alvaro.</p>
+
+<p>E deixou-o.</p>
+
+
+<h3>VIII</h3>
+
+<p>Ao mesmo tempo, Maria dos Prazeres, e sua mãe, tinham o seguinte
+dialogo:</p>
+
+<p>--Se tivesses uma amiga muito do coração, minha filha, não terias pesar
+se ella te adivinhasse um segredo que tu deverias ter-lhe confiado?</p>
+
+<p>--Pesar... conforme, minha mãe... Ha segredos...</p>
+
+<p>--Que se não dizem a uma amiga?</p>
+
+<p>--Que se não dizem por que se não sabem dizer...</p>
+
+<p>--E sentir, sim?</p>
+
+<p>--Porque me faz semelhante pergunta, minha querida mãe? Não se queixe de
+mim, não?</p>
+
+<p>--Pois eu vou queixar-me, Maria?!</p>
+
+<p>--Falou-me em pesar... e eu começo a senti'-lo...</p>
+
+<p>--De que?</p>
+
+<p>--Se eu pudesse... se eu soubesse dizer-lhe o que sinto... Deus sabe que
+o meu coração é incapaz de se esconder aos seus olhos, e mais depressa
+se esconde aos meus.</p>
+
+<p>--Nada tens dito a teu tio, filha?</p>
+
+<p>--De que?... diga, mãe, eu que devia ter dito a meu tio?</p> <span class='pagenum'> 157 </span>
+
+<p>--Tudo o que sentes hoje, assim como lhe dizias tudo o que se passava em
+tua alma.</p>
+
+<p>--E eu sei!...</p>
+
+<p>--Sei eu, Maria. Olha, filha.. O amor de tua mãe, de teu pae, de teu bom
+tio, de teus queridos irmãos é um amor immenso; é, eu e tu sabemos que
+é; mas... olha... ha no teu coração espaço para mais amor... Córas,
+Maria? Vês como a tua alma vem falar-me no teu semblante?</p>
+
+<p>«Pois porque não, se essa alma é a minha, a da minha filha que não póde
+estar calada diante de mim, ainda que os labios se não abram! Sei tudo,
+Maria. Agora, se não queres que te fale como mãe, aqui me tens como
+amiga. Vamos... levanta para mim os teus olhos... conversemos sósinhas.
+Tu amas Alvaro. A tua melancolia é amor. Esse córar, quando não accusa
+uma culpa escondida, é amor. Na tua edade, se o contentamento foge do
+coração, é que não cabem lá os gosos serenos da innocencia, mixturados
+com as esperanças vagas, com os desejos desconhecidos, com as saudades
+de não sei que recordações de uma outra vida em que todas as nossas se
+povoam de anjos.</p>
+
+<p>«Ha um mez, filha, não me entenderias esta linguagem. Hoje sou eu a que
+falo por ti, e cada palavra que me ouves, é um peso que te levanto de
+sobre o coração, não é? Assim é que tu querias falar-me, e eu
+desopprimo-te, explicando a confissão que tens nos labios, e não
+confessas. Pois bem, Maria, louvores sejam dados á tua bella alma! A tua
+sensibilidade não póde ser só <span class='pagenum'> 158 </span> da tua familia: deve extender-se
+a tudo que te rodeia.</p>
+
+<p>«Eu esperava isto desde o momento em que vi entrar n'esta casa um homem
+protegido pela confiança de meu cunhado. Sem virtudes, Alvaro não seria
+aqui trazido; e, sem virtudes, Deus não quereria que tu sentisses por
+elle a sympathia que prende a innocencia á honradez. Poderei enganar-me
+eu, que sou velha? Posso, filha... E que farás tu que és creança?
+Estaremos ambas enganadas, amando-o ambas. Porque eu tambem o amo,
+filha; estou familiarisada com elle, vejo-o aqui entrar sem me sentir
+constrangida. Custa-me a crer que o conheço ha tão pouco tempo!...</p>
+
+<p>«E teu pae? Fala-me d'elle com certo interesse que me parece
+providencial. Nunca me disse que reparasse nas tuas acções, nem
+reflectisse nas palavras de Alvaro. E eu, reflectindo, ainda lhe não
+ouvi uma que desdiga das primeiras. Sempre a mesma bondade, o mesmo
+acanhamento honesto, a mesma docilidade, e não sei que interesse de
+filho por mim, e de irmão por ti. Teu tio, cada vez mais alegre com
+estas relações; teu pae, nem a mais ligeira sombra de desconfiança; teus
+irmãos querem-lhe como a ti; o pae d'elle quer por força que sejamos
+seus parentes, e diz-me que veiu saber entre nós o que era a felicidade
+domestica... Jesus! é impossivel que tudo isto seja engano!</p>
+
+<p>«Oh minha filha, o teu coração é puro, e eu quero ouvi'-lo mais a elle
+do que ouvir-me a mim. Diz-me se não agouras uma grande felicidade para
+ti, e para os <span class='pagenum'> 159 </span> teus? Confessa-me o que pensas quando estás
+triste... Diz, diz, Maria...</p>
+
+<p>A filha atirou-se a chorar ao seio da mãe. Balbuciava palavras sem
+sentido. O coração batia forte, e o tremor convulso dos braços, em redor
+do collo de sua mãe, suppria a falta de expressão.</p>
+
+<p>Assim as encontrou frei Antonio entrando sem se annunciar.</p>
+
+
+<h3>IX</h3>
+
+<p>--N'esta casa chora-se mais do que se reza--disse o padre.</p>
+
+<p>--Não são peccaminosas as nossas lagrimas, meu irmão...--disse a mãe de
+Maria.</p>
+
+<p>--Pois então dizei-me por que choraes.</p>
+
+<p>--Logo, logo...</p>
+
+<p>Maria beijou a mão do tio, e saía, enxugando as lagrimas.</p>
+
+<p>--Onde vaes tu, menina?--disse o velho.</p>
+
+<p>--Vou trabalhar, meu tio.</p>
+
+<p>--Havemos de falar logo.</p>
+
+<p>Ella saiu, e o frade disse a sua cunhada:</p>
+
+<p>--Vá chamar seu marido e venha com elle.</p>
+
+<p>O coronel entrava n'este momento.</p>
+
+<p>--Ei'-lo aqui. Ora vinde cá ambos; temos muito que <span class='pagenum'> 160 </span> dizer e que
+pensar. Dizei-me cá: o que vos diz o coração a respeito de Alvaro?</p>
+
+<p>--Bem; parece-me um bom moço.</p>
+
+<p>--E o vosso, minha irmã?</p>
+
+<p>--Tenho-lhe affeição de mãe, estou familiarisada com elle como se o
+conhecesse desde creancinha.</p>
+
+<p>--E sabeis o que Maria pensa a respeito d'elle?</p>
+
+<p>--Soube-o--disse a cunhada--no momento em que meu irmão entrou. As
+lagrimas que viu nos olhos d'ella eram a confissão do seu segredo.</p>
+
+<p>--Pois que disse ella?--atalhou o coronel.</p>
+
+<p>--Nada, quasi nada... Vendo que eu lhe adivinhava o coração,
+lançou-se-me ao pescoço, chorando. Disse quanto podia dizer.</p>
+
+<p>--Ama-o, em summa--disse o frade--Não admira; o moço é digno d'ella, e a
+Providencia quer que se amem...</p>
+
+<p>--E que tem ella que esperar d'esse amor?--interrompeu o coronel.</p>
+
+<p>--Tem que esperar as consequencias de uma affeição approvada por seus
+paes...</p>
+
+<p>--Se elles a approvarem, meu irmão.</p>
+
+<p>--Pois tu reprovas o amor da tua filha a Alvaro da Silveira?! Eu fico
+por elle... Quereis melhor fiador? Dou-vos a virtude de Maria. Se a nós
+não defendermos, defende-se ella.</p>
+
+<p>--Sabes pouco do mundo, meu irmão--redarguiu o coronel.</p>
+
+<p>--Não sei muito, não; mas o que é preciso saber <span class='pagenum'> 161 </span> para o nosso
+caso, sei-o de auctoridade certa, que é o presentimento bom que me dá
+resolução. O pae de Alvaro diz-me que seu filho quer Maria para sua
+esposa, e elle pede-a para sua filha. Que respondeis?</p>
+
+<p>--Eu respondo que sim, que lh'a dou com toda a vontade, com todo o
+coração--disse a mãe de Maria.</p>
+
+<p>--E eu--disse o coronel--respondo que estudes bem o caracter d'esse
+moço, e quando, passados mezes, não vier algum accidente inopinado
+alterar a opinião que tens do seu merecimento, virás então consultar a
+minha vontade.</p>
+
+<p>--Dizes bem, meu irmão--tornou o egresso--Penso ter-me enganado, e ainda
+agora caí em mim, e na fraqueza dos meus juizos. Disseste bem: eu
+conheço pouco do mundo.</p>
+
+<p>--E não sabes--continuou o coronel---que certos homens, sem serem
+hypocritas, apparecem inesperadamente bons; ás vezes uma pequena
+alteração no seu modo de pensar, produz grandes mudanças na vida
+exterior. Eu recordo-me de um grande phenomeno na minha vida de mancebo.
+Aos dezoito annos era eu rapaz desenvolto, vicioso, desobediente a
+nossos paes, e desprezador de alguns deveres bem sagrados. Amava o
+escandalo estrondoso; e a publicidade das minhas loucuras desvanecia-me.
+Vi esta mulher, que é tua cunhada, e amei-a. Os paes d'ella eram
+exemplares de virtude, e quem houvesse de merecer-lh'a devia ser
+virtuoso. O talvez menos habilitado para lh'a pedir era eu. Resolvi ser
+hypocrita; deu nos olhos a minha improvisada virtude, <span class='pagenum'> 162 </span> e
+consegui levar a nova da minha conversão ao conhecimento da familia de
+minha mulher. Senti augmentar-se o meu amor ao passo que a violencia,
+que eu me fazia para ser bom apparentemente, ia deminuindo. Até cheguei
+a convencer-me de que os virtuosos sem mascara eram felizes. Pedi minha
+mulher, e concederam-m'a. Casei... e depois...</p>
+
+<p>--Foste sempre um bom marido...--interrompeu ella.</p>
+
+<p>--Se tu o dizes, devo acredita'-lo, e a consciencia tambem me diz que o
+fui; porém, a explicação da minha reforma tem alguma cousa singular.
+Fiz-me bom por orgulho, primeiro. Os nossos conhecidos, e
+particularmente os meus rivaes, diziam que eu te faria desgraçada.
+Entrou o meu amor proprio no combate, e tu foste feliz. Quando o mundo
+já não reparava nos meus actos, e calava envergonhado os seus
+vaticinios, era eu teu amigo, teu verdadeiro amigo, sentia-te muito
+dentro do coração, e já não poderia, se quizesse, expulsar-te de lá.
+Appliquemos o conto: Alvaro da Silveira, com quem sympathiso, foi o que
+tu sabes, meu irmão.</p>
+
+<p>«Ainda não ha quatro mezes que o encontraste entregue aos prazeres de um
+gosto pervertido. Em poucos dias mudaste-lhe as inclinações; mas o
+aborrecimento em que o viste, deu-te receios de que o teu balsamo fosse
+inefficaz. Conduziste esse homem a minha casa; conheci que Maria o
+impressionára, e, depois de dois mezes de frequencia constante, Alvaro
+quer casar com minha filha. Quando se ama, meu irmão, é facil fingir
+<span class='pagenum'> 163 </span> dois mezes uma virtude que não tem raizes no espirito, e as
+que tem sómente no coração morrem, quando o amor acaba. Não duvido que
+Alvaro ame extremosamente minha filha; mas receio que não seja amigo
+d'ella: cousas muito diversas, cuja diversidade só bem se conhece dos
+trinta annos em deante. Um casamento rico não me lisongeia. Habituei-me
+a esta pobreza, e sou feliz, não sei até se alguma vez o fui mais do que
+hoje. Maria tambem é feliz. Vê, sem deslumbrar-se, os esplendores da
+sociedade. Sentiu privações em creança, e hoje, não as sentindo,
+agradece a Deus uma prosperidade que seria indigencia, se ella tivesse
+conhecido a abundancia, o fausto, e as demasias de prazeres e dissabores
+que sua mãe conheceu. Não a casemos para a fazermos rica. Se esse moço
+póde dar-lhe ao espirito novos gosos, seja elle embora seu marido; eu,
+porém, não creio que elle possa communicar-lhe o que não sente.
+Estuda-o, meu irmão; estuda'-lo é esperar. Entretanto Maria aprenderá de
+sua mãe as lições que deve receber uma menina que vae ser mulher.</p>
+
+
+<h3>X</h3>
+
+<p>Frei Antonio era esperado anciosamente de Alvaro. Dos labios do frade
+pendia a sua felicidade. Fôra elle encarregado por Silveira de propor ao
+coronel o casamento, <span class='pagenum'> 164 </span> com que o pae queria recompensar as
+virtudes de uma familia, á qual devia a regeneração de seu filho.</p>
+
+<p>O egresso recebera com tristeza o enthusiasmo do discipulo.
+«Esperemos»--foi a sua unica palavra. Alvaro sentiu-se ferido no seu
+amor-proprio, e experimentou um abalo do seu genio. Se o padre soubesse
+ler nos olhos o coração, veria mover-se a areia sobre que fôra levantado
+o edificio da virtude de Alvaro.</p>
+
+<p>O velho Silveira não se doeu menos das reflexões do coronel.
+Irritára-lhe a sua fidalga susceptibilidade. Pretextando-se incommodos
+de Alvaro, suspenderam-se alguns dias as visitas.</p>
+
+<p>Maria, porém, extranha aos reparos de seu pae, não vendo em tres noites
+seguidas Alvaro, denunciou a impaciencia da saudade.</p>
+
+
+<h3>XI</h3>
+
+<p>Silenciosa em sua magua, Maria deixava-se adivinhar, mas não gemia, nem
+perguntava a causa do ar sombrio de seu pae. Esperava anciosa as noites,
+via entrar seu tio só, e nem por um lanço de olhos lagrimosos lhe
+perguntava que mal fizera ella a Alvaro.</p>
+
+<p>A pena, porém, era grande, e sem desafogo. Maria sentiu a desdita que
+presentira, um anno antes; compreendeu a significação amarga d'aquelles
+singelos versos <span class='pagenum'> 165 </span> que fizera nascer uma musica triste, filha da
+sua imaginação.</p>
+
+<p>Adoeceu, sem queixar-se; caíu no leito, quando já não podia esconder de
+seu pae a febre constante que a extenuava.</p>
+
+<p>Veiu o medico do corpo, e conheceu que a dor estava na alma. Frei
+Antonio sabia que ella podia morrer d'aquella febre. Foi, com sua
+cunhada ao pé do leito de Maria, e disse:</p>
+
+<p>--Menina, o nosso amigo Alvaro vem hoje visitar-te, se tiveres forças,
+sáe da cama e vem agradecer-lhe o cuidado; se não, outro dia será.</p>
+
+<p>Aumentou o rubor nas faces das enferma. Voou-lhe um innocente sorriso de
+ventura nos labios. Parou-lhe de repente, a vertigem do sangue.
+Reappareceu-lhe o sol do coração, a florescencia da phantasia, o céo dos
+seus extases, e a claridade radiosa do seu ar balsamico. Era a que fôra,
+quando se lançára a chorar de feliz nos braços maternaes.</p>
+
+
+<h3>XII</h3>
+
+<p>E dizia o coronel a seu irmão:</p>
+
+<p>--Deus me livre de ser cruel para minha filha... Os homens muito
+experimentados na desgraça vêem tudo pela face peor. Póde ser que sejam
+dignos um do <span class='pagenum'> 166 </span> outro. Casem embora, e queira o céo que eu me
+arrependa mil vezes de ter agourado mal d'este casamento. Diz a Alvaro
+que lhe dou minha filha, e diz-lhe mais--que vae com ella a minha vida,
+vida que eu lhe dou, pois antes quero perde'-la, se hei-de um dia vê'-la
+infeliz. Que elle me mate, antes de fazer chorar Maria as primeiras
+lagrimas de arrependimento.</p>
+
+<p>--Não sabes como elle lhe quer...--disse o padre.</p>
+
+<p>--Tambem eu queria muito ás flores em quanto o viço d'ellas não
+desmaiava na minha mão. Depois, que valia uma flor sem perfume, sem
+seiva, amarellecida? Via-a caír sem dó, folha a folha, e, descuidado
+d'ella por amor das outras, punha-lhe em cima um pé indifferente.
+Compreendes o que é o homem, meu irmão? Melhor o compreenderás assim;
+não t'o quero pintar na linguagem propria... Na mão de Alvaro será Maria
+o que as flores foram na minha?</p>
+
+
+<h3>XIII</h3>
+
+<p>Foi restaurada a confiança entre as duas familias. Consentiram-se
+expansões sem testemunhas aos dois amantes.</p>
+
+<p>A nuvem que lhes encobrira alguns dias o bello horisonte do seu destino,
+afervorára-os para mais da alma saudarem a reapparição, para mais se
+quererem.</p> <span class='pagenum'> 167 </span>
+
+<p>Alvaro apressava o enlace. O coronel não o retardava nem o accelerava.
+Entrára-lhe profundamente a desconfiança na alma. Sua mulher tentava em
+vão destruir-lh'a. O frade chegava até a considera-la peccaminosa e
+ingrata aos favores do céo. Maria nem sequer imaginava que podia ser-se
+infeliz na situação d'ella; e contristava-se por não ver seu pae alegre
+como todos.</p>
+
+
+<h3>XIV</h3>
+
+<p>Frei Antonio foi o ministro do sacramento. Abençoou-os na capella de
+Alvaro da Silveira. A um dia de jubilo, seguiram-se muitos dias de
+felicidade intima. Em casa, porém, do coronel, chorava-se muito. Faltava
+alli a alma d'aquella familia. Os irmãos de Maria, alguns ainda
+creanças, estavam affeitos ao seu regaço, ás suas lições, e ás suas
+carinhosas repreensões. O coronel não queria ver a cadeira em que Maria
+se sentava, o piano, o açafate da costura, tudo que parecia chorar com
+elle a falta da sua dona. Sentava-se a familia triste e taciturna em
+redor da mesa. Olhavam todos, sem consolar-se, para o logar de Maria, e
+rompiam de todos os olhos as lagrimas. Erguiam-se, vendo o pae
+erguer-se; apenas a mãe ficava, com o coração partido, dando o exemplo
+da resignação, e consolando com palavras animosas, esforço <span class='pagenum'> 168 </span>
+mais intenso na dôr que a dôr de todos. Ao oitavo dia a esposa veiu
+visitar sua familia. Foi recebida em alvoroço. Queriam beija'-la todos
+ao mesmo tempo. Os irmãos mais novos perguntavam-lhe se ficava para
+sempre. Maria, entre risonha e lacrimosa, repartia-se em affagos por
+todos, desejando alguns instantes de solidão com sua mãe.</p>
+
+<p>--És feliz, minha filha?--perguntava-lhe o coronel.</p>
+
+<p>--Sou, meu pae, quanto se pode ser, longe dos seus. Falta-me lá esta
+familia; ainda não pude, nem poderei considerar-me desligada d'esta
+casa. Parece-me até que sou mais d'aqui, e que a outra é uma casa de
+emprestimo.</p>
+
+<p>O coronel voltou-se para sua mulher, e disse:</p>
+
+<p>--Sentias isto quando casaste comigo? Tinhas assim saudades de tua
+familia?</p>
+
+<p>--Não...--disse a mãe de Maria.</p>
+
+<p>--Então...--tornou o coronel--tua filha é menos feliz do que tu foste!
+No goso da abundancia tem occasião de sentir saudades da pobreza que
+deixou.</p>
+
+<p>--O pae--replicou Maria--engana-se, ou não póde sentir como sente uma
+mulher. Minha mãe havia de sentir o que eu sinto; é que já se não
+lembra... Pois haverá felicidade que me faça esquecer a minha familia?!
+Eu não sei o que é abundancia nem pobreza. Ainda não pude ver a
+differenca que vae do que deixei ao que hoje tenho, senão pelo coração.
+Sou feliz com Alvaro, mas seria mais feliz se Alvaro vivesse como irmão
+dos meus irmãos, aqui...</p> <span class='pagenum'> 169 </span>
+
+<p>Alvaro entrava n'este momento, repartindo por todos amabilidades,
+chamando manos a seus cunhados, queixando-se de que o não tenham
+visitado, convidando-os para o seu camarote, offerecendo-lhes as suas
+carruagens.</p>
+
+<p>--Cousa notavel!--dizia o coronel, tirando á parte frei Antonio que
+tambem concorrera á primeira visita de sua sobrinha.--Cousa notavel! As
+maneiras acanhadas de Alvaro desappareceram. Todos aquelles modos, a
+munificencia com que nos dispensa os seus favores, tem um ar de
+orgulhoso triumpho que me intimida. Ha alli alguma cousa que parece
+dizer. «Casei com vossa filha pobre, e tenho a fidalga generosidade de
+vos querer elevar com ella!» Não te parece?</p>
+
+<p>--Parece-me que estás contaminado da má fé do mundo.</p>
+
+
+<h3>XV</h3>
+
+<p>Felicidade, o que és tu? Engano providencial que nos alimentas na
+alternativa do desejo e do desengano. Amiga cruel que nos foges com a
+esperança, apenas os labios sentem o travo do absyntho que a taça do
+prazer esconde no fundo.</p>
+
+<p>Quem te encontrou n'esta vida, felicidade? O que eras tu, quando eu te
+via espargindo flôres desde o meu <span class='pagenum'> 170 </span> obscuro cantinho até aos
+imaginados horisontes do meu destino?</p>
+
+<p>O que és tu hoje, phantasma severo que desdobras o teu manto negro sobre
+a esperança, que, momentos antes, mandaste luzir no meu despertar de
+infeliz?</p>
+
+<p>Felicidade, o que serás tu, se não és a filha dos homens, morredoura
+como elles, soberba do teu nome, embaindo, com a mascara do opulento, os
+pobres que te esperam, cavando, cada vez mais fundo, no coração do
+ambicioso, o vácuo da cobiça, chegando aos labios do sequioso, que te
+busca na terra, a esponja acerba do desengano?</p>
+
+<p>Porque te não vejo eu debaixo do docel dos principes da terra?
+Enfloraste os berços de Carlos I e Luiz XVI: porque deixaste borrifar de
+sangue no cadafalso as tuas grinaldas?</p>
+
+<p>Busquei-te no seio da familia laboriosa, que aceitou humildemente a
+condemnação do eterno trabalhar, do suor copioso das fadigas. Não
+estavas lá. O braço trabalhador enervou-o a fome, no anno da
+esterilidade, e as creancinhas d'esse homem, sem cobiça de mais pão que
+o necessario á sua familia, vagiam pendentes dos seios aridos de sua
+mãe.</p>
+
+<p>Busquei-te na mediocridade honesta, na alegria da independencia. Era
+falso esse existir na vida. A mediocridade anciava saír da sua esphera;
+a alegria da independencia era um sonho de infelizes servos; a
+independencia era uma situação mentirosa como o teu nome.</p>
+
+<p>Estarias tu na gloria das batalhas? Se fizeste Cesar <span class='pagenum'> 171 </span> o
+primeiro de Roma, porque o não salvaste do punhal de Bruto?</p>
+
+<p>Na gloria da virtude? E a cicuta de Socrates? e a guilhotina de
+Malherbe? Como estremaste os destinos de Séneca e Nero? de Virginia e
+Aggripina? Quando és tu o galardão da virtude, a socia fiel do nobre
+espirito, o premio benemerito do coração immaculado?</p>
+
+<p>Na gloria da sabedoria?</p>
+
+<p>Entraste, por ventura, na alma do philosopho, que tentou levar as
+multidões ao teu sanctuario? Orvalhaste-lhe a aridez do espirito
+abraseado em ancias de achar-te aqui? Déste a Cicero, teu apostolo
+inspirado, a resignação na morte? Estará o teu busto levantado sobre as
+ossadas de centenares de homens prodigiosos, poetas que fizeram seculos,
+honras perpetuas das nações, pisados pela desgraça, mortos de fome de
+pão e de ti, que lhes mandaste arrastar a mortalha por toda a vida?</p>
+
+<p>Passarás ao menos uma primavera, no coração da virgem, que te chama do
+céo, que te crê filha de Deus, que se acolhe ao teu regaço como a asylo
+inviolavel de innocentes, que te vê na ternura maternal, que te beija
+nos labios de seus irmãos, que te respeita nas palavras ungidas de um
+velho, que te abraça soffrega na idolatria de um amante, que aperta ao
+seio todos os teus dons, cingindo-se ao seio do esposo estremecido?</p>
+
+<p>Não, maldita da esperança, tu não estás entre nós. Existirias na terra,
+se entre os homens e Deus não estivesse o infinito.</p> <span class='pagenum'> 172 </span>
+
+
+<h3>XVI</h3>
+
+<p>--Maria vive triste...--dizia padre Antonio dos Anjos a sua
+cunhada.--Não diga isto a seu marido, minha irmã. Poder-me-hei ter
+enganado, e não lhe antecipemos um dissabor.</p>
+
+<p>--E porque não vem ella a nossa casa?!--perguntou a mãe afflicta.--Ha um
+mez que nos não visita, disse aos irmãos que não tornassem lá sem ella
+os chamar... Alvaro já a trata mal? já a não amará?!</p>
+
+<p>--Alvaro vive triste como ella. Encontram-se poucas vezes; ainda se não
+deram as mais ligeiras desavenças entre elles; mas o silencio quando nos
+reunimos todos á mesa, é profundo entre ambos. Fogem de encontrar-se nos
+olhares; e, sem causa proxima, as lagrimas caem ás vezes sobre o prato
+de Maria. O pae de Alvaro pergunta-me o que tem seu filho. Interroga-o,
+e elle responde-lhe que não tem nada. Eu interrogo Maria, e ella pede-me
+que rogue a Deus por ella.</p>
+
+<p>--É pois muito desgraçada a minha filha!--exclamou a lagrimosa
+senhora--Fomos nós que fizemos a infelicidade d'ella. Fui eu, fui eu só!
+Era eu quem devia destruir-lhe este amor no seu principio. Fiz o
+contrario... Dei-lhe azo para que tudo me confessasse, applaudi-lhe o
+puro sentimento que a levava ao coração <span class='pagenum'> 173 </span> de um homem que eu
+julgava digno d'ella; animei-a até a proferir palavras que o pudor lhe
+não deixava saír do coração! Minha pobre filha, é tua mãe quem te fez
+infeliz! Que direi eu a meu marido, quando elle me pedir conta da
+felicidade do nosso anjo, d'aquella santa que tantas lagrimas nos
+enxugou, e nós não podemos enxugar as d'ella... Podemos,
+podemos...--proseguiu ella com exaltação.--Que venha para a nossa
+companhia; vá, meu irmão, vá dizer-lhe que o coração de sua mãe só póde
+achar allivio ao seu remorso, sentindo-a chorar no meu seio... Vá, vá,
+antes que meu marido saiba que ella vive assim... Traga-m'a, póde ser
+que meu marido se não queixe na presença d'ella... Não se lembre que
+ella é casada... Não ha lei divina que obrigue uma mulher a ser victima
+de seu marido...</p>
+
+<p>--Basta, minha irmã!--interrompeu com brandura o padre--Não multiplique
+com o seu amor de mãe os soffrimentos de Maria... Ella não se queixa.
+Quer que a sua dôr seja um segredo para seu proprio tio, e bem sabe que
+minha sobrinha me fez o confidente das suas alegrias e pesares... Póde
+ser que esta sombra de melancolia seja uma nuvem. Não vamos nós
+precipitadamente desafiar uma tempestade, que nem se quer nos ameaça. O
+anjo do Senhor está ao pé de Maria, e um desgosto passageiro é muitas
+vezes uma experiencia que Deus manda para a purificação das suas
+escolhidas. Confiança na justiça divina, minha irmã. Alvaro tem de
+responder hoje ás perguntas de seu pae, e talvez ás minhas. Póde haver
+n'esta melancolia de ambos <span class='pagenum'> 174 </span> uma causa dada por ambos. O
+silencio de Maria faz-me suspeitar que ella não tem bastante confiança
+na razão da sua tristeza. Póde ser que a demasiada saudade dos seus,
+manifestada ao marido, o tenha desgostado. Se tal fôr, é preciso dizer a
+minha sobrinha que o sacramento do matrimonio opera uma suave mudança
+nas ligações de familia. O amor de esposa tem uma santidade superior ao
+de filha: augmentam as obrigações, e vem com ellas o dever do
+sacrificio. Eu conheço pouco do coração humano; mas o de Maria sinto-o
+pensar, e sentir, e desejar dentro do meu. Maria deve amar e ama deveras
+seu marido; porém esse amor sem fausto, sem bailes, sem theatro, sem
+jantares, e sem visitas importunas e ociosas ser-lhe-ia mais grato, mais
+em concordancia com o seu natural. Ora, pois, minha irmã, menos
+lagrimas, e mais reflexão. Repito que não diga a seu marido que eu vim
+aqui fazer-lhe o mal que não imaginava.</p>
+
+
+<h3>XVII</h3>
+
+<p>O velho Silveira chamou seu filho, e disse:</p>
+
+<p>--Que tristeza é a tua, e a da tua mulher, Alvaro?</p>
+
+<p>--Não falemos n'isso, meu pae. O soffrimento calado é o mais nobre, o
+soffrimento irremediavel é creancice expo'-lo á piedade dos outros.</p>
+<span class='pagenum'> 175 </span>
+
+<p>--Soffrimento irremediavel!? De que soffres? Estás arrependido de casar
+com esta menina que adoravas tanto?! Aborreces... enfastiou-te este
+anjo?!</p>
+
+<p>--Não me enfastiou... receio que venha a enfastiar-me... Está bom, meu
+pae, mudemos de pratica. Para onde vamos nós a ares este anno?</p>
+
+<p>--Que modos são esses, Alvaro! Entrou outra vez em ti o demonio da
+perdição!? Foi, pois, uma mentira, uma impostura, uma infame astucia a
+tua emenda?</p>
+
+<p>--Não dou motivo para semelhantes suspeitas, meu pae. O meu proceder é
+hoje como era ha quatro mezes. Ouvi'-lo-hei, senhor, mas v. ex.<sup>a</sup> não me
+accuse sem fundar a sua accusação.</p>
+
+<p>--É possivel que já não ames Maria?!--replicou o pae--Em que desdiz
+ella do que tu e eu esperavamos, Alvaro?</p>
+
+<p>--Pois eu não a amo?! O pae que quer que eu faça? Ser-me-ha preciso
+trazer ao collo minha mulher para o persuadir de que a amo?! Eu não sei
+fazer carinhos piegas... Creio que ella não dirá que a trato mal, nem a
+privo dos seus prazeres...</p>
+
+<p>--Que prazeres! Pois a pobre menina raras vezes sae do seu quarto, raras
+vezes, ha quinze dias a esta parte, se encontra comtigo... que prazeres
+lhe dás, Alvaro? É isto o que tu planizavas quando me pediste que
+empenhasse ao coronel a minha palavra de honra como abono do teu
+procedimento para que elle te não negasse a filha? Vejo que preparas
+para os meus ultimos dias uma grande deshonra, e um grande remorso!
+<span class='pagenum'> 176 </span> Com que cara me apresentarei ao coronel logo que elle saiba os
+surdos padecimentos da nobre menina, que não solta um gemido queixoso!
+Explica-te, Alvaro; não te offendo, sequer, pedindo-te, como pae, uma
+explicação d'essa frieza para com ella... O que é isto?</p>
+
+<p>--Pois eu obedeço, senhor, respondendo em toda a verdade da minha alma.
+Creia que soffro, respondendo assim; mas eu preciso dizer a terrivel
+verdade que me esmaga o coração. Maria não é a mulher, que eu devia
+procurar. Enganei-me. Foi um desencontro, uma desgraça, uma horrivel
+illusão! Eu não sou digno d'ella. Fui atraiçoado pelo amor que Maria me
+inspirou; julguei-me capaz de occupar, toda a vida, o coração com a
+posse d'ella. O demonio venceu. Sinto-me enfastiado; tenho o gelo da
+indifferença na alma, violento este sentimento amargo a confessar as
+virtudes de minha mulher: vejo-a formosa, reconheço que é um anjo, mas
+não posso, ao pé d'ella, passar um quarto de hora sem fastio. Parece que
+o meu arrefecimento lhe passou á alma. Vejo-a triste, responde-me
+chorando se lhe pergunto que motivos tem de tristeza, evita-me quando eu
+faço sobre mim um grande esforço em mostrar-lhe agrado... Em fim, meu
+pae, não era eu o homem que devia fazer a felicidade d'esta mulher...
+Sou incapaz de a maltratar, terei com ella todas as attenções de irmão;
+mas... é necessario que deixe de sentir o que sinto... A violencia é
+inutil... o amor não se crava no coração como quem crava um punhal...
+Basta-me o meu infortunio de não poder ama'-la. Os desgraçados como eu
+<span class='pagenum'> 177 </span> são amaldiçoados pela sociedade, e Deus sabe se elles não são
+mais dignos de piedade que de maldição!... Não poder ama'-la como a
+adorei ha tres mezes! Isto é angustioso, meu pae! Por quem é, não me
+aggrave as minhas dôres com as suas censuras... Não receie nada por
+ella... Eu tirarei da delicadeza todos os pretextos para que ella se
+capacite de que ainda a amo. É uma piedosa mentira em que meu pae, por
+meu bem, e d'ella, e de todos nós, deve consentir, e até empregar a sua
+influencia auxiliadora. Consiga v. ex.<sup>a</sup> que ella saia do quarto, que vá
+aos theatros, que vá aos bailes, que frequente as nossas immensas
+relações, que aprenda na sociedade com outras mulheres a esquecer os
+infortunios domesticos, que eu farei o mesmo...</p>
+
+<p>--É uma alliança infame, que tu queres que eu proteja?--interrompeu o
+velho.</p>
+
+<p>--Como <i>alliança infame</i>!--redarguiu o filho.</p>
+
+<p>--Sim! consentes a tua mulher...</p>
+
+<p>--O que? queira dizer, meu pae!</p>
+
+<p>--Tenho vergonha de o proferir!...</p>
+
+<p>--Então não me comprehendeu, ou me julga um homem destituido de honra.
+Lembre-se que sou seu filho, senhor! Eu não quero fazer com minha mulher
+allianças infames. Quero que ella não faça consistir a sua felicidade
+sómente na minha convivencia de todas as horas, e de todos os instantes.
+Quero que ella reparta os seus desejos, e as suas idéas por tudo que
+possa dar-lhe uma distracção honesta, e concedida ás senhoras da sua
+posição. Não quero que o seu amor á solidão me force, <span class='pagenum'> 178 </span> me
+algeme a um gosto que não tenho. Estamos na sociedade, eu sou um rapaz,
+e quero viver para a sociedade. Gosar não é offender a Deus, como lhe
+incutiram a ella. Nunca a levei aos theatros, aos bailes, a uma visita,
+que não tivesse primeiro que destruir-lhe os preconceitos com que a
+crearam. Está sentada ao piano, ou ao bastidor: quer meu pae que eu
+esteja alli constantemente ao pé d'ella, repetindo-lhe as phrases
+cançadas de um amor de convenção? É hypocrisia com que não posso...</p>
+
+<p>O velho voltára as costas ao filho, e confundira as lagrimas com as de
+padre Antonio que se fizera annunciar.</p>
+
+
+<h3>XVIII</h3>
+
+<p>Alvaro falára pela bocca de todos os maridos maus ou infelizes, quando a
+libertinagem os não cura do veneno do desgosto com o veneno da deshonra.
+Era de certo o enojo, esse desfallecimento de alma incuravel, esse
+morrer do amor que nunca mais resuscita, quando a mulher que o causa é
+esposa, e quando o homem que o recebe não tem a força de virtude que
+converte a piedade em estima.</p>
+
+<p>A paciencia de Maria azedava ainda mais o desgosto de Alvaro, porque as
+lagrimas em silencio eram a mais <span class='pagenum'> 179 </span> pungente censura que ella
+podia fazer ao seu procedimento.</p>
+
+<p>A melancolia do padre, cuja convivencia elle afastava, e o sobrecenho do
+pae, irritavam-n'o até ao frenesi de raiva ás algemas que lhe queriam
+lançar á sua liberdade.</p>
+
+<p>O padre aconselhava-lhe os bailes, e os passatempos que a sua indole
+apreciava. Pedia á sobrinha que o acompanhasse para compartir dos
+prazeres de seu marido; mas a pobre menina, se alguma vez accedia ao que
+lhe era imposto como dever de mulher casada, ia levar á sociedade o
+espectaculo da sua tristeza, e dar incentivo de arguições, umas justas,
+outras exageradas ao procedimento de Alvaro da Silveira.</p>
+
+<p>Menos instada por seu marido, e por seu tio, e por seu extremoso sogro,
+que lhe era segundo pae, deixou de saír, e mui raras vezes visitou sua
+mãe, porque não podia mentir ás suspeitosas perguntas de seu pae, a
+respeito da felicidade que o marido lhe dava.</p>
+
+<p>Alvaro, pouco a pouco, foi-se absolvendo de seus deveres, e respeitos á
+sociedade. Estudou o viver e o sentir dos maridos no circulo das suas
+brilhantes relações, e viu que entre tantos havia só um que pudesse
+atirar-lhe uma pedra. Entendeu que podia ser-se um homem importante aos
+homens, e importante ás mulheres, embora casado, embora propenso a
+esquecer-se todos os dias que o era. Relaxados os deveres, seguiu-se a
+tibieza nas apparencias do decoro, e da delicadeza, ultima ferida que
+uma mulher com dignidade póde receber de um mau marido.</p> <span class='pagenum'> 180 </span>
+
+<p>O seu antigo amigo conde de *** foi reintegrado na sua particular
+estima. Era já recebido no seu quarto, era o seu confidente em segredos
+dignos de ambos, era tudo o que póde ser um amigo intimo, menos relação
+de sua mulher. Maria regeitára com imperio, pouco natural ao seu
+caracter humilde, a apresentação do conde. Ouvira falar d'este homem em
+casa de seu pae, ao tio, e ao sogro, de modo que lhe ganhou asco, e não
+podia vencer o sobresalto com que ouvia annunciar um tal nome, que seu
+proprio marido, tres mezes antes, banira das suas relações.</p>
+
+<p>Na primavera d'esse anno, Alvaro partiu com o conde, e outros de egual
+porte para o campo, em busca de touros para as corridas do campo de
+Santa Anna. Demoraram-se vinte dias n'essa gloriosa expedição digna dos
+netos de Vasco da Gama e de Affonso de Albuquerque... Durante esse
+tempo, Maria não teve de seu marido um bilhete, nem uma saudade. De
+volta, Alvaro achou sua mulher gravemente enferma d'essa molestia que
+entra no coração, e filtra de lá o veneno da morte por todas as fibras.</p>
+
+<p>Disse-lhe palavras consoladoras, instigadas pelo espinho do remorso,
+palavras calculadas na frieza do seu desamor; mas a idéa satanica da
+viuvez entrou-lhe na alma com a esperança de uma felicidade imprevista.</p>
+
+<p>É horrivel! mas não duvideis... Olhae de redor de vós...</p> <span class='pagenum'> 181 </span>
+
+
+<h3>XIX</h3>
+
+<p>Foram aconselhados a Maria ares do campo. Saíu de Lisboa para Collares,
+acompanhada por seu tio, e dois creados. Alvaro partira para Villa
+Franca, e de uma quinta, muito conhecida nos arrabaldes d'aquella villa,
+fazia as suas excursões á caça, em que entreteve um mez, distraído de
+tudo; e embebido no seu affecto remoçado ao inseparavel conde.</p>
+
+<p>Entretanto, Maria déra largas ao coração abafado. Padre Antonio sabia a
+causa do soffrimento, mas affectava extranheza, para não auctorisar
+queixumes de mulher casada. Fazia grandes rodeios aconselhando a sua
+sobrinha a resignação, porém, simulando, sempre, que não conhecia motivo
+para tristeza tão inconsolavel.</p>
+
+<p>Uma vez, Maria, cançou na lucta comsigo mesma, e fixou no tio os seus
+grandes olhos arrasados de lagrimas. Era um olhar de soffrimento que
+reage, uma accusação ao homem que concorrera para o seu infortunio, e
+parecia impor-lhe a violencia da mudez, a morte surda sem a inoffensiva
+respiração de uma queixa.</p>
+
+<p>Frei Antonio entendeu-a, e disse:</p>
+
+<p>--Fala, minha querida sobrinha, accusa-me, e depois pediremos ambos ao
+Senhor que nos dê melhor vida a ambos.</p> <span class='pagenum'> 182 </span>
+
+
+<h3>XX</h3>
+
+<p>A mulher de Alvaro da Silveira balbuciou:</p>
+
+<p>--Não o accuso, meu tio; peço-lhe sómente que me deixe chorar. É bem
+pouco pedir; mas eu sinto um grande conforto n'este unico prazer dos
+infelizes.</p>
+
+<p>--O da oração é maior, minha sobrinha...--atalhou o padre.</p>
+
+<p>--Pois eu não oro, meu tio? É quando sinto mais dentro do coração a
+doçura das lagrimas. Ou peça a Deus paciencia para soffrer até ao fim,
+sem que a minha familia o saiba; ou peça que se digne tocar o coração de
+meu marido, choro sempre, e fico sempre mais desopprimida.</p>
+
+<p>--Mas os teus dias são sempre eguaes, filha. Estás cada vez mais
+abatida, mais magra, e mais febril.</p>
+
+<p>--Que importa o corpo? O que eu recebo de Deus é a força da alma... A
+morte não lh'a peço, por que sei que não faria com ella a felicidade de
+Alvaro... É impossivel que o remorso o não castigue depois... Isso é que
+eu não queria... O Senhor me livre de ser o instrumento das torturas
+d'alguem... E, se eu morresse, a nossa pobre familia soffria muito...
+minha mãe, seguir-me-ia, e os meus irmãos pequeninos nos braços de meu
+pobre pae... matal-o-iam com carinhos... É por isso que eu não peço a
+morte...</p> <span class='pagenum'> 183 </span>
+
+<p>--Não peças, Maria. Diz-me o coração que terás melhores dias da tua
+existencia, e que eu hei de ve'-los ainda.</p>
+
+<p>--Oxalá... e como serão esses dias, meu tio?</p>
+
+<p>--Será quando teu marido voltar ao que era quando te queria tanto.</p>
+
+<p>--Pois esse amor póde por ventura tornar?</p>
+
+<p>--Pois não póde, filha?! Estás passando por uma dolorosa provação; é
+impossivel que não recebas n'este mundo o premio da tua constancia.
+Assim como Alvaro passou do mal para o bem, e depois recaiu no mal, o
+anjo, que o alumiou uma vez, ha de alumia'-lo outra, minha sobrinha.
+Quando menos o esperarmos, estará comnosco, para nos restituir o bom
+coração que nos roubou. Crê, e ora, minha filha. Oremos ambos. As nossas
+supplicas sejam por elle, e deixemos ao senhor apiedar-se de todos,
+quando a sua bondade quizer.</p>
+
+
+<h3>XXI</h3>
+
+<p>Padre Antonio, horas depois, enviava um proprio com uma longa carta a
+Villa Franca. Era um humilde requerimento ao coração de Alvaro.
+Lembrava-lhe, com delicadeza, os seus deveres. Contava-lhe o viver
+attribulado de sua sobrinha, pedia-lhe encarecidamente que viesse
+vê'-la, <span class='pagenum'> 184 </span> ou consentisse que algumas pessoas da familia d'ella a
+acompanhassem no ermo em que vivia.</p>
+
+<p>O fidalgo recebera a carta no pospasto de um festim em que se
+banqueteavam os caçadores, commemorando as façanhas venatorias do dia. O
+conde de ***, chamado por Alvaro a conselho redigiu e escreveu a
+resposta á carta, visto que o seu amigo, turbado de vinho, apenas tinha
+entendimento para conhecer que o frade o incommodava, como parapeito dos
+tiros de sua mulher. A resposta, por tanto, foi simples e peremptoria.
+Alvaro agradecia muito os pios conselhos do padre, sentia muito os
+incommodos de sua mulher; recusava, porém, acceder á convivencia pedida,
+e approveitava a occasião para observar a sua reverendissima que a sua
+pertinaz assistencia em casa d'elle Alvaro era pouco delicada,
+provando-se que não havia n'essa casa meninos para educar. Terminava,
+ordenando que sua mulher se recolhesse a Lisboa quanto antes, visto que
+os ares campestres não conseguiam alliviar os seus padecimentos.</p>
+
+<p>Esta carta foi lida a Alvaro, que deu no hombro do seu secretario uma
+sonora palmada, como signal de applauso e gratidão.</p> <span class='pagenum'> 185 </span>
+
+
+<h3>XXII</h3>
+
+<p>Frei Antonio fôra assistir ao trespasse de um moribundo, e não estava em
+casa quando chegou o conductor da resposta. Foi Maria que recebeu a
+carta, e vendo a letra inesperada de seu marido, sobresaltou-a tanto o
+prazer, que nem sequer reflectiu para abri'-la.</p>
+
+<p>Leu... E mal viu as ultimas linhas. Entrou em tremuras, escondeu a carta
+no seio deixando uma parte visivel; luctou como querendo segurar o
+alento que lhe fugia; mas debalde. Padre Antonio ergueu-a desmaiada de
+um canapé, quando voltou. Tirou-lhe do seio a carta; leu-a, e tornou a
+insinua'-la sem a sobrinha dar fé. Esta, recuperando os sentidos, viu ao
+pé de si o tio, com ar risonho, trahindo-se em algumas palavras
+confortadoras; mas a pobre senhora, de momento a momento, levava a mão
+ao seio para certificar-se de que a carta lhe não fôra tirada.</p>
+
+<p>--Então o que foi isso, minha filha?--perguntou o padre.</p>
+
+<p>--Um desmaio, resultado da grande fraqueza que tenho, de um passeio que
+dei longo de mais para as minhas forças...</p>
+
+<p>--Pois tu saíste, Maria? Não enganes o teu tio.</p>
+
+<p>Aqui, Maria córava, e o frade vinha logo com o remedio, fugindo para
+outra idéa.</p> <span class='pagenum'> 186 </span>
+
+<p>Depois de uma hora em que dois corações angustiados estiveram a
+enganar-se mutuamente, padre Antonio abraçou sua sobrinha; e disse:</p>
+
+<p>--Olha, menina, o extremo do soffrimento não se póde dizer qual é, nem
+quando chega; por isso não direi ao certo que as nossas penas estão a
+passar por serem culminantes. Mas é de fé para mim, filha, que isto
+assim não póde demorar-se muito. A piedade do Altissimo está por
+instantes a amercear-se de nós. Maria, fica no teu quarto; pensa n'essa
+carta que tens no seio, eu vou pensar tambem; e, passada uma hora
+estaremos juntos. Antes, porém, de decidir, Maria, pede ao senhor a luz
+da graça.</p>
+
+<p>Maria ficára como engolfada em profundo pasmo com a mão no seio. O frade
+saíra.</p>
+
+
+<h3>XXIII</h3>
+
+<p>Passada uma hora e um quarto, foi a sobrinha, atemorisada pela falta,
+que entrou subtilmente no quarto de seu tio. O velho estava de joelhos
+diante de uma cruz. Sentiu-a entrar, voltou um pouco a face, e disse:</p>
+
+<p>--Espera um bocadinho, menina; eu falo-te já.</p>
+
+<p>Maria ajoelhou ao pé d'elle.</p>
+
+<p>--Pois sim, oremos juntos: disse o padre--se já resolveste, <span class='pagenum'> 187 </span>
+pede comigo ao Senhor que mude a tua tenção, se ella não é do seu
+agrado.</p>
+
+<p>Decorridos alguns minutos ergueram-se ambos.</p>
+
+<p>--Pensei, meu tio--disse Maria.</p>
+
+<p>--E então?</p>
+
+<p>--Creio que Deus permitte a minha vontade: o tio me dará a certeza da
+minha fé, se não se oppuzer.</p>
+
+<p>--Pois diz, filha.</p>
+
+<p>--Eu fujo a meu marido.</p>
+
+<p>--Como? foges a teu marido?!--atalhou o velho espantado.</p>
+
+<p>--Acolho-me ao seio de Deus, para morrer tranquilla.</p>
+
+<p>--Entendi; minha filha!--exclamou elle com jubilo abraçando-a.--Queres
+dizer que entras n'um convento.</p>
+
+<p>--Sim, sim.</p>
+
+<p>--Foi a minha idéa, quando orava...</p>
+
+<p>--Sim? então, bemdito seja Deus!--disse Maria erguendo as mãos com
+arrebatamento.--Já vejo que o Senhor approva a minha resolução. Eu pedi
+muito á Virgem que lh'a inspirasse, meu tio. Vou para as Therezinhas.
+Tenho lá muitas amigas que me hão de fazer digna de orar com ellas.
+Trabalharei para viver em flôres, em recorte de papeis, em tudo, por que
+pouco me basta. Poderei ve'-lo todos os dias, meu tio, e verei meus
+paes, e meus irmãos. Se Alvaro um dia me quizer, elle irá procurar-me, e
+eu serei sempre o que sou e o que fui. Não lhe tenho odio, não tenho.
+Sei que elle ha de ser ainda muito infeliz, e talvez seja eu, depois de
+meu tio, <span class='pagenum'> 188 </span> quem lhe restitua a boa alma que elle tinha quando o
+conheci.</p>
+
+<p>--Tu choras. Maria?--interrompeu o padre carinhosamente--Levas saudades
+de Alvaro, não levas?</p>
+
+<p>--Saudades? não sei que sentimento é este!... parece-se mais com o da
+compaixão. É como se eu dissesse: podiamos ser ambos tão felizes!.. e
+assim não se sabe qual de nós será o mais desgraçado! É o que eu sinto,
+meu tio. Já vê que o estimo ainda como se fosse um meu irmão perdido de
+vicios, que maltratasse sua familia, e que eu tivesse conhecido enchendo
+de carinhos minha mãe e meus irmãos. Lembra-me que elle era tão amigo de
+todos! entrava na nossa casa como se fosse nosso... agradecia tanto o
+nosso bom agasalho, sem saber que nós ficavamos sempre tristes quando
+elle nos deixava... É porque eu choro, meu tio... Isto é saudade do que
+elle foi, e compaixão do que é.... Paciencia... Vou para as
+Therezinhas... Imaginei-me sempre lá desde creança, não se lembra? No
+tempo em que eu cantava aquellas palavras tristes, pensava tanto em
+pedir a minha mãe que me deixasse entrar no convento, ainda que fosse
+como creada...</p>
+
+<p>--E hoje, Maria... talvez... tenhas de entrar como creada...</p>
+
+<p>--E isso que tem, meu tio?! Pois nas Carmelitas não entravam tantas
+senhoras distinctas que faziam a cozinha ás semanas? Que tem que eu seja
+creada? Alvaro não póde envergonhar-se d'isso; porque ha muitas <span class='pagenum'> 189
+</span> situações vergonhosas para um marido, mas esta--a de servir--não é uma
+d'essas... pois não?</p>
+
+<p>Maria córou proferindo algumas d'essas ultimas palavras. Fr. Antonio
+depois de abraça'-la, disse:</p>
+
+<p>--Eu vou para Lisboa, minha sobrinha. Falarei com a prioreza; veremos
+como has de entrar; antes, porém d'esse passo, é preciso que escrevas a
+Alvaro.</p>
+
+<p>--Pedindo-lhe consentimento?</p>
+
+<p>--Sim.</p>
+
+<p>--Se m'o nega?! não vou?</p>
+
+<p>--Vaes, Maria. A petição é a humildade da esposa; mas a fuga é o ultimo
+direito da victima. Onde ha algoz não ha marido.</p>
+
+
+<h3>XXIV</h3>
+
+<p>Era assim a carta de Maria a seu marido:</p>
+
+<p>«Foste enganado por uma chimera, Alvaro. Não era eu a mulher digna do
+teu amor. Quando vi apertar-se o teu coração á dôr do arrependimento,
+tive mais compaixão de ti do que de mim. Eu, pobre mulher, posso soffrer
+e chorar, sem ser vista. Tu, Alvaro, nascido para os prazeres do mundo,
+cuja privação o meu amor não podia recompensar-te, soffrerias muito, se
+não tivesses animo de affastar com a ponta do pé os deveres, e esquecer
+que eu sou, ao mesmo tempo, tua escrava e tua tyranna.</p> <span class='pagenum'> 190 </span>
+
+<p>«Felizmente que adoptaste o melhor expediente.</p>
+
+<p>«Penso que as distracções, longe de mim, te deixam sentir as doçuras da
+liberdade. És, talvez, feliz. Se o és, Alvaro, olha que esse bem peço-o
+eu constantemente a Deus para ti. Não te deixes vencer jámais do
+remorso. Os meus padecimentos, bem o sabes, não se alliviam em queixas.
+Nunca te pedi explicação da tua frieza, nem te dei uma palavra
+aborrecida por outra. Até as lagrimas te escondia, não é verdade? Se me
+surpreendias chorando, antes queria mentir-te uma invenção, que
+exacerbar-te com as minhas lastimas o pesar de me teres dado o direito
+de te arguir. Quando assim se soffre, Alvaro, não ha idéa de vingança,
+nem se aceita com prazer a expiação de quem nos mortifica.</p>
+
+<p>«Vamos tratar da tua felicidade, meu caro irmão. Deixa-me dar-te este
+titulo que tem tanto do affecto como da razão. Entre nós já não existe o
+grande amor, que me parece ser inflexivel aos dictames do juizo. Podemos
+suavemente caminhar cada um para seu lado, sem voltarmos as costas com
+arremesso. É o que eu queria, e espero consegui'-lo, porque, sendo eu
+tão fraca, a força que sinto para dar um passo em teu bem, é Deus que
+m'a dá, e dar-m'a-ha até ao fim.</p>
+
+<p>«Deixo-te mais livre do que vives, Alvaro. Vou entrar n'um convento, e
+vou pobre como vim para tua casa. Sentirei lá que és meu marido, porque
+não cessarei de orar por ti, e offerecer em desconto das minhas e das
+tuas faltas o tempo que Deus me der de vida.</p>
+
+<p>«Conheço que nasci para a solidão e para os prazeres <span class='pagenum'> 191 </span> ignorados
+da vida obscura. Esta consciencia e a absolvição de algumas cruezas do
+teu caracter para comigo. Tu precisavas de uma mulher que te disputasse
+na sociedade uma parte da tua gloria. Querias, talvez, abrilhantar-me
+aos olhos dos outros com o reflexo da tua luz. E eu, educada na pobreza
+e na simplicidade, não pude, por mais que quiz, contrafazer a minha
+indole. Fui arrastada pelo dever aos raros bailes onde me levaste;
+voltava de lá contente com a esperança de estar sósinha comtigo, e
+muitas vezes me deixaste sósinha com a minha saudade; e tornaste aos
+bailes a aproveitar as horas que eu te aguava com a minha inexoravel
+melancolia.</p>
+
+<p>«Era então que eu te lastimava, por teres sido enganado pelo coração,
+quando me dizias que a vida no ermo, só comigo, era o teu sonho de
+ventura, e amaldiçoavas o brilho perfido da sociedade que te não deixára
+mais cedo ver o que é este mundo, com os olhos da razão.</p>
+
+<p>«Se me não tivesses dito isto, Alvaro, eu seria muito culpada por
+aceitar o sacrificio da tua liberdade. Fomos enganados ambos. Pensava eu
+que era verdadeiro o teu fastio dos prazeres ruidosos e vãos; cuidei até
+que o meu maior merecimento para ti estava no desprezo com que eu ouvia
+lá fóra do meu cantinho o bulicio da vida opulenta. Aqui está porque eu
+não te peço perdão de ter querido ser, contra a vontade de meu bom pae,
+tua mulher. D'esta culpa quem me ha de perdoar é o pobre velho, e eu
+conto com a bondade da sua alma.</p> <span class='pagenum'> 192 </span>
+
+<p>«Aqui tens, pois, o meu destino, Alvaro. Vou para um convento; não devo,
+porém, sahir de tua casa sem praticar este acto de humildade, rogando o
+teu consentimento. Quasi certa de que m'o dás, vou fazer os meus
+ligeiros preparativos. Ainda não disse tudo, Alvaro... Se um dia
+sentires a penosa necessidade de falar a alguem que te diga palavras de
+allivio, procura-me, vae sem receio de encontrares uma queixosa. Eu
+farei quanto puder em teu bem contra o mal que o mundo te houver feito.
+Chamarei á tua alma as reminiscencias do que ella foi, quando eu t'a
+mereci, furtando-a ás outras paixões. Vae procurar-me, Alvaro, e acharás
+sempre uma irmã.</p>
+
+<p>«De tudo o que te disse n'esta longa carta, deves tirar a certeza de
+que, muito longe de odiar-te, estimo-te, sou tua amiga, offereço a minha
+vida pelo dom da tua ventura; mas quizera, Alvaro, que essa ventura não
+fosse mentirosa. A que presentemente gosas não póde ser duradoura, nem
+filha do espirito.</p>
+
+<p>Adeus.</p>
+
+<p class="direita">Tua mulher</p>
+
+<p class="direita"><i>Maria dos Prazeres.</i>»</p>
+
+<span class='pagenum'> 193 </span>
+
+
+<h3>XXV</h3>
+
+<p>Maria entrou no quarto do padre. Estava elle ajuntando n'um sacco os
+seus livros, e uma pouca de roupa branca.</p>
+
+<p>--Já escreveste, filha?! Vamos ver a tua cartinha...--disse elle
+continuando o seu serviço--Eu estou aqui ajuntando estes farrapos, e
+estes quatro livros. A nossa bagagem, Maria, é tão pequena, que a póde
+um frade velho transportar debaixo de um braço. Ora vamos lá; lê a tua
+cartinha.</p>
+
+<p>Maria leu, affectando serenidade. Não podia, comtudo. De instante a
+instante, havia embargo de soluços, lagrimas pertinazes, e alterações na
+côr. Padre Antonio tomou-lhe das mãos a carta, e leu-a em voz alta.</p>
+
+<p>--Está muito boa--disse elle, afagando as faces de Maria--Vou mandar o
+proprio a Villa-Franca. Ámanhã por noite, está cá a resposta. Eu virei
+então saber qual ella foi.</p>
+
+<p>--Pois meu tio, já hoje me deixa?!--interrompeu Maria com vehemencia.</p>
+
+<p>--Pois então, menina? A minha licença acaba logo que a trouxa esteja
+prompta. Eu não extranho isto... Quando me mandaram saír do meu convento
+que era a minha casa, saí logo; agora mandam-me saír de uma <span class='pagenum'> 194 </span>
+casa, que não é minha, que hei de eu fazer? Saír mais depressa ainda, se
+é possivel, e sacudir á saída da porta o pó dos meus sapatos. De mais a
+mais, bem sabes que preciso falar á madre prioreza das Therezinhas no
+teu agasalho, que ainda não sabemos como será, e todo o tempo é pouco...
+Nada de lagrimas! Pelo amor de Deus, recebem-se todas as amarguras com
+olhos enxutos. O merecimento aqui não é chorar, é rir para o céo. Ha uma
+só causa justa para lagrimas, Maria: vem a ser a offensa a Deus, que é
+Pae, ou aos homens, que são nossos irmãos. D'estes peccados, absolvo-te
+eu, menina, que os não tens. A offendida és tu, e, por conseguinte,
+perdão para os homens, e oração de graças ao Senhor.</p>
+
+
+<h3>XXVI</h3>
+
+<p>Alvaro da Silveira recebeu a carta, quando saía para Santarem, onde o
+esperava um brilhante sarau, em que era rainha uma nobre dama que se
+deixara ferir do nobre caçador. Era, portanto, muito improprio o ensejo
+da carta, cuja generosidade tinha para elle o valor odioso de uma
+accusação mascarada. Foi esta a opinião do seu amigo conde.</p>
+
+<p>Alvaro respondeu vocalmente que mais tarde responderia por escripto. O
+portado, industriado pelo padre, <span class='pagenum'> 195 </span> replicou humildemente que não
+voltava sem resposta, ou signal de ter sido recebida a carta.
+Perguntou-lhe Alvaro quem lh'a tinha dado. O creado falou a verdade.
+«Pois esse hypocrita ainda lá está?» exclamou irado o fidalgo...
+«Leva--continuou elle--ahi vae o signal de que recebi a carta».--E
+entregou-lhe, aberta, a carta de sua mulher.</p>
+
+<p>Tal foi a resposta que Maria recebeu. Diga quem puder as lagrimas que
+este desprezo lhe custou. O frade respeitou-as tanto, que em logar de
+consola'-la com a paciencia, eloquente sempre em seus labios, chorou
+tambem.</p>
+
+<p>--Vamos, filha--disse elle por fim.</p>
+
+<p>--Já?! de noite?--reflectiu ella.</p>
+
+<p>--Tens medo, Maria? A noite vae melhor ao estado da nossa alma...
+Chegaremos de madrugada á tua nova casa. Passarás o dia no locutorio com
+a nossa familia.</p>
+
+<p>--Pois está tudo arranjado?</p>
+
+<p>--Tudo, Maria, tudo providencialmente arranjado. Vaes ser hospeda da
+sr.<sup>a</sup> escrivã, em quanto eu não posso por meios certos que Deus me ha de
+deparar comprar-te uma cella no convento. Depois, o teu trabalho
+dar-te-ha uma subsistencia certa. Fallaremos, fallaremos... Vamos
+embora.</p>
+
+<p>Maria foi, quasi desfallecida, encostada ao hombro do padre, até
+entrarem n'uma sege de praça que os esperava no portão. Grande, porém,
+foi a surpresa da attribulada senhora, quando ao entrar na sege, foi
+apertada <span class='pagenum'> 196 </span> por uns braços que só podiam ser de mãe pelo afago
+com que lhe bebiam as lagrimas da face.</p>
+
+<p>O choro de ambas embargava as palavras soluçadas. O que ellas, porém,
+queriam dizer-se era pedirem-se perdão mutuamente; a mãe á filha, por
+lhe haver afervorado e absolvido o amor a Alvaro; a filha á mãe porque
+fraqueava no martyrio, e, sem pedir-lhe conselho, abandonava aos juizos
+da sociedade a explicação da sua fuga, talvez bem infamada.</p>
+
+
+<h3>XXVII</h3>
+
+<p>A sege parou defronte do mosteiro.</p>
+
+<p>Rompia a manhã. Tão lindo estava o céo, tão balsamico o ar ao pé do
+arvoredo do convento, as aves deleitavam tanto o coração, o múrmuro
+despertar da natureza tão meigos arrobos filtrava ao seio de Maria, que,
+enlevada em mudo regalo, docemente lhe marejavam nos olhos as lagrimas
+de um contentamento infantil, se não eram antes o respirar suavissimo da
+abafação angustiosa em que penára.</p>
+
+<p>Aberto o portão exterior, frei Antonio entrou com sua cunhada e
+sobrinha. Algumas religiosas desceram á portaria, e levaram comsigo mãe
+e filha, felicitando esta com grandes jubilos, e inventando graças para
+a desassombrarem <span class='pagenum'> 197 </span> da sua tristeza. Sabiam-lhe bem a maguada
+vida, e a virtude santa, aquellas servas do Senhor. A Mãe de Jesus,
+protectora sempre invocada de Maria, tocou talvez o coração das
+carinhosas freiras que parecem porfiar qual mais mimos e agrados fará á
+querida hospeda.</p>
+
+<p>D'ahi a pouco volveu ao mosteiro Fr. Antonio com a familia toda. O
+coronel esmoreceu d'aquelle seu grande animo vendo a magreza cadaverica
+da filha. O velho, alimpando as lagrimas, fez que nenhuns olhos ficassem
+enxutos. Diante d'aquella magestosa dôr, não houve uma só pessoa que
+tivesse espirito para consola'-lo. O padre, esse, o que mais ali soffria
+talvez, abaixava humildemente a cabeça diante de seu irmão, como quem
+confessa a maior culpa de tamanha desventura.</p>
+
+<p>Uma das religiosas, querendo consolar, censurou sem asperidão, ainda
+assim, o proceder inhumano de Alvaro da Silveira.</p>
+
+<p>Maria fez um gesto de desagrado, e, sentindo amargamente que lh'o não
+entendesse a freira condoida, disse:</p>
+
+<p>--Alvaro da Silveira é meu marido, minha senhora. Deus é que julga as
+nossas acções... Eu preciso a piedade de toda a gente; mas não queria
+que ella custasse a Alvaro a sua condemnação. Meu marido não é mais
+feliz que eu. Por isso que estou muito certa d'isto, peço ás senhoras
+d'esta casa que roguem a Deus por elle, quando lhe rogarem por mim.</p>
+
+<p>Ficaram como assombrados todos os animos, e apiedados <span class='pagenum'> 198 </span> todos os
+corações. Ninguem, durante aquelle dia, proferiu o nome de Alvaro.</p>
+
+<p>Á tarde houve um adeus de muito chorar; mas, ao dia seguinte, lá estavam
+os irmãosinhos e a mãe da secular, e o tio padre, uns para chorar com
+ella, outros para distrai-la com as suas innocentes graças.</p>
+
+
+<h3>XXVIII</h3>
+
+<p>Maria trabalhava em flores, em costura, em tudo que fazia independente o
+seu parco passadio; e, desde o segundo dia, oração e trabalho
+alternavam-se, afóra as horas das lagrimas, que eram de noite, sósinha,
+a occultas das consolações, ás vezes importunas, das amigas--que todas o
+eram.</p>
+
+<p>Frei Antonio foi um dia mui alegre ao locutorio, e disse isto a Maria:</p>
+
+<p>--O pae de Alvaro foi hoje a nossa casa, attribulado que fazia dó! É
+homem honrado, e quer-te como a filha. Sabia tudo, e abraçou-se a teu
+pae, pedindo-lhe compaixão para o mais desgraçado dos paes. Queria
+vêr-te, não se afoutava a vir sem licença nossa. Concedemos-lh'a todos
+com muito prazer. D'aqui a pouco está comnosco, filha. Pede uma grade
+para o receberes.</p>
+
+<p>E, ditas estas e mais algumas palavras da alvoroçada <span class='pagenum'> 199 </span> Maria, o
+velho Silveira chegou-se ao locutorio, dizendo que queria abraçar sua
+filha. O claustro negava-lhe satisfazer tal desejo e d'ali foi para uma
+grade onde foi pathetica a scena. Maria não se queixava, ao mesmo tempo
+que o velho amaldiçoava o filho. Ella, então, punha as mãos
+supplicantes, pedindo-lhe que levantasse a maldição de sobre o infeliz
+Alvaro.</p>
+
+<p>Siveira apertava a mão do padre, e dizia:</p>
+
+<p>--Com este nobre e santo coração recompensa o Senhor todos os
+padecimentos de uma familia; esta virtude, porém, exacerba a minha
+magua, porque eu sou pae de um monstro, e este anjo é victima d'elle,
+e... talvez minha. Fui eu que lh'a pedi, sr. padre Antonio...</p>
+
+<p>Occorriam então as pacientes reflexões de Maria, querendo absolver todos
+os que promoveram o seu casamento. E, sem affectação de virtude, a
+christã de coração e ensino, dizia que mais devia agradecer a Deus as
+provações em que puzera a sua fé, e a sua esperança no premio celestial.</p>
+
+<p>Silveira quiz saber que vida era a da sua nora. Contou-lh'a o padre. O
+velho, pasmado de tanta resignação, quiz logo alli chamar a prioreza
+para dizer-lhe que n'aquelle mesmo dia, a esposa de seu filho era uma
+secular com fartos meios de subsistencia, e com todas as regalias
+possiveis n'um convento.</p>
+
+<p>Maria atalhou a liberalidade do sogro, dizendo que não acceitaria um
+ceitil em quanto pudesse trabalhar.</p>
+
+<p>Foram, pois, baldados esforços de sogro e tio. Não havia, com razões,
+demove'-la do seu proposito. As que <span class='pagenum'> 200 </span> se lhe davam eram
+frivolas. Silveira queria que sua nora tivesse alli a grandeza do seu
+nascimento. A isto replicava ella que nascera mui pobre, e cria que o
+saír da sua obscuridade fôra infelicitar-se, e rebuscar novas pompas
+seria reincidir na desgraça voluntariamente. Só no trabalho esperava
+allivio--dizia ella; e por misericordia pedia que a deixassem com os
+seus recursos, porque a aptidão para o trabalho fôra o seu inexhaurivel
+patrimonio.</p> <span class='pagenum'> 201 </span>
+
+
+
+
+<h2>LIVRO ULTIMO</h2>
+
+
+<h3>I</h3>
+
+<p>Desde 1835 até 1842, a historia de Alvaro da Silveira é a historia de
+todos os homens perdidos.</p>
+
+<p>A reclusão de sua mulher, no principio, recebeu-a como um ataque aos
+seus direitos de marido, e quasi esteve, por orgulho, a requerer um
+divorcio, ou, ainda mais, a annulação do casamento.</p>
+
+<p>Outras idéas vieram desenlea'-lo d'esta preoccupação periodica. O seu
+amigo conde chasqueava-lhe a demasiada susceptibilidade, dizendo-lhe que
+poucos maridos deviam tanto á fortuna, que por tão suave processo, o
+descartára a elle do tropeço conjugal.</p>
+
+<p>O velho Silveira saíu d'este mundo, um anno depois que Maria entrára no
+convento ralado de penas, infamado pelas immoralidades de Alvaro, que,
+de collaboração com o conde, redigira os famosos estatutos para a
+chamada <i>sociedade do delirio</i>. Ao estrondo das primeiras <span class='pagenum'> 202 </span>
+impudencias, o pobre pae correu a querer salvar o filho. Foi recebido
+com desdém, e repellido com o desprezo ás suas instancias. O velho
+coração não podia com o golpe. Morreu sem filho ao pé do leito, quasi
+desamparado dos parentes que o inculpavam na educação licenciosa de
+Alvaro. Quem lhe ministrou as consolações do trespasse, foi um extranho.
+Frei Antonio dos Anjos, ao qual o senhor de uma grande casa disse á hora
+da morte, que as dissipações de Alvaro não lhe tinham deixado seis
+vintens para mandar dizer por sua alma uma missa.</p>
+
+
+<h3>II</h3>
+
+<p>O marido de Maria viajava então por França, onde lhe foi a nova da morte
+de seu pae. Alvaro melhorava de meios, porque os recursos, que seu pae
+lhe dava com quanto superiores ao rendimento de sua casa, não bastavam á
+dissipação.</p>
+
+<p>Veiu prestes a Lisboa tomar conta dos seus vinculos.</p>
+
+<p>Procurando um usurario que lh'os acceitasse como hypotheca de alguns
+contos de réis, ninguem os queria por mais do valor dos rendimentos de
+tres annos, porque a magreza livida de Alvaro aterrava os agiotas.</p>
+
+<p>Um mercieiro, antigo creado de seu pae, sabendo que o fidalgo barateava
+á usura os seus bens, apresentou-se-lhe <span class='pagenum'> 203 </span> para acceita'-los como
+hypotheca de uma somma quasi egual ao valor d'elles.</p>
+
+<p>Alvaro abençoou o seu destino, e receoso de que o mercieiro se
+arrependesse, apressou o contracto.</p>
+
+<p>O comprador, porém, clausulou que em sua mão ficaria uma certa somma
+para acudir ás necessidades da esposa do vendedor, se ella um dia as
+sentisse. Alvaro acceitou essa hesitação maravilhado de que o inepto
+logista não pedisse a assignatura consentanea de sua mulher!</p>
+
+<p>Este mercieiro conhecia frei Antonio dos Anjos. Captivo do benevolo
+interesse d'elle, o padre fôra-lhe contando os infelizes acontecimentos
+d'aquella casa. O velho creado de Gonçalo da Silveira, quando soube que
+seu amo expirára, quasi desamparado, sem seis vintens em dinheiro para
+uma missa, chorou, e protestou valer ao filho, quando o soccorro lhe
+aproveitasse depois de uma lição amarga.</p>
+
+
+<h3>III</h3>
+
+<p>Em 1842, Alvaro fugindo aos credores de Pariz, de Londres, de Madrid, de
+onde quer que desbaratou o seu e o alheio, appareceu em Lisboa pedindo
+ao mercieiro que lhe valesse. A desgraça quebrára-lhe a soberba. Alvaro
+pedia com humildade, se não era antes relaxamento, <span class='pagenum'> 204 </span> soccorro ao
+creado de sua casa. O logista deu-lhe a quantia que ficára, como em
+deposito, para ser dada a Maria, dizendo que ella a mandára entregar a
+seu marido.</p>
+
+<p>Recebeu-a com indifferença, e consumiu-a obscuramente em uma roda que
+não era a sua, na convivencia de individuos que, sómente no abysmo da
+desgraça, sem honra, se encontram.</p>
+
+<p>Padre Antonio dos Anjos não sabia dizer a Maria, onde seu marido estava.
+O mercieiro é que não perdeu de vista o filho de seu amo, com a mira de
+levanta'-lo, quando elle abrisse os olhos no extremo caír de perdição.</p>
+
+<p>Foi elle, pois, quem deu ao frade miudas novas de Alvaro de Silveira.
+Umas vezes recebia dos parentes uma dadiva, como esmola. Outras,
+achava-se entre a gentalha, buscando nas fezes sociaes esquecer os
+explendores que dissipára. Eis ahi que chegava a mão mysteriosa do
+logista.</p>
+
+
+<h3>IV</h3>
+
+<p>Um dia, Alvaro da Silveira quiz annullar o contracto feito com o
+desconhecido bemfeitor. Aconselharam-n'o que a acção de dolo devia ser
+intentada por sua mulher contra o comprador fraudulento dos vinculos.
+Alvaro <span class='pagenum'> 205 </span> escreveu a sua mulher uma carta, onde se via um
+espirito embrutecido pela desgraça, um ar de cynica indifferença, não
+affectada, porque é ella o caracteristico do homem a seus proprios olhos
+desprezivel. N'esta carta, pedia Alvaro a Maria que o coadjuvasse a
+resgatar os bens de que dependia a farta subsistencia de ambos.</p>
+
+<p>Maria respondeu que não podia demandar o comprador de uns bens que ella
+nunca julgára seus. Accrescentava que os unicos bens de sua posse eram a
+propriedade do trabalho; e o resultado d'elle reparti'-lo-ia irmãmente
+com seu marido, se elle o acceitasse. O padre quiz ser portador d'esta
+carta.</p>
+
+<p>Alvaro não poude evitar a presença do tio de sua mulher. Estava elle
+vivendo em um quarto de emprestimo na casa de um homem, que lh'o
+offerecera, não conhecido seu. A providencial espionagem do mercieiro
+preparára-lhe esse quarto, ao mesmo tempo que o avisavam das intenções
+de Alvaro, ácerca dos rendimentos comprados.</p>
+
+<p>Eis aqui o que disseram Alvaro e o padre.</p>
+
+<p>--Que futuro será o seu, sr. Alvaro?</p>
+
+<p>--A continuação do presente, quando sua sobrinha não queira tirar-me
+d'elle.</p>
+
+<p>--Minha sobrinha?!</p>
+
+<p>--Sim. Se minha mulher annullar a escriptura que assignei do trespasse
+dos meus rendimentos por vinte annos...</p>
+
+<p>--Já viu o que minha sobrinha lhe diz.</p>
+
+<p>--Então, seremos ambos desgraçados, e eu mais de <span class='pagenum'> 206 </span> que ella,
+porque fui creado na opulencia, e ella...</p>
+
+<p>--Na miseria: póde v. ex.<sup>a</sup> acabar a phrase que nos não envergonha. Maria
+offerece a seu marido um quinhão da sua miseria.</p>
+
+<p>--Não entendo...</p>
+
+<p>--Reparte com seu marido o salario de seu trabalho.</p>
+
+<p>--Está zombando? Que póde minha mulher repartir?</p>
+
+<p>--Migalhas.</p>
+
+<p>--Eu não vivo de migalhas, nem queria que ella vivesse. Agradeço-lhe
+esse offerecimento que me faz. Se é castigo com que me pune, bem
+castigado estou, sr. frei Antonio. Diga-lhe que aos desgraçados da minha
+especie perdôa-se, porque a necessidade é um supplicio infernal para o
+homem que teve.</p>
+
+<p>--E, comtudo, a honra na pobreza rehabilita o desgraçado.</p>
+
+<p>--Não é n'este tempo, nem n'esta sociedade... E, de mais, eu não sou
+deshonrado. Tenho gasto muito, tenho dissipado tudo, mas esse muito,
+esse tudo era meu.</p>
+
+<p>--Tem v. ex.<sup>a</sup> orgulho do seu feito!</p>
+
+<p>--Tenho; tenho legitimo orgulho de ter fugido á sociedade antes que ella
+me repellisse.</p>
+
+<p>--E se ella o abraçasse na sua pobreza?</p>
+
+<p>--O senhor não conhece os homens. Se os conhecesse, sua sobrinha seria
+hoje a feliz virtuosa que foi.</p>
+
+<p>--E é, se não feliz, virtuosa... mais, pela paciencia, e pela
+esperança...</p>
+
+<p>--Esperança!...</p> <span class='pagenum'> 207 </span>
+
+<p>--Esperança, sim, de o ver rehabilitado perante ella e o mundo. Ouça-me,
+sr. Alvaro. Comece hoje a ser amigo de sua mulher, se póde. Verá o que é
+um anjo. Verá como ella o faz esquecer da sua posição infeliz n'este
+mundo. Aquelle poder de Deus, que as minhas mãos indignas não souberam
+empregar na sua regeneração, verá v. ex.<sup>a</sup> o que é nas mãos da pobresinha
+recolhida de Sant'Anna. Queira ve'-la, que ella não lhe fugirá. Vá
+ve'-la. Não cuide que tem de pedir perdões, accusando-se de ingratidões
+e crueldades. Vá como se não tivessem corrido seis annos sem se verem,
+sem se escreverem. A sua salvação é ella que a tem no thesouro da nobre
+alma que Deus lhe enche todos os dias de conforto e esperança...</p>
+
+<p>Alvaro escutára o longo discurso do padre, sem quebrar-lhe a successão
+de palavras qual d'ellas mais tocante.</p>
+
+<p>Frei Antonio por fim, abraçando-o com carinhosa effusão, perguntou:</p>
+
+<p>--Vae, sr. Alvaro?</p>
+
+<p>--Irei, se assim o quizer.</p>
+
+<p>As muitas lagrimas de Maria, as de sua familia, as orações religiosas
+que pediam a Jesus Misericordioso a regeneração de Alvaro, começaram a
+florir, para fructos abençoados.</p> <span class='pagenum'> 208 </span>
+
+
+<h3>V</h3>
+
+<p>O padre separára-se no caminho, por suppor que a sua assistencia
+constrangeria Alvaro na presença de Maria dos Prazeres. Alvaro, porém,
+desde que se viu só, e á porta do mosteiro, desanimou.</p>
+
+<p>Não foi o receio de ser accusado de ingrato e cruel que o susteve. Essas
+accusações já o frade lhe tinha dito que as não ouviria. O que lhe
+esfriou o alvoroço com que ia, foi um sentimento de vergonha de si
+proprio. Acostumado a deixar-se sempre guiar, sem combate, pelas
+primeiras impressões, boas ou más, Alvaro, depressa annuira a procurar
+sua mulher, e mais depressa foi vencido pelo orgulho que lhe dizia
+quanto elle ia ser pequeno diante de sua mulher.</p>
+
+<p>A soberba apraz-se, ás vezes, escarnecer as suas victimas, depois que as
+acha despenhadas na miseria. É quando ella se converte em castigo duro,
+tormento incomparavel. Em quanto rico, Alvaro, mordido pela serpente da
+soberba, acudiu á dôr da chaga com o balsamo do ouro, essa alavanca
+poderosa do capricho e da vingança. Pobre, a ferretoada da vibora
+entrava-lhe até ao coração, e d'ahi lavrava ulcerosa, porque a miseria
+constante lh'a estava descarnando sempre.</p>
+
+<p>Por isso o pobre orgulhoso será entre os mais desgraçados <span class='pagenum'> 209 </span> o
+primeiro. Se Deus se não amercear das angustias, que espedaçam o homem
+caído em miseria do alto da grandeza, o inferno das dôres
+indescriptiveis estará no coração d'esse Lucifer despenhado.</p>
+
+
+<h3>VI</h3>
+
+<p>Maria recebeu esta carta:</p>
+
+<p>«É o teu amor, ou a tua piedade que me chama, Maria? Se amor...! como
+hei de eu acredita'-lo? que fiz eu que te não mereça odio? onde póde
+estar esse amor, depois de seis annos de ingratidões, e esquecimento, a
+peor de todas?! Esquecimento, não. Lembravas-me, Maria, e sabes quando,
+e com mais amargura? Quando me sentia caír. A cada empurrão que o
+destino, ou o Deus da vingança, me dava para este abysmo, era então que
+eu te via, despenhada por mim, vendo-me caír; mas que differença entre
+as nossas quedas! Eu a precipitar-te e um anjo do céo a erguer-te para
+onde a minha alma desesperada não póde já desafogar as suas afflicções!</p>
+
+<p>--Não pódes amar-me, Maria, não pódes. A compaixão, se outro affecto me
+não tens, essa não a acceito. Além de certo extremo de infortunio, está
+o egoismo na desgraça, o desprezo da piedade vã se não é antes
+humilhadora. <span class='pagenum'> 210 </span> Deixa-me esperar a mórte, n'este lodaçal em que
+vivo. A esperança não póde mais entrar em minha alma. Adeus.</p>
+
+<p class="direita"><i>Alvaro</i>».</p>
+
+
+<h3>VII</h3>
+
+<p>As lagrimas de Maria desfaziam as linhas que ella escreveu, em seguida á
+leitura d'esta carta. A penna obedecia ao ardor do coração. Era a
+primeira vez que ella o escutava, e lhe obedecia sem consultar primeiro
+o padre.</p>
+
+<p>Era assim a resposta que Alvaro recebia pelo mesmo portador:</p>
+
+<p>«Vem, meu amigo. Deus te guie o coração que a sua divina mão abriu ao
+arrependimento. Tu és ainda muito rico: do thesouro de amor que te dei,
+e tu rejeitaste, não dissipei um só dos carinhos com que heide
+restituir-te..., restituir-te, não digo bem, com que heide dar-te uma
+felicidade nova, nunca experimentada. O infortunio fez-te bom. Tu
+precisas de mim e eu hoje tenho um santo orgulho de ser a unica pessoa
+que tens por ti, um coração amigo. Esse egoismo na desgraça é uma
+soberba blasfema. Deus não te desamparou, meu amigo. Se de mim não
+queres consolações, vem ao menos ver como eu choro a perda das tuas
+esperanças.</p>
+
+<p class="direita"><i>Maria</i>».</p> <span class='pagenum'> 211 </span>
+
+
+<h3>VIII</h3>
+
+<p>O orgulho de Alvaro succumbiu. No dia seguinte, procurou Maria. Desta
+vez, não o abandonou o animo á porta do mosteiro. A primeira pessoa que
+viu no pateo foi o seu mestre, o tio de sua mulher.</p>
+
+<p>Eram oito horas da manhã. Frei Antonio entrava no templo para
+sacrificar, e convidou Alvaro a segui'-lo, porque Maria estava no côro,
+e, só depois da missa, viria ao locutorio.</p>
+
+<p>O abstrahido moço, entrou ne egreja e ajoelhou. Maria soltára, no seio
+de uma amiga, um <i>ai</i> que o denunciára. A amiga, electrisada pelas
+lagrimas felizes da secular, pediu á prelada se lhe consentia que
+tocasse o orgão durante a missa. Obtido o consentimento, fez soar,
+magestosa de tristeza, tristeza suavissima que dulcifica as lagrimas, a
+musica do <i>Te-Deum laudamus</i>.</p>
+
+<p>Na fronte de Alvaro eriçaram-se os cabellos: a felicidade
+trasbordava-lhe do seio em lagrimas, corria-lhe o corpo o calefrio do
+arrebatamento, esse phenomeno inexplicavel que tantas vezes abala as
+organisações delicadas.</p> <span class='pagenum'> 212 </span>
+
+
+<h3>IX</h3>
+
+<p>Soube-se logo a causa da perturbação de Maria. A prelada quiz saber
+porque chorava assim. A docil senhora não podia nem devia esconder o
+motivo das suas lagrimas. Pediu uma grade para receber seu marido, e a
+prioreza, ensinada pelo coração que adivinhava os desejos de Maria,
+pediu-lhe para acompanha'-la á grade. A mulher de Alvaro apertou-a ao
+seio com alvoroço de contentamento.</p>
+
+<p>--Venha comigo, minha mãe,--disse ella--Eu preciso que elle ouça as
+palavras que Deus manda ao seu coração. Dê-lhe a elle a felicidade no
+infortunio como m'a deu a mim. Não espero que elle me dê um amor como eu
+o esperava antes de experimentar as angustias do desprezo; mas se for
+possivel converte'-lo ao temor de Deus, elle ha-de estimar-me, e com a
+minha estima soffrerá os trabalhos da vida, sem a impaciencia que o faz
+blasfemar. Oh! meu Deus! elle é tão novo e tão desgraçado! Que longa
+vida de desesperação será a d'elle, se não conseguirmos mostrar-lhe que
+se póde ser pobre e feliz!</p>
+
+<p>A prelada pediu cinco minutos de espera. Recolheu-se em oração ao seu
+oratorio, e voltou com o sorriso de esperança para Maria, e a confiança
+em Deus no coração.</p>
+
+<p>Entraram na grade.</p> <span class='pagenum'> 213 </span>
+
+
+<h3>X</h3>
+
+<p>Alvaro estava em pé, com os olhos fitos na porta por onde Maria devia
+entrar. A prioreza, apenas entrou com a secular pela mão, disse mui
+affavelmente:</p>
+
+<p>--Eu não esperei que me apresentassem o sr. Alvaro para ter o prazer de
+cumprimenta'-lo. Conheci n'esta casa suas tias-avós, conheci sua mãe, e
+seu pae e toda a sua familia. Até conheci um anjinho do céo, que me
+disseram ser esposa de v. ex.<sup>a</sup> Tratei de averiguar se era verdade. O
+mundo dizia que sim, o anjinho tambem dizia que sim, e eu disse sempre
+que não, porque não acho natural que o possuidor de um thesouro, vindo
+do céo, o lançasse de si. Teima a minha Maria em dizer que é sua, e eu
+digo que não póde ser senão de quem eu quizer. Agora é minha filha e não
+póde ser sua esposa, sem que v. ex.<sup>a</sup> m'a venha pedir com todas as
+formalidades de noivo.</p>
+
+<p>--E dar-m'a-ha v. ex.<sup>a</sup>?--perguntou Alvaro correspondendo com jovialidade
+á graça risonha da prelada.</p>
+
+<p>--Dou-lh'a--replicou a prelada--com uma condição. Há de vir viver ao pé
+de nós.</p>
+
+<p>--Como, minha senhora?!</p>
+
+<p>--Ha-de vir viver comnosco. Aposto que está lá fazendo seus entes de
+razão contra a violação do claustro? <span class='pagenum'> 214 </span> Eu lhe digo, meu genro,
+uma freira, que tem uma filha como esta, dá um testemunho de que se
+deixou arrastar por alguma d'essas paixões feias que são a origem
+d'estes anjos tão lindos! V. ex.<sup>a</sup> está-se rindo?! Então ouça-me agora
+seriamente, e esta Maria, que está chorando e rindo ao mesmo tempo,
+escute tambem. O sr. Alvaro vem viver comnosco, não é bem comnosco,
+porque entre a nossa casa e a sua ha uma parede. Então já sabe para onde
+vae?</p>
+
+<p><p>--Não, minha senhora; espero as ordens de v. ex.<sup>a</sup>.</p>
+
+<p>--Vae para casa do nosso capellão, que é um egresso chamado Antonio dos
+Anjos, um santo, que foi algum tempo mestre de uma creança traquinas,
+que andou por esse mundo de Christo a fazer travessuras, e me dizem que
+ainda aqui ha-de vir para ser muito meu amigo, e talvez para me pedir
+contas de um coração que eu, sem sua ordem, recolhi ao meu, para ambos
+pedirem juntos ao Senhor das misericordias a redempção de um escravo do
+mal, tão digno de ser o que eu sei; e Deus quer que elle seja.</p>
+
+<p>Maria rompeu em soluços e lagrimas. A prelada tomou-lhe para o seio a
+face, como se afagasse uma creança. Alvaro estava immovel, com os olhos
+rasos de lagrimas postos no sympathico grupo da encanecida prioreza e da
+ainda formosa Maria.</p>
+
+<span class='pagenum'> 215 </span>
+
+
+<h3>XI</h3>
+
+<p>--Assim a chorar (continuou a freira mudando para o tom jovial) não
+podemos combinar as nossas escripturas de casamento, nem as precedencias
+que hão de dar-se antes de se unirem os meus filhos. O sr. Alvaro ha de
+estar dois mezes na companhia do nosso capellão: ha de vir todos os dias
+a esta grade almoçar com a sua velha sogra e com a sua futura esposa; ha
+de vir todas as tardes saber como está o rheumatismo da decrepita
+prelada, e traduzir-me do francez um sermão do padre Massillon, porque
+eu já não posso ler. Quando não estiver para ler á velha, ha de me
+contar o que viu nas suas viagens. Para tornarmos bem amena esta santa
+vida que projectamos, ha de vir para esta grade o dote que eu dou á
+minha menina: é um piano, e ella ha de perder o seu natural acanhamento
+e tocar umas musicas tristes que levam a consolação ao espirito, e
+trazem de dentro um tributo de lagrimas aos olhos. Ora, pois, meu genro,
+responda se está pelas condições que eu acabo de propor-lhe.</p>
+
+<p>--Minha senhora...--balbuciou Alvaro.</p>
+
+<p>--Não está?!--interrompeu a prelada.</p>
+
+<p>--Se estivesse ao pé de v. ex.<sup>a</sup>... beijar-lhe-ia essa mão, que sinto no
+coração arrancando-me os espinhos <span class='pagenum'> 216 </span> que m'o rasgavam. Deixe-me
+verter este pranto que é uma respiração de homem que se salva da morte
+de asfixia. Respondam as minhas lagrimas, senhora, eu não posso dizer
+mais nada.</p>
+
+<p>--Eu vos agradeço, meu Deus!--exclamou a freira erguendo as mãos, e
+ajoelhando, com a face pendida para o seio. Fôra como um toque celeste o
+d'aquella transição do sorriso para a humildade magestosa d'aquella
+postura, em que Alvaro e Maria pareciam absorvidos, contemplando-se, e
+contemplando-a, mudamente.</p>
+
+
+<h3>XII</h3>
+
+<p>Fr. Antonio dos Anjos, sabendo que a prelada o mandára entrar na grade
+passados alguns minutos, chegou no ensejo em que a veneranda senhora
+limpava as lagrimas.</p>
+
+<p>--São lagrimas de felicidade...--exclamou ella--Venha compartir do nosso
+jubilo, Fr. Antonio. Ahi tem o seu discipulo, que vem do mundo mais
+instruido do que foi das suas lições. Traz a sciencia da desgraça, e
+entende que para ser um sabio completo só lhe falta a sciencia da
+resignação. Essa é que o padre capellão lhe ha de ensinar. Já sabe que o
+seu quarto ha de ser mobilado por mim, e conforme fôr do meu agrado?
+Pois <span class='pagenum'> 217 </span> ha de ver como uma freira caduca tem ainda o gosto
+apurado. Hoje ha de remediar-se com a cama que o padre lhe der; amanhã
+ha de ter um quarto que nem um palmito. Os quadros hão de ser os que a
+minha filha me deu; são flôres que significam o aroma que vae da oração
+até Deus; são um cãosinho que é o symbolo da amizade; é uma cruz que
+significa o throno onde todas as angustias são coroadas soberanas da
+gloria eterna... em fim, são obras de muito lavor e de muita paciencia,
+desbotadas quasi todas pelas lagrimas. Ora pois, está tocando ao côro;
+eu vou lá pedir a Deus que abençoe a escolha que fiz de um genro, e a
+minha filha, que está mais para chorar, qual quer, vir enxugar essas
+lagrimas aos pés da cruz, ou ficar aqui?</p>
+
+<p>Maria não respondeu. Frei Antonio interrogou com os olhos a vontade de
+Alvaro, e conheceu-o opprimido.</p>
+
+<p>--Vão, vão--disse o padre--Nós voltaremos.</p>
+
+<p>--Maria!--disse Alvaro--eu ainda te não ouvi uma palavra. Seja só uma...
+diz-me: «perdôo-te.»</p>
+
+<p>Maria exclamou entre soluços:</p>
+
+<p>--Deus sabe que nunca te accusei; se me tivesse queixado com ira,
+pedia-te perdão agora.</p>
+
+<p>--É, pois certo, meu Deus?--disse Alvaro.</p>
+
+<p>--O que?--perguntou a prioreza.</p>
+
+<p>--É certo que é possivel a felicidade para mim?</p> <span class='pagenum'> 218 </span>
+
+
+<h3>XIII</h3>
+
+<p>Alvaro da Silveira hospedou-se em casa do capellão. As suas horas eram
+repartidas conforme o programma da prioreza. Frei Antonio já não ousava
+confiar em si, e suffocava sempre a alegria do coração que exultava com
+a rehabilitação de Alvaro.</p>
+
+<p>Maria, porém, acreditava-o, e a prelada tambem. Alvaro parecia feliz com
+ellas, feliz com o padre, feliz com a leitura em que empregava o tempo
+livre.</p>
+
+<p>Ninguem lhe falava no seu passado, nem elle proferia palavra que
+despertasse recordações. Tambem não falava no futuro, e, se Maria
+vaticinava delicias na pobreza, o melancolico moço revelava um
+soffrimento doloroso como a vergonha ou como o remorso.</p>
+
+<p>O passadio de Alvaro era superior ás posses do egresso. Um dia perguntou
+elle se a capellania consentia tanto. Frei Antonio respondeu que podia
+muito o trabalho de Maria. Alvaro chorou, ergueu-se da mesa, e exclamou:</p>
+
+<p>--Estou punido, meu Deus!</p> <span class='pagenum'> 219 </span>
+
+
+<h3>XIV</h3>
+
+<p>Alvaro, procurando Maria, disse-lhe:</p>
+
+<p>--Não abusarei das tuas bondades, anjo. Vivo do teu trabalho,
+agradeço-te de joelhos a esmola, e não posso continua'-la a receber.</p>
+
+<p>Maria soltou um grito do coração e disse a Alvaro que a não matasse.</p>
+
+<p>--De joelhos sou eu que te peço, meu amigo--exclamou ella--que me não
+abandones. Recompensa-me do muito que soffri, permittindo que eu sinta a
+santa felicidade de trabalhar para nós ambos. Oh! tu não sabes avaliar
+que ventura é esta! Se tivesses nascido pobre como eu, se tivesses
+ajudado com o teu talento a comprar o pão de teus paes e teus irmãos,
+não tinhas a crueldade de me roubar este prazer. Ó Alvaro, diz-me que é
+certo viveres para mim e para a esperança de melhores dias. Diz-me que
+entre a minha alma e a tua não ha uma linha de distancia que separe as
+nossas ultimas migalhas de pão.</p> <span class='pagenum'> 220 </span>
+
+
+<h3>XV</h3>
+
+<p>Passados dois mezes encontraram-se frei Antonio e o mercieiro que tinha
+emprestado dinheiro sobre os rendimentos da casa de Alvaro.</p>
+
+<p>--Já sabe tudo?--perguntou o padre.</p>
+
+<p>--Sei tudo--disse o lojista--O rapaz está outro. Vae ver sua mulher
+todos os dias, e ouvi dizer que chorava os seus peccados. Que faz elle
+agora se está arrependido? Porque não tira a pobre senhora do convento?
+Que se arremedeiem com pouco, e vivam juntos.</p>
+
+<p>--É pouco de mais o que elles têem para viverem.</p>
+
+<p>--Eu darei o que lhes faltar; mas requeiro debaixo de juramento que
+nunca a minha protecção seja sabida por algum d'elles.</p>
+
+<p>Oito dias depois, Maria dos Prazeres, ou dos Anjos como a chrismaram no
+convento, para que o sobrenome não fosse uma falsidade, saiu do convento
+para uma pequena casa, onde seu marido a esperava com a face inundada de
+lagrimas felizes.</p>
+
+<p>Aquelle viver dos tres era um santo frenesi de amor; Vinham compartir
+d'aquella alegria o coronel, a mãe de Maria, seus irmãos, e até a
+prioreza quiz acompanhar sua filha para lhe conter (dizia ella) os
+impetos amorosos da lua de mel. O padre estava sempre em continua <span class='pagenum'>
+221 </span> acção de graças. Ria e chorava ao mesmo tempo o bom do velho. No
+arrebatamento da alegria abraçava a prelada que tinha sempre um equivoco
+mui engraçado que dizer-lhe n'esses expansivos abraços: riam-se todos e
+o coronel rejuvenescia da intempestiva velhice.</p>
+
+<p>--Quem dá os meios para esta casa?--perguntava elle.</p>
+
+<p>--A providencia de Deus--respondia o irmão.</p>
+
+<p>--D'onde vem este dinheiro no principio de cada mez?--perguntava Maria.</p>
+
+<p>--Da Providencia de Deus--replicava o tio ás repetidas instancias.</p>
+
+
+<h3>XVI</h3>
+
+<p>Alvaro da Silveira inspirava receios de reincidencia ao padre. A sua
+primeira conversão parecia sincera e firme, e o anjo do bem abandonára-o
+ás presas do vicio resurgente. A segunda, semelhante á primeira, com
+quanto abonada pela experiencia de duras penas, poderia, chegando ao
+extremo, não vingar. Fr. Antonio temia o tempo, tremia em segredo; e não
+ousava dizer os seus temores á sobrinha ou á irmã.</p>
+
+<p>O marido de Maria, penetrando o coração do padre, dissera-lhe:</p>
+
+<p>--Conheça o coração humano, meu caro bemfeitor. <span class='pagenum'> 222 </span> A minha
+conversão religiosa foi um abalo que devia parar. Eu era um homem que
+achava pequeno o mundo. Scismára muitas vezes na eternidade, quando
+voltava com enojo as costas aos vicios satisfeitos. O meu espirito,
+immergido no lodo, não podia voejar acima do que os olhos abrangiam, e
+os sentidos confirmavam. Refazia-me novamente de forças para a
+libertinagem, procurava-lhe com cynica avidez as faces novas e,
+desesperado de encontra'-las, invocava outra vez a idéa confusa do meu
+destino.</p>
+
+<p>«Quando frei Antonio me appareceu, a minha alma era um vacuo horrivel.
+Ouvi-o, era a primeira vez que a voz de um homem respondia ás minhas
+perguntas a Deus. Affiz-me a considera'-lo um justo, alteei-me onde os
+seus vôos me chamavam, e sentia rejuvenescer a minha alma de viço e
+alentos nunca experimentados. Maria, este anjo de Deus, fez que o meu
+coração se purificasse ao mesmo tempo que o espirito se regenerava. O
+amor que lhe dei, immenso e fervoroso, não era mentira; nem podia
+sê'-lo, por que a mentira não se sustenta á custa do sacrificio da
+liberdade.</p>
+
+<p>«O amor d'ella era para mim uma emanação do amor divino. No dia em que
+aquella ardente fé nos divinos preceitos se entibiasse, arrefeceria
+tambem o amor a sua sobrinha. Estavam vinculados ambos os affectos:
+dependiam um do outro. A religião era como a lampada suspensa no meio do
+templo que reflecte o seu clarão em todos os altares. Logo que se
+apagou, fizeram-se trevas em todas as minhas affeições nobres, em todas,
+<span class='pagenum'> 223 </span> até vergonha senti de haver tido remorso dos meus vicios. Foi
+por isso que a sua presença, padre Antonio, me aborrecia, que os
+conselhos de meu pobre pae me enfastiavam, e que as lagrimas de minha
+mulher me levavam desde o desagrado até ao odio. Isto foi horrivel, mas
+verdadeiro.</p>
+
+<p>«Como a luz da religião se extinguiu em minha alma, não sei. Lembra-me
+que me assaltaram saudades de uma sociedade que me ridicularisava a
+conversão e o casamento. Saudades de uma vida mesclada de tedios e de
+alegrias. Necessidade de alargar o circulo de ferro que me apertava a
+respiração. Era o crime que me visitava com todas as suas galas
+perfidas. Era o anjo mau da tentação que triumphava, pintando-me
+insignificante de espirito, de «fortuna», e de belleza uma mulher que
+parecia violentar-me a adquirir os seus habitos mesquinhamente caseiros
+e de baixa condição.</p>
+
+<p>«Ultrajei a minha pobre victima com o desprezo, e depois pensei que a
+mataria com o abandono. Fui um infame dos infames que se não definem.</p>
+
+<p>«Nenhum homem experimentou affrontas semelhantes ás que eu devorei.
+Todos os meus haveres hypothequei-os ao vicio, e ao crime. Nunca tive
+uma alegria de alma por um punhado de ouro. Arrojava-o com desesperação
+aos abysmos onde me diziam que era possivel arrancar-se das mãos do
+diabo uma sentença de prazer novo. Nunca, nunca! Tocaria a ultima balisa
+da indigencia, se o meu fausto não apparentasse uma riqueza. Pedi
+quantias, algumas das quaes não pagarei jámais, <span class='pagenum'> 224 </span> porque estou
+pobre, e outras paguei-as com o vilipendio merecido de um carcere.</p>
+
+<p>«Algumas vezes vi uma sombra veneranda, padre Antonio, e pavorosos
+sonhos eram aquelles em que eu via minha mulher a expirar-lhe nos
+braços.</p>
+
+<p>«Revivia-me então a necessidade de gritar pela misericordia divina; mas
+o grito de contricção era suffocado por um riso blasphemo. Quando o
+infortunio é superior ás forças humanas apaga-se a luz da razão, fica o
+espirito na escuridade da demencia, e já não ha alma que se refugie na
+esperança de uma vida melhor.</p>
+
+<p>«Hoje, sim, frei Antonio. Já não é uma organisação susceptivel de
+impressões que obedece á eloquencia da sua palavra religiosa. Hoje é o
+desgraçado, que sente no coração fendido de golpes o poder do balsamo
+divino, ministrado pela mão d'aquella que victimei. O perdão da martyr é
+o que me está testemunhando a misericordia do céo. Vejo n'ella a
+omnipotencia de Deus: não a procuro nos livros, não a preciso da
+argumentação; não quero que me combatam com o raciocinio a impiedade que
+o meu coração rejeita. Creio em Deus, meu caro mestre, creio no céo,
+creio no inferno, creio em tudo que preciso crer para caír de joelhos
+aos seus pés, e supplicar-lhe que não duvide um momento da minha
+rehabilitação.»</p>
+
+<p>Padre Antonio recebera-o nos braços, soluçando palavras de benção, e de
+felicidade inexprimivel.</p> <span class='pagenum'> 225 </span>
+
+
+<h3>XVII</h3>
+
+<p>N'um dia de 1839<a href="#nota_nt1"><sup>[NT]</sup></a>, frei Antonio é chamado a casa de Joaquim Nunes; o
+lojista, antigo creado de Gonçalo da Silveira. Vae, e acha-o enfermo.</p>
+
+<p>--Sr. frei Antonio--disse o merceeiro--chamei-o para me ajudar a saldar
+as minhas contas com o mundo, para levar diante de Deus os meus livros
+de rasão sem nodoa. Estou muito doente, e não espero nada da medicina. O
+que eu tenho a dizer-lhe, não é o receio da morte que m'o faz dizer. Ha
+dias que eu preparava esta occasião, e oxalá que sendo a vontade de
+Deus, eu sobrevivesse á resolução que tomei. Ora diga-me; como se porta
+o sr. Alvaro?</p>
+
+<p>--Melhor do que as minhas ambições.</p>
+
+<p>--Já não teme que elle torne ao caminho da perdição?</p>
+
+<p>--Confio em Deus, não é n'elle, nem em mim, confio em Deus que não.</p>
+
+<p>--Elle sabe que sou eu o que lhe dou as mezadas?</p>
+
+<p>--Não sabe: cumpri religiosamente a sua vontade.</p>
+
+<p>--Deve ter dito muito mal do avarento creado de seu pae...</p>
+
+<p>--Nem uma palavra, desde que está em minha companhia. Parece que
+confessa com o seu silencio gratidão á mão generosa que o soccorre.</p>
+<span class='pagenum'> 226 </span>
+
+<p>--Ora diga-me, sr. fr. Antonio, envergonhar-se-ha elle de vir visitar um
+creado antigo da sua casa, doente?</p>
+
+<p>--Ó senhor, isso é duvidar do coração de meu sobrinho; essa licença
+estava eu para pedir-lh'a...</p>
+
+<p>--Pois que venha, e venha tambem sua mulher, desejo ve'-los, e o mais
+breve que possa ser.</p>
+
+
+<h3>XVIII</h3>
+
+<p>No mesmo dia, Alvaro, Maria, e frei Antonio dos Anjos visitaram o
+merceeiro Joaquim Nunes.</p>
+
+<p>As lagrimas inexplicaveis deslisavam copiosas pelas faces do enfermo.
+Maria, cuja sensibilidade respondia logo á dôr extranha, acariciou o
+velho, e fez que Alvaro esquecesse a diminuta repugnancia que sentia em
+afagar um homem que possuia os seus bens, e o imaginaria capaz de
+humilhar-se para rehavê'-los.</p>
+
+<p>--Estou quasi só--disse o lojista---Tenho sido só toda a minha vida, e
+agora sinto necessidade d'uma familia. Queria eu pedir á sr.<sup>a</sup> D. Maria e
+ao sr. Alvaro, e ao sr. fr. Antonio que me deixassem ir morrer a casa do
+filho de meu amo. Fazem-me a caridade de me acceitar em sua casa?</p>
+
+<p>--Deus permitta que as suas forças o deixem ir para <span class='pagenum'> 227 </span> a nossa
+companhia!--exclamou a sobrinha do padre.</p>
+
+<p>--Poucas forças tenho; mas transportar-me-hei n'uma cadeira, e o sr.
+padre Antonio tomará conta das chaves d'esta casa. O meu commercio
+acabou; não devo, e os que me devem fôram riscados dos meus livros. Os
+meus negocios da vida estão fechados. Agora queria morrer vendo duas
+pessoas felizes ao pé de mim, e tendo á minha cabeceira um santo homem
+que me ajude a pedir a Deus o perdão das minhas culpas. Se eu vencer a
+doença, viveremos todos, ponto é que o sr. Alvaro tenha a bondade de
+sentar á sua mesa um homem do povo que foi escudeiro de seu pae.</p>
+
+<p>Alvaro apertou-lhe, commovido, a mão. Maria, do outro lado do leito,
+limpava-lhe com o seu lenço o suor que lhe inundava a fronte e fr.
+Antonio, com palavras de jubilo, annunciava ao enfermo que não morreria
+ainda para testemunhar e ter quinhão na felicidade de seus sobrinhos.</p>
+
+
+<h3>XIX</h3>
+
+<p>Joaquim Nunes passou para a residencia de frei Antonio.</p>
+
+<p>Nos primeiros dias a sua doença recrudesceu, consequencia do abalo
+physico e moral da mudança.</p>
+
+<p>Depois, um ar de melhora fez crear esperanças aos <span class='pagenum'> 228 </span>
+facultativos. Esperanças não mentidas fôram essas, porque ao cabo de um
+mez de alternativas, o enfermo entrou em convalescença, e veiu a
+restabelecer-se.</p>
+
+<p>No primeiro dia que saíu a passeio, de sege, trouxe comsigo um
+tabellião.</p>
+
+<p>Chamou á sua presença os consortes, e fez ler um testamento, em que
+instituia Alvaro da Silveira e sua mulher seus universaes herdeiros. O
+testamento foi alli rasgado e o tabellião lavrou uma escriptura de
+doação de todos os seus bens a Alvaro e sua mulher, com a condição de o
+alimentarem na sua companhia. As especies sommadas dos bens doados
+excediam a meio milhão.</p>
+
+
+<h3>XX</h3>
+
+<p>Esta dotação não alterou a felicidade d'aquella familia. Correram muitas
+lagrimas de alegria, mas essa alegria era a da gratidão, era o expansivo
+respirar das quatro nobres almas que alli se vincularam n'uma só
+vontade.</p>
+
+<p>E a vontade de Joaquim Nunes respeitavam-n'a todos. Quiz elle que Alvaro
+fosse viver no palacete de seu pae, quiz que revivesse o antigo fausto
+d'aquella casa, quiz que a familia de Maria fosse a de todos.
+Cumpriram-se os seus bons desejos.</p> <span class='pagenum'> 229 </span>
+
+<p>A felicidade d'esta numerosa familia é indescriptivel. Até 1849, em que
+todos viviam, nenhum d'aquelles semblantes fôra annuveado pela tristeza.</p>
+
+<p>Alvaro é um modelo de honra. Frei Antonio um santo, que está
+constantemente agradecendo ao Senhor o galardão de tamanhas angustias.
+Maria, a amiga intima da baroneza de Amares, como o leitor a veria no
+HOMEM DE BRIOS, é um anjo que anda em cata de soffrimentos para
+consola'-los. Joaquim Nunes no centro d'aquella familia, é um homem
+adorado, que, em 1849, jogava a bisca de nove com o coronel.</p>
+
+<p>Bemdito seja Deus que tem estes apostolos a glorifica'-lo na terra!</p>
+
+<p class="centrado">FIM</p>
+
+<p class="footnote"><a name="nota_nt1">[NT]</a> Nota de Transcrição: No original aparece 1839, apesar de não estar
+coerente com a linha temporal do romance. O ano de 1849 é referido mais
+adiante na obra pelo que deve ser esta a data correcta.</p>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's Lagrimas Abençoadas, by Camilo Castelo Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK LAGRIMAS ABENÇOADAS ***
+
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+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
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+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
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+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
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+
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+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
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+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
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+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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+
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