diff options
| -rw-r--r-- | .gitattributes | 3 | ||||
| -rw-r--r-- | 22826-8.txt | 2182 | ||||
| -rw-r--r-- | 22826-8.zip | bin | 0 -> 40684 bytes | |||
| -rw-r--r-- | 22826-h.zip | bin | 0 -> 44079 bytes | |||
| -rw-r--r-- | 22826-h/22826-h.htm | 3532 | ||||
| -rw-r--r-- | LICENSE.txt | 11 | ||||
| -rw-r--r-- | README.md | 2 |
7 files changed, 5730 insertions, 0 deletions
diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/22826-8.txt b/22826-8.txt new file mode 100644 index 0000000..8e7edbd --- /dev/null +++ b/22826-8.txt @@ -0,0 +1,2182 @@ +Project Gutenberg's Chronica de El-Rey D. Affonso II, by Rui de Pina + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Chronica de El-Rey D. Affonso II + +Author: Rui de Pina + +Release Date: October 2, 2007 [EBook #22826] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICA DE EL-REY D. AFFONSO II *** + + + + +Produced by Manuela Alves and Rita Farinha (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal) + + + + + + + + + +BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES + +Proprietário e fundador--Mello d'Azevedo + +(VOLUME LIII) + + +CHRONICA DE EL-REI D. AFFONSO II + +POR + +RUY DE PINA + + + +_ESCRIPTORIO_ + +147--Rua dos Retrozeiros--147 + + +LISBOA + +1906 + + + + +CHRONICA + +DO MUITO ALTO, E MUITO ESCLARECIDO PRINCIPE + +D. AFFONSO II. + +TERCEIRO REY DE PORTUGAL, + +COMPOSTA + +POR RUY DE PINA, + + +Fidalgo da Casa Real, e Chronista Môr do Reyno. + + +FIELMENTE COPIADA DE SEU ORIGINAL, +Que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo. + + +OFFERECIDA + +Á MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREI + +D. JOAÕ V. + +NOSSO SENHOR + +POR MIGUEL LOPES FERREYRA + + +LISBOA OCCIDENTAL. + +Na Officina FERREYRIANA. + +M.DCC.XXVII. + +_Com todas as licenças necessarias_. + + + + +SENHOR + + +Ponho na Real presença de V. Magestade a Chronica do Senhor Rei D. +Affonso II que ainda que breve no volume, é larga na qualidade dos +successos. Nella verá V. Magestade que os seus gloriosos Predeccessores +não cessaram em tempo algum do augmento dos seus Estados, e da Religião +Christã pois a este fim vestiam as armas, e tomavam a lança com perigo +das suas Reaes vidas, como o experimentou este mesmo principe, vendo-se +quasi suffocado na campanha. Aceite V. Magestade este tributo do meu +obsequio, que prostrado a seus Reaes pés lhe deseja todas aquellas +felicidades, que só podem vir da mão de Deos que guarde a Real Pessoa de +V. Magestade por muitos annos, como seus vassallos lhe dezejamos. + + +_Miguel Lopes Ferreira_. + + + + +AO EXCELLENTISSIMO SENHOR + +FERNÃO TELLES DA SILVA + + _Marquez de Alegrete dos Concelhos de Estado, e Guerra del-Rei + Nosso Senhor, Gentil homem de sua Camara, Védor de sua fazenda, seu + Embaixador extraordinario na Corte de Vienna, ao Serenissimo + Emperador José, Condutor da Serenissima Rainha Nossa Senhora a + estes Reinos, Academico, e Censor da Academia Real da Historia + Portuguesa, &c._ + + +Terceira vez busco a V. Excellencia como protector, e amparo commum dos +que servem a Patria. A benignidade natural de V. Excellencia tem a culpa +desta repetição. Offereço a V. Excellencia esta Chronica del-Rei D. +Affonso II chamado vulgarmente o _Gordo_, para que V. Excellencia se +digne de a pôr na Real presença de Sua Magestade. Espero que lembrado V. +Excellencia de já me haver feito duas vezes este mesmo beneficio, mo +queira continuar agora, porque é certo que suprirá a grandeza da Pessoa +de V. Excellencia o que eu não mereço. A Excellentissima Pessoa de V. +Excellencia guarde Deos muitos annos. + +Criado de V. Excellencia + +_Miguel Lopes Ferreira_. + + + + +PROLOGO AO LEITOR + + +Não te admires vendo uma Chronica tão pequena de um Rei tão grande. Em +oito capitulos a deo por acabada o seu Chronista, ou o reformador da sua +Chronica antiga. Mas aqui é que se ha de estimar o livro pelo pezo, e +não pelo volume. Verás nesta Chronica o que podem as paixões: verás o +zelo da Religião obrigando a um Principe a entrar na campanha quando a +sua demasiada corpulencia que lhe deo o nome _de Gordo_, justamente o +desobrigava de tão violento exercicio; mas o augmento da Fé o fazia +esquecer des impedimentos da natureza. Verás como no seu tempo vieram +miraculosamente para a Cidade de Coimbra as Reliquias dos cinco +Religiosos de São Francisco, que pela Fé deram o sangue em Marrocos, e +verás como o mesmo Rei pessoalmente os foi receber. Lê, e não te mostres +ingrato ao meu cuidado que não cessa de procurar modos de satisfazer á +tua curiosidade, como brevemente o verás. + +_Vale_. + + + + +LICENÇAS DO SANTO OFFICIO + + _Approvação do Reverendissimo Padre Mestre D. Antonio Caetano de + Souza, Clerigo Regular da Divina Providencia, Qualificador do Santo + Officio, e Academico do Numero da Academia Real da Historia + Portugueza_ + + +EMINENTISSIMO SENHOR + + +Esta Chronica del-Rei D. Affonso II que V. Eminencia me manda ver, que +anda em nome de Ruy de Pina Chronista mór em tempo de El Rei D. Manoel, +e agora manda imprimir Miguel Lopes Ferreira, depois de passados dous +seculos, não contem cousa alguma contra a nossa Santa Fé, ou bons +costumes. Não só esta Chronica, mas todas as que temos antigas desde +El-Rei D. Affonso I e o Conde D. Henrique seu pai, até El-Rei D. Duarte, +conforme a observação que tem feito os Eruditos da nossa Historia, todas +foram escritas por Fernão Lopes primeiro Chronista mór do Reino, que +depois milhorou em estillo o dito Ruy de Pina, e publicou em seu nome, +com que agora se imprimiram, com a licença de V. Eminencia, a que não +tenho duvida se lhe conceda. Lisboa Occidental na Caza de N. Senhora da +Divina Providencia, 8 de Março de 1726. + +_D. Antonio Caetano de Souza C. R._ + + + _Approvação do Reverendissimo Padre Mestre Fr. Vicente das Chagas, + Religioso da Provincia de Santo Antonio dos Capuchos, Lente + Jubilado na Sagrada Theologia, e Qualificador do Santo Officio, + &c._ + + +EMINENTISSIMO SENHOR + + +Li por ordem de V. Eminencia esta Chronica del-Rei D. Affonso o II. +Della consta só a discordia, que houve entre o dito Rei, e suas irmãs, +mas ainda assim (depois de obrigado) estudou como se havia de concordar, +como concordou, com ellas, sinal de ser Rei sabio, e virtuoso; Sabio +como diz Santo Ambrosio: «Lib. 2. de Abraham c. 6. ante medium col. +1013. B. Sapienti pacis, & concórdiae est studium, imprudenti amica +jurgia»; e virtuoso como dá a entender S. João Chrysostomo «Homil. 45. +ante a medi[~u] col. 373, D. Ubi concordia, ibi bonorum confluxus, ibi +pax, ibi charitas, ibi spiritualis laetitia nullum bellum, nulla rixa, +nus quam inimicitior, & contentio». Esta concordia, paz, caridade, +alegria espiritual, &c vemos por experiencia neste nosso Reino agora de +prezente, mas como não ha de ser assim, se temos por Rei o Invitissimo, +e Augustissimo Monarcha o Senhor D. João o V, que Deos guarde por muitos +annos, de quem com muita propriedade se póde dizer o que lá disse Cicero +(senão em tudo, em parte) «Orat. 42. pro Rege Dejotaro in princip. num. +I. tom 2. Rex concors, pacificus, fortis, justus, severus, gravis, +magnanimus largus, beneficus, liberalis, &c.» Não tem a Chronica cousa +contra a Fé, ou bons costumes, e assim julgo que se póde imprimir. Santo +Antonio dos Capuchos, 21 de Março de 1726. + +_Fr. Vicente das Chagas_. + + +Vistas as informações, pode-se imprimir a Chronica del-Rei D. Affonso II +e depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra, +sem a qual não correrá. Lisboa Occidental, 22 de Março de 1726. + +_Rocha, Fr. Lancastre. Teixeira. Silva. Cabedo._ + + + + +DO ORDINARIO + + _Approvação do Reverendissimo Padre Mestre D. José Barbosa Clerigo + Regular da Divima Providencia, Examinador das Tres Ordens + Militares, Chronista da Serenissima Caza de Bragança, e Academico + do Numero da Academia Real da Historia Portugueza_ + + +ILLUSTRISSIMO E REVERENDISSIMO SENHOR + + +Por mandado de V. Illustrissima vi a Chronica del-Rei D. Affonso II que +escreveo Ruy de Pina, e nella não achei por onde se não lhe deva dar a +licença para se imprimir. V. Illustrissima ordenará o que for servido. +Nesta Caza de N. Senhora da Divina Providencia, 18 de Agosto de 1726. + +_D. José Barbosa C. R._ + +Vista a informação pode-se imprimir a Chronica de que se trata, e depois +de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra sem a qual +não correrá. Lisboa Occidental, 27 de Setembro de 1726. + +_D. J. A. L._ + + + + +DO PAÇO + + _Approvação do Reverendo Beneficiado Diogo Barbosa Machado + Presbytero do Habito de S. Pedro, e Academico do Numero da Academia + Real da Historia Portugueza_ + + +SENHOR + + +Obedecendo ao Real preceito de V. Magestade, li a Chronica do +Serenissimo Rei D. Affonso II do nome, e terceiro Rei de Portugal, +composta por Ruy de Pina Chronista mór deste Reino, e Guarda mór da +Torre do Tombo, um dos mais deligentes Escritores, que venerou a sua +idade. Nella, como em pequeno mappa recopilou este Author parte das +heroicas acções, que exercitou aquelle Principe, cujo coração foi sempre +animado pelos espiritos marciaes, que com a Coroa herdara de seus +augustissimos Predecessores, illustrando a sua Real purpura não com o +barbaro sangue Mauritano, derramado na famosa conquista de Alcacere, +como inferior á sua grandeza, mas com aquelle que sagradamente prodigos +verteram em obsequio da Religião sobre as aras do Martyrio cinco +heroicos Soldados nas adustas campanhas de Marrocos, que sendo +benevolamente hospedados em Coimbra, e Alemquer pela generosa piedade da +Rainha Dona Urraca, e da Ifanta Dona Sancha, uma Esposa, e outra Irmã +deste Monarcha, quizeram satisfazer aquella piedosa hospitalidade com a +posse das suas sagradas cinzas conduzidas ao Real Convento de Santa Cruz +de Coimbra pelo ferveroso zelo do Ifante D. Pedro. Certamente agora +recebe nova gloria, e maior esplendor o nome não só daquelle Principe, +mas ainda do seu Chronista, pois se faz publica, e patente aos olhos do +mundo uma Historia, que ha mais de dous Seculos estava occulta nos +Archivos, e nas Bibliothecas, e ainda que era conhecida por alguns +eruditos, não tinha a fortuna de lograr o beneficio da luz publica +eternizada nos caracteres da Impressão mais perduraveis, que aquelles, +que a vaidade dos homens abrio nos marmores, e esculpio nos bronzes. +Desta tão grande, e tão heroica felicidade o unico, e Soberano Author é +V. Magestade, pois com a altissima providencia, com que criou a Academia +da Historia Portugueza intruduzio nova vida no corpo historico desta +Monarchia, que jazia sepultado nas injuriosas cinzas do esquecimento. +Erigio um Capitolio litterario para nelle se coroarem os Varões +benemeritos da immortalidade. Abrio uma douta Officina para se lavrarem +as Estatuas aos Heroes Portuguezes. Correo as cortinas ao veneravel +Santuario das antiguidades Ecclisiasticas desta Coroa. Descobrio os +thesouros da erudição Historica atégora fechados á perspicacia de muitos +engenhos. Declarou formidavel guerra ao Imperio da ignorancia, e fez +communicavel a todo o genero de pessoas o comercio das Letras. Toda esta +gloria estava mysteriosamente reservada para o feliz reinado de V. +Magestade, pois não lhe bastando para complemento da sua Real grandeza o +suave dominio, que tem nos corações de seus vassallos, o quiz tambem +dilatar aos entendimentos, como parte mais nobre, e superior de todo o +homem. Animados com os generosos alentos, com que V. Magestade inspira, +e protege as Sciencias, são innumeraveis os Escritores, que com +judiciosa critica, e vastissima erudição tem publicado os partos de seus +fecundos engenhos, não sendo inferior a estes a zeloza diligencia com +que Miguel Lopes Ferreira se empenhou em obsequio deste Reino a mandar +imprimir as Chronicas dos Reaes Predecessores de V. Magestade das quaes +é esta a Terceira, sendo egualmente digno da attenção de V. Magestade o +seu zelo com que pretende eternizar as glorias desta Monarchia, como +benemerito da licença este livro pelo nome de seu author. V. Magestade +ordenará o que for servido. Lisboa Occidental 20 de Março de 1727. + +_Diogo Barbosa Machado_. + + +Que se possa imprimir, vistas as licenças do Santo Officio, e Ordinario, +e depois de impressa torne á meza para se conferir, e taxar, e dar +licença que corra, sem a qual não correrá. Lisboa Occidental 5 de Junho +de 1727. + +_Marques P. Pereira. Galvão. Oliveira. Teixeira Bonicho_ + + + + +_Coronica do muito alto, e esclarecido Principe D. Affonso II, terceiro +Rei de Portugal_ + + + + +CAPITULO I + + _Como o Ifante Dom Affonso foi alevantado por Rei e como foi + cazado, e com quem, e que filhos legitimos houve_ + + +El-Rei Dom Sancho de louvada memoria deste nome o primeiro, e dos Reis +de Portugal o segundo, faleceo em Coimbra na era de N. Senhor de mil e +duzentos e doze; (1212) o Principe Dom Affonso como primogenito, e +herdeiro foi logo alevantado, e obedecido por Rei, em idade de vinte e +cinco annos, havendo já quatro annos que era cazado com a Rainha Dona +Orraca filha legitima del-Rei Dom Affonso deste nome e noveno de +Castella, e neste tempo sendo Ifante, depois que sua idade o premitio, e +em Reinando El-Rei Dom Sancho seu padre, foi com elle em muitas cousas +notaveis, e grandes feitos darmas, que naquelles tempos concorreram, em +que por seu corpo, e braço assi o fez sempre como bom, e esforçado +Cavalleiro, que bem pareceo ser filho, e neto do pai de que descendia, e +para claramente se ver que a Real Caza de Portugal dantigamente foi +liada, e conjunta em sangue com todas as Cazas de todos os Reis, e +Principes Christãos, é de saber, que El-Rei Dom Affonso noveno de +Castella, sogro deste Rei Dom Affonso de Portugal foi cazado com a +Rainha Dona Lianor filha del-Rei Dom Anrique Dinglaterra, e della houve +dous filhos, e cinco filhas; todos legitimos, a saber, dous filhos o +Ifante Dom Fernando primeiro, e herdeiro, que em idade de dezaseis annos +sem ser cazado faleceo em vida de seu pai antes um pouco da batalha das +Naves de Tolosa, e o Ifante Dom Anrique, que apoz elle depois de sua +morte o soccedeo, e sem leixar herdeiro, que o soccedesse faleceo mui +moço, como atraz na Coronica del-Rei D. Sancho é declarado, e das cinco +filhas que houve uma foi a Ifanta Dona Constança primeira Senhora do +Moesteiro das Holgas de Burgos, que El-Rei seu padre novamente fundou, +onde ella falleceo sem cazar, e as outras quatro filhas foram Rainhas, a +saber, a Rainha Dona Branca, filha maior, que cazou com El-Rei Luis de +França, filho del-Rei Felippe, o que disseram Augusto, e houveram +herdeiro de França El-Rei São Luis, e outros filhos, e a segunda Rainha, +foi Dona Lianor, que foi cazada com El-Rei Dom James, deste nome o +primeiro Rei de Aragão, de que houve filho o Ifante D. Affonso, que +faleceo moço, e não Reinou, e a terceira filha foi a Rainha Dona +Biringela mulher del-Rei Dom Affonso de Lião de que houve filhos El-Rei +Dom Fernando Rei de Castella, e de Lião, que dizem o Santo, e o que +ganhou dos Mouros Cordova, e Sevilha, e muita parte Dandaluzia, e o +Ifante Dom Affonso de Molina, como na Coronica del-Rei Dom Sancho +brevemente se disse, e na Coronica de Castella mais largamente se +contem. + +E a quarta filha foi a Rainha Dona Orraca molher deste Rei Dom Affonso +de Portugal de que houveram dous filhos, e uma filha a saber, o Ifante +D. Sancho o que disseram o Capello, que a poz elle logo Reinou, e o +Ifante Dom Affonso que foi Conde de Bolonha em França, que apoz Dom +Sancho por não ter legitimo herdeiro tambem Reinou em Portugal, e o +Ifante Dom Fernando, que se disse Ifante de Serpa, e segundo se +brevemente acha, este cazou em Castella com Sancha Fernandes, filha de +Dom Fernando, de que houve uma filha chamada Dona Lianor, que foi depois +cazada com El-Rei de Dacia, e lá faleceo sem filhos, e houve mais o dito +Rei Dom Affonso da Rainha Dona Orraca sua molher a Ifanta Dona Lianor, +que cazou com o filho herdeiro del-Rei de Dinamarca, que depois da morte +de seu padre herdou o Reino, mas quando, e como, e por quem estes +Ifantes Dom Fernando, e Dona Lianor cazaram, não se acha escrito, +somente parece que segundo o pouco tempo que El-Rei Dom Affonso seu +padre viveo, que elles cazaram depois de sua morte, e por aderencias das +Cazas Reaes de França, e Dinglaterra, com que por sangue eram mui +conjuntos. + +E não dou muita fé, nem authoridade ao que destas Rainhas Dona Orraca de +Portugal, e Dona Branca de França vulgarmente se diz, e alguns +escreveram, que os Embaixadores del-Rei de França, e del-Rei de +Portugal, que juntamente vieram a Castella a requerer cazamentos destas +Rainhas filhas del-Rei Dom Affonso, que os de França quizeram antes a +Dona Branca, posto que era mais moça, e de menos estima, e leixaram a +Portugal Dona Orraca por ser nome feo, para França, por que isto tem +duas grandes contradições, a primeira que a Rainha Dona Branca não era a +mais moça, mas a mais velha, e nas contendas, que depois houve antre os +Reis de França, e Castella, sobre socessão de Castella, que vinha de +filhas, e não de filhos, se prova isto muito craro, porque El-Rei São +Luis de França pertendia ter direito em Castella, por ser filho da +Rainha Dona Branca, filha maior del-Rei Dom Affonso noveno, e queria +excludir a El-Rei D. Affonso deste nome o decimo de Castella, filho +del-Rei Dom Fernando, neto da Rainha Dona Biringela, por ser filha menor +del-Rei D. Affonso noveno, e se a Rainha Dona Orraca fora filha maior, +este direito pertencia a El-Rei Dom Sancho Capelo, e a El-Rei D. Affonso +Conde de Bolonha, Reis de Portugal, e filhos da dita Rainha Dona Orraca, +o que não foi, e a segunda contradição é que este nome Dona Orraca era +nome a Rainhas mui costumado, e de muita estima, e tal de que se muitas +honraram, e leixando outras muitas, estas que me aqui occorrem +apontarei, a mãi do Emperador Despanha D. Affonso deste nome o outavo de +Castella, e molher do Conde Dom Reymão de Tolosa havia nome Dona Orraca, +que foi a Rainha Despanha, e a Rainha de Lião, molher del-Rei Dom +Fernando, e filha del-Rei Dom Affonso Anriques, tambem havia nome Dona +Orraca, que foi Princeza mui singular, e a molher de Dom Reymão Conde de +Barcelona, e Rei de Aragão, que era da Caza, e Reino de França, que no +mesmo Reino havia nome Dona Prona, e mudou o nome, escolhendo outro por +milhor, se chamou Dona Orraca, e desta veo D. Affonso deste nome o +segundo Rei Daragão, e a Rainha Dona Doce molher del-Rei D. Sancho de +Portugal, de que em sua Coronica se disse. + + + + +CAPITULO II + + _Das desavenças que houve antre El-Rei D. Affonso, e as Ifantes + suas irmãs, e da guerra que sobre esso se moveo_ + + +No primeiro anno do Reinado deste Rei Dom Affonso de Portugal, era o +prazo da batalha das Naves de Toloza, que El-Rei Dom Affonso seu sogro +tinha posto com Mirabolim de Marrocos, filho de outro Mirabolim, que +fora vencedor na outra batalha Delharcos, para que o Papa concedeo geral +Cruzada, que o Ifante D. Fernando primogenito herdeiro do dito Rei D. +Affonso em pessoa foi pedir, e trouxe de Roma, e logo faleceo, como já +disse, e por ganharem os perdões, e remissões de peccados grandes outros +Senhores, e outras muitas e nobres gentes de toda Christandade vieram a +esta batalha em pessoas á qual não se acha, que fosse em pessoa este Rei +Dom Affonso de Portugal, mas que enviou gentes suas, e a cauza delle não +ir em pessoa, diz, que foi porque neste proprio anno começou de Reinar +em Portugal, e assi por boliços, e desassocegos que dantre elle, e suas +irmãs se moveram, como ao diante se dirá. E este Rei Dom Affonso de +Castella ao tempo desta batalha era de cincoenta e seis annos, e no anno +seguinte tendo Cortes em Burgos, se diz que mandou a ellas chamar a este +Rei de Portugal seu genro, ás quaes elle não quiz ir, e elle anojado +desso, determinou fazer-lhe guerra, e tomar-lhe os Reinos se podesse, e +que com este fundamento indo para Prazença adoeceo no termo de Revaldo +em uma Aldea, que se diz Martim Manhos, e ahi faleceo, e foi dahi +levado, e sepultado no Moesteiro das Holgas de Burgos, que elle +novamente fundou, e outros dizem que vinha para se ver no extremo de +Portugal com seu genro para o aconselhar em suas couzas, e debates em +que andava, com suas irmãs, e que todavia faleceo no dito lugar, porque +tambem este Rei Dom Affonso de Portugal logo como Reinou não lhe +faleceram grandes necessidades, e afrontas de excommunhões do Papa, e de +guerras, e desavenças que houve com suas irmãs a Rainha Dona Tareja, +molher que fora del-Rei Dom Affonso de Lião, e da Ifante Dona Sancha, de +que a cauza brevemente foi esta. + +El-Rei Dom Sancho, como em sua Coronica disse, leixou em seu testamento +á Rainha Dona Tareja, sua filha, que fora cazada com o dito Rei Dom +Affonso de Lião, a Villa de Monte mór o Velho, e Esgueira, e mais dez +mil maravedis douro, e certa prata, e que se ella morresse, que houvesse +estes Lugares a Ifante Dona Branca sua irmã della, e leixou á Ifante +Dona Sancha a Villa Dalanquer, e dez mil maravedis douro, e tambem +prata, e que se ella falecesse, que houvesse a Villa a Ifante Biringela +sua irmã, das quaes Villas, e cousas ellas houveram a posse, e as +tinham; mas El-Rei Dom Affonso seu irmão em caso que fosse contra seu +juramento, e menagem, não quiz estar inteiramente pelo testamento +del-Rei seu padre, antes como Reinou logo pedio as ditas Villas, e +Fortalezas a suas irmãs, dizendo: «Que El Rei seu padre lhas não podia +dar, que era em mui grande diminuição do Reino, e que era sobresso +concedido privilegio do Papa Alexandre Terceiro, por o qual as cousas do +Reino senão podiam dar a alguma pessoa nem emlhear, e que assás lhe +leixara a ellas nos maravedis douro, e prata de seu testamento com +outras cousas, que tinham de suas fazendas. + +E sobre este requerimento El-Rei, e a Rainha, e as Ifantes suas irmãs +por lhe darem reposta, pediram dias de liberação, dentro dos quais ellas +se recolheram logo com a Ifante Dona Branca sua irmã ao Castello de +Monte mór, e o basteceram, e fortalezaram, e deshi se emviaram logo +aggravar ao Papa Innocencio III que ficára por executor do testamento +del-Rei seu pai, e por esso lhe leixou o dito Rei D. Sancho seu pai cem +marcos douro, e assi o fizeram ellas mais saber ao dito Rei de Lião com +que a dita Rainha Dona Tareja fora cazada, e era apartada delle pela +Egreja, de que houveram logo ajuda, e soccorro, a que por seu mandado +veo logo o Ifante Dom Pedro seu irmão dellas filho del-Rei Dom Sancho o +que depois passou a Marrocos, e trouxe aos ossos dos Martyres, e assi +veio ao dito soccorro, e ajuda o Ifante Dom Fernando filho da dita +Rainha Dona Tareja, e del-Rei Dom Affonso de Lião, e assi veo em sua +companhia Dom Pedro Fernandes de Castro o Castellão, aquelle que em +companhia dos Mouros foi prezo em Portugal, e logo solto, e depois +passou, e morreo em Marrocos, e com alle veo muita gente, que foi nos +estremos de Portugal, donde enviaram ás ditas Villas, e Fortalezas de +Monte mór, e Alanquer aquella que comprio para defenção dos Castellos, e +para resistencia del-Rei Dom Affonso de Portugal, o qual por sentir +muito o insulto tamanho dos estranhos, e tão grande desobediencia dos +seus naturaes, veo logo á dita Villa de Monte mór, e por algumas vezes +requereo a suas irmãs, e principalmente a Dona Tareja, cuja era, que +houvesse por bem de desistir de seu alevantamento, e quizesse que o +Castello se entregasse a algum homem de que ambos se confiassem para o +ter em boa guarda, e fieldade, e que de sua fazenda delle lhe faria dar +todas dispezas, e mantimentos para esso necessarios, e que este +arrecadasse inteiramente para ella todas as rendas, e direitos da Villa, +mas que as menagens fossem feitas a elle, o que ella nunca quiz fazer, +antes se diz que consentio, que os de dentro em desprezo, e por injuria +del-Rei seu irmão calando o nome do Reino, e del-Rei de Portugal a que +deveram acatar, e obededer, envocaram, e chamaram o nome de Lião, que +repetiam muitas vezes, e que outro tanto mandou fazer a Ifante Dona +Sancha no Castello Dalanquer, e por tanto El-Rei temendo perder os ditos +Castellos os mandou cercar, e combater, e com a gente do cerco, que +sobreveo se seguiram nelles, e em seus termos pela condição da guerra +muitas mortes, e danos de uma parte, e da outra, pelo qual os Ifantes, e +Senhores, que com a gente do Reino de Lião, que disse entráram em +Portugal tomáram Valença do Minho, e Melgaço, Algozo, e Freixo, e outros +Lugares chãos que roubaram, e queimaram, em que fizeram muto mal. + + + + +CAPITULO III + + _Como foi pelo Papa procedido contra El-Rei D. Affonso por causa da + contenda que havia com suas irmãs, e como finalmente foram + concordados_ + + +E sobre esso para mais tormento del-Rei Dom Affonso de Portugal vieram +de Roma por juizes Delegados do Papa a requerimento das Ifantes o +Arcebispo de Santiago, e o Bispo de Çamora, que por El-Rei de Portugal +ir contra o testamento del-Rei seu padre, e por não desistir do cerco, +que tinha posto aos Castellos de Monte mór, e Alanquer, excommungou sua +pessoa, e pozeram entredicto geral em todo o Reino, exceituaram sómente +as ditas Ifantes, e seus sequazes, e servidores, sobre o qual El-Rei Dom +Affonso com rezões, e cousas que achou, e lhe aconselharam de sua +justiça se enviou destes procedimentos querelar, e aggravar ao Papa, e +pedir emenda del-Rei de Lião, e dos que tinham as Villas, e Castellos de +seus reinos forçados, e nelles feitos muitos danos, alegando sobre esso +a pouca justiça que suas irmãs tinham nas Villas, e Castellos de seu +Reino, com que se levantáram, e dando outras rezões, porque entendia ser +relevado da culpa que lhe dava dizendo por sua escuza, que o não +obrigava o juramento, e menagens, que fizera de comprir o testamento +del-Rei Dom Sancho seu padre, porque o fizera forçado, e por não ser +deserdado do Reino, e mais que a esse tempo seu pai não estava em todo +seu sizo, e entender verdadeiro, pois tanto contra justiça fizera +tamanho enlheamento das cousas do Reino, que não podia fazer. + +E o Papa por seu respeito cometeu este negocio aos Abbades Despina, e +Vicarria, que fez Juizes Commissairos, os quais vieram a Coimbra onde +sobre segurança já praticada, e antre todos concordada, foram tambem +juntos El-Rei Dom Affonso, e suas irmãs em pessoas a que os Juizes deram +solene juramento porque prometeram estarem todos á obediencia, e +detreminação de todo o que elles em nome do Papa ácerca de seus negocios +detreminassem, e mandassem, e por este juramento, e promessa que se fez +El-Rei, e os seus foram da excommunhão ausolutos, e alevantado o +antredicto do Reino. Os Commissairos pozeram antre elles treguas, e +seguridade, que todos prometeram guardar, até o Papa finalmente +detreminar suas contendas, e debates, e algumas condições das tregoas +principaes, eram que os de uma parte, e da outra podessem livremente +andar, e tratar por as terras chans uns dos outros, mas que nas Villas, +e Castellos cercados não entrassem sem licença dos Senhores dellas, e +que tudo podessem, uns e outros comprar, e vender salvo armas, e +cavallos, e que ellas Ifantes em algum seu Lugar de Portugal não +podessem mandar lavrar moeda douro, prata, nem dalgum metal, que quatro +Cavalleiros principais da parte del-Rei jurassem que se El-Rei não +guardasse as tregoas que cada um delles com cinco Cavalleiros mais +servissem as Ifantes contra El-Rei e cada uma das Ifantes désse outros +tantos por si, que com esta condição servissem a El-Rei contra ellas, e +mais que El-Rei désse cem homens cazados, e honrados de Coimbra, e que +todos lhe fizessem, e pagassem foro, e outros cento semelhantes de +Santarem, que jurassem todos fazer sempre comprir esta tregoa, e que não +a comprindo El-Rei, que servissem ás Ifantes contra El-Rei, e que ellas +por sua parte déssem outros taes, a saber: cento Dalanquer, e cento de +Monte mór, para que se ellas não comprissem a tregoa, que servissem a +El-Rei contra ellas, e que neste tempo uns, e outros, não cercassem +Villas, nem Castellos, nem se fizesse algum mal, sopena de excomunhão, e +antredicto, em que elles, e todos los ajudadores, e favorecedores ipso +facto encorressem, e com mandado estreito aos Prelados do Reino, que a +cada um assi como lhes tocasse as sentenças dos ditos alegados fizessem +inteiramente comprir, e executar até o Papa finalmente as aprovar, ou +emendar como fosse justiça. + +Esta tregoa, se fez em Coimbra na era de nosso Senhor de mil e duzentos +e quatorze annos, (1214) dous annos depois que El-Rei começou a Reinar, +e logo ahi se fulminou e principiou processo em que a Rainha, e a Ifante +cada uma per si segundo os danos que del-Rei seu irmão tinham recebidos, +e pelas injurias, e males, que no cerco padeceram, pediam contra elle +restituição, e assi segurança perpetua de suas Villas, e Castellos, e +gram soma de maravedis, que naquelle tempo era moeda douro assi geral, e +praticada como neste agora são na Europa os cruzados, e ducados, porque +sessenta delles faziam um marco douro, como já em outras partes tenho +dito, e ás petições das ditas Senhoras, veo El-Rei por seu procurador +com exceições, e contrariedades, e compensações sobre que de uma parte, +e da outra foi dito, e assás alegado, e sobre seus alegados foi o feito +concruzo, e os Juizes remeteram a publicação da final sentença para +Melgaço, Castello de Portugal no extremo de Galiza, a que mandaram que +El-Rei, e as Ifantes fossem por si, ou por seus procuradores, onde no +Maio seguinte a publicaram, e foi El-Rei condenado por a dita sentença +em grande soma de dinheiro, e doutras emendas, e depois que passou o +termo para a paga, assinado, pozeram em El-Rei sentença Dexcommunhão, e +assi antredito em todo o Reino, de que logo apelou, e depois de muitos +debates, e delongas, que em Roma, e Espanha sobre este caso passaram, +que não fazem a realidade da Estoria, finalmente El-Rei, e as irmãs se +concordaram por maneira, que as Villas de Monte mór, e Alanquer ficaram +com ellas segundo a disposição do testamento del-Rei Dom Sancho seu pai, +e as Villas e Castellos, e terras de Portugal, que El-Rei de Lião tinha +tomadas foram entregues, e restituidas a El-Rei Dom Affonso. No qual +meio tempo que durou esta divisão, e discordia uns e os outros fizeram +grandes, e danosas entradas, e muitos roubos nos Reinos, uns dos outros, +em que houve pelejas particulares sem alguma façanha de notar, cuja +longa, e expressa declaração não ponho ora; porque para a sustancia da +Estoria não é muito necessaria. + + + + +CAPITULO IV + + _Do fundamento que houve para Alcacere do Sal, que era de Mouros, + ser cercado, e tomado dos Christãos, e do Bispo de Lisboa + principalmente_ + + +Nos primeiros cinco annos que El-Rei Dom Affonso Reinou não se acha, que +socedessem outras cousas, salvo as desavenças, e desacordos em que andou +com suas irmãs, e irmãos e assi a guerra com El-Rei de Lião, e com suas +genetes como já disse, e passados os ditos cinco annos, e andando a era +de nosso Senhor em mil e duzentos e dezasete annos os Christãos, que +estavam na conquista dultra már por defenção, e recobramento da Terra +Santa, tinham muitas necessidades de concorrer ás cruas guerras, e +cercos apertados, que dos Infieis padeciam, para o que os Summos +Pontifice convocavam, e requeriam todolos fieis Christãos de todalas +nações, e vindo por mar a este soccorro muitas gentes Dalemães, e +Framengos, e outras de contra o Norte fizeram todos uma frota de cento e +cincoenta naos de que eram Capitães principaes Iliquino, Conde Dolanda, +e Georgeo, Conde de Frisa, com que iam outros Senhores, e grandes +homens, e sendo em mar, em través de Portugal para demandarem o estreito +de Cibraltar deu na frota tão grande, e tão contraria tromenta, que +algumas naos dellas se perderam, e outras correram ao Cabo de S. Vicente +até a Villa de Farão, a qual com toda a Comarca, e Reino do Algarve +ainda eram Mouros, e porque o vento contrairo, e assi a terra de imigos, +em que estavam, não lhes traçavam bem para sua segurança, elles para dos +danos, e perdas recebidas se poderem milhor repairar fizeram volta, com +fundamento de se virem ao porto de Lisboa. + +Sendo outra vez em mar, deu nelles outra tromenta mais aspera, e de +maior perigo que a primeira, em que já tambem perderam algumas naos com +toda a gente que nellas vinha, e a outra frota depois que a tromenta +cessou, e sobreveo bom vento de viagem, entrou toda via, e veo surgir +ante a Cidade de Lisboa, e os Capitães della assás tristes, e anojados, +pelas grandes perdas de gentes, e doutras cousas, que no mar tinham +perdidas, e sahindo logo Capitães com pouca gente em terra, o Bispo, que +então era de Lisboa chamado Dom Matheus, sabendo que eram Christãos os +recebeo, e tratou com muita honra, e bom acolhimento, segundo a bondade +de uns, e as necessidades dos outros requeria, de que o Bispo logo soube +o proposito com que vinham, que era por soccorro, e ajuda da Caza Santa. +E dahi a poucos dias este Bispo de Lisboa porque era Prelado de mui bom +espirito, e grande coração, depois de ter juntos com seus rogos, e boa +humanidade os principaes destes Estrangeiros lhe disse. + +«Honrados, e devotos Senhores, Deos sabe que a mim peza muito de todolos +nojos infortunios, que passastes, e o remedio por agora não é outro +salvo paciencia do passado, e esforço, e bom coração para o que mais +vier, vós vedes bem, quanto vos é contrairo o tempo para seguirdes vossa +proposta viagem, e desto por vossos Pilotos, e mariantes podeis ser +milhor certificados, póde ser, e eu assi o creo, que Deos o premite assi +para alguma cousa de seu louvor, e serviço, e tambem de nossas honras, e +proveito, e esto digo porque aqui junto ha um Castello em poder de +Mouros, que dizem Alcacere, de que esta terra toda que é de Christãos +recebe muito dano; se vos prouver pois este feito, não é estranho +doutros, que emprendestes, e a que his ajudarnos nelle, assi como vejo +que podeis fazer, e com vossa gente, e ajuda de Deos principalmente, o +ganharemos dos infieis, e pois a obra, e o serviço é de Deos, elle por +sua grandeza, e piedade vos dará delle bom galardão, e nestas cousas +sómente que tocam a vossa honra, e salvação, aconselhai-vos com sizo, e +com a devoção, e não com a vontade carnal, porque assás de vergonhosa +cousa será publicardes pelas bocas bom dezejo para o servir, e as obras, +que são tão possiveis serem disso contrairas, e pois o lugar, e tempo se +offerecem agora tão despostos rogo-vos que elles não vos passem com +ociosidade, ca bem creo, que bem sabeis que ella é fundamento de todolos +peccados, e sepultura dos homens vivos, e corrução de todolos costumes, +e propositos virtuosos, e pois em vossos sobre sinaes que trazeis +mostraes serdes devotos, e servidores da Cruz, assi tambem é rezão que +sejais imigos dos imigos della, e vossas mãos fortes deem agora +verdadeiro testemunho da bondade, e fé de vossos corações, e esta tomada +de Alcacere, para que vos convido, e requeiro, será com a graça de Deos +assás possivel, se vós com vossas pessoas, e frota quizerdes ajudar a +nós, que com outra gente do Reino vos seremos em todo fieis, e bons +companheiros.» + +Estas palavras, e outras muitas a estas conformes disse o Bispo aos +Estrangeiros, alguns dos quais depois de haverem antre si seu acordo, e +conselho tiveram oppinião contraira, e se partiram, e outros, que foram +os mais consentiram na proposição, e requerimento do Bispo, e lhes +aprouve ser na ida sobre Alcacere. + + + + +CAPITULO V + + _Como Alcacere foi cercado, e com que numero de gente Portuguezes e + tambem Estrangeiros_ + + +Aquelles Estrangeiros que foram dacordo com os Portuguezes de irem sobre +Alcacere se recolheram logo ás suas naos, e sendo aparelhados do que +lhes compria no mez de Setembro, se foram, e seguiram a barra de +Setuvel, que neste tempo era Lugar pequeno, e não era cercado, em que +pescadores sómente viviam, e da gente de Portugal se acha que foram +estes Capitães principaes, a saber este Dom Mateus, Bispo de Lisboa, e +Dom Pedro Mestre da Ordem da Cavallaria do Templo, e Dom Mestre Gonçalo, +Prior do Esprital, e Martim Barregam, Commendador de Palmella, e estes +levaram comsigo da terra, Comarca de Lisboa, e de Evora, e de seus +termos vinte mil homens, de que os mais eram de pé, e alguns de Cavallo, +e não se acha que El-Rei Dom Affonso, que então Reinava em Portugal, +fosse neste exercito em pessoa no qual tempo parece que elle deveria ser +doente, ou empedido por alguma outra urgente causa, porque não pôde ser +neste feito, e haveria por bem, e mandaria que se fizesse prestes, como +se fez, ca não é de crer, tamanho feito sem seu mandado, e authoridade +se cometesse, e o que se neste caso achou, é que os Estrangeiros em +navios, que poderam ir, foram de Setuvel pelo rio acima até junto +Dalcacere, onde saindo alguns para tomar uvas, os Mouros, que da sua ida +eram já bem avizados, com armas lhe foram resistir, em que houve algum +acometimento de peleja, de que um Mouro se diz que ficou morto, e os +outros se recolheram ao Castello, e os Estrangeiros surgindo com seus +navios mais ávante poseram defronte da Villa suas pranchas, e sem +resistencia sairam em terra, e logo elles, e os Portuguezes que já +tambem eram chegados, juntos com devida deligencia e resguardo cercaram +o Castello de maneira que alguma pessoa não podia sair, nem entrar sem +conhecido perigo; mas os Mouros posto que com tanta estreiteza se vissem +cercados não mostravam ter por esso desmaio, nem temor, vendo que o +Castello em que estavam era de muros, Torres, barreiras, e a cava mui +forte, e bem provido, e acalcado de muitas gentes, e armas, e +mantimentos para grandes tempos, e por milhor seneficança aos de fora de +seu esforço, e confiança, poseram muitas bandeiras por cima do muro de +que em sinal de desprezo diziam feas palavras, e davam suas costumadas +gritas. + +E os Christãos leixaram boa guarda sobre sua frota, que com gentes, e +armas ficou no porto bem segura, e sobre esso uns, e outros fizeram logo +combater o Castello, e vendo que pela larga, e alta cava com que o muro +era em torno valado não poderam bem chegar aos muros, e cortaram tantas +arvores de fruito, e juntaram tanto outro mato que sendo igual a cava +com a terra de fóra podessem mais sem trabalho chegar aos muros, mas os +Mouros aconselhados das necessidades e perigos em que se viam, lançaram +de cima tanto fogo, com tantas cousas temperado, que a lenha da cava +ardeo logo toda, por cujo impedimento leixaram logo de combater, e apoz +esto ordenaram os Christãos um engenho para com pedras destroirem o +muro, mas sua fortaleza de dentro era tal, que dos seixos de fóra lhe +dava muito pouco, pelo qual tornáram a lançar tanta lenha na cava, com +que foi chea, e tal guarda se poz, que não foi dos Mouros queimada como +elles logo tentaram, por cima da qual os Christãos chegados ao muro +deram um combate a que os Mouros com seu grande esforço, e muitas armas +resistiram de tal maneira, que afastaram os Christãos dos muros, em que +de uma parte, e da outra houve assás mortos e feridos. + + + + +CAPITULO VI + + _Dos Reis Mouros que vieram por soccorro da Villa de Alcacere, e da + primeira batalha que deram, em que foram victoriosos_ + + +Os Christãos, que tinham cercado Alcacere, e os Mouros que nelle eram +cercados tinham antre si diversos pensamentos, ca uns consultavam +engenhos para brevemente tomar, e os outros artificios para se delles +pefender, e tambem não leixavam de buscar, e consultar conselhos, e +remedios para com soccorro serem descercados, sobre que tinham feitos +seus avizos a quatro Reis Mouros, que eram na Espanha, a saber El-Rei de +Sevilha, El-Rei de Cordova, El-Rei de Jaem, e El-Rei de Badalhouse, os +quaes para este soccorro, e descerco foram pôr seu arraial ao lugar que +chamam Sitymos, que é uma legoa Dalcacere, de cuja vinda sendo os +Christãos logo sabedores foram postos em temeroso pensamento. E não era +sem causa, segundo verdadeira certidão que houveram, ca traziam comsigo +por terra quinze mil de Cavallo, e oitenta mil de pé, e pelo mar dez +Galés bem remadas, e aparelhadas. + +Mas aquelle alto Deos, que sobre todos tem o poder, não quiz em tanto +perigo e necessidade desemparar os Christãos, que por sua fé +emprenderam, sostinham esta demanda, porque por uma sua permissão +piadosa arribaram a este porto, tambem na paragem de Setuvel trinta e +seis naos de uma Cidade que dizem Trageito, com gentes Christãs, nobres, +e de bom esforço, que iam áquella Conquista dultramar, que disse, os +quaes em suas bandeiras traziam sinaes de S. Martinho, porque a jurdição +daquella terra donde vinham era do Bispo daquella Cidade; da frota era +Capitão mór Dom Anrique de Nehusa, o qual leixando suas naos com aquella +segurança e resguardo de gente que compria, elle com a outra em bateis, +e navios piquenos se foi ao arraial de Alcacere, onde dos Christãos +foram com muita alegria de grandes louvores recebidos, e todos logo +acordaram de valar o arraial em torno com valos altos e fortes para +resistencia dos Reis Mouros, que vinham, e aqui se diz, que alguns +Estrangeiros da primeira frota aconselhavam e requeriam aos outros da +sua companhia, que se partissem em paz, e não esperassem o perigo da +batalha, escuzando sua covardice torpe, com dizerem, que quando de suas +terras partiram, seu voto e proposito não foi pelejar se não com +aquelles infieis que tinham tomada a terra de Jerusalem, e o Santo +Sepulchro, e que alguns Portuguezes, em que não havia verdadeira Fé, nem +bondade de coração concordavam com elles, dando por voto covarde, que +era bem de descercar o Lugar, e leixalo sem contenda, e posto que destes +houvesse alguns com suas mostranças de tão vituperada fraqueza, havia +porém outros muitos cuja santa, e virtuosa contraridade esforçou, com +que determinaram não descercar o Castello, e confiando em Deos esperar a +ventura que lhes viesse, pelo qual fizeram logo seu alardo, e de gente +de pé bem armada, e bem disposta para peléjar, se diz que acharam +comsigo muita, mas gente de Cavallo se affirma que escassamente +refizeram trezentos. + +E os Reis Mouros para comprimento do proposito com que vieram, acordaram +que com a maior força que nelles houvesse viessem logo ferir no arraial +dos Christãos, e que tambem as suas Galés, que tinham já tomada uma nao +de Portugal com duzentos homens e jazia na entrada do porto de Setuvel, +juntamente pozessem fogo á frota dos Christãos, que jazia sobre amarra, +mas os Christãos receosos deste dano, e avizados já para esto, pozeram +tal guarda e defenção na frota, que os Mouros o não cometeram, e foi +sempre delles segura, e uma segunda feira como foi manhã sairam do +arraial dos Mouros cinco de Cavallo corredores, e como chegaram, e viram +o assento do arraial dos Christãos logo volveram ao seu, e sobre esto +abalou todo junto o seu Exercito em que havia tantas gentes, que toda a +terra cobriam, trazendo comsigo tão grande estrondo de alaridos, e +gritas, e com tantos sons de trombetas, e outros desvairados +instrumentos, que a qualquer coração por abastado de esforço que fora +não leixára de tocar de grande medo, e muito espanto, pelo qual os +Christãos havendo-o assi por milhor, sairam a elles de suas estancias, +postos em suas batalhas ordenadas, e com muita ardideza uns aos outros +logo se cometeram, e feriram, em que da uma parte, e da outra houve +cruel, e bem ferida peleja com mortes, e feridas de muitos, e daquella +vez se diz que os Mouros levaram a vantagem da batalha, com a qual se +recolheram em seu arraial. + + + + +CAPITULO VII + + _Da segunda batalha que houve sobre Alcacere, e como os Reis Mouros + foram vencidos, e feito grande estrago em suas gentes_ + + +Os Christãos vendo para o fim que vieram um começo tão contrairo, e que +a força Dalcacere se fazia cada vez mais forte, e a elles tirava toda +esperança de por força o cobrar, não leixávam de murmurar, e apontar que +seria bom irem-se, e por aquella vez leixar o cerco, e o Bispo de +Lisboa, que na gente dos Christãos era pessoa de mór credito, e mais +principal, sentindo na noite seguinte a temerosa e fraca murmuração, que +em todo o seu arraial havia, elle em prezença dos mais que por então se +poderam ajuntar lhes disse. «Honrados Senhores e amigos, esta +desaventura, e grande mal de que todos estaes espantados, não veo sobre +vós das forças, nem das armas dos nossos imigos, mas cauzou se da grande +presunção, e muita confiança que de vós mesmos e de vossas forças, e +multidão de gentes logo tomastes, esquecidos em todo, da só, e principal +ajuda de Nosso Senhor, e Salvador Jesu Christo, que se nos agora aqui +faleceo foi para o milhor conhecermos, mas pois já aqui viemos, e somos +mui fortes para armas, e temos gentes, e estamos bastecidos de +mantimentos, não queiraes desconfiar, porque esta aversidade a potencia +de Deos a permite para crara esperiencia de maior nossa fé, e mais +merecimento de nossas almas, mas brademos, e clamemos de coração ao +Senhor Deos, e com efficacia, e devação, que nossas necessidades +requerem lhe pessamos que esta sua ira, se contra nós, por nossos +peccados a tem, a queira converter em nossos imigos, e cada um com os +giolhos em terra diga por si como eu digo por mim: Senhor Deos Padre das +misericordias, e grande ajudador nas tribulações ex as muitas nações de +tantos infieis vieram para nos destroir, pois como duraremos ante a face +delles se nos tu Deos não ejudas, e pois assi é Senhor agora não ponham +ante ti a lembrança de nossos malles e peccados, nem tomes de nós aqui +vingança por elles ante estes imigos de tua Santa Fé, tu por tua +bondade, e potencia os dá nas mãos, e poder de teus servos, por tal, que +os que em ti crem louvem mais o teu Santo nome». + +No cabo da qual Oração, que todos devotamente, e com muitas lagrimas o +seguiram, se diz que por consolação dos Christãos logo appareceo +pubricamente no Ceo um maravilhoso sinal por bemaventurado prognostico, +a saber, um homem resplandecente, como Sol, e alvo como uma neve, e no +peito trazia o sinal da Cruz vermelha mais luzente que as Estrellas, com +que os Christãos, que craramente o viram foram mui alegres e esforçados, +crendo que Deos era em sua ajuda, e com este prazer e alegria, que +geralmente todos conceberam, já com seu temor dormiram assocegados +aquella noite, e ao outro dia como foi manhã o Bispo, como era homem em +que havia prudencia, e bom esforço, para se não esfriar o alvoroço que +sentio nos Christãos com a longura dalgum tempo, falou logo ás gentes do +Exercito que o podiam ouvir dizendo: «Senhores amigos bem vistes todos o +grande e maravilhoso sinal que para não temermos, e sermos esforçados +Deos Nosso Senhor tão pubricamente nos quiz mostrar, e por esso já seria +muita nossa fraqueza, e grande mingoa de nossa Fé tardarmos mais para a +segunda batalha, mas com o esforço de Deos, que temos presente, e com +ajuda, e preces dos Santos Martyres Proto, e Jacinto, cujo dia hoje é, +vamos logo ferir nos imigos, ca pelo melhoramento da vitoria, que contra +nós houveram, agora os acharemos mais repouzados, e menos percebidos». + +Pelo qual os Christãos postos em suas batalhas bem concertadas, com +grande ousadia, e sem sinal dalgum medo sairam, e foram dar no arraial +dos Mouros, e assi duramente os cometeram, e tão cruamente os feriram, e +foram tão cortados, e trovados de medo, que parecia não terem armas para +pelejar, nem forças para resistir, e desacordados se diz, que elles +mesmos uns aos outros se feriam, e matavam, e se espedaçavam com os pès +dos Cavallos, e que outros com medo da morte duvidosa a tomavam certa no +rio, que era junto em que se lançavam, e afogavam, e vendo-se os Reis +Mouros, e suas gentes assi salteados, e vencidos não tendo já alguma +esperança em sua resistencia, nem peleja, procuraram buscar sua salvação +na fogida, em cujo alcance os Christãos matando, e ferindo seguiram, em +que se affirma que dos quatro Reis que alli vieram, dous delles sem se +dizer quem eram, foram mortos, e com elles trinta mil Mouros mais, e com +esto recolhendo o muito, e mui rico despojo, que acharam no arraial dos +Mouros, os Christãos se tornáram mui alegres a seu cerco, que tinham +posto sobre a Villa, dando todos muitas graças e louvores ao Padre nosso +Senhor, que de sua mão deu esta vitoria, que foi a onze dias de Setembro +do sobredito anno de mil duzentos e dezasete annos, (1217) dia dos ditos +Martyres Proto, e Jacinto, á certidão da qual vitoria, como foi dada aos +infieis, que para este descerco eram em sua frota postos no mar elles +desacordados, e tristes se partiram, onde se diz que se perderam alguma +parte de seus navios, e de suas gentes assás nelles. + + + + +CAPITULO VIII + + _Como os Christãos combateram e tomaram o Castello Dalcacere_ + + +Os Christãos por esta vitoria ficaram alegres, e mui esforçados, depois +de consultarem sobre a milhor maneira que teriam para tomar a Villa, +fizeram duas escadas grandes, e com gente darmas que comprio foram logo +juntas ao muro para o entrarem, e comessarem de combater o Castello; mas +os Mouros com a necessidade que tinham de salvar suas vidas, dobráram +suas forças, pelo qual assi com fogo, com pedras, e traves, e setas, que +de cima do muro lançavam, afastaram os Christãos longe do muro, em que +da uma parte, e da outra foram muitos mortos, e feridos, e porque os +Christãos viram que aquella qualidade de combate por a grande fortaleza, +e desposição dos muros lhe não socedia como dezejavam, fizeram logo +cavas, e minas por baixo da terra para as poerem debaixo dos muros, e +postos em contos os derribarem por fogo; mas os Mouros que desto por +avizos, ou por conjeituras foram bem sabedores contraminaram as cavas +dos Christãos, e uns, e outros com peleja mui crua se encontraram, em +que houve muito sangue derramado, e com grandes fogos, e cousas fumosas +que os Mouros fizeram, lançaram os Christãos fora das cavas, e pozeram +sobre si segura guarda, pelo qual vendo os Christãos que alguma cousa +das cometidas de todo lhes não aproveitava, elles, por conselho, e +ordenança do Capitão da frota, que era homem engenhoso, e de bom +esforço, fizeram logo duas bastidas de madeira muito fortes, e tão altas +que cada uma dellas sobejava por cima das mais altas Torres do Castello, +donde os combates que nellas poseram iam seguros, e não temiam os danos +dos Mouros, e com esto, e com outros engenhos que mais ordenaram, e com +muitos bésteiros, e frecheiros commetteram o Castello rijamente por +muitos lanços do muro, por cima do qual os Mouros com a força das setas, +e pedras que lhe lançavam, não ouzavam parecer nem resistir como dantes +faziam, e vendo-se fracos de suas forças, e desesperados já em tudo, de +todo o soccorro, e finalmente porque se não podiam suster, fizeram sinal +que se queriam render, e sobre seguro, que lhes foi dado, vieram á +pratica, e apontamento, em que pediram as vidas, e fazendas, mas as +vidas sómente lhe foram outorgadas com segurança das quaes elles abriram +as portas do Castello, e assi seguros se sahiram, e foram para onde +quizeram, e o Alcaide do Castello, que antre elles era a pessoa mais +principal, não se quiz ir com os outros, mas acha-se que da tomada da +Villa, a tres dias por sua vontade foi bautizado, e tornado Christão, e +os outros Mouros que os Christãos acharam pelas Aldeas, e Lugares de +redor todos, se diz que sem resistencia morreram a ferro, e os grandes +despojos que da batalha passada se recolheram, e na Villa se acharam +foram logo igualmente repartidos sem aventagem dalgum, salvo que ao +Capitão de fóra, porque por seu conselho e ordenança o cerco fora sempre +regido lhe deram mais déz por prezioneiros, que elle tomára. + +E porque ao Bispo de Lisboa não foi sobre elles dada alguma avantagem, +que bem merecia, o Capitão da frota a que tal escasseza não pareceo bem, +por seu conforto lhe disse: «Reverendo Bispo, posto que vós aqui pelo +bem recebeis mal, e pela bondade malicia rogo-vos que a estes homens, +que tão mal o conhecem, e fazem sejais paciente, porque o principal +galardão que por este trabalho mereceis Deos nosso Senhor que é bom, e +justo, e porque bem o recebestes volo dará bom no Ceo, e será melhor que +este de cousas da terra». E com esto os Estrangeiros se recolheram a +suas frotas, e se partiram para onde quizeram, e o Bispo com os senhores +Portuguezes, que ao cerco vieram depois de leixarem a Villa +afortalezada, e bastecida, como viram que compria, tambem se tornaram +para suas terras, e cazas, e esta tomada de Alcacere em tempo deste Rei +Dom Affonso II foi em dia de S. Lucas, a dezoito do mez de Outubro da +era de nosso Senhor de mil duzentos e dezasete annos, (1217) e dahi a um +anno este Rei Dom Affonso com a Rainha Dona Orraca sua molher lhe deo +foral que agora tem, como por elle parece. + + + + +CAPITULO IX + + _Como cinco frades Italianos da Ordem de S. Francisco foram a + Marrocos a prégar a Fé de Christo, e primeiramente chegaram a + Sevilha, que era de Mouros_ + + +Desta tomada Dalcacere até o falecimento Del-Rei Dom Affonso se passáram +seis annos, nos quaes se não acha feito que elle fizesse, nem se +passasse cousa dina de memoria, salvo que depois em sua vida, e da dita +Rainha Dona Orraca sua molher, o Ifante Dom Pedro seu Irmão filho tambem +legitimo del-Rei Dom Sancho trouxe a Coimbra os ossos dos cinco Frades +Menores, que em Marrocos morreram Martyres, cujo caso segundo a Lenda +Santa, que delles se lê, e segundo o que mais delles verdadeiramente se +acha foi brevemente nesta maneira. Na Coronica del-Rei Dom Sancho pai +deste Rei, falando dos filhos que teve sumariamente disse: que o Ifante +Dom Pedro, seu filho, o qual bem acompanhado de nobre gente Despanha +passara em Africa, e estivera em muita estima, e grande authoridade com +Mirabolim de Marrocos, até o tempo do Martyrio destes Santos Frades, dos +quaes se acha por a dita sua Lenda, e por inquirição verdadeira, que o +sobredito Dom Matheus, Bispo de Lisboa, delles, e do seu Martyrio, e +milagres tirou por testemunhos de muitos, dinos de fé, que com o dito +Ifante andaram, e principalmente por um Cavaleiro de Santarem que +chamavam Estevão Pires, homem velho, e honrado, e de louvada vida, e +costumes que ao dito Ifante sempre servio, que na era de nosso Senhor de +mil duzentos e dezanove, (1219) e aos treze annos da primeira conversão +de S. Francisco, elle por vontade de Deos, escolheo em sua vida seis +Frades de sua Ordem por natureza Italianos, e de maravilhosa santidade, +a saber: Frei Vital, e Berardo, Otone, Acurcio, Pedro, e Adjuto, e por +saberem bem a lingoa Arabiga os mandou ao Rei, e Reino de Marrocos, que +naquelle tempo sobre os Mouros Dafrica, e Despanha tinha o mór +Principado, para lhe prégarem, e trabalharem pelo converter á Fé de +Christo. + +E destes seis Frades fez maioral, e Prelado a Frei Vital, o qual como +elle com os outros chegassem ao Reino Daragão adoeceo; e porque vio que +sua doença se prolongava por tal que seu mal corporal, o bem, e negocio +espiritual, e de Deos não impedisse, mandou que por comprirem o mandado +de Deos, e de S. Francisco se fossem a Marrocos, os quaes por sua +obediencia o leixaram doente, e se partiram, e chegeram á Cidade de +Coimbra onde a esse tempo era a Rainha Dona Orraca molher deste Rei Dom +Affonso, a qual os fez ir ante si, e como falasse com elles em cousas de +Deos, e nelles visse tão grande desprezo do mundo, e tamanho fervor de +morrer por amor de Jesu Christo, e sem duvida os julgou, e houve por mui +verdadeiros, e prefeitos servos de Deos, e por esso com grande instancia +lhe rogou, que por suas rogações pedissem a Deos que revelasse a ella o +derradeiro termo de sua vida, e posto que elles com sua humildade +confessassem não ser dinos entender nos segredos de Deos: porém vencidos +das devotissimas preces da Rainha, ditas com muitas lagrimas, +prometeram-lhe que assi o pediriam, os quaes orando a Deos com firme, e +pura fé, não sómente o que da vida da Rainha, mas ainda o seu Martyrio, +por revelação de Deos lhe foi tambem senificado, porque logo disseram +que os derradeiros dias da vida da Rainha seriam mui sedo quando seus +corpos depois de seu Martyrio, fossem de Marrocos ali trazidos, e della +mesma Rainha, e de todo o povo com grandes honras recebidos, e assi foi +como se dirá. + +Partidos os Frades de Coimbra para seguirem sua santa jornada, vieram +por aviamento da Rainha Dona Orraca á Villa Dalanquer, onde estava a +Ifante Dona Sancha, irmã del-Rei Dom Affonso, que era Senhora da dita +Villa, a que tambem revellaram todo o seu proposito; como ella foi +Princeza mui santa, aprovando seu negocio ella sobre os habitos da sua +Religião que elles traziam lhes deu outras vestiduras seculares, taes, +com que mais livres, e facilmente podessem passar a terra de Mouros, e +assi com seus habitos desimullados foram á Cidade de Sevilha, que então +era de Mouros, onde na pouzada de um Christão, leixados os habitos +leigos, por oito dias estiveram escondidos, e acertou-se que em um dia +fervendo seu espirito para Martyrio, elles sem guia, nem conselho +doutros se foram á principal Mesquita dos Mouros, e como em ella +quizessem entrar os infieis, que os viram, e conheceram, endinados +contra elles com empuxões, brados, e açoutes, que lhe deram, e por +instituto, e costume os não consentiram entrar, e dahi indo-se ás portas +del Rei, e sendo ante as ditas portas dos Paços foram levados ante El +Rei, e perguntados quem eram? Responderam: que vinham a elle Rei por +Embaixadores, e enviados do Rei dos Reis, e Senhor dos Senhores, que era +Jesu Christo, e como ante El-Rei muitas, e mui dinas cousas da Fé +Catholica proposessem aconselhando-o para sua conversão, e para receber +agoa do santo Bautismo, e com esso muitas couzas feas, e torpes de +Mafamede, e de sua seita descobrissem, El-Rei endinado de grande ira +contra elles lhes mandava cortar as cabeças, mas amançado por palavras +de um seu filho, que era prezente, os mandou meter em uma Torre mui alta +junto dos Paços, de cuja altura aos que entravam, e sahiam da caza +del-Rei, elles não leixavam de prégar em altas vozes a Fé de Christo, e +brasfemar, e mal dizer da Seita de Mafamede, cujos seguidores, e +favorecidos diziam que no inferno seriam com tormentos para sempre +danados, e anojado El-Rei de suas palavras, e para lhe arredar o azo de +as não poderem dizer, os mandou meter no mais profundo da Torre, donde +por concelho dos seus vassallos os mandou tirar, e levar a Marrocos em +companhia de Dom Pedro Fernandes de Castro o Castellão, de que atraz +disse, e ao diante direi, que por odios, e perseguições dos Condes de +Lara, não se pode soster em Castella, e duas vezes se passou aos Mouros, +e desta derradeira para Mirabolim de Marrocos. + + + + +CAPITULO X + + _Como os Frades chegaram a casa do Ifante Dom Pedro, e do que logo + fizeram, e como foram tornados a Ceyta para virem a terra dos + Christãos, e dahi se volveram outra vez a Marrocos_ + + +Neste tempo estava em Marrocos o Ifante Dom Pedro, filho del-Rei Dom +Sancho, e irmão deste Rei Dom Affonso, a cuja caza os ditos Frades, e o +dito Dom Pedro Fernandes logo chegaram, e o Ifante os recebeo com +humanidade, devação, e bom trato, e os proveo de todo o que haviam +mister, porque era Principe em virtudes mui acabado, e os Frades como +dahi em diante viam quasquer Mouros logo com muito fervor lhes prégavam, +especialmente um dia Frei Berardo, que delles era o mais principal, e +milhor sabia Arabia, sobindo em um carro, ou lugar alto como pulpito, e +prégando a Fé de Christo a muitos Mouros que o ouviam acertou-se que o +Mirabolim ia visitar, como tinha de costume, a sepultura dos Mouros +Reis, que eram fóra da Cidade, e vendo o Frade prégar, e por elle ser +prezente não querer desistir da prégação á sua seita contraria, +estimando o por homem sandeo, e por tirar escandalos mandou, que elle +com todos os Frades fossem logo lançados fora da Cidade, e sem tardança +levados a terras dos Christãos, pelo qual o Ifante Dom Pedro havendo-o +assi por bem lhes deu alguns seus servidores, que seguramente os +levassem, como levaram até a Cidade de Ceyta, para dahi logo passarem a +terra dos fieis. + +Mas os Santos Padres não contentes da viagem leixáram as guias, que os +levavam, e tornaram-se outra vez a Marrocos, e como chegasseem á praça +da Cidade logo aos muitos Mouros, que nella acharam começaram de prégar, +louvando os merecimentos da Fé de Christo, e brasfemando dos vicios, e +erros de Mafamede, e sua seita, da qual cousa como El-Rei fosse +certificado os mandou logo meter em um estreito carcere, onde sem alguma +ordenada provizão, nem mantimento dos homens, que houvessem, mas com a +só refeiçao de Deos, que houveram. Vinte dias foram encarcerados +asperamente, e neste tempo, porque em toda aquella terra sobrevieram mui +grandes, e desordenadas quenturas do Sol, e grandes destemperamentos do +Ar, alguns creram que estes males poderiam vir pela injusta prizão dos +Frades, pelo qual por concelho de um Mouro chamado Abotorim, que aos +Christãos tinha amor, e queria bem, El-Rei consentio que fossem livres +do carcere, e trazidos ante elle, mandou aos Christãos que logo sem mais +detença os mandassem a sua terra. + +E porém El-Rei com os outros Mouros não ficaram sem grande espanto, +quando viram os Frades tão esforçados dos corpos, e tão constantes das +vontades, havendo vinte dias continos, que sem algum mantimento ordenado +jouveram no carcere, e perguntados por El Rei: quem os mantivera tanto +tempo? Lhe disse Frei Berardo, que como El-Rei bem crece na Fé de Jesu +Christo logo saberia como elles sem beber, e sem comer foram no carcere +manteudos. E com tudo elles como se viram soltos, logo sem algum medo +outra vez quizeram tornar a pregar aos Mouros, mas os outros Christãos, +que com elles estavam, receosos da ira del-Rei que com mortes, e +cruezas, se estenderia nas vidas de todos, como mostrava, lho não +consentiram. + +Então lhe ordenaram logo outros homens fieis que os acompanhassem, e +levassem outra vez a Ceyta, para dahi passarem a terra dos Christãos, +mas os ditos Frades sospirando por seu Martyrio, despedindo-se daquelles +que os levavam se tornaram outra vez a Marrocos, onde o Ifante os mandou +logo recolher, e encerrar em sua caza com guardas, e defeza estreita, +que os não leixassem sahir, porque receava segundo El-Rei de suas +pregações se escandalizava, que não sómente mandaria matar os Frades, +mas a elle, e a todos os christãos que houvesse na Cidade. + + + + +CAPITULO XI + + _De um milagre que se fez por causa de Frei Berardo, e como foram + presos e atormentados os outros Frades_ + + +E acertou-se que o Mirabolim a este tempo mandou o Ifante Dom Pedro com +outros muitos nobres homens de Christãos, e Mouros, que delle tinham +soldo fazendo guerra, e sogigar a uns senhores Mouros seus vassallos, +que se lhes rebelaram, apoz os quaes Frei Berardo, e os outros Frades, +que tiveram maneira de se soltar, logo seguiram, e foram devolta onde se +diz, que disputando Frei Berardo com um Mouro ante elles o mais letrado, +e venceo, e confundio, e que este Mouro, com vergonha nunca mais tornou +a Marrocos, nem depois não pareceo, e tornando o Ifante com os outros +Mouros da conquista, que lhes fora encomendada, vieram por uma terra tão +seca que por tres dias para si, nem pera seus cavallos não poderam achar +em nenhuma parte agoa para beber, e como a estreiteza da sede +desesperasse todos das vidas, Frei Berardo era na companhia, feita +primeiro sua dovota oração, tomou na mão um piqueno pao com que cavou um +pouco na terra mui seca donde milagrosamente logo arrebentou, e sahio +uma grande fonte de agoa doce, e mui singular de que não sómente os +homens, e alimarias bebiam, e se abastaram, mas ainda encheram muitos +odres, que levaram para o caminho. + +E como esta necessidade dagoa foi satisfeita, logo a fonte se sarrou, e +secou, e por tão grande, e tão manifesto milagre, que de todos foi +visto, e Deos por Frei Berardo fizera, todos os do exercito dahi em +diante o tiveram em grande devação, e reverencia, e muitos por Santo lhe +beijaram os pés, e as vestiduras, e como estes Santos Frades tornassem a +Marrocos, e em caza do Ifante fosse por elles posta grande guarda, para +não sahirem, e elles toda via sairam, e em uma Sexta feira, que o +Mirabolim ia visitar os sepulchros dos Reis Mouros, os Frades sem algum +temor, e com grande ousadia se apresentaram ante elle, e sobindo Frei +Berardo em um tezo começou de lhe prégar mui sem receio, e como El-Rei +os visse, cheo de ira contra elles, mandou a um seu Capitão Mouro que +vira o milagre dagoa, que logo lhes cortasse as cabeças, pelo qual os +Christãos, que eram prezentes, com temor de suas proprias mortes, logo +fugiram dahi, e fechadas, e trancadas bem as portas de suas pouzadas, +nellas sem sair jaziam escondidos, mas o Principe Mouro mandou aos +homens da justiça que trouxessem os Frades ante elle, e como por duas +vezes o não achassem os tornaram a levar a mais aspero carcere com +golpes, e bofetadas com que os feriam, e com esso os ditos Frades assi +aos Christãos, que se lhe offereciam não leixavam de prégar a palavra de +Deos. + +E sendo outra vez trazidos ante o dito Principe, e com tanta constancia +os visse prégar, e confessar a fé Catholica, e reprovar, e reprehender +com muita ouzadia as couzas de Mafamede, e sua seita, acezo da ira +contra elles os mandou logo atormentar com muitas, e mui desvairadas +maneiras de tromentos, e depois apartar uns dos outros, e em desvairadas +cazas onde cruamente os mandou açoutar, e aquelles maos, e crueis +ministros atados os pés, e as mãos dos Santos, e com cordas asperas +lançadas aos colos delles, e arrastando-os de uma parte a outra pela +terra, assi continuadamente, e tão sem piedade os açoutavam, que as +tripas lhe apareciam, e sobre as chagas recebidas por acrescentarem mais +dor lhe lançavam vinagre, e azeite fervendo, e assi foram por toda a +noite atormentados, e açoutados de trinta Mouros, que nelles se +arrevezavam, na qual noite daquelles que os guardavam foi visto, que um +grande resplandor decendia dos Ceos, e com uma companha sem conto os +arrebatavam, e levantavam para cima, e maravilhados desso os Mouros, e +de todo espantados, chegando ao corcere acharam os Santos Frades +devotamente orando. + + + + +CAPITULO XII + + _Como El-Rei de Marrocos fallou com estes Frades, e por os não + poder converter a sua seita por si mesmo os matou, e como foram + mortos tambem Pedro Fernandes, e Martim Affonso Telo, sobrinho do + Ifante_ + + +As quaes couzas ouvindo El-Rei de Marrocos, acezo com maior sanha contra +elles, mandou que logo lhe fossem levados com as mãos atadas, e +descalços dos pés, e depois dos corpos continuadamente açoutados, e +espancados, os quaes como El Rei na Fé de Christo os visse tão firmes, +mandou dentro meter comsigo certas molheres fermozas, e lançados todos +fóra disse: «Convertei-vos a nossa fé, e dar-vos-hei estas por vossas +molheres, e com ellas muito dinheiro, e sereis em meu Reino muito +honrados.» A que os Frades logo responderam: «Tuas molheres, e teu +dinheiro não queremos; porque tudo esto desprezamos por amor de +Christo». É então El-Rei arrebatado de maior ira, e sanha, apartados os +Santos um do outro, por suas proprias e mui cruas mãos a cada um per si +talhou as cabeças por meio das fontes, e apertando na mão tres cutellos, +juntamente com uma crueza de besta féra os degolou, os quaes compriram +este seu Martyrio a dezaseis dias de Janeiro do anno de Christo de mil +duzentos e vinte, (1220) em tempo do Papa Honorio III, em o quarto anno +de seu Pontificado, e quasi sete annos antes da morte de S. Francisco. + +E depois disto lançados fóra os corpos dos Martyres por as molheres, que +comsigo tinham: estes perros barbaros e maos, atando cordas a seus pés, +e mãos, os arrastaram para fóra da Cidade, em torno da qual com grandes +brados, e pregões os trouxeram, e espedaçados de todos os membros, os +leixaram no campo, pelo qual os Christãos, que os assi viram, +alevantadas as mãos aos Ceos, louvando a Deos por seu tão glorioso +Martyrio, comessaram de apanhar, e recolher as Riliquias dos ditos +Santos escondidamente, a qual couza como os Mouros vissem, todos como +cães raivosos, tanta multidão de pedras lançaram nos Christãos, que +parecia tempestade de sua raiva, mas os Christãos defezos já pelos +merecimentos dos Santos, fugindo da ira dos Mouros a suas cazas se +recolheram, donde com temor da morte, que antre si traziam, escondidos +por tres dias não pareciam, principalmente, porque neste tempo o Ifante +mandou a Dom Pedro Fernandes de Castro, o Castellão, que lá era lançado, +e a Martim Affonso Tello, seu sobrinho, nobres homens, que com outros +muitos andavam em sua companhia, que de noite secretamente fossem ver +onde jaziam os corpos dos Martyres para se recolherem, porque foram +vistos, e achados dos Mouros, logo os mataram. + + + + +CAPITULO XIII + + _Como os corpos dos Martyres foram queimados, e despedaçados, e + emfim recolhidos por devação, e industria do Ifante Dom Pedro_ + + +Depois desto em um grande fogo, que foi feito no campo, os corpos dos +Santos se lançaram por tal, que de todo fossem queimados, mas o fogo por +virtude Divina das santas Reliquias assim se apartava, e apagava, como +que a materia muito lhe fosse contraira com junto, antes a cabeça de um +dos Martyres lançada muitas vezes no fogo, nem nos seus cabelos não +pareceo algum sinal de queimadura, a qual assi com a pelle, e cabellos +foi mostrada sem alguma corrupção no Moesteiro de Santa Cruz de Coimbra, +mas dos Mouros alguns por amizade, e outros por dinheiro, e proveito, e +assi os Christãos, que na Cidade eram cativos, apanhando as Reliquias +dos Santos as offereciam ao Ifante, que recebendo-as com grande devação +as mandou secretamente cozer, e depois que as carnes se gastaram, e os +ossos ficaram limpos, os mandou secar, e encomendou a guarda principal +delles a João Roberto, Conego de Santa Cruz, homem em virtudes acabado, +e a tres innocentes, moços honestos, seus moços da Camara, dos quaes um +foi o Estevão Pires de que atraz disse, que deu este estromento, ca não +era algum ouzado entrar onde as sagradas Reliquias estavam em guarda, +porque a só sua consciencia de qualquer crime ocultamente commetido logo +o reprendia, e acuzava. + +E neste tempo um Cavalleiro chamado Pedro da Roza, tendo uma manceba por +nome Maria da Roza, como sobisse a um sobrado onde as Reliquias se +guardavam logo elle sem se poder mover, e tolheito, bradou fortemente +dizendo: «Acorrei-me, acorrei-me, dai-me confissão. A qual como o Conego +lha deu, em que de todo renunciou a manceba, logo foi livre dos membros, +e pode decer, mas não pode falar até que o mesmo Conego por mandado do +Ifante lhe poz sobre o peito a cabeça de um Martyre, com que de todo +recobrou as forças, e fala, assi como dantes as tinha, e dahi em diante, +assi o Ifante como todos os seus tiveram as Reliquias em maior honra, e +devação, das quaes mandou meter as cabeças em uma arca, e os ossos em +outra, e as tinham em grande veneração na sua Capela, e ás santas Almas +dos Bemaventurados Martyres, cujas Reliquias tinha continua, e +devotamente pedia, que de Deos lhe ganhassem graça para sem perigo de +sua pessoa, e dos seus, se poder vir para sua terra de Christãos, porque +já havia muitos dias que na dos Mouros contra sua vontade se detinha, e +estava forçado. + + + + +CAPITULO XIV + + _Como o Ifante D. Pedro foi tornado a Espanha, e trouxe consigo os + ossos, e Reliquias dos Martyres, e as mandou a Santa Cruz de + Coimbra, e dos milagres que houve no caminho_ + + +Esta graça pelas preces dos Martyres, foi da piedade de Deos brevemente +empetrada, porque estando o Ifante desta sua liberdade assás +desconfiado, o Mirabolim de sua propria vontade, e sem requerimento +dalguem o mandou chamar, e alegremente lhe deu licença, que para sua +terra se viesse quando quizesse, descobrindo-lhe logo as muitas vezes +que para sua morte fora de seus principaes aconselhado, e induzido; mas +por seus merecimentos, e bons serviços, que fielmente sempre lhe fizera, +merecia outro galardão. E com esta licença lhe deu mais suas cartas de +passos, para elle, e os seus seguramente poderem passar, com as quaes +partiram de Marrocos, e depois de um dia, e uma noite, vieram no caminho +dormir a Azora, que era lugar despovoado onde de ferozes brados dos +muitos Liões, que ahi ha foram postos em temor de que logo foram livres, +como ante si, e os Liões pozeram com devação, e confiança as santas +Reliquias, que por sua santidade fizeram tudo quieto, e ao outro dia +chegaram a um Lugar em que se apartavam muitos caminhos, e duvidosos de +qual era o melhor que tomariam, e o Ifante sospenço, e confiado na santa +guia das Reliquias que acompanhava mandou dar a dianteira a uma Azemala +que as levava, e houve por bem que aquelle caminho que ella tomasse, +todos por milhor o seguissem esperando que elle seria o milhor, e mais +seguro. + +O que foi assi feito, e a Azemala se desviou de um caminho para que a +gente se mais inclinava, onde o Ifante soube depois em certo que Mouros +o esperavam para o matar, e roubar, e da hi em diante em dezertos e +montes porque passáram sempre déram a guia ás santas Reliquias, que com +a graça de Deos levaram o Ifante, e os seus a salvamento atè Ceita, onde +embarcando logo em uma nao, que o Divino favor lhe tinha prestes, e +aparelhada para terra de Christãos, partiram, e navegaram logo com vento +prospero, que em poucas horas, com grande escuridão se mudou o +contrairo, e algumas outras naos que se acertaram em sua conserva, por +uma respiração divina faziam daquella do Ifante Capitaina, por quem se +regiam, e com a grande sarração que sobreveio temendo de ir á Costa se +encomendaram devotamente aos rogos, e merecimentos dos Santos Martyres, +cujas sagradas Reliquias levavam, para que em salvamento os guiassem, e +logo supitamente derramada a escuridão, em que andavam, veo a grande +claridade, e bonança, com que bem viram, e conheceram o caminho de sua +perdição, que levavam, e desviados delle aportaram na Aljazira, daquem +Despanha, e dahi a Tarifa, e logo a Sevilha, que era de Mouros, onde por +os Christãos que ahi eram, o Ifante foi avizado, que logo se partisse, +porque El-Rei de Sevilha o mandava prender. + +Pelo qual logo ahi embarcaram, e vieram a Astorga, que é em Galiza do +Reino de Lião, onde então reinava El-Rei Dom Affonso, primo com irmão do +Ifante Dom Pedro, e como foram partidos chegaram a Sevilha mandados de +Mirabolim de Marrocos que logo lhe prendessem, e tornassem o Ifante, e +cortassem as cabeças a todos os seus, mas deste perigo, e doutros muitos +prouve a Deos que o Ifante, e os seus, pelos merecimentos dos Santos +Martyres, cujo devoto era, fossem como foram, livres, e seguros, e como +chegassem a Astorga um hospede onde foram agazalhados havia trinta annos +que assi era doente, e tolheito de parlezia, que do officio da fala, e +dos membros era de todo privado, e ouvindo as grandes maravilhas dos +Santos Martyres, que os Christãos consigo traziam, lançado em terra ante +a Arca em que suas sagradas Reliquias eram guardadas, pedindo-lhe com +muitas lagrimas, e grande devação remedio para sua doença, logo ahi á +vista de todos recebeo na fala, e em todos os membros perfeita saude, e +o Ifante Dom Pedro não veio com as Reliquias dos Martyres a Coimbra; mas +de Astorga mandou com ellas Affonso Pires de Arganil, que era Rico +homem, e pessoa de grande credito, porque o Ifante Dom Pedro não era bem +avindo com El-Rei Dom Affonso de Portugal seu irmão. + + + + +CAPITULO XV + + _Como as Reliquias dos Martyres foram recebidas, e como foi a morte + da Rainha Dona Orraca, molher del-Rei Dom Affonso, e das cousas que + foram vistas_ + + +Como Affonso Pires chegasse a Coimbra onde a fama dos Santos Martyres já +era, a sobredita Rainha Dona Orraca molher deste Rei Dom Affonso de +Portugal, que ahi estava com o povo junto, que com toda a Cleresia, e +mui devota, e solenne Procissão, saio a receber as sagradas Reliquias, e +com muita devação, e grande solennidade as levaram ao Moesteiro de Santa +Cruz, onde mui honradamente as leixaram, e como a nova do glorioso +Martyrio destes Santos Frades chegasse a S. Francisco, alegrando-se em +seu espirito, disse: «Agora verdadeiramente posso dizer que tenho cinco +irmãos». E no mesmo anno em que estes Martyres foram mortos segundo +testemunho das santas Lições, que delles se dizem, por sua vingança a +ira, e indinação de Deos, veio contra El-Rei de Marrocos, e seu Reino, +porque a propria mão direita, e braço çom que o dito Rei Mouro matou os +Santos Frades, todos seus membros daquella parte até o destro pé, foram +todos secos, e por maldição da sua terra, nos tres annos seguintes apoz +este Martyrio, não choveo nella couza alguma, de que se seguio mais, que +por cinco annos continos houve tanta fome, e tão cruas pestilencias nos +homens, que a mór parte da gente por tamanha mortindade foi destruida +por tal, que os annos da vingança fossem iguaes ao numero dos Santos +Frades. + +E porque a Profecia dos Santos Frades em todo se comprisse a sobredita +Rainha Dona Orraca passadas mui poucas horas, depois que ás Santas +Reliquias foi dada divina sepultura, ella Rainha chea de virtudes acabou +sua vida, e dahi foi levada a Alcobaça onde jaz, e á mesma hora que ella +faleceo, sendo a noite profunda, Dom Pedro Nunes Conego, e Sacristão do +Moesteiro de Santa Cruz, Varão por Santidade mui esclarecido, e +Confessor da mesma Rainha, vio innumeraveis Frades Menores entrar no +Choro antre os quaes era um, que aos outros com grande solennidade +precedia, e apoz elle cinco antre todolos outros com honra singular mais +excellentes, e como no Choro com procissão assi entraram logo com doce +melodia que se não póde dizer, cantaram as Matinas, e o dito Pedro Nunes +Sacristão, sendo pelo que vio todo atonito, perguntou a um delles, a que +vieram, e porque lugar tantos Frades em tal hora entrassem, sendo +serradas todalas portas do Moesteiro, o qual lhe respondeu: «Nós todos +que aqui vez somos Frades Menores, e agora reinamos com Christo, e +aquelle que vez, que com tanta gloria precede aos outros, é S. Francisco +que tanto dezejastes ver nesta vida, e aquelles cinco, que antre os +outros tem mais excellencia são os Frades, que em Marrocos por Christo +receberam Martyrio, e neste Moesteiro são sepultados, e sabe que a +Rainha Dona Orraca nesta ora passou desta vida, e porque ella de todo +coração amou nossa Ordem, Nosso Senhor Jesu Christo nos enviou cá todos, +porque por sua honra disessemos aqui Matinas, e porque tu eras seu +confessor, quiz Deos que tu visses estas couzas, e da morte da Rainha +não duvides; porque na hora que daqui partirmos ouvirás logo certa +nova». E aquella Procissão sendo todas as portas do Moesteiro serradas +logo sairam, e nesta hora aquelles que eram da familia da dita Rainha +bateram ás portas, e denunciaram que ella tinha já paga sua necessaria +divida á carne, e falecera. + + + + +CAPITULO XVI + + _Como Santo Antonio por exemplo destes Martyres tomou o habito de + S. Francisco, e do que seguio em Marrocos por milagre, e da morte + del-Rei Dom Affonso_ + + + +Despois que estes Santos Martyres começaram de resplandecer com mui +claros milagres que muitos em sua mais profuza lenda se contem, e por +exemplo delles o Bemaventurado Antonio que a este tempo era Conego no +Moesteiro de Santa Cruz mesmo, e se chamava Fernando Martins, ardendo +com dezejo de semelhante Martyrio, entrou na mesma Ordem dos Menores, em +idade de vinte e cinco annos, e nella acabou dez annos, exclarecido em +Santidade, e com milagres. E por esta ida destes Frades, o mesmo S. +Francisco, porque seu exemplo ardia em gram fervor, e dezejo de +Martyrio, passou com sete Frades a terra de Suria, e foi ao Gram Soldam, +e como quer que com grande constancia, e mui sem medo lhe prégasse a Fé +de Christo, o Gram Soldam o tornou a enviar livremente, e são a sua +propria terra. + +E acha-se por lembranças antigas, que por este Martyrio destes Santos +Frades ser tão cruamente feita em Marrocos, e com tanto desprezo de +Deos, e de sua palavra, houve em todo aquelle Reino tantas +esterilidades, e securas, e por tantos annos, que esteve para de todo se +despovoar, e porque geralmente antre elles, e pelo povo se dizia que +tamanha maldição não viera á terra salvo pela inocente morte dos +Religiosos, El-Rei a cujas orelhas este rumor, e clamor chegara, tendo +sobre esso concelho com os Mouros, e tambem com os Christãos, que +estavam ahi, acordaram que onde padeceram, que ali com grande +arrependimento, e gemidos, e muitas lagrimas viessem, como vieram pedir +a Deos que havendo por esso com elles piedade, se diz que logo choveo, e +veio á terra acostumada avondança em todalas cousas, por cujo beneficio +se affirma que El-Rei de Marrocos com todo seu povo prometeram, e +ordenaram que da mesma Ordem dos Frades Menores fosse dado Sacerdote, ou +Bispo a todolos Christãos, que em Marrocos, e em sua terra vivessem, e +que os Frades fizessem ahi Moesteiro da Ordem de S. Francisco, em que +livremente sempre estivessem, e dessem os Sacramentos aos Christãos sem +algum receio, o que por muitos annos assi comprio. + +E deste anno de Christo de mil e duzentos e vinte, em que esto sucedeo, +até o anno de mil duzentos e vinte e quatro em que este Rei Dom Affonso +faleceo, não achei que elle fizesse, nem em seu Reino sucedesse outras +cousas notaveis, pelo qual tendo elle trinta e sete annos de sua idade, +e havendo doze annos que Reinava, faleceo na era de nosso Senhor de mil +e duzentos e vinte e quatro, (1224) e jaz em Alcobaça, com a Rainha Dona +Orraca sua molher, na Capella grande, que elle em sua vida mandou fazer +diante a porta do Moesteiro, e neste anno se diz que foi mudado o +Convento de Santa Maria, a antiga á nova Egreja, e Moesteiro de +Alcobaça, que El-Rei D. Affonso Anriques, seu avô de fundamento mandou +fazer. + +DEO GRATIAS + + + + +INDEX DAS COUSAS NOTAVEIS + + +A + + +Affonso II (D.) de Portugal, que idade tinha, e em que anno foi +levantado Rei, pag. 17. Foi cazado com Dona Orraca filha del-Rei D. +Affonso IX de Castella. ibi. Não quer conceder á Rainha Dona Tareja, e á +Infanta Dona Sancha suas irmãs as terras que lhes deixara seu pai D. +Sancho I, pag. 22. É excommungado pelo Papa Innocencio III para que +largue os Castellos de Monte Mór, e Alanquer a suas irmãs, pag. 24. É +absolvido da Excommunhão, e com que circumstancias se ajustou a tregoa +entre estes Principes, pag. 25 e 26. Contende judicialmente sobre a +mesma materia com suas irmãs, e é condemnado a pagar-lhe uma grande +somma de dinheiro, pag. 27. Em que anno, e idade morreo, pag. 30. Onde +está sepultado, ibi. + +Affonso IX (D.) de Castella sogro del-Rei D. Affonso II de Portugal com +quem foi cazado, e que filhos teve, pag. 18. Manda chamar a seu genro D. +Affonso II de Portugal ás Cortes que fez em Burgos, e não vai, pag. 21, +onde morreo, e está sepultado, ibi. + +Affonso Pires de Arganil, entrega por ordem do Infante D. Pedro as +Reliquias dos Martyres de Marrocos no Convento de Santa Cruz de Coimbra, +pag. 55. + +Alcacere é cercado pelos Portuguezes e Estrangeiros, e das pessoas +principaes Portuguezas que assistiram neste cerco, pag. 31. No seu campo +são mortos pelos Portuguezes trinta mil Mouros, e em que dia e anno se +conseguio esta vitoria, pag. 38. O seu Castello depois de uma larga +resistencia é conquistado, pag. 40. Em que dia e anno foi tomado, pag. +41. + +Algozo e Freixo são tomados pelos Ifantes D. Pedro e D. Fernando em odio +de seu irmão D. Affonso II de Portugal, pag 24. + +Antonio (Santo) passa da Religião dos Conegos de Santo Agostinho para a +de S. Francisco, pag. 58. + +Armada de Alemães, e Framengos, que se compunha de cento e cincoenta +naos depois de padecer varias derrotas aportou a Lisboa, pag. 29. + + +B + + +Berardo (Fr.) um dos cinco Martyres de Marrocos, abre milagrosamente na +terra seca uma fonte de que todos beberam, e se admiraram, pag. 48. + +Beringela (Infante Dona) filha del-Rei de Castella Affonso IX cazou com +D. Affonso Rei de Lião, e que filhos teve, pag. 18. + +Branca (Infante D.) filha de Affonso IX, Rei de Castella, cazou com +El-Rei de França, e foi mãi de S. Luis, pag. 18. Era mais velha, que sua +irmã Dona Orraca, pag. 20. + + +C + + +Constança (Infante Dona), primeira Senhora do Moesteiro das Holgas de +Burgos, foi filha del-Rei D. Affonso de Castella, pag. 18. + + +F + + +Fernando (Infante D.) chamado de Serpa foi filho de Affonso II de +Portugal, e da Rainha Dona Orraca, pag. 19. Com quem cazou, e que filhos +teve, ibi. + +Fernando (Infante D.) filho de Affonso IX de Castella morreo de idade de +dezaseis annos, pag. 8. Foi a Roma buscar a Cruzada que o Papa concedeo +a seu pai para a batalha das Navas de Tolosa, pag. 21. + +Foral. Em que anno foi dado por El-Rei D. Affonso II á Villa de +Alcacere, pag. 41. + +Francisco (S.) O que disse quando teve noticia do Martyrio dos seus +cinco Religiosos em Marrocos, pag. 56. Passa com sete Frades á Suria a +prégar a Fé seguindo o exemplo daquelles cinco Martyres, pag. 58. + + +G + + +Gonçalo (D.) Mestre, e Prior do Esprital se achou no cerco de Alcacere, +pag. 31. + + +H + + +Henrique de Neusa (D.) Capitão de uma Armada Estrangeira, que constava +de trinta e seis naos, arribáram ao porto de Setuval, e junto com os +Portuguezes batalham com os Mouros que estavam senhores de Alcacere, e +sahem vitoriosos, pag. 34. + + +I + + +Innocencio III manda excommungar pelo Arcebispo de Santiago, e o Bispo +de Çamora a Affonso II por negar os Castellos de Monte mór e Alanquer a +suas irmãs que seu pai D. Sancho I lhe deixara, pag. 24. + + +L + + +Lianor (Dona) filha del-Rei D. Henrique de Inglaterra, cazou com Affonso +IX de Castella, pag. 2. Que filhos teve daquelle Principe, pag. 18. + +Lianor (Infante Dona) filha del-Rei D. Affonso IX de Castella cazou com +D. James I Rei de Aragão, pag. 18. + +Lianor (Infante Dona) Neta de Affonso II de Portugal cazou com El-Rei de +Dacia, pag. 19. + +Lianor (Infante Dona) filha de Affonso II de Portugal cazou com o filho +herdeiro del-Rei de Dinamarca, pag. 19. + + +M + + +Martim Affonso Tello sobrinho do Infante D. Pedro é morto em Marrocos, +pag. 51. + +Martim Barregam Commendador de Palmella se achou no cerco de Alcacere, +pag. 31. + +Martyres que padeceram em Marrocos como se chamavam, pag. 42. São +recebidos em Coimbra pela Rainha Dona Orraca, pag. 43. Foram tratados +com grande benevolencia em Alanquer pela Infante Dona Sancha irmã de +Affonso II de Portugal, ibi. Pregam animosamente em Sevilha contra a +ceita de Mafamede, pag. 44. Crueis Martyrios que padeceram, pag. 49. São +degolados por El-Rei de Marrocos, pag. 50. Anno, e dia do seu Martyrio, +ibi. São queimados os seus corpos, e maravilhas que então sucederam, +pag. 51. Como foram trazidos os seus corpos a Coimbra, pag. 54 e 55. + +Matheus (D.) Bispo de Lisboa recebe aos Estrangeiros que vinham em uma +Armada que aportou áquella Cidade, e os exhorta á conquista de Alcacere, +pag. 29. Achou-se no cerco de Alcacere, pag. 51. Faz uma pratica aos +soldados Portuguezes e Estrangeiros que estavam no campo de Alcacere +para que não levantem o sitio, mas que tomem a Praça. pag. 36. + +Melgaço é tomado pelos Infantes D. Pedro e D. Fernando com alguma gente +de Lião em odio de seu irmão D. Affonso II de Portugal, pag. 24. + +Mouros. Como se houveram esforçadamente no sitio de Alcacere, pag. 33. +Governados pelos Reis de Sevilha, Cordova, Jaen, e Badalhouse vem +soccorrer Alcacere, ibi. São derrotados, e mortos trinta mil no campo de +Alcacere, pag. 38. + + +O + + +Orraca. Princezas varias que tiveram este nome, pag. 20. + +Orraca (Dona) filha del-Rei D. Affonso IX de Castella foi cazada com D. +Affonso II de Portugal, pag. 17. Era mais moça que Dona Branca, pag. 20. +Recebe em Coimbra aos Martyres de Marrocos, que lhe pronosticaram a sua +morte, pag. 40. Quando morreo, pag. 56. Onde está sepultada, pag. 59. + + +P + + +Pedro (Infante D.) filho de Sancho I de Portugal, veio socorrer a sua +irmã Dona Tareja, que estava recolhida no Castello de Monte mór, contra +seu irmão D. Affonso II, pag. 23. Estando em Marrocos recebe em sua caza +aos Santos cinco Religiosos que alli padeceram martyrio, pag. 45. É +livre de gravissimos perigos por intercessão dos mesmos Santos Martyres, +pag. 53. Alcança licença del-Rei de Marrocos para trazer as Reliquias +dos mesmos Marryres para Portugal, ibi. + +Pedro (D.) Mestre da Ordem da Cavallaria do Templo se achou no cerco de +Alcacere, pag. 31. + +Pedro Fernandes de Castro chamado o Castellão é morto em Marrocos, pag. +51. + +Pedro Nunes (D.) Conego e Sacristão do Moesteiro de Santa Cruz de +Coimbra, Confessor da Rainha Dona Orraca teve uma admiravel visão dos +Santos Martyres de Marrocos, pag. 56. + + +R + + +Rei de Marrocos pela sua propria mão degolou os cinco Martyres da Ordem +de S. Francisco, pag. 50. Castigo que experimentou por esta impia +crueldade, pag. 56. Movido das grandes calamidades que padecia o seu +Reino concede liccença que os Frades Menores levantem Convento em +Marrocos, pag. 59. + +Reliquias Dos Santos Martyres de Marrocos como foram trasidas, e dos +milagres que obraram pela jornada, pag. 53. Do modo como foram recebidas +em Santa Cruz de Coimbra, pag. 55. + + +S + + +Sancha (Infante Dona), irmã del-Rei de Portugal D. Affonso II recebe com +grande benevolencia em Alanquer aos Santos Martyres de Marrocos, pag. +43. + +Sancho I (D.) de Portugal, onde, e quando morreo, pag. 17. + +Sytimos. Lugar distante uma legoa de Alcacere foi a parte onde se +alojaram os Reis Mouros que vinham soccorrer o seu Castello, pag. 33. + + +T + + +Tareja (Rainha Dona) com sua irmã Dona Sancha se recolhem ao Castello de +Monte mór, e se queixam ao Papa Innocencio III da tyrania com que seu +irmão D. Affonso II lhe negava as terras que lhes deixara seu pai D. +Sancho I, pag. 23. É soccorrida por seus dous irmãos D. Pedro e D. +Fernando em Monte mór contra D. Affonso II, pag. 23. Do modo com que se +concertou com seu irmão, pag. 27. + +Tregoa. Em que anno foi celebrada entre D. Affonso II, e suas irmãs Dona +Tareja e Dona Sancha, pag. 26. + + +V + + +Valença do Minho é tomada pelos Infantes D. Pedro e D. Fernando em odio +de seu irmão D. Affonso II negar as terras a suas irmãs que lhe deixára +seu pai D. Sancho I, pag. 24. + +Vitoria do Campo de Alcacere em que dia, e anno se alcançou, pag. 38. + +FINIS LAUS DEO + + + + +INDICE DOS CAPITULOS + + +I--Como o Ifante Dom Affonso foi alevantado por Rei, e como foi cazado, +e com quem, e que filhos legitimos houve + +II--Das desavenças que houve antre El Rei D. Affonso, e as Ifantes suas +irmãs, e da guerra que sobre esso se moveo + +III--Como foi pelo Papa procedido contra El-Rei D. Affonso por causa da +contenda que havia com suas irmãs, e como finalmente foram concordados + +IV--Do fundamento que houve para Alcacere do Sal, que era de Mouros, ser +cercado, e tomado dos Christãos, e do Bispo de Lisboa principalmente + +V--Como Alcacere foi cercado, e com que numero de gente Portuguezes e +tambem Estrangeiros + +VI--Dos Reis Mouros que vieram por soccorro da Villa de Alcacere, e da +primeira batalha que deram, em que foram vitoriosos + +VII---Da segunda batalha que houve sobre Alcacere, e como os Reis Mouros +foram vencidos, e feito grande estrago em suas gentes + +VIII--Como os Christãos combateram e tomaram o Castello Dalcacere + +IX--Como cinco Frades Italianos da Ordem de S. Francisco foram a +Marrocos a prégar a Fé de Christo, e primeiramente chegaram a Sevilha, +que era de Mouros + +X--Como os Frades chegaram a caza do Ifante Dom Pedro, e do que logo +fizeram, e como foram tornados a Ceyta para virem a terra dos Christãos, +e dahi se volveram outra vez a Marrocos + +XI--De um milagre que se fez por causa de Frei Berardo, e como foram +prezos e atormentados os outros Frades + +XII--Como El-Rei de Marrocos fallou com estes Frades, e por os não poder +converter a sua seita por si mesmo os matou, e como foram mortos tambem +Pedro Fernandes, e Martim Affonso Telo, sobrinho do Ifante + +XIII--Como os corpos dos Martyres foram queimados, e despedaçados, e +emfim recolhidos por devação, e industria do Ifante Dom Pedro + +XIV--Como o Ifante D. Pedro foi tornado a Espanha, e trouxe consigo os +ossos, e Reliquias dos Martyres, e as mandou a Santa Cruz de Coimbra, e +dos milagres que houve no caminho + +XV--Como as Reliquias dos Martyres foram recebidas, e como foi a morte +da Rainha Dona Orraca, molher del-Rei D. Affonso, e das cousas que foram +vistas + +XVI--Como Santo Antonio por exemplo destes Martyres tomou o habito de S. +Francisco, e do que seguio em Marrocos por milagre, e da morte del-Rei +Dom Affonso + + + + + + +End of Project Gutenberg's Chronica de El-Rey D. Affonso II, by Rui de Pina + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICA DE EL-REY D. AFFONSO II *** + +***** This file should be named 22826-8.txt or 22826-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/2/8/2/22826/ + +Produced by Manuela Alves and Rita Farinha (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +http://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. Of course, we hope that you will support the Project +Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by +freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of +this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with +the work. You can easily comply with the terms of this agreement by +keeping this work in the same format with its attached full Project +Gutenberg-tm License when you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in +a constant state of change. If you are outside the United States, check +the laws of your country in addition to the terms of this agreement +before downloading, copying, displaying, performing, distributing or +creating derivative works based on this work or any other Project +Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning +the copyright status of any work in any country outside the United +States. + +1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: + +1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate +access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently +whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the +phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project +Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed, +copied or distributed: + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + +1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. However, if you provide access to or +distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than +"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version +posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org), +you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a +copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon +request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other +form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm +License as specified in paragraph 1.E.1. + +1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, +performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works +unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. + +1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing +access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided +that + +- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from + the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method + you already use to calculate your applicable taxes. The fee is + owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he + has agreed to donate royalties under this paragraph to the + Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments + must be paid within 60 days following each date on which you + prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax + returns. Royalty payments should be clearly marked as such and + sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the + address specified in Section 4, "Information about donations to + the Project Gutenberg Literary Archive Foundation." + +- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies + you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he + does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm + License. You must require such a user to return or + destroy all copies of the works possessed in a physical medium + and discontinue all use of and all access to other copies of + Project Gutenberg-tm works. + +- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any + money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the + electronic work is discovered and reported to you within 90 days + of receipt of the work. + +- You comply with all other terms of this agreement for free + distribution of Project Gutenberg-tm works. + +1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm +electronic work or group of works on different terms than are set +forth in this agreement, you must obtain permission in writing from +both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael +Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the +Foundation as set forth in Section 3 below. + +1.F. + +1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable +effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread +public domain works in creating the Project Gutenberg-tm +collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic +works, and the medium on which they may be stored, may contain +"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or +corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual +property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a +computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by +your equipment. + +1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right +of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project +Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project +Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all +liability to you for damages, costs and expenses, including legal +fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT +LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE +PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE +TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE +LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR +INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH +DAMAGE. + +1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a +defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can +receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a +written explanation to the person you received the work from. If you +received the work on a physical medium, you must return the medium with +your written explanation. The person or entity that provided you with +the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a +refund. If you received the work electronically, the person or entity +providing it to you may choose to give you a second opportunity to +receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy +is also defective, you may demand a refund in writing without further +opportunities to fix the problem. + +1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth +in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER +WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO +WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. + +1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied +warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages. +If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the +law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be +interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by +the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any +provision of this agreement shall not void the remaining provisions. + +1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit http://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including checks, online payments and credit card donations. +To donate, please visit: http://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/22826-8.zip b/22826-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..86c24f4 --- /dev/null +++ b/22826-8.zip diff --git a/22826-h.zip b/22826-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..946c585 --- /dev/null +++ b/22826-h.zip diff --git a/22826-h/22826-h.htm b/22826-h/22826-h.htm new file mode 100644 index 0000000..a6eeb30 --- /dev/null +++ b/22826-h/22826-h.htm @@ -0,0 +1,3532 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> + + + +<head> + <title>Chronica de El-Rei D. Affonso II</title> + + + <meta name="AUTHOR" content="Rui de Pina" /> + + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=ISO-8859-1" /> + + <style type="text/css"> +body {width: 50%; margin-left:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} +.signature { +font-style: italic; +text-align: right;} +.smallcaps {font-variant: small-caps;} +.quote { +margin-left: 5%; +font-style: italic;} +.pagenum { position: absolute; right: 35%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> +</head> + + + +<body> + + +<pre> + +Project Gutenberg's Chronica de El-Rey D. Affonso II, by Rui de Pina + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Chronica de El-Rey D. Affonso II + +Author: Rui de Pina + +Release Date: October 2, 2007 [EBook #22826] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICA DE EL-REY D. AFFONSO II *** + + + + +Produced by Manuela Alves and Rita Farinha (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal) + + + + + + +</pre> + + +<div> +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h3>BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES</h3> + +<h2>Proprietário e fundador--Mello d'Azevedo +</h2> + +<h1>(VOLUME LIII)</h1> + +<h1>CHRONICA DE EL-REI D. AFFONSO II</h1> + +<h1>POR</h1> + +<h1>RUY DE PINA</h1> + +<h2><em>ESCRIPTORIO</em><br /> + +147--Rua dos Retrozeiros--147</h2> + +<h2>LISBOA<br /> + +1906</h2> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"> +<div style="text-align: center;"><br /> + +<br /> + +CHRONICA<br /> + +<br /> + +DO MUITO ALTO, E MUITO ESCLARECIDO PRINCIPE<br /> + +<br /> + +D. AFFONSO II.<br /> + +<br /> + +TERCEIRO REY DE PORTUGAL,<br /> + +<br /> + +COMPOSTA<br /> + +<br /> + +POR RUY DE PINA,<br /> + +<br /> + +<br /> + +Fidalgo da Casa Real, e Chronista Môr do Reyno.<br /> + +<br /> + +<br /> + +FIELMENTE COPIADA DE SEU ORIGINAL,<br /> + +Que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo.<br /> + +<br /> + +<br /> + +OFFERECIDA<br /> + +<br /> + +Á MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREI<br /> + +<br /> + +D. JOAÕ V.<br /> + +<br /> + +NOSSO SENHOR<br /> + +<br /> + +POR MIGUEL LOPES FERREYRA<br /> + +<br /> + +<br /> + +LISBOA OCCIDENTAL.<br /> + +<br /> + +Na Officina FERREYRIANA.<br /> + +<br /> + +M.DCC.XXVII.<br /> + +<br /> + +<em>Com todas as licenças +necessarias</em>.<br /> + +<br /> + +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h1>SENHOR</h1> + +Ponho na Real presença de V. Magestade a Chronica do Senhor +Rei D. Affonso II que ainda que breve no volume, é larga na +qualidade dos successos. Nella verá V. Magestade que os seus +gloriosos +Predeccessores não cessaram em tempo algum do augmento dos +seus Estados, e +da Religião Christã pois a este fim vestiam as +armas, e tomavam a +lança com perigo das suas Reaes vidas, como o experimentou +este mesmo principe, vendo-se quasi suffocado na campanha. Aceite V. +Magestade este tributo do meu obsequio, que prostrado a seus Reaes +pés lhe deseja todas +aquellas felicidades, que só podem vir da mão de +Deos que +guarde a Real Pessoa de V. Magestade por muitos annos, como seus +vassallos lhe dezejamos.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="signature">Miguel +Lopes Ferreira.<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2> +AO EXCELLENTISSIMO SENHOR<br /> + +FERNÃO TELLES DA SILVA</h2> + +<br /> + +<div class="quote">Marquez de +Alegrete dos Concelhos de Estado, e Guerra del-Rei Nosso Senhor, Gentil +homem de +sua Camara, Védor de sua fazenda, seu Embaixador +extraordinario na +Corte de Vienna, ao Serenissimo Emperador José, +Condutor da Serenissima Rainha Nossa Senhora a estes Reinos, Academico, +e +Censor da Academia Real da Historia +Portuguesa, +&c.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +Terceira vez busco a V. Excellencia como protector, e amparo commum dos +que servem a Patria. A benignidade natural de V. Excellencia tem a +culpa desta repetição. Offereço a V. +Excellencia esta Chronica del-Rei D. Affonso II chamado vulgarmente o +<em>Gordo</em>, para que V. Excellencia se digne de a +pôr na Real presença de Sua Magestade. +Espero que lembrado V. Excellencia de já me haver feito duas +vezes este mesmo +beneficio, mo queira continuar agora, porque é certo que +suprirá a grandeza da Pessoa de V. Excellencia o que eu +não mereço. A +Excellentissima Pessoa de V. Excellencia guarde Deos muitos annos.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: right;">Criado de V. Excellencia<br /> + +<br /> + +<div class="signature">Miguel Lopes Ferreira.<br /> + +</div> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h1>PROLOGO AO LEITOR</h1> + +<br /> + +Não te admires vendo uma Chronica tão pequena de +um Rei tão grande. Em oito capitulos a deo por acabada o seu +Chronista, ou o reformador da sua Chronica antiga. Mas aqui +é que se ha de estimar o livro +pelo pezo, e não pelo volume. Verás nesta +Chronica o que podem +as paixões: verás o zelo da Religião +obrigando a um Principe a entrar na +campanha quando a sua demasiada corpulencia que lhe deo o nome <em>de +Gordo</em>, justamente o desobrigava de tão violento +exercicio; mas o augmento da +Fé o fazia esquecer des impedimentos da natureza. +Verás como no seu +tempo vieram miraculosamente para a Cidade de Coimbra as Reliquias dos +cinco Religiosos de São Francisco, que pela Fé +deram o +sangue em Marrocos, e verás como o mesmo Rei pessoalmente os +foi receber. +Lê, e não te mostres ingrato ao meu cuidado que +não cessa de procurar modos de +satisfazer á tua curiosidade, como brevemente o +verás. <br /> + +<br /> + +<div class="signature">Vale.<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h1>LICENÇAS DO SANTO OFFICIO</h1> + +<div class="quote">Approvação do +Reverendissimo +Padre Mestre D. Antonio Caetano de Souza, Clerigo Regular da +Divina Providencia, Qualificador do Santo Officio, e Academico do +Numero +da Academia Real da Historia Portugueza<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">EMINENTISSIMO SENHOR<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +Esta Chronica del-Rei D. Affonso II que V. Eminencia me manda ver, que +anda em nome de Ruy de Pina Chronista mór em tempo de El Rei +D. Manoel, e agora manda imprimir Miguel Lopes Ferreira, depois de +passados dous seculos, não contem cousa alguma contra a +nossa Santa +Fé, ou bons costumes. Não só esta +Chronica, mas todas as que +temos antigas desde El-Rei D. Affonso I e o Conde D. Henrique seu pai, +até +El-Rei D. Duarte, conforme +<span class="pagenum"><a id="Page_11" name="Page_11">[11]</a></span> +a observação que tem +feito os Eruditos +da nossa Historia, todas foram escritas por Fernão Lopes +primeiro Chronista +mór do Reino, que depois milhorou em estillo o dito Ruy de +Pina, e publicou em seu nome, com que agora se imprimiram, com a +licença de V. Eminencia, +a que não tenho duvida se lhe conceda. Lisboa Occidental na +Caza de N. Senhora da Divina Providencia, 8 de Março de 1726.<br /> + +<br /> + +<div class="signature">D. Antonio Caetano de Souza C. R.<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<div class="quote">Approvação do +Reverendissimo +Padre Mestre Fr. Vicente das Chagas, Religioso da Provincia de +Santo Antonio dos Capuchos, Lente Jubilado na Sagrada Theologia, +e Qualificador do Santo Officio, &c.</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">EMINENTISSIMO SENHOR<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +Li por ordem de V. Eminencia esta Chronica del-Rei D. Affonso o II. +Della consta só a discordia, que houve entre o dito Rei, e +suas irmãs, mas ainda assim (depois de obrigado) estudou +como se havia de concordar, como concordou, com ellas, sinal de ser Rei +sabio, e virtuoso; Sabio como diz Santo Ambrosio: «Lib. 2. de +Abraham c. 6. ante +medium col. 1013. B. Sapienti pacis, & concórdiae +est studium, +imprudenti amica jurgia»; e virtuoso como dá a +entender S. +João Chrysostomo «Homil. 45. ante a medi[~u] col. +373, D. Ubi concordia, ibi bonorum confluxus, ibi pax, ibi charitas, +ibi spiritualis laetitia nullum bellum, nulla rixa, nus quam +inimicitior, & contentio». Esta concordia, +paz, caridade, alegria espiritual, &c vemos por experiencia +neste nosso Reino +agora de prezente, mas como não ha de ser assim, se temos +por Rei o +Invitissimo, e Augustissimo Monarcha o Senhor D. João <span class="pagenum"><a id="Page_12" name="Page_12">[12]</a></span> +o V, +que Deos +guarde por muitos annos, de quem com muita propriedade se +póde dizer o que +lá disse Cicero (senão em tudo, em parte) +«Orat. 42. pro Rege +Dejotaro in princip. num. I. tom 2. Rex concors, pacificus, fortis, +justus, severus, gravis, magnanimus largus, beneficus, liberalis, +&c.» +Não tem a Chronica cousa contra a Fé, ou bons +costumes, e assim julgo que se +póde imprimir. Santo Antonio dos Capuchos, 21 de +Março de 1726.<br /> + +<br /> + +<div class="signature">Fr. Vicente das Chagas.<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +Vistas as informações, pode-se imprimir a +Chronica del-Rei D. Affonso II e depois de impressa tornará +para se conferir, e dar +licença que corra, sem a qual não +correrá. Lisboa Occidental, 22 de +Março de 1726.<br /> + +<br /> + +<div class="signature">Rocha, Fr. Lancastre. Teixeira. +Silva. +Cabedo.<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"> +<h2>DO ORDINARIO</h2> + +</div> + +<br /> + +<div class="quote">Approvação do +Reverendissimo +Padre Mestre D. José Barbosa Clerigo Regular da Divima +Providencia, +Examinador das Tres Ordens Militares, Chronista da +Serenissima Caza de Bragança, e Academico do Numero da +Academia Real da +Historia Portugueza</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">ILLUSTRISSIMO E +REVERENDISSIMO SENHOR<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +Por mandado de V. Illustrissima vi a Chronica del-Rei D. Affonso II que +escreveo Ruy de Pina, e nella não achei por onde se +não lhe deva dar a licença para se imprimir. V. +Illustrissima +ordenará o que for servido. Nesta Caza de N. Senhora da +Divina Providencia, 18 de Agosto de 1726.<br /> + +<br /> + +<div class="signature">D. José Barbosa C. R.<br /> + +</div> + +<br /> + +Vista a informação pode-se imprimir a Chronica de +que se trata, e depois de impressa tornará para se conferir, +e dar +licença que corra sem a qual não +correrá. Lisboa Occidental, 27 de Setembro de +1726.<br /> + +<br /> + +<div class="signature">D. J. A. L.<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>DO PAÇO</h2> + +<br /> + +<div class="quote">Approvação do +Reverendo +Beneficiado Diogo Barbosa Machado Presbytero do Habito de S. +Pedro, e Academico do Numero da Academia Real da Historia +Portugueza</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">SENHOR<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +Obedecendo ao Real preceito de V. Magestade, li a Chronica do +Serenissimo Rei D. Affonso II do nome, e terceiro Rei de Portugal, +composta por Ruy de Pina Chronista mór deste Reino, e Guarda +mór da Torre do Tombo, um dos mais deligentes Escritores, +que venerou a sua idade. Nella, como em pequeno mappa recopilou este +Author parte das heroicas acções, que exercitou +aquelle Principe,<span class="pagenum"><a id="Page_15" name="Page_15">[15]</a></span> +cujo coração foi sempre animado pelos espiritos +marciaes, que com a Coroa herdara de seus augustissimos Predecessores, +illustrando a sua Real purpura +não com o barbaro sangue Mauritano, derramado na famosa +conquista de Alcacere, como inferior á sua grandeza, mas com +aquelle que +sagradamente prodigos +verteram em obsequio da Religião sobre as aras do Martyrio +cinco heroicos Soldados nas adustas campanhas de Marrocos, que sendo +benevolamente hospedados em Coimbra, e Alemquer pela generosa piedade +da Rainha Dona Urraca, e da Ifanta Dona Sancha, uma Esposa, e outra +Irmã deste Monarcha, quizeram satisfazer aquella piedosa +hospitalidade com a posse das suas sagradas cinzas conduzidas ao Real +Convento de Santa Cruz de Coimbra pelo ferveroso zelo do Ifante D. +Pedro. Certamente agora recebe nova gloria, e maior esplendor o nome +não +só daquelle Principe, mas ainda do seu Chronista, pois se +faz publica, e patente aos olhos do mundo uma Historia, que ha mais de +dous Seculos estava occulta nos Archivos, e nas Bibliothecas, e ainda +que era conhecida por alguns eruditos, não tinha a fortuna +de lograr o beneficio da luz +publica eternizada nos caracteres da Impressão mais +perduraveis, que +aquelles, que a vaidade dos homens abrio nos marmores, e esculpio nos +bronzes. Desta tão grande, e tão heroica +felicidade o +unico, e Soberano Author é V. Magestade, pois com a +altissima providencia, com que criou a Academia da Historia Portugueza +intruduzio nova vida no corpo historico desta Monarchia, que jazia +sepultado nas injuriosas cinzas do esquecimento. Erigio um Capitolio +litterario para nelle se coroarem os +Varões benemeritos da immortalidade. Abrio uma douta +Officina para se lavrarem as Estatuas aos Heroes Portuguezes. Correo as +cortinas ao veneravel Santuario das antiguidades <span class="pagenum"><a id="Page_16" name="Page_16">[16]</a></span> +Ecclisiasticas desta +Coroa. Descobrio os thesouros da erudição +Historica +atégora fechados á perspicacia de muitos +engenhos. Declarou formidavel guerra ao Imperio da ignorancia, e fez +communicavel a todo o genero de pessoas o comercio das Letras. Toda +esta gloria estava mysteriosamente reservada para o feliz reinado de V. +Magestade, pois não lhe bastando para complemento da sua +Real grandeza o suave dominio, que tem nos +corações de seus +vassallos, o quiz tambem dilatar aos entendimentos, como parte mais +nobre, e superior de todo o homem. Animados com os generosos alentos, +com que V. Magestade inspira, e protege as Sciencias, são +innumeraveis os Escritores, que +com judiciosa critica, e vastissima erudição tem +publicado os partos de seus fecundos engenhos, não sendo +inferior a estes a zeloza +diligencia com que Miguel Lopes Ferreira se empenhou em obsequio deste +Reino a mandar +imprimir as Chronicas dos Reaes Predecessores de V. Magestade das quaes +é esta a Terceira, sendo egualmente digno da +attenção de V. Magestade o seu zelo com que +pretende eternizar as glorias desta Monarchia, como benemerito da +licença este livro pelo nome de seu author. V. +Magestade ordenará o que for servido. Lisboa Occidental 20 +de +Março de 1727.<br /> + +<br /> + +<div class="signature">Diogo Barbosa Machado.<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +Que se possa imprimir, vistas as licenças do Santo Officio, +e Ordinario, e depois de impressa torne á meza para se +conferir, e taxar, +e dar licença que corra, sem a qual não +correrá. Lisboa Occidental 5 de Junho de 1727.<br /> + +<br /> + +<div class="signature">Marques P. Pereira. +Galvão. Oliveira. +Teixeira Bonicho<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a id="Page_17" name="Page_17">[17]</a></span> +<h2><em>Coronica do muito alto, e esclarecido Principe D. +Affonso II, terceiro</em></h2> + +<h2><em>Rei de Portugal</em></h2> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h1><a name="CAPITULO_I"></a>CAPITULO I</h1> + +<div class="quote">Como o +Ifante Dom Affonso foi alevantado por Rei e como foi +cazado, e com quem, e que +filhos legitimos houve</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">El-Rei</span> Dom Sancho de +louvada memoria deste nome o primeiro, e dos Reis de Portugal o +segundo, faleceo em Coimbra na era de N. Senhor de mil e +duzentos e doze; (1212) o Principe Dom Affonso como primogenito, e +herdeiro foi logo alevantado, e obedecido por Rei, em idade de vinte e +cinco annos, havendo já quatro annos que era cazado com a +Rainha Dona Orraca filha legitima del-Rei Dom Affonso deste nome e +noveno de Castella, e neste tempo sendo Ifante, depois que sua idade o +premitio, e em Reinando El-Rei Dom Sancho seu padre, foi com elle em +muitas cousas notaveis, e grandes feitos darmas, que naquelles tempos +concorreram, em que por <span class="pagenum"><a id="Page_18" name="Page_18">[18]</a></span> +seu corpo, e braço assi o fez sempre +como bom, e +esforçado Cavalleiro, que bem pareceo ser filho, e neto do +pai de que descendia, e para claramente se ver que a Real Caza de +Portugal dantigamente foi liada, e conjunta em sangue com todas as +Cazas de todos os Reis, e Principes Christãos, é +de saber, que El-Rei Dom +Affonso noveno de Castella, sogro deste Rei Dom Affonso de Portugal foi +cazado com a Rainha Dona Lianor filha del-Rei Dom Anrique Dinglaterra, +e della houve dous filhos, e cinco filhas; todos legitimos, a saber, +dous filhos o Ifante Dom Fernando primeiro, e herdeiro, que em idade de +dezaseis annos sem ser cazado faleceo em vida de seu pai antes um pouco +da batalha das Naves de Tolosa, e o Ifante Dom Anrique, que apoz elle +depois de sua morte o soccedeo, e sem leixar herdeiro, que o soccedesse +faleceo mui moço, como atraz na Coronica del-Rei D. Sancho +é +declarado, e das cinco filhas que houve uma foi a Ifanta Dona +Constança primeira +Senhora do Moesteiro das Holgas de Burgos, que El-Rei seu padre +novamente fundou, onde ella falleceo sem cazar, e as outras quatro +filhas foram Rainhas, a saber, a Rainha Dona Branca, filha maior, que +cazou com El-Rei Luis de França, filho del-Rei Felippe, o +que disseram Augusto, e +houveram herdeiro de França El-Rei São Luis, e +outros +filhos, e a segunda Rainha, foi Dona Lianor, que foi cazada com El-Rei +Dom James, deste nome o primeiro Rei de Aragão, de que houve +filho o Ifante D. +Affonso, que faleceo moço, e não Reinou, e a +terceira filha +foi a Rainha Dona Biringela mulher del-Rei Dom Affonso de +Lião de que houve +filhos El-Rei Dom Fernando Rei de Castella, e de Lião, que +dizem o Santo, +e o que ganhou dos Mouros Cordova, e Sevilha, e muita parte Dandaluzia, +e o Ifante Dom Affonso de Molina, como na Coronica<span class="pagenum"><a id="Page_19" name="Page_19">[19]</a></span> +del-Rei Dom Sancho +brevemente se disse, e na Coronica de Castella mais largamente se +contem.<br /> + +<br /> + +E a quarta filha foi a Rainha Dona Orraca molher deste Rei Dom Affonso +de Portugal de que houveram dous filhos, e uma filha a saber, o Ifante +D. Sancho o que disseram o Capello, que a poz elle logo Reinou, e o +Ifante Dom Affonso que foi Conde de Bolonha em França, que +apoz Dom Sancho por não ter legitimo herdeiro tambem Reinou +em +Portugal, e o Ifante Dom Fernando, que se disse Ifante de Serpa, e +segundo se brevemente acha, este cazou em Castella com Sancha +Fernandes, filha de Dom Fernando, de que houve uma filha chamada Dona +Lianor, que foi +depois cazada com El-Rei de Dacia, e lá faleceo sem filhos, +e houve +mais o dito Rei Dom Affonso da Rainha Dona Orraca sua molher a Ifanta +Dona Lianor, que cazou com o filho herdeiro del-Rei de Dinamarca, que +depois da morte de seu padre herdou o Reino, mas quando, e como, e por +quem estes Ifantes Dom Fernando, e Dona Lianor cazaram, não +se acha +escrito, somente parece que segundo o pouco tempo que El-Rei Dom +Affonso seu padre viveo, que elles cazaram depois de sua morte, e por +aderencias das Cazas Reaes de França, e Dinglaterra, com que +por sangue +eram mui conjuntos.<br /> + +<br /> + +E não dou muita fé, nem authoridade ao que destas +Rainhas Dona Orraca de Portugal, e Dona Branca de França +vulgarmente se diz, e +alguns escreveram, que os Embaixadores del-Rei de França, e +del-Rei +de Portugal, que juntamente vieram a Castella a requerer cazamentos +destas Rainhas filhas del-Rei Dom Affonso, que os de França +quizeram antes a Dona Branca, posto que era mais moça, e de +menos estima, e +leixaram a Portugal Dona Orraca por ser nome feo, para +França, por que +isto tem duas grandes<span class="pagenum"><a id="Page_20" name="Page_20">[20]</a></span> +contradições, a primeira +que a +Rainha Dona Branca não era a mais moça, mas a +mais velha, e nas contendas, que depois +houve antre os Reis de França, e Castella, sobre +socessão de +Castella, que vinha de filhas, e não de filhos, se prova +isto muito craro, porque +El-Rei São Luis de França pertendia ter direito +em Castella, por ser +filho da Rainha Dona Branca, filha maior del-Rei Dom Affonso noveno, e +queria excludir a El-Rei D. Affonso deste nome o decimo de Castella, +filho del-Rei Dom Fernando, neto da Rainha Dona Biringela, por ser +filha menor del-Rei D. Affonso noveno, e se a Rainha Dona Orraca fora +filha maior, este direito pertencia a El-Rei Dom Sancho Capelo, e a +El-Rei D. Affonso Conde de Bolonha, Reis de Portugal, e filhos da dita +Rainha Dona Orraca, o que não foi, e a segunda +contradição +é que este nome Dona Orraca era nome a Rainhas mui +costumado, e de muita estima, e tal de que se muitas honraram, e +leixando outras muitas, estas que me aqui occorrem apontarei, a +mãi do Emperador Despanha D. Affonso deste nome +o outavo de Castella, e molher do Conde Dom Reymão de Tolosa +havia nome +Dona Orraca, que foi a Rainha Despanha, e a Rainha de Lião, +molher +del-Rei Dom Fernando, e filha del-Rei Dom Affonso Anriques, tambem +havia nome Dona Orraca, que foi Princeza mui singular, e a molher de +Dom +Reymão Conde de Barcelona, e Rei de Aragão, que +era da Caza, e Reino de +França, que no mesmo Reino havia nome Dona Prona, e mudou o +nome, escolhendo outro por milhor, se chamou Dona Orraca, e desta veo +D. Affonso deste nome o segundo Rei Daragão, e a Rainha Dona +Doce molher del-Rei D. +Sancho de Portugal, de que em sua Coronica se disse.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a id="Page_21" name="Page_21">[21]</a></span> +<h1><a name="CAPITULO_II"></a>CAPITULO II</h1> + +<div class="quote">Das +desavenças que houve antre El-Rei D. Affonso, e as Ifantes +suas irmãs, e da +guerra que sobre esso se moveo</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">No</span> primeiro anno do +Reinado deste Rei Dom Affonso de Portugal, era o +prazo da batalha das Naves de Toloza, que El-Rei Dom Affonso seu sogro +tinha posto com Mirabolim de Marrocos, filho de outro Mirabolim, que +fora vencedor na outra batalha Delharcos, para que o Papa concedeo +geral Cruzada, que o Ifante D. Fernando primogenito herdeiro do dito +Rei D. Affonso em pessoa foi pedir, e trouxe de Roma, e logo faleceo, +como +já disse, e por ganharem os perdões, e +remissões de +peccados grandes outros Senhores, e outras muitas e nobres gentes de +toda Christandade vieram a esta batalha em pessoas á qual +não se acha, que +fosse em pessoa este Rei Dom Affonso de Portugal, mas que enviou gentes +suas, e a cauza delle +não ir em pessoa, diz, que foi porque neste proprio anno +começou +de Reinar em Portugal, e assi por boliços, e desassocegos +que dantre +elle, e suas irmãs se moveram, como ao diante se +dirá. E este +Rei Dom Affonso de Castella ao tempo desta batalha era de cincoenta e +seis annos, e no anno seguinte tendo Cortes em Burgos, se diz que +mandou a ellas chamar a este Rei de Portugal seu genro, ás +quaes elle não quiz +ir, e elle anojado desso, determinou fazer-lhe guerra, e tomar-lhe os +Reinos se podesse, e que com este fundamento indo para +Prazença adoeceo no termo +de Revaldo em uma Aldea, que se diz Martim Manhos, e ahi faleceo, e foi +dahi levado, e sepultado no Moesteiro<span class="pagenum"><a id="Page_22" name="Page_22">[22]</a></span> +das Holgas de Burgos, que elle +novamente fundou, e outros dizem que vinha para se ver no extremo de +Portugal com seu genro para o aconselhar em suas couzas, e debates em +que andava, com suas irmãs, e que todavia faleceo no dito +lugar, porque tambem este Rei Dom Affonso de Portugal logo como Reinou +não +lhe faleceram grandes necessidades, e afrontas de +excommunhões +do Papa, e de guerras, e desavenças que houve com suas +irmãs a +Rainha Dona Tareja, molher que fora del-Rei Dom Affonso de +Lião, e da Ifante +Dona Sancha, de que a cauza brevemente foi esta.<br /> + +<br /> + +El-Rei Dom Sancho, como em sua Coronica disse, leixou em seu testamento +á Rainha Dona Tareja, sua filha, que fora cazada com o dito +Rei Dom Affonso de Lião, a Villa de Monte mór o +Velho, e +Esgueira, e mais dez mil maravedis douro, e certa prata, e que se ella +morresse, que houvesse estes Lugares a Ifante Dona Branca sua +irmã della, e leixou +á Ifante Dona Sancha a Villa Dalanquer, e dez mil maravedis +douro, e tambem prata, e que se ella falecesse, que houvesse a Villa a +Ifante Biringela sua irmã, das quaes Villas, e cousas ellas +houveram a posse, +e as tinham; mas El-Rei Dom Affonso seu irmão em caso que +fosse +contra seu juramento, e menagem, não quiz estar inteiramente +pelo +testamento del-Rei seu padre, antes como Reinou logo pedio as ditas +Villas, e Fortalezas a suas irmãs, dizendo: «Que +El Rei seu +padre lhas não podia dar, que era em mui grande +diminuição do Reino, e +que era sobresso concedido privilegio do Papa Alexandre Terceiro, por o +qual as cousas do Reino senão podiam dar a alguma pessoa nem +emlhear, e que +assás lhe leixara a ellas nos maravedis douro, e prata de +seu testamento com outras cousas, que tinham de suas fazendas.<br /> + +<br /> + +E sobre este requerimento El-Rei, e a Rainha, e as <span class="pagenum"><a id="Page_23" name="Page_23">[23]</a></span> +Ifantes suas +irmãs por lhe darem reposta, pediram dias de +liberação, +dentro dos quais ellas se recolheram logo com a Ifante Dona Branca sua +irmã ao +Castello de Monte mór, e o basteceram, e fortalezaram, e +deshi se +emviaram logo aggravar ao Papa Innocencio III que ficára por +executor do +testamento del-Rei seu pai, e por esso lhe leixou o dito Rei D. Sancho +seu pai cem marcos douro, e assi o fizeram ellas mais saber ao dito Rei +de +Lião com que a dita Rainha Dona Tareja fora cazada, e era +apartada delle pela Egreja, de que houveram logo ajuda, e soccorro, a +que por seu mandado veo logo o Ifante Dom Pedro seu irmão +dellas filho del-Rei +Dom Sancho o que depois passou a Marrocos, e trouxe aos ossos dos +Martyres, e assi veio ao dito soccorro, e ajuda o Ifante Dom Fernando +filho da dita Rainha Dona Tareja, e del-Rei Dom Affonso de +Lião, e assi +veo em sua companhia Dom Pedro Fernandes de Castro o +Castellão, aquelle +que em companhia dos Mouros foi prezo em Portugal, e logo solto, e +depois passou, e morreo em Marrocos, e com alle veo muita gente, que +foi nos estremos de Portugal, donde enviaram ás ditas +Villas, e +Fortalezas de Monte mór, e Alanquer aquella que comprio para +defenção dos Castellos, e para resistencia +del-Rei Dom Affonso de Portugal, o qual por sentir muito o insulto +tamanho dos estranhos, e tão grande +desobediencia dos seus naturaes, veo logo á dita Villa de +Monte +mór, e por algumas vezes requereo a suas irmãs, e +principalmente a Dona Tareja, cuja +era, que houvesse por bem de desistir de seu alevantamento, e quizesse +que o Castello se entregasse a algum homem de que ambos se confiassem +para o ter em boa guarda, e fieldade, e que de sua fazenda delle lhe +faria dar todas dispezas, e mantimentos para esso necessarios, e que +este arrecadasse inteiramente para ella todas as <span class="pagenum"><a id="Page_24" name="Page_24">[24]</a></span> +rendas, e direitos da +Villa, mas que as menagens fossem feitas a elle, o que ella nunca quiz +fazer, antes se diz que consentio, que os de dentro em desprezo, e por +injuria del-Rei seu irmão calando o nome do Reino, e del-Rei +de +Portugal a que deveram acatar, e obededer, envocaram, e chamaram o nome +de +Lião, que repetiam muitas vezes, e que outro tanto mandou +fazer a Ifante Dona Sancha no Castello Dalanquer, e por tanto El-Rei +temendo perder os ditos Castellos os mandou cercar, e combater, e com a +gente do cerco, que sobreveo se seguiram nelles, e em seus termos pela +condição da guerra muitas mortes, e danos de uma +parte, e da outra, pelo qual os Ifantes, e Senhores, que com a gente do +Reino de Lião, que disse +entráram em Portugal tomáram Valença +do Minho, e +Melgaço, Algozo, e Freixo, e outros Lugares chãos +que roubaram, e queimaram, em que fizeram muto +mal.<br /> + +<h1><a name="CAPITULO_III"></a>CAPITULO III</h1> + +<div class="quote">Como foi +pelo Papa procedido contra El-Rei D. Affonso por causa da +contenda que havia com suas +irmãs, e como finalmente foram +concordados</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">E</span> sobre esso para +mais tormento del-Rei Dom Affonso de Portugal vieram +de Roma por juizes Delegados do Papa a requerimento das Ifantes o +Arcebispo de Santiago, e o Bispo de Çamora, que por El-Rei +de Portugal +ir contra o testamento del-Rei seu padre, e por não desistir +do cerco, que tinha posto aos Castellos de Monte mór, e +Alanquer, +excommungou sua pessoa, e pozeram entredicto geral em todo o Reino, +exceituaram +sómente as ditas <span class="pagenum"><a id="Page_25" name="Page_25">[25]</a></span> +Ifantes, e seus sequazes, e servidores, +sobre o qual El-Rei Dom Affonso com rezões, e cousas que +achou, e lhe aconselharam +de sua justiça se enviou destes procedimentos querelar, e +aggravar +ao Papa, e pedir emenda del-Rei de Lião, e dos que tinham as +Villas, e +Castellos de seus reinos forçados, e nelles feitos muitos +danos, alegando +sobre esso a pouca justiça que suas irmãs tinham +nas Villas, +e Castellos de seu Reino, com que se levantáram, e dando +outras +rezões, porque entendia ser relevado da culpa que lhe dava +dizendo por sua escuza, que o +não obrigava o juramento, e menagens, que fizera de comprir +o testamento del-Rei Dom Sancho seu padre, porque o fizera +forçado, e por +não ser deserdado do Reino, e mais que a esse tempo seu pai +não +estava em todo seu sizo, e entender verdadeiro, pois tanto contra +justiça +fizera tamanho enlheamento das cousas do Reino, que não +podia fazer.<br /> + +<br /> + +E o Papa por seu respeito cometeu este negocio aos Abbades Despina, e +Vicarria, que fez Juizes Commissairos, os quais vieram a Coimbra onde +sobre segurança já praticada, e antre todos +concordada, foram tambem juntos El-Rei Dom Affonso, e suas +irmãs em pessoas a que os +Juizes deram solene juramento porque prometeram estarem todos +á +obediencia, e detreminação de todo o que elles em +nome do Papa +ácerca de seus negocios detreminassem, e mandassem, e por +este juramento, e promessa que se fez El-Rei, e os seus foram da +excommunhão ausolutos, e +alevantado o antredicto do Reino. Os Commissairos pozeram antre elles +treguas, e seguridade, que todos prometeram guardar, até o +Papa +finalmente detreminar suas contendas, e debates, e algumas +condições das tregoas principaes, eram que os de +uma parte, e da outra podessem livremente andar, e tratar por as terras<span class="pagenum"><a id="Page_26" name="Page_26">[26]</a></span> +chans uns dos outros, mas que nas Villas, e Castellos cercados +não entrassem sem licença +dos Senhores dellas, e que tudo podessem, uns e outros comprar, e +vender salvo armas, e cavallos, e que ellas Ifantes em algum seu Lugar +de Portugal +não podessem mandar lavrar moeda douro, prata, nem dalgum +metal, que quatro Cavalleiros principais da parte del-Rei jurassem que +se El-Rei +não guardasse as tregoas que cada um delles com cinco +Cavalleiros mais servissem as Ifantes contra El-Rei e cada uma das +Ifantes +désse outros tantos por si, que com esta +condição servissem a +El-Rei contra ellas, e mais que El-Rei désse cem homens +cazados, e honrados de +Coimbra, e que todos lhe fizessem, e pagassem foro, e outros cento +semelhantes de Santarem, que jurassem todos fazer sempre comprir esta +tregoa, e que +não a comprindo El-Rei, que servissem ás Ifantes +contra El-Rei, +e que ellas por sua parte déssem outros taes, a saber: cento +Dalanquer, +e cento de Monte mór, para que se ellas não +comprissem a +tregoa, que servissem a El-Rei contra ellas, e que neste tempo uns, e +outros, não +cercassem Villas, nem Castellos, nem se fizesse algum mal, sopena de +excomunhão, e antredicto, em que elles, e todos los +ajudadores, e favorecedores ipso facto encorressem, e com mandado +estreito aos Prelados do Reino, que a cada um assi como lhes tocasse as +sentenças dos ditos +alegados fizessem inteiramente comprir, e executar até o +Papa finalmente as +aprovar, ou emendar como fosse justiça.<br /> + +<br /> + +Esta tregoa, se fez em Coimbra na era de nosso Senhor de mil e duzentos +e quatorze annos, (1214) dous annos depois que El-Rei +começou a Reinar, e logo ahi se fulminou e principiou +processo em que a Rainha, e a Ifante cada uma per si segundo os danos +que del-Rei seu irmão +tinham recebidos, e pelas injurias, e males, <span class="pagenum"><a id="Page_27" name="Page_27">[27]</a></span> +que no cerco padeceram, +pediam contra elle restituição, e assi +segurança perpetua +de suas Villas, e Castellos, e gram soma de maravedis, que naquelle +tempo era moeda douro assi geral, e praticada como neste agora +são na Europa os cruzados, e +ducados, porque sessenta delles faziam um marco douro, como +já em outras +partes tenho dito, e ás petições das +ditas +Senhoras, veo El-Rei por seu procurador com +exceições, e contrariedades, e +compensações sobre que de uma parte, e da outra +foi dito, e assás alegado, e sobre seus alegados +foi o feito concruzo, e os Juizes remeteram a +publicação da +final sentença para Melgaço, Castello de Portugal +no extremo de Galiza, a que +mandaram que El-Rei, e as Ifantes fossem por si, ou por seus +procuradores, onde no Maio seguinte a publicaram, e foi El-Rei +condenado por a dita +sentença em grande soma de dinheiro, e doutras emendas, e +depois que passou o termo para a paga, assinado, pozeram em El-Rei +sentença +Dexcommunhão, e assi antredito em todo o Reino, de que logo +apelou, e depois de muitos debates, e delongas, que em Roma, e Espanha +sobre este caso passaram, que não fazem a realidade da +Estoria, finalmente El-Rei, e +as irmãs se concordaram por maneira, que as Villas de Monte +mór, e +Alanquer ficaram com ellas segundo a disposição +do testamento +del-Rei Dom Sancho seu pai, e as Villas e Castellos, e terras de +Portugal, que El-Rei de +Lião tinha tomadas foram entregues, e restituidas a El-Rei +Dom Affonso. No qual meio tempo que durou esta divisão, e +discordia uns e os +outros fizeram grandes, e danosas entradas, e muitos roubos nos Reinos, +uns dos outros, em que houve pelejas particulares sem alguma +façanha de +notar, cuja longa, e expressa declaração +não ponho +ora; porque para a sustancia da Estoria não é +muito necessaria.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a id="Page_28" name="Page_28">[28]</a></span> +<h1><a name="CAPITULO_IV"></a>CAPITULO IV</h1> + +<div class="quote">Do +fundamento que houve para Alcacere do Sal, que era de Mouros, +ser cercado, e tomado dos +Christãos, e do Bispo de Lisboa +principalmente</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Nos</span> primeiros cinco +annos que El-Rei Dom Affonso Reinou não +se acha, que +socedessem outras cousas, salvo as desavenças, e desacordos +em que andou +com suas irmãs, e irmãos e assi a guerra com +El-Rei de Lião, e com suas +genetes como já disse, e passados os ditos cinco annos, e +andando a era +de nosso Senhor em mil e duzentos e dezasete annos os +Christãos, que estavam na conquista dultra már +por +defenção, e recobramento da Terra Santa, tinham +muitas necessidades de concorrer ás cruas +guerras, e cercos apertados, que dos Infieis padeciam, para o que os +Summos Pontifice convocavam, e requeriam todolos fieis +Christãos de +todalas nações, e vindo por mar a este soccorro +muitas +gentes Dalemães, e Framengos, e outras de contra o Norte +fizeram todos uma frota de cento e cincoenta naos de que eram +Capitães principaes Iliquino, +Conde Dolanda, e Georgeo, Conde de Frisa, com que iam outros Senhores, +e grandes homens, e sendo em mar, em través de Portugal para +demandarem o estreito de Cibraltar deu na frota tão grande, +e tão +contraria tromenta, que algumas naos dellas se perderam, e outras +correram ao Cabo de S. Vicente até a Villa de +Farão, a qual com toda a Comarca, +e Reino do Algarve ainda eram Mouros, e porque o vento contrairo, e +assi a terra de imigos, em que estavam, não lhes +traçavam bem para sua +segurança, elles para dos danos, e perdas recebidas se +poderem milhor repairar<span class="pagenum"><a id="Page_29" name="Page_29">[29]</a></span> +fizeram volta, com fundamento de se virem ao +porto de Lisboa.<br /> + +<br /> + +Sendo outra vez em mar, deu nelles outra tromenta mais aspera, e de +maior perigo que a primeira, em que já tambem perderam +algumas naos com toda a gente que nellas vinha, e a outra frota depois +que a tromenta cessou, e sobreveo bom vento de viagem, entrou toda via, +e veo surgir ante a Cidade de Lisboa, e os Capitães della +assás tristes, e anojados, pelas grandes perdas de gentes, e +doutras cousas, que no mar tinham perdidas, e sahindo logo +Capitães com pouca gente em terra, +o Bispo, que então era de Lisboa chamado Dom Matheus, +sabendo que eram +Christãos os recebeo, e tratou com muita honra, e bom +acolhimento, segundo a bondade de uns, e as necessidades dos outros +requeria, de que o Bispo logo soube o proposito com que vinham, que era +por soccorro, e ajuda da Caza Santa. E dahi a poucos dias este Bispo de +Lisboa porque era Prelado de mui bom espirito, e grande +coração, depois de ter juntos +com seus rogos, e boa humanidade os principaes destes Estrangeiros lhe +disse.<br /> + +<br /> + +«Honrados, e devotos Senhores, Deos sabe que a mim peza muito +de todolos nojos infortunios, que passastes, e o remedio por agora +não +é outro<br /> + +salvo paciencia do passado, e esforço, e bom +coração para o que mais vier, vós +vedes bem, quanto vos é contrairo o +tempo para seguirdes vossa proposta viagem, e desto por vossos Pilotos, +e mariantes podeis ser milhor certificados, póde ser, e eu +assi o creo, que Deos o +premite assi para alguma cousa de seu louvor, e serviço, e +tambem de +nossas honras, e proveito, e esto digo porque aqui junto ha um Castello +em poder de Mouros, que dizem Alcacere, de que esta terra toda que +é de +Christãos recebe muito dano; se vos prouver <span class="pagenum"><a id="Page_30" name="Page_30">[30]</a></span> +pois este feito, +não +é estranho doutros, que emprendestes, e a que his ajudarnos +nelle, assi como vejo que podeis fazer, e com vossa gente, e ajuda de +Deos principalmente, o ganharemos dos infieis, e pois a obra, e o +serviço +é de Deos, elle por sua grandeza, e piedade vos +dará delle bom +galardão, e nestas cousas sómente que tocam a +vossa honra, e +salvação, aconselhai-vos com sizo, e com a +devoção, e não com a vontade +carnal, porque assás de vergonhosa cousa será +publicardes pelas bocas bom dezejo para o servir, +e as obras, que são tão possiveis serem disso +contrairas, e +pois o lugar, e tempo se offerecem agora tão despostos +rogo-vos que elles +não vos passem com ociosidade, ca bem creo, que bem sabeis +que ella é +fundamento de todolos peccados, e sepultura dos homens vivos, e +corrução de todolos costumes, e propositos +virtuosos, e pois em vossos sobre sinaes que trazeis mostraes serdes +devotos, e servidores da Cruz, assi tambem é +rezão que sejais imigos dos imigos della, e vossas +mãos fortes deem +agora verdadeiro testemunho da bondade, e fé de vossos +corações, e esta tomada de Alcacere, para que vos +convido, e requeiro, será com a +graça de Deos assás possivel, se vós +com vossas pessoas, e +frota quizerdes ajudar a nós, que com outra gente do Reino +vos seremos em todo fieis, +e bons companheiros.»<br /> + +<br /> + +Estas palavras, e outras muitas a estas conformes disse o Bispo aos +Estrangeiros, alguns dos quais depois de haverem antre si seu acordo, e +conselho tiveram oppinião contraira, e se partiram, e +outros, que foram os mais consentiram na +proposição, e requerimento +do Bispo, e lhes aprouve ser na ida sobre Alcacere.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a id="Page_31" name="Page_31">[31]</a></span> +<h1><a name="CAPITULO_V"></a>CAPITULO V</h1> + +<div class="quote">Como +Alcacere foi cercado, e com que numero de gente Portuguezes e +tambem +Estrangeiros</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Aquelles</span> Estrangeiros +que foram dacordo com os Portuguezes de irem +sobre Alcacere se recolheram logo ás suas naos, e sendo +aparelhados do que lhes compria no mez de Setembro, se foram, e +seguiram a barra de Setuvel, que neste tempo era Lugar pequeno, e +não era +cercado, em que pescadores sómente viviam, e da gente de +Portugal se acha +que foram estes Capitães principaes, a saber este Dom +Mateus, Bispo de +Lisboa, e Dom Pedro Mestre da Ordem da Cavallaria do Templo, e Dom +Mestre +Gonçalo, Prior do Esprital, e Martim Barregam, Commendador +de Palmella, e estes levaram comsigo da terra, Comarca de Lisboa, e de +Evora, e de seus termos vinte mil homens, de que os mais eram de +pé, e alguns +de Cavallo, e não se acha que El-Rei Dom Affonso, que +então +Reinava em Portugal, fosse neste exercito em pessoa no qual tempo +parece que elle deveria ser doente, ou empedido por alguma outra +urgente causa, porque +não pôde ser neste feito, e haveria por bem, e +mandaria que se fizesse prestes, como se fez, ca não +é de crer, tamanho feito sem seu +mandado, e authoridade se cometesse, e o que se neste caso achou, +é que os +Estrangeiros em navios, que poderam ir, foram de Setuvel pelo rio acima +até +junto Dalcacere, onde saindo alguns para tomar uvas, os Mouros, que da +sua ida eram já bem avizados, com armas lhe foram resistir, +em que +houve algum acometimento de peleja, de que um Mouro se diz que ficou<span class="pagenum"><a id="Page_32" name="Page_32">[32]</a></span> +morto, e os outros se recolheram ao Castello, e os Estrangeiros +surgindo com seus navios mais ávante poseram defronte da +Villa suas pranchas, +e sem resistencia sairam em terra, e logo elles, e os Portuguezes que +já tambem eram chegados, juntos com devida deligencia e +resguardo cercaram o Castello de maneira que alguma pessoa +não podia sair, nem +entrar sem conhecido perigo; mas os Mouros posto que com tanta +estreiteza se vissem cercados não mostravam ter por esso +desmaio, nem temor, +vendo que o Castello em que estavam era de muros, Torres, barreiras, e +a cava mui forte, e bem provido, e acalcado de muitas gentes, e armas, +e mantimentos para grandes tempos, e por milhor seneficança +aos de fora de seu esforço, e confiança, poseram +muitas +bandeiras por cima do muro de que em sinal de desprezo diziam feas +palavras, e davam suas costumadas gritas.<br /> + +<br /> + +E os Christãos leixaram boa guarda sobre sua frota, que com +gentes, e armas ficou no porto bem segura, e sobre esso uns, e outros +fizeram logo combater o Castello, e vendo que pela larga, e alta cava +com que o muro era em torno valado não poderam bem chegar +aos muros, e +cortaram tantas arvores de fruito, e juntaram tanto outro mato que +sendo igual a cava com a terra de fóra podessem mais sem +trabalho chegar aos +muros, mas os Mouros aconselhados das necessidades e perigos em que se +viam, +lançaram de cima tanto fogo, com tantas cousas temperado, +que a lenha da cava ardeo logo toda, por cujo impedimento leixaram logo +de combater, e apoz esto ordenaram os Christãos um engenho +para com pedras +destroirem o muro, mas sua fortaleza de dentro era tal, que dos seixos +de +fóra lhe dava muito pouco, pelo qual tornáram a +lançar +tanta lenha na cava, com que foi chea, e tal guarda se poz, que +não foi dos Mouros<span class="pagenum"><a id="Page_33" name="Page_33">[33]</a></span> +queimada como elles logo tentaram, por cima da qual os +Christãos chegados +ao muro deram um combate a que os Mouros com seu grande +esforço, e +muitas armas resistiram de tal maneira, que afastaram os +Christãos dos +muros, em que de uma parte, e da outra houve assás mortos e +feridos.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h1><a name="CAPITULO_VI"></a>CAPITULO VI</h1> + +<div class="quote">Dos Reis +Mouros que vieram por soccorro da Villa de Alcacere, e da +primeira batalha que deram, em +que foram victoriosos</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Os</span> +Christãos, que tinham cercado Alcacere, e os Mouros que +nelle eram cercados tinham antre si diversos pensamentos, ca uns +consultavam engenhos para brevemente tomar, e os outros artificios para +se delles pefender, e tambem não leixavam de buscar, e +consultar +conselhos, e remedios para com soccorro serem descercados, sobre que +tinham feitos seus avizos a quatro Reis Mouros, que eram na Espanha, a +saber El-Rei de Sevilha, El-Rei de Cordova, El-Rei de Jaem, e El-Rei de +Badalhouse, os quaes para este soccorro, e descerco foram pôr +seu arraial ao +lugar que chamam Sitymos, que é uma legoa Dalcacere, de cuja +vinda +sendo os Christãos logo sabedores foram postos em temeroso +pensamento. E não era sem causa, segundo verdadeira +certidão que houveram, ca +traziam comsigo por terra quinze mil de Cavallo, e oitenta mil de +pé, e pelo +mar dez<br /> + +Galés bem remadas, e aparelhadas.<br /> + +<br /> + +Mas aquelle alto Deos, que sobre todos tem o poder, não quiz +em tanto perigo e necessidade desemparar <span class="pagenum"><a id="Page_34" name="Page_34">[34]</a></span> +os Christãos, que +por sua +fé emprenderam, sostinham esta demanda, porque por uma sua +permissão piadosa arribaram a este porto, tambem na paragem +de Setuvel trinta e seis naos de uma Cidade que dizem Trageito, com +gentes +Christãs, nobres, e de bom esforço, que iam +áquella Conquista +dultramar, que disse, os quaes em suas bandeiras traziam sinaes de S. +Martinho, porque a +jurdição daquella terra donde vinham era do Bispo +daquella Cidade; da frota era Capitão mór Dom +Anrique de Nehusa, o qual +leixando suas naos com aquella segurança e resguardo de +gente que compria, elle com a outra +em bateis, e navios piquenos se foi ao arraial de Alcacere, onde dos +Christãos foram com muita alegria de grandes louvores +recebidos, e todos logo acordaram de valar o arraial em torno com valos +altos e fortes para resistencia dos Reis Mouros, que vinham, e aqui se +diz, que alguns Estrangeiros da primeira frota aconselhavam e requeriam +aos outros da sua companhia, que se partissem em paz, e não +esperassem o +perigo da batalha, escuzando sua covardice torpe, com dizerem, que +quando de suas terras partiram, seu voto e proposito não foi +pelejar se +não com aquelles infieis que tinham tomada a terra de +Jerusalem, e o Santo Sepulchro, e que alguns Portuguezes, em que +não havia +verdadeira Fé, nem bondade de coração +concordavam com elles, dando +por voto covarde, que era bem de descercar o Lugar, e leixalo sem +contenda, e posto que destes houvesse alguns com suas +mostranças de tão +vituperada fraqueza, havia porém outros muitos cuja santa, e +virtuosa contraridade +esforçou, com que determinaram não descercar o +Castello, e confiando em +Deos esperar a ventura que lhes viesse, pelo qual fizeram logo seu +alardo, e de gente de pé bem armada, e bem disposta para +peléjar, se +diz que acharam comsigo muita, mas gente de<span class="pagenum"><a id="Page_35" name="Page_35">[35]</a></span> +Cavallo se affirma que +escassamente refizeram trezentos.<br /> + +<br /> + +E os Reis Mouros para comprimento do proposito com que vieram, +acordaram que com a maior força que nelles houvesse viessem +logo ferir +no arraial dos Christãos, e que tambem as suas +Galés, que +tinham já tomada uma nao de Portugal com duzentos homens e +jazia na entrada do porto de Setuvel, juntamente pozessem fogo +á frota dos Christãos, +que jazia sobre amarra, mas os Christãos receosos deste +dano, e avizados +já para esto, pozeram tal guarda e +defenção na frota, que os Mouros o +não cometeram, e foi sempre delles segura, e uma segunda +feira como foi manhã +sairam do arraial dos Mouros cinco de Cavallo corredores, e como +chegaram, e viram o assento do arraial dos Christãos logo +volveram ao seu, e +sobre esto abalou todo junto o seu Exercito em que havia tantas gentes, +que toda a terra cobriam, trazendo comsigo tão grande +estrondo de +alaridos, e gritas, e com tantos sons de trombetas, e outros +desvairados instrumentos, que a qualquer coração +por abastado +de esforço que fora não leixára de +tocar de grande medo, e muito +espanto, pelo qual os Christãos havendo-o assi por milhor, +sairam a elles de suas +estancias, postos em suas batalhas ordenadas, e com muita ardideza uns +aos outros logo se cometeram, e feriram, em que da uma parte, e da +outra houve cruel, e bem ferida peleja com mortes, e feridas de muitos, +e daquella vez se diz que os Mouros levaram a vantagem da batalha, com +a qual se recolheram em seu arraial.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a id="Page_36" name="Page_36">[36]</a></span> +<h1><a name="CAPITULO_VII"></a>CAPITULO VII</h1> + +<br /> + +<div class="quote">Da segunda +batalha que houve sobre Alcacere, e como os Reis Mouros +foram vencidos, e feito grande +estrago em suas gentes</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Os</span> +Christãos vendo para o fim que vieram um +começo tão contrairo, e que a força +Dalcacere se fazia cada vez mais forte, e a elles +tirava toda esperança de por força o cobrar, +não +leixávam de murmurar, e apontar que seria bom irem-se, e por +aquella vez leixar o cerco, e o Bispo de Lisboa, que na gente dos +Christãos era pessoa de +mór credito, e mais principal, sentindo na noite seguinte a +temerosa e fraca +murmuração, que em todo o seu arraial havia, elle +em prezença dos mais que +por então se poderam ajuntar lhes disse. «Honrados +Senhores e amigos, esta desaventura, e grande mal de que todos estaes +espantados, +não veo sobre vós das forças, nem das +armas dos nossos imigos, +mas cauzou se da grande presunção, e muita +confiança que de +vós mesmos e de vossas forças, e +multidão de gentes logo tomastes, esquecidos em todo, da +só, e principal ajuda de Nosso Senhor, e Salvador Jesu +Christo, que se nos agora aqui faleceo foi para o milhor conhecermos, +mas pois já aqui +viemos, e somos mui fortes para armas, e temos gentes, e estamos +bastecidos de mantimentos, não queiraes desconfiar, porque +esta aversidade +a potencia de Deos a permite para crara esperiencia de maior nossa +fé +e mais merecimento de nossas almas, mas brademos, e clamemos de +coração ao Senhor Deos, e com efficacia, e +devação, que +nossas necessidades requerem lhe pessamos que esta sua ira, se contra +nós, por<span class="pagenum"><a id="Page_37" name="Page_37">[37]</a></span> +nossos peccados a tem, a queira converter em nossos imigos, e cada um +com os giolhos em terra diga por si como eu digo por mim: Senhor Deos +Padre das misericordias, e grande ajudador nas +tribulações +ex as muitas nações de tantos infieis vieram para +nos destroir, pois como duraremos ante a face delles se nos tu Deos +não ejudas, e pois assi é +Senhor agora não ponham ante ti a lembrança de +nossos malles e peccados, nem tomes +de nós aqui vingança por elles ante estes imigos +de tua Santa +Fé, tu por tua bondade, e potencia os dá nas +mãos, e poder de +teus servos, por tal, que os que em ti crem louvem mais o teu Santo +nome».<br /> + +<br /> + +No cabo da qual Oração, que todos devotamente, e +com muitas lagrimas o seguiram, se diz que por +consolação dos +Christãos logo appareceo pubricamente no Ceo um maravilhoso +sinal por bemaventurado prognostico, a saber, um homem resplandecente, +como Sol, e alvo como uma neve, e no peito trazia o sinal da Cruz +vermelha mais luzente que as Estrellas, com que os +Christãos, que craramente o viram foram mui alegres e +esforçados, crendo que Deos era em sua ajuda, e com este +prazer e alegria, que geralmente todos conceberam, já com +seu temor dormiram +assocegados aquella noite, e ao outro dia como foi manhã o +Bispo, como +era homem em que havia prudencia, e bom esforço, para se +não +esfriar o alvoroço que sentio nos Christãos com a +longura dalgum tempo, falou logo +ás gentes do Exercito que o podiam ouvir dizendo: +«Senhores amigos bem +vistes todos o grande e maravilhoso sinal que para não +temermos, e sermos +esforçados Deos Nosso Senhor tão pubricamente nos +quiz mostrar, e por +esso já seria muita nossa fraqueza, e grande mingoa de nossa +Fé tardarmos +mais para a segunda batalha, mas com o esforço de Deos, que +temos<span class="pagenum"><a id="Page_38" name="Page_38">[38]</a></span> +presente, e com ajuda, e preces dos Santos Martyres Proto, e Jacinto, +cujo dia hoje +é, vamos logo ferir nos imigos, ca pelo melhoramento da +vitoria, que contra nós houveram, agora os acharemos mais +repouzados, e menos +percebidos».<br /> + +<br /> + +Pelo qual os Christãos postos em suas batalhas bem +concertadas, com grande ousadia, e sem sinal dalgum medo sairam, e +foram dar no arraial dos Mouros, e assi duramente os cometeram, e +tão cruamente +os feriram, e foram tão cortados, e trovados de medo, que +parecia +não terem armas para pelejar, nem forças para +resistir, e desacordados se diz, +que elles mesmos uns aos outros se feriam, e matavam, e se +espedaçavam +com os pès dos Cavallos, e que outros com medo da morte +duvidosa a tomavam certa no rio, que era junto em que se +lançavam, e afogavam, e +vendo-se os Reis Mouros, e suas gentes assi salteados, e vencidos +não tendo +já alguma esperança em sua resistencia, nem +peleja, procuraram buscar +sua salvação +na fogida, em cujo alcance os Christãos matando, e ferindo +seguiram, em que se affirma que dos quatro Reis que alli vieram, dous +delles sem se dizer quem eram, foram mortos, e com elles trinta mil +Mouros mais, e com esto recolhendo o muito, e mui rico despojo, que +acharam no arraial dos Mouros, os Christãos se +tornáram mui alegres a +seu cerco, que tinham posto sobre a Villa, dando todos muitas +graças e louvores ao +Padre nosso Senhor, que de sua mão deu esta vitoria, que foi +a onze dias +de Setembro do sobredito anno de mil duzentos e dezasete annos, (1217) +dia dos ditos Martyres Proto, e Jacinto, á +certidão da qual +vitoria, como foi dada aos infieis, que para este descerco eram em sua +frota postos no mar elles desacordados, e tristes se partiram, onde se +diz que se perderam alguma parte de seus navios, e de suas gentes +assás nelles.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a id="Page_39" name="Page_39">[39]</a></span> +<h1><a name="CAPITULO_VIII"></a>CAPITULO VIII</h1> + +<div class="quote">Como os +Christãos combateram e tomaram o Castello +Dalcacere</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Os</span> +Christãos por esta vitoria ficaram alegres, e mui +esforçados, depois de consultarem sobre a milhor maneira que +teriam para tomar a Villa, fizeram duas escadas grandes, e com gente +darmas que comprio foram logo juntas ao muro para o entrarem, e +comessarem de combater o Castello; mas os Mouros com a necessidade que +tinham de salvar suas vidas, +dobráram suas forças, pelo qual assi com fogo, +com pedras, e traves, +e setas, que de cima do muro lançavam, afastaram os +Christãos +longe do muro, em que da uma parte, e da outra foram muitos mortos, e +feridos, e porque os Christãos viram que aquella qualidade +de combate por a +grande fortaleza, e desposição dos muros lhe +não socedia +como dezejavam, fizeram logo cavas, e minas por baixo da terra para as +poerem debaixo dos muros, e postos em contos os derribarem por fogo; +mas os Mouros que desto por avizos, ou por conjeituras foram bem +sabedores contraminaram as cavas dos Christãos, e uns, e +outros com peleja mui crua se +encontraram, em que houve muito sangue derramado, e com grandes fogos, +e cousas fumosas que os Mouros fizeram, lançaram os +Christãos fora +das cavas, e pozeram sobre si segura guarda, pelo qual vendo os +Christãos que +alguma cousa das cometidas de todo lhes não aproveitava, +elles, por +conselho, e ordenança do Capitão da frota, que +era homem +engenhoso, e de bom esforço, fizeram logo duas bastidas de +madeira muito fortes, +e tão altas que cada uma dellas sobejava por cima das mais +altas Torres <span class="pagenum"><a id="Page_40" name="Page_40">[40]</a></span>do Castello, donde +os combates que nellas poseram iam +seguros, e não +temiam os danos dos Mouros, e com esto, e com outros engenhos que mais +ordenaram, e com muitos bésteiros, e frecheiros commetteram +o Castello +rijamente por muitos lanços do muro, por cima do qual os +Mouros com a +força das setas, e pedras que lhe lançavam, +não ouzavam parecer +nem resistir como dantes faziam, e vendo-se fracos de suas +forças, e desesperados +já em tudo, de todo o soccorro, e finalmente porque se +não podiam suster, +fizeram sinal que se queriam render, e sobre seguro, que lhes foi dado, +vieram +á pratica, e apontamento, em que pediram as vidas, e +fazendas, mas as vidas sómente lhe foram outorgadas com +segurança +das quaes elles abriram as portas do Castello, e assi seguros se +sahiram, e foram para onde quizeram, e o Alcaide do Castello, que antre +elles era a pessoa mais principal, não se quiz ir com os +outros, mas acha-se que da +tomada da Villa, a tres dias por sua vontade foi bautizado, e tornado +Christão, e os outros Mouros que os Christãos +acharam pelas Aldeas, e +Lugares de redor todos, se diz que sem resistencia morreram a ferro, e +os grandes despojos que da batalha passada se recolheram, e na Villa se +acharam foram logo igualmente repartidos sem aventagem dalgum, salvo +que ao Capitão de fóra, porque por seu conselho e +ordenança o cerco fora sempre regido lhe deram mais +déz por prezioneiros, que elle +tomára.<br /> + +<br /> + +E porque ao Bispo de Lisboa não foi sobre elles dada alguma +avantagem, que bem merecia, o Capitão da frota a que tal +escasseza +não pareceo bem, por seu conforto lhe disse: +«Reverendo Bispo, posto que +vós aqui pelo bem recebeis mal, e pela bondade malicia +rogo-vos que a estes homens, que tão mal o conhecem, e fazem +sejais paciente, porque o +principal galardão <span class="pagenum"><a id="Page_41" name="Page_41">[41]</a></span>que +por este trabalho mereceis Deos nosso +Senhor +que é bom, e justo, e porque bem o recebestes volo +dará bom no Ceo, e +será melhor que este de cousas da terra». E com +esto os Estrangeiros se +recolheram a suas frotas, e se partiram para onde quizeram, e o Bispo +com os senhores Portuguezes, que ao cerco vieram depois de leixarem a +Villa afortalezada, e bastecida, como viram que compria, tambem se +tornaram para suas terras, e cazas, e esta tomada de Alcacere em tempo +deste Rei Dom Affonso II foi em dia de S. Lucas, a dezoito do mez de +Outubro da era de nosso Senhor de mil duzentos e dezasete annos, (1217) +e dahi a um anno este Rei Dom Affonso com a Rainha Dona Orraca sua +molher lhe deo foral que agora tem, como por elle parece.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h1><a name="CAPITULO_IX"></a>CAPITULO IX</h1> + +<br /> + +<div class="quote">Como cinco +frades Italianos da Ordem de S. Francisco foram a Marrocos a +prégar a +Fé de Christo, e primeiramente chegaram a Sevilha, que era +de Mouros</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Desta</span> tomada +Dalcacere até o falecimento Del-Rei Dom Affonso +se passáram seis annos, nos quaes se não acha +feito que elle fizesse, +nem se passasse cousa dina de memoria, salvo que depois em sua vida, e +da dita Rainha Dona Orraca sua molher, o Ifante Dom Pedro seu +Irmão +filho tambem legitimo del-Rei Dom Sancho trouxe a Coimbra os ossos dos +cinco Frades Menores, que em Marrocos morreram Martyres, cujo caso +segundo a Lenda Santa, que delles se lê, e segundo o que mais +delles<span class="pagenum"><a id="Page_42" name="Page_42">[42]</a></span> +verdadeiramente se acha foi brevemente nesta maneira. Na Coronica +del-Rei Dom Sancho pai deste Rei, falando dos filhos que teve +sumariamente disse: que o Ifante Dom Pedro, seu filho, o qual bem +acompanhado de nobre gente Despanha passara em Africa, e estivera em +muita estima, e grande authoridade com Mirabolim de Marrocos, +até o tempo do Martyrio destes Santos +Frades, dos quaes se acha por a dita sua Lenda, e por +inquirição verdadeira, que o sobredito Dom +Matheus, Bispo de Lisboa, delles, e do seu Martyrio, e milagres tirou +por testemunhos de muitos, dinos de fé, que +com o dito Ifante andaram, e principalmente por um Cavaleiro de +Santarem que chamavam Estevão Pires, homem velho, e honrado, +e de louvada +vida, e costumes que ao dito Ifante sempre servio, que na era de nosso +Senhor de mil duzentos e dezanove, (1219) e aos treze annos da primeira +conversão de S. Francisco, elle por vontade de Deos, +escolheo em sua vida seis Frades de sua Ordem por natureza Italianos, e +de maravilhosa santidade, a saber: Frei Vital, e Berardo, Otone, +Acurcio, Pedro, e Adjuto, e por saberem bem a lingoa Arabiga os mandou +ao Rei, e Reino de Marrocos, que naquelle tempo sobre os Mouros +Dafrica, e Despanha tinha o +mór Principado, para lhe prégarem, e trabalharem +pelo converter +á Fé de Christo.<br /> + +<br /> + +E destes seis Frades fez maioral, e Prelado a Frei Vital, o qual como +elle com os outros chegassem ao Reino Daragão adoeceo; e +porque vio que sua doença se prolongava por tal que seu mal +corporal, o +bem, e negocio espiritual, e de Deos não impedisse, mandou +que por +comprirem o mandado +de Deos, e de S. Francisco se fossem a Marrocos, os quaes por sua +obediencia o leixaram doente, e se partiram, e chegeram á +Cidade de Coimbra onde a esse tempo era <span class="pagenum"><a id="Page_43" name="Page_43">[43]</a></span>a +Rainha Dona Orraca molher +deste Rei Dom Affonso, a qual os fez ir ante si, e como falasse com +elles em cousas de +Deos, e nelles visse tão grande desprezo do mundo, e tamanho +fervor de morrer por amor de Jesu Christo, e sem duvida os julgou, e +houve por mui verdadeiros, e prefeitos servos de Deos, e por esso com +grande instancia lhe rogou, que por suas rogações +pedissem a Deos +que revelasse a ella o derradeiro termo de sua vida, e posto que elles +com sua humildade confessassem não ser dinos entender nos +segredos de Deos: +porém vencidos das devotissimas preces da Rainha, ditas com +muitas lagrimas, prometeram-lhe que assi o pediriam, os quaes orando a +Deos com firme, e pura fé, não sómente +o que da vida da +Rainha, mas ainda o seu Martyrio, por revelação +de Deos lhe foi tambem senificado, +porque logo disseram que os derradeiros dias da vida da Rainha seriam +mui sedo quando seus corpos depois de seu Martyrio, fossem de Marrocos +ali trazidos, e della mesma Rainha, e de todo o povo com grandes honras +recebidos, e assi foi como se dirá.<br /> + +<br /> + +Partidos os Frades de Coimbra para seguirem sua santa jornada, vieram +por aviamento da Rainha Dona Orraca á Villa Dalanquer, onde +estava a Ifante Dona Sancha, irmã del-Rei Dom Affonso, que +era +Senhora da dita Villa, a que tambem revellaram todo o seu proposito; +como ella foi Princeza mui santa, aprovando seu negocio ella sobre os +habitos da sua Religião que elles traziam lhes deu outras +vestiduras +seculares, taes, com que mais livres, e facilmente podessem passar a +terra de Mouros, e assi com seus habitos desimullados foram +á Cidade de +Sevilha, que então era de Mouros, onde na pouzada de um +Christão, leixados os +habitos leigos, por oito dias estiveram escondidos, e acertou-se que em +um dia fervendo seu espirito<span class="pagenum"><a id="Page_44" name="Page_44">[44]</a></span> +para Martyrio, elles sem guia, nem +conselho doutros se foram á principal Mesquita dos Mouros, e +como em +ella quizessem entrar os infieis, que os viram, e conheceram, endinados +contra elles com empuxões, brados, e açoutes, que +lhe deram, e por instituto, e costume os não consentiram +entrar, e dahi +indo-se ás portas del Rei, e sendo ante as ditas portas dos +Paços foram +levados ante El Rei, e perguntados quem eram? Responderam: que vinham a +elle Rei por Embaixadores, e enviados do Rei dos Reis, e Senhor dos +Senhores, que era Jesu Christo, e como ante El-Rei muitas, e mui dinas +cousas da +Fé Catholica proposessem aconselhando-o para sua +conversão, e +para receber agoa do santo Bautismo, e com esso muitas couzas feas, e +torpes de Mafamede, e de sua seita descobrissem, El-Rei endinado de +grande ira contra elles lhes mandava cortar as cabeças, mas +amançado por palavras de um seu filho, que era prezente, os +mandou meter em uma Torre mui alta junto dos Paços, de cuja +altura aos que entravam, e sahiam +da caza del-Rei, elles não leixavam de prégar em +altas +vozes a Fé de Christo, e brasfemar, e mal dizer da Seita de +Mafamede, cujos seguidores, e +favorecidos diziam que no inferno seriam com tormentos para sempre +danados, e anojado El-Rei de suas palavras, e para lhe arredar o azo de +as não poderem dizer, os mandou meter no mais profundo da +Torre, donde por concelho dos seus vassallos os mandou tirar, e levar a +Marrocos em companhia de Dom Pedro Fernandes de Castro o +Castellão, de +que atraz disse, e ao diante direi, que por odios, e +perseguições dos Condes de Lara, não +se pode soster em Castella, e duas vezes se passou +aos Mouros, e desta derradeira para Mirabolim de Marrocos.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a id="Page_45" name="Page_45">[45]</a></span> +<h1><a name="CAPITULO_X"></a>CAPITULO X</h1> + +<br /> + +<div class="quote">Como os +Frades chegaram a casa do Ifante Dom Pedro, e do que logo fizeram, e +como foram tornados +a Ceyta para virem a terra dos Christãos, e dahi +se volveram outra vez a Marrocos</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Neste</span> tempo estava em +Marrocos o Ifante Dom Pedro, filho del-Rei Dom +Sancho, e irmão deste Rei Dom Affonso, a cuja caza os ditos +Frades, e o dito Dom Pedro Fernandes logo chegaram, e o Ifante os +recebeo com humanidade, devação, e bom trato, e +os proveo de +todo o que haviam mister, porque era Principe em virtudes mui acabado, +e os Frades como dahi em diante viam quasquer Mouros logo com muito +fervor lhes +prégavam, especialmente um dia Frei Berardo, que delles era +o mais principal, e milhor sabia Arabia, sobindo em um carro, ou lugar +alto como pulpito, e prégando a Fé de Christo a +muitos Mouros que o +ouviam acertou-se que o Mirabolim ia visitar, como tinha de costume, a +sepultura dos Mouros Reis, que eram fóra da Cidade, e vendo +o Frade +prégar, e por elle ser prezente não querer +desistir da +prégação á sua seita +contraria, estimando o por homem sandeo, e por tirar escandalos mandou, +que elle com todos os Frades fossem logo lançados fora da +Cidade, e +sem tardança levados a terras dos Christãos, pelo +qual o Ifante Dom Pedro +havendo-o assi por bem lhes deu alguns seus servidores, que seguramente +os levassem, como levaram até a Cidade de Ceyta, para dahi +logo +passarem a terra dos fieis.<br /> + +<br /> + +Mas os Santos Padres não contentes da viagem +leixáram as guias, que os levavam, e tornaram-se outra<span class="pagenum"><a id="Page_46" name="Page_46">[46]</a></span> +vez a +Marrocos, e como chegasseem +á praça da Cidade logo aos muitos Mouros, que +nella acharam +começaram de prégar, louvando os merecimentos da +Fé de Christo, e brasfemando dos +vicios, e erros de Mafamede, e sua seita, da qual cousa como El-Rei +fosse certificado os mandou logo meter em um estreito carcere, onde sem +alguma ordenada provizão, nem mantimento dos homens, que +houvessem, +mas com a só refeiçao de Deos, que houveram. +Vinte dias +foram encarcerados asperamente, e neste tempo, porque em toda aquella +terra sobrevieram mui grandes, e desordenadas quenturas do Sol, e +grandes destemperamentos do Ar, alguns creram que estes males poderiam +vir pela injusta +prizão dos Frades, pelo qual por concelho de um Mouro +chamado Abotorim, que aos Christãos tinha amor, e queria +bem, El-Rei consentio que +fossem livres do carcere, e trazidos ante elle, mandou aos +Christãos que +logo sem mais detença os mandassem a sua terra.<br /> + +<br /> + +E porém El-Rei com os outros Mouros não ficaram +sem grande espanto, quando viram os Frades tão +esforçados dos corpos, +e tão constantes das vontades, havendo vinte dias continos, +que sem algum mantimento ordenado jouveram no carcere, e perguntados +por El Rei: quem os mantivera tanto tempo? Lhe disse Frei Berardo, que +como El-Rei bem crece na +Fé de Jesu Christo logo saberia como elles sem beber, e sem +comer foram no carcere manteudos. E com tudo elles como se viram +soltos, logo sem algum medo outra vez quizeram tornar a pregar aos +Mouros, mas os outros +Christãos, que com elles estavam, receosos da ira del-Rei +que com mortes, e cruezas, se estenderia nas vidas de todos, como +mostrava, lho +não consentiram.<br /> + +<br /> + +Então lhe ordenaram logo outros homens fieis que os +acompanhassem, e levassem outra vez a Ceyta, para<span class="pagenum"><a id="Page_47" name="Page_47">[47]</a></span> +dahi passarem a terra +dos +Christãos, mas os ditos Frades sospirando por seu Martyrio, +despedindo-se daquelles que os levavam se tornaram outra vez a +Marrocos, onde o Ifante os mandou logo recolher, e encerrar em sua caza +com guardas, e defeza estreita, que os não leixassem sahir, +porque receava segundo El-Rei de +suas pregações se escandalizava, que +não +sómente mandaria matar os Frades, mas a elle, e a todos os +christãos que houvesse na Cidade.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h1><a name="CAPITULO_XI"></a>CAPITULO XI</h1> + +<div class="quote">De um +milagre que se fez por causa de Frei Berardo, e como foram presos e +atormentados os +outros Frades</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">E</span> acertou-se que o +Mirabolim a este tempo mandou o Ifante Dom Pedro com +outros muitos nobres homens de Christãos, e Mouros, que +delle tinham<br /> + +soldo fazendo guerra, e sogigar a uns senhores Mouros seus vassallos, +que se lhes rebelaram, apoz os quaes Frei Berardo, e os outros Frades, +que tiveram maneira de se soltar, logo seguiram, e foram devolta onde +se diz, que disputando Frei Berardo com um Mouro ante elles o mais +letrado, e venceo, e confundio, e que este Mouro, com vergonha nunca +mais tornou a Marrocos, nem depois não pareceo, e tornando o +Ifante com +os outros Mouros da conquista, que lhes fora encomendada, vieram por +uma terra +tão seca que por tres dias para si, nem pera seus cavallos +não +poderam achar em nenhuma parte agoa para beber, e como a estreiteza da +sede desesperasse todos das vidas, Frei Berardo era na companhia, feita +<span class="pagenum"><a id="Page_48" name="Page_48">[48]</a></span>primeiro sua +dovota oração, tomou na +mão um piqueno pao com que cavou um pouco na terra mui seca +donde milagrosamente logo arrebentou, e sahio uma grande +fonte de agoa doce, e mui singular de que não +sómente os homens, e alimarias bebiam, e se abastaram, mas +ainda encheram muitos odres, que levaram para o caminho.<br /> + +<br /> + +E como esta necessidade dagoa foi satisfeita, logo a fonte se sarrou, e +secou, e por tão grande, e tão manifesto milagre, +que de todos foi visto, e Deos por Frei Berardo fizera, todos os do +exercito dahi em diante o tiveram em grande +devação, e reverencia, +e muitos por Santo lhe beijaram os pés, e as vestiduras, e +como estes Santos Frades +tornassem a Marrocos, e em caza do Ifante fosse por elles posta grande +guarda, para não sahirem, e elles toda via sairam, e em uma +Sexta feira, +que o Mirabolim ia visitar os sepulchros dos Reis Mouros, os Frades sem +algum temor, e com grande ousadia se apresentaram ante elle, e sobindo +Frei Berardo em um tezo começou de lhe prégar mui +sem +receio, e como El-Rei os visse, cheo de ira contra elles, mandou a um +seu Capitão +Mouro que vira o milagre dagoa, que logo lhes cortasse as +cabeças, +pelo qual os Christãos, que eram prezentes, com temor de +suas proprias +mortes, logo fugiram dahi, e fechadas, e trancadas bem as portas de +suas pouzadas, nellas sem sair jaziam escondidos, mas o Principe Mouro +mandou aos homens da justiça que trouxessem os Frades ante +elle, e como +por duas vezes o não achassem os tornaram a levar a mais +aspero +carcere com golpes, e bofetadas com que os feriam, e com esso os ditos +Frades assi aos Christãos, que se lhe offereciam +não leixavam +de prégar a palavra de Deos.<br /> + +<br /> + +E sendo outra vez trazidos ante o dito Principe, e <span class="pagenum"><a id="Page_49" name="Page_49">[49]</a></span>com +tanta constancia +os visse prégar, e confessar a fé Catholica, e +reprovar, e reprehender com muita ouzadia as couzas de Mafamede, e sua +seita, acezo da ira contra elles os mandou logo atormentar com muitas, +e mui desvairadas maneiras de tromentos, e depois apartar uns dos +outros, e em desvairadas cazas onde cruamente os mandou +açoutar, e aquelles maos, e +crueis ministros atados os pés, e as mãos dos +Santos, e +com cordas asperas lançadas aos colos delles, e +arrastando-os de uma parte a +outra pela terra, assi continuadamente, e tão sem piedade os +açoutavam, que as tripas lhe apareciam, e sobre as chagas +recebidas por acrescentarem mais dor lhe lançavam vinagre, e +azeite fervendo, e assi foram +por toda a noite atormentados, e açoutados de trinta Mouros, +que nelles +se arrevezavam, na qual noite daquelles que os guardavam foi visto, que +um grande resplandor decendia dos Ceos, e com uma companha sem conto os +arrebatavam, e levantavam para cima, e maravilhados desso os Mouros, e +de todo espantados, chegando ao corcere acharam os Santos Frades +devotamente orando.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a id="Page_50" name="Page_50">[50]</a></span> +<h1><a name="CAPITULO_XII"></a>CAPITULO XII</h1> + +<div class="quote">Como El-Rei +de Marrocos fallou com estes Frades, e por os não poder +converter a sua seita +por si mesmo os matou, e como foram mortos tambem Pedro Fernandes, +e Martim Affonso Telo, sobrinho do Ifante</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">As</span> quaes couzas +ouvindo El-Rei de Marrocos, acezo com maior sanha +contra elles, mandou que logo lhe fossem levados com as mãos +atadas, e descalços dos pés, e depois dos corpos +continuadamente açoutados, e espancados, os quaes como El +Rei na Fé de Christo os visse +tão firmes, mandou dentro meter comsigo certas molheres +fermozas, e +lançados todos fóra disse: +«Convertei-vos a nossa fé, +e dar-vos-hei estas por vossas molheres, e com ellas muito dinheiro, e +sereis em meu Reino muito honrados.» A que os Frades logo +responderam: «Tuas +molheres, e teu dinheiro não queremos; porque tudo esto +desprezamos por amor +de Christo». É então El-Rei arrebatado +de +maior ira, e sanha, apartados os Santos um do outro, por suas proprias +e mui cruas mãos a +cada um per si talhou as cabeças por meio das fontes, e +apertando na +mão tres cutellos, juntamente com uma crueza de besta +féra os degolou, os quaes +compriram este seu Martyrio a dezaseis dias de Janeiro do anno de +Christo de mil duzentos e vinte, (1220) em tempo do Papa Honorio III, +em o quarto anno de seu Pontificado, e quasi sete annos antes da morte +de S. Francisco.<br /> + +<br /> + +E depois disto lançados fóra os corpos dos +Martyres por as molheres, que comsigo tinham: estes perros barbaros e +maos, atando cordas a seus +pés, e mãos, <span class="pagenum"><a id="Page_51" name="Page_51">[51]</a></span>os +arrastaram para fóra +da Cidade, em +torno da qual com grandes brados, e pregões os trouxeram, e +espedaçados de +todos os membros, os leixaram no campo, pelo qual os +Christãos, que os assi viram, alevantadas as mãos +aos Ceos, louvando a Deos por seu +tão glorioso Martyrio, comessaram de apanhar, e recolher as +Riliquias dos ditos Santos escondidamente, a qual couza como os Mouros +vissem, todos como cães raivosos, tanta multidão +de pedras +lançaram nos Christãos, que parecia tempestade de +sua raiva, mas os Christãos defezos +já pelos merecimentos dos Santos, fugindo da ira dos Mouros +a suas cazas se recolheram, donde com temor da morte, que antre si +traziam, escondidos por tres dias não pareciam, +principalmente, porque neste +tempo o Ifante mandou a Dom Pedro Fernandes de Castro, o +Castellão, que +lá era lançado, e a Martim Affonso Tello, seu +sobrinho, nobres homens, que com outros muitos andavam em sua +companhia, que de noite secretamente fossem ver onde jaziam os corpos +dos Martyres para se recolherem, porque foram vistos, e achados dos +Mouros, logo os mataram.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h1><a name="CAPITULO_XIII"></a>CAPITULO XIII</h1> + +<div class="quote">Como os +corpos dos Martyres foram queimados, e despedaçados, e emfim +recolhidos por +devação, e industria do Ifante Dom +Pedro</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Depois</span> desto em um +grande fogo, que foi feito no campo, os corpos dos +Santos se lançaram por tal, que de todo fossem queimados, +mas o fogo por virtude Divina das santas Reliquias assim se apartava, e +apagava, como que a materia <span class="pagenum"><a id="Page_52" name="Page_52">[52]</a></span>muito +lhe fosse contraira com junto, antes +a +cabeça de um dos Martyres lançada muitas vezes no +fogo, nem nos seus +cabelos não pareceo algum sinal de queimadura, a qual assi +com a pelle, e cabellos foi mostrada sem alguma +corrupção no Moesteiro de +Santa Cruz de Coimbra, mas dos Mouros alguns por amizade, e outros por +dinheiro, e proveito, e assi os Christãos, que na Cidade +eram cativos, apanhando as +Reliquias dos Santos as offereciam ao Ifante, que recebendo-as com +grande +devação as mandou secretamente cozer, e depois +que as carnes se gastaram, e os ossos ficaram limpos, os mandou secar, +e encomendou a guarda principal delles a João Roberto, +Conego de Santa Cruz, homem em +virtudes acabado, e a tres innocentes, moços honestos, seus +moços +da Camara, dos quaes um foi o Estevão Pires de que atraz +disse, que deu este +estromento, ca não era algum ouzado entrar onde as sagradas +Reliquias estavam em guarda, porque a só sua consciencia de +qualquer crime ocultamente +commetido logo o reprendia, e acuzava.<br /> + +<br /> + +E neste tempo um Cavalleiro chamado Pedro da Roza, tendo uma manceba +por nome Maria da Roza, como sobisse a um sobrado onde as Reliquias se +guardavam logo elle sem se poder mover, e tolheito, bradou fortemente +dizendo: «Acorrei-me, acorrei-me, dai-me +confissão. A qual como o Conego lha deu, em que de todo +renunciou a manceba, logo foi livre dos membros, e pode decer, mas +não pode falar até que o mesmo +Conego por mandado do +Ifante lhe poz sobre o peito a cabeça de um Martyre, com que +de todo recobrou as forças, e fala, assi como dantes as +tinha, e +dahi em diante, assi o Ifante como todos os seus tiveram as Reliquias +em maior honra, e devação, das quaes mandou meter +as +cabeças em uma arca, e os ossos em outra, e as tinham em +grande veneração <span class="pagenum"><a id="Page_53" name="Page_53">[53]</a></span>na +sua +Capela, e ás santas Almas dos Bemaventurados Martyres, cujas +Reliquias tinha continua, e devotamente pedia, que de Deos lhe +ganhassem graça para sem +perigo de sua pessoa, e dos seus, se poder vir para sua terra de +Christãos, porque já havia muitos dias que na dos +Mouros contra sua vontade se +detinha, e estava forçado.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h1><a name="CAPITULO_XIV"></a>CAPITULO XIV</h1> + +<div class="quote">Como o +Ifante D. Pedro foi tornado a Espanha, e trouxe consigo os ossos, e +Reliquias dos +Martyres, e as mandou a Santa Cruz de Coimbra, e dos milagres que +houve no caminho</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Esta</span> graça +pelas preces dos Martyres, foi da piedade de Deos +brevemente empetrada, porque estando o Ifante desta sua liberdade +assás desconfiado, o Mirabolim de sua propria vontade, e sem +requerimento dalguem o mandou chamar, e alegremente lhe deu +licença, que +para sua terra se viesse quando quizesse, descobrindo-lhe logo as +muitas vezes que para sua morte fora de seus principaes aconselhado, e +induzido; mas por seus merecimentos, e bons serviços, que +fielmente sempre +lhe fizera, merecia outro galardão. E com esta +licença lhe +deu mais suas cartas de passos, para elle, e os seus seguramente +poderem passar, com as quaes partiram de Marrocos, e depois de um dia, +e uma noite, vieram no caminho dormir a Azora, que era lugar despovoado +onde de ferozes brados dos muitos Liões, que ahi ha foram +postos em temor de que logo +foram livres, como ante si, e os Liões pozeram com +devação, e confiança<span class="pagenum"><a id="Page_54" name="Page_54">[54]</a></span> +as santas +Reliquias, que por sua santidade fizeram tudo quieto, e ao outro dia +chegaram a um Lugar em que se apartavam muitos caminhos, e duvidosos de +qual era o melhor que tomariam, e o Ifante sospenço, e +confiado na santa guia das Reliquias que acompanhava mandou dar a +dianteira a uma Azemala que as levava, e houve por bem que aquelle +caminho que ella tomasse, todos por milhor o seguissem esperando que +elle seria o milhor, e mais seguro.<br /> + +<br /> + +O que foi assi feito, e a Azemala se desviou de um caminho para que a +gente se mais inclinava, onde o Ifante soube depois em certo que Mouros +o esperavam para o matar, e roubar, e da hi em diante em dezertos e +montes porque passáram sempre déram a guia +ás santas Reliquias, que com a graça de Deos +levaram o Ifante, e os seus a salvamento +atè Ceita, onde embarcando logo em uma nao, que o Divino +favor lhe tinha prestes, e aparelhada para terra de +Christãos, partiram, e navegaram +logo com vento +prospero, que em poucas horas, com grande escuridão se mudou +o contrairo, e algumas outras naos que se acertaram em sua conserva, +por uma respiração divina faziam daquella do +Ifante +Capitaina, por quem se regiam, e com a grande +sarração que sobreveio +temendo de ir á Costa se encomendaram devotamente aos rogos, +e merecimentos dos Santos Martyres, cujas sagradas Reliquias levavam, +para que em salvamento os guiassem, e logo supitamente derramada a +escuridão, em que andavam, veo +a grande claridade, e bonança, com que bem viram, e +conheceram o +caminho de sua perdição, que levavam, e desviados +delle +aportaram na Aljazira, daquem Despanha, e dahi a Tarifa, e logo a +Sevilha, que era de Mouros, onde por os Christãos que ahi +eram, o Ifante foi avizado, que logo se +partisse, porque El-Rei de Sevilha o mandava prender.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a id="Page_55" name="Page_55">[55]</a></span> +Pelo qual logo ahi embarcaram, e vieram a Astorga, que é em +Galiza do Reino de Lião, onde então reinava +El-Rei Dom +Affonso, primo com irmão do +Ifante Dom Pedro, e como foram partidos chegaram a Sevilha mandados de +Mirabolim de Marrocos que logo lhe prendessem, e tornassem o Ifante, e +cortassem as cabeças a todos os seus, mas deste perigo, e +doutros muitos prouve a Deos que o Ifante, e os seus, pelos +merecimentos dos Santos Martyres, cujo devoto era, fossem como foram, +livres, e seguros, e como chegassem a Astorga um hospede onde foram +agazalhados havia trinta annos que assi era doente, e tolheito de +parlezia, que do officio da fala, e dos membros era de todo privado, e +ouvindo as grandes maravilhas dos Santos Martyres, que os +Christãos consigo traziam, +lançado em terra ante a Arca em que suas sagradas Reliquias +eram guardadas, pedindo-lhe com muitas lagrimas, e grande +devação remedio para +sua doença, logo ahi á vista de todos recebeo na +fala, e em todos os membros perfeita saude, e o Ifante Dom Pedro +não veio com as Reliquias dos Martyres a +Coimbra; mas de Astorga mandou com ellas Affonso Pires de Arganil, que +era Rico homem, e pessoa de grande credito, porque o Ifante Dom Pedro +não era bem avindo com El-Rei Dom Affonso de Portugal seu +irmão.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a id="Page_56" name="Page_56">[56]</a></span> +<h1><a name="CAPITULO_XV"></a>CAPITULO XV</h1> + +<div class="quote">Como as +Reliquias dos Martyres foram recebidas, e como foi a morte da Rainha +Dona Orraca, molher +del-Rei Dom Affonso, e das cousas que foram vistas</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Como</span> Affonso Pires +chegasse a Coimbra onde a fama dos Santos Martyres +já era, a sobredita Rainha Dona Orraca molher deste Rei Dom +Affonso de Portugal, que ahi estava com o povo junto, que com toda a +Cleresia, e mui devota, e solenne Procissão, saio a receber +as sagradas +Reliquias, e com muita devação, e grande +solennidade as +levaram ao Moesteiro de Santa Cruz, onde mui honradamente as leixaram, +e como a nova do glorioso Martyrio destes Santos Frades chegasse a S. +Francisco, alegrando-se em seu espirito, disse: «Agora +verdadeiramente posso dizer que +tenho cinco irmãos». E no mesmo anno em que estes +Martyres +foram mortos segundo testemunho das santas +Lições, que delles se +dizem, por sua vingança a ira, e +indinação de Deos, veio contra El-Rei de +Marrocos, e seu Reino, porque a propria mão direita, e +braço +çom que o dito Rei Mouro matou os Santos Frades, todos seus +membros daquella parte até o +destro pé, foram todos secos, e por +maldição da sua terra, nos +tres annos seguintes apoz este Martyrio, não choveo nella +couza alguma, de que se +seguio mais, que por cinco annos continos houve tanta fome, e +tão cruas +pestilencias nos homens, que a mór parte da gente por +tamanha mortindade foi +destruida por tal, que os annos da vingança fossem iguaes ao +numero +dos Santos Frades.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a id="Page_57" name="Page_57">[57]</a></span> +E porque a Profecia dos Santos Frades em todo se comprisse a sobredita +Rainha Dona Orraca passadas mui poucas horas, depois que ás +Santas Reliquias foi dada divina sepultura, ella Rainha chea de +virtudes acabou sua vida, e dahi foi levada a Alcobaça onde +jaz, e +á mesma hora que ella faleceo, sendo a noite profunda, Dom +Pedro Nunes Conego, e +Sacristão do Moesteiro de Santa Cruz, Varão por +Santidade mui +esclarecido, e Confessor da mesma Rainha, vio innumeraveis Frades +Menores entrar no Choro antre os quaes era um, que aos outros com +grande solennidade precedia, e apoz elle cinco antre todolos outros com +honra singular mais excellentes, e como no Choro com +procissão assi entraram +logo com doce melodia que se não póde dizer, +cantaram as +Matinas, e o dito Pedro Nunes Sacristão, sendo pelo que vio +todo atonito, perguntou a um +delles, a que vieram, e porque lugar tantos Frades em tal hora +entrassem, sendo serradas todalas portas do Moesteiro, o qual lhe +respondeu: +«Nós todos que aqui vez somos Frades Menores, e +agora reinamos com Christo, e aquelle que vez, que com tanta gloria +precede aos outros, é +S. Francisco que tanto dezejastes ver nesta vida, e aquelles cinco, que +antre os outros tem mais excellencia são os Frades, que em +Marrocos +por Christo receberam Martyrio, e neste Moesteiro são +sepultados, e sabe +que a Rainha Dona Orraca nesta ora passou desta vida, e porque ella de +todo coração amou nossa Ordem, Nosso Senhor Jesu +Christo nos enviou cá todos, porque por sua honra disessemos +aqui Matinas, e porque tu eras seu confessor, quiz Deos que tu visses +estas couzas, e da morte da Rainha não duvides; porque na +hora que daqui partirmos +ouvirás logo certa nova». E aquella +Procissão sendo todas as portas +do Moesteiro serradas logo sairam, e nesta hora aquelles que <span class="pagenum"><a id="Page_58" name="Page_58">[58]</a></span>eram +da +familia da dita Rainha bateram ás portas, e denunciaram que +ella tinha +já paga sua necessaria divida á carne, e falecera.<br /> + +<br /> + +<h1><a name="CAPITULO_XVI"></a>CAPITULO XVI</h1> + +<div class="quote">Como Santo +Antonio por exemplo destes Martyres tomou o habito +S. Francisco, e do que +seguio +em Marrocos por milagre, e da morte +del-Rei Dom +Affonso</div> + +<br /> + +<br /> + +<span class="smallcaps">Despois</span> que estes +Santos Martyres começaram de resplandecer +com mui claros milagres que muitos em sua mais profuza lenda se contem, +e por exemplo delles o Bemaventurado Antonio que a este tempo era +Conego no Moesteiro de Santa Cruz mesmo, e se chamava Fernando Martins, +ardendo com dezejo de semelhante Martyrio, entrou na mesma Ordem dos +Menores, em idade de vinte e cinco annos, e nella acabou dez annos, +exclarecido em Santidade, e com milagres. E por esta ida destes Frades, +o mesmo S. Francisco, porque seu exemplo ardia em gram fervor, e dezejo +de Martyrio, passou com sete Frades a terra de Suria, e foi ao Gram +Soldam, e como quer que com grande constancia, e mui sem medo lhe +prégasse a Fé de Christo, o Gram Soldam o tornou +a enviar +livremente, e +são a sua propria terra.<br /> + +<br /> + +E acha-se por lembranças antigas, que por este Martyrio +destes Santos Frades ser tão cruamente feita em Marrocos, e +com +tanto +desprezo de Deos, e de sua palavra, houve em todo aquelle Reino tantas +esterilidades, e securas, e por tantos annos, que esteve para de todo +se despovoar, e porque geralmente antre<span class="pagenum"><a id="Page_59" name="Page_59">[59]</a></span> +elles, e pelo povo se dizia que +tamanha maldição não viera +á terra salvo pela inocente morte dos Religiosos, El-Rei a +cujas +orelhas este rumor, e clamor chegara, tendo sobre esso concelho com os +Mouros, e tambem com os +Christãos, que estavam ahi, acordaram que onde padeceram, +que +ali com grande arrependimento, e gemidos, e muitas lagrimas viessem, +como vieram pedir a Deos que havendo por esso com elles piedade, se diz +que logo choveo, e veio á terra acostumada +avondança em +todalas +cousas, por cujo beneficio se affirma que El-Rei de Marrocos com todo +seu povo prometeram, e ordenaram que da mesma Ordem dos Frades Menores +fosse dado Sacerdote, ou Bispo a todolos Christãos, que em +Marrocos, e em sua terra +vivessem, e que os Frades fizessem ahi Moesteiro da Ordem de S. +Francisco, em que livremente sempre estivessem, e dessem os Sacramentos +aos +Christãos sem algum receio, o que por muitos annos assi +comprio.<br /> + +<br /> + +E deste anno de Christo de mil e duzentos e vinte, em que esto sucedeo, +até o anno de mil duzentos e vinte e quatro em que este Rei +Dom Affonso faleceo, não achei que elle fizesse, nem em seu +Reino +sucedesse outras cousas notaveis, pelo qual tendo elle trinta e sete +annos de sua idade, e havendo doze annos que Reinava, faleceo na era de +nosso Senhor de mil e duzentos e vinte e quatro, (1224) e jaz em +Alcobaça, com a +Rainha Dona Orraca sua molher, na Capella grande, que elle em sua vida +mandou fazer diante a porta do Moesteiro, e neste anno se diz que foi +mudado o Convento de Santa Maria, a antiga á nova Egreja, e +Moesteiro +de Alcobaça, que El-Rei D. Affonso Anriques, seu +avô +de fundamento mandou fazer.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">DEO GRATIAS<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<h1>INDEX DAS COUSAS NOTAVEIS</h1> + +<h2>A</h2> + +<br /> + +<br /> + +Affonso II (D.) de Portugal, que idade tinha, e em que anno foi +levantado Rei, <a href="#Page_17">pag. 17</a>. Foi +cazado com Dona Orraca filha del-Rei D. +Affonso IX de Castella. ibi. Não quer conceder á +Rainha Dona Tareja, e á Infanta Dona Sancha suas +irmãs as +terras que lhes deixara +seu pai D. Sancho I, <a href="#Page_22">pag. 22</a>. +É excommungado pelo Papa +Innocencio III +para que largue os Castellos de Monte Mór, e Alanquer a suas +irmãs, <a href="#Page_24">pag. 24</a>. +É absolvido da +Excommunhão, e com +que circumstancias se +ajustou a tregoa entre estes Principes, <a href="#Page_25">pag. +25</a> e <a href="#Page_26">26</a>. Contende +judicialmente sobre a mesma materia com suas irmãs, e +é +condemnado a +pagar-lhe uma grande somma de dinheiro, <a href="#Page_27">pag. +27</a>. Em que anno, e idade +morreo, <a href="#Page_30">pag. 30</a>. Onde +está sepultado, <a href="#Page_30">ibi</a>.<br /> + +<br /> + +Affonso IX (D.) de Castella sogro del-Rei D. Affonso II de Portugal com +quem foi cazado, e que filhos teve, <a href="#Page_18">pag. +18</a>. Manda chamar a seu genro +D. <span class="pagenum"><a id="Page_61" name="Page_61">[61]</a></span>Affonso II de +Portugal ás Cortes que fez em Burgos, e +não vai, <a href="#Page_21">pag. 21</a>, +onde morreo, e está sepultado, +<a href="#Page_21">ibi</a>.<br /> + +<br /> + +Affonso Pires de Arganil, entrega por ordem do Infante D. Pedro as +Reliquias dos Martyres de Marrocos no Convento de Santa Cruz de +Coimbra, <a href="#Page_55">pag. 55</a>.<br /> + +<br /> + +Alcacere é cercado pelos Portuguezes e Estrangeiros, e das +pessoas principaes Portuguezas que assistiram neste cerco, <a href="#Page_31">pag. 31</a>. No +seu campo são mortos pelos Portuguezes trinta mil Mouros, e +em +que dia +e anno se conseguio esta vitoria, <a href="#Page_38">pag. +38</a>. O seu Castello depois de uma +larga resistencia é conquistado, <a href="#Page_40">pag. +40</a>. Em que dia e anno +foi +tomado, <a href="#Page_41">pag. 41</a>.<br /> + +<br /> + +Algozo e Freixo são tomados pelos Ifantes D. Pedro e D. +Fernando em odio de seu irmão D. Affonso II de Portugal, <a href="#Page_24">pag +24</a>.<br /> + +<br /> + +Antonio (Santo) passa da Religião dos Conegos de Santo +Agostinho para a de S. Francisco, <a href="#Page_58">pag. +58</a>.<br /> + +<br /> + +Armada de Alemães, e Framengos, que se compunha de cento e +cincoenta naos depois de padecer varias derrotas aportou a Lisboa, <a href="#Page_29">pag. +29</a>.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>B</h2> + +<br /> + +<br /> + +Berardo (Fr.) um dos cinco Martyres de Marrocos, abre milagrosamente na +terra seca uma fonte de que todos beberam, e se admiraram, <a href="#Page_48">pag. 48</a>.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a id="Page_62" name="Page_62">[62]</a></span> +Beringela (Infante Dona) filha del-Rei de Castella Affonso IX cazou com +D. Affonso Rei de Lião, e que filhos teve, <a href="#Page_18">pag. 18</a>.<br /> + +<br /> + +Branca (Infante D.) filha de Affonso IX, Rei de Castella, cazou com +El-Rei de França, e foi mãi de S. Luis, <a href="#Page_18">pag. 18</a>. +Era mais velha, que sua irmã Dona Orraca, <a href="#Page_20">pag. 20</a>.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>C</h2> + +<br /> + +<br /> + +Constança (Infante Dona), primeira Senhora do Moesteiro das +Holgas de Burgos, foi filha del-Rei D. Affonso de Castella, <a href="#Page_18">pag. 18</a>.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>F</h2> + +<br /> + +<br /> + +Fernando (Infante D.) chamado de Serpa foi filho de Affonso II de +Portugal, e da Rainha Dona Orraca, <a href="#Page_19">pag. +19</a>. Com quem cazou, e que +filhos teve, <a href="#Page_19">ibi</a>.<br /> + +<br /> + +Fernando (Infante D.) filho de Affonso IX de Castella morreo de idade +de dezaseis annos, pag. 8. Foi a Roma buscar a Cruzada que o Papa +concedeo a seu pai para a batalha das Navas de Tolosa, <a href="#Page_21">pag. 21</a>.<br /> + +<br /> + +Foral. Em que anno foi dado por El-Rei D. Affonso II á Villa +de Alcacere, <a href="#Page_41">pag. 41</a>.<br /> + +<br /> + +Francisco (S.) O que disse quando teve noticia do Martyrio dos +seus cinco Religiosos em Marrocos, <a href="#Page_56">pag. +56</a>. Passa com sete +Frades +á Suria a prégar a Fé seguindo o +exemplo daquelles +cinco +Martyres, <a href="#Page_58">pag. 58</a>.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a id="Page_63" name="Page_63">[63]</a></span> +<h2>G</h2> + +<br /> + +<br /> + +Gonçalo (D.) Mestre, e Prior do Esprital se achou no cerco +de Alcacere, <a href="#Page_31">pag. 31</a>.<br /> + +<br /> + +<h2>H</h2> + +<br /> + +<br /> + +Henrique de Neusa (D.) Capitão de uma Armada Estrangeira, +que constava de trinta e seis naos, arribáram ao porto de +Setuval, e +junto com os Portuguezes batalham com os Mouros que estavam senhores de +Alcacere, e +sahem vitoriosos, <a href="#Page_34">pag. 34</a>.<br /> + +<br /> + +<h2>I</h2> + +<br /> + +<br /> + +Innocencio III manda excommungar pelo Arcebispo de Santiago, e o Bispo +de Çamora a Affonso II por negar os Castellos de Monte +mór e Alanquer a +suas irmãs que seu pai D. Sancho I lhe deixara, <a href="#Page_24">pag. 24</a>.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>L</h2> + +<br /> + +<br /> + +Lianor (Dona) filha del-Rei D. Henrique de Inglaterra, cazou com +Affonso IX de Castella, pag. 2. Que filhos teve daquelle Principe, <a href="#Page_18">pag. +18</a>.<br /> + +<br /> + +Lianor (Infante Dona) filha del-Rei D. Affonso IX de Castella cazou com +D. James I Rei de Aragão, <a href="#Page_18">pag. +18</a>.<br /> + +<br /> + +Lianor (Infante Dona) Neta de Affonso II de Portugal cazou com El-Rei +de Dacia, <a href="#Page_19">pag. 19</a>.<br /> + +<br /> + +Lianor (Infante Dona) filha de Affonso II de Portugal cazou com o filho +herdeiro del-Rei de Dinamarca, <a href="#Page_19">pag. 19</a>.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>M</h2> + +<br /> + +<br /> + +Martim Affonso Tello sobrinho do Infante D. Pedro é morto em +Marrocos, <a href="#Page_51">pag. 51</a>.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a id="Page_64" name="Page_64">[64]</a></span>Martim Barregam +Commendador de Palmella se achou no cerco de Alcacere, +<a href="#Page_31">pag. 31</a>.<br /> + +<br /> + +Martyres que padeceram em Marrocos como se chamavam, <a href="#Page_42">pag. 42</a>. +São recebidos em Coimbra pela Rainha Dona Orraca, <a href="#Page_43">pag. 43</a>. +Foram +tratados com grande benevolencia em Alanquer pela Infante Dona Sancha +irmã de Affonso II de Portugal, <a href="#Page_43">ibi</a>. +Pregam animosamente em +Sevilha contra a ceita de Mafamede, <a href="#Page_44">pag. +44</a>. Crueis Martyrios que +padeceram, <a href="#Page_49">pag. 49</a>. +São degolados por El-Rei de Marrocos, <a href="#Page_50">pag. +50</a>. Anno, e dia +do +seu Martyrio, ibi. São queimados os seus corpos, e +maravilhas +que +então sucederam, <a href="#Page_51">pag. 51</a>. +Como foram trazidos os seus corpos +a +Coimbra, <a href="#Page_54">pag. 54</a> e <a href="#Page_55">55</a>. <br /> + +<br /> + +Matheus (D.) Bispo de Lisboa recebe aos Estrangeiros que vinham em uma +Armada que aportou áquella Cidade, e os exhorta á +conquista de Alcacere, <a href="#Page_29">pag. 29</a>. +Achou-se no cerco de Alcacere, <a href="#Page_51">pag. 51</a>. +Faz uma pratica aos soldados Portuguezes e Estrangeiros que estavam no +campo de Alcacere para que não levantem o sitio, mas que +tomem a +Praça. <a href="#Page_36">pag. 36</a>.<br /> + +<br /> + +Melgaço é tomado pelos Infantes D. Pedro e D. +Fernando com alguma gente de Lião em odio de seu +irmão D. Affonso II de +Portugal, <a href="#Page_24">pag. 24</a>.<br /> + +<br /> + +Mouros. Como se houveram esforçadamente no sitio de +Alcacere, <a href="#Page_33">pag. 33</a>. +Governados pelos Reis de Sevilha, Cordova, Jaen, e +Badalhouse vem soccorrer Alcacere, <a href="#Page_33">ibi</a>. +São derrotados, e +mortos +trinta mil +no campo de Alcacere, <a href="#Page_38">pag. 38</a>.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>O</h2> + +<br /> + +<br /> + +Orraca. Princezas varias que tiveram este nome, <a href="#Page_20">pag. +20</a>.<br /> + +<br /> + +Orraca (Dona) filha del-Rei D. Affonso IX de Castella <span class="pagenum"><a id="Page_65" name="Page_65">[65]</a></span>foi +cazada com D. +Affonso II de Portugal, <a href="#Page_17">pag. 17</a>. +Era mais moça que Dona +Branca, <a href="#Page_20">pag. 20</a>. Recebe em +Coimbra aos Martyres de Marrocos, que lhe +pronosticaram a sua morte, <a href="#Page_40">pag. 40</a>. +Quando morreo, <a href="#Page_56">pag. 56</a>. Onde +está sepultada, +<a href="#Page_59">pag. 59</a>.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>P</h2> + +<br /> + +<br /> + +Pedro (Infante D.) filho de Sancho I de Portugal, veio socorrer a sua +irmã Dona Tareja, que estava recolhida no Castello de Monte +mór, contra seu irmão D. Affonso II, <a href="#Page_23">pag. 23</a>. +Estando em +Marrocos recebe +em sua caza aos Santos cinco Religiosos que alli padeceram martyrio, +<a href="#Page_45">pag. 45</a>. +É livre de gravissimos perigos por intercessão +dos mesmos +Santos Martyres, <a href="#Page_53">pag. 53</a>. +Alcança licença del-Rei +de +Marrocos para +trazer as Reliquias dos mesmos Marryres para Portugal, <a href="#Page_53">ibi</a>.<br /> + +<br /> + +Pedro (D.) Mestre da Ordem da Cavallaria do Templo se achou no cerco de +Alcacere, <a href="#Page_31">pag. 31</a>.<br /> + +<br /> + +Pedro Fernandes de Castro chamado o Castellão é +morto em Marrocos, <a href="#Page_51">pag. 51</a>.<br /> + +<br /> + +Pedro Nunes (D.) Conego e Sacristão do Moesteiro de Santa +Cruz de Coimbra, Confessor da Rainha Dona Orraca teve uma admiravel +visão dos Santos Martyres de Marrocos, <a href="#Page_56">pag. +56</a>.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>R</h2> + +<br /> + +<br /> + +Rei de Marrocos pela sua propria mão degolou os cinco +Martyres da Ordem de S. Francisco, <a href="#Page_50">pag. +50</a>. Castigo que experimentou +por esta impia crueldade, <a href="#Page_56">pag. 56</a>. +Movido das grandes calamidades que +padecia<span class="pagenum"><a id="Page_66" name="Page_66">[66]</a></span> o seu Reino +concede liccença que os Frades Menores +levantem +Convento em Marrocos, <a href="#Page_59">pag. 59</a>.<br /> + +<br /> + +Reliquias Dos Santos Martyres de Marrocos como foram trasidas, e dos +milagres que obraram pela jornada, <a href="#Page_53">pag. +53</a>. Do modo como foram +recebidas em Santa Cruz de Coimbra, <a href="#Page_55">pag. +55</a>.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>S</h2> + +<br /> + +<br /> + +Sancha (Infante Dona), irmã del-Rei de Portugal D. Affonso +II recebe com grande benevolencia em Alanquer aos Santos Martyres de +Marrocos, <a href="#Page_43">pag. 43</a>.<br /> + +<br /> + +Sancho I (D.) de Portugal, onde, e quando morreo, <a href="#Page_17">pag. +17</a>.<br /> + +<br /> + +Sytimos. Lugar distante uma legoa de Alcacere foi a parte onde se +alojaram os Reis Mouros que vinham soccorrer o seu Castello, <a href="#Page_33">pag. 33</a>.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>T</h2> + +<br /> + +<br /> + +Tareja (Rainha Dona) com sua irmã Dona Sancha se recolhem ao +Castello de Monte mór, e se queixam ao Papa Innocencio III +da tyrania +com que seu irmão D. Affonso II lhe negava as terras que +lhes deixara +seu pai D. Sancho I, <a href="#Page_23">pag. 23</a>. +É soccorrida por seus dous +irmãos D. Pedro e D. Fernando em Monte mór contra +D. Affonso II, <a href="#Page_23">pag. 23</a>. Do +modo +com que se concertou com seu irmão, <a href="#Page_27">pag. +27</a>.<br /> + +<br /> + +Tregoa. Em que anno foi celebrada entre D. Affonso II, e suas +irmãs Dona Tareja e Dona Sancha, <a href="#Page_26">pag. +26</a>.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a id="Page_67" name="Page_67">[67]</a></span> +<h2>V</h2> + +<br /> + +<br /> + +Valença do Minho é tomada pelos Infantes D. Pedro +e D. Fernando em odio de seu irmão D. Affonso II negar as +terras a suas +irmãs que lhe deixára seu pai D. Sancho I, <a href="#Page_24">pag. +24</a>.<br /> + +<br /> + +Vitoria do Campo de Alcacere em que dia, e anno se alcançou, +<a href="#Page_38">pag. 38</a>.<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">FINIS LAUS DEO<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h1>INDICE DOS CAPITULOS</h1> + +<br /> + +<br /> + +<a href="#CAPITULO_I">I--Como o Ifante Dom Affonso foi +alevantado por Rei, e como foi cazado, e com quem, e que filhos +legitimos houve</a><br /> + +<br /> + +<a href="#CAPITULO_II">II--Das desavenças que +houve antre El Rei D. Affonso, e as +Ifantes suas irmãs, e da guerra que sobre esso se moveo</a><br /> + +<br /> + +<a href="#CAPITULO_III">III--Como foi pelo Papa procedido +contra El-Rei D. Affonso por causa da +contenda que havia com suas irmãs, e como finalmente foram +concordados</a><br /> + +<br /> + +<a href="#CAPITULO_IV">IV--Do fundamento que houve para +Alcacere do Sal, que era de Mouros, +ser cercado, e tomado dos Christãos, e do Bispo de Lisboa +principalmente</a><br /> + +<br /> + +<a href="#CAPITULO_V">V--Como Alcacere foi cercado, e com +que numero de gente Portuguezes e +tambem Estrangeiros</a><br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a id="Page_70" name="Page_70">[70]</a></span><a href="#CAPITULO_VI"> +VI--Dos Reis Mouros que vieram por soccorro da Villa de Alcacere, e da +primeira batalha que deram, em que foram vitoriosos</a><br /> + +<br /> + +<a href="#CAPITULO_VII">VII---Da segunda batalha que houve +sobre Alcacere, e como os Reis +Mourosforam vencidos, e feito grande estrago em suas gentes</a><br /> + +<br /> + +<a href="#CAPITULO_VIII">VIII--Como os +Christãos combateram e tomaram o Castello +Dalcacere</a><br /> + +<br /> + +<a href="#CAPITULO_IX">IX--Como cinco Frades Italianos da +Ordem de S. Francisco foram a +Marrocos a prégar a Fé de Christo, e +primeiramente chegaram a Sevilha, que era de Mouros</a><br /> + +<br /> + +<a href="#CAPITULO_X">X--Como os Frades chegaram a caza do +Ifante Dom Pedro, e do que logo +fizeram, e como foram tornados a Ceyta para virem a terra dos +Christãos, e dahi se volveram outra vez a Marrocos</a><br /> + +<br /> + +<a href="#CAPITULO_XI">XI--De um milagre que se fez por +causa de Frei Berardo, e como foram +prezos e atormentados os outros Frades</a><br /> + +<br /> + +<a href="#CAPITULO_XII">XII--Como El-Rei de Marrocos +fallou com estes Frades, e por os +não poder converter a sua seita por si mesmo os matou, e +como foram mortos tambem Pedro Fernandes, e Martim Affonso Telo, +sobrinho do Ifante</a><br /> + +<br /> + +<a href="#CAPITULO_XIII">XIII--Como os corpos dos Martyres +foram queimados, e +despedaçados, e emfim recolhidos por +devação, e industria do +Ifante Dom Pedro</a><br /> + +<a href="#CAPITULO_XIV"><br /> + +XIV--Como o Ifante D. Pedro foi tornado a Espanha, e trouxe consigo os +ossos, e Reliquias dos Martyres, e as mandou a Santa Cruz de Coimbra, e +dos milagres que houve no caminho</a><br /> + +<br /> + +<span class="pagenum"><a id="Page_71" name="Page_71">[71]</a></span> +<a href="#CAPITULO_XV">XV--Como as Reliquias dos Martyres +foram recebidas, e como foi a morte +da Rainha Dona +Orraca, +molher del-Rei D. Affonso, e das cousas que +foram vistas<br /> + +<br /> + +</a><a href="#CAPITULO_XVI">XVI--Como Santo Antonio +por +exemplo destes Martyres tomou o habito +de S. Francisco, e do que seguio em Marrocos por milagre, e da +morte del-Rei Dom Affonso</a><br /> + +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's Chronica de El-Rey D. Affonso II, by Rui de Pina + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK CHRONICA DE EL-REY D. AFFONSO II *** + +***** This file should be named 22826-h.htm or 22826-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/2/8/2/22826/ + +Produced by Manuela Alves and Rita Farinha (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +http://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. Of course, we hope that you will support the Project +Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by +freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of +this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with +the work. You can easily comply with the terms of this agreement by +keeping this work in the same format with its attached full Project +Gutenberg-tm License when you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in +a constant state of change. If you are outside the United States, check +the laws of your country in addition to the terms of this agreement +before downloading, copying, displaying, performing, distributing or +creating derivative works based on this work or any other Project +Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning +the copyright status of any work in any country outside the United +States. + +1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: + +1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate +access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently +whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the +phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project +Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed, +copied or distributed: + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + +1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. However, if you provide access to or +distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than +"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version +posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org), +you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a +copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon +request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other +form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm +License as specified in paragraph 1.E.1. + +1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, +performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works +unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. + +1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing +access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided +that + +- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from + the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method + you already use to calculate your applicable taxes. The fee is + owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he + has agreed to donate royalties under this paragraph to the + Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments + must be paid within 60 days following each date on which you + prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax + returns. Royalty payments should be clearly marked as such and + sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the + address specified in Section 4, "Information about donations to + the Project Gutenberg Literary Archive Foundation." + +- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies + you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he + does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm + License. You must require such a user to return or + destroy all copies of the works possessed in a physical medium + and discontinue all use of and all access to other copies of + Project Gutenberg-tm works. + +- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any + money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the + electronic work is discovered and reported to you within 90 days + of receipt of the work. + +- You comply with all other terms of this agreement for free + distribution of Project Gutenberg-tm works. + +1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm +electronic work or group of works on different terms than are set +forth in this agreement, you must obtain permission in writing from +both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael +Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the +Foundation as set forth in Section 3 below. + +1.F. + +1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable +effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread +public domain works in creating the Project Gutenberg-tm +collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic +works, and the medium on which they may be stored, may contain +"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or +corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual +property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a +computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by +your equipment. + +1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right +of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project +Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project +Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all +liability to you for damages, costs and expenses, including legal +fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT +LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE +PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE +TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE +LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR +INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH +DAMAGE. + +1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a +defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can +receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a +written explanation to the person you received the work from. If you +received the work on a physical medium, you must return the medium with +your written explanation. The person or entity that provided you with +the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a +refund. If you received the work electronically, the person or entity +providing it to you may choose to give you a second opportunity to +receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy +is also defective, you may demand a refund in writing without further +opportunities to fix the problem. + +1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth +in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER +WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO +WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. + +1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied +warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages. +If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the +law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be +interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by +the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any +provision of this agreement shall not void the remaining provisions. + +1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit http://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including checks, online payments and credit card donations. +To donate, please visit: http://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> + + + +</html> diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize +this eBook outside of the United States should confirm copyright +status under the laws that apply to them. diff --git a/README.md b/README.md new file mode 100644 index 0000000..af91a91 --- /dev/null +++ b/README.md @@ -0,0 +1,2 @@ +Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for +eBook #22826 (https://www.gutenberg.org/ebooks/22826) |
