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authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 01:54:23 -0700
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+Project Gutenberg's A Invenção do Dia Claro, by José de Almada Negreiros
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Invenção do Dia Claro
+
+Author: José de Almada Negreiros
+
+Release Date: September 29, 2007 [EBook #22801]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A INVENÇÃO DO DIA CLARO ***
+
+
+
+
+Produced by Vasco Salgado
+
+
+
+
+OLISIPO
+
+
+
+
+TODOS OS DIREITOS RESERVADOS
+
+
+
+
+[Nota do Transcritor: Aqui surge a assinatura do autor.]
+
+
++A INVENÇÃO
+DO DIA CLARO+
+
+
+Escripta de uma só maneira para todas as espécies de orgulho,
+seguida das démarches para a Invenção e acompanhada das confidencias
+mais intimas e geraes.
+
+Ensaios para a iniciação de portuguezes na revelação da pintura
+
+Com um retrato do autor por elle-proprio
+
+
+primeiro milhar
+
+
+LISBÔA
+"OLISIPO", APARTADO 145
+
+1921
+
+
+
+
+ NOUS SAVONS DONNER NOTRE VIE TOUTE ENTIÉRE TOUS LES JOURS.
+ BÉNNISSONS LA VIE!
+ SALUONS LA NAISSANCE DU TRAVAIL NOUVEAU.
+ LE MONDE N'A PAS D'ÂGES, L'HUMANITÉ SE DÉPLACE TOUT SIMPLEMENT.
+ JE NE SUIS PAS PRISONNIER DE MA RAISON.
+ DIEU FAIT MA FORCE ET JE LOUE DIEU.
+ SPLENDEURS DES VILLES.
+ POINT DE CANTIQUE--TENIR TOUJOURS LE PAS GAGNÉ.
+
+
+ _Rimbaud_
+
+
+
+
+[Nota do Transcritor: Aqui surge o retrato do autor por ele próprio.]
+
+
+
+
+AO
+
+MEU AMIGO
+
+FERNANDO AMADO
+
+
+
+
+
++O LIVRO+
+
+
+Entrei numa livraria. Puz-me a contar os livros que ha para
+ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para
+metade da livraria.
+
+Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa,
+senão estou perdido.
+
+No entanto, as pessoas que entravam na livraria estavam todas
+muito bem vestidas de quem precisa salvar-se.
+
+ * * * * *
+
+Comprei um livro de filosofia. Filosofia é a sciencia que trata
+da vida; era justamente do que eu necessitava--pôr sciencia na minha
+vida.
+
+Li o livro de filosofia, não ganhei nada, Mãe! não ganhei nada.
+
+Disseram-me que era necessario estar já iniciado, ora eu só
+tenho uma iniciação, é esta de ter sido posto neste mundo á imagem
+e semelhança de Deus. Não basta?
+
+ * * * * *
+
+Imaginava eu que havía tratados da vida das pessoas, como
+ha tratados da vida das plantas, com tudo tão bem explicado, assim
+parecidos com o tratamento que ha para os animaes domesticos,
+não é? Como os cavalos tão bem feitos que ha!
+
+Imaginava eu que havia um livro para as pessoas, como ha
+hostias para cuidar da febre. Um livro com tanta certeza como uma
+hostia. Um livro pequenino, com duas paginas, como uma hostia.
+Um livro que dissesse tudo, claro e depressa, como um cartaz, com
+a morada e o dia.
+
+ * * * * *
+
+Não achas, Mãe? Por exemplo. Ha um cão vadio, sujo e com fome,
+cuida-se deste cão e ele deixa de ser vadio, deixa de estar
+sujo e deixa de ter fome. Até as crianças já lhe fazem festas.
+
+Cuidaram do cão porque o cão não sabe cuidar de si--não saber
+cuidar de si é ser cão.
+
+Ora eu não queria que cuidassem de mim, mas gostava que me
+ajudassem, para eu não estar assim, para que fosse eu o dono
+de mim, para que os que me vissem dissessem: Que bem que aquele
+soube cuidar de si!
+
+ * * * * *
+
+Eu queria que os outros dissessem de mim: Olha um homem! Como se
+diz: Olha um cão! quando passa um cão; como se diz: olha uma
+arvore! quando ha uma arvore. Assim, inteiro, sem adjectivos,
+só de uma peça: Um homem!
+
+ * * * * *
+
+Mas eu andei a procurar por todas as vidas uma para copiar
+e nenhuma era para copiar.
+
+Como o livro, as pessoas tinham principio, meio e fim. A principio
+o livro chamava-me, no meio o livro deu-me a mão, no fim fiquei
+com a mão suada do livro de me ter estendido a mão.
+
+Talvez que nos outros livros... mas os titulos dos livros são
+como os nomes das pessoas--não quere dizer nada, é só para não
+se confundir...
+
+ * * * * *
+
+Na montra estava um livro chamado «O lial conselheiro». Escrito
+antigamente por um Rei dos Portuguezes! Escrito de uma só
+maneira para todas as especies de seus vassalos!
+
+Bemdito homem que foi na verdade Rei! O Mestre que quere que eu
+seja Mestre!
+
+Eu acho que todos os livros deviam chamar-se assim: «O lial
+conselheiro»! Não achas, Mãe?
+
+O Mestre escreveu o que sabia--por isso ele foi Mestre. As palavras
+tornaram presentes como o Mestre fazia atenção. Estas palavras
+ficaram escritas por causa dos outros tambem. Os outros aprendiam
+a ler para chegarem a Mestres--era com esta intenção que se
+aprendia a ler antigamente.
+
+ * * * * *
+
+Sonhei com um paíz onde todos chegavam a Mestres. Começava
+cada qual por fazer a caneta e o aparo com que se punha á
+escuta do universo; em seguida, fabricava desde a materia prima o
+papel onde ia assentando as confidencias que recebia directamente
+do universo; depois, descia até ao fundo dos rochedos por causa da
+tinta negra dos chócos; gravava letra por letra o tipo com que compunha
+as suas palavras; e arrancava da arvore a prensa onde apertava
+com segurança as descobertas para irem ter com os outros. Era
+assim que neste país todos chegavam a Mestres. Era assim que
+os Mestres iam escrevendo as frases que hão-de salvar a humanidade.
+
+ * * * * *
+
+Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já
+estavam todas escritas, só faltava uma coisa--salvar a humanidade.
+
+
+
+
+ --O pequeno é como o grande.
+ --O que está em cima é analogo ao que está em baixo.
+ --O interior é como o exterior das coisas.
+ --Tudo está em tudo.
+
+
+ HERMES TRIMEGISTA
+
+
+
+
+
++I PARTE+
+
++ANDAIMES E VÉSPERAS+
+
+
+
+
++A CONFERENCIA IMPROVISADA+
+
+
+Minhas Senhoras e meus Senhores:
+
+Mulheres e homens são as duas metades da humanidade--a metade
+masculina e a metade feminina.
+
+Ha coisas inteiras feitas de duas metades e aonde não se pode
+cortar ao meio para separar essas duas metades. Exemplo: a humanidade
+com a metade masculina e a metade feminina. São duas metades
+que deixam, cada uma, de ser uma metade se não houver a outra metade.
+
+A linha que passa por entre estas duas metades é parecidissima
+com o ar por dentro de uma esponja do mar, sêca.
+
+
+
+
++ÁCERCA DO HOMEM E DA MULHER+
+
+
+Lembro-me de uma oleografia que havia em minha casa. A
+oleografia estava cheia de amarello do Deserto. O amarello do Deserto
+era mais comprido do que a vida de um homem se não fôsse o
+galope do cavallo onde o arabe rapta a menina loira.
+
+Na oleografia havia uma palmeira. A palmeira era tão pequena
+como a esmeralda do anel da menina loira. A palmeira era
+assim tão pequena porque estava muitissimo longe.
+
+Era em direcção à palmeira que ía a correr o cavallo.
+
+
+Havia outra oleografia quando já tinham chegado à sombra
+da palmeira. O cavallo estava como morto por terra. O arabe, êsse,
+ainda nunca tinha estado cançado--tinha a menina loira nos braços,
+como a esmeralda estava no anel.
+
+Eram trez as oleografias. Na terceira oleografia estava sósinha
+a menina loira a dar de mamar a um menino verdadeiro.
+
+
+
+
++ÁCERCA DAS TRES OLEOGRAFIAS+
+
+
+Estas trez oleografias explicam muito bem como se pode ser
+senhora e como se deve ser homem. As senhoras como a menina
+loira. Os homens como o arabe.
+
+Um homem--saber raptar; uma senhora--merecer ser raptada.
+
+Exemplo de homem que soube raptar: o arabe. Exemplo de senhora
+que mereceu ser raptada: a menina loira da oleografia.
+
+Ser o arabe para desencantar a menina loira; ser a menina
+loira para que haja o arabe.
+
+
+
+
++ATENÇÃO+
+
+
+Mas não fallêmos sem alicerces. Nós não estamos algúres.
+
+Nós estamos aqui dentro d'esta sala, onde eu estou a dizer
+a conferencia--o chão, o tecto, e quatro paredes. Vocês e eu.
+
+Para nos orientarmos melhor, aqui onde estou fica sendo o
+Norte, lá no fundo da sala o Sul, Éste ali e Oéste d'aquelle lado.
+
+Que isto fique assim bem combinado entre nós, de tal maneira
+que, quando eu chamar Sul aqui ao logar onde estou, vocês
+se levantem, protestem, e digam que não, que o Sul é lá no fundo
+da sala.
+
+
+
+
++AS PALAVRAS+
+
+
+O preço de uma pessôa vê-se na maneira como gosta de usar as
+palavras. Lê-se nos olhos das pessôas. As palavras dançam nos
+olhos das pessôas conforme o palco dos olhos de cada um.
+
+
+
+
++VIAGENS DAS PALAVRAS+
+
+
+As palavras teem moda. Quando acaba a moda para umas começa a
+moda para outras. As que se vão embora voltam depois. Voltam
+sempre, e mudadas de cada vez. De cada vez mais viajadas.
+
+Depois dizem-nos adeus e ainda voltam depois de nos terem dito
+adeus. Emfim--toda essa tournée maravilhosa que nos põe a
+cabeça em agua até ao dia em que já sômos nós quem dá corda
+ás palavras para ellas estarem a dançar.
+
+
+
+
++HISTORIA DAS PALAVRAS+
+
+
+As mulheres e os homens estavam espalhados pela Terra. Uns estavam
+maravilhados, outros tinham-se cançado. Os que estavam maravilhados
+abriam a bocca, os que se tinham cançado tambem abriam a bocca. Ambos
+abriam a bocca.
+
+Houve um homem sósinho que se poz a espreitar esta diferença--havia
+pessoas maravilhadas e outras que estavam cançadas.
+
+Depois ainda espreitou melhor: Todas as pessoas estavam maravilhadas,
+depois não sabiam aguentar-se maravilhadas e ficavam cançadas.
+
+As pessoas estavam tristes ou alegres conforme a luz para cada um--mais
+luz, alegres--menos luz, tristes.
+
+O homem sósinho ficou a pensar n'esta diferença. Para não esquecer
+fez uns signaes n'uma pedra.
+
+Este homem sósinho era da minha raça--era um Egypcio!
+
+Os signaes que elle gravou na pedra para medir a luz por dentro das
+pessôas, chamaram-se hieroglifos.
+
+Mais tarde veiu outro homem sósinho que tornou estes signaes
+ainda mais faceis. Fez vinte e dois signaes que bastavam para
+todas as combinações que ha ao Sol.
+
+Este homem sósinho era da minha raça--era um Phenicio!
+
+Cada um dos vinte e dois signaes era uma lettra. Cada combinação
+de lettras uma palavra.
+
+
+
+
++CENTENARIO DAS PALAVRAS+
+
+
+Todos os dias faz annos que foram inventadas as palavras.
+
+É preciso festejar todos os dias o centenario das palavras.
+
+
+
+
++VALOR DAS PALAVRAS+
+
+
+Ha palavras que fazem bater mais depressa o coração--todas
+as palavras--umas mais do que outras, qualquer mais do que
+todas. Conforme os logares e as posições das palavras. Segundo o
+lado d'onde se ouvem--do lado do Sol ou do lado onde não dá o Sol.
+
+Cada palavra é um pedaço do universo. Um pedaço que faz falta
+ao universo. Todas as palavras juntas formam o Universo.
+
+
+As palavras querem estar nos seus logares!
+
+
+
+
++NÓS E AS PALAVRAS+
+
+
+Nós não somos do seculo d'inventar as palavras. As palavras
+já foram inventadas. Nós somos do seculo d'inventar outra vez as
+palavras que já foram inventadas.
+
+
+
+
++AS PALAVRAS E EU+
+
+
+Gásto os dias a experimentar logares e posições para as palavras.
+É uma paciencia de que eu gósto. É o meu gôsto.
+
+Tudo se passa aqui pelas palavras--todos os gôstos.
+
+
+Collei algumas d'estas paciencias com palavras. São estas as
+palavras que trago aqui. Ainda não estão promptas--são pedaços
+de coisas, aqui e alli, como um rapaz novo, como uma rapariga
+nova. Como os cavallos quando ainda são petizes--vê-se já que se
+trata de um cavallo, mas tambem se vê que ainda não está concluido.
+As pernas cresceram mais depressa do que a espinha. A cabeça
+muito grande é que já está do tamanho em que ha-de ficar. Tudo
+se aguenta de pé provisoriamente--ainda não está prompto, vê-se
+perfeitamente que ainda não é tudo.
+
+
+
+
+Agarrei uma mancheia de palavras e espalhei-as em cima da
+meza. Ficaram n'esta posição:
+
+
+
+
++PARABOLA+
+
+
+A humanidade abriu alas--as duas grandes alas da humanidade.
+Uma á direita, a outra á esquerda. Em baixo a Terra, em
+cima o Sol.
+
+
+Vae acontecer qualquer coisa--os que passam vão mais depressa,
+os outros já estão á espreita.
+
+
+As duas grandes alas da humanidade lá estão as duas em frente
+uma da outra. Não levantem os braços! não virem as cabeças!
+
+Em baixo a Terra, em cima o Sol!
+
+Ainda não chegou o homem-que-sabe-viver!
+
+As duas grandes alas da humanidade querem ver com olhos
+da cara o homem-que-sabe-viver!
+
+As duas grandes alas da humanidade não querem senão ver
+com os olhos da cara o homem-que-sabe-viver!
+
+Em baixo a Terra, em cima o Sol!
+
+
+Jesus-Christo desce sósinho por entre as duas grandes alas
+da humanidade. As duas grandes alas da humanidade estendem os
+braços para Jesus-Christo.
+
+Uma das duas alas accusa a outra ala, e esta accusa aquella.
+
+
+Jesus-Christo desce sósinho por entre as duas grandes alas
+da humanidade, sem se approximar de uma nem da outra.
+
+
+As duas grandes alas da humanidade.
+
+
+Jesus-Christo acabou de passar por entre as duas grandes alas
+da humanidade, sem se ter approximado de uma nem da outra.
+
+
+As duas grandes alas da humanidade.
+
+
+Em baixo a Terra, em cima o Sol.
+
+
+
+
++UMA CRUZ NA ENCRUZILHADA+
+
+
+Quando acabou a parabola, as duas grandes alas da humanidade
+desconjunctaram-se.
+
+Havia uma cruz na encruzilhada.
+
+A cada um que passava dizia o Christo de pedra:
+
+
+«Em vez de ter morrido n'uma cruz, por ti, antes tivesse pegado
+na lança que me abriu o peito, para com ella te rasgar os olhos
+da cara. Para deixar entrar claridade para dentro de ti pelos
+buracos dos teus olhos rasgados.
+
+«Tudo quanto eu te disse ficou escrito e é tudo ainda hoje
+tenho para te dizer.
+
+«Se me fiz crucificar para t'o dizer porque não te deixas crucificar
+para sabêres como eu t'o disse?
+
+«Não posso, por mais que tente, livrar uma das mãos, pregaram-m'as
+bem, como se prega um crucificado; não posso, por mais que tente,
+livrar uma das mãos, para te sacudir a cabeça quando viéres
+ajoelhar-te aqui aos pés da minha cruz.
+
+«Se fôsse o teu orgulho de joelhos, ainda era o teu orgulho,
+mas são as tuas pernas dobradas com o pezo do ar.
+
+«Não tenho uma das mãos livre para te empurrar d'aqui da minha
+cruz até ao teu logar lá em baixo na terra.
+
+«Levanta-te, homem! No dia em que tu nascêste, nasceu no mesmo
+dia um logar para ti, lá em baixo na terra. Esse logar é o
+teu! o teu logar é a tua fortuna! o teu logar é a tua gloria. Não
+deixes o teu logar vazio, nem te deixes pr'áhi sem logar.
+
+«Não te aleijes a procurar outras fortunas que não terás,--ha uma
+só para ti--é a unica que ha para ti, não serve senão para ti, não
+serve para os outros,--é por isto que ella é a tua fortuna!
+
+«Porque viéste ajoelhar-te aqui aos pés da minha cruz? Foi
+porque a tua cabeça se encheu de duvida?...
+
+Tanto melhor! Aproveita agora que tens a duvida dentro da tua
+cabeça, aproveita a sorte de têres a duvida dentro da tua cabeça.
+Não te cances de ter esta sorte!
+
+«Não tenhas mêdo de estares a ver a tua cabeça a ir directamente
+para a loucura, não tenhas mêdo! Deixa-a ir até á loucura!
+ajuda-a a ir até á loucura. Vae tu tambem pessoalmente, co'a tua
+cabeça até á loucura! Vem ler a loucura escripta na palma da tua
+mão. Fecha a tua mão, com força. Agarra bem a loucura dentro da
+tua mão!
+
+«Senão... se tens mêdo da duvida e te pões a fugir d'ella por
+môr da loucura que já está á vista, se não começas desde já a
+desbastar a fantasia que cresceu no logar marcado para ti, lá em
+baixo na terra; se não pretendes transformar essa fantasia em
+imaginação tranquilla e creadora...
+
+... um dia a loucura virá plo seu proprio pé bater á tua porta, e
+tu, desprevenido, e tu sem mãos para a esganar, porque a loucura
+já será maior do que na palma da tua mão, porque a loucura será
+maior do que as tuas mãos, porque a loucura poderá mais do que tu
+com as tuas mãos; e ella fará de ti o pior de todos, por não teres
+sabido servir-te d'ella como tu devias sabe-lo querer!
+
+
+
+
++FIM DE DIA+
+
+
+Um por um, toda a humanidade ouviu a Cruz da encruzilhada, e a
+cada um parecia-lhe reconhecer aquelle modo de fallar.
+
+
+Havia oliveiras á beira da estrada para a gente se encostar.
+
+
+Antes de cada um chegar a casa havia um chafariz para matar a sêde.
+
+Eu não sabia que o chafariz tinha tanto que vêr--havia muitos
+soldados por causa das raparigas a encher as bilhas!
+
+Depois o Sol começou a ficar muito encarnado e cada vez maior
+por detraz das dunas, muito encarnado, e deixou-me sósinho em
+cima do muro.
+
+Do lado do mar ouvia-se uma nóra a puxar agua. O boi tinha
+os olhos guardados para não entontecer. Os alcatruzes da nóra
+subiam por um lado e desciam plo outro lado--como hontem!
+
+A musica da nóra só tem uma volta. Todos os dias. Ámanhã
+tambem, os alcatruzes da nóra vão subir por aqui e descer por
+lá. Todos os dias. Em baixo a Terra, em cima o Sol.
+
+
+Quando olharam para traz, a Cruz da encruzilhada já estava muito
+longe. Era necessario acertar a vista para a reconhecer. Mas, era
+sem duvida ella, a cruz inconfundivel--aquella onde cabe um
+homem inteiro e de pé!
+
+
++FIM DA PRIMEIRA PARTE+
+
+
+
+
+
++CONFIDENCIAS+
+
+
+Mãe! a oleografia está a entornar o amarello do Deserto por cima da
+minha vida. O amarello do Deserto é mais comprido do que um dia todo!
+
+Mãe! eu queria ser o arabe! Eu queria raptar a menina loira! Eu queria
+saber raptar.
+
+Dá-me um cavallo, mãe! Até á palmeira verde esmeralda! E o anel?!
+
+
+A minha cabeça amollece ao sol sobre a areia movediça do Deserto! A
+minha cabeça está molle como a minha almofada!
+
+Ha uns signaes dentro da minha cabeça, como os signaes do Egypcio,
+como os signaes do Phenicio. Os signaes d'estes já teem antecedentes
+e eu ainda vou para a vida.
+
+
+Não ha muros para que haja estrada! Não ha muros para pôr cartazes! Não
+está a mão de tinta preta a apontar--por aqui!
+
+Só ha sombra do Sol nas larangeiras da outra margem; e todas as noites
+o somno chega roubado!
+
+
+Mãe! As estrellas estão a mentir. Luzem quando mentem. Mentem quando
+luzem. Estão a luzir, ou mentem?
+
+Já ia a cuspir para o ceu!
+
+
+Mãe! a minha estrella é doida! Coube-me nas sortes a Estrella-doida!
+
+
+Mãe! dá-me um cavallo! Eu já sou o gallope! Ha uma palmeira, Mãe!
+O que quer dizer um anel? Tem uma esmeralda.
+
+
+Mãe! eu quero ser as trez oleografias!
+
+ * * * * *
+
+Mãe!
+
+Em cima das estatuas está o verbo ganhar, Mãe! será para mim?
+
+Quando passo pelas estatuas fico parado. A olhar para cima das
+estatuas. Fico parado a subir. Não sei quem me agarra para me
+levantar ao ar. Agarram-me por debaixo dos braços para me levantar
+ao ar. Para eu ver o verbo ganhar em cima das estatuas.
+
+ * * * * *
+
+Mãe! eu não sei nada! Eu não me lembro de nada!
+
+
+Ah! lembro-me!
+
+Lembro-me de ter ajudado a levar pedras para as pyramides do Egypto!
+
+Tambem me lembro de me ter chamado José, antigamente, com meus irmãos
+e uma mulher!
+
+
+Mãe!
+
+Estou a lembrar-me! Tu já fôste a menina loira! Eu já fui o menino
+verdadeiro a quem tu davas de mamar! Eu já estive comtigo na terceira
+oleografia!
+
+Lembro-me exactamente! Quando tu me beijavas, o sol não doía tanto
+na minha pelle!
+
+
+Mãe!
+
+Estou a lembrar-me!
+
+E as tardes quando iamos todos juntos soltar palavras no caes e vêr
+chegar mais laranjas!
+
+Outras vezes juntavamo-nos na praia para nadar melhor do que os
+outros e deixar o sol queimar quem mais merecêsse. Já as laranjas
+estavam contentes com o que chegasse primeiro! O melhor jovem ganhava
+a melhor rapariga. Os outros sabiam aquella que tinham ganhado. Eu
+tinha ganho a minha!
+
+
+De uma vez, quando deixavamos o caes, entornou-se o cêsto das
+tangerinas. Foi a alegria! E uma das raparigas pôz-se a cantar
+o succedido ás tangerinas a rolar pró mar:
+
+
+ tam
+ tam-tam
+ tanque
+ estanque
+ tangerina bola
+ tangerina boia
+ tangerina ina
+ tangerininha
+ pacote rôto
+ batuque nú
+ quintal da nóra
+ e o dique
+ e o Duque
+ e o acqueducto
+ do Cúco
+ Rei Carmim
+ e tamarindos
+ e amarellos
+ de Mahomet
+ alli
+ e lá
+ e acolá
+ ...
+
+ * * * * *
+
+Mãe!
+
+Vem ouvir a minha cabeça a contar historias ricas que ainda não
+viageie. Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta
+côr de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!
+
+Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
+
+Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de
+viagens! Eu vou viajar. Tenho sêde! Eu prometo saber viajar.
+
+
+Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu
+vou aprender de cór os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me
+a teu lado. Tu a cosêres e eu a contar-te as minhas viagens, aquellas
+que eu viagei, tão parecidas com as que não viagei, escritas ambas
+com as mesmas palavras.
+
+Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado!
+Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a meza. Eu tambem
+quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa
+casa, como a meza.
+
+
+Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
+
+Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!
+
+
+
+
+
++II PARTE+
+
++A VIAGEM
+
+OU
+
+O QUE NÃO SE PODE PREVÊR+
+
+
+
+
+ A Eternidade existe mas não tão devagar!
+
+ (QUADRADO AZUL, 1917).
+
+
+
+
++PARIS E EU+
+
+
+Um dia foi a minha vez de ir a Paris. Foi necessario um passaporte.
+Pediram a minha profissão. Fiquei atrapalhado! Pensei um pouco para
+responder verdade e disse a verdade: Poeta!
+
+Não acceitaram.
+
+
+Tambem pediram o meu estado. Fiquei atrapalhado. Pensei um pouco
+para responder verdade e disse a verdade: Menino!
+
+Tambem não acceitaram.
+
+E para ter o passaporte tive de dizer o que era necessario para
+ter o passaporte, isto é--uma profissão que houvésse! e um estado
+que houvésse!
+
+
+
+
++PARTIDA PARA PARIS+
+
+
+Á despedida os vizinhos deram-me o melhor conselho: Juizo!
+
+
+
+
++PARIS+
+
+
+Em Paris é tudo de carne e osso,--O Sacré-Coeur, O Sêna e a Torre
+Eiffel--as casas, as pessoas, os domingos e os outros dias.
+
+Ha em Paris uma Rocha Tarpeia que não é feita de rocha, é feita
+de domingos e dos outros dias.
+
+
+
+
++EU+
+
+
+Quando digo Eu não me refiro apenas a mim mas a todo aquelle que
+coubér dentro do geito em que está empregado o verbo na primeira
+pessôa.
+
+
+
+
++LIBERDADE+
+
+
+Quando entrei na cidade fiquei sósinho no meio da multidão.
+
+Em redor as portas estavam abertas. A multidão entrava naturalmente
+pelas portas abertas. Por cima das portas havia tabolêtas onde
+estava collada aquella palavra que sóbe--Liberdade!
+
+Entrei por uma porta. Entrei como uma farpa!
+
+Era uma ratoeira, Mãe! era uma ratoeira! Se eu tivesse entrado
+como uma agulha podia ter sahido como uma agulha, mas entrei como
+uma farpa, fiz sangue verdadeiro, já não me esquece. Aconteceu
+exactamente. Dei um mau geito nos rins por causa da ratoeira! Ainda
+me lembro da palavra--Liberdade!
+
+
+Mãe! Vou contar-te como foi.
+
+Havia dois vazos iguaes. Um tinha um licor bonito. O outro
+parecia ter agua simples. Um tinha a felicidade, o outro não tinha
+a felicidade. Era á sorte. A casa estava cheia de gente. Ninguem
+queria ser o primeiro a começar.
+
+
+Depois, começaram a beber o licor. Diziam coisas tão felizes! Coisas
+quentes que enchem a cabeça toda e deixam os olhos escancarados! Eu
+vi-os, Mãe! estavam a augmentar a olhos vistos, juro-te!
+
+Os que beberam do outro vazo não divertiam ninguem. Iam-se logo
+embora. E ninguem já se lembrava d'elles.
+
+Só ficaram os que gostavam do licor. Eu fiquei com estes. Eu tambem
+bebi do licor. Não imaginas, Mãe! nunca subi tão alto! Ainda mais
+alto do que o verbo ganhar!
+
+
+Havia uma rã que tinha entrado comigo ao mesmo tempo. A rã tambem
+estava a augmentar.
+
+Depois, quando já estava quasi do tamanho de um boi, a rã
+estoirou. Coitada! Como antigamente, em latim.
+
+Então, puz-me logo a escorregar desde lá de cima, até aonde
+eu já tinha amarinhado; desde mais alto do que o verbo ganhar.
+
+A escorregar, a ser necessario escorregar, a querer por força
+escorregar, a custar immenso escorregar, a fazer doer escorregar, a
+escorregar.--O verbo desinchar!
+
+O verbo desinchar dura muito tempo. No fim do verbo desinchar
+é outra vez a terra, cá em baixo.
+
+
++FIM DA SEGUNDA PARTE+
+
+
+
+
+
++CONFIDENCIAS+
+
+
+Mãe! doe-me o peito. Bati com o peito contra a estatua que tem em
+cima o verbo ganhar. Ainda não sei como foi. Eu ia tão contente! eu
+ia a pensar em ti e no verbo saber e no verbo ganhar. Estava tudo
+a ser tão facil! Já estava a imaginar a tua alegria quando eu voltásse
+a casa com o verbo saber e o verbo ganhar, um em cada mão!
+
+Doe-me muito o peito, Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
+
+
+Mãe!
+
+Já não volto á cidade sem ir comtigo! para a cidade ser bonita. Irmos
+os dois juntos de braço-dado, e andarmos assim a passear; para ver
+como tudo està pôsto na cidade por causa de ti e de mim e por causa
+dos outros que andam de braço-dado.
+
+
+Mãe! dize essa metade que tu sabes do que é necessario saber, dize
+essa metade que tu sabes tão bem! para eu pensar na outra metade.
+
+Se não houvésse senão homens e saltimbancos eu ia buscar a outra
+metade, mas os saltimbancos estão vestidos como os homens, e os
+homens estão vestidos como os saltimbancos, ambos estão vestidos
+de uma só maneira, não sei quaes são os homens nem os saltimbancos,
+elles tambem não o sabem,--não ha senão losangos de arlequim!
+
+
+Mãe!
+
+Quando eu vinha para casa a multidão ia na outra direcção. Tive de
+me fazer ainda mais pequeno e escorregadío, para não ir na onda.
+
+Perguntei para onde iam tão unidos, assim, com tanto balanço.
+Responderam-me: Para deante! para a frente!
+
+Iam para deante! iam para a frente!
+
+Fiquei a pensar na multidão.
+
+
+O meu anjo da guarda disse-me: Prompto! A multidão já passou, levou um
+quarto d'hora a passar. A multidão não é senão aquillo que levou um
+quarto d'hora a passar. Prompto! já está vista! anda d'ahi!
+
+
+O meu anjo da guarda está sempre dizer-me: De que estás á espera? Vá,
+anda! Começa já! Começa já a cuidar da tua presença!
+
+Não sei o que o meu anjo da guarda quer que eu advinhe em taes palavras.
+
+Outras vezes, o meu anjo da guarda pede-me para que seja eu o anjo da
+guarda d'elle.
+
+
+Mãe!
+
+Hoje acordei todo virado para deante. Assim, como tu o compreendes,
+Mãe!
+
+Vi as coisas do ar que havia, as coisas que estavam focadas com o ar
+de hoje. As lembranças já estão inteiras, muito poucos os minutos falsos.
+
+Fiz todas as horas do Sol e as da sombra. Ao chegar a noite estive de
+accordo com o Sol no que houve desde manhã até ser bastante a luz por
+hoje. Depois veiu o somno. E o somno chegou a horas. Antes do somno
+ainda houve uma imagem--um leão a dormir!
+
+Na verdade, não ha somno mais bem ganho do que o de um leão a dormir
+com restos de sangue ainda no focinho, como os leões de pedra que ha
+nas escadarias por onde se sobe depois da batalha!
+
+
+
+
+
++RETRATO DA ESTRELLA QUE GUIOU O FILHO PRODIGO NA VOLTA Á CASA PATERNA+
+
+
+Na praia uma menina perguntou-me se eu era rico. Estava de gatas e
+muito longe, a perguntar-me se eu era rico.
+
+ * * * * *
+
+Todas as manhãs ia brincar com os vizinhos para a sombra da egreja.
+Depois do almoço a sombra era do outro lado.
+
+ * * * * *
+
+Quando as meninas corriam no jardim, os cabellos e os vestidos ficavam
+para traz.
+
+ * * * * *
+
+A rapariga das laranjas tinha uma linda voz para vender laranjas. As
+pessoas ficavam co'as laranjas na mão a ouví-la.
+
+ * * * * *
+
+A larangeira ao pé da nóra já me conhecia--punha-se a fingir que era
+o vento que a fazia mexer.
+
+ * * * * *
+
+Acho mais sinceros os dias de chuva. Nos dias em que chove ponho­me
+a pensar que não sou eu só que vivo arreliado. Depois, o cheiro da
+terra molhada é que me faz de novo animar.
+
+ * * * * *
+
+Ás vezes ponho-me a pensar em coisas que eu nunca vi. Naturalmente
+só ha muito longe, nas outras terras!
+
+ * * * * *
+
+Estou a espera de ser grande para ver se o que eu penso é verdade ou
+não. Se não fôr, mato-me!
+
+ * * * * *
+
+Gósto mais dos bois de barro que dos bois verdadeiros.
+
+ * * * * *
+
+O gabão do jardineiro era forrado d'azul!
+
+ * * * * *
+
+A rosa encarnada cheira a branco.
+
+ * * * * *
+
+Quando vejo o côr-de-rosa parece que se referem a mim.
+
+
+
+
+
++CONFIDENCIAS+
+
+
+Bom-Dia, Mãe!
+
+Bem nos tinham dito!--Espérem! foi o que nos tinham dito. E nós
+esperámos. Ah! que sempre tive a certeza que havia de chegar «o
+descerrar do escuro»! (ANTHERO, Sonetos.)
+
+
+ A eternidade e um instante é a mesma coisa.
+
+ SANTO AGOSTINHO.
+
+
+Bom-Dia, Mãe!
+
+Senta-te ao meu lado, que eu vou contar-te a viagem que eu fiz. Dá­me
+a tua mão para que eu a conte bem!
+
+Dei a volta ao mundo, fiz o itinerario universal. Tudo consta do meu
+diario intimo onde é memoravel a viagem que eu fiz desde e universo até
+ao meu peito quotidiano. Vim de muito longe até ficar dentro do meu
+proprio peito e defendido pelo meu proprio corpo.
+
+Durante a viagem encontrei tudo disposto de antemão para que nunca
+me apartasse dos meus sentidos. E assim aconteceu sempre desde aquelle
+dia inolvidavel em que reparei que tinha olhos na minha propria cara. Foi
+precisamente n'esse dia inolvidavel que eu soube que tudo o que ha no
+universo podia ser visto com os dois olhos que estão na nossa propria
+cara. Não foi, portanto, sem orgulho que constatei que era precisamente
+por causa de cada um de nós que havia o universo.
+
+E assim foi que, todas as coisas que a principio me pareciam tão
+estranhas, começaram logo desde esse dia inolvidavel a dirigirem-se-me
+e a interrogarem-me, quando ainda hontem era eu que lhes preguntava
+tudo. Foi-me facil comprehender que o universo era precisamente o
+resultado de haver quem tivesse olhos na propria cara. Muito maior
+foi o meu orgulho, portanto, quando tive a certeza de que hoje o
+universo esperava anciosamente por cada um de nós. Hontem, cada um
+de nós viajava por todas as partes do universo, com aquelle desejo
+legitimo de se encontrar, e se a viagem demorou mais do que devia
+é porque não seria facil acreditar immediatamente que cada um de nós
+estava, na verdade, em todas as partes do universo. Confesso que não
+pude supôr logo d'entrada que o papel de que seriamos incumbidos cá
+na terra fôsse precisamente o mais importante de todos.
+
+Ainda hontem o universo me parecia um gigante colossal capaz de me
+atropellar sem querer; e emquanto eu procurava a maneira de não
+ficar espesinhado plo gigante, quem poderia, Mãe, ter-me convencido
+de que eramos nós-proprios o gigante?
+
+Todas as coisas do universo aonde, por tanto tempo, me procurei, são
+as mesmas que encontrei dentro do peito no fim da viagem que fiz
+pelo universo.
+
+
+
+
+
++III PARTE+
+
++O REGRESSO
+
+OU
+
+O HOMEM SENTADO+
+
+
+
+
+AO JOAQUIM GRAÇA
+
+
++A FLOR+
+
+ --«Je travaille tant que je peux et le mieux que je peux, toute
+ la journée. Je donne toute ma mesure, tous mes moyens. Et après,
+ si ce que j'ai fait n'est pas bon, je n'en suis plus responsable;
+ c'est que je ne peux vraiement pas faire mieux.»
+
+ _Henri Matisse._
+
+
+Pede-se a uma creança. Desenhe uma flor! Da-se-lhe papel e
+lapis. A creança vae sentar-se no outro canto da sala onde não ha
+mais ninguem.
+
+Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas n'uma
+direcção, outras n'outras; umas mais carregadas, outras mais
+leves; umas mais faceis, outras mais custosas. A creança quiz
+tanta força em certas linhas que o papel quasi que não resistiu.
+
+Outras eram tão delicadas que apenas o pezo do lapis já era demais.
+
+Depois a creança vem mostrar essas linhas ás pessôas: Uma flôr!
+
+As pessôas não acham parecidas estas linhas com as de uma flôr!
+
+Comtudo, a palavra flôr andou por dentro da creança, da cabeça
+para o coração e do coração para a cabeça, á procura das linhas
+com que se faz uma flôr, e a creança pôz no papel algumas d'essas
+linhas, ou todas. Talvez as tivesse pôsto fóra dos seus logares,
+mas, são aquellas as linhas com que Deus faz uma flôr!
+
+
+
+
+ÁCERCA DA PINTURA DE CÉZANNE E DE MATISSE:
+
+
+ «Elle vous donne la sécurité.»
+
+ _Charles Péquin._
+
+
+ _Sécurité_--M. f. (lat. securitas) Confiance, tranquilité d'esprit
+ resultant de l'idée, qu'il n'ya de péril à craindre: l'industrie a
+ besoin de sécurité.
+
+ _Petit Larousse._
+
+
+
+
++A MINHA VEZ+
+
+ Tu separeras la terre du feu, le subtil de l'épais--doucement-­avec
+ grande industrie.
+
+ HERMES TRIMEGISTA
+
+
+O desenho das creanças é como o das pessôas que não sabem desenhar--ambos
+dizem, mas não sabem o que dizem. Não sabem desembaraçar as linhas de
+uma coisa das linhas das outras coisas que veem ao mesmo tempo dentro
+da mesma palavra. A prova é que não são capazes de imitar o que da
+primeira vez lhes escorregou do corpo pela mão para o papel.
+
+Eu-proprio, apenas agora começo a saber recordar o que foram
+os meus desenhos de ha dez e vinte annos, quando fiz uns traços
+em pedaços de papeis que guardaram.
+
+Escuto estes desenhos como a um homem, do campo que diz, sem
+querer, coisas mais importantes do que o que está a contar,
+e que põe tudo á mostra sem dar por isso. Atravez d'estes desenhos
+sigo grafologicamente o meu instincto á espera da minha vontade,--a
+minha querida ignorancia a aquecer ao sol e a transformar-se na
+minha vez cá na terra.
+
+
++FIM DA TERCEIRA PARTE+
+
+
+
+
+
++UMA FRASE QUE SOBEJOU+
+
+
+Quando copiei pela ultima vez a Invenção do Dia Claro, sobejou uma
+frase que não me recordo a que alturas pertence. A frase é esta:
+
+
+Ha systemas para todas as coisas que nos ajudam a saber amar, só
+não ha systemas para saber amar!
+
+
+NOTA--Seguem-se as démarches para a Invenção. Foi-nos completamente
+impossivel incluir na presente edição as démarches. No entanto,
+reproduzimos como specimen a mais antiga de todas para que o leitor
+se convença do seu interesse quotidiano e imediato. N'esta, como
+em todas as outras démarches para a Invenção é flagrante a maneira
+como se representa a fortuna que nos rodeia todos os dias.
+
+
+
+
+
++A VERDADE+
+
+ Je ne crois que les histoires dont les témoins se feraient égorger!
+
+ PENSÉES, PASCAL.
+
+
+Eu tinha chegado tarde á escola. O mestre quiz, por força, saber
+porquê. E eu tive que dizer: Mestre! quando sahi de casa tomei um
+carro para vir mais depressa mas, por infelicidade, deante do carro
+cahiu um cavalo com um ataque que durou muito tempo.
+
+O mestre zangou-se comigo: Não minta! diga a verdade!
+
+E eu tive de dizer: Mestre! quando sahi de casa... minha mãe tinha um
+irmão no extrangeiro e, por infelicidade, morreu hontem de repente e
+nós ficámos de luto carregado.
+
+O mestre ainda se zangou mais comigo: Não minta! diga a verdade!!
+
+E eu tive de dizer: Mestre! quando sahi de casa ... estava a
+pensar no irmão de minha mãe que está no extrangeiro ha tantos
+annos, sem escrever. Ora isto ainda é peor do que se elle tivesse
+morrido de repente porque nós não sabemos se estamos de lucto
+carregado ou não.
+
+Então o mestre perdeu a cabeça comigo: Não minta, ouviu? diga a
+verdade, já lh'o disse!
+
+Fiquei muito tempo calado. De repente, não sei o que me passou
+pela cabeça que acreditei que o mestre queria effectivamente que
+lhe dissesse a verdade. E, creança como eu era, puz todo o pezo
+do corpo em cima das pontas dos pés, e com o coração á solta
+confessei a verdade: Mestre! antes de chegar á Escola ha uma casa
+que vende bonecas. Na montra estava uma boneca vestida de côr­de-rosa!
+Mestre! a boneca estava vestida de côr-de-rosa! A boneca tinha
+a pelle de céra. Como as meninas! A boneca tinha os olhos de
+vidro. Como as meninas! A boneca tinha as tranças cahidas. Como
+as meninas! A boneca tinha os dedos finos. Como as meninas!
+Mestre! A boneca tinha os dedos finos...
+
+
+
+
+JOSÉ DE ALMADA-NEGREIROS
+
+ * * * * *
+
+O MOINHO
+1 ACTO
+
+23, 2.^O ANDAR
+3 ACTOS
+
+ANTES DE COMEÇAR
+1 ACTO
+
+OS OUTROS
+3 ACTOS
+
+ * * * * *
+
+O MENDES--A ENGOMADEIRA--HERCULES DA SILVA
+
+A SCENA DO ODIO
+
+SALTIMBANCOS--MIMA FATÁXA--LA FEMME ÉLECTRIQUE
+
+O QUADRADO AZUL
+
+ * * * * *
+
+DÉMARCHES PARA A INVENÇÃO DO DIA CLARO
+
+DA ARTE DE ATRAVESSAR A MULTIDÃO, COM APONTAMENTOS SOBRE O QUE EU
+QUIZ DIZER.
+
+POBREZA VOLUNTARIA
+
+DADOS ARBITRARIOS PARA A FUTFURA ARISTOCRACIA
+
+ * * * * *
+
+AS TREZ IDADES DE CADA UM
+
+ --«AS TREZ IDADES DE CADA UM» É O OVO DE COLOMBO!
+
+ _Dr. F. Alves de Azevedo._
+
+ * * * * *
+
+O MENINO D'OLHOS DE GIGANTE
+
+FEITO COM A PRETENÇÃO DE POEMA UNIVERSAL.
+
+COM UMA POSIÇÃO GEOGRAFICA PORTUGUEZA NA FORMA POETICA DA TONTERIA
+POPULAR.
+
+
+
+
+ACABADA D'IMPRIMIR AOS TRINTA
+DIAS DO MEZ DE NOVEMBRO DE
+MIL NOVECENTOS E VINTE E UM,
+NAS OFICINAS DA SOCIEDADE NACIONAL
+DE TIPOGRAFIA, RUA DO
+SECULO, 59, FICANDO DEPOSITARIA
+«PORTUGAL E BRAZIL», RUA
+--GARRETT, 58, 60, LISBOA.--
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of A Invenção do Dia Claro, by
+José de Almada Negreiros
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A INVENÇÃO DO DIA CLARO ***
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+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
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+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
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+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
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