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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 01:54:23 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Invenção do Dia Claro + +Author: José de Almada Negreiros + +Release Date: September 29, 2007 [EBook #22801] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A INVENÇÃO DO DIA CLARO *** + + + + +Produced by Vasco Salgado + + + + +OLISIPO + + + + +TODOS OS DIREITOS RESERVADOS + + + + +[Nota do Transcritor: Aqui surge a assinatura do autor.] + + ++A INVENÇÃO +DO DIA CLARO+ + + +Escripta de uma só maneira para todas as espécies de orgulho, +seguida das démarches para a Invenção e acompanhada das confidencias +mais intimas e geraes. + +Ensaios para a iniciação de portuguezes na revelação da pintura + +Com um retrato do autor por elle-proprio + + +primeiro milhar + + +LISBÔA +"OLISIPO", APARTADO 145 + +1921 + + + + + NOUS SAVONS DONNER NOTRE VIE TOUTE ENTIÉRE TOUS LES JOURS. + BÉNNISSONS LA VIE! + SALUONS LA NAISSANCE DU TRAVAIL NOUVEAU. + LE MONDE N'A PAS D'ÂGES, L'HUMANITÉ SE DÉPLACE TOUT SIMPLEMENT. + JE NE SUIS PAS PRISONNIER DE MA RAISON. + DIEU FAIT MA FORCE ET JE LOUE DIEU. + SPLENDEURS DES VILLES. + POINT DE CANTIQUE--TENIR TOUJOURS LE PAS GAGNÉ. + + + _Rimbaud_ + + + + +[Nota do Transcritor: Aqui surge o retrato do autor por ele próprio.] + + + + +AO + +MEU AMIGO + +FERNANDO AMADO + + + + + ++O LIVRO+ + + +Entrei numa livraria. Puz-me a contar os livros que ha para +ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para +metade da livraria. + +Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa, +senão estou perdido. + +No entanto, as pessoas que entravam na livraria estavam todas +muito bem vestidas de quem precisa salvar-se. + + * * * * * + +Comprei um livro de filosofia. Filosofia é a sciencia que trata +da vida; era justamente do que eu necessitava--pôr sciencia na minha +vida. + +Li o livro de filosofia, não ganhei nada, Mãe! não ganhei nada. + +Disseram-me que era necessario estar já iniciado, ora eu só +tenho uma iniciação, é esta de ter sido posto neste mundo á imagem +e semelhança de Deus. Não basta? + + * * * * * + +Imaginava eu que havía tratados da vida das pessoas, como +ha tratados da vida das plantas, com tudo tão bem explicado, assim +parecidos com o tratamento que ha para os animaes domesticos, +não é? Como os cavalos tão bem feitos que ha! + +Imaginava eu que havia um livro para as pessoas, como ha +hostias para cuidar da febre. Um livro com tanta certeza como uma +hostia. Um livro pequenino, com duas paginas, como uma hostia. +Um livro que dissesse tudo, claro e depressa, como um cartaz, com +a morada e o dia. + + * * * * * + +Não achas, Mãe? Por exemplo. Ha um cão vadio, sujo e com fome, +cuida-se deste cão e ele deixa de ser vadio, deixa de estar +sujo e deixa de ter fome. Até as crianças já lhe fazem festas. + +Cuidaram do cão porque o cão não sabe cuidar de si--não saber +cuidar de si é ser cão. + +Ora eu não queria que cuidassem de mim, mas gostava que me +ajudassem, para eu não estar assim, para que fosse eu o dono +de mim, para que os que me vissem dissessem: Que bem que aquele +soube cuidar de si! + + * * * * * + +Eu queria que os outros dissessem de mim: Olha um homem! Como se +diz: Olha um cão! quando passa um cão; como se diz: olha uma +arvore! quando ha uma arvore. Assim, inteiro, sem adjectivos, +só de uma peça: Um homem! + + * * * * * + +Mas eu andei a procurar por todas as vidas uma para copiar +e nenhuma era para copiar. + +Como o livro, as pessoas tinham principio, meio e fim. A principio +o livro chamava-me, no meio o livro deu-me a mão, no fim fiquei +com a mão suada do livro de me ter estendido a mão. + +Talvez que nos outros livros... mas os titulos dos livros são +como os nomes das pessoas--não quere dizer nada, é só para não +se confundir... + + * * * * * + +Na montra estava um livro chamado «O lial conselheiro». Escrito +antigamente por um Rei dos Portuguezes! Escrito de uma só +maneira para todas as especies de seus vassalos! + +Bemdito homem que foi na verdade Rei! O Mestre que quere que eu +seja Mestre! + +Eu acho que todos os livros deviam chamar-se assim: «O lial +conselheiro»! Não achas, Mãe? + +O Mestre escreveu o que sabia--por isso ele foi Mestre. As palavras +tornaram presentes como o Mestre fazia atenção. Estas palavras +ficaram escritas por causa dos outros tambem. Os outros aprendiam +a ler para chegarem a Mestres--era com esta intenção que se +aprendia a ler antigamente. + + * * * * * + +Sonhei com um paíz onde todos chegavam a Mestres. Começava +cada qual por fazer a caneta e o aparo com que se punha á +escuta do universo; em seguida, fabricava desde a materia prima o +papel onde ia assentando as confidencias que recebia directamente +do universo; depois, descia até ao fundo dos rochedos por causa da +tinta negra dos chócos; gravava letra por letra o tipo com que compunha +as suas palavras; e arrancava da arvore a prensa onde apertava +com segurança as descobertas para irem ter com os outros. Era +assim que neste país todos chegavam a Mestres. Era assim que +os Mestres iam escrevendo as frases que hão-de salvar a humanidade. + + * * * * * + +Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já +estavam todas escritas, só faltava uma coisa--salvar a humanidade. + + + + + --O pequeno é como o grande. + --O que está em cima é analogo ao que está em baixo. + --O interior é como o exterior das coisas. + --Tudo está em tudo. + + + HERMES TRIMEGISTA + + + + + ++I PARTE+ + ++ANDAIMES E VÉSPERAS+ + + + + ++A CONFERENCIA IMPROVISADA+ + + +Minhas Senhoras e meus Senhores: + +Mulheres e homens são as duas metades da humanidade--a metade +masculina e a metade feminina. + +Ha coisas inteiras feitas de duas metades e aonde não se pode +cortar ao meio para separar essas duas metades. Exemplo: a humanidade +com a metade masculina e a metade feminina. São duas metades +que deixam, cada uma, de ser uma metade se não houver a outra metade. + +A linha que passa por entre estas duas metades é parecidissima +com o ar por dentro de uma esponja do mar, sêca. + + + + ++ÁCERCA DO HOMEM E DA MULHER+ + + +Lembro-me de uma oleografia que havia em minha casa. A +oleografia estava cheia de amarello do Deserto. O amarello do Deserto +era mais comprido do que a vida de um homem se não fôsse o +galope do cavallo onde o arabe rapta a menina loira. + +Na oleografia havia uma palmeira. A palmeira era tão pequena +como a esmeralda do anel da menina loira. A palmeira era +assim tão pequena porque estava muitissimo longe. + +Era em direcção à palmeira que ía a correr o cavallo. + + +Havia outra oleografia quando já tinham chegado à sombra +da palmeira. O cavallo estava como morto por terra. O arabe, êsse, +ainda nunca tinha estado cançado--tinha a menina loira nos braços, +como a esmeralda estava no anel. + +Eram trez as oleografias. Na terceira oleografia estava sósinha +a menina loira a dar de mamar a um menino verdadeiro. + + + + ++ÁCERCA DAS TRES OLEOGRAFIAS+ + + +Estas trez oleografias explicam muito bem como se pode ser +senhora e como se deve ser homem. As senhoras como a menina +loira. Os homens como o arabe. + +Um homem--saber raptar; uma senhora--merecer ser raptada. + +Exemplo de homem que soube raptar: o arabe. Exemplo de senhora +que mereceu ser raptada: a menina loira da oleografia. + +Ser o arabe para desencantar a menina loira; ser a menina +loira para que haja o arabe. + + + + ++ATENÇÃO+ + + +Mas não fallêmos sem alicerces. Nós não estamos algúres. + +Nós estamos aqui dentro d'esta sala, onde eu estou a dizer +a conferencia--o chão, o tecto, e quatro paredes. Vocês e eu. + +Para nos orientarmos melhor, aqui onde estou fica sendo o +Norte, lá no fundo da sala o Sul, Éste ali e Oéste d'aquelle lado. + +Que isto fique assim bem combinado entre nós, de tal maneira +que, quando eu chamar Sul aqui ao logar onde estou, vocês +se levantem, protestem, e digam que não, que o Sul é lá no fundo +da sala. + + + + ++AS PALAVRAS+ + + +O preço de uma pessôa vê-se na maneira como gosta de usar as +palavras. Lê-se nos olhos das pessôas. As palavras dançam nos +olhos das pessôas conforme o palco dos olhos de cada um. + + + + ++VIAGENS DAS PALAVRAS+ + + +As palavras teem moda. Quando acaba a moda para umas começa a +moda para outras. As que se vão embora voltam depois. Voltam +sempre, e mudadas de cada vez. De cada vez mais viajadas. + +Depois dizem-nos adeus e ainda voltam depois de nos terem dito +adeus. Emfim--toda essa tournée maravilhosa que nos põe a +cabeça em agua até ao dia em que já sômos nós quem dá corda +ás palavras para ellas estarem a dançar. + + + + ++HISTORIA DAS PALAVRAS+ + + +As mulheres e os homens estavam espalhados pela Terra. Uns estavam +maravilhados, outros tinham-se cançado. Os que estavam maravilhados +abriam a bocca, os que se tinham cançado tambem abriam a bocca. Ambos +abriam a bocca. + +Houve um homem sósinho que se poz a espreitar esta diferença--havia +pessoas maravilhadas e outras que estavam cançadas. + +Depois ainda espreitou melhor: Todas as pessoas estavam maravilhadas, +depois não sabiam aguentar-se maravilhadas e ficavam cançadas. + +As pessoas estavam tristes ou alegres conforme a luz para cada um--mais +luz, alegres--menos luz, tristes. + +O homem sósinho ficou a pensar n'esta diferença. Para não esquecer +fez uns signaes n'uma pedra. + +Este homem sósinho era da minha raça--era um Egypcio! + +Os signaes que elle gravou na pedra para medir a luz por dentro das +pessôas, chamaram-se hieroglifos. + +Mais tarde veiu outro homem sósinho que tornou estes signaes +ainda mais faceis. Fez vinte e dois signaes que bastavam para +todas as combinações que ha ao Sol. + +Este homem sósinho era da minha raça--era um Phenicio! + +Cada um dos vinte e dois signaes era uma lettra. Cada combinação +de lettras uma palavra. + + + + ++CENTENARIO DAS PALAVRAS+ + + +Todos os dias faz annos que foram inventadas as palavras. + +É preciso festejar todos os dias o centenario das palavras. + + + + ++VALOR DAS PALAVRAS+ + + +Ha palavras que fazem bater mais depressa o coração--todas +as palavras--umas mais do que outras, qualquer mais do que +todas. Conforme os logares e as posições das palavras. Segundo o +lado d'onde se ouvem--do lado do Sol ou do lado onde não dá o Sol. + +Cada palavra é um pedaço do universo. Um pedaço que faz falta +ao universo. Todas as palavras juntas formam o Universo. + + +As palavras querem estar nos seus logares! + + + + ++NÓS E AS PALAVRAS+ + + +Nós não somos do seculo d'inventar as palavras. As palavras +já foram inventadas. Nós somos do seculo d'inventar outra vez as +palavras que já foram inventadas. + + + + ++AS PALAVRAS E EU+ + + +Gásto os dias a experimentar logares e posições para as palavras. +É uma paciencia de que eu gósto. É o meu gôsto. + +Tudo se passa aqui pelas palavras--todos os gôstos. + + +Collei algumas d'estas paciencias com palavras. São estas as +palavras que trago aqui. Ainda não estão promptas--são pedaços +de coisas, aqui e alli, como um rapaz novo, como uma rapariga +nova. Como os cavallos quando ainda são petizes--vê-se já que se +trata de um cavallo, mas tambem se vê que ainda não está concluido. +As pernas cresceram mais depressa do que a espinha. A cabeça +muito grande é que já está do tamanho em que ha-de ficar. Tudo +se aguenta de pé provisoriamente--ainda não está prompto, vê-se +perfeitamente que ainda não é tudo. + + + + +Agarrei uma mancheia de palavras e espalhei-as em cima da +meza. Ficaram n'esta posição: + + + + ++PARABOLA+ + + +A humanidade abriu alas--as duas grandes alas da humanidade. +Uma á direita, a outra á esquerda. Em baixo a Terra, em +cima o Sol. + + +Vae acontecer qualquer coisa--os que passam vão mais depressa, +os outros já estão á espreita. + + +As duas grandes alas da humanidade lá estão as duas em frente +uma da outra. Não levantem os braços! não virem as cabeças! + +Em baixo a Terra, em cima o Sol! + +Ainda não chegou o homem-que-sabe-viver! + +As duas grandes alas da humanidade querem ver com olhos +da cara o homem-que-sabe-viver! + +As duas grandes alas da humanidade não querem senão ver +com os olhos da cara o homem-que-sabe-viver! + +Em baixo a Terra, em cima o Sol! + + +Jesus-Christo desce sósinho por entre as duas grandes alas +da humanidade. As duas grandes alas da humanidade estendem os +braços para Jesus-Christo. + +Uma das duas alas accusa a outra ala, e esta accusa aquella. + + +Jesus-Christo desce sósinho por entre as duas grandes alas +da humanidade, sem se approximar de uma nem da outra. + + +As duas grandes alas da humanidade. + + +Jesus-Christo acabou de passar por entre as duas grandes alas +da humanidade, sem se ter approximado de uma nem da outra. + + +As duas grandes alas da humanidade. + + +Em baixo a Terra, em cima o Sol. + + + + ++UMA CRUZ NA ENCRUZILHADA+ + + +Quando acabou a parabola, as duas grandes alas da humanidade +desconjunctaram-se. + +Havia uma cruz na encruzilhada. + +A cada um que passava dizia o Christo de pedra: + + +«Em vez de ter morrido n'uma cruz, por ti, antes tivesse pegado +na lança que me abriu o peito, para com ella te rasgar os olhos +da cara. Para deixar entrar claridade para dentro de ti pelos +buracos dos teus olhos rasgados. + +«Tudo quanto eu te disse ficou escrito e é tudo ainda hoje +tenho para te dizer. + +«Se me fiz crucificar para t'o dizer porque não te deixas crucificar +para sabêres como eu t'o disse? + +«Não posso, por mais que tente, livrar uma das mãos, pregaram-m'as +bem, como se prega um crucificado; não posso, por mais que tente, +livrar uma das mãos, para te sacudir a cabeça quando viéres +ajoelhar-te aqui aos pés da minha cruz. + +«Se fôsse o teu orgulho de joelhos, ainda era o teu orgulho, +mas são as tuas pernas dobradas com o pezo do ar. + +«Não tenho uma das mãos livre para te empurrar d'aqui da minha +cruz até ao teu logar lá em baixo na terra. + +«Levanta-te, homem! No dia em que tu nascêste, nasceu no mesmo +dia um logar para ti, lá em baixo na terra. Esse logar é o +teu! o teu logar é a tua fortuna! o teu logar é a tua gloria. Não +deixes o teu logar vazio, nem te deixes pr'áhi sem logar. + +«Não te aleijes a procurar outras fortunas que não terás,--ha uma +só para ti--é a unica que ha para ti, não serve senão para ti, não +serve para os outros,--é por isto que ella é a tua fortuna! + +«Porque viéste ajoelhar-te aqui aos pés da minha cruz? Foi +porque a tua cabeça se encheu de duvida?... + +Tanto melhor! Aproveita agora que tens a duvida dentro da tua +cabeça, aproveita a sorte de têres a duvida dentro da tua cabeça. +Não te cances de ter esta sorte! + +«Não tenhas mêdo de estares a ver a tua cabeça a ir directamente +para a loucura, não tenhas mêdo! Deixa-a ir até á loucura! +ajuda-a a ir até á loucura. Vae tu tambem pessoalmente, co'a tua +cabeça até á loucura! Vem ler a loucura escripta na palma da tua +mão. Fecha a tua mão, com força. Agarra bem a loucura dentro da +tua mão! + +«Senão... se tens mêdo da duvida e te pões a fugir d'ella por +môr da loucura que já está á vista, se não começas desde já a +desbastar a fantasia que cresceu no logar marcado para ti, lá em +baixo na terra; se não pretendes transformar essa fantasia em +imaginação tranquilla e creadora... + +... um dia a loucura virá plo seu proprio pé bater á tua porta, e +tu, desprevenido, e tu sem mãos para a esganar, porque a loucura +já será maior do que na palma da tua mão, porque a loucura será +maior do que as tuas mãos, porque a loucura poderá mais do que tu +com as tuas mãos; e ella fará de ti o pior de todos, por não teres +sabido servir-te d'ella como tu devias sabe-lo querer! + + + + ++FIM DE DIA+ + + +Um por um, toda a humanidade ouviu a Cruz da encruzilhada, e a +cada um parecia-lhe reconhecer aquelle modo de fallar. + + +Havia oliveiras á beira da estrada para a gente se encostar. + + +Antes de cada um chegar a casa havia um chafariz para matar a sêde. + +Eu não sabia que o chafariz tinha tanto que vêr--havia muitos +soldados por causa das raparigas a encher as bilhas! + +Depois o Sol começou a ficar muito encarnado e cada vez maior +por detraz das dunas, muito encarnado, e deixou-me sósinho em +cima do muro. + +Do lado do mar ouvia-se uma nóra a puxar agua. O boi tinha +os olhos guardados para não entontecer. Os alcatruzes da nóra +subiam por um lado e desciam plo outro lado--como hontem! + +A musica da nóra só tem uma volta. Todos os dias. Ámanhã +tambem, os alcatruzes da nóra vão subir por aqui e descer por +lá. Todos os dias. Em baixo a Terra, em cima o Sol. + + +Quando olharam para traz, a Cruz da encruzilhada já estava muito +longe. Era necessario acertar a vista para a reconhecer. Mas, era +sem duvida ella, a cruz inconfundivel--aquella onde cabe um +homem inteiro e de pé! + + ++FIM DA PRIMEIRA PARTE+ + + + + + ++CONFIDENCIAS+ + + +Mãe! a oleografia está a entornar o amarello do Deserto por cima da +minha vida. O amarello do Deserto é mais comprido do que um dia todo! + +Mãe! eu queria ser o arabe! Eu queria raptar a menina loira! Eu queria +saber raptar. + +Dá-me um cavallo, mãe! Até á palmeira verde esmeralda! E o anel?! + + +A minha cabeça amollece ao sol sobre a areia movediça do Deserto! A +minha cabeça está molle como a minha almofada! + +Ha uns signaes dentro da minha cabeça, como os signaes do Egypcio, +como os signaes do Phenicio. Os signaes d'estes já teem antecedentes +e eu ainda vou para a vida. + + +Não ha muros para que haja estrada! Não ha muros para pôr cartazes! Não +está a mão de tinta preta a apontar--por aqui! + +Só ha sombra do Sol nas larangeiras da outra margem; e todas as noites +o somno chega roubado! + + +Mãe! As estrellas estão a mentir. Luzem quando mentem. Mentem quando +luzem. Estão a luzir, ou mentem? + +Já ia a cuspir para o ceu! + + +Mãe! a minha estrella é doida! Coube-me nas sortes a Estrella-doida! + + +Mãe! dá-me um cavallo! Eu já sou o gallope! Ha uma palmeira, Mãe! +O que quer dizer um anel? Tem uma esmeralda. + + +Mãe! eu quero ser as trez oleografias! + + * * * * * + +Mãe! + +Em cima das estatuas está o verbo ganhar, Mãe! será para mim? + +Quando passo pelas estatuas fico parado. A olhar para cima das +estatuas. Fico parado a subir. Não sei quem me agarra para me +levantar ao ar. Agarram-me por debaixo dos braços para me levantar +ao ar. Para eu ver o verbo ganhar em cima das estatuas. + + * * * * * + +Mãe! eu não sei nada! Eu não me lembro de nada! + + +Ah! lembro-me! + +Lembro-me de ter ajudado a levar pedras para as pyramides do Egypto! + +Tambem me lembro de me ter chamado José, antigamente, com meus irmãos +e uma mulher! + + +Mãe! + +Estou a lembrar-me! Tu já fôste a menina loira! Eu já fui o menino +verdadeiro a quem tu davas de mamar! Eu já estive comtigo na terceira +oleografia! + +Lembro-me exactamente! Quando tu me beijavas, o sol não doía tanto +na minha pelle! + + +Mãe! + +Estou a lembrar-me! + +E as tardes quando iamos todos juntos soltar palavras no caes e vêr +chegar mais laranjas! + +Outras vezes juntavamo-nos na praia para nadar melhor do que os +outros e deixar o sol queimar quem mais merecêsse. Já as laranjas +estavam contentes com o que chegasse primeiro! O melhor jovem ganhava +a melhor rapariga. Os outros sabiam aquella que tinham ganhado. Eu +tinha ganho a minha! + + +De uma vez, quando deixavamos o caes, entornou-se o cêsto das +tangerinas. Foi a alegria! E uma das raparigas pôz-se a cantar +o succedido ás tangerinas a rolar pró mar: + + + tam + tam-tam + tanque + estanque + tangerina bola + tangerina boia + tangerina ina + tangerininha + pacote rôto + batuque nú + quintal da nóra + e o dique + e o Duque + e o acqueducto + do Cúco + Rei Carmim + e tamarindos + e amarellos + de Mahomet + alli + e lá + e acolá + ... + + * * * * * + +Mãe! + +Vem ouvir a minha cabeça a contar historias ricas que ainda não +viageie. Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta +côr de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado! + +Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça! + +Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de +viagens! Eu vou viajar. Tenho sêde! Eu prometo saber viajar. + + +Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu +vou aprender de cór os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me +a teu lado. Tu a cosêres e eu a contar-te as minhas viagens, aquellas +que eu viagei, tão parecidas com as que não viagei, escritas ambas +com as mesmas palavras. + +Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! +Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a meza. Eu tambem +quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa +casa, como a meza. + + +Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça! + +Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade! + + + + + ++II PARTE+ + ++A VIAGEM + +OU + +O QUE NÃO SE PODE PREVÊR+ + + + + + A Eternidade existe mas não tão devagar! + + (QUADRADO AZUL, 1917). + + + + ++PARIS E EU+ + + +Um dia foi a minha vez de ir a Paris. Foi necessario um passaporte. +Pediram a minha profissão. Fiquei atrapalhado! Pensei um pouco para +responder verdade e disse a verdade: Poeta! + +Não acceitaram. + + +Tambem pediram o meu estado. Fiquei atrapalhado. Pensei um pouco +para responder verdade e disse a verdade: Menino! + +Tambem não acceitaram. + +E para ter o passaporte tive de dizer o que era necessario para +ter o passaporte, isto é--uma profissão que houvésse! e um estado +que houvésse! + + + + ++PARTIDA PARA PARIS+ + + +Á despedida os vizinhos deram-me o melhor conselho: Juizo! + + + + ++PARIS+ + + +Em Paris é tudo de carne e osso,--O Sacré-Coeur, O Sêna e a Torre +Eiffel--as casas, as pessoas, os domingos e os outros dias. + +Ha em Paris uma Rocha Tarpeia que não é feita de rocha, é feita +de domingos e dos outros dias. + + + + ++EU+ + + +Quando digo Eu não me refiro apenas a mim mas a todo aquelle que +coubér dentro do geito em que está empregado o verbo na primeira +pessôa. + + + + ++LIBERDADE+ + + +Quando entrei na cidade fiquei sósinho no meio da multidão. + +Em redor as portas estavam abertas. A multidão entrava naturalmente +pelas portas abertas. Por cima das portas havia tabolêtas onde +estava collada aquella palavra que sóbe--Liberdade! + +Entrei por uma porta. Entrei como uma farpa! + +Era uma ratoeira, Mãe! era uma ratoeira! Se eu tivesse entrado +como uma agulha podia ter sahido como uma agulha, mas entrei como +uma farpa, fiz sangue verdadeiro, já não me esquece. Aconteceu +exactamente. Dei um mau geito nos rins por causa da ratoeira! Ainda +me lembro da palavra--Liberdade! + + +Mãe! Vou contar-te como foi. + +Havia dois vazos iguaes. Um tinha um licor bonito. O outro +parecia ter agua simples. Um tinha a felicidade, o outro não tinha +a felicidade. Era á sorte. A casa estava cheia de gente. Ninguem +queria ser o primeiro a começar. + + +Depois, começaram a beber o licor. Diziam coisas tão felizes! Coisas +quentes que enchem a cabeça toda e deixam os olhos escancarados! Eu +vi-os, Mãe! estavam a augmentar a olhos vistos, juro-te! + +Os que beberam do outro vazo não divertiam ninguem. Iam-se logo +embora. E ninguem já se lembrava d'elles. + +Só ficaram os que gostavam do licor. Eu fiquei com estes. Eu tambem +bebi do licor. Não imaginas, Mãe! nunca subi tão alto! Ainda mais +alto do que o verbo ganhar! + + +Havia uma rã que tinha entrado comigo ao mesmo tempo. A rã tambem +estava a augmentar. + +Depois, quando já estava quasi do tamanho de um boi, a rã +estoirou. Coitada! Como antigamente, em latim. + +Então, puz-me logo a escorregar desde lá de cima, até aonde +eu já tinha amarinhado; desde mais alto do que o verbo ganhar. + +A escorregar, a ser necessario escorregar, a querer por força +escorregar, a custar immenso escorregar, a fazer doer escorregar, a +escorregar.--O verbo desinchar! + +O verbo desinchar dura muito tempo. No fim do verbo desinchar +é outra vez a terra, cá em baixo. + + ++FIM DA SEGUNDA PARTE+ + + + + + ++CONFIDENCIAS+ + + +Mãe! doe-me o peito. Bati com o peito contra a estatua que tem em +cima o verbo ganhar. Ainda não sei como foi. Eu ia tão contente! eu +ia a pensar em ti e no verbo saber e no verbo ganhar. Estava tudo +a ser tão facil! Já estava a imaginar a tua alegria quando eu voltásse +a casa com o verbo saber e o verbo ganhar, um em cada mão! + +Doe-me muito o peito, Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça! + + +Mãe! + +Já não volto á cidade sem ir comtigo! para a cidade ser bonita. Irmos +os dois juntos de braço-dado, e andarmos assim a passear; para ver +como tudo està pôsto na cidade por causa de ti e de mim e por causa +dos outros que andam de braço-dado. + + +Mãe! dize essa metade que tu sabes do que é necessario saber, dize +essa metade que tu sabes tão bem! para eu pensar na outra metade. + +Se não houvésse senão homens e saltimbancos eu ia buscar a outra +metade, mas os saltimbancos estão vestidos como os homens, e os +homens estão vestidos como os saltimbancos, ambos estão vestidos +de uma só maneira, não sei quaes são os homens nem os saltimbancos, +elles tambem não o sabem,--não ha senão losangos de arlequim! + + +Mãe! + +Quando eu vinha para casa a multidão ia na outra direcção. Tive de +me fazer ainda mais pequeno e escorregadío, para não ir na onda. + +Perguntei para onde iam tão unidos, assim, com tanto balanço. +Responderam-me: Para deante! para a frente! + +Iam para deante! iam para a frente! + +Fiquei a pensar na multidão. + + +O meu anjo da guarda disse-me: Prompto! A multidão já passou, levou um +quarto d'hora a passar. A multidão não é senão aquillo que levou um +quarto d'hora a passar. Prompto! já está vista! anda d'ahi! + + +O meu anjo da guarda está sempre dizer-me: De que estás á espera? Vá, +anda! Começa já! Começa já a cuidar da tua presença! + +Não sei o que o meu anjo da guarda quer que eu advinhe em taes palavras. + +Outras vezes, o meu anjo da guarda pede-me para que seja eu o anjo da +guarda d'elle. + + +Mãe! + +Hoje acordei todo virado para deante. Assim, como tu o compreendes, +Mãe! + +Vi as coisas do ar que havia, as coisas que estavam focadas com o ar +de hoje. As lembranças já estão inteiras, muito poucos os minutos falsos. + +Fiz todas as horas do Sol e as da sombra. Ao chegar a noite estive de +accordo com o Sol no que houve desde manhã até ser bastante a luz por +hoje. Depois veiu o somno. E o somno chegou a horas. Antes do somno +ainda houve uma imagem--um leão a dormir! + +Na verdade, não ha somno mais bem ganho do que o de um leão a dormir +com restos de sangue ainda no focinho, como os leões de pedra que ha +nas escadarias por onde se sobe depois da batalha! + + + + + ++RETRATO DA ESTRELLA QUE GUIOU O FILHO PRODIGO NA VOLTA Á CASA PATERNA+ + + +Na praia uma menina perguntou-me se eu era rico. Estava de gatas e +muito longe, a perguntar-me se eu era rico. + + * * * * * + +Todas as manhãs ia brincar com os vizinhos para a sombra da egreja. +Depois do almoço a sombra era do outro lado. + + * * * * * + +Quando as meninas corriam no jardim, os cabellos e os vestidos ficavam +para traz. + + * * * * * + +A rapariga das laranjas tinha uma linda voz para vender laranjas. As +pessoas ficavam co'as laranjas na mão a ouví-la. + + * * * * * + +A larangeira ao pé da nóra já me conhecia--punha-se a fingir que era +o vento que a fazia mexer. + + * * * * * + +Acho mais sinceros os dias de chuva. Nos dias em que chove ponhome +a pensar que não sou eu só que vivo arreliado. Depois, o cheiro da +terra molhada é que me faz de novo animar. + + * * * * * + +Ás vezes ponho-me a pensar em coisas que eu nunca vi. Naturalmente +só ha muito longe, nas outras terras! + + * * * * * + +Estou a espera de ser grande para ver se o que eu penso é verdade ou +não. Se não fôr, mato-me! + + * * * * * + +Gósto mais dos bois de barro que dos bois verdadeiros. + + * * * * * + +O gabão do jardineiro era forrado d'azul! + + * * * * * + +A rosa encarnada cheira a branco. + + * * * * * + +Quando vejo o côr-de-rosa parece que se referem a mim. + + + + + ++CONFIDENCIAS+ + + +Bom-Dia, Mãe! + +Bem nos tinham dito!--Espérem! foi o que nos tinham dito. E nós +esperámos. Ah! que sempre tive a certeza que havia de chegar «o +descerrar do escuro»! (ANTHERO, Sonetos.) + + + A eternidade e um instante é a mesma coisa. + + SANTO AGOSTINHO. + + +Bom-Dia, Mãe! + +Senta-te ao meu lado, que eu vou contar-te a viagem que eu fiz. Dáme +a tua mão para que eu a conte bem! + +Dei a volta ao mundo, fiz o itinerario universal. Tudo consta do meu +diario intimo onde é memoravel a viagem que eu fiz desde e universo até +ao meu peito quotidiano. Vim de muito longe até ficar dentro do meu +proprio peito e defendido pelo meu proprio corpo. + +Durante a viagem encontrei tudo disposto de antemão para que nunca +me apartasse dos meus sentidos. E assim aconteceu sempre desde aquelle +dia inolvidavel em que reparei que tinha olhos na minha propria cara. Foi +precisamente n'esse dia inolvidavel que eu soube que tudo o que ha no +universo podia ser visto com os dois olhos que estão na nossa propria +cara. Não foi, portanto, sem orgulho que constatei que era precisamente +por causa de cada um de nós que havia o universo. + +E assim foi que, todas as coisas que a principio me pareciam tão +estranhas, começaram logo desde esse dia inolvidavel a dirigirem-se-me +e a interrogarem-me, quando ainda hontem era eu que lhes preguntava +tudo. Foi-me facil comprehender que o universo era precisamente o +resultado de haver quem tivesse olhos na propria cara. Muito maior +foi o meu orgulho, portanto, quando tive a certeza de que hoje o +universo esperava anciosamente por cada um de nós. Hontem, cada um +de nós viajava por todas as partes do universo, com aquelle desejo +legitimo de se encontrar, e se a viagem demorou mais do que devia +é porque não seria facil acreditar immediatamente que cada um de nós +estava, na verdade, em todas as partes do universo. Confesso que não +pude supôr logo d'entrada que o papel de que seriamos incumbidos cá +na terra fôsse precisamente o mais importante de todos. + +Ainda hontem o universo me parecia um gigante colossal capaz de me +atropellar sem querer; e emquanto eu procurava a maneira de não +ficar espesinhado plo gigante, quem poderia, Mãe, ter-me convencido +de que eramos nós-proprios o gigante? + +Todas as coisas do universo aonde, por tanto tempo, me procurei, são +as mesmas que encontrei dentro do peito no fim da viagem que fiz +pelo universo. + + + + + ++III PARTE+ + ++O REGRESSO + +OU + +O HOMEM SENTADO+ + + + + +AO JOAQUIM GRAÇA + + ++A FLOR+ + + --«Je travaille tant que je peux et le mieux que je peux, toute + la journée. Je donne toute ma mesure, tous mes moyens. Et après, + si ce que j'ai fait n'est pas bon, je n'en suis plus responsable; + c'est que je ne peux vraiement pas faire mieux.» + + _Henri Matisse._ + + +Pede-se a uma creança. Desenhe uma flor! Da-se-lhe papel e +lapis. A creança vae sentar-se no outro canto da sala onde não ha +mais ninguem. + +Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas n'uma +direcção, outras n'outras; umas mais carregadas, outras mais +leves; umas mais faceis, outras mais custosas. A creança quiz +tanta força em certas linhas que o papel quasi que não resistiu. + +Outras eram tão delicadas que apenas o pezo do lapis já era demais. + +Depois a creança vem mostrar essas linhas ás pessôas: Uma flôr! + +As pessôas não acham parecidas estas linhas com as de uma flôr! + +Comtudo, a palavra flôr andou por dentro da creança, da cabeça +para o coração e do coração para a cabeça, á procura das linhas +com que se faz uma flôr, e a creança pôz no papel algumas d'essas +linhas, ou todas. Talvez as tivesse pôsto fóra dos seus logares, +mas, são aquellas as linhas com que Deus faz uma flôr! + + + + +ÁCERCA DA PINTURA DE CÉZANNE E DE MATISSE: + + + «Elle vous donne la sécurité.» + + _Charles Péquin._ + + + _Sécurité_--M. f. (lat. securitas) Confiance, tranquilité d'esprit + resultant de l'idée, qu'il n'ya de péril à craindre: l'industrie a + besoin de sécurité. + + _Petit Larousse._ + + + + ++A MINHA VEZ+ + + Tu separeras la terre du feu, le subtil de l'épais--doucement-avec + grande industrie. + + HERMES TRIMEGISTA + + +O desenho das creanças é como o das pessôas que não sabem desenhar--ambos +dizem, mas não sabem o que dizem. Não sabem desembaraçar as linhas de +uma coisa das linhas das outras coisas que veem ao mesmo tempo dentro +da mesma palavra. A prova é que não são capazes de imitar o que da +primeira vez lhes escorregou do corpo pela mão para o papel. + +Eu-proprio, apenas agora começo a saber recordar o que foram +os meus desenhos de ha dez e vinte annos, quando fiz uns traços +em pedaços de papeis que guardaram. + +Escuto estes desenhos como a um homem, do campo que diz, sem +querer, coisas mais importantes do que o que está a contar, +e que põe tudo á mostra sem dar por isso. Atravez d'estes desenhos +sigo grafologicamente o meu instincto á espera da minha vontade,--a +minha querida ignorancia a aquecer ao sol e a transformar-se na +minha vez cá na terra. + + ++FIM DA TERCEIRA PARTE+ + + + + + ++UMA FRASE QUE SOBEJOU+ + + +Quando copiei pela ultima vez a Invenção do Dia Claro, sobejou uma +frase que não me recordo a que alturas pertence. A frase é esta: + + +Ha systemas para todas as coisas que nos ajudam a saber amar, só +não ha systemas para saber amar! + + +NOTA--Seguem-se as démarches para a Invenção. Foi-nos completamente +impossivel incluir na presente edição as démarches. No entanto, +reproduzimos como specimen a mais antiga de todas para que o leitor +se convença do seu interesse quotidiano e imediato. N'esta, como +em todas as outras démarches para a Invenção é flagrante a maneira +como se representa a fortuna que nos rodeia todos os dias. + + + + + ++A VERDADE+ + + Je ne crois que les histoires dont les témoins se feraient égorger! + + PENSÉES, PASCAL. + + +Eu tinha chegado tarde á escola. O mestre quiz, por força, saber +porquê. E eu tive que dizer: Mestre! quando sahi de casa tomei um +carro para vir mais depressa mas, por infelicidade, deante do carro +cahiu um cavalo com um ataque que durou muito tempo. + +O mestre zangou-se comigo: Não minta! diga a verdade! + +E eu tive de dizer: Mestre! quando sahi de casa... minha mãe tinha um +irmão no extrangeiro e, por infelicidade, morreu hontem de repente e +nós ficámos de luto carregado. + +O mestre ainda se zangou mais comigo: Não minta! diga a verdade!! + +E eu tive de dizer: Mestre! quando sahi de casa ... estava a +pensar no irmão de minha mãe que está no extrangeiro ha tantos +annos, sem escrever. Ora isto ainda é peor do que se elle tivesse +morrido de repente porque nós não sabemos se estamos de lucto +carregado ou não. + +Então o mestre perdeu a cabeça comigo: Não minta, ouviu? diga a +verdade, já lh'o disse! + +Fiquei muito tempo calado. De repente, não sei o que me passou +pela cabeça que acreditei que o mestre queria effectivamente que +lhe dissesse a verdade. E, creança como eu era, puz todo o pezo +do corpo em cima das pontas dos pés, e com o coração á solta +confessei a verdade: Mestre! antes de chegar á Escola ha uma casa +que vende bonecas. Na montra estava uma boneca vestida de côrde-rosa! +Mestre! a boneca estava vestida de côr-de-rosa! A boneca tinha +a pelle de céra. Como as meninas! A boneca tinha os olhos de +vidro. Como as meninas! A boneca tinha as tranças cahidas. Como +as meninas! A boneca tinha os dedos finos. Como as meninas! +Mestre! A boneca tinha os dedos finos... + + + + +JOSÉ DE ALMADA-NEGREIROS + + * * * * * + +O MOINHO +1 ACTO + +23, 2.^O ANDAR +3 ACTOS + +ANTES DE COMEÇAR +1 ACTO + +OS OUTROS +3 ACTOS + + * * * * * + +O MENDES--A ENGOMADEIRA--HERCULES DA SILVA + +A SCENA DO ODIO + +SALTIMBANCOS--MIMA FATÁXA--LA FEMME ÉLECTRIQUE + +O QUADRADO AZUL + + * * * * * + +DÉMARCHES PARA A INVENÇÃO DO DIA CLARO + +DA ARTE DE ATRAVESSAR A MULTIDÃO, COM APONTAMENTOS SOBRE O QUE EU +QUIZ DIZER. + +POBREZA VOLUNTARIA + +DADOS ARBITRARIOS PARA A FUTFURA ARISTOCRACIA + + * * * * * + +AS TREZ IDADES DE CADA UM + + --«AS TREZ IDADES DE CADA UM» É O OVO DE COLOMBO! + + _Dr. F. Alves de Azevedo._ + + * * * * * + +O MENINO D'OLHOS DE GIGANTE + +FEITO COM A PRETENÇÃO DE POEMA UNIVERSAL. + +COM UMA POSIÇÃO GEOGRAFICA PORTUGUEZA NA FORMA POETICA DA TONTERIA +POPULAR. + + + + +ACABADA D'IMPRIMIR AOS TRINTA +DIAS DO MEZ DE NOVEMBRO DE +MIL NOVECENTOS E VINTE E UM, +NAS OFICINAS DA SOCIEDADE NACIONAL +DE TIPOGRAFIA, RUA DO +SECULO, 59, FICANDO DEPOSITARIA +«PORTUGAL E BRAZIL», RUA +--GARRETT, 58, 60, LISBOA.-- + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of A Invenção do Dia Claro, by +José de Almada Negreiros + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A INVENÇÃO DO DIA CLARO *** + +***** This file should be named 22801-8.txt or 22801-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/2/8/0/22801/ + +Produced by Vasco Salgado + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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