The Project Gutenberg EBook of Aves Migradoras, by Fialho d'Almeida

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org


Title: Aves Migradoras

Author: Fialho d'Almeida

Release Date: September 16, 2007 [EBook #22622]

Language: Portuguese

Character set encoding: ISO-8859-1

*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AVES MIGRADORAS ***




Produced by Ricardo F. Diogo, Christine P. Travers and the
Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net









FIALHO D'ALMEIDA


AVES MIGRADORAS

4.o Milhar




LISBOA
LIVRARIA CLSSICA EDITORA
DE A. M. TEIXEIRA & C.a (FILHOS)
_Praa dos Restauradores, 17_
1922


PORTO--Imprensa Portuguesa
Rua Formosa, 116




AVES MIGRADORAS


--Mas tu s minha amiga, balbuciava a creatura querendo tomar-lhe as
mos n'uma supplica desolada. Devias ter d d'esta fatalidade que me
leva ao encontro de Ruy. Oh, tu no sabes! A ida d'elle tira-me o
somno, embebeda-me, convulsiona-me, vai commigo a toda a parte. Tu ao
menos tiveste familia, irmos, alguem. A mim nunca ninguem me quiz. Os
garotos puxavam-me os cabellos, meu pai batia-me em estando
embriagado. Aos dez annos puzeram-me fra, que fosse trabalhar. E
andei descala atraz dos porcos, ia aos sabbados pedir esmolas s
portas dos ricos. Um vero agarram-me a furtar uvas n'uma vinha: o
vinheiro era um bruto, jogou-me um tiro; e cheia de sangue, quasi
morta, uns cavadores que passavam, foram levar-me a casa da
minha madrasta. Mas  embocada da aldeia, como eu ia estendida n'uma
padiola de ramos, a senhora marqueza viu-me passar da sua janella, e
por caridade, recolheu-me. Alli se fra creando, a fazer companhia ao
menino. Ruy n'esse tempo era um despota, obrigava-a a saltar muros, a
pendurar-se de cordas, a fazer de cavallo. E batia-lhe. Em compensao
Luiza adorava-o com um amor de cadella agradecida. Do fundo da sua
humildade, nascia-lhe um deslumbramento inexplicavel, uma curiosidade,
uma cegueira de Ruy. E nervosa, franzininha, como a figura d'uma
borboleta na melancholia pallida d'um sonho, adquirira j
precocidades: e os seus grandes olhos remordiam na belleza do
pequenito, substractos de muitissimas aspiraes. Na quinta, os
trabalhadores s vezes perguntavam-lhe:

--Queres ser amiga alm do menino?

Ella abria os seus olhos vorazes, dizendo com a cabea que sim.
Entrementes o pequeno ia crescendo. Era alto, delgado, divinamente
perfeito. Tinha j essa attitude desinteressada d'enthusiasmos,
indifferente aos impulsos fortes, desdenhosa, petulante, das creaturas
nascidas em meios altos, e destinadas ao predominio. As suas
mos davam cobia, brancas de cera, e com detalhes mimosos d'obra
prima. Oh, mas a bocca, inexplicavel, trazia embrionada na esculptura
dos labios, todas as floraes mysteriosas d'uma ascendencia
patricia--bocca de chefe pela austeridade, de diplomata pela ironia, e
de mulher pela doura com que a descerrava, em sorrisos cicatrizadores
das esgaraduras que a sua altivez antes fizera. Quando elle veio do
collegio a primeira vez, empallidecera: mas a expresso dos seus olhos
era uma coisa indescriptivel d'encanto, de melancholia e suavidade.

 enformatura tenra, oscillando como a haste anemica d'uma flr de
estufa, viera juntar-se o mysterio poetico d'um espirito insexualmente
delicado, cujas infantilidades corrigia a cada instante um fogo-fatuo
d'ida, e a graa grave, indecifravel cambiante, da esphinge que
contempla, sem desmentir jmais a prega austera da bocca. Era j,
n'essa idade, a creatura de gostos raros, avara de palavras e gestos,
fria, correcta, com preguias d'ataxica e relampagos de crueldade na
pupila augusta de Cesar, adorando o luxo dos palacios antigos, tendo a
mania do _bibelotage_, e antegostando, como todos os homens da sua
familia, uma especie de deleite perverso no desnortear pelo
testemunho das suas impresses prevaricadas, a sensibilidade reputada
normal pela outra gente. Essa susceptibilidade depressa se embotava
todavia, reclamando intercadencias, e por vezes derivando em
passageiras allucinaes. Indole toda de _nuances_, refrangida d'um
sangue com predominio de soro, como uma luz coada atravs da sda d'um
biombo, elle parecia arvorar o pallido como flamula de guerra da hoste
macabra dos nevrosados, cuja vida o tdio do vulgar envenena. Por seu
lado, Luiza conseguira ganhar pela viveza dos seus expedientes e
remoques, o espirito da senhora marqueza, ao tempo enlanguescido no
estranho mal que ia varrendo as gentes da sua raa, merc das
allianas consanguineas em que esta teimra immobilisar-se. Em cinco
annos, nada restava j da pequena mendiga chegada ao palacio n'uma
padiola de ramos, com os cabellos nos olhos, os ps enlameados,
coberta de trapos, e resequida n'uma magreza dolorosa. Era uma bruna
de beios rubros, dentes pequenos, com frmas d'esculptura e sadias
destrezas d'amazona. Desde a partida de Ruy para Campolide, que ella
no tinha na casa occupaes definidas. Conservavam-n'a, um
pouco por gratido, e por amor tambem, um quasi nada. E assim era um
bocado de tudo--leitora, enfermeira, guarda das estufas, esmolr-mr,
creada de mesa e bordadora--e assim podera conservar a sua selvageria
d'origem, to familiar aos servios da propriedade.

Luiza era intelligente: alli se fra educando, aprendendo, adquirindo
pela familiaridade da boa companhia e da riqueza esparsa em obras de
gosto, atravs dos velhos aposentos, essa cultura interior de
sentimentos, essa exoticidade de preferencias, essa indiscutivel
distinco de conversar e receber, que a tornaram depois to
appetecida c fra--isto realado co'a turbulencia da creatura nascida
em pleno campo, espojada nos fenos, e rebelde no sangue, longe das
peias deformantes da sociedade. S de longe a longe,  fora de
hydrotherapias complicadas, a senhora marqueza obtinha uma ou outra
hora de vida serena, e conseguia furtar-se aos lugubres nervosismos da
enfermidade. Era o feitio de Ruy, menos a juventude, mais a
impaciencia. A custo lhe sahia o espirito das abstraces e
somnolencias em que ficava embrenhado horas e horas; e exiguamente,
distillando a lucidez como uma essencia, gotta a gotta, n'um
_ting-ling_ monotono. A sua vida passava-se n'um canto de capella,
entre sombras, enterrada n'um _fauteuil_ com baldaquino, e s de l
sahia para se entregar ao cultivo de quatro ou seis predileces
extravagantes. Resentia-se do claustro onde passra os primeiros annos
de educanda, e da crte onde tinha gosado os primeiros mezes de
casada. Era uma natureza extatica, adorando as pompas do culto, os
requintes subtilisados da lithurgia, os movimentos dramaticos do orgo
no instrumental das grandes cerimonias--um pouco de mysticismo, n'um
pouco de miguelismo, n'um pouco de idiotismo,--com paixes de plantas
monstruosas e aves singulares, alimentando-se de fructas, vestida de
antigos damascos e _pompadours_ de raminhos, e tendo sempre bolos
d'ovos no beniterio do seu genuflexorio. Era vr a ternura de Luiza
durante as crises da boa senhora, e a meiga servilidade da sua voz
rebuscando as mais enternecidas musicas, para pedir perdo de lhe no
ter adivinhado mais cedo o pensamento.

Essa ternura, Luiza no a fazia nascer exclusivamente da gratido que
nutria pela castell: vinha antes da emoo que Ruy lhe
dava, da febre que lhe produzia a lembrana da sua belleza fruste e
singular. Todas as dedicaes se fundiam n'ella, e assim todas as
especies de desejos inquietantes. Vinda d'uma mancebia d'aldeia, onde
rolavam a toda a hora palavras bebedas e aces quasi medonhas, Luiza
achra entre os moos da quinta, nas conversas surdas da cozinha e da
arribana,  hora da ceia, a continuao do que vira e ouvira em casa
da madrasta. Fra preciso um cuidado assiduo, nos primeiros tempos,
para refazer-lhe o vocabulario, e transviar para intuitos mais
limpidos, a tendencia de vicio que ella trazia no sangue, em
purulentos coagulos. Se a educao e o mimo em que fra subindo, 
proporo que se insinuava nas sympathias do palacio, lhe haviam feito
a lingua casta, e a expresso virginea, j por fim, no fundo, o
terrivel sangue conspirava n'ella, co'as herdanas fataes da vida
airada, phosphorejando ardores que a nubilidade s vezes desencadeava
em verdadeiras procellas. Inda creana, o seu amor pelo Ruy j no
podia dizer-se immaculado. No era esse idyllio de bambinos colligados
na mesma adorao por uma boneca, nem a celeste comedia,
inolvidavel, de duas cabecinhas attentas para o mesmo malmequer que se
esfolha  beira d'um campo de trigo, sob o guarda-sol de sda que a
ama baloia, sorrindo de os vr to srios, os dois noivos pequeninos.
Mas uma paixo d'inferior que se deslumbra pelos filhos da raa cujas
perfeies no pde igualar, paixo com haustos de posse,
indeclinavelmente physica, prematura, perversa, e cheia
d'estonteamentos j torpidos. Com a idade, aquella ancia de Luiza no
se corrigia nem purificava, seno ia crescendo, accentuando,
colorindo, na medida da sua adolescencia cada vez mais radiosa em
seduces.

Nas frias, mal se sonhava o dia em que Ruy devia chegar, j ella no
parava quieta em parte alguma. E eil-a passando os dias nos aposentos
do menino, revolvendo alcatifas, mudando o logar do leito, perturbando
a ordem dos quadros, a disposio dos mobilamentos, agrupando plantas,
pelo que sabia das predileces de seu amo--pondo stores e biombos em
todos os portaes por onde francamente entrassem a luz e o ar. Na casa,
os creados sorriam, como quem sabe de tudo--gallinha canta... E os
ditinhos pullulavam. Mas um que era j ruo, muito gordo,
quasi sacerdotal pela rigidez da compostura, costumava deter-se 
porta dos quartos, tossindo devagarinho, a vl-a trabalhar.

-- o Ezequiel menina Luiza.

Ella gostava d'esse, que a defendia sempre das animadverses da
creadagem, e por toda a parte a cercava de deferencias tocantes.
Mesmo, das suas palavras paternas, ruminadas n'um fundo de reflexo um
poucochinho canalha, vinha-lhe uma sorte de lisongeira coragem.
Ezequiel era o unico que parecia no pr em duvida a ascendencia de
Luiza sobre a outra creadagem. Emtanto elle s vezes punha-se a
esquadrinhal-a, na sua bonhomia de velho, deixando cahir palavras
descuidosas aqui e alm, para a fazer dar  lingua, e espaando
reticencias de proposito, no sitio onde a rapariga, simploriamente,
logo ia prender revelaes.

--Muitos parabens, menina Luiza. Faltam s quatro dias.

Ella, fingindo no entender:

--Ora essa! Para que, Ezequiel?

Elle ia entrando, punha o espanejador ao canto da porta, enxugava os
dedos da pitada ao avental.

--Estas raparigas, estas raparigas!... E d'ahi que tinha? No
ha tanta menina pobre casada com pessoas grandes? Eu sempre queria
vr...

--Voss, Ezequiel, nunca tem melhores lembranas. Ora o mofino!

E o velho, conciliador:

--Acaso admira que vossemec goste de Ruy? O contrario  que
espantava. Creados de pequeninos, no mesmo bero quasi... E olhe que
tem muita fora os beijos a que uma pessoa se acostuma de creana.

Ella empallidecia e crava sem escrupulo, surprehendida no divino
tormento que lhe extasiava o espirito em fogos multicres.

--Olhe c, Ezequiel. Cada um no seu lugar. O que diriam de mim, santo
Deus?

--Coisa nenhuma, coisa nenhuma. Todos vem como a senhora marqueza
trata comsigo. Zs d'aqui, zs d'alli, est-lhe sempre a chamar minha
filha. Olhe que  muita amizade,  amizade de mais para uma servente.
Eu sei que isto enfurece os invejosos. No faa caso, menina Luiza,
no faa caso.

--Ah, no tenha medo, Ezequiel.

--E o menino Ruy ento, no fallemos. Esse gosta, e gosta muito. At
cartas lhe manda. No se faa encarniada, menina Luiza.

--O disparate!

--J c sabemos tudo; pois ento!

--Crdo! Santo Nome! So cartas que elle manda para a senhora.

--Para a senhora, sim, para a senhora mais nova. Eh! Eh! fazia elle
batendo as palmas, n'um tom maligno d'av condescendente. Essa cama
que fique bem fofa, essa campainha que fique bem perto. Rapaziada,
rapaziada!

Ouvindo estas coisas, Luiza abandonava-se, perdia a cabea. E do
corao subiam-lhe  bocca ondas de confidencias, gritos d'alma,
brutaes franquezas de rebelde. A intensidade do seu sonho interior era
to forte, to sobreexcitado o delirio da sua imaginao, que para
seguir-lhe a trajectoria, Luiza compromettia-se mentindo, gabando-se
de scenas imaginarias, sem quasi perceber que se calumniava. No, Ruy
no lhe escrevia. No, Ruy no gostava d'ella. Mas Luiza, Luiza morria
por tel-o ao p de si. Esses dias eram uma doidice, e Luiza no
dormia, Luiza no comia, Luiza no dava atteno  leitura, Luiza
estava distrahida  missa da senhora marqueza. A cada instante,
omisses no servio, pequenos confortos descurados nos aposentos,
portas abertas deitando correntes d'ar, stores erguidos nas janellas,
que endoloriam os olhos da enferma, apenas familiarisados co'as
penumbras cinzentas do seu canto d'oratorio.

Ento a fidalga impacientava-se: as impaciencias traziam-lhe o
nervoso. Era um horror. Para poisar os dedos no brao de Luiza, abrir
o livro de rezas, dar uma dentada n'um bolo, a pobre creatura estava
minutos em sobresaltos choreicos, debatendo-se contorcida, sentando-se
e erguendo-se apenas se sentava, lanando da bocca palavras
improprias, repetindo certos adverbios no meio das phrases: e
amargurada, presa de terror, por ter a consciencia de no estar
fallando bem.

Raro, raro, o senhor marquez que residia em Lisboa, na roda dos
alegres _viveurs_ d'ento, se aventurava at quelle deserto da
quinta, calado, religioso, e com uma expresso claustral
d'austeridade. N'essas poucas visitas, sua excellencia no vinha por
certo estancar saudades de sua mulher, seno solicitar da pobre dama,
mais uma vez, assignatura para alguma hypotheca que o auctorisasse a
proseguir na sua vida libertina de velho rapaz. Chegava ento pela
noite, em caminho de ferro, estava at ao outro dia, e na madrugada
seguinte, zut! elle ahi vai. As palavras que os dois esposos trocavam,
eram uma simples formula de deferencia imposta pelo orgulho s
cogitaes chocarreiras da creadagem, em que ella buscava mostrar o
desdem que nutria pelo esposo, e o esposo parecia artificialisar ainda
mais, a sua amabilidade correcta de marido desencantado. Na primavera
comtudo, a visita do marquez prolongava-se d'alguns dias, como era o
tempo das caadas. Trazia ento quatro ou cinco velhos amigos, alguns
creados, e as matilhas de galgos requeridas para a diverso. A
marqueza recluia-se mais, se  possivel, no seu angulo de palacio,
pretextando que a luz lhe encadeava a vista, que o ruido lhe
exasperava a _migraine_, e o aspecto da alegria dos outros mais fazia
contrastar a sua mortal e esmaecida tristeza de antiga moribunda. E os
caadores ficavam ss, livres inteiramente para deixar correr sem
respeito, n'aquellas duas ou tres semanas de campo, uma impetuosa
existencia de bares feudaes, accesa nas risadas do bom vinho das
cavas, nas correrias em ps das rapozas e lebres, e castigando-se 
noite, finda a ceia, Deus sabe, entre os braos das mulheres que
Ezequiel recrutava discretamente pelo burgo, na grande sala de lambeis
gobelinos, com mobilias marchetadas de quatro seculos. Todas as
manhs, Ezequiel ia aos aposentos da senhora marqueza deixar
galantemente um ramilhete da parte de seu amo, que  volta da caa lhe
mandava em _plateau_ tambem, a melhor pea da correria. Os fidalgos de
ha trinta annos eram ainda mais inuteis que os de hoje. A mordomos e
intendentes abandonavam a gerencia dos seus negocios interiores.
Restos d'altivez faziam-lhes encarar desprezivelmente o que elles
chamavam classes subalternas. Isto contrastando nas suas horas lucidas
com a intimidade que a mr parte abria a fadistas e toureiros, nos
momentos de vinhaa, por esses bordeis que ficaram celebres em
cantigas do fado. Este marquez de Selmes foi como os outros, um
perdulario espargindo fortuna e foras no rodilho dos prazeres mais
em voga ao tempo. Em Lisboa, dava talher a uma turba de litteratos,
graciosos e moos de curro, com quem elle gostava de mesclar os seus
jantares d'intimos, por manter o ar d'um grande senhor amigo das
artes, requestado pela popularidade dos varios conventiculos elegantes
da capital. E na quinta, aquelle mundo heterogeneo de parasitas
representava-se um pouco, mais resumido, pelo critico Lagoaas,
Alberto M., Marquez das Flres, grande pegador de bois, pai nobre
Cezario, e festejado Mattos, que fazia rir a sociedade referindo
historias da Lisboa duvidosa, no seu aranzel comico de _tatibitati_.
N'aquella primavera, a surpreza do marquez fra Luiza, a grande Luiza
que lhe surgia de repente uma senhora, e cujas infantilidades o velho
galante distrahidamente afagra at ahi. Lagoaas, que era forte
apreciador de fructos no cedo, foi o primeiro a chamar-lhe a atteno
para a deliciosa frescura d'aquella ma prohibida, que promettia
co'os seus acres succos perfumar a bocca de quem lhe cravasse os
dentes primeiro. Foi ento um movimento geral de galantaria no grupo
dos caadores, sobre Luiza. Com a sua _nonchalance_ habitual, o
marquez dava carta de corso aos amigos, admittindo-lhes correr palacio
a qualquer hora, em ps da famosa presa, se tudo fosse discretamente
acontecido. Quem mais lesto e galanteador se antolhasse, mais
esperanas poderia nutrir de successo. Alberto M. comeou uma elegia.

  Deliciosa aranha delicada,
  E com pennugens d'oiro revestida:
  Ligeira, dce, setinosa e leve...
  Tens a peonha lubrica mettida,
  Na caricia das patas cr de neve.
  .................................

Marquez das Flres era outro genero: confiava na mocidade viril dos
seus braos, e nas casacas vermelhas de caador com que apparecia
todas as manhs no grande pateo da casa, soado o primeiro hallali nas
trompas dos monteiros. E a batalha comeou, estando Ezequiel empenhado
em fazer triumphar o marquez.

Uma manh fazia Luiza o _mnage_ dos passaros, sobre o terrao,
Ezequiel que chega d'acaso. Bons dias d'um lado, bons dias do outro, e
comeou uma conversa d'introito, ao fim da qual, sem se saber como,
Ezequiel j fallava nas graas de seu amo, ideal dos fidalgos
generosos, nata dos amigos commodos, e _non plus ultra_ dos amantes
discretos. No  verdade, menina Luiza, no  verdade? Ui! que
gorgetas elle lhe dava! Pares de calas que lhe abandonra,
novinhos em folha! E a sua maneira de tratar ento, como d'igual para
igual!

--Boa pessoa, fez machinalmente a rapariga,  muito boa pessoa.

--Uma coisa no sabe a menina. Elle est doido por si.

--Ai! o tramouco do velho...

--Diz que a ha-de fazer muito feliz.

--Brr! Pois quem somos ns?

--Tanto que me encarregou...

--Voss alcovita agora, Ezequiel?

--Desejaria vl-a amparada, menina Luiza. Conheci-a pequena n'esta
casa, vi-a medrar e fazer-se mulher, e gosto de si como os avs das
netinhas tagarellas. D'ahi, no promette grandes dilatamentos a vida
da noss'ama: cedo, tarde, quando menos cuide, ahi vai ella caminho dos
anjos. E fallando claro: a situao que ella lhe fez n'esta casa, 
uma coisa postia que l fra a menina no poder continuar sem uma
proteco. Quer que mudemos de conversa?

--Posso, Ezequiel, isso posso. No digo a servir, mas escolhendo rapaz
com quem me case.

--Da aldeia, da quinta... Que creao  a d'esses homens?
Afeitos ao trabalho das terras, querem mulher da sua condio, que
sache, que monde, que moireje, e vista d'estamenha, e tenha rijeza
p'ra lhes parir um creano, em todas as paschoas de Deus. Alm d'isso,
duas naturezas desiguaes na educao--marido ciumento da mulher que
no merece--mulher desprezando o marido que a no soube captivar.
D'ahi zangas, ralhos, maus tratos, que sei eu? Ao passo que sendo
rica, poderia encontrar um moo d'estimao que lhe fizesse a vida
doirada, n'uma casa cheinha como um ovo.

--Mas rica, rica... Voss conhece a minha gente. Morrem todos de fome,
l por casa. Se me no comem os olhos,  que no podem tirar-m'os sem
que eu d por isso. Ser rica, de que modo, por que processo? Diga.

--Eu a bem dizer, no tenho plano. Idas vagas, muito d'alto, que se
no podem assim contar a uma rapariga nova e com principios diversos
dos meus. Idas de velho que viu mundo e sabe chamar os bois pelo seu
nome. Olhe. Quando eu era rapaz tive uma patra viuva, entradota, mais
que medonha--inda esbraseada por noivar, pobre senhora!--que uma noite
me beliscou o assento, de passagem por um corredor s escuras. Eu no
quiz: gostava muito mais da cozinheira: opinies de galucho, menina
Luiza! Fui p'ra rua como era de justia. Quatro annos depois estava o
cocheiro nomeado visconde do appellido da minha antiga adoradora.
Perdidinha por mim, menina Luiza, perdidinha. Carago! E eu to bruto
que no quiz! Se lhe ponho as calas em cima, andava agora de sege por
essas capitaes.

--Fallando claro, o teu sermo quer dizer: amiga-te com o senhor
marquez, rapariga. No  isto? Por sua morte, talvez sejas rica; em
vida d'elle por fora has-de ser feliz.

Ezequiel no retrucou, mas poz-se a contar historias de raptos,
vergonhosos amores, coisas cynicas e patuscas, sem apparente
colligao de sentido. A voz fizera-se-lhe surda, d'uma firmeza
espaada que lhe espargia na face aspectos graves de prgador e de
magistrado. E recapitulou da prdica, pitadeando, que a vida era um
quotidiano mercado onde a gente adquiria o que por acaso tivesse de
sobrecellente. Manoel Antonio Ferro, sahira da aldeia com elle,
Ezequiel, em 40, com tres pintos no bolso, e o saquito da roupa
branca. Entrado marano n'uma loja do Porto, roubou o dono: primeira
faanha, v vendo... Foi ao Brasil mercandejar nos escravos, volta
millionario. Chegado a Lisboa n'um estado de principe, recommendado
at aos olhos, nenhuma casa se abriu para o receber. Trazia na
consciencia duas mortes, ao que se contava, e uns poucos de processos
por contrabando e moeda falsa. O homem no se ralou muito co'a
recepo dos patricios. Fez tranquillamente um palacio na Junqueira,
talhou jardins, comprou herdades, derribou azinheiras, plantou vinha,
fez eleies: e um bello dia, quando j entrava a ser necessario, deu
doze contos para escolas, reclamando farda de moo fidalgo, pelos
Ferros de Santo Thyrso, que eram ladres d'estrada e sapateiros. Toda
a gente entrou a chamar-lhe venerando, desde os doze contos. Hoje,
ninguem funda um banco sem o nomear director, e no se inaugura uma
escla sem elle l ir botar discurso, com os seus ares de pai-av.
Est par, est conde; e se ainda no pe na cabea a cora real,  que
j tem uma de cornos, mimo da mulher, a sogra d'este Marquez das
Flres que ahi est de visita. A duqueza de Montes, menina Luiza, hoje
velha, e to virtuosa senhora, que manda rosarios da Terra Santa a
noss'ama... era uma danarina do primeiro caf-concerto que se fundou
em Lisboa, cheia de molestias. Depois da dana, vinha p'ras mesas
embebedar-se com genebra, sentada no collo de quem lhe desse dois
pintos. Eh! Eh! Tudo se vende e se compra: caras geitosas, virgindades
velhas e novas, familia, patria, salvao, condecoraes, reputaes,
sapatos d'ourello e garrafas de vinho. Quer um bom camarote no reino
dos cos, menina Luiza? D quatro contos ao papa: manda-lhe a chave na
volta do correio. Faz-se de cres? Ora adeus! No digo que seja dos
Evangelhos, esta doutrina. Mas  o resumo de cincoenta annos de
trambulhes e miserias. Seja-me rica! A primeira felicidade  ter que
vender. Mas a unica, a verdadeira,  poder comprar.

--Ezequiel, voss tem a alma ruim.

--Por lhe confessar que s os imbecis se portam bem? Por lhe dizer que
este mundo  dos descarados? Ai, se eu tivesse podido convencer-me
d'estas coisas na sua idade! No traria agora seno a libr de mim
proprio, e o mundo havia de fazer o que me viesse  cabea. Faa o que
quizer, menina Luiza. Mas esta fabula  clara como agua. O senhor
marquez gosta de si. Qualquer dia a senhora marqueza, trrr... foi-se.
Que ha de fazer a Luizinha? Estar resolvida a dar-se por mulher ao
primeiro labrego que venha? Mas creatura! Voltar para os casebres da
sua madrasta, d'onde fugiu a honra com medo aos pilhos? Brada aos
cos! Viver pura como a luz, uma vida escura como a noite? Olha a
tolice! Despir trajos de senhora, deixar este palacio e os confortos
da vida farta, a que se afez desde pequena?.. Bau! Bau! no tem
coragem. Isso sim! V, tane as mosinhas em trabalhos que humilham e
no salvam da pobreza e da fome. Hum! Hum! menina Luiza. Esses olhos
no mentem no que deixam adivinhar. Venda, venda! O senhor marquez
gosta de si.

As lagrimas saltavam j dos olhos de Luiza.

-- mais facil morrer, disse ella.

--Pois minha rica, no ser rondando o Ruy noite e dia, mais de noite
que de dia, que a menina ha de ir  cova de capella e palmito. Gostar
do filho, tem todos os inconvenientes de gostar do pai, menos as
vantagens. Esse pequeno  um cabea louca; pde fazer apetite ao
femeao--o que no faz com certeza  uma bizarria que a deixe
independente a si. Porque no pde! Porque no tem! D'ahi,
tarefa inutil perseguil-o. O fedelho por ora no larga os amiguinhos
do collegio. A menina no tem fortuna, parece-me ambiciosa... Venda. O
seu genero est na alta. Dezoito annos. Uma lindeza! Venda. Bocca de
morango, voz de seraphim... Venda, venda. O senhor marquez gosta de
si.

Era o tempo das floraes e dos ninhos. Divinas juventudes explodiam
d'amor nas seivas da terra, na luz e nos perfumes do ar. O co dce,
todo o campo uma distillaria d'essencias: l baixo, na aldeia, as
romarias comeavam, e os casamentos tambem. Luiza guardava silencio,
co'os olhos longe, vendo subir a manh pelo cantar dos passaros.
Comprar e vender. Vender e comprar. Uma carinha bonita, um corpinho
perfeito. O senhor marquez gosta de si.--E Luiza chorou todo o santo
dia.

       *       *       *       *       *

N'essa cabea de fogo entretanto, surgia cada vez mais fascinadora, a
imagem de Ruy, toda abrasada d'estranhos prestigios: e diante d'ella
ardendo sempre o lampadario d'um culto cego e inexoravel. Com o
pequeno tinham vindo  quinta passar as frias da Paschoa, tres ou
quatro dos seus companheiros mais intimos--Palhalvo, j gordo aos
quinze annos, cujas bochechas tinham o geito d'estarem soprando uma
desconforme trombeta,  semelhana d'esses anjos papudos que fazem
apotheose ao calix mystico, nos frontes das capellas-mres--Mattoso,
filho d'um criado velho, que a senhora marqueza destinava ao
sacerdocio, e dominava o grupo com os seus modos severos de
preceptor--Jorge Forjaz, primo d'Albertina, era o litterato, e
recitava Rodrigues Cordeiro e Palmeirim nos banhos da Nazareth e Praia
da Vieira--emfim Biscaya, especie d'aranhio adunco, cr de feno,
sempre tossindo, era um engeitado que o marquez recolhera e mandra
ensinar, e cuja maldade e azedume transpareciam j nos seus dichotes
de gaiato. Esta ronda de meninos bonitos, uns mais precoces do que
outros, alvoroava o palacio logo ao romper da manh, extravasando nos
pateos em exercicios de fora e gymnastica, furtando beijos s moas
por onde quer que as topasse, partindo n'uma algazarra, em carretas de
lavoira, para as searas onde mondassem raparigas, ou organisando
correrias, d'onde os cavallos voltavam desferrados e cobertos
d'espuma. Pde-se calcular o que estes diabos accrescentavam de
desordem  volta dos festins do marquez: excepto Ruy, que ia ao almoo
e jantar fazer companhia a sua mi. Era a unica imposio tambem da
boa senhora, ter o filho em _toilette_, defronte de si, nas refeies.
E isto enchia d'importancia o pequeno, todo esforado em infiltrar na
melancolia austera da enferma, um raio da sua graa juvenil. Mesmo, o
seu respeito por ella, timbrava em mimos, pieguices, ternuras,
pequenas dedicaes que a velha dama absorvia sem transluzir na face
exangue emoo d'especie alguma.

Desde que Ruy chegra  quinta, a marqueza dispensava Luiza de lhe lr
as oraes e velhos livros de pastoraes, villancicos ou novenas aos
santos patronos mais dilectos. Era ento Ruy o encarregado de lhe
percorrer as passagens estimadas. Elle a tudo se prestava, com um
tocante respeito de pagem amoroso, tentando seguir nos olhos d'ella o
grau de satisfao que promovia, e evitando as crises com uma
ligeireza d'alma adoravel e compadecida. Immovel por traz da cadeira
da marqueza, Luiza servia-os, interpondo a enferma como medianeira
innocente, no jogo galante em que ella buscava encasular a
adolescencia do rapaz. Alguma vez este lhe dirigia a palavra, a buscar
apoio n'uma assero, a preferir o conselho de Luiza no tocante a
qualquer pormenor de solicitude para com a mi. E a alegria da pobre
creatura, quando elle erguia aos olhos d'ella, os seus olhos picados
de scentelhas leaes! N'essa alma de collegial, toda escrupulosa no
_froufrou_ da sua alvinitente plumagem, parece, nenhuma ida de mulher
passra ainda. E Luiza interrogava-se, sofreava-se, confusa,
estonteada, aterrada das suas audacias, e sem coragem de revolver co'a
sombra d'uma _coquetterie_, o lago azul d'aquella pureza celeste.

Uma manh, cedo ainda, Luiza ia acordar Ruy para um almoo na horta,
antes da caada, quando se deteve  porta do quarto, sentindo rir e
cochichar por entre as cortinas do leito. Talvez que Palhalvo,
madrugador, a tivesse antecedido. Uma avidez de saber espicaava-a
entretanto. P ante p, esgueirou-se por entre os batentes da porta,
franzindo pouco o reposteiro, para se ir acocorar, sutilosa, por traz
do grande biombo de coiro que resguardava a entrada. Era um dialogo
abafado, d'um tom unido, e com palavras expirantes que s vezes se
perdiam entre murmurios de suspiros e beijos. Luiza avanou
traioeiramente a cabecita de vibora para fra do esconderijo. E os
seus olhos estavam como uma interrogao rancorosa, atravs das
phantasticas elegancias d'essa camara, que nos seus mais pequenos
detalhes evocava em estatua a organisao desconnexa, fruste,
mysteriosa, desigual, que l vivia. Bem podia a estranheza da
installao ser tomada em amostra de faculdades singulares. D'aquellas
frmas erraticas e symphonicas de cres amortecidas, via Luiza
exhalar-se, sob um dia novo, a alma exotica a que ellas serviam
d'involucro. As paredes eram forradas de velludo sombrio, j desbotado
nos sitios do sol, e com pinturinhas vaporosas de figuras e flres.
Sombrios tapetes, quasi uma relva, amorteciam a bulha dos passos, at
aos degraus do immenso leito toucado d'escuro,  laia d'ea, e com
cercaduras  moda das da armao mural. Uma quantidade de moveis
singulares: credencias d'bano sobre ligeiros ps, trabalhadas como
uma renda preciosa de volutas, entre ferrarias de prata batida a
martello; nudezas d'estatuas aos cantos, brancas d'insomnia no rasgo
genial das suas attitudes, servindo de cabide a chapos de mil
formatos: grandes jarres sobre cubos esculpidos, em cujas arestas
noctiluziam douradas vagas de pregos: e mesas carregadas d'estatuetas,
marfins, velhas miniaturas, bocetas esculptadas: espelhos de metal,
tenebrosos, por cima dos canaps, fazendo surgir da sua agua verde,
esqualidos phantasmas d'enforcados: roupes de grandes desenhos na
espalda dos tamboretes: e defronte do leito, um enorme divan com os
cochins em desordem, alguns atirados, e livros por cima, cujas folhas
os galgos iam passando entre as patas, por distrahir-se, nos
intervallos da somneca. De cada um d'esses pormenores, um brao sahia
e apontava um capricho, escaninhos velados de religio instinctiva,
qualquer coisa de cavalheiroso em que palpitava uma raa, ou se iam
espreguiando as passivas mollezas da anemia hereditaria. Lentamente,
os olhos de Luiza afizeram-se a divagar por toda aquella confusa
penumbra. Pela direita, acima do genuflexorio, n'uma especie de
tryptico negro, havia um quadro: era estranho: duas mos brotavam da
carbonosa noite do fundo, implorativas, mos d'asceta devorado pela
tentao: uma cabea funebre movia-se nas sombras d'um capuz,
insistindo em affirmar o quer que fosse d'asperrimo--se a lampada
gothica de tres bicos, cahida do tecto, oscillava, no tom mortio que
as luzes tm de dia, mesmo s escuras. Aquillo parecia um templo, sob
a agonia terrivel da lampada. Mas j lambendo o muro, o claro d'ella
fazia valer tropheus d'armas, radiando d'estapafurdias panoplias: a
mitra d'um bispo, cravejada de joias, um parasol de coiro arrancado s
escavaes d'um templo romano, em Evora, peitoraes d'uma antiga cota
sarracena... E dir-se-hia uma sala d'armas ento. Porm do outro lado,
a luz ia aclarar perto do leito, um perfumador de cobre sobre trip de
bronze. Luiza reparou. Ligeiros fumos fugiam  tona da caoila,
espojando armas de flres de Takeoka, bolas de styrax, coiro da
Russia, jasmins... E santo Deus! a narina farejava lupanar. De quando
em quando, as cortinas do leito mexiam, e pelo ar respirado da pea,
aquelles perfumes torpidos erravam, n'essa calentura das alcovas
habitadas pela reminiscencia de muitos amores sobrepostos. Luiza
sentia-se desfallecer,  ida d'outra mulher antes d'ella, ter
captivado o estudante. Mas que mulher? dizia a camareira
emparvoecida. O nome d'ella? O feitio d'ella? Dentro do palacio, por
mais que procurasse, no descobria uma rival. Sua irm no era bella:
e fatigada, arrastando saias de barra immunda... Na cozinha, as
creadas, todas feias de perder os sentidos. Alguma creatura de fra?
Isso  que no! De noite, Luiza rondava os corredores: a galeria que
abraava exteriormente o quarto de Ruy, era Luiza que lhe fechava a
grade de ferro, aberta sobre os jardins. E irresoluta, tinha um suor
na raiz dos cabellos. Aquelle sonso! Aquelle vil!--A sua primeira gana
tinha sido correr ao leito, afastar as cortinas, ir contar tudo 
senhora. Mas um terror apoderra-se dos seus membros. Que medonha
noite na sua alma, que singular e perfida violao do seu destino,
quando ella visse com os seus olhos, palpasse com os seus dedos, o que
j alcunhava de traio a uma f que ninguem lhe havia ainda jurado! E
l dentro, n'aquelle infame ninho de volupias, sempre o murmurio de
beijos e suspiros. Urgia emtanto chamal-o para o almoo. J no pateo
havia rumores de vozes e relinchos de cavallos. Luiza sahiu p ante
p, para entrar outra vez com grande ruido de portas atiradas. Mas
ainda ella no transpunha a rea de resguardo marcada pelo biombo, Ruy
sahiu do leito com impeto, muito pallido, vestido apenas d'uma camisa
de sda: e vindo a ella, volubilmente, abraou-a a plenos braos,
deu-lhe um beijo furioso na bocca, e de rodilho pl-a fra, fechando
a porta sem mais explicaes. Foi n'aquelle idyllio triste a unica
impresso feliz que ella sentira: e todo o dia, toda a noite, lhe
sabia a bocca quelle beijo de rapaz que lhe entrra na carne pela
furia virulenta da lingua.

D'alli a pouco, os caadores deixavam o pateo direito ao laranjal.
Luiza chegou-se ao terrao a vl-os partir. Era o resto. Alberto M.,
empurrava para a porta Marquez das Flres, retardado em dizer
madrigaes  camareira. Festejado Mattos ia bifurcado n'um burro,
immovel como um bonzo por baixo d'um grande chapo de esteira do
Algarve, entre cabazes de provises. Marquez de Selmes fra o ultimo a
transpr a porta. Reparando em Luiza, gentilmente:

--Tira a cabea do sol, no adoeas.

E mandou-lhe um beijo nos dedos. Ento ella alongou a vista para alm
dos muros do pateo, viu Ruy pelo brao de Mattoso, conversando a
passos vagarosos.

--Menina Luiza.

Era Ezequiel com uma caixa de marroquim.

--Da parte do senhor marquez.

Luiza abriu o cofre, na ingenua expanso de Margarida ao atacar a aria
das joias, na scena do jardim.

--Joias, joias! e houve no orgulho d'ella, um romper do sol
vertiginoso.

--Para comeo,  do melhor, dizia Ezequiel. E Luiza tocava n'um
bracelete ao acaso, com safiras e pequenas perolas d'agua duvidosa.
Havia mais um afogador, seu par de brincos, outra pulseira... E a sua
bocca sorria de pasmo, na sua cara enxovalhada de pejo.

--Vale quarenta libras, toda esta caganifancia, quarenta. O homem faz
limpamente os seus negocios, dizia Ezequiel. Eh! Eh! ponha l as
pulseiras, menina Luiza:--abriu uma.--Que lindeza! Metteu-lh'a no
brao.  para vr como fica.

Luiza toda se arrepiava ao frio do metal na pelle trigueira do seu
punho. Lembravam-lhe aquelles beijos na camara de Ruy, pela manh. E
fechou o cofre de repente, dizendo a Ezequiel que o tornasse
a levar ao marquez. Com certeza houvera engano. Ella no podia aceitar
presentes d'aquelles.

Ento c'o gesto grave, Ezequiel:

--Nada, nada. Seu amo ficaria fulo, se visse as joias recambiadas.

Mas Luiza no o escutava, nem ouvia. De novo, o ciume lhe fizera
derivar a atteno por outra corrente.

Oh, a mulher que estava com elle! No poder ella agarral-a sem
testemunhas! No lhe poder tomar o n da goela entre os pollegares
furiosos; e desagregar-lh'o, e esmagar-lh'o fazendo-lhe espalmar a
lingua para fra da bocca, at  base toda sangrenta nas mordeduras da
agonia! Via-o ento apparecer d'entre as cortinas--como elle vinha,
lesto, branco, em sobresaltos!--na sua esguia camisa de sda, vermelha
e longa, muito franzida  volta do pescoo, e toda ella moldando a
estatura elanada d'algum d'esses reisinhos loiros das phantasmagorias
poeticas de Shakespeare. E o beijo que lhe dra, to sapido de
delicias inditas, bocca a bocca, Luiza tinha-o sempre no fremito dos
seus labios, e guardava-lhe o perfume no halito, como se o embalsamra
uma pastilha de harem.

--Alm de que, tenho f que a menina vai d'aqui a pouco mudar
de teno. Ol se vai!

--Que est a rosnar, Ezequiel?

--Nada, nada. Aceitar, que quer dizer?  um presente: meu amo no pede
nada por elle. D'ahi, seria a primeira vez... Eu c recusei deitar-me
co'a viuva, que era barbosa e medonha, mas sempre lhe fui recebendo
bom relogio de oiro. Gente pobre pe de banda orgulhos tolos.  metter
n'algibeira, menina Luiza.  de boa creao.

Luiza ficou cogitando. Joias tinha-as ella visto nos gavetes da
marqueza, em grandes cofres de setim desbotado: estylos modernos,
velhos estylos, todos os metaes, todos os esmaltes, pedras de todas as
aguas e de todas as cres. O mal da pedraria, que faz cpida a mulher
do alto luxo, Luiza no podia soffrel-o ainda, no seu humilde papel de
camareira. Vagamente ella entrevia a seduco d'aquellas faiscantes
areias, que os romances acclamam como talisman de todas as concesses,
sem todavia desconfiar que atmosphera mordente pem de roda  belleza,
as fulgurantes pedras lapidadas. Ir contar tudo  senhora marqueza?
Boa ida. Luiza foi aos aposentos da enferma. Ahi lhe daria o ataque
de nervos, desharmonia na casa, e talvez para ella o olho da
rua... Muito embora! Entrou. Mas logo ao entrar ouviu tossir. A velha
passra mal durante a noite, vomitos sccos, uma ponta de febre, e a
manh passou-se n'isto. A marqueza no tinha querido erguer-se da
cama, e ouviu missa mesmo deitada, pela porta entreaberta do oratorio.
A cada momento, Luiza tinha que voltal-a, trazer-lhe um livro,
executar uma ordem, aconchegar uma cortina, vr o tempo. E s pelo
meio dia pde tirar um bocado para se ir vestir. O quarto d'ella era
junto aos aposentos da senhora, com uma porta sobre o grande corredor
que levava aos quartos de Ruy, no longe dos quaes demorava Ezequiel.
E Luiza comeou um _toilette_ minucioso e cuidado. Ao canto fumegava o
banho, em que ella entornra meio frasco d'agua flrida. E sobre a
commoda, o cofre aberto, deixava vr os presentes do marquez. Das
gavetas saccou Luiza a roupa que precisava: uma camisa d'abertos, bem
fina e trabalhada por ella, saias brancas--era um domingo--e d'uma
gaveta pequena, o retrato de Ruy que poz  vista, sobre o pequeno
movel de cabeceira. J uma a uma, as saias d'ella iam cahindo, diante
do espelho, com a friorenta graa, um pouco crispada, d'um
faiso que se banha no regato, ruflando as plumas, depois de haver
bebido. E ainda apoiando ao seio a camisa, que despira, espremeu
d'alto, vagarosamente, sobre a tina, a esponja ensopada em agua
tpida. Desnastrra os seus cabellos, que eram grandes, espiralados,
bem fartos, reluzentes e negros, torcendo-os aps sobre a nuca, n'um
grande molho de serpentes, como nas estatuas classicas, os cabellos da
Venus aphrodite. Espiralitas doidas, carrapitos finos, muitos
frisados, soltavam-se-lhe do turbilho de cabellos, por brinquedo,
cocegando-a na pelle doirada do pescoo. Emfim a camisa cahiu; e era
assim adoravel de nudez, triumphante de mocidade, cheia de revelaes
e surprezas virginaes. Quasi morena, a sua pelle vestia uma carne
rija, symetrica, cantando sonatas perfidas de volupia, em que resoavam
estribilhos de dentadas, gritos hystericos, spasmos e soluos
d'insaciavel peccado. Mesmo,  volta da banheira, dirieis que as
coisas abriam palpebras, e por entre as palpebras, olhos que a
fitavam, furiosos de deboche, gritando infamias por centenas de boccas
invisiveis. Ui! como a sua divina garganta, rapazes, parece
crystallisar em bellezas inditas, toda a luxuria em que as geraes
tm urrado, sedentas da frma, ha tantos seculos! Que bazar de
tentaes delirantes era o seu peito, que duas ptalas de rosa
maculam, to altas, to iguaes, to erecteis, que antes pareciam
beicitos de criana, estendidos n'um momo candido para aceitarem o
beijo d'um velho amigo da casa.--E mergulhou, espanejada, dilatada de
prazer, cantarolando baixo uma cantiga. A espaos chapinhava a agua,
immergia, tornava a cahir, amollecida n'um desejo, sonhando noites de
nupcias com elle, sobre o leito de cortinas sombrias, onde as suas
respiraes se estrangulassem entre um murmurio de beijos e suspiros.
O retrato de Ruy nem a fitava, receando a perscrutao impreterivel
dos seus olhos, e o jugo d'aquelles braos, absorvente e pantanoso.

Uma hora no relogio do corredor.

Ainda agora Luiza no sabe explicar, como  que tendo jurado a si
mesma, recambiaria o estojo ao marquez, se encontrou no fim do banho
em frente ao espelho, na como Cypris na areia de Cythra, ensaiando o
effeito do afogador e dos braceletes, na pelle rosada ainda dos
attritos da esponja.  medida que ia fixando sobre o espelho, tantos
e tantos detalhes de perder a cabea, passava no claro dos seus olhos
o mudo extasi de si propria, e a coriscao do oiro novo, nas
flocosidades brunas da garganta e dos hombros. E comsigo mesmo acabou
por achar razo a Ezequiel. Por fim de contas, aceitar que quer dizer?
 um presente. O senhor marquez no pede nada em demasia da offerta.
Virava a cabea para vr o luzeiro dos brincos, ageitava o colar,
punha as pulseiras... Deliciosa, fascinadora, appetecivel! Se Ruy
pudesse vl-a a plena luz, assim despida, e sem a hypocrisia do mais
ligeiro vo, talvez que elle sustasse de vez tantas repulsas--ai,
talvez!--e viesse cahir-lhe aos ps absorvido na sua belleza immortal.
Oh, como da esbelteza nervosa dos dois corpos, ventre a ventre, se
evolaria o poema de mysteriosas caricias n'esse instante, rimado a
beijos, labio a labio; esse divino poema, atravs de cujas estancias
rola a batalha do gozo, e do calice de cujas imagens gotteja a
tripla-essencia das mais celestes devassides! Duas vezes ou tres
desenrolra a camisa, esfregando-a da gomma entre as mos
sobresaltadas: e ainda por fim se adorava no espelho adulador, furiosa
por dar-se, n'um paroxismo que ia at ao deslumbramento. De repente
pareceu-lhe ouvir rumor no quarto proximo. Enfiou a camisa  pressa,
atarantada; p ante p foi indo de mansinho at  porta, receosa,
d'ouvido  escuta occultando a nudez por traz dos reposteiros. No se
enganra. Estava entreaberta a porta do corredor. Ento lanou um
chale pelos hombros, enfiou as chinellas  pressa, sem se atrever a
perguntar quem andava l. Mas deu um grito de susto, vendo Ezequiel
diante d'ella, lvido de morte, tremulo e babado como um satyro
decrepito.

Luiza apenas tivera tempo de acocorar-se a um canto da pea, buscando
encobrir-se toda no chale, pallida de vergonha e gritando ao malandro
que se fosse.

Porm este, apopletico, nem fallar podia, fulminado por aquella viso
de mulher na, e com o cuspo a espessar-se em grossos fios nos cantos
da bocca.

--Aquelle ruivo, menina Luiza, tartamudeou elle por fim, rolando os
olhos,--o que faz versos... Entregou-me este papel para vossemec.

--Bem, bem, v-se embora. Ande! No ha maior atrevimento.

--Ouve, Luizinha, rica filha, eu j me vou.  uma coisa que
eu trago aqui guardada. Des'que te vi. E to nasinha, to boa, Jesus
do co!

--D'aqui p'ra fra! J! Ou chamo gente.

--Os outros querem-te por uma vez, pai, filho, moos e velhos, anda
tudo atraz de ti.  uma canalha, j t'o disse,  uma canalha. At me
propuzeram que te amordaasse, uma noite, p'ra se refocilarem comtigo,
aquelles ladres.

A sua voz rastejava, o seu aspecto era terrivel.

--Pelo amor de Deus! supplicou elle. Ouve-me ainda.--Estou quasi rico.
Estou velho. Oh, chega-te a mim! Podemos casar. manh. Hoje mesmo.
Filhinha! Que s bonita d'offender a Deus no co.

Estendia os braos para cingil-a, co'a lingua scca na bocca, e
alongando os beios lividos contra os claros de nudez que lobrigava.

--Anda commigo. Sahirs d'esta espelunca. S em Lisboa, tenho doze
contos no banco,  minha ordem. Pratas, inscripes arrecadadas ao
canto do meu bah. Ouve, Luiza! Tu matas-me, diabo! tu ests deitando
a minha alma no inferno. Um beijo s n'essas carninhas.
Deixa dar. Que mal te faz?

E vergado  tremura senil dos debochados, Ezequiel cambaleava,
crispava-se, indo para ella de rastros, assim como um co leproso
conquistando a codea que lhe negam, sob golfes de chicotadas.

--No tenho herdeiros. Um pobre velho! De hoje p'r manh posso
morrer. Lembras-te do que te tenho dito? Os conselhos, os mimos...
tristezas que eu soffro por causa de ti. Eh! Eh! Est decidido que
aceitars.

Ento conseguiu agarrar-lhe um brao, o que desligou Luiza das algemas
nervosas que a sustinham, estarrecida, perante o sapo de cujo visco
escorria tanta lascivia torva d'impotente. Houve uma lucta. Os
cabellos de Luiza rolaram.

--Larga-me, ladro! dizia ella n'um choro baixo, rapido, soluando em
convulses. Comtigo, nem morta, estupor! Doira-te, a vr se eu te no
cuspo n'essa cara. A tua vida, todos a conhecem. Devias andar na costa
d'Africa, amarrado com cadeias a algum canzarro da tua parecena.
Larga-me, larga-me, quando no dou cabo de ti!

Elle porm, retendo-a, sem violencia ainda:

--Tu deves lembrar-te, Luizinha, do bem que eu te tenho
feito. Os teus desejos, ando a adivinhal-os. O teu nome -me sagrado
em toda a parte. Pelo amor de Deus! Pelo amor de Deus!

--Rua d'aqui! De quem eu gosto  do menino. Eu hei-de ser d'elle por
fora. Inda que eu haja d'entrar na vida depois.

Os dentes do velho rangeram. Chorava, ria, esse homem, cobrindo o
peito de baba; era assombroso de vexame! Luiza conseguira libertar uma
das mos; e pregou-lhe nas ventas uma bofetada medonha. quella
affronta, Ezequiel perdeu a cabea. As obscenidades golfaram-lhe da
bocca, como granizos espessos, pintando toda a decrepita infamia da
sua alma. Ella estava de p junto da porta, quasi na, sem se
importar. Tinha no collo e nas orelhas as joias que lhe mandara o
marquez. O velho viu-as.

--Eh! Eh! Sempre aceitaste o cofre de meu amo. J lhe posso ir contar
que o mais difficil trabalho est vencido.  melhor ser amsia de
fidalgo que mulher de creado de servir. Inda tu procedeste com brio.
Ha marafonas honradas! Podias ter escolhido as duas profisses ao
mesmo tempo. Ella ria-lhe na cara. E o miseravel, volvida a
crise, apresentou-lhe as ultimas concesses. Ajoelhra. E jurou-lhe
consentiria o adulterio. Dava-lhe as suas riquezas por uma noite s
d'intimidade. Casada com elle--ao dia seguinte, podia partir com
dinheiro dos seus cincoenta annos d'escravides e economias.

Luiza no retrucou: agarrra um papel de cima da cama.

  Deliciosa aranha delicada...

Mas casualmente, erguendo os olhos, viu na bandeira da porta tres
cabeas gravemente assestadas  vidraa, gozando a comedia com a paz
d'alma de bons espectadores das galerias. Marquez das Flres tinha um
grande binoculo com que a mirava. O poeta estava em extasi. Do
festejado Mattos mal se via a careca luzente, como era mais pequeno, e
uma ponta do nariz guloso que vinha adejar contra os vidros, como um
focinho de morcego encandeado contra a luz d'uma fogueira.

       *       *       *       *       *

Perto da quinta, sobre um outeiro coberto de cevada verde, do outro
lado da aldeia, houvera de tarde uma festarola d'ermida.
Todas as creadas tiveram licena para ir at l, depois do jantar,
excepto Luiza que estava de servio  marqueza, e Ezequiel que, j
velho, quizera ficar junto de seu amo. Dos terrados do palacio via-se,
j noite, a foguetaria estrondeando no adro, e clares de fogueiras
lambendo as saias das moas na sarabanda dos bailaricos. De quando em
quando, uma labareda mais clara desenhava no azul profundo a branca
fachada da igreja, d'onde sahia um campanario em agulha, cujas sinetas
desde a manh tagarellavam festivamente. Extinctos os rumores das
officinas, no andar terreo, silenciosas as cocheiras e mais
dependencias da casa, toda a enorme residencia dir-se-hia acachapada
n'uma somnolencia lugubre, entre a confuso dos arvoredos. Apenas nos
quartos da fidalga cochichavam tres ou quatro velhas damas das quintas
perto, que tinham vindo de visita, aproveitando a aberta do dia santo;
e na casa de jantar, logo depois do caf, o jogo comera entre os
convidados do marquez.

Ssinha no terrao, Luiza seguia a curva dos foguetes no co
primaveril, esmagada pela espantosa scena com Ezequiel. Queixar-se...,
ella tinha pensado em queixar-se. Mas Ezequiel contaria a
scena do afogador e das pulseiras, a sua loucura pelo Ruy, e todas as
tagarellices que a pobre cahira em confiar-lhe.  tardinha, vencida de
remorsos, ainda ella ousra ir com o estojo ao marquez, a recusar-lhe
nitidamente aquellas offerendas que no merecia. Elle olhou-a com a
bondade um pouco ironica que costumava ter.

--Meu padrinho, eu vinha...

--Ah, no me agradeas, pequena. Sei da companhia que fazes  senhora.
 uma lembrana de minha parte. Nas raparigas bonitas  que essas
coisas dizem bem. Vai.

E Luiza no tivera coragem d'insistir.

Essa noite, Ruy que passeava, fumando, ao longo da balaustrada,
observou-lhe:

--Ests com pena de no ter ido ao arraial?

--Eu c sim! respondeu ella. Olhe que ha de ser por l uma balburdia.
Se l estivesse, o que eu fazia era voltar.

--Ainda  tempo, se queres. Minha mi d-te licena.

--Ai, no. Gosto pouco de romarias.

--O que  que tens ento? Pareces triste. Pareces doente.

--Eu no tenho nada, menino.

Elle fez mais duas vezes o comprimento da balaustrada,
lentamente, fumando: e o seu passo no fazia ruido sobre o xadrez da
plataforma.

--S se te zangaste esta manh... Foi brincadeira minha, no faas
caso.--Mas Luiza sorriu-se: zangar, porque?

--Eu sei! Podias no ter gostado.

--D'um beijo? Ora! no vinha talvez p'ra mim.

Ruy tossiu um pouco. De cada vez que elle dava costas, os olhos de
Luiza seguiam-n'o. E a sua figura perdia-se no escuro, ficava um
instante indecisa entre as sombras das arvores. Luiza aguardava ento
que elle voltasse, com extasis de devota, e quando o lume do seu
cigarro apparecia, ella retomava a sua postura de Manon batida.

--J sei, que tem um namoro, disse ella em voz baixa, ao fim d'um
esforo.

Elle voltou-se.--Eu!

--Tem, tem.

Ruy estava muito familiar.

--Pde ser. Na vizinhana ha bonitas raparigas.

--No, no, c em casa.

E o pequeno rindo.--Ento s tu.

--Ai, a mim ninguem faz festa. Acham-me feia.

--Ao contrario. Toda a gente anda por ahi a fazer-te a crte. Eu
percebo.

--Esses!... disse ella, fazendo olhinhos de gata sobre Ruy. E encolheu
desdenhosamente os hombros.

--Mas, emfim, quem namro eu?

--No disfarce. Quando entrava no seu quarto esta manh, ouvi...--J
elle proseguia no giro interrompido, como se entendera a indiscrio.
Essa vez demorou-se mais. E ao topal-a, bruscamente:

--E tu que recebes presentes! Dizes que no.

--Ah, sabe.

--Esta manh.

-- hora dos beijos... juntou Luiza para lhe metter ferro.

Elle tinha ficado nervoso.--Hein? presentesinhos...

--Quem m'os deu explicou-me o motivo porque m'os dava. A minha recusa
seria prova de soberba, e tinha de passar por desagradecida aos olhos
de meu padrinho.

--Quero dizer, eu no me importa...

--O tal Ezequiel que enxafurda os outros na calumnia, devia
lembrar-se das muitas infamias da sua vida. Olhe que se eu quizesse
fallar!

--No. Isso cautella.  um creado velho, elle prudente, elle fiel...
Emfim, agrada-me.

--Deus far com que se desilluda, menino, quanto mais depressa melhor.
Mas ao menos, devia ter-lhe contado tudo, o intrigante.

--E achas pouco? tornou elle em ar de mofa.

Luiza interdicta, no sabia bem ao que elle se estava referindo.
Ficaram calados.

At que resoluta, um pouco tremula, pondo-lhe as mos sobre as mos:

--Ha uma pessoa s de quem eu gosto, disse ella.

--C em casa esto muitas. Provavelmente gostas de todas.

Ella dava grandes suspiros, afflicta: e desatou n'um choro
subitamente.

--Mas vamos! Que  isso? Porque choras tu?

--No  nada, no  nada...

--No, isso has de dizer.

Ella deitou-se-lhe aos joelhos, e n'uma anciedade:

--Oh no me deixe! No me deixe! Se elle soubesse! Era to
desgraada, to maldita! Todos na casa queriam perdel-a; Ezequiel
antes de todos, lhe infundia um pavor funebre e desgrenhado. Que mal
fazia ella? Porque insistiam em lhe fazer sentir a sua falsa posio
n'aquella casa?

--Mas cita os nomes, conta o que te fazem, insistia Ruy por acalmal-a.

--No sei, no sei, dizia a rapariga: e soluos bruscos abalavam-lhe o
peito. Era uma angustia que a tomava, uma tristeza que lhe vinha sugar
o corao. De noite acordava espavorida, com um novello nas goelas,
sem poder respirar. Tinha que dormir fechada  chave, por sentir
passos de roda do seu quarto, sombras fugindo na curva dos
corredores... Tudo lhe parecia hostil n'aquelle palacio agora... os
olhares dos homens, as tagarellices das creadas, os proprios rumores
indistinctos d'altas horas.--Ezequiel dissera que a havia de perder.

--Olha a mania! Ezequiel no passa d'um pobre velho.

Ella quasi o cingia pela cintura, estreitamente, fazendo-se pequenina,
e como se quizesse abrigar-se no concavo das suas axillas. Supplicava
em voz surda, com a bocca collada ao peito d'elle. Dirieis
uma liana de martyrio enlaando a haste flexivel d'um cip.

--No, no, menino Ruy. Luiza bem adivinhra os intentos d'aquelle
homem sinistro. Elle queria-a. E ousra dizer-lh'o com que palavras,
sabe Deus!--E outros ainda. Marquez das Flres, que outro dia, ao
encontral-a no jardim... Finalmente Biscaya vinha arranhar-lhe  porta
do quarto... O ruivo mandava-lhe poesias... Nas cozinhas, em ella
entrando, todas as moas tossiam como se lhe soubessem d'um pdre. At
os da cocheira tinham ousado chalaas cras, quando succedia
toparem-n'a de perto. E Luiza tremia, Luiza perdia a cabea!--Uns por
ciumes da proteco que os senhores lhe dispensavam; outros por maus
desejos que ella sempre tinha repellido; e todos buscando precipital-a
da sympathia de Ruy e da marqueza. Oh, j no sabia como fugir quella
calcinante atmosphera de odio e rancor.

--Casar, disse elle.  o que deves fazer. E o seu olhar evitava-a.

--Casar, ella! quem queria uma mulher sem fortuna, e com a educao
mais alta que o nascimento? Os habitos que contrahira n'aquella casa
prohibiam-lhe de se unir a um qualquer homem do campo que ella de
resto no saberia amar sinceramente. Esses mesmos habitos haviam
compromettido a serenidade da sua consciencia, e quem sabe se
auctorisado os desbragados propositos dos que buscavam perdel-a?
Mesmo, a sua razo tresvairava: era necessario um esforo desesperado
para varrer da cabea as loucuras que por l corriam.

Loucuras, sim?

Ella no delirava. Casar com este ou com aquelle, tudo era cahir do
sonho radioso a que se afizera primeiro. O homem que ella adorava,
jmais poderia sem descer, tocar-lhe com os labios na testa. E o seu
futuro, ella bem no via, descendo n'uma espiral d'angustias e
desalentos. Em creancinha, quando o menino estava ausente, Luiza
dir-se-hia no palacio a filha unica da marqueza, que todos acariciavam
de passagem, buscando por ella captar a benevolencia da fidalga. A
felicidade era to facil d'aprender! Assim se fra educando, como se a
destinassem a algum homem de condio superior. At a familiaridade de
Ruy, n'aquelle tempo, lhe ajudra a fomentar a sua illuso de
grandeza. Agora Ruy estava um homem--adeus encantamento!
Luiza teria de voltar a ser uma guardadora de porcos.

Elle apadrinhou-a com um magnifico gesto fidalgo. Quasi nem metade das
suas palavras ouvira, porque havia um instante, surpreso, se escutava,
sentindo-se invadir d'um sentimento indefinivel, delicioso,
inquietante, que lhe ascendia no sangue, e o esbraseava no mais
recondito da sua carne, e lhe punha fervores pela nuca, at s fontes,
como se fra um veneno. Aquillo espraiava-se n'elle em bruscas ondas:
era uma sensao inexplicavel de vaga delicia, sobresalto, receio,
queimadura... J trinta vezes quizera afastar Luiza, sacudir os
filtros que vinham da sua provocadora belleza, retomar o seu bello ar
de principe herdeiro, impassivel aos arrulhos do serralho: e outras
trinta sentira faltar-lhe a coragem. Entrou ento a dizer-lhe
consolaes ao acaso. Ella estava por fora na sentimentalidade
ephemera d'um mau momento, vendo cr de cinza por uma ennublao
instantanea da sua viveza de rapariga--nem admirava, com a doena da
senhora marqueza... E seno, que queria dizer tudo o que lhe ouvira?
Das suas palavras, no resahia uma s causa de soffrimento
legitima. Era quasi tudo pesadello romantico, trahindo a crise dos
nervos convulsivados, hemorrhagia sem lanada, preludio d'amor
latente, que fluctuava ainda sem escolha d'idolo. No fundo d'essa
avenida de projeces melancolicas, era evidente que a sombra d'um
homem adejava, mas sem physionomia, sem cabea... uma insurreio do
feminino em cata de nupcias. As mulheres aos vinte annos vibravam
todas n'aquella passageira crise do sexo reclamando o culto para que
foi votado. O necessario agora era pr uma cabea sobre os hombros
d'aquella translucida appario, dar-lhe face, dar-lhe caracter,
dar-lhe nome... Finalmente, tornar o phantasma em homem!--E sorrindo:
hei de procurar-te um noivo, deixa estar.

Luiza erguera a cabea.

--Tu?

Surprehendido, elle encarou-a. Viu-lhe o perfil dealbado por um
lampejo da sulfatara interior, e a lascivia da bocca aspirando o
halito das suas benignas palavras.

--O meu noivo, balbuciava ella n'uma especie de amoroso delirio,
poetisado pelas cadencias da voz debordando em melodias. Procura-o
perto. Talvez te no responda, apesar dos meus suspiros que
o chamam, noite e dia.  uma estranha creatura, esse noivo, bella como
a appario do Christo a Santa Thereza, porm fria e fatal aos que se
lhe approximam. S prostrada na terra eu ouso chegar-me a elle, como
um reptil a uma cora branca dos bosques. Entre ns, eu bem conheo,
ha o boqueiro d'uns poucos de seculos de cultura. Quero preencher com
a minha belleza esse formidavel precipicio que me prohibe de o adorar.
Ai de mim! Embalde os meus braos tremulos se lhe estendem, e os meus
olhos extaticos vo pousar-se, como pombas, no esplendor da sua
belleza to pura. Elle no quer ouvir os meus soluos, nem derramar
nos meus cabellos a calorosa unco das suas caricias.  nobre, 
altivo. O seu destino o preserva das minhas traioeiras ciladas. Todas
as aflices da minha alma, todas as reluctancias da minha juventude,
dias de esperana, noites de delirio, nostalgias a olhar do angulo
d'um terrao o cotovello d'estrada por onde a sua carruagem se
sumiu... tudo ahi fica murcho e desfeito no caminho dos seus passos,
sem que elle volte a cabea para me lr no branco dos olhos a
cruciantissima dr que a sua pisadura fez verter. Annos e
annos, esta cegueira luctou por captivar-lhe a misericordia, sem
reparar nas concesses infamantes que a minha alma ia fazendo aos
desejos que a torturavam. Quiz transfigurar primeiro o meu amor n'um
celeste e casto poema, todo espiritual, todo intimo; subtilisal-o em
dedicaes, impr-lhe sacrificios... devotar-me emfim  sua
felicidade, calando o grito do meu corao que reclama sem partilha,
essa creatura em que elle no pde pensar sem deslumbramentos.
Protesto inutil! Filha de grosseiras gentes, puidas de miseria, e
fazendo do vicio desforo para amordaar o desespero, estava escripto
que eu havia de andar a rojo, como a serpente, tentando a claridade
immortal da sua adolescencia.

Luiza calou-se, arquejante. E os seus cabellos roavam pela bocca de
Ruy, mordicando-lhe a pelle do queixo com uma titilao imperceptivel.

--Emfim, a minha paixo chega a um limite e rebenta, prevendo o
instante em que elle me vai fugir para no voltar. Oh no me abandones
tu!

--Vem gente, tornava Ruy n'um sobresalto.

A mesma loucura os tomava e fazia pulsar estreitamente
unidos, assim como n'uma bocca muda, um labio a outro labio.

--No!  um minuto mais, dizia ella. Eu j no sei o que digo. A ida
de que outra mulher ter beijado a tua bocca tira-me o somno, e o meu
sangue tumultua e allucina-se desde que perdi a esperana de te
captivar a um simples fremito das minhas sobrancelhas. Eu no te peo
um desses amorfos e dessorados amores que sob a umbella da igreja
podem mostrar-se a toda gente, na atonia estupida em que a lei
amosenda as _fioriture_ do corao. Tornei-me um animal de luxo, no 
assim? cuja posse disputam em tua casa esses homens. Ento escolho-te!
Estou no meu direito. E como uma escrava, estatelo-me no cho que tu
pisas, para que me esmagues a cabea depois de me haveres cingido, uma
vez s que seja.

Ella cahira-lhe aos ps, e beijava-lh'os com a exaltao d'uma louca e
os phrenesis d'uma enfeitiada. N'aquele instante, Ruy nem sequer teve
um gesto para apanhal-a do cho. Fizera-se muito pallido. Os seus
braos tinham cahido. E um terrivel sorriso zigzagueava na sua bocca
enygmatica. Dirieis uma creana, que chegada ao fim d'um
bello conto, subito se desencanta do entrecho, e passa adiante, sem
lhe ligar mais atteno. Assim elle entrou nos quartos da marqueza,
bruscamente, deixando-a prostrada nos primeiros degraus da escadaria.

Por conseguinte, Ruy tinha-a recusado, depois de a ouvir monologar
como uma actriz fastidiosa. Interdicta e buscando vencer o asco que de
si mesma lhe vinha, Luiza escutava o furioso debater da sua vaidade
sacudida na estriadura d'aquella humilhao. Sahiram as visitas,
voltaram da festa os creados, que pouco a pouco, ceia finda, iam
desertando para os seus dormitorios. Luiza trouxe o caldo  marqueza,
vazou-lhe o calice de Madeira com a mesma solicitude machinal, sem ter
reparado na escarradeira cheia de sangue, na somnolencia e na pallidez
da pobre dama. Renovou o azeite da lampada do oratorio, desceu 
cozinha onde sua irm pela centesima vez insistia em lhe aconselhar o
casamento com Ezequiel, como mastro de _cocagne_ para a familia
inteira: e de joelhos, na capella, para as rezas da noite, por mais
que fizesse, o seu espirito perdia-se em oceanos de magua: at que
afogueada, estupida de scismar no seu destino, veio ao terrao banhar
a cabea nas brisas da noite.

Os ultimos romeiros desciam do monte, e amadornavam por esses caminhos
os echos das cantigas, deixando atraz de si n'uma espectativa lugubre,
a somnolencia espectral dos arvoredos. Uma livida noite amortalhava o
immenso descampado. Entre cerraceiros de nevoa, a lua minguante subia
por ondas de claridade torva, gordurenta, sem reflexos, como uma
agua-forte sinistra que rolasse as suas tragedias de cinzento,
desfazendo nos macissos as ultimas _nuances_ de paisagem. Ai, pobre
Luiza! Aquella repulsa fazia-a rolar na sua ida a uma condio, alm
de cuja ignominia ella julgava se no podia descer mais. Quanto daria
ella agora, a pobre tonta, por voltar a ser na estima d'elle a sua
companheira de brinquedos, a sua pessoa de confiana, a sua amiga, a
sua irm?... e poder encaral-o com os olhos limpidos d'outr'ora, sem
crar por aquella scena de seduco premeditada, que at na propria
consciencia a envilecia! Agora ella olhava  roda de si cahida da
exaltao que a levra a cingir-se com elle, interrogando-se,
perscrutando-se, dizendo-se indigna de todas as commiseraes.
Era uma mulher sem vergonha, quasi ignobil, que inspirra o
nojo, mesmo formosa, mesmo intacta, ao primeiro homem a quem estendera
as pomas dos seus desejos. Podia aceitar quaesquer das infamantes
solues que lhe propunham: ser a amante do creado, ou ir saciar o
deleite ephemero d'um dia ao marquez e aos mais debochados do seu
sequito. O seu desejo extincto, tudo o mais lhe era indifferente; e a
morte comeava d'ali por diante, com a frialdade do seu corao
prohibido de bater por alguem. Mesmo, no via outro destino alm de
prostituir-se ou matar-se. Para ella o mundo comeava em Ruy, acabava
em Ruy, e s durra no cyclo em que elle a trouxera enfeitiada. Ruy
sequestrado ao seu amor: adeus mocidade, alegria chilreante, manhs no
terrao  hora de dar alpista aos canarios, projectos, ardores,
phantasias, esperanas! Elle recusra-a: de que lhe serviam pois as
turgidas pomas, a cinta ondulosa de serpente, e o divino ventre de
geraneo e espuma, todas as expanses, todos os calafrios, todos os
mimos, de que a adolescencia avelluda e pova o corpo da mulher? Na
contenso capitosa dos seus extasis, Ruy vira apenas a selvageria do
goso que extravasa em gestos de braos e na effervescencia
torpida dos beijos. Alm da grosseira exterioridade lasciva e calida,
tudo o mais lhe escapra d'aquelle amor confessado violentamente,
refinamentos, fremitos, intellectuaes sobresaltos... o prazer dos
sentidos vibrantes  viso da pessoa que se adora... os infinitos
respeitos, supplicas balbuciadas por entre os dentes cerrados,
transluzindo ameaa--e delicadezas submissas d'escrava--e esse fluido
que sobrenada da alma amorosa, e enche de poesia tudo o que se palpa e
respira, em torno d'ella.

Desceu ao jardim, direita ao poo. Havia um silencio opaco e terrivel,
que pesava no ambito  semelhana d'um remorso que fibra a fibra
estivesse roendo um corao. O poo era largo, com uma nora por cima,
e a amura de pedra escancarada ao ar. Se ao menos elle diria
Coitada! quando lhe fossem contar como ella tinha morrido!... E
inhalava para se dar alento, grandes haustos d'ar frio. Os seus olhos
deram co'as janellas do palacio, illuminadas ainda. Eram, d'uma banda,
as janellas de Ruy, e da outra a lampada do oratorio, cuja porta abria
sobre o quarto de dormir da senhora marqueza. Vamos! era preciso ser
forte. Nossa Senhora estenderia os braos para impedir que ella se
despenhasse no inferno. E pz-se a medir a queda, esburcinada no
boccal de pedra da nascente. Atafulhada de sombra, a pavorosa goela
no mexia. De quando em quando, uma gotta escapava-se dos alcatruzes
da nora, indo fazer l no fundo um _plhau!_ glacial. Entretanto a
nevoa fazia aos arvoredos, _toilettes_ de gaze, para a festa funebre
de Luiza. Solicitamente o luaceiro vinha, aqui, alm, tocar o bojo
d'uma perola d'orvalho, as transparencias d'uma renda de bruma, os
claros da argentea brancura immaculada... Ella desfolhou a rosa que
puzera nos cabellos. Ergueu o espirito para o alto, com uma doura
branca de martyr; e persignando-se, enxugava as ultimas lagrimas. Na
calada comeou ento a retinir uma campainha. Nos quartos da marqueza?
Era a chamar Luiza. Oh pobre madrinha! Luiza estava j sentada  beira
do poo, prompta a escorregar-se  agua. Porm uma instantanea sombra
tinha passado nos stores do oratorio, cujas vidraas soaram no terrao
em bocadinhos. Que era aquillo? Alguma coisa de anormal se estava
passando. Quem gritra? Engano? Allucinao? Luiza fez um salto,
esquecida da morte, e deitou a correr para d'onde o barulho partia.
Quando entrou no quarto da marqueza, cahira pelas escadas, derribra
Ezequiel que vinha pelo corredor, rasgra as saias nas portas,
tropeando nos moveis umas poucas de vezes. Viu a cama vazia e toda
cheia de sangue nos travesseiros. A porta do oratorio estava aberta, e
sobre a alcatifa, entre portas, a pobre senhora estorcia-se, quasi
na, vomitando sangue em espumosas golfadas. Luiza agarrou-se a ella,
gritando que lhe acudissem: e em toda a casa, de repente, tinha sido
um alvoroo extraordinario. Ezequiel, que foi o primeiro a chegar,
inda viu a velha revolver os olhos, dar um estremeo que lhe retezou
as pernas ao comprido. E de repente ficou-se.

--Coitadinha, coitadinha! Est prompta, dizia o velho em tom beato. Eu
bem previa esta desgraa! Mas Luiza barafustava para que elle fosse
chamar depressa o marquez, e mandasse  villa buscar o doutor
Souza.--Depressa, depressa que ella vai-se-nos aqui sem sacramentos!
Elle abanava a careca, tendo remodelado na face a mascara patriarchal
dos dias serenos. Desolava-se muito pelos cantos. Como aquillo fra
depressa! Uma coisa que ninguem esperava! L conseguiram
transportal-a para a cama. O corpo estava frio. Um dos braos,
levantado, cahiu inerte nas roupas, apenas o deixaram.--Est morta!
Mas ninguem vinha acudir! Que estava fazendo nos quartos toda aquella
gente que no ouvira os gritos d'alarme? Ezequiel entrava e sahia, ia
a uma porta, voltava  capella, idiota d'espanto, abanando as mos,
sem saber.--Ah menina Luiza, menina Luiza; eu bem lhe disse esta
manh. Chegou-se a ella:--O que ha de ser agora de ti?

A camareira no ouvia, agarrada  marqueza, e seguindo a installao
da morte n'aquella physionomia de cera. A sua rica madrinha! A sua
amiga! A sua unica affeio!

--Casa commigo, insistia Ezequiel. A minha vida  pouca coisa.
Deixo-te tudo. Casa commigo.

J o marquez vinha entrando, com Ruy e os seus amigos, e toda a gente
da casa quella hora estremunhada.

O fidalgo curvou-se para o leito: dizia phrases d'espanto, allucinadas
e d'um grande effeito decorativo.

--Mas, senhores, ella resfria! Oh fatalidade! e outras muitas, que os
amigos, um pouco lassos na digesto da ceia, trocavam por
outras da mesma polida complacencia. Compuzera um rosto d'afflico
reprimida, conforme de rigor na circumstancia, e que foi muito
apreciado pelo que dizia dos seus affectos maritaes. Lagoaas e pai
Cezario tinham-n'o abraado a tres quartos, dizendo--coragem! n'um
magnifico accento de contra-basso.

Quando de repente Luiza deu um grito, vendo os olhos da marqueza irem
ficando vitrosos. Alguns curvaram-se a vr. Ezequiel e Lagoaas
trouxeram velas accesas. E o choro das creadas abriu de repente no
quarto uma ladainha horrifica de lamentos. Uma especie de teia
d'aranha revestia devagar as pupillas pallidas da morta.

--O espelho, o espelho.

Ezequiel trouxe do gabinete um espelhinho de punho ornado;
puzeram-lh'o  bocca.

--Inda respira!

Mas o pulso perdia-se. O corao queria calar-se. A aura hysterica
descorrelacionava os movimentos de Ruy, cujas mos buscavam juntar-se
n'uma supplica frenetica de que ninguem fazia caso.

--Jesus! dizia Luiza erguendo os braos, entre as mulheres
de joelhos. Onde est o nome de Jesus no ha perigo  salvao. E as
rezas perdiam-se em ondas de soluos. Ento o marquez tirou a boina da
cabea, avanou dois passos com o espelho que j no embacira,
collado  bocca da fidalga. E n'um tom alto:

--A senhora marqueza de Selmes morreu.




O SINEIRO DE SANTA-AGATHA


Ha quinze annos, vespera de Natal, n'uma noite bem frigida e chuvosa,
ia eu em jornada atravs das serras, caminho da minha aldeia, a fim de
consoar, conforme a velha usana, no aconchego patriarchal da familia:
quando a sege que me levava estalou com fracasso, desabando em bocados
pelo cho. A custo pudra salvar-me do destroo, que a sege velha e de
correias, sobre duas grandes rodas esculptadas, esbarrondara de chofre
contra um amontoado de penedos, e o cocheiro contuso em muitas partes
do corpo, era quasi impotente para sustar os galges dos cavallos
sacudidos pelo terror da derrocada. No meio das trevas, quella hora,
sob a chuva sibilante, como encontrar agasalho?

Era no mais cerrado das brenhas. Lugubres penedias estacavam por toda
a banda.

Asperas montanhas pareciam vir a despenhar-se sobre as
gargantas estreitas da passagem. E nem a mais dubia fogueira de
pastores, casinholo de coutada, voz ou campanario, revelando a
proximidade de creatura humana! A muito custo podemos remover do
caminho as bagagens e destroos da pesada traquitana, eu, o cocheiro e
mais um velho creado que me seguia a cavallo.

Com fortes brados, aos quatro ventos do campo, fomos chamando alguem
que alli vivesse; mas nem sequer latidos de co logramos saccar das
goelas carbonosas da noite. Sempre aquelle ruido prostrado, regular,
desesperante, da chuva nas urzes e pinheiros anes, que o vento trazia
e levava no mesmo agreste rythmo, como o jogo uniforme de uma joeira
que joeirasse d'alto, bagos d'agua frigidos, e crueis.

Por infelicidade, o cocheiro no era do sitio, e mal sabia dizer
d'aquelles caminhos incertos. Beja inda talvez ficasse a nove leguas
d'ali. Os cavallos extenuados no queram marchar. E olhavamo-nos
interdictos,  luz da pobre lanterna que por milagre escapra ao
desastre.

Emfim, j nos decidiamos a ficar por baixo das azinheiras,
n'algum abrigo escavado da montanha, quando se ouviram badaladas de
sino distinctamente.

--Graas a Deus! exclamei eu todo alegre, que vamos ter guarida no
passal do bom padre ou eremito que d'aquelle campanario nos est
chamando. Onde , cocheiro?

O homem esteve sem responder um bocado. Era um alemtejo
supersticioso, tostado, leal, e gigantesco.

--Aquillo, senhor, disse alfim o colosso, fica por traz de cerros que
levam vinte horas a galgar a um homem. De noite, sempre os sons
parecem mais perto, e enganam uma pessoa nas contas que deita.

--Bom! mas que sino  aquelle? Convento, freguezia, castello ou casa
do diabo?

Vi o rapaz benzer-se com um movimento brusco, e lentamente ir
contando, que era o sino de Santa-Agatha, ruinaria maior que uma
cidade, com quatro torres dominando as chapadas dos montes, e casares
aonde ninguem tinha ido desde que houvera l fogo.--Ninho de demonios
e malfeitores! Em _trinta e tres_, a guerra civil correra l,
farejando as riquezas do culto--as freiras tinham debandado pelas
serras, com os seus habitos brancos e os seus rostinhos
macerados--por quatro dias as chammas lamberam os sanctuarios--e diz
que duas ou tres religiosas, entrevaditas, centenarias, se deixaram
morrer nas suas cellas, cantando psalmos, por no haverem j parentes
e amigos, em cujo seio ir acabar. Agora s voltava ao mosteiro algum
maltez perseguido, ou pessoa empenhada em roubar cantarias, alguma
porta de carvalho, e restos d'alfaias sepultas nos entulhos.

Lentamente ento, como um fumo d'incenso que oscilla subindo pelas
incertezas penumbrosas da neve, assim a lenda se formra e fra
condensando, detalhando, subindo em espiras poeticas, dos claustros
gothicos da velha abbadia. E o cocheiro accrescentou:

--Pelos modos, os diabos dizem l missa a deshoras, com mitras que nem
bispos!

--Venha essa lanterna, disse eu sem mais ouvir. Meia rao
d'aguardente e tabaco! Vosss abriguem-se ahi como poderem, que eu j
volto!

--Mas onde  que o senhor vae?

--Ora essa!  abbadia. Tocou-se  missa: o diabo j deve ter subido ao
altar. O cocheiro ainda quiz accumular obstaculos; at que vendo-os
sem resultado, apontou-me o caminho provavel do mosteiro, l
longe, sobre as altas serranias, a cujo sop se tinha desmantelado a
nossa berlinda de viagem.

       *       *       *       *       *

Pondo-me a caminho, confesso, foram-me os primeiros passos bem duros.
O terreno pedregoso abria fendas onde os ps se enterravam em lama;
tufos d'esteva e piorno vedavam a passagem, circumdavam-me,
prendiam-me o fato, ou vinham dar-me bofetadas nas faces com as suas
mos pegajosas. E assim fui mais d'uma hora, tropeando d'um lado e
cahindo d'outro, pelo espinhao lugubre da cordilheira. Entanto as
nuvens desdobravam-se, menos espessas, correndo, t que uma claridade
de lua velada poude orientar-me na marcha.

Alguns corpos avanados da ruinaria comearam alfim a mostrar-se,
pequenas capellas com arcos gothicos, sombras esguias de cyprestes,
casares onde bulia a herva aoitada pelo vento... Dez passos alm,
achei-me n'uma alpendroada vasta de pedra, toda em arcarias de
capiteis mutilados. Ao centro murmurava uma fonte, cahida s
gottas sobre uns restos de tanque esculpido; e via-se um portico ao
fundo, com feixes de columnelos, e nichos de apostolos em orao.

Mais dois passos e entrava na igreja. Parte da abobada tinha j
cahido. Arcarias altas, flexuosas, em series parallelas d'uma extenso
desmedida, iam at ao sanctuario. No parapeito d'um ou outro pulpito,
pendiam tapetes de hera--e por um bocado de muralha derrubada via-se o
claustro, contrafortes, arcos butantes, rendas de janellas manuelinas,
estatuas partidas, e montes de pedras lavradas que a vegetao
damninha ia vestindo, engolfando, no labyrintho das suas teimosas
grinaldas.

Lentamente, emquanto marchava entre as maninhas plantas da serra, eu
fra evocando da nevoenta penumbra das minhas reminiscencias
d'infancia, a lenda que tantas vezes tinha ouvido contar, pelo
inverno, quando finda a ceia os pastores e couteiros vinham fazer
circuito comnosco, de roda do brasido, na cozinha abobadada da
herdade, cujas chamins se erguiam dos tectos, como duas torres
quadradas de solar.

Lembrava-me de ter ouvido a minha av, como a abbadia fra
uma das mais venerandas casas de recluso de todo o reino,
successivamente enriquecida pelos reis, visita de prelados, e refugio
de muitas princezas e bastardas que alli dormiam o ultimo somno, nos
seus jazigos de pedra, de cujos nichos a velhice alluira figuras e
inscripes.

Apesar das enormissimas riquezas que as religiosas mandavam repartir
pelas gafarias e misericordias da provincia, a regra impunha s monjas
uma pobreza frigidissima. Dormiam n'uma tabua, as pobres servas, sem
enxergo nem cobertura, e com uma pedra tosca por cabeceira. E vivendo
de hervas e legumes, sem mais tempero que um fio d'azeite e um punhado
de sal, ellas appareciam na estamenha branca das tunicas, afiladas na
sua espiritualisao perpetua de prece, antes como umas sombras de
loucas, espectros de mal soffridas angustias, marchando nos claustros
em genuflexes de extaticas, e como dobradas ao peso das camandulas e
das oraes. Um velho Papa da idade gothica doara ento o mosteiro de
reliquias, compadecido por austeridade tamanha d'enclausura, e
permittindo que as monjas pudessem dar-se a glutonaria mundana d'um
cordeiro guisado, na ceia do Natal, sob a condio expressa
de ser branco e acabado de nascer.

Sempre na minha lembrana, desde ento, tinha ficado aquella humilde
historia das freiritas, dormindo em tarimbas de castanho, e jantando
couves de azeite e sal. No collegio, muita vez, punha-me a fazer
esforos para me representar a figura benevola d'aquelle santo Papa da
idade gothica, risonho sem duvida e encarquilhado, com o seu
barretinho de purpura, e um grande annel de turqueza, concedendo s
filhas de Santa-Agatha o cordeiro branco para a consoada do Natal.
Vinham-me aquellas coisas n'um fundo de fantasia, para assim dizer
bysantino, sem perspectiva aerea, com o nimbo de oiro nas cabeas, e
pregas miudinhas no bocatel das roupagens--e to longe do nosso tempo!
to longe do nosso espirito que eu acabava sempre por sorrir 
inverosimilhana das legendas contadas por minha av.

Todos os annos na herdade, depois de se haver dito a ladainha diante
do prespe armado no oratorio, com grande pompa de vellas accesas,
cobertas de sda, paineis de santos, flres, amuletos e _cearinhas_ de
trigo grelado em pratos da India, s escuras, durante os
vinte e cinco longos dias de uma lua--todos os annos,  hora de servir
a espetada de lombo de porco com migas, da ceia do Natal, quando j
tudo se assentra em volta da mesa, eu me no esquecia de inquirir.

--Av. Se o cordeiro de Santa-Agatha estar tenro e capaz de ser
manducado pelas freiritas sem dentes?...

L me sorria a ba velha, com uma expresso de melancholia que eu
n'esse tempo no era capaz de interpretar. E  direita d'ella marcando
intervallo na mesa, um talher inactivo aguardava meu av, que fazia j
onze annos de fallecido quando eu tocava os dezeseis.

Ai! esse talher era a grande nota solemne da ceia, o symbolo
sacrosanto do espirito de familia, perpetuando o respeito do nome
atravs das revolues da idade. O copo estava cheio, o guardanapo
desdobrado, e chegado  mesa o tamborete.

A todo o instante ia entrar na sala o phantasma do velho lavrador, com
a sua matilha de galgas argelinas, e uma d'aquellas grandes risadas
que elle dava, em nos vendo felizes a todos.

Ceia de Natal! Ceia de Natal! No seria eu, no, que
d'aquella vez havia de comear cantigas ao Deus-menino, ante o prespe
da nossa casa _das Torres_.

Nem iria assentar-me, to pouco, entre meus irmos, partilhando a
espetada de lombo no meio da gralhada das creanas, e dos sainetes dos
pastores e maioraes. Oh como o frio da montanha me fazia agora
lembrado o _madeiro do Natal_, to escrupulosamente escolhido entre os
troncos mais corpulentos das cathedralescas mdas d'azinho da nossa
provincia; o _madeiro_ que as comadres vo vr a casa das comadres e
cuja enormidade d'alguma frma passa por luxo e synthetisa a
abundancia da casa! Ceia de Natal! Ceia de Natal! N'aquella noite de
cordealidade, to intima na vida do campo alemtejano, em que o
primogenito da familia tem obrigao de consagrar aos creados o
primeiro _toast_ da ceia, a minha ausencia, eu bem n'a via! trazendo
lagrimas aos olhos de minha me, e longos annos permanecendo archivada
entre as tristezas do seu amantissimo corao.--Paciencia! dizia eu,
deixando os meus olhos correr por cima da phantastica decorao de
ruinas, como quem busca fixar a realidade no meio das oscillaes que
a sombra despregava das arcarias.

Cessra a chuva de todo, e o vento que ennovelava os castellos de
nuvens, muito baixas, vinha depois marrar com ellas de encontro s
fragas da cordilheira.

Torvos luaceiros cardavam sobre as coisas, aspectos pardos e monacaes,
d'esse tom vago, inquietador, inexplicavel, que permitte  imaginao
de agigantar o que apenas entrev.

E assim dirieis que se alongavam na noite os butareus das quatro
torres, e que os boqueires da treva mastigavam, e como lanas tremiam
os columnelos do templo, espetando na abobada imaginarias cabeas;
emquanto patrulhas de cyprestes paravam a escutar, se quella hora
rastejaria no mosteiro um infinitesimo de vida, s que fosse. A
primeira coisa que notei, foi que no estava s, porque ao raspar d'um
phosphoro para accender o cachimbo, pude lobrigar na portaria vultos
de gente acocorada.

Pouco a pouco, os meus olhos afizeram-se a destrinar na sombra os
objectos; e entrei a bispar vultos pequenos, corcovados, que surgiam
por todas as bandas da serra, vagarosos, cosidos s pedras,
derreados do caminho, e arrastando sapatos de trabalho, com gorros nos
olhos e capotes negros sobre os hombros.

Pelas encostas, longe, perto, muitas luzinhas deslocavam-se em
direitura ao mosteiro, como fanaes guiando a um conclave outros tantos
conspiradores.

Duas ou tres cadeirinhas entram no adro, buscando a sombra dos arcos
com uma cautela apavorada, e aos hombros de homens, que pelo rastejo
dos passos e lentido dos meneios, ia jurar tinham passado os oitenta
annos. Em poz das liteiras, mulas brancas trazendo mulheres embiocadas
em ponches... jumentinhos de trabalho com gente que tossia... e at
n'uma especie d'esquife, um vulto entre roupas dava grandes gemidos,
quando os portadores oscillavam mais bruscamente a padiola em que o
traziam.

Muito embuado na capa, eu ia-me approximando da turba, corcovado e
arrastando os passos como os outros; e j sem medo, pois no podia ser
capitania de ladres aquella gente assim misturada de invallidos.
Quando de repente, patas de cavallos fizeram estrupida nas lages, e eu
vi fazer-se um movimento simultaneo em todos os magotes,
para acorrerem ao encontro dos cavalleiros. Eram quatro. E dois
d'elles, que porventura seriam os juvenis da cavalgata, a julgar pela
ligeireza com que apearam, tinham vindo ajudar o que ficra sobre a
cella, aguardando que o desmontassem da mulla branca onde viera
escarranchado.

Era este um grande velho de cabellos compridos, em ligeiros flocos por
baixo d'um chapeiro d'ecclesiastico, envolto n'uma capa com romeira
de lontra, e de quem todo o mundo se acercava para lhe beijar a mo.
Caminhando, espargia benos sobre as cabeas curvadas  sua passagem.
Aprumava com esforo a grande figura biblica e severa, em cujas linhas
fulgurava como um relampago genial d'estatuaria, e em cujos gestos
calmos rescendia a solemnidade d'um apostolo enviado a remir d'um
captiveiro.

Tinham acceso entretanto algumas tochas, cujos clares deixavam vr a
fisionomia de aquella assembla extravagante. Oh minha cabea esvaida
de cansao! Eu no posso affirmar lucidamente se acaso era sonho o que
se estava passando: to extraordinarias vises me tiveram estarrecido
na formidavel sombra do templo. Lembro-me que o sino tocou
de novo. Era um som funebre e longinquo de _gong_, espargindo na noite
um terror de evocao; alguma coisa como a voz do tempo, chamando os
homens a um ajuste de contas definitivo.

Pelas arcarias do claustro, que eu avistra por entre a derrocada d'um
muro, vinha marchando uma procisso de monjas lentas, mirradas,
pequeninas, cambaleantes, e to brancas e diaphanas  luz das tochas,
que ellas pareciam ter acordado n'aquelle instante dos seus
sepulchros, transpondo os seculos  voz expiadora do _gong_. Entre os
vos cahiam-lhe os cabellos, mais alvos do que a neve, e das suas
sandalias batendo as pedras do claustro, vinha um som bao de
sepulturas vasias, sepulturas com fome, chamando por aquelles
destroos de santas, d'onde a alma parecia ter voado, atravs das
divinisaes augustas do martyrio.

Poucas eram: mas vagarosamente a procisso ia crescendo no percurso,
ao claro bruxuleante das luzes; porque a todo o instante a turba se
abria para deixar passar uma velhinha segurando uma tocha entre as
mos descarnadas. Alguem lhe tirra o capote de cima dos
hombros, e da cabea o bioco de burel que a encapuchava. E surgia
assim, daquella lugubre crosta, uma monjasinha branca de Santa-Agatha,
cingida na estamenha da ordem, o vo de nodosa e rude grossaria... e
que a pequeninos passos de centenaria, oscillando a trmula cabea, l
ia enfileirar-se no prstito, com as suas rugas cheias d'eternidade.

A esse tempo, a enorme basilica rompia violentamente da sombra, ampla,
majestosa, cheia de mysterios e esplendores, mesmo assim na ruinaria
das suas esculpturas e rendas ogivaes. E prolongava-se em crepusculos
doces, alm das naves, pelos rasges da derrocada, ondeava 
oscillao das luzes, parecendo expandir-se, como outro'ra, num grande
hausto d'unco fervorosa e f christ.

Em cada recanto, cada arco, por todos aquelles nichos, pelas capellas,
diante dos baixos-relevos e das estatuas, agora bruxuleavam lampadas,
cirios, fogueiras, luzes bizarras de fachos, cuja vermelhido tingia
de sangue os caprichos manuelinos da architectura.

Em face a gigantescos lampadarios de prata e oiro, pendentes da cupula
arruida em cachos de lumes lividos, o altar-mr appareceu de subito
n'uma aureola de pompas, damascos, flres e vasos de oiro
cravejados de pedraria. O frontal todo de lhamas, faiscava entre a
fumarada dos thuribulos, as grandes flres de purpura emmaranhadas no
estofo, em cuja trama buliam bruscos formigueiros de diamantes,
saphiras e esmeraldas. E por cima na abobada, a noite errava,
espavorida dos fogos que oscillavam c em baixo, nas inquietaes do
vento. E ao rumor das rezas accordavam as aves nocturnas nos seus
ninhos: pombas e francelhos voejando de friso em friso, grandes corvos
sinistros partindo em bandos das rosaceas, encandeados co'a luz,
tornando a vir, tornando a ir... Pensarieis que regressavam das
tumbas, os espiritos das monjas, e se iam familiarisando s ruinas, e
conhecendo n'ellas o maravilhoso sanctuario doutro tempo.

--Meu senhor, disse uma voz.

       *       *       *       *       *

A vista das monjas, a multido cahira de joelhos, tocada de venerao
por aquellas creaturas celestes, mumias da f catholica, que a orao
transfigurra at  innocencia ideal dos serafins.

Tosca e triturante, a estamenha lhes cingia a esqualidez das ossadas:
vinha na frente a abbadessa, de bculo e mitra, com uma capa
de brocado, sob o pallio d'uma riqueza estonteadora. As mais seguiam
duas a duas, acocoradas quasi pela idade, e guardando no obstante uma
especie de aerea graa da infancia, atravs da caricatura d'aquelle
cerimonial complicado. Em todas, o olhar extincto, como um brasido nas
cinzas, perdera a incandescencia entre as maceraes da vida asctica.
E d'entre a mortalha alvacenta das vestes, cada vulto scco vos
lembraria um violoncello com todas as cordas partidas, de haver
tocado, longos annos, a symphonia pathetica da dr.

O que dissera, _meu senhor_, puxou-me de banda: era um embuado
d'estatura pequena, gestos aduncos, e botas molles.

Levou-me para detraz da escadaria d'um pulpito. Engolfamo-nos por um
portello baixo e tenebroso, em cujo trevo marinhava, luctando, na
frialdade limosa da pedra, uma caterva horrivel de grotescos. E como
transpunhamos o portello, o homem tirou da capa uma lanterna. Vi ento
diante de mim um velhito lesto, pequeno, azougado, os olhos debruados
de purpura, e com um grande nariz pendido como um monco, at encontrar
a aresta d'um queixo arqueado como a pra d'um saveiro. Dirieis que as
duas pontas iam tentar brava guerreia: a do nariz embirrando
com a do queixo, a do queixo no sentindo l grande sympathia pela do
nariz. Mas felizmente interpunha-se a bocca, sentinella vigilante
daquella discordia d'appendices, e que mesmo sem dentes, intervinha,
mordendo o que primeiro rompesse as hostilidades.

--Que quer dizer toda esta mascarada? disse eu.

O velho olhava para mim com um riso estupido de bobo. Tinha um
barretinho de sda no craneo, grandes orelhas espalmadas aos lados dos
olhos, a bocca em meia lua e um collar de barba dura, direita, branco
sujo, prestava-lhe a caricatura demoniaca d'um bode,  luz fumosa da
lanterna. Foi pelo corredor aos saltinhos, e eu seguia-o tomado de um
espanto sem saber por que.

Ao fundo comeava uma escaleira aberta na muralha, tortuosa, falhada
nos degraus, e obstruida por grandes pedregulhos. E o velho comeou a
subil-a, levando a lanterna na mo. Como a escadaria era de volta
acanhada, e o passo de espira excessivamente baixo e deprimido,
foroso nos era de subir corcovados, porque no fendessemos o craneo
d'encontro ao rebordo dos degraus superiores. Fomos tropeando assim
nas pedras soltas e alluidas, partindo as unhas nas junturas da
muralha--elle sinistro, lesto, arqueado, escorregando, pulando certo
quatro e cinco degraus d'uma vez; eu agarrado s pregas da sua capa e
 morna viscosidade das suas mos, cujas unhas se me cravavam na
carne, como os dentes metalicos d'uma pina.

--Afinal no me explicou que diabo vem fazer aqui toda esta familia.

Elle sorriu-se. Tambem d'esta vez no fizera caso da minha pergunta.

E eu comeava a no vl-o com olhos lisonjeiros.

A escada no tinha fim, caracolando sempre nas trvas humidas, onde
passava o voejar dos morcegos, os guinchos dos ratos, e toda a sorte
de sopros e rizadas malficas.

O ultimo trago d'aguardente acaba de se me sumir nas profundezas da
goela. E valha a verdade, eu ia perdendo um pouco a noo justa das
coisas. Frmas, rumores, simples idas e suggestes me lanavam de
roda, n'uma sarabanda de incoherencias.

Dir-se-hia nos iamos sequestrando, pouco a pouco, ao mundo normal e
quotidiano, com os seus phenomenos e leis eternamente as
mesmas, para invadirmos no sei que exotica regio onde tudo era
diverso: a atmosphera e a luz, as figuras, as sensaes, e as naturaes
affinidades de ser a ser.

Por instantes, quando o homemzinho passava na luzerna do luar lanada
por alguma fresta da torre, eu ia jurar que elle mudava de figura, 
proporo que ia subindo. J no tinha na cabea o solidu de sda
preta. As suas orelhas avantajavam-se aos lados dos olhos
despegando-se-lhe do craneo como as dos morcegos, em grandes pregas
cobertas de cabellos. E deixei de ouvir o rumor dos seus passos,
emtanto que a subida se tornava vertiginosa, inquietadora,
embriagante. Cada vez os degraus me pareciam mais estreitos, o passo
de espira mais apertado, e o caracol de pedra mais asphyxiante. E nas
trvas da torre, emquanto eu ouvia os resfollegos do velho saltando os
degraus com furias de possesso, um ar denso e gorduroso forava-me o
cavername do peito a centuplicar d'inspiraes, como n'um paroxismo de
syncope.--Ar! Ar!

A minha cabea rolava entre vertigens: via moscas de fogo saltarem-me
por diante dos olhos. E era como se cada um dos meus sentidos, estando
separado de mim, no pudesse ou no quizesse procurar-me
sensaes nitidas e exactas--tanto as coisas que eu tocava me pareciam
differentes. Larvas de gelo, escorregadias, sem frma, tocavam-me nas
mos _shake-hands_ bruscos. Abria ento a bocca para gritar que me
acudissem: e percebia que elle voltava logo a cabea, porque sentia,
positivamente eu sentia na cara o caustico dos seus olhos dilatados
nas trvas, acobardando a minha alma varada d'um inexplicavel
calafrio. At que emfim chegamos a uma especie de sala rasgada de
porticos, por onde a lua entrava. E rompemos n'ella como o estampido
d'uma granada: o velho indo cahir de bruos no pavimento, e eu por
cima d'elle, n'uma exaltao furiosa--a ponto de por cinco minutos
rolarmos no cho corpo a corpo, engalfinhados, como se algum de ns
pretendesse esquartejar o companheiro. Prestes porm o lesto demonio
se me escapulira das mos, e sem uma palavra, deixando a capa, correra
aos varandins da torre a debruar-se.

A sala era grande, com varandins d'esculptura aberta, que pareciam
bordar uma antiga renda de cruzes de Malta e folhagens, sobre o azul
pallido do co.

Uma floresta de cordas, mastros, travesses e guindastes,
emmaranhava o ambiente e corria de banda a banda. Pendiam sinos dos
porticos, negros, immoveis, suspensos, como aves de rapina
dormitando... mil tamanhos, mil formatos, uns grandes, outros
pequenos, bojudos estes, aquelles campanulados... E na cupula toda
aberta de lucarnas at  flexa, a zunida do vento fazia uma especie de
cro em surdina, instrumentado a risadas e pequenos silvos de
mangao.

       *       *       *       *       *

O velho fizera um gesto. Uma badalada profunda sacudiu de chofre a
ruinaria inteira, dos alicerces s grimpas, e foi-se alargando pela
cordilheira, attenuando, extinguindo, n'uma vibrao magnifica de
sonoridade.

Terrfico e supremo era o accento d'aquella lingua de cyclope, que o
pulmo de bronze insufflra, no seu vagar prophetico, e que retalhava
o silencio da noite como um echo da vida eterna, soado atravs da
impenitencia dos homens.

Outra badalada mais forte, e outra, e outra ainda. Crucitando
d'assombro, os bandos de corvos fugiam por todos os lados. E as massas
de sonoridade precipitavam-se nos ares, desgrenhando uma
procella de bramidos, e como um apocalypse prgado ao universo
estarrecido a nossos ps. Para fazer dobrar alguns d'aquelles grandes
sinos, o velho trepava aos varandins e supportes, desdenhando as
vertigens da altura: e eu via-o marinhar ento pelas cordagens, correr
como um gato ao longo dos cabrestantes, suspender-se, desapparecer,
cabriolar, suffocado, e insistindo, e voltando, n'um jogo macabro
d'esforos, que ainda mais lhe accentuava a contornadura demoniaca que
elle tinha.

A cada manobra do velho, era como se as badaladas me fossem batidas em
cheio, no corao, derramando-se-me em crises d'angustia por toda a
rede dos nervos convulsivados. Foi n'este estado que eu corri direito
a elle, e pude agarrar-lhe as pernas no momento em que o maldito se
preparava a descrever nos ares uma arrojada espiral, como Quasimodo,
abraando pela cinta o reboleiro maior do carrilho.

Ao mesmo tempo, comeava a produzir-se um phenomeno extraordinario.
Seria illuso dos meus sentidos?... effeitos da minha sensibilidade
doentia, que perdendo o caracter proprio, se mutilra, exaltra, para
rolar depois nas phantasmagorias verdes da loucura? Mas
affigurava-se-me que uma especie de vida magnetica ia atravessando as
ruinas, como se a falla dos sinos houvesse resuscitado no edificio o
genio hostil que alli reinava, e este agora reagisse, contra o germen
christo que os nocturnos visitantes todos os annos insistiam em
replantar no sanctuario.

Aquillo era evidente, pulsava na pedra, rumorejava na esfusiada dos
ventos, cahia em gottas das arestas e das folhagens parasitas.

A principio disse commigo-- uma vertigem do meu espirito exasperado
pelas extravagancias da viagem, uma perturbao do alcool que eu
ingeri em dses abusivas... O velho fizera-me frenetico... Os meus
nervos estavam carregados de fluido... Porm j na egreja me ferira
esta percepo de movimentos disfarados, esta matinada occulta da
sombra contra a luz, esta suspeita de bruxaria latente.

Tinha-me rido d'aquilo--Ora adeus! Estou sonhando. E agora, Jesus! no
era engano. A sarabanda macabra rompia.

Muros e escaninhos comeavam a debater-se n'uma lucta mysteriosa de
encantamentos.

Em cada molecula, em cada penumbra, em cada vo, a energia
decompunha-se em fluidos antagonicos; um que tinha saudades do velho
culto, e era mesquinho em quantidade; outro que assoberbava o
primeiro, e se declarra no campo adversario. Mesmo, esta sombria
batalha toldava-me a cabea, estava patente  minha alma,
obscurecia-me a razo; e o meu proprio corpo vibrava d'ella, e eu
sentia em mim os dois guerreiros buscando derribar-se a golpes
d'espado. No, no era engano! Andava tudo, falava tudo, mexia tudo,
e tudo parecia sentir, deliberar e ter vontade. Dos baixos relvos
brotavam gestos, mimicas, summulas de dialogos...

Iam falar as boccas das estatuas. Os velhos doutores resuscitando os
velhos schismas. Velhos demonios trucidando as ingenuidades da f no
carnaval das velhas ironias. Muitos santos pretendiam mesmo disputar
com os demonios.

N'um baixo relvo da _Ceia_, a figura do Christo ergueu-se e bateu com
fora na meza, colerico por um apostolo se rir, quando elle, sagrando
o calix, disse do vinho--_este  o meu sangue_!

Debaixo dos ps da Madona, renasciam as cabeas da serpente,
 medida que ella as esmagava.

E uma circulao impetuosa girava nas arterias da pedra, insufflando
vida s columnatas, fazendo palpitar as rendas das ogivas, e dando
apoplexia s faces das cariatides.

--Velho! Velho! exclamei eu fra de mim, deitando-lhe as mos s
goelas. Quem s tu? Fala! D'onde vens? Que queres de mim?

J a raiva me escumava nos cantos da bocca. A minha gana seria
esmagar-lhe a cabea d'encontro s pedras da muralha. Porque eu via
n'elle o mdium da farandola macabra que ia na egreja. Eram obra sua
os tregeitos dos monstros esculpidos nas columnatas, o riso mau dos
demonios-morcegos nos frisos manuelinos do cro; emfim, o exaspero do
Christo, no baixo relvo da _Ceia_--e todos os fremitos, todos os
spros, todas as oppresses, todas as desconfianas, todas as risadas,
que eu ouvia, que eu sentia, e passavam por mim o visco do seu
contacto asqueroso.

 sua voz obedeciam aquelles milhes e milhes de foras occultas e
satanicas: e elle tinha o dom d'arrastar na espira lbrega dos seus
maleficios, o desgraado que se lhe approximasse.

Oh, no era ausencia d'energia physica que me impedia de o
acabar--elle era magro, ossoso, quasi decrepito... Mas a sua vista
dava-me um embarao! Com o mais ligeiro impulso eu poderia derribal-o.
Mas um assombro terrivel, um pavor inexplicavel, uma fascinao que eu
no sabia definir, amordaavam-me, faziam de mim um destroo de
captivo em poz d'aquelle tenebroso e phantastico vencedor.

A essa hora, na egreja, tudo estava a postos. Pela abobada cahida, eu
pudra vr, a nossos ps, o cro profundo, sobre uma massa amarellenta
de pilastras fasciadas de relvos. D'alli surgiam  luz dos brandes,
as primeiras bancadas de carvalho, com logares separados, onde cada
figura de monja apparecia dobrada sobre a estante do livro de rezas.

Na grande cadeira gothica da abbadessa, a meio do cro, duas vellas
faziam brilhar o baculo de oiro, uma mitra mexia s vezes sobre uma
cabecinha pellada de centenaria--e para traz a sombra invadia tudo, e
via-se na parede uma rosacea sem vidros, por onde entrava, poeirenta e
diaphana, uma grande cheia de luar. Depois a egreja enorme, com as
esculpturas mutiladas, as rendas em bocados pelo cho, os
nichos, muitos, desertos, e os jogos e caprichos da luz e da sombra,
forjando effeitos de scenographia formidavel, de cujo tumulto, ao
fundo, o altar mr destacava n'uma apotheose de magnificencias, entre
a fumarada do incenso, e os vos dos pombos espavoridos.

O velho reaccendeu a lanterna. Havia ao centro da casa uma especie de
grande cravo de castanho, com teclas de cobre oxidado, aonde vinham
ter as cordagens de toda aquella sinalhada. Com gesto placido elle
conduziu-me ao teclado, sobre cuja arca depuzera a lanterna
escancarada. E desenrolando um grosso manuscripto de musica, pol-o na
estante, e fez-me signal a que me assentasse n'um monte de cordas que
estava perto.

A musica era torturadamente escripta, coberta de emendas, intercalada
de referencias  margem.

 obra sua? perguntei eu. Elle fez que sim com a cabea. E comeou; j
o arcebispo ao altar dizia o _orate_, e soava nos mosaicos da basilica
o rumor dos que ajoelhavam.

       *       *       *       *       *

Ahi comea o velho a fazer soar o carrilho, e eu j sinto outra vez
os meus pavores tomarem frma, e as minhas angustias irem
cavalgando extravagantes bruxarias. Cada vez mais  roda dos meus
sentidos, fosforeja e zumbe esta encarniada lucta dos dois fluidos
antagonicos, que a pouco e pouco se depuram, quando a minha percepo
lhe consegue fixar a transcendencia.

Um revindica o culto das florestas, das aguas e dos rochedos.  a
grande alma pag da natureza, que impulsiona os mundos d'uma vida
extraordinaria, e tem voz, no bramido das vagas, e faz as flres e os
archipelagos, e chispa das rochas que o ferro morde, e chora lagrimas
de leite nas folhas arrancadas da figueira.  o mais antigo,  o mais
forte: e a todo o transe elle tenta reconquistar o solo, com a audacia
heroica d'um rgulo expulso de dominios seus. Tem a symbolica dos
antigos mystrios, o outro. E bisonho e tenebroso, desceu do outeiro
onde uma noite uns soldados estavam crucificando um vagabundo.
Prgando jejuns e penitencias, emquanto ia fazendo da cobardia uma
virtude, e no sei que refrigerio da morte, gritava ao mundo--venho
destruir a obra da Mulher. E por entre o unisono das harpas, na choral
dos serafins, ouve-se o alarido dos que na fogueira escruciam, e os
latins do inquisidor que os manda morrer em nome da misericrdia
celeste.

--Velho!

Repara bem, como at na gralhada dos sinos parece evidenciar-se a
batalha das duas legies. Aquelles sinos alm so pela egreja; mas
aquell'outros aposthasiaram e insurgiram-se.

As mesmas tuas mos de maestro ferindo o teclado, parecem obedecer a
dois musicos diversos, degladiando-se sem quebrana de rythmo, n'uma
especie de sabbat artistico, alternativamente piedoso e diabolico. Por
momentos, tudo isto se me afigura symptoma d'alguma psychopathia
bizarra, evolucionada no exaspero mental que esta noite em mim
produziu.

Fao esforos de rehaver a minha antiga serenidade, ponho-me a vr se
coordeno as minhas faculdades d'analyse e de critica, e se restabeleo
a limpidez do meu juizo, a sangue frio.

--Eu  que _sou talvez duplo_, e no a maneira de ser das frmas que
me circundam.

As minhas operaes mentaes  que esto fraccionadas e
desparallelas, como se a fouce do cerebro me no dividisse o esferoide
em dois ovulos estrictamente iguaes, seno o houvesse desigualmente
bipartido, lobulo maior, lobulo mais pequeno... e cada um derivando em
modos de ser incompativeis.

Porm esta hypothese eria-me os cabellos. Adeus harmonia de
funccionalismo mental! Falta d'obediencia a uma mesma fora
coordenadora e dirigente! Para cada metade do meu corpo, uma conteno
vital diversa da outra, energia differente, outro caracter, outra
impulso...

Actividades parciaes, cerebraes avulsas, acordariam n'esses varios
districtos do meu encephalo sem rei, nem roque, chocando as suas
indoles sobranceiras, como pequenos despotas em gran-ducados rivaes. A
dualidade surgiria por fim d'esse chaos encephalico, como uma terrivel
dupla vergontea de loucura: venho a dizer, dois individuos n'um corpo,
discutindo, acotovellando-se, perseguindo-se, um contrariando a
vontade ao outro, annulando este os esforos d'aquelle: e nenhum
deixando dormir nem descanar o companheiro. Mas  isto. Positivamente
 isto--estes dois maus irmos que juraram anniquilar-se
d'um golpe: fratricidas que a mesma impulso vae arrastando de roda um
do outro,  espera do instante em que possam beber-se o sangue. Um
d'elles fraco, cheio de mysticismos poeticos e visualidades
atravessadas de inquietaes. Timido, nasceu comigo,  filho de minha
me, uma devota. Mas o outro foi crescendo nos livros, o estudo
inoculou-lhe audacia, a arte agigantou-lhe as dimenses, n'este
momento elles barafustam, e eu cuido que estremece pela basilica toda,
este tragico drama que apenas se me debate nos nervos, e ensanguenta
os musculos da cabouqueira que eu trago sobre os hombros.

       *       *       *       *       *

Por consequencia estou doido. Um pavor gelado invade-me o peito.

Estendo para o altar os braos supplicantes. E o velho contina a sua
musica grandiosa, indifferente a tudo o mais, emquanto no altar
celebra missa o arcebispo.

A execuo d'essa musica parece absorvel-o e mirral-o como um galope
d'annos desgraados.

A primeira investida  confusa, o velho treme de medo, correm-lhe
lgrimas na cara, quatro e quatro, e murmura no sei que
palavras cabalisticas. Eil-o se endireita e recomea.

E pouco a pouco a minha alma abre as asas e suspende-se n'um paiz
lilaz de supremos extasis acusticos.

J a riqueza dos timbres e a gracilidade dos motivos me fazem esquecer
que seja um carrilho de sinos que eu escuto. Alguma coisa da potencia
orchestral do orgo, profunda, gothica, lithurgica, mas mais unida,
mais colossal, mais grandiosa, se evola d'essas campanulas de bronze
que faz soar no meio das serras o mais prodigioso maestro do mundo. O
carrilho faz-se voz da architectura de repente, e o desdobramento na
musica dos caprichos floreteados na pedra pelo cinzel--tanto os meios
d'expresso se centuplicam e vo fasciando de originaes melodias,
arrancos trgicos e indomveis rouquejos de paixo.

A voz de cada sino presta uma inflexo, uma emoo  voz da cathedral
que desperta e vive como um ser perplexo e gigantesco: e d'aquellas
resonancias que a mo do artista humanisra, como interpretando um
estado d'alma doloroso, a angustia d'uma raa, cahiam tristezas,
desprendiam-se adeuses, voavam recordaes... recordaes de
vozes ouvidas n'outro tempo, na bocca d'alguem que eu, valha a
verdade, j no sabia dizer quem fosse.

Vamos ao _Credo_. O carrilho centuplica o enxame instrumental de
grupos harmonicos, e  o momento em que o universo une a bocca 
poeira, para afirmar essa f que elle tanta vez ter sentido esmorecer
no corao. Oh, a musica do velho era uma grande opera de effeitos
supremos, onde a alma se banhava aspirando ao mysterio d'um ideal
celeste e inaccessivel. Vinha d'ella uma intensidade de dr heroica
que dava soluos  melodia unanime dos motivos symphonicos;
desencadeando-se em rajadas no badalar dos grandes sinos. A principio
era uma coisa lenta, que se apagava como um rythmo de reza, de nave em
nave.

Era uma grande litania de humildes, cortada por algum soluo
afflictivo, e em cuja penumbra se apercebiam circulos d'almas cada vez
mais vastos, n'uma paisagem de ballada, livida e nocturna.

Outros soluos vo repercutindo o dobre d'aquella angustia suprema,
n'um cro trgico de sessenta seculos de soffrimentos.

J o effeito cresce, desencadeia-se, rebenta. Ha gritos
funebres, insurreies apenas suffocadas, roucas ladainhas que chegam
de longe pedindo socorro...

Ai! n'essa apotheose de crena espiritual, por vezes a estridencia dos
brados faz suspeitar o terror em vez da luminosa confiana que deita a
cabea no regao da f, e a imposio feroz d'um credo absurdo, em vez
de simples doutrina conciliante ao caracter, e inteiramente suave ao
corao. E o offertorio passa, a campainha do acolyto annuncia o
_Sanctus_, e o sacrificio da missa principia.

Emtanto que no meio d'aquellas instrumentaes picturaes do carrilho,
d'onde o mysterio da missa se ennubla e desenvolve, sempre o
pensamento musical podia seguir-se, com a pureza d'um psalmo; to
limpido, que eu cerrava os beios de medo que o meu halito embaciar
pudesse, a crystallinidade d'aquelle adoravel motivo.

Mas da bocca dos sinos, como d'uma cornucopia emborcada, vo golfando
inumeraveis turbilhes d'espiritos fatuos, sylphos de carrilho,
vibraes tornadas frma que vo e vem, sobem e descem, cabriolam,
zigzagueam, rolando, partindo, tornando a ir, e diffundindo-se
nos longes em grandes circulos concentricos, onde as figuras
se perdem emfim, n'uma bruma cr de cinza. Todos so excessivamente
pequenos, com uma multido de caras differentes, pequeninos braos,
pequeninas pernas, que se agitam n'uma quantidade de mimicas
pittorescas. Apenas escapados dos sinos, eil-os correm uns ao encontro
dos outros, larvas do medonho, embryes do pesadello, conforme a
imanao sonora d'onde procedem: e agarrando-se pelos hombros,
continuam nos ares a fantastica batalha que eu assignalra j para
cada atomo das ruinas. Cada vez mais, cada vez mais, esses milhares de
anes parecem recrudescer das sinistras gargantas do bronze, e bem
depressa elles foram tantos, que faziam uma espcie de exhalao
fumosa interposta aos meus olhos e os objectos, que se alongava depois
n'uma grande lingua, rapida e turbilhonante, ascendendo na flecha
audaz do campanario.

J a torre estava cheia d'aquellas larvas cpidas do som, sedentas de
lucta, phreneticas de movimento, em cuja carcassa podiam vr-se todas
as espcies de caras, idades, sexos e configuraes. Tinham umas a cr
verde das folhagens; eram as mais numerosas e as que mais
robustamente cabriolavam. Mas outras eram pardas, alongadas,
noctiluzentes, com a vibratilidade dos vermes e a cabeorra disforme
dos peixes-sapos. Havia-as corcundas, havia-as tortas, havia-as
barbudas. Encarquilhadas, hydropicas, leprosas.

Em figura de rato, em figura de sapo, em figura de morcego... e mesmo
certas pareciam esqueletos d'aves antediluvianas, marchando aos
pinchos, com um grande bico maior que o corpo, direito, espesso, que
no podiam erguer da melancholica postura em que o levavam pendurado.
Tinham asas quasi todas; algumas eram armadas de espinhos, outras
traziam capuzes sobre os olhos, o breviario na manga e camandulas 
cintura: e at muitas, brandindo fachos, corriam atravs da batalha,
pondo um claro de sangue em todo esse pavoroso arraial de maleficios.

E as que nasciam iam empurrando as que j eram adultas.

Crescia a chusma atropellando-se, comprimindo-se: at que no cabendo
na torre, cahiam pelos varandins, aos milhares, ou esmagadas contra a
parede ahi seccavam e por fim desappareciam. Na debandada, um panico
lhes convulsionava ainda mais os pequeninos membros, e de
rustilho precipitavam-se, agarradas umas s outras, e dispersando-se
em circulos, quando j as suas figuras pareciam ganhar d'aptido o que
iam perdendo em nitidez de contornos. Pelo co, aquelles circuitos
simulavam fortes migraes de passaros cinzentos, cerrando os seus
exercitos at aos confins do horizonte.

E mal os sinos paravam, havia um claro turbilho de mostrengos... s
um ou outro mirrava, n'uma asfixia de silencio, lentamente, pingando
s gottas no cho que o consumia, ou ficava cabriolando nas cordas em
piruetas de acrobata, ou pouzado n'um ferro, arsta, teia d'aranha,
entrava a balouar-se monotonamente, at agonizar de todo e
desfazer-se.

--Oh Deus! Deus grande, Deus omnipotente e misericordioso! ampara, por
quem s, a minha f, e no deixes apagar na loucura a bruxuleante luz
da minha razo.

Quando o arcebispo ergue a hostia, e sa em concavo pela igreja, o
bater das mos contricto sobre os peitos, porque  que este musico
solua, errando a vista pelos angulos da torre,  procura d'alguem que
alli no est? E a sua figurinha de satyro arrepela-se,
lugubre e grotesca, como a d'um macaco que tivesse por dentro a alma
contricta d'um christo. J as pombas volitam de novo sob a cupula,
brancas, purissimas, adejando outra vez pacificadas, quando os ultimos
turbilhes de mostrengos se despregam dos sinos mudos, esfusiando
pelas ogivas, sob os lategos da unco celeste que se irradia da
hostia, feita carne, e do vinho do calix, feito sangue.

No momento, o _benedictus_ segue, e o carrilho murmura de mansinho,
como n'um unisono de violinos e harpas, a mais suave _preghiera_ que o
perdo do Senhor haja inspirado a um penitente. Manso e manso, os
seraphins de pedra unem as mos, batendo as asas de jubilo, com os
seus typos frustes de creanas, em cujas cabelleiras se accende um
oiro fosco d'aureolas; e das partidas lyras arrancam, com os seus
dedos, vagos preludios de um mysticismo fluido, vaporoso, que embriaga
d'extase, e em equivalencia approximarieis dos mais recatados perfumes
de jasmim e de nardo, violeta e rosa branca, vaporizando-se de
corollas abertas no claro-escuro d'um claustro, e que  noite
espargissem suggestes de bemaventurana, na cella virginal d'uma
novia.

Sim! n'esse preludio do velho, chora talvez a implorao d'um
crime antigo, expiado em annos de supplicas nunca ouvidas, e
centuplicando d'eloquencia, atravs do tempo, t que afinal a tortura
do musico excede os limites d'expresso concedida ao homem, e iguala e
imita a eloquencia de Deus, para, confundida n'ella, coagir o Monarcha
dos cos a perdoar. Tudo n'este supremo instante a solicita, os fieis
que voltam a face para o carrilho que os arrebata, as esculpturas, as
pombas, e o arcebispo emfim que ao dar a beno, estende para a torre
o brao tremulo, e absolve d'um gesto o extranho musico.

Limpo de nevoas todo o co de dezembro esmaecia, d'uma pureza elysea
incomparavel--e argentea a lua rola, espalhando ao redor madeixas
claras, como uma cabea morta de _baby_,  procura do tronco, pelos
valles, antes que o gallo da missa solte o seu primeiro apello, para o
baptismo de Jesus feito creana.

Na poeira do luar, pelos rasges da rosacea, um turbilho de seraphins
rompe na igreja, brancos de marmore, nascendo da nuvem como uma
gerao espontanea de caritas bochechudas, boccas em flexa, olhos
de saphira, e o tom chlorotico, translucido, que participa
do paraiso e da tumba, e no qual poder lr-se, mau grado a
espiritualizao da eterna estancia, essa infinita nostalgia dos
pequeninos seres arrancados ao calor dos seios maternaes.

Por um instante, palpita sobre o cro alada tromba, como uma emigrao
de passaros radiosos, pyrilampos, borboletas, que oscilla e se desloca
na fumarada argentea do astro, turbilhonando em rodopios d'apotheose:
depois do que converge  torre, e pelos varandins enfia, n'uma espiral
de sonho alvinitente. Mas  um exercito que lentamente baixa o vo,
silencioso, rufado apenas, no _frou-frou_ das asitas quasi
imperceptiveis. A alguns mal se lhes lobriga a cabea, envoltos como
voam, nas suas camisotas de nuvem; outros inquietos, no podem estar
poizados muito tempo em qualquer ponto, e n'um phrenesi de movimento,
mexem, debicam, bolem no teclado dos sinos, nas esculpturas,
chamando-se, vindo em chusma rir de um monstro ou cariatide,
arrepellando-se os cabellos uns aos outros, jogando as escondidas por
traz das heras que abraam a muralha, de roda dos varandins, pelas
cordagens--e at um que escorregou nas lageas, ficou de
bruos, choramingando, com birra,  espera de que alguem o fosse
levantar.

Os mais robustos ento descolam do pavimento uma das lageas, a um
canto, e acocorados na terra, escavam com as unhas uma toca.

Pela segunda vez, o gallo da missa gritou da cupula, e elles, que o
escutam, precipitam com furia o seu trabalho, a fim de que a tarefa
esteja prompta antes que a ave solte o seu terceiro grito de alarme.

Bem depressa ha um buraco fundo no cho da grande sala, e--oh
surpresa!--aparece um p, um microscopico psito de creana roxo de
frio, inteiriado: e logo depois do p uma pernita, o tronco, uma
cabea... J a curiosidade impertiga a pequenada, que se achega e
acocora, em circuito cingindo-se pelos pescoos, n'uma profuso de
momos espantados.

O pequenino cadaver est descoberto, e cada qual n'elle procura
insuflar o ligeiro filete vital que em si conduz. Uns lhe aquecem as
mos com seus beijitos leves como abelhas, outros lhe sopram das
palpebras a vilissima terra que lh'as come, emquanto muitos
lhe fabricam uma samarra, com os pedaos que arrancam s suas proprias
vestimentas.

Emfim, a creancita ressurge, esfrega os olhos--dois ou tres calafrios
passam de manso  flr da sua epiderme opaca e ecchymosada--e a vida
nasce, ha movimentos, pequenos haustos, suspiros... mas sempre  roda
do pescoo um vergo negro estrangula-a, estygma de infamia paterna,
que o velho encara estralejando os dentes, n'um terror confuso de
assassino. Pela terceira vez o gallo canta, e triumphante, o turbilho
de seraphins levanta vo, ascendendo pelo co, n'uma espiral de nevoas
cr de rosa.

Porm de repente, o pequenito recorda-se, volta a cabea, estende os
braos para o musico que de rastos avana, desesperado, por no lhe
poder tomar as mositas protectoras. Oh, era tempo! Ha j cem annos
que elle assim vagabundea nas ruinas, sem repouso esse sineiro que
amara uma abbadessa; e annos e annos desfilam, e sempre a terra a
recusar sepultura ao amante, e sempre a colera de Deus a expungir da
sua gloria, o monstro que assassinra o filho, no proprio dia em que
elle foi nascido. Annos e annos o miseravel tentara apaziguar a
colera do Eterno, vindo  missa do gallo da abbadia, interpretar pela
musica do carrilho fantastico as escruciadoras angustias da sua alma
lassa, atormentada, mas ainda no fim d'estes esforos o co que
redimia a creana, como se no julgasse bastante a expiao do pae,
abandonava-o!

Surdo, maldito, o desespero comea a babar-lhe da bocca, imprecaes
incoherentes. De novo o carrilho blasphemo, vomita das campanulas de
bronze, a sua bruxaria macabra de mostrengos. Os ultimos fieis
arrastam as sapatas no adro, e pela montanha as luzitas descem
ondulosas, hesitantes, como um bailado de pyrilampos.

Agora um, outro ao depois, os lampadarios se extinguem diante das
capelas: o altar-mr no phosphoreja mais as suas rutilancias d'estofo
e pedrarias: o arcebispo foi-se, as monjas voltaram talvez aos seus
sepulchros, porque as procuro em balde nos cadeires do cro, pela
egreja e nos claustros,  chamma dos ultimos archotes que lambem de
sangue os gestos das estatuas, as arcarias confusas, os baixos relvos
e os nichos.

Deito os meus olhos de roda, espavoridos, e ha risadinhas, voejos, as
heras trepam em grossas lianas, que se abraam nos columnellos da
torre, e prolongadas, tenazes, n'uma luxuria contorcida de serpentes,
alastram as suas pernadas entre as pedras, como uma avanada de
exercito que em nome da natureza, toma posse do terreno que lhe havia
sido usurpado. O terror d-me epilepsias de fuga, d'uma vertigem,
d'uma raiva! e precipito-me na escada, s escuras, sem mais ouvir os
queixumes do musico, que as vegetaes vo sugando, assimilando em si,
absorvendo, n'uma troncagem monstruosa de figueira.

Chego  igreja, quebrado pelas brutalidades d'essa queda espiral de
oitenta metros. E atraz de mim no ouo mais que a floresta a
esbravejar, tomando posse da ruina, e os estalidos da cantaria que
rebenta, escarvada pela violencia das raizes que esconjuntam a
architectura a punhaladas de ciume. Agarro um facho, em bramidos,
delirante d'um medo que centuplica as minhas ancias de vida livre, em
meio dos campos: e ao acaso, entre os cyprestes, pelo claustro, os
risos guiam-me: bem depressa descubro uma luz vaga, coando-se por
baixo d'uma porta baixa e carcomida. Dentro ha rumores, leves
_frou-frous_ de sda que se acamam, tinir de pratos... E no
phrenesi medonho que me agita, deito os hombros  porta--a porta voa,
e uma orgia d'espectros patenteia-se, n'uma luz glauca em que as
figuras mergulham, confundidas, alongando as roupagens pardacentas. A
principio eu no pude destrinar as lugubres carcassas, uma a uma, mas
j a minha vista insiste sobre as frmas... ha um festim servido sobre
a mesa, flres que se desfazem em poeira; e n'um brilho d'enterro as
tochas ardem, mostrando  roda esqueletos de monjas, a devorar co'as
mandibulas descarnadas, e cardeaes, marquezas, gentis-homens, que
entre si permutam toda a casta de motetes dulcerosos.

E mais distante,  luz do fogo que enrubesce na chamin de pedra
armoriada, o senhor arcebispo tange um violo, meneando a calva
emquanto a abbadessa ergue os seus vestidos veneraveis, para esboar o
primeiro passo do minuete, acordado nas cordas do instrumento.

--Rompe a manh! grita o creado aos meus ouvidos.

Esfrego os olhos.

A nevoa esfarrapa chuveiros na montanha.  dia claro. Uma calea nova
nos aguarda. E o sineiro da abbadia? A gente sempre sonha cada
asneira!




PEQUENO DRAMA NA ALDEIA


Devo dizer-lhes que este Carlinhos era um adoravel petulante de buo
preto e olhos claros, cheio de vivacidades com raparigas, prompto a
rir, delgadito e forte, tendo pelos actos de bravura uma quasi
religio. Compensavam-se n'elle delicadezas de femea, brancuras de
mos, flexibilidades de cinta, uma doura candida de feies, toda a
graa ondulosa emfim, dos que adolescem  larga, sem cuidados nem
represalias paternas, com os primeiros esboos d'essa energia physica,
tenaz, inquebrantavel, leviana e generosa, que ainda agora  tradio
em certas raas da provincia, e guarda fama de povoado em povoado. A
escla fra-lhe apenas um pretexto de troa, onde esse incorrigivel
tinha posto em debandada a auctoridade classica dos mestres. E como
n'esse periodo as primeiras desordens do sangue, ensaiavam
pelo campo da aventura, mais agora ou mais logo, as suas sortidas, no
havia mesada que chegasse, nem horas para folhear as lies. Demais, a
sua impetuosidade que esplendia cr e frescura de saude, pouco dava 
vida cerebral; portanto, voltou  aldeia sem curso, elanado de
figura, tendo as olheiras symtomaticas do amor esbanjado, lendo
romances, com uma arte especial de surprehender mulheres, e
predileces decididas por quanto fosse prazer.

--Doido, dizia a gente pobre da aldeia, mas que rapaz!

A fortuna da familia fazia-o no sitio uma especie de menino d'oiro,
sagrado e por todos querido; desculpavam-lhe as audacias, tinha
entrada em todos os lares, e quando nas romagens o seu cavallo piafava
nos adros das ermidas, ou a galope ia cortando a chafranafra das
feiras, as raparigas deslumbradas achavam-n'o bello como um deus, e
muitas fugiam com elle, mandando  fava os namorados. Realmente
ninguem achava extraordinarias estas coisas. O que as velhas
camponezas ento faziam, era ter saudades do pae, rico gro-senhor de
herdades e quintas, destemido, brilhante, alegre aventureiro, que
ainda em vesperas de morrer tinha raptado a lavradora das Lages;
aquella russa magnifica de carnao, que tinha o ar d'uma grossa
madona eborense, ho-de estar lembrados, hein? Carlinhos mesmo, era um
filho do amor, vindo no se sabia d'onde, amor d'acaso, d'alguma
arribana de granja, d'algum arredado logarejo entre serras e moinhos.
O certo era que dias aps haverem enterrado no velho cemiterio, a
filha que ao rico homem restava da esposa legitima, entrara o marido
em casa com um pequenito pela mo, fra junto da esposa mortificada de
prantos, e sem palavra tinha-lhe deposto no regao aquella encantadora
miniatura de Carlinhos pequeno, a mais fresca e divina que era
possivel sonhar. A pobre senhora que se via sem descendencia, j no
estava em idade de ter filhos; resignada s traies do marido, e
ennobrecida d'esse grande orgulho benevolo e senhoril, que ainda na
provincia revelam as antigas familias, acceitara o _bambino_ sem cousa
alguma perguntar. Alm de que, adoptando a creana, assegurava-se
herdeiro  casa, e os filhos do irmo de seu marido no participariam
ceitil na grande fortuna do casal. Ah, mas esse exemplo d'adopo
tinha dado a mulheres sem marido, phrenesis bruscos de contagio, e
certo foi que muitas creanas appareceram dizendo-se irms de
Carlinhos. Talvez calumnias forjadas pela outra familia, ainda que
fallando srio, no faltassem a taes pretenes, uns signaes de
verosimilhana. Tanto os da Oriola, que assim era conhecida a familia
do Carlinhos, como os da Torre, que assim nomeavam a casa do tio
adversrio--eram fortunas de respeito e gente de poderio. Os primeiros
tinham o maior nucleo da propriedade de redor da Oriola, aldeia
perdida entre carvalhaes e sobreiros; os segundos faziam sde de
governo proximo a S. Mathias, outra aldeia nos valles de Beja. Uns
tinham cabellos pretos, alta estatura fina, nariz direito, olhos
claros, e uma cr fulva de pelle, nuanada em deliciosos _duvets_;
eram da Oriola. Mas outros insculpiam-se herculeos e loiros, nariz
recurvo, dentes carniceiros, barba rara, e os olhos singularmente
obliquos contra um nariz que arfava com destrezas de hispano-arabes;
eram da Torre.

Pois extraordinaria bizarria! Dos trinta annos para baixo, toda a
Oriola copiava o typo do pae de Carlinhos; e acontecia o mesmo em S.
Mathias, a respeito do typo loiro da Torre. Nas terras de
roda, estas concidencias faziam riso, ainda que se explicassem com
honra, aqui para ns. Os da Oriola davam po  sua aldeia, como os da
Torre a S. Mathias. L vinha o proverbio--mesmo po, mesmas feies. E
sendo assim...

Ora cada qual d'estas familias rivaes--e nunca pude saber porque
rivaes, questes de ciumes talvez, uma herana mal repartida, ambies
de riqueza ou voga entre os povoados, eleies renhidas n'algum anno
de mais gastos, emfim qualquer pequenino attrito d'esta natureza ou
d'outra, onde o orgulho dos senhores ruraes, to vehemente e
meticuloso, faisca determinando incendios e intimas assolaes--cada
qual d'estas familias, ia eu contando aos senhores, no passava dia
sem discutir com uma rica metralha de descomposturas, escarneos e
desdens, o viver da outra. Em torno d'estes odios interfamiliares,
tinham-se formado mesmo pequenas crtes, feitas com figurinhas
insipidas de proprietarios, mulhersitas seccas e beatas, maldizentes
na sua dentua podre, com poucos meios e grandes deslumbramentos pelas
pratas de casa rica, sabendo as mesmas historias e queixando-se dos
mesmos flatos, levando e trazendo recadinhos, segredinhos,
pequeninos fetidos d'intriga, em preo do ch com doce que pelos
seres lhes serviam, e da quasi familiaridade que em publico, esses
senhores de terreola lhes dispensavam. Na casa da Oriola sabiam-se por
exemplo a horas e a tempo, os vestidos de sda da prima Dora de S.
Mathias, como ella se vestia em sendo madrinha de baptisado, o que
tocava no piano, e quem estivera a jantar no dia dos seus annos.

--Diz que houve balanc at de manh.

E noticias da cortia exportada para Inglaterra, l que vendiam os da
Torre, e dos rebanhos, carneiros, vaccas, porcos, cavallos, poldras...

--To maus, que elevaram o preo dos carneiros, s para prejudicar os
lavradores somenos. E os porcos d'elles no prestam, carne de co,
mais dura!...

Cada viajata de Dora durante a estao de banhos, cada mez d'opera em
Lisboa, no inverno, as primaveras com o pae pela Andaluzia, no
Algarve, ou em Marrocos e Gibraltar, para espreitar o dolente azul do
Mediterraneo do alto das artilhadas escarpas inglezas, eram motivos de
censuras na Oriola, e surdas prophecias de ruina iminente. As
mulheritas da terra vinham aos seres com seus maridos,
trazer o que sabiam da Torre, inventar quando no havia que trazer, e
a me de Carlinhos commentava os casos entre velhas creadas que a
tinham acalentado, velhinhas que davam tu  sua dona, enroscando-se-lhe
aos ps com somnolencia de gatas fugidas ao servio. Mas, desgraadas
das visitas que ousavam julgar diante da rica viuva, o proceder da
sobrinha ou do cunhado--que tombadas em graa, nunca mais lhe viam os
dentes e provavam o dce! Ella s, viuva de Fernando Zarco, podia
discutir os desvarios de seus parentes; o resto contava sem
commentarios o que ouvia por fra, ou ia escutando o que ella dizia,
sem retrucar mais, alis...

Na casa da Torre, exasperao identica a respeito da Oriola, no
havendo sero que as estroinices do primo no fossem esmiuadas,
exageradas e discutidas. Carlinhos no tinha pae, Dora no tinha me.
Mas auctoritaria e toda orgulhosa do seu reino domestico, da riqueza e
alta educao que recebera, tambem ella punha em torno de si uma
pequenina crte dulcerosa e servil. Era mais nova que o primo, e a sua
belleza de loira, magnifica e alta, toda fresca em batas
d'estofo exotico, deliciosa de cabellos e mos, com uns ares
d'inaccessivel castell, fazia d'ella a musa do districto, e a paixo
de quantos gordos filhos de casa opulenta, batiam por feiras e
lavouras em grande. Viam-se os dois muitas vezes, Carlinhos e Dora,
casualmente nas festas de Beja, em praias de banhos, e por Lisboa,
onde at acontecia ficarem no mesmo hotel. O pae d'ella, Manuel Zarco,
fingia no dar pelo sobrinho, o _engeitado_, como elle dizia na sua
brutalidade morgadia. Os rapazes, porm,  que se iam mirando s
furtadellas, sem querer saber das caturrices do velho. Carlinhos, to
ruidoso e leviano por onde quer que andasse, ficava srio e perturbado
sob esses rapidos encontros com Dora, e os seus olhos claros
esmaltavam profundezas ardentes, e melancolias de quem fica a scismar.
Porque em verdade, mulher alguma podia equiparar-se a Dora, pela
nobreza do seu typo, estudada elegancia de maneiras, vestuario, contos
de fortuna e altivez de familia. Os bem informados n'isto d'interesses
e allianas possiveis ou premeditadas, no viam por essa orla toda do
districto, um casamento  altura de Dora, a menos que a
orgulhosa descesse, o que todos diziam no ser provavel. Apenas um
noivo a merecia bem, Carlinhos.

--Esse, opinavam as terras circumvisinhas, quando as gallinhas tiverem
dentes.

Precisamente esse dia, a aldeia de S. Mathias suspendera os trabalhos
do campo em signal de festa; os das herdades tinham vindo com os seus
cajados e as rudes botas altas de coiro branco, rolavam bailaricos por
todas as casas; e no terreiro da egreja, s portas das vendas, no
balco da escola rgia, ou mesmo s embocadas das ruas, por aqui, por
alli, os camponezes em ranchos, fato novo, ruborescencias de vinho no
queimar da face, havia mais de tres horas que aguardavam a boda. Os
campos n'esses meados de junho, tinham primeiros doirados do trigo
maduro, ondulante e farto, que a aura por zonas encama n'uma saudao
graciosa; por um lado e outro, entre gavelas arrepeladas sem ordem,
remoinhos desflorados de messe, como labios de rapariga ardente, ria o
escarlate das papoulas; e como aos ses da quadra tinham vindo as
cigarras, ruido de cega-rega, trocavam alertas d'arvore em arvore, 
medida que ia avanando o vero. Entanto ainda as noites
eram frias, e o orvalho da manh perlava nas folhas, secretas lagrimas
d'amor trahido; corria mesmo agua por alvercas e ribeiros, fria,
salobra das terras atravessadas, dando erectos vios aos panascaes
verdejantes, s junas e mentrastes das ribanceiras. Microscopicamente,
as vinhas iam esboando cachos, entre pampanos pizados d'amarello e
vermelho ferrugem; comeam a vir os perdigotos, as rolas tinham
chegado d'uma aspera migrao, e desconfio que os melros, casados de
fresco fazendo musica de opereta entre os murmurios das cannas e dos
silvados, arredondavam j os seus ninhos,  espera da petizada. N'essa
grande paz bucolica, a alma abraava simples ideaes de ventura, nua
d'ambies desordenadas e volupias lividas, e na doura de palpitar
entre aromas silvestres, ia voando em cata de amores delicados e
mansos idyllios, pelas veredas onde as condoidas espigas se curvavam,
a depr nos regaos esmolinhas do primeiro trigo em sazo. Vista de
longe, a aldeia era encantadora d'alegria e brancura. Nas collinas, de
roda, empoleiradas ermidas vigiavam por ella dia e noite; Deus
foragido pela descrena das cidades, andava por alli talvez na
estatura de algum velho mendigo de fallas doces e resignada
humildade; e pela noite, quando os rebanhos vagarosos seguiam para os
curraes, esse cantinho rustico tinha scenas biblicas d'uma graa
innocente, pastores e pastoras ajoelhando ao toque das Trindades para
dizer o _angelus_, risos de ganhes pelas devesas, cantigas que se
apagavam nas corcovas dos caminhos, emfim tudo quanto entretece a
elegia plangente do morrer do sol. Esse dia casava-se o Carlinhos com
a prima Dora, e as duas casas fortes do districto, tantos annos
separadas por odios, iam emfim restaurar-se na ba cordealidade, por
esse lao dos primogenitos.

       *       *       *       *       *

Imagine-se o espanto e a curiosidade que um to inesperado successo
derramou por toda a provincia, conhecidas como eram as desavenas dos
Zarcos, desde tanto apregoadas. Mas assim como tinham ficado na sombra
os motivos de apartamento, assim tambem incognitas ficaram as molas
intimas da nova amizade entre as duas casas. Evidente, que o principal
motivo de ligao era o casamento dos rapazes; isso no bastava
entretanto; outras secretas ponderaes deviam ter influido;
e essas, quaes? Porque, emfim, era conhecida a indole orgulhosa e
tenaz da viuva; as suas phrases sobre o cunhado citavam-se em modelo
d'altivez varonil e decidida independencia; e por seu lado o da Torre
no a poupava tambem. Nem uma s vez Dora tinha fallado a sua tia;
creancita ainda, succedera encontral-a no sei que de vezes; os olhos
pretos da viuva detinham-se um momento na figurinha petulante da bb,
e desviavam-se logo sem rastro d'affecto. Verdade  que o velho Zarco
referindo-se a Carlinhos, punha sempre palavras crueis, marau, vadio,
o filho d'aquella...

Subitamente, eis que os rapazes iam casar! Jmais por aquellas
redondezas se tinha dado coisa parecida. Vamos ns agora a vr, se a
da Oriola vir dormir  Torre! diziam muito interessadas, das suas
soleiras, as gordas comadres de S. Mathias. A mr parte nem tal
acreditaria, mesmo vendo. E as apostas comearam. A vr como dorme!
Apostar em como no dorme! A camarilha de Manuel Zarco arengava com
sobranceria, entre os grupos mais impacientes:

--Afinal, quem se humilha so os da Oriola.  bom saber!

E uma de preto, a Fevronia, toda preponderante, meia azul e
sapato rto, batia palmas n'uma loucura, dizendo por todas as casas:

--Quem viver tem muito que contar, no haja duvida.

Foi n'este marulhar d'opinies e trocadilhos, que um forte rumor de
sege alborotou a aldeia e emquanto rapazes descalos corriam, ces
ladravam, e cabeas de mulheres vinham s portas espreitar avidamente,
os trens da Oriola romperam a grande passo pela rua larga, vindo topar
alfim nas escaleiras do adro. Este caso foi muito fallado, e ainda se
pasma da magestade com que se apeou a viuva da sua grande berlinda
estofada a casimira perola, grandes fiveles e lanternas de prata
esculpida. Tinha-se chegado muito povo a vr, as janellas guarnecidas
de madamas, e o mordomo da senhora viuva, gordalhudo, com uma
expresso presidencial, desenrolou um rico tapete amarello e branco
pelo adro, desde o estribo at aos portaes do templo; os creados da
taboa tinham-se erguido e descoberto; e n'isto Manuel Zarco com um
riso amarello, todo curvado de obsequios, casaca e luva branca, sara
a receber sua cunhada; e quasi a medo, todos repararam, offerecera-lhe
a mo para saltar. Diz que ella nem o encarou, e foi ssinha
pelo tapete fra de cabea alta, um dos braos pendentes, e a cauda do
seu vestido de damasco negro roagava que parecia mesmo da senhora
rainha. Carlinhos ia atraz, um pouco deslocado na casaca de noivo,
porque em verdade ia-lhe melhor a jaqueta e o chapeu largo. E fechavam
cortejo as velhitas que tinham embalado a viuva, ambas de roxo,
ajoujadas, chapeus muito profusos de violetas, e mitenes de renda onde
as suas velhas mos boiavam carcomidas. Junto ao altar tinham posto
uma grande poltrona em setim rutilante, flordelisado a ouro velho,
onde a viuva se assentou sem mais cerimonia; e todos em p serviam-lhe
de crte, com passadinhas respeitosas e pequenas vnias cheias
d'unco. Apoiado  espalda da poltrona, velho Zarco mastigava
demoradamente as palavras com o seu modo somnolento, siflando os _ss_
de quando em quando, e ella sem lhe dar atteno, um momo altivo de
labio, entretinha-se a esfolhar com o seu p de fidalga, rosas brancas
espalhadas pela alcatifa.

Embalde o da Torre lhe fez notar que melhor seria assignarem as
escripturas em casa d'elle, como era natural, at ficava
alli perto, no largo. V. ex.a descanaria um pouco nos quartos de
minha filha...

--Meu cunhado, no me sinto fatigada, assignaremos isso no gabinete do
prior, onde quer que seja, mas sem arredar p da egreja, que  casa de
todos. E a proposito, disse ella tirando o relogio,  a hora, duas e
meia. Janto s seis, o caminho  longo.

O da Torre ia a sair, a viuva tinha-se erguido sem reparar na
impresso que estavam fazendo os seus cortantes modos de dizer. Manuel
Zarco deixou-se caminhar ao lado d'ella foi-lhe lembrando com voz
mansa que os velhos rancores deviam acabar com aquelle enlace dos
filhos: tudo afinal se esquece.

--Tudo no! disse ella bruscamente. E proseguiu: pdem casar, pdem
casar. Carlinhos alm de tudo, no  meu filho, aliaz tinha-lhe
prohibido esta alliana, meu cunhado!

--V. ex.a  ento muito orgulhosa, notou velho Zarco despeitado
d'aquelle tom.

--Cr isso? disse a viuva abrindo o grande leque d'oiro e plumas, que
reluzia n'uma polvilhao de pequeninas pedras.--E de repente, n'um
accesso de voz intimativo: Sabe, meu cunhado, que seu irmo era homem
para o ter morto, se acaso tem vindo a saber... Porque francamente,
disse ella com os dentes cerrados, rigida e faiscante nos seus
damascos negros, francamente,  desprezivel, o senhor! Tenho ainda nos
pulsos signaes das suas unhas. Adoro o Carlinhos, creia--eis porque s
vezes me aterro da mulher que elle escolheu. Meu Deus, se essa
creaturinha sahir ao pae!

Os dentes do outro rangeram--porque no casou ento comigo? disse elle
com frenesis na raiz dos cabellos.

A viuva riu-lhe na cara.

--Eu? Eu? Ora, meu cunhado!

Fez dois passos na alcatifa, quebrando n'uma crispadura electrica e
larga, a enorme cauda applicada de rendas antigas, ao tempo que os
dedos de Zarco rasgavam convulsivamente a luva descala de rompante.
Ambos trahiam colera nos _zig-zagues_ que faziam marchando. Os olhos
ainda magnificos da viuva procuravam o da Torre, phosphorentes
d'ameaa. E o velho, como quem no acha outro caminho para fugir:

--Emfim, desmancha-se este casamento, se quer.

--No, j agora, elles desgraadamente adoram-se, Carlinhos
mostrou-me as cartas, amor de muitos annos, inda eram pequeninos. Deus
sabe se o senhor mesmo approximou...--E subia-lhe a voz em graves
dramaticos, com vibraes de metal.--Mas, meu cunhado, acautele-se,
acautele-se! Sua filha vai comigo, voltal-a-hei contra o senhor.

--Oh, disse elle, experimente.

--Pois veremos.

--Vou buscal-a, resumiu elle transtornado, curvando-se. E muito baixo,
querendo dominal-a: que inimigo horrivel eu tinha, se a senhora fosse
um homem!

--Matava-o, respondeu ella estendendo o punho n'um gesto de Rachel. E
ajuntou a rir: to certo!...

Carlinhos vinha para elles, j o velho Zarco se afastava. E vendo-o no
seu ar de cavalheiro, estatura correcta, alto, um fulvo esplendido de
pelle, bocca firme nos cantos sob a velludagem do buo, quasi
innocente na graa leal do sorriso, esse rir da viuva, correndo
imperceptiveis _nuances_, foi gradualmente adoando, enternecendo,
perfumando como um licor que se evola entornado, de modo que era
divino quando Carlinhos, femininamente, lhe deu a beijar a testa. Ella
ento sem se importar, attrahiu-o a si n'uma paixo de lea,
como se nunca mais se vissem, e dizia-lhe coisas entrecortadas, a
chorar, a beijal-o furiosamente, estreitava-o mesmo sobre o corao,
com impetos d'abandonada, que se fica nos occasos da vida, sem mais
ninguem que amar. Fosses tu das minhas entranhas, no te queria mais
que te quero! E essa maldita, hade expulsar-me do teu corao.--Elle
queria contel-a, quasi envergonhado de os estarem olhando  roda,
jurava-lhe, promettia tudo, n'um precipitar de palavras meigas. E 
flr da abobada nua e branca da egreja, andorinhas corriam chilreando,
filhos e mes que inda no tinham emigrado, e demoravam residencia no
calor dos velhos ninhos patriarchaes.

       *       *       *       *       *

N'isto, fez-se um grande rumor, que alastrado, mais e mais confuso,
por todas as ruelas, ia pondo as gentes de sobreaviso; viram-se
rapazes e mulheres correndo s esquinas que defrontavam com o largo,
janellas que abertas de chofre inchavam de gentio com fatos de gala,
grupos freneticos buscando posio de vr melhor; e de repente, quando
a orchestra de Beja entrou a choramingar uma symphonia no
cro, ondas de familia romperam na portada sem guardavento, invadindo
as capellas, enchendo a nave, querendo forar a balaustrada carunchosa
do sanctuario. Jmais S. Mathias tinha visto coisa igual, nem quando
D. Pedro V fra a Beja--e francamente, de logo perdeu a esperana de
tornar a gosar outra grandeza assim de boda. A casa da Torre era no
largo, grande, pesada, singular, com esquinas de granito negro, onde
os escudos postos ao travs esculpiam complicados symbolos de nobreza,
lees com asas, metade de um cavalleiro armado de lana e capacete,
Nossa Senhora dentro d'uma torre, cabeas de moiro n'um molho: e s
aguias eram algumas tres! Sobre os portes de columnellos gastos, com
argolas de bronze para prender as bestas, e portas de carvalho
fortalecidas com magnifica pompa de ferrarias damasquinadas, esses
brazes repetiam-se mutilados; no fundo do pateo aberto, d'um sabor
arabe, e com arcos  volta cobertos de hera via-se a ampla escadaria
de corrimes de bronze, alcatifada de fresco e cheia de vasos
decorativos; um velho cypreste lhe fazia sentinella, hirto  beira
d'um poo octogono, todo em altos relevos de pedra rugosa--em
casotas, acorrentados, inquietos, dois grandes mastins abriam sobre
quem chegava, o duro olhar sanguinolento. Na fachada c fra, a
correnteza de janellas senhoriaes, fria de butareus e cimalhas onde os
estorninhos gritavam, deixava pender ricamente sobre as velhas
saccadas, preciosas colchas hereditarias, amarellas com grandes
passaros em lhamas de prata, azul pallido n'uma loucura de mandarins e
pagodes, ou d'altos relevos brancos, verdes, escarlates, sobre foscos
de oiro indiano, onde as grossas franjas luziam. Pois d'essa casa
severa, vomitra subito um cortejo bizarro de noivado-- frente vinham
os figures de Beja em grande _mise_, ricassos das terras proximas que
tinham chegado nas suas seges, velhos amigos de Zarco, lavradores,
funccionrios, ultimos parentes da familia... E rodeavam o da Torre
todo pallido na sua grande barba, que levava a filha pelo brao como
uma grande musa germanica, alta, pudica, esplendidamente branca e
vaporosa n'um vu que lhe cahia aos ps. Fez bulha na aldeia o senhor
coronel do 17 com as suas medalhas ao peito, e um velho general de
metro e vinte e cinco, gesticulando para a direita e para a esquerda,
que mirava as femeas lampeiro como um galo, ao p do vigario
capitular, um cr de parede, que mui dulceroso e beato, afira o dente
em tres dias d'abstinencia, sonhando as delicias do _copo d'agua_.
Seguiam damas paramentadas de oiro e plumachos, luvas chinfrins de
dois botes, pulsos eticos chincalhando braceletes, muito estrepitosas
em sdas de cr terrivel: e disse uma d'ellas para a outra, que seguia
ao lado, mortificada no peso da cuia--quem est mesmo um cangalho  a
Sardinha. Esta coisa causou grande pasmo; estar a Sardinha um
cangalho! Hi!... Muitas agglomerando-se em trouxa, discutiam to
famoso caso. E gabou-se a morgada das Palmas, uma trigueirona de
cabello corredio, labio gretado, scca e presumida, que de chapo
branco e vestido verde, fazia pensar n'um grande molho de nabos.
Depois as creadas, sinceras raparigas que choravam--isto deu pena em
S. Mathias--e quasi em braos no meio d'ellas, uma velhita em sda
preta, pequenina como uma creana, levava um ramo de rosas brancas e o
leque da noiva, abanando n'um triste ar resignado, a sua cabea branca
d'octogeneria. A aldeia estava toda no largo, gralhando a essa hora,
gente das lavoiras de roda, uma chafranafra de mulheres e homens que
se rasgava e bipartia, ao passar o acompanhamento. A cada passo,
pequeninos lances detinham a procisso bruscamente, e viam-se as
raparigas sahir dos ranchos, tostadas, fortes, rindo com soberbas
dentaduras, cabellos de trigo maduro remoinhando em serpente no alto
das cabeas...

--Com sua licena--e deitavam flres sobre a herdeira, commovidas, um
ar de filhas de burgo medieval.  porta da igreja, o Carlinhos estava
entre os seus, crescia a turba embatendo-se; e por traz a viuva muito
pallida, tinha os vagos olhos das frias estatuas antigas, inertes,
dilatados d'insomnia, como prescrutando ao longe os tempos em que
ainda no eram de pedra, e uma vida lhes circulava e ria no alvor dos
membros ns. Deu-se ento no Zarco e na viuva, ao mesmo tempo, um
calafrio de ciume, quando os noivos se encontraram com a mesma flamma
nos olhos; e os dois perceberam que iam ficar de mais n'esse idyllio
de creanas, absortas uma na outra, que esquecidas de tudo, iam de
mos dadas pela igreja fra. N'essas velhas idades d'amor egoista, em
que os filhos so o calor, o orgulho o motivo de viver--o
choque d'ambos, percebendo que lhes tinha acabado o imperio sobre
essas adoradas creaturas, foi to violento e fulminante, que se
deixaram ficar atraz no meio da turba, com vagares de fundo desalento,
ella direita, sem desmanchar a estatura soberba, derrubado elle,
pacifico, apagado, enorme como um elefante, e sem dar uma palavra para
no desatar alli em soluos, trespassado dos primeiros regelos do
abandono. Cortando ento por entre a gente, ouvia por toda a banda
humildes palavras de conforto e piedade; velhas mes que o
encontravam, lacrimejantes, attentando-lhe na face descahida--Vae
ficar s n'aquella casa tamanha, coitadinho do amo Zarco hade-lhe
custar. Isto de filhos!

--E so os da Oriola que levam a nossa menina! Abaixar-se o amo...

Porque todos os subditos sabiam j da capitulao deshonrosa d'esse
velho rei de charnecas e montados; umas poucas de palavras colhidas na
altercao com a viuva, serviram de base a toda a sorte de commentario
e parlenda sobre o casamento; pintava-se e repintava-se de grupo em
grupo, a expresso terrivel da viuva fallando a seu cunhado,
palavras cruas ditas por ella, _acautele-se, acautele-se levo-a
comigo_, e outras muitas; e o amo Zarco todo enfiado, ali a ouvir, a
rezar desculpas, a fazer-lhe vnias. C'os diabos--nem que comesse os
sobejos d'aquella magana!

--Fosse comigo, fazia cada qual em grandes quizilias.

--Ai, argumentavam muitos pachorrentos,  o que se v hoje em dia.

--To m, filhos, que nem as escripturas quiz assignar em casa do
cunhado.

--Inda assim no entalasse o rabo, figurona!

Mas depois de longas conjecturas, recapitulando, toda a gente acabava
por dizer que andava ali o quer que fosse. Ol se andava!

       *       *       *       *       *

No gabinete do parocho tinham posto uma grande mesa, e em roda bancos
negros da confraria das Almas, para os convidados se assentarem. Era
uma casa verdenta de paredes, com fendas ao travs na abobada, pintada
de frescos mais que barbarengos; e por um buraco de cima, passava a
corda da sineta, que desde que se rachra o sino, servia para chamar 
missa a freguezia. Ao fundo, pezava um grande armario de
carvalho negro com espelhos de metal que verdejavam; e paineis de
santos esburacados  navalha, cahiam aqui e alm, emmoldurados em
talhas carcomidas. Uma luz de cava vinha de cima, por uma janella sem
portas, onde se cruzavam vares de ferro. Como a casa era estreita,
apenas foram  leitura do contracto, os intimos amigos ou personagens
de pezo. E o tabelio Mathias homemzarro com uma cabecinha
humoristica de japonico, estimavel e estupido, principiou com a sua
voz em falsete nos fins de cada periodo, a ler artigo por artigo as
escripturas, circumvagando a cada clausula os seus olhitos por cima
d'umas olheiras paposas, onde as bexigas tinham picado covinhas de
sombra.

...e mais dou a minha filha Dora Victorina Maria de Sousa Alvim Mexia
Zarco da Cunha Menezes... as herdades denominadas da Cova, das
Sesmarias, da Chamin, e Crtes tanto Grandes como Pequenas, com seus
montes, gados, arvoredos, dependencias e serventias, a partir do dia
em que desposar o dito seu primo Carlos; e mais lhe fao doao de
todas as minhas lavoiras do Guadiana, que vo entre os moinhos da
Coitada e a minha quinta de Valle de Borrucho, constando de
doze herdades seguidas, partindo d'uma banda com o Guadiana, da outra
com a estrada de Moira, da outra... E aqui Mathias foi obrigado a
parar, porque um borborinho d'espanto se levantra entre os
convidados.--Que? Dava tudo aquillo  filha? As lavoiras do Guadiana,
o melhor trecho de propriedades do Baixo Alemtejo? Mas endoidecera
esse homem com certeza! Despir-se para enriquecer o genro! Tom dos
Panascos, que trouxera arrendadas muitas terras da Torre, e passava
pelo melhor avaliador da cercania, punha as mos na cabea com uma
face attonita e consternada.--Jesus! No contente de humilhar-se ante
a viuva, inda em cima lhe cobria o filho de oiro. Mas  que ia ficar
arrasado! Dar  filha mais de seiscentos contos, sem restrices, sem
condies, sem cautellas... E Thom foi junto do seu velho amigo, e
disfaradamente puxando-lhe a manga:

--Olha que te arrependes, Manuel. Que  que te fica para viver?

O da Torre encolheu os hombros.

--Desgostos, fez elle muito baixo, e disse ao tabellio para
continuar.

--E outrosim lhe entrego toda a plantao de vinha e
olival, que possuo livre e isempta, no sitio das Barrocas, freguezia
de S. Pedro de Portel, cerca de quatrocentos milheiros de cepa e tres
mil ps de oliveira...

--Meu pae, balbuciou Dora, avanando para o velho que estava junto da
banca ennovelando a barba n'um movimento calmo.

--V, Mathias, depressa! ordenou elle, emquanto cada vez mais, n'um
phrenesi crescente, os convidados se acotovellavam e comprimiam, no
querendo acreditar no que lhes fra lido. O tabellio enumerou o que
restava d'uma fortuna rural cedida em dote, moinhos, hortas,
ferragiaes, montados de retalho, ruas inteiras da aldeia; tudo que
Zarco possuia, bom e mau, pequeno e grande, tudo dava a sua filha com
a mais generosa confiana.

--Mathias, disse ainda o velho Zarco, falta a casa da minha
residencia, o quintallo e as abegoarias. Accrescente que a contar de
hoje, lh'os dou tambem.--E voltado para a cunhada, com a sua face
radiante de altivez fidalga, fingia no sentir as murmuraes de roda.
Fra, na igreja, no adro, no largo, por essas casas todas da aldeia,
j se contava que o amo Zarco estava doido, e peor ainda, ia
ficar s sopas da filha. Dera-lhe tudo, sem acautelar a sua rica
subsistencia, o seu vestuario, o seu sequito. E uma hesitao quebrava
agora em faces a gentana:  piedade succedera nos ganhes o
fatigante receio de serem despedidos da casa pelos amos novos. Zarco
descia--quando um tocante episodio deu nos espiritos a nota mais viva
da emoo. Foi a leitura, do que a pequena velha que levava o ramo de
rosas e o leque, dava  sua menina. Mathias, elle mesmo commovido, ia
dizendo:... Umas contas de oiro com imagem de Nossa Senhora da
Conceio, a sua capoteira de velludo verde, duzentos dobres em oiro
n'uma bolsa vermelha, a tapada da Vanga...

Dos bellos olhos pudicos de Dora saltaram lagrimas por baixo do vu;
nos proprios olhos de Carlinhos faiscavam pontos humidos; de redor nas
gentes, faziam-se monossyllabos ternos; mas toda radiante de ser o
alvo, correndo a assembla com a sua cabea tremula, a velhita
exclamou:

--Esperem l, esperem...--e para Mathias, muito ruidosa nas sdas
pretas: leia l!

--...com a expressa condio de residir seis mezes do anno em casa de
seu pae, durante nove annos, ou em logar d'ella, algum de
seus filhos, caso seja fecundo o casal.

--Ouviste bem? redarguiu ella sensibilisada, abraando-se a Dora, e a
sua cabea dava pela cintura da noiva.  que ns no queremos ficar
abandonados, nem eu, nem teu pae, e a nossa casa.--O que fez com que o
dos Panascos fosse dizer baixo a Manuel Zarco:

--A velhota teve mais juizo que tu. Emfim l estou, se um dia... 
como se fosse tua casa, Manuel, bem sabes!--Chegou ento a vez de se
saber o que dava ao Carlinhos a senhora viuva. Mathias comeou com a
sua voz gordurosa, e para ouvir, inda os convidados se apertavam mais.
Era quasi uma replica da viuva,  arrogancia com que o da Torre
amontora riquezas aos ps da filha. Foi longa a lista, novas herdades
iam passando, arribanas, laranjaes, vinhedos, joias, louas, palacios,
rebanhos, casebres, trens... D'esta vez quem se espantava era a
Oriola--e por seu turno a viuva ficou nua.

Processionalmente ento, e  medida que iam firmando o contracto, como
a cerimonia findava, em reverencias de vassallos ante uma
grande potencia, passavam os convidados diante dos noivos, com
sorrisos de grande gala, alguma graa estudada, dando parabens com
ares cavalheiros, ou demorando-se a affirmar esta ou aquella
intimidade, na adorao dos mil e setecentos contos de dote. As
mulheres sobretudo, cercavam Dora de pequenas ternuras ridiculas,
beijos muito repenicados, segredinhos entre risadas. A morgada das
Palmas fez-lhes prometter que a iriam visitar ao seu monte de
residencia; o general citou alguma coisa no gosto bocagiano; velhos
lavradores que tinham trazido ao collo Carlinhos e Dora, de palpebra
humida davam-lhe conselhos, descanando-lhes no hombro as suas grossas
mos de trabalho. E n'uma avidez, sempre de longe, a viuva contemplava
a sobrinha, idealisada no meio dos tules, como uma grande figura de
legenda.

Quando viu menos gente no gabinete, Zarco foi apresentar Dora a sua
cunhada; a recepo foi quasi affectuosa, abalada a viuva como estava,
pela grande batalha de generosidade que momentos antes ferira com o da
Torre. Foi quando Dora levantou para beijar a tia pela primeira vez, o
grande vu de noiva em que vinha envolta. Essa belleza senhorial
d'uma soberba esculptura, que a viuva nunca pudera contemplar assim em
plena efflorescencia, pareceu feril-a com o seu esplendor de pureza e
brancura, porque se pz muito pallida, apenas o vu de Dora se
erguera. E por muito tempo ainda, considerava sem poder fallar, a
sobrinha. Em volta, nas gentes da Oriola, o mesmo fremito de surpreza
fizera correr murmurios de labio em labio. As duas velhas aias tinham
corrido a Dora, e soluavam. E a viuva de mos no peito, como
sustendo-lhe o frenetico pulsar, reconhecia por verdadeiro o que por
varias vezes lhe chegra aos ouvidos, vagamente, como uma opinio sem
fora--isto , que Dora era o retrato vivo d'aquella querida filha,
to meigamente loira e to formosa, unica creatura que ella amra no
casamento, e pela qual mesmo tinha chegado a aborrecer menos o marido,
Laura emfim, a sua pobre creana, morta com vinte annos, pouco antes
da adopo de Carlinhos.

Evocao da unica memoria que ainda hoje a fazia toda vibrar, esta
resurreio em Dora, da celeste creatura nascida das suas entranhas,
exacerbando angustias passadas, acordaram na viuva de Fernando Zarco,
menos asperos propositos de conducta. E voava-lhe a ida
pelas lembranas j longinquas dos seus primeiros tempos de esposa,
aos dezasseis annos, quando por cubia do pae, uma vez acordra no
leito do lavrador da Oriola.

Seis annos de infecundidade tinham assignalado depois melhor essa
frieza d'esposos, que quasi nem se haviam conhecido. Era ao tempo
ainda dos dois irmos serem amigos, companheiros de caadas e
aventuras. Manuel com as suas espaduas de hercules, e uma barba de
scandinavo muito frizada nas pontas, quasi branca junto dos labios,
era o typo da prudencia, fallava pouco, e ria com todos os dentes, um
riso ingenuo que antes parecia de rapariga pela doura do esmalte; e
quando os seus olhos de violeta, atravessados d'um brilho leal e
timido, se erguiam a procural-a, ella experimentava no sei porque,
tamanha melancholia e quebramento, que se ficava ainda com mais pena
de ser mulher de Fernando, um tostado, para mais grosseiro e leviano.
Ah, como isso ia j longe! E Manuel todos os dias achava alguma
pequena lembrana que lhe trazer; ninharias primeiro sem intuito
previsto, depois expendidas a furto, acceites em segredo... O certo 
que ella amou o cunhado, porque o perfume d'esses beijos a
embriagava, no carmim dos seus labios d'adolescente. Fernando, que era
soberbo, aspero, intractavel, brutal, _corao ao p da bocca_,
desconfiou mas sem medir a profundeza da culpa. Ella vivia n'esse
tempo inteiramente s, sem amigos, nem proteces do marido, muito
nova, to cheia d'impetos! E das profundezas do seu corpo exhuberante,
cheio de fecundas desordens e d'amores indomaveis, vendo-se alli
abandonada, vinham-lhe furias de peccar. Um domingo, os irmos tinham
ficado mal; nascera aquella filha, de quem Dora copiava a belleza--e
tal documento da sua culpa, trouxe-lhe a secreta vergonha que agora
gotejava odio sobre o irmo de seu marido.

       *       *       *       *       *

Depois da beno, o sr. vigario geral pronunciou uma allocuo toda
faustosa e erudita, em que se comparava a vida a uma nau vogando no
mar procelloso das paixes, entre escolhos de vicios e malquerenas; e
alli sua rev.ma descompz mais uma vez os seus adversarios politicos,
attribuindo-lhes a ultima estiagem e a decadencia dos costumes;
e com philaucia denunciou que os maridos no tratando seno
d'eleies abandonam as esposas  phantasia das suas pobres cabecitas,
do que se aproveitava o demonio para ir centuplicando os adulterios.
Isto levou tamanho donto a philosophar sobre a familia, e desfilaram
as qualidades dos Zarcos, o seu amor ao progresso e  liberdade, e do
que os povos de roda lhes deviam, pois ainda no inverno passado, os
fidalgos tinham dado crte gratuito nas herdades perto, afim da pobre
gente ter lume nas asperas noitadas.

Saltou d'aqui naturalmente nas inimizades que por tantos annos tinham
separado as duas familias (inimizade no, emendou logo com um meneio
unctuoso; diremos antes melindre, susceptibilidade ferida, pequena
divergencia de familia--era de mui bonitos termos s. rev.ma! Inda
que...) Mas, proseguia o orador, o distrito todo exultava de vr
unidas de novo as duas casas, todos davam graas.--E batendo no
pulpito, com gestos de quem chama a si o melhor da christandade, uma
imponencia no caro, fechou trecho com um latinorio dos santos padres,
faustoso e seraphico, que por sinal mereceu uma palavra irreverente ao
lavrador dos Panascos.

Quando a cerimonia acabou, foguetaria e vivorio estrondeavam
por essa aldeia toda, repercutindo os entnos e ritornellos de fraga
em fraga--enternecia a tarde nos campos com a descida do sol, uma
poeira de oiro tamisava os fundos, aqui, alm, immovel sobre o ar, e
dando  paisagem velhos tons de pintura fanada. E o cortejo sahiu da
igreja como viera, mas bem numeroso e mais rico, pois lhe estava
adiccionada toda a Oriola, ganhes, creados, convivas, amigos, as duas
velhas aias, e coisa pasmosa! a propria senhora viuva.--Anda, sempre
te abaixaste, bem feito! dizia-se _ da_ Fevronia, na passagem do
cortejo. O coronel dera o brao  viuva que descera meio vu; o
generalito, gazil como um rato sabio, levava a morgada das Palmas,
muito birrenta de lhe terem descosido a cauda verde nabia; e Dora
pelo brao de Carlinhos, vermelha, comovida, grandes olhos de saphira
humida, radiava a frenetica belleza d'uma virgem que se abala e
palpita, ao primeiro contacto d'um homem.

O cortejo  que no ia directamente ao porto d'entrada da Torre, mas
enfiou pelo enorme pateo de lavoira ao lado, a pretexto de vr a
_funco_ que se preparava aos servos e trabalhadores. N'um
banquete monstro, S. Mathias e a Oriola congraavam, comendo ao lado
uma da outra, na melhor harmonia e folgana; e s no intuito de sagrar
esta confraternagem, a viuva accedera vir a casa de seu cunhado, sem
quebrar as juras que fizera, pois no passaria o terreno neutro do
pateo. Desconforme como um dominio, era esse pateo de muralhas rudes e
portadas soberbas, onde os vares de bronze raiavam, e pendiam das
portas formidandas, como coraes de molochs, os grandes cadeados de
ferro. Descia-se das cozinhas por um balco de pedra com escadarias
lateraes e mutiladas estatuas, em cujos velhos pilares se vinha
tanchar a dentua dos corrimes estruidos. Diante do balco, ia ao fim
do pateo uma alameda de castanheiros gigantescos, murmuros sob a
verdura das suas folhas acres, d'onde um frescor gottejava no esmaiar
da tarde. Um grande porto aberto ao fundo dava sobre os laranjaes da
horta, sombrios quella hora n'um verde metallico condensado, redondos
at ao cho relvoso pelas imbibies da rega, humidos, picados de
fructa, e filtrados d'uma aura toda enervante em nupciaes essencias.
N'essa alameda de castanheiros amigos, tantas vezes percorrido
do pae e da filha, onde pela manh palafreneiros passeavam 
redea os cavallos de sella, ou vinham limpar o pequeno coup de
servio, onde tinham logar as tosquias, as ferras e as matanas nas
epocas da praxe; n'essa alameda tinham construido uma mesa sem fim
para quem chegasse, homem, mulher ou creana, fosse d'onde fosse e
viesse de onde viesse. Aos lados alargava-se o pateo at s
abegoarias, cavallarias e estabulos. E um tom de boda reinava por
toda a parte; nas carretas de trabalho postas em bateria, mais os seus
tropheus de forquilhas, ensinhos e ps, radiando das joeiras, arneiros
e mulins, como panoplias em sala d'armas; nas paredes cobertas de
murta e gilbarbeira, onde as coras d'espigas maduras faziam rodopiar
serpentes de oiro pallido; nas largas manjadouras que as bestas
esfocinham rilhando os fenos perfumosos; em arcos de flres de arvore
em arvore, risos e saudaes levadas a um delirio realmente
captivante. Em quatro dias tinha-se abatido um rebanho de carneiros e
bodes, o arroz viera n'uma quantidade de carretas, no sei quantos
moios de lobeiro em farinha para a amassadura, o poder do mundo em
couves, para mais de vinte pipas de vinho... E a Fevronia
punha as mos do _error_ de moedas que ia custar a frescata ao
fidalgo--mas coitada! era uma pobre, sempre foi atando ao cs das
saias a mais funda taleiga de quadrados, e sumindo-se debaixo do chle
a mais disforme escudella da sua pilheira, para arrepanhar as
sobrasinhas. Ora, deixal-o custar caro! Em compensao, que grande
kermesse em plena tarde, sob a viva e sagrada cupula das arvores, onde
trigueiros e loiros dos dois burgos rivaes, se abraavam cantando e
rindo nos seus luxos domingueiros, cinta escarlate, chapus de borla,
jaleca ao hombro, e a camisa crua de grandes collarinhos molles,
acolchetada pelo n da goela. Com a largueza do terreiro, a malta
farandolava em quantos recreios havia: por aqui atiravam a barra os
valentes arregaados at aos hombros, estriando as musculaturas
bovinas nos rompantes d'uma destreza infrene aos berros de cada vez
que alguem passava a baliza, ou no chegava a ella; por alm
bailava-se de roda das arvores, deitando as vagarosas cantigas do
trabalho rustico; em tal sitio havia saltos, n'outro luctas,
_desgarradas_ n'outro; e tudo isto n'um borborinho infernal que
ensurdecia a gente. Vinham chegando as raparigas de claros
cabellos lisos nas fontes, com flres no remoinho das tranas. E a
Oriola abrasava de as vr to brancas, boas carnaes flamengas, saude
affianada, perna dura, seio fecundo, dentes finos, e essa maravilhosa
doura d'olhos violeta, to peculiar como era sabido, aos bastardos do
amo Zarco da Torre. Ellas iam apparecendo a pequenos ranchos,
envergonhadas dos _de fra_, lenos em cruz sobre os seios inviolados,
de mos dadas e braos bamboleantes, como os recrutas em passeio.

Os negros da Oriola diziam-lhes ento gracinhas, botavam-lhe rima na
passagem; e era vel-as a rir escondendo os olhos c'os braos, abalando
cr de rom umas atraz das outras, para dizerem de longe aos
mariolas--que no se fizessem destemidos nem confiados, e fossem l
ter chalaas com as pretas da sua terra, perceberam? Mas a outra
poro da Oriola por seu lado, gente madura e reflectida, ainda
desconfiada da senhoril hospedagem na Torre, sempre tinha querido
inspeccionar, vr com os seus olhos, apalpar com os seus dedos, todo o
maravilhoso arsenal agricola, instrumentos, machinas, animaes, bombas,
poos, bebedoiros e hortejos--e por essa aldeia que viera,
subia um respeito de gente cavadora e mandada, que mal disposta para o
da Torre, agora se dobrava, reconhecendo n'elle o genio de um lavrador
modelo. Ah! o que se chama grandeza, ordem, elegancia e preciso! Que
gados, que acommodaes, as cathedralescas mdas d'azinho, pombaes,
palheiros, ferramentas de trabalho!

Colossal tudo aquillo--e os tostados da Oriola baixavam os seus olhos
arabes e premiam os seus beios de negros, ante a victoriosa grandeza
dos loiros de S. Mathias. Quem havia de esperar, compadre, uma coisa
assim?--N'isto, um velhote grosso e vagaroso, que do balco andava
mirando tudo, apenas o cortejo apontou para o lado das abegoarias,
poz-se a repicar do alto uma sineta: era o jantar. E duas
philarmonicas romperam latindo musicatas gentias, emquanto as palmas,
os gritos, os vivas e os saltos, centuplicavam de toda a banda.

E a viuva deixava-se ir entre as aldeias congraadas, que no abandono
animal da vida rustica, riam alto com dentes famintos, e na passagem
dos amos, tirando os gorros, acenando de longe com os chapus, erguiam
meio corpo da mesa, para lhes dar bas tardes familiares.
Alguns mais rates da Oriola--e sempre a Oriola teve fama de moos
reinadios--botando cantiga s raparigas, que chegadas tarde ficavam
sem logar nas mesas, offereciam-lhes por cadeira os joelhos e por
encosto o corao. Ellas riam largo, j menos esquivas; muitas,
sollicitadas, davam-se por noivas d'aquelle e mais d'este; e  ordem
do homensinho da sineta, chegava a creadagem com o arroz dos fornos,
aloirado entre ramos de salsa, empilhando-se em alguidares
desconformes, d'onde rompiam fumando, tenras, succulentas, as pernas
dos pers e dos patos. Ento foi uma loucura de vivas, saltos, gritos
e cantares. Passava o vinho em picheis de barro, as saudes choviam nos
estimulos da sede, o tenir dos pratos era inquietador. Nunca Carlinhos
fra mais querido que n'essa tarde placida de noivado, onde tudo ria 
sua mocidade leviana; a Dora que elle levava pelo brao e readquiria
vivezas de pomba; os paves, que sob os telhados das abegoarias,
inquietos, gritando d'entorno s femeas, abriam enormes leques
mosqueados d'ouro verde; nuvens de pombos que o ruido assombrava
forando-os a revoar de cimalha em cimalha; e ao largo a paisagem
caindo n'uma paz luminosa, muito irisada em tintas subtis.

Ella foi-se isolando, isolando do ruido, at ao porto que dava para a
horta; parecia conhecer aquelles logares, distrahida, como quem
resuscita apagadas memorias. Olhava o muro de buxo talhado em frmas
architecturaes, circumscrevendo o jardim pela esquerda, at se perder
n'uma folhagem aspera d'alfarrobeiras. Para aquelles lados n'outro
tempo havia um murmurio de fonte: tinha sido uma noite sem estrellas,
o brao de Zarco sustinha-a pela cintura e levava-a, de modo que os
seus ps nem tocavam o cho. E assustada, ficra a ouvir aquele choro
timido d'agua corrente: espera! ouo passos...-- o vento, dissra
elle, e os seus beijos endoideciam-n'a. L estava ella ainda a
gottejar na pequena concha musguenta, que um grupo de ephebos
sustinha, cavalgando golfinhos. Fra em maio, a flr dos favaes enchia
os campos d'essencias, o marido caava o javali por Hespanha--n'essa
noite _elle_ tinha querido roubal-a, conduzil-a aos seus
dominios--ella resistira, no! no!... mas o perfume da sua barba to
loira envolvia-a n'uma fascinao terrivel, e a bocca pequenina,
sincera, humida, talhada a buril, ao mesmo tempo imperiosa e
feminina, tinha-se collado por ella toda: quem poderia recusar cousa
alguma? Ouvia ainda o breack rolando pelas asperides da estrada, os
cavallos que voavam, elle a guiar; e ao curvar-se para puxar as redeas
ou chicotear os hanoverianos, o claro das lanternas illuminava-o de
perfil... Oh, as venturas absorventes que se resumem n'um momento de
peccado! Dir-se-hia o perfil antigo d'um Deus hellenico, branco,
herculeo, alado em juventudes divinas.

--Vaes ter frio, minha filha.

--Frio, eu, ao p de ti!...

E do capuz negro do _bournous_ que ella levava, forrado de pelles
setinosas, os seus olhos ficavam absorvidos n'elle muito tempo, muito,
muito. A noite fazia as arvores terriveis, interminaveis os campos; e
apagando a perspectiva, approximava mais as montanhas, e punha
traies na goela dos precipicios... Vinham-lhe a cada passo
pequeninos medos, as pupilas verdes do remorso que a penetravam de
falhas calcinantes--l est um vulto alm, n'aquelle canto da
estrada... Os troncos corriam atraz d'elles com pernas de gigantes,
ennovelando-se, augmentando em numero  medida que o breack
fugia.

--Jesus! dizia ella n'um terror, so talvez espies de meu marido.

Depois na ponte, um passaro tinha dado um grito, secretos escarneos
foram ciciando pelos labios das folhas; de longe em longe, uivavam as
raposas com fome. A cabecinha d'ella descahia no brao do cunhado,
fazendo uma caricia penetrante. Era espirituosamente tocada, correcta,
d'um modelo audacioso em que havia primores. E como ambos eram pouco
lidos, incapazes de fazer um amor litterario, dialogado por imagens,
cheio de contrascenas, permutavam as suas emoes tocando os corpos,
n'uma descarga de volupias balsamicas. O que ella lhe admirava era a
seriedade do aspecto, a forte enformatura dos encontros, uma fora de
gigante cingida em delicadezas de creancinha. Esse rapaz sem
violencias, envergonhado de ser tamanho, uns receios de a molestar a
cada beijo, silencioso, tranquillo, com melancholias brumosas do
norte, subjugava pelo contraste, os impetos e os orgulhos da natureza
d'ella, toda impaciencias, _coquetteries_ e ardores.

 chegada eram deshoras, cantavam os primeiros gallos em S.
Mathias--ella nunca tinha por alli passado.

--Gente na estrada, estamos perdidos!

Manuel tinha atirado os cavallos por um olival a dentro, apagra as
lanternas, e o _break_ em solavancos l ia arrastado pelos terrenos
declivosos. Pararam. Um rumor de carros vinha da aldeia, guisos de
mulas, a voz de um homem cantando... Elles,  escuta, ouviam bater os
coraes, com medo de alguem os ter pescado. Agarrada ao pescoo de
Zarco, ella batia os dentes, tresvairada n'uma paixo.

--Viram-nos, Jesus.

--No, escuta, redarguia elle sopeando os cavallos. Em roda, iam e
vinham as sombras, no pavor das coisas sonhadas a arder em febre. Ella
exaltara-se: adoro-te.

--Mas, por Deus, no grites! dizia elle.--Davam beijos de lava, o
amplexo accendia-os, nenhum luctava, foram-se possuindo...

E agora velhos, inuteis na felicidade dos filhos, tendo-lhes dado
tudo, sem amor, nem coragem, cheios de cabellos brancos, odiavam-se
por desgraa!--Era ao fim do laranjal, o muro de buxo apparecia de
novo, nespereiras em flr abriam parasol por cima d'um portello
baixo--toda a aventura se lhe reconstruia na ida, nitida, chammejando
horriveis saudades. Sim! os carros de matto abalando  meia noite de
S. Mathias, a voz do homem cantando, esse fluctuante mysterio da
noite,  verdade, um sapatinho de velludo que perdera ao entrar, por
aquelle portello, ao collo d'elle... Oh, a medonha angustia de se no
ter outra vez dezeseis annos! Para alm, olival, terrenos declivosos:
o _break_ parra ao p d'aquella grande oliveira.

--No sentes pena de deshonrar teu irmo?

--Mas cala-te, dizia Manuel num tom de queixa, emquanto a levava nos
braos docemente, como uma creana adormecida. Ella, supersticiosa,
fallra-lhe do grito que dra o passaro noctambulo, quando o _break_
entrou na ponte. Talvez prenuncio de desgraa!--Ao que elle respondia:
doida! Reparou nas roseiras que por alli floriam agora, como n'um
cemiterio consagrado pela saudade de muitos amores fenecidos. Fra
alli, junto ao murosinho de buxo, que a respirao d'elle tinha
sifflado n'uma furia de titan semilouco, e o sapato cara... Quantas
vezes depois o amaldiora, sentindo impreteriveis desejos d'ir contar
tudo ao marido, ao mesmo tempo que um suor frio a aljofrava,
s de pensar que Fernando podia vir a ter noticia do adulterio. Sim,
odio, era odio que lhe tinha n'este momento! Mas como seria bom
desabrochar n'outra juventude, radiar a seduco d'uma nova belleza,
ter ainda pudores de vestal, frescuras d'epiderme carminea,
virgindades de noiva, para ir direita quelle infame, atirar-lhe os
braos ao pescoo, e dizer-lhe: adoro-te, macula-me outra vez!

Outras recordaes ento, lugubres, implacaveis, acastellavam na sua
mente, espectros de remorsos longinquos e gumes de suspeitas mal
esboadas. Lembrava-lhe Fernando trazendo Carlinhos pela mo, depois
da morte de Laura, a dizer-lhe com palavras de chumbo, espaadas
intencionalmente--este  meu, ficar n'esta casa! E como a olhra
dizendo isto, apenas ella n'um movimento de repulsa, erguera a cabea
para dizer que no. O terror d'esses annos conjugaes tinha sido bem
cruel. Era o marido fital-a--tremia toda como um vime. Quando elle se
exaltava, ou se bebia, ou em os negocios correndo mal, a cada momento
ella receiava, que arrastando-a pelos cabellos, o marido lhe gritasse:
prostituta! Crescera nos povos a sua reputao de santidade; as
esmolas que fazia nem tinham conta, ia de noite vr os doentes, matar
a fome s cabanas sem chefe, e o seu nome incubava-o uma lenda de
poeticas virtudes e castidade suavissima. Se viessem a saber, que
vergonha! E ante o marido, o seu orgulho vergra, e fizera-se neutra a
sua violenta personalidade. Nos ultimos annos, Fernando Zarco tinha
cado n'um marasmo desopilante, no saa, no recebia, no fallava. s
vezes, ia ella levar-lhe de comer com o riso nos labios, uma palavra
carinhosa para lhe inspirar conforto; e estendendo o brao para
agarrar no talher, lentamente, como tendo alguma coisa grave a indagar,
elle ficava a miral-a com o ardor dos seus olhos encovados; depois ia
baixando a cabea n'uma confuso, vagarosa, funebremente--sim! sim!--e
viam-se-lhe as narinas arfando nos haustos d'uma raiva subterranea.

Chegou  porta que rasgava no muro, por sob a cupula das nespereiras;
correu-lhe o ferrlho depressa, empurrou-a com o p, cheia de
curiosidade de penetrar no olival, at  velha oliveira onde n'aquella
noite, o carro tinha parado. Mas recuou com um gritinho de susto. O
cunhado nas almofadas do _break_,  sombra da arvore, aguardava por
ella como n'outro tempo.

       *       *       *       *       *

Manuel Zarco no quiz prolongar  viuva, a viso theatral que se
impozera, e desceu do carro para vir ter com ella. Em vez de veredas e
barrancos tortuosos, uma larga estrada cortava agora o olival, entre
eucalyptos colossaes, que sacudiam  briza molhos de folhas em
cutello. Ella nem podia fallar, branca de susto, humilhada de
vergonha, e sentindo o corao grosso de lagrimas. A voz de Zarco era
triste, porque tambem elle no tinha sido feliz.

--Como no quer demorar-se, disse elle, mandei os carros aqui. Partir
quando quizer, as creadas nao tardam. A carruagem em que veio fil-a
reservar aos noivos, por ser ampla. Pde ir n'este _break_,  velho
mas de boas molas, tenho-o ha vinte e quatro annos...

--Antigamente, tornou ella junto ao portello, vencendo um grande
embarao, no havia roseiras aqui.

--No, disse elle galante, nasceram por onde o teu vestido roou.--A
sua voz tremia.

--Chut! casaram hoje os nossos filhos.

--Mentes. Carlinhos vem d'uma cigana velha, a quem hoje dei
o que ella quiz levar. Teem-m'o dito muita vez!  negra, traz uma
filha, ouo que vivem de roubar por essas feiras.

-- verdade, murmurou ella suspirando; filhos s os tive de
ti.--Chorava a sua mocidade agitada, as terriveis dres que soffrra,
os orgulhos feridos de mulher.

--Ouve, disse-lhe ento elle com supplica, no me tenhas odio, no
tenhas. Dora  tuna creana, ama-a um pouco, assim como amarias a que
nos morreu. Ellas parecem-se. Sobretudo, no lhe digas mal de mim.

--Ah, bem vejo que amavas tua mulher...

--E tu que amastes meu irmo?

--Mas  falso.

--De que serviria acreditar agora n'isso? Estavamos doidos quando nos
ammos.

--Sim, doidos d'amor. Ai como a gente envelhece depressa!

--Razo para ficarmos amigos, j que tudo morreu. Fernando nunca veio
a saber...

--Prouvera a Deus que assim fosse! Cala-te d'ahi! disse ella
bruscamente. Na hora da morte ia beijal-o, repelliu-me; morreu,
dizendo a horrivel palavra. E por tua causa! No poders dizer nunca
que te provoquei. Quando vinhas, fugi-te muitas vezes. Tudo
me abandonava ento!...

--Esqueamos: a vida dos nossos rapazes, exige. V, perda. Elles
vivero seis mezes comigo, seis mezes comtigo. De mais, ficmos
pobres. Os pobres no devem ter ruins paixes.--Ella cortava rosas, no
rosal que extravasava de roda. As velhas aias tinham chegado entanto a
pequeninos passos, arregaando muito as suas sedas festivas; em carros
de toldo, jumentos e mulas, a creadagem repleta, cantando, chalaando,
deixava S. Mathias caminho da aldeia. A viuva relanceou ainda os olhos
por aquelles sitios, lentamente, como a impregnar a memoria d'aquella
idyllica paisagem.

E para que ouvissem todos, fallando alto, pediu desculpa a Manuel
Zarco de no assistir ao _copo d'agua_, mas sentia-se indisposta,
tinha que receber os noivos... Elle abriu a porta do _break_, esperou
curvado que ella subisse.

--Zarco, disse a viuva aconchegando-se a um lado, emquanto as velhas
subiam e se anichavam tambem. Os nossos filhos que no demorem a
partida, vo ter frio pelo caminho. Principiavam cros de grilos na
espessura amarellenta das hervas, o sol cahia por traz das
arvores;  esquerda, nos vagos fumos da tarde, Beja torrejava.

--Adeus, disse a viuva sem colera, estendendo ao velho as duas mos
descalas. Zarco sem fallar, beijou essas mos inda pequeninas e
brancas.

Os cocheiros tinham vindo; e sob o pingalim, os cavallos arrancaram o
_break_ d'ao p da oliveira, em direitura  estrada.

--Adeus, disse a viuva, apertando ao seio as rosas que colhera no
rosal.--Zarco parado, as mos cahidas, ficra imbecilmente de p, todo
vasio de reaco.

--Eh, esperem, gritou de repente aos cocheiros.

O _break_ tinha outra vez parado. Com os olhos estourando lagrimas,
elle correu  portinhola com um pequeno embrulho para a viuva, que
conforme disse, esquecera na igreja.

--Obrigada, respondeu ella com a voz um pouco tremula.--E o carro
abalou. Junto da ponte, j longe, a estrada fazia um cotovello para a
esquerda, e bruscamente o olival desapparecia. Ento a viuva voltou-se
muito, chorosa, inda viu Zarco immovel no meio da estrada, disse-lhe
adeus com o leno. Depois tudo se foi com as arvores que se
interpunham, a estrada, o muro da horta, os olivaes, a aldeia. Ficou
a desembrulhar o pacote que elle lhe dra.

--Que chinellinha mais rica! disse uma das velhas bispando o que
continha o embrulho. Ere o sapato de velludo bordado a oiro, que ella,
a tal noite...

--Cabea a minha! Quiz trazer sapatos largos para o caminho, e afinal
s vem um, que para mais me no serve.

A outra velha acudiu com admirao:

--Nem eu sei de p, que possa caber n'uma chinellita d'estas.

E a viuva com um rir doloroso:

--Cabiam os meus, no tempo em que eram leves a ponto de atravessarem
jardins sem pousar no cho.

--Ora! isso  o tal conto de fadas, disse a mais pequena das velhas.

-- verdade, um conto de fadas, tornou a viuva. Mas aconteceu!--E os
seus olhos iam na direco do olival.




A PROVINCIA


 meia noite, depois de ter abraado os amigos no Martinho, com uma
ternura de adeuzes que o caracter _blas_ de quasi todos tornra,
valha a verdade, intempestiva, Jorge Miguel tomou vagarosamente o
caminho habitual da sua casa, scismando em que era esse o seu ultimo
fra de horas de Lisboa. Morava ao Monte havia nove annos, no
pincaro do outeiro mesmo, sobranceiro  cidade, ao p da ermida--n'uma
casinhola de pobres cujo primeiro andar o novo senhorio repartira
entre elle e um empregadorio velho do Museu.

Alli, com os seus livros, sem creado, varrendo a casa elle mesmo, com
pares de calas por cima de todas as cadeiras e cartapacios n'um
tumulto de rumas pelo cho, Jorge Miguel fazia uma vida concentrada de
alchimista, silenciosa, de porta fechada s visitas e cerebralidade
muda s expanses.

A cidade, que o conhecia n'um fumo de lenda um pouco feita atravs das
suas _blagues_, afizera-se a lhe consentir em publico um eu  parte,
explicando por maluquice a concentrao solitaria dos seus giros, e
mesmo por bebedeira as apoplexias de humor que a certas horas
convertiam a sua apathia triste em improvisao epileptica,
archi-estouvada.

quella hora a cidade apaziguava os seus tumultos, cahia do gaz um
langoroso bruxuleio; os transeuntes, menos; e todo aquelle socego
entrava na solido mental do pobre moo, escruciando-lhe a vida de um
nunca mais  vida de solteiro. Porque Jorge Miguel, farto de viver
ssinho, ia casar.

A historia d'esse amor era uma d'estas cousas occasionaes, despertadas
na vida entre duas cogitaes mais amargosas, arrastadas longos annos
entre preguias de affecto e desfallencias de vontade, relegadas
successivamente para os longes do futuro, e que um dia afinal se
impem como a soluo pelo absurdo de um problema economico impossivel
de resolver de outra maneira. A vida litteraria, unica paixo
absorvente que se lhe tinha conhecido, chegada ao cume,
collocra-o na alternativa de, ou ter de rebentar de martyrio n'um
meio hostil a toda a ideia de arte independente, ou de pr ponto
brusco n'uma produco que mesmo apesar de fulgurante e vigorosa s
conseguia produzir no publico uma surda irritao minaz contra o
escriptor. Entre a miseria odiada e a espectativa de uma madorna
plethorica n'um canto de provincia, Jorge Miguel acabra alfim por se
vencer; e d'esta vez, arrazado, dera no orgulho o golpe mestre,
fazendo as malas para esse desterro onde a bestificao do matrimonio
lhe aaimaria os ultimos piaffes de archanjo revoltado.

Quando chegou a casa estavam quatro malas fechadas na ante-camara, um
_couvre-pieds_ acorreado com guarda-chuvas e bengalas, dois moveis
envoltos em lona que os gallegos no tinham podido levar na ultima
padiola, para a gare--e os aposentos sem trastes, o relogio parado no
muro, o vento ronronando nas arvores do adro, tudo aquillo lhe pareceu
como o responso da sua mocidade j fria e decomposta. A um canto da
pequenina sala de trabalho, um monte de papeis, tombo da sua bohemia,
aguardava o auto-de-f liquidador. Jorge Miguel despiu o
casaco, trouxe um alguidar da cozinha, e chegando para o p da
papelada uma das malas, comeou  luz da vella o inventario d'esse
archivo de quinze annos rebolados por todas as maluqueiras da vida
sensacional e litteraria. Eram primeiro bilhetes de visita e bilhetes
postaes agradecendo livros, pedindo entrevistas, artigos, palavras de
favor--menus de jantar, convites de exposies e de concertos, ramitos
sccos, retratos insepultos, carteis com monogrammas, dizendo, em
lingua inverosimil, adoraes litterarias com resaibos a estranhos
sentimentos--e Jorge Miguel passeiava os olhos devagar n'aquellas
coisas, evocava um momento as epochas e as respostas, e
phreneticamente, para asphyxiar a saudade, chegava os papeis  vella,
e ia-os atirando incendiados para a concavidade do alguidar. Cartas de
Paris, cartas de Roma, da America, de Coimbra, todos os cantos do
mundo e da provincia, homenagens fervorosas, anonymias de odios
truculentos, discipulados timidos, identificaes a distancia n'um
ideal sonhado, em pontos antipodaes de educao e temperamento,
consultas de mysteriosas litterarias, de celibatarias impacientes
pedindo conselho para casos de psychologia individual cheios
de acirrante... e desatavam-se os maos das fitas j ardidas da poeira
das gavetas, as velhas folhas rolavam, talhes de lettra e prosa
succediam-se, e sempre a impassivel vella, com a alma da luz azul,
muito direita, consumia implacavelmente essas chimericas memorias onde
tantos coraes tinham batido d'elle ao mesmo tempo. Quando o pobre
alguidar foi cheio de restos, e da mocidade de Jorge Miguel nada
restava a mais do que algumas lagrimas a ferver-lhe na pelle do rosto,
uma vacuidade estranha entrou-lhe n'alma, sendo ento que o relogio
parado e o silencio da casa pareceram marcar um fim de mundo.

Abriu a janella um pouco sobre a noite, e com o alguidar ainda quente
despejou  rua a sarabanda das cinzas aggregadas ainda em folhas
inteirias, que o vento espiralou no ar em borboletas tenebrosas; e as
que tinham vindo de longe, tomaram por caminhos rapidos, ao largo; e
algumas hesitavam, sem se lembrarem j da morada de seus donos;
entraram-lhe pela janella outras, eram as orphs, como a pedir ao
escriptor que as adoptasse; e algumas finalmente, como suicidas
inertes, baquearam no cho pulverisadas, e o vento d'alba as
varreu pouco a pouco aos quatro cantos do destino.

       *       *       *       *       *

Accendeu um cigarro, o somno fra-se, e como aquellas cinzas
fatidicas, a atteno pulverisava-se-lhe, incapaz de reflectir sobre o
problema terrivel que era esse internato de vagabundo illustre na
aldeia, em agricultor, ao lado de uma mulher com quem mal entretivera
fallarios triviaes alguma vez.

Estavam a dar quatro horas da manh, e silenciosas nevoas vindas do
mar cobriam lentamente o co de pallidos vapores, toldando a lua
poente, e alongando-se para o interior da terra em farrapanas
obliquas, que incineravam phantasticamente os bairros afastados.
quella hora Lisboa offerecia, das alturas do Monte, quasi sem luzes,
uma desolao madornal de cemiterio, planificada na bruma, rebatida
toda em lavouras de sulcos que eram bairros dobrados sobre si.

As cinzas dos papeis, minutos antes queimados, de certo quella hora
se estariam espalhando pelo inextricavel de todos aquelles bairros
inquietantes, procurando, n'uma afflico, os signatarios das cartas e
bilhetes n'elles escriptos para lhes fazerem queixa da desero de
Jorge Miguel. Eil-as no ar, tiritando, as pobres borboletas, a
orientarem-se no dedalo das casas pelos milhes de fios do telegrapho,
receiosas de que o vento as pulverise antes de chegarem, com palavras
legiveis ainda, ao seu destino. Eil-as a adejar de angustia nas
vidraas, entrando nas casas pelo respiradouro das chamins, indo s
alcovas, pousando nos travesseiros, indo aos cemiterios, pousando nos
jazigos, e n'uns e n'outros interrompendo os somnos e as doces mortes.

--No sabem? Jorge Miguel aposthasia de cavalleiro templario do
paradoxo, de arcebispo da leria, de arcabuzeiro da rotina a balas de
loucura...

E o alarme acordado apenas na mgoa d'elle, affigurava-se-lhe
entenebrecer de luto a terra inteira, parecendo-lhe que de cada
bairro, cada caf, cada cartaz, cada esquina de rua, cada casa, mentes
dispersas, adoraes indefinidas, affectividades anonymas nascidas do
deslumbramento da sua arte estravagante, se erguiam da cama no estado
inconsciente de phantasmas, tomavam pelo caminho dos papeis queimados
vindo de roda, pelo ar, a lhe fazer um cro de imploraes.
Lentamente, como amanhecia, por todo aquelle vasto mappa
encinzeirado, luzes de gaz vinham-se apagando em linhas divergentes,
como se esse extinguir gradual de estrellinhas somnambulas fosse a sua
gloria de escriptor morrendo nos esquecimentos da aldeia, quando outro
espirito subisse, mais vivamente moderno, a allumiar a ingratido das
geraes.

Encostou-se um bocado, mas no podia dormir, os rumores matinaes
sobresaltavam-n'o; dir-se-hia que toda a cidade se levantra mais cedo
para trepar  montanha e lhe invadir a casa de vozidos. Entrementes, o
dia clareava, e quando foram horas de partir, Jorge Miguel, chegando
pela ultima vez  varanda, casualmente viu no parapeito um bocado de
papel carbonisado, onde subsistiam legiveis duas rapidas linhas de
escriptura. Leu o seguinte: de resto, meu caro, para ser celebre 
necessario viver longe, e no ter tido nunca amigos intimos.

Foi sob esta impresso martyrisante que elle deixou de vez a capital.

       *       *       *       *       *

O rebentar na provincia foi terrivel; receberam-n'o  chegada da
diligencia com uma musica de pretos, que era a estreia da
phylarmonica: quatro carpinteiros a trombonear canudos de
lato, um barrigudo a zurzir os pratos como fulo, e o do zabumba,
macanjo, dando co'a maaneta nos garotos. Como os musicos no
soubessem seno a marcha da Ione, ensaiada  pressa para as procisses
da Semana Santa, com esse batuque funebre seguiram, em passo de
enterro, pela rua da grande villa, no meio dos raios te partam do
cocheiro que despregava as pilecas na subida, e de um certo riso de um
padre, de lhe fazer calafrios pela medulla.

Em breves dias fez-se o casamento, para o qual Jorge Miguel, foi sem
curiosidade, decidido a resolver o problema do seu destino por um
criterio de vontade estoica contra o qual piaffavam todas as suas
selvajarias de indomavel vagabundo. Sua mulher no lhe inspirou a
principio mais que uma especie de pretenciosa piedade: franzininha, um
pouco loura, com as orelhas pequenas, a bocca pura na esquadria de um
queixo quasi viril de voluntaria, e toda a graa de viver na
infantilidade dos olhos melancolicos. No era pela belleza de certo
que essa imponderavel bonequinha viria a exercer no espirito do esposo
qualquer cousa similhante  seduco.

Seno quando, attenuadas um pouco pelo aconchego de uma
casita provincial as saudades litterarias de Lisboa, subitamente, uma
manh, Jorge Miguel comeou a sentir orgulhos vagos de vr labutar por
elle a companheira.

Reparou que os seus cabellos eram finos, a testa pensativa, e que as
suas breves palavras resabiam a qualquer coisa de penetrante, como se
derivassem de uma vontade sria de enfermeira. Os seus vestidos
escuros, mal roando nos moveis, como levados n'um vo de borboleta,
as suas lentas mos guiadas  descoberta de fazerem o lar confortavel
sem parecerem tocar nos objectos, uma percepo sagaz de concentrarem
cuidados no gabinete dos livros, na ordem dos papeis, na tamisao da
luz, nas flres da secretria, tudo isto que dir-se-hia casual, por
vezes como que se lhe affigurava nascido de uma ardilosa malicia de o
prenderem pelo reconhecimento a essa vida a dous que em principio
tamanhos sustos lhe trouxera. Esta fascinao que derivra primeiro do
egoismo envaidecido de sentir em trno a vida sem attrictos, com as
comidas a horas e bem feitas, a casinha tpida, macios os _fauteuils_,
a atmosphera perfumada e a plethora de bem-estar constante
de riqueza, defendida s linguarices dos estranhos, pouco a pouco
comeou a lhe subir do estomago  intelligencia, e a figurita d'ella,
severa, apagando-se na meia luz de um recato freiratico, pallida e
diaphana como uma sombra do paraizo, passava s horas calmas de estudo
pela cabea d'elle com uma ponta de desejo que lhe tornaria a nupcia
fecunda, se no fra a fatalidade dos homens de genio no poderem
propagar-se sem degeneraes na descendencia. Comeou a presentir
ento a companheira por toda a parte, nas suas ideias e nas suas
leituras, no leito, a seu lado, com os olhos fechados e acordada a
espreitar se elle dormia, nos seus passeios longinquos pelo campo, nos
bicos da sua penna, nos calculos dos seus negocios, a um tempo causa e
fim, phantasia e realidade, e com tal poder de avassallao e
absorpo que o pobre bohemio acabou um dia por confessar a si proprio
essa incondicional escravatura, deliciado, abjurando as antigas
brutalidades de publicista solitario, a arte mascula da analyse
violentando as psychologias verde-podres do moderno, os excessivos de
lingua, as irreverencias sardonicas da _boutade_,--todas as qualidades
crueis que haviam feito d'elle em solteiro o bacteriologista
maximo das degeneraes sociaes do seu paiz.

Longe de parecer reparar n'este rebaixamento de plano psychico do
esposo, ella como que s pensava em lhe encadear as attenes no
sentido dos antigos trabalhos litterarios, afastando-o das
convivencias massadoras da aldeia, pondo ao alcance da sua mo livros
de estudo, interessando-se pelo seu passado jornalistico sem ciumes e
at repassando ella mesma, atravs dos seus conselhos, os assumptos
que mais pudessem oriental-o na directriz do seu antigo frondismo de
escriptor. Em alguns mezes o predominio foi tal que o espirito d'ella
transfilhra-se inteiramente ao corpo d'elle.

       *       *       *       *       *

Uma noite de novembro, j depois das colheitas da uva e da azeitona,
aconteceu que examinando os dous detidamente as contas da lavoura,
ella de repente observasse que era tempo de sahirem da modestia
financeira em que viviam.

Como a situao de fortuna do casal nunca fora nem melhor nem peior do
que ora estava, aquillo surprehendeu Jorge Miguel, como se
nas palavras da esposa houvesse reprimenda  sua inercia.

Ella, sem se perturbar, tomou ao acaso um papel da secretria, agarrou
n'uma penna, e ao cabo de alguns pequenos calculos feitos n'uma
calligraphia tortuosa, comeou a dizer, com a sua voz de pauzas doces,
que as vinhas estavam velhas, o phylloxera  porta, os terrenos
estanques da produo sem adubo, o vinho sem mercado, da qualidade
horrivel do fabrico; e quanto s terras de cereal, parte no dava, por
desleixo do preparo, o que devia, e a outra parte em pousio, coberta
de abrolhos e de estevas, apenas nos comeos do outomno era pascigo
para as cabras dos pastores furtivos da visinhana. O remedio era uma
remodelao completa do regimen agricola, em quatro annos: nas terras
de pousio lanar plantaes americanas, reengorgitar os almargios da
ceara com os elementos chimicos necessarios  cultura intensiva,
ampliar a extenso aravel das terras, plantar arvoredo, regenerando ao
mesmo tempo a industria da vinha, cujo grosseiro preparo estava ainda
na fermentao do mosto em barros pesgados, e seu esforo alcoolico
com aguardentes de balsa ao esturro e  porcaria do alambique.

Demandava a nova empreza capitaes de alguma frma custosos
para a relativa modestia dos seus teres; mas poderiam comear aos
poucochinhos, e para isso as economias de tres annos de vida
provincial talvez bastassem, e a actividade e a vigilancia d'elle
fariam o resto. Ficou decidido que encetariam os trabalhos logo esse
anno, e que os habitos indolentes de Jorge Miguel cessariam, por a
vida de lavrador exigir assiduidades constantes na faina, e uma
vigilancia quanto possivel methodica e regulada.

--Resta vr agora, objectra-lhe a esposa sorrindo, se cumprir
escrupulosamente o que promettes. Esta vida contemplativa estava-te a
inutilisar todos os dias, e chamado  aco no ters tempo de te
aborrecer a pensar futilidades. De mais o caminho  extenso, e estou a
vr que quando te habituares a fazer co'a terra, dinheiro, sers
naturalmente conduzido a tambem aproveitar como bens de fortuna essa
notoriedade de escriptor de que no tens querido tirar seno vaidades
espirituaes, ephemeras e... irritantes.

--Tu no me aconselhas de certo que eu entre a escrever sobre a
politica do districto...

--Em que estaria o mal? No ha assumptos chalros. Um talento
nobre transfigura todas as cousas porque passa. Ouo-te flagelar a
estupidez e a m f dos que aambarcam despoticamente, e para fins
deshonestos, a politica da nossa regio; porque te no decidirs,
pois, a intervir n'ella com os recursos superiores que Deus te deu, e
os teus estudos teem desenvolvido? Maldizer  facil. Quem se no
mostra, esquece, e eis-te chegado  idade de reappareceres homem de
aco.

--Tens-me ento estado a sonhar governador civil ou deputado...

--No pelo desforo platonico de assumires sob essa forma a
authoridade, mas principalmente porque estaria n'isso o comeo de uma
fortuna decisiva.

--Em dinheiro talvez?

--Que a final  tudo n'este mundo. Se Jesus Christo voltasse a fazer
na terra os doze apostolos, precisaria de pelo menos ter doze milhes.
Olha  roda de ti o que se passa. No ha mediocre que te no tenha
suplantado; tu desesperas-te, fingindo desprezal-os, mas no fundo da
tua consciencia o sentimento dominante  o ciume porque esses que tu
declaras cerebralmente inferiores desenvolveram na vida
qualidades de lucta que te faltam.

--Suppes ento que eu no segui o caminho d'elles por impotencia...

--A que chamavas altivez, e afinal no foi mais que cobardia.

--Entristeces-me com esse juizo estreito que me fazes.

--Mas prova-me o contrario. Era to facil! Ha na cidade um jornal sem
redactor; offerecem-t'o e tu no respondes; ora se desenvolvesses n'um
sentido sagaz as tuas qualidades de foliculario, em pouco tempe esse
jornal seria a tua arma envenenada, e verias realisadas todas as tuas
antigas ambies.

--Mas se eu no tenho nenhumas, minha filha!

--Ambies precisas no tens, porque a multido assusta-te, mas
querers tu persuadir-me de que a tua obra critica de solteiro apenas
fosse uma galopada de humorista?  lr os teus pamphletos. Se se trata
de litteratura, achas a obra dos outros m, e tens o cuidado de fixar
um sonho de obra que no  mais do que a tua, idealisada. Se se trata
de costumes, flagellas os vicios de que no gostas, e calas-te ou
defendes aquelles para que tens uma certa vocao. Em politica achas
todos os ministros imbecis, dizes que as nomeaes no visam nunca
individuos de valor, e que os dinheiros do paiz andam a rodo pelos
regabofes dos seus administradores. Dir-me-has o que  tudo isto seno
um processo ingenuo de, desbastando nos outros, ficares sendo primeiro
e unico de p?

--Mas afinal tu s uma creatura incongruente. Essa obra desenvolta de
mocidade nunca te inspirou seno o enfado de uma cousa grosseira, mau
grado os teus disfarces, e tanto fizeste que acabei por me envergonhar
de a ter escripto. Passam seis annos, est mumifeita, esquecida, e s
tu mesma que m'a vens galvanisar agora n'uma phase de empregomania que
eu detesto!

--O caso  simples. Todo o homem que esgrime sem alvo,  caricato ou
doido. Os teus proprios discipulos perguntavam: mas que quer elle?
porque ninguem comprehende que se gaste energia sem proveito. Dez
annos d'essa campanha asperrima, n'uma agua-furtada, sem roupa nem
confortos, coberto de calumnias e de dividas, desprezado, odiado, o
que te deram? A gloria de seres conhecido entre os estudantes como um
canalha sarcastico, e quarenta adeptos que apenas servidos
desertaram de ti como da peste.

A logica d'estas combinaes chocava fundo os quarenta annos j frios
do antigo pamphletario, que hesitava, no entanto obsecado da tradio
dos genios famintos. Embuido das doutrinas utilitarias da esposa, via
effectivamente o dinheiro como uma causa geral de toda a culminencia,
e as suas antigas ambies gososas de grande homem despertando da
indefinida madorna em que o estagnra a vida provincial. Via-se
reapparecer de novo em plena vida, com outros ideaes mais largos e
mais firmes, senhor da sua razo e da sua fora, j sem os platonismos
de artista e as nebulosas philosophias de pamphletario demolidor
joeirado das antigas relaes compromettedoras de caf, homem de
aco, batido no desprezo, monosyllabico, hypocrita, insolente,
fazendo a sua entrada sem ruido, sondando os typos, avaliando a frio
os consagrados, e n'uma reviravolta leonina, de repente, apoderando-se
dos cimos, e fazendo-se sagrar chefe de _clan_. Tudo estaria em fazer
do seu talento o molosso incorruptivel de uma ideia fixa. Essa
marmorisao de vontade, porm, onde formal-a, com o seu caracter
feminino e dominavel, acobardando-se diante dos obstaculos,
e que a primeira mo resoluta guiaria a sabor dos seus caprichos?
Ento, lanando a vista de roda, apercebeu como sempre os olhos claros
da mulher, interrogando-o com uma tristeza escarninha sobre a sua
falta de coragem. A pretexto de inspeco s esclas primarias, o
governador civil percorria n'esse momento o districto, a sondar o
espirito das terras sobre o exito das proximas eleies. Era um antigo
companheiro de Jorge Miguel, sucio pomposo, que comera por
gazetilhas obscenas no _Pimpo_, subindo d'ahi a amanuense da Junta, e
redactor politico da _Nova_, jornal do presidente do conselho, que o
despachou depois aos bejenses com subscriptos de funccionario de
confiana.

Jorge Miguel inspirra-lhe sempre mesmo nos dias de convivencia
litterria no Martinho, uma especie de rancor desconfiado, com orlas
de desprezo, e pde-se imaginar a surpreza do conselheiro, quando,
avistados na aldeia os dois bohemios, Jorge Miguel lhe communicou as
suas tenes de comprar o jornal e entrar de vez na politica
militante. Sentindo-se de cima o governador civil prometteu com uma
sublime benevolencia, apoiar-lhe as pretenses, combinando-se depois
de tres dias de hospedagem e de jantares pantagruelicos, que adquirida
a gazeta, com typografia e pessoal conveniente, Jorge Miguel fosse a
Lisboa munido de cartas prestar ao ministrio vassallagem, e receber
dos magnates do partido a sua iniciativa de cavalleiro. Quinze dias
depois ia na casa do nosso pacifico contemplador uma barafunda dos
demonios.

Pelo caminho de ferro chegaram de Lisboa umas poucas de charruas,
caixotes de adubos e sementes, milheiros e milheiros de bacellos
americanos. A adega foi quasi toda guarnecida de toneis; lagarias
novas no pateo, com toda a sorte de machinas modernas. Os pousios das
herdades eram comeados a revolver a talho fundo, para o que foi
necessario alugar juntas de bois a todo o preo; de fra viera um
regente agricola, de monoculo, que se levantava ao meio dia, e achava
mau passadio um jantar de cinco pratos; e finalmente, negociado por
quinhentos mil reis, typographia e tudo, o jornal apparecera depois
onerado por uma hypotheca de dois contos, e com o typo delido, os
prlos n'um cangalho, tendo Jorge Miguel de dispender, por
conselho do governador civil, proprietario secreto da folha, mais de
novecentos mil ris para acquisio de material. Na aldeia, quando
estas coisas correram, foi o alvoroo que se tem por um individuo que
emaluquece, de rodilho, e todos punham as mos na cabea, antegozando
com lastimas hypocritas a hora opipara em que rebentaria a casa do
escriptor. A audacia d'esta renovao agricola pelos risiveis
processos scientificos, que nenhum rico ousra, e de que ria o povinho
como uma brincadeira de creanas, alm de no parecer condizente 
remediada fortuna do litterato, to pouco pelo estapafurdio do regente
agricola, e resultado incerto das colheitas parecia estribar-se l
muito na econmica prudencia que deve sempre guiar um lavrador.
Viticultura americana? dinheiro perdido, bufavam todos. O phylloxera
immobilisando-se no Douro perdera a fora para chegar aos valles do
Tejo. Reengorgitao das terras pelo adubo? mas onde ia isso parar de
dispendioso, e para que necessario? se a vinha nunca se estrumra no
Alemtejo, e quanto ao cereal, a bsta dos animaes abundou sempre, para
fazer de alqueires, moios.

A reappario do _Clamor de Beja_, jornal independente, um
typo novo, e uma factura litteraria elegantissima, foi verdadeiramente
um caso nos annaes da sornice alemtejana, e claro se viu o influxo que
essa incisiva folha fumegante de vida e tocando os assumptos locaes
com lcida ironia, certo viria a ter na politica do sul da grande
provincia.

Jorge Miguel recebia em casa os jornaes da redaco, preparava o seu
artigo, fazia o noticiario e a correspondencia de Lisboa, e o resto
era arranjado em Beja por um alferes do 17, seu antigo commensal n'uma
republica de estudantes. Em pouco tempo o successo attingiu pela
provincia as propores de uma victoria; choviam as assignaturas, os
annuncios pagos succediam-se, e em todas as questes locaes e
partidarias comeou o jornal a fazer authoridade, o que o lembrou em
Lisboa, levando as attenes dos malignos para a espcie de furor com
que Jorge Miguel, jacobino medonho, ainda na vespera, defendia os
actos do governo. Eleies  porta: era o momento de ir a Lisboa,
jurar fidelidade ao gabinete. Atochado de missivas bejenses para os
magnates grados do partido, sahiu Jorge Miguel de casa uma manh, com
o seu chapo alto e o seu bah de roupa, disposto a levar de
vencida as agruras da jornada graas a certa gallinha de recheio, mais
meio presunto que a mulher lhe embrulhou, para farnel, na folha de um
dos seus antigos pamphletos anarchistas. A viagem foi cabeceada de
somno n'uma segunda classe onde voltavam de frias tres alarves de
tres seminaristas, e s no Barreiro, quando a cidade comeou a surgir
vaporisada nos azues violetas do horizonte,  que Jorge Miguel sentiu
tomal-o uma infinita e estranha nostalgia. Indo no barco atirou ao rio
os restos do presunto, para evitar o cheravisco aduaneiro, e com o
gallego do bah veio a dar fundo nas _Duas Naes_, ante uma canja que
tinha todo o ar de um soluto de caspa em agua de lavagens. Sopeteou
como poude as vitellas flacidas com cenouras, um _roast-beef_ de
folha, e varios outros acepipes corneos d'aquella conceituada casa
alimenticia, e barbeado, de sobrecasaca fina, cheirando a agua de
Colonia, eil-o baixa do hotel  cca de tipoia que o solavanque a S.
Vicente. Chegado  rua, os luzeiros da Baixa estontearam-n'o: via,
extasiado, uma multido febril, pelos passeios, os carros cheios de
gente, e o indefinido rumor repercutndo-se a distancia, entre preges
de jornaes e silvos de comboyos. Mentalmente, com esforos
de memoria dolorosos, desemburrando-se da bisonheria de seis annos de
vida marital, tomava outra vez posse da cidade, buscando
familiarisar-se no dedalo das ruas, achar no asphalto outra vez o seu
_rail_ de _flaneur_ nocturno; e mulheres que surgiam de chapa nos
reverberos das lojas pintadas de branco, olhando os homens de lado,
como as gansas, tinham para elle o ar de apparies; nos americanos
pareceu-lhe tudo duques e duquezas, um deslumbramento as lojas, os
caixeiros uns personagens ideais; e a sua emoo subia n'um galopar de
antigas reminiscencias,  merc das surprezas esgaradas por qualquer
cousa, na volta de uma esquina, ante o estylo de um predio novo, um
novo monumento--emoo de provinciano fra da moda, cego do gaz,
picado de ciumes, desesperado de j ninguem o conhecer, e que ao
apear-se em Santa Clara,  porta do nosso glorioso chefe levava j
tres ridiculos de aldeia a chateal-o: a fadiga dos calos, o remorso do
casamento, e pairando a tudo, um desejo frascario, exhaustinado, d'ir
rebentar a noitada ao baile de mascaras do Trindade. Seis annos de
provincia tinham liquidado n'isto o grande homem...




O JURAMENTO DA CONDESSA ESTHER


--Tenho consultado tudo, tudo! A homeopathia, o systhema Brugrave, o
Raspail, tudo! Mas os alivios poucos, nenhuns mesmo.  esta drzinha
vaga no peito, esta tosse secca, pouca vontade de comer, ventre
preso... Quando se chega  minha edade,  esperar pela morte, bem o
sei.

--Qual!

--Ah! eu no a receio, meu bom amigo. Somente me affligiria a saudade
dos que amo, e o amor da minha filha...--Baixava a voz para
dizer-me--Tem-me perseguido a ideia de consultar um enfermeiro. Ouo
que entendem muito de doenas... Morrer, deixar Esther, seria o ultimo
castigo.

Em resposta, eu ria. A condessa ia comear a narrativa de uma cura
estrondosa, feita n'uma senhora das suas relaes, por um
dos taes.

--E est hoje gorda e alegre, que no faz ideia.

--Fao, fao.

--Depois, os remedios que me receitam os medicos, repugnam-me. Tenho
horror  magnesia, horror ao cheiro da camphora, horror s pilulas,
que bem podem ser manipuladas por sugeitos pouco limpos. Alguns dos
medicamentos nem os tomo.

--Eis porque se no cura, condessa. As aguas de Loeches so suaves...

--Horriveis! E to prosaicas...

--De certo, de certo. Tanto mais que V. Ex.a tira effeitos poeticos da
doena que diz soffrer, confesse.

--Ahi vem a sua m lingua, doutor. Na minha edade a poesia  o amor
dos filhos. Eu sofro muito, sofro, palavra d'honra. E se fosse um
aneurisma, meu Deus!...

--Ahi, est V. Ex.a poetando com hypotheses de martyrio, simples
achaques a que todos estamos sugeitos. Que diria ento eu, que V. Ex.a
v na flr da vida e na apparencia da mais radiosa saude? O meu
estomago!

--E o meu, doutor, o meu?

--A condessinha Esther tem a paixo das begonias; a sr.a
duqueza de Serpa adora os ces d'agua; a sr.a marqueza de Valle de
Perdizes esculpe; a esposa do negociante Domingues trabalha em crches
e premios de escolas. E cada uma faz d'estas predileces a sua
aureola de poesia, de que se circunda no mundo. V. Ex.a tem os seus
soffrimentos.  uma compensao.

--J vejo que est hoje peor, Conde! gritou ella para a meza do jogo
onde quatro homens faziam _whist_,  luz d'uma serpentina. Um velho
calvo e magro severamente abotoado e de bigodes altivos, ergueu-se
respeitosamente e veiu junto de ns.

Por detraz dos oculos, luziam-lhe aguadas as pupillas de miope:
andava com ares magestosos de ministro, gesticulando sobriamente.

--Que ? disse elle firmando as mos nos gomos do divan da condessa
me.

--Pode fallar-me da sua pre-historia, porque o meu amigo doutor teima
em satyrisar os meus padecimentos. Vamos, sente-se aqui.

--Mas a partida...

--O doutor vae substitui-lo, sim?

--E a condessa assim me desterra to cruelmente!--Ella
estendeu-me a mo dizendo:

--Ser por pouco tempo.--Fui. Esther no viera ainda. As senhoras
comeavam a chegar em pequena gala, com _bournous_ de casimira branca
forrados a setim e pelles. Eram os convivas certos d'aquellas
pequeninas _soires_, to intimas, to aconchegadas e to doces, que
os ditos e excentricidades da condessinha animavam, e a rabeca de
Zebedeu Kebler, israelita loiro como Jesus e to casto como elle,
enchia de fremitos extranhos e infinitas harmonias. Kebler adorava a
condessinha com uma paixo supersticiosa e ardente. Estava sempre onde
ella estava; em So Carlos, a sua cadeira era defronte da friza
d'ella; apparecia nos bailes a que ella ia, melancholico e pallido,
uma elegancia fina de _gentleman_; e nas conversaes mais frivolas,
em podendo, mettia, sem quasi dar por isso, o nome d'ella. Esther era
trigueira e alta, de uma distinco unica e de uma elegancia sem
rival. O esmalte dos seus dentes destacava fresquissimo no vermelho
das gengivas, como um adereo rico num estojo de velludo cereja. Nada
mais explendido que a linha do seu busto nervoso e cinzelado, e a
redondeza das suas espaduas reaes, surgindo de espumas de
renda na fervilhao opulenta dos bailes. Fui ter com o judeu. De p,
junto da banca de jogo, elle olhava sem vr cousa alguma. Tomei-lhe o
brao e fomos para o vo d' uma janella. E antes que eu fallasse, elle
disse:

--J penetrei no mysterio.

--Qual?

--O da condessinha.

--Vamos a vr como.

--Ella  muito supersticiosa. No admira, sangue judeu...

--Sangue judeu! Ella?--Kebler baixou a voz e contou-me:

--Que certo vendedor de tamaras, freguez assiduo de uma hortaliceira,
chegra a amar esta. Do amor dos dois, fermentou um garoto que se
metteu cambista, d'onde mais tarde surgiu uma obesidade millionaria
que um governo individado fez baro e par.

--Que perspicacia audaz empregou o meu amigo para saber tanto?
Caramba!

--Oua: implantada por esta frma, a nobreza foi subindo de um grau de
filho para filho. At que um dia, o pae de Esther appareceu conde.

--A esposa era muito formosa ento, para poder alcanar
tudo. Seria duqueza at, se o houvesse querido, disse eu sorrindo.

--Lingua damnada!

--Adeante.  ento supersticiosa, hein?

--No imagina.

--Eis o meio de sustar-lhe a golfada de sarcasmos de que s vezes nos
cobre. Em ella me ferindo, quebro um espelho da sala, ver. Mas vamos
ao mysterio. Creio que foi _mysterio_, que disse.

--Foi. Esther teve uma grande paixo!

--Como a da hortaliceira golleg, sua av, pelo vendedor de tamara e
sabonetes. _Fermentou_ alguma cousa de?...

--Olhe que me zango sriamente, e fica sem saber nada.

--Est bem; estou j calado.

--Uma paixo fatal! Amou...

--Essa reticencia traz um padre ou um trintanario.

--Infelizmente. Amou um primo, doutor em theologia, que j dissera
missa.

--Bem dizia eu!

--Dizem que bella figura.

--No me custa a crr, pois que o affirma. E o primo amou a prima?
Sacrilegio no ultimo acto, suicidio ao cahir do panno. Adivinhei?

--Quasi. O primo era um homem digno; alm disso no chegou a
saber toda a verdade da bocca d'ella. Desconfiou apenas que era amado
e fugiu para as misses do ultramar.

--Oh incomparavel levita! Eu no fugia para to longe. E ella?

--Ella jurou que no amaria mais ninguem na vida.

--E como no lhe fosse permittido professar...

--No seja leviano. Esther adora as begonias, como sabe.

--Paixo que acarreta ao meu amigo uma despesa sria. Cada dia lhe
traz uma especie nova, numa _corbeille_ admiravel.

--Essa adorao tem a seguinte historia.  hora da partida o
missionario mandou  condessinha num vaso da China, uma explendida
begonia _rex-isis_, especie do mais bello effeito decorativo.  um
vaso amplo, de figurinhas em relevo e pequenas azas de oiro,
representando drages engalfinhados.

--Conheo bem essa preciosidade! Vale a olhos fechados cem libras. E
depois?

--A begonia durou pouco. A estufa para onde a transportaram, e a
convivencia das mais plantas abreviaram-lhe os dias. J
entrou na estufa da condessinha?

--Muitas vezes. O vaso est ao centro, sobre um pequeno pedestal de
marmore branco e debaixo de uma redoma de crystal em gomos.

-- isso, com a begonia scca.

--Tal qual! Muitas vezes perguntei  condessinha a historia d'aquelle
esqueleto de planta. E agora me lembro--ella ficava triste e
suspirava. Era a theologia do primo adorado.

--Hontem vim visit-las de manh. Trazia-lhes um euforbio raro do
Mexico, que os francezes chamavam _Poinsettie_, exemplar soberbo.
Conhece?

--Dos livros. A minha clinica modesta no me permitte dispender sem
proveito o que elle custa. Folhas oblongas bordadas de verde,
envernisado e vivo. Centro canario raiado de verduras sanguineas.
Envolvendo as flres, uma cora de grandes bracteas ovaes, do tamanho
de folhas, e do mais bello escarlate, dando o effeito duma grande
flr. Uma opulencia, em resumo.

--Pois bem. Eu mesmo fui colloc-lo na estufa, permisso graciosa da
condessinha.

--Os perfumes aphrodisiacos perturbaram os sentidos de ambos
e... amor do judeu das tamaras com a...

--Mau!

--Est bom: curvo a cabea. Venha o resto.

--Quando nos achmos na estufa e em meio das folhas de mil desenhos
que alli ha, ella tomando-me as mos, disse-me commovida:

--Como hei-de eu agradecer a sua sollicitude, Zebedeu?

--Ella disse: _Zebedeu?_

--Disse.

--Meio caminho andado, ento. Mais dois minutos, e tinha-a pendurada
no pescoo. Que gata, essa trigueira tentadora!...

--Eu nem podia fallar!

--Oh castidade loira de vinte annos!

--E apertava-me tanto as mos...

--Sim? Depois, um beijo... ou dois... ou tres...

--Falle com franqueza, disse-me ella. O senhor ama-me.--Eu estava a
tremer como um poltro.--Oua, tornou Esther; fiz um juramento.

--Qual? perguntei em voz baixa.

--Que no amaria ninguem mais. A no ser...

--A no ser?...

--Que aquelle vaso de pedestal apparecesse em pedaos um dia, sem
ninguem lhe tocar.

--Mas isso  impossivel.

--Ento veja se posso am-lo. Ella estava to triste!... Talvez no
creia: chorei!--Callamo-nos, porque n'aquelle instante, uma voz fresca
deu uma risadinha  porta, e as senhoras correram para uma rapariga de
branco, que vinha entrando. Era Esther.

--Zebedeu Kebler, meu incomparavel artista, um pouco da sua rabeca,
disse ella em voz alta, antes de beijar ninguem.

--Bom sinal! resmunguei ao pobre rapaz.

O judeu deixou-me logo, alegre por ser lembrado, e foi abrir o estojo
do instrumento.

--Que ridiculos so estes sentimentos! pensava eu. Apertam-lhes as
mos n'uma estufa e a ss, muito e muito, e desatam a chorar.
Grandissimo tolo! No o pode amar? Fez ella muito bem. Amar um homem
que em logar de cobrir de beijos uma mulher lindissima que se rende,
fica a tremer, seria uma vergonha: apre! Fui ter com a condessa,
enfastiado e murmurando:

--Fosse a cousa commigo...

No dia seguinte, tinha eu acabado a consulta quando chegou Kebler.

--Vem acabar-me a historia de hontem?

--Venho sollicitar a sua presteza de atirador.

--Chegou o theologo? desafiou ento um ministro do altar? Barbaro!
Cruel! Desalmado!

--Qual! Tenho um projecto.

--Acceite este charuto, aqui tem lumes, sente-se e conte-me o
projecto.

--O alvo do irmo de Esther fica perto da estufa; pois no fica?

--Creio que sim.

--O senhor vae alli exercitar-se muitas vezes, segundo me disse o
Alvaro.

--Vou.

--Oua. Eu levanto um caixilho da estufa...

--Mas  preciso a chave que abre todos esses caixilhos. Talvez no
pensasse em tal?

--Tenho-a aqui; roubei-a agora mesmo. Posso guard-la por estes dias.
O tempo est chuvoso e frio, de modo que no ventilaro a estufa por
agora.

--Ento?

--Aberto o caixilho, o senhor fingindo apontar ao alvo,
aponta ao vaso da China e...

--O senhor ganha o premio, e eu fico a chuchar o dedo.

--Que? Ama a condessinha?

--Eu amo toda a gente; que diabo!...

--Estou esperando a sua resposta.

--Que eu parta aquelle vaso da China porque daria tudo? Est louco!

--Olhe para mim. Se o no fizer...

--D um tiro no craneo; d?

--Qual! fico solteiro toda a vida.

--Bem, essa simplicidade enternece-me. Esteja amanh aberto o
caixilho, e a bala esmigalhar o vaso. Mas como entra o senhor no
jardim?

--Saltando o muro que o separa da casa em que habito.

--O senhor  o diabo.

--Se a adoro!

Na noite seguinte, havia reunio em casa da condessa. Os grupos das
mais noites. Ao fundo do salo, a banca de _whist_, onde o cultor da
pre-historia se notava de lunetas altas, sob que as pupillas
fuzilavam. No divan amarello, a condessa queixando-se-me da falta de
apetite e de tosse scca. Esther radiosa, no meio das suas
amigas. Zebedeu Kebler muito pallido e muitissimo preoccupado, ferindo
de um modo inteiramente magistral as cordas da rabeca.

--Meus senhores, disse a condessa em voz alta, erguendo-se. Tenho a
honra de lhes annunciar o casamento de minha filha Esther com o senhor
Zebedeu Kebler.

Ouviu-se o estalido de uma corda de rabeca, subitamente quebrada. O
conde das lunetas erguera-se, aprumando a alta estatura. Esther
confessava ruborisada que... _Deus o queria._ Tinha apparecido em
pedaos o vaso da China, sem que lhe tocassem. E de mais amava aquelle
rapaz, to elegante e to distincto, de cujo brao seria um encanto
pender coroada de flres de larangeira.

--s meu padrinho! disse-me com um abrao de reconhecimento, o judeu.

--J agora... respondi.

O meu presente nupcial, foi um vaso chinez inteiramente igual ao que
apparecera esmigalhado. Crescia n'elle um _hibiscus_ do Japo,
trepadeira da mais rendilhada contextura, folhas exoticas e flres em
grinaldas.

--Eis porque eu daria tudo pelo vaso quebrado, disse a Kebler, com uma
vaga saudade de amador. Se o conseguisse adquirir, completaria o mais
bello par europeu. Guardem esse vaso no logar do pobre esmigalhado, e
que elle seja o talisman de um amr, fecundo em _bbs_ de olhos
azues, menos romanesco que o amr do primo, e mais durador por isso
mesmo.

Um frou-frou de saias fez-me voltar a cabea;  porta, a cabecinha de
Esther assomra curiosa, e os seus dentinhos brancos de gata contente
brilhavam, sorrindo de um modo encantador.

Nunca fui piegas, palavra de honra--mas inda hoje tenho calafrios
pensando nos dentes d'aquella mulher.




CORONADO


Ha sete ou oito annos vinha eu do Poo do Bispo no electrico, quando
nas alturas da Mitra entrou um meu velho amigo e camarada, Dr. P.,
clinico da localidade, com quem vim conversando at  Baixa.

Trazia na mo um numero de revista litteraria, e abrindo-o no sitio
d'uma pea poetica, impressa, perguntou-me se eu ouvira alguma vez
fallar da Coronado. Fiz com a cabea que no, e elle, explicando que
era o mdico da casa, em duas palavras fez o elogio sumrio da sua
cliente. Mez e meio havia que esta senhora, j ento de oitenta a
oitenta e dois annos d'edade, mas completamente em plena validez
mental e muscular, se fra por uma escada de pedra, quebrando um brao
pelo tero inferior do cubito e do rdio.

Poucas esperanas tinha o clinico, dada a edade provcta da
paciente, de se virem a soldar os topos da fractura; seno quando, ao
lhe ser tirado o aparelho, se viu como os ossos quebrados tinham
adherido, e a cura se fizera completa e s maravilhas!

Emquanto imovel no leito, a doente, cuja nervosidade frenetica
espantosamente sofria de estar preza, para enganar o tempo e distrahir
o espirito volitante, idera e compuzera em quadras endecasylabas, uma
poesia festiva s suas mos.

E aqui o mdico estendeu-me a revista para eu lr.

Uma das mos da Coronado estivra mez e meio entrapada nas ligaduras
do aparelho de fractura, sem vr a outra, e a poetiza figurava-as como
duas amigas ou irms gmeas afeitas a comunicarem no seu dia a dia
impressionista, a imitarem-se os gestos, a procederem por sentimentos
e instinctos identicos, e que uma to longa separao lanra no
desespero e na saudade.

A alegria do novo encontro fazia-as exultar em caudaes de ternura e
hossanas de prazer. Os versos eram ricos, nem farfalhudos, nem cos,
com significados precisos, frases de bronze sonoro, imagens
faiscantes, claras, simples, dando uma ideia de riqueza sbria, e
mostrando uma artista experiente e um pulso de homem. No havia
hesitao nem canao, nem essa pulverisante banalidade dos velhos que
vivem de restos e, perdido o sstro construtivo e inventivo, fazem
litteratura de toadas e sandezes. Qualquer Fernandez Shaw ou Eduardo
Marquina, Santos Chocano ou Manoel Machado, Ruben Dario ou Francisco
Vilaespesa, poderiam ter assignado esse texto de bravura, doce e
intenso, vivido e sentido, verdadeiro cantico d'uma alma unindo a
transcendencia lyrica  preciso. No tempo da Coronado os poetas ainda
eram s romanticos ou classicos...

O individualismo hysteropatha no tinha creado os grupos de _cabaret_
e as patrulhas maniacas de symbolistas, instrumentistas, decadistas,
ideologos, esthetas, neo-mysticos e magnificos, que depois inaram a
poesia de brochuras pathologicas, dando a impresso d'uma casa
d'orates com mais exhibicionismo que estro, e menos inspirao que
maluqueira.

A poetiza desde 1874 ficra isolada, pela tristura claustral da sua
vida, das correntes poeticas que agitavam o mundo, vindas dos
altos de Montmartre, t aos centros d'insurreio de Madrid
e de Lisboa. Poetava  antiga, com um gesto nobre e a palavra fluida
da velha escola hespanhola, que tinha em Espronceda, seu conterraneo
tambem d'Almendralejo, um dos mais altos e orgulhosos paladinos.

Despertou-se-me ento o desejo de, seno conhecer de perto, pelo menos
entrevr uma vez sequer a singular creatura que aos oitenta e dois
annos rimava com uma pujana feraz to bellas coizas. O visconde de
Castilho e o dr. Souza Viterbo a quem algumas vezes fallei na
Coronado, depois d'elogios enlevados ao talento e viveza de
conversao da illustre enclaustrada, evitavam pormenorisar detalhes
que me ajudassem  creao d'um retrato physico ou moral, justaponivel
ao indeciso perfil que a leitura dos versos me acordara.

Pouco a pouco porm outros informadores foram surgindo, ao acaso das
apresentaes e das palestras, e agora um, outro ao depois, pequenos
traos de luz vieram vindo,  fora d'indiscrio, devo dizer, que
talvez parea violar o recato da vida intima, mas que pelo significado
ultimo d'exaltao admirativa, estou que m'o perdoaro aquelles que
como eu no pdem examinar uma obra d'arte, seno tocando-a
e palpando-a, primeiro que se enthusiasmem da sua rareza e possam
comungar da sua singularidade e formosura.

       *       *       *       *       *

Com os informes de todos esses confidentes anonymos, pela mr parte
amigos e para assim dizer vassallos graciosos, pude alfim reconstituir
da gran senhora a estatua arcaica, entrevl-a como atravz dos veus
d'um santuario, e do lado esquerdo do peito acender-lhe uma luz, que
pde ser no seja alma, mas que servir para marcar o sitio onde bateu
um corao.

Morto o marido em 1891, Carolina Coronado no consentiu, por mais que
a lei portugueza insistisse, em separar-se do cadaver. Veio a policia,
vieram os magistrados, veio o ministro de Hespanha, veio o ministro da
America, e deante de todos estes symbolos de fora irrevogavel, a
varonil mulher opz a razo absurda da sua paixo esponsalicia, a
aflio das suas saudades, e a ofegancia romantica dos seus zelos
mortuarios. No queria que a terra do cemitrio provasse o corpo
amado, e os adorados restos deixassem um momento d'estar sob
a impresso dos seus crmes dolorosos, ouvindo-lhe todos os dias a
voz, como se sob o encanto d'ella o drama da podrido custasse menos
ao morto, e, sucessivamente exaladas do seu fretro, _odes_[1] vitaes
pudessem vir impressionar e envolver de sugesto passional, o espirito
amoroso, supersticioso, solitario e monjil da abandonada.

[Footnote 1: Fluidos telepaticos, animicos, que se desagregam dos
_mediuns_ em somno hypnotico, chegando a tomar formas fotografaveis.]

Como Joanna _a doida_ ella acompanha, da casa de Pao d'Arcos para o
palacio da Mitra, o cadaver de Justus Perry, e  fora de teimosia
imperiosa, de soluos, de suplicas, consegue alfim que as autoridades
fechem os olhos, movidas talvez pelas imposies dos diplomaticos;
quem sabe mesmo se pela feitiaria dramatica do feito, deixando vr
n'essa estremenha uma alma do _Romancero_, de grandiosa esculptura e
anormal poder de sugesto!

Desenove annos, n'um simples caixo de chumbo, envolto em madeiras de
cedro ou d'ebano, o corpo de Justus Perry permaneceu na
capella da Mitra, sob o fulgor perpetuo da lampada alumiando as
estatuas dos nichos e os icones dos altares: at ha poucos dias irem
os dois, marido e mulher, caminho do pantheon de familia, em Badajoz,
onde como na vida as suas nupcias seguiro, na paz do nada.

       *       *       *       *       *

Esta casa da Mitra foi no s mausulo de Justus Perry, como tambem da
Coronado, pois, salvo uma ou duas vezes que teve d'ir a Hespanha por
motivos de familia ou d'interesses, nunca mais a illustre mulher
deixou aquella estancia melancholica, que foi realmente o seu claustro
e o seu mosteiro.

Quem passava na estrada d'aquelle laborioso e popular Poo do Bispo,
em plena turbulencia dos carros de carga, dos silvantes comboios, do
martelar das oficinas, do fumegar das altas chamins, dos grupos de
gente tisnada e arremangada, certo no poderia supr que por traz
d'aquellas cantarias altas e d'aquellas podridas janellas, uma
creatura rara sofria e meditava--uma creatura d'alma heroica, da raa
das Virgens d'Avila e das Donas Marias de Molina, e que aos oitenta e
dois annos deslumbrava os amigos com a sua lucidez desconcertante, a
sua verve picaresca, a sua eloquencia de homem, a sua belleza de
rainha, e tal poder de ressurreio e recordao, que todos os
fantasmas da sua mocidade viviam e existiam _reaes_, a cada simples
aplo dos seus dedos e estranha palavra dos seus labios, como as
ressurgiria o _medium_ Egglinton, ou Euspia Palladini, n'alguma
sesso de hermetica e telepatica.

Fechada completamente para as menores sugestes e aparies
contemporaneas, no recebendo seno dois ou tres velhos amigos que lhe
fallavam do passado, no chegando sequer  janella, por uma especie de
horror aos inventos modernos e aos aspectos da multido grosseira e
circulante, Carolina Coronado vivia como se ha trinta annos a tivessem
fechado n'uma caixa, tapando-lhe os ouvidos e os olhos para no sentir
as evolues e reviravoltas do mundo alheio e exterior.

D'aqui resultaria o que geralmente sucede aos cegos e a certos
surdos-mudos perspicazes, que  mingua de sentidos proprios que lhes
desdobrem a atteno sobre o de fra, vem para dentro, _com
fora dcupla_; d'onde uma hyperacuidade d'imaginaes, vises, uma
vida febril de sonhos e quimras, uma sagacidade felina para induzir
de pequenas causas, efeitos mysteriosos e longinquos, que explica em
muitos, por exemplo, suas faculdades de poetas e de musicos, de
calculistas e filosofos, e na Coronado esse fulgurante poder de, em
meia hora de palestra, nos abrir perspectivas profundas, de
historiador e psychologo, sobre os meios sociaes e a gente illustre,
ou simplesmente anedtica, que ella conhecera e tratara em tempos
idos.

Graas a essas faculdades cydoramicas, a esse instincto artista da
escolha de traos com que rhembrantizar e exprimir o mais intenso das
personalidades e das almas, Carolina Coronado fazia-nos viver com
emoo profunda quadros das tormentosas ou desvairadas epochas do
reinado d'Izabel II, entre 1836 e 66.

Era o corregedor Pontejos, uma especie de intendente Manique, que
elegantisou e saneou Madrid com requisitos de benemerencia e energia
eguaes aos d'este, mas sem o sobrecenho despotico que a historia lhe
atribue.

A aristocracia e a elegancia representando-se pelas casas
ducaes d'Ossuna, de Liria, de Vistahermosa, de Gor, de Rivas, de
Fernan-Nunez, d'Alba, de Medinacelli, de Dnia, d'Abrantes, de Frias;
pelos marquezados de Miraflores, do Socorro, de Casa Riera, de Santa
Cruz e de Pover; pelas casas condaes de Oate, de S. Bernardo, de
Guaqui, d'Altamira, Torre Muzquiz, etc., cujos paos disseminados pela
cidade velha, verdadeiros museus d'artes sumptuarias e riquezas, se
abriam d'inverno para sucessivas festas e saraus, e cujas mulheres
faziam s tardes, nos desfiles do Prado e da Castelhana, nas soires
do Theatro Real, ou nas recepes do Palacio do Oriente, revoadas
esplendidas de bellezas que as memorias do tempo deixaram celebradas.

Era o tempo das primeiras emprezas d'irrigao, navegao e
ferro-carris, que acordavam em todos os paizes, na ancia de renovao
trazida pelo constitucionalismo, como um reverdecer de novas estaes;
o tempo dos grandes emprestimos para expedies coloniaes e guerras
politicas, quando argentarios como Caballero, Salamanca, Ceriola,
Perez-Sevane, Calderon, Benisa y Lafont, floresciam na finana
hespanhola, como nas cathedraes os _monagillos_ encarrgues,
d'entreter o oleo das lampadas, para que a f se no extinga, e os
deuses se no vejam abandonados.

Politicos e estadistas como Arguelles, Mendizabal, Martinez de la
Rosa, Calatrava, Olozaga, Herros, Narvaez, O' Donell, Espartero,
Serrano, Prim.

Homens de letras como Lista, Gallego Breton, Gil e Zarata, Lopez
d'Ayala, o poeta Quintana, o poeta Zorrilla, Mariano Larra (_El
pobrecito hablador_), Vega e Hartzennbuch, Mezoner Romanos, Pedro
d'Alarcon, Fernandez de los Rios, Cambronero, Juan Valera... Artistas
como Ventura d'Aguilera, os esculptores Llaneces e Sol, Marinas (o
autor da estatua de Velasquez), e nos seus doces _recuerdos_ de
Sevilha, os dois Becquer, mortos de fome; Valeriano o pintor, e
Gustavo Adolfo, poeta d'estirpe grega, d'essencia olympica com a
delicadeza e a graa d'um Hegesipe Moreau, na fantasia lunar d'um
Nathaniel Hawtorne ou d'um Bret Hart.

Ouvil-a descrever, comentar, caricaturar toda esta gente, desenhando-a
em dois riscos, caracterisando-a com duas anecdotas d'escolha,
relampejantes sempre, e sempre finas, lanando-a na _mele_ social,
depois de que esquissava sumariamente as essencias directrizes e as
paixes tendenciosas, era um d'estes cursos de historia fallada, uma
d'estas delicias cerebraes que davam da narradora a impresso mais
assombrosa, e induziam o ouvinte a ficar alli a escutal-a eternamente.

       *       *       *       *       *

Ha quatro ou cinco annos que sob pretexto de notas para uns artigos
sobre azulejaria artistica, consegui da residente illustre da Mitra
licena para percorrer rapidamente a escada e alguns sales. De
combinao, alli me esperava um amigo da dona da casa, e meu, o qual,
fingindo surpreza no encontro, me apresentaria  Egria, ao tempo
ssinha em palacio, pois sua filha estava em Badajoz. Das riquezas
patrimoniaes da Coronado, e das acumuladas pelo marido durante as
vastas emprezas comerciaes e industriaes em que fallei, grande parte
devia ter cahido em sorvedoiro, pois tudo na residencia denotava,
seno estreiteza de meios, pelo menos um estado de finanas bordejando
de perto a derrocada.

Em 1891 a casa e quinta da Mitra tinham j sido vendidas por
54 contos a certo advogado artista de Lisboa, cujas consultas ento se
pezaram a oiro, e que a Coronado trouxera ao seu servio em no sei
que trapalhadas juridicas, demandas, pleitos, que levariam parte dos
caudaes. A escriptura de venda estabelecia a clausula de residir na
Mitra a vendedora, at final de vida, e certamente o preo da
propriedade fra para liquidar os honorarios do causidico, e
provavelmente cobrir compromissos ou dividas que tirariam o somno 
escriptora. Ella no podia fugir  lei fatal que pe os cerebraes do
ramo artista na contingencia d'ignorarem, pela mr parte, o valor do
dinheiro, e a arte judenga de o fazer frutificar em especulaes e
trafegos rendosos.

A morte de Perry, pondo ponto na tutela sensata e escrupulosa gerencia
dos fundos do casal, no teria precavido a viuva, par e passo, contra
os futuros perigos de gastar sem contar, mrmente ficando as contas
entregues ao zelo incerto e enganosa honradez d'administradores e
feitores, que so bons ou mus conforme a fiscalisao a que os
sujeitam.

Est-se a vr o mecanismo porque, morto o marido, a Coronado
transita da fartura cmoda para a escassez molesta e tragica.

 sempre o mesmo, n'estes navios onde o piloto falta, e onde a
tripulao perde o respeito. Corro pois uma gaze sobre este lance da
historia, que de resto s entristeceria o leitor contra as injustias
da vida, e passo a dizer que a minha apresentao foi captivante, e a
illustre escriptora, em quatro palavras d'aquella cordealidade
hespanhola que em cortezia familiar nenhuma eguala, pz a minha alma
rendida deante do gesto infinitamente nobre da sua mo d'abadessa e
imperatriz viuva, que pude alfim beijar, mui reverente.

Com um vestido de velludo preto, de cauda, branca de neve, os imensos
olhos de velludo molhado, que o fulgor do genio rejuvenescia no leve
englho das pchas orbitarias, Carolina Coronado aos 82 annos era uma
mulher alta e direita, de talhe esbelto, por ter ficado magra, e com
dois bands nas fontes, frizados e nevados, como esses que os retratos
do  rainha Izabel II nos seus ultimos annos de Paris.

Fallava um hespanhol claro e castio, florido de modismos
que pela graa rebuscada tinham um oloroso sabor de lingua velha;
hespanhol de provincia classica e de convento, que seria o fallado
entre a gente bem educada de ha meio seculo.

s minhas palavras de saudao, ella, certo para atalhar o discurso, e
evitar talvez que eu me estendesse, perguntou-me se era de Lisboa; e
conhecida a minha origem transtagana e a terra de charnca onde eu
nascera, acrescentou que ento eramos quasi vizinhos, pois Villa de
Frades distaria talvez uma duzia de legoas d'Almendralejo e La Serena,
a patria da sua familia, em cujas parochias tinham banco fechado os
Romeros Tejadas e os Coronados Cortez d'aquellas terras. Envaidecia-a,
de resto a sua origem estremenha sem mistura. Ha dois sitios de
Hespanha que imprimem caracter proprio aos naturaes: Estremadura e
Arago. D'alli teem sahido artistas, guerreiros e politicos
d'excepcional fragor e intensidade.

--Se eu tinha viajado em Hespanha?

Todo o hespanhol  sedentario e bairrista, porm o portuguez quasi que
o excede... De resto, para um portuguez viajar em Hespanha, 
percorrer um pouco a sua terra. Hespanhoes, resumiu ella,
somos todos ns, os peninsulares.

E de repente, voltando-se para mim--Se eu era iberico?

Cuido ter feito um gesto que, imperceptivel embora, contudo a minha
interpelante colheu, _al primer vuelo_, medindo n'elle a patriotice
chocada em leituras da _Filippa de Vilhena_ e outros canastres
theatraes archisandeus.

--_No se moleste usted. No es mas que hablar_, contraveio logo com o
mais gracioso gesto d'acalmia. E foi dizendo:

--Tinha sido o erro de Filippe II, to grande politico, no transferir
logo para Lisboa a capital do reino unido. Se assim tem feito,
Portugal e Hespanha estariam hoje abraados n'uma nacionalidade unica
e pujante, o que evitaria a ambos a decadencia funesta que durando vem
t ao presente. De mais que, segundo as datas da historia fidedigna, a
perda da independencia no foi to dolorosa a Portugal como se diz nos
manuaes para as escolas. Em toda a parte os povos mechem-se
principalmente por interesses, e os primeiros passos da dominao
hespanhola em Lisboa foram at sympathicos  populao,
sobre quem Filippe II exerceu uma atraco benevola e singular...

Um erro deploravel! Os nossos dois paizes reunidos ficariam na carta
com uma massa de territorio maior que a Frana, e as suas colonias
somadas dariam um dominio colonial superior ao da Inglaterra.

Tinhamos tomado assento na ultima de tres salas que formam a parada de
recepo da residencia, e que com quatro janellas de varanda sobre a
rua, e duas janellas-portas ao terrao, tinham luz deslumbrante, em
grandes resteas de sol primaveral.

Tudo no mobiliario velho e desbotados tons das braadeiras, cortinas e
alcatifas, chorava a tristeza pudica das coisas de luxo que a penuria
assedia, e teem de morrer em servio, como os cavallos velhos nas
carroas. Cadeiras modernas de Vienna alternavam com esplendidas
poltronas e sofs, cuja seda o sol e o roar das cabeas fanra e
mesmo tinha esgarado em certos pontos. Nas _carpets_ de preo, gusano
e ps tinham j consumido a l das flores e dos desenhos apparecendo a
trama em sries de cordas varicsas.

A alguns moveis artisticos faltavam-lhes ferragens, precisavam ser
refrescados e envernizados; jarras da India, sobre columnas,
voltavam para a parede os buracos e as rachas dos desastres; casaes de
pombos, livres pela casa, tinham feito ninho sob um bufete, borrando
tudo; e at, n'uma estante lindissima, os proprios livros amigos,
confidentes de dores e desalentos, at esses tinham um ar d'exilados,
e o geito de nos dizer que o seu tempo passra, e lhes doa a velhice
e as suas imensas sadades de Madrid...

De p, na sala, a illustre senhora mostrava pela janella aberta
aquella enseada morta de tres leguas que o lisboeta chama _mar da
palha_. A outra margem silhuetava no azul sua paysagem terna e
esfumadia.

--Diga-me se isto no  a rada d'uma cidade de dois ou tres milhes de
habitantes, chave do comercio atlantico, e capital soberana da Iberia
una e congraada.

Eu por mim no queria saber da tal Iberia una, reconhecendo entretanto
que o erro de Filippe II impedira talvez a realisao d'um bello sonho
de nacionalidade formidavel, enquanto na hora presente, com dois
paizes egualmente preguiosos e incapazes, loucura fosse ajuntar
misrias que j dolorosas eram, separadas.

A enseada do Tejo  que verdadeiramente prendia os meus
olhares, vasta, amorosa, em azul pallido, listrada de correntes, e com
placas espelhadas d'agua morta. Algum vaporeto passava para
Aldegallega ou Barreiro, fumando distrahidamente o seu charuto; alguma
fala ou barco de pesca desfraldava a vla de guio, quadrada,
vermelha com a latina  ppa, e aquelle gesto airoso, ideal, gaivotal,
de fender a agua, patinando. Aquillo lembrava em Veneza as travessias
para o Lido, sob os esverdeados cus do Adriatico, por uma tarde assim
primaveral.

Entanto, por uma escadaria de balaustres, tinhamos descido ao jardim,
do seculo XVII, todo em meandros e porticos de buxo, que de resto ha
muitos annos ninguem tosquiava, e canteiros adentro mantinha uma
desordem d'arbustos sem trato, e hervas bravas crescendo  doida, como
nos pouzios da devza, ao Deus dar.

--E de leitura hespanhola, como vamos? Aventurei varios nomes de
modernos: Pio Baroja, Benavente, Rusiol, Felippe Trigo, Antonio
Palomero, Anton del Olmet, Lopez Barbadillo, Ciges Aparicio, Isaac
Muoz, que ella pareceu escutar sem conhecer.

--E Juan Valera? interrogou.

--Conheo.

--Lopez d'Ayala?

--Sim.

--Campoamor, Nuez d'Arce, Menendez Pelayo...

--Um pouco, um pouco.

--Pereda, Galds, La Pardo...

--Sim, sim, tudo isso li.

--_Hombre_, exclamou ella com uma acerada ponta ironica. _Es usted un
portugus mui sabionado._

--Que quer! A lingua hespanhola tem para mim um prestigio e uma musica
que me no cano d'ouvir e de gostar.  uma lingua de guerreiros e
d'oradores, para hymnos e para suplicas, compativel com a expresso de
todos os estados emotivos. Ella sorrindo, repetia o proloquio:

--Falla francez ao teu cozinheiro, inglez ao teu cavallo, alemo ao
teu co, e hespanhol  mulher que mais te agrade...

Tinhamos vindo ao cabo do jardim, e por uma porta de ferro chegamos a
um grande trecho murado de floresta ou bosque, onde a vegetao
deixada ao esbracejar liberrimo de vint'annos, apagava o torcicollo
das ruas, emaranhando para todos os lados, labyrinthos de
folhas e de ramas.

Aquillo lembrava o _Paradou_ da FAUTE de Zola, com a noite glauca dos
macissos, as lucarnas das cpas deixando feixes de luz zebrarem
d'esmeraldas liquidas os fundos. Uma aluvio de melros silvava, uma
guarda de honra de passaros respondia.

Era recolhido, intimo, profundo, e ouvia-se, no sei onde, um tenue
telingar d'agua corrente. E eu lhe disse erguendo a vista quella
intensa abluo d'asas e folhas:

--Aqui se vive em plena natureza.

E ella tornou:

--No. Aqui se morre em plena soledade.




A EMINENTE ACTRIZ


Cahiu o panno entre chamadas ovantes, gente de p nas cadeiras,
debruada dos camarotes, e em chusma junto s portinhas de sahida,
acotovelando-se, clamando, _bravo! bravo!_ A geral estava deserta, um
grupo ao meio da sala berrava, _fra o auctor_.

E quando elle veio de casaca, agradecer com aquelle seu geito modesto,
muito risonho e de rosa amarella na botoeira, a sala aqueceu ainda,
houve bravos, e o Moreira das magicas, enfiando o _pardessus_, disse
para um desenterrado de luneta, com a sua bella emphase de auctor
laureado:

--Vae longe, este camello, sim senhor, vae longe.

-- possivel, opinou seccamente o desenterrado, e a cabecita em
pyramide, com pellos de rato sobre a testa, pendulava-lhe
para um lado e outro, desengonada sobre o gasnate cr de moka. E
puxando amigo Moreira de parte, olho acceso em iras biliosas, o
_plastron_ descosido, disse alli que a pea no tinha fundo, que o
estylo era rocambolesco, e toda a litteratura devia mirar um intuito
critico, sem o que ficaria um brinquedo de gaiatos. E que se em
Portugal o publico desprezava litteratos, e podia passar sem o que
elles exgregavam nas gazetas, a razo era taes litteratos serem mais
ignorantes, ou menos intelligentes, que a multido a que se pretendiam
impr.

--Que damnada lingua me sahiste! dizia Moreira das magicas, com
pancadinhas d'applauso no hombro do desenterrado.--Baixava a voz para
insuflar, que em parte assim era. Todavia exceptuava muita gente. Ahi
est o Jos Maria, por exemplo. O nosso Mendes Leal, to conceituado
l fra. E este, e aquelle...

--Eu creio bem, argumentava o da luneta, que no meio d'esta sucia, por
engano, ha talento uma ou outra vez. Mas diabo! No estamos j nos
_solos_ do Serpa, nem no _Conde Alarcos_ do Cunha. Dem alguma coisa
mais do que phrases cas, meus senhores! A formula litteraria 
apenas vehiculo da ideia, e no pode tornar-se em preoccupao, como
ahi estamos vendo. Mais! Quer-se em toda a obra um ponto de vista
elevado e philosophico que a domine. Eis o que no ha n'essas
mioleiras, meu filho! Veja-me voss o Pimentel, que esses localistas
parvos andam a proclamar nas gazetas. Idiota! E vou-lhe s ventas;
vou! E o menino Felix de Macedo, mais o cretino Fernandes! Ocos que
nem uma cabaa, immortaloides de redaco, sem testa, nem estudo, nem
officio. Que tenho eu que vr com tal romance ou tal drama, com tal
phenomeno scientifico ou tal processo de pintar, se estas coisas me
apparecerem abstractamente, sem uma orientao que as filie e
correlacione n'uma dada corrente--no sei se me fao entender?

Com o largo aceno de quem trunca pela base a tolice humana,
estabelecia--que tudo vinha sob dependencias e condies, facto moral
ou facto physico. Tal livro  effeito do livro anterior, e causa do
posterior, como tal estado politico ou mental, derivam do estado
anterior, e preparam o que depois vier. E desgraada a gerao que por
sua anarchia psychica no sabe fazer progredir um systhema,
assimilar um cdigo de doutrinas, desenvolver e tornar perfeito
qualquer ideal em arte.

s vezes,  o povo que por ignorancia repudia a lei nova; cabe aos
escriptores, aos homens politicos, e aos artistas, uma lucta sem
treguas em prol da converso ao credo ambicionado. Eis o naturalismo
expulsando da arte os romanticos, em meio das repugnancias geraes.

Mas acontece--e o desenterrado levou  parede o Moreira das magicas,
enfiando-lhe um dedito successivamente pelas diversas casas do collete
branco--acontece um bello dia, haver mais illustrao na massa que no
grupo dirigente d'artistas e pensadores. Em tal caso, a massa vota
legitimamente ao desprezo aquelles nigromantes.  o que se est dando
entre ns co'a politica e litteratura. A corrupo dos partidos d de
si...

Moreira escancarava a queixada num bocejo desopilante: quando uma
rebanhada de talentos da gerao novissima furou por entre os
conversadores, ao tempo do desenterrado citar Beaumarchais, Ben
Johnson, e aquelle pobre Molire, coitado! No entanto o theatro
esvasiava ao de manso. A ribalta extinguira-se, os da orchestra
enfiavam os instrumentos em saccos de chita e erguiam as golas para
sahir. Aqui e alm, nas ultimas ordens, um arrastar de cadeiras soava
ainda, vozes chamando, risos altos, e um deserto fazia-se na sala, sob
a agonia do lustre, e o cynismo do relogio que marcava cinco horas,
havia mais de sete annos.

Fra a primeira representao dos _Dois Rivaes na Crte_, quatro actos
de capa e espada escorrendo phrases feitas n'um entrecho infantilmente
pavoroso, onde as personagens se davam o _vs_ comparando-se ao
systema planetario, e reforando os lances de effeito, com alluses
aos phenomenos atmosphericos e biblicos mais assustadores... o raio em
sua furia indomita, o diluvio, pragas do Egypto, miseria de Job...
havendo um monologo sobre a capa de Jos, que os _fauteuils_ tinham
mimoseado com surdos bravos d'adheso. A pea era estreia de Rogrio,
Rogrio Vasques, primo da Alcina, moo que por to raro trabalho
tomra definitivamente logar _na phalange dos nossos mais talentosos
escriptores, pelo que felicitamos o nosso amigo_, diziam os jornaes.
Um triumpho completo, os _Rivaes na Crte_! Critico Borbas, do
_Seculo_, to exigente em coisas de palco, parado no camarim
da Velledo, recitra com voz lacrimejante, no fim do acto, aquelle
bocado da separao--_parto, o corao me fica suspenso n'estas
paredes, testemunhas de tanto perdido amor! S vs,  Conegundes de
minha alma, conhecereis a fundo este bratro d'angustias, que como o
universal diluvio_...

Ah, mas como o Taveira dizia aquillo!

Dias antes, toda a litteratura em evidencia recebera do joven
dramaturgo um amavel convite de ceia na sala grande do _Central_, 
hora de acabar a primeira representao. Tinha sido um regosijo
fremente. Aquelle Vasques, bello moo, que talento maleavel, e to
instruido! Com que ento Champagne fino? Um pouco prejudicado em
preconceitos d'escla talvez.

Genial Pirralho, todo cheviote amarello, bigodeira mephistophelica e o
grande ar de Paris, tinha mesmo dito-- um temperamento. E o _menu_
passava de bocca em bocca.

       *       *       *       *       *

Deixando Alcina, Rogrio no foi mais o bonifrate de provincia com
preoccupaes de Chiado, ares de saude camponia, e ingenuidades
de primeiro amante. Gastra no convivio d'actores, janotas,
litteratos, cocheiros, e femeas avariadas, toda a bruteza sincera e
boa que na educao caseira adquirira. E hypotecando as ultimas
migalhas de herana, dormindo fra, bebendo e jogando s noites,
tornava-se pedante, depravado, amarello e pulha.

O theatro d'opereta em que primeiro Alcina estivera escripturada,
tinha sido para ambos a melhor escla pratica de malandrice e usura.
Alli, cada figurante de scena ou frequentador de camarim, dir-se-hia
passar os dias na cogitao de explorar quem apparecesse  noite com
cara de tolo. Apenas Rogrio, tendo a prima por amante, comeou de
acompanhal-a ao theatro todas as noites, e a fazer na ausencia d'ella,
a quem chegava, as honras do camarim, viu-se logo rodeado por uma
srie de ratos de bastidor e polvos de redaco--gente faminta,
intrigante, educada a comboiar boatos, cartinhas, subscripes,
pequenas calumnias de casa d'um para casa d'outro--que ia girando
n'uma baixeza d'inveja  roda dos charutos fumados, das correntes de
relogio, impingindo bilhetes de beneficio, offerecendo-se para
alcovitar, com pormenores de creada sobre as pernas d'uma,
os amigos d'outra, os seios d'esta e os cabellos d'aquella... todo o
arsenal de canalhice exigido em curso para to equivoco mister.
Desengalfinhado d'esta tropa  custa de generosidades foradas,
desprezos, empuxes, at soccos, Rogrio teve de rechaar depois uma
ciganagem d'outro genero, amabilissima, risonha, com emphases altivas,
articulando as palavras musicalmente, pondo luvas frescas todos os
dias, e tendo o nome a ouro nos annaes das lettras e das artes. Eram
os grandes actores da cidade, todos os generos e theatros, paes
nobres, ingenuas, gals, graciosos--tenores tysicos, barytonos sem
voz, e essa variedade neutra de comediantes cognominados entre ns de
_conscienciosos_ ou _diseurs_, que serve para tudo e goza a estima dos
auctores, em razo do merito reles que exhibe, de jmais _desmanchar o
conjuncto_.

Eram tambem escriptores intermedios, _amanuensando_ das onze s
quatro, fazendo jornal das quatro s onze, finorios chouteando na
esteira dos gabinetes corrompidos, em faro de boa posta, louvando aqui
a vaidade dos ministros, alm atirando lama s ventas dos adversarios,
em eternos clamores contra a decadencia dos costumes, mas
rindo por dentro de tudo, tudo ouvindo, sabendo tudo, explorando com
tudo, e exhibindo-se em publico os ares de grandeza impeccavel, que
Vautrin recomendava aos Rastignac e de Marsay que lhe sahiam do
ventre. Rogrio amou esta camaradagem nova, que nos seus annos de
provincia tanto admirra atravez das hyperboles dos dirios. E por
influencia de contacto, relaes, letras assignadas, condescendencias
d'Alcina, jantares, e uma bicharia d'assignaturas para publicaes que
falliam ou no chegavam a ver a luz, acordou tambem litterato certa
manh. Entrado na imprensa fez subir Alcina, que sem voz a esse tempo,
debandava para o drama, j to magra e lombricoide, que no era
senhora d'engulir uma pilula, sem os jornaes a dizerem gravida de
cinco meses. Esta ligao d'Alcina com o primo durou pouco, vindo a
ser truncada apenas apresentaram Rogrio  Velledo. Alcina era
ciumenta e teimosa; um nadinha infiel alm d'isso! No resistindo s
furias de prazer exigidas pelo seu temperamento frenetico, a sua
franzina e pobre organizao murchava e cahia. De manh estava cr de
morta, seios sorvados, olheiras  bocca, olhos imbecis, e um ar
de prostrao assustador, casado com uns reflexos glaucos,
que raiando-lhe das fontes, aos cantos das orbitas, iam terminar n'uma
_griffe_ de ruga.

E vinte e quatro annos apenas!

--No bebas, muitas vezes lhe dizia Rogrio, vendo-a engulir entre
chavenas de caf e charutos fortes, uma quantidade de calices de
cognac. Mas ella sempre gostando. Ora adeus! At punha fortaleza, voz
mais alta, o espirito vivo como um passaro. Depois to petulante a
beber!... A viveza com que molhava a linguinha rutilante no licr
esbraseado, revirando aquelles extraordinarios olhos pretos, humidos,
audazes, cheios de ganas secretas, que a salvavam ainda pelo fluido
calido em que ardiam, e de grandes que eram lhe faziam a cara
pequenina!...

--No  tudo, disse-me Rogrio uma occasio no Aterro. Beber  mau,
mas perdoava-lhe, que diabo! Com o cognac porm, vieram os vicios
supplementares, que de resto no aprecio nas mulheres, nem estava para
subsidiar em proveito dos devassos que iam l por casa. Entende voss?

Escrevia elle folhetins na _Gazeta do Sport_, chronica da alta-vida
segundo a testada, e bastante mal escripta para se crer que
assim era. Esses folhetins fizeram-no celebre, secretario d'um gremio
d'escriptores, successivamente premiado de Mont-Real e irmo dos
terceiros. Centros de litteratura amena e critica austera, livrarias
com cavaco e sociedades com bilhar, brindaram por elle. Deitou
almanach com bocadinhos democraticos, e um juizo do anno em que era
ameaado o throno. Lindso, que era quebrado, e s bancas do Martinho
maravilhava localistas myopes e uma quantidade d'aspirantes,
abraava-o em publico com palavras de pompa. E por duzias, os albuns,
os semanarios e jornalecos de districto, reclamavam trechos d'essa
penna hilariante que gottejava sol peninsular, ortographia sonica, e
mesmo asneiras, querendo Nosso Senhor. Discutiam-no. J lhe davam
escla e processo de factura. Era um moderado, um joven ecletico, meio
romantico, meio positivista, com predileces d'assumptos doces e a
ambio das finas coisas mundanas, cheio d'imagens originaes,
chispando mordentes graas, vigoroso e probo, tendo os nervos
irritaveis d'uma mulher. Na frente, como chocas, os jornaes iam
conclamando unisonos:

--O talentoso amigo e brilhante escriptor...

Uma das bellas organizaes da Peninsula...

Erguiam-no em rival de Lindso, que a tantos se afigurava um prodigio
alm de toda a espectativa. Festejado Peres nem dizia sim, nem no.
Deixar vr! E o colossal Pirralho advertia que no era bom thuribular
debutantes, que podiam perder-se de vaidade, imaginando-se deuses.

E n'uma vocalisao emphatica:

-- o defeito dos homens do Meio-Dia, onde os temperamentos so
clidos, e os modelos a seguir no abundam. Quando encetmos a nossa
publicao critica, era notoria a esterilidade litteraria em
Portugal...

Mas Horacio fazia um passo no grupo, armado dos seus oculos de ferro,
nisa curta, um pigarrinho erudito. E cuspilhando:

--Systematisemos a these, conforme o proceder do meu Comte!

       *       *       *       *       *

Os convidados por Rogrio tinham ordem de reunir no _foyer_, findo o
espectaculo. A pea acabra tarde, duas da noite; e primeiro que
a Velledo apparecesse, tiveram d'esperar boa hora e meia.
Emtanto falava-se da pea. Estava o melhor da litteratura e da arte. E
faziam-se apresentaes. Festejado Peres trinta annos de dramas
historicos com applausos freneticos, rapoza velha em coisas scenicas,
conforme corria, apresentou a Rogrio o grande Aurelio, uma _gloria da
scena_, interprete das suas creaes, de quem Doux dissera n'um
atonismo absorto:

--_C'est un petit prodige, ce marmot l._ E a phrase ficra celebre.
Aquella apresentao penhorra Rogrio, que muito commovido, voz mansa
agradecia com ar modesto. Alm o pensador Horacio que fazia as
primeiras carambolas na cervejaria e continuava virgem de contacto
impuro, definia a arte segundo Comte ao Moreira das magicas e
sainetes, emquanto Pirralho dizia a vida na _Comdie Franaise_, o
ceremonial d'entrada no _foyer_, e como Croizette era a musa dramatica
moderna. Bulia em volta a ninhada _d'esperanosos_ cr de cidro,
ganymedes que se davam ares, corcovando a espinha e rindo alto das
facecias do mestre, com o faro na ceia offerecida. E o mestre
esfogueteava pela sciencia em citaes vehementes, fuzilando,
causticando, vibrando a nota heroi-comica, que na sua proza
fazia o delirio dos discipulos e a admirao do publico. Reinava
grande cordealidade. Pae nobre Tiburcio, que desde o desastre da
_Filha Roubada_, no falava ao inflexivel Borbas, veio lacrimoso
abraal-o pelas costas. E em volta acharam bonito, e houve beijos como
entre damas. Rogrio ia radiante por todos os grupos, abraado,
elogiado, n'uma effuso d'intimidade que lhe punha o corao nas mos.
No se ouvia  sua passagem seno palavras quentes, bocados de critica
enthusiastica: a maior vocao, o mais extraordinario dramaturgo entre
os modernos, um dos maiores da Peninsula--e explendidissimo,
scintillantissimo--e como Sardou, e como Dumas filho, e como o velho
Augier... Os famintos tiravam o relogio, chamavam-no de parte,
davam-lhe tu, relembrando que tinham andado no mesmo collegio, muito
amigos sempre, no te lembras? Mas quem diria! Rogrio, o 34, to
enfezadito de cara, cheio de zeros em _portuguez_, e sahir-se agora um
escriptor d'aquella alada! Elle a todos dava uma boa palavra, pedindo
opinies em separado sobre a pea; o que esperava era franqueza, visto
no arder nos orgulhos balofos de certas sumidades. Moreira
tinha-lhe achado grande fundo historico, cr local como o diabo--sim
senhor--e que pena terem cortado o sarau do terceiro acto! De resto
afigurava-se-lhe D. Fagundes o seu tanto hertico para uma plateia de
damas. No theatro, na escla e no templo, a religio primeiro que
tudo: j Garrett o escrevera. Bem sabia que o espirito moderno... E
muitos parabens.

Mas festejado Peres, saracoteando a nalga rolia:

--Meu Rogrio, disse elle cingindo o dramaturgo, has-de conceder-me,
conceder-me, que tenha a sciencia do drama historico... drama
historico... to descurada pelos rapazes de hoje, rapazes de hoje...
J o fiz saber no prologo da minha _Duqueza de Bragana_... de
Bragana. Eu c, escrupulosissimo no theatro. Ser casmurrice, eh! eh!
casmurrice... mania de velho; deixal-o ser!... Hein? deixal-o ser.
Missonier, antes d'algum quadro militar... quadro militar... at
estudava os botes dos fardamentos... eh! eh! dos fardamentos. Eis
onde eu levo o escrupulo tambem... E o publico d palmas... d palmas.
Posto isto, e como teu amigo que sou... teu amigo... sempre
direi que commetteste um crime de lesa historia... eh! eh! lesa
historia... pondo compota de pecego no festim de Januario de
Mendanha... compota de pecego.--E de chapu alto para a nuca, as
orelhas despegadas do craneo, o grande homem recordava um d'esses
burros com mitra, arrancados s _festas dos doidos_, nas cathedraes da
Edade Mdia.

--Pelo correr do seculo quatorze... seculo quatorze... proseguiu elle,
no era conhecida no reino aquella doaria, conhecida no reino... que
s remonta ao ultimo quartel do seculo dezeseis, eh! eh! seculo
dezeseis... Consulta Viterbo, fr. Bernardo de Brito, o abbade Castro,
abbade Castro... Este pormenor no  futil, como parece, futil...
porquanto  da compota de pecego, da compota... que se a grande scena
do terceiro acto, a grande scena... alis magistral, sem favor,
magistral! Linguagem vernacula, linguagem Herculano... l isso sim,
meu velho, isso sim... Falta talvez o fundo historico, eh! eh! fundo
historico... vacillaes na cr local, hein? cr local... Mas s novo,
coisas d'estas s veem na minha edade... na minha edade. E aqui para
ns, hein? para ns. Vo sendo horas de manducar uma bucha,
manducar.

Rogrio ardia por ouvir Borbas, e sobre todos o desenterrado, Lindso
de nome, critico d'altos processos, por muitos calumniado de precoce e
viridente genio das raas modernas, o manitano! Mas sentiu-se um
_froufrou_ de sedas no escadim doirado do _foyer_, e uma voz argentina
e alta em que dominava o grave, disse duas vezes ou tres,
risonhamente:

--Boas noites, boas noites!

Era a Velledo. E atraz d'ella pelo brao d'actores, maridos ou coisa
parecida, outras actrizes se mostraram, a Laura, a Elisa, a Maria
Freitas... Os trens esperavam  porta do theatro. Falando ao mesmo
tempo, n'uma alegria de boa gente que alarga o corao, essa sociedade
foi abandonando o _foyer_. Havia de todos os generos, modestos,
espirituosos, eruditos, familiares, calemburistas, os de m lingua, os
de m fama, e trambolhos lyricos, gente infeliz ao jogo e fanada de
orgia. Aprumado e grandioso, ia Pirralho no meio dos seus discipulos,
citando descobertas e ramos de sciencia que mais peso causavam no seu
caco de homem celebre, pelo arrevezado das designaes,
forando os contrastes, e querendo achar a nota original das coisas
por um burlesco d'encomenda. No alarde d'erudio e individualidade
que o preocupava, as citaes saltavam-lhe aos magotes, desordenadas,
occasionaes, n'um fogo d'artificio a duas cres. s vezes calava-se
interdicto, circunvagando as lunetas, na desconfiana de haver sido
vulgar como a outra gente. Mas rodeavam-n'o para algum paradoxo
applaudido, farejavam-n'o os discipulos por todos os lados, inquietos,
com a gargalhada prestes, tendo nos olhos piscos o deslumbramento das
gravatas do grande homem, os seus sapatorros inglezes, e o largo gesto
que parecia ceifar de roda as mediocridades que de longe vinham
recolher palavras da sua bocca de semi-deus.

De seu lado, o desenterrado Lindso abotoava modestamente o casaco de
botes recomidos e cotovellos surrados, no tendo ainda _coterie_; e
humilde, olho aceso, faulhava d'inveja sobre os que iam de brao com
femeas, sentindo as primeiras seccuras do amor vicioso. Ento foi um
movimento alegre de partida, um borborinho de risos e vozes que j no
procuravam entender-se. As senhoras carregavam sobre a fronte os
capuzes das _sorties-de-bal_, rendas de froco, ou simples tules
picados de abelhas de oiro; e pela escada, apanhando os vestidos n'um
desleixo provocante, mostravam meias de seda bordadas de lado, e esses
primeiros lineamentos da perna, que lembram contornos de jarra
etrusca, pela expanso esvasada e alta das curvas. Laura, uma loira
redondinha que findava o primeiro amante, borboleteava pelo brao do
festejado Peres, cujos sessenta mantinham pretenses ainda de
galanteria e elegancia. E a cada passo ella deitava-lhe a cabecinha no
hombro, mostrando os dentes miudos. Maria Freitas era uma grande
morena, esqueletica e muda, a quem davam papeis de velha, para que
sempre tivera vocao. No tinha amor permanente, e como quartos
d'estalagem, alugava a quem vinha, o seu corao hospitaleiro. Entanto
as collegas toleravam-na, porque apesar de tudo era util, e pelo
contraste fazia as outras virtuosas. Declinando nos quarenta e cinco,
os olhos de Elisa comeavam a turbar-se, cercados de pequeninas rugas
nas palpebras, como os dos papagaios moribundos: e apenas l longe,
nos dias de crise frenetica, se incendiam ante collegiaes frescos,
d'ar timido e riso doce. Era uma gorda pintada de branco, cheia de
signaes, grande talento de comedia, e tendo pelas mulheres o desprezo
d'um homem. E o cortejo ordenava-se, desfilando direito  rua. Rogrio
deixra-se ficar, na esperana de dar o brao  Velledo, que tambem
aguardava o quer que fosse. E quando ia offerecer-se, viu-a voltar-se
contra o brasileiro, pr-lhe no hombro a mosinha calada em luva de
canho molle, a dizer-lhe com a bella voz de scena:

--O meu amigo ser bastante bom para me deixar o seu brao?

Ficou attonito a semelhante desfeita! Quanto por ella tinha feito era
sem preo--a ceia, o drama, as _toilettes_ d'apparato... E enxotado!
Mas jurou alli mesmo uma desforra estrondosa. Quando chegou  rua, j
toda a sociedade se estava armazenando nos trens. Elisa abandonra os
velhotes que a tinham comboiado escada abaixo, para n'uma velha tipoia
se enroscar entre os seus ricos frangos da gerao moderna, aos
empurres em pae Tiburcio, e mandando  fava a historia brejeira que
elle insistia em contar-lhe. Maria Freitas installou-se nos joelhos de
Moreira, n'um pequeno _coup_ d'aluguer,  direita do festejado
Peres, e  esquerda d'um revolucionario cr de melo, que
insubordinava Alcantara com discursos socialistas. No meio da rua,
mordendo o bigode com melancholias de birrento, Rogrio procurava
companhia de mulher, olhando quem se ajoujava nos trens. Viu Borbas
estender os braos de dentro d'um carro, e puxar Laura, a quem genial
Pirralho, dizendo-se Hamlet, chamava a sua pallida Ophelia. De duas
carruagens ou tres, vozes chamavam brejeiramente a rapariga; e como
doida, ella ria de cabea para traz entre os desavergonhados,
debatendo-se na furia dos abraos. Hirto como um lacaio, o brasileiro
escancarava a portinhola d'um bello carro de noite, servido por
cavallos claros, e moos de taboa aguardando de p que ella entrasse.
A eminente actriz circunvagava a vista em procura d'alguem. Como
Rogrio se tinha approximado um pouco,  semelhana d'estes ces
batidos que veem de rastos para o dono, ella, n'um rir cascalhado,
disse-lhe assim:

--Ouvi que no tinha gostado do meu desempenho no segundo acto. Um
homem difficil, o senhor. O monologo ento, detestavel! Mas
podia ter-m'o ensaiado, com o seu ponto de vista.

--Mas, atalhou o pobre auctor balbuciante, eu no disse...

--Se a pea tem musica, foi ella dizendo com volubilidade, quem fazia
uma creao unica, por certo, era a prodigiosa Alcina. Sua prima! E a
proposito. Que faz _isso_ agora?

-- cruel o que est a dizer.

--Justia ao merito e mais nada. Assim, prejudiquei-lhe o debute...
Que infeliz eu tenho sido com os genios d'incubao demorada! Talvez
inda arranje um remorsosinho por tanta incapacidade.

--L se lhe  agradavel fazer-me soffrer...

--Diga  Laura que tem logar aqui. Ella s--e como elle aventurava
desculpas n'um tom de collegial submisso:--mau! perdemos tempo.

Rogrio foi chamar a ingenua, que parou logo de rir, e sem dar boas
noites aos que pensavam detel-a, veio lesta anichar-se no carro da
Velledo; e foi em surdina uma altercao entre as duas. O brasileiro
atirou a portinhola, e rodaram sem fazer caso de Rogrio. Quando um
pobresinho gemeu ao p do dramaturgo:

--E eu?--Era o pensador Horacio tiritando sob a nisa rapada,
com olhos de fome e gestos vasios de mos.

--Que ? perdeu o capote? disse Rogrio distrahidamente.

--No acho logar, meu bom amigo.

--Pois enfie por ahi, grande massador.

--Ponhamos a questo nos devidos termos, ia comeando o desgraado.
Enfiar seria...--mas Rogrio agarrou-o pelos fundilhos, ergueu-o do
cho vigorosamente, e arrumou com elle para a almofada d'um cocheiro.

--Ns c, pronunciou Lindso dando o brao ao dramaturgo, iremos a p,
ha tempo de sobra. E venha de l um charuto ao seu amigo, venham de l
dois!

       *       *       *       *       *

--No me dirs, comeou elle, porque razo pouzam com tamanha filaucia
estas sirigaitas d'actrizitas, que segundo parece, fazem a honra de
ter por mim o mais tocante desprezo? Que diabo! Antinos no era
positivamente meu pae. Mas sinto-me bastante feio para ser sympathico
a uma mulher; e a lingua em que solicito d'ellas algum favor
pequenino, pequenino,  um portuguez todo metaphoras cr de
ceu, e com o agridoce das ginjas garrafaes. J digo, -me odiosa a
meia mascara. Mulher completamente honesta, ou ento mulher
completamente perdida. Nada de meios termos! Contempla agora tu o
monstrosinho defecante que se chama a femea dos nossos palcos, especie
de tatu dessorado e desgeitoso, que nem arte pe no prazer, nem teve a
coragem de se conservar intacta de culpa. Borbas garante, que nunca
alguem primiu polpa de actriz luzitana, donde no sahisse logo
algodo, palha de centeio ou cautchu. Olha que ha-de ser do clima.--E
depois de um silencio--Dize c. De que ceu artistico choveu esta
Velledo, a quem dizem tanta coisa em superlativo? Mas tem o ar d'uma
maritornes, essa dona, meu filho! Hombros, talvez, no discuto... Mas
como artista,  uma tragica de feira. Mulher boa para soph d'um
pernambucano. E concedamos-lhe que encha Alpalho d'assombro. Mas
d'ahi ao talento, que insondavel abysmo vae!...

--Eis o que eu digo tambem, notou Rogrio, picado.

--Pois meu filho, o asteroide dispe do mais quantioso orgulho, que
tenho visto fazer teia em cabea oca de mulher. O modo de
receber ento. Lembra a rainha Dobrada, esposa de S. M. Termo tinto,
dando beijamo aos aguadeiros. Eu vivo retirado, e no tinha ainda
podido escutar tamanho obelisco dramatico. A tua pea arrastou-me, no
admira, arrastou-me. Pois querido, agradece-lhe, estragou-te a obra,
comprometteu-te, achatou-te. Cuidas que s ainda o Vasques? Mas no!
Ests feito n'um pataco macanjo.

E como o outro ria, o desenterrado proseguiu:

--O segundo acto ento, fez-t'o ella em frangalhos. Que falta
d'inteno, que _gaucherie_ de piso scenico, que berros e que
tregeitos de maritornes! Castello Pico e Rua das Trinas _jouant la
duchesse_. E todavia ha n'esse acto um monologo, artificial como
reconstituio historica, porm habilmente instrumentado como
crescendo d'estylo.

--Ah, reparaste? disse o outro animando-se. Estragou-m'o ella. Imagina
que acaba de me passar uma sarabanda em frma, s de me vr frio no
fim do segundo acto. Sabe que me faz doido de desejos, abusa d'esta
fraqueza, e dia por dia, hora por hora, me tortura. Se lhe
vou dizer qualquer coisa,  capaz de no representar mais a pea.

--Eu a arranjo, deixa tu estar.

--Diabo! no lhe vs para ahi dizer...

--Homem, no ponhas a tua cubia pela femea acima do teu amor pela
arte. Ou se  artista ao sacrificio, ou se muda de rumo. Zurzamos esta
corja, que ha tudo a ganhar com a campanha. Porque emfim! Dirigimos
ns ou no dirigimos a opinio? Sendo assim, no te parece crime sem
fiana estarmos tolerando a desmoralisao que ahi se v por todos os
ramos litterarios? Mas onde vai isto parar? A nossa lingua acanalhada
d'estrangeirismos parvos e inuteis. O bello ideal de Garret, colhido
no elemento tradiccional, posto de banda. Um tropel de cavalgaduras
colligadas pelo rclamo, tolhendo o passo aos talentos validos.
Litteratura ingloria, atravessadia e somnambula. Litteratura filha de
paes incognitos. Peste! insistia, cuspindo, o desenterrado--e
animando-se:

--O quadro  flagrante, e no necessita de Taines nem Paulos Bourgets
para o tracejar. Basta vr o que se passa. Por toda a parte jovens
espinafres nos declaram em sonetos e odes, como acabam de dissecar as
amantes, e deitar por terra as religies e as sociedades. Na
mascarada dos poetas originaes (supponhamos) vo uns com domin de
Byron, outros de Musset, Baudelaire, Heine ou Coppe. Sahem do
collegio j desesperados, blasphemantes, com o _fatal amor_, as
ambies e os cynismos dos caracteres opprimidos pelas ferocidades da
vida social, que  nascena lhes houvesse esmigalhado os rompantes.
Alguns deitam-se a interrogar a historia, philosophias, podrides de
sepulchros...

Pensadores que no pensam nada: archeologos capazes de reconhecer
etruscos nos cacos que os barris do lixo patenteiam  porta das
escadas--e apenas um ou outro nome clareia na bancada onde esphacelam
uns de cachexia, e idiotisam outros na adorao da propria _chateza_.
Necessario pr em armas um forte cordo de tropas, que preserve d'um
tal contagio o resto da gente limpa. Por mim, insurjo-me manh: os
valentes que me sigam! O theatro sobretudo, ergamol-o da bestificao
em que jaz. Se no ha quem produza bom, resuscitemos os velhos, como
em Frana. A _Comdie_ d Molire, Racine e Corneille duas vezes por
semana. O mesmo nas _matines_ do Odon. No prestam os artistas? 
derribal-os, reconstruil-os, ou educar artistas novos. Forados a
dezenas de papeis differentes no espao d'uma _season_, os actores no
profundam papel nenhum. Os nossos escriptores de theatro, por outro
lado, entretidos a esquissar palhaadas sem graa nem coherencia,
esto inaptos para traar um typo de fortes linhas e energia
contornadora, que o comediante revista e agite co'a sua personalidade.
E chegamos a isto--Borbas empunhando o sceptro da critica dramatica, e
o borracho do Peres arvorado em, galvanisador da historia no palco
portuguez. A culpa teem-na vosss--distinguindo actores que nem sabem
virgular o papel, formando _traine_ nos camarins das estrellas faceis,
indo de rastos para os comicos lhe representarem as peas: tolerando
n'uma palavra, o jugo dos idiotas coifados de pontifices. Inda mais. O
espirito das plateias est grosseiro: pouca vibratilidade, nenhum
prazer ante as finuras do dialogo, emoo n'uma s corda... D'onde
resulta que a _ficelle_ mais decrpita, um berro d'imprecao, um
esgare terrifico no fascias, qualquer mutao vocal ou passo enfatico
contra o tyranno, alarmam a turba e tocam a rebate no sino grande da
ovao. Tudo que fr delicado, nervoso, reconditamento ironico,
escapa a essa frandulagem _d'arrire-boutique_. Eis o resultado de
trinta ou quarenta annos d'arte roubada aos dramalhes da
_Porte-Saint-Martin_, mal traduzida, mal representada, mal criticada;
elaborao sezonatica d'escrevinhadores que no souberam comprehender
a obra inicial de Garrett, e continual-a, muito menos. Em Frana, o
theatro romantico, brilhante e fecundo, inda agora impera, e est
truncando a via ao naturalismo no palco, attenta a persistencia do
gsto publico pelas violencias dramaticas, pelo talho geometrico dos
actos, e essa rara habilidade no _savoir faire_ que caracterisou
sempre a escla, desde Casimiro Delavigne a Feuillet e Dumas pae. No
d a impresso d'um trabalho de genio, esse theatro, mas  cheio
d'arte e vigor, e comprehende-se a febre que o incende, e lateja-se na
incoherencia e na furia que o convulsionam. Sardou e Dumas filho
representam a transio, inda dubia e pallida, para o naturalismo
continuador de Molire e Ben Johnson, d'onde brotar talvez o jacto
arterial que avivente a scena, decadente em nossos dias.

--Mas os novos... tornou Rogrio afagando na mente o drama que fizera.

--Entre ns levaria a palma quem soubesse continuar Garrett.
Somos um povo sem drama intimo no presente, um povo cuja vida no tem
caracteristicos, e onde os temperamentos fallecem d'originalidade.
Quadro de natureza morta. Por conseguinte, o nosso theatro ter de
viver do passado. E que passado! Artista que o assimile e insculpa
sobre a scena, precisa ser ao mesmo tempo colosso e homem de genio,
pois tem de crear figuras mais altas que a flexa de Strasburgo. Queres
a verdade? Palpei hombros de titan no teu talento, esta noite. S tu
poders resuscitar o nosso palco.

Rogrio tinha-lhe logo cahido nos braos, lacrimoso, dizendo coisas
commovidas.

--Mas que trabalho de cem sabios e vinte artistas, se quizeres levar a
cabo essa incontestavel vocao! Ters de estudar a historia pedra a
pedra, ruina a ruina, figura a figura, pergaminho a pergaminho;
critical-a, sentir-lhe o lado artistico  luz d'uma philosophia
profunda; insuflar-lhe a alma, calor, pulsao; e ir pelas ruas
depois, em busca de comediantes, a arrancal-os d'onde elles estiverem,
pelas officinas, pelas prises, cavando batatas na courella d'um
padre, ou vendendo agulhas com o prego d'um belfurinheiro.
E educal-os por tua conta,  tua vontade, sob o teu ponto de vista e o
cyclone da tua inspirao. Para que ao vermos em scena as tuas
figuras, rei, conspirador, frade, princeza e pagem, no tenhamos de
berrar--bem vos conheo, heroes de tal seculo! Esse ahi  o Miranda,
que tem varizes nas pernas e bebe aguardente na tasca do _Ferra
Moscas_; essa altiva rainha esmagando o cofre de perolas d'el-rei de
Castella,  nada menos que a Joaquina, que leva pancadas do amigo, e
ata as meias com uma guita, a meio da barriga das pernas. Passa fra,
 reinadios! Mas sem lisonja, sem a menor lisonja, a tua pea respira
enormissimo ta... pois esqueci-me de pagar os juros na _Exactido_
esta tarde, disse o desenterrado subitamente, quando iam a voltar para
o Alecrim. Leilo amanh.

Perco tudo, nao tem que vr.--Era a roupa branca da mulher, o seu
vestidito de sahir, coitada!... e chailes, um prussiano acabado de
fazer... Tudo para pagar remedios de botica. Terrivel coisa a miseria!
Dias de jantarem caf. Se emprestasses quatro libras at amanh...

A assaltada fra um tanto brusca, pois Rogrio parecia lento em
esportular a quantia implorada. Ento comeou o desenterrado
uma cantilena gosmada entre o cuspilhar do charuto, que ora se perdia,
em divagaes lyricas, ora habilmente voltava a frizar certos detalhes
de intuito prtico. E disse as duras precises do seu lar, essas
grandes batalhas tenebrosas da miseria que no pede esmola, e os
frenticos sacrificios do talento amordaado pelas conspiraes do
silencio. Rogrio inda duas vezes fez--homem,  que... homem, 
que...--mas engasgava-se, achou-se somitego, considerar-se-hia odioso
se recusasse aquella miseria a um amigo; e ao fim de dez minutos tirou
a bolsa.

--Quatro  que tu dizes, no?

--Ou cinco... ou seis... ou sete... ia dizendo Lindso, e Rogrio
deixava cahir cada moeda por sua vez--talento, muito talento expendido
a mos plenas pela tua pea. L isso! Selvageria, furias
shakesperianas, sim! A vertigem da execuo prejudica sempre a lucidez
do problema. Cinco... seis...  o sonho tenebroso e dantesco, com
sobresaltos e recahidas, que sacode pelos hombros os personagens do
Hugo. Um positivista, juntava elle n'um riso pallido de caloteiro,
deve proceder com mais sangue frio. Sete... obrigado, salvaste-me.

--V se queres mais, menino...

--No. Outra vez. De todo me tinha esquecido pagar esta
insignificancia. Deita mais esses meudos. Os pequenos precisados de
botas... Diz que querem vr a tua pea. Oh a infancia! E fechou a mo
que estendera ao dinheiro.

--Vers o meu artigo. Comparo-te aos mestres, no has-de ter razo de
queixa. E subiu  casa de prego, que era na sobreloja,  esquina, com
a sua lanterna de tres gumes, dizendo: _Exactido, penhores, juro
modico_, emquanto Rogrio esperava mordicando o charuto.

       *       *       *       *       *

Dias e mezes correram, sem que realmente as relaes de Rogrio com a
artista adeantassem muito. O pobre auctor sentia-se exhausto de
ceremonial, perdia tempo em declaraes, no largava o camarim com
presentes de flres e versos da melhor fabrica; mas fitando a grande
Velledo nas pupillas, no via n'ellas fuzilar essa scentelha brusca
com que a mulher reclama a intimidade de um homem. E dia a dia, como
ella lhe escorregava dos braos, como uma cobra, cada vez mais
astuciosa, o desejo d'elle parecia congestionar-se d'infrenes
ardores, a cada repulsa soffrida. Ia sendo tempo de se pr  vontade
com ella, de se conhecerem de perto--Rogrio tinha pouco geito para
lunatico. O amor platonico era irrisorio  sua alma de provincia,
positiva em negocios, e acostumada a satisfazer de prompto os apetites
que lhe vinham. Por mais porm que fizesse, para aos frequentadores do
camarim parecer na intimidade da artista, no ouvia rosnar em volta,
da supposta ligao. Ella via-o chegar como aos outros, apertava-lhe a
mo com um pequeno riso, fazendo telintar os braceletes.

--Bem, meu caro?

E continuava a palestra interrompida. Depois a correco exigida ao
penetrar n'aquelle camarim. Vinha-se de cabea descoberta, cortejal-a
com grandes reverencias. Os homens no fumavam. Uma palavra familiar,
uma graa mais na, transmutavam na cr as iris da divindade. E
nenhuma familiaridade antes de se ter sido apresentado com as formulas
mais puras do estylo. Porque era de saber que se tratava com uma
mulher superior, a primeira actriz portugueza, astro, deuza, musa do
drama, Rachel, Sarah, M.lle Mars, e as mais chapas consagradas n'este
genero d'apotheoses. Depois, mulher do mundo, espirito de duqueza 
Balzac, leituras finas, e seriedade de porte, dizia-se, no vulgar
entre lonas pintadas. Era d'estas mulheres de scena afinal,
corrompidas d'espirito e gastas de sensibilidade, pelo habito de
fingir, representar ao vivo, e pintar tudo, labios, cabellos,
sentimentos. O abuso de cosmeticos, estragando-lhe a epiderme da face,
prohibira-lhe as transparencias do rubor, que na mulher mesmo velha,
so a juventude eterna da alma--ao tempo que os papeis violentos,
embotando a sua vibratilidade, lhe no deixavam j sentir as coisas
originalmente e por si proprias, como se cada sensao sendo um
dedilhar de corda eolea, ficasse impossivel, estando esta corda
partida. Como todo o artista fatigado, a Velledo s obedecia agora aos
moveis extremos, o interesse, o orgulho, um vicio, um desejo, sentindo
desprezos pelo mais. Tudo era n'ella preparado scientificamente,
ensaiado, solemne, feito de cr--um papel, um sorriso, uma
generosidade, um cumprimento. Aos trinta annos percorrera j tudo na
vida, os cimos e baixos fundos torvos, onde as podrides so
pictorescas; bambochas de fabrica; mancebias d'acaso, em aguas
furtadas, com estudantes e carpinteiros; fomes de palmo, pantomimas de
feira, noites sem leito... todas as escoriaes do vicio caloteado e
baixo. Teve um filho aos quinze, de que j no sabia aos dezoito. E
pancadas, figurou no livro das prises, foi bailarina e creada de
hospedaria. Agarrada para povo n'um dramalho de apparato, uma noite
em que vagueava  busca de homem, entrra a crescer. O ponto levou-a
para casa, o ensaiador achou-lhe geito; dois ou tres noticiaristas
entraram com referencias  _novel artista_. E engrossou, encheu de
hombros, fez-se mulher; e este viver a fra curtindo, ficando-lhe o
frio olhar calculista, que farto de se vr explorado e cuspido, tudo
agora revertia em proveito proprio. A sua belleza, embryonaria aos
quinze, eflloresceu aps o primeiro filho em exhuberancias mimosas e
brancas, e delicados tons de face. Aos trinta annos, levando uma
existencia tranquilla, boa meza, dois cavallos, o palacete da Graa, e
brasileiro para _argent de poche_, Velledo era uma mulher alta,
branca, slida, admiravelmente moldada. Isto dava aos seus grandes
gestos de drama, pomposos  fora de convencionaes, uma soberania e
relevo que eram o furor do corpo commercial, brasileiros de volta,
provincias e ilhas, todo o paiz inda ranado em banhas lyricas e
sentimentaes tradices. Nenhuma d'esse tempo possuia olhos, hombros e
braos como a Velledo. Gentes decahidas por edade ou excessos, iam
ouvil-a de rainha, princeza d'isto ou d'aquillo, Fernanda, Magdalena
de Vilhena ou Morgadinha, a galvanisarem-se e readquirir tom, pela
excitao ou deslumbramento da sua voz dizendo tiradas pomposas, ou
d'essa extraordinaria carne extravasando em maravilhas plasticas.
N'uma cidade como a nossa, onde as mulheres filiformes e glaucas
lembram bichos de seda na muda, aquella magnifica e authentica mulher
fazia imperio e dava cubia, mesmo assim fria de mascara, e parecendo
viver fra de scena a eterna insomnia das estatuas. No era muito
talento, mas os gestos salvavam-n'a, depois de se haverem salvo pelos
braos. Os amantes tinham-n'a feito distincta, linha de princeza, uma
graa real a receber os que promettiam, nenhum, titubiamento em
_tte--tte_, e esse vestuario esmanchado, cheio d'exquisitice, um
pouco doido e pictoresco, que as aborrecidas inventam para se
distrahir.

Succedia andar s aranhas n'uma pea, no tendo percebido
palavra do papel, gaguejando se o lance queria vehemencia, rindo se
exigia dolorosa gravidade, avanando em vez de recuar, partindo as
tiradas, surripiando phrases s outras personagens, e compromettendo
os collegas, na espectativa de fazer quebrar a empreza.

Apesar do fanatismo pela diva, o publico esfriava, torcia-se na
plateia com bocejos somnolentos, errando a vista pelos camarotes, com
tossinhas de gato, errantes, communicativas, e esse leve rojar de ps,
que perturba de morte os actores, e tem feito o _de-profundis_ de
muito drama e comedia. Contra inanio semelhante, era conhecido no
palco o efficaz revulsivo. Dos bastidores, o emprezario mandava  dona
Eulalia trouxesse o corpete depressa. A costureira vinha a correr com
elle, emquanto o emprezario, baixinho, para dentro de scena:--_sss_...
giralda!--Signal para a Velledo desertar de scena, mesmo cortando a
situao, e fazendo falhar o pathetico do lance. E mesmo alli a grande
artista mudava de trajo, envergando o famoso corpete azul, uma nudez
como qualquer outra. Reduzia-se n'um cinto applicado a Bruxellas
finas, e servindo nas occasies desesperadas, desde que
estava eminente o fiasco. Applicava-se no publico como um sedenho ou
um caustico, no intuito de suppurar ovaes. Apertada n'elle, a grande
Velledo ficava pouco menos de na, contando bem da cinta para cima.
Corpete de fatal origem e luctuosa historia! Tinha-o inventado o
octogenario marquez das Berlengas, um galante da _sociedade do
delirio_, que pelos modos se enfeitava, quando certa madrugada nos
braos d'ella se sentiu esfriar como burro morto. E indo a
vestir-lh'o, mais animado e banzeiro, cahiu com o aneurisma rto, em
fralda de camisa, como estava, o _desdichado_!

Esse collete, justo atraz por um cordo de seda lasso e cruzado,
recordava uma _corbeille_ d'onde espumasse a radiosa florao da sua
carne, musical e superabundante--e seios turgentes gottejando rubis
das mamellas; braos torneados,  Clodion, desde o punho at aos
hombros; garganta e espaduas resplendendo essa polida brancura que o
frio marmore nunca d, e vem talvez da circulao juvenil e do azul
aponevrotico, coados por uma epiderme vibratil e s.

E apenas ella entrava assim eloquente e vil, um rumor corria por toda
a banda, e em ondas, sentia-se ir aquecendo a sala. J das varandas
vinham estalos de lingua, e a velhada ia esfregando uns contra os
outros, febrilmente, os seus joelhos carcomidos. Gradual, a tempestade
de bravos ia-se encapellando, agglomerando, contundindo. Havia no
ambiente podre revoadas de _sss_... E a excitao, como uma cheia,
afogava tudo, derrancando pela raiz os impulsos da bestialidade
humana, e pondo  mostra a torpeza physica dos mais graves
funccionrios. Era ento que se viam velhitos da mais austera
prudencia, curvando em gestos macabros sobre os vizinhos--juizes,
antigos ministros, conspicuos directores de banco, e chefes de
secretaria--furiosos d'amor canino, e dando a sua opinio d'olho
esgazeado. Ella, na scena, parecia uma bella estatua reanimada, to
nobres as linhas da sua anatomia esplendente. E quasi na, corria-lhe
na carne um arfar d'emoo radiosa. O pescoo era maravilhoso de
finura; ria-lhe uma sensualidade no modelado do queixo; emquanto a
narina n'um frmito, dir-se-hia seguir o rolar d'olhos reaes que ella
pela sala deitava. Erguia o brao n'um movimento afadigado; e viam-se
cabellitos na axilla, muito pretos. O arco das duas sobrancelhas,
quebrado em accento circumflexo, exprimia maravilhosamente o desdem. E
suspensa, a sala aguardava que ella fallasse.

--_Senhor! Ousa insultar uma mulher que se no defende? Perigoso me
tinham dito que era; cobarde nunca!..._--e ao meio da scena, n'uma
colera de deuza, a cauda em serpente, um dos seios espreitando a
tourada de focinho sobre a orla do corpete, bramia a terrivel
sacerdotisa:

--_Saia!_

Sublime! Sublime! era a palavra de toda a gente.

       *       *       *       *       *

Precisamente n'este remoinho de celebridade e de gloria, depois da
grande scena do terceiro acto, uma noite, Rogrio declarou-se a
Velledo, n'um portuguez que a actriz no usava escutar l muitas
vezes. Fra n'um escaninho do palco, durante a mutao de scenario.

--Palavra, adora-me, o senhor? disse-lhe ella escarnecendo.--Elle
compunha uma attitude fatal, como se quizesse magnetisal-a de paixo.
E despiam-n'a, os seus olhos faiscantes de vicio.

--Dizer-m'o no basta, tornou a eminente actriz.  necessario
que m'o prove.

--Mas como? disse elle surdamente.

--Isso no  commigo.

E depois d'uma pausa:

--Ha talvez um meio de principiar. Porque no comea a ter talento?

Rogrio no respondeu, mas os seus olhos, como brasas, na pelle branca
do colo d'ella, redondo e n, chamuscavam-n'a, mordiam-n'a,
apalpavam-n'a, servindo-a como um goso arrancado  fora. E n'um
desvairamento, agarrou-a pelos dois braos sifflando, engasgado de
furia.

--Cala-te estupor, cala-te diabo!--Era n'uma sombra de panno de fundo,
que vinham, de correr. E a Velledo debatia-se, aterrada do escandalo,
cahida do respeito usual por semelhante violencia. Rogrio tinha-a
cingido pela cintura, e apertado contra o peito, nas agonias d'um
toiro; e aos beijos por toda ella, na bocca, na garganta, nas
espaduas, sobre o peito, percorria, babava-a, delirante, horrivel de
desejo, deixando-lhe vermelhides por toda a parte, signaes de dedos
crispados, babugens de raiva lubrica, que no p d'arroz deixavam
listres nojentos de vr. Enxovalhada da brutalidade, a
Velledo chorava, gaguejando:

--Infame! Infame!

Despenteara-se na lucta, tinha-se aberto o colar, um dos colibris da
tnica cahira, violentamente roado. Rogrio ficra a resfolegar n'um
canto. Mas ouviu-se o contra-regra chamar para a scena do jardim; e
com a voz musical de quando estava elegre, a Velledo desatou a rir
alto entre os bastidores. E mal o gal disse--_ ella, conheo-a, o
corao m'o diz!_--entrou em scena radiante e magnifica, monologando
para si:

--_Elle prometteu-me que viria. O seu amor  leal. Vir de certo_--e
n'uma expanso d'amor:--_adoro-o, sim, adoro-o!..._

--Has de c cahir, cegonha! fez Rogrio esfregando as mos. E ao outro
dia foi-lhe pagando as contas da modista. Mas j entravam a rosnar. Os
ganymedes de palco, gentinha disposta a explorar, intrigar, levar e
trazer segredinhos, bilhetinhos, cobriam Rogrio de perguntas sobre a
tristeza em que o viam, com subtis alluses  actriz. Nos camarins no
se fallava n'outra coisa. Sabia-se que elle hypothecra as ultimas
propriedades, perdia ao jogo, e mandava  Velledo todos os
dias, uma grande _corbeille_ de camelias e rosas confeccionada no
Neves. De quando em quando, presentes de galantarias antigas que ella
colleccionava com paixo, _bibelots_ de Svres, pratos e _netsks_ do
Japo, aguarellas, bronzes e moveis delicados, pequenas peas
vasculhadas nos adelos e casas de penhores, com paciencia de santo,
regateadas durante horas, e muitas vezes adquiridas por preos
escandalosos. Como amador de _bric--brac_, Rogrio era uma besta,
chegando a pagar por libras monos de loja de ch, fallidos de todo o
merito. Velledo encolhia ento desdenhosamente os hombros, mirando a
bugiganga. E com irnica piedade:

--Decididamente tem o gosto caraba. V-se logo que  da provincia.
Foi do leite. Obrigado. Ou era uma fayana repetida, qualquer pea que
ella pedia para lhe comprar, e Rogrio j no encontrava no bazar
indicado. A actriz impacientava-se ento, fazia momo com o seu
beicinho vermelho, batia o p vendo-o chegar de mos vasias.

--Se elle  um desastrado! Fosse quando eu lhe disse.

E predileces de momento, ambies por quanto via nos armazens, e
logo tdios pelo que ia adquirindo. Em dias de nervos quebrava,
mordia e rasgava tudo para se vingar, na epilepsia dos que tendo feito
das impresses violentas um habito abusivo, desesperam por fim, se
acaso em vo apoz ellas correm. To raras as horas de bom humor, que
Rogrio, se alguma surprehendia, dir-se-hia gosal-a como recompensa
disputada. Esse homem altivo cahia aos ps da sua gata sabia, em
pieguices de collegial, deixando-se explorar por prazer. E sobre a
posse to ardentemente implorada, nem rastro d'esperana! Se ia
beijal-a com mais furia, se a queria enlaar pela cinta, ou a
respirao cortada n'elle trahia alguma ideia occulta de deleite, ella
logo de p, faiscante e sarcastica, para o repellir com desprezo.

--Olhe que me no esqueci d'aquella canalhice do theatro, hein?--ou
fazendo saltar o _lorgnon_ Regencia:

--Ora filhinho! Deixa-te d'asneiras. Isto  do brasileiro.

Mezes passavam assim. Se por um lado Rogrio no adeantava com a
actriz, recebia por outro, do brasileiro, provas de deferencia e
familiaridades em cada dia mais profusas. Tinham comeado as relaes
por uma polidez reservada, que parecia occultar as mais cathegoricas
antipathias. Dopois, aquella crosta d'indifferena estalra
aqui e alm, n'um cavaco mais vivo, n'um accordo ou outro d'acaso.
Rogrio sondava os gostos do brasileiro, lisongeava-lhe os ridiculos,
punha-se ao lado das suas opinies, aturava-lhe as estopadas, ou
conseguia rir das graolas d'elle. Era um pobre homem, limitado e
benevolo esse brasileiro, que todo entretido a enriquecer-se, na
mocidade, mal tivera tempo para gostar d'uma mulher--e assim
conseguira embarcar na velhice, conservando intactas, pudicas quasi,
as intimas juventudes do seu corao, uma singeleza timida e crdula,
uma especie de convico da sua inferioridade, como animal, em face
daquella grande rainha da scena, e pequenas attenes balbuciantes
para os caprichos d'ella, torturas soffridas sem revolta, e
humilhaes inda por cima agradecidas, n'uma effervescencia de
lagrimas.

Esse mudo velho de olhar ardente e mos de cavador, de continuo
enluvadas, alto, negro, com uma barba branca de negreiro, e uma
gravata de coleira  volta dos collarinhos molles, esse mudo velho,
parecia marchar somnambulo na sua ida fixa, dolorosamente algemado 
sua paixo como a um cepo de patibulo, para toda a gente
affavel, dizendo _muito obrigado_  creadagem, orgulhoso de ter em
casa da Velledo o ar d'um intendente, desolando-se em suspiros que a
edade j fazia grotescos, desdenhado, repellido, porm fincando sempre
nas derrotas de cada dia, a coragem para insistir nos dias seguintes.
Emquanto o pobre suspeitou que as denguices de Rogrio viessem a ter
resultado, foi sempre mantendo  vista d'elle, uma reserva polida,
quasi fria. Os cumprimentos que trocavam, traziam, mesmo de longe, um
asco a desconfiana. Os risos d'elles, ao toparem-se, no sero da
tragica, eram um espremer de beios seccos, com distillo d'amargura.
Mas breve o nababo concluiu que no viria de Rogrio o vento mau de
desgraa, que lhe varresse a Velledo, como uma _nau dos quintos_, do
mar banzeiro em que elle a trazia balanceada e repreza. Uma magua
identica, parece, lentamente os conduzira a uma sorte de camaradagem.
E vieram jantares, pequenos conselhos ditos na meia intimidade d'um
segredo, favorsinhos que se calculam e esto prestes ao primeiro
signal. Por fim deram o brao, trocaram brindes, comearam a
sympathisar; e havia quatro mezes que o brasileiro j no
passava sem Rogrio, e Rogrio se afizera a procurar todas as tardes o
brasileiro. Velledo espiava aquelles manejos, deixava-os consolarem-se
um no outro, e ia-os explorando systhematicamente. Era o tempo em que
a fortuna de Rogrio via o comeo do fim, e Lisboa lhe ia notando as
primeiras joelheiras, as luvas safadas e as golas russas. E os beios
d'elle enlivideciam, uma magreza patibular fazia-lhe duro o perfil; e
enfastiado, mos febris, no dava palava a ninguem. Em volta ao caso
ria toda a gente. Apenas o grupo srio de Pirralho, philosopho
Horacio, festejado Peres, e a ninhada de fedelhos positivo-publicistas,
lia n'essa fronte sulcada, n'esse olhar fixo e interior, a gestao
laboriosa d'algum grande livro. Actores, j o tratavam de resto, no o
sentindo como outr'ora, generoso d'emprestimos, e to prodigo
d'alegres ceias no _Gibraltar_. A primeira vez que appareceu sem
relogio, fumando cigarros de mendigo, quasi todos, achando-o pulha,
lhe voltaram as costas.

Por esse tempo revelava-se Alcina, que passra da opera-buffa ao
theatro de declamao, prima de Rogrio e sua primeira amante. Fra na
Suzanna do _Demi-Monde_, papel de prova, cheio de movimento
e finura, em que por confronto a Velledo tinha dado um estenderete
medonho, e que Alcina fez com distinco surprehendente. Sobre o caso,
a critica fez-se ouvir muito acerba contra a Velledo, mau grado as
supplicas do brasileiro e de Rogrio, a que fosse poupada a grande
sacerdotisa. Em quasi toda a linha jornalistica, de repente, as
hostilidades romperam com violencia brutal, bipartindo-se os criticos
na hoste dos que bradavam--Velledo!--e na dos que punham Alcina na
mais brilhante evidencia. A prima de Rogrio, por conseguinte, passou
a synthetisar a escla nova, como a Velledo era a expresso da antiga
arte. Pirralho e o magreiro Lindso, macacos-pontifices da alta
critica moderna, saudaram a musa nova em rutilos artigos crivados de
referencias picaras  antiga primeira actriz portugueza, na qual tudo,
segundo elles, era convencional. A historia do corpete fez escandalo
de morrer a rir. E dois ou tres _distinctos escriptores e nossos
amigos_ estiolavam-se a calcular os annos que ella teria d'edade, o
que esbanjava em cabellos postios, e da composio chimica d'aquelles
seios esculpturaes...

A actriz Alcina, no! Era a mocidade maleavel e viva, a
intelligencia sagaz que tudo penetrava sem esforo, o genio
desprezando artificios, e dando-se  plateia em relampagos--e como
mulher, uma nympha de Clodion, elanada e viva.

-- necessario derribar os falsos deuses, escrevera Lindso. A arte 
constantemente evolucionista. Quem no progride, no a acompanha, e
elimina-se pelo esquecimento ou pelo desprezo...

--Isso  forte, homem...

--Qual forte! Uma velhaca que nem bilhetes manda para o jornal! E
d'ahi pe recusas s nossas mais ternas blandicias. Pde-se l
soffrer!

No entanto crescia o desespero da Velledo, que chorava dias e dias
accusando o emprezario, no querendo estudar os papeis, cobrindo a
imprensa d'insultos, Rogrio e o brasileiro de repelles. Uma manh,
apenas aquelle veio, ella resolutamente:

--Essa creatura que elogiam por ahi,  sua prima, e foi sua amante, j
sei. Porque no accedo ao que o senhor pretende, move-me guerra nos
jornaes.

Rogrio ia protestar. Ella disse--canalha! e mais
rapido:--em todo o caso, oia. Se a pea nova fizer reviramento
completo na imprensa, expulso o velho e entrego-me a si. Ha uma
condio de que no abdico, note bem. Que essa bebeda seja posta de
rastos, fra do theatro em que eu represento. O resto  com o senhor.
Acceita?

Elle poz o chapu na cabea, disse:

--No!--E sahiu como doido.

       *       *       *       *       *

Chovia, e elle sem guarda-chuva, pisando a lama com sapatos de baile,
seguia alagado ao longo dos predios. Dois ou tres amigos chamaram-n'o
de dentro de trens, para que viesse abrigar-se. Olhou-os com ar vasio
e foi andando. A sua paixo pela actriz, avolumada pela resistencia,
obstruia-lhe a livre esphera da deliberao, da aco, e desvairava-o.
Que havia de fazer? A pobreza fizera-o mesquinho: e vinha-lhe com
teimozia a ideia do dinheiro gasto com essa mulher, sem reserva, sem
egoismo e sem calculo, n'uma boa vontade de rapaz. E nem mulher nem
dinheiro!... Ento recrudescia-lhe o desejo d'ella, e era uma febre
bestial d'amor que o espicaava a todo o instante e lhe fazia
delirios. Foi pelas ruas de mos nas algibeiras, flanando ao
acaso na lama. Vendo um antigo freguez, os cocheiros paravam
fazendo-lhe signal--e era uma humilhao para Rogrio ter de recusar,
ou virar a cabea fingindo no ver. As ruas surprehendidas por essas
primeiras gottas de chuva hibernal, tinham sobresaltos e gritos de
vida que procura abrigar-se, a um tempo frenetica e contente...
mulheres apanhando os vestidos, homens erguendo as calas at  origem
das polainas, chamando os trens, ou entrando  pressa nas escadas.

O ar frio dava s epidermes das mulheres um cr de rosa mais pudico.
Era a hora do Chiado, e os trens desciam para os armazens de modas, em
cujas _vitrines_ se encontravam j densos estofos, chapus e capotas
do ultimo modelo. Lisboa, que voltava das praias e estaes d'aguas,
procedia  sua installao, buscava nos livreiros as ultimas edies,
lia os cartazes dos theatros, escolhendo a sua noite, dictando a sua
_toilette_, familiarisando-se com os aspectos das ruas e o rolar das
carruagens. E a cada instante, Rogrio tinha de fazer um signal aos
conhecimentos antigos, actrizes dos pequenos theatros, jornalistas,
_dandies_, horisontaes; toda a mascarada elegante passeando
os primeiros paletots estofados, no giro da evidencia e da moda. E
intimidades que roavam pela fadiga do seu casaco um velho dito
maldoso, desdens que lhe acenavam de longe co'as pontas das luvas
amarellas, piedades vis que o lastimavam, ou peccadoras que lhe riam
pela ferida dos beios pintados, tendo partilhado outr'ora o luxo dos
dias aureos de Rogrio. Parece que tinha combinado cruzar com elle
hombro a hombro, essa tarde, toda a revoada de doidas sereias avivadas
de chic!--Primeiro Laura, a _condessa_, uma soberba rapariga que
explorava um club de velhos, e era gosada por aces. E as mais:
Annita, que surprehendendo a primeira sombra na face, ia casar com um
judeu capitalista; Hermine, o vampiro, de cujo leito phosphorejavam as
monstruosidades dos harens da Asia; Luiza, alta, morena, s, com os
seus eternos grandes sapatos de homem, e os seus modos decididos de
_commis-voyageur_... E o pobre auctor de preoccupado, nem reparava no
espanto e na commiseraco com que o fitavam. Uma patifaria sem nome,
quererem voltal-o contra Alcina, rapariga de talento afinal, cuja
carreira difficil ella percorrera toda, sem auxilio nem reclame!
Doida, boa, sincera de mais, e por isso mesmo enganada sem
rebuo. Eil-a ahi na celebridade, chegando ruidosamente ao pinaculo,
musa de um grupo de artistas. Promover-lhe a queda, expulsal-a do
primeiro theatro--que negra infamia pretendia ento a outra d'elle?
Chegara ao jornal do Lindso sem dar por isso. Subiu. Inda no tinham
sahido das reparties, e a redaco estava deserta.

--O snr. Lindso, disse Rogrio para o gerente.

--Primeiro gabinete,  esquerda.

Estava l. Ora viva! disse Rogrio.

--Sei a que vens. No posso pagar-te inda hoje. S benevolo uns dias
mais. E volubilmente:--Ento sabes? Os constituintes venderam-se.
Estou aqui a rachal-os de meio a meio. A que chegmos! E mostrava os
linguados escriptos--Lisboa vae vr o bom.

--Eu c, disse Rogrio, vinha para outro negcio. Janta hoje commigo.
Tenho l baixo um trem.

--Demonio! pois sim. Ao _Central_?

--Em minha casa. Descobri uma cozinheira incomparavel. Pulcheria se
chama. Ento a mais acrisolada sciencia nos molhos! Tenho um Murillo
no quarto, que outro dia, sentindo o olor d'um bacalhau
confeccionado por ella, sahiu  casa de jantar acceso em fome.

--Raio de cozinheira!

--Vens d'ahi?

--Dois minutos para terminar a demolio d'um partido politico. E como
se porta na lebre ensopada, essa tal Pulcheria?

--N'isso ento! Imagina um d'estes acepipes tenros, alpestres,
perfumados, extranhos... A pastoral de Beethoven com tubaras de
recheio. Homem, no Algarve estava um defunto no esquife; vae ella,
chega-lhe s ventas carneiro com batatas--e o morto pega a bailar no
meio da casa.

--A caminho, fez o outro espicaado pela fome de quarenta ces sem
dono.

A casa de Rogrio era perto, e em dez minutos faziam elles a sua
entrada no escriptorio. Rogrio fechou a porta da escada e metteu a
chave na algibeira.

--Ah diabo! exclamou Lindso com uma palmada na testa. De todo me
esqueceu falar da tua pea. E que tinha planeado uma coisa magnifica!
Artigo para o publico, est claro, coisa d'arrombar ahi tudo. Entre
ns, franquezinha. Deves deixar o genero: o teu drama, aqui para ns,
era quasi infantil.

Rogrio, surpreso, nem falava. Que exhuberancia de malandro!
pensava elle.

--Nem admira, continuou Lindso. Tu, o que ha de mais moderno no
estylo ligeiro, de mais elegante, de mais parisiense, cahes agora na
monomania de fazer viver sobre a scena os assumptos historicos!?
Primeiro, no s um erudito. Segundo, no tens a corda dramatica. E
olha que influe alguma coisa, a gente no se chamar Walter Scott ou
Shakespeare, menino.

--Sopra-te o vento d'outro lado, esta manh, tornou o dramaturgo com
os beios brancos. Em todo o caso, ouve. Eu li o que escreveste sobre
a Alcina...

--O artigo para amanh  superior. Vaes vr que maravilha d'analyse e
graa humoristica. A sagacidade do Taine na frma irisada do Wolff.
Ah, meu caro Rogrio, meu bem! Ponho a Velledo em picado. Dez annos de
lucta, e regeneramos o theatro portuguez.

--Trazes o artigo?

--Vou lr-t'o. Ficas assombrado.--Mas onde foi elle buscar este vigor
de linguagem, este conhecimento do assumpto, esta chuva de sarcasmo e
pedras preciosas? dirs tu. Ah, Rogrio! Nasce-se.

Enfastiado, risonho, o dramaturgo fez-lhe signal para que
lsse. O artigo era uma catilinaria habil, gradual, bem deduzida, e
feita com esse sarcasmo sereno, quasi limpido, de quem no receia lhe
tomem contas. Definia a arte nova em termos firmes, historiava-lhe a
evoluo rapidamente, frisando-lhe os intuitos, explicando-lhe o
destino e o nivel philosophico. Cahia em seguida sobre os actores, no
tom desdenhoso de quem trata subalternos--e uma vez alli, tocava na
Velledo. Desde esse instante, uma furia explosia no artigo, e as
ironias eram um crivar de balas no corpo d'um fuzilado. Segundo elle,
no era possivel mais tolerar sobre a nossa primeira scena, uma actriz
cheia d'artificios e ronceiras manhas; cantando, se declamava; e no
tendo mais a voz maleavel, nem vivaz o gesto, nem a _pose_ esculpida
na proporo da figura que reproduzia. Desmemoriada, envaidecida,
tola, velha, quasi feia...

E no final, em palavras metallicas, enthusiasmadas, relampejando
fundos d'apotheose, entrava a dizer que Alcina era o astro do dia novo
na arte, subindo tocado de flammas, com a grandeza d'uma redempo
pronunciada de ha muito, pela critica imparcial...

--Admiravel, hein?

--Pois sim, fez Rogrio retesando as pernas. Quanto ganhas tu por essa
canalhice?

O outro, embasbacado! Quanto ganhava?

--Ora essa! Eu no trafico com o sacerdocio.  convico.

--Sabido! O artigo de hontem trazia as tuas iniciaes. Publica o de
hoje com o nome todo; tens dez libras.

--Hein?

--Smente onde estiver Alcina, pors Velledo, e onde Velledo, Alcina.

--Que quer dizer toda essa cantiga?

--Nada de scenas. Entre pulhas, o descaramento  a alma dos negocios.
Dez libras para virares d'opinio. Recusas? perdes o dinheiro e
quebro-te as costellas. To certo!...

Lindso fizera-se verde, queria-se erguer, no podia; e tudo era olhar
para a porta, calcular a retirada.

--De maneira que o teu jantar era isto? E a cozinheira Pulcheria...
Traste!

Rogrio no respondeu.

--Mas tu? a ferro e fogo com a Velledo, porque te voltastes  ultima
hora? Arranjos! A corja que se entende e se harmonisa.

--Faz as emendas que te disse, tornou Rogrio docemente.

Mas o desenterrado hesitava.

--Com quem imaginas tu que ests falando? aventurou-se elle a
perguntar.

Rogrio agarrou-o pelo pescoo, como as cozinheiras fazem aos gatos
lambareiros.--Anda! Seno desfao-te! Seno atiro comtigo da janella!

-- violencia. Protesto! ganiu o desenterrado debatendo-se. Mas a voz
de Rogrio rebentou n'um estampido.

--Olha que eu estrangulo-te. Escreve!

Fez-lhe pegar na penna.--Emenda!--E roxo d'asphyxia, cyanosado,
humilhado, escorrendo suor, o outro emendava. Rogrio agarrou no
artigo, leu tudo minuciosamente, e inda apontou um ponto ou outro para
Lindso corrigir--Agora assigna!

O miservel em soluos, arquejando horrivelmente, assignou.

--Tratante! Eu me vingarei. Ai de ti! Rogrio ria freneticamente.

--Amanh pea nova, ajuntou elle n'um sarcasmo tranquillo. Quatro
actos d'Augier, alguma coisa de fino e superior. Alcina l vae
enrodilhada n'um papelito quasi de comparsa. O melhor papel
para a Velledo! Ella que at agora s fazia os pezados centros
dramaticos, _Joanna a doida_, a _Mulher que deita cartas_... entra
n'uma phase nova, quer mostrar que conhece a escla moderna. Eh! Eh!
que diz a isto o scintillante Lindso? O publico tel-as-ha na mesma
noite, as duas, face a face. Elle  imparcial. Julgar.

E emquanto a raiva branca epileptisava o outro--Amanh os jornaes
saudaro a eminente actriz, pela penna dos mais festejados
escriptores. E na noite da pea, enchente  cunha, bilhetes a libra,
uma chuva de coras. Ah, desforra estrondosa! Triumpho como ninguem
viu outro! E alcanado por mim. No que eu admire a Velledo. O que
escrevem contra ella  verdadeiro. Mas apraz-me esmagar essa tropa de
canalhas vendidos, a comear por ti.

--Sim! Ainda hontem a querias derribada, essa Velledo, j hoje lhe
advogas a victoria. Quanto paga o brasileiro por esse enthusiasmo? s
dos meus. Vendeste o que te restava, entras a viver d'expedientes. Eu
c fui sempre pobre, ao menos. Seguia o meu caminho bem ou mal, sem
po muita vez, oito dias n'um quarto alugado, oito n'outro,
expulso quando no tinha com que pagar, desempregado, mal visto,
esbarrando com a antipathia de toda a gente. Queriam no meu porte a
nitidez d'um cavalheiro? Dessem-me de comer. Rogrio, inflexivel,
chamou o creado.

--Isto ao jornal.

--O jornal no publicar, disse Lindso.

--O teu no. Mas o meu... Agora vamos a jantar.

--Obrigado. Acabemos com isto. Abre-me a porta!--Era quasi noite.

--Nao. Dormes c hoje, tornou Rogrio.

--Vou gritar, n'esse caso.

--Hum! No cahirs em semelhante tolice. Ao primeiro berro,
amordao-te, e passas a noite n'uma camisa de foras.

--Mas isto  inaudito!

--Creio que sim.

--Hei-de tirar uma desforra.

-- da ordem.

--Mas quando me deixam sahir ento?

--Quatro da manh. Hora em que a tiragem dos jornaes est toda feita.
E corao ao largo, anda jantar. Conversaremos como bons camaradas.
Isto aqui no  agora nenhum carcere; podes circular pela casa toda.
Hein? No me arreceio das gavetas: vendi as pratas, e no ha
vintem por cima das mesas.

--E promettia-me dez libras, _isto_!...

       *       *       *       *       *

Quem hasteava a Velledo era um grupo d'escriptores de pulso (como
ento se dizia) feito do pae nobre Tiburcio, critico Borbas, festejado
Peres, Rogrio, Moreira das magicas e os inimigos d'Alcina. Uma
espcie de cenaculo, que receando a decadencia da scena, se impuzera
alumiar o gosto da turba, com a luz dos seus talentos _conspicuos
quanto experimentados_. Esta tropa de massadores, quasi todos carecas,
decidira pr dique  sedio de Pirralho e Lindso, creando o
_Binoculo_, semanrio que definiria a misso do theatro, pondo em
relevo as regalias dos auctores, e encarregando-se de catalogar os
comediantes pela ordem e genero dos meritos que patenteassem: quem
havia de ser o primeiro, quem havia de ser o segundo...

A convite de Borbas tinha-se o conclave reunido n'uma botica da
rua do Amparo, com penna e tinta para tracejar das resolues
adoptadas. E houve logo disputas sobre o titulo da folha.--_O
Binoculo_, dizia festejado Peres.--_Arte de Talma_, opinava pae nobre
Tiburcio.--_Diabo Verde_, era o parecer do Moreira das magicas. Porm
Borbas, um auctoritario que tinha o culto das civilisaes antigas,
disse logo: _O Capitolio!_ Cada qual ento pediu a palavra afim de
justificar o seu titulo. Engalfinharam-se uns nos outros, 
descompostura. Como estava vivo de vespera o artigo de Pirralho
exaltando Alcina, urgente se tornava fazer sahir resposta bem
official, bem da _mestrana_, que trancasse as doutrinas da escla
avanada. Suspensa a sesso por vinte e quatro horas, cada um foi
estudar para casa o que havia d'escrever no jornal, com promessa
d'assembleia no laboratorio da botica, ao dia seguinte.

No outro dia, eil-os de volta arrastando as passadas, beios lividos,
olho morto, tendo perdido a noite sobre os melhores auctores. Varios,
seguidos de gallegos, tinham feito conduzir annos inteiros da _Revista
dos Dois Mundos_. Borbas, em casaca e tira branca, solemne,
convencido, radiando uma vasta auctoridade, appareceu com a sua resma
d'apontamentos. Aberta a sesso, palavra a um, palavra a outro,
combinaram-se notas, organisou-se o plano d'ataque... resultado, duas
columnas de sandices e a ideia do jornal posta de banda. Foi o momento
de Rogrio fazer a sua entrada na sala. Inquiriram todos: ento?--Era
na manh sequente  deteno de Lindso.

--Sanou-se tudo, ganhamos, exclamava o dramaturgo n'um jubilo. Lindso
nosso. Vem o artigo na _Gazeta do Sport_.

--E viva!

--Quasi todos os jornaes fallam da Velledo em quatro columnas e cinco.
Grandes letras, titulos d'arromba... _Um genio! A primeira tragica da
Europa. Continue progredindo..._

J vinte mos cresciam vidas para os jornaes que elle trazia.

--Venha de l isso. Venha de l.

Estendiam as folhas por cima da mesa, tumultuosamente, vangloriando-se
dos artigos como d'obra sua, dizendo alto as passagens flammantes.
Gritava um:

--Isto soprei eu ao articulista. Outro:

--So as minhas ideias escriptas e escarradas.

--Escarradas sobretudo, insinuava um terceiro.

Nenhum d'elles escrevera uma virgula, mas procuravam enganar-se,
dizendo:-- como se os artigos fossem escriptos por ns,
visto que demos a substancia.

--E pagos por mim, suspirava Rogrio arruinado, auctor e victima do
triumpho que elles se attribuiam. Mas Borbas, esfregando o nariz como
um boto de campainha, rosnava com entonos de leo:

--Tiveram medo. Inda valho alguma coisa.

_D. Maria_, essa noite, offerecia o mais bizarro e pictoresco aspecto.
Uma furia revolvia a turba na plateia; havia conclaves pelos cantos,
palavras altas; gestos doidos sahiam dos grupos, accentuando alguma
affirmativa audaciosa--e os decididos declaravam que havia d'ir tudo
raso! J os informadores de jornal, correndo os olhos pelos camarotes,
de carteira aberta, tomavam nota dos nomes e _toilettes_. Aqui e alm,
pelas ordens caras, faziam-se ruidos vagos, arrastar de cadeiras,
risinhos cantados de senhoras: um _bournous_ desacolchetado no fundo
d'uma frisa, distrahia subito as palestras, e luminosas espaduas
gottejadas de diamantes, vinham  luz do gaz espanejar brancuras
exoticas de magnolia. Toda a galante guarda de semi-mundanas,
destacava pelos logares de honra, os seus estapafurdios
couraceiros, todos os typos, trajos e cres de cabellos. Laura a
_condessa_, em pellucia verde pavo e rendas pretas, tincta de loiro
essa noite, punha um bonnet de pennas delicioso. Luiza em escarlate,
bordada de vidrilhos, admiravelmente grande e bem feita, dir-se-hia
brotar d'um cacto com a rebeldia d'um gnio de volupia e ruina.
Hermine, de damasco branco, decotada at ao ventre e coberta de
geraneos pallidos, soberba de carne, divina d'impudor, affixava o seu
riso de bacchante, vago, inquietador, sem ponto de mira, como essas
estatuas d'Egino que riem ceifando cabeas.

O sport era feito de figuras bassas, estranhas, espigadas, bonitas
algumas, e com um tom d'elegancia doentia. Uma especie de figurino
geral corrigia os typos, dava o rythmo dos cumprimentos trocados,
parecia decretar do entono da pronuncia, e haver stereotypado das
boccas, o mesmo modo de rir altivo e frio. E apontavam-se as figuras
salientes--o marquezito de Selmes, imberbe, loiro, quasi ideal, com
vicios perversos e um geito cynico na bocca de cherubim: to
predestinado a gommoso, que apenas parido, entrra a pedir cognac e
vinte libras, afim de se abalar _chez Tata_. Junto d'elle, o
visconde de Palhalvo, de craneo em pera, com bochechas immensas que
lhe esmagavam a bocca e o nariz, mostrava nos olhos ternos, genero
carneiro morto, a todas as ricas herdeiras, o seu joven corao
devoluto. Alberto M., poeta insonso, tortulho ultimo da epocha
romantica, muito estimado nos sales, e causador dos mais finos
adulterios, debruava-se todo para uma viuvita loira que vinha
d'aliviar o luto. E a phalange alegre das ceias nos gabinetes do Matta
e do Augusto: mulheres fugidas aos maridos, actrizes sem theatros,
filhos de banqueiros, vergonteas fidalgas afundando os ultimos contos
d'uma antiga opulencia, medicos em voga, personagens alvares vivendo 
sombra d'um nome de familia, janotas pagos por uma velha.

Baro de Murtede tinha-se installado mais a franceza, n'uma frisa de
bocca, mesmo em face da esposa e das filhas, que estavam ouvindo
contar ao Alfredinho torto, o Alfredinho dos _cotillons_, uma scena de
sopapo nos corredores de S. Carlos, por causa de no sei que bailarina
americana. A franceza, muito desengonada, d'olhos pardos, irritante
de magreza, quasi diaphana, coberta de signaes postios,
ouvia-lhe distrahidamente uma tolice qualquer, abrindo e fechando o
leque, com as suas mos cobertas de pelle de Sude, que rescendiam
heliotropo. A espaos:

--_Oh, que c'est charmant! Oh, que c'est charmant!..._ e fitava com
provocao a frisa fronteira, d'onde a baroneza de Murtede fazia
olhinhos doces sobre um delegado de barba sedosa, um _vello vaicharel
da Veira_, recem-chegado  crte, que a compromettia na plateia, 
vista de toda a gente. N'outra frisa, ao fundo da sala, as Simas, me
e filha, davam audiencia, antes de subir o panno, a uma multido
turbulenta e esfaimada de _viveurs_. De longe, Hermine lhe fazia
signaes, affixando  sala a sua familiaridade com senhoras d'aquellas;
emquanto mais circumspecta toda rigorista no seu programa de senhora,
Laura, apenas de leve respondia aos cumprimentos que ellas de l lhe
mandavam, por entre macaquices de beijos, nas pontas dos dedos. Na
frisa das Simas, aquella noite, era uma algazarra de metter medo;
tinha-se installado alli o quartel general da m lingua, e o centro
expedicionario das frescatas para depois do espectaculo. A me, uma
gorducha quasi nova, com dentes chumbados na frente, e o ceu
da bocca de platina, branca, myope, dando-se um tic de palpebras muito
impertinente, esposa d'um general, e sobrinha, dizia-se, do senhor D.
Miguel, tinha comeado vida na melhor roda lisbonense, entre os
explendores das festas e a convivencia das grandes familias. Habitos
de grande vida, to funestos s pequenas fortunas, deram-lhe com a
casa de bancarrota em bancarrota. J por fim, ellas mesmas faziam a
cozinha, e cortavam os seus vestidos de sahir, convidando as amizades
a um ch, todas as teras-feiras, com piano e castiaes de cristofle,
n'um casebre apalaado ao Bairro Alto, em cujo rez-do-cho, por signal
que viera installar-se uma typographia socialista.

Para vir a casa d'ellas, em principio, inda era de rigor ser-se
apresentado--mais tarde, o general, intercedido, fez concesses, como
era bom homem... pedia ento sua meia libra, dez, quinze tostes, e a
cada conviva, alm do ch, revertia o direito de tratar por tu a dona
da casa. O general fra rico em solteiro, o jogo porm tinha-lhe
comido tudo, e a mulher esbanjra-lhe o resto. Uma filha mais nova,
Fernanda, toda mimosa na sua figurinha etherea de Gretchen, inda
chegou a ser pedida em casamento, mesmo assim pobre e mal
educada, por um guarda-marinha que, a adorava, e depois a repudiou,
sabendo a vida crapulosa da me e da outra irm. Desolada, e
desconhecendo outro caminho que no fosse o da sua singela
honestidade, sem vocao para _cocotte_, e sem coragem para
costureira, a pobre pequena atirou comsigo ao fundo d'uma cisterna que
havia no pateo.

Entanto, j a vida as apertava d'urgencias, dia a dia insaciaveis--o
luxo d'um lado--do outro lado a penhora--do outro ainda o general...
em termos que a me, tomando as redeas da casa, durante o _delirium
tremens_ do marido, entrou a dar bailes de mascaras no casebre
armoriado, abrindo as suas portas a toda a casta de rodilhes e
torpezas. Alli debutaram muitas raparigas na vida galante,
costureiritas que os devassos encommendavam  me Simas; filhas de
pequenos empregados, que entravam no baile em musselina branca, sem
brincos, nem colar, accedendo ao appello d'uma amiga de collegio;
noivas que vinham ganhar o enxoval de casamento, n'uma prostituio
secreta e cheia de rancores; hespanholas retiradas da m vida, por
algum amante que as desejasse gosar mais por detalhe... algumas
ingenuas, lindas algumas, e outras simplesmente irritantes,
pela virgindade physica que traziam, esculpida em desejos, mal
sazonados ainda, nos meios limes erecteis do peito.

Durante o dia, era frequente encontrar-se a me Simas por todas as
ruas da cidade, offegante, enrodilhada no fundo d'uma tipoia, fazendo
adeusinho aos caixeiros, rindo para os ociosos das tabacarias,
apeando-se  porta de todas as escadas sem guarda-porto. Ia em
servio.--At  noite, at  noite, dizia ella, apanhando as saias a
molhe, por baixo de cujas barras, no raro badaleavam penduricalhos de
lama immunda. E esquecida da mala por todos os cantos, voltava atraz,
esbarrava n'um taipal, ouvindo sem pestanejar, no seu _aplomb_ de
condessa, os apropositos mais desavergonhados...

Dentro de pouco, a casa foi creando fama, pelo expedito das suas
encommendas e gosto fino das suas requisies, creando fama sobretudo
na provincia, no Brasil, e por essas possesses d'Africa, d'onde
annualmente chegam a Lisboa, os mais tenebrosos, os mais acerbos
apetites de homem, recalcados na solido, e centuplicados de fora
pelos delirios cr d'absintho da abstinencia.  chronica da
casa mesmo, no livro de oiro dos escandalos mais reconditos, tinham
vindo jungir-se muitos nomes da nobresa, sangues de mil castas,
fibrina dos Gamas, materia corante do mestre d'Aviz, soro e saes de
Nun'alvares, Miguel de Vasconcellos, ou algum sapateiro da
Bairrada--todas as elegantes ociosidades patricias e dinheirosas, que
por Lisboa entreteem o fogo da luxuria, nas saturnaes nocturnas da
cidade baixa. A policia, to meticulosa para com outros gyneceus de
menos alcandorados brazes, guardra sempre ante o alcouce das Simas,
um mysterioso receio ennastrado de deferencia, alguma coisa como a
proteco da lei aos grandes monopolios. De grandes personagens se
dizia, que nas dobras d'uma capa andaluza, altas horas, alli vinham
beijar, entre duas taas de Champagne extra-secco, velludosas covinhas
de barba, divinas de mocidade, surprehendentes de frescura,
pacientemente rebuscadas, negociadas, cathechisadas, pelas Simas, me
e filha, durante uma alcovitice de semanas e semanas; atravs dos
viveiros mais bem fornidos de caa, bairros pobres, casas de modista e
bastidores. Os melhor informados, frizavam precisamente, as jerarchias
e nomes dos grandes freguezes, apontavam os cocheiros de
noite, muito em segredo commissionados para este servio deshonesto; e
outras historias lugubres... gritos de virgindades laceradas, rumores
surdos de luctas no socego tragico da casa, sombras correndo em negro,
de cabellos soltos, na brancura dos stores illuminados por dentro...
At d'uma vez... emfim, a instituio das Simas, entrada nos habitos
lisboetas, fazia-se agora to necessaria  cidade como os albergues
nocturnos ou a Escola Polytechnica.

       *       *       *       *       *

Farejando a sala, o frequentador habituado, teria podido adivinhar uma
especie de plano de campanha na ordenao dos espectadores da plateia,
plano sabio traado por algum grande claquista envelhecido nas
barafundas do proscenio. Cada ala de _fauteuils_ tinha o seu chefe. Ao
p da cadeira d'um espectador indifferente, viera installar-se um
espectador comprado. Nas primeiras filas, destacando a sua linha
temivel de luvas brancas e faces terrosas, installara-se a escla que
protegia a Velledo, na pessoa de dez ou doze escriptores cambados, e
uma tropa de conselheiros e velhotes de bom tempo, por cujos
leitos a actriz espargira os perfumes talvez do seu banho matinal.
Festejado Peres e Moreira das magicas, inquietos, encasacados,
cavalleiros de Christo, profusos d'adeuses e abraos, tinham-se
postado s portinholas da sala como duas fuinhas, passando palavra aos
que iam entrando, distribuindo poesias, pedindo applausos
descaradamente. E ao passo que o brasileiro cuidava da ceia, com
profuso de flres e philarmonicas, Rogrio levra ao Monte-pio os
ultimos penhores que pudessem pagar um brinde a essa mulher que o
entontecia e deslumbrava. No momento de descer a escada da Velledo,
ainda o dramaturgo estava decidido a romper com ella. Porm c fra, a
sua indole cobarde, amollecida de desejo, perdidos uns restos de
pudor, tinha concebido possuir a todo o transe aquelle bello corpo de
espuma e rosa, custasse o que custasse, uma s noite que fsse--e
assim organisra a reunio de criticos no laboratorio de pharmacia, a
deteno de Lindso, o chuveiro de panegyricos em todos os jornaes, e
emfim a bella enchente d'aquella noite. A imaginao de Rogrio fra
de tal ordem e presteza, que Pirralho e os adoradores d'Alcina apenas
tinham encontrado cadeiras nas ultimas filas, e camarotes
das ultimas ordens. Desterrados para to longinquas paragens, perdidos
por escaninhos taes, facil seria suffocar a pateada que elles
intentassem. Lindso, desacreditado pelo artigo d'essa manh, no
tinha julgado prudente apparecer. Pirralho voltara-lhe as costas, os
amigos d'Alcina ameaavam esbofeteal-o em publico. J o calor
aljofrava as calvas susceptiveis, e as asas dos leques, por centenas,
faziam no ambito como um borborinho de pombal.

 hora de subir o panno, o triumpho negociado por Rogrio era coisa
decidida ou quasi; e os animos pareciam propensos a victoriar, _mais
uma vez, a nossa primeira actriz_. A pea, retalhada a dialogos
scintillantes, era alguma coisa no genero Sardou e Dumas filho,
estapafurdia como senso dramatico, mas irritante d'ironias e perfumada
de gentilissimas graas--um adulterio desculpado por theorias de
folhetim, em cuja imoralidade ninguem fizera atteno. N'essa comedia,
toda sublinhada com uma rara finura, esfuziando os paradoxos por
jorros e as mordacidades por turbilhes, sem entrecho quasi e profunda
no obstante, combinando argucias de gentil-homem com sahidas de
garoto, imagine-se o que faria a Velledo, quasi gorda, chegada aos
quarenta, com gestos atufando-se na plastica slida dos braos, e no
possuindo j a nervosa vida de scena, inspirativa, momentanea, nem j
podendo facetar pelos entonos da voz, as mil intenes e subtilezas de
dialogo, d'uma pea toda intellectual como aquella. Em compensao, as
_toilettes_ de rigor, os setins roagantes, os _pufs_ d'estofo
adamascado, bordados de flres, plumas, franjas e peitilhos de contas,
iam direito  fascinao das burguezas. E apenas ella appareceu, foi
na sala um borborinho atufado--_sss... sss..._--alguns taces bateram
ainda, e houve nas torrinhas um bocejo em voz alta, intencional. Mas
estava calculada a reaco. De varios pontos, subito, ao mesmo tempo,
sahiram palmas destacadas, quatro ou cinco vezes gritando:--bravo!--e
uma formidavel salva revoou no theatro, louca, ensurdecedora, como
nunca se vira. Vibrado o centro emocionavel da turba, podia a pea ter
corrido como quizesse, bem, mediocremente ou mal; o resultado tinha de
ser uma victoria. Foi assim que no segundo acto as chamadas eram j
tantas, que Velledo fatigada, resolveu, desmaiar em scena. As flres
enchiam completamente o palco e choviam sem conta dos camarotes. De
p nas cadeiras, debruadas l cima das torrinhas, centenas de figuras
batiam as mos; e Rogrio achando ainda uma scentelha dos juvenis
enthusiasmos d'outr'ora veio  scena offerecer-lhe um volumoso cofre
de sandalo.

Disse-lhe rapidamente:--a pea nova fez successo. Cumpri a minha
promessa. Espero no esquecer a sua.

--Obrigada, disse ella, estendendo-lhe a mo, e a sua voz commovida,
dir-se-hia fluctuar n'um lago cerulo de promessas d'amor.




INDICE


  Aves Migradoras,                     5

  O Sineiro de Santa-Agatha,          71

  Pequeno Drama na Aldeia,           117

  A Provincia,                       171

  O Juramento da Condessa Esther,    195

  Coronado,                          209

  A Eminente Actriz,                 231





End of the Project Gutenberg EBook of Aves Migradoras, by Fialho d'Almeida

*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AVES MIGRADORAS ***

***** This file should be named 22622-8.txt or 22622-8.zip *****
This and all associated files of various formats will be found in:
        http://www.gutenberg.org/2/2/6/2/22622/

Produced by Ricardo F. Diogo, Christine P. Travers and the
Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net


Updated editions will replace the previous one--the old editions
will be renamed.

Creating the works from public domain print editions means that no
one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
(and you!) can copy and distribute it in the United States without
permission and without paying copyright royalties.  Special rules,
set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark.  Project
Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
charge for the eBooks, unless you receive specific permission.  If you
do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
rules is very easy.  You may use this eBook for nearly any purpose
such as creation of derivative works, reports, performances and
research.  They may be modified and printed and given away--you may do
practically ANYTHING with public domain eBooks.  Redistribution is
subject to the trademark license, especially commercial
redistribution.



*** START: FULL LICENSE ***

THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK

To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
distribution of electronic works, by using or distributing this work
(or any other work associated in any way with the phrase "Project
Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
Gutenberg-tm License (available with this file or online at
http://gutenberg.org/license).


Section 1.  General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
electronic works

1.A.  By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
and accept all the terms of this license and intellectual property
(trademark/copyright) agreement.  If you do not agree to abide by all
the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.

1.B.  "Project Gutenberg" is a registered trademark.  It may only be
used on or associated in any way with an electronic work by people who
agree to be bound by the terms of this agreement.  There are a few
things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
even without complying with the full terms of this agreement.  See
paragraph 1.C below.  There are a lot of things you can do with Project
Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
works.  See paragraph 1.E below.

1.C.  The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
Gutenberg-tm electronic works.  Nearly all the individual works in the
collection are in the public domain in the United States.  If an
individual work is in the public domain in the United States and you are
located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
are removed.  Of course, we hope that you will support the Project
Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
the work.  You can easily comply with the terms of this agreement by
keeping this work in the same format with its attached full Project
Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.

1.D.  The copyright laws of the place where you are located also govern
what you can do with this work.  Copyright laws in most countries are in
a constant state of change.  If you are outside the United States, check
the laws of your country in addition to the terms of this agreement
before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
creating derivative works based on this work or any other Project
Gutenberg-tm work.  The Foundation makes no representations concerning
the copyright status of any work in any country outside the United
States.

1.E.  Unless you have removed all references to Project Gutenberg:

1.E.1.  The following sentence, with active links to, or other immediate
access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
copied or distributed:

This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
almost no restrictions whatsoever.  You may copy it, give it away or
re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
with this eBook or online at www.gutenberg.org

1.E.2.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
and distributed to anyone in the United States without paying any fees
or charges.  If you are redistributing or providing access to a work
with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
1.E.9.

1.E.3.  If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
with the permission of the copyright holder, your use and distribution
must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
terms imposed by the copyright holder.  Additional terms will be linked
to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
permission of the copyright holder found at the beginning of this work.

1.E.4.  Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
License terms from this work, or any files containing a part of this
work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.

1.E.5.  Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
electronic work, or any part of this electronic work, without
prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
active links or immediate access to the full terms of the Project
Gutenberg-tm License.

1.E.6.  You may convert to and distribute this work in any binary,
compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
word processing or hypertext form.  However, if you provide access to or
distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
form.  Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
License as specified in paragraph 1.E.1.

1.E.7.  Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.

1.E.8.  You may charge a reasonable fee for copies of or providing
access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
that

- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
     the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
     you already use to calculate your applicable taxes.  The fee is
     owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
     has agreed to donate royalties under this paragraph to the
     Project Gutenberg Literary Archive Foundation.  Royalty payments
     must be paid within 60 days following each date on which you
     prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
     returns.  Royalty payments should be clearly marked as such and
     sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
     address specified in Section 4, "Information about donations to
     the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."

- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
     you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
     does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
     License.  You must require such a user to return or
     destroy all copies of the works possessed in a physical medium
     and discontinue all use of and all access to other copies of
     Project Gutenberg-tm works.

- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
     money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
     electronic work is discovered and reported to you within 90 days
     of receipt of the work.

- You comply with all other terms of this agreement for free
     distribution of Project Gutenberg-tm works.

1.E.9.  If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
electronic work or group of works on different terms than are set
forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark.  Contact the
Foundation as set forth in Section 3 below.

1.F.

1.F.1.  Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
collection.  Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
works, and the medium on which they may be stored, may contain
"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
your equipment.

1.F.2.  LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
liability to you for damages, costs and expenses, including legal
fees.  YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
PROVIDED IN PARAGRAPH F3.  YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
DAMAGE.

1.F.3.  LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
written explanation to the person you received the work from.  If you
received the work on a physical medium, you must return the medium with
your written explanation.  The person or entity that provided you with
the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
refund.  If you received the work electronically, the person or entity
providing it to you may choose to give you a second opportunity to
receive the work electronically in lieu of a refund.  If the second copy
is also defective, you may demand a refund in writing without further
opportunities to fix the problem.

1.F.4.  Except for the limited right of replacement or refund set forth
in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.

1.F.5.  Some states do not allow disclaimers of certain implied
warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
the applicable state law.  The invalidity or unenforceability of any
provision of this agreement shall not void the remaining provisions.

1.F.6.  INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
with this agreement, and any volunteers associated with the production,
promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
that arise directly or indirectly from any of the following which you do
or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.


Section  2.  Information about the Mission of Project Gutenberg-tm

Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
electronic works in formats readable by the widest variety of computers
including obsolete, old, middle-aged and new computers.  It exists
because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
people in all walks of life.

Volunteers and financial support to provide volunteers with the
assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
remain freely available for generations to come.  In 2001, the Project
Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.


Section 3.  Information about the Project Gutenberg Literary Archive
Foundation

The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
Revenue Service.  The Foundation's EIN or federal tax identification
number is 64-6221541.  Its 501(c)(3) letter is posted at
http://pglaf.org/fundraising.  Contributions to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
permitted by U.S. federal laws and your state's laws.

The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
throughout numerous locations.  Its business office is located at
809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
business@pglaf.org.  Email contact links and up to date contact
information can be found at the Foundation's web site and official
page at http://pglaf.org

For additional contact information:
     Dr. Gregory B. Newby
     Chief Executive and Director
     gbnewby@pglaf.org


Section 4.  Information about Donations to the Project Gutenberg
Literary Archive Foundation

Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
spread public support and donations to carry out its mission of
increasing the number of public domain and licensed works that can be
freely distributed in machine readable form accessible by the widest
array of equipment including outdated equipment.  Many small donations
($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
status with the IRS.

The Foundation is committed to complying with the laws regulating
charities and charitable donations in all 50 states of the United
States.  Compliance requirements are not uniform and it takes a
considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
with these requirements.  We do not solicit donations in locations
where we have not received written confirmation of compliance.  To
SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
particular state visit http://pglaf.org

While we cannot and do not solicit contributions from states where we
have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
against accepting unsolicited donations from donors in such states who
approach us with offers to donate.

International donations are gratefully accepted, but we cannot make
any statements concerning tax treatment of donations received from
outside the United States.  U.S. laws alone swamp our small staff.

Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
methods and addresses.  Donations are accepted in a number of other
ways including checks, online payments and credit card donations.
To donate, please visit: http://pglaf.org/donate


Section 5.  General Information About Project Gutenberg-tm electronic
works.

Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
concept of a library of electronic works that could be freely shared
with anyone.  For thirty years, he produced and distributed Project
Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.


Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
unless a copyright notice is included.  Thus, we do not necessarily
keep eBooks in compliance with any particular paper edition.


Most people start at our Web site which has the main PG search facility:

     http://www.gutenberg.org

This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
