summaryrefslogtreecommitdiff
diff options
context:
space:
mode:
-rw-r--r--.gitattributes3
-rw-r--r--21780-8.txt2121
-rw-r--r--21780-8.zipbin0 -> 27176 bytes
-rw-r--r--21780-h.zipbin0 -> 28096 bytes
-rw-r--r--21780-h/21780-h.htm2177
-rw-r--r--LICENSE.txt11
-rw-r--r--README.md2
7 files changed, 4314 insertions, 0 deletions
diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes
new file mode 100644
index 0000000..6833f05
--- /dev/null
+++ b/.gitattributes
@@ -0,0 +1,3 @@
+* text=auto
+*.txt text
+*.md text
diff --git a/21780-8.txt b/21780-8.txt
new file mode 100644
index 0000000..b7efbc8
--- /dev/null
+++ b/21780-8.txt
@@ -0,0 +1,2121 @@
+The Project Gutenberg EBook of Galatéa, by António Joaquim de Carvalho
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Galatéa
+ egloga
+
+Author: António Joaquim de Carvalho
+
+Release Date: June 8, 2007 [EBook #21780]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK GALATÉA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano. Para comentários à transcrição
+visite http://pt-scriba.blogspot.com/ (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+GALATÉA
+
+EGLOGA.
+
+
+PRIMEIRA, E SEGUNDA PARTE
+
+
+POR
+
+ANTONIO JOAQUIM DE CARVALHO.
+
+
+LISBOA: M. DCCCI.
+
+NA OFFIC. DE SIMÃO THADDEO FERREIRA.
+
+_Com Licença da Meza do Dezembargo do Paço._
+
+
+
+
+
+AO LEITOR.
+
+
+Esta primeira Egloga, ha 16 annos impressa, agora faço-a reimprimir, para
+tirar-lhe as lisongeiras Cartas, para emendar-lhe algumas passagens com
+melhor escolha, para curar-lhe alguns vicios gerados por aquelles, que duas
+vezes a reimprimírão, a pezar do meu gosto, e para ligar ambas as Partes,
+por que a primeira dá a materia para a segunda.
+
+Se me increparem, porque faço domavel o Gigante Polyfemo, contra a opinião
+dos melhores Poetas, respondo: He verdade, que a Fabula nos mostra este
+Cyclope hum monstro de crueldade, de extraordinarias forças, e destemido:
+hum tragador de seis companheiros de Ulysses, e delle mesmo o seria, se
+astucioso não lhe fugisse: hum soberbo em fim, que declamava, que nem ao
+mesmo Jupiter temia; mas pergunto: Este Gigante era humano, ou não? Todos
+me dirão, que sim. Pois se era humano, era sugeito ao imperio da Razão, com
+cujas armas o ataco, e o venço: e só seria inverosimil, se eu com a razão
+accommettesse hum Tigre, hum Leão, huma Serpente. Se os mais não pizárão
+esta estrada, porque não quizerão, pizo-a eu, porque quero, e por que
+posso, sem atropelar a verosimilhança.
+
+Se altero o caracter da Egloga; se me aparto da simplicidade pastoril; se
+faço inflammar Polyfemo, e respirar vingança, he porque eu não pinto hum
+daquelles Pastores do Seculo de oiro, em que reinava a mansidão, e o socego
+de espirito; pinto hum Cyclope, hum Pastor ferino, que abrazado no ciume, e
+na ira, deo barbara morte ao mancebo Ácis, lançando-lhe em cima hum
+penhasco: catástrofe, que eu não pinto, por não fazer huma Egloga com
+espirito de Tragedia.
+
+Eu tive a fortuna, de que alguns homens (discrétos homens!) dissessem, que
+não era minha a minha Egloga Deploratoria intitulada JOSINO na chorada
+morte do Principe o Senhor D. JOSÉ. Eu serei feliz, se agora tiver a mesma
+fortuna, porque se esses contrastes duvidarem de ser minha esta obra, boa
+será ella pela sua avaliação. Esses, que duvidão, examinem, busquem,
+descubrão o legitimo Author, e o mostrem para gloria sua, e descredito meu.
+Conheça o mundo o homem virtuoso, o homem raro, que se cançou naquella
+composição, para renunciar em mim a posse, o lucro, e o credito della. E se
+eu a furtei, onde estás homem roubado, que não acodes ao teu cabedal,
+sabendo, que em meu poder existe? Denuncía-me; clama justiça contra mim.
+Ah! Ninguem falla? Ninguem me acusa? Pois acuso-me eu, mas he da temeridade
+de emprehender a guerra sem ter armas: de querer lugar na Républica das
+Letras sem ser Cidadão de Athenas: de fazer Versos sem beber da Castália,
+sem soccorro das Musas, sem conhecer Apollo. Os Versos (toscos Versos) que
+ha trinta annos escrevo, são os denunciantes, as testemunhas, e os Juizes
+do meu crime. Acusem-me, como eu me acuso deste delicto; porém não de
+roubador, officio imfame, que não cabe em almas honradas; mas se os
+críticos me arguirem pelos pobres, insulsos Versos, devem igualmente
+attender em minha defensa, que estes se não tem mel, tambem não tem veneno;
+se não deleitão, tambem não ferem. Isto supposto, fação-me Justiça.
+
+
+
+
+GALATÉA
+
+EGLOGA.
+
+
+
+
+PRIMEIRA PARTE.
+
+
+INTERLOCUTORES.
+
+POLYFEMO, E LAURINDO.
+
+
+POLYFEMO.
+
+Ah! Campos, campos meus! Vós, que algum dia
+ Me servieis de amavel companhia:
+Vós, que os ouvidos daveis ao meu canto,
+ Prestaimos boje, para ouvir meu pranto;
+Se bem, que assáz me custa magoar-vos,
+ Depois de com meu canto deleitar-vos;
+Mas eu adoçarei a vossa mágoa,
+ Dando-vos de meus olhos rios de agua:
+Com ella florecei para os viventes,
+ E á custa do meu mal vivei contentes,
+Que eu não vos lograrei, não; nem já gora
+ A minha morte póde ter demora;
+Os Ceos a mandem, que em tormentos fortes
+ Huma morte he melhor, que muitas mortes.
+Ah! Campos, se vós fosseis animados,
+ E ponderasseis bem os meus cuidados,
+De mim aprenderieis, que a ventura,
+ Ao que nasceo feliz, he que procura:
+E Aquelle, que nasceo já desgraçado,
+ Sempre lhe foge com semblante irado.
+Mas quem he, que este monte vem subindo?
+ Pelo trage he Pastor: sim, he Laurindo,
+Que talvez magoado d'escutar-me,
+ Quer meios procurar de consolar-me:
+Em vão, em vão se cança, se o intenta;
+ Que em vez de alivio dar-me, a dor me augmenta.
+Agora mais me vejo impaciente,
+ Que até me afflige a vista de hum vivente:
+Mas elle vem, não posso resistir-lhe,
+ Já não posso esconder-me, nem fugir-lhe;
+Se fujo desta parte, he ribanceira,
+ Se daquella, me affogo na ribeira;
+Pois nella acabarei, morrer não temo;
+ De huma só morte acabe Polyfemo.
+
+
+LAURINDO.
+
+Detem-te, amigo, e espera, que fazias?
+ A ti mesmo matar-te pertendias?
+Seres comtigo mesmo ímpio tyranno,
+ Para hum damno evitar com maior damno!
+
+
+POLYFEMO.
+
+Deixa, deixa, que eu morra por piedade,
+ Porque morrendo, evito a crueldade
+Dos ímpios Deoses: ah! Viver não quero,
+ Pois vida tão penosa não toléro:
+Tu contarás á falsa Galatéa,
+ Que por ella me expuz á morte feia;
+Porém no peito o coração me estalla,
+ Vendo, que Ácis tyranno ha de logralla:
+Mas logre-a, logre-a, embora, oh que tormento!
+ Que eu só, por tal não ver, morrer intento.
+
+
+LAURINDO.
+
+Socega, amigo, queres dessa sorte
+ Dar a vida, por quem te causa a morte?
+Queres vingar-te della socegado?
+ Desprezou-te, despreza-a: estás vingado.
+
+
+POLYFEMO.
+
+Desprezar Galatéa, e offendella
+ Quando só morrer por ella!
+Isso não, que depois de eu adoralla,
+ Valor não tenho para maltratalla:
+Ella pratique embora a crueldade,
+ Que eu não devo imitar-lhe a impiedade.
+
+
+LAURINDO.
+
+Conheces, que te offende essa perjura,
+ E inda morres por ella? Oh que loucura!
+
+
+POLYFEMO.
+
+Sim, amigo, traidora a considero;
+ Mas quiz-lhe bem: querer-lhe mal não quero.
+Eu não lhe amo o rigor, sim a belleza,
+ Que he parto singular da natureza:
+Tu, que a conheces, vê, se razão tenho
+ Para adoralla com tão grande empenho:
+O lindo rosto, aquelles olhos bellos,
+ Tão matadores, que em chegando a vêllos,
+Parece, que do rosto lhe saltavão,
+ E que para não vêllos me cegavão.
+As loiras tranças, bem como doiradas,
+ Sobre seus alvos hombros espalhadas.
+Se as costas me voltava por desprezo,
+ Como que a ellas me levava prezo:
+Nas lindas faces se me figuravão
+ Duas papoilas, que entre a neve estavão.
+A boca, que em conceitos sempre acerta,
+ Parecia huma rosa meia aberta;
+Mas quando grave, e graciosa ria,
+ Oh quanto então mais bella parecia!
+Mostrando os claros dentes, que esmaltavão
+ Seus beiços, que de nácar se formavão;
+E co'a força do riso as faces bellas
+ Duas covas fazião como estrellas.
+As mãos por engraçadas, e pequenas
+ Parecião formosas açucenas.
+Mil vezes quiz beijar-lhas; porém ella,
+ Que o damno prevenia na cautéla,
+Escondendo-as, de mim mais se affastava,
+ Que até nisto ser casta bem mostrava.
+Estas bellezas, esta honestidade
+ Forão prizões da minha liberdade,
+E quanto as lindas mãos mais me negava,
+ Tanto as doces prizões mais me apertava;
+Mas n'huma sésta vi, que ella dormia
+ Junto do pote, que na fonte enchia:
+Vou-me pé ante pé, e hindo a beijar-lhas,
+ Me arrependi, porque temi manchar-lhas.
+Nem só para pegar-lhes valor tinha,
+ Porque mão tão grosseira, como a minha,
+Não devia tocar aquella neve,
+ Que só com outra igual tocar-se deve;
+Mas immovel fiquei, pois só gostava
+ De ver a bella acção, em que ella estava.
+O branco rosto sobre o curvo braço,
+ Outra mão tambem curva no regaço:
+O corpo reclinado sobre a fonte,
+ E a curta sombra, que lhe dava o monte,
+Só metade do rosto lhe cubria,
+ Que muito mais formosa inda a fazia.
+Eu, que só me detinha em admiralla,
+ Sem que tivesse intento de acordalla;
+Como de gosto estava arrebatado,
+ Sem que eu sentisse, cahe me o cajado:
+Dá-lhe nos pés: acorda ella assustada,
+ Vê-me, levanta-se, e com voz irada
+Me diz: "Vil, só comigo! Que fazias?
+ "Dize: acaso offender-me pertendias?
+"Se por gigante intentas de vencer-me,
+ "Matar-me poderás, mas não render-me:
+"Que a minha honestidade he tão constante,
+ "Que não cede á violencia de hum gigante.
+Não, (eu lhe respondi) não te offendia:
+ Nem de ti outra cousa pertendia,
+Mais do que ao menos, pois te não lograva,
+ Ver-te: e so com te ver me contentava.
+Se nisto te offendi, ou me desculpa,
+ Ou me castiga, se me achares culpa:
+Que se eu da tua mão for castigado,
+ Serei ditoso, se antes desgraçado.
+Mas dize-me, cruel, se me estimaste,
+ Porque razão sem culpa me deixaste?
+E se indigno me achavas para amante,
+ Porque juraste de me ser constante?
+Que resposta daria a fementida?
+ "Vai-te louco, (me diz) que aborrecida
+"Até de ouvir-te estou, nem posso dar-te
+ "Outra razão maior de desprezar-te,
+"Senão, que as Leis de Amor já não tolero:
+ "Amei-te, em quanto quiz, hoje não quero.
+"Em fim, tu não és do meu agrado:
+ "Basta: vai-te, que estás desenganado.
+E com este rigor aquella ímpia
+ Foge: chamo-a, mais ella me fugia:
+Eu vendo a ir tão bella, quanto irada,
+ Corpo gentil, cintura delicada,
+Afflicto exclamo: Ah! Deshumana féra!
+ Nunca te eu víra, ou nunca te perdêra.
+
+
+LAURINDO.
+
+Ainda louvas a ingrata por formosa,
+ Quando enorme se fez, sendo aleivosa?
+Polyfemo, se queres ser discreto,
+ Não recordes a offensa, nem o affecto:
+Que o affecto tambem o tempo o gasta,
+ E a offensa he parto de huma louca, basta
+Que á razão nunca os olhos tem abertos,
+ E sem luz que fará? Mil desacertos:
+Por isso áquelle, que extremoso a trata,
+ A paga, que lhe dá, he ser-lhe ingrata.
+Bem como o bravo lobo carniceiro,
+ Que vê, que a innocencia de hum cordeiro
+Não péde entranhas ter para aggravallo,
+ Por isso mesmo quer despedaçallo;
+Mas se este acha hum rafeiro, que o extingue,
+ Tambem ella achará quem bem te vingue:
+E no entanto o melhor he esquecella,
+ E se possivel for, nunca mais vella.
+
+
+POLYFEMO.
+
+Tambem deixar de a ver he impossivel,
+ Porque sem vella, a dor mais insoffrivel
+Creio, que dentro n'alma padecesse,
+ Como a flor, que sem Sol murcha, e não cresce.
+Ah! Se eu agora a visse, e lhe fallasse,
+ Talvez que a meus gemidos se abrandasse:
+E póde ser, que a achasse arrependida
+ De perder, quem por ella perde a vida.
+Oh quão feliz seria a minha sorte,
+ Se ella abrandasse aquelle genio forte!
+Do desprezo, e d'affronta eu me esquecêra,
+ Se hum riso, se hum sinal de amor me déra.
+Tudo, tudo por ella perderia:
+ Sem gado, sem choupana ficaria:
+Sujeitar-me-hia pelos seus amores
+ A viver das esmolas dos Pastores:
+Pois sem logralla, tudo me he penoso,
+ E logrando-a, sou pobre; mas ditoso.
+
+
+LAURINDO.
+
+Se amas com tanto extremo a huma traidora,
+ Que mais fizeras, se fiel te fôra?
+
+
+POLYFEMO.
+
+Esta alma, que me anima, se pudesse,
+ Creio, que em paga d'esse amor lha désse,
+Amando-te, era justo premialla;
+ Mas desprezando-te, he loucura amalla:
+Sim, que o homem não mostra ser discreto
+ Amando a falsa, que tem outro objecto:
+Pois daqui nasce a mancha da deshonra,
+ E antes se perca a vida, do que a honra.
+Que se havia dizer na nossa Aldêa,
+ Se depois dessa ingrata Galatéa
+Por outro te deixar, tu a buscasses,
+ Esquecido d'affronta inda a estimasses?
+E não tremias, não te envergonhavas
+ De dizerem, que a honra desprezavas?
+Ah! Querias do amor ser arrastado,
+ Perdendo a fama, e credito de honrado?
+Dize, responde, a falla não escondas;
+ Mas ou me vence, ou nada me respondas.
+
+
+POLYFEMO.
+
+Nada responderei por defender-me,
+ Pois por sábio chegaste a convencer-me:
+Se a paixão me cubrio de escuridade,
+ Tu me mostraste as luzes da verdade:
+Agora já conheço, que essa ímpia
+ Mais féra, que o dragão, que o monte cria,
+Nem amor, nem piedade já merece,
+ Pois por outro me deixa; e assim se esquece
+Da fé, que me jurou, e da lealdade,
+ Com que sempre a tratei; que a falsidade
+Não podia caber n'hum peito amante,
+ Que ainda offendido mostra ser constante.
+Eu, que até ás Pastoras, quando as via,
+ Nem ainda, o Ceo vos guarde, lhes dizia:
+E se acaso de longe as avistava,
+ Por lhes fugir, a estrada rodeava.
+Tudo isto por fineza áquella infame,
+ Que, só tão feio nome, he bem lhe chame;
+Porque a saber, que ás outras eu fallava,
+ Não julgasse, que alguma me agradava;
+Porém que premio vim a tirar disto?
+ Sabes o que? Com todos ser malquisto:
+Desprezarem-me todos, ver-me agora
+ Aqui só, sem amigos, nem Pastora:
+E a falsa, tanto extremo desprezando,
+ Amar outro, e ficar de mim zombando!
+E soffro tal injúria sem vingar-me!
+ Poderei socegar sem despicar-me!
+Não, não socegarei, que hum peito irado
+ Socega só depois de estar vingado.
+Sim, vou já despicar-me... Mas que intento!
+ Que faço! Aonde vou! Que pensamento
+He este, que me occorre! Oh quanto errado
+ Gyra o discurso de paixão cercado!
+Eu matar Galatéa! Oh que vileza!
+ Naquella rara imagem da belleza
+Descarregar o golpe penetrante!
+ E havião ver meus olhos nesse istante
+Aquelle brando peito traspassado!
+ O rosto, bem qual Sol quando eclipsado!
+E os olhos, que daquelle Sol são raios,
+ Perdendo a luz na sombra dos desmaios!
+Aquellas lindas faces tão córadas
+ Eu poderia vellas desmaiadas!
+A boca rubicunda, e graciosa,
+ Bem qual entre jasmins a linda rosa,
+Eu teria valor, teria vida,
+ Para vella sem graça amortecida!
+E havião escutar-lhe os meus ouvidos
+ O pranto, os ais, e os ultimos gemidos:
+Já com trémola voz, e a cada instante
+ Vella convulsa, afflicta, e delirante,
+Sem alento, sem côr desfalecida,
+ Dando hum suspiro, e acabando a vida!
+Oh Ceos! Que horror concebo em ponderallo!
+ Eu tremo, gélo-me, e de dor estallo:
+Que coração tão barbaro haveria,
+ Que obrasse tão enorme tyrannia?
+Eu teria valor, se a offendesse,
+ Para vella morrer, sem que eu moresse?
+Não, não teria tanta impiedade,
+ Que vendo cahir morta hume Deidade,
+Não me sahisse deste insano peito?
+ O duro coração de dor desfeito.
+Nem mais contemplar quero tal desgraça,
+ Que parece, que o Ceo já me ameaça,
+Que a terra vejo abrir, que já comigo
+ Se abate, e me confunde por castigo.
+Ah! Minha Galatéa, vive embora,
+ Bem que me sejas infiel, traidora:
+Ainda te amo, se bem, que o não mereças;
+ Eu padeça, mas sem que tu padeças:
+Vive feliz, e logra o teu amante:
+ Oh justos Ceos, que dor tão penetrante!
+Mal posso respirar, que até o alento
+ Me soffoca a violencia do tormento.
+Vai-te, amigo, e me deixa só hum pouco,
+ Que eu não estou em mim, eu estou louco:
+Oh! Venha embora a morte rigorosa
+ Acabar-me esta vida tão penosa.
+
+
+LAURINDO.
+
+Deixa, amigo, esse louco desvario,
+ Que o ser de homem deslustra, offende o brio:
+E que o mundo dissesse pertendias,
+ Que por huma mulher enlouquecias?
+
+
+POLYFEMO.
+
+Tambem dirá, que não me altéra a offensa,
+ Pois toléro a inimiga na presença.
+
+
+LAURINDO.
+
+Perdoando-lhe tu por generoso,
+ Que ha de o Mundo dizer? Que és virtuoso.
+Mas se a fraca mulher ímpio punias,
+ Só de cubarde o nome vil terias.
+
+
+POLYFEMO.
+
+Sim, perdoada está: eu lhe perdoo,
+ Pois da sua fraqueza me condoo;
+Tambem, porque talvez seja innocente,
+ Se bem que a culpa a accuse delinquente;
+Galatéa he honesta, he recatada:
+ Pois quem duvida fosse requestada
+D'aquelle Ácis traidor, e que a enganasse
+ Com vãs promessas, para que o amasse?
+
+
+LAURINDO.
+
+Pensas bem que a mulher de honesto estado,
+ Se dá seu coração, sempre he rogado;
+Se bem que o rogo algumas não convence;
+ Mas a feia ambição a muitas vence.
+
+
+POLYFEMO.
+
+Sim? Pois hoje verás, que a minha ira
+ Só contra aquelle infame se conspira:
+Elle, por me arrancar de amor a palma,
+ Me roubou a doce alma da minha alma,
+Vista dos olhos meus, bem como estrella,
+ Que luz me dava, para poder vêlla.
+Clara luz, doce vida, alma preciosa,
+ Tudo perdi. Oh scena lastimosa!
+Tudo o vil me roubou; porém protesto
+ Fazer o seu castigo manifesto
+Ao Ceo, á terra, a todos os viventes:
+ Elle me offende, as culpas são patentes;
+Pois o proprio delicto he, que o condemna,
+ A que segundo a culpa, sinta a pena.
+
+
+LAURINDO.
+
+Queres que a morte de Ácis justifique
+ Huma céga paixão, hum vil despique?
+
+
+POLYFEMO.
+
+Quero, porque da injúria se não gave,
+ Que o proprio sangue a sua culpa lave:
+E se neste lugar já o apanhára,
+ O coração do peito lhe arrancára.
+
+
+LAURINDO.
+
+Dize: se a Galatéa perdoaste,
+ Depois que a culpa enorme lhe provaste,
+O Pastor, que he talvez menos culpado,
+ Porque não he, como ella, perdoado?
+
+
+POLYFEMO.
+
+Ella sim: me offendeo; mas obrigada,
+ E merece perdão por violentada;
+Mas elle não he digno de clemencia,
+ Pois mais culpado está pela violencia.
+
+
+LAURINDO.
+
+Aqui não ha violencia, ha certa culpa,
+ Que Amor condemna, e logo Amor desculpa,
+Delicto immensas vezes praticado
+ Por quem ama, e pertende ser amado.
+
+
+POLYFEMO.
+
+Assim se obra; mas sempre he falsidade,
+ Quando offende as leis santas d'amizade.
+
+
+LAURINDO.
+
+He máo quebrar a Lei; mas que te espanta,
+ Se ella te jurou fé, e a fé quebranta?
+Polyfemo, discorre mais prudente;
+ Vence-te a ti, se queres ser valente:
+Eu teu amigo sou, eu sou mais velho,
+ Tu, que és mais moço, toma o meu conselho
+No falso Amor não faças confiança:
+ Desterra a ira, foge da vingança,
+Que esta inquieta, aquella te amofina:
+ De qualquer dellas sempre vem ruina.
+Males, que tu não queres supportallos,
+ Não deves para os outros desejallos,
+Que ás vezes são, qual pedra despedida,
+ Que no mesmo que a deita, abre a ferida:
+Queres a morte de Ácis? Não ponderas,
+ Que póde em ti cahir, se nelle a esperas?
+Teme o Ceo vingador, teme-lhe a ira:
+ O Ceo, que a vida dá, só elle a tira:
+Só elle sobre as vidas tem dominio,
+ E não deves oppôr-te ao seu designio;
+Nem ao menos vingar-te levemente
+ Poderás, sem que fiques delinquente.
+Olha, que para Jupiter Supremo
+ He menos, que hum mosquito, hum Polyfemo.
+Á voz só do seu raio penetrante
+ Treme de susto a rocha mais constante.
+Foge, foge de o veres irritado,
+ E não faças, que a mão levante irado.
+Ah! Já, mudas de côr, tremes, e pensas?
+ Pois a ti mesmo, espero, te convenças.
+
+
+POLYFEMO.
+
+Tremo de confusão, e de mim tremo;
+ Os castigos do Ceo Respeito, e temo;
+Mas o affecto, a paixão, a honra, a offensa
+ Não me deixão acção, em que eu me vença:
+Vejo a justa razão, quero seguilla;
+ Mas a paixão vem logo a destruilla:
+Que este meu coração nunca descança
+ De chamar-me ao caminho da vingança.
+
+
+LAURINDO.
+
+Qualquer paixão, qualquer impaciencia
+ Se vence com discurso, e com prudencia.
+
+
+POLYFEMO.
+
+Tão desgraçado sou, que neste empenho
+ Nem já discurso, nem prudencia tenho:
+Quem vio tão enredado labyrintho
+ Como este, que na idéa, e n'alma sinto!
+Deoses, se justos sois, ou dai-me a morte,
+ Ou me livrai de confusão tão forte;
+Eu se vingar-me vou, me precipito;
+ Porque aos Deoses offende o meu delicto:
+Se assento em perdoar, não persevero,
+ Porque em vendo o offensor, logo me altero;
+Porém hum novo meio já me occorre:
+ Melhor acerta, quem melhor discorre.
+Eu não quero incitar ao Ceo clemente,
+ Mas para não vingar-me do insolente,
+Eu fugirei de o ver, que ao vêllo, logo
+ A cinza quente exhalaria fogo.
+Deixarei estes monte, estes prados,
+ Que a verdura me davão para os gados:
+Irei viver nas mais occultas brenhas,
+ Onde gente não veja, mas só penhas:
+Da vingança, e d'affronta assim me privo,
+ E ninguem sabe se sou morto ou vivo.
+
+
+LAURINDO.
+
+Resolves bem, amigo; sim, he justo
+ Fugires do perigo a todo o custo;
+Porque busca a desgraça todo aquelle,
+ Que vendo o damno, não se aparta delle:
+Perca-se a Patria, perca-se a fazenda,
+ Perca-se tudo, e nunca o Ceo se offenda.
+Tu sim perdes lavoiras, e o serrado;
+ Mas o Ceo, que esses bens te havia dado,
+Te dará novos campos mais extensos,
+ Donde possas colher frutos immensos:
+Quem perder pelo Ceo, fique esperando,
+ Que em vez da perda, ficará lucrando:
+Se a tua choça perdes, caro amigo,
+ A minha he grande, vivirás comigo:
+Para a tua lavoira dar-te-hei terra
+ Da campina, que tenho, além da serra;
+Dar-te-hei duas palmeiras mui frondosas,
+ Donde colhas as tâmaras gostosas:
+Dar-te-hei duas formosas aveleiras,
+ Tortas sepas, viçosas oliveiras:
+E do mais fruto, que o Ceo der, pendente
+ Repartiremos ambos irmãmente.
+Para o gado lá tens viçosa relva,
+ Lá tens para o recreio a linda selva,
+Onde acharás hum bosque mui sombrio,
+ De huma parte arvoredo, d'outra hum rio:
+Alli se ouvem os pássaros cantando,
+ Alli se escuta o rio murmurando,
+Nelle andão de contínuo os pescadores,
+ Nelle pescão tambem alguns Pastores
+O saboroso peixe á longa cana,
+ Ou com o iscado anzol, que mais o engana:
+Em fim, he campo ameno, he deleitavel,
+ Fructuosa a terra, o clima saudavel:
+Lá vivirás, amigo, descançado,
+ Sem ver a causa do mortal cuidado:
+Pois naquella distancia por extensa
+ Não vês o offensor, nem vês a offensa.
+
+
+POLYFEMO.
+
+Discreto amigo, amigo verdadeiro,
+ Tu fostes dos humanos o primeiro,
+Que me soube vencer: eu que algum dia
+ Nem a razão, nem Deoses conhecia,
+Hoje a razão abraço, os Deoses temo;
+ Tu me fizeste hum novo Polyfemo.
+
+
+LAURINDO.
+
+Convence-te a razão, porque és humano,
+ Que a razão só não doma o bruto insano.
+
+
+POLYFEMO.
+
+Oh grande, oh raro exemplo d'amizade!
+ Oh coração, gerado de piedade!
+Despido d'ambição, e d'avareza,
+ Só inclinado á mísera pobreza!
+Deixa, que por mostrar-me agradecido,
+ A teus honrados pés chegue abatido;
+E esta boca, por quem serás louvado,
+ Beije o chão duro, dos teus pés tocado.
+
+
+LAURINDO.
+
+Suspende, Polyfemo, eu não pertendo
+ A tua gratidão, antes me offendo,
+De a meus pés te prostares abatido,
+ Acatamento só ao Ceo devido.
+
+
+POLYFEMO.
+
+Oh quanto és digno de louvor completo,
+ Por liberal, humilde, e por discreto!
+Aprenda o avarento ambicioso
+ A ser mais liberal, mais caridoso:
+O que da santa, e mísera pobreza
+ Foge, como quem foge da vileza,
+Veja, que o rico, o paderoso, o nobre
+ Talvez, chegue a pedir esmola ao pobre:
+Esse, que as minas abre, e colhe o ouro,
+ Julgando a vida ter no seu thesouro,
+Veja, que a vida, e ouro n'hum momento
+ He como o fumo, que consome o vento:
+Siga os teus passos o soberbo inchado,
+ Que julga, que a ventura tem ao lado:
+Olhe, que a seca o grosso rio esgota,
+ E até com vento o cedro se derrota.
+Longe, longe de nós, ó vicio forte,
+ Vicio mais feio, do que a feia morte.
+
+
+LAURINDO.
+
+Não terão parte em nós vicios danados,
+ Nem pizaráõ a flor dos nossos prados;
+Que esta lã, que nos cobre, esta pobreza
+ Contra o vicio nos serve de defeza.
+Vamos gozar a santa paz ditosa,
+ Vamos colher a fruta saborosa
+Da minha bella Aldêa: vem, amigo,
+ Que eu não me ausento, sem que vás comigo.
+
+
+POLYFEMO.
+
+Vamos; mas ah Laurindo, quem diria,
+ Que por huma mulher, por'huma ímpia
+Eu havia deixar a minha Aldêa,
+ E ir d'esmolas viver na terra alheia?
+Oh triste Polyfemo! Oh desgraçado!
+ De ti deves queixar-te, e não do fado:
+Em mil exemplos o perigo viste,
+ Devias fugir delle, não fugiste?
+Pois agora o teu erro irás pagando,
+ E o damno sem remedio lamentando.
+Tome exemplo de mim, o que ama cégo,
+ Julgando ter no amor todo o socego,
+Veja a minha desgraça, e tema o dano,
+ Que sempre nasce deste amor profano:
+Não prenda a doce, amavel liberdade,
+ Já que o Ceo lhe quiz dar livre a vontade:
+Fuja do amor, e guarde esta doutrina,
+ Se quizer viver longe da ruina.
+Mas ah! Nem já do amor quero lembrar-me,
+ Que he facil outra vez precipitar-me.
+Adeus, ó campos meus, campos amados,
+ Que me daveis o fruto, e pasto aos gados:
+Já não hei de ferir vossos ouvidos,
+ Nem já respondereis aos meus gemidos.
+Adeus, ó rio meu, que me obrigavas,
+ Quando ao meu gado tuas aguas davas;
+Mas pago ficas, que essa grossa enchente
+ A augmenta de meus olhos a corrente.
+Adeos, plácida fonte, onde algum dia
+ Se alegre rias, eu alegre ria;
+No prazer te imitei; mas hoje afflicto
+ Só no pranto, que verto, he que te imito.
+Lembra-te, ó fonte, que a cruel Pastora,
+ Essa, que sem razão me foi traidora,
+Por ti jurou, que essa agua lhe faltasse,
+ Se ella de amor a pura se manchasse:
+Agora deves, pois faltou perjura,
+ Por castigo negar-lhe essa agua pura:
+Como ella contra si justiça pede,
+ Ou procure agua longe, ou morta á sede;
+Mas ah! Que digo! He muita crueldade:
+ Não, não lhe negues agua por piedade,
+Tem della compaixão, dá-lhe desculpa,
+ Basta só, que a castigue a propria culpa.
+Adeos, ó prado ameno, as flores bellas
+ Eu te roubei para tecer capellas:
+Perdoa-me, e talvez que inda melhores,
+ Que á custa do meu mal terás mais flores:
+E apague a minha culpa, que te aggrava
+ Este pranto, que humilde os pés te lava.
+Adeos, Pastores, doces companhias
+ Dos meus passados, e felices dias;
+Porém dias tão breves, quanto he breve
+ No Irverno a calma, no Verão a neve:
+Se o meu canto aprendestes algum dia,
+ No tempo da ventura, e d'alegria
+Hoje do meu desgosto, e do meu damno
+ Podeis lucrar mais util desengano,
+Vendo, por breve ser minha ventura,
+ Quanto a glotia do mundo pouco dura:
+Que apenas nos faz ver hum falso gosto,
+ Logo atrás delle vem maior desgosto.
+Adeos, ó Galatéa; mas que digo!
+ Cuidei, que tinhas inda o nome antigo;
+Mas não deves ter já nome de humana,
+ Sendo Leão feroz, vibora insana:
+Fica-te embora em paz, e só te peço
+ De mim t'esqueças, que eu de ti m'esqueço:
+Sim, farei, que não tornes a lembrar-me
+ Para querer-te, nem para vingar-me:
+E poderemos só ficar lembrados
+ Do exemplo, com que fomos doutrinados:
+Mas vê, quanto differem as doutrinas,
+ A que eu te dei, daquella, que me ensinas:
+Eu te ensinei a ser fiel, constante,
+ Tu me ensinaste a ser falso, inconstante;
+Mas nunca me seguiste a lealdade,
+ Nem eu soube seguir-te a falsidade;
+Porém essa doutrina; inda que inutil,
+ Estimo-a, porque em parte me foi util:
+Se até aqui das Pastoras não fugia,
+ Porque a sua traição não conhecia,
+Já della fugirei desenganado,
+ Como quem foge do animal damnado.
+Longe, longe de mim, ímpias tyrannas,
+ Ide viver com féras deshumanas:
+Em fim, parto a morrer: Adeos, Pastora,
+ Adeos, ímpia: Adeos, falsa: Adeos, traidora.
+
+
+
+
+SONETO.
+
+
+Novo exemplo aqui tens, mísero humano,
+Que incensas os Altares da vaidade,
+Aqui te mostro a estrada da verdade,
+Por onde ao Templo vás do desengano:
+
+De Polyfemo o lamentavel damno,
+De Galatéa a horrenda falsidade
+Te excitem a fugir da crueldade,
+Que he premio certo desse amor tyranno!
+
+Elle consome os bens, a honra offende,
+O socego perturba, arrisca a vida,
+E o coração mais livre assalta, e rende.
+
+Ah! Destróe essa mão féra, humicida,
+Rompe os duros grilhões, com que te prende,
+Quebra-lhe as setas, ficará vencida.
+
+
+
+
+GALATÉA
+
+EGLOGA.
+
+
+
+
+SEGUNDA PARTE.
+
+DO MESMO AUTHOR.
+
+
+INTERLOCULORES.
+
+GALATÉA, LAURINDO, E ÁCIS.
+
+
+
+
+GALATÉA.
+
+EGLOGA.
+
+
+A bella, incomparavel Galatéa,
+ A Nynfa, tutelar, gloria d'Aldêa
+O seu Ácis perdido busca afflicta:
+ Corre, examina, geme, chora, e grita:
+"Ácis! Ácis! Meu bem! Onde te escondes?
+ "Eu rouca de chamar-te, e não respondes?
+"Se nas margens do rio por ti clamo;
+ "Mais foge o rio, quanto mais te chamo.
+"Se á fonte vou teu nome repetindo,
+ "Ella vai murmurando, e vai-se rindo.
+"Só este monte de me ouvir magoado,
+ "Se eu te chamo, elle chama, e tu calado!
+"Ah meu Ácis! meu bem, se inda tens vida,
+ "Soccorre esta, que he tua, assáz perdida.
+"E se aos campos Elysios já partiste,
+ "Lá verás breve a Galatéa triste.
+"A ti me ha de ligar a morte crua;
+ Pois tu és a minha alma: eu alma tua.
+
+
+LAURINDO.
+
+Que vozes, ternas vozes tão sentidas
+ Os montes ferem de afflicção nascidas!
+
+
+GALATÉA.
+
+Ah Pastores, que, alegres, divertidos
+ Cantais ao triste som dos meus gemidos!
+Se este pranto vos move á caridade,
+ Deparai-me o meu Ácis, por piedade.
+
+
+LAURINDO.
+
+A voz he de mulher. que ao longe grita.
+ Quem pudéra valer á triste afflicta!
+Os duros écos, que este valle atrôão,
+ Senão me engano, desta encosta sôão.
+Eu vou por este pedregoso atalho
+ Ver, se encontro, quem he, ver se lhe valho.
+
+
+GALATÉA.
+
+Ah! Ninguem já responde aos meus clamores?
+ Já não acho piedade nos Pastores?
+Misera Galatéa! A que chegaste,
+ Depois que amor no coração geraste!
+Mas ah! Senão me engana a mata espessa,
+ Hum homem para mim o passo apressa!
+He Pastor: quem será? Não vejo tanto,
+ Pois me escurece a vista o grosso pranto.
+Será o meu bom Ácis? Se elle fôra,
+ Huma nova alma eu concebêra agora.
+Ácis! Ácis! És tu? Responde, falla:
+ Ou não he elle, ou não me estima, e cala:
+
+
+LAURINDO.
+
+He Pastora; e se não me engana a idéa
+ Pelo gentil semblante he Galatéa.
+
+
+GALATÉA.
+
+Ah! Já vejo: já estou desenganada,
+ Que o meu Ácis não he. Ó desgraçada!
+
+
+LAURINDO.
+
+Galatéa, que tens? Tu, que algum dia
+ Semeavas os campos de alegria,
+Hoje com pranto, e vozes, que enternecem,
+ Murchas as plantas, que ao teu riso crescem!
+
+
+GALATÉA.
+
+Feliz foi esse tempo; porém hoje
+ De mim (qual rez ferida) o prazer foge.
+Mas dize-me, Laurindo, acaso viste
+ O meu Ácis, por quem suspiro triste?
+
+
+LAURINDO.
+
+Ha dias, que o não vi; mas que motivo
+ Banha o teu lindo rosto em pranto activo?
+
+
+GALATÉA.
+
+Eu te mostro a origem, que ao mostralla,
+ No triste peito o coração me estalla.
+Ha tres dias... Oh dias de amargura,
+ Mais negros para mim, que a noite escura!
+Quando o Sol hia ver outro Orizonte,
+ Deixando triste o rio, o valle, o monte,
+Metto o fuso na róca, o gado chamo
+ Para o pobre curral, vem ao reclamo:
+Conto as cabeças, falta-me a Ovelhinha,
+ Que eu estimava mais, que as mais, que eu tinha,
+Por brincadora, esperta, e tão malhada,
+ Que parecia com pincel pintada.
+Tinha-me tanto amor, que se eu gemia
+ Ella então nem brincava, nem comia.
+Mas se me via alegre, ou se eu cantava,
+ Ella ao meu lado de prazer saltava.
+Eu afflicta a busquei té junto ao Téjo;
+ Quando na margem o meu Ácis vejo.
+Corre a ver-me, e no riso amor explica;
+ Porém vendo-me afflicta, afflicto fica.
+Pergunta-me a razão: conto o successo,
+ E que procure a minha rez lhe pesso.
+Elle me diz então com vozes ternas,
+ Vozes, que esta alma ha de guardar eternas:
+"Ah! Não chores, meu bem, minha alegria.
+ "Em cujos olhos brilha a luz do dia!
+"Se os encobres com pranto, e magoa enorme,
+ "Queres, que o dia em noite se transforme?
+"Fugio-te a tua Ovelha: eu ta procuro;
+ "E por teus lindos olhos eu te juro,
+"Que se ella viva está, e eu souber della,
+ "Inda que arrisque a vida, hei de trazella;
+"Mas se baldado for o meu empenho,
+ "Das minhas escolhe huma, ou quantas tenho,
+E com tão terno amor me enchuga o rosto,
+ Que me leva metade do desgosto.
+Quiz partir, dava hum passo, então parava,
+ Como que em mim seu coração deixava:
+Partio; e a cada passo.... (ó que retiro!)
+ Voltava para mim, dava hum suspiro;
+Que o coração presago lhe dizia,
+ Que era a ultima vez, em que me via.
+E bem se verifica (oh Ceos! Conforto!)
+ Que não me ha de ver mais, porque he já morto.
+
+
+LAURINDO.
+
+Ácis morto! Que dizes, Galatéa?
+ Isso he certo, ou te engana a falsa idéa?
+
+
+GALATÉA.
+
+Eu te exponho a razão, em que me fundo.
+ Quem vio (oh Deoses) scena igual no Mundo
+Ácis partio: passárão-se dois dias,
+ Dias de magoas, noites de agonias,
+Em cada instante, que elle me tardava,
+ Mil desgraças a idéa me pintava.
+Porém hoje no valle d'azinheira,
+ Junto á ponte da plácida ribeira,
+Debaixo de hum cipreste levantado,
+ Cópia de mim, eu vigiava o gado;
+Se bem que pouco vigiar podia,
+ Quem de chorar já quasi nada via.
+Cançada de lutar com meu tormento,
+ Meu unico, amargoso mantimento,
+A affligida cabeça ao tronco encosto,
+ E sobre a curva mão inclino o rosto.
+O somno, que ha dois dias meu não era,
+ Veio piedoso, que antes não viera!
+Pois me fez ver em sonho... Oh que desgraça!
+ A causa desta dor, que me traspassa.
+Eu vi... triste visão! Que além da serra,
+ Por hum dos regos da lavrada terra,
+Hia o meu Ácis triste, suspirando
+ Com prompta vista a minha rez buscando;
+Outras vezes, olhando para a Aldêa,
+ Clama saudoso: "Ah minha Galatéa!
+Quando de entre hum pinhal... de o dizer, tremo:
+ Sahe o barbaro, o manstro Polyfemo.
+Toma-lhe o passo, e n'hum trilhado estreito
+ Com dardo agudo lhe traspassa o peito:
+Clamando: "Morre, vil, morre, inimigo,
+ "Que inda mereces mais cruel castigo.
+"Chama agora o teu bem, chama a fingida,
+ "Grita por ella, que te torne a vida.
+Á violencia do golpe, o desgraçado
+ Solta do peito afflicto hum ai magoado
+Trémulo, curvo, com a mão convulsa
+ O peito aperta, donde o sangue pulsa:
+Quer suster-se, não póde, a força falta:
+ A mão solta do peito, o sangue salta:
+Vai vergando, e cahindo: hum tronco agarra:
+ Este se quebra, o fraco pé lhe esbarra;
+E sobre hum mar de sangue da ferida
+ Cahe exhalando a preciosa vida.
+Com vista incerta, os olhos vidracentos,
+ Trémula a voz, sem côr, já sem alentos,
+Exclama, em fim, nas mãos da morte feia:
+ "Valei-me, Ceos, adeos ó Galatéa.
+E soltando hum suspiro, os olhos serra:
+ Ferindo as plantas, magoando a terra.
+Oh Deoses! Inda incerta esta desgraça;
+ He qual farpão, que o peito me traspassa;
+E se he certa, mandai, que a dura morte
+ Sobre mim venha, e descarregue o corte:
+Morreo Ácis por mim, por elle eu morra:
+ Qual do seu, do meu peito o sangue corra:
+
+
+LAURINDO.
+
+Misera Galatéa enchuga o pranto,
+ Que hum sonho falso não provoca a tanto.
+
+
+GALATÉA.
+
+Este sonho, a demora, e Polyfemo,
+ Tudo me assusta, e a desgraça temo.
+
+
+LAURINDO.
+
+O sonho intimidar-me não devia
+ Por ser falsa illusão da fantasia.
+Do Pastor a demora, que te assusta,
+ Tambem póde nascer de causa justa.
+Se temes Polyfemo, o susto affasta:
+ Comigo vive, eu nunca o deixo, e basta.
+E desde que o domei por teu respeito,
+ Tudo que eu mando, que elle faça, he feito.
+Piza, piza, a teus pés essa agonia:
+ Faze, que a fonte com teu riso ria.
+
+
+GALATÉA.
+
+Tu destróes em parte o meu desgosto;
+ Mas não consegues ver-me enchuto o rosto:
+Não: fazer que esta setta não me fira,
+ Só póde o meu Pastor. Ah! Quem o víra!
+Só pódem os seus olhos engraçados
+ Dar vista aos meus já cégos, e cançados.
+Mas temendo o rancor de Polyfemo,
+ As proprias sombras dessas plantas temo.
+
+
+LAURINDO.
+
+Do triste Polyfemo o rancor deixa:
+ Tu foste a causa, e só de ti te queixa.
+
+
+GALATÉA.
+
+A causa fui! Eu sou féra impestada,
+ Que fizesse aquella alma invenenada?
+
+
+LAURINDO.
+
+A causa foste, sim, porque o amaste,
+ E por Ácis, sem culpa, o desprezaste.
+
+
+GALATÉA.
+
+Pelos Deoses do Olympo Soberano
+ Juro que nunca amei tal monstro insano.
+
+
+LAURINDO.
+
+Pois se he certo, que amor não lhe tiveste,
+ Porque falsas promessas lhe fizeste?
+
+
+GALATÉA.
+
+Porque assim o meu Ácis defendia
+ Da vingança, que o vil lhe promettia.
+
+
+LAURINDO.
+
+Ah! Pois quiz com violencia... ( que loucura!)
+ Gerar amor, que nasce da ternura!
+
+
+GALATÉA.
+
+Sim, com rigor queria, que o amasse,
+ E que o meu peito ao meu Pastor fechasse.
+Clamando irado assim: "Cruel Pastora,
+ "Tu desprezas soberba, a quem te adora?
+"És toda do teu Ácis? Pois discorre,
+ "Que ou tu has de ser minha, ou Ácis morre.
+"Dize, resolve já, ou vou matallo;
+ "E o coração aos olhos teus mostrallo.
+Eu ante o monstro vil de crueldade,
+ Que não cede á razão, nem á piedade,
+Rogo-lhe compaixão: não se enternece:
+ Choro humilde a seus pés: mais se embravece.
+Eu delirava neste lance forte
+ De dar ao triste a vida, ou dar-lhe a morte.
+Ácis morrer por mim, sendo innocente!
+ Não, por livrallo fiz-me delinquente.
+Com o tyranno usei de idéas novas
+ Para dar-lhe de amor fingidas provas;
+Mas o meu firme peito era impossivel,
+ Que abrisse a porta aquelle bruto horrivel.
+Se nisto te aggravei, Ácis desculpa;
+ Se eu delinquente fui, foi tua a culpa.
+
+
+LAURINDO.
+
+Nao chores, virtuosa Galatéa:
+ De ti fazia mui diversa idéa;
+Bem que eu não sigo as linguas venenosas,
+ Que as mulheres só tratão de aleivosas:
+Sei, que muitas o são, sim, não duvido,
+ Pelos casos, que vejo, e tenho ouvido;
+Mas contem-se as traições d'ellas, e d'elles,
+ Se acharem nellas mil, ha dez mil nelles.
+Tu, exemplar Pastora, mostrar queres,
+ Que és a gloria, o modelo das mulheres:
+Que os falsos homens pódes doutrinallos;
+ E com teu mesmo exemplo envergonhallos.
+Vai-te em paz, vai guardar teu manso gado:
+ Do teu Ácis feliz dá-me o cuidado,
+Que eu hirei procurallo: em mim confia,
+ Que hei de tornar-te a noite em claro dia.
+
+
+GALATÉA.
+
+Ah piedoso Laurindo! Se tal fazes,
+ A hum corpo morto nova vida trazes.
+
+
+ÁCIS.
+
+Que triste vejo a serra, o valle, o monte!
+ O rio pasma, corre turva a fonte.
+Sim, sem a minha amavel Galatéa
+ A clara luz do Sol he triste, e feia.
+Mas onde te acharei, gentil Pastora,
+ Para clamar então: já vejo a Aurora!
+Aves, tornais o canto em agonia
+ Porque vos falta a Mestra d'harmonia?
+O Ceo com ella adoce o meu tormento,
+ Tereis nova lição, e eu novo alento,
+Mas ah! Que vejo! Que gentil Pastora?
+ Parece Galatéa! Oh feliz hora!
+Não, não me enganes, lisongeira idéa.
+ N'altura... em trage... em gesto... he Galatéa,
+Que está banhando em pranto o lindo rosto:
+ Eu corro, eu vou tornar-lhe a magoa em gosto.
+
+
+GALATÉA.
+
+Ácis, se és vivo, sorte igual não tive.
+
+
+ÁCIS.
+
+Inda o teu Ácis dos teus olhos vive.
+
+
+GALATÉA.
+
+Ah! Que vejo! Ácis! Ceos! Será mentira?
+
+
+ÁCIS.
+
+He verdade; o teu Ácis sou: respira.
+
+
+GALATÉA.
+
+Oh Providentes Ceos! Deoses Clementes,
+ Que assim curais as chagas dos viventes.
+
+
+ÁCIS.
+
+Tu choras! He de gosto, ou de agonia?
+
+
+GALATÉA.
+
+Chorei de magoa, agora de alegria.
+
+
+ÁCIS.
+
+Tu choravas por mim! Mereço eu tanto?
+
+
+GALATÉA.
+
+Vê bem o estrago, que em mim fez o pranto.
+ Estes olhos, que tu chamavas bellos,
+Hoje magoados fugirás de vêllos.
+
+
+ÁCIS.
+
+Assim mesmo são dois lindos diamantes,
+ Quie inda eclipsados, sempre são brilhantes.
+Mas dize, Galatéa, que motivo
+ Acendeo esse fogo, tão activo?
+
+
+GALATÉA.
+
+A ausencia de tres dias (longos dias!)
+ De lagrimas, de sustos, de agonias;
+E mais que tudo hum sonho feio, horrivel,
+ Que o não matar-me, não parece crivel:
+Sonho cruel, que me pintou na idéa
+ A desgraça maior, scena mais feia:
+Que o monstro Polyfemo te arrancára
+ A amavel vida, que esta vida ampara.
+
+
+ÁCIS.
+
+E credito lhe déste, sendo esperta?
+
+
+GALATÉA.
+
+Sim, que a má nova quasi sempre he certa.
+
+
+LAURINDO.
+
+Se eu não corro a tiralla da vareda,
+ N'algum despenhadeiro achava a queda.
+
+
+GALATÉA.
+
+Laurindo nos meus males tomou parte,
+ E até por compaixão quiz ir buscar-te.
+
+
+ÁCIS.
+
+Bom amigo, e bom Mestre, as sãs doutrinas
+ Tu com virtuoso exemplo, nos ensinas:
+Tu semeas os campos de equidade,
+ Nós colhemos os fructos da piedade.
+
+
+LAURINDO.
+
+Huns para os outros sermos bons devemos:
+ Todos somos irmãos: de hum Pai nascemos:
+Se hum errar, deve o outro encaminhallo:
+ Se hum cahir, deve o outro levantallo.
+
+
+GALATÉA.
+
+Perdoa, que eu atalhe o teu conselho,
+ Proprio de hum Sábio, Virtuoso, e velho.
+Dize, meu Ácis, dize, por clemencia,
+ Qual foi a causa de tão longa ausencia?
+
+
+ÁCIS.
+
+Foste tu: foi o amor, e foi o empenho
+ De trazer-te a Ovelhinha, a qual já tenho.
+Ao casal ta levei; mas sem achar-te;
+ Pois vieste a buscar-me, eu vim buscar-te.
+
+
+GALATÉA.
+
+Achaste a minha Ovelha! Ah! Onde estava?
+ Bem que eu por ti nem della, me lembrava.
+
+
+ÁCIS.
+
+Visinhos campos, as distantes terras,
+ Amenos valles, escabrosas serras,
+Tudo corri: examinei choupanhas,
+ Pobres Aldêas, rusticas cabanas.
+Perguntei aos campinos, Lavradores:
+ Rebanhos espreitei: busco aos Pastores:
+Todos dizem: "Não vimos, não sabemos:
+ "Nem leve rasto dessa Ovelha temos.
+Eu de perdê-la já desenganado,
+ De magoa afflicto, de buscar cançado,
+Voltar queria a ver teu lindo rosto;
+ Mas dava gosto a mim, e a ti desgosto:
+Eu a dor da saudade em mim curava;
+ Mas na má nova, nova dor te dava.
+Nisto pensava triste, e vacilante,
+ Quando escuto berrar pouco distante,
+Parto, gyro, procuro, em vão procuro:
+ Pois nada vejo: vejo hum bosque escuro,
+Que o Sol formoso nunca vio por dentro:
+ Corro, o bosque examino; e lá no centro
+Vejo hum pobre roupeiro esfrangalhado,
+ Dormindo, e a Ovelhinha preza ao lado.
+Eu, que a vejo, e conheço, ó que alegria
+ Em teu obsequio a minha alma enchia!
+Com lentos passos vou muito manso andando,
+ O sussurro das plantas receando,
+Se bem que o vento amigo me valia;
+ Pois nem das folhas o brincar se ouvia.
+Chego ao ladrão: observo, que em socego
+ Dorme roncando: na Ovelhinha pego:
+Sobre os hombros a ponho, e vim fugindo,
+ Do furto alegre, de alegria rindo.
+Trepando huma deserta ribanceira,
+ Ouço hum grito, ólho a traz, vejo á carreira
+Seguindo-me a gritar o vil roupeiro:
+ "Ó ladrão! Larga a Ovelha! Ó ratoneiro!
+Eu, que vejo o meu credito infamado,
+ Páro, e com ira mostro-lhe o cajado.
+Prudente parto: segue-me as pizadas:
+ Torço a vareda, corre-me ás pedradas.
+Dellas me affasto; e por final prejecto.
+ Na leve funda grossa pedra metto.
+Agito a funda: corro então mais perto:
+ Desparo a pedra, no vil peiro acérto.
+Fica o ladrão sem tino: quer suster-se:
+ Não póde: cahe: forceja para erguer-se:
+Outra vez cahe de costas: vai rolando:
+ Péga-se ás pedras, mas em vão pegando,
+Que as mesmas pedras, em que busca abrigo
+ Rólão sobre elle por maior castigo;
+E despenhado assim pela barreira
+ Vai té parar na margem da ribeira.
+
+
+GALATÉA.
+
+Ah! Que dizes! Mataste o desgraçado?
+
+
+ÁCIS.
+
+ Não ficou morto, não, mas maltratado,
+Eu vi... com quanta dor o estive vendo!
+ Cahio mortal; depois se ergueo gemendo.
+Olhou-me então com iras, e ameaços;
+ E trémulo partio com lentos passos.
+
+
+GALATÉA.
+
+Tu, que es no coração manso cordeiro.
+ Hoje tornado em lobo carniceiro!
+
+
+ÁCIS.
+
+Eu cordeiro não sou; porém se o fôra
+ Tornar-me em lobo foi preciso agora.
+
+
+LAURINDO.
+
+Castiga-nos o Ceo, se nos vingamos;
+ Mas tambem quer, que a vida defendamos.
+
+
+ÁCIS.
+
+Se mais piedade do ladrão eu tinha,
+ Nem eu era já teu, nem tu já minha.
+
+
+GALATÉA.
+
+Se a amavel vida o ímpio te roubava,
+ N'huma só morte duas mortes dava.
+
+
+ÁCIS.
+
+Esses extremos no meu peito os guardo
+ Para atear de amor o fogo, em que ardo.
+Vamos, vamos, formosa Galatéa,
+ Alegrar com teu rosto a triste Aldêa:
+A Aldêa, que por ti chorava agora,
+ Qual bom Filho, que a Mãi perdida chora.
+
+
+GALATÉA.
+
+Chora a Pátria, por mim? Quanta amizade
+ Devo aos bons, que se nutrem da piedade!
+
+
+LAURINDO.
+
+És bella, e inda mais bella por virtuosa;
+ Que a virtude inda a feia faz formosa.
+Porém vê, que a Virtude cultivada,
+ Cresce, bem como a planta, que he regada;
+Mas se falta a cultura, vai murchando;
+ E qual planta sem agua vai secando.
+Hide: a benção do Ceo sobre vós desça:
+ Aos vossos olhos branda relva cresça;
+E nella apascenteis grossas manadas
+ De prenhes vaccas gordas, e malhadas.
+Tantas as cabras, tantos os cordeiros,
+ Que enchão os valles, enchão os oiteiros.
+Hide, que he longe a Aldêa: hide, que he tarde:
+ O Ceo vos abençôe, o Ceo vos guarde.
+A benção gere em vós dois bons Esposos,
+ Que fructos dêm ao Ceo, fructos ditosos.
+
+
+ÁCIS.
+
+Adeos, meu bom Pastor, meu caro amigo,
+ Gloria dos campos, deste povo abrigo.
+
+
+GALATÉA.
+
+Essa benção do Ceo, que em nós desejas,
+ Sobre tudo, que he teu, sobre ti vejas.
+Ácis, vamos aqui pelo serrado,
+ Que he mais perto, he mais doce, e he povoado.
+
+
+ÁCIS.
+
+Vamos cortando por entre estas faias:
+ Dá cá a mão: salta o rego: olha, não caias.
+Tu saltas mais, do que eu: és bem ligeira!
+
+
+GALATÉA.
+
+ Se eu quiser não me apanhas na carreira.
+Que farão hoje ao ver-me de contentes
+ As amigas, visinhos, e os parentes,
+Que ao vêrem-me vagar só sem conforto
+ Julgar-me-hão morta, por julgar-te morto?
+
+
+ÁCIS.
+
+Se o bem nos foge, atêa-se o desgosto:
+ Torna o bem, morre o mal, renasce o gosto.
+Tu verás nas Pastoras desgrenhadas
+ Olhos feridos, faces desmaiadas.
+E ao ver-te, o riso, e pranto misturando,
+ Humas ás outras com prazer chamando:
+Todas para te verem correm, voão:
+ Vivas, applausos pelos ares sôão.
+Huma te beija a face alva, e rosada,
+ Que a faz com pranto seu rosa orvalhada.
+Outra te enfeita as tranças graciosas
+ De myrto, e cravo, de jasmins, e rosas.
+Verás, que ao som das lyras vem cantar-te
+ A magoa de perder-te, o bem de achar-te.
+Verás, como os chorosos innocentes,
+ Quando te virem, brincaráõ contentes.
+Verás a fonte, que turbada a vejo,
+ Corre alegre a dar a nova ao Téjo.
+Verás o Téjo, que sem ti bramia,
+ Quão plácido vem ver-te á praia fria.
+Verás o Melro, o Rouxinol suave
+ Convertendo a tristeza em canto grave.
+Verás saltando os tenros Cabritinhos
+ Alegrarem os tristes Cordeirinhos,
+Verás curvar-se o tronco a dar-te as frutas;
+ Correr o rio, vir trazer-te as trutas.
+Hoje farás feliz, farás contente
+ A Aldêa, o rio, a fonte, o gado, a gente.
+
+
+GALATÉA.
+
+Feliz me fazes tu: viver me fazes:
+ Aos meus bons dias novos dias trazes.
+
+
+ÁCIS.
+
+Como posso eu fazer a alguem ditoso,
+ Quando só por ser teu, sou venturoso?
+Sem ti rustico sou, humilde, e pobre:
+ Comtigo sábio sou, sou rico, e nobre.
+
+
+GALATÉA.
+
+Demos graças a Amor: Amor cantemos,
+ Que assim nos téce a Santa paz, que temos.
+
+
+ÁCIS.
+
+Sim, cantemos Amor: a voz levanta,
+ A voz sonora, com que Amor encanta.
+
+
+GALATÉA.
+
+Amor me fez guerra:
+Lutámos, venceo-me;
+O peito rompeo-me
+Para Ácis entrar.
+ Taes laços, taes setas
+ Devemos beijar.
+
+
+ÁCIS.
+
+Amor nos tens olhos
+Forjou doce flexa:
+Ferio-me: esta brexa
+Tu sabes curar.
+ Taes laços, taes setas
+ Devemos beijar.
+
+
+GALATÉA.
+
+Ao ver-me ferida,
+Primeiro assustei-me,
+Depois alegrei-me,
+Amor fui cantar.
+ Taes laços, taes setas
+ Devemos beijar.
+
+
+ÁCIS.
+
+Eu pude da seta
+Salvar o meu peito;
+Não quiz: puz-me a geito,
+Deixei-a entranhar.
+ Taes laços, taes setas
+ Devemos Beijar.
+
+
+GALATÉA.
+
+Depois de ferir-me
+Mostrou-me as algêmas;
+E diz-me; "Não temas
+"Quando eu tas lançar.
+ Taes laços, taes setas
+ Devemos beijar.
+
+
+ÁCIS.
+
+Ferir-me, prender-me
+Não era preciso,
+Bastava hum teu riso:
+Hum teu brando olhar.
+ Taes laços, taes setas
+ Devemos beijar.
+
+
+GALATÉA.
+
+Amor, abre as azas
+Vem, prende estes braços,
+Que os teus doces laços
+Não hei de quebrar.
+ Taes laços, taes setas
+ Devemos beijar.
+
+
+ÁCIS.
+
+Sou prezo por gosto,
+Por honra cativo:
+Por prezo he que vivo,
+Qual peixe no mar.
+ Taes laços, taes setas
+ Devemos beijar.
+
+
+GALATÉA.
+
+Amor, chama as Graças,
+E o Santo Hymeneo!
+Que venhão do Ceo
+Meu laço apertar.
+ Taes laços, taes setas
+ Devemos beijar.
+
+
+ÁCIS.
+
+Tu chammas as Graças?
+Não clames por ellas;
+Pois Graças mais bellas
+Em ti venho achar.
+ Taes laços, taes setas
+ Devemos beijar.
+
+
+GALATÉA.
+
+Basta: cançada vou: mais não cantemos:
+ Logo melhor n'Aldêa cantaremos.
+
+
+ÁCIS.
+
+Pois vai tu pela encosta desse monte,
+ Que a lyra vou buscar: lá saio á fonte.
+
+
+GALATÉA.
+
+Não te demores lá, minha alegria.
+
+
+ÁCIS.
+
+Já volto a ver-te, minha luz do dia.
+
+
+GALATÉA.
+
+Levas-me a vida, a jóia mais perfeita.
+
+
+ÁCIS.
+
+Em penhor dessa vida esta alma acceita.
+
+
+GALATÉA.
+
+Em penhor! Queres pois, que a restitua?
+
+
+ÁCIS.
+
+Não; se essa vida he minha, esta alma he tua.
+
+
+FIM
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Galatéa, by António Joaquim de Carvalho
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK GALATÉA ***
+
+***** This file should be named 21780-8.txt or 21780-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/2/1/7/8/21780/
+
+Produced by Pedro Saborano. Para comentários à transcrição
+visite http://pt-scriba.blogspot.com/ (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from Google Book Search)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
diff --git a/21780-8.zip b/21780-8.zip
new file mode 100644
index 0000000..4ec4bfc
--- /dev/null
+++ b/21780-8.zip
Binary files differ
diff --git a/21780-h.zip b/21780-h.zip
new file mode 100644
index 0000000..cbed938
--- /dev/null
+++ b/21780-h.zip
Binary files differ
diff --git a/21780-h/21780-h.htm b/21780-h/21780-h.htm
new file mode 100644
index 0000000..b1dd00d
--- /dev/null
+++ b/21780-h/21780-h.htm
@@ -0,0 +1,2177 @@
+<!DOCTYPE html
+ PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Transitional//EN"
+ "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-transitional.dtd">
+<html>
+
+<head>
+ <title>Galatéa: egloga</title>
+ <meta name="AUTHOR" content="Antonio Joaquim de Carvalho" />
+ <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1"
+/>
+ <style type="text/css">
+
+ body {width: 80%; margin-left:10%}
+
+ h1, h2, h3, h4 { text-align: center}
+ h1 {margin: 2em; text-align: center}
+ h2, h4 {margin-top: 2em}
+
+ .author {font-family: serif; font-weight: bold}
+
+ .poesia { white-space:pre; margin-left: 10%}
+
+ .ficha_tecnica {text-align:center}
+
+ .indice {text-align:left; margin-left: 40%}
+
+ .small-caps {
+ font-variant: small-caps;
+ margin-left: 20%;
+ }
+
+ </style>
+</head>
+<body>
+
+
+<pre>
+
+The Project Gutenberg EBook of Galatéa, by António Joaquim de Carvalho
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Galatéa
+ egloga
+
+Author: António Joaquim de Carvalho
+
+Release Date: June 8, 2007 [EBook #21780]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK GALATÉA ***
+
+
+
+
+Produced by Pedro Saborano. Para comentários à transcrição
+visite http://pt-scriba.blogspot.com/ (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from Google Book Search)
+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+
+
+<div class="ficha_tecnica">
+<h1>GALATÉA</h1>
+
+<h2>EGLOGA.</h2>
+
+
+<p>PRIMEIRA, E SEGUNDA PARTE</p>
+
+
+<p>POR</p>
+
+<p class="author">ANTONIO JOAQUIM DE CARVALHO.</p>
+
+
+<p>LISBOA: M. DCCCI.</p>
+
+<p>NA OFFIC. DE SIMÃO THADDEO FERREIRA.</p>
+
+<p><i>Com Licença da Meza do Dezembargo do Paço.</i></p>
+</div>
+
+
+
+
+
+<h2>AO LEITOR.</h2>
+
+
+<p>Esta primeira Egloga, ha 16 annos impressa, agora faço-a reimprimir,
+para tirar-lhe as lisongeiras Cartas, para emendar-lhe algumas passagens
+com melhor escolha, para curar-lhe alguns vicios gerados por aquelles, que
+duas vezes a reimprimírão, a pezar do meu gosto, e para ligar ambas as
+Partes, por que a primeira dá a materia para a segunda.</p>
+
+<p>Se me increparem, porque faço domavel o Gigante Polyfemo, contra a
+opinião dos melhores Poetas, respondo: He verdade, que a Fabula nos mostra
+este Cyclope hum monstro de crueldade, de extraordinarias forças, e
+destemido: hum tragador de seis companheiros de Ulysses, e delle mesmo o
+seria, se astucioso não lhe fugisse: hum soberbo em fim, que declamava, que
+nem ao mesmo Jupiter temia; mas pergunto: Este Gigante era humano, ou não?
+Todos me dirão, que sim. Pois se era humano, era sugeito ao imperio da
+Razão, com cujas armas o ataco, e o venço: e só seria inverosimil, se eu
+com a razão accommettesse hum Tigre, hum Leão, huma Serpente. Se os mais
+não pizárão esta estrada, porque não quizerão, pizo-a eu, porque quero, e
+por que posso, sem atropelar a verosimilhança.</p>
+
+<p>Se altero o caracter da Egloga; se me aparto da simplicidade pastoril;
+se faço inflammar Polyfemo, e respirar vingança, he porque eu não pinto hum
+daquelles Pastores do Seculo de oiro, em que reinava a mansidão, e o socego
+de espirito; pinto hum Cyclope, hum Pastor ferino, que abrazado no ciume, e
+na ira, deo barbara morte ao mancebo Ácis, lançando-lhe em cima hum
+penhasco: catástrofe, que eu não pinto, por não fazer huma Egloga com
+espirito de Tragedia.</p>
+
+<p>Eu tive a fortuna, de que alguns homens (discrétos homens!) dissessem,
+que não era minha a minha Egloga Deploratoria intitulada JOSINO na chorada
+morte do Principe o Senhor D. JOSÉ. Eu serei feliz, se agora tiver a mesma
+fortuna, porque se esses contrastes duvidarem de ser minha esta obra, boa
+será ella pela sua avaliação. Esses, que duvidão, examinem, busquem,
+descubrão o legitimo Author, e o mostrem para gloria sua, e descredito meu.
+Conheça o mundo o homem virtuoso, o homem raro, que se cançou naquella
+composição, para renunciar em mim a posse, o lucro, e o credito della. E se
+eu a furtei, onde estás homem roubado, que não acodes ao teu cabedal,
+sabendo, que em meu poder existe? Denuncía-me; clama justiça contra mim.
+Ah! Ninguem falla? Ninguem me acusa? Pois acuso-me eu, mas he da temeridade
+de emprehender a guerra sem ter armas: de querer lugar na Républica das
+Letras sem ser Cidadão de Athenas: de fazer Versos sem beber da Castália,
+sem soccorro das Musas, sem conhecer Apollo. Os Versos (toscos Versos) que
+ha trinta annos escrevo, são os denunciantes, as testemunhas, e os Juizes
+do meu crime. Acusem-me, como eu me acuso deste delicto; porém não de
+roubador, officio imfame, que não cabe em almas honradas; mas se os
+críticos me arguirem pelos pobres, insulsos Versos, devem igualmente
+attender em minha defensa, que estes se não tem mel, tambem não tem veneno;
+se não deleitão, tambem não ferem. Isto supposto, fação-me Justiça.</p>
+
+
+
+
+<h1>GALATÉA</h1>
+
+<h2>EGLOGA.</h2>
+
+
+
+
+<h2>PRIMEIRA PARTE.</h2>
+
+
+<h3>INTERLOCUTORES.<br />
+
+POLYFEMO, E LAURINDO.</h3>
+
+
+<h4>POLYFEMO.</h4>
+
+<p class="poesia">Ah! Campos, campos meus! Vós, que algum dia
+ Me servieis de amavel companhia:
+Vós, que os ouvidos daveis ao meu canto,
+ Prestaimos boje, para ouvir meu pranto;
+Se bem, que assáz me custa magoar-vos,
+ Depois de com meu canto deleitar-vos;
+Mas eu adoçarei a vossa mágoa,
+ Dando-vos de meus olhos rios de agua:
+Com ella florecei para os viventes,
+ E á custa do meu mal vivei contentes,
+Que eu não vos lograrei, não; nem já gora
+ A minha morte póde ter demora;
+Os Ceos a mandem, que em tormentos fortes
+ Huma morte he melhor, que muitas mortes.
+Ah! Campos, se vós fosseis animados,
+ E ponderasseis bem os meus cuidados,
+De mim aprenderieis, que a ventura,
+ Ao que nasceo feliz, he que procura:
+E Aquelle, que nasceo já desgraçado,
+ Sempre lhe foge com semblante irado.
+Mas quem he, que este monte vem subindo?
+ Pelo trage he Pastor: sim, he Laurindo,
+Que talvez magoado d'escutar-me,
+ Quer meios procurar de consolar-me:
+Em vão, em vão se cança, se o intenta;
+ Que em vez de alivio dar-me, a dor me augmenta.
+Agora mais me vejo impaciente,
+ Que até me afflige a vista de hum vivente:
+Mas elle vem, não posso resistir-lhe,
+ Já não posso esconder-me, nem fugir-lhe;
+Se fujo desta parte, he ribanceira,
+ Se daquella, me affogo na ribeira;
+Pois nella acabarei, morrer não temo;
+ De huma só morte acabe Polyfemo.</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Detem-te, amigo, e espera, que fazias?
+ A ti mesmo matar-te pertendias?
+Seres comtigo mesmo ímpio tyranno,
+ Para hum damno evitar com maior damno!</p>
+
+
+<h4>POLYFEMO.</h4>
+
+<p class="poesia">Deixa, deixa, que eu morra por piedade,
+ Porque morrendo, evito a crueldade
+Dos ímpios Deoses: ah! Viver não quero,
+ Pois vida tão penosa não toléro:
+Tu contarás á falsa Galatéa,
+ Que por ella me expuz á morte feia;
+Porém no peito o coração me estalla,
+ Vendo, que Ácis tyranno ha de logralla:
+Mas logre-a, logre-a, embora, oh que tormento!
+ Que eu só, por tal não ver, morrer intento.</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Socega, amigo, queres dessa sorte
+ Dar a vida, por quem te causa a morte?
+Queres vingar-te della socegado?
+ Desprezou-te, despreza-a: estás vingado.</p>
+
+
+<h4>POLYFEMO.</h4>
+
+<p class="poesia">Desprezar Galatéa, e offendella
+ Quando só morrer por ella!
+Isso não, que depois de eu adoralla,
+ Valor não tenho para maltratalla:
+Ella pratique embora a crueldade,
+ Que eu não devo imitar-lhe a impiedade.</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Conheces, que te offende essa perjura,
+ E inda morres por ella? Oh que loucura!</p>
+
+
+<h4>POLYFEMO.</h4>
+
+<p class="poesia">Sim, amigo, traidora a considero;
+ Mas quiz-lhe bem: querer-lhe mal não quero.
+Eu não lhe amo o rigor, sim a belleza,
+ Que he parto singular da natureza:
+Tu, que a conheces, vê, se razão tenho
+ Para adoralla com tão grande empenho:
+O lindo rosto, aquelles olhos bellos,
+ Tão matadores, que em chegando a vêllos,
+Parece, que do rosto lhe saltavão,
+ E que para não vêllos me cegavão.
+As loiras tranças, bem como doiradas,
+ Sobre seus alvos hombros espalhadas.
+Se as costas me voltava por desprezo,
+ Como que a ellas me levava prezo:
+Nas lindas faces se me figuravão
+ Duas papoilas, que entre a neve estavão.
+A boca, que em conceitos sempre acerta,
+ Parecia huma rosa meia aberta;
+Mas quando grave, e graciosa ria,
+ Oh quanto então mais bella parecia!
+Mostrando os claros dentes, que esmaltavão
+ Seus beiços, que de nácar se formavão;
+E co'a força do riso as faces bellas
+ Duas covas fazião como estrellas.
+As mãos por engraçadas, e pequenas
+ Parecião formosas açucenas.
+Mil vezes quiz beijar-lhas; porém ella,
+ Que o damno prevenia na cautéla,
+Escondendo-as, de mim mais se affastava,
+ Que até nisto ser casta bem mostrava.
+Estas bellezas, esta honestidade
+ Forão prizões da minha liberdade,
+E quanto as lindas mãos mais me negava,
+ Tanto as doces prizões mais me apertava;
+Mas n'huma sésta vi, que ella dormia
+ Junto do pote, que na fonte enchia:
+Vou-me pé ante pé, e hindo a beijar-lhas,
+ Me arrependi, porque temi manchar-lhas.
+Nem só para pegar-lhes valor tinha,
+ Porque mão tão grosseira, como a minha,
+Não devia tocar aquella neve,
+ Que só com outra igual tocar-se deve;
+Mas immovel fiquei, pois só gostava
+ De ver a bella acção, em que ella estava.
+O branco rosto sobre o curvo braço,
+ Outra mão tambem curva no regaço:
+O corpo reclinado sobre a fonte,
+ E a curta sombra, que lhe dava o monte,
+Só metade do rosto lhe cubria,
+ Que muito mais formosa inda a fazia.
+Eu, que só me detinha em admiralla,
+ Sem que tivesse intento de acordalla;
+Como de gosto estava arrebatado,
+ Sem que eu sentisse, cahe me o cajado:
+Dá-lhe nos pés: acorda ella assustada,
+ Vê-me, levanta-se, e com voz irada
+Me diz: "Vil, só comigo! Que fazias?
+ "Dize: acaso offender-me pertendias?
+"Se por gigante intentas de vencer-me,
+ "Matar-me poderás, mas não render-me:
+"Que a minha honestidade he tão constante,
+ "Que não cede á violencia de hum gigante.
+Não, (eu lhe respondi) não te offendia:
+ Nem de ti outra cousa pertendia,
+Mais do que ao menos, pois te não lograva,
+ Ver-te: e so com te ver me contentava.
+Se nisto te offendi, ou me desculpa,
+ Ou me castiga, se me achares culpa:
+Que se eu da tua mão for castigado,
+ Serei ditoso, se antes desgraçado.
+Mas dize-me, cruel, se me estimaste,
+ Porque razão sem culpa me deixaste?
+E se indigno me achavas para amante,
+ Porque juraste de me ser constante?
+Que resposta daria a fementida?
+ "Vai-te louco, (me diz) que aborrecida
+"Até de ouvir-te estou, nem posso dar-te
+ "Outra razão maior de desprezar-te,
+"Senão, que as Leis de Amor já não tolero:
+ "Amei-te, em quanto quiz, hoje não quero.
+"Em fim, tu não és do meu agrado:
+ "Basta: vai-te, que estás desenganado.
+E com este rigor aquella ímpia
+ Foge: chamo-a, mais ella me fugia:
+Eu vendo a ir tão bella, quanto irada,
+ Corpo gentil, cintura delicada,
+Afflicto exclamo: Ah! Deshumana féra!
+ Nunca te eu víra, ou nunca te perdêra.</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Ainda louvas a ingrata por formosa,
+ Quando enorme se fez, sendo aleivosa?
+Polyfemo, se queres ser discreto,
+ Não recordes a offensa, nem o affecto:
+Que o affecto tambem o tempo o gasta,
+ E a offensa he parto de huma louca, basta
+Que á razão nunca os olhos tem abertos,
+ E sem luz que fará? Mil desacertos:
+Por isso áquelle, que extremoso a trata,
+ A paga, que lhe dá, he ser-lhe ingrata.
+Bem como o bravo lobo carniceiro,
+ Que vê, que a innocencia de hum cordeiro
+Não péde entranhas ter para aggravallo,
+ Por isso mesmo quer despedaçallo;
+Mas se este acha hum rafeiro, que o extingue,
+ Tambem ella achará quem bem te vingue:
+E no entanto o melhor he esquecella,
+ E se possivel for, nunca mais vella.</p>
+
+
+<h4>POLYFEMO.</h4>
+
+<p class="poesia">Tambem deixar de a ver he impossivel,
+ Porque sem vella, a dor mais insoffrivel
+Creio, que dentro n'alma padecesse,
+ Como a flor, que sem Sol murcha, e não cresce.
+Ah! Se eu agora a visse, e lhe fallasse,
+ Talvez que a meus gemidos se abrandasse:
+E póde ser, que a achasse arrependida
+ De perder, quem por ella perde a vida.
+Oh quão feliz seria a minha sorte,
+ Se ella abrandasse aquelle genio forte!
+Do desprezo, e d'affronta eu me esquecêra,
+ Se hum riso, se hum sinal de amor me déra.
+Tudo, tudo por ella perderia:
+ Sem gado, sem choupana ficaria:
+Sujeitar-me-hia pelos seus amores
+ A viver das esmolas dos Pastores:
+Pois sem logralla, tudo me he penoso,
+ E logrando-a, sou pobre; mas ditoso.</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Se amas com tanto extremo a huma traidora,
+ Que mais fizeras, se fiel te fôra?</p>
+
+
+<h4>POLYFEMO.</h4>
+
+<p class="poesia">Esta alma, que me anima, se pudesse,
+ Creio, que em paga d'esse amor lha désse,
+Amando-te, era justo premialla;
+ Mas desprezando-te, he loucura amalla:
+Sim, que o homem não mostra ser discreto
+ Amando a falsa, que tem outro objecto:
+Pois daqui nasce a mancha da deshonra,
+ E antes se perca a vida, do que a honra.
+Que se havia dizer na nossa Aldêa,
+ Se depois dessa ingrata Galatéa
+Por outro te deixar, tu a buscasses,
+ Esquecido d'affronta inda a estimasses?
+E não tremias, não te envergonhavas
+ De dizerem, que a honra desprezavas?
+Ah! Querias do amor ser arrastado,
+ Perdendo a fama, e credito de honrado?
+Dize, responde, a falla não escondas;
+ Mas ou me vence, ou nada me respondas.</p>
+
+
+<h4>POLYFEMO.</h4>
+
+<p class="poesia">Nada responderei por defender-me,
+ Pois por sábio chegaste a convencer-me:
+Se a paixão me cubrio de escuridade,
+ Tu me mostraste as luzes da verdade:
+Agora já conheço, que essa ímpia
+ Mais féra, que o dragão, que o monte cria,
+Nem amor, nem piedade já merece,
+ Pois por outro me deixa; e assim se esquece
+Da fé, que me jurou, e da lealdade,
+ Com que sempre a tratei; que a falsidade
+Não podia caber n'hum peito amante,
+ Que ainda offendido mostra ser constante.
+Eu, que até ás Pastoras, quando as via,
+ Nem ainda, o Ceo vos guarde, lhes dizia:
+E se acaso de longe as avistava,
+ Por lhes fugir, a estrada rodeava.
+Tudo isto por fineza áquella infame,
+ Que, só tão feio nome, he bem lhe chame;
+Porque a saber, que ás outras eu fallava,
+ Não julgasse, que alguma me agradava;
+Porém que premio vim a tirar disto?
+ Sabes o que? Com todos ser malquisto:
+Desprezarem-me todos, ver-me agora
+ Aqui só, sem amigos, nem Pastora:
+E a falsa, tanto extremo desprezando,
+ Amar outro, e ficar de mim zombando!
+E soffro tal injúria sem vingar-me!
+ Poderei socegar sem despicar-me!
+Não, não socegarei, que hum peito irado
+ Socega só depois de estar vingado.
+Sim, vou já despicar-me... Mas que intento!
+ Que faço! Aonde vou! Que pensamento
+He este, que me occorre! Oh quanto errado
+ Gyra o discurso de paixão cercado!
+Eu matar Galatéa! Oh que vileza!
+ Naquella rara imagem da belleza
+Descarregar o golpe penetrante!
+ E havião ver meus olhos nesse istante
+Aquelle brando peito traspassado!
+ O rosto, bem qual Sol quando eclipsado!
+E os olhos, que daquelle Sol são raios,
+ Perdendo a luz na sombra dos desmaios!
+Aquellas lindas faces tão córadas
+ Eu poderia vellas desmaiadas!
+A boca rubicunda, e graciosa,
+ Bem qual entre jasmins a linda rosa,
+Eu teria valor, teria vida,
+ Para vella sem graça amortecida!
+E havião escutar-lhe os meus ouvidos
+ O pranto, os ais, e os ultimos gemidos:
+Já com trémola voz, e a cada instante
+ Vella convulsa, afflicta, e delirante,
+Sem alento, sem côr desfalecida,
+ Dando hum suspiro, e acabando a vida!
+Oh Ceos! Que horror concebo em ponderallo!
+ Eu tremo, gélo-me, e de dor estallo:
+Que coração tão barbaro haveria,
+ Que obrasse tão enorme tyrannia?
+Eu teria valor, se a offendesse,
+ Para vella morrer, sem que eu moresse?
+Não, não teria tanta impiedade,
+ Que vendo cahir morta hume Deidade,
+Não me sahisse deste insano peito?
+ O duro coração de dor desfeito.
+Nem mais contemplar quero tal desgraça,
+ Que parece, que o Ceo já me ameaça,
+Que a terra vejo abrir, que já comigo
+ Se abate, e me confunde por castigo.
+Ah! Minha Galatéa, vive embora,
+ Bem que me sejas infiel, traidora:
+Ainda te amo, se bem, que o não mereças;
+ Eu padeça, mas sem que tu padeças:
+Vive feliz, e logra o teu amante:
+ Oh justos Ceos, que dor tão penetrante!
+Mal posso respirar, que até o alento
+ Me soffoca a violencia do tormento.
+Vai-te, amigo, e me deixa só hum pouco,
+ Que eu não estou em mim, eu estou louco:
+Oh! Venha embora a morte rigorosa
+ Acabar-me esta vida tão penosa.</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Deixa, amigo, esse louco desvario,
+ Que o ser de homem deslustra, offende o brio:
+E que o mundo dissesse pertendias,
+ Que por huma mulher enlouquecias?</p>
+
+
+<h4>POLYFEMO.</h4>
+
+<p class="poesia">Tambem dirá, que não me altéra a offensa,
+ Pois toléro a inimiga na presença.</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Perdoando-lhe tu por generoso,
+ Que ha de o Mundo dizer? Que és virtuoso.
+Mas se a fraca mulher ímpio punias,
+ Só de cubarde o nome vil terias.</p>
+
+
+<h4>POLYFEMO.</h4>
+
+<p class="poesia">Sim, perdoada está: eu lhe perdoo,
+ Pois da sua fraqueza me condoo;
+Tambem, porque talvez seja innocente,
+ Se bem que a culpa a accuse delinquente;
+Galatéa he honesta, he recatada:
+ Pois quem duvida fosse requestada
+D'aquelle Ácis traidor, e que a enganasse
+ Com vãs promessas, para que o amasse?</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Pensas bem que a mulher de honesto estado,
+ Se dá seu coração, sempre he rogado;
+Se bem que o rogo algumas não convence;
+ Mas a feia ambição a muitas vence.</p>
+
+
+<h4>POLYFEMO.</h4>
+
+<p class="poesia">Sim? Pois hoje verás, que a minha ira
+ Só contra aquelle infame se conspira:
+Elle, por me arrancar de amor a palma,
+ Me roubou a doce alma da minha alma,
+Vista dos olhos meus, bem como estrella,
+ Que luz me dava, para poder vêlla.
+Clara luz, doce vida, alma preciosa,
+ Tudo perdi. Oh scena lastimosa!
+Tudo o vil me roubou; porém protesto
+ Fazer o seu castigo manifesto
+Ao Ceo, á terra, a todos os viventes:
+ Elle me offende, as culpas são patentes;
+Pois o proprio delicto he, que o condemna,
+ A que segundo a culpa, sinta a pena.</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Queres que a morte de Ácis justifique
+ Huma céga paixão, hum vil despique?</p>
+
+
+<h4>POLYFEMO.</h4>
+
+<p class="poesia">Quero, porque da injúria se não gave,
+ Que o proprio sangue a sua culpa lave:
+E se neste lugar já o apanhára,
+ O coração do peito lhe arrancára.</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Dize: se a Galatéa perdoaste,
+ Depois que a culpa enorme lhe provaste,
+O Pastor, que he talvez menos culpado,
+ Porque não he, como ella, perdoado?</p>
+
+
+<h4>POLYFEMO.</h4>
+
+<p class="poesia">Ella sim: me offendeo; mas obrigada,
+ E merece perdão por violentada;
+Mas elle não he digno de clemencia,
+ Pois mais culpado está pela violencia.</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Aqui não ha violencia, ha certa culpa,
+ Que Amor condemna, e logo Amor desculpa,
+Delicto immensas vezes praticado
+ Por quem ama, e pertende ser amado.</p>
+
+
+<h4>POLYFEMO.</h4>
+
+<p class="poesia">Assim se obra; mas sempre he falsidade,
+ Quando offende as leis santas d'amizade.</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">He máo quebrar a Lei; mas que te espanta,
+ Se ella te jurou fé, e a fé quebranta?
+Polyfemo, discorre mais prudente;
+ Vence-te a ti, se queres ser valente:
+Eu teu amigo sou, eu sou mais velho,
+ Tu, que és mais moço, toma o meu conselho
+No falso Amor não faças confiança:
+ Desterra a ira, foge da vingança,
+Que esta inquieta, aquella te amofina:
+ De qualquer dellas sempre vem ruina.
+Males, que tu não queres supportallos,
+ Não deves para os outros desejallos,
+Que ás vezes são, qual pedra despedida,
+ Que no mesmo que a deita, abre a ferida:
+Queres a morte de Ácis? Não ponderas,
+ Que póde em ti cahir, se nelle a esperas?
+Teme o Ceo vingador, teme-lhe a ira:
+ O Ceo, que a vida dá, só elle a tira:
+Só elle sobre as vidas tem dominio,
+ E não deves oppôr-te ao seu designio;
+Nem ao menos vingar-te levemente
+ Poderás, sem que fiques delinquente.
+Olha, que para Jupiter Supremo
+ He menos, que hum mosquito, hum Polyfemo.
+Á voz só do seu raio penetrante
+ Treme de susto a rocha mais constante.
+Foge, foge de o veres irritado,
+ E não faças, que a mão levante irado.
+Ah! Já, mudas de côr, tremes, e pensas?
+ Pois a ti mesmo, espero, te convenças.</p>
+
+
+<h4>POLYFEMO.</h4>
+
+<p class="poesia">Tremo de confusão, e de mim tremo;
+ Os castigos do Ceo Respeito, e temo;
+Mas o affecto, a paixão, a honra, a offensa
+ Não me deixão acção, em que eu me vença:
+Vejo a justa razão, quero seguilla;
+ Mas a paixão vem logo a destruilla:
+Que este meu coração nunca descança
+ De chamar-me ao caminho da vingança.</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Qualquer paixão, qualquer impaciencia
+ Se vence com discurso, e com prudencia.</p>
+
+
+<h4>POLYFEMO.</h4>
+
+<p class="poesia">Tão desgraçado sou, que neste empenho
+ Nem já discurso, nem prudencia tenho:
+Quem vio tão enredado labyrintho
+ Como este, que na idéa, e n'alma sinto!
+Deoses, se justos sois, ou dai-me a morte,
+ Ou me livrai de confusão tão forte;
+Eu se vingar-me vou, me precipito;
+ Porque aos Deoses offende o meu delicto:
+Se assento em perdoar, não persevero,
+ Porque em vendo o offensor, logo me altero;
+Porém hum novo meio já me occorre:
+ Melhor acerta, quem melhor discorre.
+Eu não quero incitar ao Ceo clemente,
+ Mas para não vingar-me do insolente,
+Eu fugirei de o ver, que ao vêllo, logo
+ A cinza quente exhalaria fogo.
+Deixarei estes monte, estes prados,
+ Que a verdura me davão para os gados:
+Irei viver nas mais occultas brenhas,
+ Onde gente não veja, mas só penhas:
+Da vingança, e d'affronta assim me privo,
+ E ninguem sabe se sou morto ou vivo.</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Resolves bem, amigo; sim, he justo
+ Fugires do perigo a todo o custo;
+Porque busca a desgraça todo aquelle,
+ Que vendo o damno, não se aparta delle:
+Perca-se a Patria, perca-se a fazenda,
+ Perca-se tudo, e nunca o Ceo se offenda.
+Tu sim perdes lavoiras, e o serrado;
+ Mas o Ceo, que esses bens te havia dado,
+Te dará novos campos mais extensos,
+ Donde possas colher frutos immensos:
+Quem perder pelo Ceo, fique esperando,
+ Que em vez da perda, ficará lucrando:
+Se a tua choça perdes, caro amigo,
+ A minha he grande, vivirás comigo:
+Para a tua lavoira dar-te-hei terra
+ Da campina, que tenho, além da serra;
+Dar-te-hei duas palmeiras mui frondosas,
+ Donde colhas as tâmaras gostosas:
+Dar-te-hei duas formosas aveleiras,
+ Tortas sepas, viçosas oliveiras:
+E do mais fruto, que o Ceo der, pendente
+ Repartiremos ambos irmãmente.
+Para o gado lá tens viçosa relva,
+ Lá tens para o recreio a linda selva,
+Onde acharás hum bosque mui sombrio,
+ De huma parte arvoredo, d'outra hum rio:
+Alli se ouvem os pássaros cantando,
+ Alli se escuta o rio murmurando,
+Nelle andão de contínuo os pescadores,
+ Nelle pescão tambem alguns Pastores
+O saboroso peixe á longa cana,
+ Ou com o iscado anzol, que mais o engana:
+Em fim, he campo ameno, he deleitavel,
+ Fructuosa a terra, o clima saudavel:
+Lá vivirás, amigo, descançado,
+ Sem ver a causa do mortal cuidado:
+Pois naquella distancia por extensa
+ Não vês o offensor, nem vês a offensa.</p>
+
+
+<h4>POLYFEMO.</h4>
+
+<p class="poesia">Discreto amigo, amigo verdadeiro,
+ Tu fostes dos humanos o primeiro,
+Que me soube vencer: eu que algum dia
+ Nem a razão, nem Deoses conhecia,
+Hoje a razão abraço, os Deoses temo;
+ Tu me fizeste hum novo Polyfemo.</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Convence-te a razão, porque és humano,
+ Que a razão só não doma o bruto insano.</p>
+
+
+<h4>POLYFEMO.</h4>
+
+<p class="poesia">Oh grande, oh raro exemplo d'amizade!
+ Oh coração, gerado de piedade!
+Despido d'ambição, e d'avareza,
+ Só inclinado á mísera pobreza!
+Deixa, que por mostrar-me agradecido,
+ A teus honrados pés chegue abatido;
+E esta boca, por quem serás louvado,
+ Beije o chão duro, dos teus pés tocado.</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Suspende, Polyfemo, eu não pertendo
+ A tua gratidão, antes me offendo,
+De a meus pés te prostares abatido,
+ Acatamento só ao Ceo devido.</p>
+
+
+<h4>POLYFEMO.</h4>
+
+<p class="poesia">Oh quanto és digno de louvor completo,
+ Por liberal, humilde, e por discreto!
+Aprenda o avarento ambicioso
+ A ser mais liberal, mais caridoso:
+O que da santa, e mísera pobreza
+ Foge, como quem foge da vileza,
+Veja, que o rico, o paderoso, o nobre
+ Talvez, chegue a pedir esmola ao pobre:
+Esse, que as minas abre, e colhe o ouro,
+ Julgando a vida ter no seu thesouro,
+Veja, que a vida, e ouro n'hum momento
+ He como o fumo, que consome o vento:
+Siga os teus passos o soberbo inchado,
+ Que julga, que a ventura tem ao lado:
+Olhe, que a seca o grosso rio esgota,
+ E até com vento o cedro se derrota.
+Longe, longe de nós, ó vicio forte,
+ Vicio mais feio, do que a feia morte.</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Não terão parte em nós vicios danados,
+ Nem pizaráõ a flor dos nossos prados;
+Que esta lã, que nos cobre, esta pobreza
+ Contra o vicio nos serve de defeza.
+Vamos gozar a santa paz ditosa,
+ Vamos colher a fruta saborosa
+Da minha bella Aldêa: vem, amigo,
+ Que eu não me ausento, sem que vás comigo.</p>
+
+
+<h4>POLYFEMO.</h4>
+
+<p class="poesia">Vamos; mas ah Laurindo, quem diria,
+ Que por huma mulher, por'huma ímpia
+Eu havia deixar a minha Aldêa,
+ E ir d'esmolas viver na terra alheia?
+Oh triste Polyfemo! Oh desgraçado!
+ De ti deves queixar-te, e não do fado:
+Em mil exemplos o perigo viste,
+ Devias fugir delle, não fugiste?
+Pois agora o teu erro irás pagando,
+ E o damno sem remedio lamentando.
+Tome exemplo de mim, o que ama cégo,
+ Julgando ter no amor todo o socego,
+Veja a minha desgraça, e tema o dano,
+ Que sempre nasce deste amor profano:
+Não prenda a doce, amavel liberdade,
+ Já que o Ceo lhe quiz dar livre a vontade:
+Fuja do amor, e guarde esta doutrina,
+ Se quizer viver longe da ruina.
+Mas ah! Nem já do amor quero lembrar-me,
+ Que he facil outra vez precipitar-me.
+Adeus, ó campos meus, campos amados,
+ Que me daveis o fruto, e pasto aos gados:
+Já não hei de ferir vossos ouvidos,
+ Nem já respondereis aos meus gemidos.
+Adeus, ó rio meu, que me obrigavas,
+ Quando ao meu gado tuas aguas davas;
+Mas pago ficas, que essa grossa enchente
+ A augmenta de meus olhos a corrente.
+Adeos, plácida fonte, onde algum dia
+ Se alegre rias, eu alegre ria;
+No prazer te imitei; mas hoje afflicto
+ Só no pranto, que verto, he que te imito.
+Lembra-te, ó fonte, que a cruel Pastora,
+ Essa, que sem razão me foi traidora,
+Por ti jurou, que essa agua lhe faltasse,
+ Se ella de amor a pura se manchasse:
+Agora deves, pois faltou perjura,
+ Por castigo negar-lhe essa agua pura:
+Como ella contra si justiça pede,
+ Ou procure agua longe, ou morta á sede;
+Mas ah! Que digo! He muita crueldade:
+ Não, não lhe negues agua por piedade,
+Tem della compaixão, dá-lhe desculpa,
+ Basta só, que a castigue a propria culpa.
+Adeos, ó prado ameno, as flores bellas
+ Eu te roubei para tecer capellas:
+Perdoa-me, e talvez que inda melhores,
+ Que á custa do meu mal terás mais flores:
+E apague a minha culpa, que te aggrava
+ Este pranto, que humilde os pés te lava.
+Adeos, Pastores, doces companhias
+ Dos meus passados, e felices dias;
+Porém dias tão breves, quanto he breve
+ No Irverno a calma, no Verão a neve:
+Se o meu canto aprendestes algum dia,
+ No tempo da ventura, e d'alegria
+Hoje do meu desgosto, e do meu damno
+ Podeis lucrar mais util desengano,
+Vendo, por breve ser minha ventura,
+ Quanto a glotia do mundo pouco dura:
+Que apenas nos faz ver hum falso gosto,
+ Logo atrás delle vem maior desgosto.
+Adeos, ó Galatéa; mas que digo!
+ Cuidei, que tinhas inda o nome antigo;
+Mas não deves ter já nome de humana,
+ Sendo Leão feroz, vibora insana:
+Fica-te embora em paz, e só te peço
+ De mim t'esqueças, que eu de ti m'esqueço:
+Sim, farei, que não tornes a lembrar-me
+ Para querer-te, nem para vingar-me:
+E poderemos só ficar lembrados
+ Do exemplo, com que fomos doutrinados:
+Mas vê, quanto differem as doutrinas,
+ A que eu te dei, daquella, que me ensinas:
+Eu te ensinei a ser fiel, constante,
+ Tu me ensinaste a ser falso, inconstante;
+Mas nunca me seguiste a lealdade,
+ Nem eu soube seguir-te a falsidade;
+Porém essa doutrina; inda que inutil,
+ Estimo-a, porque em parte me foi util:
+Se até aqui das Pastoras não fugia,
+ Porque a sua traição não conhecia,
+Já della fugirei desenganado,
+ Como quem foge do animal damnado.
+Longe, longe de mim, ímpias tyrannas,
+ Ide viver com féras deshumanas:
+Em fim, parto a morrer: Adeos, Pastora,
+ Adeos, ímpia: Adeos, falsa: Adeos, traidora.</p>
+
+
+
+
+<h2>SONETO.</h2>
+
+
+<p class="poesia">Novo exemplo aqui tens, mísero humano,
+Que incensas os Altares da vaidade,
+Aqui te mostro a estrada da verdade,
+Por onde ao Templo vás do desengano:</p>
+
+<p class="poesia">De Polyfemo o lamentavel damno,
+De Galatéa a horrenda falsidade
+Te excitem a fugir da crueldade,
+Que he premio certo desse amor tyranno!</p>
+
+<p class="poesia">Elle consome os bens, a honra offende,
+O socego perturba, arrisca a vida,
+E o coração mais livre assalta, e rende.</p>
+
+<p class="poesia">Ah! Destróe essa mão féra, humicida,
+Rompe os duros grilhões, com que te prende,
+Quebra-lhe as setas, ficará vencida.</p>
+
+
+
+
+<h1>GALATÉA</h1>
+
+<h2>EGLOGA.</h2>
+
+
+
+
+<h2>SEGUNDA PARTE.<br />
+
+DO MESMO AUTHOR.</h2>
+
+
+<h3>INTERLOCULORES.<br />
+
+GALATÉA, LAURINDO, E ÁCIS.</h3>
+
+
+
+
+<h2>GALATÉA.<br />
+
+EGLOGA.</h2>
+
+
+<p class="poesia">A bella, incomparavel Galatéa,
+ A Nynfa, tutelar, gloria d'Aldêa
+O seu Ácis perdido busca afflicta:
+ Corre, examina, geme, chora, e grita:
+"Ácis! Ácis! Meu bem! Onde te escondes?
+ "Eu rouca de chamar-te, e não respondes?
+"Se nas margens do rio por ti clamo;
+ "Mais foge o rio, quanto mais te chamo.
+"Se á fonte vou teu nome repetindo,
+ "Ella vai murmurando, e vai-se rindo.
+"Só este monte de me ouvir magoado,
+ "Se eu te chamo, elle chama, e tu calado!
+"Ah meu Ácis! meu bem, se inda tens vida,
+ "Soccorre esta, que he tua, assáz perdida.
+"E se aos campos Elysios já partiste,
+ "Lá verás breve a Galatéa triste.
+"A ti me ha de ligar a morte crua;
+ Pois tu és a minha alma: eu alma tua.</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Que vozes, ternas vozes tão sentidas
+ Os montes ferem de afflicção nascidas!</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Ah Pastores, que, alegres, divertidos
+ Cantais ao triste som dos meus gemidos!
+Se este pranto vos move á caridade,
+ Deparai-me o meu Ácis, por piedade.</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">A voz he de mulher. que ao longe grita.
+ Quem pudéra valer á triste afflicta!
+Os duros écos, que este valle atrôão,
+ Senão me engano, desta encosta sôão.
+Eu vou por este pedregoso atalho
+ Ver, se encontro, quem he, ver se lhe valho.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Ah! Ninguem já responde aos meus clamores?
+ Já não acho piedade nos Pastores?
+Misera Galatéa! A que chegaste,
+ Depois que amor no coração geraste!
+Mas ah! Senão me engana a mata espessa,
+ Hum homem para mim o passo apressa!
+He Pastor: quem será? Não vejo tanto,
+ Pois me escurece a vista o grosso pranto.
+Será o meu bom Ácis? Se elle fôra,
+ Huma nova alma eu concebêra agora.
+Ácis! Ácis! És tu? Responde, falla:
+ Ou não he elle, ou não me estima, e cala:</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">He Pastora; e se não me engana a idéa
+ Pelo gentil semblante he Galatéa.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Ah! Já vejo: já estou desenganada,
+ Que o meu Ácis não he. Ó desgraçada!</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Galatéa, que tens? Tu, que algum dia
+ Semeavas os campos de alegria,
+Hoje com pranto, e vozes, que enternecem,
+ Murchas as plantas, que ao teu riso crescem!</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Feliz foi esse tempo; porém hoje
+ De mim (qual rez ferida) o prazer foge.
+Mas dize-me, Laurindo, acaso viste
+ O meu Ácis, por quem suspiro triste?</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Ha dias, que o não vi; mas que motivo
+ Banha o teu lindo rosto em pranto activo?</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Eu te mostro a origem, que ao mostralla,
+ No triste peito o coração me estalla.
+Ha tres dias... Oh dias de amargura,
+ Mais negros para mim, que a noite escura!
+Quando o Sol hia ver outro Orizonte,
+ Deixando triste o rio, o valle, o monte,
+Metto o fuso na róca, o gado chamo
+ Para o pobre curral, vem ao reclamo:
+Conto as cabeças, falta-me a Ovelhinha,
+ Que eu estimava mais, que as mais, que eu tinha,
+Por brincadora, esperta, e tão malhada,
+ Que parecia com pincel pintada.
+Tinha-me tanto amor, que se eu gemia
+ Ella então nem brincava, nem comia.
+Mas se me via alegre, ou se eu cantava,
+ Ella ao meu lado de prazer saltava.
+Eu afflicta a busquei té junto ao Téjo;
+ Quando na margem o meu Ácis vejo.
+Corre a ver-me, e no riso amor explica;
+ Porém vendo-me afflicta, afflicto fica.
+Pergunta-me a razão: conto o successo,
+ E que procure a minha rez lhe pesso.
+Elle me diz então com vozes ternas,
+ Vozes, que esta alma ha de guardar eternas:
+"Ah! Não chores, meu bem, minha alegria.
+ "Em cujos olhos brilha a luz do dia!
+"Se os encobres com pranto, e magoa enorme,
+ "Queres, que o dia em noite se transforme?
+"Fugio-te a tua Ovelha: eu ta procuro;
+ "E por teus lindos olhos eu te juro,
+"Que se ella viva está, e eu souber della,
+ "Inda que arrisque a vida, hei de trazella;
+"Mas se baldado for o meu empenho,
+ "Das minhas escolhe huma, ou quantas tenho,
+E com tão terno amor me enchuga o rosto,
+ Que me leva metade do desgosto.
+Quiz partir, dava hum passo, então parava,
+ Como que em mim seu coração deixava:
+Partio; e a cada passo.... (ó que retiro!)
+ Voltava para mim, dava hum suspiro;
+Que o coração presago lhe dizia,
+ Que era a ultima vez, em que me via.
+E bem se verifica (oh Ceos! Conforto!)
+ Que não me ha de ver mais, porque he já morto.</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Ácis morto! Que dizes, Galatéa?
+ Isso he certo, ou te engana a falsa idéa?</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Eu te exponho a razão, em que me fundo.
+ Quem vio (oh Deoses) scena igual no Mundo
+Ácis partio: passárão-se dois dias,
+ Dias de magoas, noites de agonias,
+Em cada instante, que elle me tardava,
+ Mil desgraças a idéa me pintava.
+Porém hoje no valle d'azinheira,
+ Junto á ponte da plácida ribeira,
+Debaixo de hum cipreste levantado,
+ Cópia de mim, eu vigiava o gado;
+Se bem que pouco vigiar podia,
+ Quem de chorar já quasi nada via.
+Cançada de lutar com meu tormento,
+ Meu unico, amargoso mantimento,
+A affligida cabeça ao tronco encosto,
+ E sobre a curva mão inclino o rosto.
+O somno, que ha dois dias meu não era,
+ Veio piedoso, que antes não viera!
+Pois me fez ver em sonho... Oh que desgraça!
+ A causa desta dor, que me traspassa.
+Eu vi... triste visão! Que além da serra,
+ Por hum dos regos da lavrada terra,
+Hia o meu Ácis triste, suspirando
+ Com prompta vista a minha rez buscando;
+Outras vezes, olhando para a Aldêa,
+ Clama saudoso: "Ah minha Galatéa!
+Quando de entre hum pinhal... de o dizer, tremo:
+ Sahe o barbaro, o manstro Polyfemo.
+Toma-lhe o passo, e n'hum trilhado estreito
+ Com dardo agudo lhe traspassa o peito:
+Clamando: "Morre, vil, morre, inimigo,
+ "Que inda mereces mais cruel castigo.
+"Chama agora o teu bem, chama a fingida,
+ "Grita por ella, que te torne a vida.
+Á violencia do golpe, o desgraçado
+ Solta do peito afflicto hum ai magoado
+Trémulo, curvo, com a mão convulsa
+ O peito aperta, donde o sangue pulsa:
+Quer suster-se, não póde, a força falta:
+ A mão solta do peito, o sangue salta:
+Vai vergando, e cahindo: hum tronco agarra:
+ Este se quebra, o fraco pé lhe esbarra;
+E sobre hum mar de sangue da ferida
+ Cahe exhalando a preciosa vida.
+Com vista incerta, os olhos vidracentos,
+ Trémula a voz, sem côr, já sem alentos,
+Exclama, em fim, nas mãos da morte feia:
+ "Valei-me, Ceos, adeos ó Galatéa.
+E soltando hum suspiro, os olhos serra:
+ Ferindo as plantas, magoando a terra.
+Oh Deoses! Inda incerta esta desgraça;
+ He qual farpão, que o peito me traspassa;
+E se he certa, mandai, que a dura morte
+ Sobre mim venha, e descarregue o corte:
+Morreo Ácis por mim, por elle eu morra:
+ Qual do seu, do meu peito o sangue corra:</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Misera Galatéa enchuga o pranto,
+ Que hum sonho falso não provoca a tanto.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Este sonho, a demora, e Polyfemo,
+ Tudo me assusta, e a desgraça temo.</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">O sonho intimidar-me não devia
+ Por ser falsa illusão da fantasia.
+Do Pastor a demora, que te assusta,
+ Tambem póde nascer de causa justa.
+Se temes Polyfemo, o susto affasta:
+ Comigo vive, eu nunca o deixo, e basta.
+E desde que o domei por teu respeito,
+ Tudo que eu mando, que elle faça, he feito.
+Piza, piza, a teus pés essa agonia:
+ Faze, que a fonte com teu riso ria.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Tu destróes em parte o meu desgosto;
+ Mas não consegues ver-me enchuto o rosto:
+Não: fazer que esta setta não me fira,
+ Só póde o meu Pastor. Ah! Quem o víra!
+Só pódem os seus olhos engraçados
+ Dar vista aos meus já cégos, e cançados.
+Mas temendo o rancor de Polyfemo,
+ As proprias sombras dessas plantas temo.</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Do triste Polyfemo o rancor deixa:
+ Tu foste a causa, e só de ti te queixa.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">A causa fui! Eu sou féra impestada,
+ Que fizesse aquella alma invenenada?</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">A causa foste, sim, porque o amaste,
+ E por Ácis, sem culpa, o desprezaste.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Pelos Deoses do Olympo Soberano
+ Juro que nunca amei tal monstro insano.</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Pois se he certo, que amor não lhe tiveste,
+ Porque falsas promessas lhe fizeste?</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Porque assim o meu Ácis defendia
+ Da vingança, que o vil lhe promettia.</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Ah! Pois quiz com violencia... ( que loucura!)
+ Gerar amor, que nasce da ternura!</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Sim, com rigor queria, que o amasse,
+ E que o meu peito ao meu Pastor fechasse.
+Clamando irado assim: "Cruel Pastora,
+ "Tu desprezas soberba, a quem te adora?
+"És toda do teu Ácis? Pois discorre,
+ "Que ou tu has de ser minha, ou Ácis morre.
+"Dize, resolve já, ou vou matallo;
+ "E o coração aos olhos teus mostrallo.
+Eu ante o monstro vil de crueldade,
+ Que não cede á razão, nem á piedade,
+Rogo-lhe compaixão: não se enternece:
+ Choro humilde a seus pés: mais se embravece.
+Eu delirava neste lance forte
+ De dar ao triste a vida, ou dar-lhe a morte.
+Ácis morrer por mim, sendo innocente!
+ Não, por livrallo fiz-me delinquente.
+Com o tyranno usei de idéas novas
+ Para dar-lhe de amor fingidas provas;
+Mas o meu firme peito era impossivel,
+ Que abrisse a porta aquelle bruto horrivel.
+Se nisto te aggravei, Ácis desculpa;
+ Se eu delinquente fui, foi tua a culpa.</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Nao chores, virtuosa Galatéa:
+ De ti fazia mui diversa idéa;
+Bem que eu não sigo as linguas venenosas,
+ Que as mulheres só tratão de aleivosas:
+Sei, que muitas o são, sim, não duvido,
+ Pelos casos, que vejo, e tenho ouvido;
+Mas contem-se as traições d'ellas, e d'elles,
+ Se acharem nellas mil, ha dez mil nelles.
+Tu, exemplar Pastora, mostrar queres,
+ Que és a gloria, o modelo das mulheres:
+Que os falsos homens pódes doutrinallos;
+ E com teu mesmo exemplo envergonhallos.
+Vai-te em paz, vai guardar teu manso gado:
+ Do teu Ácis feliz dá-me o cuidado,
+Que eu hirei procurallo: em mim confia,
+ Que hei de tornar-te a noite em claro dia.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Ah piedoso Laurindo! Se tal fazes,
+ A hum corpo morto nova vida trazes.</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia">Que triste vejo a serra, o valle, o monte!
+ O rio pasma, corre turva a fonte.
+Sim, sem a minha amavel Galatéa
+ A clara luz do Sol he triste, e feia.
+Mas onde te acharei, gentil Pastora,
+ Para clamar então: já vejo a Aurora!
+Aves, tornais o canto em agonia
+ Porque vos falta a Mestra d'harmonia?
+O Ceo com ella adoce o meu tormento,
+ Tereis nova lição, e eu novo alento,
+Mas ah! Que vejo! Que gentil Pastora?
+ Parece Galatéa! Oh feliz hora!
+Não, não me enganes, lisongeira idéa.
+ N'altura... em trage... em gesto... he Galatéa,
+Que está banhando em pranto o lindo rosto:
+ Eu corro, eu vou tornar-lhe a magoa em gosto.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Ácis, se és vivo, sorte igual não tive.</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia">Inda o teu Ácis dos teus olhos vive.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Ah! Que vejo! Ácis! Ceos! Será mentira?</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia">He verdade; o teu Ácis sou: respira.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Oh Providentes Ceos! Deoses Clementes,
+ Que assim curais as chagas dos viventes.</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia">Tu choras! He de gosto, ou de agonia?</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Chorei de magoa, agora de alegria.</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia">Tu choravas por mim! Mereço eu tanto?</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Vê bem o estrago, que em mim fez o pranto.
+ Estes olhos, que tu chamavas bellos,
+Hoje magoados fugirás de vêllos.</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia">Assim mesmo são dois lindos diamantes,
+ Quie inda eclipsados, sempre são brilhantes.
+Mas dize, Galatéa, que motivo
+ Acendeo esse fogo, tão activo?</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">A ausencia de tres dias (longos dias!)
+ De lagrimas, de sustos, de agonias;
+E mais que tudo hum sonho feio, horrivel,
+ Que o não matar-me, não parece crivel:
+Sonho cruel, que me pintou na idéa
+ A desgraça maior, scena mais feia:
+Que o monstro Polyfemo te arrancára
+ A amavel vida, que esta vida ampara.</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia">E credito lhe déste, sendo esperta?</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Sim, que a má nova quasi sempre he certa.</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Se eu não corro a tiralla da vareda,
+ N'algum despenhadeiro achava a queda.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Laurindo nos meus males tomou parte,
+ E até por compaixão quiz ir buscar-te.</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia">Bom amigo, e bom Mestre, as sãs doutrinas
+ Tu com virtuoso exemplo, nos ensinas:
+Tu semeas os campos de equidade,
+ Nós colhemos os fructos da piedade.</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Huns para os outros sermos bons devemos:
+ Todos somos irmãos: de hum Pai nascemos:
+Se hum errar, deve o outro encaminhallo:
+ Se hum cahir, deve o outro levantallo.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Perdoa, que eu atalhe o teu conselho,
+ Proprio de hum Sábio, Virtuoso, e velho.
+Dize, meu Ácis, dize, por clemencia,
+ Qual foi a causa de tão longa ausencia?</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia">Foste tu: foi o amor, e foi o empenho
+ De trazer-te a Ovelhinha, a qual já tenho.
+Ao casal ta levei; mas sem achar-te;
+ Pois vieste a buscar-me, eu vim buscar-te.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Achaste a minha Ovelha! Ah! Onde estava?
+ Bem que eu por ti nem della, me lembrava.</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia">Visinhos campos, as distantes terras,
+ Amenos valles, escabrosas serras,
+Tudo corri: examinei choupanhas,
+ Pobres Aldêas, rusticas cabanas.
+Perguntei aos campinos, Lavradores:
+ Rebanhos espreitei: busco aos Pastores:
+Todos dizem: "Não vimos, não sabemos:
+ "Nem leve rasto dessa Ovelha temos.
+Eu de perdê-la já desenganado,
+ De magoa afflicto, de buscar cançado,
+Voltar queria a ver teu lindo rosto;
+ Mas dava gosto a mim, e a ti desgosto:
+Eu a dor da saudade em mim curava;
+ Mas na má nova, nova dor te dava.
+Nisto pensava triste, e vacilante,
+ Quando escuto berrar pouco distante,
+Parto, gyro, procuro, em vão procuro:
+ Pois nada vejo: vejo hum bosque escuro,
+Que o Sol formoso nunca vio por dentro:
+ Corro, o bosque examino; e lá no centro
+Vejo hum pobre roupeiro esfrangalhado,
+ Dormindo, e a Ovelhinha preza ao lado.
+Eu, que a vejo, e conheço, ó que alegria
+ Em teu obsequio a minha alma enchia!
+Com lentos passos vou muito manso andando,
+ O sussurro das plantas receando,
+Se bem que o vento amigo me valia;
+ Pois nem das folhas o brincar se ouvia.
+Chego ao ladrão: observo, que em socego
+ Dorme roncando: na Ovelhinha pego:
+Sobre os hombros a ponho, e vim fugindo,
+ Do furto alegre, de alegria rindo.
+Trepando huma deserta ribanceira,
+ Ouço hum grito, ólho a traz, vejo á carreira
+Seguindo-me a gritar o vil roupeiro:
+ "Ó ladrão! Larga a Ovelha! Ó ratoneiro!
+Eu, que vejo o meu credito infamado,
+ Páro, e com ira mostro-lhe o cajado.
+Prudente parto: segue-me as pizadas:
+ Torço a vareda, corre-me ás pedradas.
+Dellas me affasto; e por final prejecto.
+ Na leve funda grossa pedra metto.
+Agito a funda: corro então mais perto:
+ Desparo a pedra, no vil peiro acérto.
+Fica o ladrão sem tino: quer suster-se:
+ Não póde: cahe: forceja para erguer-se:
+Outra vez cahe de costas: vai rolando:
+ Péga-se ás pedras, mas em vão pegando,
+Que as mesmas pedras, em que busca abrigo
+ Rólão sobre elle por maior castigo;
+E despenhado assim pela barreira
+ Vai té parar na margem da ribeira.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Ah! Que dizes! Mataste o desgraçado?</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia"> Não ficou morto, não, mas maltratado,
+Eu vi... com quanta dor o estive vendo!
+ Cahio mortal; depois se ergueo gemendo.
+Olhou-me então com iras, e ameaços;
+ E trémulo partio com lentos passos.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Tu, que es no coração manso cordeiro.
+ Hoje tornado em lobo carniceiro!</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia">Eu cordeiro não sou; porém se o fôra
+ Tornar-me em lobo foi preciso agora.</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">Castiga-nos o Ceo, se nos vingamos;
+ Mas tambem quer, que a vida defendamos.</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia">Se mais piedade do ladrão eu tinha,
+ Nem eu era já teu, nem tu já minha.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Se a amavel vida o ímpio te roubava,
+ N'huma só morte duas mortes dava.</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia">Esses extremos no meu peito os guardo
+ Para atear de amor o fogo, em que ardo.
+Vamos, vamos, formosa Galatéa,
+ Alegrar com teu rosto a triste Aldêa:
+A Aldêa, que por ti chorava agora,
+ Qual bom Filho, que a Mãi perdida chora.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Chora a Pátria, por mim? Quanta amizade
+ Devo aos bons, que se nutrem da piedade!</p>
+
+
+<h4>LAURINDO.</h4>
+
+<p class="poesia">És bella, e inda mais bella por virtuosa;
+ Que a virtude inda a feia faz formosa.
+Porém vê, que a Virtude cultivada,
+ Cresce, bem como a planta, que he regada;
+Mas se falta a cultura, vai murchando;
+ E qual planta sem agua vai secando.
+Hide: a benção do Ceo sobre vós desça:
+ Aos vossos olhos branda relva cresça;
+E nella apascenteis grossas manadas
+ De prenhes vaccas gordas, e malhadas.
+Tantas as cabras, tantos os cordeiros,
+ Que enchão os valles, enchão os oiteiros.
+Hide, que he longe a Aldêa: hide, que he tarde:
+ O Ceo vos abençôe, o Ceo vos guarde.
+A benção gere em vós dois bons Esposos,
+ Que fructos dêm ao Ceo, fructos ditosos.</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia">Adeos, meu bom Pastor, meu caro amigo,
+ Gloria dos campos, deste povo abrigo.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Essa benção do Ceo, que em nós desejas,
+ Sobre tudo, que he teu, sobre ti vejas.
+Ácis, vamos aqui pelo serrado,
+ Que he mais perto, he mais doce, e he povoado.</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia">Vamos cortando por entre estas faias:
+ Dá cá a mão: salta o rego: olha, não caias.
+Tu saltas mais, do que eu: és bem ligeira!</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia"> Se eu quiser não me apanhas na carreira.
+Que farão hoje ao ver-me de contentes
+ As amigas, visinhos, e os parentes,
+Que ao vêrem-me vagar só sem conforto
+ Julgar-me-hão morta, por julgar-te morto?</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia">Se o bem nos foge, atêa-se o desgosto:
+ Torna o bem, morre o mal, renasce o gosto.
+Tu verás nas Pastoras desgrenhadas
+ Olhos feridos, faces desmaiadas.
+E ao ver-te, o riso, e pranto misturando,
+ Humas ás outras com prazer chamando:
+Todas para te verem correm, voão:
+ Vivas, applausos pelos ares sôão.
+Huma te beija a face alva, e rosada,
+ Que a faz com pranto seu rosa orvalhada.
+Outra te enfeita as tranças graciosas
+ De myrto, e cravo, de jasmins, e rosas.
+Verás, que ao som das lyras vem cantar-te
+ A magoa de perder-te, o bem de achar-te.
+Verás, como os chorosos innocentes,
+ Quando te virem, brincaráõ contentes.
+Verás a fonte, que turbada a vejo,
+ Corre alegre a dar a nova ao Téjo.
+Verás o Téjo, que sem ti bramia,
+ Quão plácido vem ver-te á praia fria.
+Verás o Melro, o Rouxinol suave
+ Convertendo a tristeza em canto grave.
+Verás saltando os tenros Cabritinhos
+ Alegrarem os tristes Cordeirinhos,
+Verás curvar-se o tronco a dar-te as frutas;
+ Correr o rio, vir trazer-te as trutas.
+Hoje farás feliz, farás contente
+ A Aldêa, o rio, a fonte, o gado, a gente.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Feliz me fazes tu: viver me fazes:
+ Aos meus bons dias novos dias trazes.</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia">Como posso eu fazer a alguem ditoso,
+ Quando só por ser teu, sou venturoso?
+Sem ti rustico sou, humilde, e pobre:
+ Comtigo sábio sou, sou rico, e nobre.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Demos graças a Amor: Amor cantemos,
+ Que assim nos téce a Santa paz, que temos.</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia">Sim, cantemos Amor: a voz levanta,
+ A voz sonora, com que Amor encanta.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Amor me fez guerra:
+Lutámos, venceo-me;
+O peito rompeo-me
+Para Ácis entrar.
+ Taes laços, taes setas
+ Devemos beijar.</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia">Amor nos tens olhos
+Forjou doce flexa:
+Ferio-me: esta brexa
+Tu sabes curar.
+ Taes laços, taes setas
+ Devemos beijar.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Ao ver-me ferida,
+Primeiro assustei-me,
+Depois alegrei-me,
+Amor fui cantar.
+ Taes laços, taes setas
+ Devemos beijar.</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia">Eu pude da seta
+Salvar o meu peito;
+Não quiz: puz-me a geito,
+Deixei-a entranhar.
+ Taes laços, taes setas
+ Devemos Beijar.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Depois de ferir-me
+Mostrou-me as algêmas;
+E diz-me; "Não temas
+"Quando eu tas lançar.
+ Taes laços, taes setas
+ Devemos beijar.</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia">Ferir-me, prender-me
+Não era preciso,
+Bastava hum teu riso:
+Hum teu brando olhar.
+ Taes laços, taes setas
+ Devemos beijar.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Amor, abre as azas
+Vem, prende estes braços,
+Que os teus doces laços
+Não hei de quebrar.
+ Taes laços, taes setas
+ Devemos beijar.</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia">Sou prezo por gosto,
+Por honra cativo:
+Por prezo he que vivo,
+Qual peixe no mar.
+ Taes laços, taes setas
+ Devemos beijar.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Amor, chama as Graças,
+E o Santo Hymeneo!
+Que venhão do Ceo
+Meu laço apertar.
+ Taes laços, taes setas
+ Devemos beijar.</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia">Tu chammas as Graças?
+Não clames por ellas;
+Pois Graças mais bellas
+Em ti venho achar.
+ Taes laços, taes setas
+ Devemos beijar.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Basta: cançada vou: mais não cantemos:
+ Logo melhor n'Aldêa cantaremos.</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia">Pois vai tu pela encosta desse monte,
+ Que a lyra vou buscar: lá saio á fonte.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Não te demores lá, minha alegria.</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia">Já volto a ver-te, minha luz do dia.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Levas-me a vida, a jóia mais perfeita.</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia">Em penhor dessa vida esta alma acceita.</p>
+
+
+<h4>GALATÉA.</h4>
+
+<p class="poesia">Em penhor! Queres pois, que a restitua?</p>
+
+
+<h4>ÁCIS.</h4>
+
+<p class="poesia">Não; se essa vida he minha, esta alma he tua.</p>
+
+
+<h4>FIM</h4>
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Galatéa, by António Joaquim de Carvalho
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK GALATÉA ***
+
+***** This file should be named 21780-h.htm or 21780-h.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/2/1/7/8/21780/
+
+Produced by Pedro Saborano. Para comentários à transcrição
+visite http://pt-scriba.blogspot.com/ (This book was
+produced from scanned images of public domain material
+from Google Book Search)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+https://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
+</body>
+</html>
diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt
new file mode 100644
index 0000000..6312041
--- /dev/null
+++ b/LICENSE.txt
@@ -0,0 +1,11 @@
+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
+
+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
diff --git a/README.md b/README.md
new file mode 100644
index 0000000..988798c
--- /dev/null
+++ b/README.md
@@ -0,0 +1,2 @@
+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
+eBook #21780 (https://www.gutenberg.org/ebooks/21780)