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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/21780-8.txt b/21780-8.txt new file mode 100644 index 0000000..b7efbc8 --- /dev/null +++ b/21780-8.txt @@ -0,0 +1,2121 @@ +The Project Gutenberg EBook of Galatéa, by António Joaquim de Carvalho + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Galatéa + egloga + +Author: António Joaquim de Carvalho + +Release Date: June 8, 2007 [EBook #21780] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK GALATÉA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano. Para comentários à transcrição +visite http://pt-scriba.blogspot.com/ (This book was +produced from scanned images of public domain material +from Google Book Search) + + + + + + + + + +GALATÉA + +EGLOGA. + + +PRIMEIRA, E SEGUNDA PARTE + + +POR + +ANTONIO JOAQUIM DE CARVALHO. + + +LISBOA: M. DCCCI. + +NA OFFIC. DE SIMÃO THADDEO FERREIRA. + +_Com Licença da Meza do Dezembargo do Paço._ + + + + + +AO LEITOR. + + +Esta primeira Egloga, ha 16 annos impressa, agora faço-a reimprimir, para +tirar-lhe as lisongeiras Cartas, para emendar-lhe algumas passagens com +melhor escolha, para curar-lhe alguns vicios gerados por aquelles, que duas +vezes a reimprimírão, a pezar do meu gosto, e para ligar ambas as Partes, +por que a primeira dá a materia para a segunda. + +Se me increparem, porque faço domavel o Gigante Polyfemo, contra a opinião +dos melhores Poetas, respondo: He verdade, que a Fabula nos mostra este +Cyclope hum monstro de crueldade, de extraordinarias forças, e destemido: +hum tragador de seis companheiros de Ulysses, e delle mesmo o seria, se +astucioso não lhe fugisse: hum soberbo em fim, que declamava, que nem ao +mesmo Jupiter temia; mas pergunto: Este Gigante era humano, ou não? Todos +me dirão, que sim. Pois se era humano, era sugeito ao imperio da Razão, com +cujas armas o ataco, e o venço: e só seria inverosimil, se eu com a razão +accommettesse hum Tigre, hum Leão, huma Serpente. Se os mais não pizárão +esta estrada, porque não quizerão, pizo-a eu, porque quero, e por que +posso, sem atropelar a verosimilhança. + +Se altero o caracter da Egloga; se me aparto da simplicidade pastoril; se +faço inflammar Polyfemo, e respirar vingança, he porque eu não pinto hum +daquelles Pastores do Seculo de oiro, em que reinava a mansidão, e o socego +de espirito; pinto hum Cyclope, hum Pastor ferino, que abrazado no ciume, e +na ira, deo barbara morte ao mancebo Ácis, lançando-lhe em cima hum +penhasco: catástrofe, que eu não pinto, por não fazer huma Egloga com +espirito de Tragedia. + +Eu tive a fortuna, de que alguns homens (discrétos homens!) dissessem, que +não era minha a minha Egloga Deploratoria intitulada JOSINO na chorada +morte do Principe o Senhor D. JOSÉ. Eu serei feliz, se agora tiver a mesma +fortuna, porque se esses contrastes duvidarem de ser minha esta obra, boa +será ella pela sua avaliação. Esses, que duvidão, examinem, busquem, +descubrão o legitimo Author, e o mostrem para gloria sua, e descredito meu. +Conheça o mundo o homem virtuoso, o homem raro, que se cançou naquella +composição, para renunciar em mim a posse, o lucro, e o credito della. E se +eu a furtei, onde estás homem roubado, que não acodes ao teu cabedal, +sabendo, que em meu poder existe? Denuncía-me; clama justiça contra mim. +Ah! Ninguem falla? Ninguem me acusa? Pois acuso-me eu, mas he da temeridade +de emprehender a guerra sem ter armas: de querer lugar na Républica das +Letras sem ser Cidadão de Athenas: de fazer Versos sem beber da Castália, +sem soccorro das Musas, sem conhecer Apollo. Os Versos (toscos Versos) que +ha trinta annos escrevo, são os denunciantes, as testemunhas, e os Juizes +do meu crime. Acusem-me, como eu me acuso deste delicto; porém não de +roubador, officio imfame, que não cabe em almas honradas; mas se os +críticos me arguirem pelos pobres, insulsos Versos, devem igualmente +attender em minha defensa, que estes se não tem mel, tambem não tem veneno; +se não deleitão, tambem não ferem. Isto supposto, fação-me Justiça. + + + + +GALATÉA + +EGLOGA. + + + + +PRIMEIRA PARTE. + + +INTERLOCUTORES. + +POLYFEMO, E LAURINDO. + + +POLYFEMO. + +Ah! Campos, campos meus! Vós, que algum dia + Me servieis de amavel companhia: +Vós, que os ouvidos daveis ao meu canto, + Prestaimos boje, para ouvir meu pranto; +Se bem, que assáz me custa magoar-vos, + Depois de com meu canto deleitar-vos; +Mas eu adoçarei a vossa mágoa, + Dando-vos de meus olhos rios de agua: +Com ella florecei para os viventes, + E á custa do meu mal vivei contentes, +Que eu não vos lograrei, não; nem já gora + A minha morte póde ter demora; +Os Ceos a mandem, que em tormentos fortes + Huma morte he melhor, que muitas mortes. +Ah! Campos, se vós fosseis animados, + E ponderasseis bem os meus cuidados, +De mim aprenderieis, que a ventura, + Ao que nasceo feliz, he que procura: +E Aquelle, que nasceo já desgraçado, + Sempre lhe foge com semblante irado. +Mas quem he, que este monte vem subindo? + Pelo trage he Pastor: sim, he Laurindo, +Que talvez magoado d'escutar-me, + Quer meios procurar de consolar-me: +Em vão, em vão se cança, se o intenta; + Que em vez de alivio dar-me, a dor me augmenta. +Agora mais me vejo impaciente, + Que até me afflige a vista de hum vivente: +Mas elle vem, não posso resistir-lhe, + Já não posso esconder-me, nem fugir-lhe; +Se fujo desta parte, he ribanceira, + Se daquella, me affogo na ribeira; +Pois nella acabarei, morrer não temo; + De huma só morte acabe Polyfemo. + + +LAURINDO. + +Detem-te, amigo, e espera, que fazias? + A ti mesmo matar-te pertendias? +Seres comtigo mesmo ímpio tyranno, + Para hum damno evitar com maior damno! + + +POLYFEMO. + +Deixa, deixa, que eu morra por piedade, + Porque morrendo, evito a crueldade +Dos ímpios Deoses: ah! Viver não quero, + Pois vida tão penosa não toléro: +Tu contarás á falsa Galatéa, + Que por ella me expuz á morte feia; +Porém no peito o coração me estalla, + Vendo, que Ácis tyranno ha de logralla: +Mas logre-a, logre-a, embora, oh que tormento! + Que eu só, por tal não ver, morrer intento. + + +LAURINDO. + +Socega, amigo, queres dessa sorte + Dar a vida, por quem te causa a morte? +Queres vingar-te della socegado? + Desprezou-te, despreza-a: estás vingado. + + +POLYFEMO. + +Desprezar Galatéa, e offendella + Quando só morrer por ella! +Isso não, que depois de eu adoralla, + Valor não tenho para maltratalla: +Ella pratique embora a crueldade, + Que eu não devo imitar-lhe a impiedade. + + +LAURINDO. + +Conheces, que te offende essa perjura, + E inda morres por ella? Oh que loucura! + + +POLYFEMO. + +Sim, amigo, traidora a considero; + Mas quiz-lhe bem: querer-lhe mal não quero. +Eu não lhe amo o rigor, sim a belleza, + Que he parto singular da natureza: +Tu, que a conheces, vê, se razão tenho + Para adoralla com tão grande empenho: +O lindo rosto, aquelles olhos bellos, + Tão matadores, que em chegando a vêllos, +Parece, que do rosto lhe saltavão, + E que para não vêllos me cegavão. +As loiras tranças, bem como doiradas, + Sobre seus alvos hombros espalhadas. +Se as costas me voltava por desprezo, + Como que a ellas me levava prezo: +Nas lindas faces se me figuravão + Duas papoilas, que entre a neve estavão. +A boca, que em conceitos sempre acerta, + Parecia huma rosa meia aberta; +Mas quando grave, e graciosa ria, + Oh quanto então mais bella parecia! +Mostrando os claros dentes, que esmaltavão + Seus beiços, que de nácar se formavão; +E co'a força do riso as faces bellas + Duas covas fazião como estrellas. +As mãos por engraçadas, e pequenas + Parecião formosas açucenas. +Mil vezes quiz beijar-lhas; porém ella, + Que o damno prevenia na cautéla, +Escondendo-as, de mim mais se affastava, + Que até nisto ser casta bem mostrava. +Estas bellezas, esta honestidade + Forão prizões da minha liberdade, +E quanto as lindas mãos mais me negava, + Tanto as doces prizões mais me apertava; +Mas n'huma sésta vi, que ella dormia + Junto do pote, que na fonte enchia: +Vou-me pé ante pé, e hindo a beijar-lhas, + Me arrependi, porque temi manchar-lhas. +Nem só para pegar-lhes valor tinha, + Porque mão tão grosseira, como a minha, +Não devia tocar aquella neve, + Que só com outra igual tocar-se deve; +Mas immovel fiquei, pois só gostava + De ver a bella acção, em que ella estava. +O branco rosto sobre o curvo braço, + Outra mão tambem curva no regaço: +O corpo reclinado sobre a fonte, + E a curta sombra, que lhe dava o monte, +Só metade do rosto lhe cubria, + Que muito mais formosa inda a fazia. +Eu, que só me detinha em admiralla, + Sem que tivesse intento de acordalla; +Como de gosto estava arrebatado, + Sem que eu sentisse, cahe me o cajado: +Dá-lhe nos pés: acorda ella assustada, + Vê-me, levanta-se, e com voz irada +Me diz: "Vil, só comigo! Que fazias? + "Dize: acaso offender-me pertendias? +"Se por gigante intentas de vencer-me, + "Matar-me poderás, mas não render-me: +"Que a minha honestidade he tão constante, + "Que não cede á violencia de hum gigante. +Não, (eu lhe respondi) não te offendia: + Nem de ti outra cousa pertendia, +Mais do que ao menos, pois te não lograva, + Ver-te: e so com te ver me contentava. +Se nisto te offendi, ou me desculpa, + Ou me castiga, se me achares culpa: +Que se eu da tua mão for castigado, + Serei ditoso, se antes desgraçado. +Mas dize-me, cruel, se me estimaste, + Porque razão sem culpa me deixaste? +E se indigno me achavas para amante, + Porque juraste de me ser constante? +Que resposta daria a fementida? + "Vai-te louco, (me diz) que aborrecida +"Até de ouvir-te estou, nem posso dar-te + "Outra razão maior de desprezar-te, +"Senão, que as Leis de Amor já não tolero: + "Amei-te, em quanto quiz, hoje não quero. +"Em fim, tu não és do meu agrado: + "Basta: vai-te, que estás desenganado. +E com este rigor aquella ímpia + Foge: chamo-a, mais ella me fugia: +Eu vendo a ir tão bella, quanto irada, + Corpo gentil, cintura delicada, +Afflicto exclamo: Ah! Deshumana féra! + Nunca te eu víra, ou nunca te perdêra. + + +LAURINDO. + +Ainda louvas a ingrata por formosa, + Quando enorme se fez, sendo aleivosa? +Polyfemo, se queres ser discreto, + Não recordes a offensa, nem o affecto: +Que o affecto tambem o tempo o gasta, + E a offensa he parto de huma louca, basta +Que á razão nunca os olhos tem abertos, + E sem luz que fará? Mil desacertos: +Por isso áquelle, que extremoso a trata, + A paga, que lhe dá, he ser-lhe ingrata. +Bem como o bravo lobo carniceiro, + Que vê, que a innocencia de hum cordeiro +Não péde entranhas ter para aggravallo, + Por isso mesmo quer despedaçallo; +Mas se este acha hum rafeiro, que o extingue, + Tambem ella achará quem bem te vingue: +E no entanto o melhor he esquecella, + E se possivel for, nunca mais vella. + + +POLYFEMO. + +Tambem deixar de a ver he impossivel, + Porque sem vella, a dor mais insoffrivel +Creio, que dentro n'alma padecesse, + Como a flor, que sem Sol murcha, e não cresce. +Ah! Se eu agora a visse, e lhe fallasse, + Talvez que a meus gemidos se abrandasse: +E póde ser, que a achasse arrependida + De perder, quem por ella perde a vida. +Oh quão feliz seria a minha sorte, + Se ella abrandasse aquelle genio forte! +Do desprezo, e d'affronta eu me esquecêra, + Se hum riso, se hum sinal de amor me déra. +Tudo, tudo por ella perderia: + Sem gado, sem choupana ficaria: +Sujeitar-me-hia pelos seus amores + A viver das esmolas dos Pastores: +Pois sem logralla, tudo me he penoso, + E logrando-a, sou pobre; mas ditoso. + + +LAURINDO. + +Se amas com tanto extremo a huma traidora, + Que mais fizeras, se fiel te fôra? + + +POLYFEMO. + +Esta alma, que me anima, se pudesse, + Creio, que em paga d'esse amor lha désse, +Amando-te, era justo premialla; + Mas desprezando-te, he loucura amalla: +Sim, que o homem não mostra ser discreto + Amando a falsa, que tem outro objecto: +Pois daqui nasce a mancha da deshonra, + E antes se perca a vida, do que a honra. +Que se havia dizer na nossa Aldêa, + Se depois dessa ingrata Galatéa +Por outro te deixar, tu a buscasses, + Esquecido d'affronta inda a estimasses? +E não tremias, não te envergonhavas + De dizerem, que a honra desprezavas? +Ah! Querias do amor ser arrastado, + Perdendo a fama, e credito de honrado? +Dize, responde, a falla não escondas; + Mas ou me vence, ou nada me respondas. + + +POLYFEMO. + +Nada responderei por defender-me, + Pois por sábio chegaste a convencer-me: +Se a paixão me cubrio de escuridade, + Tu me mostraste as luzes da verdade: +Agora já conheço, que essa ímpia + Mais féra, que o dragão, que o monte cria, +Nem amor, nem piedade já merece, + Pois por outro me deixa; e assim se esquece +Da fé, que me jurou, e da lealdade, + Com que sempre a tratei; que a falsidade +Não podia caber n'hum peito amante, + Que ainda offendido mostra ser constante. +Eu, que até ás Pastoras, quando as via, + Nem ainda, o Ceo vos guarde, lhes dizia: +E se acaso de longe as avistava, + Por lhes fugir, a estrada rodeava. +Tudo isto por fineza áquella infame, + Que, só tão feio nome, he bem lhe chame; +Porque a saber, que ás outras eu fallava, + Não julgasse, que alguma me agradava; +Porém que premio vim a tirar disto? + Sabes o que? Com todos ser malquisto: +Desprezarem-me todos, ver-me agora + Aqui só, sem amigos, nem Pastora: +E a falsa, tanto extremo desprezando, + Amar outro, e ficar de mim zombando! +E soffro tal injúria sem vingar-me! + Poderei socegar sem despicar-me! +Não, não socegarei, que hum peito irado + Socega só depois de estar vingado. +Sim, vou já despicar-me... Mas que intento! + Que faço! Aonde vou! Que pensamento +He este, que me occorre! Oh quanto errado + Gyra o discurso de paixão cercado! +Eu matar Galatéa! Oh que vileza! + Naquella rara imagem da belleza +Descarregar o golpe penetrante! + E havião ver meus olhos nesse istante +Aquelle brando peito traspassado! + O rosto, bem qual Sol quando eclipsado! +E os olhos, que daquelle Sol são raios, + Perdendo a luz na sombra dos desmaios! +Aquellas lindas faces tão córadas + Eu poderia vellas desmaiadas! +A boca rubicunda, e graciosa, + Bem qual entre jasmins a linda rosa, +Eu teria valor, teria vida, + Para vella sem graça amortecida! +E havião escutar-lhe os meus ouvidos + O pranto, os ais, e os ultimos gemidos: +Já com trémola voz, e a cada instante + Vella convulsa, afflicta, e delirante, +Sem alento, sem côr desfalecida, + Dando hum suspiro, e acabando a vida! +Oh Ceos! Que horror concebo em ponderallo! + Eu tremo, gélo-me, e de dor estallo: +Que coração tão barbaro haveria, + Que obrasse tão enorme tyrannia? +Eu teria valor, se a offendesse, + Para vella morrer, sem que eu moresse? +Não, não teria tanta impiedade, + Que vendo cahir morta hume Deidade, +Não me sahisse deste insano peito? + O duro coração de dor desfeito. +Nem mais contemplar quero tal desgraça, + Que parece, que o Ceo já me ameaça, +Que a terra vejo abrir, que já comigo + Se abate, e me confunde por castigo. +Ah! Minha Galatéa, vive embora, + Bem que me sejas infiel, traidora: +Ainda te amo, se bem, que o não mereças; + Eu padeça, mas sem que tu padeças: +Vive feliz, e logra o teu amante: + Oh justos Ceos, que dor tão penetrante! +Mal posso respirar, que até o alento + Me soffoca a violencia do tormento. +Vai-te, amigo, e me deixa só hum pouco, + Que eu não estou em mim, eu estou louco: +Oh! Venha embora a morte rigorosa + Acabar-me esta vida tão penosa. + + +LAURINDO. + +Deixa, amigo, esse louco desvario, + Que o ser de homem deslustra, offende o brio: +E que o mundo dissesse pertendias, + Que por huma mulher enlouquecias? + + +POLYFEMO. + +Tambem dirá, que não me altéra a offensa, + Pois toléro a inimiga na presença. + + +LAURINDO. + +Perdoando-lhe tu por generoso, + Que ha de o Mundo dizer? Que és virtuoso. +Mas se a fraca mulher ímpio punias, + Só de cubarde o nome vil terias. + + +POLYFEMO. + +Sim, perdoada está: eu lhe perdoo, + Pois da sua fraqueza me condoo; +Tambem, porque talvez seja innocente, + Se bem que a culpa a accuse delinquente; +Galatéa he honesta, he recatada: + Pois quem duvida fosse requestada +D'aquelle Ácis traidor, e que a enganasse + Com vãs promessas, para que o amasse? + + +LAURINDO. + +Pensas bem que a mulher de honesto estado, + Se dá seu coração, sempre he rogado; +Se bem que o rogo algumas não convence; + Mas a feia ambição a muitas vence. + + +POLYFEMO. + +Sim? Pois hoje verás, que a minha ira + Só contra aquelle infame se conspira: +Elle, por me arrancar de amor a palma, + Me roubou a doce alma da minha alma, +Vista dos olhos meus, bem como estrella, + Que luz me dava, para poder vêlla. +Clara luz, doce vida, alma preciosa, + Tudo perdi. Oh scena lastimosa! +Tudo o vil me roubou; porém protesto + Fazer o seu castigo manifesto +Ao Ceo, á terra, a todos os viventes: + Elle me offende, as culpas são patentes; +Pois o proprio delicto he, que o condemna, + A que segundo a culpa, sinta a pena. + + +LAURINDO. + +Queres que a morte de Ácis justifique + Huma céga paixão, hum vil despique? + + +POLYFEMO. + +Quero, porque da injúria se não gave, + Que o proprio sangue a sua culpa lave: +E se neste lugar já o apanhára, + O coração do peito lhe arrancára. + + +LAURINDO. + +Dize: se a Galatéa perdoaste, + Depois que a culpa enorme lhe provaste, +O Pastor, que he talvez menos culpado, + Porque não he, como ella, perdoado? + + +POLYFEMO. + +Ella sim: me offendeo; mas obrigada, + E merece perdão por violentada; +Mas elle não he digno de clemencia, + Pois mais culpado está pela violencia. + + +LAURINDO. + +Aqui não ha violencia, ha certa culpa, + Que Amor condemna, e logo Amor desculpa, +Delicto immensas vezes praticado + Por quem ama, e pertende ser amado. + + +POLYFEMO. + +Assim se obra; mas sempre he falsidade, + Quando offende as leis santas d'amizade. + + +LAURINDO. + +He máo quebrar a Lei; mas que te espanta, + Se ella te jurou fé, e a fé quebranta? +Polyfemo, discorre mais prudente; + Vence-te a ti, se queres ser valente: +Eu teu amigo sou, eu sou mais velho, + Tu, que és mais moço, toma o meu conselho +No falso Amor não faças confiança: + Desterra a ira, foge da vingança, +Que esta inquieta, aquella te amofina: + De qualquer dellas sempre vem ruina. +Males, que tu não queres supportallos, + Não deves para os outros desejallos, +Que ás vezes são, qual pedra despedida, + Que no mesmo que a deita, abre a ferida: +Queres a morte de Ácis? Não ponderas, + Que póde em ti cahir, se nelle a esperas? +Teme o Ceo vingador, teme-lhe a ira: + O Ceo, que a vida dá, só elle a tira: +Só elle sobre as vidas tem dominio, + E não deves oppôr-te ao seu designio; +Nem ao menos vingar-te levemente + Poderás, sem que fiques delinquente. +Olha, que para Jupiter Supremo + He menos, que hum mosquito, hum Polyfemo. +Á voz só do seu raio penetrante + Treme de susto a rocha mais constante. +Foge, foge de o veres irritado, + E não faças, que a mão levante irado. +Ah! Já, mudas de côr, tremes, e pensas? + Pois a ti mesmo, espero, te convenças. + + +POLYFEMO. + +Tremo de confusão, e de mim tremo; + Os castigos do Ceo Respeito, e temo; +Mas o affecto, a paixão, a honra, a offensa + Não me deixão acção, em que eu me vença: +Vejo a justa razão, quero seguilla; + Mas a paixão vem logo a destruilla: +Que este meu coração nunca descança + De chamar-me ao caminho da vingança. + + +LAURINDO. + +Qualquer paixão, qualquer impaciencia + Se vence com discurso, e com prudencia. + + +POLYFEMO. + +Tão desgraçado sou, que neste empenho + Nem já discurso, nem prudencia tenho: +Quem vio tão enredado labyrintho + Como este, que na idéa, e n'alma sinto! +Deoses, se justos sois, ou dai-me a morte, + Ou me livrai de confusão tão forte; +Eu se vingar-me vou, me precipito; + Porque aos Deoses offende o meu delicto: +Se assento em perdoar, não persevero, + Porque em vendo o offensor, logo me altero; +Porém hum novo meio já me occorre: + Melhor acerta, quem melhor discorre. +Eu não quero incitar ao Ceo clemente, + Mas para não vingar-me do insolente, +Eu fugirei de o ver, que ao vêllo, logo + A cinza quente exhalaria fogo. +Deixarei estes monte, estes prados, + Que a verdura me davão para os gados: +Irei viver nas mais occultas brenhas, + Onde gente não veja, mas só penhas: +Da vingança, e d'affronta assim me privo, + E ninguem sabe se sou morto ou vivo. + + +LAURINDO. + +Resolves bem, amigo; sim, he justo + Fugires do perigo a todo o custo; +Porque busca a desgraça todo aquelle, + Que vendo o damno, não se aparta delle: +Perca-se a Patria, perca-se a fazenda, + Perca-se tudo, e nunca o Ceo se offenda. +Tu sim perdes lavoiras, e o serrado; + Mas o Ceo, que esses bens te havia dado, +Te dará novos campos mais extensos, + Donde possas colher frutos immensos: +Quem perder pelo Ceo, fique esperando, + Que em vez da perda, ficará lucrando: +Se a tua choça perdes, caro amigo, + A minha he grande, vivirás comigo: +Para a tua lavoira dar-te-hei terra + Da campina, que tenho, além da serra; +Dar-te-hei duas palmeiras mui frondosas, + Donde colhas as tâmaras gostosas: +Dar-te-hei duas formosas aveleiras, + Tortas sepas, viçosas oliveiras: +E do mais fruto, que o Ceo der, pendente + Repartiremos ambos irmãmente. +Para o gado lá tens viçosa relva, + Lá tens para o recreio a linda selva, +Onde acharás hum bosque mui sombrio, + De huma parte arvoredo, d'outra hum rio: +Alli se ouvem os pássaros cantando, + Alli se escuta o rio murmurando, +Nelle andão de contínuo os pescadores, + Nelle pescão tambem alguns Pastores +O saboroso peixe á longa cana, + Ou com o iscado anzol, que mais o engana: +Em fim, he campo ameno, he deleitavel, + Fructuosa a terra, o clima saudavel: +Lá vivirás, amigo, descançado, + Sem ver a causa do mortal cuidado: +Pois naquella distancia por extensa + Não vês o offensor, nem vês a offensa. + + +POLYFEMO. + +Discreto amigo, amigo verdadeiro, + Tu fostes dos humanos o primeiro, +Que me soube vencer: eu que algum dia + Nem a razão, nem Deoses conhecia, +Hoje a razão abraço, os Deoses temo; + Tu me fizeste hum novo Polyfemo. + + +LAURINDO. + +Convence-te a razão, porque és humano, + Que a razão só não doma o bruto insano. + + +POLYFEMO. + +Oh grande, oh raro exemplo d'amizade! + Oh coração, gerado de piedade! +Despido d'ambição, e d'avareza, + Só inclinado á mísera pobreza! +Deixa, que por mostrar-me agradecido, + A teus honrados pés chegue abatido; +E esta boca, por quem serás louvado, + Beije o chão duro, dos teus pés tocado. + + +LAURINDO. + +Suspende, Polyfemo, eu não pertendo + A tua gratidão, antes me offendo, +De a meus pés te prostares abatido, + Acatamento só ao Ceo devido. + + +POLYFEMO. + +Oh quanto és digno de louvor completo, + Por liberal, humilde, e por discreto! +Aprenda o avarento ambicioso + A ser mais liberal, mais caridoso: +O que da santa, e mísera pobreza + Foge, como quem foge da vileza, +Veja, que o rico, o paderoso, o nobre + Talvez, chegue a pedir esmola ao pobre: +Esse, que as minas abre, e colhe o ouro, + Julgando a vida ter no seu thesouro, +Veja, que a vida, e ouro n'hum momento + He como o fumo, que consome o vento: +Siga os teus passos o soberbo inchado, + Que julga, que a ventura tem ao lado: +Olhe, que a seca o grosso rio esgota, + E até com vento o cedro se derrota. +Longe, longe de nós, ó vicio forte, + Vicio mais feio, do que a feia morte. + + +LAURINDO. + +Não terão parte em nós vicios danados, + Nem pizaráõ a flor dos nossos prados; +Que esta lã, que nos cobre, esta pobreza + Contra o vicio nos serve de defeza. +Vamos gozar a santa paz ditosa, + Vamos colher a fruta saborosa +Da minha bella Aldêa: vem, amigo, + Que eu não me ausento, sem que vás comigo. + + +POLYFEMO. + +Vamos; mas ah Laurindo, quem diria, + Que por huma mulher, por'huma ímpia +Eu havia deixar a minha Aldêa, + E ir d'esmolas viver na terra alheia? +Oh triste Polyfemo! Oh desgraçado! + De ti deves queixar-te, e não do fado: +Em mil exemplos o perigo viste, + Devias fugir delle, não fugiste? +Pois agora o teu erro irás pagando, + E o damno sem remedio lamentando. +Tome exemplo de mim, o que ama cégo, + Julgando ter no amor todo o socego, +Veja a minha desgraça, e tema o dano, + Que sempre nasce deste amor profano: +Não prenda a doce, amavel liberdade, + Já que o Ceo lhe quiz dar livre a vontade: +Fuja do amor, e guarde esta doutrina, + Se quizer viver longe da ruina. +Mas ah! Nem já do amor quero lembrar-me, + Que he facil outra vez precipitar-me. +Adeus, ó campos meus, campos amados, + Que me daveis o fruto, e pasto aos gados: +Já não hei de ferir vossos ouvidos, + Nem já respondereis aos meus gemidos. +Adeus, ó rio meu, que me obrigavas, + Quando ao meu gado tuas aguas davas; +Mas pago ficas, que essa grossa enchente + A augmenta de meus olhos a corrente. +Adeos, plácida fonte, onde algum dia + Se alegre rias, eu alegre ria; +No prazer te imitei; mas hoje afflicto + Só no pranto, que verto, he que te imito. +Lembra-te, ó fonte, que a cruel Pastora, + Essa, que sem razão me foi traidora, +Por ti jurou, que essa agua lhe faltasse, + Se ella de amor a pura se manchasse: +Agora deves, pois faltou perjura, + Por castigo negar-lhe essa agua pura: +Como ella contra si justiça pede, + Ou procure agua longe, ou morta á sede; +Mas ah! Que digo! He muita crueldade: + Não, não lhe negues agua por piedade, +Tem della compaixão, dá-lhe desculpa, + Basta só, que a castigue a propria culpa. +Adeos, ó prado ameno, as flores bellas + Eu te roubei para tecer capellas: +Perdoa-me, e talvez que inda melhores, + Que á custa do meu mal terás mais flores: +E apague a minha culpa, que te aggrava + Este pranto, que humilde os pés te lava. +Adeos, Pastores, doces companhias + Dos meus passados, e felices dias; +Porém dias tão breves, quanto he breve + No Irverno a calma, no Verão a neve: +Se o meu canto aprendestes algum dia, + No tempo da ventura, e d'alegria +Hoje do meu desgosto, e do meu damno + Podeis lucrar mais util desengano, +Vendo, por breve ser minha ventura, + Quanto a glotia do mundo pouco dura: +Que apenas nos faz ver hum falso gosto, + Logo atrás delle vem maior desgosto. +Adeos, ó Galatéa; mas que digo! + Cuidei, que tinhas inda o nome antigo; +Mas não deves ter já nome de humana, + Sendo Leão feroz, vibora insana: +Fica-te embora em paz, e só te peço + De mim t'esqueças, que eu de ti m'esqueço: +Sim, farei, que não tornes a lembrar-me + Para querer-te, nem para vingar-me: +E poderemos só ficar lembrados + Do exemplo, com que fomos doutrinados: +Mas vê, quanto differem as doutrinas, + A que eu te dei, daquella, que me ensinas: +Eu te ensinei a ser fiel, constante, + Tu me ensinaste a ser falso, inconstante; +Mas nunca me seguiste a lealdade, + Nem eu soube seguir-te a falsidade; +Porém essa doutrina; inda que inutil, + Estimo-a, porque em parte me foi util: +Se até aqui das Pastoras não fugia, + Porque a sua traição não conhecia, +Já della fugirei desenganado, + Como quem foge do animal damnado. +Longe, longe de mim, ímpias tyrannas, + Ide viver com féras deshumanas: +Em fim, parto a morrer: Adeos, Pastora, + Adeos, ímpia: Adeos, falsa: Adeos, traidora. + + + + +SONETO. + + +Novo exemplo aqui tens, mísero humano, +Que incensas os Altares da vaidade, +Aqui te mostro a estrada da verdade, +Por onde ao Templo vás do desengano: + +De Polyfemo o lamentavel damno, +De Galatéa a horrenda falsidade +Te excitem a fugir da crueldade, +Que he premio certo desse amor tyranno! + +Elle consome os bens, a honra offende, +O socego perturba, arrisca a vida, +E o coração mais livre assalta, e rende. + +Ah! Destróe essa mão féra, humicida, +Rompe os duros grilhões, com que te prende, +Quebra-lhe as setas, ficará vencida. + + + + +GALATÉA + +EGLOGA. + + + + +SEGUNDA PARTE. + +DO MESMO AUTHOR. + + +INTERLOCULORES. + +GALATÉA, LAURINDO, E ÁCIS. + + + + +GALATÉA. + +EGLOGA. + + +A bella, incomparavel Galatéa, + A Nynfa, tutelar, gloria d'Aldêa +O seu Ácis perdido busca afflicta: + Corre, examina, geme, chora, e grita: +"Ácis! Ácis! Meu bem! Onde te escondes? + "Eu rouca de chamar-te, e não respondes? +"Se nas margens do rio por ti clamo; + "Mais foge o rio, quanto mais te chamo. +"Se á fonte vou teu nome repetindo, + "Ella vai murmurando, e vai-se rindo. +"Só este monte de me ouvir magoado, + "Se eu te chamo, elle chama, e tu calado! +"Ah meu Ácis! meu bem, se inda tens vida, + "Soccorre esta, que he tua, assáz perdida. +"E se aos campos Elysios já partiste, + "Lá verás breve a Galatéa triste. +"A ti me ha de ligar a morte crua; + Pois tu és a minha alma: eu alma tua. + + +LAURINDO. + +Que vozes, ternas vozes tão sentidas + Os montes ferem de afflicção nascidas! + + +GALATÉA. + +Ah Pastores, que, alegres, divertidos + Cantais ao triste som dos meus gemidos! +Se este pranto vos move á caridade, + Deparai-me o meu Ácis, por piedade. + + +LAURINDO. + +A voz he de mulher. que ao longe grita. + Quem pudéra valer á triste afflicta! +Os duros écos, que este valle atrôão, + Senão me engano, desta encosta sôão. +Eu vou por este pedregoso atalho + Ver, se encontro, quem he, ver se lhe valho. + + +GALATÉA. + +Ah! Ninguem já responde aos meus clamores? + Já não acho piedade nos Pastores? +Misera Galatéa! A que chegaste, + Depois que amor no coração geraste! +Mas ah! Senão me engana a mata espessa, + Hum homem para mim o passo apressa! +He Pastor: quem será? Não vejo tanto, + Pois me escurece a vista o grosso pranto. +Será o meu bom Ácis? Se elle fôra, + Huma nova alma eu concebêra agora. +Ácis! Ácis! És tu? Responde, falla: + Ou não he elle, ou não me estima, e cala: + + +LAURINDO. + +He Pastora; e se não me engana a idéa + Pelo gentil semblante he Galatéa. + + +GALATÉA. + +Ah! Já vejo: já estou desenganada, + Que o meu Ácis não he. Ó desgraçada! + + +LAURINDO. + +Galatéa, que tens? Tu, que algum dia + Semeavas os campos de alegria, +Hoje com pranto, e vozes, que enternecem, + Murchas as plantas, que ao teu riso crescem! + + +GALATÉA. + +Feliz foi esse tempo; porém hoje + De mim (qual rez ferida) o prazer foge. +Mas dize-me, Laurindo, acaso viste + O meu Ácis, por quem suspiro triste? + + +LAURINDO. + +Ha dias, que o não vi; mas que motivo + Banha o teu lindo rosto em pranto activo? + + +GALATÉA. + +Eu te mostro a origem, que ao mostralla, + No triste peito o coração me estalla. +Ha tres dias... Oh dias de amargura, + Mais negros para mim, que a noite escura! +Quando o Sol hia ver outro Orizonte, + Deixando triste o rio, o valle, o monte, +Metto o fuso na róca, o gado chamo + Para o pobre curral, vem ao reclamo: +Conto as cabeças, falta-me a Ovelhinha, + Que eu estimava mais, que as mais, que eu tinha, +Por brincadora, esperta, e tão malhada, + Que parecia com pincel pintada. +Tinha-me tanto amor, que se eu gemia + Ella então nem brincava, nem comia. +Mas se me via alegre, ou se eu cantava, + Ella ao meu lado de prazer saltava. +Eu afflicta a busquei té junto ao Téjo; + Quando na margem o meu Ácis vejo. +Corre a ver-me, e no riso amor explica; + Porém vendo-me afflicta, afflicto fica. +Pergunta-me a razão: conto o successo, + E que procure a minha rez lhe pesso. +Elle me diz então com vozes ternas, + Vozes, que esta alma ha de guardar eternas: +"Ah! Não chores, meu bem, minha alegria. + "Em cujos olhos brilha a luz do dia! +"Se os encobres com pranto, e magoa enorme, + "Queres, que o dia em noite se transforme? +"Fugio-te a tua Ovelha: eu ta procuro; + "E por teus lindos olhos eu te juro, +"Que se ella viva está, e eu souber della, + "Inda que arrisque a vida, hei de trazella; +"Mas se baldado for o meu empenho, + "Das minhas escolhe huma, ou quantas tenho, +E com tão terno amor me enchuga o rosto, + Que me leva metade do desgosto. +Quiz partir, dava hum passo, então parava, + Como que em mim seu coração deixava: +Partio; e a cada passo.... (ó que retiro!) + Voltava para mim, dava hum suspiro; +Que o coração presago lhe dizia, + Que era a ultima vez, em que me via. +E bem se verifica (oh Ceos! Conforto!) + Que não me ha de ver mais, porque he já morto. + + +LAURINDO. + +Ácis morto! Que dizes, Galatéa? + Isso he certo, ou te engana a falsa idéa? + + +GALATÉA. + +Eu te exponho a razão, em que me fundo. + Quem vio (oh Deoses) scena igual no Mundo +Ácis partio: passárão-se dois dias, + Dias de magoas, noites de agonias, +Em cada instante, que elle me tardava, + Mil desgraças a idéa me pintava. +Porém hoje no valle d'azinheira, + Junto á ponte da plácida ribeira, +Debaixo de hum cipreste levantado, + Cópia de mim, eu vigiava o gado; +Se bem que pouco vigiar podia, + Quem de chorar já quasi nada via. +Cançada de lutar com meu tormento, + Meu unico, amargoso mantimento, +A affligida cabeça ao tronco encosto, + E sobre a curva mão inclino o rosto. +O somno, que ha dois dias meu não era, + Veio piedoso, que antes não viera! +Pois me fez ver em sonho... Oh que desgraça! + A causa desta dor, que me traspassa. +Eu vi... triste visão! Que além da serra, + Por hum dos regos da lavrada terra, +Hia o meu Ácis triste, suspirando + Com prompta vista a minha rez buscando; +Outras vezes, olhando para a Aldêa, + Clama saudoso: "Ah minha Galatéa! +Quando de entre hum pinhal... de o dizer, tremo: + Sahe o barbaro, o manstro Polyfemo. +Toma-lhe o passo, e n'hum trilhado estreito + Com dardo agudo lhe traspassa o peito: +Clamando: "Morre, vil, morre, inimigo, + "Que inda mereces mais cruel castigo. +"Chama agora o teu bem, chama a fingida, + "Grita por ella, que te torne a vida. +Á violencia do golpe, o desgraçado + Solta do peito afflicto hum ai magoado +Trémulo, curvo, com a mão convulsa + O peito aperta, donde o sangue pulsa: +Quer suster-se, não póde, a força falta: + A mão solta do peito, o sangue salta: +Vai vergando, e cahindo: hum tronco agarra: + Este se quebra, o fraco pé lhe esbarra; +E sobre hum mar de sangue da ferida + Cahe exhalando a preciosa vida. +Com vista incerta, os olhos vidracentos, + Trémula a voz, sem côr, já sem alentos, +Exclama, em fim, nas mãos da morte feia: + "Valei-me, Ceos, adeos ó Galatéa. +E soltando hum suspiro, os olhos serra: + Ferindo as plantas, magoando a terra. +Oh Deoses! Inda incerta esta desgraça; + He qual farpão, que o peito me traspassa; +E se he certa, mandai, que a dura morte + Sobre mim venha, e descarregue o corte: +Morreo Ácis por mim, por elle eu morra: + Qual do seu, do meu peito o sangue corra: + + +LAURINDO. + +Misera Galatéa enchuga o pranto, + Que hum sonho falso não provoca a tanto. + + +GALATÉA. + +Este sonho, a demora, e Polyfemo, + Tudo me assusta, e a desgraça temo. + + +LAURINDO. + +O sonho intimidar-me não devia + Por ser falsa illusão da fantasia. +Do Pastor a demora, que te assusta, + Tambem póde nascer de causa justa. +Se temes Polyfemo, o susto affasta: + Comigo vive, eu nunca o deixo, e basta. +E desde que o domei por teu respeito, + Tudo que eu mando, que elle faça, he feito. +Piza, piza, a teus pés essa agonia: + Faze, que a fonte com teu riso ria. + + +GALATÉA. + +Tu destróes em parte o meu desgosto; + Mas não consegues ver-me enchuto o rosto: +Não: fazer que esta setta não me fira, + Só póde o meu Pastor. Ah! Quem o víra! +Só pódem os seus olhos engraçados + Dar vista aos meus já cégos, e cançados. +Mas temendo o rancor de Polyfemo, + As proprias sombras dessas plantas temo. + + +LAURINDO. + +Do triste Polyfemo o rancor deixa: + Tu foste a causa, e só de ti te queixa. + + +GALATÉA. + +A causa fui! Eu sou féra impestada, + Que fizesse aquella alma invenenada? + + +LAURINDO. + +A causa foste, sim, porque o amaste, + E por Ácis, sem culpa, o desprezaste. + + +GALATÉA. + +Pelos Deoses do Olympo Soberano + Juro que nunca amei tal monstro insano. + + +LAURINDO. + +Pois se he certo, que amor não lhe tiveste, + Porque falsas promessas lhe fizeste? + + +GALATÉA. + +Porque assim o meu Ácis defendia + Da vingança, que o vil lhe promettia. + + +LAURINDO. + +Ah! Pois quiz com violencia... ( que loucura!) + Gerar amor, que nasce da ternura! + + +GALATÉA. + +Sim, com rigor queria, que o amasse, + E que o meu peito ao meu Pastor fechasse. +Clamando irado assim: "Cruel Pastora, + "Tu desprezas soberba, a quem te adora? +"És toda do teu Ácis? Pois discorre, + "Que ou tu has de ser minha, ou Ácis morre. +"Dize, resolve já, ou vou matallo; + "E o coração aos olhos teus mostrallo. +Eu ante o monstro vil de crueldade, + Que não cede á razão, nem á piedade, +Rogo-lhe compaixão: não se enternece: + Choro humilde a seus pés: mais se embravece. +Eu delirava neste lance forte + De dar ao triste a vida, ou dar-lhe a morte. +Ácis morrer por mim, sendo innocente! + Não, por livrallo fiz-me delinquente. +Com o tyranno usei de idéas novas + Para dar-lhe de amor fingidas provas; +Mas o meu firme peito era impossivel, + Que abrisse a porta aquelle bruto horrivel. +Se nisto te aggravei, Ácis desculpa; + Se eu delinquente fui, foi tua a culpa. + + +LAURINDO. + +Nao chores, virtuosa Galatéa: + De ti fazia mui diversa idéa; +Bem que eu não sigo as linguas venenosas, + Que as mulheres só tratão de aleivosas: +Sei, que muitas o são, sim, não duvido, + Pelos casos, que vejo, e tenho ouvido; +Mas contem-se as traições d'ellas, e d'elles, + Se acharem nellas mil, ha dez mil nelles. +Tu, exemplar Pastora, mostrar queres, + Que és a gloria, o modelo das mulheres: +Que os falsos homens pódes doutrinallos; + E com teu mesmo exemplo envergonhallos. +Vai-te em paz, vai guardar teu manso gado: + Do teu Ácis feliz dá-me o cuidado, +Que eu hirei procurallo: em mim confia, + Que hei de tornar-te a noite em claro dia. + + +GALATÉA. + +Ah piedoso Laurindo! Se tal fazes, + A hum corpo morto nova vida trazes. + + +ÁCIS. + +Que triste vejo a serra, o valle, o monte! + O rio pasma, corre turva a fonte. +Sim, sem a minha amavel Galatéa + A clara luz do Sol he triste, e feia. +Mas onde te acharei, gentil Pastora, + Para clamar então: já vejo a Aurora! +Aves, tornais o canto em agonia + Porque vos falta a Mestra d'harmonia? +O Ceo com ella adoce o meu tormento, + Tereis nova lição, e eu novo alento, +Mas ah! Que vejo! Que gentil Pastora? + Parece Galatéa! Oh feliz hora! +Não, não me enganes, lisongeira idéa. + N'altura... em trage... em gesto... he Galatéa, +Que está banhando em pranto o lindo rosto: + Eu corro, eu vou tornar-lhe a magoa em gosto. + + +GALATÉA. + +Ácis, se és vivo, sorte igual não tive. + + +ÁCIS. + +Inda o teu Ácis dos teus olhos vive. + + +GALATÉA. + +Ah! Que vejo! Ácis! Ceos! Será mentira? + + +ÁCIS. + +He verdade; o teu Ácis sou: respira. + + +GALATÉA. + +Oh Providentes Ceos! Deoses Clementes, + Que assim curais as chagas dos viventes. + + +ÁCIS. + +Tu choras! He de gosto, ou de agonia? + + +GALATÉA. + +Chorei de magoa, agora de alegria. + + +ÁCIS. + +Tu choravas por mim! Mereço eu tanto? + + +GALATÉA. + +Vê bem o estrago, que em mim fez o pranto. + Estes olhos, que tu chamavas bellos, +Hoje magoados fugirás de vêllos. + + +ÁCIS. + +Assim mesmo são dois lindos diamantes, + Quie inda eclipsados, sempre são brilhantes. +Mas dize, Galatéa, que motivo + Acendeo esse fogo, tão activo? + + +GALATÉA. + +A ausencia de tres dias (longos dias!) + De lagrimas, de sustos, de agonias; +E mais que tudo hum sonho feio, horrivel, + Que o não matar-me, não parece crivel: +Sonho cruel, que me pintou na idéa + A desgraça maior, scena mais feia: +Que o monstro Polyfemo te arrancára + A amavel vida, que esta vida ampara. + + +ÁCIS. + +E credito lhe déste, sendo esperta? + + +GALATÉA. + +Sim, que a má nova quasi sempre he certa. + + +LAURINDO. + +Se eu não corro a tiralla da vareda, + N'algum despenhadeiro achava a queda. + + +GALATÉA. + +Laurindo nos meus males tomou parte, + E até por compaixão quiz ir buscar-te. + + +ÁCIS. + +Bom amigo, e bom Mestre, as sãs doutrinas + Tu com virtuoso exemplo, nos ensinas: +Tu semeas os campos de equidade, + Nós colhemos os fructos da piedade. + + +LAURINDO. + +Huns para os outros sermos bons devemos: + Todos somos irmãos: de hum Pai nascemos: +Se hum errar, deve o outro encaminhallo: + Se hum cahir, deve o outro levantallo. + + +GALATÉA. + +Perdoa, que eu atalhe o teu conselho, + Proprio de hum Sábio, Virtuoso, e velho. +Dize, meu Ácis, dize, por clemencia, + Qual foi a causa de tão longa ausencia? + + +ÁCIS. + +Foste tu: foi o amor, e foi o empenho + De trazer-te a Ovelhinha, a qual já tenho. +Ao casal ta levei; mas sem achar-te; + Pois vieste a buscar-me, eu vim buscar-te. + + +GALATÉA. + +Achaste a minha Ovelha! Ah! Onde estava? + Bem que eu por ti nem della, me lembrava. + + +ÁCIS. + +Visinhos campos, as distantes terras, + Amenos valles, escabrosas serras, +Tudo corri: examinei choupanhas, + Pobres Aldêas, rusticas cabanas. +Perguntei aos campinos, Lavradores: + Rebanhos espreitei: busco aos Pastores: +Todos dizem: "Não vimos, não sabemos: + "Nem leve rasto dessa Ovelha temos. +Eu de perdê-la já desenganado, + De magoa afflicto, de buscar cançado, +Voltar queria a ver teu lindo rosto; + Mas dava gosto a mim, e a ti desgosto: +Eu a dor da saudade em mim curava; + Mas na má nova, nova dor te dava. +Nisto pensava triste, e vacilante, + Quando escuto berrar pouco distante, +Parto, gyro, procuro, em vão procuro: + Pois nada vejo: vejo hum bosque escuro, +Que o Sol formoso nunca vio por dentro: + Corro, o bosque examino; e lá no centro +Vejo hum pobre roupeiro esfrangalhado, + Dormindo, e a Ovelhinha preza ao lado. +Eu, que a vejo, e conheço, ó que alegria + Em teu obsequio a minha alma enchia! +Com lentos passos vou muito manso andando, + O sussurro das plantas receando, +Se bem que o vento amigo me valia; + Pois nem das folhas o brincar se ouvia. +Chego ao ladrão: observo, que em socego + Dorme roncando: na Ovelhinha pego: +Sobre os hombros a ponho, e vim fugindo, + Do furto alegre, de alegria rindo. +Trepando huma deserta ribanceira, + Ouço hum grito, ólho a traz, vejo á carreira +Seguindo-me a gritar o vil roupeiro: + "Ó ladrão! Larga a Ovelha! Ó ratoneiro! +Eu, que vejo o meu credito infamado, + Páro, e com ira mostro-lhe o cajado. +Prudente parto: segue-me as pizadas: + Torço a vareda, corre-me ás pedradas. +Dellas me affasto; e por final prejecto. + Na leve funda grossa pedra metto. +Agito a funda: corro então mais perto: + Desparo a pedra, no vil peiro acérto. +Fica o ladrão sem tino: quer suster-se: + Não póde: cahe: forceja para erguer-se: +Outra vez cahe de costas: vai rolando: + Péga-se ás pedras, mas em vão pegando, +Que as mesmas pedras, em que busca abrigo + Rólão sobre elle por maior castigo; +E despenhado assim pela barreira + Vai té parar na margem da ribeira. + + +GALATÉA. + +Ah! Que dizes! Mataste o desgraçado? + + +ÁCIS. + + Não ficou morto, não, mas maltratado, +Eu vi... com quanta dor o estive vendo! + Cahio mortal; depois se ergueo gemendo. +Olhou-me então com iras, e ameaços; + E trémulo partio com lentos passos. + + +GALATÉA. + +Tu, que es no coração manso cordeiro. + Hoje tornado em lobo carniceiro! + + +ÁCIS. + +Eu cordeiro não sou; porém se o fôra + Tornar-me em lobo foi preciso agora. + + +LAURINDO. + +Castiga-nos o Ceo, se nos vingamos; + Mas tambem quer, que a vida defendamos. + + +ÁCIS. + +Se mais piedade do ladrão eu tinha, + Nem eu era já teu, nem tu já minha. + + +GALATÉA. + +Se a amavel vida o ímpio te roubava, + N'huma só morte duas mortes dava. + + +ÁCIS. + +Esses extremos no meu peito os guardo + Para atear de amor o fogo, em que ardo. +Vamos, vamos, formosa Galatéa, + Alegrar com teu rosto a triste Aldêa: +A Aldêa, que por ti chorava agora, + Qual bom Filho, que a Mãi perdida chora. + + +GALATÉA. + +Chora a Pátria, por mim? Quanta amizade + Devo aos bons, que se nutrem da piedade! + + +LAURINDO. + +És bella, e inda mais bella por virtuosa; + Que a virtude inda a feia faz formosa. +Porém vê, que a Virtude cultivada, + Cresce, bem como a planta, que he regada; +Mas se falta a cultura, vai murchando; + E qual planta sem agua vai secando. +Hide: a benção do Ceo sobre vós desça: + Aos vossos olhos branda relva cresça; +E nella apascenteis grossas manadas + De prenhes vaccas gordas, e malhadas. +Tantas as cabras, tantos os cordeiros, + Que enchão os valles, enchão os oiteiros. +Hide, que he longe a Aldêa: hide, que he tarde: + O Ceo vos abençôe, o Ceo vos guarde. +A benção gere em vós dois bons Esposos, + Que fructos dêm ao Ceo, fructos ditosos. + + +ÁCIS. + +Adeos, meu bom Pastor, meu caro amigo, + Gloria dos campos, deste povo abrigo. + + +GALATÉA. + +Essa benção do Ceo, que em nós desejas, + Sobre tudo, que he teu, sobre ti vejas. +Ácis, vamos aqui pelo serrado, + Que he mais perto, he mais doce, e he povoado. + + +ÁCIS. + +Vamos cortando por entre estas faias: + Dá cá a mão: salta o rego: olha, não caias. +Tu saltas mais, do que eu: és bem ligeira! + + +GALATÉA. + + Se eu quiser não me apanhas na carreira. +Que farão hoje ao ver-me de contentes + As amigas, visinhos, e os parentes, +Que ao vêrem-me vagar só sem conforto + Julgar-me-hão morta, por julgar-te morto? + + +ÁCIS. + +Se o bem nos foge, atêa-se o desgosto: + Torna o bem, morre o mal, renasce o gosto. +Tu verás nas Pastoras desgrenhadas + Olhos feridos, faces desmaiadas. +E ao ver-te, o riso, e pranto misturando, + Humas ás outras com prazer chamando: +Todas para te verem correm, voão: + Vivas, applausos pelos ares sôão. +Huma te beija a face alva, e rosada, + Que a faz com pranto seu rosa orvalhada. +Outra te enfeita as tranças graciosas + De myrto, e cravo, de jasmins, e rosas. +Verás, que ao som das lyras vem cantar-te + A magoa de perder-te, o bem de achar-te. +Verás, como os chorosos innocentes, + Quando te virem, brincaráõ contentes. +Verás a fonte, que turbada a vejo, + Corre alegre a dar a nova ao Téjo. +Verás o Téjo, que sem ti bramia, + Quão plácido vem ver-te á praia fria. +Verás o Melro, o Rouxinol suave + Convertendo a tristeza em canto grave. +Verás saltando os tenros Cabritinhos + Alegrarem os tristes Cordeirinhos, +Verás curvar-se o tronco a dar-te as frutas; + Correr o rio, vir trazer-te as trutas. +Hoje farás feliz, farás contente + A Aldêa, o rio, a fonte, o gado, a gente. + + +GALATÉA. + +Feliz me fazes tu: viver me fazes: + Aos meus bons dias novos dias trazes. + + +ÁCIS. + +Como posso eu fazer a alguem ditoso, + Quando só por ser teu, sou venturoso? +Sem ti rustico sou, humilde, e pobre: + Comtigo sábio sou, sou rico, e nobre. + + +GALATÉA. + +Demos graças a Amor: Amor cantemos, + Que assim nos téce a Santa paz, que temos. + + +ÁCIS. + +Sim, cantemos Amor: a voz levanta, + A voz sonora, com que Amor encanta. + + +GALATÉA. + +Amor me fez guerra: +Lutámos, venceo-me; +O peito rompeo-me +Para Ácis entrar. + Taes laços, taes setas + Devemos beijar. + + +ÁCIS. + +Amor nos tens olhos +Forjou doce flexa: +Ferio-me: esta brexa +Tu sabes curar. + Taes laços, taes setas + Devemos beijar. + + +GALATÉA. + +Ao ver-me ferida, +Primeiro assustei-me, +Depois alegrei-me, +Amor fui cantar. + Taes laços, taes setas + Devemos beijar. + + +ÁCIS. + +Eu pude da seta +Salvar o meu peito; +Não quiz: puz-me a geito, +Deixei-a entranhar. + Taes laços, taes setas + Devemos Beijar. + + +GALATÉA. + +Depois de ferir-me +Mostrou-me as algêmas; +E diz-me; "Não temas +"Quando eu tas lançar. + Taes laços, taes setas + Devemos beijar. + + +ÁCIS. + +Ferir-me, prender-me +Não era preciso, +Bastava hum teu riso: +Hum teu brando olhar. + Taes laços, taes setas + Devemos beijar. + + +GALATÉA. + +Amor, abre as azas +Vem, prende estes braços, +Que os teus doces laços +Não hei de quebrar. + Taes laços, taes setas + Devemos beijar. + + +ÁCIS. + +Sou prezo por gosto, +Por honra cativo: +Por prezo he que vivo, +Qual peixe no mar. + Taes laços, taes setas + Devemos beijar. + + +GALATÉA. + +Amor, chama as Graças, +E o Santo Hymeneo! +Que venhão do Ceo +Meu laço apertar. + Taes laços, taes setas + Devemos beijar. + + +ÁCIS. + +Tu chammas as Graças? +Não clames por ellas; +Pois Graças mais bellas +Em ti venho achar. + Taes laços, taes setas + Devemos beijar. + + +GALATÉA. + +Basta: cançada vou: mais não cantemos: + Logo melhor n'Aldêa cantaremos. + + +ÁCIS. + +Pois vai tu pela encosta desse monte, + Que a lyra vou buscar: lá saio á fonte. + + +GALATÉA. + +Não te demores lá, minha alegria. + + +ÁCIS. + +Já volto a ver-te, minha luz do dia. + + +GALATÉA. + +Levas-me a vida, a jóia mais perfeita. + + +ÁCIS. + +Em penhor dessa vida esta alma acceita. + + +GALATÉA. + +Em penhor! Queres pois, que a restitua? + + +ÁCIS. + +Não; se essa vida he minha, esta alma he tua. + + +FIM + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Galatéa, by António Joaquim de Carvalho + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK GALATÉA *** + +***** This file should be named 21780-8.txt or 21780-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/1/7/8/21780/ + +Produced by Pedro Saborano. Para comentários à transcrição +visite http://pt-scriba.blogspot.com/ (This book was +produced from scanned images of public domain material +from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit https://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/21780-8.zip b/21780-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..4ec4bfc --- /dev/null +++ b/21780-8.zip diff --git a/21780-h.zip b/21780-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..cbed938 --- /dev/null +++ b/21780-h.zip diff --git a/21780-h/21780-h.htm b/21780-h/21780-h.htm new file mode 100644 index 0000000..b1dd00d --- /dev/null +++ b/21780-h/21780-h.htm @@ -0,0 +1,2177 @@ +<!DOCTYPE html + PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Transitional//EN" + "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-transitional.dtd"> +<html> + +<head> + <title>Galatéa: egloga</title> + <meta name="AUTHOR" content="Antonio Joaquim de Carvalho" /> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=iso-8859-1" +/> + <style type="text/css"> + + body {width: 80%; margin-left:10%} + + h1, h2, h3, h4 { text-align: center} + h1 {margin: 2em; text-align: center} + h2, h4 {margin-top: 2em} + + .author {font-family: serif; font-weight: bold} + + .poesia { white-space:pre; margin-left: 10%} + + .ficha_tecnica {text-align:center} + + .indice {text-align:left; margin-left: 40%} + + .small-caps { + font-variant: small-caps; + margin-left: 20%; + } + + </style> +</head> +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of Galatéa, by António Joaquim de Carvalho + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Galatéa + egloga + +Author: António Joaquim de Carvalho + +Release Date: June 8, 2007 [EBook #21780] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK GALATÉA *** + + + + +Produced by Pedro Saborano. Para comentários à transcrição +visite http://pt-scriba.blogspot.com/ (This book was +produced from scanned images of public domain material +from Google Book Search) + + + + + + +</pre> + + + + +<div class="ficha_tecnica"> +<h1>GALATÉA</h1> + +<h2>EGLOGA.</h2> + + +<p>PRIMEIRA, E SEGUNDA PARTE</p> + + +<p>POR</p> + +<p class="author">ANTONIO JOAQUIM DE CARVALHO.</p> + + +<p>LISBOA: M. DCCCI.</p> + +<p>NA OFFIC. DE SIMÃO THADDEO FERREIRA.</p> + +<p><i>Com Licença da Meza do Dezembargo do Paço.</i></p> +</div> + + + + + +<h2>AO LEITOR.</h2> + + +<p>Esta primeira Egloga, ha 16 annos impressa, agora faço-a reimprimir, +para tirar-lhe as lisongeiras Cartas, para emendar-lhe algumas passagens +com melhor escolha, para curar-lhe alguns vicios gerados por aquelles, que +duas vezes a reimprimírão, a pezar do meu gosto, e para ligar ambas as +Partes, por que a primeira dá a materia para a segunda.</p> + +<p>Se me increparem, porque faço domavel o Gigante Polyfemo, contra a +opinião dos melhores Poetas, respondo: He verdade, que a Fabula nos mostra +este Cyclope hum monstro de crueldade, de extraordinarias forças, e +destemido: hum tragador de seis companheiros de Ulysses, e delle mesmo o +seria, se astucioso não lhe fugisse: hum soberbo em fim, que declamava, que +nem ao mesmo Jupiter temia; mas pergunto: Este Gigante era humano, ou não? +Todos me dirão, que sim. Pois se era humano, era sugeito ao imperio da +Razão, com cujas armas o ataco, e o venço: e só seria inverosimil, se eu +com a razão accommettesse hum Tigre, hum Leão, huma Serpente. Se os mais +não pizárão esta estrada, porque não quizerão, pizo-a eu, porque quero, e +por que posso, sem atropelar a verosimilhança.</p> + +<p>Se altero o caracter da Egloga; se me aparto da simplicidade pastoril; +se faço inflammar Polyfemo, e respirar vingança, he porque eu não pinto hum +daquelles Pastores do Seculo de oiro, em que reinava a mansidão, e o socego +de espirito; pinto hum Cyclope, hum Pastor ferino, que abrazado no ciume, e +na ira, deo barbara morte ao mancebo Ácis, lançando-lhe em cima hum +penhasco: catástrofe, que eu não pinto, por não fazer huma Egloga com +espirito de Tragedia.</p> + +<p>Eu tive a fortuna, de que alguns homens (discrétos homens!) dissessem, +que não era minha a minha Egloga Deploratoria intitulada JOSINO na chorada +morte do Principe o Senhor D. JOSÉ. Eu serei feliz, se agora tiver a mesma +fortuna, porque se esses contrastes duvidarem de ser minha esta obra, boa +será ella pela sua avaliação. Esses, que duvidão, examinem, busquem, +descubrão o legitimo Author, e o mostrem para gloria sua, e descredito meu. +Conheça o mundo o homem virtuoso, o homem raro, que se cançou naquella +composição, para renunciar em mim a posse, o lucro, e o credito della. E se +eu a furtei, onde estás homem roubado, que não acodes ao teu cabedal, +sabendo, que em meu poder existe? Denuncía-me; clama justiça contra mim. +Ah! Ninguem falla? Ninguem me acusa? Pois acuso-me eu, mas he da temeridade +de emprehender a guerra sem ter armas: de querer lugar na Républica das +Letras sem ser Cidadão de Athenas: de fazer Versos sem beber da Castália, +sem soccorro das Musas, sem conhecer Apollo. Os Versos (toscos Versos) que +ha trinta annos escrevo, são os denunciantes, as testemunhas, e os Juizes +do meu crime. Acusem-me, como eu me acuso deste delicto; porém não de +roubador, officio imfame, que não cabe em almas honradas; mas se os +críticos me arguirem pelos pobres, insulsos Versos, devem igualmente +attender em minha defensa, que estes se não tem mel, tambem não tem veneno; +se não deleitão, tambem não ferem. Isto supposto, fação-me Justiça.</p> + + + + +<h1>GALATÉA</h1> + +<h2>EGLOGA.</h2> + + + + +<h2>PRIMEIRA PARTE.</h2> + + +<h3>INTERLOCUTORES.<br /> + +POLYFEMO, E LAURINDO.</h3> + + +<h4>POLYFEMO.</h4> + +<p class="poesia">Ah! Campos, campos meus! Vós, que algum dia + Me servieis de amavel companhia: +Vós, que os ouvidos daveis ao meu canto, + Prestaimos boje, para ouvir meu pranto; +Se bem, que assáz me custa magoar-vos, + Depois de com meu canto deleitar-vos; +Mas eu adoçarei a vossa mágoa, + Dando-vos de meus olhos rios de agua: +Com ella florecei para os viventes, + E á custa do meu mal vivei contentes, +Que eu não vos lograrei, não; nem já gora + A minha morte póde ter demora; +Os Ceos a mandem, que em tormentos fortes + Huma morte he melhor, que muitas mortes. +Ah! Campos, se vós fosseis animados, + E ponderasseis bem os meus cuidados, +De mim aprenderieis, que a ventura, + Ao que nasceo feliz, he que procura: +E Aquelle, que nasceo já desgraçado, + Sempre lhe foge com semblante irado. +Mas quem he, que este monte vem subindo? + Pelo trage he Pastor: sim, he Laurindo, +Que talvez magoado d'escutar-me, + Quer meios procurar de consolar-me: +Em vão, em vão se cança, se o intenta; + Que em vez de alivio dar-me, a dor me augmenta. +Agora mais me vejo impaciente, + Que até me afflige a vista de hum vivente: +Mas elle vem, não posso resistir-lhe, + Já não posso esconder-me, nem fugir-lhe; +Se fujo desta parte, he ribanceira, + Se daquella, me affogo na ribeira; +Pois nella acabarei, morrer não temo; + De huma só morte acabe Polyfemo.</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Detem-te, amigo, e espera, que fazias? + A ti mesmo matar-te pertendias? +Seres comtigo mesmo ímpio tyranno, + Para hum damno evitar com maior damno!</p> + + +<h4>POLYFEMO.</h4> + +<p class="poesia">Deixa, deixa, que eu morra por piedade, + Porque morrendo, evito a crueldade +Dos ímpios Deoses: ah! Viver não quero, + Pois vida tão penosa não toléro: +Tu contarás á falsa Galatéa, + Que por ella me expuz á morte feia; +Porém no peito o coração me estalla, + Vendo, que Ácis tyranno ha de logralla: +Mas logre-a, logre-a, embora, oh que tormento! + Que eu só, por tal não ver, morrer intento.</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Socega, amigo, queres dessa sorte + Dar a vida, por quem te causa a morte? +Queres vingar-te della socegado? + Desprezou-te, despreza-a: estás vingado.</p> + + +<h4>POLYFEMO.</h4> + +<p class="poesia">Desprezar Galatéa, e offendella + Quando só morrer por ella! +Isso não, que depois de eu adoralla, + Valor não tenho para maltratalla: +Ella pratique embora a crueldade, + Que eu não devo imitar-lhe a impiedade.</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Conheces, que te offende essa perjura, + E inda morres por ella? Oh que loucura!</p> + + +<h4>POLYFEMO.</h4> + +<p class="poesia">Sim, amigo, traidora a considero; + Mas quiz-lhe bem: querer-lhe mal não quero. +Eu não lhe amo o rigor, sim a belleza, + Que he parto singular da natureza: +Tu, que a conheces, vê, se razão tenho + Para adoralla com tão grande empenho: +O lindo rosto, aquelles olhos bellos, + Tão matadores, que em chegando a vêllos, +Parece, que do rosto lhe saltavão, + E que para não vêllos me cegavão. +As loiras tranças, bem como doiradas, + Sobre seus alvos hombros espalhadas. +Se as costas me voltava por desprezo, + Como que a ellas me levava prezo: +Nas lindas faces se me figuravão + Duas papoilas, que entre a neve estavão. +A boca, que em conceitos sempre acerta, + Parecia huma rosa meia aberta; +Mas quando grave, e graciosa ria, + Oh quanto então mais bella parecia! +Mostrando os claros dentes, que esmaltavão + Seus beiços, que de nácar se formavão; +E co'a força do riso as faces bellas + Duas covas fazião como estrellas. +As mãos por engraçadas, e pequenas + Parecião formosas açucenas. +Mil vezes quiz beijar-lhas; porém ella, + Que o damno prevenia na cautéla, +Escondendo-as, de mim mais se affastava, + Que até nisto ser casta bem mostrava. +Estas bellezas, esta honestidade + Forão prizões da minha liberdade, +E quanto as lindas mãos mais me negava, + Tanto as doces prizões mais me apertava; +Mas n'huma sésta vi, que ella dormia + Junto do pote, que na fonte enchia: +Vou-me pé ante pé, e hindo a beijar-lhas, + Me arrependi, porque temi manchar-lhas. +Nem só para pegar-lhes valor tinha, + Porque mão tão grosseira, como a minha, +Não devia tocar aquella neve, + Que só com outra igual tocar-se deve; +Mas immovel fiquei, pois só gostava + De ver a bella acção, em que ella estava. +O branco rosto sobre o curvo braço, + Outra mão tambem curva no regaço: +O corpo reclinado sobre a fonte, + E a curta sombra, que lhe dava o monte, +Só metade do rosto lhe cubria, + Que muito mais formosa inda a fazia. +Eu, que só me detinha em admiralla, + Sem que tivesse intento de acordalla; +Como de gosto estava arrebatado, + Sem que eu sentisse, cahe me o cajado: +Dá-lhe nos pés: acorda ella assustada, + Vê-me, levanta-se, e com voz irada +Me diz: "Vil, só comigo! Que fazias? + "Dize: acaso offender-me pertendias? +"Se por gigante intentas de vencer-me, + "Matar-me poderás, mas não render-me: +"Que a minha honestidade he tão constante, + "Que não cede á violencia de hum gigante. +Não, (eu lhe respondi) não te offendia: + Nem de ti outra cousa pertendia, +Mais do que ao menos, pois te não lograva, + Ver-te: e so com te ver me contentava. +Se nisto te offendi, ou me desculpa, + Ou me castiga, se me achares culpa: +Que se eu da tua mão for castigado, + Serei ditoso, se antes desgraçado. +Mas dize-me, cruel, se me estimaste, + Porque razão sem culpa me deixaste? +E se indigno me achavas para amante, + Porque juraste de me ser constante? +Que resposta daria a fementida? + "Vai-te louco, (me diz) que aborrecida +"Até de ouvir-te estou, nem posso dar-te + "Outra razão maior de desprezar-te, +"Senão, que as Leis de Amor já não tolero: + "Amei-te, em quanto quiz, hoje não quero. +"Em fim, tu não és do meu agrado: + "Basta: vai-te, que estás desenganado. +E com este rigor aquella ímpia + Foge: chamo-a, mais ella me fugia: +Eu vendo a ir tão bella, quanto irada, + Corpo gentil, cintura delicada, +Afflicto exclamo: Ah! Deshumana féra! + Nunca te eu víra, ou nunca te perdêra.</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Ainda louvas a ingrata por formosa, + Quando enorme se fez, sendo aleivosa? +Polyfemo, se queres ser discreto, + Não recordes a offensa, nem o affecto: +Que o affecto tambem o tempo o gasta, + E a offensa he parto de huma louca, basta +Que á razão nunca os olhos tem abertos, + E sem luz que fará? Mil desacertos: +Por isso áquelle, que extremoso a trata, + A paga, que lhe dá, he ser-lhe ingrata. +Bem como o bravo lobo carniceiro, + Que vê, que a innocencia de hum cordeiro +Não péde entranhas ter para aggravallo, + Por isso mesmo quer despedaçallo; +Mas se este acha hum rafeiro, que o extingue, + Tambem ella achará quem bem te vingue: +E no entanto o melhor he esquecella, + E se possivel for, nunca mais vella.</p> + + +<h4>POLYFEMO.</h4> + +<p class="poesia">Tambem deixar de a ver he impossivel, + Porque sem vella, a dor mais insoffrivel +Creio, que dentro n'alma padecesse, + Como a flor, que sem Sol murcha, e não cresce. +Ah! Se eu agora a visse, e lhe fallasse, + Talvez que a meus gemidos se abrandasse: +E póde ser, que a achasse arrependida + De perder, quem por ella perde a vida. +Oh quão feliz seria a minha sorte, + Se ella abrandasse aquelle genio forte! +Do desprezo, e d'affronta eu me esquecêra, + Se hum riso, se hum sinal de amor me déra. +Tudo, tudo por ella perderia: + Sem gado, sem choupana ficaria: +Sujeitar-me-hia pelos seus amores + A viver das esmolas dos Pastores: +Pois sem logralla, tudo me he penoso, + E logrando-a, sou pobre; mas ditoso.</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Se amas com tanto extremo a huma traidora, + Que mais fizeras, se fiel te fôra?</p> + + +<h4>POLYFEMO.</h4> + +<p class="poesia">Esta alma, que me anima, se pudesse, + Creio, que em paga d'esse amor lha désse, +Amando-te, era justo premialla; + Mas desprezando-te, he loucura amalla: +Sim, que o homem não mostra ser discreto + Amando a falsa, que tem outro objecto: +Pois daqui nasce a mancha da deshonra, + E antes se perca a vida, do que a honra. +Que se havia dizer na nossa Aldêa, + Se depois dessa ingrata Galatéa +Por outro te deixar, tu a buscasses, + Esquecido d'affronta inda a estimasses? +E não tremias, não te envergonhavas + De dizerem, que a honra desprezavas? +Ah! Querias do amor ser arrastado, + Perdendo a fama, e credito de honrado? +Dize, responde, a falla não escondas; + Mas ou me vence, ou nada me respondas.</p> + + +<h4>POLYFEMO.</h4> + +<p class="poesia">Nada responderei por defender-me, + Pois por sábio chegaste a convencer-me: +Se a paixão me cubrio de escuridade, + Tu me mostraste as luzes da verdade: +Agora já conheço, que essa ímpia + Mais féra, que o dragão, que o monte cria, +Nem amor, nem piedade já merece, + Pois por outro me deixa; e assim se esquece +Da fé, que me jurou, e da lealdade, + Com que sempre a tratei; que a falsidade +Não podia caber n'hum peito amante, + Que ainda offendido mostra ser constante. +Eu, que até ás Pastoras, quando as via, + Nem ainda, o Ceo vos guarde, lhes dizia: +E se acaso de longe as avistava, + Por lhes fugir, a estrada rodeava. +Tudo isto por fineza áquella infame, + Que, só tão feio nome, he bem lhe chame; +Porque a saber, que ás outras eu fallava, + Não julgasse, que alguma me agradava; +Porém que premio vim a tirar disto? + Sabes o que? Com todos ser malquisto: +Desprezarem-me todos, ver-me agora + Aqui só, sem amigos, nem Pastora: +E a falsa, tanto extremo desprezando, + Amar outro, e ficar de mim zombando! +E soffro tal injúria sem vingar-me! + Poderei socegar sem despicar-me! +Não, não socegarei, que hum peito irado + Socega só depois de estar vingado. +Sim, vou já despicar-me... Mas que intento! + Que faço! Aonde vou! Que pensamento +He este, que me occorre! Oh quanto errado + Gyra o discurso de paixão cercado! +Eu matar Galatéa! Oh que vileza! + Naquella rara imagem da belleza +Descarregar o golpe penetrante! + E havião ver meus olhos nesse istante +Aquelle brando peito traspassado! + O rosto, bem qual Sol quando eclipsado! +E os olhos, que daquelle Sol são raios, + Perdendo a luz na sombra dos desmaios! +Aquellas lindas faces tão córadas + Eu poderia vellas desmaiadas! +A boca rubicunda, e graciosa, + Bem qual entre jasmins a linda rosa, +Eu teria valor, teria vida, + Para vella sem graça amortecida! +E havião escutar-lhe os meus ouvidos + O pranto, os ais, e os ultimos gemidos: +Já com trémola voz, e a cada instante + Vella convulsa, afflicta, e delirante, +Sem alento, sem côr desfalecida, + Dando hum suspiro, e acabando a vida! +Oh Ceos! Que horror concebo em ponderallo! + Eu tremo, gélo-me, e de dor estallo: +Que coração tão barbaro haveria, + Que obrasse tão enorme tyrannia? +Eu teria valor, se a offendesse, + Para vella morrer, sem que eu moresse? +Não, não teria tanta impiedade, + Que vendo cahir morta hume Deidade, +Não me sahisse deste insano peito? + O duro coração de dor desfeito. +Nem mais contemplar quero tal desgraça, + Que parece, que o Ceo já me ameaça, +Que a terra vejo abrir, que já comigo + Se abate, e me confunde por castigo. +Ah! Minha Galatéa, vive embora, + Bem que me sejas infiel, traidora: +Ainda te amo, se bem, que o não mereças; + Eu padeça, mas sem que tu padeças: +Vive feliz, e logra o teu amante: + Oh justos Ceos, que dor tão penetrante! +Mal posso respirar, que até o alento + Me soffoca a violencia do tormento. +Vai-te, amigo, e me deixa só hum pouco, + Que eu não estou em mim, eu estou louco: +Oh! Venha embora a morte rigorosa + Acabar-me esta vida tão penosa.</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Deixa, amigo, esse louco desvario, + Que o ser de homem deslustra, offende o brio: +E que o mundo dissesse pertendias, + Que por huma mulher enlouquecias?</p> + + +<h4>POLYFEMO.</h4> + +<p class="poesia">Tambem dirá, que não me altéra a offensa, + Pois toléro a inimiga na presença.</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Perdoando-lhe tu por generoso, + Que ha de o Mundo dizer? Que és virtuoso. +Mas se a fraca mulher ímpio punias, + Só de cubarde o nome vil terias.</p> + + +<h4>POLYFEMO.</h4> + +<p class="poesia">Sim, perdoada está: eu lhe perdoo, + Pois da sua fraqueza me condoo; +Tambem, porque talvez seja innocente, + Se bem que a culpa a accuse delinquente; +Galatéa he honesta, he recatada: + Pois quem duvida fosse requestada +D'aquelle Ácis traidor, e que a enganasse + Com vãs promessas, para que o amasse?</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Pensas bem que a mulher de honesto estado, + Se dá seu coração, sempre he rogado; +Se bem que o rogo algumas não convence; + Mas a feia ambição a muitas vence.</p> + + +<h4>POLYFEMO.</h4> + +<p class="poesia">Sim? Pois hoje verás, que a minha ira + Só contra aquelle infame se conspira: +Elle, por me arrancar de amor a palma, + Me roubou a doce alma da minha alma, +Vista dos olhos meus, bem como estrella, + Que luz me dava, para poder vêlla. +Clara luz, doce vida, alma preciosa, + Tudo perdi. Oh scena lastimosa! +Tudo o vil me roubou; porém protesto + Fazer o seu castigo manifesto +Ao Ceo, á terra, a todos os viventes: + Elle me offende, as culpas são patentes; +Pois o proprio delicto he, que o condemna, + A que segundo a culpa, sinta a pena.</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Queres que a morte de Ácis justifique + Huma céga paixão, hum vil despique?</p> + + +<h4>POLYFEMO.</h4> + +<p class="poesia">Quero, porque da injúria se não gave, + Que o proprio sangue a sua culpa lave: +E se neste lugar já o apanhára, + O coração do peito lhe arrancára.</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Dize: se a Galatéa perdoaste, + Depois que a culpa enorme lhe provaste, +O Pastor, que he talvez menos culpado, + Porque não he, como ella, perdoado?</p> + + +<h4>POLYFEMO.</h4> + +<p class="poesia">Ella sim: me offendeo; mas obrigada, + E merece perdão por violentada; +Mas elle não he digno de clemencia, + Pois mais culpado está pela violencia.</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Aqui não ha violencia, ha certa culpa, + Que Amor condemna, e logo Amor desculpa, +Delicto immensas vezes praticado + Por quem ama, e pertende ser amado.</p> + + +<h4>POLYFEMO.</h4> + +<p class="poesia">Assim se obra; mas sempre he falsidade, + Quando offende as leis santas d'amizade.</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">He máo quebrar a Lei; mas que te espanta, + Se ella te jurou fé, e a fé quebranta? +Polyfemo, discorre mais prudente; + Vence-te a ti, se queres ser valente: +Eu teu amigo sou, eu sou mais velho, + Tu, que és mais moço, toma o meu conselho +No falso Amor não faças confiança: + Desterra a ira, foge da vingança, +Que esta inquieta, aquella te amofina: + De qualquer dellas sempre vem ruina. +Males, que tu não queres supportallos, + Não deves para os outros desejallos, +Que ás vezes são, qual pedra despedida, + Que no mesmo que a deita, abre a ferida: +Queres a morte de Ácis? Não ponderas, + Que póde em ti cahir, se nelle a esperas? +Teme o Ceo vingador, teme-lhe a ira: + O Ceo, que a vida dá, só elle a tira: +Só elle sobre as vidas tem dominio, + E não deves oppôr-te ao seu designio; +Nem ao menos vingar-te levemente + Poderás, sem que fiques delinquente. +Olha, que para Jupiter Supremo + He menos, que hum mosquito, hum Polyfemo. +Á voz só do seu raio penetrante + Treme de susto a rocha mais constante. +Foge, foge de o veres irritado, + E não faças, que a mão levante irado. +Ah! Já, mudas de côr, tremes, e pensas? + Pois a ti mesmo, espero, te convenças.</p> + + +<h4>POLYFEMO.</h4> + +<p class="poesia">Tremo de confusão, e de mim tremo; + Os castigos do Ceo Respeito, e temo; +Mas o affecto, a paixão, a honra, a offensa + Não me deixão acção, em que eu me vença: +Vejo a justa razão, quero seguilla; + Mas a paixão vem logo a destruilla: +Que este meu coração nunca descança + De chamar-me ao caminho da vingança.</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Qualquer paixão, qualquer impaciencia + Se vence com discurso, e com prudencia.</p> + + +<h4>POLYFEMO.</h4> + +<p class="poesia">Tão desgraçado sou, que neste empenho + Nem já discurso, nem prudencia tenho: +Quem vio tão enredado labyrintho + Como este, que na idéa, e n'alma sinto! +Deoses, se justos sois, ou dai-me a morte, + Ou me livrai de confusão tão forte; +Eu se vingar-me vou, me precipito; + Porque aos Deoses offende o meu delicto: +Se assento em perdoar, não persevero, + Porque em vendo o offensor, logo me altero; +Porém hum novo meio já me occorre: + Melhor acerta, quem melhor discorre. +Eu não quero incitar ao Ceo clemente, + Mas para não vingar-me do insolente, +Eu fugirei de o ver, que ao vêllo, logo + A cinza quente exhalaria fogo. +Deixarei estes monte, estes prados, + Que a verdura me davão para os gados: +Irei viver nas mais occultas brenhas, + Onde gente não veja, mas só penhas: +Da vingança, e d'affronta assim me privo, + E ninguem sabe se sou morto ou vivo.</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Resolves bem, amigo; sim, he justo + Fugires do perigo a todo o custo; +Porque busca a desgraça todo aquelle, + Que vendo o damno, não se aparta delle: +Perca-se a Patria, perca-se a fazenda, + Perca-se tudo, e nunca o Ceo se offenda. +Tu sim perdes lavoiras, e o serrado; + Mas o Ceo, que esses bens te havia dado, +Te dará novos campos mais extensos, + Donde possas colher frutos immensos: +Quem perder pelo Ceo, fique esperando, + Que em vez da perda, ficará lucrando: +Se a tua choça perdes, caro amigo, + A minha he grande, vivirás comigo: +Para a tua lavoira dar-te-hei terra + Da campina, que tenho, além da serra; +Dar-te-hei duas palmeiras mui frondosas, + Donde colhas as tâmaras gostosas: +Dar-te-hei duas formosas aveleiras, + Tortas sepas, viçosas oliveiras: +E do mais fruto, que o Ceo der, pendente + Repartiremos ambos irmãmente. +Para o gado lá tens viçosa relva, + Lá tens para o recreio a linda selva, +Onde acharás hum bosque mui sombrio, + De huma parte arvoredo, d'outra hum rio: +Alli se ouvem os pássaros cantando, + Alli se escuta o rio murmurando, +Nelle andão de contínuo os pescadores, + Nelle pescão tambem alguns Pastores +O saboroso peixe á longa cana, + Ou com o iscado anzol, que mais o engana: +Em fim, he campo ameno, he deleitavel, + Fructuosa a terra, o clima saudavel: +Lá vivirás, amigo, descançado, + Sem ver a causa do mortal cuidado: +Pois naquella distancia por extensa + Não vês o offensor, nem vês a offensa.</p> + + +<h4>POLYFEMO.</h4> + +<p class="poesia">Discreto amigo, amigo verdadeiro, + Tu fostes dos humanos o primeiro, +Que me soube vencer: eu que algum dia + Nem a razão, nem Deoses conhecia, +Hoje a razão abraço, os Deoses temo; + Tu me fizeste hum novo Polyfemo.</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Convence-te a razão, porque és humano, + Que a razão só não doma o bruto insano.</p> + + +<h4>POLYFEMO.</h4> + +<p class="poesia">Oh grande, oh raro exemplo d'amizade! + Oh coração, gerado de piedade! +Despido d'ambição, e d'avareza, + Só inclinado á mísera pobreza! +Deixa, que por mostrar-me agradecido, + A teus honrados pés chegue abatido; +E esta boca, por quem serás louvado, + Beije o chão duro, dos teus pés tocado.</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Suspende, Polyfemo, eu não pertendo + A tua gratidão, antes me offendo, +De a meus pés te prostares abatido, + Acatamento só ao Ceo devido.</p> + + +<h4>POLYFEMO.</h4> + +<p class="poesia">Oh quanto és digno de louvor completo, + Por liberal, humilde, e por discreto! +Aprenda o avarento ambicioso + A ser mais liberal, mais caridoso: +O que da santa, e mísera pobreza + Foge, como quem foge da vileza, +Veja, que o rico, o paderoso, o nobre + Talvez, chegue a pedir esmola ao pobre: +Esse, que as minas abre, e colhe o ouro, + Julgando a vida ter no seu thesouro, +Veja, que a vida, e ouro n'hum momento + He como o fumo, que consome o vento: +Siga os teus passos o soberbo inchado, + Que julga, que a ventura tem ao lado: +Olhe, que a seca o grosso rio esgota, + E até com vento o cedro se derrota. +Longe, longe de nós, ó vicio forte, + Vicio mais feio, do que a feia morte.</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Não terão parte em nós vicios danados, + Nem pizaráõ a flor dos nossos prados; +Que esta lã, que nos cobre, esta pobreza + Contra o vicio nos serve de defeza. +Vamos gozar a santa paz ditosa, + Vamos colher a fruta saborosa +Da minha bella Aldêa: vem, amigo, + Que eu não me ausento, sem que vás comigo.</p> + + +<h4>POLYFEMO.</h4> + +<p class="poesia">Vamos; mas ah Laurindo, quem diria, + Que por huma mulher, por'huma ímpia +Eu havia deixar a minha Aldêa, + E ir d'esmolas viver na terra alheia? +Oh triste Polyfemo! Oh desgraçado! + De ti deves queixar-te, e não do fado: +Em mil exemplos o perigo viste, + Devias fugir delle, não fugiste? +Pois agora o teu erro irás pagando, + E o damno sem remedio lamentando. +Tome exemplo de mim, o que ama cégo, + Julgando ter no amor todo o socego, +Veja a minha desgraça, e tema o dano, + Que sempre nasce deste amor profano: +Não prenda a doce, amavel liberdade, + Já que o Ceo lhe quiz dar livre a vontade: +Fuja do amor, e guarde esta doutrina, + Se quizer viver longe da ruina. +Mas ah! Nem já do amor quero lembrar-me, + Que he facil outra vez precipitar-me. +Adeus, ó campos meus, campos amados, + Que me daveis o fruto, e pasto aos gados: +Já não hei de ferir vossos ouvidos, + Nem já respondereis aos meus gemidos. +Adeus, ó rio meu, que me obrigavas, + Quando ao meu gado tuas aguas davas; +Mas pago ficas, que essa grossa enchente + A augmenta de meus olhos a corrente. +Adeos, plácida fonte, onde algum dia + Se alegre rias, eu alegre ria; +No prazer te imitei; mas hoje afflicto + Só no pranto, que verto, he que te imito. +Lembra-te, ó fonte, que a cruel Pastora, + Essa, que sem razão me foi traidora, +Por ti jurou, que essa agua lhe faltasse, + Se ella de amor a pura se manchasse: +Agora deves, pois faltou perjura, + Por castigo negar-lhe essa agua pura: +Como ella contra si justiça pede, + Ou procure agua longe, ou morta á sede; +Mas ah! Que digo! He muita crueldade: + Não, não lhe negues agua por piedade, +Tem della compaixão, dá-lhe desculpa, + Basta só, que a castigue a propria culpa. +Adeos, ó prado ameno, as flores bellas + Eu te roubei para tecer capellas: +Perdoa-me, e talvez que inda melhores, + Que á custa do meu mal terás mais flores: +E apague a minha culpa, que te aggrava + Este pranto, que humilde os pés te lava. +Adeos, Pastores, doces companhias + Dos meus passados, e felices dias; +Porém dias tão breves, quanto he breve + No Irverno a calma, no Verão a neve: +Se o meu canto aprendestes algum dia, + No tempo da ventura, e d'alegria +Hoje do meu desgosto, e do meu damno + Podeis lucrar mais util desengano, +Vendo, por breve ser minha ventura, + Quanto a glotia do mundo pouco dura: +Que apenas nos faz ver hum falso gosto, + Logo atrás delle vem maior desgosto. +Adeos, ó Galatéa; mas que digo! + Cuidei, que tinhas inda o nome antigo; +Mas não deves ter já nome de humana, + Sendo Leão feroz, vibora insana: +Fica-te embora em paz, e só te peço + De mim t'esqueças, que eu de ti m'esqueço: +Sim, farei, que não tornes a lembrar-me + Para querer-te, nem para vingar-me: +E poderemos só ficar lembrados + Do exemplo, com que fomos doutrinados: +Mas vê, quanto differem as doutrinas, + A que eu te dei, daquella, que me ensinas: +Eu te ensinei a ser fiel, constante, + Tu me ensinaste a ser falso, inconstante; +Mas nunca me seguiste a lealdade, + Nem eu soube seguir-te a falsidade; +Porém essa doutrina; inda que inutil, + Estimo-a, porque em parte me foi util: +Se até aqui das Pastoras não fugia, + Porque a sua traição não conhecia, +Já della fugirei desenganado, + Como quem foge do animal damnado. +Longe, longe de mim, ímpias tyrannas, + Ide viver com féras deshumanas: +Em fim, parto a morrer: Adeos, Pastora, + Adeos, ímpia: Adeos, falsa: Adeos, traidora.</p> + + + + +<h2>SONETO.</h2> + + +<p class="poesia">Novo exemplo aqui tens, mísero humano, +Que incensas os Altares da vaidade, +Aqui te mostro a estrada da verdade, +Por onde ao Templo vás do desengano:</p> + +<p class="poesia">De Polyfemo o lamentavel damno, +De Galatéa a horrenda falsidade +Te excitem a fugir da crueldade, +Que he premio certo desse amor tyranno!</p> + +<p class="poesia">Elle consome os bens, a honra offende, +O socego perturba, arrisca a vida, +E o coração mais livre assalta, e rende.</p> + +<p class="poesia">Ah! Destróe essa mão féra, humicida, +Rompe os duros grilhões, com que te prende, +Quebra-lhe as setas, ficará vencida.</p> + + + + +<h1>GALATÉA</h1> + +<h2>EGLOGA.</h2> + + + + +<h2>SEGUNDA PARTE.<br /> + +DO MESMO AUTHOR.</h2> + + +<h3>INTERLOCULORES.<br /> + +GALATÉA, LAURINDO, E ÁCIS.</h3> + + + + +<h2>GALATÉA.<br /> + +EGLOGA.</h2> + + +<p class="poesia">A bella, incomparavel Galatéa, + A Nynfa, tutelar, gloria d'Aldêa +O seu Ácis perdido busca afflicta: + Corre, examina, geme, chora, e grita: +"Ácis! Ácis! Meu bem! Onde te escondes? + "Eu rouca de chamar-te, e não respondes? +"Se nas margens do rio por ti clamo; + "Mais foge o rio, quanto mais te chamo. +"Se á fonte vou teu nome repetindo, + "Ella vai murmurando, e vai-se rindo. +"Só este monte de me ouvir magoado, + "Se eu te chamo, elle chama, e tu calado! +"Ah meu Ácis! meu bem, se inda tens vida, + "Soccorre esta, que he tua, assáz perdida. +"E se aos campos Elysios já partiste, + "Lá verás breve a Galatéa triste. +"A ti me ha de ligar a morte crua; + Pois tu és a minha alma: eu alma tua.</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Que vozes, ternas vozes tão sentidas + Os montes ferem de afflicção nascidas!</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Ah Pastores, que, alegres, divertidos + Cantais ao triste som dos meus gemidos! +Se este pranto vos move á caridade, + Deparai-me o meu Ácis, por piedade.</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">A voz he de mulher. que ao longe grita. + Quem pudéra valer á triste afflicta! +Os duros écos, que este valle atrôão, + Senão me engano, desta encosta sôão. +Eu vou por este pedregoso atalho + Ver, se encontro, quem he, ver se lhe valho.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Ah! Ninguem já responde aos meus clamores? + Já não acho piedade nos Pastores? +Misera Galatéa! A que chegaste, + Depois que amor no coração geraste! +Mas ah! Senão me engana a mata espessa, + Hum homem para mim o passo apressa! +He Pastor: quem será? Não vejo tanto, + Pois me escurece a vista o grosso pranto. +Será o meu bom Ácis? Se elle fôra, + Huma nova alma eu concebêra agora. +Ácis! Ácis! És tu? Responde, falla: + Ou não he elle, ou não me estima, e cala:</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">He Pastora; e se não me engana a idéa + Pelo gentil semblante he Galatéa.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Ah! Já vejo: já estou desenganada, + Que o meu Ácis não he. Ó desgraçada!</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Galatéa, que tens? Tu, que algum dia + Semeavas os campos de alegria, +Hoje com pranto, e vozes, que enternecem, + Murchas as plantas, que ao teu riso crescem!</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Feliz foi esse tempo; porém hoje + De mim (qual rez ferida) o prazer foge. +Mas dize-me, Laurindo, acaso viste + O meu Ácis, por quem suspiro triste?</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Ha dias, que o não vi; mas que motivo + Banha o teu lindo rosto em pranto activo?</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Eu te mostro a origem, que ao mostralla, + No triste peito o coração me estalla. +Ha tres dias... Oh dias de amargura, + Mais negros para mim, que a noite escura! +Quando o Sol hia ver outro Orizonte, + Deixando triste o rio, o valle, o monte, +Metto o fuso na róca, o gado chamo + Para o pobre curral, vem ao reclamo: +Conto as cabeças, falta-me a Ovelhinha, + Que eu estimava mais, que as mais, que eu tinha, +Por brincadora, esperta, e tão malhada, + Que parecia com pincel pintada. +Tinha-me tanto amor, que se eu gemia + Ella então nem brincava, nem comia. +Mas se me via alegre, ou se eu cantava, + Ella ao meu lado de prazer saltava. +Eu afflicta a busquei té junto ao Téjo; + Quando na margem o meu Ácis vejo. +Corre a ver-me, e no riso amor explica; + Porém vendo-me afflicta, afflicto fica. +Pergunta-me a razão: conto o successo, + E que procure a minha rez lhe pesso. +Elle me diz então com vozes ternas, + Vozes, que esta alma ha de guardar eternas: +"Ah! Não chores, meu bem, minha alegria. + "Em cujos olhos brilha a luz do dia! +"Se os encobres com pranto, e magoa enorme, + "Queres, que o dia em noite se transforme? +"Fugio-te a tua Ovelha: eu ta procuro; + "E por teus lindos olhos eu te juro, +"Que se ella viva está, e eu souber della, + "Inda que arrisque a vida, hei de trazella; +"Mas se baldado for o meu empenho, + "Das minhas escolhe huma, ou quantas tenho, +E com tão terno amor me enchuga o rosto, + Que me leva metade do desgosto. +Quiz partir, dava hum passo, então parava, + Como que em mim seu coração deixava: +Partio; e a cada passo.... (ó que retiro!) + Voltava para mim, dava hum suspiro; +Que o coração presago lhe dizia, + Que era a ultima vez, em que me via. +E bem se verifica (oh Ceos! Conforto!) + Que não me ha de ver mais, porque he já morto.</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Ácis morto! Que dizes, Galatéa? + Isso he certo, ou te engana a falsa idéa?</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Eu te exponho a razão, em que me fundo. + Quem vio (oh Deoses) scena igual no Mundo +Ácis partio: passárão-se dois dias, + Dias de magoas, noites de agonias, +Em cada instante, que elle me tardava, + Mil desgraças a idéa me pintava. +Porém hoje no valle d'azinheira, + Junto á ponte da plácida ribeira, +Debaixo de hum cipreste levantado, + Cópia de mim, eu vigiava o gado; +Se bem que pouco vigiar podia, + Quem de chorar já quasi nada via. +Cançada de lutar com meu tormento, + Meu unico, amargoso mantimento, +A affligida cabeça ao tronco encosto, + E sobre a curva mão inclino o rosto. +O somno, que ha dois dias meu não era, + Veio piedoso, que antes não viera! +Pois me fez ver em sonho... Oh que desgraça! + A causa desta dor, que me traspassa. +Eu vi... triste visão! Que além da serra, + Por hum dos regos da lavrada terra, +Hia o meu Ácis triste, suspirando + Com prompta vista a minha rez buscando; +Outras vezes, olhando para a Aldêa, + Clama saudoso: "Ah minha Galatéa! +Quando de entre hum pinhal... de o dizer, tremo: + Sahe o barbaro, o manstro Polyfemo. +Toma-lhe o passo, e n'hum trilhado estreito + Com dardo agudo lhe traspassa o peito: +Clamando: "Morre, vil, morre, inimigo, + "Que inda mereces mais cruel castigo. +"Chama agora o teu bem, chama a fingida, + "Grita por ella, que te torne a vida. +Á violencia do golpe, o desgraçado + Solta do peito afflicto hum ai magoado +Trémulo, curvo, com a mão convulsa + O peito aperta, donde o sangue pulsa: +Quer suster-se, não póde, a força falta: + A mão solta do peito, o sangue salta: +Vai vergando, e cahindo: hum tronco agarra: + Este se quebra, o fraco pé lhe esbarra; +E sobre hum mar de sangue da ferida + Cahe exhalando a preciosa vida. +Com vista incerta, os olhos vidracentos, + Trémula a voz, sem côr, já sem alentos, +Exclama, em fim, nas mãos da morte feia: + "Valei-me, Ceos, adeos ó Galatéa. +E soltando hum suspiro, os olhos serra: + Ferindo as plantas, magoando a terra. +Oh Deoses! Inda incerta esta desgraça; + He qual farpão, que o peito me traspassa; +E se he certa, mandai, que a dura morte + Sobre mim venha, e descarregue o corte: +Morreo Ácis por mim, por elle eu morra: + Qual do seu, do meu peito o sangue corra:</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Misera Galatéa enchuga o pranto, + Que hum sonho falso não provoca a tanto.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Este sonho, a demora, e Polyfemo, + Tudo me assusta, e a desgraça temo.</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">O sonho intimidar-me não devia + Por ser falsa illusão da fantasia. +Do Pastor a demora, que te assusta, + Tambem póde nascer de causa justa. +Se temes Polyfemo, o susto affasta: + Comigo vive, eu nunca o deixo, e basta. +E desde que o domei por teu respeito, + Tudo que eu mando, que elle faça, he feito. +Piza, piza, a teus pés essa agonia: + Faze, que a fonte com teu riso ria.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Tu destróes em parte o meu desgosto; + Mas não consegues ver-me enchuto o rosto: +Não: fazer que esta setta não me fira, + Só póde o meu Pastor. Ah! Quem o víra! +Só pódem os seus olhos engraçados + Dar vista aos meus já cégos, e cançados. +Mas temendo o rancor de Polyfemo, + As proprias sombras dessas plantas temo.</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Do triste Polyfemo o rancor deixa: + Tu foste a causa, e só de ti te queixa.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">A causa fui! Eu sou féra impestada, + Que fizesse aquella alma invenenada?</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">A causa foste, sim, porque o amaste, + E por Ácis, sem culpa, o desprezaste.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Pelos Deoses do Olympo Soberano + Juro que nunca amei tal monstro insano.</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Pois se he certo, que amor não lhe tiveste, + Porque falsas promessas lhe fizeste?</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Porque assim o meu Ácis defendia + Da vingança, que o vil lhe promettia.</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Ah! Pois quiz com violencia... ( que loucura!) + Gerar amor, que nasce da ternura!</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Sim, com rigor queria, que o amasse, + E que o meu peito ao meu Pastor fechasse. +Clamando irado assim: "Cruel Pastora, + "Tu desprezas soberba, a quem te adora? +"És toda do teu Ácis? Pois discorre, + "Que ou tu has de ser minha, ou Ácis morre. +"Dize, resolve já, ou vou matallo; + "E o coração aos olhos teus mostrallo. +Eu ante o monstro vil de crueldade, + Que não cede á razão, nem á piedade, +Rogo-lhe compaixão: não se enternece: + Choro humilde a seus pés: mais se embravece. +Eu delirava neste lance forte + De dar ao triste a vida, ou dar-lhe a morte. +Ácis morrer por mim, sendo innocente! + Não, por livrallo fiz-me delinquente. +Com o tyranno usei de idéas novas + Para dar-lhe de amor fingidas provas; +Mas o meu firme peito era impossivel, + Que abrisse a porta aquelle bruto horrivel. +Se nisto te aggravei, Ácis desculpa; + Se eu delinquente fui, foi tua a culpa.</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Nao chores, virtuosa Galatéa: + De ti fazia mui diversa idéa; +Bem que eu não sigo as linguas venenosas, + Que as mulheres só tratão de aleivosas: +Sei, que muitas o são, sim, não duvido, + Pelos casos, que vejo, e tenho ouvido; +Mas contem-se as traições d'ellas, e d'elles, + Se acharem nellas mil, ha dez mil nelles. +Tu, exemplar Pastora, mostrar queres, + Que és a gloria, o modelo das mulheres: +Que os falsos homens pódes doutrinallos; + E com teu mesmo exemplo envergonhallos. +Vai-te em paz, vai guardar teu manso gado: + Do teu Ácis feliz dá-me o cuidado, +Que eu hirei procurallo: em mim confia, + Que hei de tornar-te a noite em claro dia.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Ah piedoso Laurindo! Se tal fazes, + A hum corpo morto nova vida trazes.</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia">Que triste vejo a serra, o valle, o monte! + O rio pasma, corre turva a fonte. +Sim, sem a minha amavel Galatéa + A clara luz do Sol he triste, e feia. +Mas onde te acharei, gentil Pastora, + Para clamar então: já vejo a Aurora! +Aves, tornais o canto em agonia + Porque vos falta a Mestra d'harmonia? +O Ceo com ella adoce o meu tormento, + Tereis nova lição, e eu novo alento, +Mas ah! Que vejo! Que gentil Pastora? + Parece Galatéa! Oh feliz hora! +Não, não me enganes, lisongeira idéa. + N'altura... em trage... em gesto... he Galatéa, +Que está banhando em pranto o lindo rosto: + Eu corro, eu vou tornar-lhe a magoa em gosto.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Ácis, se és vivo, sorte igual não tive.</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia">Inda o teu Ácis dos teus olhos vive.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Ah! Que vejo! Ácis! Ceos! Será mentira?</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia">He verdade; o teu Ácis sou: respira.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Oh Providentes Ceos! Deoses Clementes, + Que assim curais as chagas dos viventes.</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia">Tu choras! He de gosto, ou de agonia?</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Chorei de magoa, agora de alegria.</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia">Tu choravas por mim! Mereço eu tanto?</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Vê bem o estrago, que em mim fez o pranto. + Estes olhos, que tu chamavas bellos, +Hoje magoados fugirás de vêllos.</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia">Assim mesmo são dois lindos diamantes, + Quie inda eclipsados, sempre são brilhantes. +Mas dize, Galatéa, que motivo + Acendeo esse fogo, tão activo?</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">A ausencia de tres dias (longos dias!) + De lagrimas, de sustos, de agonias; +E mais que tudo hum sonho feio, horrivel, + Que o não matar-me, não parece crivel: +Sonho cruel, que me pintou na idéa + A desgraça maior, scena mais feia: +Que o monstro Polyfemo te arrancára + A amavel vida, que esta vida ampara.</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia">E credito lhe déste, sendo esperta?</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Sim, que a má nova quasi sempre he certa.</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Se eu não corro a tiralla da vareda, + N'algum despenhadeiro achava a queda.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Laurindo nos meus males tomou parte, + E até por compaixão quiz ir buscar-te.</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia">Bom amigo, e bom Mestre, as sãs doutrinas + Tu com virtuoso exemplo, nos ensinas: +Tu semeas os campos de equidade, + Nós colhemos os fructos da piedade.</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Huns para os outros sermos bons devemos: + Todos somos irmãos: de hum Pai nascemos: +Se hum errar, deve o outro encaminhallo: + Se hum cahir, deve o outro levantallo.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Perdoa, que eu atalhe o teu conselho, + Proprio de hum Sábio, Virtuoso, e velho. +Dize, meu Ácis, dize, por clemencia, + Qual foi a causa de tão longa ausencia?</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia">Foste tu: foi o amor, e foi o empenho + De trazer-te a Ovelhinha, a qual já tenho. +Ao casal ta levei; mas sem achar-te; + Pois vieste a buscar-me, eu vim buscar-te.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Achaste a minha Ovelha! Ah! Onde estava? + Bem que eu por ti nem della, me lembrava.</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia">Visinhos campos, as distantes terras, + Amenos valles, escabrosas serras, +Tudo corri: examinei choupanhas, + Pobres Aldêas, rusticas cabanas. +Perguntei aos campinos, Lavradores: + Rebanhos espreitei: busco aos Pastores: +Todos dizem: "Não vimos, não sabemos: + "Nem leve rasto dessa Ovelha temos. +Eu de perdê-la já desenganado, + De magoa afflicto, de buscar cançado, +Voltar queria a ver teu lindo rosto; + Mas dava gosto a mim, e a ti desgosto: +Eu a dor da saudade em mim curava; + Mas na má nova, nova dor te dava. +Nisto pensava triste, e vacilante, + Quando escuto berrar pouco distante, +Parto, gyro, procuro, em vão procuro: + Pois nada vejo: vejo hum bosque escuro, +Que o Sol formoso nunca vio por dentro: + Corro, o bosque examino; e lá no centro +Vejo hum pobre roupeiro esfrangalhado, + Dormindo, e a Ovelhinha preza ao lado. +Eu, que a vejo, e conheço, ó que alegria + Em teu obsequio a minha alma enchia! +Com lentos passos vou muito manso andando, + O sussurro das plantas receando, +Se bem que o vento amigo me valia; + Pois nem das folhas o brincar se ouvia. +Chego ao ladrão: observo, que em socego + Dorme roncando: na Ovelhinha pego: +Sobre os hombros a ponho, e vim fugindo, + Do furto alegre, de alegria rindo. +Trepando huma deserta ribanceira, + Ouço hum grito, ólho a traz, vejo á carreira +Seguindo-me a gritar o vil roupeiro: + "Ó ladrão! Larga a Ovelha! Ó ratoneiro! +Eu, que vejo o meu credito infamado, + Páro, e com ira mostro-lhe o cajado. +Prudente parto: segue-me as pizadas: + Torço a vareda, corre-me ás pedradas. +Dellas me affasto; e por final prejecto. + Na leve funda grossa pedra metto. +Agito a funda: corro então mais perto: + Desparo a pedra, no vil peiro acérto. +Fica o ladrão sem tino: quer suster-se: + Não póde: cahe: forceja para erguer-se: +Outra vez cahe de costas: vai rolando: + Péga-se ás pedras, mas em vão pegando, +Que as mesmas pedras, em que busca abrigo + Rólão sobre elle por maior castigo; +E despenhado assim pela barreira + Vai té parar na margem da ribeira.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Ah! Que dizes! Mataste o desgraçado?</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia"> Não ficou morto, não, mas maltratado, +Eu vi... com quanta dor o estive vendo! + Cahio mortal; depois se ergueo gemendo. +Olhou-me então com iras, e ameaços; + E trémulo partio com lentos passos.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Tu, que es no coração manso cordeiro. + Hoje tornado em lobo carniceiro!</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia">Eu cordeiro não sou; porém se o fôra + Tornar-me em lobo foi preciso agora.</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">Castiga-nos o Ceo, se nos vingamos; + Mas tambem quer, que a vida defendamos.</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia">Se mais piedade do ladrão eu tinha, + Nem eu era já teu, nem tu já minha.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Se a amavel vida o ímpio te roubava, + N'huma só morte duas mortes dava.</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia">Esses extremos no meu peito os guardo + Para atear de amor o fogo, em que ardo. +Vamos, vamos, formosa Galatéa, + Alegrar com teu rosto a triste Aldêa: +A Aldêa, que por ti chorava agora, + Qual bom Filho, que a Mãi perdida chora.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Chora a Pátria, por mim? Quanta amizade + Devo aos bons, que se nutrem da piedade!</p> + + +<h4>LAURINDO.</h4> + +<p class="poesia">És bella, e inda mais bella por virtuosa; + Que a virtude inda a feia faz formosa. +Porém vê, que a Virtude cultivada, + Cresce, bem como a planta, que he regada; +Mas se falta a cultura, vai murchando; + E qual planta sem agua vai secando. +Hide: a benção do Ceo sobre vós desça: + Aos vossos olhos branda relva cresça; +E nella apascenteis grossas manadas + De prenhes vaccas gordas, e malhadas. +Tantas as cabras, tantos os cordeiros, + Que enchão os valles, enchão os oiteiros. +Hide, que he longe a Aldêa: hide, que he tarde: + O Ceo vos abençôe, o Ceo vos guarde. +A benção gere em vós dois bons Esposos, + Que fructos dêm ao Ceo, fructos ditosos.</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia">Adeos, meu bom Pastor, meu caro amigo, + Gloria dos campos, deste povo abrigo.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Essa benção do Ceo, que em nós desejas, + Sobre tudo, que he teu, sobre ti vejas. +Ácis, vamos aqui pelo serrado, + Que he mais perto, he mais doce, e he povoado.</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia">Vamos cortando por entre estas faias: + Dá cá a mão: salta o rego: olha, não caias. +Tu saltas mais, do que eu: és bem ligeira!</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia"> Se eu quiser não me apanhas na carreira. +Que farão hoje ao ver-me de contentes + As amigas, visinhos, e os parentes, +Que ao vêrem-me vagar só sem conforto + Julgar-me-hão morta, por julgar-te morto?</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia">Se o bem nos foge, atêa-se o desgosto: + Torna o bem, morre o mal, renasce o gosto. +Tu verás nas Pastoras desgrenhadas + Olhos feridos, faces desmaiadas. +E ao ver-te, o riso, e pranto misturando, + Humas ás outras com prazer chamando: +Todas para te verem correm, voão: + Vivas, applausos pelos ares sôão. +Huma te beija a face alva, e rosada, + Que a faz com pranto seu rosa orvalhada. +Outra te enfeita as tranças graciosas + De myrto, e cravo, de jasmins, e rosas. +Verás, que ao som das lyras vem cantar-te + A magoa de perder-te, o bem de achar-te. +Verás, como os chorosos innocentes, + Quando te virem, brincaráõ contentes. +Verás a fonte, que turbada a vejo, + Corre alegre a dar a nova ao Téjo. +Verás o Téjo, que sem ti bramia, + Quão plácido vem ver-te á praia fria. +Verás o Melro, o Rouxinol suave + Convertendo a tristeza em canto grave. +Verás saltando os tenros Cabritinhos + Alegrarem os tristes Cordeirinhos, +Verás curvar-se o tronco a dar-te as frutas; + Correr o rio, vir trazer-te as trutas. +Hoje farás feliz, farás contente + A Aldêa, o rio, a fonte, o gado, a gente.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Feliz me fazes tu: viver me fazes: + Aos meus bons dias novos dias trazes.</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia">Como posso eu fazer a alguem ditoso, + Quando só por ser teu, sou venturoso? +Sem ti rustico sou, humilde, e pobre: + Comtigo sábio sou, sou rico, e nobre.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Demos graças a Amor: Amor cantemos, + Que assim nos téce a Santa paz, que temos.</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia">Sim, cantemos Amor: a voz levanta, + A voz sonora, com que Amor encanta.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Amor me fez guerra: +Lutámos, venceo-me; +O peito rompeo-me +Para Ácis entrar. + Taes laços, taes setas + Devemos beijar.</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia">Amor nos tens olhos +Forjou doce flexa: +Ferio-me: esta brexa +Tu sabes curar. + Taes laços, taes setas + Devemos beijar.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Ao ver-me ferida, +Primeiro assustei-me, +Depois alegrei-me, +Amor fui cantar. + Taes laços, taes setas + Devemos beijar.</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia">Eu pude da seta +Salvar o meu peito; +Não quiz: puz-me a geito, +Deixei-a entranhar. + Taes laços, taes setas + Devemos Beijar.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Depois de ferir-me +Mostrou-me as algêmas; +E diz-me; "Não temas +"Quando eu tas lançar. + Taes laços, taes setas + Devemos beijar.</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia">Ferir-me, prender-me +Não era preciso, +Bastava hum teu riso: +Hum teu brando olhar. + Taes laços, taes setas + Devemos beijar.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Amor, abre as azas +Vem, prende estes braços, +Que os teus doces laços +Não hei de quebrar. + Taes laços, taes setas + Devemos beijar.</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia">Sou prezo por gosto, +Por honra cativo: +Por prezo he que vivo, +Qual peixe no mar. + Taes laços, taes setas + Devemos beijar.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Amor, chama as Graças, +E o Santo Hymeneo! +Que venhão do Ceo +Meu laço apertar. + Taes laços, taes setas + Devemos beijar.</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia">Tu chammas as Graças? +Não clames por ellas; +Pois Graças mais bellas +Em ti venho achar. + Taes laços, taes setas + Devemos beijar.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Basta: cançada vou: mais não cantemos: + Logo melhor n'Aldêa cantaremos.</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia">Pois vai tu pela encosta desse monte, + Que a lyra vou buscar: lá saio á fonte.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Não te demores lá, minha alegria.</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia">Já volto a ver-te, minha luz do dia.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Levas-me a vida, a jóia mais perfeita.</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia">Em penhor dessa vida esta alma acceita.</p> + + +<h4>GALATÉA.</h4> + +<p class="poesia">Em penhor! Queres pois, que a restitua?</p> + + +<h4>ÁCIS.</h4> + +<p class="poesia">Não; se essa vida he minha, esta alma he tua.</p> + + +<h4>FIM</h4> + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Galatéa, by António Joaquim de Carvalho + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK GALATÉA *** + +***** This file should be named 21780-h.htm or 21780-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/2/1/7/8/21780/ + +Produced by Pedro Saborano. Para comentários à transcrição +visite http://pt-scriba.blogspot.com/ (This book was +produced from scanned images of public domain material +from Google Book Search) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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