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+The Project Gutenberg EBook of A princeza na berlinda, by Urbano de Castro
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A princeza na berlinda
+ Rattazzi a vol d'oiseau, com a biographia de sua Alteza
+
+Author: Urbano de Castro
+
+Release Date: February 4, 2008 [EBook #20103]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A PRINCEZA NA BERLINDA ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+
+RATTAZZI A VOL D'OISEAU
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+
+URBANO DE CASTRO
+
+CHA-RI-VA-RI
+
+
+
+
+A PRINCEZA NA BERLINDA
+
+
+RATTAZZI A VOL D'OISEAU
+
+COM A BIOGRAPHIA DE SUA ALTEZA
+
+
+(SEGUNDA EDIÇÃO)
+
+
+LISBOA
+TYPOGRAPHIA PORTUGUEZA
+7, Rua da Paz, 7
+1880
+
+
+
+
+A PRINCEZA NA BERLINDA
+
+
+Não será talvez máo começar por fazer uma declaração:--nunca passei
+pelos beiços os guardanapos da princeza... Parece-me conveniente dizer
+isto. A _minha terra_, que era pequena no tempo de Garret, não me consta
+que tenha crescido, depois da sua morte... Tem até diminuido um pouco...
+talvez!
+
+ * * * * *
+
+Foi pelos jantares que a princesa conseguiu tornar-se conhecida em
+Lisboa. Quando aqui chegou, vendo que ninguem a procurava, que a
+litteratura não corria pressurosa ao _Bragança_, cumulando-a de elogios
+banaes e de bilhetes de visita baratos, sentio dentro da sua alma a
+mordedura cruel do amor proprio offendido. E amor proprio de mulher,
+amor proprio de princeza! Calculem que dentada! Esperou, um, dois, tres
+dias... uma semana, outra... a litteratura não apparecia!--Pois ha de
+apparecer! exclamou ella--E convidou-a para jantar. E a litteratura
+appareceu. Os livros da princeza, que até então ninguem conhecia em
+Lisboa, e que ella mandara adiante para os livreiros, como batedores da
+sua fama, começaram por essa epoca a ter uma tal ou qual extracção. Não
+é difficil advinhar quem os comprava--eram os convivas dos seus
+jantares--Comprehende-se. Realmente seria pouca amabilidade comer o
+_foie gras_ de Rattazzi, e não dizer ao menos, no fim, que era admiravel
+o seu livro _Si j'etais reine_; beber o champagne da princeza, e não lhe
+segredar que nunca mulher nenhuma escrevera um volume como _Nice la
+Belle_. E a proposito dos livros citavam-se os trechos das paginas
+abertas, abril-os seria muito, e bebia-se mais um copo. A princeza, que
+é inquestionavelmente uma mulher d'espirito, percebeu, o que de resto
+não era muito difficil, a _manobra fraudulenta_, como diz o sr. Duc nos
+livros de mortalhas, dos litteratos de Lisboa...
+
+Callou-se porém muito bem callada e continuou a dar-lhes jantares
+hebdomadarios. A concorrencia cada vez era maior. Houve sujeito que se
+fez litterato, só para jantar com a princeza. Cá fóra, no Martinho e na
+Havanesa, esses jantares eram digeridos e commentados com a face
+vermelha e a palavra quente... Contavam-se anecdotas, que é deveras pena
+não terem chegado aos ouvidos da princeza, porque, algumas d'ellas não
+são em nada inferiores a muitas que lêmos no seu livro...
+
+E aqui está como madame Rattazzi conseguiu durante um mez ser uma
+notabilidade em Lisboa. Sua altesa, porém, em vez de contentar-se com
+esta gloria, embora de 2.^a ordem, lembrou-se um dia de querer uma
+gloria de 1.^a sorte, e escreveu uma comedia que, depois de muito
+applaudida em sua casa pelos seus commensaes, foi representada no
+theatro dos Recreios, a quem ella, com carradas de rasão chama um
+calvario, visto que lá teve... a cruz da pateada...
+
+Tambem que diabo de publico este de Lisboa... atrever-se a patear uma
+princeza... Se sua alteza tem a mania dos cumulos,--e porque não a
+terá?--sim, porque não terá sua alteza a mania dos cumulos, se a tem, é
+impossivel que pelo seu preclaro espirito não tivesse passado este--o
+cumulo da selvageria:--_Patear uma princeza_...
+
+Ah! decididamente sua alteza não estava em sorte... _Pas de chance_! No
+hotel os convivas faziam muito mais despeza de iguarias do que de
+elogios; nos Recreios, o publico muita mais despeza de botas do que de
+luvas... _Pas de chance_!
+
+ * * * * *
+
+Foi então, naturalmente, que o seu espirito se orientou na direcção a
+dar ao _Portugal à vol d'oiseau_.
+
+--Ah! os senhores julgam que não é mais do que comerem-me os meus
+jantares, do que patearem-me as minhas peças, esperem ahi que já os
+ensino! Até aqui tenho-os recebido como convivas, agora vou passar a
+tratal-os como assumptos! Os senhores pensam, quando estão á minha mesa,
+que são meus commensaes?--pois enganam-se, são paginas para o meu livro!
+Não sou eu quem os obsequeio aos senhores, os senhores é que me
+obsequeiam. Escusam de dizer «muito obrigado!» eu é que tenho que
+dizer-lhes «_merci_»!
+
+E escreveu _Le Portugal à vol d'oiseau_.
+
+ * * * * *
+
+Lisboa já sabe pouco mais ou menos o que o livro é. Os jornaes tem dado
+excellentes amostras d'aquella famosa peça...
+
+Porque não havemos nós de dar tambem algumas? Estes dois perfis da nossa
+nobreza, por exemplo...
+
+Venha primeiro o conde de ***
+
+«--O conde *** um dos meus valsistas, e um valsista encantador, entre
+parenthesis, não é menos notavel. De muito antiga e nobre familia, é
+verdadeiramente um dos typos mais salientes de Lisboa. Orça pelos
+cincoenta, mas não obstante apparenta um grande ar de mocidade.
+Baixinho, apurado, e elegante, ha em toda a sua pessoa uma excessiva
+vivacidade. Esta vivacidade será natural ou o resultado d'um estudo
+paciente para parecer ainda mais novo?
+
+Talvez que sim a avaliar a sua petulancia pelo mais. Os bigodes do conde
+de *** são mais negros do que o ebano.
+
+Mas isto não é nada comparado ao craneo do encantador conde; o
+proprietario d'este craneo conserva n'elle alguns cabellos, raros,
+semeados aqui e ali, tratados com zelosos cuidados, e que puchados
+artisticamente para a testa, ahi occupam o maximo espaço possivel para
+assim substituirem os ausentes. Para suprir os defuntos põe no cucuruto
+uma especie de pequeno crescente--não, eu nunca ousaria dizer chinó
+fallando de tão perfeito cavalheiro--que se confunde graciosamente com
+os cabellos: depois cobre tudo isto com uma espessa camada de pez e
+summo de alcaçuz de que faz uma pomada a fogo lento; por fim o seu
+creado de quarto, confidente d'esta excentricidade, traça no meio d'esta
+pasta de _raisiné breton_, uma risca d'uma delicadeza, d'uma puresa,
+d'uma nitidez a causar inveja a uma rapariga de quinze annos. Quando a
+cataplasma está secca, o conde póde apparecer no meio dos seus
+concidadãos. Todos conhecem o mysterio d'aquella cabeça e ha delirios de
+alegria quando o excellente homem é obrigado, em pleno sol ou em pleno
+baile, a andar de chapeu na mão, porque o calor tendo acção dissolvente
+sobre aquella untura, resulta d'ahi começar ella a mover-se, a palpitar,
+a derreter-se, acabando por escorrer pelo pescoço e pelo nariz do seu
+proprietario.
+
+Não obstante o conde de *** é um grande conquistador, um namorador que
+não perde occasião de deitar a sua olhadella, sendo porém capaz de
+praticar heroismos, como o demonstram varias circumstancias da sua vida.
+
+Conta-se este facto digno dos melhores tempos da monarchia. O conde era
+camarista da infanta D. Izabel, que morreu ha annos, em avançada edade,
+no seu palacio de Bemfica nos arrebaldes de Lisboa. Sendo os principes
+da familia real depositados na egreja de S. Vicente, situada n'um dos
+extremos da cidade opposto a Bemfica, o cortejo funebre teve de
+percorrer duas leguas, a passo, em pleno mez de julho.
+
+O conde devia seguir a cavallo, uniformisado e de cabeça descoberta, o
+corpo da sua real ama, debaixo d'um sol torrido, o que elle fez
+magnanimamente, sem trepidar, entregando aos abrasadores raios de Phebo
+a sua untura quotidiana--facil presa--sem temer a troça dos graciosos
+que, no dia seguinte, alludindo á liquefação do cosmetico, diziam por
+toda a parte que ninguem figurara no cortejo com o rosto mais
+tristemente cheio de luto do que o infeliz conde de ***.»
+
+Igual a isto só aquella celebre caricatura do _Antonio Maria_...
+«_Dá-lhe cuspo_...»
+
+ * * * * *
+
+Agora o marquez de V. ***
+
+ * * * * *
+
+--«Como exemplo não, quero citar senão um dos meus amigos o marquez de
+V. ***. Vale bem a pena. É uma personalidade, uma celebridade, uma
+curiosidade de primeira ordem. Em vão lhe procurariam rival na galeria
+do duque de Saint-Simon, e ainda menos na collecção tão rica de Moliére.
+Em certas festas de gala ou de representação exterior, o marquez de V.
+*** julga-se obrigado a seguir as carruagens da côrte na sua equipagem,
+e é esta equipagem que faz do nobre marquez uma curiosidade unica do
+mundo.
+
+Imagine-se um coche do seculo passado, envidraçado de modo a ver-se todo
+o interior, montado sobre molas e rodas que fazem pensar nas machinas de
+_Leviathan_, tudo isto pintado de verde, cheio de dourados em alto e
+baixo relevo. No meio d'esta caixa throno, o marquez de V. *** só, de
+cabeça descoberta, com o grande uniforme d'uma ordem qualquer, com os
+olhos fitos na sua frente, parecendo contemplar em extase as abas da
+libré do seu cocheiro, não voltando a cabeça nunca, nem para a direita
+nem para a esquerda: dir-se-hia uma estatua e não um homem.
+
+A carruagem é atrelada a quatro cavallos, montados por dois postilhões e
+guiados por um cocheiro gorducho sentado n'uma almofada que parece um
+divan. Na taboa da carruagem dois enormes lacaios em pé. Todo este
+pessoal vem empoado e veste uma libré verde claro que deslumbra a vista
+e faz piscar os olhos. Não se póde imaginar nada mais original. Quando a
+cerimonia terminou e a parte official do programma está cumprida, o
+marquez faz gravemente o giro das principaes ruas e praças de Lisboa
+para se fazer admirar. Em Paris entraria em casa corrido a batatas
+cozidas. Aqui deixam-o em paz--_é costume_.
+
+Se eu fosse rei de Portugal prohibia a este fidalgo, sob as mais graves
+penas, de me fazer assim cortejo com a sua entrudada, mas, com isso,
+arriscaria talvez a minha corôa.
+
+É de justiça acrescentar que o marquez de V. é um homem instruido. Que
+seria, Deus meu, se o não fosse!»
+
+Realmente está parecido... O _Antonio Maria_ não o faz melhor...
+
+ * * * * *
+
+Depois d'estes perfis hilariantes como o protoxido de azote, tenha o
+leitor a paciencia de me acompanhar ao capitulo em que sua altesa nos dá
+a honra de fallar dos nossos enterros.
+
+Dêmos a palavra á princeza:
+
+«É realmente coisa curiosa que acompanhando o pae os filhos ao
+cemiterio, estes não acompanhem os paes: não é costume. Deixa-se este
+cuidado aos parentes mais affastados ou aos amigos. Porquê? Não m'o
+poderam explicar: acho porém esquisito.»
+
+Está no seu direito. Foi porém mal informada. Os paes tambem não
+acompanham os filhos. Quanto a achar o caso estranho não tem de quê. O
+facto de em França os parentes mais proximos acompanharem os cadaveres
+dos seus defunctos não prova nada, senão que até na morte é verdadeiro o
+dictado:--_Cada terra com seu uso_... O que é deveras esquisito, é
+querer sua altesa que os costumes sejam os mesmos em todos os paizes.
+Para quem se propõe escrever livros de viagem, não póde haver ponto de
+vista mais ridiculo nem mais acanhado.
+
+Continua a auctora:--«Quando uma pessoa morre, a familia não envia
+cartas de participação. Faz um annuncio nos jornaes, e está tudo
+prompto, visto que o dito annuncio termina invariavelmente por este
+_cliché_: _Não se fazem convites especiaes attendendo ao estado de
+consternação indizivel em que a familia está_...
+
+Comprehendo muito bem que a familia esteja n'um estado de consternação
+indizivel: entretanto, visto que esta consternação lhe permitte fazer
+annuncios nos jornaes, parece-me que, com um pequeno esforço, lhe
+permittiria tambem enviar cartas de participação impressas a casa de
+cada um, como se faz nos outros paizes.
+
+Resulta com effeito d'este costume que, se não se lerem os jornaes, ou
+antes os annuncios dos jornaes, póde muito bem acontecer deixar uma
+pessoa de acompanhar ao cemiterio o seu tio, primo, ou o seu melhor
+amigo.»
+
+Foi ainda mal informada sua alteza. É verdade que muitas vezes o
+annuncio funebre termina por aquelle molho, mas não é menos verdade que
+rarissimas vezes se deixa de enviar cartas de participação. Sua alteza
+não recebeu nenhuma, e por isso naturalmente lembrou-se de nos ensinar
+como estas coisas se fazem nos paizes civilisados. Obrigado princeza.
+Quanto a não ter recebido carta alguma de participação desculpe:--hei de
+mandar-lhe uma... quando morrer o meu Tareco.
+
+Coitada! Infeliz princeza! Ninguem lhe mandou carta de participação.
+Então que se lhe ha de fazer, no nosso paiz os enterros serão tudo
+quanto quizer... mas não são entrudadas...
+
+A respeito dos chavões com que é costume fechar annuncios funebres
+faltou-lhe ainda um. É este:--_não se fazem convites especiaes por
+expressa determinação do finado_. Foi pena escapar. Que bella pagina
+humoristica não escrevia a princeza com thema tão divertido!
+
+ * * * * *
+
+Mas nem só os enterros tem a honra de espantar sua alteza... O livro
+está cheio de exemplos do mesmo genero.
+
+Sente-se mesmo em algumas paginas que a princeza não chega a contar
+metade dos seus espantos... Qual metade!--nem a decima, nem a centesima,
+nem a milesima parte...
+
+Porque a verdade é esta:--sua alteza apenas transpoz a fronteira começou
+a sentir as dôres... do espanto... Exactamente, agora é que eu
+acertei... começou a sentir as dôres do espanto, e o seu livro, que até
+hoje ninguem sabia bem o que é, passa agora muito logicamente a ser o
+feliz parto que a alliviou das citadas dôres, logo que ella se viu em
+terreno conhecido, que é como quem diria:--logo que a natureza permittiu
+que o robusto menino visse a clara luz do dia...
+
+Espanto! Espanto! sempre espanto!
+
+Os portuguezes não dizem «até manhã» dizem «até ámanhã se Deus
+quizer»--espanto: não acompanham seus paes ao cemiterio,--espanto: as
+varinas carregam-se de oiro,--espanto: vae muita gente aos bastidores de
+S. Carlos,--espanto: dizemos _um copo d'agua_ e não _un verre
+d'eau_,--espanto: estamos a uma latitude e a uma longitude differentes
+de Paris,--espanto: as nossas pulgas mordem,--espanto: o nariz do sr.
+Minhava é enorme,--espanto: _pomme de terre_, chama-se
+batatas,--espanto: uma _precieuse ridicule_ é uma tola... espanto!
+
+Espanto, espanto, sempre espanto!
+
+Porque não escreveu o seu livro tal qual o pensou princeza?
+
+Porque não nos deu, por exemplo, uma pagina n'este genero:--«Uma vez,
+tendo entrado casualmente n'uma egreja, approximei-me d'uma mulher que
+estava rezando, em voz sufficientemente alta, para que se podesse
+perceber o que ella dizia... Approximo-me mais, e calculem o meu
+espanto, ao ouvir estas palavras:--_Padre, nosso, que estaes nos céus
+santificado_... Accreditarão agora que isto quer dizer em
+portuguez:--_Notre père qui étes aux cieux, que votre nom soit,
+santifié_...
+
+Como diabo, perdoe-se-me a heresia, quererão os meus bons amigos
+portuguezes que Nosso Senhor os entenda?»
+
+E não seria este por certo o menos notavel dos seus espantos.
+
+ * * * * *
+
+Antes de passarmos adiante contemos um disparate que não deixa de ter
+graça. A paginas, não sei quantas, escrevendo a princeza que nós não
+fazemos uso de fogões para aquecer as casas, diz pouco mais ou menos o
+seguinte:--De resto, se fizessem uso d'elles, não se haviam de vêr em
+pequenos embaraços para arranjar o combustivel, a não ser que deitassem
+a mobilia ao fogo. A lenha é absolutamente desconhecida em Portugal, e
+custa cada kilo... tres mil réis!»
+
+--Oh! princeza, se vossa alteza quando esteve em Lisboa pagou a lenha
+por aquelle preço, devo dizer-lhe duas coisas:--a primeira, é que o seu
+livro passa a ser um favo do Hymeto, a segunda... é que foi roubada!
+
+ * * * * *
+
+O que é verdade porém é que Lisboa deve um grande serviço á princesa.
+Nem mais nem menos do que a rusga feita ás casas de jogo nos principios
+d'este mez.
+
+Se duvidam, leiam.
+
+ * * * * *
+
+Ha muito que no governo civil havia uma tal ou qual suspeitasinha, uma
+vaga desconfiança, de que a roleta, esse terrivel philloxera das
+algibeiras, tivera o inqualificavel arrojo, o descaro inaudito de
+assentar os seus arraiaes--aqui--na patria de Camões, nas bochechas do
+sr. Rosa Araujo, representante da dita patria. Mas tudo era vago,
+incerto, nebuloso... A policia posta em campo nada descobrira.
+Procurara-a,--oh! se a procurara!--como o nauta procura o norte, como a
+ave procura o ninho, como a féra o seu covil--mas, apesar de a procurar
+com todo este excesso de poesia, o resultado era sempre o mesmo... nada,
+nada, nada, tres vezes nada coisa nenhuma!
+
+O habil Antunes, o eximio Castello Branco, o nunca assás cantado 37--e
+muitos outros egualmente habeis, egualmente eximios, egualmente nunca
+assás cantados, encarregados secretamente de a descobrirem, pozeram em
+pratica as maiores subtilesas policiaes. Um d'elles chegou a
+disfarçar-se em G. L. P... Nem assim a encontrou!
+
+Nada os fazia recuar, nada os intimidava, desconheciam... e creio que
+ainda desconhecem, o verbo trepidar! Passeios, botequins, theatros, tudo
+assaltaram em busca da criminosa... Era um phrenesi, um delirio, uma
+raiva... Mas a scelerada não apparecia!
+
+--E comtudo ella existe! exclamava o governo civil com o tom solemne com
+que por muito tempo se julgou que o sabio Gallileu dissera o
+legendario:--_E pur si muove!_
+
+Era para perder a cabeça.
+
+ * * * * *
+
+Estavam as coisas n'estes termos quando chegou o livro da princeza. O
+governo civil compra-o, começa a lêl-o e ao chegar a paginas 149, já não
+diz: «E comtudo ella existe!» no tom de Gallileu, mas, qual outro
+Archimedés, _toilette_ aparte, solta do fundo do seio um jubiloso
+_Eureka!_
+
+Ah! é que effectivamente o caso não era para menos. A pagina 149,
+fallando das batotas, diz a princeza:
+
+Ha uma na rua do Alecrim.
+
+Uma, rua das Gavias.
+
+Uma, praça de Camões.
+
+Duas, rua da Emenda.
+
+Uma, rua de S. Francisco.
+
+Uma, travessa de Santa Justa.
+
+Tres ou quatro á Ribeira Velha.
+
+--Obrigado meu Deus! exclamou então o governo civil imitando d'esta vez
+a sr.^a Emilia das Neves, obrigado meu Deus!
+
+ * * * * *
+
+E aqui está como a policia conseguiu saber onde eram as batotas. Ah!
+princeza, princeza, vossa alteza merecia que pelo menos a fizessem...
+chefe d'esquadra.
+
+E note-se mais, é ella, é ella quem ensina no seu livro como se faz uma
+rusga. Duvidam?
+
+Leiam.
+
+«--Em Paris a policia tem um serviço especial para este genero de
+industria prohibida. Os agentes d'este serviço espiam os batoteiros,
+estudam cuidadosamente o terreno, e uma bella noite cahem lá dentro como
+um raio e prendem todos, levando o dinheiro que está em cima das mesas.»
+
+A policia seguiu as instrucções da princeza tanto á risca, que até
+escolheu uma bella noite, _une belle nuit_, para fazer a sua rusga!
+
+Diz ainda sua alteza:--A mobilia é confiscada... e a policia confiscou a
+mobilia.
+
+Decididamente, a princeza tem todo o direito... a um apito honorario!
+
+ * * * * *
+
+Vejamos agora como sua alteza falla de alguns dos nossos escriptores.
+
+ * * * * *
+
+--_Camillo Castello Branco_, que parece o condemnado aos trabalhos
+publicos da litteratura portugueza, escreve, escreve, escreve, escreve
+sempre: superiormente, é questão controversa; enormemente, com certesa.
+A quantidade excede em muito a qualidade, diz-se, (diz ella); dotado de
+uma actividade laboriosa, infatigavel, comparavel á de uma legião de
+formigas, construe romances contemporaneos sobre romances historicos,
+com uma preseverança e uma sequencia que intrigam a imaginação. É uma
+especie de Quevedo com certo sentimentalismo catholico.
+
+Particularidade curiosa: em todos os seus romances entram
+infallivelmente um brazileiro, uma menina que se mette n'um convento, um
+fidalgo provinciano, e um namorado amorudo e transparente. É invariàvel
+como a chuva e o bom tempo. De fórma, que o primeiro romance que se lê
+do sr. Branco parece muito interessante, o segundo accorda
+remeniscencias, e o terceiro adivinha-se; o quarto sabe-se de cór,
+volta-se a pagina sabendo-se o que vae passar-se. É uma galeria de
+personagens que raramente se renova, como a dos museus de figuras de
+cera. Os seus principaes romances são: _Onde está a felicidade_, _Doze
+casamentos felizes_, _O que fazem mulheres_, _Historia d'um homem rico_;
+são feitos com este arcabouço em que as vigas, as asnas e os alicerces
+são invariavelmente os mesmos.»
+
+ * * * * *
+
+«--_Bulhão Pato_. É um peninsular, um sybarita, um camaleão. Como muitos
+rapazes que se dizem artistas pintores ou esculptores, para terem o
+direito de usar umas enormes cabelleiras e de adoptarem umas maneiras e
+um modo de fallar desbragado, este, fez-se poeta, o que na alta
+sociedade de Lisboa é um titulo de apresentação.
+
+O sr. Bulhão Pato é incontestavelmente um homem d'uma conversação
+encantadora. Passando por espirituoso e mordente, imaginou que para ser
+um genio lhe bastava o querer sel-o, esquecendo que não é poeta quem
+quer. Assim, creou-se por si só, e por si só, ainda, se julga um grande
+poeta. O seu poema, a _Paquita_, é uma imitação dupla do estylo
+aggressivo de Byron e da finura de Musset, um urso fazendo rendas de
+Alençon. Escreveu muitos volumes de versos, satiras, novellas, etc.,
+onde se não encontra o reflexo do espirito notavel que tem a fallar. O
+que escreve não traduz o que diz (_Sa plume ne traduit pas sa langue_).
+Para acabar este retrato é necessario acrescentar que é impertinente,
+irritavel, invejoso, que pouco sabe da vida, julga-a mal, e por isso
+mesmo declara-se descontente com cada um e com todos, passando a vida a
+lamentar-se sem rima nem rasão.»
+
+N'uma nota continúa no mesmo tom amavel chamando-lhe o _poeta da melena_
+(_poète aux longs cheveux_).
+
+ * * * * *
+
+«--_Ernest Biestero_, o grande magro litterario de quem Castilho
+dizia:--É um fructo de inverno, por mais que o expremam não deita nada!
+O que elle traduziu, apanhou, pilhou, é incalculavel: seriam necessarios
+volumes só para fazer a sua rapida enumeração.
+
+Os seus dramas originaes, _Caridade na sombra_, _Moscovellos_, _Natureza
+de alma_ (?) são uma galeria de manequins sem vida e até sem cordeis.
+Deve accrescentar-se--segundo a chronica--que os seus dramas são
+retocados por seu cunhado Mendes Leal. O que os não embelleza!
+
+Biester teve a gloria de ser um dos fundadores da _Revista Contemporanea
+de Portugal e Brazil_, que durou cinco annos, onde se acham associadas
+todas as individualidades do _elogio mutuo_.»
+
+ * * * * *
+
+«--_Mendes Leal_ (José da Silva) nasceu em Lisboa em 1820. Sem talento e
+até sem disposições dramaticas escreveu muitos dramas e romances
+historicos. É o litterato portuguez que fez mais plagiatos, e isto com a
+maxima audacia e sem-cerimonia. O seu theatro pertence á escola do
+ultra-romantismo, e os _Dois renegados_, que passam por ser a fina flôr
+da sua corôa litteraria, são um drama insipido, cheio de punhaes,
+venenos e ciladas. O seu romance _Calabar_ é completamente tirado do
+_Bateur d'Estrade_, de Paul Duplessis; as suas poesias formam um volume
+no qual só uma poesia é digna de menção, a _Morte de Carlos Alberto_.
+Este fructo secco da litteratura foi bibliothecario de Lisboa, ministro,
+e finalmente ministro plenipotenciario em Paris. O que prova que as
+mediocridades são muita vez empregadas.»
+
+ * * * * *
+
+Agora querem saber como apparecem os nomes portuguezes no livro da
+princeza? Ahi vae uma amostra.
+
+_Odio velho não cança_, o notavel romance de Rebello da Silva,
+é:--_Odio, velho, vraô cauca_.
+
+_O prato de arroz dôce_, de Teixeira de Vasconcellos, chama-se:--_O
+Porto de oroz dou_.
+
+_As tempestades sonoras_, de Theophilo Braga, são:--_As tempos tades
+sanoras_.
+
+_Moços e velhos_, que a princeza erradamente attribue a Ernesto Biester,
+apparece assim no livro:--_Mocosvellos_.
+
+ * * * * *
+
+Aos theatros de Lisboa faz sua alteza a honra de lhes consagrar um
+capitulo do seu livro.
+
+E como a princeza é mulher coherente em todos os actos da sua vida, não
+quiz deixar de ser mexiriqueira tratando de assumpto que tanto a
+mexericos se presta.
+
+Assim diz, por exemplo, fallando do theatro do Gymnasio:--«Este theatro
+não tem praso determinado para as suas representações pela excellente
+rasão de que as receitas são mais de que mediocres. Os artistas e
+directores do Gymnasio acham-se constantemente, uns para com os outros,
+na situação de um credor importuno para com Mr. de Tayllerand.
+
+--O senhor não me dirá quando me paga o que me deve? dizia o credor.
+
+--Ora sempre é muito curioso, respondeu o principe.»
+
+Realmente é difficil perceber a que vem isto. Pela nossa parte
+entendemos que são profundamente ridiculos todos estes promenores da
+vida intima dos theatros... Julgamos além d'isso haver falsidade no
+mexerico da princeza. Mas ainda que seja verdade o que ella diz, não
+será de mau gosto trazer questõesinhas de soalheiro para um livro de
+viagens?
+
+Do Gymnasio, diz ainda, que viu ali representar magistralmente o actor
+_Pedro_, secundado por duas jovens e formosas mulheres _Candida_ e
+_Lora_?
+
+Dou-lhes um doce se adivinharem quem são estas duas jovens e formosas
+mulheres. Candida e Lora quer dizer Amelia Vieira e Emilia dos Anjos. Ha
+porém uma difficuldade, e desde já nos confessamos incompetentes para a
+resolver:--Qual será a Lora?
+
+Mysterio que só a princeza poderá decifrar.
+
+ * * * * *
+
+Do theatro da Rua dos Condes diz que se representa ali _Lazaro, o
+pastor_... É possivel. Em todo o caso devemos declarar que essa peça
+subiu á scena expressamente para sua alteza a ver, e que foi ainda sua
+alteza a unica espectadora... O publico não a viu nunca.
+
+ * * * * *
+
+No capitulo _Theatros_ trata muito natural e judiciosamente o assumpto
+pateadas. Não gosta d'ellas, parecem-lhe estupidos e injustos os
+sujeitos que pateiam. Abre curso de sensibilidade no artigo _pateader_.
+Comprehende-se:--ella é que está sensibilisada ao escrever tudo isto,
+recordando-se do modo porque a plateia dos _Recreios_ recebeu a sua
+insipida e soporifera comedia.
+
+_Tenha paciencia_. Diz no seu livro que esta phrase se applica a tudo no
+nosso paiz. É verdade. Applica-se a tudo. Até ás princezas infelizes que
+são pateadas.
+
+Diz sua alteza fallando nos hoteis que os colchões são durissimos em
+todos elles; no _Braganza_ parecem até cheios de cacos de garrafas...
+Mas afinal sempre temos por cá alguma coisa mais dura do que os
+colchões... as pateadas...
+
+Custam a roer, custam... Mas que se hade fazer? Rôa, rôa. De resto
+parece-nos que sua alteza tem deveras a bossa do estylo lacrimoso...
+Chore--a lagrima é livre.
+
+ * * * * *
+
+Depois da nenia das pateadas passa sua alteza a fallar da vida dos
+bastidores em Lisboa. Dêmos-lhe mais uma vez a palavra:--«--A vida dos
+bastidores em Portugal está ainda no estado primitivo. É mais burgueza
+que desregrada. Na maioria dos theatros as actrizes são casadas ou vivem
+maritalmente com pessoas da sua escolha, dando, com rarissimas excepções
+tanto que fallar pela sua conducta como pelo seu talento. Se quizesse
+citar alguma que se distinguisse das suas collegas pelo seu luxo ou
+pelos seus amores, ver me-hia deveras embaraçada, não obstante ter
+pedido informações a toda a gente.»
+
+ * * * * *
+
+Sim, a princeza pedio informações a toda a gente. Apenas qualquer
+sujeito tinha a honra de lhe ser apresentado, a primeira coisa que a
+princeza fazia era disparar-lhe esta pergunta á queima roupa:--Ora
+diga-me meu bom amigo, sabe alguma coisa da Emilia das Neves?--Que lhe
+consta da Delfina?--Não se rosna coisa nenhuma d'aquella Joanna Carlota
+da rua dos Condes?
+
+Esta febre da princeza em indagar a vida intima das nossas actrizes
+faz-me lembrar a historia de um provinciano que vindo a Lisboa pela
+primeira vez, com ideas muito errados acerca das nossas mulheres de
+theatro, começou durante a representação, de não sei que peça em D.
+Maria, a interrogar o visinho do lado, pelo theor que vae vêr-se, sempre
+que apparecia em scena alguma actriz.
+
+Entrava por exemplo a sr.^a Emilia das Neves, o provinciano voltava-se
+para o sujeito e dizia-lhe piscando-lhe o olho intencionalmente:
+
+--Esta...?
+
+E o sujeito:
+
+--Não sei...
+
+Entrava a sr.^a Virginia:
+
+--E esta...?
+
+--Homem deixe-me...
+
+Entrava a sr.^a Amelia Vieira.
+
+--E esta...?
+
+--Diabo, o senhor é inconveniente! Não sei nada...
+
+O provinciano porém não se dava por vencido.
+
+--E esta...? continuava elle sempre a perguntar.
+
+De repente entra o Theodorico. Então o sujeito, desesperado, fulo,
+volta-se para o pobre provinciano e diz-lhe muito serio:
+
+--Olhe este... com certesa...
+
+A princeza fez exactamente o papel do provinciano, e, tão infeliz como
+elle, não ficou sabendo coisa nenhuma...
+
+Ficou até sabendo menos que o provinciano...
+
+ * * * * *
+
+Em todo o caso registe-se que no entender de sua alteza a vida dos
+bastidores em Portugal é uma pulhice... «Mais burgueza que
+desregrada...» chega a ser infame, não é assim princeza?
+
+E depois que mulheres estas de theatro! Que impossiveis creaturinhas!
+Dão tanto que fallar pela sua conducta como pelo seu talento... O mesmo
+não se pode dizer que aconteça com certa pessoa que nós sabemos...
+
+Essa dá muito mais que fallar pela sua conducta do que pelo seu
+talento...
+
+Foi devéras infeliz a princeza em questões de theatro. Viu-se sempre
+embaraçada. Até se quizesse citar alguma actriz que se distinguisse das
+suas collegas pelo seu luxo ou pelos seus amores, até n'essas
+circumstancias os embaraços lhe não permittiriam a citação...
+
+É realmente estar com azar.
+
+Pois nós se quizessemos citar alguma princeza que se distinguisse de
+todas as outras pelo seu luxo _tapageur_ ou pelos seus amores, faziamos
+isso sem a mais pequena difficuldade...
+
+ * * * * *
+
+Termina sua alteza o capitulo dos theatros fallando das dançarinas de S.
+Carlos. Diz sua alteza:--«As dançarinas não dão que fallar de si. Ha
+para isto duas razões:--a primeira é que, salvo duas ou tres excepções
+são feias que mettem medo a segunda é que a maioria d'ellas parece-me
+ter chegado, a esta edade feliz em que se tem jus á veneração e ao
+respeito.»
+
+Ora aqui está o que aconteceria a sua alteza se em vez de ser uma _bas
+bleue_ pretenciosa fôsse dançarina de S. Carlos. Ninguem fallaria
+n'ella... Por tudo, e principalmente... pela segunda razão...
+
+ * * * * *
+
+Deixemos porém os theatros e vejamos o que a princeza diz a respeito do
+nosso mais notavel monumento--o mosteiro da Batalha.
+
+«_Batalha_, tambem pequena cidade, (que disparate!) alguns kilometros
+mais longe (do que Alcobaça, que descreve antes) possue um mosteiro mais
+pequeno; mas tambem gothico, e de um estylo ainda mais puro que o de
+Alcobaça.
+
+Este mosteiro foi fundado pelo rei D. João I, que ahi repousa. Nota-se
+particularmente a sala do capitulo, cuja elegancia é superior a toda a
+expressão, bem como o claustro. Decididamente, os senhores frades
+d'aquelles tempos tinham bem boas habitações, e é pena que se não
+tivessem construido mais, tão encantadoras, não para lhe servirem
+unicamente de residencia, mas para alegrarem os olhos dos _touristes_.»
+
+Ter visto a Batalha, ter entrado n'aquelle monumento, que é uma
+verdadeira epopeia de pedra, e escrever o que ahi fica, sabe o que é,
+princeza?--é um diploma. Simplesmente não lhe digo de quê.--Vá ter com
+alguns dos muitos estrangeiros illustres que visitaram aquelle mosteiro,
+francezes, inglezes, italianos, hespanhoes, russos, allemães, ou de
+qualquer outra nacionalidade, diga-lhes que viu a Batalha, mostre-lhes
+depois o que escreveu no seu livro... qualquer d'elles lhe dirá de que é
+o tal diploma...
+
+Mas, que diabo! tambem não pode haver tempo para tudo, e, ella por ella,
+a equipagem do marquez de V. é decerto muito mais digna de attenção do
+que o monumental edificio da Batalha!
+
+É pena, diz sua alteza, que não se tivessem construido mais monumentos
+para alegrar os olhos dos _touristes_...
+
+Ah! sim, é pena! pois não! chega a ser uma dôr d'alma não estar o reino
+de Portugal cheio de monumentos, como a Batalha, para que sua alteza, a
+muito alta e muito nobre princeza Rattazzi, podesse percorrer o paiz com
+os olhinhos alegres!
+
+ * * * * *
+
+Porque afinal de contas, o magestoso e sublime mosteiro não lhe causou
+nenhuma outra impressão... alegrou-lhe o olho.
+
+Frei Luiz de Sousa, descreve-o com a sua penna de ouro, o inglez Murphy
+estuda-o maravilhado durante largos annos, o erudito patriarcha D.
+Francisco de S. Luiz dedica-lhe uma extensa memoria:--n'uma palavra,
+nacionaes e estrangeiros, curvam-se reverentes em presença do patriotico
+e veneravel monumento... Rattazzi vae vel-o... faz-lhe a honra de
+conceder-lhe doze linhas... e alegra-se-lhe o olho... Isto é, o mosteiro
+produz-lhe o mesmo effeito que um copinho de _chartreuse_... Vamos
+compatriotas, sirvam café á princeza, e tragam n'uma bandeja... mosteiro
+da Batalha e copos... Sua alteza tem o olhar basso e triste...
+alegremos-lhe o olho... dêmos-lhe um calicesinho da _sala do
+capitulo_... Então princeza, nada de ceremonias... Se quer mandamos
+tambem buscar os Jeronymos... Beba, beba... Alegre-se... alegre-se...
+
+É impagavel no fim de tudo esta Rattazzi:--Melicio é espirituoso e
+incisivo, e a Batalha... alegra-lhe o olho...
+
+Delicioso, como dizia o Leoni nos _Amores de Boccacio_...
+
+ * * * * *
+
+Tudo quanto o leitor tem visto até agora, fica porém eclipsado pelo
+capitulo em que a muito nobre princeza falla do modo porque os
+estrangeiros são recebidos em Lisboa.
+
+Leiam:
+
+ * * * * *
+
+«Pode dizer-se, sem grande exaggero, que ha um secreto horror pelos
+estrangeiros e que são olhados com maus olhos. Entretanto esta execração
+tem graus e não deixa de ser curioso fazer o seu estudo.
+
+Supponhamos que um pobre diabo cae de inanição n'uma das praças publicas
+de Lisboa, confessando que não recebeu do céu a graça de ter nascido
+cidadão portuguez.
+
+1.^o--Se é inglez, dão-lhe os restos da comida do dia antecedente.
+
+2.^o--Se é allemão, um bocado de pão.
+
+3.^o--Se é americano, umas migalhas.
+
+4.^o--Se é italiano, um copo de agua.
+
+5.^o--Se é francez, não lhe dão nada.
+
+Aqui está approximadamente a gradação de estima a que um estrangeiro
+póde aspirar em Portugal.
+
+Os inglezes são os mais considerados, o que se explica, dizendo-se que
+Portugal é um pouco uma colonia ingleza, uma terra de exportação para os
+productos da Grã-Bretanha: o ouro e os uniformes militares são inglezes.
+Ha n'este povo meridional muitos costumes anglicanos que ficaram como
+recordação da alliança das armas inglezas contra os francezes em 1808.
+
+Os allemães gosam de alguma consideração.
+
+Os americanos do norte são antes temidos do que estimados.
+
+Os italianos são todos pastelleiros ou tenores; é a opinião dos
+portuguezes que dou aqui, não a minha. Mas é uma opinião perfeitamente
+estabelecida, e qualquer que seja a posição social d'um italiano que
+chega a Portugal, será considerado por todos como um pastelleiro que fez
+fortuna, ou como um tenor em procura de escriptura.
+
+Os francezes muito bem acolhidos á superficie, são perfeitamente
+detestados no fundo. Quando não são luveiros, cabelleireiros ou
+cozinheiros consideram-os como uns aventureiros. Ha uma avidez por todos
+os fructos da sua intelligencia, tira-se-lhes tudo que produzem em
+sciencias, bellas artes e litteratura, mas ninguem se julga em obrigação
+de lhes dar nada em troca. Detestam-os por instincto. Esta antipathia
+transmitte-se de paes a filhos, ou para melhor dizer, remonta de filhos
+a paes até ao primeiro imperio.»
+
+ * * * * *
+
+Disse uma vez um poeta nosso que certo sujeito era uma perfidia dentro
+d'um assucareiro, d'este trechosinho póde dizer-se, parodiando aquella
+phrase:--que é tambem uma perfidia dentro d'outra coisa acabada em
+_eiro_.
+
+Com que então em Lisboa quando se encontra um francez cahido no meio da
+rua, cheio de fome, morto de inanição, passa-se para deante e não se lhe
+dá nada, absolutamente nada, _rien du tout_?
+
+Oh! honestissima e honradissima princeza, porque não se atolou mais um
+poucochinho no esterquilinio da calumnia,--para que deixou a cabecinha
+de fóra? Que diabo! tem pouca imaginação vossa alteza! gira-lhe nas
+veias sangue de principes, mas a calumniar não passa d'uma
+burguesinha--porque dizer só, que a um francez que se encontra estendido
+na praça publica, nada se dá, nada se lhe faz?--porque não disse antes,
+que se varria esse francez d'envolta com o lixo, porque não disse que se
+lhe dava um bolo de strichinina?--_Per Baco_, produzia mais effeito,
+princeza!
+
+ * * * * *
+
+Afinal, de tudo quanto ha no seu livro, a pagina deveras torpe, é
+aquella.
+
+Do resto, diga-se a verdade, nem quasi valia a pena fallar.
+
+Ah! mas aquella paginasinha, merece, merece que se escrevam algumas
+linhas...
+
+Quem lhe disse, princeza, que os francezes eram detestados em Lisboa,
+detestados por instincto?--Eu sei quem lh'o disse,--foi a sua espertesa
+saloia. Vossa alteza sahiu de Portugal despeitada com muita gente,--por
+isto, por aquillo, por aquell'outro,--porque a nossa boa nobreza, que
+ainda a temos, não a visitou;--porque os jornaes não fallaram tanto
+quanto vossa alteza queria do seu talento e das suas obras;--porque a
+platéa dos Recreios a pateou desapiedadamente; etc. Sahindo d'aqui
+despeitada quiz vingar-se. É natural. Era preciso porém para que a sua
+vingança fosse completa que ella encontrasse echo n'essa grande nação
+que ainda hoje dá as leis ao mundo.--«Vou desacreditar Portugal á face
+da França--» disse a princeza com os seus algodões.--Mas para que a
+França faça o acompanhamento á minha serenata, o que heide eu
+fazer?--Porque afinal a verdade é esta:--eu sou muito conhecida em
+França... Alfonse Karr, Boissieu, Pelletan... que o diabo, os confunda a
+todos,--mostraram bem quem eu sou, nas _Guépes_ nas _Lettres de
+Colombine_, na _Nouvelle Babylone_... Ah! já sei! exclamou vossa alteza
+de repente:--escrevo que os francezes são detestados, execrados em
+Portugal... Sim, sim, é isto:--_Tonerre de Dieu!_ estava-me
+desconhecendo... Que tempo levei para fazer uma descoberta afinal tão
+simples, e tanto na minha indole... É claro como agua:--dizendo eu que
+os francezes são odiados, detestados, execrados, que ao vêl'os
+estendidos no meio da rua ninguem os soccorre, e que para ali ficam
+abandonados como famintos cãos vadios, elles, esses bons e
+enthusiasticos francezes, sentirão o fogo da indignação girar-lhe nas
+veias, e correndo ao meu palacio, virão gritar em côro debaixo das
+minhas janellas:--Bravo princeza, bravo, quanto dizes d'essa cambada,
+d'essa canalha de portuguezes é pouco; nunca as mãos te doam, mulher!
+Patifes, deixarem-nos morrer sem soccorros no meio da rua... Tira-lhes a
+pelle, escorraça-os, frege-os em postas--e conta que as nossas bençãos
+cahirão sobre a tua cabeça.»
+
+ * * * * *
+
+Ora tudo isto, princeza, permitta-me que repita a phrase, não passou de
+esperteza saloia.
+
+A França, sabe perfeitamente quanto é querida e estimada em Portugal.
+Ella não ignora de certo que na hora da provação, quando rebentou essa
+terrivel guerra franco-prussiana, aqui n'esta cidade de Lisboa,--onde se
+abandonam vilmente francezes no meio da rua,--todos, sem distincção de
+classes, desde o chefe do estado, podemos dizel-o, até ao mais humilde
+cidadão, todos faziam votos para que a victoria fosse coroar com a sua
+rutilante aureola as armas d'esse valente e generoso povo, que Portugal
+tem o bom senso de não tornar responsavel pelos actos praticados por
+dois dos seus despotas.
+
+E olhe vossa alteza princeza:--tudo isto aconteceu estando um Bonaparte
+á frente da França... Hoje, que não está lá nenhum, calcule como terá
+augmentado a nossa sympathia por aquella grande nação.
+
+ * * * * *
+
+A esperteza saloia precisava de correctivo. Ahi fica. A princeza diz que
+nós os portuguezes somos muito pacientes. Assim é, mas quando um
+mosquito começa a zumbir-nos aos ouvidos, a importunar-nos, depois de o
+sacudirmos, uma, duas, tres vezes, zangamo-nos e damos-lhe uma palmada
+com tanta vontade... que o esborrachamos.
+
+É uma porcaria, d'accordo. Mas tambem para que serve a agua?
+
+ * * * * *
+
+Agora as ultimas palavras... as palavras da despedida.
+
+N'uma carta circular que sua alteza dirigiu á imprensa diz:--_Il faut me
+pardonner quelques plaisanteries sans importance et sans parti pris_...
+que é como se dissesse:--queiram os senhores desculpar alguns gracejos
+innoffensivos e sem intenção...
+
+Ah! pois não princeza! Com todo o gosto... Sem mais aquella, como se diz
+em giria... E se o nosso folheto tiver a honra de ser lido por vossa
+alteza, lembre-se das suas linhas e queira tambem
+desculpar-nos:--_quelques plaisanteries sans importance et sans parti
+pris_.
+
+ * * * * *
+
+Segue a biographia da princeza.
+
+
+
+
+BIOGRAPHIA
+
+
+Rattazzi--(Maria Studolmire Wyse, princeza de Solms, depois condessa)
+mulher de lettras franceza, nascida em Waterfard (Inglaterra) em 1833. É
+neta de Luciano Bonaparte, irmão de Napoleão I, e filha de Letizia
+Bonaparte, e de sir Thomaz Wise, membro do parlamento de Inglaterra, que
+morreu ministro plenipotenciario da Grã-Bretanha em Athenas. Descendente
+de uma serie de uniões consideradas como outras tantas _mesalliances_
+para a familia Bonaparte, foi sempre considerada por esta como uma
+intrusa, ou como uma inimiga. Quando o principe Luiz, seu primo, foi
+eleito presidente da Republica franceza, prohibiu-lhe formalmente que
+usasse o nome de Bonaparte-Wise, pelo qual eram conhecidos seu pae e seu
+irmão. Entretanto, a sua filiação napoleonica, está tão bem estabelecida
+senão melhor que a do seu proprio primo. Seu avô Luciano, principe de
+Canino, casára, em segundas nupcias, com madame Bleschamp, viuva de um
+agente de cambio, casamento que descontentou muito Napoleão, e fez
+romper todas as relações da familia imperial com Luciano; este, tendo-se
+retirado á Italia, fez naturalisar romanos todos os seus filhos, tão
+pouca era a sua fé na restauração da dynastia a que pertencia. A neta,
+nascida de mãe romana, Letizia Bonaparte, e de pae irlandez, era
+realmente uma Bonaparte, mas tão pouco franceza quanto possivel. Foi
+comtudo educada na casa da Legião de Honra de S. Diniz, e, como não
+tivesse meios, fez-se professora.
+
+Em 1848, quando á familia Bonaparte foi permittida a entrada em França,
+e o principe Luiz se propoz a presidente da Republica Franceza, foi
+pedida em casamento por Mr. Frederico de Solms, rico alsaciano que a
+dotou em 700 ou 800 mil francos, esperando que ella viesse a ser uma das
+estrellas da futura côrte de seu primo, e que assim o levasse ás
+grandezas. Não aconteceu nada d'isto. Os Bonapartes, e principalmente o
+futuro Napoleão 3.^o não a consideraram como da familia; como o pae da
+segunda mulher de Luciano occupara um emprego d'inspector _nos direitos
+reunidos_, pretendiam não terem nada de commum com a descendente d'um
+vendedor de tabacos, e foi isto o que os jornaes do Elysseu lhe
+disseram, nu e cru, quando Madame de Solms, posto que muito nova ainda,
+porque então apenas contava 16 annos, começou a tornar-se notavel.
+
+Lançou-se então na opposição, attrahiu a sua casa algumas notabilidades
+do partido democratico, abriu as suas salas aos litteratos, deu festas
+esplendidas, e ostentou um luxo que tinha a pretenção de fazer epoca na
+historia contemporanea. No seu pequeno circulo comparavam-a a
+mademoiselle Montpensier e dizia-se que do seu _boudoir_ sahiria uma
+nova Fronda. Por occasião do golpe de estado de 2 de dezembro, em que
+estavam implicadas algumas pessoas que frequentavam as suas salas,
+julgou-se tambem obrigada a deixar a França, habitando ora em Roma, na
+Belgica, ora as cidades de caldas mais notaveis.
+
+Considerava-se como exilada, e tendo alguns jornaes publicado que ella
+pedira para ser amnistiada, fez-lhes publicar esta resposta altiva:--«Só
+um governo liberal e sensato me póde fazer voltar á França. Até o dia em
+que triumphem as nossas liberdades, acceito o exilio; mas protesto
+energicamente contra toda e qualquer nova insinuação, grave ou pueril,
+tendente a fazer admittir que, no presente ou no futuro, sob qualquer
+consideração, e em qualquer extremidade em que me encontre, eu possa
+ligar-me directa, ou indirectamente, a uma familia da qual me separei
+voluntaria e seriamente.»
+
+Isto não a impediu de entrar em França em fins de 1852; mas em fevereiro
+de 1853, recebeu ordem de expulsão e seu primo fel-a conduzir á
+fronteira acompanhada pelos gendarmes. A causa d'esta expulsão
+escandalosa era sempre a mesma, a sua obstinação em querer usar o nome
+de Bonaparte que lhe negavam. Protestou pelos tribunaes, encarregou
+Berryer de a defender, e o governo fez admittir pelos jornaes que a
+ordem (arrêté) d'expulsão estava em fórma, visto que madame de Solms era
+estrangeira e casada com um estrangeiro não naturalisado. É muito
+provavel que M. de Solms, nascido em Strasburgo, fosse francez; mas o
+governo obteve d'elle uma declaração na qual dizia não reclamar a
+qualidade de francez. Na _Patria_ foi publicada a seguinte nota:
+
+«Por ordem do sr. intendente geral da policia, foram expulsos do
+territorio francez madame de Solms, dizendo-se condessa de Solms, e M.
+Wyse, (seu irmão, M. Bonaparte-Wyse) ambos estrangeiros; estas duas
+pessoas usavam sem direito nenhum o nome de Bonaparte, e longe de
+respeitarem o nome illustre que usurparam, serviam-se ao contrario
+d'elle para se entregarem a escandalos desordenados, afim de mais
+facilmente abusarem da credulidade das pessoas com quem estavam em
+contacto. A ordem do sr. intendente geral de policia foi posta em
+execução e madame de Solms e o sr. Wyse deixaram a França.»
+
+Quando se fez a annexação de Nice e da Saboya (1862), pediu a Napoleão
+III a permissão de ficar em França, e obteve mesmo a de voltar a Paris;
+abriu ali o seu salão, como antigamente, deu festas, escreveu chronicas
+e _causeries_ em varios jornaes, o _Pays_, o _Constitutionel_, o _Turf_,
+etc., fez fallar de si, como de costume, e, tendo-se reconhecido n'um
+malicioso retrato traçado por M. de Boissieu, (_Fragment d'histoire, une
+des plus spirituelles lettres de Colombine_, 1863), intentou no _Figaro_
+uma indemnisação de 200:000 francos de perdas e damnos. O tribunal
+regeitou-lh'a. Entretanto tendo-lhe morrido o marido, uniu-se a Rattazzi
+n'uma das suas viagens a Turim, e esta ligação teve algum tempo depois o
+casamento por desenlace. A sua estada em Paris em 1865 trouxe-lhe novas
+decepções; foi-lhes dada nova ordem de expulsão e retirada uma pensão de
+que havia tres annos gosava. Desde então madame Rattazzi viveu
+constantemente em Turim, Florença e Roma, e publicou grande numero de
+volumes. Um dos seus romances, _Richeville_, fez algum barulho na
+Italia, e valeu ao marido de madame Solms, algumas provocações em
+duello.
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's A princeza na berlinda, by Urbano de Castro
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A PRINCEZA NA BERLINDA ***
+
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+electronic work, or any part of this electronic work, without
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+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
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+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
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+ address specified in Section 4, "Information about donations to
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+
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
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+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
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+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
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+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+The Project Gutenberg EBook of A princeza na berlinda, by Urbano de Castro
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
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+Title: A princeza na berlinda
+ Rattazzi a vol d'oiseau, com a biographia de sua Alteza
+
+Author: Urbano de Castro
+
+Release Date: February 4, 2008 [EBook #20103]
+
+Language: Portuguese
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+Character set encoding: UTF-8
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A PRINCEZA NA BERLINDA ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
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+
+
+
+
+
+
+</pre>
+
+
+<div>
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>RATTAZZI A VOL D'OISEAU </h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="bbox"><br />
+
+<h3>URBANO DE CASTRO<br />
+
+CHA-RI-VA-RI<br />
+
+</h3>
+
+<div class="sbreak">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h1>A PRINCEZA</h1>
+
+<h2>NA BERLINDA</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h3>RATTAZZI A VOL D'OISEAU</h3>
+
+<h4>
+COM A BIOGRAPHIA DE SUA ALTEZA</h4>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">(segunda
+edi&ccedil;&atilde;o)</span><br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div style="text-align: center;">LISBOA<br />
+
+TYPOGRAPHIA PORTUGUEZA<br />
+
+7, Rua da Paz, 7<br />
+
+1880<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+</div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>A PRINCEZA NA BERLINDA</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o ser&aacute; talvez m&aacute;o come&ccedil;ar
+por fazer uma declara&ccedil;&atilde;o:―nunca passei
+pelos bei&ccedil;os os guardanapos da princeza... Parece-me
+conveniente dizer
+isto. A <em>minha terra</em>, que era pequena no tempo de
+Garret,
+n&atilde;o me consta
+que tenha crescido, depois da sua morte... Tem at&eacute; diminuido
+um pouco...
+talvez!<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Foi pelos jantares que a princesa conseguiu tornar-se conhecida em
+Lisboa. Quando aqui chegou, vendo que ninguem a procurava, que a
+litteratura n&atilde;o corria pressurosa ao <em>Bragan&ccedil;a</em>,
+cumulando-a de elogios
+banaes e de bilhetes de visita baratos, sentio dentro da sua alma a
+mordedura cruel do amor proprio offendido. E amor proprio de mulher,
+amor proprio de princeza! Calculem que dentada! Esperou, um, dois, tres
+dias... uma semana, outra... a litteratura n&atilde;o
+apparecia!―Pois ha de
+apparecer! exclamou ella―E convidou-a para jantar. E a litteratura
+appareceu. <span class="pagenum">[6]</span>
+Os livros da princeza, que at&eacute; ent&atilde;o
+ninguem conhecia em
+Lisboa, e que ella mandara adiante para os livreiros, como batedores da
+sua fama, come&ccedil;aram por essa epoca a ter uma tal ou qual
+extrac&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o
+&eacute; difficil advinhar quem os comprava―eram os convivas dos
+seus
+jantares―Comprehende-se. Realmente seria pouca amabilidade comer o
+<em>foie gras</em> de Rattazzi, e n&atilde;o dizer ao
+menos, no fim, que
+era admiravel
+o seu livro <em>Si j'etais reine</em>; beber o champagne
+da princeza, e
+n&atilde;o lhe
+segredar que nunca mulher nenhuma escrevera um volume como <em>Nice
+la
+Belle</em>. E a proposito dos livros citavam-se os trechos das
+paginas
+abertas, abril-os seria muito, e bebia-se mais um copo. A princeza, que
+&eacute; inquestionavelmente uma mulher d'espirito, percebeu, o que
+de resto
+n&atilde;o era muito difficil, a <em>manobra fraudulenta</em>,
+como diz o
+sr. Duc nos
+livros de mortalhas, dos litteratos de Lisboa...<br />
+
+<br />
+
+Callou-se por&eacute;m muito bem callada e continuou a dar-lhes
+jantares
+hebdomadarios. A concorrencia cada vez era maior. Houve sujeito que se
+fez litterato, s&oacute; para jantar com a princeza. C&aacute;
+f&oacute;ra, no Martinho e na
+Havanesa, esses jantares eram digeridos e commentados com a face
+vermelha e a palavra quente... Contavam-se anecdotas, que &eacute;
+deveras pena
+n&atilde;o terem chegado aos ouvidos da princeza, porque, algumas
+d'ellas n&atilde;o
+s&atilde;o em nada inferiores a muitas que l&ecirc;mos no seu
+livro...<br />
+
+<br />
+
+E aqui est&aacute; como madame Rattazzi conseguiu durante um mez
+ser uma
+notabilidade em Lisboa. Sua altesa, por&eacute;m, em vez de
+contentar-se com
+esta gloria, embora de 2.&ordf; ordem, lembrou-se um dia de querer
+uma
+gloria de 1.&ordf; sorte, e escreveu uma comedia que, depois de
+muito
+applaudida em sua casa pelos seus commensaes, foi representada no
+theatro dos Recreios, a quem ella, com carradas de ras&atilde;o
+chama um
+calvario, visto que l&aacute; teve... a cruz da pateada...<br />
+
+<br />
+
+Tambem que diabo de publico este de Lisboa... atrever-se a patear uma
+princeza... Se sua alteza tem a mania dos cumulos,―e porque
+n&atilde;o a
+ter&aacute;?―sim, porque n&atilde;o ter&aacute; sua alteza
+a mania dos cumulos, se a tem, &eacute;
+impossivel que pelo seu preclaro espirito n&atilde;o tivesse
+passado este―o
+cumulo da selvageria:―<em>Patear uma princeza...</em><br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[7]</span>
+Ah! decididamente sua alteza n&atilde;o estava em sorte... <em>Pas
+de
+chance</em>! No
+hotel os convivas faziam muito mais despeza de iguarias do que de
+elogios; nos Recreios, o publico muita mais despeza de botas do que de
+luvas... <em>Pas de chance</em>!<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Foi ent&atilde;o, naturalmente, que o seu espirito se orientou na
+direc&ccedil;&atilde;o a
+dar ao <em>Portugal &agrave; vol d'oiseau</em>.<br />
+
+<br />
+
+―Ah! os senhores julgam que n&atilde;o &eacute; mais do que
+comerem-me os meus
+jantares, do que patearem-me as minhas pe&ccedil;as, esperem ahi
+que j&aacute; os
+ensino! At&eacute; aqui tenho-os recebido como convivas, agora vou
+passar a
+tratal-os como assumptos! Os senhores pensam, quando est&atilde;o
+&aacute; minha mesa,
+que s&atilde;o meus commensaes?―pois enganam-se, s&atilde;o
+paginas para o meu livro!
+N&atilde;o sou eu quem os obsequeio aos senhores, os senhores
+&eacute; que me
+obsequeiam. Escusam de dizer &laquo;muito obrigado!&raquo; eu
+&eacute; que tenho que
+dizer-lhes &laquo;<em>merci</em>&raquo;!<br />
+
+<br />
+
+E escreveu <em>Le Portugal &agrave; vol d'oiseau</em>.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Lisboa j&aacute; sabe pouco mais ou menos o que o livro
+&eacute;. Os jornaes tem dado
+excellentes amostras d'aquella famosa pe&ccedil;a...<br />
+
+<br />
+
+Porque n&atilde;o havemos n&oacute;s de dar tambem algumas?
+Estes dois perfis da nossa
+nobreza, por exemplo...<br />
+
+<br />
+
+Venha primeiro o conde de ***<br />
+
+<br />
+
+&laquo;―O conde *** um dos meus valsistas, e um valsista
+encantador, entre
+parenthesis, n&atilde;o &eacute; menos notavel. De muito antiga
+e nobre familia, &eacute;
+verdadeiramente um dos typos mais salientes de Lisboa. Or&ccedil;a
+pelos cincoenta, mas
+<span class="pagenum">[8]</span>
+n&atilde;o obstante apparenta um grande ar de
+mocidade.
+Baixinho, apurado, e elegante, ha em toda a sua pessoa uma excessiva
+vivacidade. Esta vivacidade ser&aacute; natural ou o resultado d'um
+estudo
+paciente para parecer ainda mais novo?<br />
+
+<br />
+
+Talvez que sim a avaliar a sua petulancia pelo mais. Os bigodes do
+conde
+de *** s&atilde;o mais negros do que o ebano.<br />
+
+<br />
+
+Mas isto n&atilde;o &eacute; nada comparado ao craneo do
+encantador conde; o
+proprietario d'este craneo conserva n'elle alguns cabellos, raros,
+semeados aqui e ali, tratados com zelosos cuidados, e que puchados
+artisticamente para a testa, ahi occupam o maximo espa&ccedil;o
+possivel para
+assim substituirem os ausentes. Para suprir os defuntos p&otilde;e
+no cucuruto
+uma especie de pequeno crescente―n&atilde;o, eu nunca ousaria
+dizer chin&oacute;
+fallando de t&atilde;o perfeito cavalheiro―que se confunde
+graciosamente com
+os cabellos: depois cobre tudo isto com uma espessa camada de pez e
+summo de alca&ccedil;uz de que faz uma pomada a fogo lento; por fim
+o seu
+creado de quarto, confidente d'esta excentricidade, tra&ccedil;a no
+meio d'esta
+pasta de <em>raisin&eacute; breton</em>, uma risca
+d'uma delicadeza, d'uma
+puresa,
+d'uma nitidez a causar inveja a uma rapariga de quinze annos. Quando a
+cataplasma est&aacute; secca, o conde p&oacute;de apparecer no
+meio dos seus
+concidad&atilde;os. Todos conhecem o mysterio d'aquella
+cabe&ccedil;a e ha delirios de
+alegria quando o excellente homem &eacute; obrigado, em pleno sol
+ou em pleno
+baile, a andar de chapeu na m&atilde;o, porque o calor tendo
+ac&ccedil;&atilde;o dissolvente
+sobre aquella untura, resulta d'ahi come&ccedil;ar ella a mover-se,
+a palpitar,
+a derreter-se, acabando por escorrer pelo pesco&ccedil;o e pelo
+nariz do seu
+proprietario.<br />
+
+<br />
+
+N&atilde;o obstante o conde de *** &eacute; um grande
+conquistador, um namorador que
+n&atilde;o perde occasi&atilde;o de deitar a sua olhadella,
+sendo por&eacute;m capaz de
+praticar heroismos, como o demonstram varias circumstancias da sua
+vida.<br />
+
+<br />
+
+Conta-se este facto digno dos melhores tempos da monarchia. O conde era
+camarista da infanta D. Izabel, que morreu ha annos, em
+avan&ccedil;ada edade,
+no seu palacio de Bemfica nos arrebaldes de Lisboa. Sendo os principes
+da familia real depositados na egreja de S. Vicente, situada n'um dos
+extremos da cidade opposto a Bemfica, o cortejo
+<span class="pagenum">[9]</span>
+funebre teve de
+percorrer duas leguas, a passo, em pleno mez de julho.<br />
+
+<br />
+
+O conde devia seguir a cavallo, uniformisado e de cabe&ccedil;a
+descoberta, o
+corpo da sua real ama, debaixo d'um sol torrido, o que elle fez
+magnanimamente, sem trepidar, entregando aos abrasadores raios de Phebo
+a sua untura quotidiana―facil presa―sem temer a tro&ccedil;a dos
+graciosos
+que, no dia seguinte, alludindo &aacute;
+liquefa&ccedil;&atilde;o do cosmetico, diziam por
+toda a parte que ninguem figurara no cortejo com o rosto mais
+tristemente cheio de luto do que o infeliz conde de ***.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+Igual a isto s&oacute; aquella celebre caricatura do <em>Antonio
+Maria</em>...
+&laquo;<em>D&aacute;-lhe cuspo...</em>&raquo;<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Agora o marquez de V. ***<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+―&laquo;Como exemplo n&atilde;o, quero citar sen&atilde;o
+um dos meus amigos o marquez de
+V. ***. Vale bem a pena. &Eacute; uma personalidade, uma
+celebridade, uma
+curiosidade de primeira ordem. Em v&atilde;o lhe procurariam rival
+na galeria
+do duque de Saint-Simon, e ainda menos na
+collec&ccedil;&atilde;o t&atilde;o rica de
+Moli&eacute;re.
+Em certas festas de gala ou de representa&ccedil;&atilde;o
+exterior, o marquez de V.
+*** julga-se obrigado a seguir as carruagens da c&ocirc;rte na sua
+equipagem,
+e &eacute; esta equipagem que faz do nobre marquez uma curiosidade
+unica do
+mundo.<br />
+
+<br />
+
+Imagine-se um coche do seculo passado, envidra&ccedil;ado de modo a
+ver-se todo
+o interior, montado sobre molas e rodas que fazem pensar nas machinas
+de
+<em>Leviathan</em>, tudo isto pintado de verde, cheio de
+dourados em alto e
+baixo relevo. No meio d'esta caixa throno, o marquez de V. ***
+s&oacute;, de cabe&ccedil;a descoberta, com o grande uniforme
+<span class="pagenum">[10]</span>
+d'uma ordem qualquer, com os
+olhos fitos na sua frente, parecendo contemplar em extase as abas da
+libr&eacute; do seu cocheiro, n&atilde;o voltando a
+cabe&ccedil;a nunca, nem para a direita
+nem para a esquerda: dir-se-hia uma estatua e n&atilde;o um homem.<br />
+
+<br />
+
+A carruagem &eacute; atrelada a quatro cavallos, montados por dois
+postilh&otilde;es e
+guiados por um cocheiro gorducho sentado n'uma almofada que parece um
+divan. Na taboa da carruagem dois enormes lacaios em p&eacute;.
+Todo este
+pessoal vem empoado e veste uma libr&eacute; verde claro que
+deslumbra a vista
+e faz piscar os olhos. N&atilde;o se p&oacute;de imaginar nada
+mais original. Quando a
+cerimonia terminou e a parte official do programma est&aacute;
+cumprida, o
+marquez faz gravemente o giro das principaes ruas e pra&ccedil;as
+de Lisboa
+para se fazer admirar. Em Paris entraria em casa corrido a batatas
+cozidas. Aqui deixam-o em paz―<em>&eacute; costume</em>.<br />
+
+<br />
+
+Se eu fosse rei de Portugal prohibia a este fidalgo, sob as mais graves
+penas, de me fazer assim cortejo com a sua entrudada, mas, com isso,
+arriscaria talvez a minha cor&ocirc;a.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; de justi&ccedil;a acrescentar que o marquez de V.
+&eacute; um homem instruido. Que
+seria, Deus meu, se o n&atilde;o fosse!&raquo;<br />
+
+<br />
+
+Realmente est&aacute; parecido... O <em>Antonio Maria</em>
+n&atilde;o
+o faz melhor...<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Depois d'estes perfis hilariantes como o protoxido de azote, tenha o
+leitor a paciencia de me acompanhar ao capitulo em que sua altesa nos
+d&aacute;
+a honra de fallar dos nossos enterros.<br />
+
+<br />
+
+D&ecirc;mos a palavra &aacute; princeza:<br />
+
+<br />
+
+&laquo;&Eacute; realmente coisa curiosa que acompanhando o pae
+os filhos ao
+cemiterio, estes n&atilde;o acompanhem os paes: n&atilde;o
+&eacute; costume. Deixa-se este
+cuidado aos parentes mais affastados ou aos amigos. Porqu&ecirc;?
+N&atilde;o m'o
+poderam explicar: acho por&eacute;m esquisito.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+Est&aacute; no seu direito. Foi por&eacute;m mal informada. Os
+paes
+<span class="pagenum">[11]</span>
+tambem n&atilde;o
+acompanham os filhos. Quanto a achar o caso estranho n&atilde;o tem
+de qu&ecirc;. O
+facto de em Fran&ccedil;a os parentes mais proximos acompanharem os
+cadaveres
+dos seus defunctos n&atilde;o prova nada, sen&atilde;o que
+at&eacute; na morte &eacute; verdadeiro o
+dictado:―<em>Cada terra com seu uso...</em> O que
+&eacute; deveras
+esquisito, &eacute;
+querer sua altesa que os costumes sejam os mesmos em todos os paizes.
+Para quem se prop&otilde;e escrever livros de viagem,
+n&atilde;o p&oacute;de haver ponto de
+vista mais ridiculo nem mais acanhado.<br />
+
+<br />
+
+Continua a auctora:―&laquo;Quando uma pessoa morre, a familia
+n&atilde;o envia
+cartas de participa&ccedil;&atilde;o. Faz um annuncio nos
+jornaes, e est&aacute; tudo
+prompto, visto que o dito annuncio termina invariavelmente por este
+<em>clich&eacute;</em>: <em>N&atilde;o se
+fazem convites especiaes attendendo ao estado de
+consterna&ccedil;&atilde;o indizivel em que a familia
+est&aacute;</em>...<br />
+
+<br />
+
+Comprehendo muito bem que a familia esteja n'um estado de
+consterna&ccedil;&atilde;o
+indizivel: entretanto, visto que esta
+consterna&ccedil;&atilde;o lhe permitte fazer
+annuncios nos jornaes, parece-me que, com um pequeno
+esfor&ccedil;o, lhe
+permittiria tambem enviar cartas de participa&ccedil;&atilde;o
+impressas a casa de
+cada um, como se faz nos outros paizes.<br />
+
+<br />
+
+Resulta com effeito d'este costume que, se n&atilde;o se lerem os
+jornaes, ou
+antes os annuncios dos jornaes, p&oacute;de muito bem acontecer
+deixar uma
+pessoa de acompanhar ao cemiterio o seu tio, primo, ou o seu melhor
+amigo.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+Foi ainda mal informada sua alteza. &Eacute; verdade que muitas
+vezes o
+annuncio funebre termina por aquelle molho, mas n&atilde;o
+&eacute; menos verdade que
+rarissimas vezes se deixa de enviar cartas de
+participa&ccedil;&atilde;o. Sua alteza
+n&atilde;o recebeu nenhuma, e por isso naturalmente lembrou-se de
+nos ensinar
+como estas coisas se fazem nos paizes civilisados. Obrigado princeza.
+Quanto a n&atilde;o ter recebido carta alguma de
+participa&ccedil;&atilde;o desculpe:―hei de
+mandar-lhe uma... quando morrer o meu Tareco.<br />
+
+<br />
+
+Coitada! Infeliz princeza! Ninguem lhe mandou carta de
+participa&ccedil;&atilde;o.
+Ent&atilde;o que se lhe ha de fazer, no nosso paiz os enterros
+ser&atilde;o tudo
+quanto quizer... mas n&atilde;o s&atilde;o entrudadas...<br />
+
+<br />
+
+A respeito dos chav&otilde;es com que &eacute; costume fechar
+annuncios funebres
+faltou-lhe ainda um. &Eacute; este:―<em>n&atilde;o se
+fazem
+<span class="pagenum">[12]</span>
+convites especiaes por
+expressa determina&ccedil;&atilde;o do finado</em>. Foi
+pena
+escapar. Que bella pagina
+humoristica n&atilde;o escrevia a princeza com thema t&atilde;o
+divertido!<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Mas nem s&oacute; os enterros tem a honra de espantar sua alteza...
+O livro
+est&aacute; cheio de exemplos do mesmo genero.<br />
+
+<br />
+
+Sente-se mesmo em algumas paginas que a princeza n&atilde;o chega a
+contar
+metade dos seus espantos... Qual metade!―nem a decima, nem a
+centesima,
+nem a milesima parte...<br />
+
+<br />
+
+Porque a verdade &eacute; esta:―sua alteza apenas transpoz a
+fronteira come&ccedil;ou
+a sentir as d&ocirc;res... do espanto... Exactamente, agora
+&eacute; que eu
+acertei... come&ccedil;ou a sentir as d&ocirc;res do espanto, e
+o seu livro, que at&eacute;
+hoje ninguem sabia bem o que &eacute;, passa agora muito
+logicamente a ser o
+feliz parto que a alliviou das citadas d&ocirc;res, logo que ella
+se viu em
+terreno conhecido, que &eacute; como quem diria:―logo que a
+natureza permittiu
+que o robusto menino visse a clara luz do dia...<br />
+
+<br />
+
+Espanto! Espanto! sempre espanto!<br />
+
+<br />
+
+Os portuguezes n&atilde;o dizem &laquo;at&eacute;
+manh&atilde;&raquo; dizem &laquo;at&eacute;
+&aacute;manh&atilde; se Deus
+quizer&raquo;―espanto: n&atilde;o acompanham seus paes ao
+cemiterio,―espanto: as
+varinas carregam-se de oiro,―espanto: vae muita gente aos bastidores
+de
+S. Carlos,―espanto: dizemos <em>um copo d'agua</em> e
+n&atilde;o <em>un
+verre
+d'eau</em>,―espanto: estamos a uma latitude e a uma longitude
+differentes
+de Paris,―espanto: as nossas pulgas mordem,―espanto: o nariz do sr.
+Minhava &eacute; enorme,―espanto: <em>pomme de terre</em>,
+chama-se
+batatas,―espanto: uma <em>precieuse ridicule</em>
+&eacute; uma tola...
+espanto!<br />
+
+<br />
+
+Espanto, espanto, sempre espanto!<br />
+
+<br />
+
+Porque n&atilde;o escreveu o seu livro tal qual o pensou princeza?<br />
+
+<br />
+
+Porque n&atilde;o nos deu, por exemplo, uma pagina n'este
+genero:―&laquo;Uma vez,
+tendo entrado casualmente n'uma egreja, approximei-me d'uma mulher que
+estava rezando,
+<span class="pagenum">[13]</span>
+em voz sufficientemente alta, para que se podesse
+perceber o que ella dizia... Approximo-me mais, e calculem o meu
+espanto, ao ouvir estas palavras:―<em>Padre, nosso, que estaes
+nos
+c&eacute;us
+santificado...</em> Accreditar&atilde;o agora que isto quer
+dizer em
+portuguez:―<em>Notre p&egrave;re qui &eacute;tes aux
+cieux, que
+votre nom soit,
+santifi&eacute;...</em><br />
+
+<br />
+
+Como diabo, perdoe-se-me a heresia, querer&atilde;o os meus bons
+amigos
+portuguezes que Nosso Senhor os entenda?&raquo;<br />
+
+<br />
+
+E n&atilde;o seria este por certo o menos notavel dos seus
+espantos.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Antes de passarmos adiante contemos um disparate que n&atilde;o
+deixa de ter
+gra&ccedil;a. A paginas, n&atilde;o sei quantas, escrevendo a
+princeza que n&oacute;s n&atilde;o
+fazemos uso de fog&otilde;es para aquecer as casas, diz pouco mais
+ou menos o
+seguinte:―De resto, se fizessem uso d'elles, n&atilde;o se haviam
+de v&ecirc;r em
+pequenos embara&ccedil;os para arranjar o combustivel, a
+n&atilde;o ser que deitassem
+a mobilia ao fogo. A lenha &eacute; absolutamente desconhecida em
+Portugal, e
+custa cada kilo... tres mil r&eacute;is!&raquo;<br />
+
+<br />
+
+―Oh! princeza, se vossa alteza quando esteve em Lisboa pagou a lenha
+por aquelle pre&ccedil;o, devo dizer-lhe duas coisas:―a primeira,
+&eacute; que o seu
+livro passa a ser um favo do Hymeto, a segunda... &eacute; que foi
+roubada!<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+O que &eacute; verdade por&eacute;m &eacute; que Lisboa
+deve um grande servi&ccedil;o &aacute; princesa.
+Nem mais nem menos do que a rusga feita &aacute;s casas de jogo nos
+principios
+d'este mez.<br />
+
+<br />
+
+Se duvidam, leiam.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ha muito que no governo civil havia uma tal ou qual suspeitasinha, uma
+vaga desconfian&ccedil;a, de que a roleta, esse
+<span class="pagenum">[14]</span>
+terrivel philloxera das
+algibeiras, tivera o inqualificavel arrojo, o descaro inaudito de
+assentar os seus arraiaes―aqui―na patria de Cam&otilde;es, nas
+bochechas do
+sr. Rosa Araujo, representante da dita patria. Mas tudo era vago,
+incerto, nebuloso... A policia posta em campo nada descobrira.
+Procurara-a,―oh! se a procurara!―como o nauta procura o norte, como a
+ave procura o ninho, como a f&eacute;ra o seu covil―mas, apesar de
+a procurar
+com todo este excesso de poesia, o resultado era sempre o mesmo...
+nada,
+nada, nada, tres vezes nada coisa nenhuma!<br />
+
+<br />
+
+O habil Antunes, o eximio Castello Branco, o nunca ass&aacute;s
+cantado 37―e
+muitos outros egualmente habeis, egualmente eximios, egualmente nunca
+ass&aacute;s cantados, encarregados secretamente de a descobrirem,
+pozeram em
+pratica as maiores subtilesas policiaes. Um d'elles chegou a
+disfar&ccedil;ar-se em G. L. P... Nem assim a encontrou!<br />
+
+<br />
+
+Nada os fazia recuar, nada os intimidava, desconheciam... e creio que
+ainda desconhecem, o verbo trepidar! Passeios, botequins, theatros,
+tudo
+assaltaram em busca da criminosa... Era um phrenesi, um delirio, uma
+raiva... Mas a scelerada n&atilde;o apparecia!<br />
+
+<br />
+
+―E comtudo ella existe! exclamava o governo civil com o tom solemne
+com
+que por muito tempo se julgou que o sabio Gallileu dissera o
+legendario:―<em>E pur si muove!</em><br />
+
+<br />
+
+Era para perder a cabe&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Estavam as coisas n'estes termos quando chegou o livro da princeza. O
+governo civil compra-o, come&ccedil;a a l&ecirc;l-o e ao chegar
+a paginas 149, j&aacute; n&atilde;o
+diz: &laquo;E comtudo ella existe!&raquo; no tom de Gallileu,
+mas, qual outro
+Archimed&eacute;s, <em>toilette</em> aparte, solta do
+fundo do seio um
+jubiloso
+<em>Eureka!</em><br />
+
+<br />
+
+Ah! &eacute; que effectivamente o caso n&atilde;o era para
+menos. A pagina 149,
+fallando das batotas, diz a princeza:<br />
+
+<br />
+
+Ha uma na rua do Alecrim.<br />
+
+<br />
+
+Uma, rua das Gavias.<br />
+
+<br />
+
+Uma, pra&ccedil;a de
+Cam&otilde;es.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[15]</span>
+Duas, rua da Emenda.<br />
+
+<br />
+
+Uma, rua de S. Francisco.<br />
+
+<br />
+
+Uma, travessa de Santa Justa.<br />
+
+<br />
+
+Tres ou quatro &aacute;
+Ribeira Velha.<br />
+
+<br />
+
+―Obrigado meu Deus! exclamou ent&atilde;o o governo civil imitando
+d'esta vez
+a sr.<sup>a</sup> Emilia das Neves, obrigado meu Deus!<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+E aqui est&aacute; como a policia conseguiu saber onde eram as
+batotas. Ah!
+princeza, princeza, vossa alteza merecia que pelo menos a fizessem...
+chefe d'esquadra.<br />
+
+<br />
+
+E note-se mais, &eacute; ella, &eacute; ella quem ensina no seu
+livro como se faz uma
+rusga. Duvidam?<br />
+
+<br />
+
+Leiam.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;―Em Paris a policia tem um servi&ccedil;o especial para
+este genero de
+industria prohibida. Os agentes d'este servi&ccedil;o espiam os
+batoteiros,
+estudam cuidadosamente o terreno, e uma bella noite cahem l&aacute;
+dentro como
+um raio e prendem todos, levando o dinheiro que est&aacute; em cima
+das mesas.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+A policia seguiu as instruc&ccedil;&otilde;es da princeza tanto
+&aacute; risca, que at&eacute;
+escolheu uma bella noite, <em>une belle nuit</em>, para
+fazer a sua rusga!<br />
+
+<br />
+
+Diz ainda sua alteza:―A mobilia &eacute; confiscada... e a policia
+confiscou a
+mobilia.<br />
+
+<br />
+
+Decididamente, a princeza tem todo o direito... a um apito honorario!<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Vejamos agora como sua alteza falla de alguns dos nossos escriptores.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+―<em>Camillo Castello Branco</em>, que parece o condemnado
+aos trabalhos
+publicos da litteratura portugueza, escreve,
+<span class="pagenum">[16]</span>
+escreve, escreve, escreve
+sempre: superiormente, &eacute; quest&atilde;o controversa;
+enormemente, com certesa.
+A quantidade excede em muito a qualidade, diz-se, (diz ella); dotado de
+uma actividade laboriosa, infatigavel, comparavel &aacute; de uma
+legi&atilde;o de
+formigas, construe romances contemporaneos sobre romances historicos,
+com uma preseveran&ccedil;a e uma sequencia que intrigam a
+imagina&ccedil;&atilde;o. &Eacute; uma
+especie de Quevedo com certo sentimentalismo catholico.<br />
+
+<br />
+
+Particularidade curiosa: em todos os seus romances entram
+infallivelmente um brazileiro, uma menina que se mette n'um convento,
+um
+fidalgo provinciano, e um namorado amorudo e transparente. &Eacute;
+invari&agrave;vel
+como a chuva e o bom tempo. De f&oacute;rma, que o primeiro romance
+que se l&ecirc;
+do sr. Branco parece muito interessante, o segundo accorda
+remeniscencias, e o terceiro adivinha-se; o quarto sabe-se de
+c&oacute;r,
+volta-se a pagina sabendo-se o que vae passar-se. &Eacute; uma
+galeria de
+personagens que raramente se renova, como a dos museus de figuras de
+cera. Os seus principaes romances s&atilde;o: <em>Onde
+est&aacute;
+a felicidade</em>, <em>Doze
+casamentos felizes</em>, <em>O que fazem mulheres</em>,
+<em>Historia d'um homem
+rico</em>;
+s&atilde;o feitos com este arcabou&ccedil;o em que as vigas, as
+asnas e os alicerces
+s&atilde;o invariavelmente os mesmos.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;―<em>Bulh&atilde;o Pato</em>. &Eacute;
+um peninsular, um
+sybarita, um camale&atilde;o. Como muitos
+rapazes que se dizem artistas pintores ou esculptores, para terem o
+direito de usar umas enormes cabelleiras e de adoptarem umas maneiras e
+um modo de fallar desbragado, este, fez-se poeta, o que na alta
+sociedade de Lisboa &eacute; um titulo de
+apresenta&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+O sr. Bulh&atilde;o Pato &eacute; incontestavelmente um homem
+d'uma conversa&ccedil;&atilde;o
+encantadora. Passando por espirituoso e mordente, imaginou que para ser
+um genio lhe bastava o querer sel-o, esquecendo que n&atilde;o
+&eacute; poeta quem
+quer. Assim, creou-se por si s&oacute;, e por si s&oacute;,
+ainda, se julga um grande
+poeta. O seu poema, a <em>Paquita</em>, &eacute; uma
+imita&ccedil;&atilde;o dupla do estylo
+aggressivo de Byron e da finura de Musset, um
+<span class="pagenum">[17]</span>
+urso fazendo rendas de
+Alen&ccedil;on. Escreveu muitos volumes de versos, satiras,
+novellas, etc.,
+onde se n&atilde;o encontra o reflexo do espirito notavel que tem a
+fallar. O
+que escreve n&atilde;o traduz o que diz (<em>Sa plume ne
+traduit pas
+sa langue</em>).
+Para acabar este retrato &eacute; necessario acrescentar que
+&eacute; impertinente,
+irritavel, invejoso, que pouco sabe da vida, julga-a mal, e por isso
+mesmo declara-se descontente com cada um e com todos, passando a vida a
+lamentar-se sem rima nem ras&atilde;o.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+N'uma nota contin&uacute;a no mesmo tom amavel chamando-lhe o
+<em>poeta da melena</em>
+(<em>po&egrave;te aux longs cheveux</em>).<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;―<em>Ernest Biestero</em>, o grande magro
+litterario de quem
+Castilho
+dizia:―&Eacute; um fructo de inverno, por mais que o expremam
+n&atilde;o deita nada!
+O que elle traduziu, apanhou, pilhou, &eacute; incalculavel: seriam
+necessarios
+volumes s&oacute; para fazer a sua rapida
+enumera&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Os seus dramas originaes, <em>Caridade na sombra</em>, <em>Moscovellos</em>,
+<em>Natureza
+de alma</em> (?) s&atilde;o uma galeria de manequins sem vida
+e
+at&eacute; sem cordeis.
+Deve accrescentar-se―segundo a chronica―que os seus dramas
+s&atilde;o
+retocados por seu cunhado Mendes Leal. O que os n&atilde;o
+embelleza!<br />
+
+<br />
+
+Biester teve a gloria de ser um dos fundadores da <em>Revista
+Contemporanea
+de Portugal e Brazil</em>, que durou cinco annos, onde se acham
+associadas
+todas as individualidades do <em>elogio mutuo</em>.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;―<em>Mendes Leal</em> (Jos&eacute; da
+Silva) nasceu em Lisboa
+em 1820. Sem talento e
+at&eacute; sem disposi&ccedil;&otilde;es dramaticas
+escreveu muitos dramas e romances
+historicos. &Eacute; o litterato portuguez que fez mais plagiatos,
+e isto com a
+maxima audacia e sem-cerimonia. O seu theatro pertence &aacute;
+escola
+<span class="pagenum">[18]</span>
+do
+ultra-romantismo, e os <em>Dois renegados</em>, que passam
+por ser a fina
+fl&ocirc;r
+da sua cor&ocirc;a litteraria, s&atilde;o um drama insipido,
+cheio de punhaes,
+venenos e ciladas. O seu romance <em>Calabar</em>
+&eacute; completamente
+tirado do
+<em>Bateur d'Estrade</em>, de Paul Duplessis; as suas
+poesias formam um volume
+no qual s&oacute; uma poesia &eacute; digna de
+men&ccedil;&atilde;o, a <em>Morte de Carlos Alberto</em>.
+Este fructo secco da litteratura foi bibliothecario de Lisboa,
+ministro,
+e finalmente ministro plenipotenciario em Paris. O que prova que as
+mediocridades s&atilde;o muita vez empregadas.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Agora querem saber como apparecem os nomes portuguezes no livro da
+princeza? Ahi vae uma amostra.<br />
+
+<br />
+
+<em>Odio velho n&atilde;o can&ccedil;a</em>, o
+notavel romance de
+Rebello da Silva,
+&eacute;:―<em>Odio, velho, vra&ocirc; cauca</em>.<br />
+
+<br />
+
+<em>O prato de arroz d&ocirc;ce</em>, de Teixeira de
+Vasconcellos,
+chama-se:―<em>O
+Porto de oroz dou</em>.<br />
+
+<br />
+
+<em>As tempestades sonoras</em>, de Theophilo Braga,
+s&atilde;o:―<em>As
+tempos tades
+sanoras</em>.<br />
+
+<br />
+
+<em>Mo&ccedil;os e velhos</em>, que a princeza
+erradamente attribue a
+Ernesto Biester,
+apparece assim no livro:―<em>Mocosvellos</em>.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Aos theatros de Lisboa faz sua alteza a honra de lhes consagrar um
+capitulo do seu livro.<br />
+
+<br />
+
+E como a princeza &eacute; mulher coherente em todos os actos da
+sua vida, n&atilde;o
+quiz deixar de ser mexiriqueira tratando de assumpto que tanto a
+mexericos se presta.<br />
+
+<br />
+
+Assim diz, por exemplo, fallando do theatro do
+Gymnasio:―&laquo;Este theatro
+n&atilde;o tem praso determinado para as suas
+representa&ccedil;&otilde;es pela excellente
+ras&atilde;o de que as receitas s&atilde;o mais de que
+mediocres. Os artistas e
+directores do Gymnasio acham-se constantemente, uns para com os o
+Assim diz, por exemplo, fallando do theatro do
+Gymnasio:―&laquo;Este theatro
+n&atilde;o tem praso determinado para as suas
+representa&ccedil;&otilde;es pela excellente
+ras&atilde;o de que as receitas s&atilde;o mais de que
+mediocres. Os artistas e
+directores do Gymnasio acham-se constantemente, uns para com os outros,
+<span class="pagenum">[19]</span>
+na situa&ccedil;&atilde;o de um credor importuno para com Mr.
+de Tayllerand.<br />
+
+<br />
+
+―O senhor n&atilde;o me dir&aacute; quando me paga o que me
+deve? dizia o credor.<br />
+
+<br />
+
+―Ora sempre &eacute; muito curioso, respondeu o
+principe.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+Realmente &eacute; difficil perceber a que vem isto. Pela nossa
+parte
+entendemos que s&atilde;o profundamente ridiculos todos estes
+promenores da
+vida intima dos theatros... Julgamos al&eacute;m d'isso haver
+falsidade no
+mexerico da princeza. Mas ainda que seja verdade o que ella diz,
+n&atilde;o
+ser&aacute; de mau gosto trazer quest&otilde;esinhas de
+soalheiro para um livro de
+viagens?<br />
+
+<br />
+
+Do Gymnasio, diz ainda, que viu ali representar magistralmente o actor
+<em>Pedro</em>, secundado por duas jovens e formosas
+mulheres <em>Candida</em>
+e
+<em>Lora</em>?<br />
+
+<br />
+
+Dou-lhes um doce se adivinharem quem s&atilde;o estas duas jovens e
+formosas
+mulheres. Candida e Lora quer dizer Amelia Vieira e Emilia dos Anjos.
+Ha
+por&eacute;m uma difficuldade, e desde j&aacute; nos
+confessamos incompetentes para a
+resolver:―Qual ser&aacute; a Lora?<br />
+
+<br />
+
+Mysterio que s&oacute; a princeza poder&aacute; decifrar.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Do theatro da Rua dos Condes diz que se representa ali <em>Lazaro,
+o
+pastor</em>... &Eacute; possivel. Em todo o caso devemos
+declarar que
+essa pe&ccedil;a
+subiu &aacute; scena expressamente para sua alteza a ver, e que foi
+ainda sua
+alteza a unica espectadora... O publico n&atilde;o a viu nunca.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+No capitulo <em>Theatros</em> trata muito natural e
+judiciosamente o assumpto
+pateadas. N&atilde;o gosta d'ellas, parecem-lhe estupidos e
+injustos os
+sujeitos que pateiam. Abre curso de sensibilidade no artigo <em>pateader</em>.
+Comprehende-se:―ella
+<span class="pagenum">[20]</span>
+&eacute; que est&aacute; sensibilisada ao
+escrever tudo isto,
+recordando-se do modo porque a plateia dos <em>Recreios</em>
+recebeu a sua
+insipida e soporifera comedia.<br />
+
+<br />
+
+<em>Tenha paciencia</em>. Diz no seu livro que esta phrase
+se applica a tudo
+no
+nosso paiz. &Eacute; verdade. Applica-se a tudo. At&eacute;
+&aacute;s princezas infelizes que
+s&atilde;o pateadas.<br />
+
+<br />
+
+Diz sua alteza fallando nos hoteis que os colch&otilde;es
+s&atilde;o durissimos em
+todos elles; no <em>Braganza</em> parecem at&eacute;
+cheios de cacos de
+garrafas...
+Mas afinal sempre temos por c&aacute; alguma coisa mais dura do que
+os
+colch&otilde;es... as pateadas...<br />
+
+<br />
+
+Custam a roer, custam... Mas que se hade fazer? R&ocirc;a,
+r&ocirc;a. De resto
+parece-nos que sua alteza tem deveras a bossa do estylo lacrimoso...
+Chore―a lagrima &eacute; livre.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Depois da nenia das pateadas passa sua alteza a fallar da vida dos
+bastidores em Lisboa. D&ecirc;mos-lhe mais uma vez a
+palavra:―&laquo;―A vida dos
+bastidores em Portugal est&aacute; ainda no estado primitivo.
+&Eacute; mais burgueza
+que desregrada. Na maioria dos theatros as actrizes s&atilde;o
+casadas ou vivem
+maritalmente com pessoas da sua escolha, dando, com rarissimas
+excep&ccedil;&otilde;es
+tanto que fallar pela sua conducta como pelo seu talento. Se quizesse
+citar alguma que se distinguisse das suas collegas pelo seu luxo ou
+pelos seus amores, ver me-hia deveras embara&ccedil;ada,
+n&atilde;o obstante ter
+pedido informa&ccedil;&otilde;es a toda a gente.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Sim, a princeza pedio informa&ccedil;&otilde;es a toda a gente.
+Apenas qualquer
+sujeito tinha a honra de lhe ser apresentado, a primeira coisa que a
+princeza fazia era disparar-lhe esta pergunta &aacute; queima
+roupa:―Ora
+diga-me meu bom amigo, sabe alguma coisa da Emilia das Neves?―Que Sim,
+a princeza pedio informa&ccedil;&otilde;es a toda a gente.
+Apenas qualquer
+sujeito tinha a honra de lhe ser apresentado, a primeira coisa que a
+princeza fazia era disparar-lhe esta pergunta &aacute; queima
+roupa:―Ora
+diga-me meu bom amigo, sabe alguma coisa da Emilia das Neves?―Que lhe
+consta
+<span class="pagenum">[21]</span>
+da Delfina?―N&atilde;o se rosna coisa nenhuma d'aquella
+Joanna Carlota
+da rua dos Condes?<br />
+
+<br />
+
+Esta febre da princeza em indagar a vida intima das nossas actrizes
+faz-me lembrar a historia de um provinciano que vindo a Lisboa pela
+primeira vez, com ideas muito errados acerca das nossas mulheres de
+theatro, come&ccedil;ou durante a
+representa&ccedil;&atilde;o, de n&atilde;o sei que
+pe&ccedil;a em D.
+Maria, a interrogar o visinho do lado, pelo theor que vae
+v&ecirc;r-se, sempre
+que apparecia em scena alguma actriz.<br />
+
+<br />
+
+Entrava por exemplo a sr.<sup>a</sup> Emilia das Neves, o
+provinciano voltava-se
+para o sujeito e dizia-lhe piscando-lhe o olho intencionalmente:<br />
+
+<br />
+
+―Esta...?<br />
+
+<br />
+
+E o sujeito:<br />
+
+<br />
+
+―N&atilde;o sei...<br />
+
+<br />
+
+Entrava a sr.<sup>a</sup> Virginia:<br />
+
+<br />
+
+―E esta...?<br />
+
+<br />
+
+―Homem deixe-me...<br />
+
+<br />
+
+Entrava a sr.<sup>a</sup> Amelia Vieira.<br />
+
+<br />
+
+―E esta...?<br />
+
+<br />
+
+―Diabo, o senhor &eacute; inconveniente! N&atilde;o sei
+nada...<br />
+
+<br />
+
+O provinciano por&eacute;m n&atilde;o se dava por vencido.<br />
+
+<br />
+
+―E esta...? continuava elle sempre a perguntar.<br />
+
+<br />
+
+De repente entra o Theodorico. Ent&atilde;o o sujeito, desesperado,
+fulo,
+volta-se para o pobre provinciano e diz-lhe muito serio:<br />
+
+<br />
+
+―Olhe este... com certesa...<br />
+
+<br />
+
+A princeza fez exactamente o papel do provinciano, e, t&atilde;o
+infeliz como
+elle, n&atilde;o ficou sabendo coisa nenhuma...<br />
+
+<br />
+
+Ficou at&eacute; sabendo menos que o provinciano...<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Em todo o caso registe-se que no entender de sua alteza a vida dos
+bastidores em Portugal &eacute; uma pulhice... &laquo;Mais
+burgueza que
+desregrada...&raquo; chega a ser infame, n&atilde;o
+&eacute; assim princeza?<br />
+
+<br />
+
+E depois que mulheres estas de theatro! Que impossiveis
+<span class="pagenum">[22]</span>
+creaturinhas!
+D&atilde;o tanto que fallar pela sua conducta como pelo seu
+talento... O mesmo
+n&atilde;o se pode dizer que aconte&ccedil;a com certa pessoa
+que n&oacute;s sabemos...<br />
+
+<br />
+
+Essa d&aacute; muito mais que fallar pela sua conducta do que pelo
+seu
+talento...<br />
+
+<br />
+
+Foi dev&eacute;ras infeliz a princeza em quest&otilde;es de
+theatro. Viu-se sempre
+embara&ccedil;ada. At&eacute; se quizesse citar alguma actriz
+que se distinguisse das
+suas collegas pelo seu luxo ou pelos seus amores, at&eacute;
+n'essas
+circumstancias os embara&ccedil;os lhe n&atilde;o permittiriam
+a cita&ccedil;&atilde;o...<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; realmente estar com azar.<br />
+
+<br />
+
+Pois n&oacute;s se quizessemos citar alguma princeza que se
+distinguisse de
+todas as outras pelo seu luxo <em>tapageur</em> ou pelos
+seus amores, faziamos
+isso sem a mais pequena difficuldade...<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Termina sua alteza o capitulo dos theatros fallando das
+dan&ccedil;arinas de S.
+Carlos. Diz sua alteza:―&laquo;As dan&ccedil;arinas
+n&atilde;o d&atilde;o que fallar de si. Ha
+para isto duas raz&otilde;es:―a primeira &eacute; que, salvo
+duas ou tres excep&ccedil;&otilde;es
+s&atilde;o feias que mettem medo a segunda &eacute; que a
+maioria d'ellas parece-me
+ter chegado, a esta edade feliz em que se tem jus &aacute;
+venera&ccedil;&atilde;o e ao
+respeito.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+Ora aqui est&aacute; o que aconteceria a sua alteza se em vez de
+ser uma <em>bas
+bleue</em> pretenciosa f&ocirc;sse dan&ccedil;arina de S.
+Carlos.
+Ninguem fallaria
+n'ella... Por tudo, e principalmente... pela segunda
+raz&atilde;o...<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+Deixemos por&eacute;m os theatros e vejamos o que a princeza diz a
+respeito do
+nosso mais notavel monumento―o mosteiro da Batalha.<br />
+
+<br />
+
+&laquo;<em>Batalha</em>, tambem pequena cidade, (que
+disparate!) alguns
+kilometros
+mais longe (do que Alcoba&ccedil;a, que descreve
+<span class="pagenum">[23]</span>
+antes) possue um
+mosteiro mais
+pequeno; mas tambem gothico, e de um estylo ainda mais puro que o de
+Alcoba&ccedil;a.<br />
+
+<br />
+
+Este mosteiro foi fundado pelo rei D. Jo&atilde;o I, que ahi
+repousa. Nota-se
+particularmente a sala do capitulo, cuja elegancia &eacute;
+superior a toda a
+express&atilde;o, bem como o claustro. Decididamente, os senhores
+frades
+d'aquelles tempos tinham bem boas habita&ccedil;&otilde;es, e
+&eacute; pena que se n&atilde;o
+tivessem construido mais, t&atilde;o encantadoras, n&atilde;o
+para lhe servirem
+unicamente de residencia, mas para alegrarem os olhos dos
+<em>touristes</em>.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+Ter visto a Batalha, ter entrado n'aquelle monumento, que &eacute;
+uma
+verdadeira epopeia de pedra, e escrever o que ahi fica, sabe o que
+&eacute;,
+princeza?―&eacute; um diploma. Simplesmente n&atilde;o lhe
+digo de qu&ecirc;.―V&aacute; ter com
+alguns dos muitos estrangeiros illustres que visitaram aquelle
+mosteiro,
+francezes, inglezes, italianos, hespanhoes, russos,
+allem&atilde;es, ou de
+qualquer outra nacionalidade, diga-lhes que viu a Batalha, mostre-lhes
+depois o que escreveu no seu livro... qualquer d'elles lhe
+dir&aacute; de que &eacute;
+o tal diploma...<br />
+
+<br />
+
+Mas, que diabo! tambem n&atilde;o pode haver tempo para tudo, e,
+ella por ella,
+a equipagem do marquez de V. &eacute; decerto muito mais digna de
+atten&ccedil;&atilde;o do
+que o monumental edificio da Batalha!<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; pena, diz sua alteza, que n&atilde;o se tivessem
+construido mais monumentos
+para alegrar os olhos dos <em>touristes</em>...<br />
+
+<br />
+
+Ah! sim, &eacute; pena! pois n&atilde;o! chega a ser uma
+d&ocirc;r d'alma n&atilde;o estar o reino
+de Portugal cheio de monumentos, como a Batalha, para que sua alteza, a
+muito alta e muito nobre princeza Rattazzi, podesse percorrer o paiz
+com
+os olhinhos alegres!<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Porque afinal de contas, o magestoso e sublime mosteiro n&atilde;o
+lhe causou
+nenhuma outra impress&atilde;o... alegrou-lhe o olho.<br />
+
+<br />
+
+Frei Luiz de Sousa, descreve-o com a sua penna de ouro, o inglez Murphy
+estuda-o maravilhado durante largos annos,
+<span class="pagenum">[24]</span>
+o erudito patriarcha D.
+Francisco de S. Luiz dedica-lhe uma extensa memoria:―n'uma palavra,
+nacionaes e estrangeiros, curvam-se reverentes em presen&ccedil;a
+do patriotico
+e veneravel monumento... Rattazzi vae vel-o... faz-lhe a honra de
+conceder-lhe doze linhas... e alegra-se-lhe o olho... Isto
+&eacute;, o mosteiro
+produz-lhe o mesmo effeito que um copinho de <em>chartreuse</em>...
+Vamos
+compatriotas, sirvam caf&eacute; &aacute; princeza, e tragam
+n'uma bandeja... mosteiro
+da Batalha e copos... Sua alteza tem o olhar basso e triste...
+alegremos-lhe o olho... d&ecirc;mos-lhe um calicesinho da <em>sala
+do
+capitulo</em>... Ent&atilde;o princeza, nada de ceremonias...
+Se quer
+mandamos
+tambem buscar os Jeronymos... Beba, beba... Alegre-se... alegre-se...<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; impagavel no fim de tudo esta Rattazzi:―Melicio
+&eacute; espirituoso e
+incisivo, e a Batalha... alegra-lhe o olho...<br />
+
+<br />
+
+Delicioso, como dizia o Leoni nos <em>Amores de Boccacio</em>...<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Tudo quanto o leitor tem visto at&eacute; agora, fica
+por&eacute;m eclipsado pelo
+capitulo em que a muito nobre princeza falla do modo porque os
+estrangeiros s&atilde;o recebidos em Lisboa.<br />
+
+<br />
+
+Leiam:<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Pode dizer-se, sem grande exaggero, que ha um secreto horror
+pelos
+estrangeiros e que s&atilde;o olhados com maus olhos. Entretanto
+esta execra&ccedil;&atilde;o
+tem graus e n&atilde;o deixa de ser curioso fazer o seu estudo.<br />
+
+<br />
+
+Supponhamos que um pobre diabo cae de inani&ccedil;&atilde;o
+n'uma das pra&ccedil;as publicas
+de Lisboa, confessando que n&atilde;o recebeu do c&eacute;u a
+gra&ccedil;a de ter nascido
+cidad&atilde;o portuguez.<br />
+
+<br />
+
+1.&ordm;―Se &eacute; inglez, d&atilde;o-lhe os restos da
+comida do
+dia antecedente.<br />
+
+<br />
+
+2.&ordm;―Se &eacute; allem&atilde;o, um bocado de
+p&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+3.&ordm;―Se &eacute; americano, umas migalhas.<br />
+
+<br />
+
+<span class="pagenum">[25]</span>
+4.&ordm;―Se &eacute; italiano, um copo de agua.<br />
+
+<br />
+
+5.&ordm;―Se &eacute; francez, n&atilde;o lhe
+d&atilde;o nada.<br />
+
+<br />
+
+Aqui est&aacute; approximadamente a grada&ccedil;&atilde;o
+de estima a que um estrangeiro
+p&oacute;de aspirar em Portugal.<br />
+
+<br />
+
+Os inglezes s&atilde;o os mais considerados, o que se explica,
+dizendo-se que
+Portugal &eacute; um pouco uma colonia ingleza, uma terra de
+exporta&ccedil;&atilde;o para os
+productos da Gr&atilde;-Bretanha: o ouro e os uniformes militares
+s&atilde;o inglezes.
+Ha n'este povo meridional muitos costumes anglicanos que ficaram como
+recorda&ccedil;&atilde;o da allian&ccedil;a das armas
+inglezas contra os francezes em 1808.<br />
+
+<br />
+
+Os allem&atilde;es gosam de alguma
+considera&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+Os americanos do norte s&atilde;o antes temidos do que estimados.<br />
+
+<br />
+
+Os italianos s&atilde;o todos pastelleiros ou tenores; &eacute;
+a opini&atilde;o dos
+portuguezes que dou aqui, n&atilde;o a minha. Mas &eacute; uma
+opini&atilde;o perfeitamente
+estabelecida, e qualquer que seja a posi&ccedil;&atilde;o
+social d'um italiano que
+chega a Portugal, ser&aacute; considerado por todos como um
+pastelleiro que fez
+fortuna, ou como um tenor em procura de escriptura.<br />
+
+<br />
+
+Os francezes muito bem acolhidos &aacute; superficie,
+s&atilde;o perfeitamente
+detestados no fundo. Quando n&atilde;o s&atilde;o luveiros,
+cabelleireiros ou
+cozinheiros consideram-os como uns aventureiros. Ha uma avidez por
+todos
+os fructos da sua intelligencia, tira-se-lhes tudo que produzem em
+sciencias, bellas artes e litteratura, mas ninguem se julga em
+obriga&ccedil;&atilde;o
+de lhes dar nada em troca. Detestam-os por instincto. Esta antipathia
+transmitte-se de paes a filhos, ou para melhor dizer, remonta de filhos
+a paes at&eacute; ao primeiro imperio.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Disse uma vez um poeta nosso que certo sujeito era uma perfidia dentro
+d'um assucareiro, d'este trechosinho p&oacute;de dizer-se,
+parodiando aquella
+phrase:―que &eacute; tambem uma perfidia dentro d'outra coisa
+acabada em
+<em>eiro</em>.<br />
+
+<br />
+
+Com que ent&atilde;o em Lisboa quando se encontra um francez cahido
+no meio da
+rua, cheio de fome, morto de inani&ccedil;&atilde;o,
+<span class="pagenum">[26]</span>
+passa-se
+para deante e n&atilde;o se lhe
+d&aacute; nada, absolutamente nada, <em>rien du tout</em>?<br />
+
+<br />
+
+Oh! honestissima e honradissima princeza, porque n&atilde;o se
+atolou mais um
+poucochinho no esterquilinio da calumnia,―para que deixou a cabecinha
+de f&oacute;ra? Que diabo! tem pouca
+imagina&ccedil;&atilde;o vossa alteza! gira-lhe nas
+veias sangue de principes, mas a calumniar n&atilde;o passa d'uma
+burguesinha―porque dizer s&oacute;, que a um francez que se
+encontra estendido
+na pra&ccedil;a publica, nada se d&aacute;, nada se lhe
+faz?―porque n&atilde;o disse antes,
+que se varria esse francez d'envolta com o lixo, porque n&atilde;o
+disse que se
+lhe dava um bolo de strichinina?―<em>Per Baco</em>,
+produzia mais effeito,
+princeza!<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Afinal, de tudo quanto ha no seu livro, a pagina deveras torpe,
+&eacute;
+aquella.<br />
+
+<br />
+
+Do resto, diga-se a verdade, nem quasi valia a pena fallar.<br />
+
+<br />
+
+Ah! mas aquella paginasinha, merece, merece que se escrevam algumas
+linhas...<br />
+
+<br />
+
+Quem lhe disse, princeza, que os francezes eram detestados em Lisboa,
+detestados por instincto?―Eu sei quem lh'o disse,―foi a sua espertesa
+saloia. Vossa alteza sahiu de Portugal despeitada com muita gente,―por
+isto, por aquillo, por aquell'outro,―porque a nossa boa nobreza, que
+ainda a temos, n&atilde;o a visitou;―porque os jornaes
+n&atilde;o fallaram tanto
+quanto vossa alteza queria do seu talento e das suas obras;―porque a
+plat&eacute;a dos Recreios a pateou desapiedadamente; etc. Sahindo
+d'aqui
+despeitada quiz vingar-se. &Eacute; natural. Era preciso
+por&eacute;m para que a sua
+vingan&ccedil;a fosse completa que ella encontrasse echo n'essa
+grande na&ccedil;&atilde;o
+que ainda hoje d&aacute; as leis ao mundo.―&laquo;Vou
+desacreditar Portugal &aacute; face
+da Fran&ccedil;a―&raquo; disse a princeza com os seus
+algod&otilde;es.―Mas para que a
+Fran&ccedil;a fa&ccedil;a o acompanhamento &aacute; minha
+serenata, o que heide eu
+fazer?―Porque afinal a verdade &eacute; esta:―eu sou muito
+conhecida em
+Fran&ccedil;a... Alfonse Karr, Boissieu, Pelletan... que o diabo,
+os confunda
+<span class="pagenum">[27]</span>
+a
+todos,―mostraram bem quem eu sou, nas <em>Gu&eacute;pes</em>
+nas <em>Lettres
+de
+Colombine</em>, na <em>Nouvelle Babylone</em>... Ah!
+j&aacute; sei! exclamou
+vossa alteza
+de repente:―escrevo que os francezes s&atilde;o detestados,
+execrados em
+Portugal... Sim, sim, &eacute; isto:―<em>Tonerre de Dieu!</em>
+estava-me
+desconhecendo... Que tempo levei para fazer uma descoberta afinal
+t&atilde;o
+simples, e tanto na minha indole... &Eacute; claro como
+agua:―dizendo eu que
+os francezes s&atilde;o odiados, detestados, execrados, que ao
+v&ecirc;l'os
+estendidos no meio da rua ninguem os soccorre, e que para ali ficam
+abandonados como famintos c&atilde;os vadios, elles, esses bons e
+enthusiasticos francezes, sentir&atilde;o o fogo da
+indigna&ccedil;&atilde;o girar-lhe nas
+veias, e correndo ao meu palacio, vir&atilde;o gritar em
+c&ocirc;ro debaixo das
+minhas janellas:―Bravo princeza, bravo, quanto dizes d'essa cambada,
+d'essa canalha de portuguezes &eacute; pouco; nunca as
+m&atilde;os te doam, mulher!
+Patifes, deixarem-nos morrer sem soccorros no meio da rua... Tira-lhes
+a
+pelle, escorra&ccedil;a-os, frege-os em postas―e conta que as
+nossas ben&ccedil;&atilde;os
+cahir&atilde;o sobre a tua cabe&ccedil;a.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Ora tudo isto, princeza, permitta-me que repita a phrase,
+n&atilde;o passou de
+esperteza saloia.<br />
+
+<br />
+
+A Fran&ccedil;a, sabe perfeitamente quanto &eacute; querida e
+estimada em Portugal.
+Ella n&atilde;o ignora de certo que na hora da
+prova&ccedil;&atilde;o, quando rebentou essa
+terrivel guerra franco-prussiana, aqui n'esta cidade de Lisboa,―onde
+se
+abandonam vilmente francezes no meio da rua,―todos, sem
+distinc&ccedil;&atilde;o de
+classes, desde o chefe do estado, podemos dizel-o, at&eacute; ao
+mais humilde
+cidad&atilde;o, todos faziam votos para que a victoria fosse coroar
+com a sua
+rutilante aureola as armas d'esse valente e generoso povo, que Portugal
+tem o bom senso de n&atilde;o tornar responsavel pelos actos
+praticados por
+dois dos seus despotas.<br />
+
+<br />
+
+E olhe vossa alteza princeza:―tudo isto aconteceu estando um Bonaparte
+&aacute; frente da Fran&ccedil;a... Hoje, que n
+E olhe vossa alteza princeza:―tudo isto aconteceu estando um Bonaparte
+&aacute; frente da Fran&ccedil;a... Hoje, que n&atilde;o
+<span class="pagenum">[28]</span>
+est&aacute; l&aacute; nenhum, calcule como ter&aacute;
+augmentado a nossa sympathia por aquella grande
+na&ccedil;&atilde;o.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+A esperteza saloia precisava de correctivo. Ahi fica. A princeza diz
+que
+n&oacute;s os portuguezes somos muito pacientes. Assim
+&eacute;, mas quando um
+mosquito come&ccedil;a a zumbir-nos aos ouvidos, a importunar-nos,
+depois de o
+sacudirmos, uma, duas, tres vezes, zangamo-nos e damos-lhe uma palmada
+com tanta vontade... que o esborrachamos.<br />
+
+<br />
+
+&Eacute; uma porcaria, d'accordo. Mas tambem para que serve a agua?
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Agora as ultimas palavras... as palavras da despedida.<br />
+
+<br />
+
+N'uma carta circular que sua alteza dirigiu &aacute; imprensa
+diz:―<em>Il faut me
+pardonner quelques plaisanteries sans importance et sans parti pris...</em>
+que &eacute; como se dissesse:―queiram os senhores desculpar
+alguns gracejos
+innoffensivos e sem inten&ccedil;&atilde;o...<br />
+
+<br />
+
+Ah! pois n&atilde;o princeza! Com todo o gosto... Sem mais aquella,
+como se diz
+em giria... E se o nosso folheto tiver a honra de ser lido por vossa
+alteza, lembre-se das suas linhas e queira tambem
+desculpar-nos:―<em>quelques plaisanteries sans importance et
+sans parti
+pris</em>.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<div class="break">
+<hr /></div>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Segue a biographia da princeza.<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<br />
+
+<h2>BIOGRAPHIA</h2>
+
+<br />
+
+<br />
+
+Rattazzi―(Maria Studolmire Wyse, princeza de Solms, depois condessa)
+mulher de lettras franceza, nascida em Waterfard (Inglaterra) em 1833.
+&Eacute;
+neta de Luciano Bonaparte, irm&atilde;o de Napole&atilde;o I, e
+filha de Letizia
+Bonaparte, e de sir Thomaz Wise, membro do parlamento de Inglaterra,
+que
+morreu ministro plenipotenciario da Gr&atilde;-Bretanha em Athenas.
+Descendente
+de uma serie de uni&otilde;es consideradas como outras tantas
+<em>mesalliances</em>
+para a familia Bonaparte, foi sempre considerada por esta como uma
+intrusa, ou como uma inimiga. Quando o principe Luiz, seu primo, foi
+eleito presidente da Republica franceza, prohibiu-lhe formalmente que
+usasse o nome de Bonaparte-Wise, pelo qual eram conhecidos seu pae e
+seu
+irm&atilde;o. Entretanto, a sua filia&ccedil;&atilde;o
+napoleonica, est&aacute; t&atilde;o bem estabelecida
+sen&atilde;o melhor que a do seu proprio primo. Seu av&ocirc;
+Luciano, principe de
+Canino, cas&aacute;ra, em segundas nupcias, com madame Bleschamp,
+viuva de um
+agente de cambio, casamento que descontentou muito Napole&atilde;o,
+e fez
+romper todas as rela&ccedil;&otilde;es da familia imperial com
+Luciano; este, tendo-se
+retirado &aacute; Italia, fez naturalisar romanos todos os seus
+filhos, t&atilde;o
+pouca era a sua f&eacute; na restaura&ccedil;&atilde;o da
+dynastia a que pertencia. A neta,
+nascida de m&atilde;e romana, Letizia Bonaparte, e de pae irlandez,
+era
+realmente uma Bonaparte, mas t&atilde;o pouco franceza quanto
+possivel. Foi
+comtudo educada na casa da Legi&atilde;o de Honra de S. Diniz, e,
+como n&atilde;o
+tivesse meios, fez-se professora.<br />
+
+<br />
+
+Em 1848, quando &aacute; familia Bonaparte foi permittida a entrada
+em Fran&ccedil;a,
+e o principe Luiz se propoz a presidente da Republica Franceza, foi
+pedida em casamento por Mr. Frederico de Solms, rico alsaciano que a
+dotou em 700 ou 800 mil francos, esperando que ella viesse a ser uma
+das
+estrellas da futura c&ocirc;rte de seu primo, e que assim o
+<span class="pagenum">[30]</span>
+levasse
+&aacute;s
+grandezas. N&atilde;o aconteceu nada d'isto. Os Bonapartes, e
+principalmente o
+futuro Napole&atilde;o 3.&ordm; n&atilde;o a consideraram
+como da
+familia; como o pae da
+segunda mulher de Luciano occupara um emprego d'inspector <em>nos
+direitos
+reunidos</em>, pretendiam n&atilde;o terem nada de commum com
+a
+descendente d'um
+vendedor de tabacos, e foi isto o que os jornaes do Elysseu lhe
+disseram, nu e cru, quando Madame de Solms, posto que muito nova ainda,
+porque ent&atilde;o apenas contava 16 annos, come&ccedil;ou a
+tornar-se notavel.<br />
+
+<br />
+
+Lan&ccedil;ou-se ent&atilde;o na
+opposi&ccedil;&atilde;o, attrahiu a sua casa algumas
+notabilidades
+do partido democratico, abriu as suas salas aos litteratos, deu festas
+esplendidas, e ostentou um luxo que tinha a
+preten&ccedil;&atilde;o de fazer epoca na
+historia contemporanea. No seu pequeno circulo comparavam-a a
+mademoiselle Montpensier e dizia-se que do seu <em>boudoir</em>
+sahiria uma
+nova Fronda. Por occasi&atilde;o do golpe de estado de 2 de
+dezembro, em que
+estavam implicadas algumas pessoas que frequentavam as suas salas,
+julgou-se tambem obrigada a deixar a Fran&ccedil;a, habitando ora
+em Roma, na
+Belgica, ora as cidades de caldas mais notaveis.<br />
+
+<br />
+
+Considerava-se como exilada, e tendo alguns jornaes publicado que ella
+pedira para ser amnistiada, fez-lhes publicar esta resposta
+altiva:―&laquo;S&oacute;
+um governo liberal e sensato me p&oacute;de fazer voltar
+&aacute; Fran&ccedil;a. At&eacute; o dia em
+que triumphem as nossas liberdades, acceito o exilio; mas protesto
+energicamente contra toda e qualquer nova
+insinua&ccedil;&atilde;o, grave ou pueril,
+tendente a fazer admittir que, no presente ou no futuro, sob qualquer
+considera&ccedil;&atilde;o, e em qualquer extremidade em que me
+encontre, eu possa
+ligar-me directa, ou indirectamente, a uma familia da qual me separei
+voluntaria e seriamente.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+Isto n&atilde;o a impediu de entrar em Fran&ccedil;a em fins de
+1852; mas em fevereiro
+de 1853, recebeu ordem de expuls&atilde;o e seu primo fel-a
+conduzir &aacute;
+fronteira acompanhada pelos gendarmes. A causa d'esta
+expuls&atilde;o
+escandalosa era sempre a mesma, a sua obstina&ccedil;&atilde;o
+em querer usar o nome
+de Bonaparte que lhe negavam. Protestou pelos tribunaes, encarregou
+Berryer de a defender, e o governo fez admittir pelos jornaes que a
+ordem (arr&ecirc;t&eacute;) d'expuls&atilde;o estava em
+<span class="pagenum">[31]</span>
+f&oacute;rma, visto que madame de Solms era
+estrangeira e casada com um estrangeiro n&atilde;o naturalisado.
+&Eacute; muito
+provavel que M. de Solms, nascido em Strasburgo, fosse francez; mas o
+governo obteve d'elle uma declara&ccedil;&atilde;o na qual
+dizia n&atilde;o reclamar a
+qualidade de francez. Na <em>Patria</em> foi publicada a
+seguinte nota:<br />
+
+<br />
+
+&laquo;Por ordem do sr. intendente geral da policia, foram expulsos
+do
+territorio francez madame de Solms, dizendo-se condessa de Solms, e M.
+Wyse, (seu irm&atilde;o, M. Bonaparte-Wyse) ambos estrangeiros;
+estas duas
+pessoas usavam sem direito nenhum o nome de Bonaparte, e longe de
+respeitarem o nome illustre que usurparam, serviam-se ao contrario
+d'elle para se entregarem a escandalos desordenados, afim de mais
+facilmente abusarem da credulidade das pessoas com quem estavam em
+contacto. A ordem do sr. intendente geral de policia foi posta em
+execu&ccedil;&atilde;o e madame de Solms e o sr. Wyse deixaram
+a Fran&ccedil;a.&raquo;<br />
+
+<br />
+
+Quando se fez a annexa&ccedil;&atilde;o de Nice e da Saboya
+(1862), pediu a Napole&atilde;o
+III a permiss&atilde;o de ficar em Fran&ccedil;a, e obteve
+mesmo a de voltar a Paris;
+abriu ali o seu sal&atilde;o, como antigamente, deu festas,
+escreveu chronicas
+e <em>causeries</em> em varios jornaes, o <em>Pays</em>,
+o <em>Constitutionel</em>, o
+<em>Turf</em>,
+etc., fez fallar de si, como de costume, e, tendo-se reconhecido n'um
+malicioso retrato tra&ccedil;ado por M. de Boissieu, (<em>Fragment
+d'histoire, une
+des plus spirituelles lettres de Colombine</em>, 1863), intentou
+no
+<em>Figaro</em>
+uma indemnisa&ccedil;&atilde;o de 200:000 francos de perdas e
+damnos. O tribunal
+regeitou-lh'a. Entretanto tendo-lhe morrido o marido, uniu-se a
+Rattazzi
+n'uma das suas viagens a Turim, e esta liga&ccedil;&atilde;o
+teve algum tempo depois o
+casamento por desenlace. A sua estada em Paris em 1865 trouxe-lhe novas
+decep&ccedil;&otilde;es; foi-lhes dada nova ordem de
+expuls&atilde;o e retirada uma pens&atilde;o de
+que havia tres annos gosava. Desde ent&atilde;o madame Rattazzi
+viveu
+constantemente em Turim, Floren&ccedil;a e Roma, e publicou grande
+numero de
+volumes. Um dos seus romances, <em>Richeville</em>, fez
+algum barulho na
+Italia, e valeu ao marido de madame Solms, algumas
+provoca&ccedil;&otilde;es em
+duello.
+</div>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's A princeza na berlinda, by Urbano de Castro
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A PRINCEZA NA BERLINDA ***
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+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
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+The Project Gutenberg EBook of A princeza na berlinda, by Urbano de Castro
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+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A princeza na berlinda
+ Rattazzi a vol d'oiseau, com a biographia de sua Alteza
+
+Author: Urbano de Castro
+
+Release Date: December 13, 2006 [EBook #20103]
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+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A PRINCEZA NA BERLINDA ***
+
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+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+
+
+
+RATTAZZI A VOL D'OISEAU
+
+
+
+
+URBANO DE CASTRO
+
+CHA-RI-VA-RI
+
+
+
+
+A PRINCEZA NA BERLINDA
+
+
+RATTAZZI A VOL D'OISEAU
+
+COM A BIOGRAPHIA DE SUA ALTEZA
+
+
+(SEGUNDA EDIÇÃO)
+
+
+LISBOA
+TYPOGRAPHIA PORTUGUEZA
+7, Rua da Paz, 7
+1880
+
+
+
+
+A PRINCEZA NA BERLINDA
+
+
+Não será talvez máo começar por fazer uma declaração:--nunca passei
+pelos beiços os guardanapos da princeza... Parece-me conveniente dizer
+isto. A _minha terra_, que era pequena no tempo de Garret, não me consta
+que tenha crescido, depois da sua morte... Tem até diminuido um pouco...
+talvez!
+
+ * * * * *
+
+Foi pelos jantares que a princesa conseguiu tornar-se conhecida em
+Lisboa. Quando aqui chegou, vendo que ninguem a procurava, que a
+litteratura não corria pressurosa ao _Bragança_, cumulando-a de elogios
+banaes e de bilhetes de visita baratos, sentio dentro da sua alma a
+mordedura cruel do amor proprio offendido. E amor proprio de mulher,
+amor proprio de princeza! Calculem que dentada! Esperou, um, dois, tres
+dias... uma semana, outra... a litteratura não apparecia!--Pois ha de
+apparecer! exclamou ella--E convidou-a para jantar. E a litteratura
+appareceu. Os livros da princeza, que até então ninguem conhecia em
+Lisboa, e que ella mandara adiante para os livreiros, como batedores da
+sua fama, começaram por essa epoca a ter uma tal ou qual extracção. Não
+é difficil advinhar quem os comprava--eram os convivas dos seus
+jantares--Comprehende-se. Realmente seria pouca amabilidade comer o
+_foie gras_ de Rattazzi, e não dizer ao menos, no fim, que era admiravel
+o seu livro _Si j'etais reine_; beber o champagne da princeza, e não lhe
+segredar que nunca mulher nenhuma escrevera um volume como _Nice la
+Belle_. E a proposito dos livros citavam-se os trechos das paginas
+abertas, abril-os seria muito, e bebia-se mais um copo. A princeza, que
+é inquestionavelmente uma mulher d'espirito, percebeu, o que de resto
+não era muito difficil, a _manobra fraudulenta_, como diz o sr. Duc nos
+livros de mortalhas, dos litteratos de Lisboa...
+
+Callou-se porém muito bem callada e continuou a dar-lhes jantares
+hebdomadarios. A concorrencia cada vez era maior. Houve sujeito que se
+fez litterato, só para jantar com a princeza. Cá fóra, no Martinho e na
+Havanesa, esses jantares eram digeridos e commentados com a face
+vermelha e a palavra quente... Contavam-se anecdotas, que é deveras pena
+não terem chegado aos ouvidos da princeza, porque, algumas d'ellas não
+são em nada inferiores a muitas que lêmos no seu livro...
+
+E aqui está como madame Rattazzi conseguiu durante um mez ser uma
+notabilidade em Lisboa. Sua altesa, porém, em vez de contentar-se com
+esta gloria, embora de 2.^a ordem, lembrou-se um dia de querer uma
+gloria de 1.^a sorte, e escreveu uma comedia que, depois de muito
+applaudida em sua casa pelos seus commensaes, foi representada no
+theatro dos Recreios, a quem ella, com carradas de rasão chama um
+calvario, visto que lá teve... a cruz da pateada...
+
+Tambem que diabo de publico este de Lisboa... atrever-se a patear uma
+princeza... Se sua alteza tem a mania dos cumulos,--e porque não a
+terá?--sim, porque não terá sua alteza a mania dos cumulos, se a tem, é
+impossivel que pelo seu preclaro espirito não tivesse passado este--o
+cumulo da selvageria:--_Patear uma princeza_...
+
+Ah! decididamente sua alteza não estava em sorte... _Pas de chance_! No
+hotel os convivas faziam muito mais despeza de iguarias do que de
+elogios; nos Recreios, o publico muita mais despeza de botas do que de
+luvas... _Pas de chance_!
+
+ * * * * *
+
+Foi então, naturalmente, que o seu espirito se orientou na direcção a
+dar ao _Portugal à vol d'oiseau_.
+
+--Ah! os senhores julgam que não é mais do que comerem-me os meus
+jantares, do que patearem-me as minhas peças, esperem ahi que já os
+ensino! Até aqui tenho-os recebido como convivas, agora vou passar a
+tratal-os como assumptos! Os senhores pensam, quando estão á minha mesa,
+que são meus commensaes?--pois enganam-se, são paginas para o meu livro!
+Não sou eu quem os obsequeio aos senhores, os senhores é que me
+obsequeiam. Escusam de dizer «muito obrigado!» eu é que tenho que
+dizer-lhes «_merci_»!
+
+E escreveu _Le Portugal à vol d'oiseau_.
+
+ * * * * *
+
+Lisboa já sabe pouco mais ou menos o que o livro é. Os jornaes tem dado
+excellentes amostras d'aquella famosa peça...
+
+Porque não havemos nós de dar tambem algumas? Estes dois perfis da nossa
+nobreza, por exemplo...
+
+Venha primeiro o conde de ***
+
+«--O conde *** um dos meus valsistas, e um valsista encantador, entre
+parenthesis, não é menos notavel. De muito antiga e nobre familia, é
+verdadeiramente um dos typos mais salientes de Lisboa. Orça pelos
+cincoenta, mas não obstante apparenta um grande ar de mocidade.
+Baixinho, apurado, e elegante, ha em toda a sua pessoa uma excessiva
+vivacidade. Esta vivacidade será natural ou o resultado d'um estudo
+paciente para parecer ainda mais novo?
+
+Talvez que sim a avaliar a sua petulancia pelo mais. Os bigodes do conde
+de *** são mais negros do que o ebano.
+
+Mas isto não é nada comparado ao craneo do encantador conde; o
+proprietario d'este craneo conserva n'elle alguns cabellos, raros,
+semeados aqui e ali, tratados com zelosos cuidados, e que puchados
+artisticamente para a testa, ahi occupam o maximo espaço possivel para
+assim substituirem os ausentes. Para suprir os defuntos põe no cucuruto
+uma especie de pequeno crescente--não, eu nunca ousaria dizer chinó
+fallando de tão perfeito cavalheiro--que se confunde graciosamente com
+os cabellos: depois cobre tudo isto com uma espessa camada de pez e
+summo de alcaçuz de que faz uma pomada a fogo lento; por fim o seu
+creado de quarto, confidente d'esta excentricidade, traça no meio d'esta
+pasta de _raisiné breton_, uma risca d'uma delicadeza, d'uma puresa,
+d'uma nitidez a causar inveja a uma rapariga de quinze annos. Quando a
+cataplasma está secca, o conde póde apparecer no meio dos seus
+concidadãos. Todos conhecem o mysterio d'aquella cabeça e ha delirios de
+alegria quando o excellente homem é obrigado, em pleno sol ou em pleno
+baile, a andar de chapeu na mão, porque o calor tendo acção dissolvente
+sobre aquella untura, resulta d'ahi começar ella a mover-se, a palpitar,
+a derreter-se, acabando por escorrer pelo pescoço e pelo nariz do seu
+proprietario.
+
+Não obstante o conde de *** é um grande conquistador, um namorador que
+não perde occasião de deitar a sua olhadella, sendo porém capaz de
+praticar heroismos, como o demonstram varias circumstancias da sua vida.
+
+Conta-se este facto digno dos melhores tempos da monarchia. O conde era
+camarista da infanta D. Izabel, que morreu ha annos, em avançada edade,
+no seu palacio de Bemfica nos arrebaldes de Lisboa. Sendo os principes
+da familia real depositados na egreja de S. Vicente, situada n'um dos
+extremos da cidade opposto a Bemfica, o cortejo funebre teve de
+percorrer duas leguas, a passo, em pleno mez de julho.
+
+O conde devia seguir a cavallo, uniformisado e de cabeça descoberta, o
+corpo da sua real ama, debaixo d'um sol torrido, o que elle fez
+magnanimamente, sem trepidar, entregando aos abrasadores raios de Phebo
+a sua untura quotidiana--facil presa--sem temer a troça dos graciosos
+que, no dia seguinte, alludindo á liquefação do cosmetico, diziam por
+toda a parte que ninguem figurara no cortejo com o rosto mais
+tristemente cheio de luto do que o infeliz conde de ***.»
+
+Igual a isto só aquella celebre caricatura do _Antonio Maria_...
+«_Dá-lhe cuspo_...»
+
+ * * * * *
+
+Agora o marquez de V. ***
+
+ * * * * *
+
+--«Como exemplo não, quero citar senão um dos meus amigos o marquez de
+V. ***. Vale bem a pena. É uma personalidade, uma celebridade, uma
+curiosidade de primeira ordem. Em vão lhe procurariam rival na galeria
+do duque de Saint-Simon, e ainda menos na collecção tão rica de Moliére.
+Em certas festas de gala ou de representação exterior, o marquez de V.
+*** julga-se obrigado a seguir as carruagens da côrte na sua equipagem,
+e é esta equipagem que faz do nobre marquez uma curiosidade unica do
+mundo.
+
+Imagine-se um coche do seculo passado, envidraçado de modo a ver-se todo
+o interior, montado sobre molas e rodas que fazem pensar nas machinas de
+_Leviathan_, tudo isto pintado de verde, cheio de dourados em alto e
+baixo relevo. No meio d'esta caixa throno, o marquez de V. *** só, de
+cabeça descoberta, com o grande uniforme d'uma ordem qualquer, com os
+olhos fitos na sua frente, parecendo contemplar em extase as abas da
+libré do seu cocheiro, não voltando a cabeça nunca, nem para a direita
+nem para a esquerda: dir-se-hia uma estatua e não um homem.
+
+A carruagem é atrelada a quatro cavallos, montados por dois postilhões e
+guiados por um cocheiro gorducho sentado n'uma almofada que parece um
+divan. Na taboa da carruagem dois enormes lacaios em pé. Todo este
+pessoal vem empoado e veste uma libré verde claro que deslumbra a vista
+e faz piscar os olhos. Não se póde imaginar nada mais original. Quando a
+cerimonia terminou e a parte official do programma está cumprida, o
+marquez faz gravemente o giro das principaes ruas e praças de Lisboa
+para se fazer admirar. Em Paris entraria em casa corrido a batatas
+cozidas. Aqui deixam-o em paz--_é costume_.
+
+Se eu fosse rei de Portugal prohibia a este fidalgo, sob as mais graves
+penas, de me fazer assim cortejo com a sua entrudada, mas, com isso,
+arriscaria talvez a minha corôa.
+
+É de justiça acrescentar que o marquez de V. é um homem instruido. Que
+seria, Deus meu, se o não fosse!»
+
+Realmente está parecido... O _Antonio Maria_ não o faz melhor...
+
+ * * * * *
+
+Depois d'estes perfis hilariantes como o protoxido de azote, tenha o
+leitor a paciencia de me acompanhar ao capitulo em que sua altesa nos dá
+a honra de fallar dos nossos enterros.
+
+Dêmos a palavra á princeza:
+
+«É realmente coisa curiosa que acompanhando o pae os filhos ao
+cemiterio, estes não acompanhem os paes: não é costume. Deixa-se este
+cuidado aos parentes mais affastados ou aos amigos. Porquê? Não m'o
+poderam explicar: acho porém esquisito.»
+
+Está no seu direito. Foi porém mal informada. Os paes tambem não
+acompanham os filhos. Quanto a achar o caso estranho não tem de quê. O
+facto de em França os parentes mais proximos acompanharem os cadaveres
+dos seus defunctos não prova nada, senão que até na morte é verdadeiro o
+dictado:--_Cada terra com seu uso_... O que é deveras esquisito, é
+querer sua altesa que os costumes sejam os mesmos em todos os paizes.
+Para quem se propõe escrever livros de viagem, não póde haver ponto de
+vista mais ridiculo nem mais acanhado.
+
+Continua a auctora:--«Quando uma pessoa morre, a familia não envia
+cartas de participação. Faz um annuncio nos jornaes, e está tudo
+prompto, visto que o dito annuncio termina invariavelmente por este
+_cliché_: _Não se fazem convites especiaes attendendo ao estado de
+consternação indizivel em que a familia está_...
+
+Comprehendo muito bem que a familia esteja n'um estado de consternação
+indizivel: entretanto, visto que esta consternação lhe permitte fazer
+annuncios nos jornaes, parece-me que, com um pequeno esforço, lhe
+permittiria tambem enviar cartas de participação impressas a casa de
+cada um, como se faz nos outros paizes.
+
+Resulta com effeito d'este costume que, se não se lerem os jornaes, ou
+antes os annuncios dos jornaes, póde muito bem acontecer deixar uma
+pessoa de acompanhar ao cemiterio o seu tio, primo, ou o seu melhor
+amigo.»
+
+Foi ainda mal informada sua alteza. É verdade que muitas vezes o
+annuncio funebre termina por aquelle molho, mas não é menos verdade que
+rarissimas vezes se deixa de enviar cartas de participação. Sua alteza
+não recebeu nenhuma, e por isso naturalmente lembrou-se de nos ensinar
+como estas coisas se fazem nos paizes civilisados. Obrigado princeza.
+Quanto a não ter recebido carta alguma de participação desculpe:--hei de
+mandar-lhe uma... quando morrer o meu Tareco.
+
+Coitada! Infeliz princeza! Ninguem lhe mandou carta de participação.
+Então que se lhe ha de fazer, no nosso paiz os enterros serão tudo
+quanto quizer... mas não são entrudadas...
+
+A respeito dos chavões com que é costume fechar annuncios funebres
+faltou-lhe ainda um. É este:--_não se fazem convites especiaes por
+expressa determinação do finado_. Foi pena escapar. Que bella pagina
+humoristica não escrevia a princeza com thema tão divertido!
+
+ * * * * *
+
+Mas nem só os enterros tem a honra de espantar sua alteza... O livro
+está cheio de exemplos do mesmo genero.
+
+Sente-se mesmo em algumas paginas que a princeza não chega a contar
+metade dos seus espantos... Qual metade!--nem a decima, nem a centesima,
+nem a milesima parte...
+
+Porque a verdade é esta:--sua alteza apenas transpoz a fronteira começou
+a sentir as dôres... do espanto... Exactamente, agora é que eu
+acertei... começou a sentir as dôres do espanto, e o seu livro, que até
+hoje ninguem sabia bem o que é, passa agora muito logicamente a ser o
+feliz parto que a alliviou das citadas dôres, logo que ella se viu em
+terreno conhecido, que é como quem diria:--logo que a natureza permittiu
+que o robusto menino visse a clara luz do dia...
+
+Espanto! Espanto! sempre espanto!
+
+Os portuguezes não dizem «até manhã» dizem «até ámanhã se Deus
+quizer»--espanto: não acompanham seus paes ao cemiterio,--espanto: as
+varinas carregam-se de oiro,--espanto: vae muita gente aos bastidores de
+S. Carlos,--espanto: dizemos _um copo d'agua_ e não _un verre
+d'eau_,--espanto: estamos a uma latitude e a uma longitude differentes
+de Paris,--espanto: as nossas pulgas mordem,--espanto: o nariz do sr.
+Minhava é enorme,--espanto: _pomme de terre_, chama-se
+batatas,--espanto: uma _precieuse ridicule_ é uma tola... espanto!
+
+Espanto, espanto, sempre espanto!
+
+Porque não escreveu o seu livro tal qual o pensou princeza?
+
+Porque não nos deu, por exemplo, uma pagina n'este genero:--«Uma vez,
+tendo entrado casualmente n'uma egreja, approximei-me d'uma mulher que
+estava rezando, em voz sufficientemente alta, para que se podesse
+perceber o que ella dizia... Approximo-me mais, e calculem o meu
+espanto, ao ouvir estas palavras:--_Padre, nosso, que estaes nos céus
+santificado_... Accreditarão agora que isto quer dizer em
+portuguez:--_Notre père qui étes aux cieux, que votre nom soit,
+santifié_...
+
+Como diabo, perdoe-se-me a heresia, quererão os meus bons amigos
+portuguezes que Nosso Senhor os entenda?»
+
+E não seria este por certo o menos notavel dos seus espantos.
+
+ * * * * *
+
+Antes de passarmos adiante contemos um disparate que não deixa de ter
+graça. A paginas, não sei quantas, escrevendo a princeza que nós não
+fazemos uso de fogões para aquecer as casas, diz pouco mais ou menos o
+seguinte:--De resto, se fizessem uso d'elles, não se haviam de vêr em
+pequenos embaraços para arranjar o combustivel, a não ser que deitassem
+a mobilia ao fogo. A lenha é absolutamente desconhecida em Portugal, e
+custa cada kilo... tres mil réis!»
+
+--Oh! princeza, se vossa alteza quando esteve em Lisboa pagou a lenha
+por aquelle preço, devo dizer-lhe duas coisas:--a primeira, é que o seu
+livro passa a ser um favo do Hymeto, a segunda... é que foi roubada!
+
+ * * * * *
+
+O que é verdade porém é que Lisboa deve um grande serviço á princesa.
+Nem mais nem menos do que a rusga feita ás casas de jogo nos principios
+d'este mez.
+
+Se duvidam, leiam.
+
+ * * * * *
+
+Ha muito que no governo civil havia uma tal ou qual suspeitasinha, uma
+vaga desconfiança, de que a roleta, esse terrivel philloxera das
+algibeiras, tivera o inqualificavel arrojo, o descaro inaudito de
+assentar os seus arraiaes--aqui--na patria de Camões, nas bochechas do
+sr. Rosa Araujo, representante da dita patria. Mas tudo era vago,
+incerto, nebuloso... A policia posta em campo nada descobrira.
+Procurara-a,--oh! se a procurara!--como o nauta procura o norte, como a
+ave procura o ninho, como a féra o seu covil--mas, apesar de a procurar
+com todo este excesso de poesia, o resultado era sempre o mesmo... nada,
+nada, nada, tres vezes nada coisa nenhuma!
+
+O habil Antunes, o eximio Castello Branco, o nunca assás cantado 37--e
+muitos outros egualmente habeis, egualmente eximios, egualmente nunca
+assás cantados, encarregados secretamente de a descobrirem, pozeram em
+pratica as maiores subtilesas policiaes. Um d'elles chegou a
+disfarçar-se em G. L. P... Nem assim a encontrou!
+
+Nada os fazia recuar, nada os intimidava, desconheciam... e creio que
+ainda desconhecem, o verbo trepidar! Passeios, botequins, theatros, tudo
+assaltaram em busca da criminosa... Era um phrenesi, um delirio, uma
+raiva... Mas a scelerada não apparecia!
+
+--E comtudo ella existe! exclamava o governo civil com o tom solemne com
+que por muito tempo se julgou que o sabio Gallileu dissera o
+legendario:--_E pur si muove_!
+
+Era para perder a cabeça.
+
+ * * * * *
+
+Estavam as coisas n'estes termos quando chegou o livro da princeza. O
+governo civil compra-o, começa a lêl-o e ao chegar a paginas 149, já não
+diz: «E comtudo ella existe!» no tom de Gallileu, mas, qual outro
+Archimedés, _toilette_ aparte, solta do fundo do seio um jubiloso
+_Eureka_!
+
+Ah! é que effectivamente o caso não era para menos. A pagina 149,
+fallando das batotas, diz a princeza:
+
+ Ha uma na rua do Alecrim.
+
+ Uma, rua das Gavias.
+
+ Uma, praça de Camões.
+
+ Duas, rua da Emenda.
+
+ Uma, rua de S. Francisco.
+
+ Uma, travessa de Santa Justa.
+
+ Tres ou quatro á Ribeira Velha.
+
+--Obrigado meu Deus! exclamou então o governo civil imitando d'esta vez
+a sr.^a Emilia das Neves, obrigado meu Deus!
+
+ * * * * *
+
+E aqui está como a policia conseguiu saber onde eram as batotas. Ah!
+princeza, princeza, vossa alteza merecia que pelo menos a fizessem...
+chefe d'esquadra.
+
+E note-se mais, é ella, é ella quem ensina no seu livro como se faz uma
+rusga. Duvidam?
+
+Leiam.
+
+«--Em Paris a policia tem um serviço especial para este genero de
+industria prohibida. Os agentes d'este serviço espiam os batoteiros,
+estudam cuidadosamente o terreno, e uma bella noite cahem lá dentro como
+um raio e prendem todos, levando o dinheiro que está em cima das mesas.»
+
+A policia seguiu as instrucções da princeza tanto á risca, que até
+escolheu uma bella noite, _une belle nuit_, para fazer a sua rusga!
+
+Diz ainda sua alteza:--A mobilia é confiscada... e a policia confiscou a
+mobilia.
+
+Decididamente, a princeza tem todo o direito... a um apito honorario!
+
+ * * * * *
+
+Vejamos agora como sua alteza falla de alguns dos nossos escriptores.
+
+ * * * * *
+
+--_Camillo Castello Branco_, que parece o condemnado aos trabalhos
+publicos da litteratura portugueza, escreve, escreve, escreve, escreve
+sempre: superiormente, é questão controversa; enormemente, com certesa.
+A quantidade excede em muito a qualidade, diz-se, (diz ella); dotado de
+uma actividade laboriosa, infatigavel, comparavel á de uma legião de
+formigas, construe romances contemporaneos sobre romances historicos,
+com uma preseverança e uma sequencia que intrigam a imaginação. É uma
+especie de Quevedo com certo sentimentalismo catholico.
+
+Particularidade curiosa: em todos os seus romances entram
+infallivelmente um brazileiro, uma menina que se mette n'um convento, um
+fidalgo provinciano, e um namorado amorudo e transparente. É invariàvel
+como a chuva e o bom tempo. De fórma, que o primeiro romance que se lê
+do sr. Branco parece muito interessante, o segundo accorda
+remeniscencias, e o terceiro adivinha-se; o quarto sabe-se de cór,
+volta-se a pagina sabendo-se o que vae passar-se. É uma galeria de
+personagens que raramente se renova, como a dos museus de figuras de
+cera. Os seus principaes romances são: _Onde está a felicidade_, _Doze
+casamentos felizes_, _O que fazem mulheres_, _Historia d'um homem rico_;
+são feitos com este arcabouço em que as vigas, as asnas e os alicerces
+são invariavelmente os mesmos.»
+
+ * * * * *
+
+«--_Bulhão Pato_. É um peninsular, um sybarita, um camaleão. Como muitos
+rapazes que se dizem artistas pintores ou esculptores, para terem o
+direito de usar umas enormes cabelleiras e de adoptarem umas maneiras e
+um modo de fallar desbragado, este, fez-se poeta, o que na alta
+sociedade de Lisboa é um titulo de apresentação.
+
+O sr. Bulhão Pato é incontestavelmente um homem d'uma conversação
+encantadora. Passando por espirituoso e mordente, imaginou que para ser
+um genio lhe bastava o querer sel-o, esquecendo que não é poeta quem
+quer. Assim, creou-se por si só, e por si só, ainda, se julga um grande
+poeta. O seu poema, a _Paquita_, é uma imitação dupla do estylo
+aggressivo de Byron e da finura de Musset, um urso fazendo rendas de
+Alençon. Escreveu muitos volumes de versos, satiras, novellas, etc.,
+onde se não encontra o reflexo do espirito notavel que tem a fallar. O
+que escreve não traduz o que diz (_Sa plume ne traduit pas sa langue_).
+Para acabar este retrato é necessario acrescentar que é impertinente,
+irritavel, invejoso, que pouco sabe da vida, julga-a mal, e por isso
+mesmo declara-se descontente com cada um e com todos, passando a vida a
+lamentar-se sem rima nem rasão.»
+
+N'uma nota continúa no mesmo tom amavel chamando-lhe o _poeta da melena_
+(_poète aux longs cheveux_).
+
+ * * * * *
+
+«--_Ernest Biestero_, o grande magro litterario de quem Castilho
+dizia:--É um fructo de inverno, por mais que o expremam não deita nada!
+O que elle traduziu, apanhou, pilhou, é incalculavel: seriam necessarios
+volumes só para fazer a sua rapida enumeração.
+
+Os seus dramas originaes, _Caridade na sombra_, _Moscovellos_, _Natureza
+de alma_ (?) são uma galeria de manequins sem vida e até sem cordeis.
+Deve accrescentar-se--segundo a chronica--que os seus dramas são
+retocados por seu cunhado Mendes Leal. O que os não embelleza!
+
+Biester teve a gloria de ser um dos fundadores da _Revista Contemporanea
+de Portugal e Brazil_, que durou cinco annos, onde se acham associadas
+todas as individualidades do _elogio mutuo_.»
+
+ * * * * *
+
+«--_Mendes Leal_ (José da Silva) nasceu em Lisboa em 1820. Sem talento e
+até sem disposições dramaticas escreveu muitos dramas e romances
+historicos. É o litterato portuguez que fez mais plagiatos, e isto com a
+maxima audacia e sem-cerimonia. O seu theatro pertence á escola do
+ultra-romantismo, e os _Dois renegados_, que passam por ser a fina flôr
+da sua corôa litteraria, são um drama insipido, cheio de punhaes,
+venenos e ciladas. O seu romance _Calabar_ é completamente tirado do
+_Bateur d'Estrade_, de Paul Duplessis; as suas poesias formam um volume
+no qual só uma poesia é digna de menção, a _Morte de Carlos Alberto_.
+Este fructo secco da litteratura foi bibliothecario de Lisboa, ministro,
+e finalmente ministro plenipotenciario em Paris. O que prova que as
+mediocridades são muita vez empregadas.»
+
+ * * * * *
+
+Agora querem saber como apparecem os nomes portuguezes no livro da
+princeza? Ahi vae uma amostra.
+
+_Odio velho não cança_, o notavel romance de Rebello da Silva,
+é:--_Odio, velho, vraô cauca_.
+
+_O prato de arroz dôce_, de Teixeira de Vasconcellos, chama-se:--_O
+Porto de oroz dou_.
+
+_As tempestades sonoras_, de Theophilo Braga, são:--_As tempos tades
+sanoras_.
+
+_Moços e velhos_, que a princeza erradamente attribue a Ernesto Biester,
+apparece assim no livro:--_Mocosvellos_.
+
+ * * * * *
+
+Aos theatros de Lisboa faz sua alteza a honra de lhes consagrar um
+capitulo do seu livro.
+
+E como a princeza é mulher coherente em todos os actos da sua vida, não
+quiz deixar de ser mexiriqueira tratando de assumpto que tanto a
+mexericos se presta.
+
+Assim diz, por exemplo, fallando do theatro do Gymnasio:--«Este theatro
+não tem praso determinado para as suas representações pela excellente
+rasão de que as receitas são mais de que mediocres. Os artistas e
+directores do Gymnasio acham-se constantemente, uns para com os outros,
+na situação de um credor importuno para com Mr. de Tayllerand.
+
+--O senhor não me dirá quando me paga o que me deve? dizia o credor.
+
+--Ora sempre é muito curioso, respondeu o principe.»
+
+Realmente é difficil perceber a que vem isto. Pela nossa parte
+entendemos que são profundamente ridiculos todos estes promenores da
+vida intima dos theatros... Julgamos além d'isso haver falsidade no
+mexerico da princeza. Mas ainda que seja verdade o que ella diz, não
+será de mau gosto trazer questõesinhas de soalheiro para um livro de
+viagens?
+
+Do Gymnasio, diz ainda, que viu ali representar magistralmente o actor
+_Pedro_, secundado por duas jovens e formosas mulheres _Candida_ e
+_Lora_?
+
+Dou-lhes um doce se adivinharem quem são estas duas jovens e formosas
+mulheres. Candida e Lora quer dizer Amelia Vieira e Emilia dos Anjos. Ha
+porém uma difficuldade, e desde já nos confessamos incompetentes para a
+resolver:--Qual será a Lora?
+
+Mysterio que só a princeza poderá decifrar.
+
+ * * * * *
+
+Do theatro da Rua dos Condes diz que se representa ali _Lazaro, o
+pastor_... É possivel. Em todo o caso devemos declarar que essa peça
+subiu á scena expressamente para sua alteza a ver, e que foi ainda sua
+alteza a unica espectadora... O publico não a viu nunca.
+
+ * * * * *
+
+No capitulo _Theatros_ trata muito natural e judiciosamente o assumpto
+pateadas. Não gosta d'ellas, parecem-lhe estupidos e injustos os
+sujeitos que pateiam. Abre curso de sensibilidade no artigo _pateader_.
+Comprehende-se:--ella é que está sensibilisada ao escrever tudo isto,
+recordando-se do modo porque a plateia dos _Recreios_ recebeu a sua
+insipida e soporifera comedia.
+
+_Tenha paciencia_. Diz no seu livro que esta phrase se applica a tudo no
+nosso paiz. É verdade. Applica-se a tudo. Até ás princezas infelizes que
+são pateadas.
+
+Diz sua alteza fallando nos hoteis que os colchões são durissimos em
+todos elles; no _Braganza_ parecem até cheios de cacos de garrafas...
+Mas afinal sempre temos por cá alguma coisa mais dura do que os
+colchões... as pateadas...
+
+Custam a roer, custam... Mas que se hade fazer? Rôa, rôa. De resto
+parece-nos que sua alteza tem deveras a bossa do estylo lacrimoso...
+Chore--a lagrima é livre.
+
+ * * * * *
+
+Depois da nenia das pateadas passa sua alteza a fallar da vida dos
+bastidores em Lisboa. Dêmos-lhe mais uma vez a palavra:--«--A vida dos
+bastidores em Portugal está ainda no estado primitivo. É mais burgueza
+que desregrada. Na maioria dos theatros as actrizes são casadas ou vivem
+maritalmente com pessoas da sua escolha, dando, com rarissimas excepções
+tanto que fallar pela sua conducta como pelo seu talento. Se quizesse
+citar alguma que se distinguisse das suas collegas pelo seu luxo ou
+pelos seus amores, ver me-hia deveras embaraçada, não obstante ter
+pedido informações a toda a gente.»
+
+ * * * * *
+
+Sim, a princeza pedio informações a toda a gente. Apenas qualquer
+sujeito tinha a honra de lhe ser apresentado, a primeira coisa que a
+princeza fazia era disparar-lhe esta pergunta á queima roupa:--Ora
+diga-me meu bom amigo, sabe alguma coisa da Emilia das Neves?--Que lhe
+consta da Delfina?--Não se rosna coisa nenhuma d'aquella Joanna Carlota
+da rua dos Condes?
+
+Esta febre da princeza em indagar a vida intima das nossas actrizes
+faz-me lembrar a historia de um provinciano que vindo a Lisboa pela
+primeira vez, com ideas muito errados acerca das nossas mulheres de
+theatro, começou durante a representação, de não sei que peça em D.
+Maria, a interrogar o visinho do lado, pelo theor que vae vêr-se, sempre
+que apparecia em scena alguma actriz.
+
+Entrava por exemplo a sr.^a Emilia das Neves, o provinciano voltava-se
+para o sujeito e dizia-lhe piscando-lhe o olho intencionalmente:
+
+--Esta...?
+
+E o sujeito:
+
+--Não sei...
+
+Entrava a sr.^a Virginia:
+
+--E esta...?
+
+--Homem deixe-me...
+
+Entrava a sr.^a Amelia Vieira.
+
+--E esta...?
+
+--Diabo, o senhor é inconveniente! Não sei nada...
+
+O provinciano porém não se dava por vencido.
+
+--E esta...? continuava elle sempre a perguntar.
+
+De repente entra o Theodorico. Então o sujeito, desesperado, fulo,
+volta-se para o pobre provinciano e diz-lhe muito serio:
+
+--Olhe este... com certesa...
+
+A princeza fez exactamente o papel do provinciano, e, tão infeliz como
+elle, não ficou sabendo coisa nenhuma...
+
+Ficou até sabendo menos que o provinciano...
+
+ * * * * *
+
+Em todo o caso registe-se que no entender de sua alteza a vida dos
+bastidores em Portugal é uma pulhice... «Mais burgueza que
+desregrada...» chega a ser infame, não é assim princeza?
+
+E depois que mulheres estas de theatro! Que impossiveis creaturinhas!
+Dão tanto que fallar pela sua conducta como pelo seu talento... O mesmo
+não se pode dizer que aconteça com certa pessoa que nós sabemos...
+
+Essa dá muito mais que fallar pela sua conducta do que pelo seu
+talento...
+
+Foi devéras infeliz a princeza em questões de theatro. Viu-se sempre
+embaraçada. Até se quizesse citar alguma actriz que se distinguisse das
+suas collegas pelo seu luxo ou pelos seus amores, até n'essas
+circumstancias os embaraços lhe não permittiriam a citação...
+
+É realmente estar com azar.
+
+Pois nós se quizessemos citar alguma princeza que se distinguisse de
+todas as outras pelo seu luxo _tapageur_ ou pelos seus amores, faziamos
+isso sem a mais pequena difficuldade...
+
+ * * * * *
+
+Termina sua alteza o capitulo dos theatros fallando das dançarinas de S.
+Carlos. Diz sua alteza:--«As dançarinas não dão que fallar de si. Ha
+para isto duas razões:--a primeira é que, salvo duas ou tres excepções
+são feias que mettem medo a segunda é que a maioria d'ellas parece-me
+ter chegado, a esta edade feliz em que se tem jus á veneração e ao
+respeito.»
+
+Ora aqui está o que aconteceria a sua alteza se em vez de ser uma _bas
+bleue_ pretenciosa fôsse dançarina de S. Carlos. Ninguem fallaria
+n'ella... Por tudo, e principalmente... pela segunda razão...
+
+ * * * * *
+
+Deixemos porém os theatros e vejamos o que a princeza diz a respeito do
+nosso mais notavel monumento--o mosteiro da Batalha.
+
+«_Batalha_, tambem pequena cidade, (que disparate!) alguns kilometros
+mais longe (do que Alcobaça, que descreve antes) possue um mosteiro mais
+pequeno; mas tambem gothico, e de um estylo ainda mais puro que o de
+Alcobaça.
+
+Este mosteiro foi fundado pelo rei D. João I, que ahi repousa. Nota-se
+particularmente a sala do capitulo, cuja elegancia é superior a toda a
+expressão, bem como o claustro. Decididamente, os senhores frades
+d'aquelles tempos tinham bem boas habitações, e é pena que se não
+tivessem construido mais, tão encantadoras, não para lhe servirem
+unicamente de residencia, mas para alegrarem os olhos dos _touristes_.»
+
+Ter visto a Batalha, ter entrado n'aquelle monumento, que é uma
+verdadeira epopeia de pedra, e escrever o que ahi fica, sabe o que é,
+princeza?--é um diploma. Simplesmente não lhe digo de quê.--Vá ter com
+alguns dos muitos estrangeiros illustres que visitaram aquelle mosteiro,
+francezes, inglezes, italianos, hespanhoes, russos, allemães, ou de
+qualquer outra nacionalidade, diga-lhes que viu a Batalha, mostre-lhes
+depois o que escreveu no seu livro... qualquer d'elles lhe dirá de que é
+o tal diploma...
+
+Mas, que diabo! tambem não pode haver tempo para tudo, e, ella por ella,
+a equipagem do marquez de V. é decerto muito mais digna de attenção do
+que o monumental edificio da Batalha!
+
+É pena, diz sua alteza, que não se tivessem construido mais monumentos
+para alegrar os olhos dos _touristes_...
+
+Ah! sim, é pena! pois não! chega a ser uma dôr d'alma não estar o reino
+de Portugal cheio de monumentos, como a Batalha, para que sua alteza, a
+muito alta e muito nobre princeza Rattazzi, podesse percorrer o paiz com
+os olhinhos alegres!
+
+ * * * * *
+
+Porque afinal de contas, o magestoso e sublime mosteiro não lhe causou
+nenhuma outra impressão... alegrou-lhe o olho.
+
+Frei Luiz de Sousa, descreve-o com a sua penna de ouro, o inglez Murphy
+estuda-o maravilhado durante largos annos, o erudito patriarcha D.
+Francisco de S. Luiz dedica-lhe uma extensa memoria:--n'uma palavra,
+nacionaes e estrangeiros, curvam-se reverentes em presença do patriotico
+e veneravel monumento... Rattazzi vae vel-o... faz-lhe a honra de
+conceder-lhe doze linhas... e alegra-se-lhe o olho... Isto é, o mosteiro
+produz-lhe o mesmo effeito que um copinho de _chartreuse_... Vamos
+compatriotas, sirvam café á princeza, e tragam n'uma bandeja... mosteiro
+da Batalha e copos... Sua alteza tem o olhar basso e triste...
+alegremos-lhe o olho... dêmos-lhe um calicesinho da _sala do
+capitulo_... Então princeza, nada de ceremonias... Se quer mandamos
+tambem buscar os Jeronymos... Beba, beba... Alegre-se... alegre-se...
+
+É impagavel no fim de tudo esta Rattazzi:--Melicio é espirituoso e
+incisivo, e a Batalha... alegra-lhe o olho...
+
+Delicioso, como dizia o Leoni nos _Amores de Boccacio_...
+
+ * * * * *
+
+Tudo quanto o leitor tem visto até agora, fica porém eclipsado pelo
+capitulo em que a muito nobre princeza falla do modo porque os
+estrangeiros são recebidos em Lisboa.
+
+Leiam:
+
+ * * * * *
+
+«Pode dizer-se, sem grande exaggero, que ha um secreto horror pelos
+estrangeiros e que são olhados com maus olhos. Entretanto esta execração
+tem graus e não deixa de ser curioso fazer o seu estudo.
+
+Supponhamos que um pobre diabo cae de inanição n'uma das praças publicas
+de Lisboa, confessando que não recebeu do céu a graça de ter nascido
+cidadão portuguez.
+
+1.^o--Se é inglez, dão-lhe os restos da comida do dia antecedente.
+
+2.^o--Se é allemão, um bocado de pão.
+
+3.^o--Se é americano, umas migalhas.
+
+4.^o--Se é italiano, um copo de agua.
+
+5.^o--Se é francez, não lhe dão nada.
+
+Aqui está approximadamente a gradação do estima a que um estrangeiro
+póde aspirar em Portugal.
+
+Os inglezes são os mais considerados, o que se explica, dizendo-se que
+Portugal é um pouco uma colonia ingleza, uma terra de exportação para os
+productos da Grã-Bretanha: o ouro e os uniformes militares são inglezes.
+Ha n'este povo meridional muitos costumes anglicanos que ficaram como
+recordação da alliança das armas inglezas contra os francezes em 1808.
+
+Os allemães gosam de alguma consideração.
+
+Os americanos do norte são antes temidos do que estimados.
+
+Os italianos são todos pastelleiros ou tenores; é a opinião dos
+portuguezes que dou aqui, não a minha. Mas é uma opinião perfeitamente
+estabelecida, e qualquer que seja a posição social d'um italiano que
+chega a Portugal, será considerado por todos como um pastelleiro que fez
+fortuna, ou como um tenor em procura de escriptura.
+
+Os francezes muito bem acolhidos á superficie, são perfeitamente
+detestados no fundo. Quando não são luveiros, cabelleireiros ou
+cozinheiros consideram-os como uns aventureiros. Ha uma avidez por todos
+os fructos da sua intelligencia, tira-se-lhes tudo que produzem em
+sciencias, bellas artes e litteratura, mas ninguem se julga em obrigação
+de lhes dar nada em troca. Detestam-os por instincto. Esta antipathia
+transmitte-se de paes a filhos, ou para melhor dizer, remonta de filhos
+a paes até ao primeiro imperio.»
+
+ * * * * *
+
+Disse uma vez um poeta nosso que certo sujeito era uma perfidia dentro
+d'um assucareiro, d'este trechosinho póde dizer-se, parodiando aquella
+phrase:--que é tambem uma perfidia dentro d'outra coisa acabada em
+_eiro_.
+
+Com que então em Lisboa quando se encontra um francez cahido no meio da
+rua, cheio de fome, morto de inanição, passa-se para deante e não se lhe
+dá nada, absolutamente nada, _rien du tout_?
+
+Oh! honestissima e honradissima princeza, porque não se atolou mais um
+poucochinho no esterquilinio da calumnia,--para que deixou a cabecinha
+de fóra? Que diabo! tem pouca imaginação vossa alteza! gira-lhe nas
+veias sangue de principes, mas a calumniar não passa d'uma
+burguesinha--porque dizer só, que a um francez que se encontra estendido
+na praça publica, nada se dá, nada se lhe faz?--porque não disse antes,
+que se varria esse francez d'envolta com o lixo, porque não disse que se
+lhe dava um bolo de strichinina?--_Per Baco_, produzia mais effeito,
+princeza!
+
+ * * * * *
+
+Afinal, de tudo quanto ha no seu livro, a pagina deveras torpe, é
+aquella.
+
+Do resto, diga-se a verdade, nem quasi valia a pena fallar.
+
+Ah! mas aquella paginasinha, merece, merece que se escrevam algumas
+linhas...
+
+Quem lhe disse, princeza, que os francezes eram detestados em Lisboa,
+detestados por instincto?--Eu sei quem lh'o disse,--foi a sua espertesa
+saloia. Vossa alteza sahiu de Portugal despeitada com muita gente,--por
+isto, por aquillo, por aquell'outro,--porque a nossa boa nobreza, que
+ainda a temos, não a visitou;--porque os jornaes não fallaram tanto
+quanto vossa alteza queria do seu talento e das suas obras;--porque a
+platéa dos Recreios a pateou desapiedadamente; etc. Sahindo d'aqui
+despeitada quiz vingar-se. É natural. Era preciso porém para que a sua
+vingança fosse completa que ella encontrasse echo n'essa grande nação
+que ainda hoje dá as leis ao mundo.--«Vou desacreditar Portugal á face
+da França--» disse a princeza com os seus algodões.--Mas para que a
+França faça o acompanhamento á minha serenata, o que heide eu
+fazer?--Porque afinal a verdade é esta:--eu sou muito conhecida em
+França... Alfonse Karr, Boissieu, Pelletan... que o diabo, os confunda a
+todos,--mostraram bem quem eu sou, nas _Guépes_ nas _Lettres de
+Colombine_, na _Nouvelle Babylone_... Ah! já sei! exclamou vossa alteza
+de repente:--escrevo que os francezes são detestados, execrados em
+Portugal... Sim, sim, é isto:--_Tonerre de Dieu!_ estava-me
+desconhecendo... Que tempo levei para fazer uma descoberta afinal tão
+simples, e tanto na minha indole... É claro como agua:--dizendo eu que
+os francezes são odiados, detestados, execrados, que ao vêl'os
+estendidos no meio da rua ninguem os soccorre, e que para ali ficam
+abandonados como famintos cãos vadios, elles, esses bons e
+enthusiasticos francezes, sentirão o fogo da indignação girar-lhe nas
+veias, e correndo ao meu palacio, virão gritar em côro debaixo das
+minhas janellas:--Bravo princeza, bravo, quanto dizes d'essa cambada,
+d'essa canalha de portuguezes é pouco; nunca as mãos te doam, mulher!
+Patifes, deixarem-nos morrer sem soccorros no meio da rua... Tira-lhes a
+pelle, escorraça-os, frege-os em postas--e conta que as nossas bençãos
+cahirão sobre a tua cabeça.»
+
+ * * * * *
+
+Ora tudo isto, princeza, permitta-me que repita a phrase, não passou de
+esperteza saloia.
+
+A França, sabe perfeitamente quanto é querida e estimada em Portugal.
+Ella não ignora de certo que na hora da provação, quando rebentou essa
+terrivel guerra franco-prussiana, aqui n'esta cidade de Lisboa,--onde se
+abandonam vilmente francezes no meio da rua,--todos, sem distincção de
+classes, desde o chefe do estado, podemos dizel-o, até ao mais humilde
+cidadão, todos faziam votos para que a victoria fosse coroar com a sua
+rutilante aureola as armas d'esse valente e generoso povo, que Portugal
+tem o bom senso de não tornar responsavel pelos actos praticados por
+dois dos seus despotas.
+
+E olhe vossa alteza princeza:--tudo isto aconteceu estando um Bonaparte
+á frente da França... Hoje, que não está lá nenhum, calcule como terá
+augmentado a nossa sympathia por aquella grande nação.
+
+ * * * * *
+
+A esperteza saloia precisava de correctivo. Ahi fica. A princeza diz que
+nós os portuguezes somos muito pacientes. Assim é, mas quando um
+mosquito começa a zumbir-nos aos ouvidos, a importunar-nos, depois de o
+sacudirmos, uma, duas, tres vezes, zangamo-nos e damos-lhe uma palmada
+com tanta vontade... que o esborrachamos.
+
+É uma porcaria, d'accordo. Mas tambem para que serve a agua?
+
+ * * * * *
+
+Agora as ultimas palavras... as palavras da despedida.
+
+N'uma carta circular que sua alteza dirigiu á imprensa diz:--_Il faut me
+pardonner quelques plaisanteries sans importance et sans parti pris_...
+que é como se dissesse:--queiram os senhores desculpar alguns gracejos
+innoffensivos e sem intenção...
+
+Ah! pois não princeza! Com todo o gosto... Sem mais aquella, como se diz
+em giria... E se o nosso folheto tiver a honra de ser lido por vossa
+alteza, lembre-se das suas linhas e queira tambem
+desculpar-nos:--_quelques plaisanteries sans importance et sans parti
+pris_.
+
+ * * * * *
+
+Segue a biographia da princeza.
+
+
+
+
+BIOGRAPHIA
+
+
+Rattazzi--(Maria Studolmire Wyse, princeza de Solms, depois condessa)
+mulher de lettras franceza, nascida em Waterfard (Inglaterra) em 1833. É
+neta de Luciano Bonaparte, irmão de Napoleão I, e filha de Letizia
+Bonaparte, e de sir Thomaz Wise, membro do parlamento de Inglaterra, que
+morreu ministro plenipotenciario da Grã-Bretanha em Athenas. Descendente
+de uma serie de uniões consideradas como outras tantas _mesalliances_
+para a familia Bonaparte, foi sempre considerada por esta como uma
+intrusa, ou como uma inimiga. Quando o principe Luiz, seu primo, foi
+eleito presidente da Republica franceza, prohibiu-lhe formalmente que
+usasse o nome de Bonaparte-Wise, pelo qual eram conhecidos seu pae e seu
+irmão. Entretanto, a sua filiação napoleonica, está tão bem estabelecida
+senão melhor que a do seu proprio primo. Seu avô Luciano, principe de
+Canino, casára, em segundas nupcias, com madame Bleschamp, viuva de um
+agente de cambio, casamento que descontentou muito Napoleão, e fez
+romper todas as relações da familia imperial com Luciano; este, tendo-se
+retirado á Italia, fez naturalisar romanos todos os seus filhos, tão
+pouca era a sua fé na restauração da dynastia a que pertencia. A neta,
+nascida de mãe romana, Letizia Bonaparte, e de pae irlandez, era
+realmente uma Bonaparte, mas tão pouco franceza quanto possivel. Foi
+comtudo educada na casa da Legião de Honra de S. Diniz, e, como não
+tivesse meios, fez-se professora.
+
+Em 1848, quando á familia Bonaparte foi permittida a entrada em França,
+e o principe Luiz se propoz a presidente da Republica Franceza, foi
+pedida em casamento por Mr. Frederico de Solms, rico alsaciano que a
+dotou em 700 ou 800 mil francos, esperando que ella viesse a ser uma das
+estrellas da futura côrte de seu primo, e que assim o levasse ás
+grandezas. Não aconteceu nada d'isto. Os Bonapartes, e principalmente o
+futuro Napoleão 3.^o não a consideraram como da familia; como o pae da
+segunda mulher de Luciano occupara um emprego d'inspector _nos direitos
+reunidos_, pretendiam não terem nada de commum com a descendente d'um
+vendedor de tabacos, e foi isto o que os jornaes do Elysseu lhe
+disseram, nu e cru, quando Madame de Solms, posto que muito nova ainda,
+porque então apenas contava 16 annos, começou a tornar-se notavel.
+
+Lançou-se então na opposição, attrahiu a sua casa algumas notabilidades
+do partido democratico, abriu as suas salas aos litteratos, deu festas
+esplendidas, e ostentou um luxo que tinha a pretenção de fazer epoca na
+historia contemporanea. No seu pequeno circulo comparavam-a a
+mademoiselle Montpensier e dizia-se que do seu _boudoir_ sahiria uma
+nova Fronda. Por occasião do golpe de estado de 2 de dezembro, em que
+estavam implicadas algumas pessoas que frequentavam as suas salas,
+julgou-se tambem obrigada a deixar a França, habitando ora em Roma, na
+Belgica, ora as cidades de caldas mais notaveis.
+
+Considerava-se como exilada, e tendo alguns jornaes publicado que ella
+pedira para ser amnistiada, fez-lhes publicar esta resposta altiva:--«Só
+um governo liberal e sensato me póde fazer voltar á França. Até o dia em
+que triumphem as nossas liberdades, acceito o exilio; mas protesto
+energicamente contra toda e qualquer nova insinuação, grave ou pueril,
+tendente a fazer admittir que, no presente ou no futuro, sob qualquer
+consideração, e em qualquer extremidade em que me encontre, eu possa
+ligar-me directa, ou indirectamente, a uma familia da qual me separei
+voluntaria e seriamente.»
+
+Isto não a impediu de entrar em França em fins de 1852; mas em fevereiro
+de 1853, recebeu ordem de expulsão e seu primo fel-a conduzir á
+fronteira acompanhada pelos gendarmes. A causa d'esta expulsão
+escandalosa era sempre a mesma, a sua obstinação em querer usar o nome
+de Bonaparte que lhe negavam. Protestou pelos tribunaes, encarregou
+Berryer de a defender, e o governo fez admittir pelos jornaes que a
+ordem (arrêté) d'expulsão estava em fórma, visto que madame de Solms era
+estrangeira e casada com um estrangeiro não naturalisado. É muito
+provavel que M. de Solms, nascido em Strasburgo, fosse francez; mas o
+governo obteve d'elle uma declaração na qual dizia não reclamar a
+qualidade de francez. Na _Patria_ foi publicada a seguinte nota:
+
+«Por ordem do sr. intendente geral da policia, foram expulsos do
+territorio francez madame de Solms, dizendo-se condessa de Solms, e M.
+Wyse, (seu irmão, M. Bonaparte-Wyse) ambos estrangeiros; estas duas
+pessoas usavam sem direito nenhum o nome de Bonaparte, e longe de
+respeitarem o nome illustre que usurparam, serviam-se ao contrario
+d'elle para se entregarem a escandalos desordenados, afim de mais
+facilmente abusarem da credulidade das pessoas com quem estavam em
+contacto. A ordem do sr. intendente geral de policia foi posta em
+execução e madame de Solms e o sr. Wyse deixaram a França.»
+
+Quando se fez a annexação de Nice e da Saboya (1862), pediu a Napoleão
+III a permissão de ficar em França, e obteve mesmo a de voltar a Paris;
+abriu ali o seu salão, como antigamente, deu festas, escreveu chronicas
+e _causeries_ em varios jornaes, o _Pays_, o _Constitutionel_, o _Turf_,
+etc., fez fallar de si, como de costume, e, tendo-se reconhecido n'um
+malicioso retrato traçado por M. de Boissieu, (_Fragment d'histoire, une
+des plus spirituelles lettres de Colombine_, 1863), intentou no _Figaro_
+uma indemnisação de 200:000 francos de perdas e damnos. O tribunal
+regeitou-lh'a. Entretanto tendo-lhe morrido o marido, uniu-se a Rattazzi
+n'uma das suas viagens a Turim, e esta ligação teve algum tempo depois o
+casamento por desenlace. A sua estada em Paris em 1865 trouxe-lhe novas
+decepções; foi-lhes dada nova ordem de expulsão e retirada uma pensão de
+que havia tres annos gosava. Desde então madame Rattazzi viveu
+constantemente em Turim, Florença e Roma, e publicou grande numero de
+volumes. Um dos seus romances, _Richeville_, fez algum barulho na
+Italia, e valeu ao marido de madame Solms, algumas provocações em
+duello.
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's A princeza na berlinda, by Urbano de Castro
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A PRINCEZA NA BERLINDA ***
+
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+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
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+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+Updated editions will replace the previous one--the old editions
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+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
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+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
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+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
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+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
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+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
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+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
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+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
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+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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