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| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 01:19:14 -0700 |
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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A princeza na berlinda + Rattazzi a vol d'oiseau, com a biographia de sua Alteza + +Author: Urbano de Castro + +Release Date: February 4, 2008 [EBook #20103] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A PRINCEZA NA BERLINDA *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + + + +RATTAZZI A VOL D'OISEAU + + + + +URBANO DE CASTRO + +CHA-RI-VA-RI + + + + +A PRINCEZA NA BERLINDA + + +RATTAZZI A VOL D'OISEAU + +COM A BIOGRAPHIA DE SUA ALTEZA + + +(SEGUNDA EDIÇÃO) + + +LISBOA +TYPOGRAPHIA PORTUGUEZA +7, Rua da Paz, 7 +1880 + + + + +A PRINCEZA NA BERLINDA + + +Não será talvez máo começar por fazer uma declaração:--nunca passei +pelos beiços os guardanapos da princeza... Parece-me conveniente dizer +isto. A _minha terra_, que era pequena no tempo de Garret, não me consta +que tenha crescido, depois da sua morte... Tem até diminuido um pouco... +talvez! + + * * * * * + +Foi pelos jantares que a princesa conseguiu tornar-se conhecida em +Lisboa. Quando aqui chegou, vendo que ninguem a procurava, que a +litteratura não corria pressurosa ao _Bragança_, cumulando-a de elogios +banaes e de bilhetes de visita baratos, sentio dentro da sua alma a +mordedura cruel do amor proprio offendido. E amor proprio de mulher, +amor proprio de princeza! Calculem que dentada! Esperou, um, dois, tres +dias... uma semana, outra... a litteratura não apparecia!--Pois ha de +apparecer! exclamou ella--E convidou-a para jantar. E a litteratura +appareceu. Os livros da princeza, que até então ninguem conhecia em +Lisboa, e que ella mandara adiante para os livreiros, como batedores da +sua fama, começaram por essa epoca a ter uma tal ou qual extracção. Não +é difficil advinhar quem os comprava--eram os convivas dos seus +jantares--Comprehende-se. Realmente seria pouca amabilidade comer o +_foie gras_ de Rattazzi, e não dizer ao menos, no fim, que era admiravel +o seu livro _Si j'etais reine_; beber o champagne da princeza, e não lhe +segredar que nunca mulher nenhuma escrevera um volume como _Nice la +Belle_. E a proposito dos livros citavam-se os trechos das paginas +abertas, abril-os seria muito, e bebia-se mais um copo. A princeza, que +é inquestionavelmente uma mulher d'espirito, percebeu, o que de resto +não era muito difficil, a _manobra fraudulenta_, como diz o sr. Duc nos +livros de mortalhas, dos litteratos de Lisboa... + +Callou-se porém muito bem callada e continuou a dar-lhes jantares +hebdomadarios. A concorrencia cada vez era maior. Houve sujeito que se +fez litterato, só para jantar com a princeza. Cá fóra, no Martinho e na +Havanesa, esses jantares eram digeridos e commentados com a face +vermelha e a palavra quente... Contavam-se anecdotas, que é deveras pena +não terem chegado aos ouvidos da princeza, porque, algumas d'ellas não +são em nada inferiores a muitas que lêmos no seu livro... + +E aqui está como madame Rattazzi conseguiu durante um mez ser uma +notabilidade em Lisboa. Sua altesa, porém, em vez de contentar-se com +esta gloria, embora de 2.^a ordem, lembrou-se um dia de querer uma +gloria de 1.^a sorte, e escreveu uma comedia que, depois de muito +applaudida em sua casa pelos seus commensaes, foi representada no +theatro dos Recreios, a quem ella, com carradas de rasão chama um +calvario, visto que lá teve... a cruz da pateada... + +Tambem que diabo de publico este de Lisboa... atrever-se a patear uma +princeza... Se sua alteza tem a mania dos cumulos,--e porque não a +terá?--sim, porque não terá sua alteza a mania dos cumulos, se a tem, é +impossivel que pelo seu preclaro espirito não tivesse passado este--o +cumulo da selvageria:--_Patear uma princeza_... + +Ah! decididamente sua alteza não estava em sorte... _Pas de chance_! No +hotel os convivas faziam muito mais despeza de iguarias do que de +elogios; nos Recreios, o publico muita mais despeza de botas do que de +luvas... _Pas de chance_! + + * * * * * + +Foi então, naturalmente, que o seu espirito se orientou na direcção a +dar ao _Portugal à vol d'oiseau_. + +--Ah! os senhores julgam que não é mais do que comerem-me os meus +jantares, do que patearem-me as minhas peças, esperem ahi que já os +ensino! Até aqui tenho-os recebido como convivas, agora vou passar a +tratal-os como assumptos! Os senhores pensam, quando estão á minha mesa, +que são meus commensaes?--pois enganam-se, são paginas para o meu livro! +Não sou eu quem os obsequeio aos senhores, os senhores é que me +obsequeiam. Escusam de dizer «muito obrigado!» eu é que tenho que +dizer-lhes «_merci_»! + +E escreveu _Le Portugal à vol d'oiseau_. + + * * * * * + +Lisboa já sabe pouco mais ou menos o que o livro é. Os jornaes tem dado +excellentes amostras d'aquella famosa peça... + +Porque não havemos nós de dar tambem algumas? Estes dois perfis da nossa +nobreza, por exemplo... + +Venha primeiro o conde de *** + +«--O conde *** um dos meus valsistas, e um valsista encantador, entre +parenthesis, não é menos notavel. De muito antiga e nobre familia, é +verdadeiramente um dos typos mais salientes de Lisboa. Orça pelos +cincoenta, mas não obstante apparenta um grande ar de mocidade. +Baixinho, apurado, e elegante, ha em toda a sua pessoa uma excessiva +vivacidade. Esta vivacidade será natural ou o resultado d'um estudo +paciente para parecer ainda mais novo? + +Talvez que sim a avaliar a sua petulancia pelo mais. Os bigodes do conde +de *** são mais negros do que o ebano. + +Mas isto não é nada comparado ao craneo do encantador conde; o +proprietario d'este craneo conserva n'elle alguns cabellos, raros, +semeados aqui e ali, tratados com zelosos cuidados, e que puchados +artisticamente para a testa, ahi occupam o maximo espaço possivel para +assim substituirem os ausentes. Para suprir os defuntos põe no cucuruto +uma especie de pequeno crescente--não, eu nunca ousaria dizer chinó +fallando de tão perfeito cavalheiro--que se confunde graciosamente com +os cabellos: depois cobre tudo isto com uma espessa camada de pez e +summo de alcaçuz de que faz uma pomada a fogo lento; por fim o seu +creado de quarto, confidente d'esta excentricidade, traça no meio d'esta +pasta de _raisiné breton_, uma risca d'uma delicadeza, d'uma puresa, +d'uma nitidez a causar inveja a uma rapariga de quinze annos. Quando a +cataplasma está secca, o conde póde apparecer no meio dos seus +concidadãos. Todos conhecem o mysterio d'aquella cabeça e ha delirios de +alegria quando o excellente homem é obrigado, em pleno sol ou em pleno +baile, a andar de chapeu na mão, porque o calor tendo acção dissolvente +sobre aquella untura, resulta d'ahi começar ella a mover-se, a palpitar, +a derreter-se, acabando por escorrer pelo pescoço e pelo nariz do seu +proprietario. + +Não obstante o conde de *** é um grande conquistador, um namorador que +não perde occasião de deitar a sua olhadella, sendo porém capaz de +praticar heroismos, como o demonstram varias circumstancias da sua vida. + +Conta-se este facto digno dos melhores tempos da monarchia. O conde era +camarista da infanta D. Izabel, que morreu ha annos, em avançada edade, +no seu palacio de Bemfica nos arrebaldes de Lisboa. Sendo os principes +da familia real depositados na egreja de S. Vicente, situada n'um dos +extremos da cidade opposto a Bemfica, o cortejo funebre teve de +percorrer duas leguas, a passo, em pleno mez de julho. + +O conde devia seguir a cavallo, uniformisado e de cabeça descoberta, o +corpo da sua real ama, debaixo d'um sol torrido, o que elle fez +magnanimamente, sem trepidar, entregando aos abrasadores raios de Phebo +a sua untura quotidiana--facil presa--sem temer a troça dos graciosos +que, no dia seguinte, alludindo á liquefação do cosmetico, diziam por +toda a parte que ninguem figurara no cortejo com o rosto mais +tristemente cheio de luto do que o infeliz conde de ***.» + +Igual a isto só aquella celebre caricatura do _Antonio Maria_... +«_Dá-lhe cuspo_...» + + * * * * * + +Agora o marquez de V. *** + + * * * * * + +--«Como exemplo não, quero citar senão um dos meus amigos o marquez de +V. ***. Vale bem a pena. É uma personalidade, uma celebridade, uma +curiosidade de primeira ordem. Em vão lhe procurariam rival na galeria +do duque de Saint-Simon, e ainda menos na collecção tão rica de Moliére. +Em certas festas de gala ou de representação exterior, o marquez de V. +*** julga-se obrigado a seguir as carruagens da côrte na sua equipagem, +e é esta equipagem que faz do nobre marquez uma curiosidade unica do +mundo. + +Imagine-se um coche do seculo passado, envidraçado de modo a ver-se todo +o interior, montado sobre molas e rodas que fazem pensar nas machinas de +_Leviathan_, tudo isto pintado de verde, cheio de dourados em alto e +baixo relevo. No meio d'esta caixa throno, o marquez de V. *** só, de +cabeça descoberta, com o grande uniforme d'uma ordem qualquer, com os +olhos fitos na sua frente, parecendo contemplar em extase as abas da +libré do seu cocheiro, não voltando a cabeça nunca, nem para a direita +nem para a esquerda: dir-se-hia uma estatua e não um homem. + +A carruagem é atrelada a quatro cavallos, montados por dois postilhões e +guiados por um cocheiro gorducho sentado n'uma almofada que parece um +divan. Na taboa da carruagem dois enormes lacaios em pé. Todo este +pessoal vem empoado e veste uma libré verde claro que deslumbra a vista +e faz piscar os olhos. Não se póde imaginar nada mais original. Quando a +cerimonia terminou e a parte official do programma está cumprida, o +marquez faz gravemente o giro das principaes ruas e praças de Lisboa +para se fazer admirar. Em Paris entraria em casa corrido a batatas +cozidas. Aqui deixam-o em paz--_é costume_. + +Se eu fosse rei de Portugal prohibia a este fidalgo, sob as mais graves +penas, de me fazer assim cortejo com a sua entrudada, mas, com isso, +arriscaria talvez a minha corôa. + +É de justiça acrescentar que o marquez de V. é um homem instruido. Que +seria, Deus meu, se o não fosse!» + +Realmente está parecido... O _Antonio Maria_ não o faz melhor... + + * * * * * + +Depois d'estes perfis hilariantes como o protoxido de azote, tenha o +leitor a paciencia de me acompanhar ao capitulo em que sua altesa nos dá +a honra de fallar dos nossos enterros. + +Dêmos a palavra á princeza: + +«É realmente coisa curiosa que acompanhando o pae os filhos ao +cemiterio, estes não acompanhem os paes: não é costume. Deixa-se este +cuidado aos parentes mais affastados ou aos amigos. Porquê? Não m'o +poderam explicar: acho porém esquisito.» + +Está no seu direito. Foi porém mal informada. Os paes tambem não +acompanham os filhos. Quanto a achar o caso estranho não tem de quê. O +facto de em França os parentes mais proximos acompanharem os cadaveres +dos seus defunctos não prova nada, senão que até na morte é verdadeiro o +dictado:--_Cada terra com seu uso_... O que é deveras esquisito, é +querer sua altesa que os costumes sejam os mesmos em todos os paizes. +Para quem se propõe escrever livros de viagem, não póde haver ponto de +vista mais ridiculo nem mais acanhado. + +Continua a auctora:--«Quando uma pessoa morre, a familia não envia +cartas de participação. Faz um annuncio nos jornaes, e está tudo +prompto, visto que o dito annuncio termina invariavelmente por este +_cliché_: _Não se fazem convites especiaes attendendo ao estado de +consternação indizivel em que a familia está_... + +Comprehendo muito bem que a familia esteja n'um estado de consternação +indizivel: entretanto, visto que esta consternação lhe permitte fazer +annuncios nos jornaes, parece-me que, com um pequeno esforço, lhe +permittiria tambem enviar cartas de participação impressas a casa de +cada um, como se faz nos outros paizes. + +Resulta com effeito d'este costume que, se não se lerem os jornaes, ou +antes os annuncios dos jornaes, póde muito bem acontecer deixar uma +pessoa de acompanhar ao cemiterio o seu tio, primo, ou o seu melhor +amigo.» + +Foi ainda mal informada sua alteza. É verdade que muitas vezes o +annuncio funebre termina por aquelle molho, mas não é menos verdade que +rarissimas vezes se deixa de enviar cartas de participação. Sua alteza +não recebeu nenhuma, e por isso naturalmente lembrou-se de nos ensinar +como estas coisas se fazem nos paizes civilisados. Obrigado princeza. +Quanto a não ter recebido carta alguma de participação desculpe:--hei de +mandar-lhe uma... quando morrer o meu Tareco. + +Coitada! Infeliz princeza! Ninguem lhe mandou carta de participação. +Então que se lhe ha de fazer, no nosso paiz os enterros serão tudo +quanto quizer... mas não são entrudadas... + +A respeito dos chavões com que é costume fechar annuncios funebres +faltou-lhe ainda um. É este:--_não se fazem convites especiaes por +expressa determinação do finado_. Foi pena escapar. Que bella pagina +humoristica não escrevia a princeza com thema tão divertido! + + * * * * * + +Mas nem só os enterros tem a honra de espantar sua alteza... O livro +está cheio de exemplos do mesmo genero. + +Sente-se mesmo em algumas paginas que a princeza não chega a contar +metade dos seus espantos... Qual metade!--nem a decima, nem a centesima, +nem a milesima parte... + +Porque a verdade é esta:--sua alteza apenas transpoz a fronteira começou +a sentir as dôres... do espanto... Exactamente, agora é que eu +acertei... começou a sentir as dôres do espanto, e o seu livro, que até +hoje ninguem sabia bem o que é, passa agora muito logicamente a ser o +feliz parto que a alliviou das citadas dôres, logo que ella se viu em +terreno conhecido, que é como quem diria:--logo que a natureza permittiu +que o robusto menino visse a clara luz do dia... + +Espanto! Espanto! sempre espanto! + +Os portuguezes não dizem «até manhã» dizem «até ámanhã se Deus +quizer»--espanto: não acompanham seus paes ao cemiterio,--espanto: as +varinas carregam-se de oiro,--espanto: vae muita gente aos bastidores de +S. Carlos,--espanto: dizemos _um copo d'agua_ e não _un verre +d'eau_,--espanto: estamos a uma latitude e a uma longitude differentes +de Paris,--espanto: as nossas pulgas mordem,--espanto: o nariz do sr. +Minhava é enorme,--espanto: _pomme de terre_, chama-se +batatas,--espanto: uma _precieuse ridicule_ é uma tola... espanto! + +Espanto, espanto, sempre espanto! + +Porque não escreveu o seu livro tal qual o pensou princeza? + +Porque não nos deu, por exemplo, uma pagina n'este genero:--«Uma vez, +tendo entrado casualmente n'uma egreja, approximei-me d'uma mulher que +estava rezando, em voz sufficientemente alta, para que se podesse +perceber o que ella dizia... Approximo-me mais, e calculem o meu +espanto, ao ouvir estas palavras:--_Padre, nosso, que estaes nos céus +santificado_... Accreditarão agora que isto quer dizer em +portuguez:--_Notre père qui étes aux cieux, que votre nom soit, +santifié_... + +Como diabo, perdoe-se-me a heresia, quererão os meus bons amigos +portuguezes que Nosso Senhor os entenda?» + +E não seria este por certo o menos notavel dos seus espantos. + + * * * * * + +Antes de passarmos adiante contemos um disparate que não deixa de ter +graça. A paginas, não sei quantas, escrevendo a princeza que nós não +fazemos uso de fogões para aquecer as casas, diz pouco mais ou menos o +seguinte:--De resto, se fizessem uso d'elles, não se haviam de vêr em +pequenos embaraços para arranjar o combustivel, a não ser que deitassem +a mobilia ao fogo. A lenha é absolutamente desconhecida em Portugal, e +custa cada kilo... tres mil réis!» + +--Oh! princeza, se vossa alteza quando esteve em Lisboa pagou a lenha +por aquelle preço, devo dizer-lhe duas coisas:--a primeira, é que o seu +livro passa a ser um favo do Hymeto, a segunda... é que foi roubada! + + * * * * * + +O que é verdade porém é que Lisboa deve um grande serviço á princesa. +Nem mais nem menos do que a rusga feita ás casas de jogo nos principios +d'este mez. + +Se duvidam, leiam. + + * * * * * + +Ha muito que no governo civil havia uma tal ou qual suspeitasinha, uma +vaga desconfiança, de que a roleta, esse terrivel philloxera das +algibeiras, tivera o inqualificavel arrojo, o descaro inaudito de +assentar os seus arraiaes--aqui--na patria de Camões, nas bochechas do +sr. Rosa Araujo, representante da dita patria. Mas tudo era vago, +incerto, nebuloso... A policia posta em campo nada descobrira. +Procurara-a,--oh! se a procurara!--como o nauta procura o norte, como a +ave procura o ninho, como a féra o seu covil--mas, apesar de a procurar +com todo este excesso de poesia, o resultado era sempre o mesmo... nada, +nada, nada, tres vezes nada coisa nenhuma! + +O habil Antunes, o eximio Castello Branco, o nunca assás cantado 37--e +muitos outros egualmente habeis, egualmente eximios, egualmente nunca +assás cantados, encarregados secretamente de a descobrirem, pozeram em +pratica as maiores subtilesas policiaes. Um d'elles chegou a +disfarçar-se em G. L. P... Nem assim a encontrou! + +Nada os fazia recuar, nada os intimidava, desconheciam... e creio que +ainda desconhecem, o verbo trepidar! Passeios, botequins, theatros, tudo +assaltaram em busca da criminosa... Era um phrenesi, um delirio, uma +raiva... Mas a scelerada não apparecia! + +--E comtudo ella existe! exclamava o governo civil com o tom solemne com +que por muito tempo se julgou que o sabio Gallileu dissera o +legendario:--_E pur si muove!_ + +Era para perder a cabeça. + + * * * * * + +Estavam as coisas n'estes termos quando chegou o livro da princeza. O +governo civil compra-o, começa a lêl-o e ao chegar a paginas 149, já não +diz: «E comtudo ella existe!» no tom de Gallileu, mas, qual outro +Archimedés, _toilette_ aparte, solta do fundo do seio um jubiloso +_Eureka!_ + +Ah! é que effectivamente o caso não era para menos. A pagina 149, +fallando das batotas, diz a princeza: + +Ha uma na rua do Alecrim. + +Uma, rua das Gavias. + +Uma, praça de Camões. + +Duas, rua da Emenda. + +Uma, rua de S. Francisco. + +Uma, travessa de Santa Justa. + +Tres ou quatro á Ribeira Velha. + +--Obrigado meu Deus! exclamou então o governo civil imitando d'esta vez +a sr.^a Emilia das Neves, obrigado meu Deus! + + * * * * * + +E aqui está como a policia conseguiu saber onde eram as batotas. Ah! +princeza, princeza, vossa alteza merecia que pelo menos a fizessem... +chefe d'esquadra. + +E note-se mais, é ella, é ella quem ensina no seu livro como se faz uma +rusga. Duvidam? + +Leiam. + +«--Em Paris a policia tem um serviço especial para este genero de +industria prohibida. Os agentes d'este serviço espiam os batoteiros, +estudam cuidadosamente o terreno, e uma bella noite cahem lá dentro como +um raio e prendem todos, levando o dinheiro que está em cima das mesas.» + +A policia seguiu as instrucções da princeza tanto á risca, que até +escolheu uma bella noite, _une belle nuit_, para fazer a sua rusga! + +Diz ainda sua alteza:--A mobilia é confiscada... e a policia confiscou a +mobilia. + +Decididamente, a princeza tem todo o direito... a um apito honorario! + + * * * * * + +Vejamos agora como sua alteza falla de alguns dos nossos escriptores. + + * * * * * + +--_Camillo Castello Branco_, que parece o condemnado aos trabalhos +publicos da litteratura portugueza, escreve, escreve, escreve, escreve +sempre: superiormente, é questão controversa; enormemente, com certesa. +A quantidade excede em muito a qualidade, diz-se, (diz ella); dotado de +uma actividade laboriosa, infatigavel, comparavel á de uma legião de +formigas, construe romances contemporaneos sobre romances historicos, +com uma preseverança e uma sequencia que intrigam a imaginação. É uma +especie de Quevedo com certo sentimentalismo catholico. + +Particularidade curiosa: em todos os seus romances entram +infallivelmente um brazileiro, uma menina que se mette n'um convento, um +fidalgo provinciano, e um namorado amorudo e transparente. É invariàvel +como a chuva e o bom tempo. De fórma, que o primeiro romance que se lê +do sr. Branco parece muito interessante, o segundo accorda +remeniscencias, e o terceiro adivinha-se; o quarto sabe-se de cór, +volta-se a pagina sabendo-se o que vae passar-se. É uma galeria de +personagens que raramente se renova, como a dos museus de figuras de +cera. Os seus principaes romances são: _Onde está a felicidade_, _Doze +casamentos felizes_, _O que fazem mulheres_, _Historia d'um homem rico_; +são feitos com este arcabouço em que as vigas, as asnas e os alicerces +são invariavelmente os mesmos.» + + * * * * * + +«--_Bulhão Pato_. É um peninsular, um sybarita, um camaleão. Como muitos +rapazes que se dizem artistas pintores ou esculptores, para terem o +direito de usar umas enormes cabelleiras e de adoptarem umas maneiras e +um modo de fallar desbragado, este, fez-se poeta, o que na alta +sociedade de Lisboa é um titulo de apresentação. + +O sr. Bulhão Pato é incontestavelmente um homem d'uma conversação +encantadora. Passando por espirituoso e mordente, imaginou que para ser +um genio lhe bastava o querer sel-o, esquecendo que não é poeta quem +quer. Assim, creou-se por si só, e por si só, ainda, se julga um grande +poeta. O seu poema, a _Paquita_, é uma imitação dupla do estylo +aggressivo de Byron e da finura de Musset, um urso fazendo rendas de +Alençon. Escreveu muitos volumes de versos, satiras, novellas, etc., +onde se não encontra o reflexo do espirito notavel que tem a fallar. O +que escreve não traduz o que diz (_Sa plume ne traduit pas sa langue_). +Para acabar este retrato é necessario acrescentar que é impertinente, +irritavel, invejoso, que pouco sabe da vida, julga-a mal, e por isso +mesmo declara-se descontente com cada um e com todos, passando a vida a +lamentar-se sem rima nem rasão.» + +N'uma nota continúa no mesmo tom amavel chamando-lhe o _poeta da melena_ +(_poète aux longs cheveux_). + + * * * * * + +«--_Ernest Biestero_, o grande magro litterario de quem Castilho +dizia:--É um fructo de inverno, por mais que o expremam não deita nada! +O que elle traduziu, apanhou, pilhou, é incalculavel: seriam necessarios +volumes só para fazer a sua rapida enumeração. + +Os seus dramas originaes, _Caridade na sombra_, _Moscovellos_, _Natureza +de alma_ (?) são uma galeria de manequins sem vida e até sem cordeis. +Deve accrescentar-se--segundo a chronica--que os seus dramas são +retocados por seu cunhado Mendes Leal. O que os não embelleza! + +Biester teve a gloria de ser um dos fundadores da _Revista Contemporanea +de Portugal e Brazil_, que durou cinco annos, onde se acham associadas +todas as individualidades do _elogio mutuo_.» + + * * * * * + +«--_Mendes Leal_ (José da Silva) nasceu em Lisboa em 1820. Sem talento e +até sem disposições dramaticas escreveu muitos dramas e romances +historicos. É o litterato portuguez que fez mais plagiatos, e isto com a +maxima audacia e sem-cerimonia. O seu theatro pertence á escola do +ultra-romantismo, e os _Dois renegados_, que passam por ser a fina flôr +da sua corôa litteraria, são um drama insipido, cheio de punhaes, +venenos e ciladas. O seu romance _Calabar_ é completamente tirado do +_Bateur d'Estrade_, de Paul Duplessis; as suas poesias formam um volume +no qual só uma poesia é digna de menção, a _Morte de Carlos Alberto_. +Este fructo secco da litteratura foi bibliothecario de Lisboa, ministro, +e finalmente ministro plenipotenciario em Paris. O que prova que as +mediocridades são muita vez empregadas.» + + * * * * * + +Agora querem saber como apparecem os nomes portuguezes no livro da +princeza? Ahi vae uma amostra. + +_Odio velho não cança_, o notavel romance de Rebello da Silva, +é:--_Odio, velho, vraô cauca_. + +_O prato de arroz dôce_, de Teixeira de Vasconcellos, chama-se:--_O +Porto de oroz dou_. + +_As tempestades sonoras_, de Theophilo Braga, são:--_As tempos tades +sanoras_. + +_Moços e velhos_, que a princeza erradamente attribue a Ernesto Biester, +apparece assim no livro:--_Mocosvellos_. + + * * * * * + +Aos theatros de Lisboa faz sua alteza a honra de lhes consagrar um +capitulo do seu livro. + +E como a princeza é mulher coherente em todos os actos da sua vida, não +quiz deixar de ser mexiriqueira tratando de assumpto que tanto a +mexericos se presta. + +Assim diz, por exemplo, fallando do theatro do Gymnasio:--«Este theatro +não tem praso determinado para as suas representações pela excellente +rasão de que as receitas são mais de que mediocres. Os artistas e +directores do Gymnasio acham-se constantemente, uns para com os outros, +na situação de um credor importuno para com Mr. de Tayllerand. + +--O senhor não me dirá quando me paga o que me deve? dizia o credor. + +--Ora sempre é muito curioso, respondeu o principe.» + +Realmente é difficil perceber a que vem isto. Pela nossa parte +entendemos que são profundamente ridiculos todos estes promenores da +vida intima dos theatros... Julgamos além d'isso haver falsidade no +mexerico da princeza. Mas ainda que seja verdade o que ella diz, não +será de mau gosto trazer questõesinhas de soalheiro para um livro de +viagens? + +Do Gymnasio, diz ainda, que viu ali representar magistralmente o actor +_Pedro_, secundado por duas jovens e formosas mulheres _Candida_ e +_Lora_? + +Dou-lhes um doce se adivinharem quem são estas duas jovens e formosas +mulheres. Candida e Lora quer dizer Amelia Vieira e Emilia dos Anjos. Ha +porém uma difficuldade, e desde já nos confessamos incompetentes para a +resolver:--Qual será a Lora? + +Mysterio que só a princeza poderá decifrar. + + * * * * * + +Do theatro da Rua dos Condes diz que se representa ali _Lazaro, o +pastor_... É possivel. Em todo o caso devemos declarar que essa peça +subiu á scena expressamente para sua alteza a ver, e que foi ainda sua +alteza a unica espectadora... O publico não a viu nunca. + + * * * * * + +No capitulo _Theatros_ trata muito natural e judiciosamente o assumpto +pateadas. Não gosta d'ellas, parecem-lhe estupidos e injustos os +sujeitos que pateiam. Abre curso de sensibilidade no artigo _pateader_. +Comprehende-se:--ella é que está sensibilisada ao escrever tudo isto, +recordando-se do modo porque a plateia dos _Recreios_ recebeu a sua +insipida e soporifera comedia. + +_Tenha paciencia_. Diz no seu livro que esta phrase se applica a tudo no +nosso paiz. É verdade. Applica-se a tudo. Até ás princezas infelizes que +são pateadas. + +Diz sua alteza fallando nos hoteis que os colchões são durissimos em +todos elles; no _Braganza_ parecem até cheios de cacos de garrafas... +Mas afinal sempre temos por cá alguma coisa mais dura do que os +colchões... as pateadas... + +Custam a roer, custam... Mas que se hade fazer? Rôa, rôa. De resto +parece-nos que sua alteza tem deveras a bossa do estylo lacrimoso... +Chore--a lagrima é livre. + + * * * * * + +Depois da nenia das pateadas passa sua alteza a fallar da vida dos +bastidores em Lisboa. Dêmos-lhe mais uma vez a palavra:--«--A vida dos +bastidores em Portugal está ainda no estado primitivo. É mais burgueza +que desregrada. Na maioria dos theatros as actrizes são casadas ou vivem +maritalmente com pessoas da sua escolha, dando, com rarissimas excepções +tanto que fallar pela sua conducta como pelo seu talento. Se quizesse +citar alguma que se distinguisse das suas collegas pelo seu luxo ou +pelos seus amores, ver me-hia deveras embaraçada, não obstante ter +pedido informações a toda a gente.» + + * * * * * + +Sim, a princeza pedio informações a toda a gente. Apenas qualquer +sujeito tinha a honra de lhe ser apresentado, a primeira coisa que a +princeza fazia era disparar-lhe esta pergunta á queima roupa:--Ora +diga-me meu bom amigo, sabe alguma coisa da Emilia das Neves?--Que lhe +consta da Delfina?--Não se rosna coisa nenhuma d'aquella Joanna Carlota +da rua dos Condes? + +Esta febre da princeza em indagar a vida intima das nossas actrizes +faz-me lembrar a historia de um provinciano que vindo a Lisboa pela +primeira vez, com ideas muito errados acerca das nossas mulheres de +theatro, começou durante a representação, de não sei que peça em D. +Maria, a interrogar o visinho do lado, pelo theor que vae vêr-se, sempre +que apparecia em scena alguma actriz. + +Entrava por exemplo a sr.^a Emilia das Neves, o provinciano voltava-se +para o sujeito e dizia-lhe piscando-lhe o olho intencionalmente: + +--Esta...? + +E o sujeito: + +--Não sei... + +Entrava a sr.^a Virginia: + +--E esta...? + +--Homem deixe-me... + +Entrava a sr.^a Amelia Vieira. + +--E esta...? + +--Diabo, o senhor é inconveniente! Não sei nada... + +O provinciano porém não se dava por vencido. + +--E esta...? continuava elle sempre a perguntar. + +De repente entra o Theodorico. Então o sujeito, desesperado, fulo, +volta-se para o pobre provinciano e diz-lhe muito serio: + +--Olhe este... com certesa... + +A princeza fez exactamente o papel do provinciano, e, tão infeliz como +elle, não ficou sabendo coisa nenhuma... + +Ficou até sabendo menos que o provinciano... + + * * * * * + +Em todo o caso registe-se que no entender de sua alteza a vida dos +bastidores em Portugal é uma pulhice... «Mais burgueza que +desregrada...» chega a ser infame, não é assim princeza? + +E depois que mulheres estas de theatro! Que impossiveis creaturinhas! +Dão tanto que fallar pela sua conducta como pelo seu talento... O mesmo +não se pode dizer que aconteça com certa pessoa que nós sabemos... + +Essa dá muito mais que fallar pela sua conducta do que pelo seu +talento... + +Foi devéras infeliz a princeza em questões de theatro. Viu-se sempre +embaraçada. Até se quizesse citar alguma actriz que se distinguisse das +suas collegas pelo seu luxo ou pelos seus amores, até n'essas +circumstancias os embaraços lhe não permittiriam a citação... + +É realmente estar com azar. + +Pois nós se quizessemos citar alguma princeza que se distinguisse de +todas as outras pelo seu luxo _tapageur_ ou pelos seus amores, faziamos +isso sem a mais pequena difficuldade... + + * * * * * + +Termina sua alteza o capitulo dos theatros fallando das dançarinas de S. +Carlos. Diz sua alteza:--«As dançarinas não dão que fallar de si. Ha +para isto duas razões:--a primeira é que, salvo duas ou tres excepções +são feias que mettem medo a segunda é que a maioria d'ellas parece-me +ter chegado, a esta edade feliz em que se tem jus á veneração e ao +respeito.» + +Ora aqui está o que aconteceria a sua alteza se em vez de ser uma _bas +bleue_ pretenciosa fôsse dançarina de S. Carlos. Ninguem fallaria +n'ella... Por tudo, e principalmente... pela segunda razão... + + * * * * * + +Deixemos porém os theatros e vejamos o que a princeza diz a respeito do +nosso mais notavel monumento--o mosteiro da Batalha. + +«_Batalha_, tambem pequena cidade, (que disparate!) alguns kilometros +mais longe (do que Alcobaça, que descreve antes) possue um mosteiro mais +pequeno; mas tambem gothico, e de um estylo ainda mais puro que o de +Alcobaça. + +Este mosteiro foi fundado pelo rei D. João I, que ahi repousa. Nota-se +particularmente a sala do capitulo, cuja elegancia é superior a toda a +expressão, bem como o claustro. Decididamente, os senhores frades +d'aquelles tempos tinham bem boas habitações, e é pena que se não +tivessem construido mais, tão encantadoras, não para lhe servirem +unicamente de residencia, mas para alegrarem os olhos dos _touristes_.» + +Ter visto a Batalha, ter entrado n'aquelle monumento, que é uma +verdadeira epopeia de pedra, e escrever o que ahi fica, sabe o que é, +princeza?--é um diploma. Simplesmente não lhe digo de quê.--Vá ter com +alguns dos muitos estrangeiros illustres que visitaram aquelle mosteiro, +francezes, inglezes, italianos, hespanhoes, russos, allemães, ou de +qualquer outra nacionalidade, diga-lhes que viu a Batalha, mostre-lhes +depois o que escreveu no seu livro... qualquer d'elles lhe dirá de que é +o tal diploma... + +Mas, que diabo! tambem não pode haver tempo para tudo, e, ella por ella, +a equipagem do marquez de V. é decerto muito mais digna de attenção do +que o monumental edificio da Batalha! + +É pena, diz sua alteza, que não se tivessem construido mais monumentos +para alegrar os olhos dos _touristes_... + +Ah! sim, é pena! pois não! chega a ser uma dôr d'alma não estar o reino +de Portugal cheio de monumentos, como a Batalha, para que sua alteza, a +muito alta e muito nobre princeza Rattazzi, podesse percorrer o paiz com +os olhinhos alegres! + + * * * * * + +Porque afinal de contas, o magestoso e sublime mosteiro não lhe causou +nenhuma outra impressão... alegrou-lhe o olho. + +Frei Luiz de Sousa, descreve-o com a sua penna de ouro, o inglez Murphy +estuda-o maravilhado durante largos annos, o erudito patriarcha D. +Francisco de S. Luiz dedica-lhe uma extensa memoria:--n'uma palavra, +nacionaes e estrangeiros, curvam-se reverentes em presença do patriotico +e veneravel monumento... Rattazzi vae vel-o... faz-lhe a honra de +conceder-lhe doze linhas... e alegra-se-lhe o olho... Isto é, o mosteiro +produz-lhe o mesmo effeito que um copinho de _chartreuse_... Vamos +compatriotas, sirvam café á princeza, e tragam n'uma bandeja... mosteiro +da Batalha e copos... Sua alteza tem o olhar basso e triste... +alegremos-lhe o olho... dêmos-lhe um calicesinho da _sala do +capitulo_... Então princeza, nada de ceremonias... Se quer mandamos +tambem buscar os Jeronymos... Beba, beba... Alegre-se... alegre-se... + +É impagavel no fim de tudo esta Rattazzi:--Melicio é espirituoso e +incisivo, e a Batalha... alegra-lhe o olho... + +Delicioso, como dizia o Leoni nos _Amores de Boccacio_... + + * * * * * + +Tudo quanto o leitor tem visto até agora, fica porém eclipsado pelo +capitulo em que a muito nobre princeza falla do modo porque os +estrangeiros são recebidos em Lisboa. + +Leiam: + + * * * * * + +«Pode dizer-se, sem grande exaggero, que ha um secreto horror pelos +estrangeiros e que são olhados com maus olhos. Entretanto esta execração +tem graus e não deixa de ser curioso fazer o seu estudo. + +Supponhamos que um pobre diabo cae de inanição n'uma das praças publicas +de Lisboa, confessando que não recebeu do céu a graça de ter nascido +cidadão portuguez. + +1.^o--Se é inglez, dão-lhe os restos da comida do dia antecedente. + +2.^o--Se é allemão, um bocado de pão. + +3.^o--Se é americano, umas migalhas. + +4.^o--Se é italiano, um copo de agua. + +5.^o--Se é francez, não lhe dão nada. + +Aqui está approximadamente a gradação de estima a que um estrangeiro +póde aspirar em Portugal. + +Os inglezes são os mais considerados, o que se explica, dizendo-se que +Portugal é um pouco uma colonia ingleza, uma terra de exportação para os +productos da Grã-Bretanha: o ouro e os uniformes militares são inglezes. +Ha n'este povo meridional muitos costumes anglicanos que ficaram como +recordação da alliança das armas inglezas contra os francezes em 1808. + +Os allemães gosam de alguma consideração. + +Os americanos do norte são antes temidos do que estimados. + +Os italianos são todos pastelleiros ou tenores; é a opinião dos +portuguezes que dou aqui, não a minha. Mas é uma opinião perfeitamente +estabelecida, e qualquer que seja a posição social d'um italiano que +chega a Portugal, será considerado por todos como um pastelleiro que fez +fortuna, ou como um tenor em procura de escriptura. + +Os francezes muito bem acolhidos á superficie, são perfeitamente +detestados no fundo. Quando não são luveiros, cabelleireiros ou +cozinheiros consideram-os como uns aventureiros. Ha uma avidez por todos +os fructos da sua intelligencia, tira-se-lhes tudo que produzem em +sciencias, bellas artes e litteratura, mas ninguem se julga em obrigação +de lhes dar nada em troca. Detestam-os por instincto. Esta antipathia +transmitte-se de paes a filhos, ou para melhor dizer, remonta de filhos +a paes até ao primeiro imperio.» + + * * * * * + +Disse uma vez um poeta nosso que certo sujeito era uma perfidia dentro +d'um assucareiro, d'este trechosinho póde dizer-se, parodiando aquella +phrase:--que é tambem uma perfidia dentro d'outra coisa acabada em +_eiro_. + +Com que então em Lisboa quando se encontra um francez cahido no meio da +rua, cheio de fome, morto de inanição, passa-se para deante e não se lhe +dá nada, absolutamente nada, _rien du tout_? + +Oh! honestissima e honradissima princeza, porque não se atolou mais um +poucochinho no esterquilinio da calumnia,--para que deixou a cabecinha +de fóra? Que diabo! tem pouca imaginação vossa alteza! gira-lhe nas +veias sangue de principes, mas a calumniar não passa d'uma +burguesinha--porque dizer só, que a um francez que se encontra estendido +na praça publica, nada se dá, nada se lhe faz?--porque não disse antes, +que se varria esse francez d'envolta com o lixo, porque não disse que se +lhe dava um bolo de strichinina?--_Per Baco_, produzia mais effeito, +princeza! + + * * * * * + +Afinal, de tudo quanto ha no seu livro, a pagina deveras torpe, é +aquella. + +Do resto, diga-se a verdade, nem quasi valia a pena fallar. + +Ah! mas aquella paginasinha, merece, merece que se escrevam algumas +linhas... + +Quem lhe disse, princeza, que os francezes eram detestados em Lisboa, +detestados por instincto?--Eu sei quem lh'o disse,--foi a sua espertesa +saloia. Vossa alteza sahiu de Portugal despeitada com muita gente,--por +isto, por aquillo, por aquell'outro,--porque a nossa boa nobreza, que +ainda a temos, não a visitou;--porque os jornaes não fallaram tanto +quanto vossa alteza queria do seu talento e das suas obras;--porque a +platéa dos Recreios a pateou desapiedadamente; etc. Sahindo d'aqui +despeitada quiz vingar-se. É natural. Era preciso porém para que a sua +vingança fosse completa que ella encontrasse echo n'essa grande nação +que ainda hoje dá as leis ao mundo.--«Vou desacreditar Portugal á face +da França--» disse a princeza com os seus algodões.--Mas para que a +França faça o acompanhamento á minha serenata, o que heide eu +fazer?--Porque afinal a verdade é esta:--eu sou muito conhecida em +França... Alfonse Karr, Boissieu, Pelletan... que o diabo, os confunda a +todos,--mostraram bem quem eu sou, nas _Guépes_ nas _Lettres de +Colombine_, na _Nouvelle Babylone_... Ah! já sei! exclamou vossa alteza +de repente:--escrevo que os francezes são detestados, execrados em +Portugal... Sim, sim, é isto:--_Tonerre de Dieu!_ estava-me +desconhecendo... Que tempo levei para fazer uma descoberta afinal tão +simples, e tanto na minha indole... É claro como agua:--dizendo eu que +os francezes são odiados, detestados, execrados, que ao vêl'os +estendidos no meio da rua ninguem os soccorre, e que para ali ficam +abandonados como famintos cãos vadios, elles, esses bons e +enthusiasticos francezes, sentirão o fogo da indignação girar-lhe nas +veias, e correndo ao meu palacio, virão gritar em côro debaixo das +minhas janellas:--Bravo princeza, bravo, quanto dizes d'essa cambada, +d'essa canalha de portuguezes é pouco; nunca as mãos te doam, mulher! +Patifes, deixarem-nos morrer sem soccorros no meio da rua... Tira-lhes a +pelle, escorraça-os, frege-os em postas--e conta que as nossas bençãos +cahirão sobre a tua cabeça.» + + * * * * * + +Ora tudo isto, princeza, permitta-me que repita a phrase, não passou de +esperteza saloia. + +A França, sabe perfeitamente quanto é querida e estimada em Portugal. +Ella não ignora de certo que na hora da provação, quando rebentou essa +terrivel guerra franco-prussiana, aqui n'esta cidade de Lisboa,--onde se +abandonam vilmente francezes no meio da rua,--todos, sem distincção de +classes, desde o chefe do estado, podemos dizel-o, até ao mais humilde +cidadão, todos faziam votos para que a victoria fosse coroar com a sua +rutilante aureola as armas d'esse valente e generoso povo, que Portugal +tem o bom senso de não tornar responsavel pelos actos praticados por +dois dos seus despotas. + +E olhe vossa alteza princeza:--tudo isto aconteceu estando um Bonaparte +á frente da França... Hoje, que não está lá nenhum, calcule como terá +augmentado a nossa sympathia por aquella grande nação. + + * * * * * + +A esperteza saloia precisava de correctivo. Ahi fica. A princeza diz que +nós os portuguezes somos muito pacientes. Assim é, mas quando um +mosquito começa a zumbir-nos aos ouvidos, a importunar-nos, depois de o +sacudirmos, uma, duas, tres vezes, zangamo-nos e damos-lhe uma palmada +com tanta vontade... que o esborrachamos. + +É uma porcaria, d'accordo. Mas tambem para que serve a agua? + + * * * * * + +Agora as ultimas palavras... as palavras da despedida. + +N'uma carta circular que sua alteza dirigiu á imprensa diz:--_Il faut me +pardonner quelques plaisanteries sans importance et sans parti pris_... +que é como se dissesse:--queiram os senhores desculpar alguns gracejos +innoffensivos e sem intenção... + +Ah! pois não princeza! Com todo o gosto... Sem mais aquella, como se diz +em giria... E se o nosso folheto tiver a honra de ser lido por vossa +alteza, lembre-se das suas linhas e queira tambem +desculpar-nos:--_quelques plaisanteries sans importance et sans parti +pris_. + + * * * * * + +Segue a biographia da princeza. + + + + +BIOGRAPHIA + + +Rattazzi--(Maria Studolmire Wyse, princeza de Solms, depois condessa) +mulher de lettras franceza, nascida em Waterfard (Inglaterra) em 1833. É +neta de Luciano Bonaparte, irmão de Napoleão I, e filha de Letizia +Bonaparte, e de sir Thomaz Wise, membro do parlamento de Inglaterra, que +morreu ministro plenipotenciario da Grã-Bretanha em Athenas. Descendente +de uma serie de uniões consideradas como outras tantas _mesalliances_ +para a familia Bonaparte, foi sempre considerada por esta como uma +intrusa, ou como uma inimiga. Quando o principe Luiz, seu primo, foi +eleito presidente da Republica franceza, prohibiu-lhe formalmente que +usasse o nome de Bonaparte-Wise, pelo qual eram conhecidos seu pae e seu +irmão. Entretanto, a sua filiação napoleonica, está tão bem estabelecida +senão melhor que a do seu proprio primo. Seu avô Luciano, principe de +Canino, casára, em segundas nupcias, com madame Bleschamp, viuva de um +agente de cambio, casamento que descontentou muito Napoleão, e fez +romper todas as relações da familia imperial com Luciano; este, tendo-se +retirado á Italia, fez naturalisar romanos todos os seus filhos, tão +pouca era a sua fé na restauração da dynastia a que pertencia. A neta, +nascida de mãe romana, Letizia Bonaparte, e de pae irlandez, era +realmente uma Bonaparte, mas tão pouco franceza quanto possivel. Foi +comtudo educada na casa da Legião de Honra de S. Diniz, e, como não +tivesse meios, fez-se professora. + +Em 1848, quando á familia Bonaparte foi permittida a entrada em França, +e o principe Luiz se propoz a presidente da Republica Franceza, foi +pedida em casamento por Mr. Frederico de Solms, rico alsaciano que a +dotou em 700 ou 800 mil francos, esperando que ella viesse a ser uma das +estrellas da futura côrte de seu primo, e que assim o levasse ás +grandezas. Não aconteceu nada d'isto. Os Bonapartes, e principalmente o +futuro Napoleão 3.^o não a consideraram como da familia; como o pae da +segunda mulher de Luciano occupara um emprego d'inspector _nos direitos +reunidos_, pretendiam não terem nada de commum com a descendente d'um +vendedor de tabacos, e foi isto o que os jornaes do Elysseu lhe +disseram, nu e cru, quando Madame de Solms, posto que muito nova ainda, +porque então apenas contava 16 annos, começou a tornar-se notavel. + +Lançou-se então na opposição, attrahiu a sua casa algumas notabilidades +do partido democratico, abriu as suas salas aos litteratos, deu festas +esplendidas, e ostentou um luxo que tinha a pretenção de fazer epoca na +historia contemporanea. No seu pequeno circulo comparavam-a a +mademoiselle Montpensier e dizia-se que do seu _boudoir_ sahiria uma +nova Fronda. Por occasião do golpe de estado de 2 de dezembro, em que +estavam implicadas algumas pessoas que frequentavam as suas salas, +julgou-se tambem obrigada a deixar a França, habitando ora em Roma, na +Belgica, ora as cidades de caldas mais notaveis. + +Considerava-se como exilada, e tendo alguns jornaes publicado que ella +pedira para ser amnistiada, fez-lhes publicar esta resposta altiva:--«Só +um governo liberal e sensato me póde fazer voltar á França. Até o dia em +que triumphem as nossas liberdades, acceito o exilio; mas protesto +energicamente contra toda e qualquer nova insinuação, grave ou pueril, +tendente a fazer admittir que, no presente ou no futuro, sob qualquer +consideração, e em qualquer extremidade em que me encontre, eu possa +ligar-me directa, ou indirectamente, a uma familia da qual me separei +voluntaria e seriamente.» + +Isto não a impediu de entrar em França em fins de 1852; mas em fevereiro +de 1853, recebeu ordem de expulsão e seu primo fel-a conduzir á +fronteira acompanhada pelos gendarmes. A causa d'esta expulsão +escandalosa era sempre a mesma, a sua obstinação em querer usar o nome +de Bonaparte que lhe negavam. Protestou pelos tribunaes, encarregou +Berryer de a defender, e o governo fez admittir pelos jornaes que a +ordem (arrêté) d'expulsão estava em fórma, visto que madame de Solms era +estrangeira e casada com um estrangeiro não naturalisado. É muito +provavel que M. de Solms, nascido em Strasburgo, fosse francez; mas o +governo obteve d'elle uma declaração na qual dizia não reclamar a +qualidade de francez. Na _Patria_ foi publicada a seguinte nota: + +«Por ordem do sr. intendente geral da policia, foram expulsos do +territorio francez madame de Solms, dizendo-se condessa de Solms, e M. +Wyse, (seu irmão, M. Bonaparte-Wyse) ambos estrangeiros; estas duas +pessoas usavam sem direito nenhum o nome de Bonaparte, e longe de +respeitarem o nome illustre que usurparam, serviam-se ao contrario +d'elle para se entregarem a escandalos desordenados, afim de mais +facilmente abusarem da credulidade das pessoas com quem estavam em +contacto. A ordem do sr. intendente geral de policia foi posta em +execução e madame de Solms e o sr. Wyse deixaram a França.» + +Quando se fez a annexação de Nice e da Saboya (1862), pediu a Napoleão +III a permissão de ficar em França, e obteve mesmo a de voltar a Paris; +abriu ali o seu salão, como antigamente, deu festas, escreveu chronicas +e _causeries_ em varios jornaes, o _Pays_, o _Constitutionel_, o _Turf_, +etc., fez fallar de si, como de costume, e, tendo-se reconhecido n'um +malicioso retrato traçado por M. de Boissieu, (_Fragment d'histoire, une +des plus spirituelles lettres de Colombine_, 1863), intentou no _Figaro_ +uma indemnisação de 200:000 francos de perdas e damnos. O tribunal +regeitou-lh'a. Entretanto tendo-lhe morrido o marido, uniu-se a Rattazzi +n'uma das suas viagens a Turim, e esta ligação teve algum tempo depois o +casamento por desenlace. A sua estada em Paris em 1865 trouxe-lhe novas +decepções; foi-lhes dada nova ordem de expulsão e retirada uma pensão de +que havia tres annos gosava. Desde então madame Rattazzi viveu +constantemente em Turim, Florença e Roma, e publicou grande numero de +volumes. Um dos seus romances, _Richeville_, fez algum barulho na +Italia, e valeu ao marido de madame Solms, algumas provocações em +duello. + + + + + +End of Project Gutenberg's A princeza na berlinda, by Urbano de Castro + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A PRINCEZA NA BERLINDA *** + +***** This file should be named 20103-8.txt or 20103-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/0/1/0/20103/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. 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Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/20103-8.zip b/20103-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..4045712 --- /dev/null +++ b/20103-8.zip diff --git a/20103-h.zip b/20103-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..e01e4ba --- /dev/null +++ b/20103-h.zip diff --git a/20103-h/20103-h.htm b/20103-h/20103-h.htm new file mode 100644 index 0000000..f2757c1 --- /dev/null +++ b/20103-h/20103-h.htm @@ -0,0 +1,2693 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> + +<head> + <title>A princeza na berlinda : Rattazzi a vol d'oiseau, com a +biographia de sua Alteza</title> + + + <meta content="Urbano de Castro" name="AUTHOR" /> + + <meta content="text/html; charset=utf-8" http-equiv="Content-Type" /> + + <style type="text/css"> +body {width: 50%; margin-left:10%; text-align: justify;} +h1, h2, h3, h4 { text-align: center;} +h1 {margin: 2em; text-align: center;} +h2, h4 {margin-top: 2em;} +.tiny {font-size: 75%; text-align: center;} +.tinyl {font-size: 90%; margin-left:5%;} +.bbox {border: solid black 1px; margin-left: 5%; margin-right: 5%;} +.fbox {border: solid black 1px; background-color: #FFFFCC; font-size: 75%; margin-left: 10%; margin-right: 10%;} +.intro {font-size: 90%; font-style: italic;} +.signature { +margin-right: 5%; +text-align: right;} +.smallcaps {font-variant: small-caps;} +.quote {margin-left:7%; margin-right:7%;} +.quote1 {margin-left:30%;} +.right {text-align: right;} +.break { +width: 40%; +margin-left:30%;} +.sbreak { +width: 30%; +margin-left:35%;} +.breaks { +width: 90%; +margin-left:5%;} +.dots {color: #fff; background-color: inherit; border: 3px dotted #555; border-style: none none dotted;} +.poetry {margin-left:20%;} +.poetry1 {margin-left:10%;} +.pagenum { position: absolute; right: 35%; +font-size: 75%; +text-align: right; +text-indent: 0em; +font-style: normal; +font-weight: normal; +color: silver; background-color: inherit; +font-variant: normal;} + </style> +</head> + +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of A princeza na berlinda, by Urbano de Castro + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A princeza na berlinda + Rattazzi a vol d'oiseau, com a biographia de sua Alteza + +Author: Urbano de Castro + +Release Date: February 4, 2008 [EBook #20103] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: UTF-8 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A PRINCEZA NA BERLINDA *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + +</pre> + + +<div> +<br /> + +<br /> + +<h2>RATTAZZI A VOL D'OISEAU </h2> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="bbox"><br /> + +<h3>URBANO DE CASTRO<br /> + +CHA-RI-VA-RI<br /> + +</h3> + +<div class="sbreak"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +<h1>A PRINCEZA</h1> + +<h2>NA BERLINDA</h2> + +<br /> + +<br /> + +<h3>RATTAZZI A VOL D'OISEAU</h3> + +<h4> +COM A BIOGRAPHIA DE SUA ALTEZA</h4> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;"><span class="smallcaps">(segunda +edição)</span><br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div style="text-align: center;">LISBOA<br /> + +TYPOGRAPHIA PORTUGUEZA<br /> + +7, Rua da Paz, 7<br /> + +1880<br /> + +</div> + +<br /> + +</div> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>A PRINCEZA NA BERLINDA</h2> + +<br /> + +<br /> + +Não será talvez máo começar +por fazer uma declaração:―nunca passei +pelos beiços os guardanapos da princeza... Parece-me +conveniente dizer +isto. A <em>minha terra</em>, que era pequena no tempo de +Garret, +não me consta +que tenha crescido, depois da sua morte... Tem até diminuido +um pouco... +talvez!<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Foi pelos jantares que a princesa conseguiu tornar-se conhecida em +Lisboa. Quando aqui chegou, vendo que ninguem a procurava, que a +litteratura não corria pressurosa ao <em>Bragança</em>, +cumulando-a de elogios +banaes e de bilhetes de visita baratos, sentio dentro da sua alma a +mordedura cruel do amor proprio offendido. E amor proprio de mulher, +amor proprio de princeza! Calculem que dentada! Esperou, um, dois, tres +dias... uma semana, outra... a litteratura não +apparecia!―Pois ha de +apparecer! exclamou ella―E convidou-a para jantar. E a litteratura +appareceu. <span class="pagenum">[6]</span> +Os livros da princeza, que até então +ninguem conhecia em +Lisboa, e que ella mandara adiante para os livreiros, como batedores da +sua fama, começaram por essa epoca a ter uma tal ou qual +extracção. Não +é difficil advinhar quem os comprava―eram os convivas dos +seus +jantares―Comprehende-se. Realmente seria pouca amabilidade comer o +<em>foie gras</em> de Rattazzi, e não dizer ao +menos, no fim, que +era admiravel +o seu livro <em>Si j'etais reine</em>; beber o champagne +da princeza, e +não lhe +segredar que nunca mulher nenhuma escrevera um volume como <em>Nice +la +Belle</em>. E a proposito dos livros citavam-se os trechos das +paginas +abertas, abril-os seria muito, e bebia-se mais um copo. A princeza, que +é inquestionavelmente uma mulher d'espirito, percebeu, o que +de resto +não era muito difficil, a <em>manobra fraudulenta</em>, +como diz o +sr. Duc nos +livros de mortalhas, dos litteratos de Lisboa...<br /> + +<br /> + +Callou-se porém muito bem callada e continuou a dar-lhes +jantares +hebdomadarios. A concorrencia cada vez era maior. Houve sujeito que se +fez litterato, só para jantar com a princeza. Cá +fóra, no Martinho e na +Havanesa, esses jantares eram digeridos e commentados com a face +vermelha e a palavra quente... Contavam-se anecdotas, que é +deveras pena +não terem chegado aos ouvidos da princeza, porque, algumas +d'ellas não +são em nada inferiores a muitas que lêmos no seu +livro...<br /> + +<br /> + +E aqui está como madame Rattazzi conseguiu durante um mez +ser uma +notabilidade em Lisboa. Sua altesa, porém, em vez de +contentar-se com +esta gloria, embora de 2.ª ordem, lembrou-se um dia de querer +uma +gloria de 1.ª sorte, e escreveu uma comedia que, depois de +muito +applaudida em sua casa pelos seus commensaes, foi representada no +theatro dos Recreios, a quem ella, com carradas de rasão +chama um +calvario, visto que lá teve... a cruz da pateada...<br /> + +<br /> + +Tambem que diabo de publico este de Lisboa... atrever-se a patear uma +princeza... Se sua alteza tem a mania dos cumulos,―e porque +não a +terá?―sim, porque não terá sua alteza +a mania dos cumulos, se a tem, é +impossivel que pelo seu preclaro espirito não tivesse +passado este―o +cumulo da selvageria:―<em>Patear uma princeza...</em><br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[7]</span> +Ah! decididamente sua alteza não estava em sorte... <em>Pas +de +chance</em>! No +hotel os convivas faziam muito mais despeza de iguarias do que de +elogios; nos Recreios, o publico muita mais despeza de botas do que de +luvas... <em>Pas de chance</em>!<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Foi então, naturalmente, que o seu espirito se orientou na +direcção a +dar ao <em>Portugal à vol d'oiseau</em>.<br /> + +<br /> + +―Ah! os senhores julgam que não é mais do que +comerem-me os meus +jantares, do que patearem-me as minhas peças, esperem ahi +que já os +ensino! Até aqui tenho-os recebido como convivas, agora vou +passar a +tratal-os como assumptos! Os senhores pensam, quando estão +á minha mesa, +que são meus commensaes?―pois enganam-se, são +paginas para o meu livro! +Não sou eu quem os obsequeio aos senhores, os senhores +é que me +obsequeiam. Escusam de dizer «muito obrigado!» eu +é que tenho que +dizer-lhes «<em>merci</em>»!<br /> + +<br /> + +E escreveu <em>Le Portugal à vol d'oiseau</em>.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Lisboa já sabe pouco mais ou menos o que o livro +é. Os jornaes tem dado +excellentes amostras d'aquella famosa peça...<br /> + +<br /> + +Porque não havemos nós de dar tambem algumas? +Estes dois perfis da nossa +nobreza, por exemplo...<br /> + +<br /> + +Venha primeiro o conde de ***<br /> + +<br /> + +«â€•O conde *** um dos meus valsistas, e um valsista +encantador, entre +parenthesis, não é menos notavel. De muito antiga +e nobre familia, é +verdadeiramente um dos typos mais salientes de Lisboa. Orça +pelos cincoenta, mas +<span class="pagenum">[8]</span> +não obstante apparenta um grande ar de +mocidade. +Baixinho, apurado, e elegante, ha em toda a sua pessoa uma excessiva +vivacidade. Esta vivacidade será natural ou o resultado d'um +estudo +paciente para parecer ainda mais novo?<br /> + +<br /> + +Talvez que sim a avaliar a sua petulancia pelo mais. Os bigodes do +conde +de *** são mais negros do que o ebano.<br /> + +<br /> + +Mas isto não é nada comparado ao craneo do +encantador conde; o +proprietario d'este craneo conserva n'elle alguns cabellos, raros, +semeados aqui e ali, tratados com zelosos cuidados, e que puchados +artisticamente para a testa, ahi occupam o maximo espaço +possivel para +assim substituirem os ausentes. Para suprir os defuntos põe +no cucuruto +uma especie de pequeno crescente―não, eu nunca ousaria +dizer chinó +fallando de tão perfeito cavalheiro―que se confunde +graciosamente com +os cabellos: depois cobre tudo isto com uma espessa camada de pez e +summo de alcaçuz de que faz uma pomada a fogo lento; por fim +o seu +creado de quarto, confidente d'esta excentricidade, traça no +meio d'esta +pasta de <em>raisiné breton</em>, uma risca +d'uma delicadeza, d'uma +puresa, +d'uma nitidez a causar inveja a uma rapariga de quinze annos. Quando a +cataplasma está secca, o conde póde apparecer no +meio dos seus +concidadãos. Todos conhecem o mysterio d'aquella +cabeça e ha delirios de +alegria quando o excellente homem é obrigado, em pleno sol +ou em pleno +baile, a andar de chapeu na mão, porque o calor tendo +acção dissolvente +sobre aquella untura, resulta d'ahi começar ella a mover-se, +a palpitar, +a derreter-se, acabando por escorrer pelo pescoço e pelo +nariz do seu +proprietario.<br /> + +<br /> + +Não obstante o conde de *** é um grande +conquistador, um namorador que +não perde occasião de deitar a sua olhadella, +sendo porém capaz de +praticar heroismos, como o demonstram varias circumstancias da sua +vida.<br /> + +<br /> + +Conta-se este facto digno dos melhores tempos da monarchia. O conde era +camarista da infanta D. Izabel, que morreu ha annos, em +avançada edade, +no seu palacio de Bemfica nos arrebaldes de Lisboa. Sendo os principes +da familia real depositados na egreja de S. Vicente, situada n'um dos +extremos da cidade opposto a Bemfica, o cortejo +<span class="pagenum">[9]</span> +funebre teve de +percorrer duas leguas, a passo, em pleno mez de julho.<br /> + +<br /> + +O conde devia seguir a cavallo, uniformisado e de cabeça +descoberta, o +corpo da sua real ama, debaixo d'um sol torrido, o que elle fez +magnanimamente, sem trepidar, entregando aos abrasadores raios de Phebo +a sua untura quotidiana―facil presa―sem temer a troça dos +graciosos +que, no dia seguinte, alludindo á +liquefação do cosmetico, diziam por +toda a parte que ninguem figurara no cortejo com o rosto mais +tristemente cheio de luto do que o infeliz conde de ***.»<br /> + +<br /> + +Igual a isto só aquella celebre caricatura do <em>Antonio +Maria</em>... +«<em>Dá-lhe cuspo...</em>»<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Agora o marquez de V. ***<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +―«Como exemplo não, quero citar senão +um dos meus amigos o marquez de +V. ***. Vale bem a pena. É uma personalidade, uma +celebridade, uma +curiosidade de primeira ordem. Em vão lhe procurariam rival +na galeria +do duque de Saint-Simon, e ainda menos na +collecção tão rica de +Moliére. +Em certas festas de gala ou de representação +exterior, o marquez de V. +*** julga-se obrigado a seguir as carruagens da côrte na sua +equipagem, +e é esta equipagem que faz do nobre marquez uma curiosidade +unica do +mundo.<br /> + +<br /> + +Imagine-se um coche do seculo passado, envidraçado de modo a +ver-se todo +o interior, montado sobre molas e rodas que fazem pensar nas machinas +de +<em>Leviathan</em>, tudo isto pintado de verde, cheio de +dourados em alto e +baixo relevo. No meio d'esta caixa throno, o marquez de V. *** +só, de cabeça descoberta, com o grande uniforme +<span class="pagenum">[10]</span> +d'uma ordem qualquer, com os +olhos fitos na sua frente, parecendo contemplar em extase as abas da +libré do seu cocheiro, não voltando a +cabeça nunca, nem para a direita +nem para a esquerda: dir-se-hia uma estatua e não um homem.<br /> + +<br /> + +A carruagem é atrelada a quatro cavallos, montados por dois +postilhões e +guiados por um cocheiro gorducho sentado n'uma almofada que parece um +divan. Na taboa da carruagem dois enormes lacaios em pé. +Todo este +pessoal vem empoado e veste uma libré verde claro que +deslumbra a vista +e faz piscar os olhos. Não se póde imaginar nada +mais original. Quando a +cerimonia terminou e a parte official do programma está +cumprida, o +marquez faz gravemente o giro das principaes ruas e praças +de Lisboa +para se fazer admirar. Em Paris entraria em casa corrido a batatas +cozidas. Aqui deixam-o em paz―<em>é costume</em>.<br /> + +<br /> + +Se eu fosse rei de Portugal prohibia a este fidalgo, sob as mais graves +penas, de me fazer assim cortejo com a sua entrudada, mas, com isso, +arriscaria talvez a minha corôa.<br /> + +<br /> + +É de justiça acrescentar que o marquez de V. +é um homem instruido. Que +seria, Deus meu, se o não fosse!»<br /> + +<br /> + +Realmente está parecido... O <em>Antonio Maria</em> +não +o faz melhor...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Depois d'estes perfis hilariantes como o protoxido de azote, tenha o +leitor a paciencia de me acompanhar ao capitulo em que sua altesa nos +dá +a honra de fallar dos nossos enterros.<br /> + +<br /> + +Dêmos a palavra á princeza:<br /> + +<br /> + +«É realmente coisa curiosa que acompanhando o pae +os filhos ao +cemiterio, estes não acompanhem os paes: não +é costume. Deixa-se este +cuidado aos parentes mais affastados ou aos amigos. Porquê? +Não m'o +poderam explicar: acho porém esquisito.»<br /> + +<br /> + +Está no seu direito. Foi porém mal informada. Os +paes +<span class="pagenum">[11]</span> +tambem não +acompanham os filhos. Quanto a achar o caso estranho não tem +de quê. O +facto de em França os parentes mais proximos acompanharem os +cadaveres +dos seus defunctos não prova nada, senão que +até na morte é verdadeiro o +dictado:―<em>Cada terra com seu uso...</em> O que +é deveras +esquisito, é +querer sua altesa que os costumes sejam os mesmos em todos os paizes. +Para quem se propõe escrever livros de viagem, +não póde haver ponto de +vista mais ridiculo nem mais acanhado.<br /> + +<br /> + +Continua a auctora:―«Quando uma pessoa morre, a familia +não envia +cartas de participação. Faz um annuncio nos +jornaes, e está tudo +prompto, visto que o dito annuncio termina invariavelmente por este +<em>cliché</em>: <em>Não se +fazem convites especiaes attendendo ao estado de +consternação indizivel em que a familia +está</em>...<br /> + +<br /> + +Comprehendo muito bem que a familia esteja n'um estado de +consternação +indizivel: entretanto, visto que esta +consternação lhe permitte fazer +annuncios nos jornaes, parece-me que, com um pequeno +esforço, lhe +permittiria tambem enviar cartas de participação +impressas a casa de +cada um, como se faz nos outros paizes.<br /> + +<br /> + +Resulta com effeito d'este costume que, se não se lerem os +jornaes, ou +antes os annuncios dos jornaes, póde muito bem acontecer +deixar uma +pessoa de acompanhar ao cemiterio o seu tio, primo, ou o seu melhor +amigo.»<br /> + +<br /> + +Foi ainda mal informada sua alteza. É verdade que muitas +vezes o +annuncio funebre termina por aquelle molho, mas não +é menos verdade que +rarissimas vezes se deixa de enviar cartas de +participação. Sua alteza +não recebeu nenhuma, e por isso naturalmente lembrou-se de +nos ensinar +como estas coisas se fazem nos paizes civilisados. Obrigado princeza. +Quanto a não ter recebido carta alguma de +participação desculpe:―hei de +mandar-lhe uma... quando morrer o meu Tareco.<br /> + +<br /> + +Coitada! Infeliz princeza! Ninguem lhe mandou carta de +participação. +Então que se lhe ha de fazer, no nosso paiz os enterros +serão tudo +quanto quizer... mas não são entrudadas...<br /> + +<br /> + +A respeito dos chavões com que é costume fechar +annuncios funebres +faltou-lhe ainda um. É este:―<em>não se +fazem +<span class="pagenum">[12]</span> +convites especiaes por +expressa determinação do finado</em>. Foi +pena +escapar. Que bella pagina +humoristica não escrevia a princeza com thema tão +divertido!<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Mas nem só os enterros tem a honra de espantar sua alteza... +O livro +está cheio de exemplos do mesmo genero.<br /> + +<br /> + +Sente-se mesmo em algumas paginas que a princeza não chega a +contar +metade dos seus espantos... Qual metade!―nem a decima, nem a +centesima, +nem a milesima parte...<br /> + +<br /> + +Porque a verdade é esta:―sua alteza apenas transpoz a +fronteira começou +a sentir as dôres... do espanto... Exactamente, agora +é que eu +acertei... começou a sentir as dôres do espanto, e +o seu livro, que até +hoje ninguem sabia bem o que é, passa agora muito +logicamente a ser o +feliz parto que a alliviou das citadas dôres, logo que ella +se viu em +terreno conhecido, que é como quem diria:―logo que a +natureza permittiu +que o robusto menino visse a clara luz do dia...<br /> + +<br /> + +Espanto! Espanto! sempre espanto!<br /> + +<br /> + +Os portuguezes não dizem «até +manhã» dizem «até +ámanhã se Deus +quizer»â€•espanto: não acompanham seus paes ao +cemiterio,―espanto: as +varinas carregam-se de oiro,―espanto: vae muita gente aos bastidores +de +S. Carlos,―espanto: dizemos <em>um copo d'agua</em> e +não <em>un +verre +d'eau</em>,―espanto: estamos a uma latitude e a uma longitude +differentes +de Paris,―espanto: as nossas pulgas mordem,―espanto: o nariz do sr. +Minhava é enorme,―espanto: <em>pomme de terre</em>, +chama-se +batatas,―espanto: uma <em>precieuse ridicule</em> +é uma tola... +espanto!<br /> + +<br /> + +Espanto, espanto, sempre espanto!<br /> + +<br /> + +Porque não escreveu o seu livro tal qual o pensou princeza?<br /> + +<br /> + +Porque não nos deu, por exemplo, uma pagina n'este +genero:―«Uma vez, +tendo entrado casualmente n'uma egreja, approximei-me d'uma mulher que +estava rezando, +<span class="pagenum">[13]</span> +em voz sufficientemente alta, para que se podesse +perceber o que ella dizia... Approximo-me mais, e calculem o meu +espanto, ao ouvir estas palavras:―<em>Padre, nosso, que estaes +nos +céus +santificado...</em> Accreditarão agora que isto quer +dizer em +portuguez:―<em>Notre père qui étes aux +cieux, que +votre nom soit, +santifié...</em><br /> + +<br /> + +Como diabo, perdoe-se-me a heresia, quererão os meus bons +amigos +portuguezes que Nosso Senhor os entenda?»<br /> + +<br /> + +E não seria este por certo o menos notavel dos seus +espantos.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Antes de passarmos adiante contemos um disparate que não +deixa de ter +graça. A paginas, não sei quantas, escrevendo a +princeza que nós não +fazemos uso de fogões para aquecer as casas, diz pouco mais +ou menos o +seguinte:―De resto, se fizessem uso d'elles, não se haviam +de vêr em +pequenos embaraços para arranjar o combustivel, a +não ser que deitassem +a mobilia ao fogo. A lenha é absolutamente desconhecida em +Portugal, e +custa cada kilo... tres mil réis!»<br /> + +<br /> + +―Oh! princeza, se vossa alteza quando esteve em Lisboa pagou a lenha +por aquelle preço, devo dizer-lhe duas coisas:―a primeira, +é que o seu +livro passa a ser um favo do Hymeto, a segunda... é que foi +roubada!<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +O que é verdade porém é que Lisboa +deve um grande serviço á princesa. +Nem mais nem menos do que a rusga feita ás casas de jogo nos +principios +d'este mez.<br /> + +<br /> + +Se duvidam, leiam.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Ha muito que no governo civil havia uma tal ou qual suspeitasinha, uma +vaga desconfiança, de que a roleta, esse +<span class="pagenum">[14]</span> +terrivel philloxera das +algibeiras, tivera o inqualificavel arrojo, o descaro inaudito de +assentar os seus arraiaes―aqui―na patria de Camões, nas +bochechas do +sr. Rosa Araujo, representante da dita patria. Mas tudo era vago, +incerto, nebuloso... A policia posta em campo nada descobrira. +Procurara-a,―oh! se a procurara!―como o nauta procura o norte, como a +ave procura o ninho, como a féra o seu covil―mas, apesar de +a procurar +com todo este excesso de poesia, o resultado era sempre o mesmo... +nada, +nada, nada, tres vezes nada coisa nenhuma!<br /> + +<br /> + +O habil Antunes, o eximio Castello Branco, o nunca assás +cantado 37―e +muitos outros egualmente habeis, egualmente eximios, egualmente nunca +assás cantados, encarregados secretamente de a descobrirem, +pozeram em +pratica as maiores subtilesas policiaes. Um d'elles chegou a +disfarçar-se em G. L. P... Nem assim a encontrou!<br /> + +<br /> + +Nada os fazia recuar, nada os intimidava, desconheciam... e creio que +ainda desconhecem, o verbo trepidar! Passeios, botequins, theatros, +tudo +assaltaram em busca da criminosa... Era um phrenesi, um delirio, uma +raiva... Mas a scelerada não apparecia!<br /> + +<br /> + +―E comtudo ella existe! exclamava o governo civil com o tom solemne +com +que por muito tempo se julgou que o sabio Gallileu dissera o +legendario:―<em>E pur si muove!</em><br /> + +<br /> + +Era para perder a cabeça.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Estavam as coisas n'estes termos quando chegou o livro da princeza. O +governo civil compra-o, começa a lêl-o e ao chegar +a paginas 149, já não +diz: «E comtudo ella existe!» no tom de Gallileu, +mas, qual outro +Archimedés, <em>toilette</em> aparte, solta do +fundo do seio um +jubiloso +<em>Eureka!</em><br /> + +<br /> + +Ah! é que effectivamente o caso não era para +menos. A pagina 149, +fallando das batotas, diz a princeza:<br /> + +<br /> + +Ha uma na rua do Alecrim.<br /> + +<br /> + +Uma, rua das Gavias.<br /> + +<br /> + +Uma, praça de +Camões.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[15]</span> +Duas, rua da Emenda.<br /> + +<br /> + +Uma, rua de S. Francisco.<br /> + +<br /> + +Uma, travessa de Santa Justa.<br /> + +<br /> + +Tres ou quatro á +Ribeira Velha.<br /> + +<br /> + +―Obrigado meu Deus! exclamou então o governo civil imitando +d'esta vez +a sr.<sup>a</sup> Emilia das Neves, obrigado meu Deus!<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +E aqui está como a policia conseguiu saber onde eram as +batotas. Ah! +princeza, princeza, vossa alteza merecia que pelo menos a fizessem... +chefe d'esquadra.<br /> + +<br /> + +E note-se mais, é ella, é ella quem ensina no seu +livro como se faz uma +rusga. Duvidam?<br /> + +<br /> + +Leiam.<br /> + +<br /> + +«â€•Em Paris a policia tem um serviço especial para +este genero de +industria prohibida. Os agentes d'este serviço espiam os +batoteiros, +estudam cuidadosamente o terreno, e uma bella noite cahem lá +dentro como +um raio e prendem todos, levando o dinheiro que está em cima +das mesas.»<br /> + +<br /> + +A policia seguiu as instrucções da princeza tanto +á risca, que até +escolheu uma bella noite, <em>une belle nuit</em>, para +fazer a sua rusga!<br /> + +<br /> + +Diz ainda sua alteza:―A mobilia é confiscada... e a policia +confiscou a +mobilia.<br /> + +<br /> + +Decididamente, a princeza tem todo o direito... a um apito honorario!<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Vejamos agora como sua alteza falla de alguns dos nossos escriptores.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +―<em>Camillo Castello Branco</em>, que parece o condemnado +aos trabalhos +publicos da litteratura portugueza, escreve, +<span class="pagenum">[16]</span> +escreve, escreve, escreve +sempre: superiormente, é questão controversa; +enormemente, com certesa. +A quantidade excede em muito a qualidade, diz-se, (diz ella); dotado de +uma actividade laboriosa, infatigavel, comparavel á de uma +legião de +formigas, construe romances contemporaneos sobre romances historicos, +com uma preseverança e uma sequencia que intrigam a +imaginação. É uma +especie de Quevedo com certo sentimentalismo catholico.<br /> + +<br /> + +Particularidade curiosa: em todos os seus romances entram +infallivelmente um brazileiro, uma menina que se mette n'um convento, +um +fidalgo provinciano, e um namorado amorudo e transparente. É +invariàvel +como a chuva e o bom tempo. De fórma, que o primeiro romance +que se lê +do sr. Branco parece muito interessante, o segundo accorda +remeniscencias, e o terceiro adivinha-se; o quarto sabe-se de +cór, +volta-se a pagina sabendo-se o que vae passar-se. É uma +galeria de +personagens que raramente se renova, como a dos museus de figuras de +cera. Os seus principaes romances são: <em>Onde +está +a felicidade</em>, <em>Doze +casamentos felizes</em>, <em>O que fazem mulheres</em>, +<em>Historia d'um homem +rico</em>; +são feitos com este arcabouço em que as vigas, as +asnas e os alicerces +são invariavelmente os mesmos.»<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +«â€•<em>Bulhão Pato</em>. É +um peninsular, um +sybarita, um camaleão. Como muitos +rapazes que se dizem artistas pintores ou esculptores, para terem o +direito de usar umas enormes cabelleiras e de adoptarem umas maneiras e +um modo de fallar desbragado, este, fez-se poeta, o que na alta +sociedade de Lisboa é um titulo de +apresentação.<br /> + +<br /> + +O sr. Bulhão Pato é incontestavelmente um homem +d'uma conversação +encantadora. Passando por espirituoso e mordente, imaginou que para ser +um genio lhe bastava o querer sel-o, esquecendo que não +é poeta quem +quer. Assim, creou-se por si só, e por si só, +ainda, se julga um grande +poeta. O seu poema, a <em>Paquita</em>, é uma +imitação dupla do estylo +aggressivo de Byron e da finura de Musset, um +<span class="pagenum">[17]</span> +urso fazendo rendas de +Alençon. Escreveu muitos volumes de versos, satiras, +novellas, etc., +onde se não encontra o reflexo do espirito notavel que tem a +fallar. O +que escreve não traduz o que diz (<em>Sa plume ne +traduit pas +sa langue</em>). +Para acabar este retrato é necessario acrescentar que +é impertinente, +irritavel, invejoso, que pouco sabe da vida, julga-a mal, e por isso +mesmo declara-se descontente com cada um e com todos, passando a vida a +lamentar-se sem rima nem rasão.»<br /> + +<br /> + +N'uma nota continúa no mesmo tom amavel chamando-lhe o +<em>poeta da melena</em> +(<em>poète aux longs cheveux</em>).<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +«â€•<em>Ernest Biestero</em>, o grande magro +litterario de quem +Castilho +dizia:â€•É um fructo de inverno, por mais que o expremam +não deita nada! +O que elle traduziu, apanhou, pilhou, é incalculavel: seriam +necessarios +volumes só para fazer a sua rapida +enumeração.<br /> + +<br /> + +Os seus dramas originaes, <em>Caridade na sombra</em>, <em>Moscovellos</em>, +<em>Natureza +de alma</em> (?) são uma galeria de manequins sem vida +e +até sem cordeis. +Deve accrescentar-se―segundo a chronica―que os seus dramas +são +retocados por seu cunhado Mendes Leal. O que os não +embelleza!<br /> + +<br /> + +Biester teve a gloria de ser um dos fundadores da <em>Revista +Contemporanea +de Portugal e Brazil</em>, que durou cinco annos, onde se acham +associadas +todas as individualidades do <em>elogio mutuo</em>.»<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +«â€•<em>Mendes Leal</em> (José da +Silva) nasceu em Lisboa +em 1820. Sem talento e +até sem disposições dramaticas +escreveu muitos dramas e romances +historicos. É o litterato portuguez que fez mais plagiatos, +e isto com a +maxima audacia e sem-cerimonia. O seu theatro pertence á +escola +<span class="pagenum">[18]</span> +do +ultra-romantismo, e os <em>Dois renegados</em>, que passam +por ser a fina +flôr +da sua corôa litteraria, são um drama insipido, +cheio de punhaes, +venenos e ciladas. O seu romance <em>Calabar</em> +é completamente +tirado do +<em>Bateur d'Estrade</em>, de Paul Duplessis; as suas +poesias formam um volume +no qual só uma poesia é digna de +menção, a <em>Morte de Carlos Alberto</em>. +Este fructo secco da litteratura foi bibliothecario de Lisboa, +ministro, +e finalmente ministro plenipotenciario em Paris. O que prova que as +mediocridades são muita vez empregadas.»<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Agora querem saber como apparecem os nomes portuguezes no livro da +princeza? Ahi vae uma amostra.<br /> + +<br /> + +<em>Odio velho não cança</em>, o +notavel romance de +Rebello da Silva, +é:―<em>Odio, velho, vraô cauca</em>.<br /> + +<br /> + +<em>O prato de arroz dôce</em>, de Teixeira de +Vasconcellos, +chama-se:―<em>O +Porto de oroz dou</em>.<br /> + +<br /> + +<em>As tempestades sonoras</em>, de Theophilo Braga, +são:―<em>As +tempos tades +sanoras</em>.<br /> + +<br /> + +<em>Moços e velhos</em>, que a princeza +erradamente attribue a +Ernesto Biester, +apparece assim no livro:―<em>Mocosvellos</em>.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Aos theatros de Lisboa faz sua alteza a honra de lhes consagrar um +capitulo do seu livro.<br /> + +<br /> + +E como a princeza é mulher coherente em todos os actos da +sua vida, não +quiz deixar de ser mexiriqueira tratando de assumpto que tanto a +mexericos se presta.<br /> + +<br /> + +Assim diz, por exemplo, fallando do theatro do +Gymnasio:―«Este theatro +não tem praso determinado para as suas +representações pela excellente +rasão de que as receitas são mais de que +mediocres. Os artistas e +directores do Gymnasio acham-se constantemente, uns para com os o +Assim diz, por exemplo, fallando do theatro do +Gymnasio:―«Este theatro +não tem praso determinado para as suas +representações pela excellente +rasão de que as receitas são mais de que +mediocres. Os artistas e +directores do Gymnasio acham-se constantemente, uns para com os outros, +<span class="pagenum">[19]</span> +na situação de um credor importuno para com Mr. +de Tayllerand.<br /> + +<br /> + +―O senhor não me dirá quando me paga o que me +deve? dizia o credor.<br /> + +<br /> + +―Ora sempre é muito curioso, respondeu o +principe.»<br /> + +<br /> + +Realmente é difficil perceber a que vem isto. Pela nossa +parte +entendemos que são profundamente ridiculos todos estes +promenores da +vida intima dos theatros... Julgamos além d'isso haver +falsidade no +mexerico da princeza. Mas ainda que seja verdade o que ella diz, +não +será de mau gosto trazer questõesinhas de +soalheiro para um livro de +viagens?<br /> + +<br /> + +Do Gymnasio, diz ainda, que viu ali representar magistralmente o actor +<em>Pedro</em>, secundado por duas jovens e formosas +mulheres <em>Candida</em> +e +<em>Lora</em>?<br /> + +<br /> + +Dou-lhes um doce se adivinharem quem são estas duas jovens e +formosas +mulheres. Candida e Lora quer dizer Amelia Vieira e Emilia dos Anjos. +Ha +porém uma difficuldade, e desde já nos +confessamos incompetentes para a +resolver:―Qual será a Lora?<br /> + +<br /> + +Mysterio que só a princeza poderá decifrar.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Do theatro da Rua dos Condes diz que se representa ali <em>Lazaro, +o +pastor</em>... É possivel. Em todo o caso devemos +declarar que +essa peça +subiu á scena expressamente para sua alteza a ver, e que foi +ainda sua +alteza a unica espectadora... O publico não a viu nunca.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +No capitulo <em>Theatros</em> trata muito natural e +judiciosamente o assumpto +pateadas. Não gosta d'ellas, parecem-lhe estupidos e +injustos os +sujeitos que pateiam. Abre curso de sensibilidade no artigo <em>pateader</em>. +Comprehende-se:―ella +<span class="pagenum">[20]</span> +é que está sensibilisada ao +escrever tudo isto, +recordando-se do modo porque a plateia dos <em>Recreios</em> +recebeu a sua +insipida e soporifera comedia.<br /> + +<br /> + +<em>Tenha paciencia</em>. Diz no seu livro que esta phrase +se applica a tudo +no +nosso paiz. É verdade. Applica-se a tudo. Até +ás princezas infelizes que +são pateadas.<br /> + +<br /> + +Diz sua alteza fallando nos hoteis que os colchões +são durissimos em +todos elles; no <em>Braganza</em> parecem até +cheios de cacos de +garrafas... +Mas afinal sempre temos por cá alguma coisa mais dura do que +os +colchões... as pateadas...<br /> + +<br /> + +Custam a roer, custam... Mas que se hade fazer? Rôa, +rôa. De resto +parece-nos que sua alteza tem deveras a bossa do estylo lacrimoso... +Chore―a lagrima é livre.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Depois da nenia das pateadas passa sua alteza a fallar da vida dos +bastidores em Lisboa. Dêmos-lhe mais uma vez a +palavra:―«â€•A vida dos +bastidores em Portugal está ainda no estado primitivo. +É mais burgueza +que desregrada. Na maioria dos theatros as actrizes são +casadas ou vivem +maritalmente com pessoas da sua escolha, dando, com rarissimas +excepções +tanto que fallar pela sua conducta como pelo seu talento. Se quizesse +citar alguma que se distinguisse das suas collegas pelo seu luxo ou +pelos seus amores, ver me-hia deveras embaraçada, +não obstante ter +pedido informações a toda a gente.»<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Sim, a princeza pedio informações a toda a gente. +Apenas qualquer +sujeito tinha a honra de lhe ser apresentado, a primeira coisa que a +princeza fazia era disparar-lhe esta pergunta á queima +roupa:―Ora +diga-me meu bom amigo, sabe alguma coisa da Emilia das Neves?―Que Sim, +a princeza pedio informações a toda a gente. +Apenas qualquer +sujeito tinha a honra de lhe ser apresentado, a primeira coisa que a +princeza fazia era disparar-lhe esta pergunta á queima +roupa:―Ora +diga-me meu bom amigo, sabe alguma coisa da Emilia das Neves?―Que lhe +consta +<span class="pagenum">[21]</span> +da Delfina?―Não se rosna coisa nenhuma d'aquella +Joanna Carlota +da rua dos Condes?<br /> + +<br /> + +Esta febre da princeza em indagar a vida intima das nossas actrizes +faz-me lembrar a historia de um provinciano que vindo a Lisboa pela +primeira vez, com ideas muito errados acerca das nossas mulheres de +theatro, começou durante a +representação, de não sei que +peça em D. +Maria, a interrogar o visinho do lado, pelo theor que vae +vêr-se, sempre +que apparecia em scena alguma actriz.<br /> + +<br /> + +Entrava por exemplo a sr.<sup>a</sup> Emilia das Neves, o +provinciano voltava-se +para o sujeito e dizia-lhe piscando-lhe o olho intencionalmente:<br /> + +<br /> + +―Esta...?<br /> + +<br /> + +E o sujeito:<br /> + +<br /> + +―Não sei...<br /> + +<br /> + +Entrava a sr.<sup>a</sup> Virginia:<br /> + +<br /> + +―E esta...?<br /> + +<br /> + +―Homem deixe-me...<br /> + +<br /> + +Entrava a sr.<sup>a</sup> Amelia Vieira.<br /> + +<br /> + +―E esta...?<br /> + +<br /> + +―Diabo, o senhor é inconveniente! Não sei +nada...<br /> + +<br /> + +O provinciano porém não se dava por vencido.<br /> + +<br /> + +―E esta...? continuava elle sempre a perguntar.<br /> + +<br /> + +De repente entra o Theodorico. Então o sujeito, desesperado, +fulo, +volta-se para o pobre provinciano e diz-lhe muito serio:<br /> + +<br /> + +―Olhe este... com certesa...<br /> + +<br /> + +A princeza fez exactamente o papel do provinciano, e, tão +infeliz como +elle, não ficou sabendo coisa nenhuma...<br /> + +<br /> + +Ficou até sabendo menos que o provinciano...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Em todo o caso registe-se que no entender de sua alteza a vida dos +bastidores em Portugal é uma pulhice... «Mais +burgueza que +desregrada...» chega a ser infame, não +é assim princeza?<br /> + +<br /> + +E depois que mulheres estas de theatro! Que impossiveis +<span class="pagenum">[22]</span> +creaturinhas! +Dão tanto que fallar pela sua conducta como pelo seu +talento... O mesmo +não se pode dizer que aconteça com certa pessoa +que nós sabemos...<br /> + +<br /> + +Essa dá muito mais que fallar pela sua conducta do que pelo +seu +talento...<br /> + +<br /> + +Foi devéras infeliz a princeza em questões de +theatro. Viu-se sempre +embaraçada. Até se quizesse citar alguma actriz +que se distinguisse das +suas collegas pelo seu luxo ou pelos seus amores, até +n'essas +circumstancias os embaraços lhe não permittiriam +a citação...<br /> + +<br /> + +É realmente estar com azar.<br /> + +<br /> + +Pois nós se quizessemos citar alguma princeza que se +distinguisse de +todas as outras pelo seu luxo <em>tapageur</em> ou pelos +seus amores, faziamos +isso sem a mais pequena difficuldade...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Termina sua alteza o capitulo dos theatros fallando das +dançarinas de S. +Carlos. Diz sua alteza:―«As dançarinas +não dão que fallar de si. Ha +para isto duas razões:―a primeira é que, salvo +duas ou tres excepções +são feias que mettem medo a segunda é que a +maioria d'ellas parece-me +ter chegado, a esta edade feliz em que se tem jus á +veneração e ao +respeito.»<br /> + +<br /> + +Ora aqui está o que aconteceria a sua alteza se em vez de +ser uma <em>bas +bleue</em> pretenciosa fôsse dançarina de S. +Carlos. +Ninguem fallaria +n'ella... Por tudo, e principalmente... pela segunda +razão...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +Deixemos porém os theatros e vejamos o que a princeza diz a +respeito do +nosso mais notavel monumento―o mosteiro da Batalha.<br /> + +<br /> + +«<em>Batalha</em>, tambem pequena cidade, (que +disparate!) alguns +kilometros +mais longe (do que Alcobaça, que descreve +<span class="pagenum">[23]</span> +antes) possue um +mosteiro mais +pequeno; mas tambem gothico, e de um estylo ainda mais puro que o de +Alcobaça.<br /> + +<br /> + +Este mosteiro foi fundado pelo rei D. João I, que ahi +repousa. Nota-se +particularmente a sala do capitulo, cuja elegancia é +superior a toda a +expressão, bem como o claustro. Decididamente, os senhores +frades +d'aquelles tempos tinham bem boas habitações, e +é pena que se não +tivessem construido mais, tão encantadoras, não +para lhe servirem +unicamente de residencia, mas para alegrarem os olhos dos +<em>touristes</em>.»<br /> + +<br /> + +Ter visto a Batalha, ter entrado n'aquelle monumento, que é +uma +verdadeira epopeia de pedra, e escrever o que ahi fica, sabe o que +é, +princeza?―é um diploma. Simplesmente não lhe +digo de quê.―Vá ter com +alguns dos muitos estrangeiros illustres que visitaram aquelle +mosteiro, +francezes, inglezes, italianos, hespanhoes, russos, +allemães, ou de +qualquer outra nacionalidade, diga-lhes que viu a Batalha, mostre-lhes +depois o que escreveu no seu livro... qualquer d'elles lhe +dirá de que é +o tal diploma...<br /> + +<br /> + +Mas, que diabo! tambem não pode haver tempo para tudo, e, +ella por ella, +a equipagem do marquez de V. é decerto muito mais digna de +attenção do +que o monumental edificio da Batalha!<br /> + +<br /> + +É pena, diz sua alteza, que não se tivessem +construido mais monumentos +para alegrar os olhos dos <em>touristes</em>...<br /> + +<br /> + +Ah! sim, é pena! pois não! chega a ser uma +dôr d'alma não estar o reino +de Portugal cheio de monumentos, como a Batalha, para que sua alteza, a +muito alta e muito nobre princeza Rattazzi, podesse percorrer o paiz +com +os olhinhos alegres!<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Porque afinal de contas, o magestoso e sublime mosteiro não +lhe causou +nenhuma outra impressão... alegrou-lhe o olho.<br /> + +<br /> + +Frei Luiz de Sousa, descreve-o com a sua penna de ouro, o inglez Murphy +estuda-o maravilhado durante largos annos, +<span class="pagenum">[24]</span> +o erudito patriarcha D. +Francisco de S. Luiz dedica-lhe uma extensa memoria:―n'uma palavra, +nacionaes e estrangeiros, curvam-se reverentes em presença +do patriotico +e veneravel monumento... Rattazzi vae vel-o... faz-lhe a honra de +conceder-lhe doze linhas... e alegra-se-lhe o olho... Isto +é, o mosteiro +produz-lhe o mesmo effeito que um copinho de <em>chartreuse</em>... +Vamos +compatriotas, sirvam café á princeza, e tragam +n'uma bandeja... mosteiro +da Batalha e copos... Sua alteza tem o olhar basso e triste... +alegremos-lhe o olho... dêmos-lhe um calicesinho da <em>sala +do +capitulo</em>... Então princeza, nada de ceremonias... +Se quer +mandamos +tambem buscar os Jeronymos... Beba, beba... Alegre-se... alegre-se...<br /> + +<br /> + +É impagavel no fim de tudo esta Rattazzi:―Melicio +é espirituoso e +incisivo, e a Batalha... alegra-lhe o olho...<br /> + +<br /> + +Delicioso, como dizia o Leoni nos <em>Amores de Boccacio</em>...<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Tudo quanto o leitor tem visto até agora, fica +porém eclipsado pelo +capitulo em que a muito nobre princeza falla do modo porque os +estrangeiros são recebidos em Lisboa.<br /> + +<br /> + +Leiam:<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +«Pode dizer-se, sem grande exaggero, que ha um secreto horror +pelos +estrangeiros e que são olhados com maus olhos. Entretanto +esta execração +tem graus e não deixa de ser curioso fazer o seu estudo.<br /> + +<br /> + +Supponhamos que um pobre diabo cae de inanição +n'uma das praças publicas +de Lisboa, confessando que não recebeu do céu a +graça de ter nascido +cidadão portuguez.<br /> + +<br /> + +1.ºâ€•Se é inglez, dão-lhe os restos da +comida do +dia antecedente.<br /> + +<br /> + +2.ºâ€•Se é allemão, um bocado de +pão.<br /> + +<br /> + +3.ºâ€•Se é americano, umas migalhas.<br /> + +<br /> + +<span class="pagenum">[25]</span> +4.ºâ€•Se é italiano, um copo de agua.<br /> + +<br /> + +5.ºâ€•Se é francez, não lhe +dão nada.<br /> + +<br /> + +Aqui está approximadamente a gradação +de estima a que um estrangeiro +póde aspirar em Portugal.<br /> + +<br /> + +Os inglezes são os mais considerados, o que se explica, +dizendo-se que +Portugal é um pouco uma colonia ingleza, uma terra de +exportação para os +productos da Grã-Bretanha: o ouro e os uniformes militares +são inglezes. +Ha n'este povo meridional muitos costumes anglicanos que ficaram como +recordação da alliança das armas +inglezas contra os francezes em 1808.<br /> + +<br /> + +Os allemães gosam de alguma +consideração.<br /> + +<br /> + +Os americanos do norte são antes temidos do que estimados.<br /> + +<br /> + +Os italianos são todos pastelleiros ou tenores; é +a opinião dos +portuguezes que dou aqui, não a minha. Mas é uma +opinião perfeitamente +estabelecida, e qualquer que seja a posição +social d'um italiano que +chega a Portugal, será considerado por todos como um +pastelleiro que fez +fortuna, ou como um tenor em procura de escriptura.<br /> + +<br /> + +Os francezes muito bem acolhidos á superficie, +são perfeitamente +detestados no fundo. Quando não são luveiros, +cabelleireiros ou +cozinheiros consideram-os como uns aventureiros. Ha uma avidez por +todos +os fructos da sua intelligencia, tira-se-lhes tudo que produzem em +sciencias, bellas artes e litteratura, mas ninguem se julga em +obrigação +de lhes dar nada em troca. Detestam-os por instincto. Esta antipathia +transmitte-se de paes a filhos, ou para melhor dizer, remonta de filhos +a paes até ao primeiro imperio.»<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Disse uma vez um poeta nosso que certo sujeito era uma perfidia dentro +d'um assucareiro, d'este trechosinho póde dizer-se, +parodiando aquella +phrase:―que é tambem uma perfidia dentro d'outra coisa +acabada em +<em>eiro</em>.<br /> + +<br /> + +Com que então em Lisboa quando se encontra um francez cahido +no meio da +rua, cheio de fome, morto de inanição, +<span class="pagenum">[26]</span> +passa-se +para deante e não se lhe +dá nada, absolutamente nada, <em>rien du tout</em>?<br /> + +<br /> + +Oh! honestissima e honradissima princeza, porque não se +atolou mais um +poucochinho no esterquilinio da calumnia,―para que deixou a cabecinha +de fóra? Que diabo! tem pouca +imaginação vossa alteza! gira-lhe nas +veias sangue de principes, mas a calumniar não passa d'uma +burguesinha―porque dizer só, que a um francez que se +encontra estendido +na praça publica, nada se dá, nada se lhe +faz?―porque não disse antes, +que se varria esse francez d'envolta com o lixo, porque não +disse que se +lhe dava um bolo de strichinina?―<em>Per Baco</em>, +produzia mais effeito, +princeza!<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Afinal, de tudo quanto ha no seu livro, a pagina deveras torpe, +é +aquella.<br /> + +<br /> + +Do resto, diga-se a verdade, nem quasi valia a pena fallar.<br /> + +<br /> + +Ah! mas aquella paginasinha, merece, merece que se escrevam algumas +linhas...<br /> + +<br /> + +Quem lhe disse, princeza, que os francezes eram detestados em Lisboa, +detestados por instincto?―Eu sei quem lh'o disse,―foi a sua espertesa +saloia. Vossa alteza sahiu de Portugal despeitada com muita gente,―por +isto, por aquillo, por aquell'outro,―porque a nossa boa nobreza, que +ainda a temos, não a visitou;―porque os jornaes +não fallaram tanto +quanto vossa alteza queria do seu talento e das suas obras;―porque a +platéa dos Recreios a pateou desapiedadamente; etc. Sahindo +d'aqui +despeitada quiz vingar-se. É natural. Era preciso +porém para que a sua +vingança fosse completa que ella encontrasse echo n'essa +grande nação +que ainda hoje dá as leis ao mundo.―«Vou +desacreditar Portugal á face +da França―» disse a princeza com os seus +algodões.―Mas para que a +França faça o acompanhamento á minha +serenata, o que heide eu +fazer?―Porque afinal a verdade é esta:―eu sou muito +conhecida em +França... Alfonse Karr, Boissieu, Pelletan... que o diabo, +os confunda +<span class="pagenum">[27]</span> +a +todos,―mostraram bem quem eu sou, nas <em>Guépes</em> +nas <em>Lettres +de +Colombine</em>, na <em>Nouvelle Babylone</em>... Ah! +já sei! exclamou +vossa alteza +de repente:―escrevo que os francezes são detestados, +execrados em +Portugal... Sim, sim, é isto:―<em>Tonerre de Dieu!</em> +estava-me +desconhecendo... Que tempo levei para fazer uma descoberta afinal +tão +simples, e tanto na minha indole... É claro como +agua:―dizendo eu que +os francezes são odiados, detestados, execrados, que ao +vêl'os +estendidos no meio da rua ninguem os soccorre, e que para ali ficam +abandonados como famintos cãos vadios, elles, esses bons e +enthusiasticos francezes, sentirão o fogo da +indignação girar-lhe nas +veias, e correndo ao meu palacio, virão gritar em +côro debaixo das +minhas janellas:―Bravo princeza, bravo, quanto dizes d'essa cambada, +d'essa canalha de portuguezes é pouco; nunca as +mãos te doam, mulher! +Patifes, deixarem-nos morrer sem soccorros no meio da rua... Tira-lhes +a +pelle, escorraça-os, frege-os em postas―e conta que as +nossas bençãos +cahirão sobre a tua cabeça.»<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Ora tudo isto, princeza, permitta-me que repita a phrase, +não passou de +esperteza saloia.<br /> + +<br /> + +A França, sabe perfeitamente quanto é querida e +estimada em Portugal. +Ella não ignora de certo que na hora da +provação, quando rebentou essa +terrivel guerra franco-prussiana, aqui n'esta cidade de Lisboa,―onde +se +abandonam vilmente francezes no meio da rua,―todos, sem +distincção de +classes, desde o chefe do estado, podemos dizel-o, até ao +mais humilde +cidadão, todos faziam votos para que a victoria fosse coroar +com a sua +rutilante aureola as armas d'esse valente e generoso povo, que Portugal +tem o bom senso de não tornar responsavel pelos actos +praticados por +dois dos seus despotas.<br /> + +<br /> + +E olhe vossa alteza princeza:―tudo isto aconteceu estando um Bonaparte +á frente da França... Hoje, que n +E olhe vossa alteza princeza:―tudo isto aconteceu estando um Bonaparte +á frente da França... Hoje, que não +<span class="pagenum">[28]</span> +está lá nenhum, calcule como terá +augmentado a nossa sympathia por aquella grande +nação.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +A esperteza saloia precisava de correctivo. Ahi fica. A princeza diz +que +nós os portuguezes somos muito pacientes. Assim +é, mas quando um +mosquito começa a zumbir-nos aos ouvidos, a importunar-nos, +depois de o +sacudirmos, uma, duas, tres vezes, zangamo-nos e damos-lhe uma palmada +com tanta vontade... que o esborrachamos.<br /> + +<br /> + +É uma porcaria, d'accordo. Mas tambem para que serve a agua? +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Agora as ultimas palavras... as palavras da despedida.<br /> + +<br /> + +N'uma carta circular que sua alteza dirigiu á imprensa +diz:―<em>Il faut me +pardonner quelques plaisanteries sans importance et sans parti pris...</em> +que é como se dissesse:―queiram os senhores desculpar +alguns gracejos +innoffensivos e sem intenção...<br /> + +<br /> + +Ah! pois não princeza! Com todo o gosto... Sem mais aquella, +como se diz +em giria... E se o nosso folheto tiver a honra de ser lido por vossa +alteza, lembre-se das suas linhas e queira tambem +desculpar-nos:―<em>quelques plaisanteries sans importance et +sans parti +pris</em>.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<div class="break"> +<hr /></div> + +<br /> + +<br /> + +Segue a biographia da princeza.<br /> + +<br /> + +<br /> + +<br /> + +<h2>BIOGRAPHIA</h2> + +<br /> + +<br /> + +Rattazzi―(Maria Studolmire Wyse, princeza de Solms, depois condessa) +mulher de lettras franceza, nascida em Waterfard (Inglaterra) em 1833. +É +neta de Luciano Bonaparte, irmão de Napoleão I, e +filha de Letizia +Bonaparte, e de sir Thomaz Wise, membro do parlamento de Inglaterra, +que +morreu ministro plenipotenciario da Grã-Bretanha em Athenas. +Descendente +de uma serie de uniões consideradas como outras tantas +<em>mesalliances</em> +para a familia Bonaparte, foi sempre considerada por esta como uma +intrusa, ou como uma inimiga. Quando o principe Luiz, seu primo, foi +eleito presidente da Republica franceza, prohibiu-lhe formalmente que +usasse o nome de Bonaparte-Wise, pelo qual eram conhecidos seu pae e +seu +irmão. Entretanto, a sua filiação +napoleonica, está tão bem estabelecida +senão melhor que a do seu proprio primo. Seu avô +Luciano, principe de +Canino, casára, em segundas nupcias, com madame Bleschamp, +viuva de um +agente de cambio, casamento que descontentou muito Napoleão, +e fez +romper todas as relações da familia imperial com +Luciano; este, tendo-se +retirado á Italia, fez naturalisar romanos todos os seus +filhos, tão +pouca era a sua fé na restauração da +dynastia a que pertencia. A neta, +nascida de mãe romana, Letizia Bonaparte, e de pae irlandez, +era +realmente uma Bonaparte, mas tão pouco franceza quanto +possivel. Foi +comtudo educada na casa da Legião de Honra de S. Diniz, e, +como não +tivesse meios, fez-se professora.<br /> + +<br /> + +Em 1848, quando á familia Bonaparte foi permittida a entrada +em França, +e o principe Luiz se propoz a presidente da Republica Franceza, foi +pedida em casamento por Mr. Frederico de Solms, rico alsaciano que a +dotou em 700 ou 800 mil francos, esperando que ella viesse a ser uma +das +estrellas da futura côrte de seu primo, e que assim o +<span class="pagenum">[30]</span> +levasse +ás +grandezas. Não aconteceu nada d'isto. Os Bonapartes, e +principalmente o +futuro Napoleão 3.º não a consideraram +como da +familia; como o pae da +segunda mulher de Luciano occupara um emprego d'inspector <em>nos +direitos +reunidos</em>, pretendiam não terem nada de commum com +a +descendente d'um +vendedor de tabacos, e foi isto o que os jornaes do Elysseu lhe +disseram, nu e cru, quando Madame de Solms, posto que muito nova ainda, +porque então apenas contava 16 annos, começou a +tornar-se notavel.<br /> + +<br /> + +Lançou-se então na +opposição, attrahiu a sua casa algumas +notabilidades +do partido democratico, abriu as suas salas aos litteratos, deu festas +esplendidas, e ostentou um luxo que tinha a +pretenção de fazer epoca na +historia contemporanea. No seu pequeno circulo comparavam-a a +mademoiselle Montpensier e dizia-se que do seu <em>boudoir</em> +sahiria uma +nova Fronda. Por occasião do golpe de estado de 2 de +dezembro, em que +estavam implicadas algumas pessoas que frequentavam as suas salas, +julgou-se tambem obrigada a deixar a França, habitando ora +em Roma, na +Belgica, ora as cidades de caldas mais notaveis.<br /> + +<br /> + +Considerava-se como exilada, e tendo alguns jornaes publicado que ella +pedira para ser amnistiada, fez-lhes publicar esta resposta +altiva:―«Só +um governo liberal e sensato me póde fazer voltar +á França. Até o dia em +que triumphem as nossas liberdades, acceito o exilio; mas protesto +energicamente contra toda e qualquer nova +insinuação, grave ou pueril, +tendente a fazer admittir que, no presente ou no futuro, sob qualquer +consideração, e em qualquer extremidade em que me +encontre, eu possa +ligar-me directa, ou indirectamente, a uma familia da qual me separei +voluntaria e seriamente.»<br /> + +<br /> + +Isto não a impediu de entrar em França em fins de +1852; mas em fevereiro +de 1853, recebeu ordem de expulsão e seu primo fel-a +conduzir á +fronteira acompanhada pelos gendarmes. A causa d'esta +expulsão +escandalosa era sempre a mesma, a sua obstinação +em querer usar o nome +de Bonaparte que lhe negavam. Protestou pelos tribunaes, encarregou +Berryer de a defender, e o governo fez admittir pelos jornaes que a +ordem (arrêté) d'expulsão estava em +<span class="pagenum">[31]</span> +fórma, visto que madame de Solms era +estrangeira e casada com um estrangeiro não naturalisado. +É muito +provavel que M. de Solms, nascido em Strasburgo, fosse francez; mas o +governo obteve d'elle uma declaração na qual +dizia não reclamar a +qualidade de francez. Na <em>Patria</em> foi publicada a +seguinte nota:<br /> + +<br /> + +«Por ordem do sr. intendente geral da policia, foram expulsos +do +territorio francez madame de Solms, dizendo-se condessa de Solms, e M. +Wyse, (seu irmão, M. Bonaparte-Wyse) ambos estrangeiros; +estas duas +pessoas usavam sem direito nenhum o nome de Bonaparte, e longe de +respeitarem o nome illustre que usurparam, serviam-se ao contrario +d'elle para se entregarem a escandalos desordenados, afim de mais +facilmente abusarem da credulidade das pessoas com quem estavam em +contacto. A ordem do sr. intendente geral de policia foi posta em +execução e madame de Solms e o sr. Wyse deixaram +a França.»<br /> + +<br /> + +Quando se fez a annexação de Nice e da Saboya +(1862), pediu a Napoleão +III a permissão de ficar em França, e obteve +mesmo a de voltar a Paris; +abriu ali o seu salão, como antigamente, deu festas, +escreveu chronicas +e <em>causeries</em> em varios jornaes, o <em>Pays</em>, +o <em>Constitutionel</em>, o +<em>Turf</em>, +etc., fez fallar de si, como de costume, e, tendo-se reconhecido n'um +malicioso retrato traçado por M. de Boissieu, (<em>Fragment +d'histoire, une +des plus spirituelles lettres de Colombine</em>, 1863), intentou +no +<em>Figaro</em> +uma indemnisação de 200:000 francos de perdas e +damnos. O tribunal +regeitou-lh'a. Entretanto tendo-lhe morrido o marido, uniu-se a +Rattazzi +n'uma das suas viagens a Turim, e esta ligação +teve algum tempo depois o +casamento por desenlace. A sua estada em Paris em 1865 trouxe-lhe novas +decepções; foi-lhes dada nova ordem de +expulsão e retirada uma pensão de +que havia tres annos gosava. Desde então madame Rattazzi +viveu +constantemente em Turim, Florença e Roma, e publicou grande +numero de +volumes. Um dos seus romances, <em>Richeville</em>, fez +algum barulho na +Italia, e valeu ao marido de madame Solms, algumas +provocações em +duello. +</div> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of Project Gutenberg's A princeza na berlinda, by Urbano de Castro + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A PRINCEZA NA BERLINDA *** + +***** This file should be named 20103-h.htm or 20103-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/0/1/0/20103/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. 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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A princeza na berlinda + Rattazzi a vol d'oiseau, com a biographia de sua Alteza + +Author: Urbano de Castro + +Release Date: December 13, 2006 [EBook #20103] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A PRINCEZA NA BERLINDA *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + + + +RATTAZZI A VOL D'OISEAU + + + + +URBANO DE CASTRO + +CHA-RI-VA-RI + + + + +A PRINCEZA NA BERLINDA + + +RATTAZZI A VOL D'OISEAU + +COM A BIOGRAPHIA DE SUA ALTEZA + + +(SEGUNDA EDIÇÃO) + + +LISBOA +TYPOGRAPHIA PORTUGUEZA +7, Rua da Paz, 7 +1880 + + + + +A PRINCEZA NA BERLINDA + + +Não será talvez máo começar por fazer uma declaração:--nunca passei +pelos beiços os guardanapos da princeza... Parece-me conveniente dizer +isto. A _minha terra_, que era pequena no tempo de Garret, não me consta +que tenha crescido, depois da sua morte... Tem até diminuido um pouco... +talvez! + + * * * * * + +Foi pelos jantares que a princesa conseguiu tornar-se conhecida em +Lisboa. Quando aqui chegou, vendo que ninguem a procurava, que a +litteratura não corria pressurosa ao _Bragança_, cumulando-a de elogios +banaes e de bilhetes de visita baratos, sentio dentro da sua alma a +mordedura cruel do amor proprio offendido. E amor proprio de mulher, +amor proprio de princeza! Calculem que dentada! Esperou, um, dois, tres +dias... uma semana, outra... a litteratura não apparecia!--Pois ha de +apparecer! exclamou ella--E convidou-a para jantar. E a litteratura +appareceu. Os livros da princeza, que até então ninguem conhecia em +Lisboa, e que ella mandara adiante para os livreiros, como batedores da +sua fama, começaram por essa epoca a ter uma tal ou qual extracção. Não +é difficil advinhar quem os comprava--eram os convivas dos seus +jantares--Comprehende-se. Realmente seria pouca amabilidade comer o +_foie gras_ de Rattazzi, e não dizer ao menos, no fim, que era admiravel +o seu livro _Si j'etais reine_; beber o champagne da princeza, e não lhe +segredar que nunca mulher nenhuma escrevera um volume como _Nice la +Belle_. E a proposito dos livros citavam-se os trechos das paginas +abertas, abril-os seria muito, e bebia-se mais um copo. A princeza, que +é inquestionavelmente uma mulher d'espirito, percebeu, o que de resto +não era muito difficil, a _manobra fraudulenta_, como diz o sr. Duc nos +livros de mortalhas, dos litteratos de Lisboa... + +Callou-se porém muito bem callada e continuou a dar-lhes jantares +hebdomadarios. A concorrencia cada vez era maior. Houve sujeito que se +fez litterato, só para jantar com a princeza. Cá fóra, no Martinho e na +Havanesa, esses jantares eram digeridos e commentados com a face +vermelha e a palavra quente... Contavam-se anecdotas, que é deveras pena +não terem chegado aos ouvidos da princeza, porque, algumas d'ellas não +são em nada inferiores a muitas que lêmos no seu livro... + +E aqui está como madame Rattazzi conseguiu durante um mez ser uma +notabilidade em Lisboa. Sua altesa, porém, em vez de contentar-se com +esta gloria, embora de 2.^a ordem, lembrou-se um dia de querer uma +gloria de 1.^a sorte, e escreveu uma comedia que, depois de muito +applaudida em sua casa pelos seus commensaes, foi representada no +theatro dos Recreios, a quem ella, com carradas de rasão chama um +calvario, visto que lá teve... a cruz da pateada... + +Tambem que diabo de publico este de Lisboa... atrever-se a patear uma +princeza... Se sua alteza tem a mania dos cumulos,--e porque não a +terá?--sim, porque não terá sua alteza a mania dos cumulos, se a tem, é +impossivel que pelo seu preclaro espirito não tivesse passado este--o +cumulo da selvageria:--_Patear uma princeza_... + +Ah! decididamente sua alteza não estava em sorte... _Pas de chance_! No +hotel os convivas faziam muito mais despeza de iguarias do que de +elogios; nos Recreios, o publico muita mais despeza de botas do que de +luvas... _Pas de chance_! + + * * * * * + +Foi então, naturalmente, que o seu espirito se orientou na direcção a +dar ao _Portugal à vol d'oiseau_. + +--Ah! os senhores julgam que não é mais do que comerem-me os meus +jantares, do que patearem-me as minhas peças, esperem ahi que já os +ensino! Até aqui tenho-os recebido como convivas, agora vou passar a +tratal-os como assumptos! Os senhores pensam, quando estão á minha mesa, +que são meus commensaes?--pois enganam-se, são paginas para o meu livro! +Não sou eu quem os obsequeio aos senhores, os senhores é que me +obsequeiam. Escusam de dizer «muito obrigado!» eu é que tenho que +dizer-lhes «_merci_»! + +E escreveu _Le Portugal à vol d'oiseau_. + + * * * * * + +Lisboa já sabe pouco mais ou menos o que o livro é. Os jornaes tem dado +excellentes amostras d'aquella famosa peça... + +Porque não havemos nós de dar tambem algumas? Estes dois perfis da nossa +nobreza, por exemplo... + +Venha primeiro o conde de *** + +«--O conde *** um dos meus valsistas, e um valsista encantador, entre +parenthesis, não é menos notavel. De muito antiga e nobre familia, é +verdadeiramente um dos typos mais salientes de Lisboa. Orça pelos +cincoenta, mas não obstante apparenta um grande ar de mocidade. +Baixinho, apurado, e elegante, ha em toda a sua pessoa uma excessiva +vivacidade. Esta vivacidade será natural ou o resultado d'um estudo +paciente para parecer ainda mais novo? + +Talvez que sim a avaliar a sua petulancia pelo mais. Os bigodes do conde +de *** são mais negros do que o ebano. + +Mas isto não é nada comparado ao craneo do encantador conde; o +proprietario d'este craneo conserva n'elle alguns cabellos, raros, +semeados aqui e ali, tratados com zelosos cuidados, e que puchados +artisticamente para a testa, ahi occupam o maximo espaço possivel para +assim substituirem os ausentes. Para suprir os defuntos põe no cucuruto +uma especie de pequeno crescente--não, eu nunca ousaria dizer chinó +fallando de tão perfeito cavalheiro--que se confunde graciosamente com +os cabellos: depois cobre tudo isto com uma espessa camada de pez e +summo de alcaçuz de que faz uma pomada a fogo lento; por fim o seu +creado de quarto, confidente d'esta excentricidade, traça no meio d'esta +pasta de _raisiné breton_, uma risca d'uma delicadeza, d'uma puresa, +d'uma nitidez a causar inveja a uma rapariga de quinze annos. Quando a +cataplasma está secca, o conde póde apparecer no meio dos seus +concidadãos. Todos conhecem o mysterio d'aquella cabeça e ha delirios de +alegria quando o excellente homem é obrigado, em pleno sol ou em pleno +baile, a andar de chapeu na mão, porque o calor tendo acção dissolvente +sobre aquella untura, resulta d'ahi começar ella a mover-se, a palpitar, +a derreter-se, acabando por escorrer pelo pescoço e pelo nariz do seu +proprietario. + +Não obstante o conde de *** é um grande conquistador, um namorador que +não perde occasião de deitar a sua olhadella, sendo porém capaz de +praticar heroismos, como o demonstram varias circumstancias da sua vida. + +Conta-se este facto digno dos melhores tempos da monarchia. O conde era +camarista da infanta D. Izabel, que morreu ha annos, em avançada edade, +no seu palacio de Bemfica nos arrebaldes de Lisboa. Sendo os principes +da familia real depositados na egreja de S. Vicente, situada n'um dos +extremos da cidade opposto a Bemfica, o cortejo funebre teve de +percorrer duas leguas, a passo, em pleno mez de julho. + +O conde devia seguir a cavallo, uniformisado e de cabeça descoberta, o +corpo da sua real ama, debaixo d'um sol torrido, o que elle fez +magnanimamente, sem trepidar, entregando aos abrasadores raios de Phebo +a sua untura quotidiana--facil presa--sem temer a troça dos graciosos +que, no dia seguinte, alludindo á liquefação do cosmetico, diziam por +toda a parte que ninguem figurara no cortejo com o rosto mais +tristemente cheio de luto do que o infeliz conde de ***.» + +Igual a isto só aquella celebre caricatura do _Antonio Maria_... +«_Dá-lhe cuspo_...» + + * * * * * + +Agora o marquez de V. *** + + * * * * * + +--«Como exemplo não, quero citar senão um dos meus amigos o marquez de +V. ***. Vale bem a pena. É uma personalidade, uma celebridade, uma +curiosidade de primeira ordem. Em vão lhe procurariam rival na galeria +do duque de Saint-Simon, e ainda menos na collecção tão rica de Moliére. +Em certas festas de gala ou de representação exterior, o marquez de V. +*** julga-se obrigado a seguir as carruagens da côrte na sua equipagem, +e é esta equipagem que faz do nobre marquez uma curiosidade unica do +mundo. + +Imagine-se um coche do seculo passado, envidraçado de modo a ver-se todo +o interior, montado sobre molas e rodas que fazem pensar nas machinas de +_Leviathan_, tudo isto pintado de verde, cheio de dourados em alto e +baixo relevo. No meio d'esta caixa throno, o marquez de V. *** só, de +cabeça descoberta, com o grande uniforme d'uma ordem qualquer, com os +olhos fitos na sua frente, parecendo contemplar em extase as abas da +libré do seu cocheiro, não voltando a cabeça nunca, nem para a direita +nem para a esquerda: dir-se-hia uma estatua e não um homem. + +A carruagem é atrelada a quatro cavallos, montados por dois postilhões e +guiados por um cocheiro gorducho sentado n'uma almofada que parece um +divan. Na taboa da carruagem dois enormes lacaios em pé. Todo este +pessoal vem empoado e veste uma libré verde claro que deslumbra a vista +e faz piscar os olhos. Não se póde imaginar nada mais original. Quando a +cerimonia terminou e a parte official do programma está cumprida, o +marquez faz gravemente o giro das principaes ruas e praças de Lisboa +para se fazer admirar. Em Paris entraria em casa corrido a batatas +cozidas. Aqui deixam-o em paz--_é costume_. + +Se eu fosse rei de Portugal prohibia a este fidalgo, sob as mais graves +penas, de me fazer assim cortejo com a sua entrudada, mas, com isso, +arriscaria talvez a minha corôa. + +É de justiça acrescentar que o marquez de V. é um homem instruido. Que +seria, Deus meu, se o não fosse!» + +Realmente está parecido... O _Antonio Maria_ não o faz melhor... + + * * * * * + +Depois d'estes perfis hilariantes como o protoxido de azote, tenha o +leitor a paciencia de me acompanhar ao capitulo em que sua altesa nos dá +a honra de fallar dos nossos enterros. + +Dêmos a palavra á princeza: + +«É realmente coisa curiosa que acompanhando o pae os filhos ao +cemiterio, estes não acompanhem os paes: não é costume. Deixa-se este +cuidado aos parentes mais affastados ou aos amigos. Porquê? Não m'o +poderam explicar: acho porém esquisito.» + +Está no seu direito. Foi porém mal informada. Os paes tambem não +acompanham os filhos. Quanto a achar o caso estranho não tem de quê. O +facto de em França os parentes mais proximos acompanharem os cadaveres +dos seus defunctos não prova nada, senão que até na morte é verdadeiro o +dictado:--_Cada terra com seu uso_... O que é deveras esquisito, é +querer sua altesa que os costumes sejam os mesmos em todos os paizes. +Para quem se propõe escrever livros de viagem, não póde haver ponto de +vista mais ridiculo nem mais acanhado. + +Continua a auctora:--«Quando uma pessoa morre, a familia não envia +cartas de participação. Faz um annuncio nos jornaes, e está tudo +prompto, visto que o dito annuncio termina invariavelmente por este +_cliché_: _Não se fazem convites especiaes attendendo ao estado de +consternação indizivel em que a familia está_... + +Comprehendo muito bem que a familia esteja n'um estado de consternação +indizivel: entretanto, visto que esta consternação lhe permitte fazer +annuncios nos jornaes, parece-me que, com um pequeno esforço, lhe +permittiria tambem enviar cartas de participação impressas a casa de +cada um, como se faz nos outros paizes. + +Resulta com effeito d'este costume que, se não se lerem os jornaes, ou +antes os annuncios dos jornaes, póde muito bem acontecer deixar uma +pessoa de acompanhar ao cemiterio o seu tio, primo, ou o seu melhor +amigo.» + +Foi ainda mal informada sua alteza. É verdade que muitas vezes o +annuncio funebre termina por aquelle molho, mas não é menos verdade que +rarissimas vezes se deixa de enviar cartas de participação. Sua alteza +não recebeu nenhuma, e por isso naturalmente lembrou-se de nos ensinar +como estas coisas se fazem nos paizes civilisados. Obrigado princeza. +Quanto a não ter recebido carta alguma de participação desculpe:--hei de +mandar-lhe uma... quando morrer o meu Tareco. + +Coitada! Infeliz princeza! Ninguem lhe mandou carta de participação. +Então que se lhe ha de fazer, no nosso paiz os enterros serão tudo +quanto quizer... mas não são entrudadas... + +A respeito dos chavões com que é costume fechar annuncios funebres +faltou-lhe ainda um. É este:--_não se fazem convites especiaes por +expressa determinação do finado_. Foi pena escapar. Que bella pagina +humoristica não escrevia a princeza com thema tão divertido! + + * * * * * + +Mas nem só os enterros tem a honra de espantar sua alteza... O livro +está cheio de exemplos do mesmo genero. + +Sente-se mesmo em algumas paginas que a princeza não chega a contar +metade dos seus espantos... Qual metade!--nem a decima, nem a centesima, +nem a milesima parte... + +Porque a verdade é esta:--sua alteza apenas transpoz a fronteira começou +a sentir as dôres... do espanto... Exactamente, agora é que eu +acertei... começou a sentir as dôres do espanto, e o seu livro, que até +hoje ninguem sabia bem o que é, passa agora muito logicamente a ser o +feliz parto que a alliviou das citadas dôres, logo que ella se viu em +terreno conhecido, que é como quem diria:--logo que a natureza permittiu +que o robusto menino visse a clara luz do dia... + +Espanto! Espanto! sempre espanto! + +Os portuguezes não dizem «até manhã» dizem «até ámanhã se Deus +quizer»--espanto: não acompanham seus paes ao cemiterio,--espanto: as +varinas carregam-se de oiro,--espanto: vae muita gente aos bastidores de +S. Carlos,--espanto: dizemos _um copo d'agua_ e não _un verre +d'eau_,--espanto: estamos a uma latitude e a uma longitude differentes +de Paris,--espanto: as nossas pulgas mordem,--espanto: o nariz do sr. +Minhava é enorme,--espanto: _pomme de terre_, chama-se +batatas,--espanto: uma _precieuse ridicule_ é uma tola... espanto! + +Espanto, espanto, sempre espanto! + +Porque não escreveu o seu livro tal qual o pensou princeza? + +Porque não nos deu, por exemplo, uma pagina n'este genero:--«Uma vez, +tendo entrado casualmente n'uma egreja, approximei-me d'uma mulher que +estava rezando, em voz sufficientemente alta, para que se podesse +perceber o que ella dizia... Approximo-me mais, e calculem o meu +espanto, ao ouvir estas palavras:--_Padre, nosso, que estaes nos céus +santificado_... Accreditarão agora que isto quer dizer em +portuguez:--_Notre père qui étes aux cieux, que votre nom soit, +santifié_... + +Como diabo, perdoe-se-me a heresia, quererão os meus bons amigos +portuguezes que Nosso Senhor os entenda?» + +E não seria este por certo o menos notavel dos seus espantos. + + * * * * * + +Antes de passarmos adiante contemos um disparate que não deixa de ter +graça. A paginas, não sei quantas, escrevendo a princeza que nós não +fazemos uso de fogões para aquecer as casas, diz pouco mais ou menos o +seguinte:--De resto, se fizessem uso d'elles, não se haviam de vêr em +pequenos embaraços para arranjar o combustivel, a não ser que deitassem +a mobilia ao fogo. A lenha é absolutamente desconhecida em Portugal, e +custa cada kilo... tres mil réis!» + +--Oh! princeza, se vossa alteza quando esteve em Lisboa pagou a lenha +por aquelle preço, devo dizer-lhe duas coisas:--a primeira, é que o seu +livro passa a ser um favo do Hymeto, a segunda... é que foi roubada! + + * * * * * + +O que é verdade porém é que Lisboa deve um grande serviço á princesa. +Nem mais nem menos do que a rusga feita ás casas de jogo nos principios +d'este mez. + +Se duvidam, leiam. + + * * * * * + +Ha muito que no governo civil havia uma tal ou qual suspeitasinha, uma +vaga desconfiança, de que a roleta, esse terrivel philloxera das +algibeiras, tivera o inqualificavel arrojo, o descaro inaudito de +assentar os seus arraiaes--aqui--na patria de Camões, nas bochechas do +sr. Rosa Araujo, representante da dita patria. Mas tudo era vago, +incerto, nebuloso... A policia posta em campo nada descobrira. +Procurara-a,--oh! se a procurara!--como o nauta procura o norte, como a +ave procura o ninho, como a féra o seu covil--mas, apesar de a procurar +com todo este excesso de poesia, o resultado era sempre o mesmo... nada, +nada, nada, tres vezes nada coisa nenhuma! + +O habil Antunes, o eximio Castello Branco, o nunca assás cantado 37--e +muitos outros egualmente habeis, egualmente eximios, egualmente nunca +assás cantados, encarregados secretamente de a descobrirem, pozeram em +pratica as maiores subtilesas policiaes. Um d'elles chegou a +disfarçar-se em G. L. P... Nem assim a encontrou! + +Nada os fazia recuar, nada os intimidava, desconheciam... e creio que +ainda desconhecem, o verbo trepidar! Passeios, botequins, theatros, tudo +assaltaram em busca da criminosa... Era um phrenesi, um delirio, uma +raiva... Mas a scelerada não apparecia! + +--E comtudo ella existe! exclamava o governo civil com o tom solemne com +que por muito tempo se julgou que o sabio Gallileu dissera o +legendario:--_E pur si muove_! + +Era para perder a cabeça. + + * * * * * + +Estavam as coisas n'estes termos quando chegou o livro da princeza. O +governo civil compra-o, começa a lêl-o e ao chegar a paginas 149, já não +diz: «E comtudo ella existe!» no tom de Gallileu, mas, qual outro +Archimedés, _toilette_ aparte, solta do fundo do seio um jubiloso +_Eureka_! + +Ah! é que effectivamente o caso não era para menos. A pagina 149, +fallando das batotas, diz a princeza: + + Ha uma na rua do Alecrim. + + Uma, rua das Gavias. + + Uma, praça de Camões. + + Duas, rua da Emenda. + + Uma, rua de S. Francisco. + + Uma, travessa de Santa Justa. + + Tres ou quatro á Ribeira Velha. + +--Obrigado meu Deus! exclamou então o governo civil imitando d'esta vez +a sr.^a Emilia das Neves, obrigado meu Deus! + + * * * * * + +E aqui está como a policia conseguiu saber onde eram as batotas. Ah! +princeza, princeza, vossa alteza merecia que pelo menos a fizessem... +chefe d'esquadra. + +E note-se mais, é ella, é ella quem ensina no seu livro como se faz uma +rusga. Duvidam? + +Leiam. + +«--Em Paris a policia tem um serviço especial para este genero de +industria prohibida. Os agentes d'este serviço espiam os batoteiros, +estudam cuidadosamente o terreno, e uma bella noite cahem lá dentro como +um raio e prendem todos, levando o dinheiro que está em cima das mesas.» + +A policia seguiu as instrucções da princeza tanto á risca, que até +escolheu uma bella noite, _une belle nuit_, para fazer a sua rusga! + +Diz ainda sua alteza:--A mobilia é confiscada... e a policia confiscou a +mobilia. + +Decididamente, a princeza tem todo o direito... a um apito honorario! + + * * * * * + +Vejamos agora como sua alteza falla de alguns dos nossos escriptores. + + * * * * * + +--_Camillo Castello Branco_, que parece o condemnado aos trabalhos +publicos da litteratura portugueza, escreve, escreve, escreve, escreve +sempre: superiormente, é questão controversa; enormemente, com certesa. +A quantidade excede em muito a qualidade, diz-se, (diz ella); dotado de +uma actividade laboriosa, infatigavel, comparavel á de uma legião de +formigas, construe romances contemporaneos sobre romances historicos, +com uma preseverança e uma sequencia que intrigam a imaginação. É uma +especie de Quevedo com certo sentimentalismo catholico. + +Particularidade curiosa: em todos os seus romances entram +infallivelmente um brazileiro, uma menina que se mette n'um convento, um +fidalgo provinciano, e um namorado amorudo e transparente. É invariàvel +como a chuva e o bom tempo. De fórma, que o primeiro romance que se lê +do sr. Branco parece muito interessante, o segundo accorda +remeniscencias, e o terceiro adivinha-se; o quarto sabe-se de cór, +volta-se a pagina sabendo-se o que vae passar-se. É uma galeria de +personagens que raramente se renova, como a dos museus de figuras de +cera. Os seus principaes romances são: _Onde está a felicidade_, _Doze +casamentos felizes_, _O que fazem mulheres_, _Historia d'um homem rico_; +são feitos com este arcabouço em que as vigas, as asnas e os alicerces +são invariavelmente os mesmos.» + + * * * * * + +«--_Bulhão Pato_. É um peninsular, um sybarita, um camaleão. Como muitos +rapazes que se dizem artistas pintores ou esculptores, para terem o +direito de usar umas enormes cabelleiras e de adoptarem umas maneiras e +um modo de fallar desbragado, este, fez-se poeta, o que na alta +sociedade de Lisboa é um titulo de apresentação. + +O sr. Bulhão Pato é incontestavelmente um homem d'uma conversação +encantadora. Passando por espirituoso e mordente, imaginou que para ser +um genio lhe bastava o querer sel-o, esquecendo que não é poeta quem +quer. Assim, creou-se por si só, e por si só, ainda, se julga um grande +poeta. O seu poema, a _Paquita_, é uma imitação dupla do estylo +aggressivo de Byron e da finura de Musset, um urso fazendo rendas de +Alençon. Escreveu muitos volumes de versos, satiras, novellas, etc., +onde se não encontra o reflexo do espirito notavel que tem a fallar. O +que escreve não traduz o que diz (_Sa plume ne traduit pas sa langue_). +Para acabar este retrato é necessario acrescentar que é impertinente, +irritavel, invejoso, que pouco sabe da vida, julga-a mal, e por isso +mesmo declara-se descontente com cada um e com todos, passando a vida a +lamentar-se sem rima nem rasão.» + +N'uma nota continúa no mesmo tom amavel chamando-lhe o _poeta da melena_ +(_poète aux longs cheveux_). + + * * * * * + +«--_Ernest Biestero_, o grande magro litterario de quem Castilho +dizia:--É um fructo de inverno, por mais que o expremam não deita nada! +O que elle traduziu, apanhou, pilhou, é incalculavel: seriam necessarios +volumes só para fazer a sua rapida enumeração. + +Os seus dramas originaes, _Caridade na sombra_, _Moscovellos_, _Natureza +de alma_ (?) são uma galeria de manequins sem vida e até sem cordeis. +Deve accrescentar-se--segundo a chronica--que os seus dramas são +retocados por seu cunhado Mendes Leal. O que os não embelleza! + +Biester teve a gloria de ser um dos fundadores da _Revista Contemporanea +de Portugal e Brazil_, que durou cinco annos, onde se acham associadas +todas as individualidades do _elogio mutuo_.» + + * * * * * + +«--_Mendes Leal_ (José da Silva) nasceu em Lisboa em 1820. Sem talento e +até sem disposições dramaticas escreveu muitos dramas e romances +historicos. É o litterato portuguez que fez mais plagiatos, e isto com a +maxima audacia e sem-cerimonia. O seu theatro pertence á escola do +ultra-romantismo, e os _Dois renegados_, que passam por ser a fina flôr +da sua corôa litteraria, são um drama insipido, cheio de punhaes, +venenos e ciladas. O seu romance _Calabar_ é completamente tirado do +_Bateur d'Estrade_, de Paul Duplessis; as suas poesias formam um volume +no qual só uma poesia é digna de menção, a _Morte de Carlos Alberto_. +Este fructo secco da litteratura foi bibliothecario de Lisboa, ministro, +e finalmente ministro plenipotenciario em Paris. O que prova que as +mediocridades são muita vez empregadas.» + + * * * * * + +Agora querem saber como apparecem os nomes portuguezes no livro da +princeza? Ahi vae uma amostra. + +_Odio velho não cança_, o notavel romance de Rebello da Silva, +é:--_Odio, velho, vraô cauca_. + +_O prato de arroz dôce_, de Teixeira de Vasconcellos, chama-se:--_O +Porto de oroz dou_. + +_As tempestades sonoras_, de Theophilo Braga, são:--_As tempos tades +sanoras_. + +_Moços e velhos_, que a princeza erradamente attribue a Ernesto Biester, +apparece assim no livro:--_Mocosvellos_. + + * * * * * + +Aos theatros de Lisboa faz sua alteza a honra de lhes consagrar um +capitulo do seu livro. + +E como a princeza é mulher coherente em todos os actos da sua vida, não +quiz deixar de ser mexiriqueira tratando de assumpto que tanto a +mexericos se presta. + +Assim diz, por exemplo, fallando do theatro do Gymnasio:--«Este theatro +não tem praso determinado para as suas representações pela excellente +rasão de que as receitas são mais de que mediocres. Os artistas e +directores do Gymnasio acham-se constantemente, uns para com os outros, +na situação de um credor importuno para com Mr. de Tayllerand. + +--O senhor não me dirá quando me paga o que me deve? dizia o credor. + +--Ora sempre é muito curioso, respondeu o principe.» + +Realmente é difficil perceber a que vem isto. Pela nossa parte +entendemos que são profundamente ridiculos todos estes promenores da +vida intima dos theatros... Julgamos além d'isso haver falsidade no +mexerico da princeza. Mas ainda que seja verdade o que ella diz, não +será de mau gosto trazer questõesinhas de soalheiro para um livro de +viagens? + +Do Gymnasio, diz ainda, que viu ali representar magistralmente o actor +_Pedro_, secundado por duas jovens e formosas mulheres _Candida_ e +_Lora_? + +Dou-lhes um doce se adivinharem quem são estas duas jovens e formosas +mulheres. Candida e Lora quer dizer Amelia Vieira e Emilia dos Anjos. Ha +porém uma difficuldade, e desde já nos confessamos incompetentes para a +resolver:--Qual será a Lora? + +Mysterio que só a princeza poderá decifrar. + + * * * * * + +Do theatro da Rua dos Condes diz que se representa ali _Lazaro, o +pastor_... É possivel. Em todo o caso devemos declarar que essa peça +subiu á scena expressamente para sua alteza a ver, e que foi ainda sua +alteza a unica espectadora... O publico não a viu nunca. + + * * * * * + +No capitulo _Theatros_ trata muito natural e judiciosamente o assumpto +pateadas. Não gosta d'ellas, parecem-lhe estupidos e injustos os +sujeitos que pateiam. Abre curso de sensibilidade no artigo _pateader_. +Comprehende-se:--ella é que está sensibilisada ao escrever tudo isto, +recordando-se do modo porque a plateia dos _Recreios_ recebeu a sua +insipida e soporifera comedia. + +_Tenha paciencia_. Diz no seu livro que esta phrase se applica a tudo no +nosso paiz. É verdade. Applica-se a tudo. Até ás princezas infelizes que +são pateadas. + +Diz sua alteza fallando nos hoteis que os colchões são durissimos em +todos elles; no _Braganza_ parecem até cheios de cacos de garrafas... +Mas afinal sempre temos por cá alguma coisa mais dura do que os +colchões... as pateadas... + +Custam a roer, custam... Mas que se hade fazer? Rôa, rôa. De resto +parece-nos que sua alteza tem deveras a bossa do estylo lacrimoso... +Chore--a lagrima é livre. + + * * * * * + +Depois da nenia das pateadas passa sua alteza a fallar da vida dos +bastidores em Lisboa. Dêmos-lhe mais uma vez a palavra:--«--A vida dos +bastidores em Portugal está ainda no estado primitivo. É mais burgueza +que desregrada. Na maioria dos theatros as actrizes são casadas ou vivem +maritalmente com pessoas da sua escolha, dando, com rarissimas excepções +tanto que fallar pela sua conducta como pelo seu talento. Se quizesse +citar alguma que se distinguisse das suas collegas pelo seu luxo ou +pelos seus amores, ver me-hia deveras embaraçada, não obstante ter +pedido informações a toda a gente.» + + * * * * * + +Sim, a princeza pedio informações a toda a gente. Apenas qualquer +sujeito tinha a honra de lhe ser apresentado, a primeira coisa que a +princeza fazia era disparar-lhe esta pergunta á queima roupa:--Ora +diga-me meu bom amigo, sabe alguma coisa da Emilia das Neves?--Que lhe +consta da Delfina?--Não se rosna coisa nenhuma d'aquella Joanna Carlota +da rua dos Condes? + +Esta febre da princeza em indagar a vida intima das nossas actrizes +faz-me lembrar a historia de um provinciano que vindo a Lisboa pela +primeira vez, com ideas muito errados acerca das nossas mulheres de +theatro, começou durante a representação, de não sei que peça em D. +Maria, a interrogar o visinho do lado, pelo theor que vae vêr-se, sempre +que apparecia em scena alguma actriz. + +Entrava por exemplo a sr.^a Emilia das Neves, o provinciano voltava-se +para o sujeito e dizia-lhe piscando-lhe o olho intencionalmente: + +--Esta...? + +E o sujeito: + +--Não sei... + +Entrava a sr.^a Virginia: + +--E esta...? + +--Homem deixe-me... + +Entrava a sr.^a Amelia Vieira. + +--E esta...? + +--Diabo, o senhor é inconveniente! Não sei nada... + +O provinciano porém não se dava por vencido. + +--E esta...? continuava elle sempre a perguntar. + +De repente entra o Theodorico. Então o sujeito, desesperado, fulo, +volta-se para o pobre provinciano e diz-lhe muito serio: + +--Olhe este... com certesa... + +A princeza fez exactamente o papel do provinciano, e, tão infeliz como +elle, não ficou sabendo coisa nenhuma... + +Ficou até sabendo menos que o provinciano... + + * * * * * + +Em todo o caso registe-se que no entender de sua alteza a vida dos +bastidores em Portugal é uma pulhice... «Mais burgueza que +desregrada...» chega a ser infame, não é assim princeza? + +E depois que mulheres estas de theatro! Que impossiveis creaturinhas! +Dão tanto que fallar pela sua conducta como pelo seu talento... O mesmo +não se pode dizer que aconteça com certa pessoa que nós sabemos... + +Essa dá muito mais que fallar pela sua conducta do que pelo seu +talento... + +Foi devéras infeliz a princeza em questões de theatro. Viu-se sempre +embaraçada. Até se quizesse citar alguma actriz que se distinguisse das +suas collegas pelo seu luxo ou pelos seus amores, até n'essas +circumstancias os embaraços lhe não permittiriam a citação... + +É realmente estar com azar. + +Pois nós se quizessemos citar alguma princeza que se distinguisse de +todas as outras pelo seu luxo _tapageur_ ou pelos seus amores, faziamos +isso sem a mais pequena difficuldade... + + * * * * * + +Termina sua alteza o capitulo dos theatros fallando das dançarinas de S. +Carlos. Diz sua alteza:--«As dançarinas não dão que fallar de si. Ha +para isto duas razões:--a primeira é que, salvo duas ou tres excepções +são feias que mettem medo a segunda é que a maioria d'ellas parece-me +ter chegado, a esta edade feliz em que se tem jus á veneração e ao +respeito.» + +Ora aqui está o que aconteceria a sua alteza se em vez de ser uma _bas +bleue_ pretenciosa fôsse dançarina de S. Carlos. Ninguem fallaria +n'ella... Por tudo, e principalmente... pela segunda razão... + + * * * * * + +Deixemos porém os theatros e vejamos o que a princeza diz a respeito do +nosso mais notavel monumento--o mosteiro da Batalha. + +«_Batalha_, tambem pequena cidade, (que disparate!) alguns kilometros +mais longe (do que Alcobaça, que descreve antes) possue um mosteiro mais +pequeno; mas tambem gothico, e de um estylo ainda mais puro que o de +Alcobaça. + +Este mosteiro foi fundado pelo rei D. João I, que ahi repousa. Nota-se +particularmente a sala do capitulo, cuja elegancia é superior a toda a +expressão, bem como o claustro. Decididamente, os senhores frades +d'aquelles tempos tinham bem boas habitações, e é pena que se não +tivessem construido mais, tão encantadoras, não para lhe servirem +unicamente de residencia, mas para alegrarem os olhos dos _touristes_.» + +Ter visto a Batalha, ter entrado n'aquelle monumento, que é uma +verdadeira epopeia de pedra, e escrever o que ahi fica, sabe o que é, +princeza?--é um diploma. Simplesmente não lhe digo de quê.--Vá ter com +alguns dos muitos estrangeiros illustres que visitaram aquelle mosteiro, +francezes, inglezes, italianos, hespanhoes, russos, allemães, ou de +qualquer outra nacionalidade, diga-lhes que viu a Batalha, mostre-lhes +depois o que escreveu no seu livro... qualquer d'elles lhe dirá de que é +o tal diploma... + +Mas, que diabo! tambem não pode haver tempo para tudo, e, ella por ella, +a equipagem do marquez de V. é decerto muito mais digna de attenção do +que o monumental edificio da Batalha! + +É pena, diz sua alteza, que não se tivessem construido mais monumentos +para alegrar os olhos dos _touristes_... + +Ah! sim, é pena! pois não! chega a ser uma dôr d'alma não estar o reino +de Portugal cheio de monumentos, como a Batalha, para que sua alteza, a +muito alta e muito nobre princeza Rattazzi, podesse percorrer o paiz com +os olhinhos alegres! + + * * * * * + +Porque afinal de contas, o magestoso e sublime mosteiro não lhe causou +nenhuma outra impressão... alegrou-lhe o olho. + +Frei Luiz de Sousa, descreve-o com a sua penna de ouro, o inglez Murphy +estuda-o maravilhado durante largos annos, o erudito patriarcha D. +Francisco de S. Luiz dedica-lhe uma extensa memoria:--n'uma palavra, +nacionaes e estrangeiros, curvam-se reverentes em presença do patriotico +e veneravel monumento... Rattazzi vae vel-o... faz-lhe a honra de +conceder-lhe doze linhas... e alegra-se-lhe o olho... Isto é, o mosteiro +produz-lhe o mesmo effeito que um copinho de _chartreuse_... Vamos +compatriotas, sirvam café á princeza, e tragam n'uma bandeja... mosteiro +da Batalha e copos... Sua alteza tem o olhar basso e triste... +alegremos-lhe o olho... dêmos-lhe um calicesinho da _sala do +capitulo_... Então princeza, nada de ceremonias... Se quer mandamos +tambem buscar os Jeronymos... Beba, beba... Alegre-se... alegre-se... + +É impagavel no fim de tudo esta Rattazzi:--Melicio é espirituoso e +incisivo, e a Batalha... alegra-lhe o olho... + +Delicioso, como dizia o Leoni nos _Amores de Boccacio_... + + * * * * * + +Tudo quanto o leitor tem visto até agora, fica porém eclipsado pelo +capitulo em que a muito nobre princeza falla do modo porque os +estrangeiros são recebidos em Lisboa. + +Leiam: + + * * * * * + +«Pode dizer-se, sem grande exaggero, que ha um secreto horror pelos +estrangeiros e que são olhados com maus olhos. Entretanto esta execração +tem graus e não deixa de ser curioso fazer o seu estudo. + +Supponhamos que um pobre diabo cae de inanição n'uma das praças publicas +de Lisboa, confessando que não recebeu do céu a graça de ter nascido +cidadão portuguez. + +1.^o--Se é inglez, dão-lhe os restos da comida do dia antecedente. + +2.^o--Se é allemão, um bocado de pão. + +3.^o--Se é americano, umas migalhas. + +4.^o--Se é italiano, um copo de agua. + +5.^o--Se é francez, não lhe dão nada. + +Aqui está approximadamente a gradação do estima a que um estrangeiro +póde aspirar em Portugal. + +Os inglezes são os mais considerados, o que se explica, dizendo-se que +Portugal é um pouco uma colonia ingleza, uma terra de exportação para os +productos da Grã-Bretanha: o ouro e os uniformes militares são inglezes. +Ha n'este povo meridional muitos costumes anglicanos que ficaram como +recordação da alliança das armas inglezas contra os francezes em 1808. + +Os allemães gosam de alguma consideração. + +Os americanos do norte são antes temidos do que estimados. + +Os italianos são todos pastelleiros ou tenores; é a opinião dos +portuguezes que dou aqui, não a minha. Mas é uma opinião perfeitamente +estabelecida, e qualquer que seja a posição social d'um italiano que +chega a Portugal, será considerado por todos como um pastelleiro que fez +fortuna, ou como um tenor em procura de escriptura. + +Os francezes muito bem acolhidos á superficie, são perfeitamente +detestados no fundo. Quando não são luveiros, cabelleireiros ou +cozinheiros consideram-os como uns aventureiros. Ha uma avidez por todos +os fructos da sua intelligencia, tira-se-lhes tudo que produzem em +sciencias, bellas artes e litteratura, mas ninguem se julga em obrigação +de lhes dar nada em troca. Detestam-os por instincto. Esta antipathia +transmitte-se de paes a filhos, ou para melhor dizer, remonta de filhos +a paes até ao primeiro imperio.» + + * * * * * + +Disse uma vez um poeta nosso que certo sujeito era uma perfidia dentro +d'um assucareiro, d'este trechosinho póde dizer-se, parodiando aquella +phrase:--que é tambem uma perfidia dentro d'outra coisa acabada em +_eiro_. + +Com que então em Lisboa quando se encontra um francez cahido no meio da +rua, cheio de fome, morto de inanição, passa-se para deante e não se lhe +dá nada, absolutamente nada, _rien du tout_? + +Oh! honestissima e honradissima princeza, porque não se atolou mais um +poucochinho no esterquilinio da calumnia,--para que deixou a cabecinha +de fóra? Que diabo! tem pouca imaginação vossa alteza! gira-lhe nas +veias sangue de principes, mas a calumniar não passa d'uma +burguesinha--porque dizer só, que a um francez que se encontra estendido +na praça publica, nada se dá, nada se lhe faz?--porque não disse antes, +que se varria esse francez d'envolta com o lixo, porque não disse que se +lhe dava um bolo de strichinina?--_Per Baco_, produzia mais effeito, +princeza! + + * * * * * + +Afinal, de tudo quanto ha no seu livro, a pagina deveras torpe, é +aquella. + +Do resto, diga-se a verdade, nem quasi valia a pena fallar. + +Ah! mas aquella paginasinha, merece, merece que se escrevam algumas +linhas... + +Quem lhe disse, princeza, que os francezes eram detestados em Lisboa, +detestados por instincto?--Eu sei quem lh'o disse,--foi a sua espertesa +saloia. Vossa alteza sahiu de Portugal despeitada com muita gente,--por +isto, por aquillo, por aquell'outro,--porque a nossa boa nobreza, que +ainda a temos, não a visitou;--porque os jornaes não fallaram tanto +quanto vossa alteza queria do seu talento e das suas obras;--porque a +platéa dos Recreios a pateou desapiedadamente; etc. Sahindo d'aqui +despeitada quiz vingar-se. É natural. Era preciso porém para que a sua +vingança fosse completa que ella encontrasse echo n'essa grande nação +que ainda hoje dá as leis ao mundo.--«Vou desacreditar Portugal á face +da França--» disse a princeza com os seus algodões.--Mas para que a +França faça o acompanhamento á minha serenata, o que heide eu +fazer?--Porque afinal a verdade é esta:--eu sou muito conhecida em +França... Alfonse Karr, Boissieu, Pelletan... que o diabo, os confunda a +todos,--mostraram bem quem eu sou, nas _Guépes_ nas _Lettres de +Colombine_, na _Nouvelle Babylone_... Ah! já sei! exclamou vossa alteza +de repente:--escrevo que os francezes são detestados, execrados em +Portugal... Sim, sim, é isto:--_Tonerre de Dieu!_ estava-me +desconhecendo... Que tempo levei para fazer uma descoberta afinal tão +simples, e tanto na minha indole... É claro como agua:--dizendo eu que +os francezes são odiados, detestados, execrados, que ao vêl'os +estendidos no meio da rua ninguem os soccorre, e que para ali ficam +abandonados como famintos cãos vadios, elles, esses bons e +enthusiasticos francezes, sentirão o fogo da indignação girar-lhe nas +veias, e correndo ao meu palacio, virão gritar em côro debaixo das +minhas janellas:--Bravo princeza, bravo, quanto dizes d'essa cambada, +d'essa canalha de portuguezes é pouco; nunca as mãos te doam, mulher! +Patifes, deixarem-nos morrer sem soccorros no meio da rua... Tira-lhes a +pelle, escorraça-os, frege-os em postas--e conta que as nossas bençãos +cahirão sobre a tua cabeça.» + + * * * * * + +Ora tudo isto, princeza, permitta-me que repita a phrase, não passou de +esperteza saloia. + +A França, sabe perfeitamente quanto é querida e estimada em Portugal. +Ella não ignora de certo que na hora da provação, quando rebentou essa +terrivel guerra franco-prussiana, aqui n'esta cidade de Lisboa,--onde se +abandonam vilmente francezes no meio da rua,--todos, sem distincção de +classes, desde o chefe do estado, podemos dizel-o, até ao mais humilde +cidadão, todos faziam votos para que a victoria fosse coroar com a sua +rutilante aureola as armas d'esse valente e generoso povo, que Portugal +tem o bom senso de não tornar responsavel pelos actos praticados por +dois dos seus despotas. + +E olhe vossa alteza princeza:--tudo isto aconteceu estando um Bonaparte +á frente da França... Hoje, que não está lá nenhum, calcule como terá +augmentado a nossa sympathia por aquella grande nação. + + * * * * * + +A esperteza saloia precisava de correctivo. Ahi fica. A princeza diz que +nós os portuguezes somos muito pacientes. Assim é, mas quando um +mosquito começa a zumbir-nos aos ouvidos, a importunar-nos, depois de o +sacudirmos, uma, duas, tres vezes, zangamo-nos e damos-lhe uma palmada +com tanta vontade... que o esborrachamos. + +É uma porcaria, d'accordo. Mas tambem para que serve a agua? + + * * * * * + +Agora as ultimas palavras... as palavras da despedida. + +N'uma carta circular que sua alteza dirigiu á imprensa diz:--_Il faut me +pardonner quelques plaisanteries sans importance et sans parti pris_... +que é como se dissesse:--queiram os senhores desculpar alguns gracejos +innoffensivos e sem intenção... + +Ah! pois não princeza! Com todo o gosto... Sem mais aquella, como se diz +em giria... E se o nosso folheto tiver a honra de ser lido por vossa +alteza, lembre-se das suas linhas e queira tambem +desculpar-nos:--_quelques plaisanteries sans importance et sans parti +pris_. + + * * * * * + +Segue a biographia da princeza. + + + + +BIOGRAPHIA + + +Rattazzi--(Maria Studolmire Wyse, princeza de Solms, depois condessa) +mulher de lettras franceza, nascida em Waterfard (Inglaterra) em 1833. É +neta de Luciano Bonaparte, irmão de Napoleão I, e filha de Letizia +Bonaparte, e de sir Thomaz Wise, membro do parlamento de Inglaterra, que +morreu ministro plenipotenciario da Grã-Bretanha em Athenas. Descendente +de uma serie de uniões consideradas como outras tantas _mesalliances_ +para a familia Bonaparte, foi sempre considerada por esta como uma +intrusa, ou como uma inimiga. Quando o principe Luiz, seu primo, foi +eleito presidente da Republica franceza, prohibiu-lhe formalmente que +usasse o nome de Bonaparte-Wise, pelo qual eram conhecidos seu pae e seu +irmão. Entretanto, a sua filiação napoleonica, está tão bem estabelecida +senão melhor que a do seu proprio primo. Seu avô Luciano, principe de +Canino, casára, em segundas nupcias, com madame Bleschamp, viuva de um +agente de cambio, casamento que descontentou muito Napoleão, e fez +romper todas as relações da familia imperial com Luciano; este, tendo-se +retirado á Italia, fez naturalisar romanos todos os seus filhos, tão +pouca era a sua fé na restauração da dynastia a que pertencia. A neta, +nascida de mãe romana, Letizia Bonaparte, e de pae irlandez, era +realmente uma Bonaparte, mas tão pouco franceza quanto possivel. Foi +comtudo educada na casa da Legião de Honra de S. Diniz, e, como não +tivesse meios, fez-se professora. + +Em 1848, quando á familia Bonaparte foi permittida a entrada em França, +e o principe Luiz se propoz a presidente da Republica Franceza, foi +pedida em casamento por Mr. Frederico de Solms, rico alsaciano que a +dotou em 700 ou 800 mil francos, esperando que ella viesse a ser uma das +estrellas da futura côrte de seu primo, e que assim o levasse ás +grandezas. Não aconteceu nada d'isto. Os Bonapartes, e principalmente o +futuro Napoleão 3.^o não a consideraram como da familia; como o pae da +segunda mulher de Luciano occupara um emprego d'inspector _nos direitos +reunidos_, pretendiam não terem nada de commum com a descendente d'um +vendedor de tabacos, e foi isto o que os jornaes do Elysseu lhe +disseram, nu e cru, quando Madame de Solms, posto que muito nova ainda, +porque então apenas contava 16 annos, começou a tornar-se notavel. + +Lançou-se então na opposição, attrahiu a sua casa algumas notabilidades +do partido democratico, abriu as suas salas aos litteratos, deu festas +esplendidas, e ostentou um luxo que tinha a pretenção de fazer epoca na +historia contemporanea. No seu pequeno circulo comparavam-a a +mademoiselle Montpensier e dizia-se que do seu _boudoir_ sahiria uma +nova Fronda. Por occasião do golpe de estado de 2 de dezembro, em que +estavam implicadas algumas pessoas que frequentavam as suas salas, +julgou-se tambem obrigada a deixar a França, habitando ora em Roma, na +Belgica, ora as cidades de caldas mais notaveis. + +Considerava-se como exilada, e tendo alguns jornaes publicado que ella +pedira para ser amnistiada, fez-lhes publicar esta resposta altiva:--«Só +um governo liberal e sensato me póde fazer voltar á França. Até o dia em +que triumphem as nossas liberdades, acceito o exilio; mas protesto +energicamente contra toda e qualquer nova insinuação, grave ou pueril, +tendente a fazer admittir que, no presente ou no futuro, sob qualquer +consideração, e em qualquer extremidade em que me encontre, eu possa +ligar-me directa, ou indirectamente, a uma familia da qual me separei +voluntaria e seriamente.» + +Isto não a impediu de entrar em França em fins de 1852; mas em fevereiro +de 1853, recebeu ordem de expulsão e seu primo fel-a conduzir á +fronteira acompanhada pelos gendarmes. A causa d'esta expulsão +escandalosa era sempre a mesma, a sua obstinação em querer usar o nome +de Bonaparte que lhe negavam. Protestou pelos tribunaes, encarregou +Berryer de a defender, e o governo fez admittir pelos jornaes que a +ordem (arrêté) d'expulsão estava em fórma, visto que madame de Solms era +estrangeira e casada com um estrangeiro não naturalisado. É muito +provavel que M. de Solms, nascido em Strasburgo, fosse francez; mas o +governo obteve d'elle uma declaração na qual dizia não reclamar a +qualidade de francez. Na _Patria_ foi publicada a seguinte nota: + +«Por ordem do sr. intendente geral da policia, foram expulsos do +territorio francez madame de Solms, dizendo-se condessa de Solms, e M. +Wyse, (seu irmão, M. Bonaparte-Wyse) ambos estrangeiros; estas duas +pessoas usavam sem direito nenhum o nome de Bonaparte, e longe de +respeitarem o nome illustre que usurparam, serviam-se ao contrario +d'elle para se entregarem a escandalos desordenados, afim de mais +facilmente abusarem da credulidade das pessoas com quem estavam em +contacto. A ordem do sr. intendente geral de policia foi posta em +execução e madame de Solms e o sr. Wyse deixaram a França.» + +Quando se fez a annexação de Nice e da Saboya (1862), pediu a Napoleão +III a permissão de ficar em França, e obteve mesmo a de voltar a Paris; +abriu ali o seu salão, como antigamente, deu festas, escreveu chronicas +e _causeries_ em varios jornaes, o _Pays_, o _Constitutionel_, o _Turf_, +etc., fez fallar de si, como de costume, e, tendo-se reconhecido n'um +malicioso retrato traçado por M. de Boissieu, (_Fragment d'histoire, une +des plus spirituelles lettres de Colombine_, 1863), intentou no _Figaro_ +uma indemnisação de 200:000 francos de perdas e damnos. O tribunal +regeitou-lh'a. Entretanto tendo-lhe morrido o marido, uniu-se a Rattazzi +n'uma das suas viagens a Turim, e esta ligação teve algum tempo depois o +casamento por desenlace. A sua estada em Paris em 1865 trouxe-lhe novas +decepções; foi-lhes dada nova ordem de expulsão e retirada uma pensão de +que havia tres annos gosava. Desde então madame Rattazzi viveu +constantemente em Turim, Florença e Roma, e publicou grande numero de +volumes. Um dos seus romances, _Richeville_, fez algum barulho na +Italia, e valeu ao marido de madame Solms, algumas provocações em +duello. + + + + + +End of Project Gutenberg's A princeza na berlinda, by Urbano de Castro + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A PRINCEZA NA BERLINDA *** + +***** This file should be named 20103-8.txt or 20103-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/2/0/1/0/20103/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/old/20061213-20103-8.zip b/old/20061213-20103-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..2c7199e --- /dev/null +++ b/old/20061213-20103-8.zip |
