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+The Project Gutenberg EBook of Sol de Inverno, by António Feijó
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Sol de Inverno
+ ultimos versos : 1915
+
+Author: António Feijó
+
+Contributor: Luis Magalhães
+
+Release Date: October 13, 2006 [EBook #19532]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SOL DE INVERNO ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
+
+
+
+
+SOL DE INVERNO
+
+
+
+
+OBRAS POÉTICAS, COMPLETAS DE ANTONIO FEIJÓ
+
+
+_Sacerdos Magnus_, 1881.
+_Transfigurações_, 1882.
+_Lyricas e Bucolicas_, 1884.
+_Cancioneiro chinês_, 1903 (2.^a edição).
+_Ilha dos Amores_, 1897.
+_Bailatas_, 1907.
+_Sol de Inverno_, 1922.
+_Novas Bailatas_, no prelo.
+
+
+Nota: As _Bailatas_ foram publicadas sob o pseudónimo de _Ignacio de
+Abreu e Lima_.
+
+
+
+
+[Figura: Antonio Feijó]
+
+
+
+
+ANTÓNIO FEIJÓ
+
+
+Sol de Inverno
+
+ULTIMOS VERSOS
+
+(1915)
+
+
+Livrarias AILLAUD e BERTRAND
+PARIS-LISBOA
+1922
+
+
+
+
+Tip. do Anuário Comercial--Praça dos Restauradores, 24--Lisboa
+
+
+
+
+PREFACIO
+
+I
+
+
+Com o _Sol de Inverno_, que, n'este volume, vê a luz da publicidade, e
+com as _Novas Bailatas_, que vão entrar no prelo, a obra poetica de
+Antonio Feijó encerra-se por duas magnificas affirmações do seu alto,
+delicado e gentilissimo talento. A sua Musa emmudece para sempre. A sua
+lyra quebra-se. Esses dois livros posthumos são o seu harmonioso canto
+do cysne... É um grande poeta e um grande artista do verso que dizem o
+supremo adeus á sua arte, exercida com tanta paixão e tanta nobreza!
+
+Esses livros deixou-os o Auctor dispostos, coordenados, paginados,
+revistos minuciosamente, para os fazer imprimir. A morte permittiu-lhe,
+ao menos, cuidar d'esse legado valioso e opulento, que ia testar á
+litteratura patria. Quando ella o surprehendeu, a 20 de junho de 1917, o
+trabalho estava acabado.
+
+Mas o mundo ardia em guerra. A Europa era um campo de batalha gigantesco
+em que os povos, como os Titans da gigantomachia do mytho hellenico,
+luctavam braço a braço, trucidando-se em torrentes de sangue. As
+communicações entre a Suecia, onde Feijó fallecera, no seu posto
+diplomatico, e Portugal, estavam quasi cortadas. Os preciosos e
+insubstituiveis originaes não podiam ser confiados a transportes
+aventurosos, a correios irregulares e incertos, ás suspeitas da censura
+dos belligerantes, aos riscos dos torpedeamentos maritimos. Foi preciso
+que a paz se fizesse emfim e, com ella, a ordem e a normalidade da vida
+internacional começassem a restabelecer-se n'esta convulsionada Europa,
+para que o espolio litterario de Antonio Feijó pudesse vir com segurança
+para Portugal, trazido pelas mãos dos seus proprios filhos.
+
+A mim, seu velho companheiro e camarada, a elle ligado, desde os dezoito
+annos, pela mais fraterna amizade, foi confiado o encargo de
+superintender na publicação d'esses livros e de a preceder de algumas
+palavras em que se esboce o perfil do Auctor e se ponham em justo relevo
+os meritos eminentes da sua bella obra.
+
+Encargo, ao mesmo tempo doloroso e grato, em que, á profunda saudade do
+querido amigo morto, se juntou o enlevo espiritual de me absorver nas
+altas emoções estheticas que a leitura d'esses dois livros tão
+intensamente me fazia sentir!
+
+Com que doce melancholia, com que piedoso recolhimento, com que
+commovida curiosidade, com que alvoroçado interesse eu folheei os dois
+originaes, copiados á machina, mas, quasi a cada pagina, emendados pela
+sua lettra, com os offerecimentos aos seus amigos traçados pelo seu
+punho, com os appendices, em que se archivavam os juizos criticos das
+suas obras anteriores, por elle proprio coordenados!
+
+Era o seu espirito que, d'essas frias regiões scandinavas, para onde os
+azares da vida haviam exilado esse meridional de tão viva e ardente
+imaginação, era o seu espirito que de lá nos vinha n'essas paginas,
+palpitantes de emoção lyrica, sonoras de rythmos musicaes e de rimas
+harmoniosas, todas refulgentes do esplendor das imagens e da pureza
+plastica d'uma forma impecavel! Esse dom de immortalidade espiritual, de
+revivescencia dos mortos na memoria das suas altas acções ou no
+esplendor das suas grandes obras, senti-o, n'essa hora, tão
+profundamente, que o meu coração, por momentos, se hallucinava, dando-se
+a illusão de que era o proprio poeta que me estava recitando as suas
+ultimas poesias, n'aquella dicção perfeita que tanto fazia realçar as
+qualidades do seu verso!
+
+Era com a sua alma que eu estava em contacto tambem,--com a sua alma nos
+derradeiros annos da sua vida,--porque, n'esses livros, havia muito dos
+seus affectos, dos seus pensamentos intimos, das suas alegrias e
+esperanças, das suas mágoas, da suas torturas, das suas dolentes
+nostalgias...
+
+Ambos elles estavam concluidos e preparados para o prelo antes d'aquelle
+supremo infortunio da sua vida, que foi a perda da sua adorada mulher,
+levada pela morte em setembro de 1915, ainda em plena mocidade e em todo
+o encanto da sua grande elegancia e brilhante formosura.
+
+O offerecimento do _Sol de Inverno_ não é feito á sua memoria, mas a
+ella ainda viva e presente no lar domestico. Nas cartas que d'elle
+recebi no curto periodo da sua viuvez,--uns vinte mezes,--referia-se aos
+dois livros como a uma obra feita. Depois do golpe, de cuja incuravel
+ferida lhe havia de resultar, mais tarde, a morte, não appareceram, nos
+seus papeis,--que eu saiba,--vestigios d'um regresso á actividade
+litteraria. D'isso me fallava ás vezes, quando me escrevia, mas como
+d'uma intenção, não como d'um facto.
+
+_Sol de Inverno_ e _Novas Bailatas_ devem conter, portanto, as
+derradeiras producções poeticas de Antonio Feijó. São o fecho da sua
+obra e são realmente um remate superior, em que o seu talento e a sua
+arte se ostentam em plena maturação e plena mestria. Não lhe foi dado a
+elle assistir ao seu maximo triumpho litterario, á publicidade d'aquelle
+dos seus livros, o _Sol de Inverno_, que o qualifica, definitivamente e
+sem favor, um grande poeta.
+
+A esse triumpho tambem os seus amigos não assistem com aquelle jubilo
+que experimentariam se lhe pudessem manifestar a sua admiração, se
+pudessem acclamal-o a elle em pessoa, não apenas á sua memoria e ao seu
+nome, agora gloriosamente consagrados.
+
+Por mim, fal-o-ei n'esta evocação da saudade, que é o conforto da alma
+no declinar da vida e tem o dom maravilhoso de resuscitar
+espiritualmente os mortos.
+
+Se julgo poder dominar as suggestões da amizade ao tratar da obra d'um
+tão grande amigo, não me é, por outro lado, possivel fallar d'elle sem
+que, a cada passo, esse affecto fraterno não transpareça nas minhas
+palavras, sem que tenha de referir-me ás nossas intimas relações,
+mettendo o leitor na confidencia de velhas lembranças pessoaes, que para
+elle podem, comtudo, ter interesse, por dizerem respeito a uma tão
+notavel individualidade.
+
+
+II
+
+Por fins de outubro de 1877,--pouco falta para a conta d'um longo meio
+seculo!--em Coimbra, um bando alegre de _novatos_ de Direito, no
+intervallo de duas aulas, subia ruidosamente a ingreme escada da torre
+da Universidade, e, lá do alto, n'um largo desafogo, estendia a vista
+por esse incomparavel panorama do valle do Mondego, entre cujo
+legendario quadro lhes ia correr todo um lustro de intensa vida mental,
+de tremendas controversias de ideias, de extases poeticos, de sonhos de
+juventude, de esperanças, de chimeras,--essa divina florescencia do
+espirito, que marca, na nossa existencia, o seu momento superiormente
+bello e culminantemente feliz.
+
+Eu era d'esse grupo. Mal nos conheciamos de vista uns aos outros: havia
+apenas coisa d'uma semana que, pela primeira vez, nos juntaramos nos
+bancos da nossa aula. Vinhamos de todas as provincias de Portugal: como
+acontecia sempre nos grandes cursos de Direito, havia, entre nós,
+minhotos, transmontanos, beirões, extremenhos, alemtejanos, algarvios,
+ilheus,--cada um com o seu typo ethnico, o seu sotaque regional. Ao
+acaso, misturavamo-nos, entabolavamos conversas superficiaes, trocavamos
+impressões rapidas, no deslumbramento d'essa visão de belleza que se
+estendia, deante dos nossos olhos, da montanha á planicie, da mancha
+azulada e longinqua da serra da Louzã á ridente campina do Mondego,
+tocada já pelos tons d'oiro do outomno.
+
+N'essa casual communicabilidade, achei-me a conversar com um rapaz, ao
+lado do qual havia feito a esfalfante escalada da torre. Era um bello
+moço, de hombros largos e um tanto cheio de corpo, cabello ligeiramente
+aloirado, pelle clara e uns olhos castanhos sorridentes e um nada
+maliciosos, atravez dos quaes como que se lhe via a clara intelligencia
+e o vivo espirito.
+
+Dissemos meia duzia de coisas vagas sobre a paisagem, sobre Coimbra,
+sobre os interessantes aspectos da velha Universidade, vista assim do
+alto, no conjuncto irregular dos seus corpos assymetricos. Facilmente
+nos descobrimos inclinações litterarias, citámos livros, fallámos de
+escriptores, de poetas... E, d'esse encontro fortuito, d'esse momento
+inolvidavel d'uma forte emoção de esthesia, partilhada por duas almas
+apenas sahidas da adolescencia, nasceu, entre mim e Antonio Feijó, uma
+amizade de irmãos, uma camaradagem de espirito, uma estreita communhão
+moral, que, sem sombras, nem collapsos, mesmo através de longos
+afastamentos, durou quarenta annos e só a Morte,-- só ella, a implacavel
+ceifeira das minhas grandes amizades!--logrou cortar...
+
+Pouco depois, já no decorrer do primeiro anno do seu curso, Feijó
+revelava-se um poeta á sua geração academica.
+
+Lembro-me perfeitamente dos primeiros versos que, d'elle, li.
+Appareceram na _Sebenta_ da cadeira de Direito Romano. As _Sebentas_,
+por esse tempo, juntavam, ás vezes, á utilidade das suas funcções
+pedagogicas, o innocente deleite d'uma ou d'outra _perpetração_
+litteraria, em que ensaiavam as azas aquelles, do Curso, a quem a Musa
+já provocava e seduzia...
+
+Um condiscipulo nosso, o bom João Martins, de Redondo, havia, n'uma
+lição, estadeado uma vasta sabedoria, citando Ortolan com abundante
+facundia.
+
+Dois dias depois, a _Sebenta_ inseria, em appendice, este soneto
+anonymo:
+
+Quando o Martins deita falla
+Sobre o Foral de Leão,
+Palpitam de commoção
+Todos os cantos da sala.
+
+Em saber ninguem o eguala!
+Merece uma distincção
+Quem refuta San Simão
+E o positivismo abala;
+
+Quem leva ao fundo chaótico
+Do Codigo Wizigothico
+A branca luz da manhã,
+
+E, sendo um poço de sciencia,
+Nos prova que, em descendencia,
+É bisneto de Ortolan!
+
+Esta leve _boutade_ satyrica, d'uma factura correcta, bem versificada,
+bem rimada, revelando uma facil e fina veia humoristica, fez successo. O
+auctor escondera-se. Mas, dias depois, alguem o descobriu. Era Feijó.
+
+Não tardou muito que o seu nome passasse a ser conhecido nas rodas
+litterarias de Coimbra. Já em Braga, onde fizera os preparatorios e onde
+então João Penha, esse perfeito versificador, doutor «a quem as Musas
+não fizeram mal», era venerado, e com justiça, como um mestre,--já em
+Braga Feijó havia publicado, nas secções litterarias dos jornaes da
+terra, algumas composições que denunciavam as suas notaveis disposições
+poeticas. Era mais um poeta que o norte do paiz mandava a esse Parnaso
+de Coimbra, onde, á falta d'uma Faculdade de Lettras, a doce paisagem,
+os melancholicos olivedos do Penedo da Saudade, o encanto do Mondego,
+com os seus pallidos renques de salgueiros, os seus laranjaes todos
+floridos e rescendentes nas noites de maio, com os seus orpheons de
+milhares de rouxinoes, com os seus luares de sonho que tudo
+espiritualisam, e, sobre isto, a tradição dos grandes poetas que, desde
+Camões e o bom Sá, por alli passaram, iniciavam as almas novas nas
+emoções do lyrismo, desde a graça bucolica do idylio ou da egloga á
+saudosa plangencia da elegia.
+
+A geração academica, que, por esse tempo, floria em Coimbra, está, póde
+dizer-se, na derradeira phase da sua declinação, vae a apagar-se de todo
+no crepusculo do seu occaso. Talvez metade d'ella se tenha sumido já na
+voragem da morte. E, dos que restam, muitos viram já passada a _sua
+hora_, aquella em que a sua personalidade plenamente se revelou no campo
+de acção para onde as suas faculdades os levaram. A successão das
+gerações parece vertiginosa a quem observa a diluição d'aquella a que
+pertenceu nas sombras do tumulo ou no silencio do esquecimento...
+
+E, comtudo, essa geração não foi inteiramente infecunda em
+individualidades de accentuado valor. D'ella sahiram homens publicos que
+longo tempo occuparam o tablado politico, homens de lettras que marcaram
+na vida litteraria do seu tempo, homens de sciencia, professores
+abalisados, causidicos illustres, artistas notaveis,--e até soldados
+heroicos e gloriosos, porque, entre os nomes dos que mais vieram a
+illustral-a, se conta o de Mousinho d'Albuquerque. Foi a geração que
+celebrou, entre magnificas festas litterarias e artisticas, o Centenario
+de Camões. Foi a geração que veio a exercer a sua influencia na vida
+nacional na passagem do seculo XIX para o seculo XX.
+
+Seria uma diversão descabida e longa o tentar agora julgal-a nos seus
+merecimentos e defeitos, o procurar fixar as caracteristicas do seu
+espirito e criticar as suas idéas e a sua acção. Mas póde dizer-se que
+foi uma geração culta, uma geração activa sem impulsivos nervosismos
+revolucionarios, uma geração intellectualmente equilibrada e até
+disciplinada, uma geração que começou a romper com as formulas
+doutrinarias e a vêr com senso critico os problemas philosophicos, as
+questões politicas e as theses estheticas. D'isto lhe proveio, talvez,
+aquella pontasinha de scepticismo intellectual que, até certo ponto, lhe
+contaminou a vontade. Esta faculdade precisa do apoio da convicção e da
+fé para não fraquejar na suas funcções directivas da acção humana.
+
+Litterariamente, ella produziu, sobretudo, poetas. Jayme de Magalhães
+Lima e Trindade Coelho foram dos seus poucos prosadores. O verso teve
+mais quem o cultivasse. E alguns d'esses cultores fizeram-n'o
+notavelmente, como Feijó, Coelho de Carvalho, Silva Gayo, Luiz Osorio,
+Queiroz Ribeiro, Alfredo da Cunha, para citar apenas os que persistiram
+no officio e, pela publicação das suas obras, se cathegorisam
+escriptores, por assim dizer, profissionaes.
+
+Por esse tempo, as influencias dominantes estavam n'um momento de
+transição. Passava-se do romantismo grandiloquente e hyperbolico de
+Hugo, da apaixonada e vehemente sensibilidade de Musset, do satanismo
+artificial e elegante de Baudelaire para a arte plastica, esculptural e
+rutilante do parnasianismo, de que eram corypheus illustres Gautier, o
+_parfait magicien ès lettres_, Bainville, o _virtuose_ do verso, o
+correcto e delicado Coppée, o solemne e marmoreo Leconte de Lisle, e
+Sully Prud'homme, e Dierx, e Heredia, o inimitavel cinzelador e
+esmaltador, cujos sonetos, ainda não colligidos nos esplendidos
+_Trophées_, nos appareciam, uma ou outra vez, nas revistas litterarias
+francezas.
+
+Dos nossos, admirava-se, enthusiasticamente, João de Deus, Anthero,
+Junqueiro, Gomes Leal e apreciava-se com deleite Penha e Gonçalves
+Crespo,--todos esses que haviam sido os mestres das gerações anteriores.
+
+O espirito de Feijó vasou-se n'estes moldes e reflectiu as phases d'essa
+evolução do gosto litterario. Mas, com o tempo, a sua individualidade
+caracterizou-se, marcou n'um forte relevo o seu perfil. A sua emoção
+avivou-se e afinou-se. A sua technica apurou-se, desenvolveu recursos
+excepcionaes. E assim se foi formando, de livro em livro, essa alta
+figura litteraria,--uma pura e nobre figura de artista, consciencioso
+até á meticulosidade no exercicio da sua arte, um mestre do verso e um
+mestre da lingua, que, na sua obra, pouco volumosa, mas de indiscutivel
+superioridade--_pauca sed bona_--deixou indelevelmente marcada a
+grandeza do seu talento.
+
+
+III
+
+Um mestre, sim! Elle foi-o, não só entre os da sua geração, mas tambem e
+mais largamente na nossa poesia contemporanea. Porque ninguem o excedeu
+no manejo do verso, ninguem o trabalhou com mais correcção metrica, mais
+relevo na phrase, mais arte, mais pericia technica, ninguem lhe deu mais
+ductilidade, mais elegancia, mais harmonia, mais sonoridade, mais
+riqueza de rimas, mais graça de rythmo, do que o poeta excellente do
+_Cancioneiro Chinez_, da _Ilha dos Amores_, do _Sol de Inverno_.
+
+Nem durezas, nem frouxidões, nem hiatos, nem cacophatons, nem
+alliterações mal soantes, nem _muletas_, nem rimas forçadas, nem
+impropriedades arrepiadoras, nem a banalidade das imagens e das phrases
+feitas, como _clichés_ sempre promptos para qualquer reproducção.
+
+Já nas _Transfigurações_ e nas _Lyricas e Bucolicas_, que são as suas
+_juvenilia_, esse poder e segurança de technica se haviam revelado. Mas
+foi no _Cancioneiro Chinez_ que se affirmaram decisivamente. Feijó
+attingiu ahi o inexcedivel. Ainda me recordo do encanto com que Anthero
+saboreava essas pequenas composições, finamente desenhadas e coloridas
+como uma delicada pintura em porcelana ou um _cloisonné_ ricamente
+esmaltado, commentando-as com um sobrio «É perfeito!»--que, em tal
+bocca, valia os mais extensos e laudatorios artigos de critica.
+
+Sobre as traducções em prosa de Judith Gautier e embebendo-se, num
+estudo profundo do assumpto, do espirito do lyrismo chinez, elle tentou
+e levou a cabo essa paciente e admiravel reconstrucção que é o
+_Cancioneiro_, dando á poesia nacional um raro e magnifico exemplar da
+arte do verso.
+
+Na _Ilha dos Amores_, o seu lyrismo intensifica-se e define-se, a sua
+arte firma-se e completa-se.
+
+A sensibilidade lyrica palpita nas tres partes do livro, quer n'essas
+«velhas canções d'amor» da _Ilha_, (onde ha uma lindissima _Ignez_, tão
+intensamente dolorida, e uma admiravel _Lady D. João_, d'um
+baudelairianismo profundo e vibrante), quer nas adoraveis oitavas do
+_Auto do meu affecto_, tocadas da mais delicada graça, quer nas diversas
+poesias que formam a _Alma triste_, entre as quaes se encontram, nas
+mais variadas notas, verdadeiras maravilhas d'arte.
+
+Na plena posse dos seus dons de grande artista, o poeta realiza ahi o
+seu anceio de perfeição plastica no verso, que elle nos formula n'estes
+soberbos alexandrinos:
+
+Oh Musa Antiga, d'olhos placidos, rasgados
+No marmore d'um busto aureolado e sereno!
+Inspira-me e desvenda aos meus olhos nublados
+A graça e a proporção do sentimento helleno.
+Revela-me num gesto os mais altos modelos
+Do Verso lapidar, para n'elle esculpir
+Com encantos de deusa e doirados cabellos,
+Essa flôr de volupia a tremer e a sorrir!
+Ensina-me em segredo o genio incomparavel
+De poder transformar os versos que componho,
+E d'um jacto fundir, com uma arte impeccavel,
+N'um distico immortal, a visão do meu Sonho!
+Basta o oiro do Sol para a côr dos cabellos;
+Para os olhos azues basta o azul crystallino,
+Se o Verso lapidar souber circunscrevel-os
+N'um jambo grego ou n'um hexametro latino!...
+
+Por entre este estrato lyrico rompem, na sua obra, veios de humorismo,
+onde, n'um tom faceto, o poeta mantem todas as suas eminentes qualidades
+de versificador.
+
+Nas _Bailatas_, dadas a lume sob o pseudonymo de Ignacio d'Abreu e Lima,
+o fidalgo senhor do Castello de Anha, estheta enygmatico e extravagante,
+reuniu Feijó as composições d'este genero. E deixou nas _Novas
+Bailatas_, cuja impressão se seguirá á d'este livro, uma segunda série
+d'essas originalissimas poesias, mixto singular de ironia e de
+sensibilidade, de graça buffa e de melancholia, que, ás vezes, parecem
+haver sido escriptas por um Pierrot, ao mesmo tempo sentimental e
+charivárico.
+
+N'ellas ha, realmente, um fino espirito de farça, um extranho tom
+joco-serio, transições bruscas da emoção para a gargalhada e da folia
+incoherente para as lagrimas. A phrase mais grave termina n'uma sahida
+jogralesca. A phantasia mais comica detona n'um grito de dôr.
+
+Algumas d'essas poesias, como _Sideria_, _Felina_, _Lithurgica_ e
+outras, são antigas e encantadoras parodias do decadismo e do
+symbolismo, que, um momento, despontaram e floriram na litteratura
+portugueza. Rimas difficeis e imprevistas, rythmos confusos e
+atropellados, alliterações onomatopaicas, imagens exoticas e
+sybillinas,--tudo isso, que era a essencia d'aquella esthetica e
+d'aquella prosodia, é manobrado com uma dextreza inegualavel, uma
+phantasia surprehendente, fazendo, d'essas caricaturas, trabalhos do
+mais fino e requintado acabamento artistico.
+
+Até n'essas _pochades_ em que elle desenfadadamente se comprazia, dando
+sahida á sua _vis comica_, se sentia a mão habil e maravilhosa do
+mestre.
+
+
+IV
+
+Mas _Sol de Inverno_ é, sem duvida, a sua obra prima.
+
+No frontespicio, por baixo do titulo,--na realidade bello, mas talvez
+suggerido por uma excessiva modestia e, por isso, improprio, como vou
+explicar,--o poeta traçou estas palavras: _ultimos versos_. E foram-n'o,
+de facto. Não porque o seu inverno fosse já tão adeantado que o sol do
+seu talento não pudesse fulgurar ainda demoradamente no horizonte d'uma
+dilatada vida. Não: o seu inverno ia apenas começar. Feijó não contava
+então, mais de 57 annos. Ainda se podia considerar no seu outomno. Mas
+parece que aquellas duas palavras, tristes como um distico tumular,--o
+epitaphio da sua Musa,--exprimiam um presentimento fatidico.
+
+Esse anno de 1915, em que elle coordenou e preparou o seu livro para o
+entregar ao prelo, foi-lhe terrivelmente angustiado e doloroso. A esposa
+estremecida, a quem o consagrava no verso tão profundamente amoroso de
+Martial, debatia-se nos soffrimentos d'uma longa e torturante doença que
+no mez de setembro veio a ter o seu desenlace fatal. A desgraça
+ameaçava-o, pois, sinistramente. E elle adivinhava que não seria longa
+(como não foi) a sua resistencia ao golpe rude e cruel que sentia
+imminente.
+
+É claro que muitas das poesias colleccionadas no volume não são d'essa
+epocha atribulada. E, assim, o sol que alli brilha tem muitas vezes, não
+apenas a doce e serena luminosidade do outomno, mas até o fulgor ardente
+d'um meio-dia estival.
+
+N'esse livro, o seu talento, inteiramente amadurecido, fructifica
+esplendidamente. Está alli todo o seu coração, como está todo o seu
+pensamento,--porque, n'esta derradeira phase, a sua poesia não nos dá
+sómente emoções, mas suggere-nos tambem ideias. Na soberba serie dos
+_hymnos_, póde dizer-se que se encerra toda uma philosophia. Ahi Feijó
+ala-se ás regiões mais altas da poesia, áquellas que só attingem os
+grandes espiritos. São odes sublimes, de um largo e poderoso sopro, onde
+a sua alma se abre toda na adoração da _Vida_, da _Belleza_ e da
+_Alegria_, se contorce nos transes da _Dôr_, se embebe na melancholia da
+_Solidão_ ou se abysma na meditação hamletica da _Morte_.
+
+De todas as peças d'este hymnario, a ultima é talvez a maior, a mais
+profunda. E encerra uma exegése da morte subtilmente verdadeira. A
+sensação e a dôr da morte não estão no phenomeno da morte physica, em
+si, no termo da nossa vida material. Estão na lenta morte moral do nosso
+coração, no desapparecimento successivo dos que amamos e que levam, a
+pouco e pouco, comsigo, para o mysterio do tumulo, pedaços vivos da
+nossa alma.
+
+Toda essa ideia está admiravelmente expressa n'estas quatro esplendidas
+quadras.
+
+Quantas vezes, na angustia, o soffrimento invoca
+O teu suave dormir sob a leiva de flores!...
+A morte que, sem dó, me tortura e suffoca,
+É outra--essa que em nós cava sulcos de dores.
+
+Morte que sem piedade, uma a uma, arrebata,
+Como um tufão que passa, as nossas affeições,
+E deixando-nos sós, lentamente nos mata
+Abrindo-lhes a cova em nossos corações.
+
+Parenthesis de sombra entre o poente e a alvorada,
+Morrer é ter vivido, é renascer... O horror
+Da morte, o horror que gera a consciencia do Nada,
+Quem vive é que lhe sente o afflictivo travor.
+
+Sangue do nosso sangue, almas que estremecemos,
+Seres que um grande affecto á nossa vida enlaça,
+--Somos nós que a sua morte implacavel soffremos,
+É em nós, é em nós que a sua morte se passa!
+
+Esta poesia, que Feijó, ahi por 1913, me mandou de Stockholmo para
+Londres, onde então eu residia, fôra-lhe inspirada pela morte recente
+d'um nosso amigo commum. E aos seus mortos, parentes e amigos, a
+consagrou, como se vê do distico votivo que a precede: _Meorum
+amicorumque pie manibus_.
+
+Toda uma intensa emotividade freme n'esse verdadeiro hymno sagrado, de
+tão largo folego. Os que accusavam Feijó de frio e impassivel teem,
+n'elle, como em muitas outras composições do _Sol de Inverno_, um formal
+desmentido ao seu reparo. E, entre essas outras, citarei, especialmente,
+essa torturada e angustiada _Supplica ao Vento_, de que transborda toda
+a desolada nostalgia do exilio. Poucas vezes, desde Ovidio, lembrando,
+tambem, nas neves do Ponto Euxino, a doçura radiosa do céu do Lacio, uma
+voz de desterrado cantou mais amargamente e com tão empolgante emoção as
+suas mágoas, as recordações da terra natal, a ancia de a rever em toda a
+sua surprehendente formosura. São queixumes elegiacos, perdidos apellos
+d'uma alma dilacerada, apostrophando o Vento que passa, a galopar
+vertiginosamente nos espaços, e supplicando-lhe que leve á terra risonha
+e luminosa e ao claro e cristalino rio, que a viram surgir á vida, o seu
+amor soluçante e lacrimoso. Não se leem esses patheticos tercetos sem
+uma crispação dolorosa de toda a alma. Mais d'uma vez ouvi suspender a
+sua leitura a vozes subitamente embargadas pelas lagrimas.
+
+Já, na _Alma Triste_, essa incuravel nostalgia transparece em algumas
+poesias alli reunidas. É ella, mesmo, como um _leit-motiv_ favorito.
+_Domingo em terra alheia_, _Soliloquio do Outomno_, _No mez de Abril_,
+_Silencio_, _No campo_, _Inverno_, ressumam as melancholias d'um
+espirito esmagado pelas brancas avalanches das neves hyperboreas e
+sempre saudoso do ardente e claro sol do seu paiz distante.
+
+Ouçamos as lindas quadras finaes do _Inverno_, onde esse sentimento tão
+docemente se exprime:
+
+Nasci á beira do Rio Lima,
+Rio saudoso, todo crystal;
+D'ahi a angustia que me victima,
+D'ahi deriva todo o meu mal.
+
+É que nas terras que tenho visto,
+Por toda a parte por onde andei,
+Nunca achei nada mais imprevisto,
+Terra mais linda nunca encontrei.
+
+São aguas claras sempre cantando,
+Verdes collinas, alvôr d'areia,
+Brancas ermidas, fontes chorando
+Na tremulina da lua-cheia...
+
+É funda a mágoa que me exaspéra,
+Negra a saudade que me devora...
+Annos inteiros sem primavera,
+Manhãs escuras sem luz d'aurora!
+
+Oh meus amigos, quando eu morrer,
+Levae meu corpo despedaçado,
+Para que eu possa, já sem soffrer,
+Dormir na Morte mais descansado!
+
+
+V
+
+A critica inscreveu o nome de Antonio Feijó no rol dos parnasianos
+portuguezes.
+
+Não discutamos essas classificações d'escolas, que nem sempre são
+precisas, nem fundamentaes. Se o parnasianismo se caracteriza, de facto,
+pelo rigoroso cuidado da forma, pelo culto da belleza verbal, das linhas
+marmoreas da phrase, do seu corte lapidar, da riqueza das rimas, da
+euphonia dos rythmos, do poder evocativo das imagens,--Feijó pode
+chamar-se, com acerto, um parnasiano. A miudo elle repetia o preceito de
+mestre Theo: _Ce qui n'est pas bien fait, n'est pas fait_. Mas o que
+elle foi, na verdade, sem contestação e fundiariamente, foi um lyrico,
+na mais ampla plenitude da designação.
+
+Toda a sua obra é dominada por essa nota emotiva, por esse accento de
+viva sensibilidade que constituem a essencia do lyrismo. O amor, o
+eterno amor, o enlevo da belleza, as torturas da paixão, as suaves
+melancholias, os tedios enervantes, as graças preciosas da
+galanteria,--são a substancia psychica da sua poesia.
+
+Essas emoções sabia elle cristalisal-as n'uma forma requintadamente
+perfeita e na maior variedade de tons e de estructura estrophica. Ha
+poetas que se fixam n'um metro, ou pouco mais, e quasi não variam de
+tonalidade. O verso de Feijó é ricamente polymorpho e a escala dos seus
+tons muito extensa. A sua versificação tem amplitude e largueza; mas,
+tem, egualmente, elegancia, frescura e graça. Esculpe poderosamente o
+alexandrino, mas torneia delicadamente a redondilha menor e modela, com
+arte, as mais extranhas formas da estrophe composita.
+
+Feijó, pelas qualidades do seu espirito refinado e distincto, não podia
+ser um poeta popular. O seu publico, de _conhecedores_ e _dilettanti_ da
+arte pura, tendo o culto do bello e um gosto exigente, foi sempre um
+circulo limitado, essa elite intellectual e esthetica, restricta em
+todos os paizes, mas, naturalmente, muito restricta no nosso. Além
+d'isso, a sua perfeita dignidade de escriptor e a sua aprumada linha
+moral, tornavam-n'o avesso a todo o exibicionismo, a todo o reclamo, a
+todos os secretos manejos de notoriedade banal.
+
+Soffreu, sem duvida, a influencia da evolução litteraria do seu tempo.
+Mas, no fundo, ficou sendo sempre quem era e não se curvou aos ephemeros
+gostos do publico para lhe fornecer, como uma «moda de estação», uma
+qualquer _camelotte_, que a sua facil destreza lhe permittiria manipular
+com abundancia.
+
+Delicado d'alma e, por isso mesmo, retrahido, tão probo de espirito como
+de caracter, não vivendo da sua arte, mas para a sua arte, não
+despresando a gloria, mas não requestando a popularidade ephemera e
+superficial, Feijó realisou o typo acabado d'um puro artista, que, por
+todas essas superiores qualidades, juntas ao talento, acaba sempre por
+conquistar uma final consagração no mundo das lettras e das artes.
+
+
+VI
+
+A litteratura era a sua vocação. A diplomacia foi, na sua vida, um
+occasional desvio de destino.
+
+Quando se formou, Feijó pensou em advogar. E buscou iniciar-se no
+officio, praticando no escriptorio de seu irmão José, que era, n'esse
+tempo, um dos mais reputados causidicos do Minho. Não se entendeu,
+porém, com os autos. A breve trecho, escrevia-me, dizendo-me que
+desistia da sua tentativa forense e se lembrava de ir correr e ver
+mundo... por conta do Estado, já que, para isso, lhe faltavam os meios
+proprios. Pensára em ser consul.
+
+A carreira consular tornara-se, então, a carreira favorita dos nossos
+litteratos: eram consules o Barão de Roussado, Eça de Queiroz, Batalha
+Reis, Jayme de Seguier, Coelho de Carvalho, Wenceslau de Moraes,--talvez
+ainda outros que me não lembram agora. Feijó foi aos concursos e, poucos
+mezes depois, despachavam-n'o para o Rio Grande do Sul. Foi em 1886. Por
+essa occasião, o conselheiro Nogueira Soares, modelo de funccionarios e
+um dos mais perfeitos homens de bem que tenho conhecido, era nomeado
+nosso ministro no Rio. Feijó fez com elle a viagem e, antes de ir para o
+seu posto, esteve uns mezes trabalhando na legação.
+
+Do Rio Grande passou para Pernambuco e de Pernambuco foi transferido
+para Stockholmo. Ahi serviu com o legendario visconde de Sotto Mayor, o
+famoso dandy e temivel parlamentar, havia longuissimos annos aposentado
+em diplomata n'essa côrte do extremo Norte. E ahi, á morte do seu velho
+chefe e depois d'uma demorada encarregatura de negocios, o fixou para
+sempre a sua promoção a ministro, determinada por uma reforma dos
+serviços diplomaticos.
+
+Nestas altas funcções, Feijó deu as mais seguras provas da sua
+competencia. Infelizmente, aquella legação não tinha importancia
+correspondente ao seu valor, nem lhe podia dar ensejo a exercer
+plenamente as suas faculdades e talentos. «Estou aqui encalhado, a
+apodrecer»--escrevia-me elle um dia. E era verdade. Via-se immobilizado,
+inactivo, desconsoladoramente reduzido, pela mediocridade do seu posto,
+a uma situação subalterna, quasi que ao simples serviço de expediente e
+á representação protocolar. Sentia-se com hombros para mais pesados
+encargos e mais arduos trabalhos--e doía-se de se não ver utilisado. O
+seu ideal de funccionario, zeloso, meticuloso, honestissimo e
+trabalhador como poucos, não era, positivamente, o gôzo d'uma sinecura.
+
+Feijó foi, na diplomacia, uma força desaproveitada. Além d'aquelles
+predicados, sobejavam-lhe as faculdades proprias do officio. Era subtil
+e d'uma prompta e profunda perspicacia; via bem, em conjuncto, os
+multiplos aspectos d'um acontecimento ou d'uma negociação; estudava as
+questões com ponderação e methodo; cauteloso, preparava seguramente o
+seu terreno antes de avançar; sabia (o que, na esgrima da diplomacia, é
+essencial) dosear, na sua justa e precisa medida, a finura e a lealdade;
+tinha, em subido grau, a correcção, a serenidade, a discreção, o tacto e
+esse grande e supremo dom que é, na vida ordinaria, como na vida
+politica, o nosso melhor guia, a nossa mais bem polarisada bussola--o
+bom-senso.
+
+Tudo isto se valorisava e realçava pelo seu fino trato, pela amenidade e
+cortezia das suas maneiras, pela seducção da sua conversa, pelo brilho e
+a cultura do seu espirito, que tornavam sempre querida e agradabilissima
+a sua companhia, quer nos meios litterarios, quer nos meios mundanos.
+
+E este é outro aspecto interessante da sua individualidade. Desde
+Coimbra, Feijó foi sempre o melhor e o mais deleitoso dos companheiros.
+A elegancia despretenciosa da sua palavra, a graça especial com que
+contava uma anedocta, o _humour_ ligeiro, e levemente malicioso ás
+vezes, que punha no commentario a um successo ou na critica a uma
+personalidade, o pittoresco evocativo de suas narrações de viagem e a
+expansiva jovialidade do seu forte temperamento--faziam d'elle um
+_cavaqueador_ irresistivelmente atrahente.
+
+Elle era então, e foi por muitos annos, uma natureza robusta e alegre,
+um _dyonisiaco_, amando a vida e a belleza, um sorridente epicurista,
+gozando com volupia o instante fugitivo, mas um epicurista delicado, que
+punha, em todo o prazer, uma ponta de idealismo ou de emoção esthetica.
+Nas suas veias, onde corria bom sangue das velhas linhagens minhotas,
+devia haver mais globulos do do seu illustre patricio Diogo Bernardes, o
+cantor do «saudoso, brando e claro Lima», que elle descobrira na sua
+ascendencia, do que do d'esse _Feijóo escudeiro_, do tumulo de Celanova,
+_bom fidalgo e cavalleiro, gran cazador e monteiro_, a quem o poeta
+consagra a poesia final da _Alma triste_.
+
+O seu contacto dava alegria, dava saude. Sob a suggestão do seu espirito
+parecia que tudo se animava e resplandecia, que a propria existencia se
+tornava mais amavel, mais apetecivel. De toda a sua pessoa, irradiava a
+_joie de vivre_. Junqueiro chamava-lhe, então, o _opiparo_ Feijó...
+
+
+VII
+
+Mas um dia, um grande infortunio,--a viuvez inconsolavel, o seu pobre
+lar em ruinas,--devastou-lhe a alma, prostrou-o, roubou-lhe toda a
+alegria, envelheceu-o precocemente, tornou-lhe os ultimos mezes da sua
+vida tão negros, tão desolados, como essas interminaveis noites boreaes
+que tanto o torturavam e entristeciam,--a elle, filho d'estas bemditas
+terras do Sul!...
+
+O que foi esse drama, em todo o desenrolar das suas mágoas e
+soffrimentos, dil-o o eloquente, commovido e fino commentario que,
+através das cartas do poeta, n'esse periodo, lhe faz Alberto d'Oliveira
+na communicação sobre a sua morte, dirigida á Academia Brazileira e que
+o leitor lerá com interesse e admiração, a seguir a este prefacio.
+
+Ultimamente, porém, parecia querer reagir, despertar d'essa longa atonia
+dolorosa. Refugiado no amor dos filhos e na saudade da patria, onde ha
+oito annos não vinha, o seu derradeiro sonho foi revel-a, vir percorrer
+ainda uma vez o seu Minho querido, contemplar as aguas mansas do seu
+Lima, retemperar o coração n'essa magica visão de belleza e encanto,
+que, para todo o portuguez, ausente ou exilado, é este incomparavel
+torrão de Portugal!
+
+N'este anceio, n'este volver d'olhos, sobre a Europa em guerra, para a
+patria distante, surprehendeu-o bruscamente a morte.
+
+Exhausto de soffrer, o seu crucificado coração parou de subito,
+immobilisado para sempre!
+
+E de novo ao sahir d'esta angustia demente,
+Sinto bem que tu és, para toda a amargura,
+A Euthanásia serena, em cujo olhar clemente
+Arde a chamma em que toda a escoria se depura.
+
+É pela tua mão, feito um rasgão na treva,
+Que a alma se liberta e, d'esplendor vestida,
+--Borboleta celeste, ebria de Deus--se eleva
+Para a Luz immortal, Luz do Amor, Luz da Vida!
+
+Assim dizia elle á Morte no seu grande hymno, já atraz citado e que
+ficará como uma das maiores glorias da sua lyra.
+
+Assim deve ter sido a sua--uma transição insensivel, uma serena
+Euthanásia, bella como todos os seus sonhos de poeta! Assim se deve ter
+evolado, para a Luz immortal do Grande Mysterio, a sua alma boa e pura,
+sempre voltada para o Amor e para a Vida!
+
+Luiz de Magalhães.
+
+
+
+
+ANTONIO FEIJÓ, O QUE MORREU DE AMOR
+
+(Lido na Academia Brasileira, sessão de 28 de Junho de 1917)
+
+
+A Morte astuciosa--ou caridosa?--antes de apoderar-se finalmente da
+nossa vida, enceta a sua tarefa inexoravel hospedando-se pouco a pouco
+nos melhores recantos d'ella. Todo o homem que dobrou os quarenta annos
+conhece essa primeira visita e tem de preparar-se para essa longa
+hospedagem. Cada coração, que só carinhos e affectos alojava, eis que um
+dia recebe ordem de aboletamento para a pavorosa Intrusa, de que lhe
+cumpre fazer companheira de casa. E o espaço, a principio exiguo, que
+ella reclama, nunca mais deixa de alargar-se em seu proveito. Os seres
+mais queridos, os mais amados, temos de perdel-os para que ella lhes
+ocupe o logar. Vão faltando os parentes, vão morrendo os amigos, um a
+um, em periodos cada vez menos espaçados. Começamos, ao romper da vida,
+crendo-nos donos do Universo, e com que pressa o nosso dominio se
+limita, se estreita, até n'elle nos sentirmos demais! Quando emfim a
+nossa hora chega, já não é senão um fragmento ultimo e minimo da vida
+que abandonamos á Morte. O coração, a que ella faz parar a fatigada
+corda, estava tão atravancado de cadaveres que já não podia bater
+livremente.
+
+Estou experimentando o sobresalto d'esses avisos sinistros, e já não são
+os primeiros. Ha seis annos era o conde d'Arnoso, deixando um claro, que
+nada e ninguem mais preencherão, na calma felicidade dos meus dias. Em
+1915 foi Ramalho Ortigão, esse ao menos depois de uma longa e bem
+aproveitada vida. Quasi ao mesmo tempo, em 21 de setembro do mesmo anno,
+morria em plena mocidade e formosura Dona Mercedes Feijó, a mulher
+querida de um dos meus mais fieis amigos. E agora, a 21 do mez, vinte e
+um mezes exactos depois da desgraça a que não conseguiu mais
+resignar-se, é António Feijó que morre por sua vez, que morre de amor e
+de saudade por aquella que era o raio de sol da sua vida.
+
+Morreu de amor o poeta amoroso que as neves da Scandinavia e a fleugma
+profissional da diplomacia nunca fizeram esquecer de que era um
+conterraneo de Diogo Bernardes e de que a sua alma fôra tambem creada á
+beira da poesia e da melancholia tão lyricas do Rio Lima. Morreu de amor
+o loiro fidalgo minhoto, herdeiro de muitas gerações de cavalleiros e
+trovadores, cuja antiga formação affectiva e moral nunca se alterou no
+seu perpetuo exilio, nem no convivio mediocre ou mesquinho dos seus
+contemporaneos. Morreu de amor Antonio Feijó, tão verdadeiramente como
+se morria de amor em Portugal no seculo XIII, no tempo d'aquelle Dom
+Pedro Roiz que mandou esculpir no seu tumulo essa causa unica da sua
+morte. Morreu de amor, começou a morrer de amor no momento em que viu
+para sempre
+
+ Deitada no caixão estreito,
+Pallida e loira, muito loira e fria,
+
+aquella mulher tão amada a quem sem o saber, sem a conhecer, tantos
+annos antes, fizera propheticamente, num dos seus mais bellos sonetos, o
+commovedor necrologio.
+
+Antes de morrer de amor, no entanto, menos desafortunado que Dom Pero
+Roiz, Antonio Feijó vivera de amor. Sua mulher dera-lhe, em seguida a um
+longo noivado, quinze annos de intima ventura e dois formosos filhos.
+Mas Dona Mercedes Feijó era em tal grau a imagem da Belleza e da Graça
+que perdel-a, depois de ter vivido longo tempo sob a sua luz e calor,
+tinha de ser, como foi, a maxima angustia. Feijó sabia, podia medir com
+dolorosa precisão o tamanho e o valor da sua perda. Creio que poucas
+vezes encontrei creatura feminina tão seductoramente bella. Dona
+Mercedes era filha de pai sueco e de mãe equatoriana. Cruzamento do Polo
+e do Equador, como alguem disse, não é possivel imaginal-o mais feliz,
+alliando a pureza quasi divina das raças do norte á exhuberancia e
+alegria meridionaes. Era como um raio de sol corporizado; e
+comprehendia-se bem que da vida d'ella, mais do que da propria, vivesse
+o namorado companheiro. Não o sentiam talvez em toda a verdade senão os
+intimos da casa, porque Antonio Feijó era pouco expansivo e resguardou
+sempre o sacrario do seu Lar da luz crua e por vezes grosseira em que,
+por dever de officio, tinha de mover-se. Para as pessoas extranhas elles
+eram, sobretudo, um prestigioso casal de diplomatas a quem sobravam
+intelligencia, elegancia, tacto e brilho mundanos para exercerem
+completamente a sua missão. Feijó era ha mais de 20 annos ministro de
+Portugal na Scandinavia e ha muito tempo tambem o decano do corpo
+diplomatico de Stockolmo. Falava a lingua do paiz, conhecia toda a
+gente, era amigo do Rei e da familia real, vivia rodeado das deferencias
+e sympathias devidas ao seu talento e ao seu caracter, continuando e
+excedendo a tradição deixada pelo seu espirituoso e lendario antecessor
+Sotto Mayor, a quem a Suecia considerava, tal a sua popularidade, como
+um sueco honorario. Madame Feijó era, uma vez ainda, como um raio do sol
+equatorial n'aquellas sombrias regiões polares. A alegria e a vida da
+sociedade de Stockolmo eram, em boa parte, obra sua. Toda a cidade a
+chorou, sentindo a perda irreparavel. O seu enterro foi uma homenagem
+imponente em que as flores mandadas pelos reis e principes das tres
+côrtes da Scandinavia se misturavam com as flores do povo da pequena e
+graciosa capital sueca.
+
+O meu querido amigo, apesar da profundeza e intensidade da sua dôr,
+sentiu chegar até ella as lagrimas e os carinhos de tantos corações e
+não poude deixar de impressionar-se com as provas de respeitosa e terna
+consideração de que todo um povo estrangeiro o rodeava em tão amarga
+hora. Mas não tirou d'essas homenagens o mais tenue balsamo para a chaga
+em que se convertera o seu coração. N'ellas viu apenas que o encanto da
+sua querida mulher era tão amplo e universal que até aos mais
+indifferentes attingia. Reconheceu, com paciencia e lucidez--formas
+terriveis, que, algumas vezes, reveste o desespero--que o seu lucto não
+era qualquer lucto e que Deus lhe destinara, depois de uma ventura
+excepcional, uma penitencia e uma amargura da mesma especie. E nada fez
+para escapar-lhes.
+
+Tenho aqui as suas cartas, escriptas entre lagrimas; releio-as agora na
+maior commoção, e n'ellas posso seguir, como a curva de uma ardente
+febre, a historia completa da sua morte de amor. A ultima chegou só
+hontem, como sobrenatural visita, já depois de fria e inerte a mão que a
+traçou. Deverei ter escrupulo em citar aqui essas cartas? Não vejo, no
+entanto, melhor maneira de render ao grande coração de Antonio Feijó o
+preito que lhe devo. Não ha n'ellas uma palavra que possa parecer
+indiscreta perante a dupla campa de que ellas ficarão sendo o epitaphio.
+
+Antonio Feijó tinha o habito supersticioso de escrever aos seus amigos
+em papel de carta de formato e côr sempre differentes. A sua ultima
+carta despreocupada e alegre é de 28 de fevereiro de 1914 e está
+escripta, como que por estranho presentimento, em papel côr de rosa.
+Nunca mais tive outra do mesmo humor ou da mesma côr. A carta seguinte,
+datada de 20 de abril, é amarella, côr de outomno e de morte, e traz as
+primeiras apprehensões duradouras sobre o estado de saude de sua mulher,
+que, mezes antes, já lhe dera alguns passageiros cuidados. Mas desde
+essa data nunca mais houve paz na sua vida. Folheemos devagar essa
+amarga correspondencia:
+
+_18 de julho de 1914_: «Tenho tardado em dar-lhe noticias minhas,
+porque, no estado de espirito em que ando, não queria affligir as suas
+primeiras horas do Rio de Janeiro com lamentações e amarguras, a que o
+seu coração amigo não póde dar remedio. A minha querida doente vai
+melhor, já póde sair, já quasi póde fazer a sua vida habitual. Mas...
+este _mas_ é que é a minha tortura de todos os instantes. Qualquer que
+seja a natureza e gravidade da doença, as recaidas anteriores não me dão
+a menor garantia para o futuro. É mais que provavel que a doença se
+reproduza. Não sei o que ha de ser de mim. A _Imitação de Christo_, que
+eu leio assiduamente, diz que _à chaque jour suffit sa peine_; mas eu
+estou longe de ser um bom christão, e a resignação é uma virtude que
+Deus só concede aos eleitos.»
+
+Sobreveio a grande guerra, que ruge e estrondeia tão proxima, e que
+absorve o tempo e agita o espirito do diplomata. Mas, entre as suas
+occupações e responsabilidades do momento, instala-se logo a afflicção
+intima. Em 23 de outubro escreve-me:
+
+«De saude vamos indo, graças a Deus; mas, sempre naquella preoccupação
+de que lhe tenho falado, não consigo horas de paz, já não digo perfeita,
+mas resignada. O futuro, de facto, na nossa idade, ou antes na minha,
+são apenas 24 horas, como V. diz; mas, 24 horas ou minutos que sejam,
+todos nós ambicionamos passal-as tranquillamente.»
+
+A 1 de janeiro de 1915, dando-me as boas festas, accrescenta logo:
+«Sinto-me num estado de espirito tão desolado e abatido que nem posso
+conversar á vontade com os amigos mais queridos. A Mercedes anda outra
+vez doente e eu estou com immenso receio que seja uma nova _poussée_ do
+antigo mal. Trago o coração em sobresaltos.»
+
+Abre-se, então, um longo silencio, que as minhas cartas não conseguem
+quebrar e que me inquieta progressivamente. Em julho, cedendo ás minhas
+instancias, vêem duas palavras pelo telegrapho: «Mercedes sempre doente.
+Estou desolado.» E em setembro, uma carta, de 26 de agosto, com tristes
+noticias: «Tem razão para se queixar do meu silencio, mas não escrevo a
+ninguem. Vivo apenas para a minha doente e para a minha dor. Parece, de
+facto, injusto o martyrio que ella soffre, mas neste mundo os que
+padecem são sempre os melhores e ella era a melhor de todos. Ha longos
+mezes que a vida é para mim um suplicio, e sem esperança de lhe ver um
+termo. Deus sabe o que terá succedido quando esta carta lhe chegar ás
+mãos!»
+
+Com effeito. A previsão não falhou. Foi a 22 de setembro, na hora em que
+eu embarcava para a Europa, que me chegou ás mãos um telegramma de
+Stockolmo, datado da vespera, com estes dizeres apenas: «Tout est fini».
+A censura de guerra não os deixára transmittir na nossa lingua; mas nem
+assim me soavam menos tragicos aos ouvidos. Fiz toda a viagem com este
+desgosto, não podendo crêr que uma tão luminosa e formosa mocidade se
+pudesse assim bruscamente extinguir, e vendo naquella morte maldita um
+verme hediondo que se houvesse introduzido, para o roer, na rosea polpa
+do mais fresco e dourado fructo. A electricidade do mar, sempre para mim
+tão contagiosa, não se me communicou desta vez. Fiz uma travessia
+melancholica; e, ao desembarcar em Lisboa, esperava-me a noticia da
+morte do meu venerado amigo Ramalho Ortigão, a quem eu queria como a um
+avô, e que, poucos dias antes, se finara entre afflictivos soffrimentos.
+
+Não sei, nem agora me importa saber, se é monotona a descripção de uma
+dôr humana, para os desconhecidos de quem a soffreu. Monotona será, mas
+ai de quem lhe não sentir a grandeza e a belleza! Desde a morte de sua
+mulher, as raras cartas de Antonio Feijó são um lamento continuo, cuja
+leitura impressiona mais do que a mais perfeita litteratura. Percebe-se
+que o viver assim já não tem de viver senão o nome, e verifica-se uma
+vez mais que, sem o ponto de apoio do ideal, do sentimento ou da fé, a
+vida a que o nosso instincto animal tanto se apega por vezes, é coisa
+nenhuma. A primeira carta, sem data, diz assim, para não a copiar toda:
+«Se um dia nos encontrarmos--do que duvido--então lhe contarei o que foi
+o martyrio da minha pobre mulher, e o supplicio que foi a minha vida,
+vendo-a soffrer sem remedio, para lhe esconder a natureza do mal e
+alimentar-lhe a esperança da cura, que nunca, felizmente, a abandonou.
+Morreu subitamente, sem agonia e sem perceber que era o fim. Não tenho
+forças para lhe responder como desejava, nem para tomar qualquer
+resolução. O futuro, na minha idade, como V. costuma dizer, são 24
+horas. Rapidas ou curtas, que ellas se passem como Deus quizer. Da minha
+parte nada farei para as tornar menos pesadas, porque tudo é inutil.»
+
+Em 8 de janeiro de 1916, conta-me, mais demoradamente, o estado
+desesperado da sua dôr. Vive como um somnambulo, não sabendo distrair-se
+senão com a recordação do passado. «É só,--escreve-me,--e a remexer na
+minha memoria attribulada, que as horas me passam menos
+atormentadoramente.» Eu aconselhava-lhe uma viagem a Portugal. Elle
+objecta: «Ir a Portugal agora é absolutamente impossivel, e essa viagem
+não serviria senão para aggravar o meu soffrimento. Não ha sitio nenhum
+por ahi, nem casa amiga, que me não desperte recordações e saudades
+pungentes.» Fala-me, além disso, da educação dos filhos, que não deseja
+perturbar, e vê-se que procura nelles a razão de viver, que a dôr
+destruiu. Mas não o consegue. Conta-me com pormenores, pela primeira
+vez, o que foi o enterro de sua mulher e reproduz-me o telegramma que
+lhe dirigiu um illustre escriptor sueco, John Bettiger, velho de mais de
+60 annos, casado e sem filhos, tão grande admirador de Dona Mercedes,
+que pensou sériamente em adoptal-a elle e a mulher, para lhe deixarem a
+fortuna. Feijó sabe o telegramma de cór e transcreve-m'o no original
+sueco e em traducção. É assim, e parece, na verdade, como elle me dizia,
+um epitaphio de anthologia, escripto em estylo lapidar: «Receba
+expressão da minha mais profunda sympathia no acerbo lucto que o feriu.
+Nunca se encontraram, assim reunidas no mesmo ser, bondade, candura e
+belleza, como na sua incomparavel Mulher. Tel-a conhecido é uma ventura
+que nunca ninguem poderá esquecer.»
+
+Em 15 e 20 de janeiro, em 7 de fevereiro, novas cartas que não annunciam
+melhoras. Deu-lhe um minuto de prazer a sua eleição para a Academia
+Brasileira, «pela espontaneidade, diz-me elle, e pelo momento em que foi
+votada.» Feijó era muito amigo do Brasil, onde vivera alguns annos
+ardentes da sua mocidade, e tinha aqui amigos dedicados. Considerou a
+homenagem da Academia como um desejo requintadamente affectuoso de
+offerecer algum conforto á angustia que soffria. E esse terno pensamento
+commoveu-o. Mas a Dôr era sempre a sua nova companheira: «Vou vivendo,
+com a minha tristeza e a minha saudade. _Vou vivendo_ não é a expressão
+justa. _Deixo-me viver conforme Deus quer_, é mais exacto.» Distrai-se
+relendo as cartas antigas dos seus amigos, que colleccionava
+cuidadosamente, e, entre as quaes, muitas vezes, se referia aos grossos
+pacotes das minhas. Escrevia-me, em 29 de fevereiro: «É a leitura dessas
+cartas, como já lhe disse, a minha unica distracção. Quando ellas
+acabarem, não sei o que vai ser de mim. Escrever (eu pedira-lhe que, na
+receita de Goethe, puzesse a sua dôr em poemas) é-me absolutamente
+impossivel. Estas dores não cabem dentro de moldes litterarios. _Quem
+attende ao concerto do que diz não sente o que diz_, sentenciava um
+velho frade gongorico. Creio que, para mim, os versos acabaram. É bem
+possivel que não torne a escrever mais uma linha. _Pena, que póde
+explicar-se, perto está de não sentir-se_, como diz o mesmo frade,
+alludindo a circumstancias identicas.»
+
+Carta em 3 de abril: «Não tenho forças para nada. Escrever uma carta é
+como se tivesse de deslocar uma montanha. O tempo não me tem curado.
+Dá-me, por vezes, uma certa paz, mas intervalos curtos, de que saio para
+um recrudescimento de amargura e de saudade angustiosa. Sinto que parta.
+(Eu ia regressar de Lisboa ao Rio). Parece-me que tudo quanto amei e amo
+se vai afastando de mim, cada vez mais.»
+
+Nova carta, em 10 de julho: «A minha cabeça, como a minha alma, andam
+profundamente enfermas. Sinto-me cada vez mais só, cada vez mais
+desconsolado e mais triste. O estio era, nesta terra, a estação em que a
+minha vida de familia mais se accentuava. Como todo o movimento mundano
+cessava, estavamos sempre juntos, ou no campo, em algum sitio isolado e
+pittoresco, ou em excursões pelos arrabaldes da cidade. Tudo acabou
+agora. Do estio septentrional ficou-me apenas a inenarravel melancolia.
+Não imagina como pesa no meu espirito esta paizagem, composta
+monotonamente de lagos, pinheiros e rochedos, sob uma luz pallida, mixto
+de aurora e poente, tão triste, tão triste, que parece a obra de um Deus
+infeliz. Para evitar recordações, a que não poderia resistir, lembrei-me
+de ficar na cidade. Com esse intuito, mandei os pequenos para o campo,
+acompanhados por uma tia; mas estou arrependido. Não posso viver só.
+Amanhã vou partir, não sei bem para onde, fugir de aqui, talvez para a
+Laponia, para alguma terra onde não encontre lembranças do passado.
+Perdoe este desabafo. Na verdade, não ha outra coisa a fazer senão a
+gente resignar-se; tenho filhos, que precisam de mim; mais do que nunca,
+é preciso viver. Mas, o peior, é que não encontro nada que me interesse
+ou me distraia. Os proprios versos, que sempre me encantaram, parecem-me
+ás vezes, agora, estultas frivolidades.»
+
+Escreve-me, em 6 de setembro: «Contava ir este verão a Lisboa, mas esta
+guerra, que ameaça de se tornar chronica, obrigou-me a pôr de parte os
+meus projectos. Fiquei aqui. Ausentei-me apenas durante duas semanas,
+numa excursão pela provincia, mas o passeio não me serviu de consolação.
+Era a primeira vez, após 15 annos, que viajava só. Tão angustiado me
+sentia nos vagões do caminho de ferro e nos quartos de hotel, que
+preferi voltar logo para o meu ninho meio desfeito, apesar da desolação
+que nelle me esperava, pela ausencia dos meus filhos, que eu tinha
+mandado para o campo. De maneira que estive aqui só, completamente só,
+desde julho até hontem, porque só hontem elles regressaram. Este mez é
+para mim todo cheio de terriveis recordações. Fez, no dia 4, um anno que
+regressei do campo com a minha querida doente. Não imagina quanto essa
+viagem me impressionou, no curto trajecto de automovel com Ella, o
+medico, a _garde-malade_ e uma cunhada minha. Trazia já a impressão de
+que era o ultimo passeio que dava com Ella... E, n'esse estado de
+espirito, se foram passando os dias até á morte, no dia 21 do corrente.
+Na vespera esteve todo o dia ali, naquela _chaise-longue_, com o sorriso
+e o bom humor de sempre. E lá está, ha quasi um anno, na capela do
+cemiterio catholico, tambem á espera que a guerra acabe, para ser
+transportada para Ponte do Lima (terra natal de Feijó e que elle
+adorava), onde eu desejo tambem dormir o meu ultimo somno. Não me
+consolo, querido amigo. Toda a dôr contém, em essencia, o esquecimento.
+Mas eu não quero esquecer. Os mortos não morrem completamente emquanto a
+gente se lembra delles. E eu não quero que Ella morra emquanto eu andar
+neste mundo. Perdoe este desabafo. Perante estranhos, os desgraçados são
+sempre ridiculos. Mas V. não é para mim um estranho, e, diante dos
+outros ninguem é capaz de ler o que me vai na alma, através da minha
+serenidade e compostura. Nunca deixei ver a ninguem os recantos intimos
+do meu coração.»
+
+Escreve-me de novo, em 25 de setembro, agradecendo o meu telegramma no
+primeiro anniversario do seu lucto. E continúa: «A 21, foi o primeiro
+anniversario da morte da minha querida Mercedes; a 24 o anniversario do
+nosso casamento em 1900; hoje, é o anniversario do enterro. Imagine o
+estado do meu espirito, e, por isso, perdoe-me se lhe não escrevo mais.
+Vivo numa angustia perpetua. O tempo passa, mas não me consola;
+socega-me, ás vezes, por intervallos, mas o _retour_ da memoria é sempre
+inevitavel, e o soffrimento torna-se mais agudo porque, dia a dia, a sua
+falta se me afigura maior.»
+
+Em 1 de dezembro queixa-se de ter estado doente, com o seu velho mal da
+gota. Manda-me uma photographia, em que me apparece vertiginosamente
+envelhecido. «Contemple essa ruina, accrescenta. Não imagine, porém, que
+foi só a gota que me deixou assim. A gota entra por pouco no
+esboroamento da minha velha carcassa.» Espera ir no verão a Lisboa.
+Deseja encontrar-se commigo: «Parece que já estamos separados pelo outro
+mundo.» Dá-me as boas festas de Natal e Anno Novo: «Como para mim não ha
+festas, e faço tudo para não me aperceber do que este periodo do anno
+significa para o meu coração attribulado, ia-me esquecendo de cumprir
+este dever. Lembre-se de mim nessa noite de graça e de mysterio, em que
+um pouco de infancia parece reflorir na nossa alma, quando o infortunio
+a não devastou. Lembre-se de mim!» E na noite de Natal volta a
+escrever-me, dizendo-me que se fechou só no seu gabinete, com os seus
+pensamentos e a sua memoria, cheia de infinitas amarguras...
+
+Emfim, tem a data de 21 de março de 1917, dezoito mezes justos depois da
+morte de sua mulher, tres mezes justos antes da sua propria morte, a
+ultima carta que recebi deste querido amigo, antes de perdel-o: «Estamos
+tão longe um do outro, sinto-o tão distante de mim, que parece que já
+estamos separados pelo outro mundo», repete elle, como quem adivinha.
+Continua a queixar-se da gota e mostra-se resolvido a ir fazer uma cura
+de aguas em Portugal de ali a mezes. Fala-me da guerra e da politica
+sueca, dando-me informações interessantissimas. Recomeçou a fazer
+versos, mas não os que desejava. Só lhe saem da penna _bailatas_, versos
+de zombaria, nos quaes transforma a tristeza em riso. Não o consolam. E
+a doença de alma, a verdadeira, não cessa de minal-o: «Faz hoje anno e
+meio que deixou esta vida de lagrimas a minha querida Mercedes. Parece
+que foi hontem. Não ha esforços que consigam afastar o meu pensamento
+dessa hora terrivel. Não é o desespero dos primeiros tempos; mas é uma
+saudade, uma tristeza de que nem mesmo o trabalho consegue distrair-me.
+Precisava de sair de aqui; precisava de ir passar algum tempo em
+Portugal, ver os amigos, ver a minha terra; mas ao mesmo tempo tenho
+receio dessa viagem. Quantas pessoas queridas mortas! Quantas coisas
+mudadas!»
+
+Alguns dias depois de receber esta carta foi um telegramma dos jornaes
+que me deu o golpe, apesar de tudo não esperado, da morte de Antonio
+Feijó. Elle era um homem robusto e ainda são, tinha apenas 55 annos, e
+eu, tomando os meus desejos pela realidade, acreditava que a educação
+dos filhos e o desabafo dos versos iriam devagar transformando em doce
+saudade a sua dôr dilacerante. Feijó não se estava _deixando viver_,
+como elle dizia; estava-se deixando morrer, sem dar por isso. E o amor
+incuravel, o amor de perdição tão caracterisadamente portuguez, o amor
+da nossa raça e tradição matou-o como a mais fatal das doenças physicas.
+Esta carta postuma, que elle me escreveu em 27 de abril e que só recebi
+hontem, como que me chega de além-tumulo. E como me doe o coração e se
+me orvalham os olhos ao lel-a! Bom e fiel amigo, que ainda te affligias
+com o meu silencio, de que só a falta de communicações era culpada, e te
+inquietavas com a minha saude, quando era a tua que devia absorver todos
+os teus cuidados! Que feliz me sinto ao ver-me rodeado no mundo de
+tantas almas que se affeiçoaram á minha, mas quanto me pesam, e me
+desterram pouco a pouco da vida, estas mortes que começam a povoal-a!
+Feijó, ao menos, foi para onde queria, reuniu-se emfim Áquella sem cuja
+companhia desaprendera de viver. Deus lhe haverá concedido todas as
+bem-aventuranças, promettidas aos que muito soffreram e choraram n'este
+valle de lagrimas.
+
+Não peço perdão a quem me haja lido ou ouvido, do espaço que consagrei a
+este romance vivido e sincero, tão digno de ser sentido e meditado por
+cabeças e corações ao seu nivel. Perdoa-me, estou certissimo, a memoria
+do alto poeta do _Cancioneiro chinez_ e da _Ilha dos Amores_, que eu me
+haja occupado, nesta hora afflicta, muito mais do seu amor que dos seus
+versos, e que a sua vida me pareça, como a de todos os seres de eleição,
+mais bella ainda que a sua obra. Mas não me despeço de versar um dia
+esse capitulo da historia literaria portugueza, onde Antonio Feijó
+figurará sempre como um dos nossos poetas ao mesmo tempo mais
+subjectivos de temperamento e mais perfeitos e cultos de expressão. O
+nome de um Feijó illustrou já a historia do Brasil na pessoa do
+Padre-Regente, que era porventura da familia do poeta e até se parecia
+com elle no porte da cabeça profundamente encravada entre os hombros.
+Hoje então são as nossas Letras irmãs que registram, em caracteres
+indeleveis, esse mesmo velho e illustre nome.
+
+Ainda uma justificação para esta longa pagina de memorias. Ha muitas
+pessoas, enthusiastas da Vida e da Arte livres, que julgam os
+transportes do Amor e da Paixão incompativeis com a regra e o pacto do
+casamento, e que não são capazes de exprimir a poesia, de que as suas
+almas transbordam, senão em versos errados. Longe de mim o intuito de
+contradizel-as. Mas não ha mal em que aqui lhes offereça este _espelho
+de casados_, no qual poderá remirar-se, ao menos uma vez por outra, a
+sua perfeição.
+
+Alberto d'Oliveira.
+
+
+
+
+ Dans quelques instants de loisir, j'ai fait des vers inutiles; on
+ les lira peut-être, mais on ne retirera aucune leçon pour nos
+ temps...
+
+ C.^{te} Alfred de Vigny.
+
+
+ Le vers est une création mystérieuse dont l'habitude seule nos
+ empêche de nous étonner.
+
+ Ernest Hello.
+
+
+[Figura: D. Mercedes de Castro Feijó]
+
+
+
+
+A MINHA MULHER
+
+ _Romam tu mihi sola facis_.
+
+ MART. LIV. XII. EPIGR. XIX.
+
+
+
+
+
+_Folhas mortas d'outono ou d'inverno precoce,
+No teu regaço amigo, estes versos deponho,
+Para que o teu amor lhes dê vida e remoce,
+Porque a Arte começa e acaba num sonho...
+É pouco; mas eu torno a homenagem mais bella,
+Pondo, como uma flor, nas folhas sem aroma,
+O verso em que Martial diz á Esposa Marcella:
+Tu, tu só, para mim, vales mais do que Roma_!
+
+
+
+
+ELEGIA DE ABERTURA
+
+
+
+
+_Elegia d'abertura_
+
+
+_A minha Lyra tinha uma corda:
+Emquanto môço tanto cantei,
+Que a pobre corda despedacei.
+
+Agora, ás vezes, se a Musa accorda,
+E quer de novo pôr-se a cantar,
+Ninguem a corda pode emendar.
+
+Era uma corda que só vibrava
+Quando a minh'alma toda chorava,
+E tantas mágoas, tantas, cantei,
+Que a pobre corda despedacei.
+
+O Amor e as penas da Mocidade,
+Chimera ou Sonho de cada dia,
+Eram os themas que ella escolhia.
+
+Porém um dia veio a Saudade,
+D'olhos vidrados e humedecidos,
+Poisar-lhe os dedos emmagrecidos...
+
+Então, vibrando, toda chorosa,
+Sob esses dedos, brancos de cera,
+Mais angustiada nunca gemera!
+
+E uma alma nova tão dolorosa,
+Com tanta mágoa nella ressôa,
+Que um ai supremo despedaçou-a!
+
+Desde esse instante, nas minhas penas,
+Sem essa corda que me sustinha,
+--Pobre Saudade! chora sósinha...
+
+Manhãs d'estio, tardes serenas,
+Occasos d'oiro, nocturno ceu,
+Para os meus olhos, tudo morreu!
+
+Mas a Saudade, no meu tormento,
+Geme e soluça com tanta mágoa,
+Que, a ouvil-a, os olhos enchem-se d'água,
+
+E sem um grito, sem um lamento,
+Minh'alma vive na dor que a enleia,
+Como uma aranha na sua teia...
+
+A minha Lyra tinha uma corda:
+Emquanto moço tanto cantei,
+Que a pobre corda despedacei.
+
+Agora, ás vezes, se a Musa accorda,
+E quer de novo pôr-se a cantar,
+Ninguem a corda pode emendar...
+
+A Mocidade não pensa em nada,
+E a pobre corda vi-a quebrada
+Quando tocava mais afinada...
+
+A Mocidade não pensa em nada_!
+
+
+
+I
+
+
+
+
+DESCENDO A ENCOSTA DO PARNASO
+
+_A João Arroyo_
+
+ Hvad er en Digter? Et ulykkeligt Menneske, der gjemmer dybe Qvaler
+ i sit Hjerte, men hvis Laeber ere dannede saaledes, at idet Sukket
+ og Skriget strömme ud over dem, lyde de som en skjöne Musik.
+
+ Kirkegaard.
+
+
+
+
+DESCENDO A ENCOSTA DO PARNASO
+
+
+Quando moço, cantei, mas em formas discretas
+Que nunca o meu segredo ousassem revelar,
+Tudo o que sem mysterio a muitos outros poetas
+Soube o Amor e a Paixão em voz alta inspirar.
+
+Feliz, o Amor... nem mesmo ephémero sorriso
+Deixou nessas canções memoria do seu rastro;
+Desditoso, ficou como um luar indeciso,
+Chamma d'oiro escondida em vasos d'alabastro.
+
+A Dor, mal comprimida em gritos suffocados,
+--O abandono, a traição, o esquecimento, o ciume--
+Ennublou muita vez os meus olhos magoados,
+Mas se ao labio acudia, era apenas queixume...
+
+Éstos do coração, sobresàltos do instincto,
+--Amor ideal, vehemente impulso do desejo,--
+Tudo vinha em surdina ou echo mal extincto,
+No meu verso expirar, como um simples arpejo.
+
+Se a angustia me opprimia em continua tortura,
+Para allivio a esse mal, que ninguem consolava,
+Como alguem que a si proprio illudir-se procura,
+Precisando de ouvir a minha voz--cantava!
+
+Echo do meu soffrer, de tão fundo partia,
+Que deixando ao passar todo o amargo travor,
+Essa voz, rara vez, murmurando trahia
+O secreto pungir da primitiva dor.
+
+Mas de cada palavra ou gesto contrafeito
+Em que ella se disfarça, a alma profunda evoca
+Os lamentos e os ais suffocados no peito,
+Todos os gritos vãos que morreram na boca!
+
+No escrinio da Canção as lagrimas vertidas,
+Brilham sob a expressão em que a Dor se transforma,
+Como gotas de luz, d'olhos tristes caidas,
+A tremer no cristal transparente da Fórma.
+
+Mal se adivinha a dor, no esmalte que a reveste;
+Mal se vê no sorriso um esgar de tristeza;
+A Dor, na alma do artista, é como um dom celeste,
+Que lhe ornamenta a vida e se expande em belleza.
+
+Mas por entre o fulgor das gemmas, no artificio
+Da phrase que a primor o artista cinzelou,
+Quem soffreu sente ainda o estertor do supplicio,
+O desespero e a dor d'onde a estrophe brotou.
+
+A Arte [f]az da paixão arabescos risonhos;
+Muda em graça verbal todo o grito pungente;
+--Galateia a scismar, olhos cheios de sonhos,
+Que a um sopro vão partir da pupilla dormente...
+
+Harpa de Sylpho aereo a ressoar no vento,
+Caricia quasi etherea, o Verso é um desafogo...
+--Mel na boca a sorrir, emquanto o soffrimento
+Sobre a nossa alma imprime os seus lábios de fogo!
+
+D'esse beijo profundo, as angustias e as dores,
+Se em imagens procura o artista convertê-las,
+Espinhos entrelaça em grinaldas de flores,
+E lágrimas combina em mosaicos d'estrellas.
+
+Mas o vulgo, á belleza e á graça inaccessivel,
+O espirito banal, nunca pode sentir,
+A mágoa que por trás da palavra insensivel,
+Como ave triste, espreita, emboscada, a carpir!
+
+Só almas d'eleição commungam no mysterio
+Que á Dor empresta o encanto e a seiva que a renova,
+Como á flor que sorri num chão de cemiterio,
+O amargo coração que se desfaz na cova.
+
+Só ellas, através d'um molde tão restricto
+Como esse em que a palavra as emoções fixou,
+Alcançam entrever não sei quê d'infinito
+No minuto de sonho em que a Dor se embalou...
+
+
+
+
+A ARMADURA
+
+_Ao Dr. Góran Björkman_
+
+
+
+
+A ARMADURA
+
+
+Desenganos, traições, combates, soffrimentos,
+Numa vida já longa accumulados, vão
+--Como sobre um paúl continuos sedimentos,
+Pouco a pouco envolvendo em cinza o coração.
+
+E a cinza com o tempo attinge uma espessura,
+Que nem os mais crueis desesperos abalam;
+É como tenebrosa, impavida armadura
+Ou coiraça de bronze em que os golpes resvalam.
+
+Impermeavel da Inveja á peçonhenta bava,
+Nella a Calumnia embota os seus dentes hervados;
+Não ha braço que possa amolgá-la, nem clava
+Que nesse duro arnez se não faça em bocados.
+
+E no entanto, através d'essas rijas camadas,
+Ou rompendo por entre as junctas da armadura,
+Escorrem muita vez gotas ensanguentadas
+Que o coração verteu d'alguma chaga obscura...
+
+
+
+
+A CIDADE DO SONHO
+
+_Ao Visconde de Pindella_
+
+
+
+
+A CIDADE DO SONHO
+
+
+Soffres e choras? Vem commigo! Vou mostrar-te
+O caminho que leva á Cidade do Sonho...
+De tão alta que está, vê-se de toda a parte,
+Mas o ingreme trajecto é florido e risonho.
+
+Vae por entre rosaes, sinuoso e macio,
+Como o caminho chão d'uma aldeia ao luar,
+Todo branco a luzir numa noite de estio,
+Sob o intenso clamor dos ralos a cantar.
+
+Se o teu animo soffre amarguras na vida,
+Deves emprehender essa jornada louca;
+O Sonho é para nós a Terra Promettida:
+Em beijos o maná chove na nossa boca...
+
+Vistos d'essa eminencia, o mundo e as suas sombras,
+Tingem-se no esplendor d'um perpetuo arrebol;
+O mais esteril chão tapeta-se de alfombras,
+Não ha nuvens no ceu, nunca se põe o sol.
+
+Nella mora encantada a Ventura perfeita
+Que no mundo jámais nos é dado sentir...
+E a um beijo só colhido em seus lábios de Eleita,
+A propria Dor começa a cantar e a sorrir!
+
+Que importa o despertar? Esse instante divino
+Como recordação indelevel persiste;
+E neste amargo exílio, através do destino,
+Ventura sem pesar só na memória existe...
+
+
+
+
+BEATITUDE AMARGA
+
+_A Silva Ramos, da Academia Brasileira_
+
+
+
+
+BEATITUDE AMARGA
+
+
+Esqueço-me a admirar os teus olhos profundos
+E imagino que estou sentado á beira mar:
+Vejo as ondas a erguer-se, archipelagos, mundos,
+Naufragios, temporais, mar de leite e de luar...
+
+Medroso, o coração tenta fugir, mas treme:
+O abysmo attrae o abysmo! E desvairadamente,
+Despenha-se no mar, como um barco sem leme,
+D'onda em onda, á mercê do vento e da corrente.
+
+Vejo-o ainda um momento a esconder-se na bruma,
+E sinto uma impressão d'angustia e de pesar,
+--Seguindo anciosamente o seu rasto d'espuma--
+Por suppor que partiu para não mais voltar!
+
+Mas tu falas, e, ao som da tua voz, desperto;
+Volto a mim d'esse estranho sonho, a alma perdida,
+Com o vago terror e o pensamento incerto
+Do naufrago que á praia ainda chegou com vida.
+
+
+
+
+CASTELLO BÁRBARO
+
+_A Josè d'Azevedo Castello Branco_
+
+
+
+
+CASTELLO BÁRBARO
+
+
+Um a um sobrepondo os tormentos mais altos,
+Da minha propria dor fiz uma Fortaleza,
+Que podesse afrontar tempestades e assaltos,
+Imponente de rude e bárbara grandeza.
+
+Desde então, sem receio, a tudo invulneravel,
+Depondo na panóplia o escudo e as armas rôtas,
+Vivo occulto no meu torreão inexpugnavel,
+Recompondo em annaes combates e derrotas.
+
+Nenhum grito ou rumor attinge essa eminencia;
+Nenhum desejo vão escala essas alturas,
+Onde, antigas visões, andam como em demencia
+Do passado a evocar saudades e amarguras.
+
+Comtudo, alguma vez, se uma illusão funesta
+Um echo juvenil faz em mim despertar,
+Como som matinal de campanário em festa
+Que no meu coração vem de longe vibrar,
+
+Então,--luz sem egual que tudo em tôrno abrasa--
+A Ventura de novo aos olhos meus se ostenta,
+--Raio de sol suspenso a tremer numa asa
+Que um instante pairou sobranceira á tormenta.
+
+E atrás d'essa chimera ou sonho allucinante,
+Vou, numa ancia de goso, um momento arrastado,
+Como o condor lançando o vôo fulminante
+Á presa que entreviu do píncaro escarpado.
+
+Mas a luz, que brilhou, logo se esconde e apaga,
+E eu regresso trazendo ao meu refugio, exangue,
+Mais uma nova dor, mais uma nova chaga,
+Rutilante de vivo e generoso sangue.
+
+E outra vez, d'essa altura em taes ruinas erguida,
+Sem sobresaltos vejo os meus dias correr,
+De saudades velando o entardecer da Vida,
+Que o ter-se sido môço é a dor do envelhecer.
+
+Mas occulto no meu solitário reducto,
+Ao abrigo de toda a investida ou traição,
+Se de fóra não vêm tempestades nem lucto,
+O meu proprio soffrer enche o meu coração.
+
+E assim, na sua noite o espirito submerso,
+Sem que uma estrella nova aos olhos meus desponte,
+Vou, com o pensamento em mil vôos disperso,
+De saudade em saudade alargando o horizonte.
+
+E tudo, mesmo a Dor, nessa amplidão se esfuma,
+Como incendio a esbater-se em longinquo arrebol...
+Toda a nuvem, de perto, é um farrapo de bruma,
+A distancia, parece oiro e púrpura, ao sol!
+
+Sob o contorno ideal que o espelho empresta á imagem,
+Projectados ao longe, os tormentos e as dores
+Surgem aos olhos meus na ilusão da miragem,
+Como ruinas de sonho em que brotaram flores...
+
+Ruinas que uma luz tão serena illumina
+Como se as envolvesse um luar de esquecimento;
+E é tão doce a illusão, que nessa hora divina,
+Ajoelho a balbuciar: Morte! espera um momento!...
+
+
+
+
+A AGUIA PRISIONEIRA
+
+_A Manoel da Silva Gayo_
+
+
+
+
+A AGUIA PRISIONEIRA
+
+
+Aguia soberba a quem mão perversa d'escravo,
+Num ocio de tyranno, os olhos arrancou!
+E, a gosar d'esse feito o delicioso travo,
+Da jaula hedionda a férrea porta escancarou...
+
+A aguia, aturdida e cega, a principio esvoaçava
+Rente ao chão, e a roçar com as asas na terra,
+Sem saber d'onde vinha a dor que a lancinava,
+Nem que mysterio aquella obscuridade encerra.
+
+Mas na ancia de luz que a devora sem treguas,
+Cobra o animo, e erguendo o vôo, a tudo alheia,
+Lança-se para o azul, sobe leguas e leguas,
+Sem poder dissipar a treva que a rodeia.
+
+E tão alto subiu no seu vôo desfeito,
+Que de repente, não podendo respirar,
+Sentiu que lhe estalava o coração no peito,
+E veio aos pés do escravo exanime rolar...
+
+Alma humana! Aguia cega em perpetua anciedade,
+Por mais alto que eleve o desvairado arrojo,
+Quando julga atingir a suprema verdade,
+No pó, d'onde partiu, cae outra vez de rojo!
+
+
+
+
+A SELVA ESCURA
+
+_A João Chagas_
+
+
+
+
+A SELVA ESCURA
+
+
+Perdi-me no caminho solitario
+D'uma floresta immensa e fria...
+Medrosa ainda, a Noite lívida descia,
+E o clarão do luar, como um pranto mortuário,
+Pelas folhas das árvores corria.
+No silencio da Noite, o silencio da Selva
+Enchia-se de vozes enigmáticas...
+E os meus pés vacillavam sobre a relva,
+Entre as sombras das árvores extácticas.
+Numa clareira funda, aguas dormentes,
+Como um lago lunar, tremeluziam
+Nas lágrimas de luz, altas e ardentes
+Que das estrellas pálidas caíam.
+Nem ruido de mar, folhas ou vento...
+O mystério, porém, da Noite e da Floresta
+Enchia de terror meu pensamento,
+Como um sopro boreal que me gelava a testa.
+Não sei se era visão, filha do Mêdo,
+Se verdadeira apparição nocturna;
+Mas da sombra profunda do arvoredo,
+Que o luar tornava muito mais soturna,
+Vinham surgindo mysteriosamente
+Phantasmas espectraes que eu distinguia
+Através do sudário transparente
+Como o primeiro alvorecer do dia...
+E por deante de mim todos passavam,
+E olhavam-me e choravam...
+De mágoa ou compaixão,--não sei dizê-lo;
+Mas tudo o que aos meus olhos evocavam
+Parecia-me um longo pesadelo...
+Eram os Sonhos, as Chimeras mortas
+Na minha morta Phantasia,
+Que do vasto sepulcro abrindo as portas,
+Passavam nessa funebre theoria...
+Projectos, Intenções, Ideias, Planos,
+--Illusões d'um passado esquecido e desfeito,
+Na areia que rolou da ampulheta dos annos
+E que um vento de morte espalhou no meu peito.
+Era a Noiva feudal esquecida a scismar
+Na pompa e no esplendor em que o Sonho a envolveu,
+Trazendo-me nas mãos, todas brancas de luar,
+Como um tropheu perdido o espadim de Romeu!
+Illusões juvenis d'odaliscas e fadas,
+Helena, Laura, Ignez, romanescas e bellas,
+E tu, Willi immortal das florestas sagradas,
+Loira d'olhos azues, como duas estrellas!
+Era a Glória, mas já sem a tuba estridente,
+Que ingenuamente ouvi pela amplidão vibrar;
+Era a Ambição, captiva a sua asa fremente,
+Que tão alto esvoaçou, entre as nuvens e o mar.
+Era o Orgulho... o Poder... a Riqueza... loucuras,
+Chimeras juvenis do meu abril risonho,
+Borboletas azues, larvas escuras
+Que deslisaram no meu sonho...
+Todas essas visões, d'aspectos sobrehumanos,
+Por deante de mim, lentas, passavam...
+E olhavam-me e choravam,
+Como espectros de longos desenganos
+Que os meus olhos das trevas evocavam...
+E olhavam-me e choravam,
+Sumindo-se nas sombras da floresta,
+Aos primeiros clarões da madrugada
+Como um rumor de festa,
+Despertavam, partindo em revoada,
+As aves a cantar. O sol rompia
+E as derradeiras névoas dissipava...
+Tudo cantava e ria!
+Só eu chorava... só eu chorava...
+Só no meu coração não despontava o dia.
+Só eu chorava... só eu chorava...
+Só eu soffria...
+
+
+
+
+O LIVRO DA VIDA
+
+_A Antonio de Cardiellos_
+
+
+
+
+O LIVRO DA VIDA
+
+
+Absorto, o Sabio antigo, estranho a tudo, lia...
+--Lia o «Livro da Vida»,--herança inesperada,
+Que ao nascer encontrou, quando os olhos abria
+Ao primeiro clarão da primeira alvorada.
+
+Perto d'elle caminha, em ruidoso tumulto,
+Todo o humano tropel num clamor ululando,
+Sem que de sobre o Livro erga o seu magro vulto,
+Lentamente, e uma a uma, as suas folhas voltando.
+
+Passa o estio, a cantar; accumulam-se invernos;
+E elle sempre,--inclinada a dorida cabeça,--
+A ler e a meditar postulados eternos,
+Sem um fanal que o seu espirito esclareça!
+
+Cada pagina abrange um estádio da Vida,
+Cujo eterno segredo e alcance transcendente
+Elle tenta arrancar da folha percorrida,
+Como de mina obscura a pedra refulgente.
+
+Mas o tempo caminha; os annos vão correndo;
+Passam as gerações; tudo é pó, tudo é vão...
+E elle sem descansar, sempre o seu Livro lendo!
+E sempre a mesma névoa, a mesma escuridão.
+
+Nesse eterno scismar, nada vê, nada escuta:
+Nem o tempo a dobar os seus annos mais bellos,
+Nem o humano soffrer, que outras almas enluta,
+Nem a neve do inverno a pratear-lhe os cabellos!
+
+Só depois de voltada a folha derradeira,
+Já próximo do fim, sobre o livro, alquebrado,
+É que o Sábio entreviu, como numa clareira,
+A luz que illuminou todo o caminho andado...
+
+Juventude, manhãs d'Abril, boccas floridas,
+Amor, vozes do Lar, éstos do Sentimento,
+--Tudo viu num relance em imagens perdidas,
+Muito longe, e a carpir, como em nocturno vento.
+
+Mas então, lamentando o seu esteril zêlo,
+Quando viu, a essa luz que um instante brilhou,
+Como o Livro era bom, como era bom relê-lo,
+Sobre elle, para sempre, os seus olhos cerrou...
+
+
+
+
+II
+
+
+
+
+DYPTICO
+
+EU E TU
+
+
+
+
+DYPTICO
+
+
+I
+
+M. ***
+
+
+Perguntas d'onde vem a timidez estranha,
+Este quasi terror com que te fallo e escuto,
+Como se a sombra hostil d'uma grande montanha,
+Que se erguesse entre nós, me cobrisse de luto.
+
+Ignoras a razão d'este absurdo respeito
+Com que te beijo a mão, que estendes complacente,
+--Fria do ardor que tens concentrado no peito,
+Que mão fria é signal de coração ardente.
+
+E admiras-te de ver que os olhos baixo, e tremo,
+--Se passas como um sol de planetas cercado--
+Sem dar mostras sequer d'esse orgulho supremo
+De quem se sente eleito entre todos, e amado!
+
+Não podes conceber que uma paixão tão alta
+Se vista de recato ou de pudor mesquinho...
+Mas, se é sincero, o Amor só a occultas se exalta,
+Faz-se tanto maior quanto é discreto o ninho.
+
+E tudo o que tu crês fingida gravidade
+É uma intima oblação, pois nas almas piedosas
+O Verdadeiro Amor é feito de humildade:
+Sobre o annel nupcial não ha pedras preciosas.
+
+
+II
+
+EU E TU
+
+
+Dois! Eu e Tu, num ser indissoluvel! Como
+Brasa e carvão, scentelha e lume, oceano e areia,
+Aspiram a formar um todo,--em cada assomo
+A nossa aspiração mais violenta se ateia...
+
+Como a onda e o vento, a lua e a noute, o orvalho e a selva
+--O vento erguendo a vaga, o luar doirando a noute,
+Ou o orvalho inundando as verduras da relva--
+Cheio de ti, meu ser d'effluvios impregnou-te!
+
+Como o lilaz e a terra onde nasce e floresce,
+O bosque e o vendaval desgrenhando o arvoredo,
+O vinho e a sêde, o vinho onde tudo se esquece,
+--Nós dois, d'amor enchendo a noute do degrêdo,
+
+Como partes d'um todo, em amplexos supremos
+Fundindo os corações no ardor que nos inflamma,
+Para sempre um ao outro, Eu e Tu, pertencemos,
+Como se eu fôsse o lume e tu fôsses a chamma...
+
+
+
+
+PALADINOS
+
+_A Senhora Condessa d'Arnoso_
+
+
+
+
+PALADINOS
+
+
+I
+
+CONDE D'ARNOSO, JOÃO
+
+
+Como um dos seus avós, em justas e em torneios
+--Paes d'Abranches, que foi dos Doze d'Inglaterra--
+Com uma ancia de gloria, em altos devaneios,
+Corre o mundo, de mar em mar, de terra em terra.
+
+Não leva escudo, o moço illustre, nem couraça,
+Que o tempo é vil; mas como arnez de paladino,
+Leva a honra e o valor de toda a sua raça,
+--Grande exemplo a apontar-lhe o mais nobre destino!
+
+Mão na espada, a entrever combates, a alma pura,
+Já bello, d'essa estranha e amarga formosura
+Que o fim proximo imprime aos vencidos da Sorte,
+
+Vae na tolda a sonhar,--sonho feito em pedaços!
+--Paes d'Abranches voltou com a noiva nos braços,
+Elle... voltou tambem, mas nos braços da Morte!
+
+
+II
+
+CONDE D'ARNOSO, BERNARDO
+
+
+Este nunca buscou, na lucta ingloria,--fama
+Ou proveito. A Ambição, mesmo a mais alta e pura,
+Nunca o cegou. Jamais uma ephemera chamma
+De orgulho vão tremeu na sua nobre figura!
+
+Foi cortesão; mas da Honra e do Dever escravo.
+Nunca esgar de lisonja o seu lábio manchou;
+E entre vis defecções, elle só, como um bravo,
+Luctou, soffreu, mas nunca o Mestre renegou!
+
+Alma de Campeador! Num disfarce mundano,
+Nunca ninguem sonhou coração mais humano,
+Mais terno, e ao mesmo tempo, altivo coração!
+
+Ultimo Cavalleiro, á hora em que morria,
+No Pantheon Real, da lampada que ardia
+Extinguiu-se de todo o ultimo clarão...
+
+
+
+
+CABELLOS BRANCOS
+
+_A D. Thomás de Mello Breyner_
+
+
+
+
+CABELLOS BRANCOS
+
+
+Não repares na cor dos meus cabellos
+ Sem ler primeiro Anacreonte;
+Verás que os sonhos juvenis, mais bellos,
+Tambem se evolam d'enrugada fronte.
+
+O espirito do Poeta é sempre moço;
+ O Coração nunca envelhece...
+Basta um sorriso, um nada, um alvoroço,
+E tudo nelle se illumina e aquece.
+
+Deusas d'eterna graça adolescente,
+ Jamais as Musas desdenharam
+Da luz que treme incendiando o poente,
+Dos rouxinoes que ao pôr do sol cantaram.
+
+Fina e fragil vergontea melindrosa,
+ Que foi na ceifa abandonada,
+Ruth, apesar de moça e de formosa,
+Nos braços de Booz dorme encantada.
+
+Quantas flores d'inédita fragrancia
+ Em mãos provectas vão abrindo...
+Abisag, ao sair quasi da infancia,
+No leito de David entrou sorrindo.
+
+E d'esse beijo, inverno e primavera,
+ D'esse connubio, oh maravilha!
+Como se a ruina fecundasse a hera,
+Veio á luz uma estrella, que ainda brilha.
+
+Esculpturaes patricias, d'olhos ledos,
+ Quem as lembrara, se deixassem
+Que mãos obscuras, mercenários dedos,
+A velhice d'Horacio engrinaldassem?
+
+Quantos nomes illustres! quantos casos!
+ Mas que direi mais eloquente?
+Não ha dias tão pallidos, e occasos
+Como explosões d'uma cratera ardente?
+
+Não repares na côr dos meus cabellos;
+ A branda luz que nelles arde,
+Como o poente, das nuvens faz castellos,
+Tinge d'alva o crepusculo da tarde...
+
+Muita vez os cabellos embranquecem
+ Na dor d'horriveis soffrimentos...
+Não são os annos que nos envelhecem;
+«São certas horas más, certos momentos...»
+
+
+
+
+SOMNAMBULA
+
+(Noite de S. João)
+
+_A João Caetano da Silva Campos_
+
+
+Leia estes versos, cantando.
+--Quem canta seu mal espanta!
+Alma em saudades penando,
+Só tem alivio se canta...
+
+
+
+
+SOMNAMBULA
+
+(Noite de S. João)
+
+ _Passarinho trigueiro,
+ Põe-te na areia_!...
+
+A areia é d'oiro,--painço loiro...
+ Leito macio... Vê como o Rio
+Vae socegado, todo enlevado,
+Todo encantado na areia fina!
+
+_Passarinho trigueiro_! Olha o salgueiro
+ Como se inclina,
+ A ver se as aguas
+ Pode beijar!
+E o velho choupo, todo curvado,
+ Todo engelhado,
+ De tantas mágoas
+ Que viu passar!
+
+Nas aguas mansas, folhas cahidas,
+Como esperanças desfallecidas,
+Lá vão perdidas nas aguas mansas,
+ Como esperanças
+ Desfallecidas...
+
+ _Passarinho trigueiro,
+ Põe-te na areia_!...
+
+A velha ponte talvez te conte
+Lindas historias para encantar,
+Lindas historias da Lua Cheia,
+Quando na areia põe a corar
+ O alvo linho
+ Do seu tear...
+Passarinho trigueiro! pia baixinho!
+Ouve as cantigas, que as raparigas,
+ No S. João,
+Soltam ao vento como um lamento
+ Do coração!
+
+
+ ............................
+ _A vossa capella cheira,
+ Cheira ao cravo, cheira á rosa,
+ Cheira á flor da laranjeira_...
+
+Laranjeira desfolhada
+Numa noite de orvalhada,
+No leito d'algum linhar...
+Mas a alcachofra cortada
+Sabe alguem se vae seccar?!
+
+ _Passarinho trigueiro,
+ Põe-te na areia!_
+
+A areia é doce como se fosse
+Vergel macio para noivar...
+E dorme o Rio... praia deserta...
+Cuidado! Alerta! que a Lua espreita,
+Nunca se deita, sempre a rondar.
+
+ _Passarinho trigueiro_,
+
+Olha a estrella do boieiro
+Que nunca dorme no ceu,
+A ver se do seu rebanho
+Alguma rêz se perdeu...
+Olha o Rio! é côr d'estanho
+Como um espelho a brilhar;
+
+Cuidado! se é muda a areia,
+Pode o Rio murmurar,
+E ás noites a Lua Cheia
+Vem com elle conversar...
+
+Já vae alto o sete-estrêllo,
+Vae despontar a alvorada;
+Mas uma voz desgarrada,
+Como um grito sem appêllo,
+Passa a cantar pela estrada:
+
+«Esta noite, na novena,
+S. João pôs se a chorar...
+Da minha dor tinha pena,
+Sem me poder consolar.
+
+As andorinhas voltaram,
+Desabrocharam as flores,
+E as andorinhas contaram
+Que tinhas novos amores...
+
+Ninguem mais penas soffreu
+Nem dor maior supportou;
+Quem amou nunca esqueceu,
+Quem esqueceu nunca amou!
+
+Ai! infeliz de quem passa!
+Ninguem seu amor escolhe,
+Pois o amor é uma desgraça,
+Que sem se esperar nos colhe...
+
+Ai, infeliz de quem passa!...
+............................»
+
+ _Passarinho trigueiro_,
+
+Não ha amor como o primeiro...
+Vôa, vôa sem parar!
+Deixa a Lua estremunhada,
+Deixa o Rio a murmurar...
+O amor tem a asa ligeira,
+E antes que rompa a alvorada.
+Leva o ramo de oliveira
+Àquella dor desgarrada!
+
+
+
+
+CYSNE BRANCO
+
+_A Alberto d'Oliveira_
+
+
+
+
+CYSNE BRANCO
+
+
+Cysne branco, esquecido a sonhar no alto Norte,
+Vendo-se, ao despertar, das neves prisioneiro,
+Ergue os olhos ao ceu, enublados de morte,
+Mas o sol já não vem romper-lhe o captiveiro.
+
+O gêlo, no lençol todo immovel das ondas,
+Em que a aurora boreal põe reflexos de brasas,
+Deslumbra-lhe um momento as pupillas redondas,
+Dá-lhe a illusão do sol, mas não lhe solta as asas.
+
+Vê que o torpor do frio o invade lentamente;
+Debate-se, procura o cárcere romper;
+Mas a asa é d'arminho, o gêlo é resistente:
+Tem as pennas em sangue e sente-se morrer.
+
+Então põe-se a cantar, sem que ninguem o escute;
+Solta gritos de dor em que lhe foge a vida;
+Mas essa dor, se ao longe um echo a repercute,
+Parece uma canção no silencio perdida...
+
+Melodia que a voz da Saudade acompanha,
+Amarga e triste como o exilio onde agoniza,
+Longe do claro sol que outras paysagens banha,
+Dos rios e do mar que outra alvorada irisa.
+
+Voz convulsa a chorar perdidas maravilhas:
+--Tardes occidentaes de sanguínea e laranja,
+Noites de claro ceu, como um mar cheio d'ilhas,
+Manhãs de seda azul que o sol tece e desfranja!
+
+Mas ao longe, á distancia onde a leva a Saudade,
+Tão esbatida vae essa triste canção,
+Que não desperta já commoção nem piedade:
+Encanta o ouvido, mas não chega ao coração.
+
+E o Cysne, abandonado ao seu destino, expira,
+Hallucinado e só, sob o silencio agreste,
+Pensando que no azul, como um mar de saphira,
+Os astros a luzir são a geada celeste...
+
+
+
+
+SÚPPLICA AO VENTO
+
+_A Luiz de Magalhães_
+
+
+
+
+SÚPPLICA AO VENTO
+
+
+Grito ao Vento que passa a galopar na treva:
+--«Escuta a minha dor!»--rouco, de braços hirtos,
+A ver se elle ouve e ao longe esta Saudade leva!
+
+«Meus queixumes, oh Vento, hão de em ancias ouvir-t'os
+Esses campos que amei, vinhas, rios suaves,
+Pomares, laranjais, bosques de louro e myrtos,
+
+Onde, inverno e verão, nunca emmudecem aves,
+Onde nunca se extingue o murmurar das fontes,
+Todo o anno a correr entre rosaes e agáves...
+
+Vento largo, que vens d'ignotos horizontes!
+No teu rugido absorve o meu grito pungente!
+Vae repeti-lo ao mar e aos pinheiraes dos montes,
+
+Para tornar mais triste o seu gemer plangente,
+Mais expressivo e humano o seu lamento amargo,
+Como um echo, a expirar, d'esta noite inclemente!
+
+Leva comtigo, oh Vento, este gemido ao largo,
+A ver se nelle alguem a minha voz conhece,
+Nessas terras de luz, sem hiemal lethargo,
+
+Onde o Estio a cantar longos meses se esquece,
+E onde o Sol não é só lampada que illumina,
+Mas o Ágni creador que tudo anima e aquece!
+
+Debalde, sobre mim, na sua graça divina,
+Almas puras, abrindo a plumagem das asas,
+Com o ardor que nenhuma angustia contamina,
+
+Espalham no meu lar como um calor de brasas...
+--Para fundir de todo esta geada tão densa,
+Só tu, meu claro Sol, que até d'inverno abrasas!
+
+Vento frio, que vaes da minha noite immensa,
+Tenebroso e a rugir!--leva a minha Saudade,
+Como uma estrella a arder, na tua asa suspensa!
+
+Quando essa luz passar, com que magua não ha de
+Reflecti-la o meu rio, e acariciá-la, vendo
+Que vae dos olhos meus a tenue claridade!
+
+Mas então, Rio amado, as tuas aguas descendo
+Nessa luz reflectida, a tremer como um luar,
+Todo o passado irei nas tuas margens revendo,
+
+E o coração talvez se esqueça de chorar,
+Como nauta que a voz de Loreley enleva,
+E para a morte vae nesse enlevo a cantar...
+
+Vento surdo, que vaes a galopar na treva!
+Pára um momento! Escuta a minha voz clamante
+Vê como soffro, e ao longe esta Saudade leva!»
+
+Mas o Vento não ouve o meu grito alarmante!
+Ai de mim, que sou eu?! pobre louco exilado,
+De toda a parte vendo o meu país distante,
+Como se lá tivesse os meus olhos deixado!
+
+
+
+
+GOTA DE AGUA
+
+_À memoria de Antonio Rodrigues Braga_
+
+
+
+
+GOTA D'AGUA
+
+
+Sobre a urze silvestre, ao subir da montanha,
+Uma gota d'orvalho, em manhã d'esplendores,
+Lucitremia ao Sol numa teia d'aranha,
+Como um prisma em que a Luz se decompunha em cores.
+
+Universo em resumo, essa gemma preciosa
+Que a Noite alli deixou do seu manto cair,
+Continha em miniatura a paysagem radiosa
+Que no alvor da manhã despertava, a sorrir.
+
+Em que obscuro crysol, esse pranto isolado,
+Crystallizou com tal pureza e resplendor?
+Caiu da Lua? É um ai de luz polarizado?
+Ou rolou d'um olhar num soluço de dor?
+
+Quem sabe o seu mysterio ou sonha a sua mágoa?
+Lava de desespero ou suor d'agonia;
+--Orvalho ou pranto--é sempre a mesma gota d'agua,
+A tremer e a brilhar no resplendor do dia...
+
+Tenha d'odio e rancor nublado o olhar mais vivo,
+Ou em fogo escaldado a face onde correu,
+Ninguem vê no diamante o carvão primitivo,
+Nem na água a cantar o abysmo em que nasceu.
+
+Em breve, á luz do sol, vae em fumo desfeita,
+Ser nuvem, confundir-se em cúmulos no poente,
+Ou em névoa através de que a Alvorada espreita
+A ultima estrella a arder, do seu balcão no Oriente.
+
+E outra vez percorrendo os circulos da Vida,
+Pranto de heroe, suor de martyr ou de santo,
+De novo ha de voltar, e, de novo esquecida,
+Sobre as urzes rolar, gota d'agua ou de pranto...
+
+
+
+
+A VENTURA
+
+_A Anthero de Figueiredo_
+
+
+
+
+A VENTURA
+
+
+A Ventura, de vãos e ephemeros sorrisos,
+ Nunca, em alto lavor,
+Nos meus versos deixou cariatides ou frisos
+De que ella fôsse o alacre e luzido esculptor.
+
+Trouxe-a um dia, illudida, a minha Noiva, quando
+ No meu lar se installou;
+A Musa, deslumbrada, emmudeceu, sonhando,
+E d'amor nunca mais um só verso rimou.
+
+Mas d'essa adoração em que vivia absorta,
+ Um dia, ao despertar,
+Viu que tinham levado a minha Noiva morta,
+E d'angustia chorou, na angustia do meu lar.
+
+Chorou... Sempre que a dor nos empolga e sacode
+ Como um arbusto ao vento,
+Nenhuma forma d'arte em eloquencia pode
+Egualar a expressão d'um grito ou d'um lamento.
+
+Chorou... E desde então, a Musa dolorida
+ Vive numa anciedade
+A ouvir a minha dor no seu canto escondida,
+Mansamente, a chorar, como chora a saudade...
+
+
+
+
+ENTRE PINHEIROS E CYPRESTES
+
+_A meus sobrinhos, Salvato e Ruy_
+
+
+
+
+ENTRE PINHEIROS E CYPRESTES
+
+
+Entre pinheiros e cyprestes
+Fundi em lagrimas os olhos...
+Onde estaes vós, almas celestes,
+Que entre pinheiros e cyprestes
+Em vão procuram os meus olhos?
+
+Na terra fria aqui descansam
+Os corações que tanto amei...
+Mas os meus braços não alcançam
+Na terra fria em que descansam
+Os corações que tanto amei.
+
+As vezes ponho o ouvido attento
+A ver se os ouço ainda bater...
+Mas só me fala a voz do vento,
+Sempre que ponho o ouvido attento
+A ver se os ouço ainda bater...
+
+Elles que sempre e a toda a hora
+Tão nobremente palpitaram...
+E já nem sombra resta agora
+D'elles que sempre e a toda a hora
+Tão nobremente palpitaram!
+
+Mas todo o amor, toda a bondade,
+Que em vida as almas enobrece,
+Torna a ser luz na immensidade,
+Irradiação d'amor, bondade,
+Que em vida as almas enobrece...
+
+E nessa luz, a alma que chora
+D'um brilho augusto se illumina,
+Como uma esprança ou uma aurora,
+Em cuja luz, a alma que chora
+D'um brilho augusto se illumina...
+
+E ao nosso olhar, d'entre cyprestes,
+Estrellas novas apparecem...
+Sois vós talvez, almas celestes,
+D'entre pinheiros e cyprestes,
+Essas estrellas que apparecem...
+
+
+
+
+RIO AMARGO
+
+_A meu irmão, Julio de Castro Feijó_
+
+
+
+
+RIO AMARGO
+
+
+A pouco e pouco a Dor, no coração do Homem,
+Vae como um rio amargo escavando o seu leito,
+E dia a dia, o sulco em que as mágoas se somem
+Mais profundo se faz, mais escarpado e estreito.
+
+A principio trasborda e alastra: é uma torrente!
+Nada a pode conter--nem diques, nem escolhos;
+Submerge o coração num tumultuar plangente,
+E onda a onda rebenta em lagrimas dos olhos.
+
+Mas o tempo transforma em profunda ravina
+O leito onde mais viva a torrente passou;
+A onda continua a correr nessa ruina,
+Mas, de funda que vae, aos olhos se occultou.
+
+Desde então não se escuta o bramir da tormenta,
+Mas da face tranquilla e dos olhos enxutos
+Ninguem inveje a paz que essa calma apparenta:
+Vae cheio o coração de lagrimas e lutos!
+
+Ditoso o Homem a quem, na primeira investida,
+A Dor, como uma vaga, envolveu na ressaca,
+Em vez de o arremessar, como «épave» perdida,
+De soffrer em soffrer, mas que nunca se aplaca!
+
+A Dor que mata, a Dor que d'um golpe redime,
+É compassiva; o mal, que cessa, não é grande...
+Mas a Dor que não pára, a Dor que nos opprime
+Sem esp'rança de ver que o seu martyrio abrande,
+
+Essa Dor, não ha som, na palavra que chora,
+Para a exprimir; é a Dor que mil dores condensa:
+Trazer a Morte em nós, senti-la a toda a hora,
+E viver! E viver no horror d'essa presença!
+
+Onde o peito de heroe, onde o animo forte
+Para uma dor egual sem revolta afrontar,
+Tendo a pesar sobre elle a mão fria da Morte?
+E sem poder fugir! e sem poder luctar!
+
+Só o Homem que espera em Deus, martyr ou santo,
+Pode um supplicio tal resignado soffrer,
+Com o labio a sorrir, com os olhos sem pranto,
+Mas a angustia no olhar, mas a boca a gemer...
+
+Só esse a quem a Graça illuminou, na etherea
+Luz immortal d'estrella ignota alvorecida,
+Pressente da Alma Humana o Infinito e a Miseria
+Na eterna expiação d'este peccado--a Vida!
+
+
+
+
+III
+
+
+
+
+HYMNO Á VIDA
+
+_A Agostinho de Campos_
+
+
+
+
+HYMNO Á VIDA
+
+
+Tenho-te medo, embora ignoto amor me traga
+Preso a ti, como o feto ao seio em que germina...
+Foi por ventura o sol, da espuma d'uma vaga,
+Ou Deus que te creou d'uma essencia divina?
+
+Que importa? D'onde quer que o teu sorriso veio,
+Quem quer que sejas,--flôr d'inefavel deleite,
+D'ódio ou de fel,--és sempre o mesmo augusto seio
+Em que a Dor e o Prazer bebem o mesmo leite!
+
+Calix do Sacrificio em que os meus labios ponho!
+--Trazendo o Amor e a Morte a servir-te d'escolta,--
+Deste ao mundo o licôr do seu primeiro sonho,
+O vinho e a embriaguez da primeira revolta!
+
+Sobes do prado em flor, desces dos altos cumes,
+Na immarcessivel luz que os orbes incendeia;
+Passas no largo vento a derramar perfumes,
+Choras no vasto oceano a rebentar na areia!
+
+O teu Genio, que o barro amolda e purifica,
+Enleva os corações de jubilo e transporte,
+Se no Esqueleto exhibe a tunica mais rica,
+Se em Belleza sorri na máscara da Morte:
+
+Teu segredo, que em sangue e lagrimas se envolve,
+Mais obscuro se faz quanto mais o investigo;
+--Sôpro que tudo cria e que tudo dissolve,
+Força occulta, mysterio augusto, eu te bemdigo!
+
+Se, ousado, alguem buscando a tua ignota origem,
+O abysmo a perscrutar sobre ti se debruça,
+Da treva apenas sae, dissipada a vertigem,
+Um immenso clamor que blasphema e soluça!
+
+És o raio de sol, a tempestade e o vento;
+Vôo d'ave a cantar na floresta orvalhada;
+Ancia no coração, lava no pensamento,
+O Amor e o Odio, o Bem e o Mal,--és Tudo e és Nada!
+
+Mão potente, que a rocha endurecida escarva,
+Tornando-a em fragil pó d'onde rebentam flores;
+Fada occulta que tece o casulo da larva
+E aos insectos iria as asas de esplendores...
+
+Beijo d'onde a traição como um veneno escorre;
+Riso que se desfaz num amargo travor;
+Larga estrada sem fim que a Ventura percorre,
+Como um cego a cantar pelo braço da Dor!
+
+Quem quer que sejas,--tudo ou nada,--eu te bemdigo!
+Pelo esforço immortal da tua heroica belleza,
+Que, no revolto chão do soffrimento antigo,
+Deixou tantos padrões e tropheus de grandeza!
+
+Se a alguem o teu mysterio a Esphinge revelasse,
+Talvez nunca, a rolar dos planaltos risonhos,
+A onda humana através da historia se lançasse,
+Erguendo cathedraes e accumulando sonhos!
+
+Por isso eu te bemdigo, Alma que enches o Mundo!
+Occulto coração, graça, illusão suprema!
+Se tudo vem de ti, d'esse enygma profundo,
+--A solução que importa? O que é grande é o problema!...
+
+
+
+
+HYMNO Á BELLEZA
+
+_A Eugenio de Castro_
+
+
+
+
+HYMNO Á BELLEZA
+
+
+Onde quer que o fulgor da tua gloria appareça,
+--Obra de genio, flôr d'heroismo ou sanctidade,--
+Da Gioconda immortal na radiosa cabeça,
+Num acto de grandeza augusta ou de bondade,
+
+--Como um pagão subindo á Acropole sagrada,
+Vou de joelhos render-te o meu culto piedoso,
+Ou seja o Heroe que leva uma aurora na Espada,
+Ou o Sancto beijando as chagas do Leproso.
+
+Essa luz sem egual com que sempre illuminas
+Tudo o que existe em nós de grande e puro, veio
+Do mesmo foco em mil parábolas divinas:
+--Raios do mesmo olhar, ancias do mesmo seio.
+
+Alta revelação que, baixando em segredo,
+O prisma humano quebra em angulos dispersos,
+Como a água a caír de rochedo em rochedo
+Repete o mesmo som, mas em modos diversos.
+
+É audácia no Heroe; resignação no Sancto;
+Som e Côr, ondulando em formas immortaes;
+No mármore rebelde abre em folhas de acantho,
+E esmalta de candura a flora dos vitraes.
+
+Oh Belleza! Oh Belleza! as Horas fugitivas
+Passam deante de ti, aladas como sonhos...
+Que importa onde ellas vão, d'outra força captivas,
+Se o Infinito luz nos teus olhos risonhos?!
+
+Abrem flores, cantando, ao teu hálito ardente,
+Brilham as aves como estrellas, e as estrellas,
+Como flores enchendo a noite refulgente,
+Deixam-se resvalar sobre quem vae colhê-las...
+
+És tu que ás illusões dás juventude e forma,
+Tu, que talvez do ceu, d'onde vens, te recordes
+Quando, a ouvir-nos chorar, a tua voz transforma
+Dissonáncias de dor em immortaes accordes.
+
+Vejo-te muita vez,--luz d'aurora ou de raio,--
+Com um gládio de fogo a avançar no horizonte;
+Ou então, em manhãs transparentes de maio,
+Naiade toda nua a fugir d'uma fonte.
+
+Outras vezes, de noite e a occultas, appareces,
+Como ovelha que Deus do seu redil tresmalha,
+Trazendo no regaço inexgotaveis messes,
+Que Elle por tuas mãos sobre a miseria espalha...
+
+Podesse eu revelar-te em estrophes aladas,
+Que partissem ao sol refulgindo em lavores,
+Com rimas d'oiro, em blau e purpura engastadas,
+Como versos que vão desabrochando em flores!
+
+Mas a lingua não é sumptuosa bastante
+Para nella deixar teu génio circumscripto;
+Trago-te dentro em mim, sinto-te a cada instante,
+E a voz nem mesmo tem a eloquencia d'um grito!
+
+Mas se para o teu culto, em esplendor externo,
+Não encontro uma prece altamente expressiva,
+Por ti meu coração arde d'um fogo eterno,
+Como chamma a tremer de lampada votiva!
+
+
+
+
+HYMNO Á DOR
+
+_Aos Condes de Sabugosa_
+
+
+
+
+HYMNO Á DOR
+
+
+Sorri com mais doçura a boca de quem soffre,
+Embora amargue o fel que os seus lábios beberam;
+É mais ardente o olhar, onde como um aljofre,
+A Dor se condensou e as lágrimas correram.
+
+Sôa, como se um beijo ou uma caricia fôsse,
+A voz que a soluçar na Desgraça aprendeu;
+E não ha para nós consolação mais doce,
+Que o regaço de quem muito amou e soffreu.
+
+Voz, que jamais vibrou num soluço de mágua,
+Ao nosso coração nunca pode chegar...
+Mas o pranto, ao caír d'uns olhos razos d'agua,
+Torna mais penetrante e mais profundo o olhar.
+
+Lábio, que só bebeu na fonte da Alegria,
+É frio, como o olhar de quem nunca chorou;
+A Bondade é uma flor que se alimenta e cria
+Dos resíduos que a Dor no coração deixou.
+
+Em tudo quanto existe o Soffrimento imprime
+Uma augusta expressão... mesmo a Suprema Graça,
+Dando aos versos do Poeta esse esmalte sublime
+Que torna immorredoira a Inspiração que passa.
+
+É por isso que a Dor, sem trégua nem guarida,
+Dor sem resignação, Dor de estoico ou de santo,
+Só de a vermos passar no tumulto da Vida
+Deixa os olhos da gente ennublados de pranto.
+
+
+
+
+HYMNO Á ALEGRIA
+
+_A Carlos Malheiro Dias_
+
+
+
+
+HYMNO Á ALEGRIA
+
+
+Tenho-a visto passar, cantando, á minha porta,
+E ás vezes, bruscamente, invadir o meu lar,
+Sentar-se á minha mesa, e a sorrir, meia morta,
+Deitar-se no meu leito e o meu somno embalar.
+
+Tumultuosa, nos seus caprichos desenvoltos,
+Quasi meiga, apesar do seu riso constante,
+D'olhos a arder, labios em flor, cabellos soltos,
+A um tempo é cortesã, deusa ingenua ou bachante...
+
+Quando ella passa, a luz dos seus olhos deslumbra;
+Tem como o sol d'inverno um brilho encantador;
+Mas o brilho é fugaz,--scintilla na penumbra,
+Sem que d'elle irradie um facho creador.
+
+Quando menos se espera, irrompe d'improviso;
+Mas foge-nos tambem com uma presteza egual;
+E d'ella apenas fica um pállido sorriso
+Traduzindo o desdem d'uma illusão banal.
+
+Onda mansa que só á superficie corre,
+Toda a alegria é vã; só a Dor é fecunda!
+A Dor é a Inspiração, louro que nunca morre,
+Se em nós crava a raiz exhaustiva e profunda!
+
+No entanto, eu te saudo e louvo, hora dourada,
+Em que a Alegria vem extinguir, de surpresa,
+Como chuva a cair numa planta abrasada,
+A fornalha em que a Dor se transmuta em Belleza!
+
+Pensar, é certo, eleva o espirito mais alto;
+Soffrer torna melhor o coração; depura
+Como um crysol: a chispa irrompe do basalto,
+Sae o oiro em fusão da escoria mais impura.
+
+A Alegria é fallaz; só quem soffre não erra,
+Se a Dor o eleva a Deus, na palavra que o louve;
+A Alma, na oração, desprende-se da terra;
+Jamais o homem é vão deante de Deus que o ouve!
+
+E comtudo,--illusão!--basta que ella sorria,
+Basta vê-la de longe, um momento, a acenar,
+Vamos logo em tropel, no capricho do dia,
+Como ébrios, Evohé! atrás d'ella a cantar!
+
+Mas se ella, de repente, ao nosso olhar se furta,
+Todo o seu brilho é pó que anda no sol disperso;
+A Alegria perfeita é uma aurora tão curta,
+Que mal chega a doirar as cortinas do berço.
+
+Ás vezes, essa luz de tão fragil encanto,
+Vem ainda banhar certas horas da Vida,
+Como um iris de paz numa névoa de pranto,
+Crepitação, fulgor d'uma estrella perdida.
+
+Então, no resplendor d'essa aurora bemdita,
+Toma corpo a illusão, e sem áncias, sem penas,
+O espirito remoça, o coração palpita,
+Seja a nossa alma embora uma saudade apenas!
+
+Mas ephémera ou vã, a Alegria... que importa?
+Deusa ingenua ou bachante, o seu riso clemente,
+Quando, mesmo de longe, echôa á nossa porta,
+Deixa em louco alvoroço o coração da gente!
+
+Momentánea ou fallaz, é sempre um dom divino,
+Sol que um instante vem a nossa alma aquecer...
+Podesse eu celebrar teu louvor no meu Hymno!
+Momentáneo, fallaz encanto de viver!
+
+O teu sorriso enxuga o pranto que choramos,
+E eu não sei traduzir a ventura que exprimes!
+Nesta sentimental lingua que nós falamos,
+Só a Dor e a Paixão têm accordes sublimes!
+
+
+
+
+HYMNO Á SOLIDÃO
+
+_Ao Padre João Ignacio de Araujo Lima_
+
+
+Vive ut vis, sed cum aegrotabis
+Justis lachrymis damnabis
+Omnes mundi insulas.
+O beata solitudo,
+O sola beatitudo,
+Piis secessicolis!
+
+Cornelius, Martyr.
+
+
+
+
+HYMNO Á SOLIDÃO
+
+
+Diz-se que a solidão torna a vida um deserto;
+Mas quem sabe viver com a sua alma, nunca
+Se encontra só; a Alma é um mundo, um mundo aberto
+Cujo átrio, a nossos pés, de pétalas se junca.
+
+Mundo vasto que mil existencias povoam:
+Imagens, concepções, formas do sentimento,
+--Sonhos puros que nelle em belleza revoam
+E ficam a brilhar, soes do seu firmamento.
+
+Dia a dia, hora a hora, o Pensamento lavra
+Esse fecundo chão onde se esconde e medra
+A semente que vae germinar na Palavra,
+Cantar no Som, florir na Côr, sorrir na Pedra!
+
+Basta que certa luz de seus raios aqueça
+A semente que jaz na sua leiva escondida,
+Para que ella, a sorrir, desabroche e floresça,
+De perfumes enchendo as estradas da Vida.
+
+Sei que embora essa luz nem para todos tenha
+O mesmo brilho, o mesmo impulso creador,
+Da Glória, sempre vã, todo o asceta desdenha,
+Vivendo como um Deus no seu mundo interior.
+
+E que mundo sublime, esse em que elle se agita!
+Mundo que de si mesmo e em si mesmo creou,
+E em cuja creação o seu sangue palpita,
+Que não ha Deus estranho aos orbes que formou.
+
+Nem luctas, nem paixões: ideaes serenidades
+Em que o Tempo se esvae sob o encanto da Hora...
+O passado e o porvir são ancias e saudades:
+Só no instante que passa a plenitude mora.
+
+Sombra crepuscular, que a Noite não attinge,
+Nem a Aurora desfaz: rosiclér e luar,
+Meia tinta em que a Alma abre os labios de Esphinge,
+E o seu mystério ensina a quem sabe escutar.
+
+Mas então, innundando essa penumbra dôce,
+De não sei que sublime esplendor sideral,
+Como se a emanação d'um ser divino fôsse,
+Deixa no nosso olhar um reflexo immortal.
+
+Na vertigem que a vida exalta e desvaria,
+Pára alguem para ouvir um coração que bate?
+No seio mais formoso, o olhar que se extasia
+Vê o mundo que nelle em ancias se debate?
+
+É só na solidão que a alma se revela,
+Como uma flor nocturna as pétalas abrindo,
+A uma luz, que é talvez o clarão d'uma estrella,
+Talvez o olhar de Deus, d'astro em astro caindo...
+
+E d'essa luz, a flôr sem forma, ha pouco obscura,
+Recebe o seu quinhão de graça e de pureza,
+Como das mãos do artista, animando a esculptura,
+O mármore recebe a sua alma--a Belleza.
+
+Se soffrer é pensar, na paz do isolamento,
+Como d'um calix cheio o liquido extravasa,
+A Dor, que a Alma empolgou, trasborda em pensamento,
+E a pouco e pouco extingue o fogo em que se abrasa.
+
+Como a montanha d'oiro, a Alma, em seu mysterio,
+Á superficie nunca o seu teor revela;
+Só depois de sondado e fundido o minério
+Se conhece a riqueza accumulada nella.
+
+Corações que a Existencia em tumulto arrebata!
+Esse oiro só se extrae do minério candente,
+No silencio, na paz, na quietação abstracta,
+Das estrellas do Ceu sob o olhar indulgente...
+
+
+
+
+HYMNO Á MORTE
+
+ Meorum amicorumque pié manibus
+
+
+
+
+HYMNO Á MORTE
+
+ Meorum amicorumque pié manibus.
+
+
+Tenho ás vezes sentido o chocar dos teus ossos
+E o vento da tua asa os meus labios roçar;
+Mas da tua presença o rasto de destroços
+Nunca de susto fez meu coração parar.
+
+Nunca, espanto ou receio, ao meu animo trouxe
+Esse aspecto de horror com que tudo apavoras,
+Nas tuas mãos erguendo a inexoravel Fouce
+E a ampulheta em que vaes pulverizando as horas.
+
+Sei que andas, como sombra, a seguir os meus passos,
+Tão proxima de mim que te respiro o alento,
+--Prestes como uma noiva a estreitar-me em teus braços,
+E a arrastar-me comtigo ao teu leito sangrento...
+
+Que importa? Do teu seio a noite que amedronta,
+Para mim não é mais que o refluxo da Vida,
+Noite da noite, d'onde esplendida desponta
+A aurora espiritual da Terra Prometida.
+
+A Alma volta á Luz; sae d'esse hiato de sombra,
+Como o insecto da larva. A Morte que me aterra,
+Essa que tanta vez o meu animo assombra,
+Não és tu, com a paz do teu oásis de terra!
+
+Quantas vezes, na angustia, o soffrimento invoca
+O teu suave dormir sob a leiva de flores!...
+A Morte, que sem dó me tortura e suffoca,
+É outra,--essa que em nós cava sulcos de dores.
+
+Morte que, sem piedade, uma a uma arrebata,
+Como um tufão que passa, as nossas affeições.
+E, deixando-nos sós, lentamente nos mata,
+Abrindo-lhes a cova em nossos corações.
+
+Parenthesis de sombra entre o poente e a alvorada,
+Morrer, é ter vivido, é renascer... O horror
+Da Morte, o horror que gera a consciencia do Nada,
+Quem vive é que lhe sente o afflictivo travor.
+
+Sangue do nosso sangue, almas que estremecemos,
+Seres que um grande affecto á nossa vida enlaça,
+--Somos nós que a sua morte implacavel soffremos,
+É em nós, é em nós que a sua morte se passa!
+
+Só então, da tua asa a sombra formidavel,
+Anjo negro da Morte! aos meus olhos parece
+Uma noite sem fim, uma noite insondavel,
+Noite de soledade em que nunca amanhece...
+
+Só então, succumbindo á dor que me fulmina,
+A mim mesmo pergunto, entre espanto e receio,
+Se a tua asa não é d'um Anjo de rapina,
+Se eu poderei em paz repoisar no teu seio!
+
+Inflexivel e cego, o poder do teu sceptro
+Só então me desvaira em cruel agonia,
+Ao ver com que presteza elle faz um espectro
+D'alguem, que ha pouco ainda, ao pé de nós sorria.
+
+Mas se n'essa tortura, exhausto o pensamento,
+Para ti, face a face, ergo os olhos contricto,
+Passa deante de mim, como um deslumbramento,
+Constellando o teu manto, a visão do Infinito.
+
+E de novo, ao sair d'essa angustia demente,
+Sinto bem que tu és, para toda a amargura,
+A Euthanasia serena em cujo olhar clemente
+Arde a chamma em que toda a escoria se depura.
+
+É pela tua mão, feito um rasgão na treva,
+Que a Alma se liberta, e d'esplendor vestida
+--Borboleta celeste, ébria de Deus,--s'eleva
+Para a Luz immortal, Luz do Amor, Luz da Vida!
+
+
+
+
+EPILOGO
+
+
+
+
+EPILOGO
+
+
+Como um captivo, aqui te deixo, Pensamento,
+As asas d'oiro amarfanhadas,
+Com o esforço que fiz de forma e sentimento,
+Nestas estrophes mal rimadas...
+
+Os meus olhos, a noite immensa perscrutando,
+Viram-te bello e refulgente;
+E ao teu contacto, a Alma em trevas, despertando,
+Illuminou-se de repente.
+
+A cadeia, que ao lodo obscuro a tinha presa,
+Fundiu-se ao beijo que lhe deste;
+E a alma liberta, ao sol da Graça e da Belleza,
+Abriu, cantando, a asa celeste!
+
+Descendo para mim d'outras espheras, vinhas
+Banhado ainda em luz sublime;
+Via-te bem, sentia os encantos que tinhas,
+Mas a palavra não te exprime.
+
+E quem hoje te vê, n'estas imagens frias,
+Encarcerado em duro engaste,
+Nem por sombras suppõe com que esplendor fulgias,
+Quando aos meus olhos te mostraste!
+
+Nem as outras visões que ficaram sem forma
+Em nebulosa inconsistente,
+A espera d'essa luz que ao vir de ti transforma
+O pó da terra em oiro ardente...
+*/
+
+
+
+
+LENDAS E FABULAS
+
+
+
+
+PRELUDIO
+
+
+
+
+PRELUDIO
+
+
+Ferreiro velho e cansado
+Deixa a forja, não trabalha;
+O fogo, quasi apagado,
+Poucas faúlas espalha;
+Mas do ferro trabalhado
+Vae recolhendo a limalha.
+Ferreiro velho e cansado
+Deixa a forja, não trabalha.
+
+Como á luz do sol doirado
+É poeira d'oiro a limalha,
+A todo o olhar angustiado
+Em que a Saudade se espalha,
+Parecem d'oiro e brocado
+Lentejoulas de mortalha...
+Ferreiro velho e cansado
+Deixa a forja, não trabalha;
+Mas do ferro trabalhado,
+Vae recolhendo a limalha.
+
+
+
+
+O AMOR E O TEMPO
+
+(CHRISTOPULOS)
+
+
+
+
+O AMOR E O TEMPO
+
+
+ Pela montanha alcantilada
+Todos quatro em alegre companhia,
+ O Amor, o Tempo, a minha Amada
+ E eu subiamos um dia.
+
+Da minha Amada no gentil semblante
+Já se viam indicios de cansaço;
+ O Amor passava-nos adeante
+ E o Tempo accelerava o passo.
+
+ --«Amor! Amor! mais de vagar!
+Não corras tanto assim, que tão ligeira
+Não pode com certeza caminhar
+ A minha doce companheira!»
+
+Subito, o Amor e o Tempo, combinados,
+Abrem as asas trémulas ao vento...
+--«Porque voaes assim tão apressados?
+Onde vos dirigis?»--Nesse momento,
+
+Volta-se o Amor e diz com azedume:
+ --«Tende paciencia, amigos meus!
+ Eu sempre tive este costume
+De fugir com o Tempo... Adeus! Adeus!»
+
+
+
+
+FABULA ANTIGA
+
+_A Manuel d'Oliveira Monteiro_
+
+
+
+
+FABULA ANTIGA
+
+
+No principio do mundo o Amor não era cego;
+Via mesmo através da escuridão cerrada
+Com pupilas de Lynce em olhos de Morcego.
+
+Mas um dia, brincando, a Demencia, irritada,
+Num impeto de furia os seus olhos vazou;
+Foi a Demencia logo ás feras condemnada,
+
+Mas Jupiter, sorrindo, a pena commutou.
+A Demencia ficou apenas obrigada
+A acompanhar o Amor, visto que ella o cegou,
+
+Como um pobre que leva um cego pela estrada.
+Unidos desde então por invisiveis laços,
+Quando o Amor emprehende a mais simples jornada,
+Vae a Demencia adeante a conduzir-lhe os passos.
+
+
+
+
+CLEOPATRA
+
+_A José Coelho da Motta Prego_
+
+
+
+
+CLEOPATRA
+
+
+Como a concha de nácar luminoso.
+Em que Venus surgiu, risonha e nua,
+A Galera vogava ao sol radioso
+Com a graça d'um Cysne que fluctua.
+
+Soltas ao vento as velas de brocado,
+Ao som das Lyras, sobre o rio immenso,
+Dos remos d'oiro e de marfim sulcado,
+O destino do Mundo ia suspenso!
+
+Como nuvens correndo, as horas passam;
+Já se divisa o porto; o sol declina,
+E emquanto as velas, marinheiros, cassam,
+Ella que um sonho de poder domina,
+
+Deante do espelho, a reflectir, perscruta
+Do seu corpo a belleza profanada,
+Como o rufião nocturno, antes da lucta,
+Examinando a lamina da espada!
+
+
+
+
+MOIRO E CHRISTÃ
+
+_A Antonio de Barbosa de Mendonça_
+
+
+Abou-el Hassan, Ali, fils d'Abdalla,
+Elzagouni, raconte ce qui suit...
+
+Ebu-Abi-Hadglat, _Divan Oriental_.
+
+
+
+
+MOIRO E CHRISTÃ
+
+
+O pobre moiro enamorou-se
+D'Ely, môça christã, sendo filho do Emir...
+Tamanha dor sentiu, que o misero exilou-se,
+Como se alguem podesse á propria dor fugir!
+
+Longe, na terra alheia, abrasa-lhe a memoria
+A imagem da mulher que a vida lhe prendeu,
+Vendo-a morta, a sorrir sob um nimbo de gloria,
+Mas no esplendor de um ceu que nem mesmo era o seu...
+
+Por sua vez, Ely nunca pôde esquecê-lo,
+E nesse immenso amor, com presagios de agoiro,
+Sentia-se morrer, como um lirio no gêlo,
+Sem o doce luar dos seus olhos de moiro...
+
+Mas no instante supremo, ambos crentes, temendo
+Que a Morte os separasse, em tão oppostos ceus,
+Elle invocou Jesus, cheio de fé, morrendo;
+E a christã murmurou: «Allah! só tu és Deus!»
+
+
+
+
+A RESPOSTA DO ÁRABE
+
+_A João Gomes d'Abreu e Lima_
+
+
+ Quelqu'un demanda un jour à Arouâ-Ben-Hezam, de la tribu d'Asra:
+ Est-il bien vrai que vous êtes de tous les hommes ceux qui avez le
+ coeur le plus tendre en amour?--Oui, par Dieu! cela est vrai,
+ répondit Arouâ, et j'ai connu dans ma tribu trente jeunes gens que
+ la mort a enlevés, et qui n'avaient d'autre maladie que l'amour.
+
+ Ebu-Abi-Hadglat, _Divan de l'Amour_.
+
+
+
+
+A RESPOSTA DO ÁRABE
+
+
+«De que país és tu?»--A um árabe dizia
+Sahid, filho d'Agbá, na estrada, ao fim do dia.
+
+Era a hora em que o sol se fecha no Occidente
+Como o olhar moribundo e triste d'um doente.
+
+E o árabe respondeu, banhado na piedosa
+Claridade da luz, quasi religiosa:
+
+--«Sou da raça que tem o excepcional fervor
+D'amar eternamente e de morrer d'amor.»--
+
+--«Então és tu de Asrá.»--accrescentou Sahid;
+--«Sim, por Kaaba! Foi essa a tribu onde eu nasci.»
+
+E de novo Sahid o interrogava attento:
+--«Por que motivo, pois, tão nobre sentimento
+
+Nunca se muda em vós n'uma paixão nefasta?»--
+O crepusculo enchia o ceu meio estrellado,
+E o árabe tornou, como que illuminado:
+--«Porque a mulher é bella e a juventude é casta!»
+
+
+
+
+A VOCAÇÃO D'IBRAHIM
+
+_A Aristides da Motta_
+
+
+ Outros a quem impugna Genebrado, _in Chronologia_ dizen que fue
+ Abraham Idolatra como su padre, y le ayudava a su padre Thare a
+ hazer Idolos de barro, y San Clemente Alexandrino, en el _lib. I
+ recognitionem_, y Suydas, _in verbo Abrahan_: dizem que fue primero
+ infiel empero que fue tan eminente en el Astrologia, que por el
+ conocimiento natural de las estrellas conveiò al verdadero Dios.
+
+ _Prosapia de Christo_, por el L.^{do} Diego Matute de Penafiel,
+ fol. 109.
+
+
+
+
+A VOCAÇÃO D'IBRAHIM
+
+
+Vendo, mudos á Dor, os Idolos grosseiros,
+Que o oleiro antigo e rude em barro modelava,
+Ibrahim despedaça os Deuses derradeiros,
+E as terras de Ur, familia e patria, abandonava.
+
+Só, na noite profunda e num amplo deserto,
+Sem que o sitio onde está e a estrada reconheça,
+--Numa nesga de ceu quasi todo encoberto,--
+Viu um Astro a luzir sobre a sua cabeça.
+
+E absorto nessa luz que do alto cahia,
+Como um pressentimento augusto a illuminá-lo,
+Bradou, cheio da paz que sôbre elle descia:
+--«Eis o Deus verdadeiro!»--e prostrou-se a adorá-lo.
+
+Mas o Astro immergiu na curva em que fluctua,
+Quando o Luar rompeu como um vasto luzeiro;
+E attonito, Ibrahim pensava, olhando a Lua:
+--«Deus não pode esconder-se! Eis o Deus verdadeiro!»
+
+E outra vez, como chuva em calcinada areia,
+A paz, ao seu turbado espirito baixara;
+Parecia-lhe agora, esse luar da Chaldeia,
+Que tinha uma outra luz, mais ardente e mais clara.
+
+Mas a Lua descreve a orbita marcada
+E some-se ao primeiro esplendor do arrebol;
+Borda todo o horizonte uma fimbria doirada,
+E entre nuvens a arder surge o orbe do Sol.
+
+Como o homem que sae d'um longinquo desterro,
+E de subito encontra o lar e encontra os seus,
+Ibrahim mede o abysmo enorme do seu erro,
+E de joelhos proclama:--«Eis o unico Deus!»--
+
+Mas a tarde descia, e Elle, sempre de rastros,
+Perdido na abstracção do seu culto fervente,
+Quando os olhos ergueu já luziam os astros,
+E do Sol mal se via um clarão no occidente.
+
+Então, no seu assombro, o espirito perplexo,
+Exalta-se, e da immensa altura a que ascendeu
+Viu em tudo o que existe apenas o reflexo
+D'um invisivel Ser que fez a Terra e o Ceu...
+
+
+
+
+PRINCESA ENCANTADA
+
+_A Alfredo da Cunha_
+
+
+
+
+PRINCESA ENCANTADA
+
+
+Formosa Princesa dormia ha cem annos;
+Dormia ou sonhava... Ninguem o sabia.
+Passavam-se os dias, passavam-se os annos,
+E a linda Princesa dormia, dormia,
+ Dormia ha cem annos!
+
+Em torno, sentadas, dormiam as Damas,
+Cobertas de joias, cobertas de lhamas;
+
+Com formas e aspectos de finas imagens,
+Esbeltos e loiros, dormiam os pagens.
+
+E ás portas de bronze, por terra halabardas,
+Num somno profundo dormiam os guardas.
+
+Lá fóra, na sombra dos parques discretos,
+Nem aves gorgeiam, nem zumbem insectos.
+
+As arvores sonham, na sombra dos poentes,
+Immoveis, á beira dos lagos dormentes.
+
+E as fontes que d'antes sonoras gemiam,
+Somnambulas mudas, apenas corriam...
+
+Um dia, de longe, de terras distantes,
+Com pagens, arautos, donzeis, passavantes,
+
+Bandeiras ao vento, clarins, atabales,
+Echoando a distancia por montes e valles,
+
+--Um principe, herdeiro d'um throno potente,
+Com olhos suaves d'aurora nascente,
+
+Excelso e formoso, magnanimo e moço,
+--Correndo aventuras, num grande alvoroço,
+
+Chegou ao Castello, que ha tanto dormia,
+Como uma alvorada, prenuncia do dia...
+
+E ao ver a princesa, sentada em seu throno,
+N'aquelle profundo, extactico somno,
+
+Tomado d'estranha, indizivel surpresa,
+Na boca entreaberta da linda Princesa,
+
+Tremendo e sorrindo, seu labio collou-se
+N'um beijo, que ao labio a alma lhe trouxe.
+
+Accorda a Princesa; despertam as Damas,
+As faces ardentes, os olhos em chamas.
+
+Despertam os Pagens, nos seus escabellos,
+Com halos de fogo nos loiros cabellos.
+
+Accordam os guardas; e, tudo desperto,
+A vida renasce no parque deserto.
+
+Suspiram as fontes; gorgeiam as aves,
+Das áleas profundas nas sombras suaves.
+
+As arvores tremem, no ar transparente,
+Á brisa que sopra, como halito ardente.
+
+Nas torres, os sinos repicam de festa;
+O povo em choreias enchia a floresta...
+
+E a linda Princesa, seus olhos fitando
+No Principe excelso, sorrindo e còrando,
+
+--«Sonhava comtigo...» Porque é que tardaste?
+Mas já nesse instante, formando contraste,
+
+Quando isto dizia, erguendo-se a medo,
+A voz parecia trahir o segredo
+
+De quem, num relance, talvez lamentasse
+Que sonho tão lindo tão cedo acabasse!...
+
+A linda Princesa sonhava ha cem annos,
+E fóra do Sonho só há desenganos...
+
+
+
+
+O ROMANCE DA PASTORA LINDA
+
+_Aos Condes de Bertiandos_
+
+
+Och hör du, liten Carin!
+Säg, vill du blifva min?
+
+Liten Carin, Folkvisa.
+
+
+
+
+O ROMANCE DA PASTORA LINDA
+
+
+A linda Pastora, guardando o seu gado,
+Andava esquecida num alto montado.
+
+E o Rei, que voltava, sombrio, da caça,
+Com seus falcoeiros e galgos de raça,
+
+Detem-se, pensando, de subito, ao vê-la,
+Em ermo tão alto, que fôsse uma estrella.
+
+--«Oh linda Pastora dos olhos castanhos,
+Que passas a vida guardando rebanhos!
+
+A tua belleza deslumbra os meus olhos,
+Como uma tulípa no meio de abrolhos.
+
+Teus labios parecem cerejas vermelhas,
+E a pelle é mais fina que a lã das ovelhas.
+
+Sobre o oiro das tranças, tuas faces tão puras
+São duas papoilas em searas maduras.
+
+Estrella ou Pastora, se queres ser minha,
+Terás as riquezas que tem a Rainha!»
+
+--«A flôr dos vallados é sempre modesta
+E a humilde zagalla presume de honesta.»
+
+--«Terás equipagens, palacios, castellos,
+E joias a arderem nos fulvos cabellos;
+
+Um throno de esmaltes em oiros massiços,
+Lacaios, escravos, fidalgos submissos!...»
+
+--«Ás vossas riquezas, perdidas nos montes,
+Prefiro mirar-me no espelho das fontes;
+
+As joias, que valem, se eu guardo o meu gado,
+Com rubras papoilas a arder no toucado?...
+
+De nada me servem fidalgos, escravos,
+Pois tenho as abelhas e o mel dos meus favos.
+
+Segui vosso rumo, que a tarde caminha;
+Guardae as riquezas que são da Rainha».
+
+--«Não rias, vaidosa, das minhas promessas,
+Que a forca tem visto mais lindas cabeças...»
+
+--«Talvez que mais lindas já visse pender,
+Mas nunca tão firme nenhuma ha-de ver,
+
+Que a Virgem Santissima, a Virgem clemente,
+Ampara, sorrindo, quem morre innocente,
+
+E os anjos, descendo do ceu a voar,
+Á forca viriam minh'alma buscar!»
+
+E a linda Pastora, que a ser ultrajada
+A morte prefere,--vae ser enforcada!
+
+Levaram-na, á força, das suas ovelhas,
+Pendendo-lhe ás tranças papoilas vermelhas,
+
+Com gritos de escarneo, no meio da turba...
+Mas nada os seus olhos serenos perturba.
+
+E toda inundada na luz que irradia,
+Sorrindo, os estrados da forca subia...
+
+Então, n'um relance, do azul transparente,
+Surgindo mais alvas que a lua nascente,
+
+Duas pombas que descem e voam a par,
+Nos braços da forca vieram poisar...
+
+E a linda Pastora dos olhos castanhos,
+Tão longe da serra, cercada de estranhos,
+
+Sem ter um gemido, sem ter um lamento,
+Expira na forca... Mas n'esse momento,
+
+No grande silencio que a morte causara,
+Aos olhos de todos que attonitos viram
+Tão grande prodigio, coragem tão rara,
+Dos braços da forca--três pombas partiram!
+
+
+
+
+A LENDA DOS CYSNES
+
+_A Julio Dantas_
+
+
+ Gedulde Dich, stilles, hoffendes Herze! Was Dir im Leben versagt
+ ist, weil Du es nicht ertragen könntest, giebt Dir der Augenblick
+ Deines Todes.
+
+ Herder.
+
+
+
+
+A LENDA DOS CYSNES
+
+
+Da praia longinqua, na areia doirada,
+O Cysne pensava, fitando a Alvorada:
+
+--«Que immensa ventura, na minha mudez,
+Se dado me fôsse cantar uma vez!»
+
+--«Meu canto seria, na luz do arrebol,
+Dos hymnos mais altos á gloria do Sol...»
+
+Não é das gaivotas e gansos do lago
+O canto que em sonhos ardentes afago;
+
+É quando nos bosques as aves escuto
+Que a inveja confrange minh'alma de luto.
+
+Se a Aurora se lança do cume dos montes,
+Até d'alegria murmuram as fontes;
+
+Só eu, passeando o meu tedio supremo,
+Nem rio, nem choro, nem canto, nem gemo.
+
+Oh Sol, que já vejo surgindo do Mar,
+Tem dó de quem, mudo, não pode cantar!»--
+
+E o Cysne, em silencio, chorava, escutando
+A orchestra das aves que passam em bando.
+
+Das aguas rompia a quadriga d'Apollo,
+E o pobre a cabeça escondia no collo...
+
+Mas Phebo detem-se nas nuvens ao vê-lo,
+Com feixes de raios no fulvo cabello,
+
+E diz-lhe, sorrindo, n'um halo de fogo:
+--«No Olympo sagrado ouviu-se o teu rogo...»--
+
+E nesse momento a Lyra Sem Par,
+Da mão luminosa deixou resvalar...
+
+O Cysne, orgulhoso da graça divina,
+Da Lyra d'Apollo as cordas afina,
+
+E rompe cantando... Calaram-se as fontes,
+Calaram-se as aves... As urzes dos montes
+
+Tremiam de goso a ouvi-lo cantar...
+E o vento sonhava na espuma do Mar.
+
+O Cysne cantava, tirando da Lyra
+Um hymno que nunca na terra se ouvira;
+
+Não pára, nem sente, na sua emoção,
+Que a vida lhe foge naquella canção.
+
+Mas quando, entre nuvens, a tarde cahia
+No enlevo do canto que a essa hora gemia,
+
+E Apollo no seio de Thetis desceu,
+O pobre do Cysne, cantando, morreu...
+
+Gemeram as aves; choraram as fontes;
+Torceu-se nas hastes a giesta dos montes,
+
+E o mar soluçava na tarde sombria,
+Que o manto de luto com astros tecia.
+
+Sollicita espera-o, das aguas á beira,
+Do Cysne, já morto, fiel companheira;
+
+Espera que o Esposo de prompto regresse,
+Mas treme e suspira, que a Noite já desce...
+
+As aguas luzentes parecem-lhe, ao vê-las,
+Um panno d'enterro picado d'estrellas.
+
+Então, no seu luto, sentindo que morre,
+Oceanos e praias distantes percorre;
+
+Mergulha nas aguas, colleia nas ondas,
+Espreita as galeras de velas redondas,
+
+Que ao longe parece que vão a voar...
+E o Cysne não volta, não pode voltar!
+
+Chorosa viuva, nas aguas deslisa,
+Levada na fresca salsugem da brisa...
+
+No seu abondono nem sente canseira;
+Caminha, caminha, fiel companheira,
+
+Chorando o perdido, desfeito casal...
+Tão funda era a mágoa, tão grande o seu mal,
+
+Que o peito sentindo de dor estalar,
+--De dor e d'angustia começa a cantar!
+
+E canta com tanta ternura e paixão,
+Que a Vida lhe foge naquella canção.
+
+As aves despertam; calaram-se as fontes;
+Nas hastes tremiam as urzes dos montes;
+
+A Lua escutava; detinha-se a Aurora,
+E as vagas gemiam no vento que chora...
+
+Na terra, no espaço, nos astros, no ceu,
+Mais alta harmonia ninguem concebeu;
+
+E os Deuses recebem, ouvindo-a, a chorar,
+A alma do Cysne que expira a cantar...
+
+Desde esse momento, no Olympo onde entraram,
+Em honra dos Cysnes que tanto se amaram,
+
+Das almas que foram leaes e sinceras,
+Se Venus se mostra, surgindo da bruma,
+São elles que tiram, nas altas espheras,
+A concha de nácar, cercada de espuma...
+
+
+FIM
+
+
+
+
+Apreciações da «Ilha os Amores» e do «Cancioneiro Chinês»
+
+
+
+
+SOBRE A «ILHA DOS AMORES»
+
+
+Poeta por necessidade de temperamento e por fatalidade de herança,
+Antonio Feijó sabe impôr, a quem o lê, a contestada mas suprema
+fidalguia do verso. Emotivo e delicado como os velhos bysantinos,
+amoroso e enternecido como todo o meridional, a sua bella constituição
+de lyrico assegura-lhe um logar inteiramente á parte entre os technicos
+portugueses. Sendo um religioso da côr, Feijó desadora as tintas
+impetuosas e agressivas, e, numa preciosa doçura, dá-nos a branco e oiro
+as suas figuras de mulher. O ar contemplativo, o ar extatico das suas
+lyricas, veio-lhe no sangue. Numa remota ascendencia lá está frei
+Agostinho da Cruz a assegurar-lhe a fatalidade da herança.
+
+Não é esteril a intervenção da hereditariedade na comprehensão moral
+d'um poeta. O incomparavel mistico da Arrabida renasce espiritualmente
+na alta uncção lyrica e nos piedosos enternecimentos de Antonio Feijó.
+
+Tenho aqui, sobre a minha mesa, esses dois bellos livros--a _Mystica de
+frei Agostinho_ e a _Ilha dos Amores_,--tão proximos pelos laços de
+familia e tão afastados pelo poder do tempo. O epilogo da Ilha dos
+Amores, essa piedosa aspiração a uma vida mais simples, a um ruralismo
+honesto e socegado, o que é elle, senão a affirmação d'um mysticismo
+profundo, obliquado pela acção dissolvente do meio e pela orientação
+revoltosa do tempo? _E tinhas Deus, para te consolar_,--diz
+dolorosamente o poeta, no pungente isolamento a que o condemnou a sua
+propria superioridade cerebral. O mesmo enlevo mystico d'aquelle, que
+
+Nas pedras do deserto achou brandura,
+Nas serpentes da serra piedade
+E nas pelles das feras cobertura.
+
+Lendo um e outro, o velho Agostinho Pimenta e o novo Antonio Feijó, vejo
+a affirmação de dois grandes poetas e a imposição de duas grandes almas.
+Entre o profundo amigo do duque de Aveiro e o louro diplomata, as
+differenças apparentes fundem-se numa grande semelhança intima. O
+primeiro, victima da sua emotividade excessiva, fugiu do amor da terra
+para o amor do ceu; o outro, galante e vivo, deixou-se ficar pelo amor
+da terra, e em grande verdade, ficou melhor. Mas quando a evocação da
+mulher domina os espiritos d'um e de outro, quando o sentimento da côr
+lhes illumina os olhos, então as apparições da Ilha dos Amores teem a
+mesma luz que a apparição de Magdalena e de Santa Clara aos olhos
+pisados do frade. Vejamos se as figuras que passam na insula encantada,
+vestidas de oiro e de sonho, as não poderia ter evocado o cerebro d'um
+mystico como Juan de la Cruz, Jacopone de Todi ou Lourenço de Medicis?
+Uma _voluptuosa de si mesma_; outra, a lyrica Ignez, duas vezes virgem,
+aquella, _toda de sol vestida e de astros coroada_; aquell'outra ainda,
+_santa illuminada a oiro, no esplendor d'uma Assumpção_,--o que mostram
+todas ellas, senão que o erotismo e o mysterio não são mais que dois
+ramos da mesma arvore ou duas flôres do mesmo ramo? O mysticismo de
+Agostinho Pimenta e o erotismo de Antonio Feijó, o que são elles, senão
+uma e a mesma coisa?
+
+Disse eu, que o poeta da _Ilha dos Amores_ tinha um logar aparte entre
+os technicos portugueses. A sua technica, sendo nalguns pontos
+decadente, é, por assim dizer, classica e impeccavel no seu decadismo.
+Feijó afastou-se da discutivel rigidez do classico absoluto, e fez um
+classico seu, de cujas formulas se não aparta. As liberdades da sua
+technica chegam a ser mais difficeis do que as difficuldades da technica
+parnasiana. É um caso esporádico nos annaes da nossa lyrica. Seja como
+fôr, Feijó tem no seu passado, como demonstração clara da sua impeccavel
+métrica, dois livros modelares. Nas proprias paginas do _Auto do meu
+affecto_, conserva-se um parnasiano puro. O mesmo nos sonetos da _Alma
+Triste_. A _Ilha dos Amores_ veio apenas mostrar uma face nova do seu
+grande poder de realização. O proprio Francisco Manoel de Mello teve
+delirios metricos, como Feijó nalgumas das suas lyricas. E não é, por
+isso, menos poeta.
+
+Deus queira que António Feijó nos traga um novo livro quando voltar,--um
+livro todo de branco e oiro, em que o travor das suas nostalgias seja,
+como neste ultimo, uma bem deliciosa nota. Até lá, envio-lhe, com as
+saudades d'este ceu azul, o mais enternecido abraço.
+
+_Novidades_, 20 de Julho de 1897.
+
+Julio Dantas.
+
+ * * * * *
+
+«ILHA DOS AMORES»
+
+
+Temos desde hontem o novo livro de versos de Antonio Feijó--_Ilha dos
+Amores_, saido, ha dias, dos prelos da Imprensa Nacional, e editado pela
+casa M. Gomes, de Lisbôa. Evidentemente que, por muito menos fadigosa
+que a nossa vida fôsse, nos seria absolutamente impossivel avaliar em
+conjunto, dentro de tão breve espaço, a obra de um artista litterario da
+nobre categoria a que pertence A. Feijó. Vai isto, assim, apenas como
+registo de recepção e de vivo agradecimento, envoltamente com algumas
+ligeiras notas da impressão que recebemos de uma rapida leitura.
+
+Essa impressão é magnifica. O talento de A. Feijó amplificou-se
+notavelmente em emoção, em fantasia, em profundeza de alma; o poeta
+alongou os seus passos e a sua visão pelo mundo, e á nostalgia da sua
+bella mocidade, não muito longinqua, ainda, se lhe foi juntar a do seu
+patrio Minho, tão distante do país scandinavo e, ao mesmo tempo, tão
+brutalmente contrastado pela noite e pela neve d'essa tristissima região
+polar. E é um encanto de observação o jogo d'esta dupla mágoa, d'este
+complicado pungir, deliciosissimo, de que provêm as estancias da _Ilha
+dos Amores_. Numa reacção vigorosa de fisiologia e de alma, assim como
+os seus olhos se ensanguentaram naquella immensa noite, assim tambem,
+naquella tristeza inexoravel, o coração do poeta se dilatou de saudades,
+e a estetica do glorioso parnasiano antigo emoveu-se intensamente e
+vibrou fundo; todas as nervuras do marmore sagrado se desmineralizaram
+em veias e em arterias e uma onda rubra e fumegante circulou e palpitou
+por todas ellas.
+
+De resto, em todos os versos que já lemos do novo livro, é o mesmo
+estilo magnificente das producções de outr'ora, mas dexterisado com um
+maravilhoso, consummado bom-gosto; é essa mesma amplitude
+harmoniosissima e limpidez diamantina, o admiravel senso musical, a
+riqueza larga de fantasia, e aquella fidalga probidade artistica, o
+esmero, a esplendida perfeição de executante, que fizeram de Antonio
+Feijó um dos mais elevados representantes da nossa poesia contemporanea.
+
+Em remate, da _Ilha dos Amores_, trasladamos para a valla do noticiario
+esta divina lirica:
+
+
+IGNEZ
+
+
+ Na tua bôca macerada
+Por tantos beijos mercenarios que soffreste,
+Meu labio achou ainda a candura sagrada
+Que da avidez das outras bôcas escondeste...
+
+E no teu peito exhausto, onde em tumulto ouviste
+ Tantas paixões rolar,
+A minh'alma escutou, num eco amargo e triste,
+A primeira innocencia em segredo a chorar!
+
+A chorar em segredo a pureza da infancia,
+ A candura perdida,
+De que eu sentia ainda a ultima fragrancia
+A evolar-se de ti, como d'urna partida.
+
+Pobre flôr torturada! O teu doce perfume
+ Foi delicia e veneno...
+Pairava o teu Amor como num alto cume:
+Só podia attingi-lo o meu beijo sereno!
+
+Todo o teu ser vibrou como uma flor ao vento,
+ Tremeu, desfalleceu...
+E a tua alma, esquecendo o seu longo tormento,
+Num sorriso de gloria á tua bôca ascendeu!
+
+Vinha cheia de graça e candura ineffavel,
+ D'innocencia e de pejo,
+Que eu fiquei a scismar se esse beijo insondavel
+Seria porventura o teu primeiro beijo!...
+
+_Primeiro de Janeiro_, de 28 de Maio de 1897.
+
+ * * * * *
+
+Ilha dos amores, por Antonio Feijó. Um vol. 114 pag. in 8^o, Lisbôa,
+Editor M. Gomes 1897.
+
+Produz-se, ao lermos os versos d'este poeta, o desejo de simplesmente os
+irmos transcrevendo todos; e nessas condições limitarmos a apreciação a
+simples interjecções. Ninguem hoje, em Portugal, cinzela assim tão
+primorosamente a lingua portugueza em metro e rima, e a obra litteraria
+sae nitida, brilhante, completa,--sem que alguem note a fadiga do
+obreiro, ou adivinhe os processos de factura. O artista confunde-se com
+o dilettante, e é inconfundivel a linha de cada um d'elles.
+
+Reproduzo esses dezesseis versos,--e ponho ponto na prosa:
+
+Oh Musa Antiga, d'olhos placidos, rasgados etc.
+
+_Noites de Vigilia_. N.^o 16.
+
+Silva Pinto.
+
+ * * * * *
+
+«CANCIONEIRO CHINEZ» por ANTONIO FEIJO
+
+
+Dizia Oliveira Martins que o condão das bellas obras era relerem-se
+indefinidamente. Ha treze annos que se publicou a primeira edição do
+_Cancioneiro Chinez_. Desde então a poesia, sobretudo no mundo latino,
+passou pela mais vertiginosa e estranha evolução, resvalando da _noble
+ordonnance_ parnasiana até a anarchia quasi chaotica do decadismo, do
+symbolismo, do instrumentismo, do amorphismo e d'outras phantasias
+prosodicas e metricas. E, todavia, a segunda edição d'esse livro,
+eminentemente artistico, nada mais faz do que renovar em quem o lê a
+sensação de graça lyrica, de finura conceptual, de impecavel belleza
+plastica, que fez o successo d'essa admiravel e feliz adaptação do
+lyrismo chinez á nossa lingua.
+
+O trabalho de Antonio Feijó conseguindo, atravez das versões francezas,
+tão maravilhosa transposição, sem estiolar a frescura emotiva do
+original, é um dos mais bellos esforços d'arte e de gosto que a poesia
+portugueza do fim do seculo passado tentou e realizou. Com a maestria
+d'um habilissimo artifice da palavra, com a paciencia meticulosa d'um
+beneditino do verso, elle trabalhou, limou, burilou essas pequenas e
+graciosas joias, onde nos engastes da phrase perfeita scintillam as
+gemmas da emoção lyrica. E como se não cingiu ás formulas inconstantes
+da moda litteraria, como, em vez de martellar n'um molde o _plaqué_
+d'uma rethorica falsa, lavrou o seu pensamento no oiro puro do verbo
+classico, a sua obra não envelheceu, não desbotou, nada perdeu do seu
+brilho primitivo, e hoje, como ha treze annos, fulgura com o
+inextinguivel esplendor do talento.
+
+É difficil apreciar bem uma versão, quando se não conhece a lingua
+original da obra vertida. Mas mais difficil se torna ainda o fazel-o,
+quando as duas linguas são tão dessimilhantes, de familias tão diversas,
+de estrutura phonetica e até graphica tão differentes como são a nossa e
+a chineza. Comtudo, se puzermos em confronto esses lindos poemazinhos e
+as traduções da eminente sinologa, madame Judith Gautier, que verteu os
+originaes chinezes para prosa franceza, fica-se surprehendido com a
+exactidão, a fidelidade, o respeito meticuloso do texto, a que Antonio
+Feijó se adstringiu no seu conscienciosissimo trabalho. Não é d'elle que
+se poderá dizer: _traduttore, traditore_. Se os poemas chinezes são o
+que a erudita filha do grande Théo nos revelou nas bellas paginas do
+_Livro de Jade_, póde afoitamente dizer-se que o _Cancioneiro_ de
+Antonio Feijó é a mais irreprehensivel e leal das traducções.
+
+Mas abstraiamos d'este ponto de vista. Supponhamos que Antonio Feijó não
+buscou nos poetas chinezes mais do que motivos lyricos, para sobre elles
+ensaiar variações ou glosas. Supponhamos que o Cancioneiro não é uma
+traducção, nem uma adaptação, mas a obra de um poeta europeu, finamente
+perfumada de orientalismo. Nem por isso a sua belleza seria menor, nem
+por isso seriam menos admiraveis os versos purissimos d'essa purissima
+obra d'arte. O auctor teria, neste caso, affirmado mais poderosamente as
+suas faculdades de poeta e de artista, porque seria um semi-creador. E o
+_Cancioneiro_, reduzido a uma imitação, não diminuiria de valor sob o
+ponto de vista litterario.
+
+Portanto, traducção, adaptação ou imitação, esse bello livro é, de
+qualquer forma, uma obra superior. As excepcionais faculdades poeticas
+de Antonio Feijó, a sua ponderação, o seu gosto, a luminosidade e
+elegancia do seu verbo, o seu poder de linha e de colorido, a sua
+technica admiravel e conscienciosa, patenteiam-se n'elle de uma maneira
+brilhante, impoem-se triumphantemente á nossa admiração. O _Cancioneiro
+Chinez_ marca em Antonio Feijó a plena affirmação da sua individalidade
+de artista--d'esta individualidade, que já as _Transfigurações_, um
+tanto frias nas suas linhas esculpturaes, e as _Lyricas e Bucolicas_,
+mais vivas e emocionadas e não menos bellas como forma, annunciavam
+promettedoramente. Do _Cancioneiro Chinez_ á _Ilha dos Amores_ havia
+apenas um passo a dar. Antonio Feijó deu-o com raro brilho--e tornou-se
+um poeta consagrado, um verdadeiro mestre do verso.
+
+_O Cancioneiro_, além do _Portico_, que abre com a exotica decoração e
+as sentenciosas inscripções de uma entrada de Pagode, foi accrescentado
+com _O sacrificio de Gu-So-Gol_, um canto soberbo de epopeia barbara.
+Neste trecho Feijó como que põe mais uma corda na sua lyra--a corda
+epica. O quadro d'esse sacrificio heroico é, realmente, grande e nobre.
+A flauta de yade, que modulava as docuras idyllicas ou elegiacas do
+_Leque_, _Flôr Vermelha_, _Casa no Coração_, _Batel das Flores_, _Esposa
+Honesta_, cede a vez á turba estridente que clangora as sublimidades do
+heroismo. Os versos resoam bronzeos, metallicos, como um ruido de armas.
+O seu rythmo alonga-se, ergue-se, empola-se, como uma vaga que o sopro
+da tempestade entumesce. E em todo esse bello episodio uma forte
+crispação tragica passa, fazendo-nos vibrar de um confuso sentimento,
+mixto de terror e enthusiasmo epico.
+
+_Jornal da Noite_, de 14 de Agosto de 1909.
+
+Luiz de Magalhães.
+
+
+
+
+INDICE
+
+
+Prefacio, _por Luiz de Magalhães_
+Antonio Feijó, o que morreu de amor, _por Alberto d'Oliveira_
+Dedicatoria
+Elegia d'abertura
+
+
+SOL DE INVERNO
+
+
+I
+
+Descendo a encosta do Parnaso (_A João Arroyo_)
+A Armadura (_Ao Dr. Góran Björkman_)
+A cidade do Sonho (_Ao Visconde de Pindella_)
+Beatitude amarga (_A Silva Ramos, da Academia Brasileira_)
+Castello bárbaro (_A José d'Azevedo Castello Branco_)
+A Aguia prisioneira (_A Manuel da Silva Gayo_)
+A Selva escura (_A João Chagas_)
+O Livro da Vida (_A Antonio de Cardiellos_)
+
+
+II
+
+Dyptico
+ » I
+ » II Eu e Tu
+Paladinos (_Á Condessa d'Arnoso_)
+ » I Conde d'Arnoso, João
+ » II Conde d'Arnoso, Bernardo
+Cabellos brancos, (_A D. Thomaz de Mello Breyner_)
+Somnambula (_A João Caetano da Silva Campos_)
+Cysne branco (_A Alberto d' Oliveira_)
+Supplica ao Vento (_A Luiz de Magalhães_)
+Gota de agua (_A memória de A. Rodrigues Braga_)
+A Ventura (_A Anthero de Figueiredo_)
+Entre pinheiros e cyprestes (_A meus sobrinhos Salvato e Ruy_)
+Rio amargo (_A meu irmão Julio de Castro Feijó_)
+
+
+III
+
+Hymno á Vida (_A Agostinho de Campos_)
+ » » Belleza (_A Eugenio de Castro_)
+ » » Dor (_Aos Condes de Sabugosa_)
+ » » Alegria (_A Carlos Malheiro Dias_)
+ » » Solidão (_Ao Padre J. I. de Araujo Lima_)
+ » » Morte
+Epilogo
+
+
+LENDAS E FABULAS
+
+Preludio
+O Amor e o Tempo
+Fabula antiga (_A Manuel d'Oliveira Monteiro_)
+Cleopatra (_A José Coelho da Motta Prego_)
+Moiro e Christã (_A Antonio de Barbosa de Mendonça_)
+A resposta do Árabe (_A João Gomes d'Abreu e Lima_)
+A vocação d'Ibrahim (_A Aristides da Motta_)
+A Princesa encantada (_A Alfredo da Cunha_)
+O Romance da Pastora Linda (_Ao Conde de Bertiandos_)
+A Lenda dos Cysnes (_A Julio Dantas_)
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Sol de Inverno, by António Feijó
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SOL DE INVERNO ***
+
+***** This file should be named 19532-8.txt or 19532-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ http://www.gutenberg.org/1/9/5/3/19532/
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
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+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
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+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
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+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
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+works. See paragraph 1.E below.
+
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+
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+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
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+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
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+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
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+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
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+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
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