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You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Sol de Inverno + ultimos versos : 1915 + +Author: António Feijó + +Contributor: Luis Magalhães + +Release Date: October 13, 2006 [EBook #19532] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SOL DE INVERNO *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + +SOL DE INVERNO + + + + +OBRAS POÉTICAS, COMPLETAS DE ANTONIO FEIJÓ + + +_Sacerdos Magnus_, 1881. +_Transfigurações_, 1882. +_Lyricas e Bucolicas_, 1884. +_Cancioneiro chinês_, 1903 (2.^a edição). +_Ilha dos Amores_, 1897. +_Bailatas_, 1907. +_Sol de Inverno_, 1922. +_Novas Bailatas_, no prelo. + + +Nota: As _Bailatas_ foram publicadas sob o pseudónimo de _Ignacio de +Abreu e Lima_. + + + + +[Figura: Antonio Feijó] + + + + +ANTÓNIO FEIJÓ + + +Sol de Inverno + +ULTIMOS VERSOS + +(1915) + + +Livrarias AILLAUD e BERTRAND +PARIS-LISBOA +1922 + + + + +Tip. do Anuário Comercial--Praça dos Restauradores, 24--Lisboa + + + + +PREFACIO + +I + + +Com o _Sol de Inverno_, que, n'este volume, vê a luz da publicidade, e +com as _Novas Bailatas_, que vão entrar no prelo, a obra poetica de +Antonio Feijó encerra-se por duas magnificas affirmações do seu alto, +delicado e gentilissimo talento. A sua Musa emmudece para sempre. A sua +lyra quebra-se. Esses dois livros posthumos são o seu harmonioso canto +do cysne... É um grande poeta e um grande artista do verso que dizem o +supremo adeus á sua arte, exercida com tanta paixão e tanta nobreza! + +Esses livros deixou-os o Auctor dispostos, coordenados, paginados, +revistos minuciosamente, para os fazer imprimir. A morte permittiu-lhe, +ao menos, cuidar d'esse legado valioso e opulento, que ia testar á +litteratura patria. Quando ella o surprehendeu, a 20 de junho de 1917, o +trabalho estava acabado. + +Mas o mundo ardia em guerra. A Europa era um campo de batalha gigantesco +em que os povos, como os Titans da gigantomachia do mytho hellenico, +luctavam braço a braço, trucidando-se em torrentes de sangue. As +communicações entre a Suecia, onde Feijó fallecera, no seu posto +diplomatico, e Portugal, estavam quasi cortadas. Os preciosos e +insubstituiveis originaes não podiam ser confiados a transportes +aventurosos, a correios irregulares e incertos, ás suspeitas da censura +dos belligerantes, aos riscos dos torpedeamentos maritimos. Foi preciso +que a paz se fizesse emfim e, com ella, a ordem e a normalidade da vida +internacional começassem a restabelecer-se n'esta convulsionada Europa, +para que o espolio litterario de Antonio Feijó pudesse vir com segurança +para Portugal, trazido pelas mãos dos seus proprios filhos. + +A mim, seu velho companheiro e camarada, a elle ligado, desde os dezoito +annos, pela mais fraterna amizade, foi confiado o encargo de +superintender na publicação d'esses livros e de a preceder de algumas +palavras em que se esboce o perfil do Auctor e se ponham em justo relevo +os meritos eminentes da sua bella obra. + +Encargo, ao mesmo tempo doloroso e grato, em que, á profunda saudade do +querido amigo morto, se juntou o enlevo espiritual de me absorver nas +altas emoções estheticas que a leitura d'esses dois livros tão +intensamente me fazia sentir! + +Com que doce melancholia, com que piedoso recolhimento, com que +commovida curiosidade, com que alvoroçado interesse eu folheei os dois +originaes, copiados á machina, mas, quasi a cada pagina, emendados pela +sua lettra, com os offerecimentos aos seus amigos traçados pelo seu +punho, com os appendices, em que se archivavam os juizos criticos das +suas obras anteriores, por elle proprio coordenados! + +Era o seu espirito que, d'essas frias regiões scandinavas, para onde os +azares da vida haviam exilado esse meridional de tão viva e ardente +imaginação, era o seu espirito que de lá nos vinha n'essas paginas, +palpitantes de emoção lyrica, sonoras de rythmos musicaes e de rimas +harmoniosas, todas refulgentes do esplendor das imagens e da pureza +plastica d'uma forma impecavel! Esse dom de immortalidade espiritual, de +revivescencia dos mortos na memoria das suas altas acções ou no +esplendor das suas grandes obras, senti-o, n'essa hora, tão +profundamente, que o meu coração, por momentos, se hallucinava, dando-se +a illusão de que era o proprio poeta que me estava recitando as suas +ultimas poesias, n'aquella dicção perfeita que tanto fazia realçar as +qualidades do seu verso! + +Era com a sua alma que eu estava em contacto tambem,--com a sua alma nos +derradeiros annos da sua vida,--porque, n'esses livros, havia muito dos +seus affectos, dos seus pensamentos intimos, das suas alegrias e +esperanças, das suas mágoas, da suas torturas, das suas dolentes +nostalgias... + +Ambos elles estavam concluidos e preparados para o prelo antes d'aquelle +supremo infortunio da sua vida, que foi a perda da sua adorada mulher, +levada pela morte em setembro de 1915, ainda em plena mocidade e em todo +o encanto da sua grande elegancia e brilhante formosura. + +O offerecimento do _Sol de Inverno_ não é feito á sua memoria, mas a +ella ainda viva e presente no lar domestico. Nas cartas que d'elle +recebi no curto periodo da sua viuvez,--uns vinte mezes,--referia-se aos +dois livros como a uma obra feita. Depois do golpe, de cuja incuravel +ferida lhe havia de resultar, mais tarde, a morte, não appareceram, nos +seus papeis,--que eu saiba,--vestigios d'um regresso á actividade +litteraria. D'isso me fallava ás vezes, quando me escrevia, mas como +d'uma intenção, não como d'um facto. + +_Sol de Inverno_ e _Novas Bailatas_ devem conter, portanto, as +derradeiras producções poeticas de Antonio Feijó. São o fecho da sua +obra e são realmente um remate superior, em que o seu talento e a sua +arte se ostentam em plena maturação e plena mestria. Não lhe foi dado a +elle assistir ao seu maximo triumpho litterario, á publicidade d'aquelle +dos seus livros, o _Sol de Inverno_, que o qualifica, definitivamente e +sem favor, um grande poeta. + +A esse triumpho tambem os seus amigos não assistem com aquelle jubilo +que experimentariam se lhe pudessem manifestar a sua admiração, se +pudessem acclamal-o a elle em pessoa, não apenas á sua memoria e ao seu +nome, agora gloriosamente consagrados. + +Por mim, fal-o-ei n'esta evocação da saudade, que é o conforto da alma +no declinar da vida e tem o dom maravilhoso de resuscitar +espiritualmente os mortos. + +Se julgo poder dominar as suggestões da amizade ao tratar da obra d'um +tão grande amigo, não me é, por outro lado, possivel fallar d'elle sem +que, a cada passo, esse affecto fraterno não transpareça nas minhas +palavras, sem que tenha de referir-me ás nossas intimas relações, +mettendo o leitor na confidencia de velhas lembranças pessoaes, que para +elle podem, comtudo, ter interesse, por dizerem respeito a uma tão +notavel individualidade. + + +II + +Por fins de outubro de 1877,--pouco falta para a conta d'um longo meio +seculo!--em Coimbra, um bando alegre de _novatos_ de Direito, no +intervallo de duas aulas, subia ruidosamente a ingreme escada da torre +da Universidade, e, lá do alto, n'um largo desafogo, estendia a vista +por esse incomparavel panorama do valle do Mondego, entre cujo +legendario quadro lhes ia correr todo um lustro de intensa vida mental, +de tremendas controversias de ideias, de extases poeticos, de sonhos de +juventude, de esperanças, de chimeras,--essa divina florescencia do +espirito, que marca, na nossa existencia, o seu momento superiormente +bello e culminantemente feliz. + +Eu era d'esse grupo. Mal nos conheciamos de vista uns aos outros: havia +apenas coisa d'uma semana que, pela primeira vez, nos juntaramos nos +bancos da nossa aula. Vinhamos de todas as provincias de Portugal: como +acontecia sempre nos grandes cursos de Direito, havia, entre nós, +minhotos, transmontanos, beirões, extremenhos, alemtejanos, algarvios, +ilheus,--cada um com o seu typo ethnico, o seu sotaque regional. Ao +acaso, misturavamo-nos, entabolavamos conversas superficiaes, trocavamos +impressões rapidas, no deslumbramento d'essa visão de belleza que se +estendia, deante dos nossos olhos, da montanha á planicie, da mancha +azulada e longinqua da serra da Louzã á ridente campina do Mondego, +tocada já pelos tons d'oiro do outomno. + +N'essa casual communicabilidade, achei-me a conversar com um rapaz, ao +lado do qual havia feito a esfalfante escalada da torre. Era um bello +moço, de hombros largos e um tanto cheio de corpo, cabello ligeiramente +aloirado, pelle clara e uns olhos castanhos sorridentes e um nada +maliciosos, atravez dos quaes como que se lhe via a clara intelligencia +e o vivo espirito. + +Dissemos meia duzia de coisas vagas sobre a paisagem, sobre Coimbra, +sobre os interessantes aspectos da velha Universidade, vista assim do +alto, no conjuncto irregular dos seus corpos assymetricos. Facilmente +nos descobrimos inclinações litterarias, citámos livros, fallámos de +escriptores, de poetas... E, d'esse encontro fortuito, d'esse momento +inolvidavel d'uma forte emoção de esthesia, partilhada por duas almas +apenas sahidas da adolescencia, nasceu, entre mim e Antonio Feijó, uma +amizade de irmãos, uma camaradagem de espirito, uma estreita communhão +moral, que, sem sombras, nem collapsos, mesmo através de longos +afastamentos, durou quarenta annos e só a Morte,-- só ella, a implacavel +ceifeira das minhas grandes amizades!--logrou cortar... + +Pouco depois, já no decorrer do primeiro anno do seu curso, Feijó +revelava-se um poeta á sua geração academica. + +Lembro-me perfeitamente dos primeiros versos que, d'elle, li. +Appareceram na _Sebenta_ da cadeira de Direito Romano. As _Sebentas_, +por esse tempo, juntavam, ás vezes, á utilidade das suas funcções +pedagogicas, o innocente deleite d'uma ou d'outra _perpetração_ +litteraria, em que ensaiavam as azas aquelles, do Curso, a quem a Musa +já provocava e seduzia... + +Um condiscipulo nosso, o bom João Martins, de Redondo, havia, n'uma +lição, estadeado uma vasta sabedoria, citando Ortolan com abundante +facundia. + +Dois dias depois, a _Sebenta_ inseria, em appendice, este soneto +anonymo: + +Quando o Martins deita falla +Sobre o Foral de Leão, +Palpitam de commoção +Todos os cantos da sala. + +Em saber ninguem o eguala! +Merece uma distincção +Quem refuta San Simão +E o positivismo abala; + +Quem leva ao fundo chaótico +Do Codigo Wizigothico +A branca luz da manhã, + +E, sendo um poço de sciencia, +Nos prova que, em descendencia, +É bisneto de Ortolan! + +Esta leve _boutade_ satyrica, d'uma factura correcta, bem versificada, +bem rimada, revelando uma facil e fina veia humoristica, fez successo. O +auctor escondera-se. Mas, dias depois, alguem o descobriu. Era Feijó. + +Não tardou muito que o seu nome passasse a ser conhecido nas rodas +litterarias de Coimbra. Já em Braga, onde fizera os preparatorios e onde +então João Penha, esse perfeito versificador, doutor «a quem as Musas +não fizeram mal», era venerado, e com justiça, como um mestre,--já em +Braga Feijó havia publicado, nas secções litterarias dos jornaes da +terra, algumas composições que denunciavam as suas notaveis disposições +poeticas. Era mais um poeta que o norte do paiz mandava a esse Parnaso +de Coimbra, onde, á falta d'uma Faculdade de Lettras, a doce paisagem, +os melancholicos olivedos do Penedo da Saudade, o encanto do Mondego, +com os seus pallidos renques de salgueiros, os seus laranjaes todos +floridos e rescendentes nas noites de maio, com os seus orpheons de +milhares de rouxinoes, com os seus luares de sonho que tudo +espiritualisam, e, sobre isto, a tradição dos grandes poetas que, desde +Camões e o bom Sá, por alli passaram, iniciavam as almas novas nas +emoções do lyrismo, desde a graça bucolica do idylio ou da egloga á +saudosa plangencia da elegia. + +A geração academica, que, por esse tempo, floria em Coimbra, está, póde +dizer-se, na derradeira phase da sua declinação, vae a apagar-se de todo +no crepusculo do seu occaso. Talvez metade d'ella se tenha sumido já na +voragem da morte. E, dos que restam, muitos viram já passada a _sua +hora_, aquella em que a sua personalidade plenamente se revelou no campo +de acção para onde as suas faculdades os levaram. A successão das +gerações parece vertiginosa a quem observa a diluição d'aquella a que +pertenceu nas sombras do tumulo ou no silencio do esquecimento... + +E, comtudo, essa geração não foi inteiramente infecunda em +individualidades de accentuado valor. D'ella sahiram homens publicos que +longo tempo occuparam o tablado politico, homens de lettras que marcaram +na vida litteraria do seu tempo, homens de sciencia, professores +abalisados, causidicos illustres, artistas notaveis,--e até soldados +heroicos e gloriosos, porque, entre os nomes dos que mais vieram a +illustral-a, se conta o de Mousinho d'Albuquerque. Foi a geração que +celebrou, entre magnificas festas litterarias e artisticas, o Centenario +de Camões. Foi a geração que veio a exercer a sua influencia na vida +nacional na passagem do seculo XIX para o seculo XX. + +Seria uma diversão descabida e longa o tentar agora julgal-a nos seus +merecimentos e defeitos, o procurar fixar as caracteristicas do seu +espirito e criticar as suas idéas e a sua acção. Mas póde dizer-se que +foi uma geração culta, uma geração activa sem impulsivos nervosismos +revolucionarios, uma geração intellectualmente equilibrada e até +disciplinada, uma geração que começou a romper com as formulas +doutrinarias e a vêr com senso critico os problemas philosophicos, as +questões politicas e as theses estheticas. D'isto lhe proveio, talvez, +aquella pontasinha de scepticismo intellectual que, até certo ponto, lhe +contaminou a vontade. Esta faculdade precisa do apoio da convicção e da +fé para não fraquejar na suas funcções directivas da acção humana. + +Litterariamente, ella produziu, sobretudo, poetas. Jayme de Magalhães +Lima e Trindade Coelho foram dos seus poucos prosadores. O verso teve +mais quem o cultivasse. E alguns d'esses cultores fizeram-n'o +notavelmente, como Feijó, Coelho de Carvalho, Silva Gayo, Luiz Osorio, +Queiroz Ribeiro, Alfredo da Cunha, para citar apenas os que persistiram +no officio e, pela publicação das suas obras, se cathegorisam +escriptores, por assim dizer, profissionaes. + +Por esse tempo, as influencias dominantes estavam n'um momento de +transição. Passava-se do romantismo grandiloquente e hyperbolico de +Hugo, da apaixonada e vehemente sensibilidade de Musset, do satanismo +artificial e elegante de Baudelaire para a arte plastica, esculptural e +rutilante do parnasianismo, de que eram corypheus illustres Gautier, o +_parfait magicien ès lettres_, Bainville, o _virtuose_ do verso, o +correcto e delicado Coppée, o solemne e marmoreo Leconte de Lisle, e +Sully Prud'homme, e Dierx, e Heredia, o inimitavel cinzelador e +esmaltador, cujos sonetos, ainda não colligidos nos esplendidos +_Trophées_, nos appareciam, uma ou outra vez, nas revistas litterarias +francezas. + +Dos nossos, admirava-se, enthusiasticamente, João de Deus, Anthero, +Junqueiro, Gomes Leal e apreciava-se com deleite Penha e Gonçalves +Crespo,--todos esses que haviam sido os mestres das gerações anteriores. + +O espirito de Feijó vasou-se n'estes moldes e reflectiu as phases d'essa +evolução do gosto litterario. Mas, com o tempo, a sua individualidade +caracterizou-se, marcou n'um forte relevo o seu perfil. A sua emoção +avivou-se e afinou-se. A sua technica apurou-se, desenvolveu recursos +excepcionaes. E assim se foi formando, de livro em livro, essa alta +figura litteraria,--uma pura e nobre figura de artista, consciencioso +até á meticulosidade no exercicio da sua arte, um mestre do verso e um +mestre da lingua, que, na sua obra, pouco volumosa, mas de indiscutivel +superioridade--_pauca sed bona_--deixou indelevelmente marcada a +grandeza do seu talento. + + +III + +Um mestre, sim! Elle foi-o, não só entre os da sua geração, mas tambem e +mais largamente na nossa poesia contemporanea. Porque ninguem o excedeu +no manejo do verso, ninguem o trabalhou com mais correcção metrica, mais +relevo na phrase, mais arte, mais pericia technica, ninguem lhe deu mais +ductilidade, mais elegancia, mais harmonia, mais sonoridade, mais +riqueza de rimas, mais graça de rythmo, do que o poeta excellente do +_Cancioneiro Chinez_, da _Ilha dos Amores_, do _Sol de Inverno_. + +Nem durezas, nem frouxidões, nem hiatos, nem cacophatons, nem +alliterações mal soantes, nem _muletas_, nem rimas forçadas, nem +impropriedades arrepiadoras, nem a banalidade das imagens e das phrases +feitas, como _clichés_ sempre promptos para qualquer reproducção. + +Já nas _Transfigurações_ e nas _Lyricas e Bucolicas_, que são as suas +_juvenilia_, esse poder e segurança de technica se haviam revelado. Mas +foi no _Cancioneiro Chinez_ que se affirmaram decisivamente. Feijó +attingiu ahi o inexcedivel. Ainda me recordo do encanto com que Anthero +saboreava essas pequenas composições, finamente desenhadas e coloridas +como uma delicada pintura em porcelana ou um _cloisonné_ ricamente +esmaltado, commentando-as com um sobrio «É perfeito!»--que, em tal +bocca, valia os mais extensos e laudatorios artigos de critica. + +Sobre as traducções em prosa de Judith Gautier e embebendo-se, num +estudo profundo do assumpto, do espirito do lyrismo chinez, elle tentou +e levou a cabo essa paciente e admiravel reconstrucção que é o +_Cancioneiro_, dando á poesia nacional um raro e magnifico exemplar da +arte do verso. + +Na _Ilha dos Amores_, o seu lyrismo intensifica-se e define-se, a sua +arte firma-se e completa-se. + +A sensibilidade lyrica palpita nas tres partes do livro, quer n'essas +«velhas canções d'amor» da _Ilha_, (onde ha uma lindissima _Ignez_, tão +intensamente dolorida, e uma admiravel _Lady D. João_, d'um +baudelairianismo profundo e vibrante), quer nas adoraveis oitavas do +_Auto do meu affecto_, tocadas da mais delicada graça, quer nas diversas +poesias que formam a _Alma triste_, entre as quaes se encontram, nas +mais variadas notas, verdadeiras maravilhas d'arte. + +Na plena posse dos seus dons de grande artista, o poeta realiza ahi o +seu anceio de perfeição plastica no verso, que elle nos formula n'estes +soberbos alexandrinos: + +Oh Musa Antiga, d'olhos placidos, rasgados +No marmore d'um busto aureolado e sereno! +Inspira-me e desvenda aos meus olhos nublados +A graça e a proporção do sentimento helleno. +Revela-me num gesto os mais altos modelos +Do Verso lapidar, para n'elle esculpir +Com encantos de deusa e doirados cabellos, +Essa flôr de volupia a tremer e a sorrir! +Ensina-me em segredo o genio incomparavel +De poder transformar os versos que componho, +E d'um jacto fundir, com uma arte impeccavel, +N'um distico immortal, a visão do meu Sonho! +Basta o oiro do Sol para a côr dos cabellos; +Para os olhos azues basta o azul crystallino, +Se o Verso lapidar souber circunscrevel-os +N'um jambo grego ou n'um hexametro latino!... + +Por entre este estrato lyrico rompem, na sua obra, veios de humorismo, +onde, n'um tom faceto, o poeta mantem todas as suas eminentes qualidades +de versificador. + +Nas _Bailatas_, dadas a lume sob o pseudonymo de Ignacio d'Abreu e Lima, +o fidalgo senhor do Castello de Anha, estheta enygmatico e extravagante, +reuniu Feijó as composições d'este genero. E deixou nas _Novas +Bailatas_, cuja impressão se seguirá á d'este livro, uma segunda série +d'essas originalissimas poesias, mixto singular de ironia e de +sensibilidade, de graça buffa e de melancholia, que, ás vezes, parecem +haver sido escriptas por um Pierrot, ao mesmo tempo sentimental e +charivárico. + +N'ellas ha, realmente, um fino espirito de farça, um extranho tom +joco-serio, transições bruscas da emoção para a gargalhada e da folia +incoherente para as lagrimas. A phrase mais grave termina n'uma sahida +jogralesca. A phantasia mais comica detona n'um grito de dôr. + +Algumas d'essas poesias, como _Sideria_, _Felina_, _Lithurgica_ e +outras, são antigas e encantadoras parodias do decadismo e do +symbolismo, que, um momento, despontaram e floriram na litteratura +portugueza. Rimas difficeis e imprevistas, rythmos confusos e +atropellados, alliterações onomatopaicas, imagens exoticas e +sybillinas,--tudo isso, que era a essencia d'aquella esthetica e +d'aquella prosodia, é manobrado com uma dextreza inegualavel, uma +phantasia surprehendente, fazendo, d'essas caricaturas, trabalhos do +mais fino e requintado acabamento artistico. + +Até n'essas _pochades_ em que elle desenfadadamente se comprazia, dando +sahida á sua _vis comica_, se sentia a mão habil e maravilhosa do +mestre. + + +IV + +Mas _Sol de Inverno_ é, sem duvida, a sua obra prima. + +No frontespicio, por baixo do titulo,--na realidade bello, mas talvez +suggerido por uma excessiva modestia e, por isso, improprio, como vou +explicar,--o poeta traçou estas palavras: _ultimos versos_. E foram-n'o, +de facto. Não porque o seu inverno fosse já tão adeantado que o sol do +seu talento não pudesse fulgurar ainda demoradamente no horizonte d'uma +dilatada vida. Não: o seu inverno ia apenas começar. Feijó não contava +então, mais de 57 annos. Ainda se podia considerar no seu outomno. Mas +parece que aquellas duas palavras, tristes como um distico tumular,--o +epitaphio da sua Musa,--exprimiam um presentimento fatidico. + +Esse anno de 1915, em que elle coordenou e preparou o seu livro para o +entregar ao prelo, foi-lhe terrivelmente angustiado e doloroso. A esposa +estremecida, a quem o consagrava no verso tão profundamente amoroso de +Martial, debatia-se nos soffrimentos d'uma longa e torturante doença que +no mez de setembro veio a ter o seu desenlace fatal. A desgraça +ameaçava-o, pois, sinistramente. E elle adivinhava que não seria longa +(como não foi) a sua resistencia ao golpe rude e cruel que sentia +imminente. + +É claro que muitas das poesias colleccionadas no volume não são d'essa +epocha atribulada. E, assim, o sol que alli brilha tem muitas vezes, não +apenas a doce e serena luminosidade do outomno, mas até o fulgor ardente +d'um meio-dia estival. + +N'esse livro, o seu talento, inteiramente amadurecido, fructifica +esplendidamente. Está alli todo o seu coração, como está todo o seu +pensamento,--porque, n'esta derradeira phase, a sua poesia não nos dá +sómente emoções, mas suggere-nos tambem ideias. Na soberba serie dos +_hymnos_, póde dizer-se que se encerra toda uma philosophia. Ahi Feijó +ala-se ás regiões mais altas da poesia, áquellas que só attingem os +grandes espiritos. São odes sublimes, de um largo e poderoso sopro, onde +a sua alma se abre toda na adoração da _Vida_, da _Belleza_ e da +_Alegria_, se contorce nos transes da _Dôr_, se embebe na melancholia da +_Solidão_ ou se abysma na meditação hamletica da _Morte_. + +De todas as peças d'este hymnario, a ultima é talvez a maior, a mais +profunda. E encerra uma exegése da morte subtilmente verdadeira. A +sensação e a dôr da morte não estão no phenomeno da morte physica, em +si, no termo da nossa vida material. Estão na lenta morte moral do nosso +coração, no desapparecimento successivo dos que amamos e que levam, a +pouco e pouco, comsigo, para o mysterio do tumulo, pedaços vivos da +nossa alma. + +Toda essa ideia está admiravelmente expressa n'estas quatro esplendidas +quadras. + +Quantas vezes, na angustia, o soffrimento invoca +O teu suave dormir sob a leiva de flores!... +A morte que, sem dó, me tortura e suffoca, +É outra--essa que em nós cava sulcos de dores. + +Morte que sem piedade, uma a uma, arrebata, +Como um tufão que passa, as nossas affeições, +E deixando-nos sós, lentamente nos mata +Abrindo-lhes a cova em nossos corações. + +Parenthesis de sombra entre o poente e a alvorada, +Morrer é ter vivido, é renascer... O horror +Da morte, o horror que gera a consciencia do Nada, +Quem vive é que lhe sente o afflictivo travor. + +Sangue do nosso sangue, almas que estremecemos, +Seres que um grande affecto á nossa vida enlaça, +--Somos nós que a sua morte implacavel soffremos, +É em nós, é em nós que a sua morte se passa! + +Esta poesia, que Feijó, ahi por 1913, me mandou de Stockholmo para +Londres, onde então eu residia, fôra-lhe inspirada pela morte recente +d'um nosso amigo commum. E aos seus mortos, parentes e amigos, a +consagrou, como se vê do distico votivo que a precede: _Meorum +amicorumque pie manibus_. + +Toda uma intensa emotividade freme n'esse verdadeiro hymno sagrado, de +tão largo folego. Os que accusavam Feijó de frio e impassivel teem, +n'elle, como em muitas outras composições do _Sol de Inverno_, um formal +desmentido ao seu reparo. E, entre essas outras, citarei, especialmente, +essa torturada e angustiada _Supplica ao Vento_, de que transborda toda +a desolada nostalgia do exilio. Poucas vezes, desde Ovidio, lembrando, +tambem, nas neves do Ponto Euxino, a doçura radiosa do céu do Lacio, uma +voz de desterrado cantou mais amargamente e com tão empolgante emoção as +suas mágoas, as recordações da terra natal, a ancia de a rever em toda a +sua surprehendente formosura. São queixumes elegiacos, perdidos apellos +d'uma alma dilacerada, apostrophando o Vento que passa, a galopar +vertiginosamente nos espaços, e supplicando-lhe que leve á terra risonha +e luminosa e ao claro e cristalino rio, que a viram surgir á vida, o seu +amor soluçante e lacrimoso. Não se leem esses patheticos tercetos sem +uma crispação dolorosa de toda a alma. Mais d'uma vez ouvi suspender a +sua leitura a vozes subitamente embargadas pelas lagrimas. + +Já, na _Alma Triste_, essa incuravel nostalgia transparece em algumas +poesias alli reunidas. É ella, mesmo, como um _leit-motiv_ favorito. +_Domingo em terra alheia_, _Soliloquio do Outomno_, _No mez de Abril_, +_Silencio_, _No campo_, _Inverno_, ressumam as melancholias d'um +espirito esmagado pelas brancas avalanches das neves hyperboreas e +sempre saudoso do ardente e claro sol do seu paiz distante. + +Ouçamos as lindas quadras finaes do _Inverno_, onde esse sentimento tão +docemente se exprime: + +Nasci á beira do Rio Lima, +Rio saudoso, todo crystal; +D'ahi a angustia que me victima, +D'ahi deriva todo o meu mal. + +É que nas terras que tenho visto, +Por toda a parte por onde andei, +Nunca achei nada mais imprevisto, +Terra mais linda nunca encontrei. + +São aguas claras sempre cantando, +Verdes collinas, alvôr d'areia, +Brancas ermidas, fontes chorando +Na tremulina da lua-cheia... + +É funda a mágoa que me exaspéra, +Negra a saudade que me devora... +Annos inteiros sem primavera, +Manhãs escuras sem luz d'aurora! + +Oh meus amigos, quando eu morrer, +Levae meu corpo despedaçado, +Para que eu possa, já sem soffrer, +Dormir na Morte mais descansado! + + +V + +A critica inscreveu o nome de Antonio Feijó no rol dos parnasianos +portuguezes. + +Não discutamos essas classificações d'escolas, que nem sempre são +precisas, nem fundamentaes. Se o parnasianismo se caracteriza, de facto, +pelo rigoroso cuidado da forma, pelo culto da belleza verbal, das linhas +marmoreas da phrase, do seu corte lapidar, da riqueza das rimas, da +euphonia dos rythmos, do poder evocativo das imagens,--Feijó pode +chamar-se, com acerto, um parnasiano. A miudo elle repetia o preceito de +mestre Theo: _Ce qui n'est pas bien fait, n'est pas fait_. Mas o que +elle foi, na verdade, sem contestação e fundiariamente, foi um lyrico, +na mais ampla plenitude da designação. + +Toda a sua obra é dominada por essa nota emotiva, por esse accento de +viva sensibilidade que constituem a essencia do lyrismo. O amor, o +eterno amor, o enlevo da belleza, as torturas da paixão, as suaves +melancholias, os tedios enervantes, as graças preciosas da +galanteria,--são a substancia psychica da sua poesia. + +Essas emoções sabia elle cristalisal-as n'uma forma requintadamente +perfeita e na maior variedade de tons e de estructura estrophica. Ha +poetas que se fixam n'um metro, ou pouco mais, e quasi não variam de +tonalidade. O verso de Feijó é ricamente polymorpho e a escala dos seus +tons muito extensa. A sua versificação tem amplitude e largueza; mas, +tem, egualmente, elegancia, frescura e graça. Esculpe poderosamente o +alexandrino, mas torneia delicadamente a redondilha menor e modela, com +arte, as mais extranhas formas da estrophe composita. + +Feijó, pelas qualidades do seu espirito refinado e distincto, não podia +ser um poeta popular. O seu publico, de _conhecedores_ e _dilettanti_ da +arte pura, tendo o culto do bello e um gosto exigente, foi sempre um +circulo limitado, essa elite intellectual e esthetica, restricta em +todos os paizes, mas, naturalmente, muito restricta no nosso. Além +d'isso, a sua perfeita dignidade de escriptor e a sua aprumada linha +moral, tornavam-n'o avesso a todo o exibicionismo, a todo o reclamo, a +todos os secretos manejos de notoriedade banal. + +Soffreu, sem duvida, a influencia da evolução litteraria do seu tempo. +Mas, no fundo, ficou sendo sempre quem era e não se curvou aos ephemeros +gostos do publico para lhe fornecer, como uma «moda de estação», uma +qualquer _camelotte_, que a sua facil destreza lhe permittiria manipular +com abundancia. + +Delicado d'alma e, por isso mesmo, retrahido, tão probo de espirito como +de caracter, não vivendo da sua arte, mas para a sua arte, não +despresando a gloria, mas não requestando a popularidade ephemera e +superficial, Feijó realisou o typo acabado d'um puro artista, que, por +todas essas superiores qualidades, juntas ao talento, acaba sempre por +conquistar uma final consagração no mundo das lettras e das artes. + + +VI + +A litteratura era a sua vocação. A diplomacia foi, na sua vida, um +occasional desvio de destino. + +Quando se formou, Feijó pensou em advogar. E buscou iniciar-se no +officio, praticando no escriptorio de seu irmão José, que era, n'esse +tempo, um dos mais reputados causidicos do Minho. Não se entendeu, +porém, com os autos. A breve trecho, escrevia-me, dizendo-me que +desistia da sua tentativa forense e se lembrava de ir correr e ver +mundo... por conta do Estado, já que, para isso, lhe faltavam os meios +proprios. Pensára em ser consul. + +A carreira consular tornara-se, então, a carreira favorita dos nossos +litteratos: eram consules o Barão de Roussado, Eça de Queiroz, Batalha +Reis, Jayme de Seguier, Coelho de Carvalho, Wenceslau de Moraes,--talvez +ainda outros que me não lembram agora. Feijó foi aos concursos e, poucos +mezes depois, despachavam-n'o para o Rio Grande do Sul. Foi em 1886. Por +essa occasião, o conselheiro Nogueira Soares, modelo de funccionarios e +um dos mais perfeitos homens de bem que tenho conhecido, era nomeado +nosso ministro no Rio. Feijó fez com elle a viagem e, antes de ir para o +seu posto, esteve uns mezes trabalhando na legação. + +Do Rio Grande passou para Pernambuco e de Pernambuco foi transferido +para Stockholmo. Ahi serviu com o legendario visconde de Sotto Mayor, o +famoso dandy e temivel parlamentar, havia longuissimos annos aposentado +em diplomata n'essa côrte do extremo Norte. E ahi, á morte do seu velho +chefe e depois d'uma demorada encarregatura de negocios, o fixou para +sempre a sua promoção a ministro, determinada por uma reforma dos +serviços diplomaticos. + +Nestas altas funcções, Feijó deu as mais seguras provas da sua +competencia. Infelizmente, aquella legação não tinha importancia +correspondente ao seu valor, nem lhe podia dar ensejo a exercer +plenamente as suas faculdades e talentos. «Estou aqui encalhado, a +apodrecer»--escrevia-me elle um dia. E era verdade. Via-se immobilizado, +inactivo, desconsoladoramente reduzido, pela mediocridade do seu posto, +a uma situação subalterna, quasi que ao simples serviço de expediente e +á representação protocolar. Sentia-se com hombros para mais pesados +encargos e mais arduos trabalhos--e doía-se de se não ver utilisado. O +seu ideal de funccionario, zeloso, meticuloso, honestissimo e +trabalhador como poucos, não era, positivamente, o gôzo d'uma sinecura. + +Feijó foi, na diplomacia, uma força desaproveitada. Além d'aquelles +predicados, sobejavam-lhe as faculdades proprias do officio. Era subtil +e d'uma prompta e profunda perspicacia; via bem, em conjuncto, os +multiplos aspectos d'um acontecimento ou d'uma negociação; estudava as +questões com ponderação e methodo; cauteloso, preparava seguramente o +seu terreno antes de avançar; sabia (o que, na esgrima da diplomacia, é +essencial) dosear, na sua justa e precisa medida, a finura e a lealdade; +tinha, em subido grau, a correcção, a serenidade, a discreção, o tacto e +esse grande e supremo dom que é, na vida ordinaria, como na vida +politica, o nosso melhor guia, a nossa mais bem polarisada bussola--o +bom-senso. + +Tudo isto se valorisava e realçava pelo seu fino trato, pela amenidade e +cortezia das suas maneiras, pela seducção da sua conversa, pelo brilho e +a cultura do seu espirito, que tornavam sempre querida e agradabilissima +a sua companhia, quer nos meios litterarios, quer nos meios mundanos. + +E este é outro aspecto interessante da sua individualidade. Desde +Coimbra, Feijó foi sempre o melhor e o mais deleitoso dos companheiros. +A elegancia despretenciosa da sua palavra, a graça especial com que +contava uma anedocta, o _humour_ ligeiro, e levemente malicioso ás +vezes, que punha no commentario a um successo ou na critica a uma +personalidade, o pittoresco evocativo de suas narrações de viagem e a +expansiva jovialidade do seu forte temperamento--faziam d'elle um +_cavaqueador_ irresistivelmente atrahente. + +Elle era então, e foi por muitos annos, uma natureza robusta e alegre, +um _dyonisiaco_, amando a vida e a belleza, um sorridente epicurista, +gozando com volupia o instante fugitivo, mas um epicurista delicado, que +punha, em todo o prazer, uma ponta de idealismo ou de emoção esthetica. +Nas suas veias, onde corria bom sangue das velhas linhagens minhotas, +devia haver mais globulos do do seu illustre patricio Diogo Bernardes, o +cantor do «saudoso, brando e claro Lima», que elle descobrira na sua +ascendencia, do que do d'esse _Feijóo escudeiro_, do tumulo de Celanova, +_bom fidalgo e cavalleiro, gran cazador e monteiro_, a quem o poeta +consagra a poesia final da _Alma triste_. + +O seu contacto dava alegria, dava saude. Sob a suggestão do seu espirito +parecia que tudo se animava e resplandecia, que a propria existencia se +tornava mais amavel, mais apetecivel. De toda a sua pessoa, irradiava a +_joie de vivre_. Junqueiro chamava-lhe, então, o _opiparo_ Feijó... + + +VII + +Mas um dia, um grande infortunio,--a viuvez inconsolavel, o seu pobre +lar em ruinas,--devastou-lhe a alma, prostrou-o, roubou-lhe toda a +alegria, envelheceu-o precocemente, tornou-lhe os ultimos mezes da sua +vida tão negros, tão desolados, como essas interminaveis noites boreaes +que tanto o torturavam e entristeciam,--a elle, filho d'estas bemditas +terras do Sul!... + +O que foi esse drama, em todo o desenrolar das suas mágoas e +soffrimentos, dil-o o eloquente, commovido e fino commentario que, +através das cartas do poeta, n'esse periodo, lhe faz Alberto d'Oliveira +na communicação sobre a sua morte, dirigida á Academia Brazileira e que +o leitor lerá com interesse e admiração, a seguir a este prefacio. + +Ultimamente, porém, parecia querer reagir, despertar d'essa longa atonia +dolorosa. Refugiado no amor dos filhos e na saudade da patria, onde ha +oito annos não vinha, o seu derradeiro sonho foi revel-a, vir percorrer +ainda uma vez o seu Minho querido, contemplar as aguas mansas do seu +Lima, retemperar o coração n'essa magica visão de belleza e encanto, +que, para todo o portuguez, ausente ou exilado, é este incomparavel +torrão de Portugal! + +N'este anceio, n'este volver d'olhos, sobre a Europa em guerra, para a +patria distante, surprehendeu-o bruscamente a morte. + +Exhausto de soffrer, o seu crucificado coração parou de subito, +immobilisado para sempre! + +E de novo ao sahir d'esta angustia demente, +Sinto bem que tu és, para toda a amargura, +A Euthanásia serena, em cujo olhar clemente +Arde a chamma em que toda a escoria se depura. + +É pela tua mão, feito um rasgão na treva, +Que a alma se liberta e, d'esplendor vestida, +--Borboleta celeste, ebria de Deus--se eleva +Para a Luz immortal, Luz do Amor, Luz da Vida! + +Assim dizia elle á Morte no seu grande hymno, já atraz citado e que +ficará como uma das maiores glorias da sua lyra. + +Assim deve ter sido a sua--uma transição insensivel, uma serena +Euthanásia, bella como todos os seus sonhos de poeta! Assim se deve ter +evolado, para a Luz immortal do Grande Mysterio, a sua alma boa e pura, +sempre voltada para o Amor e para a Vida! + +Luiz de Magalhães. + + + + +ANTONIO FEIJÓ, O QUE MORREU DE AMOR + +(Lido na Academia Brasileira, sessão de 28 de Junho de 1917) + + +A Morte astuciosa--ou caridosa?--antes de apoderar-se finalmente da +nossa vida, enceta a sua tarefa inexoravel hospedando-se pouco a pouco +nos melhores recantos d'ella. Todo o homem que dobrou os quarenta annos +conhece essa primeira visita e tem de preparar-se para essa longa +hospedagem. Cada coração, que só carinhos e affectos alojava, eis que um +dia recebe ordem de aboletamento para a pavorosa Intrusa, de que lhe +cumpre fazer companheira de casa. E o espaço, a principio exiguo, que +ella reclama, nunca mais deixa de alargar-se em seu proveito. Os seres +mais queridos, os mais amados, temos de perdel-os para que ella lhes +ocupe o logar. Vão faltando os parentes, vão morrendo os amigos, um a +um, em periodos cada vez menos espaçados. Começamos, ao romper da vida, +crendo-nos donos do Universo, e com que pressa o nosso dominio se +limita, se estreita, até n'elle nos sentirmos demais! Quando emfim a +nossa hora chega, já não é senão um fragmento ultimo e minimo da vida +que abandonamos á Morte. O coração, a que ella faz parar a fatigada +corda, estava tão atravancado de cadaveres que já não podia bater +livremente. + +Estou experimentando o sobresalto d'esses avisos sinistros, e já não são +os primeiros. Ha seis annos era o conde d'Arnoso, deixando um claro, que +nada e ninguem mais preencherão, na calma felicidade dos meus dias. Em +1915 foi Ramalho Ortigão, esse ao menos depois de uma longa e bem +aproveitada vida. Quasi ao mesmo tempo, em 21 de setembro do mesmo anno, +morria em plena mocidade e formosura Dona Mercedes Feijó, a mulher +querida de um dos meus mais fieis amigos. E agora, a 21 do mez, vinte e +um mezes exactos depois da desgraça a que não conseguiu mais +resignar-se, é António Feijó que morre por sua vez, que morre de amor e +de saudade por aquella que era o raio de sol da sua vida. + +Morreu de amor o poeta amoroso que as neves da Scandinavia e a fleugma +profissional da diplomacia nunca fizeram esquecer de que era um +conterraneo de Diogo Bernardes e de que a sua alma fôra tambem creada á +beira da poesia e da melancholia tão lyricas do Rio Lima. Morreu de amor +o loiro fidalgo minhoto, herdeiro de muitas gerações de cavalleiros e +trovadores, cuja antiga formação affectiva e moral nunca se alterou no +seu perpetuo exilio, nem no convivio mediocre ou mesquinho dos seus +contemporaneos. Morreu de amor Antonio Feijó, tão verdadeiramente como +se morria de amor em Portugal no seculo XIII, no tempo d'aquelle Dom +Pedro Roiz que mandou esculpir no seu tumulo essa causa unica da sua +morte. Morreu de amor, começou a morrer de amor no momento em que viu +para sempre + + Deitada no caixão estreito, +Pallida e loira, muito loira e fria, + +aquella mulher tão amada a quem sem o saber, sem a conhecer, tantos +annos antes, fizera propheticamente, num dos seus mais bellos sonetos, o +commovedor necrologio. + +Antes de morrer de amor, no entanto, menos desafortunado que Dom Pero +Roiz, Antonio Feijó vivera de amor. Sua mulher dera-lhe, em seguida a um +longo noivado, quinze annos de intima ventura e dois formosos filhos. +Mas Dona Mercedes Feijó era em tal grau a imagem da Belleza e da Graça +que perdel-a, depois de ter vivido longo tempo sob a sua luz e calor, +tinha de ser, como foi, a maxima angustia. Feijó sabia, podia medir com +dolorosa precisão o tamanho e o valor da sua perda. Creio que poucas +vezes encontrei creatura feminina tão seductoramente bella. Dona +Mercedes era filha de pai sueco e de mãe equatoriana. Cruzamento do Polo +e do Equador, como alguem disse, não é possivel imaginal-o mais feliz, +alliando a pureza quasi divina das raças do norte á exhuberancia e +alegria meridionaes. Era como um raio de sol corporizado; e +comprehendia-se bem que da vida d'ella, mais do que da propria, vivesse +o namorado companheiro. Não o sentiam talvez em toda a verdade senão os +intimos da casa, porque Antonio Feijó era pouco expansivo e resguardou +sempre o sacrario do seu Lar da luz crua e por vezes grosseira em que, +por dever de officio, tinha de mover-se. Para as pessoas extranhas elles +eram, sobretudo, um prestigioso casal de diplomatas a quem sobravam +intelligencia, elegancia, tacto e brilho mundanos para exercerem +completamente a sua missão. Feijó era ha mais de 20 annos ministro de +Portugal na Scandinavia e ha muito tempo tambem o decano do corpo +diplomatico de Stockolmo. Falava a lingua do paiz, conhecia toda a +gente, era amigo do Rei e da familia real, vivia rodeado das deferencias +e sympathias devidas ao seu talento e ao seu caracter, continuando e +excedendo a tradição deixada pelo seu espirituoso e lendario antecessor +Sotto Mayor, a quem a Suecia considerava, tal a sua popularidade, como +um sueco honorario. Madame Feijó era, uma vez ainda, como um raio do sol +equatorial n'aquellas sombrias regiões polares. A alegria e a vida da +sociedade de Stockolmo eram, em boa parte, obra sua. Toda a cidade a +chorou, sentindo a perda irreparavel. O seu enterro foi uma homenagem +imponente em que as flores mandadas pelos reis e principes das tres +côrtes da Scandinavia se misturavam com as flores do povo da pequena e +graciosa capital sueca. + +O meu querido amigo, apesar da profundeza e intensidade da sua dôr, +sentiu chegar até ella as lagrimas e os carinhos de tantos corações e +não poude deixar de impressionar-se com as provas de respeitosa e terna +consideração de que todo um povo estrangeiro o rodeava em tão amarga +hora. Mas não tirou d'essas homenagens o mais tenue balsamo para a chaga +em que se convertera o seu coração. N'ellas viu apenas que o encanto da +sua querida mulher era tão amplo e universal que até aos mais +indifferentes attingia. Reconheceu, com paciencia e lucidez--formas +terriveis, que, algumas vezes, reveste o desespero--que o seu lucto não +era qualquer lucto e que Deus lhe destinara, depois de uma ventura +excepcional, uma penitencia e uma amargura da mesma especie. E nada fez +para escapar-lhes. + +Tenho aqui as suas cartas, escriptas entre lagrimas; releio-as agora na +maior commoção, e n'ellas posso seguir, como a curva de uma ardente +febre, a historia completa da sua morte de amor. A ultima chegou só +hontem, como sobrenatural visita, já depois de fria e inerte a mão que a +traçou. Deverei ter escrupulo em citar aqui essas cartas? Não vejo, no +entanto, melhor maneira de render ao grande coração de Antonio Feijó o +preito que lhe devo. Não ha n'ellas uma palavra que possa parecer +indiscreta perante a dupla campa de que ellas ficarão sendo o epitaphio. + +Antonio Feijó tinha o habito supersticioso de escrever aos seus amigos +em papel de carta de formato e côr sempre differentes. A sua ultima +carta despreocupada e alegre é de 28 de fevereiro de 1914 e está +escripta, como que por estranho presentimento, em papel côr de rosa. +Nunca mais tive outra do mesmo humor ou da mesma côr. A carta seguinte, +datada de 20 de abril, é amarella, côr de outomno e de morte, e traz as +primeiras apprehensões duradouras sobre o estado de saude de sua mulher, +que, mezes antes, já lhe dera alguns passageiros cuidados. Mas desde +essa data nunca mais houve paz na sua vida. Folheemos devagar essa +amarga correspondencia: + +_18 de julho de 1914_: «Tenho tardado em dar-lhe noticias minhas, +porque, no estado de espirito em que ando, não queria affligir as suas +primeiras horas do Rio de Janeiro com lamentações e amarguras, a que o +seu coração amigo não póde dar remedio. A minha querida doente vai +melhor, já póde sair, já quasi póde fazer a sua vida habitual. Mas... +este _mas_ é que é a minha tortura de todos os instantes. Qualquer que +seja a natureza e gravidade da doença, as recaidas anteriores não me dão +a menor garantia para o futuro. É mais que provavel que a doença se +reproduza. Não sei o que ha de ser de mim. A _Imitação de Christo_, que +eu leio assiduamente, diz que _à chaque jour suffit sa peine_; mas eu +estou longe de ser um bom christão, e a resignação é uma virtude que +Deus só concede aos eleitos.» + +Sobreveio a grande guerra, que ruge e estrondeia tão proxima, e que +absorve o tempo e agita o espirito do diplomata. Mas, entre as suas +occupações e responsabilidades do momento, instala-se logo a afflicção +intima. Em 23 de outubro escreve-me: + +«De saude vamos indo, graças a Deus; mas, sempre naquella preoccupação +de que lhe tenho falado, não consigo horas de paz, já não digo perfeita, +mas resignada. O futuro, de facto, na nossa idade, ou antes na minha, +são apenas 24 horas, como V. diz; mas, 24 horas ou minutos que sejam, +todos nós ambicionamos passal-as tranquillamente.» + +A 1 de janeiro de 1915, dando-me as boas festas, accrescenta logo: +«Sinto-me num estado de espirito tão desolado e abatido que nem posso +conversar á vontade com os amigos mais queridos. A Mercedes anda outra +vez doente e eu estou com immenso receio que seja uma nova _poussée_ do +antigo mal. Trago o coração em sobresaltos.» + +Abre-se, então, um longo silencio, que as minhas cartas não conseguem +quebrar e que me inquieta progressivamente. Em julho, cedendo ás minhas +instancias, vêem duas palavras pelo telegrapho: «Mercedes sempre doente. +Estou desolado.» E em setembro, uma carta, de 26 de agosto, com tristes +noticias: «Tem razão para se queixar do meu silencio, mas não escrevo a +ninguem. Vivo apenas para a minha doente e para a minha dor. Parece, de +facto, injusto o martyrio que ella soffre, mas neste mundo os que +padecem são sempre os melhores e ella era a melhor de todos. Ha longos +mezes que a vida é para mim um suplicio, e sem esperança de lhe ver um +termo. Deus sabe o que terá succedido quando esta carta lhe chegar ás +mãos!» + +Com effeito. A previsão não falhou. Foi a 22 de setembro, na hora em que +eu embarcava para a Europa, que me chegou ás mãos um telegramma de +Stockolmo, datado da vespera, com estes dizeres apenas: «Tout est fini». +A censura de guerra não os deixára transmittir na nossa lingua; mas nem +assim me soavam menos tragicos aos ouvidos. Fiz toda a viagem com este +desgosto, não podendo crêr que uma tão luminosa e formosa mocidade se +pudesse assim bruscamente extinguir, e vendo naquella morte maldita um +verme hediondo que se houvesse introduzido, para o roer, na rosea polpa +do mais fresco e dourado fructo. A electricidade do mar, sempre para mim +tão contagiosa, não se me communicou desta vez. Fiz uma travessia +melancholica; e, ao desembarcar em Lisboa, esperava-me a noticia da +morte do meu venerado amigo Ramalho Ortigão, a quem eu queria como a um +avô, e que, poucos dias antes, se finara entre afflictivos soffrimentos. + +Não sei, nem agora me importa saber, se é monotona a descripção de uma +dôr humana, para os desconhecidos de quem a soffreu. Monotona será, mas +ai de quem lhe não sentir a grandeza e a belleza! Desde a morte de sua +mulher, as raras cartas de Antonio Feijó são um lamento continuo, cuja +leitura impressiona mais do que a mais perfeita litteratura. Percebe-se +que o viver assim já não tem de viver senão o nome, e verifica-se uma +vez mais que, sem o ponto de apoio do ideal, do sentimento ou da fé, a +vida a que o nosso instincto animal tanto se apega por vezes, é coisa +nenhuma. A primeira carta, sem data, diz assim, para não a copiar toda: +«Se um dia nos encontrarmos--do que duvido--então lhe contarei o que foi +o martyrio da minha pobre mulher, e o supplicio que foi a minha vida, +vendo-a soffrer sem remedio, para lhe esconder a natureza do mal e +alimentar-lhe a esperança da cura, que nunca, felizmente, a abandonou. +Morreu subitamente, sem agonia e sem perceber que era o fim. Não tenho +forças para lhe responder como desejava, nem para tomar qualquer +resolução. O futuro, na minha idade, como V. costuma dizer, são 24 +horas. Rapidas ou curtas, que ellas se passem como Deus quizer. Da minha +parte nada farei para as tornar menos pesadas, porque tudo é inutil.» + +Em 8 de janeiro de 1916, conta-me, mais demoradamente, o estado +desesperado da sua dôr. Vive como um somnambulo, não sabendo distrair-se +senão com a recordação do passado. «É só,--escreve-me,--e a remexer na +minha memoria attribulada, que as horas me passam menos +atormentadoramente.» Eu aconselhava-lhe uma viagem a Portugal. Elle +objecta: «Ir a Portugal agora é absolutamente impossivel, e essa viagem +não serviria senão para aggravar o meu soffrimento. Não ha sitio nenhum +por ahi, nem casa amiga, que me não desperte recordações e saudades +pungentes.» Fala-me, além disso, da educação dos filhos, que não deseja +perturbar, e vê-se que procura nelles a razão de viver, que a dôr +destruiu. Mas não o consegue. Conta-me com pormenores, pela primeira +vez, o que foi o enterro de sua mulher e reproduz-me o telegramma que +lhe dirigiu um illustre escriptor sueco, John Bettiger, velho de mais de +60 annos, casado e sem filhos, tão grande admirador de Dona Mercedes, +que pensou sériamente em adoptal-a elle e a mulher, para lhe deixarem a +fortuna. Feijó sabe o telegramma de cór e transcreve-m'o no original +sueco e em traducção. É assim, e parece, na verdade, como elle me dizia, +um epitaphio de anthologia, escripto em estylo lapidar: «Receba +expressão da minha mais profunda sympathia no acerbo lucto que o feriu. +Nunca se encontraram, assim reunidas no mesmo ser, bondade, candura e +belleza, como na sua incomparavel Mulher. Tel-a conhecido é uma ventura +que nunca ninguem poderá esquecer.» + +Em 15 e 20 de janeiro, em 7 de fevereiro, novas cartas que não annunciam +melhoras. Deu-lhe um minuto de prazer a sua eleição para a Academia +Brasileira, «pela espontaneidade, diz-me elle, e pelo momento em que foi +votada.» Feijó era muito amigo do Brasil, onde vivera alguns annos +ardentes da sua mocidade, e tinha aqui amigos dedicados. Considerou a +homenagem da Academia como um desejo requintadamente affectuoso de +offerecer algum conforto á angustia que soffria. E esse terno pensamento +commoveu-o. Mas a Dôr era sempre a sua nova companheira: «Vou vivendo, +com a minha tristeza e a minha saudade. _Vou vivendo_ não é a expressão +justa. _Deixo-me viver conforme Deus quer_, é mais exacto.» Distrai-se +relendo as cartas antigas dos seus amigos, que colleccionava +cuidadosamente, e, entre as quaes, muitas vezes, se referia aos grossos +pacotes das minhas. Escrevia-me, em 29 de fevereiro: «É a leitura dessas +cartas, como já lhe disse, a minha unica distracção. Quando ellas +acabarem, não sei o que vai ser de mim. Escrever (eu pedira-lhe que, na +receita de Goethe, puzesse a sua dôr em poemas) é-me absolutamente +impossivel. Estas dores não cabem dentro de moldes litterarios. _Quem +attende ao concerto do que diz não sente o que diz_, sentenciava um +velho frade gongorico. Creio que, para mim, os versos acabaram. É bem +possivel que não torne a escrever mais uma linha. _Pena, que póde +explicar-se, perto está de não sentir-se_, como diz o mesmo frade, +alludindo a circumstancias identicas.» + +Carta em 3 de abril: «Não tenho forças para nada. Escrever uma carta é +como se tivesse de deslocar uma montanha. O tempo não me tem curado. +Dá-me, por vezes, uma certa paz, mas intervalos curtos, de que saio para +um recrudescimento de amargura e de saudade angustiosa. Sinto que parta. +(Eu ia regressar de Lisboa ao Rio). Parece-me que tudo quanto amei e amo +se vai afastando de mim, cada vez mais.» + +Nova carta, em 10 de julho: «A minha cabeça, como a minha alma, andam +profundamente enfermas. Sinto-me cada vez mais só, cada vez mais +desconsolado e mais triste. O estio era, nesta terra, a estação em que a +minha vida de familia mais se accentuava. Como todo o movimento mundano +cessava, estavamos sempre juntos, ou no campo, em algum sitio isolado e +pittoresco, ou em excursões pelos arrabaldes da cidade. Tudo acabou +agora. Do estio septentrional ficou-me apenas a inenarravel melancolia. +Não imagina como pesa no meu espirito esta paizagem, composta +monotonamente de lagos, pinheiros e rochedos, sob uma luz pallida, mixto +de aurora e poente, tão triste, tão triste, que parece a obra de um Deus +infeliz. Para evitar recordações, a que não poderia resistir, lembrei-me +de ficar na cidade. Com esse intuito, mandei os pequenos para o campo, +acompanhados por uma tia; mas estou arrependido. Não posso viver só. +Amanhã vou partir, não sei bem para onde, fugir de aqui, talvez para a +Laponia, para alguma terra onde não encontre lembranças do passado. +Perdoe este desabafo. Na verdade, não ha outra coisa a fazer senão a +gente resignar-se; tenho filhos, que precisam de mim; mais do que nunca, +é preciso viver. Mas, o peior, é que não encontro nada que me interesse +ou me distraia. Os proprios versos, que sempre me encantaram, parecem-me +ás vezes, agora, estultas frivolidades.» + +Escreve-me, em 6 de setembro: «Contava ir este verão a Lisboa, mas esta +guerra, que ameaça de se tornar chronica, obrigou-me a pôr de parte os +meus projectos. Fiquei aqui. Ausentei-me apenas durante duas semanas, +numa excursão pela provincia, mas o passeio não me serviu de consolação. +Era a primeira vez, após 15 annos, que viajava só. Tão angustiado me +sentia nos vagões do caminho de ferro e nos quartos de hotel, que +preferi voltar logo para o meu ninho meio desfeito, apesar da desolação +que nelle me esperava, pela ausencia dos meus filhos, que eu tinha +mandado para o campo. De maneira que estive aqui só, completamente só, +desde julho até hontem, porque só hontem elles regressaram. Este mez é +para mim todo cheio de terriveis recordações. Fez, no dia 4, um anno que +regressei do campo com a minha querida doente. Não imagina quanto essa +viagem me impressionou, no curto trajecto de automovel com Ella, o +medico, a _garde-malade_ e uma cunhada minha. Trazia já a impressão de +que era o ultimo passeio que dava com Ella... E, n'esse estado de +espirito, se foram passando os dias até á morte, no dia 21 do corrente. +Na vespera esteve todo o dia ali, naquela _chaise-longue_, com o sorriso +e o bom humor de sempre. E lá está, ha quasi um anno, na capela do +cemiterio catholico, tambem á espera que a guerra acabe, para ser +transportada para Ponte do Lima (terra natal de Feijó e que elle +adorava), onde eu desejo tambem dormir o meu ultimo somno. Não me +consolo, querido amigo. Toda a dôr contém, em essencia, o esquecimento. +Mas eu não quero esquecer. Os mortos não morrem completamente emquanto a +gente se lembra delles. E eu não quero que Ella morra emquanto eu andar +neste mundo. Perdoe este desabafo. Perante estranhos, os desgraçados são +sempre ridiculos. Mas V. não é para mim um estranho, e, diante dos +outros ninguem é capaz de ler o que me vai na alma, através da minha +serenidade e compostura. Nunca deixei ver a ninguem os recantos intimos +do meu coração.» + +Escreve-me de novo, em 25 de setembro, agradecendo o meu telegramma no +primeiro anniversario do seu lucto. E continúa: «A 21, foi o primeiro +anniversario da morte da minha querida Mercedes; a 24 o anniversario do +nosso casamento em 1900; hoje, é o anniversario do enterro. Imagine o +estado do meu espirito, e, por isso, perdoe-me se lhe não escrevo mais. +Vivo numa angustia perpetua. O tempo passa, mas não me consola; +socega-me, ás vezes, por intervallos, mas o _retour_ da memoria é sempre +inevitavel, e o soffrimento torna-se mais agudo porque, dia a dia, a sua +falta se me afigura maior.» + +Em 1 de dezembro queixa-se de ter estado doente, com o seu velho mal da +gota. Manda-me uma photographia, em que me apparece vertiginosamente +envelhecido. «Contemple essa ruina, accrescenta. Não imagine, porém, que +foi só a gota que me deixou assim. A gota entra por pouco no +esboroamento da minha velha carcassa.» Espera ir no verão a Lisboa. +Deseja encontrar-se commigo: «Parece que já estamos separados pelo outro +mundo.» Dá-me as boas festas de Natal e Anno Novo: «Como para mim não ha +festas, e faço tudo para não me aperceber do que este periodo do anno +significa para o meu coração attribulado, ia-me esquecendo de cumprir +este dever. Lembre-se de mim nessa noite de graça e de mysterio, em que +um pouco de infancia parece reflorir na nossa alma, quando o infortunio +a não devastou. Lembre-se de mim!» E na noite de Natal volta a +escrever-me, dizendo-me que se fechou só no seu gabinete, com os seus +pensamentos e a sua memoria, cheia de infinitas amarguras... + +Emfim, tem a data de 21 de março de 1917, dezoito mezes justos depois da +morte de sua mulher, tres mezes justos antes da sua propria morte, a +ultima carta que recebi deste querido amigo, antes de perdel-o: «Estamos +tão longe um do outro, sinto-o tão distante de mim, que parece que já +estamos separados pelo outro mundo», repete elle, como quem adivinha. +Continua a queixar-se da gota e mostra-se resolvido a ir fazer uma cura +de aguas em Portugal de ali a mezes. Fala-me da guerra e da politica +sueca, dando-me informações interessantissimas. Recomeçou a fazer +versos, mas não os que desejava. Só lhe saem da penna _bailatas_, versos +de zombaria, nos quaes transforma a tristeza em riso. Não o consolam. E +a doença de alma, a verdadeira, não cessa de minal-o: «Faz hoje anno e +meio que deixou esta vida de lagrimas a minha querida Mercedes. Parece +que foi hontem. Não ha esforços que consigam afastar o meu pensamento +dessa hora terrivel. Não é o desespero dos primeiros tempos; mas é uma +saudade, uma tristeza de que nem mesmo o trabalho consegue distrair-me. +Precisava de sair de aqui; precisava de ir passar algum tempo em +Portugal, ver os amigos, ver a minha terra; mas ao mesmo tempo tenho +receio dessa viagem. Quantas pessoas queridas mortas! Quantas coisas +mudadas!» + +Alguns dias depois de receber esta carta foi um telegramma dos jornaes +que me deu o golpe, apesar de tudo não esperado, da morte de Antonio +Feijó. Elle era um homem robusto e ainda são, tinha apenas 55 annos, e +eu, tomando os meus desejos pela realidade, acreditava que a educação +dos filhos e o desabafo dos versos iriam devagar transformando em doce +saudade a sua dôr dilacerante. Feijó não se estava _deixando viver_, +como elle dizia; estava-se deixando morrer, sem dar por isso. E o amor +incuravel, o amor de perdição tão caracterisadamente portuguez, o amor +da nossa raça e tradição matou-o como a mais fatal das doenças physicas. +Esta carta postuma, que elle me escreveu em 27 de abril e que só recebi +hontem, como que me chega de além-tumulo. E como me doe o coração e se +me orvalham os olhos ao lel-a! Bom e fiel amigo, que ainda te affligias +com o meu silencio, de que só a falta de communicações era culpada, e te +inquietavas com a minha saude, quando era a tua que devia absorver todos +os teus cuidados! Que feliz me sinto ao ver-me rodeado no mundo de +tantas almas que se affeiçoaram á minha, mas quanto me pesam, e me +desterram pouco a pouco da vida, estas mortes que começam a povoal-a! +Feijó, ao menos, foi para onde queria, reuniu-se emfim Áquella sem cuja +companhia desaprendera de viver. Deus lhe haverá concedido todas as +bem-aventuranças, promettidas aos que muito soffreram e choraram n'este +valle de lagrimas. + +Não peço perdão a quem me haja lido ou ouvido, do espaço que consagrei a +este romance vivido e sincero, tão digno de ser sentido e meditado por +cabeças e corações ao seu nivel. Perdoa-me, estou certissimo, a memoria +do alto poeta do _Cancioneiro chinez_ e da _Ilha dos Amores_, que eu me +haja occupado, nesta hora afflicta, muito mais do seu amor que dos seus +versos, e que a sua vida me pareça, como a de todos os seres de eleição, +mais bella ainda que a sua obra. Mas não me despeço de versar um dia +esse capitulo da historia literaria portugueza, onde Antonio Feijó +figurará sempre como um dos nossos poetas ao mesmo tempo mais +subjectivos de temperamento e mais perfeitos e cultos de expressão. O +nome de um Feijó illustrou já a historia do Brasil na pessoa do +Padre-Regente, que era porventura da familia do poeta e até se parecia +com elle no porte da cabeça profundamente encravada entre os hombros. +Hoje então são as nossas Letras irmãs que registram, em caracteres +indeleveis, esse mesmo velho e illustre nome. + +Ainda uma justificação para esta longa pagina de memorias. Ha muitas +pessoas, enthusiastas da Vida e da Arte livres, que julgam os +transportes do Amor e da Paixão incompativeis com a regra e o pacto do +casamento, e que não são capazes de exprimir a poesia, de que as suas +almas transbordam, senão em versos errados. Longe de mim o intuito de +contradizel-as. Mas não ha mal em que aqui lhes offereça este _espelho +de casados_, no qual poderá remirar-se, ao menos uma vez por outra, a +sua perfeição. + +Alberto d'Oliveira. + + + + + Dans quelques instants de loisir, j'ai fait des vers inutiles; on + les lira peut-être, mais on ne retirera aucune leçon pour nos + temps... + + C.^{te} Alfred de Vigny. + + + Le vers est une création mystérieuse dont l'habitude seule nos + empêche de nous étonner. + + Ernest Hello. + + +[Figura: D. Mercedes de Castro Feijó] + + + + +A MINHA MULHER + + _Romam tu mihi sola facis_. + + MART. LIV. XII. EPIGR. XIX. + + + + + +_Folhas mortas d'outono ou d'inverno precoce, +No teu regaço amigo, estes versos deponho, +Para que o teu amor lhes dê vida e remoce, +Porque a Arte começa e acaba num sonho... +É pouco; mas eu torno a homenagem mais bella, +Pondo, como uma flor, nas folhas sem aroma, +O verso em que Martial diz á Esposa Marcella: +Tu, tu só, para mim, vales mais do que Roma_! + + + + +ELEGIA DE ABERTURA + + + + +_Elegia d'abertura_ + + +_A minha Lyra tinha uma corda: +Emquanto môço tanto cantei, +Que a pobre corda despedacei. + +Agora, ás vezes, se a Musa accorda, +E quer de novo pôr-se a cantar, +Ninguem a corda pode emendar. + +Era uma corda que só vibrava +Quando a minh'alma toda chorava, +E tantas mágoas, tantas, cantei, +Que a pobre corda despedacei. + +O Amor e as penas da Mocidade, +Chimera ou Sonho de cada dia, +Eram os themas que ella escolhia. + +Porém um dia veio a Saudade, +D'olhos vidrados e humedecidos, +Poisar-lhe os dedos emmagrecidos... + +Então, vibrando, toda chorosa, +Sob esses dedos, brancos de cera, +Mais angustiada nunca gemera! + +E uma alma nova tão dolorosa, +Com tanta mágoa nella ressôa, +Que um ai supremo despedaçou-a! + +Desde esse instante, nas minhas penas, +Sem essa corda que me sustinha, +--Pobre Saudade! chora sósinha... + +Manhãs d'estio, tardes serenas, +Occasos d'oiro, nocturno ceu, +Para os meus olhos, tudo morreu! + +Mas a Saudade, no meu tormento, +Geme e soluça com tanta mágoa, +Que, a ouvil-a, os olhos enchem-se d'água, + +E sem um grito, sem um lamento, +Minh'alma vive na dor que a enleia, +Como uma aranha na sua teia... + +A minha Lyra tinha uma corda: +Emquanto moço tanto cantei, +Que a pobre corda despedacei. + +Agora, ás vezes, se a Musa accorda, +E quer de novo pôr-se a cantar, +Ninguem a corda pode emendar... + +A Mocidade não pensa em nada, +E a pobre corda vi-a quebrada +Quando tocava mais afinada... + +A Mocidade não pensa em nada_! + + + +I + + + + +DESCENDO A ENCOSTA DO PARNASO + +_A João Arroyo_ + + Hvad er en Digter? Et ulykkeligt Menneske, der gjemmer dybe Qvaler + i sit Hjerte, men hvis Laeber ere dannede saaledes, at idet Sukket + og Skriget strömme ud over dem, lyde de som en skjöne Musik. + + Kirkegaard. + + + + +DESCENDO A ENCOSTA DO PARNASO + + +Quando moço, cantei, mas em formas discretas +Que nunca o meu segredo ousassem revelar, +Tudo o que sem mysterio a muitos outros poetas +Soube o Amor e a Paixão em voz alta inspirar. + +Feliz, o Amor... nem mesmo ephémero sorriso +Deixou nessas canções memoria do seu rastro; +Desditoso, ficou como um luar indeciso, +Chamma d'oiro escondida em vasos d'alabastro. + +A Dor, mal comprimida em gritos suffocados, +--O abandono, a traição, o esquecimento, o ciume-- +Ennublou muita vez os meus olhos magoados, +Mas se ao labio acudia, era apenas queixume... + +Éstos do coração, sobresàltos do instincto, +--Amor ideal, vehemente impulso do desejo,-- +Tudo vinha em surdina ou echo mal extincto, +No meu verso expirar, como um simples arpejo. + +Se a angustia me opprimia em continua tortura, +Para allivio a esse mal, que ninguem consolava, +Como alguem que a si proprio illudir-se procura, +Precisando de ouvir a minha voz--cantava! + +Echo do meu soffrer, de tão fundo partia, +Que deixando ao passar todo o amargo travor, +Essa voz, rara vez, murmurando trahia +O secreto pungir da primitiva dor. + +Mas de cada palavra ou gesto contrafeito +Em que ella se disfarça, a alma profunda evoca +Os lamentos e os ais suffocados no peito, +Todos os gritos vãos que morreram na boca! + +No escrinio da Canção as lagrimas vertidas, +Brilham sob a expressão em que a Dor se transforma, +Como gotas de luz, d'olhos tristes caidas, +A tremer no cristal transparente da Fórma. + +Mal se adivinha a dor, no esmalte que a reveste; +Mal se vê no sorriso um esgar de tristeza; +A Dor, na alma do artista, é como um dom celeste, +Que lhe ornamenta a vida e se expande em belleza. + +Mas por entre o fulgor das gemmas, no artificio +Da phrase que a primor o artista cinzelou, +Quem soffreu sente ainda o estertor do supplicio, +O desespero e a dor d'onde a estrophe brotou. + +A Arte [f]az da paixão arabescos risonhos; +Muda em graça verbal todo o grito pungente; +--Galateia a scismar, olhos cheios de sonhos, +Que a um sopro vão partir da pupilla dormente... + +Harpa de Sylpho aereo a ressoar no vento, +Caricia quasi etherea, o Verso é um desafogo... +--Mel na boca a sorrir, emquanto o soffrimento +Sobre a nossa alma imprime os seus lábios de fogo! + +D'esse beijo profundo, as angustias e as dores, +Se em imagens procura o artista convertê-las, +Espinhos entrelaça em grinaldas de flores, +E lágrimas combina em mosaicos d'estrellas. + +Mas o vulgo, á belleza e á graça inaccessivel, +O espirito banal, nunca pode sentir, +A mágoa que por trás da palavra insensivel, +Como ave triste, espreita, emboscada, a carpir! + +Só almas d'eleição commungam no mysterio +Que á Dor empresta o encanto e a seiva que a renova, +Como á flor que sorri num chão de cemiterio, +O amargo coração que se desfaz na cova. + +Só ellas, através d'um molde tão restricto +Como esse em que a palavra as emoções fixou, +Alcançam entrever não sei quê d'infinito +No minuto de sonho em que a Dor se embalou... + + + + +A ARMADURA + +_Ao Dr. Góran Björkman_ + + + + +A ARMADURA + + +Desenganos, traições, combates, soffrimentos, +Numa vida já longa accumulados, vão +--Como sobre um paúl continuos sedimentos, +Pouco a pouco envolvendo em cinza o coração. + +E a cinza com o tempo attinge uma espessura, +Que nem os mais crueis desesperos abalam; +É como tenebrosa, impavida armadura +Ou coiraça de bronze em que os golpes resvalam. + +Impermeavel da Inveja á peçonhenta bava, +Nella a Calumnia embota os seus dentes hervados; +Não ha braço que possa amolgá-la, nem clava +Que nesse duro arnez se não faça em bocados. + +E no entanto, através d'essas rijas camadas, +Ou rompendo por entre as junctas da armadura, +Escorrem muita vez gotas ensanguentadas +Que o coração verteu d'alguma chaga obscura... + + + + +A CIDADE DO SONHO + +_Ao Visconde de Pindella_ + + + + +A CIDADE DO SONHO + + +Soffres e choras? Vem commigo! Vou mostrar-te +O caminho que leva á Cidade do Sonho... +De tão alta que está, vê-se de toda a parte, +Mas o ingreme trajecto é florido e risonho. + +Vae por entre rosaes, sinuoso e macio, +Como o caminho chão d'uma aldeia ao luar, +Todo branco a luzir numa noite de estio, +Sob o intenso clamor dos ralos a cantar. + +Se o teu animo soffre amarguras na vida, +Deves emprehender essa jornada louca; +O Sonho é para nós a Terra Promettida: +Em beijos o maná chove na nossa boca... + +Vistos d'essa eminencia, o mundo e as suas sombras, +Tingem-se no esplendor d'um perpetuo arrebol; +O mais esteril chão tapeta-se de alfombras, +Não ha nuvens no ceu, nunca se põe o sol. + +Nella mora encantada a Ventura perfeita +Que no mundo jámais nos é dado sentir... +E a um beijo só colhido em seus lábios de Eleita, +A propria Dor começa a cantar e a sorrir! + +Que importa o despertar? Esse instante divino +Como recordação indelevel persiste; +E neste amargo exílio, através do destino, +Ventura sem pesar só na memória existe... + + + + +BEATITUDE AMARGA + +_A Silva Ramos, da Academia Brasileira_ + + + + +BEATITUDE AMARGA + + +Esqueço-me a admirar os teus olhos profundos +E imagino que estou sentado á beira mar: +Vejo as ondas a erguer-se, archipelagos, mundos, +Naufragios, temporais, mar de leite e de luar... + +Medroso, o coração tenta fugir, mas treme: +O abysmo attrae o abysmo! E desvairadamente, +Despenha-se no mar, como um barco sem leme, +D'onda em onda, á mercê do vento e da corrente. + +Vejo-o ainda um momento a esconder-se na bruma, +E sinto uma impressão d'angustia e de pesar, +--Seguindo anciosamente o seu rasto d'espuma-- +Por suppor que partiu para não mais voltar! + +Mas tu falas, e, ao som da tua voz, desperto; +Volto a mim d'esse estranho sonho, a alma perdida, +Com o vago terror e o pensamento incerto +Do naufrago que á praia ainda chegou com vida. + + + + +CASTELLO BÁRBARO + +_A Josè d'Azevedo Castello Branco_ + + + + +CASTELLO BÁRBARO + + +Um a um sobrepondo os tormentos mais altos, +Da minha propria dor fiz uma Fortaleza, +Que podesse afrontar tempestades e assaltos, +Imponente de rude e bárbara grandeza. + +Desde então, sem receio, a tudo invulneravel, +Depondo na panóplia o escudo e as armas rôtas, +Vivo occulto no meu torreão inexpugnavel, +Recompondo em annaes combates e derrotas. + +Nenhum grito ou rumor attinge essa eminencia; +Nenhum desejo vão escala essas alturas, +Onde, antigas visões, andam como em demencia +Do passado a evocar saudades e amarguras. + +Comtudo, alguma vez, se uma illusão funesta +Um echo juvenil faz em mim despertar, +Como som matinal de campanário em festa +Que no meu coração vem de longe vibrar, + +Então,--luz sem egual que tudo em tôrno abrasa-- +A Ventura de novo aos olhos meus se ostenta, +--Raio de sol suspenso a tremer numa asa +Que um instante pairou sobranceira á tormenta. + +E atrás d'essa chimera ou sonho allucinante, +Vou, numa ancia de goso, um momento arrastado, +Como o condor lançando o vôo fulminante +Á presa que entreviu do píncaro escarpado. + +Mas a luz, que brilhou, logo se esconde e apaga, +E eu regresso trazendo ao meu refugio, exangue, +Mais uma nova dor, mais uma nova chaga, +Rutilante de vivo e generoso sangue. + +E outra vez, d'essa altura em taes ruinas erguida, +Sem sobresaltos vejo os meus dias correr, +De saudades velando o entardecer da Vida, +Que o ter-se sido môço é a dor do envelhecer. + +Mas occulto no meu solitário reducto, +Ao abrigo de toda a investida ou traição, +Se de fóra não vêm tempestades nem lucto, +O meu proprio soffrer enche o meu coração. + +E assim, na sua noite o espirito submerso, +Sem que uma estrella nova aos olhos meus desponte, +Vou, com o pensamento em mil vôos disperso, +De saudade em saudade alargando o horizonte. + +E tudo, mesmo a Dor, nessa amplidão se esfuma, +Como incendio a esbater-se em longinquo arrebol... +Toda a nuvem, de perto, é um farrapo de bruma, +A distancia, parece oiro e púrpura, ao sol! + +Sob o contorno ideal que o espelho empresta á imagem, +Projectados ao longe, os tormentos e as dores +Surgem aos olhos meus na ilusão da miragem, +Como ruinas de sonho em que brotaram flores... + +Ruinas que uma luz tão serena illumina +Como se as envolvesse um luar de esquecimento; +E é tão doce a illusão, que nessa hora divina, +Ajoelho a balbuciar: Morte! espera um momento!... + + + + +A AGUIA PRISIONEIRA + +_A Manoel da Silva Gayo_ + + + + +A AGUIA PRISIONEIRA + + +Aguia soberba a quem mão perversa d'escravo, +Num ocio de tyranno, os olhos arrancou! +E, a gosar d'esse feito o delicioso travo, +Da jaula hedionda a férrea porta escancarou... + +A aguia, aturdida e cega, a principio esvoaçava +Rente ao chão, e a roçar com as asas na terra, +Sem saber d'onde vinha a dor que a lancinava, +Nem que mysterio aquella obscuridade encerra. + +Mas na ancia de luz que a devora sem treguas, +Cobra o animo, e erguendo o vôo, a tudo alheia, +Lança-se para o azul, sobe leguas e leguas, +Sem poder dissipar a treva que a rodeia. + +E tão alto subiu no seu vôo desfeito, +Que de repente, não podendo respirar, +Sentiu que lhe estalava o coração no peito, +E veio aos pés do escravo exanime rolar... + +Alma humana! Aguia cega em perpetua anciedade, +Por mais alto que eleve o desvairado arrojo, +Quando julga atingir a suprema verdade, +No pó, d'onde partiu, cae outra vez de rojo! + + + + +A SELVA ESCURA + +_A João Chagas_ + + + + +A SELVA ESCURA + + +Perdi-me no caminho solitario +D'uma floresta immensa e fria... +Medrosa ainda, a Noite lívida descia, +E o clarão do luar, como um pranto mortuário, +Pelas folhas das árvores corria. +No silencio da Noite, o silencio da Selva +Enchia-se de vozes enigmáticas... +E os meus pés vacillavam sobre a relva, +Entre as sombras das árvores extácticas. +Numa clareira funda, aguas dormentes, +Como um lago lunar, tremeluziam +Nas lágrimas de luz, altas e ardentes +Que das estrellas pálidas caíam. +Nem ruido de mar, folhas ou vento... +O mystério, porém, da Noite e da Floresta +Enchia de terror meu pensamento, +Como um sopro boreal que me gelava a testa. +Não sei se era visão, filha do Mêdo, +Se verdadeira apparição nocturna; +Mas da sombra profunda do arvoredo, +Que o luar tornava muito mais soturna, +Vinham surgindo mysteriosamente +Phantasmas espectraes que eu distinguia +Através do sudário transparente +Como o primeiro alvorecer do dia... +E por deante de mim todos passavam, +E olhavam-me e choravam... +De mágoa ou compaixão,--não sei dizê-lo; +Mas tudo o que aos meus olhos evocavam +Parecia-me um longo pesadelo... +Eram os Sonhos, as Chimeras mortas +Na minha morta Phantasia, +Que do vasto sepulcro abrindo as portas, +Passavam nessa funebre theoria... +Projectos, Intenções, Ideias, Planos, +--Illusões d'um passado esquecido e desfeito, +Na areia que rolou da ampulheta dos annos +E que um vento de morte espalhou no meu peito. +Era a Noiva feudal esquecida a scismar +Na pompa e no esplendor em que o Sonho a envolveu, +Trazendo-me nas mãos, todas brancas de luar, +Como um tropheu perdido o espadim de Romeu! +Illusões juvenis d'odaliscas e fadas, +Helena, Laura, Ignez, romanescas e bellas, +E tu, Willi immortal das florestas sagradas, +Loira d'olhos azues, como duas estrellas! +Era a Glória, mas já sem a tuba estridente, +Que ingenuamente ouvi pela amplidão vibrar; +Era a Ambição, captiva a sua asa fremente, +Que tão alto esvoaçou, entre as nuvens e o mar. +Era o Orgulho... o Poder... a Riqueza... loucuras, +Chimeras juvenis do meu abril risonho, +Borboletas azues, larvas escuras +Que deslisaram no meu sonho... +Todas essas visões, d'aspectos sobrehumanos, +Por deante de mim, lentas, passavam... +E olhavam-me e choravam, +Como espectros de longos desenganos +Que os meus olhos das trevas evocavam... +E olhavam-me e choravam, +Sumindo-se nas sombras da floresta, +Aos primeiros clarões da madrugada +Como um rumor de festa, +Despertavam, partindo em revoada, +As aves a cantar. O sol rompia +E as derradeiras névoas dissipava... +Tudo cantava e ria! +Só eu chorava... só eu chorava... +Só no meu coração não despontava o dia. +Só eu chorava... só eu chorava... +Só eu soffria... + + + + +O LIVRO DA VIDA + +_A Antonio de Cardiellos_ + + + + +O LIVRO DA VIDA + + +Absorto, o Sabio antigo, estranho a tudo, lia... +--Lia o «Livro da Vida»,--herança inesperada, +Que ao nascer encontrou, quando os olhos abria +Ao primeiro clarão da primeira alvorada. + +Perto d'elle caminha, em ruidoso tumulto, +Todo o humano tropel num clamor ululando, +Sem que de sobre o Livro erga o seu magro vulto, +Lentamente, e uma a uma, as suas folhas voltando. + +Passa o estio, a cantar; accumulam-se invernos; +E elle sempre,--inclinada a dorida cabeça,-- +A ler e a meditar postulados eternos, +Sem um fanal que o seu espirito esclareça! + +Cada pagina abrange um estádio da Vida, +Cujo eterno segredo e alcance transcendente +Elle tenta arrancar da folha percorrida, +Como de mina obscura a pedra refulgente. + +Mas o tempo caminha; os annos vão correndo; +Passam as gerações; tudo é pó, tudo é vão... +E elle sem descansar, sempre o seu Livro lendo! +E sempre a mesma névoa, a mesma escuridão. + +Nesse eterno scismar, nada vê, nada escuta: +Nem o tempo a dobar os seus annos mais bellos, +Nem o humano soffrer, que outras almas enluta, +Nem a neve do inverno a pratear-lhe os cabellos! + +Só depois de voltada a folha derradeira, +Já próximo do fim, sobre o livro, alquebrado, +É que o Sábio entreviu, como numa clareira, +A luz que illuminou todo o caminho andado... + +Juventude, manhãs d'Abril, boccas floridas, +Amor, vozes do Lar, éstos do Sentimento, +--Tudo viu num relance em imagens perdidas, +Muito longe, e a carpir, como em nocturno vento. + +Mas então, lamentando o seu esteril zêlo, +Quando viu, a essa luz que um instante brilhou, +Como o Livro era bom, como era bom relê-lo, +Sobre elle, para sempre, os seus olhos cerrou... + + + + +II + + + + +DYPTICO + +EU E TU + + + + +DYPTICO + + +I + +M. *** + + +Perguntas d'onde vem a timidez estranha, +Este quasi terror com que te fallo e escuto, +Como se a sombra hostil d'uma grande montanha, +Que se erguesse entre nós, me cobrisse de luto. + +Ignoras a razão d'este absurdo respeito +Com que te beijo a mão, que estendes complacente, +--Fria do ardor que tens concentrado no peito, +Que mão fria é signal de coração ardente. + +E admiras-te de ver que os olhos baixo, e tremo, +--Se passas como um sol de planetas cercado-- +Sem dar mostras sequer d'esse orgulho supremo +De quem se sente eleito entre todos, e amado! + +Não podes conceber que uma paixão tão alta +Se vista de recato ou de pudor mesquinho... +Mas, se é sincero, o Amor só a occultas se exalta, +Faz-se tanto maior quanto é discreto o ninho. + +E tudo o que tu crês fingida gravidade +É uma intima oblação, pois nas almas piedosas +O Verdadeiro Amor é feito de humildade: +Sobre o annel nupcial não ha pedras preciosas. + + +II + +EU E TU + + +Dois! Eu e Tu, num ser indissoluvel! Como +Brasa e carvão, scentelha e lume, oceano e areia, +Aspiram a formar um todo,--em cada assomo +A nossa aspiração mais violenta se ateia... + +Como a onda e o vento, a lua e a noute, o orvalho e a selva +--O vento erguendo a vaga, o luar doirando a noute, +Ou o orvalho inundando as verduras da relva-- +Cheio de ti, meu ser d'effluvios impregnou-te! + +Como o lilaz e a terra onde nasce e floresce, +O bosque e o vendaval desgrenhando o arvoredo, +O vinho e a sêde, o vinho onde tudo se esquece, +--Nós dois, d'amor enchendo a noute do degrêdo, + +Como partes d'um todo, em amplexos supremos +Fundindo os corações no ardor que nos inflamma, +Para sempre um ao outro, Eu e Tu, pertencemos, +Como se eu fôsse o lume e tu fôsses a chamma... + + + + +PALADINOS + +_A Senhora Condessa d'Arnoso_ + + + + +PALADINOS + + +I + +CONDE D'ARNOSO, JOÃO + + +Como um dos seus avós, em justas e em torneios +--Paes d'Abranches, que foi dos Doze d'Inglaterra-- +Com uma ancia de gloria, em altos devaneios, +Corre o mundo, de mar em mar, de terra em terra. + +Não leva escudo, o moço illustre, nem couraça, +Que o tempo é vil; mas como arnez de paladino, +Leva a honra e o valor de toda a sua raça, +--Grande exemplo a apontar-lhe o mais nobre destino! + +Mão na espada, a entrever combates, a alma pura, +Já bello, d'essa estranha e amarga formosura +Que o fim proximo imprime aos vencidos da Sorte, + +Vae na tolda a sonhar,--sonho feito em pedaços! +--Paes d'Abranches voltou com a noiva nos braços, +Elle... voltou tambem, mas nos braços da Morte! + + +II + +CONDE D'ARNOSO, BERNARDO + + +Este nunca buscou, na lucta ingloria,--fama +Ou proveito. A Ambição, mesmo a mais alta e pura, +Nunca o cegou. Jamais uma ephemera chamma +De orgulho vão tremeu na sua nobre figura! + +Foi cortesão; mas da Honra e do Dever escravo. +Nunca esgar de lisonja o seu lábio manchou; +E entre vis defecções, elle só, como um bravo, +Luctou, soffreu, mas nunca o Mestre renegou! + +Alma de Campeador! Num disfarce mundano, +Nunca ninguem sonhou coração mais humano, +Mais terno, e ao mesmo tempo, altivo coração! + +Ultimo Cavalleiro, á hora em que morria, +No Pantheon Real, da lampada que ardia +Extinguiu-se de todo o ultimo clarão... + + + + +CABELLOS BRANCOS + +_A D. Thomás de Mello Breyner_ + + + + +CABELLOS BRANCOS + + +Não repares na cor dos meus cabellos + Sem ler primeiro Anacreonte; +Verás que os sonhos juvenis, mais bellos, +Tambem se evolam d'enrugada fronte. + +O espirito do Poeta é sempre moço; + O Coração nunca envelhece... +Basta um sorriso, um nada, um alvoroço, +E tudo nelle se illumina e aquece. + +Deusas d'eterna graça adolescente, + Jamais as Musas desdenharam +Da luz que treme incendiando o poente, +Dos rouxinoes que ao pôr do sol cantaram. + +Fina e fragil vergontea melindrosa, + Que foi na ceifa abandonada, +Ruth, apesar de moça e de formosa, +Nos braços de Booz dorme encantada. + +Quantas flores d'inédita fragrancia + Em mãos provectas vão abrindo... +Abisag, ao sair quasi da infancia, +No leito de David entrou sorrindo. + +E d'esse beijo, inverno e primavera, + D'esse connubio, oh maravilha! +Como se a ruina fecundasse a hera, +Veio á luz uma estrella, que ainda brilha. + +Esculpturaes patricias, d'olhos ledos, + Quem as lembrara, se deixassem +Que mãos obscuras, mercenários dedos, +A velhice d'Horacio engrinaldassem? + +Quantos nomes illustres! quantos casos! + Mas que direi mais eloquente? +Não ha dias tão pallidos, e occasos +Como explosões d'uma cratera ardente? + +Não repares na côr dos meus cabellos; + A branda luz que nelles arde, +Como o poente, das nuvens faz castellos, +Tinge d'alva o crepusculo da tarde... + +Muita vez os cabellos embranquecem + Na dor d'horriveis soffrimentos... +Não são os annos que nos envelhecem; +«São certas horas más, certos momentos...» + + + + +SOMNAMBULA + +(Noite de S. João) + +_A João Caetano da Silva Campos_ + + +Leia estes versos, cantando. +--Quem canta seu mal espanta! +Alma em saudades penando, +Só tem alivio se canta... + + + + +SOMNAMBULA + +(Noite de S. João) + + _Passarinho trigueiro, + Põe-te na areia_!... + +A areia é d'oiro,--painço loiro... + Leito macio... Vê como o Rio +Vae socegado, todo enlevado, +Todo encantado na areia fina! + +_Passarinho trigueiro_! Olha o salgueiro + Como se inclina, + A ver se as aguas + Pode beijar! +E o velho choupo, todo curvado, + Todo engelhado, + De tantas mágoas + Que viu passar! + +Nas aguas mansas, folhas cahidas, +Como esperanças desfallecidas, +Lá vão perdidas nas aguas mansas, + Como esperanças + Desfallecidas... + + _Passarinho trigueiro, + Põe-te na areia_!... + +A velha ponte talvez te conte +Lindas historias para encantar, +Lindas historias da Lua Cheia, +Quando na areia põe a corar + O alvo linho + Do seu tear... +Passarinho trigueiro! pia baixinho! +Ouve as cantigas, que as raparigas, + No S. João, +Soltam ao vento como um lamento + Do coração! + + + ............................ + _A vossa capella cheira, + Cheira ao cravo, cheira á rosa, + Cheira á flor da laranjeira_... + +Laranjeira desfolhada +Numa noite de orvalhada, +No leito d'algum linhar... +Mas a alcachofra cortada +Sabe alguem se vae seccar?! + + _Passarinho trigueiro, + Põe-te na areia!_ + +A areia é doce como se fosse +Vergel macio para noivar... +E dorme o Rio... praia deserta... +Cuidado! Alerta! que a Lua espreita, +Nunca se deita, sempre a rondar. + + _Passarinho trigueiro_, + +Olha a estrella do boieiro +Que nunca dorme no ceu, +A ver se do seu rebanho +Alguma rêz se perdeu... +Olha o Rio! é côr d'estanho +Como um espelho a brilhar; + +Cuidado! se é muda a areia, +Pode o Rio murmurar, +E ás noites a Lua Cheia +Vem com elle conversar... + +Já vae alto o sete-estrêllo, +Vae despontar a alvorada; +Mas uma voz desgarrada, +Como um grito sem appêllo, +Passa a cantar pela estrada: + +«Esta noite, na novena, +S. João pôs se a chorar... +Da minha dor tinha pena, +Sem me poder consolar. + +As andorinhas voltaram, +Desabrocharam as flores, +E as andorinhas contaram +Que tinhas novos amores... + +Ninguem mais penas soffreu +Nem dor maior supportou; +Quem amou nunca esqueceu, +Quem esqueceu nunca amou! + +Ai! infeliz de quem passa! +Ninguem seu amor escolhe, +Pois o amor é uma desgraça, +Que sem se esperar nos colhe... + +Ai, infeliz de quem passa!... +............................» + + _Passarinho trigueiro_, + +Não ha amor como o primeiro... +Vôa, vôa sem parar! +Deixa a Lua estremunhada, +Deixa o Rio a murmurar... +O amor tem a asa ligeira, +E antes que rompa a alvorada. +Leva o ramo de oliveira +Àquella dor desgarrada! + + + + +CYSNE BRANCO + +_A Alberto d'Oliveira_ + + + + +CYSNE BRANCO + + +Cysne branco, esquecido a sonhar no alto Norte, +Vendo-se, ao despertar, das neves prisioneiro, +Ergue os olhos ao ceu, enublados de morte, +Mas o sol já não vem romper-lhe o captiveiro. + +O gêlo, no lençol todo immovel das ondas, +Em que a aurora boreal põe reflexos de brasas, +Deslumbra-lhe um momento as pupillas redondas, +Dá-lhe a illusão do sol, mas não lhe solta as asas. + +Vê que o torpor do frio o invade lentamente; +Debate-se, procura o cárcere romper; +Mas a asa é d'arminho, o gêlo é resistente: +Tem as pennas em sangue e sente-se morrer. + +Então põe-se a cantar, sem que ninguem o escute; +Solta gritos de dor em que lhe foge a vida; +Mas essa dor, se ao longe um echo a repercute, +Parece uma canção no silencio perdida... + +Melodia que a voz da Saudade acompanha, +Amarga e triste como o exilio onde agoniza, +Longe do claro sol que outras paysagens banha, +Dos rios e do mar que outra alvorada irisa. + +Voz convulsa a chorar perdidas maravilhas: +--Tardes occidentaes de sanguínea e laranja, +Noites de claro ceu, como um mar cheio d'ilhas, +Manhãs de seda azul que o sol tece e desfranja! + +Mas ao longe, á distancia onde a leva a Saudade, +Tão esbatida vae essa triste canção, +Que não desperta já commoção nem piedade: +Encanta o ouvido, mas não chega ao coração. + +E o Cysne, abandonado ao seu destino, expira, +Hallucinado e só, sob o silencio agreste, +Pensando que no azul, como um mar de saphira, +Os astros a luzir são a geada celeste... + + + + +SÚPPLICA AO VENTO + +_A Luiz de Magalhães_ + + + + +SÚPPLICA AO VENTO + + +Grito ao Vento que passa a galopar na treva: +--«Escuta a minha dor!»--rouco, de braços hirtos, +A ver se elle ouve e ao longe esta Saudade leva! + +«Meus queixumes, oh Vento, hão de em ancias ouvir-t'os +Esses campos que amei, vinhas, rios suaves, +Pomares, laranjais, bosques de louro e myrtos, + +Onde, inverno e verão, nunca emmudecem aves, +Onde nunca se extingue o murmurar das fontes, +Todo o anno a correr entre rosaes e agáves... + +Vento largo, que vens d'ignotos horizontes! +No teu rugido absorve o meu grito pungente! +Vae repeti-lo ao mar e aos pinheiraes dos montes, + +Para tornar mais triste o seu gemer plangente, +Mais expressivo e humano o seu lamento amargo, +Como um echo, a expirar, d'esta noite inclemente! + +Leva comtigo, oh Vento, este gemido ao largo, +A ver se nelle alguem a minha voz conhece, +Nessas terras de luz, sem hiemal lethargo, + +Onde o Estio a cantar longos meses se esquece, +E onde o Sol não é só lampada que illumina, +Mas o Ágni creador que tudo anima e aquece! + +Debalde, sobre mim, na sua graça divina, +Almas puras, abrindo a plumagem das asas, +Com o ardor que nenhuma angustia contamina, + +Espalham no meu lar como um calor de brasas... +--Para fundir de todo esta geada tão densa, +Só tu, meu claro Sol, que até d'inverno abrasas! + +Vento frio, que vaes da minha noite immensa, +Tenebroso e a rugir!--leva a minha Saudade, +Como uma estrella a arder, na tua asa suspensa! + +Quando essa luz passar, com que magua não ha de +Reflecti-la o meu rio, e acariciá-la, vendo +Que vae dos olhos meus a tenue claridade! + +Mas então, Rio amado, as tuas aguas descendo +Nessa luz reflectida, a tremer como um luar, +Todo o passado irei nas tuas margens revendo, + +E o coração talvez se esqueça de chorar, +Como nauta que a voz de Loreley enleva, +E para a morte vae nesse enlevo a cantar... + +Vento surdo, que vaes a galopar na treva! +Pára um momento! Escuta a minha voz clamante +Vê como soffro, e ao longe esta Saudade leva!» + +Mas o Vento não ouve o meu grito alarmante! +Ai de mim, que sou eu?! pobre louco exilado, +De toda a parte vendo o meu país distante, +Como se lá tivesse os meus olhos deixado! + + + + +GOTA DE AGUA + +_À memoria de Antonio Rodrigues Braga_ + + + + +GOTA D'AGUA + + +Sobre a urze silvestre, ao subir da montanha, +Uma gota d'orvalho, em manhã d'esplendores, +Lucitremia ao Sol numa teia d'aranha, +Como um prisma em que a Luz se decompunha em cores. + +Universo em resumo, essa gemma preciosa +Que a Noite alli deixou do seu manto cair, +Continha em miniatura a paysagem radiosa +Que no alvor da manhã despertava, a sorrir. + +Em que obscuro crysol, esse pranto isolado, +Crystallizou com tal pureza e resplendor? +Caiu da Lua? É um ai de luz polarizado? +Ou rolou d'um olhar num soluço de dor? + +Quem sabe o seu mysterio ou sonha a sua mágoa? +Lava de desespero ou suor d'agonia; +--Orvalho ou pranto--é sempre a mesma gota d'agua, +A tremer e a brilhar no resplendor do dia... + +Tenha d'odio e rancor nublado o olhar mais vivo, +Ou em fogo escaldado a face onde correu, +Ninguem vê no diamante o carvão primitivo, +Nem na água a cantar o abysmo em que nasceu. + +Em breve, á luz do sol, vae em fumo desfeita, +Ser nuvem, confundir-se em cúmulos no poente, +Ou em névoa através de que a Alvorada espreita +A ultima estrella a arder, do seu balcão no Oriente. + +E outra vez percorrendo os circulos da Vida, +Pranto de heroe, suor de martyr ou de santo, +De novo ha de voltar, e, de novo esquecida, +Sobre as urzes rolar, gota d'agua ou de pranto... + + + + +A VENTURA + +_A Anthero de Figueiredo_ + + + + +A VENTURA + + +A Ventura, de vãos e ephemeros sorrisos, + Nunca, em alto lavor, +Nos meus versos deixou cariatides ou frisos +De que ella fôsse o alacre e luzido esculptor. + +Trouxe-a um dia, illudida, a minha Noiva, quando + No meu lar se installou; +A Musa, deslumbrada, emmudeceu, sonhando, +E d'amor nunca mais um só verso rimou. + +Mas d'essa adoração em que vivia absorta, + Um dia, ao despertar, +Viu que tinham levado a minha Noiva morta, +E d'angustia chorou, na angustia do meu lar. + +Chorou... Sempre que a dor nos empolga e sacode + Como um arbusto ao vento, +Nenhuma forma d'arte em eloquencia pode +Egualar a expressão d'um grito ou d'um lamento. + +Chorou... E desde então, a Musa dolorida + Vive numa anciedade +A ouvir a minha dor no seu canto escondida, +Mansamente, a chorar, como chora a saudade... + + + + +ENTRE PINHEIROS E CYPRESTES + +_A meus sobrinhos, Salvato e Ruy_ + + + + +ENTRE PINHEIROS E CYPRESTES + + +Entre pinheiros e cyprestes +Fundi em lagrimas os olhos... +Onde estaes vós, almas celestes, +Que entre pinheiros e cyprestes +Em vão procuram os meus olhos? + +Na terra fria aqui descansam +Os corações que tanto amei... +Mas os meus braços não alcançam +Na terra fria em que descansam +Os corações que tanto amei. + +As vezes ponho o ouvido attento +A ver se os ouço ainda bater... +Mas só me fala a voz do vento, +Sempre que ponho o ouvido attento +A ver se os ouço ainda bater... + +Elles que sempre e a toda a hora +Tão nobremente palpitaram... +E já nem sombra resta agora +D'elles que sempre e a toda a hora +Tão nobremente palpitaram! + +Mas todo o amor, toda a bondade, +Que em vida as almas enobrece, +Torna a ser luz na immensidade, +Irradiação d'amor, bondade, +Que em vida as almas enobrece... + +E nessa luz, a alma que chora +D'um brilho augusto se illumina, +Como uma esprança ou uma aurora, +Em cuja luz, a alma que chora +D'um brilho augusto se illumina... + +E ao nosso olhar, d'entre cyprestes, +Estrellas novas apparecem... +Sois vós talvez, almas celestes, +D'entre pinheiros e cyprestes, +Essas estrellas que apparecem... + + + + +RIO AMARGO + +_A meu irmão, Julio de Castro Feijó_ + + + + +RIO AMARGO + + +A pouco e pouco a Dor, no coração do Homem, +Vae como um rio amargo escavando o seu leito, +E dia a dia, o sulco em que as mágoas se somem +Mais profundo se faz, mais escarpado e estreito. + +A principio trasborda e alastra: é uma torrente! +Nada a pode conter--nem diques, nem escolhos; +Submerge o coração num tumultuar plangente, +E onda a onda rebenta em lagrimas dos olhos. + +Mas o tempo transforma em profunda ravina +O leito onde mais viva a torrente passou; +A onda continua a correr nessa ruina, +Mas, de funda que vae, aos olhos se occultou. + +Desde então não se escuta o bramir da tormenta, +Mas da face tranquilla e dos olhos enxutos +Ninguem inveje a paz que essa calma apparenta: +Vae cheio o coração de lagrimas e lutos! + +Ditoso o Homem a quem, na primeira investida, +A Dor, como uma vaga, envolveu na ressaca, +Em vez de o arremessar, como «épave» perdida, +De soffrer em soffrer, mas que nunca se aplaca! + +A Dor que mata, a Dor que d'um golpe redime, +É compassiva; o mal, que cessa, não é grande... +Mas a Dor que não pára, a Dor que nos opprime +Sem esp'rança de ver que o seu martyrio abrande, + +Essa Dor, não ha som, na palavra que chora, +Para a exprimir; é a Dor que mil dores condensa: +Trazer a Morte em nós, senti-la a toda a hora, +E viver! E viver no horror d'essa presença! + +Onde o peito de heroe, onde o animo forte +Para uma dor egual sem revolta afrontar, +Tendo a pesar sobre elle a mão fria da Morte? +E sem poder fugir! e sem poder luctar! + +Só o Homem que espera em Deus, martyr ou santo, +Pode um supplicio tal resignado soffrer, +Com o labio a sorrir, com os olhos sem pranto, +Mas a angustia no olhar, mas a boca a gemer... + +Só esse a quem a Graça illuminou, na etherea +Luz immortal d'estrella ignota alvorecida, +Pressente da Alma Humana o Infinito e a Miseria +Na eterna expiação d'este peccado--a Vida! + + + + +III + + + + +HYMNO Á VIDA + +_A Agostinho de Campos_ + + + + +HYMNO Á VIDA + + +Tenho-te medo, embora ignoto amor me traga +Preso a ti, como o feto ao seio em que germina... +Foi por ventura o sol, da espuma d'uma vaga, +Ou Deus que te creou d'uma essencia divina? + +Que importa? D'onde quer que o teu sorriso veio, +Quem quer que sejas,--flôr d'inefavel deleite, +D'ódio ou de fel,--és sempre o mesmo augusto seio +Em que a Dor e o Prazer bebem o mesmo leite! + +Calix do Sacrificio em que os meus labios ponho! +--Trazendo o Amor e a Morte a servir-te d'escolta,-- +Deste ao mundo o licôr do seu primeiro sonho, +O vinho e a embriaguez da primeira revolta! + +Sobes do prado em flor, desces dos altos cumes, +Na immarcessivel luz que os orbes incendeia; +Passas no largo vento a derramar perfumes, +Choras no vasto oceano a rebentar na areia! + +O teu Genio, que o barro amolda e purifica, +Enleva os corações de jubilo e transporte, +Se no Esqueleto exhibe a tunica mais rica, +Se em Belleza sorri na máscara da Morte: + +Teu segredo, que em sangue e lagrimas se envolve, +Mais obscuro se faz quanto mais o investigo; +--Sôpro que tudo cria e que tudo dissolve, +Força occulta, mysterio augusto, eu te bemdigo! + +Se, ousado, alguem buscando a tua ignota origem, +O abysmo a perscrutar sobre ti se debruça, +Da treva apenas sae, dissipada a vertigem, +Um immenso clamor que blasphema e soluça! + +És o raio de sol, a tempestade e o vento; +Vôo d'ave a cantar na floresta orvalhada; +Ancia no coração, lava no pensamento, +O Amor e o Odio, o Bem e o Mal,--és Tudo e és Nada! + +Mão potente, que a rocha endurecida escarva, +Tornando-a em fragil pó d'onde rebentam flores; +Fada occulta que tece o casulo da larva +E aos insectos iria as asas de esplendores... + +Beijo d'onde a traição como um veneno escorre; +Riso que se desfaz num amargo travor; +Larga estrada sem fim que a Ventura percorre, +Como um cego a cantar pelo braço da Dor! + +Quem quer que sejas,--tudo ou nada,--eu te bemdigo! +Pelo esforço immortal da tua heroica belleza, +Que, no revolto chão do soffrimento antigo, +Deixou tantos padrões e tropheus de grandeza! + +Se a alguem o teu mysterio a Esphinge revelasse, +Talvez nunca, a rolar dos planaltos risonhos, +A onda humana através da historia se lançasse, +Erguendo cathedraes e accumulando sonhos! + +Por isso eu te bemdigo, Alma que enches o Mundo! +Occulto coração, graça, illusão suprema! +Se tudo vem de ti, d'esse enygma profundo, +--A solução que importa? O que é grande é o problema!... + + + + +HYMNO Á BELLEZA + +_A Eugenio de Castro_ + + + + +HYMNO Á BELLEZA + + +Onde quer que o fulgor da tua gloria appareça, +--Obra de genio, flôr d'heroismo ou sanctidade,-- +Da Gioconda immortal na radiosa cabeça, +Num acto de grandeza augusta ou de bondade, + +--Como um pagão subindo á Acropole sagrada, +Vou de joelhos render-te o meu culto piedoso, +Ou seja o Heroe que leva uma aurora na Espada, +Ou o Sancto beijando as chagas do Leproso. + +Essa luz sem egual com que sempre illuminas +Tudo o que existe em nós de grande e puro, veio +Do mesmo foco em mil parábolas divinas: +--Raios do mesmo olhar, ancias do mesmo seio. + +Alta revelação que, baixando em segredo, +O prisma humano quebra em angulos dispersos, +Como a água a caír de rochedo em rochedo +Repete o mesmo som, mas em modos diversos. + +É audácia no Heroe; resignação no Sancto; +Som e Côr, ondulando em formas immortaes; +No mármore rebelde abre em folhas de acantho, +E esmalta de candura a flora dos vitraes. + +Oh Belleza! Oh Belleza! as Horas fugitivas +Passam deante de ti, aladas como sonhos... +Que importa onde ellas vão, d'outra força captivas, +Se o Infinito luz nos teus olhos risonhos?! + +Abrem flores, cantando, ao teu hálito ardente, +Brilham as aves como estrellas, e as estrellas, +Como flores enchendo a noite refulgente, +Deixam-se resvalar sobre quem vae colhê-las... + +És tu que ás illusões dás juventude e forma, +Tu, que talvez do ceu, d'onde vens, te recordes +Quando, a ouvir-nos chorar, a tua voz transforma +Dissonáncias de dor em immortaes accordes. + +Vejo-te muita vez,--luz d'aurora ou de raio,-- +Com um gládio de fogo a avançar no horizonte; +Ou então, em manhãs transparentes de maio, +Naiade toda nua a fugir d'uma fonte. + +Outras vezes, de noite e a occultas, appareces, +Como ovelha que Deus do seu redil tresmalha, +Trazendo no regaço inexgotaveis messes, +Que Elle por tuas mãos sobre a miseria espalha... + +Podesse eu revelar-te em estrophes aladas, +Que partissem ao sol refulgindo em lavores, +Com rimas d'oiro, em blau e purpura engastadas, +Como versos que vão desabrochando em flores! + +Mas a lingua não é sumptuosa bastante +Para nella deixar teu génio circumscripto; +Trago-te dentro em mim, sinto-te a cada instante, +E a voz nem mesmo tem a eloquencia d'um grito! + +Mas se para o teu culto, em esplendor externo, +Não encontro uma prece altamente expressiva, +Por ti meu coração arde d'um fogo eterno, +Como chamma a tremer de lampada votiva! + + + + +HYMNO Á DOR + +_Aos Condes de Sabugosa_ + + + + +HYMNO Á DOR + + +Sorri com mais doçura a boca de quem soffre, +Embora amargue o fel que os seus lábios beberam; +É mais ardente o olhar, onde como um aljofre, +A Dor se condensou e as lágrimas correram. + +Sôa, como se um beijo ou uma caricia fôsse, +A voz que a soluçar na Desgraça aprendeu; +E não ha para nós consolação mais doce, +Que o regaço de quem muito amou e soffreu. + +Voz, que jamais vibrou num soluço de mágua, +Ao nosso coração nunca pode chegar... +Mas o pranto, ao caír d'uns olhos razos d'agua, +Torna mais penetrante e mais profundo o olhar. + +Lábio, que só bebeu na fonte da Alegria, +É frio, como o olhar de quem nunca chorou; +A Bondade é uma flor que se alimenta e cria +Dos resíduos que a Dor no coração deixou. + +Em tudo quanto existe o Soffrimento imprime +Uma augusta expressão... mesmo a Suprema Graça, +Dando aos versos do Poeta esse esmalte sublime +Que torna immorredoira a Inspiração que passa. + +É por isso que a Dor, sem trégua nem guarida, +Dor sem resignação, Dor de estoico ou de santo, +Só de a vermos passar no tumulto da Vida +Deixa os olhos da gente ennublados de pranto. + + + + +HYMNO Á ALEGRIA + +_A Carlos Malheiro Dias_ + + + + +HYMNO Á ALEGRIA + + +Tenho-a visto passar, cantando, á minha porta, +E ás vezes, bruscamente, invadir o meu lar, +Sentar-se á minha mesa, e a sorrir, meia morta, +Deitar-se no meu leito e o meu somno embalar. + +Tumultuosa, nos seus caprichos desenvoltos, +Quasi meiga, apesar do seu riso constante, +D'olhos a arder, labios em flor, cabellos soltos, +A um tempo é cortesã, deusa ingenua ou bachante... + +Quando ella passa, a luz dos seus olhos deslumbra; +Tem como o sol d'inverno um brilho encantador; +Mas o brilho é fugaz,--scintilla na penumbra, +Sem que d'elle irradie um facho creador. + +Quando menos se espera, irrompe d'improviso; +Mas foge-nos tambem com uma presteza egual; +E d'ella apenas fica um pállido sorriso +Traduzindo o desdem d'uma illusão banal. + +Onda mansa que só á superficie corre, +Toda a alegria é vã; só a Dor é fecunda! +A Dor é a Inspiração, louro que nunca morre, +Se em nós crava a raiz exhaustiva e profunda! + +No entanto, eu te saudo e louvo, hora dourada, +Em que a Alegria vem extinguir, de surpresa, +Como chuva a cair numa planta abrasada, +A fornalha em que a Dor se transmuta em Belleza! + +Pensar, é certo, eleva o espirito mais alto; +Soffrer torna melhor o coração; depura +Como um crysol: a chispa irrompe do basalto, +Sae o oiro em fusão da escoria mais impura. + +A Alegria é fallaz; só quem soffre não erra, +Se a Dor o eleva a Deus, na palavra que o louve; +A Alma, na oração, desprende-se da terra; +Jamais o homem é vão deante de Deus que o ouve! + +E comtudo,--illusão!--basta que ella sorria, +Basta vê-la de longe, um momento, a acenar, +Vamos logo em tropel, no capricho do dia, +Como ébrios, Evohé! atrás d'ella a cantar! + +Mas se ella, de repente, ao nosso olhar se furta, +Todo o seu brilho é pó que anda no sol disperso; +A Alegria perfeita é uma aurora tão curta, +Que mal chega a doirar as cortinas do berço. + +Ás vezes, essa luz de tão fragil encanto, +Vem ainda banhar certas horas da Vida, +Como um iris de paz numa névoa de pranto, +Crepitação, fulgor d'uma estrella perdida. + +Então, no resplendor d'essa aurora bemdita, +Toma corpo a illusão, e sem áncias, sem penas, +O espirito remoça, o coração palpita, +Seja a nossa alma embora uma saudade apenas! + +Mas ephémera ou vã, a Alegria... que importa? +Deusa ingenua ou bachante, o seu riso clemente, +Quando, mesmo de longe, echôa á nossa porta, +Deixa em louco alvoroço o coração da gente! + +Momentánea ou fallaz, é sempre um dom divino, +Sol que um instante vem a nossa alma aquecer... +Podesse eu celebrar teu louvor no meu Hymno! +Momentáneo, fallaz encanto de viver! + +O teu sorriso enxuga o pranto que choramos, +E eu não sei traduzir a ventura que exprimes! +Nesta sentimental lingua que nós falamos, +Só a Dor e a Paixão têm accordes sublimes! + + + + +HYMNO Á SOLIDÃO + +_Ao Padre João Ignacio de Araujo Lima_ + + +Vive ut vis, sed cum aegrotabis +Justis lachrymis damnabis +Omnes mundi insulas. +O beata solitudo, +O sola beatitudo, +Piis secessicolis! + +Cornelius, Martyr. + + + + +HYMNO Á SOLIDÃO + + +Diz-se que a solidão torna a vida um deserto; +Mas quem sabe viver com a sua alma, nunca +Se encontra só; a Alma é um mundo, um mundo aberto +Cujo átrio, a nossos pés, de pétalas se junca. + +Mundo vasto que mil existencias povoam: +Imagens, concepções, formas do sentimento, +--Sonhos puros que nelle em belleza revoam +E ficam a brilhar, soes do seu firmamento. + +Dia a dia, hora a hora, o Pensamento lavra +Esse fecundo chão onde se esconde e medra +A semente que vae germinar na Palavra, +Cantar no Som, florir na Côr, sorrir na Pedra! + +Basta que certa luz de seus raios aqueça +A semente que jaz na sua leiva escondida, +Para que ella, a sorrir, desabroche e floresça, +De perfumes enchendo as estradas da Vida. + +Sei que embora essa luz nem para todos tenha +O mesmo brilho, o mesmo impulso creador, +Da Glória, sempre vã, todo o asceta desdenha, +Vivendo como um Deus no seu mundo interior. + +E que mundo sublime, esse em que elle se agita! +Mundo que de si mesmo e em si mesmo creou, +E em cuja creação o seu sangue palpita, +Que não ha Deus estranho aos orbes que formou. + +Nem luctas, nem paixões: ideaes serenidades +Em que o Tempo se esvae sob o encanto da Hora... +O passado e o porvir são ancias e saudades: +Só no instante que passa a plenitude mora. + +Sombra crepuscular, que a Noite não attinge, +Nem a Aurora desfaz: rosiclér e luar, +Meia tinta em que a Alma abre os labios de Esphinge, +E o seu mystério ensina a quem sabe escutar. + +Mas então, innundando essa penumbra dôce, +De não sei que sublime esplendor sideral, +Como se a emanação d'um ser divino fôsse, +Deixa no nosso olhar um reflexo immortal. + +Na vertigem que a vida exalta e desvaria, +Pára alguem para ouvir um coração que bate? +No seio mais formoso, o olhar que se extasia +Vê o mundo que nelle em ancias se debate? + +É só na solidão que a alma se revela, +Como uma flor nocturna as pétalas abrindo, +A uma luz, que é talvez o clarão d'uma estrella, +Talvez o olhar de Deus, d'astro em astro caindo... + +E d'essa luz, a flôr sem forma, ha pouco obscura, +Recebe o seu quinhão de graça e de pureza, +Como das mãos do artista, animando a esculptura, +O mármore recebe a sua alma--a Belleza. + +Se soffrer é pensar, na paz do isolamento, +Como d'um calix cheio o liquido extravasa, +A Dor, que a Alma empolgou, trasborda em pensamento, +E a pouco e pouco extingue o fogo em que se abrasa. + +Como a montanha d'oiro, a Alma, em seu mysterio, +Á superficie nunca o seu teor revela; +Só depois de sondado e fundido o minério +Se conhece a riqueza accumulada nella. + +Corações que a Existencia em tumulto arrebata! +Esse oiro só se extrae do minério candente, +No silencio, na paz, na quietação abstracta, +Das estrellas do Ceu sob o olhar indulgente... + + + + +HYMNO Á MORTE + + Meorum amicorumque pié manibus + + + + +HYMNO Á MORTE + + Meorum amicorumque pié manibus. + + +Tenho ás vezes sentido o chocar dos teus ossos +E o vento da tua asa os meus labios roçar; +Mas da tua presença o rasto de destroços +Nunca de susto fez meu coração parar. + +Nunca, espanto ou receio, ao meu animo trouxe +Esse aspecto de horror com que tudo apavoras, +Nas tuas mãos erguendo a inexoravel Fouce +E a ampulheta em que vaes pulverizando as horas. + +Sei que andas, como sombra, a seguir os meus passos, +Tão proxima de mim que te respiro o alento, +--Prestes como uma noiva a estreitar-me em teus braços, +E a arrastar-me comtigo ao teu leito sangrento... + +Que importa? Do teu seio a noite que amedronta, +Para mim não é mais que o refluxo da Vida, +Noite da noite, d'onde esplendida desponta +A aurora espiritual da Terra Prometida. + +A Alma volta á Luz; sae d'esse hiato de sombra, +Como o insecto da larva. A Morte que me aterra, +Essa que tanta vez o meu animo assombra, +Não és tu, com a paz do teu oásis de terra! + +Quantas vezes, na angustia, o soffrimento invoca +O teu suave dormir sob a leiva de flores!... +A Morte, que sem dó me tortura e suffoca, +É outra,--essa que em nós cava sulcos de dores. + +Morte que, sem piedade, uma a uma arrebata, +Como um tufão que passa, as nossas affeições. +E, deixando-nos sós, lentamente nos mata, +Abrindo-lhes a cova em nossos corações. + +Parenthesis de sombra entre o poente e a alvorada, +Morrer, é ter vivido, é renascer... O horror +Da Morte, o horror que gera a consciencia do Nada, +Quem vive é que lhe sente o afflictivo travor. + +Sangue do nosso sangue, almas que estremecemos, +Seres que um grande affecto á nossa vida enlaça, +--Somos nós que a sua morte implacavel soffremos, +É em nós, é em nós que a sua morte se passa! + +Só então, da tua asa a sombra formidavel, +Anjo negro da Morte! aos meus olhos parece +Uma noite sem fim, uma noite insondavel, +Noite de soledade em que nunca amanhece... + +Só então, succumbindo á dor que me fulmina, +A mim mesmo pergunto, entre espanto e receio, +Se a tua asa não é d'um Anjo de rapina, +Se eu poderei em paz repoisar no teu seio! + +Inflexivel e cego, o poder do teu sceptro +Só então me desvaira em cruel agonia, +Ao ver com que presteza elle faz um espectro +D'alguem, que ha pouco ainda, ao pé de nós sorria. + +Mas se n'essa tortura, exhausto o pensamento, +Para ti, face a face, ergo os olhos contricto, +Passa deante de mim, como um deslumbramento, +Constellando o teu manto, a visão do Infinito. + +E de novo, ao sair d'essa angustia demente, +Sinto bem que tu és, para toda a amargura, +A Euthanasia serena em cujo olhar clemente +Arde a chamma em que toda a escoria se depura. + +É pela tua mão, feito um rasgão na treva, +Que a Alma se liberta, e d'esplendor vestida +--Borboleta celeste, ébria de Deus,--s'eleva +Para a Luz immortal, Luz do Amor, Luz da Vida! + + + + +EPILOGO + + + + +EPILOGO + + +Como um captivo, aqui te deixo, Pensamento, +As asas d'oiro amarfanhadas, +Com o esforço que fiz de forma e sentimento, +Nestas estrophes mal rimadas... + +Os meus olhos, a noite immensa perscrutando, +Viram-te bello e refulgente; +E ao teu contacto, a Alma em trevas, despertando, +Illuminou-se de repente. + +A cadeia, que ao lodo obscuro a tinha presa, +Fundiu-se ao beijo que lhe deste; +E a alma liberta, ao sol da Graça e da Belleza, +Abriu, cantando, a asa celeste! + +Descendo para mim d'outras espheras, vinhas +Banhado ainda em luz sublime; +Via-te bem, sentia os encantos que tinhas, +Mas a palavra não te exprime. + +E quem hoje te vê, n'estas imagens frias, +Encarcerado em duro engaste, +Nem por sombras suppõe com que esplendor fulgias, +Quando aos meus olhos te mostraste! + +Nem as outras visões que ficaram sem forma +Em nebulosa inconsistente, +A espera d'essa luz que ao vir de ti transforma +O pó da terra em oiro ardente... +*/ + + + + +LENDAS E FABULAS + + + + +PRELUDIO + + + + +PRELUDIO + + +Ferreiro velho e cansado +Deixa a forja, não trabalha; +O fogo, quasi apagado, +Poucas faúlas espalha; +Mas do ferro trabalhado +Vae recolhendo a limalha. +Ferreiro velho e cansado +Deixa a forja, não trabalha. + +Como á luz do sol doirado +É poeira d'oiro a limalha, +A todo o olhar angustiado +Em que a Saudade se espalha, +Parecem d'oiro e brocado +Lentejoulas de mortalha... +Ferreiro velho e cansado +Deixa a forja, não trabalha; +Mas do ferro trabalhado, +Vae recolhendo a limalha. + + + + +O AMOR E O TEMPO + +(CHRISTOPULOS) + + + + +O AMOR E O TEMPO + + + Pela montanha alcantilada +Todos quatro em alegre companhia, + O Amor, o Tempo, a minha Amada + E eu subiamos um dia. + +Da minha Amada no gentil semblante +Já se viam indicios de cansaço; + O Amor passava-nos adeante + E o Tempo accelerava o passo. + + --«Amor! Amor! mais de vagar! +Não corras tanto assim, que tão ligeira +Não pode com certeza caminhar + A minha doce companheira!» + +Subito, o Amor e o Tempo, combinados, +Abrem as asas trémulas ao vento... +--«Porque voaes assim tão apressados? +Onde vos dirigis?»--Nesse momento, + +Volta-se o Amor e diz com azedume: + --«Tende paciencia, amigos meus! + Eu sempre tive este costume +De fugir com o Tempo... Adeus! Adeus!» + + + + +FABULA ANTIGA + +_A Manuel d'Oliveira Monteiro_ + + + + +FABULA ANTIGA + + +No principio do mundo o Amor não era cego; +Via mesmo através da escuridão cerrada +Com pupilas de Lynce em olhos de Morcego. + +Mas um dia, brincando, a Demencia, irritada, +Num impeto de furia os seus olhos vazou; +Foi a Demencia logo ás feras condemnada, + +Mas Jupiter, sorrindo, a pena commutou. +A Demencia ficou apenas obrigada +A acompanhar o Amor, visto que ella o cegou, + +Como um pobre que leva um cego pela estrada. +Unidos desde então por invisiveis laços, +Quando o Amor emprehende a mais simples jornada, +Vae a Demencia adeante a conduzir-lhe os passos. + + + + +CLEOPATRA + +_A José Coelho da Motta Prego_ + + + + +CLEOPATRA + + +Como a concha de nácar luminoso. +Em que Venus surgiu, risonha e nua, +A Galera vogava ao sol radioso +Com a graça d'um Cysne que fluctua. + +Soltas ao vento as velas de brocado, +Ao som das Lyras, sobre o rio immenso, +Dos remos d'oiro e de marfim sulcado, +O destino do Mundo ia suspenso! + +Como nuvens correndo, as horas passam; +Já se divisa o porto; o sol declina, +E emquanto as velas, marinheiros, cassam, +Ella que um sonho de poder domina, + +Deante do espelho, a reflectir, perscruta +Do seu corpo a belleza profanada, +Como o rufião nocturno, antes da lucta, +Examinando a lamina da espada! + + + + +MOIRO E CHRISTÃ + +_A Antonio de Barbosa de Mendonça_ + + +Abou-el Hassan, Ali, fils d'Abdalla, +Elzagouni, raconte ce qui suit... + +Ebu-Abi-Hadglat, _Divan Oriental_. + + + + +MOIRO E CHRISTÃ + + +O pobre moiro enamorou-se +D'Ely, môça christã, sendo filho do Emir... +Tamanha dor sentiu, que o misero exilou-se, +Como se alguem podesse á propria dor fugir! + +Longe, na terra alheia, abrasa-lhe a memoria +A imagem da mulher que a vida lhe prendeu, +Vendo-a morta, a sorrir sob um nimbo de gloria, +Mas no esplendor de um ceu que nem mesmo era o seu... + +Por sua vez, Ely nunca pôde esquecê-lo, +E nesse immenso amor, com presagios de agoiro, +Sentia-se morrer, como um lirio no gêlo, +Sem o doce luar dos seus olhos de moiro... + +Mas no instante supremo, ambos crentes, temendo +Que a Morte os separasse, em tão oppostos ceus, +Elle invocou Jesus, cheio de fé, morrendo; +E a christã murmurou: «Allah! só tu és Deus!» + + + + +A RESPOSTA DO ÁRABE + +_A João Gomes d'Abreu e Lima_ + + + Quelqu'un demanda un jour à Arouâ-Ben-Hezam, de la tribu d'Asra: + Est-il bien vrai que vous êtes de tous les hommes ceux qui avez le + coeur le plus tendre en amour?--Oui, par Dieu! cela est vrai, + répondit Arouâ, et j'ai connu dans ma tribu trente jeunes gens que + la mort a enlevés, et qui n'avaient d'autre maladie que l'amour. + + Ebu-Abi-Hadglat, _Divan de l'Amour_. + + + + +A RESPOSTA DO ÁRABE + + +«De que país és tu?»--A um árabe dizia +Sahid, filho d'Agbá, na estrada, ao fim do dia. + +Era a hora em que o sol se fecha no Occidente +Como o olhar moribundo e triste d'um doente. + +E o árabe respondeu, banhado na piedosa +Claridade da luz, quasi religiosa: + +--«Sou da raça que tem o excepcional fervor +D'amar eternamente e de morrer d'amor.»-- + +--«Então és tu de Asrá.»--accrescentou Sahid; +--«Sim, por Kaaba! Foi essa a tribu onde eu nasci.» + +E de novo Sahid o interrogava attento: +--«Por que motivo, pois, tão nobre sentimento + +Nunca se muda em vós n'uma paixão nefasta?»-- +O crepusculo enchia o ceu meio estrellado, +E o árabe tornou, como que illuminado: +--«Porque a mulher é bella e a juventude é casta!» + + + + +A VOCAÇÃO D'IBRAHIM + +_A Aristides da Motta_ + + + Outros a quem impugna Genebrado, _in Chronologia_ dizen que fue + Abraham Idolatra como su padre, y le ayudava a su padre Thare a + hazer Idolos de barro, y San Clemente Alexandrino, en el _lib. I + recognitionem_, y Suydas, _in verbo Abrahan_: dizem que fue primero + infiel empero que fue tan eminente en el Astrologia, que por el + conocimiento natural de las estrellas conveiò al verdadero Dios. + + _Prosapia de Christo_, por el L.^{do} Diego Matute de Penafiel, + fol. 109. + + + + +A VOCAÇÃO D'IBRAHIM + + +Vendo, mudos á Dor, os Idolos grosseiros, +Que o oleiro antigo e rude em barro modelava, +Ibrahim despedaça os Deuses derradeiros, +E as terras de Ur, familia e patria, abandonava. + +Só, na noite profunda e num amplo deserto, +Sem que o sitio onde está e a estrada reconheça, +--Numa nesga de ceu quasi todo encoberto,-- +Viu um Astro a luzir sobre a sua cabeça. + +E absorto nessa luz que do alto cahia, +Como um pressentimento augusto a illuminá-lo, +Bradou, cheio da paz que sôbre elle descia: +--«Eis o Deus verdadeiro!»--e prostrou-se a adorá-lo. + +Mas o Astro immergiu na curva em que fluctua, +Quando o Luar rompeu como um vasto luzeiro; +E attonito, Ibrahim pensava, olhando a Lua: +--«Deus não pode esconder-se! Eis o Deus verdadeiro!» + +E outra vez, como chuva em calcinada areia, +A paz, ao seu turbado espirito baixara; +Parecia-lhe agora, esse luar da Chaldeia, +Que tinha uma outra luz, mais ardente e mais clara. + +Mas a Lua descreve a orbita marcada +E some-se ao primeiro esplendor do arrebol; +Borda todo o horizonte uma fimbria doirada, +E entre nuvens a arder surge o orbe do Sol. + +Como o homem que sae d'um longinquo desterro, +E de subito encontra o lar e encontra os seus, +Ibrahim mede o abysmo enorme do seu erro, +E de joelhos proclama:--«Eis o unico Deus!»-- + +Mas a tarde descia, e Elle, sempre de rastros, +Perdido na abstracção do seu culto fervente, +Quando os olhos ergueu já luziam os astros, +E do Sol mal se via um clarão no occidente. + +Então, no seu assombro, o espirito perplexo, +Exalta-se, e da immensa altura a que ascendeu +Viu em tudo o que existe apenas o reflexo +D'um invisivel Ser que fez a Terra e o Ceu... + + + + +PRINCESA ENCANTADA + +_A Alfredo da Cunha_ + + + + +PRINCESA ENCANTADA + + +Formosa Princesa dormia ha cem annos; +Dormia ou sonhava... Ninguem o sabia. +Passavam-se os dias, passavam-se os annos, +E a linda Princesa dormia, dormia, + Dormia ha cem annos! + +Em torno, sentadas, dormiam as Damas, +Cobertas de joias, cobertas de lhamas; + +Com formas e aspectos de finas imagens, +Esbeltos e loiros, dormiam os pagens. + +E ás portas de bronze, por terra halabardas, +Num somno profundo dormiam os guardas. + +Lá fóra, na sombra dos parques discretos, +Nem aves gorgeiam, nem zumbem insectos. + +As arvores sonham, na sombra dos poentes, +Immoveis, á beira dos lagos dormentes. + +E as fontes que d'antes sonoras gemiam, +Somnambulas mudas, apenas corriam... + +Um dia, de longe, de terras distantes, +Com pagens, arautos, donzeis, passavantes, + +Bandeiras ao vento, clarins, atabales, +Echoando a distancia por montes e valles, + +--Um principe, herdeiro d'um throno potente, +Com olhos suaves d'aurora nascente, + +Excelso e formoso, magnanimo e moço, +--Correndo aventuras, num grande alvoroço, + +Chegou ao Castello, que ha tanto dormia, +Como uma alvorada, prenuncia do dia... + +E ao ver a princesa, sentada em seu throno, +N'aquelle profundo, extactico somno, + +Tomado d'estranha, indizivel surpresa, +Na boca entreaberta da linda Princesa, + +Tremendo e sorrindo, seu labio collou-se +N'um beijo, que ao labio a alma lhe trouxe. + +Accorda a Princesa; despertam as Damas, +As faces ardentes, os olhos em chamas. + +Despertam os Pagens, nos seus escabellos, +Com halos de fogo nos loiros cabellos. + +Accordam os guardas; e, tudo desperto, +A vida renasce no parque deserto. + +Suspiram as fontes; gorgeiam as aves, +Das áleas profundas nas sombras suaves. + +As arvores tremem, no ar transparente, +Á brisa que sopra, como halito ardente. + +Nas torres, os sinos repicam de festa; +O povo em choreias enchia a floresta... + +E a linda Princesa, seus olhos fitando +No Principe excelso, sorrindo e còrando, + +--«Sonhava comtigo...» Porque é que tardaste? +Mas já nesse instante, formando contraste, + +Quando isto dizia, erguendo-se a medo, +A voz parecia trahir o segredo + +De quem, num relance, talvez lamentasse +Que sonho tão lindo tão cedo acabasse!... + +A linda Princesa sonhava ha cem annos, +E fóra do Sonho só há desenganos... + + + + +O ROMANCE DA PASTORA LINDA + +_Aos Condes de Bertiandos_ + + +Och hör du, liten Carin! +Säg, vill du blifva min? + +Liten Carin, Folkvisa. + + + + +O ROMANCE DA PASTORA LINDA + + +A linda Pastora, guardando o seu gado, +Andava esquecida num alto montado. + +E o Rei, que voltava, sombrio, da caça, +Com seus falcoeiros e galgos de raça, + +Detem-se, pensando, de subito, ao vê-la, +Em ermo tão alto, que fôsse uma estrella. + +--«Oh linda Pastora dos olhos castanhos, +Que passas a vida guardando rebanhos! + +A tua belleza deslumbra os meus olhos, +Como uma tulípa no meio de abrolhos. + +Teus labios parecem cerejas vermelhas, +E a pelle é mais fina que a lã das ovelhas. + +Sobre o oiro das tranças, tuas faces tão puras +São duas papoilas em searas maduras. + +Estrella ou Pastora, se queres ser minha, +Terás as riquezas que tem a Rainha!» + +--«A flôr dos vallados é sempre modesta +E a humilde zagalla presume de honesta.» + +--«Terás equipagens, palacios, castellos, +E joias a arderem nos fulvos cabellos; + +Um throno de esmaltes em oiros massiços, +Lacaios, escravos, fidalgos submissos!...» + +--«Ás vossas riquezas, perdidas nos montes, +Prefiro mirar-me no espelho das fontes; + +As joias, que valem, se eu guardo o meu gado, +Com rubras papoilas a arder no toucado?... + +De nada me servem fidalgos, escravos, +Pois tenho as abelhas e o mel dos meus favos. + +Segui vosso rumo, que a tarde caminha; +Guardae as riquezas que são da Rainha». + +--«Não rias, vaidosa, das minhas promessas, +Que a forca tem visto mais lindas cabeças...» + +--«Talvez que mais lindas já visse pender, +Mas nunca tão firme nenhuma ha-de ver, + +Que a Virgem Santissima, a Virgem clemente, +Ampara, sorrindo, quem morre innocente, + +E os anjos, descendo do ceu a voar, +Á forca viriam minh'alma buscar!» + +E a linda Pastora, que a ser ultrajada +A morte prefere,--vae ser enforcada! + +Levaram-na, á força, das suas ovelhas, +Pendendo-lhe ás tranças papoilas vermelhas, + +Com gritos de escarneo, no meio da turba... +Mas nada os seus olhos serenos perturba. + +E toda inundada na luz que irradia, +Sorrindo, os estrados da forca subia... + +Então, n'um relance, do azul transparente, +Surgindo mais alvas que a lua nascente, + +Duas pombas que descem e voam a par, +Nos braços da forca vieram poisar... + +E a linda Pastora dos olhos castanhos, +Tão longe da serra, cercada de estranhos, + +Sem ter um gemido, sem ter um lamento, +Expira na forca... Mas n'esse momento, + +No grande silencio que a morte causara, +Aos olhos de todos que attonitos viram +Tão grande prodigio, coragem tão rara, +Dos braços da forca--três pombas partiram! + + + + +A LENDA DOS CYSNES + +_A Julio Dantas_ + + + Gedulde Dich, stilles, hoffendes Herze! Was Dir im Leben versagt + ist, weil Du es nicht ertragen könntest, giebt Dir der Augenblick + Deines Todes. + + Herder. + + + + +A LENDA DOS CYSNES + + +Da praia longinqua, na areia doirada, +O Cysne pensava, fitando a Alvorada: + +--«Que immensa ventura, na minha mudez, +Se dado me fôsse cantar uma vez!» + +--«Meu canto seria, na luz do arrebol, +Dos hymnos mais altos á gloria do Sol...» + +Não é das gaivotas e gansos do lago +O canto que em sonhos ardentes afago; + +É quando nos bosques as aves escuto +Que a inveja confrange minh'alma de luto. + +Se a Aurora se lança do cume dos montes, +Até d'alegria murmuram as fontes; + +Só eu, passeando o meu tedio supremo, +Nem rio, nem choro, nem canto, nem gemo. + +Oh Sol, que já vejo surgindo do Mar, +Tem dó de quem, mudo, não pode cantar!»-- + +E o Cysne, em silencio, chorava, escutando +A orchestra das aves que passam em bando. + +Das aguas rompia a quadriga d'Apollo, +E o pobre a cabeça escondia no collo... + +Mas Phebo detem-se nas nuvens ao vê-lo, +Com feixes de raios no fulvo cabello, + +E diz-lhe, sorrindo, n'um halo de fogo: +--«No Olympo sagrado ouviu-se o teu rogo...»-- + +E nesse momento a Lyra Sem Par, +Da mão luminosa deixou resvalar... + +O Cysne, orgulhoso da graça divina, +Da Lyra d'Apollo as cordas afina, + +E rompe cantando... Calaram-se as fontes, +Calaram-se as aves... As urzes dos montes + +Tremiam de goso a ouvi-lo cantar... +E o vento sonhava na espuma do Mar. + +O Cysne cantava, tirando da Lyra +Um hymno que nunca na terra se ouvira; + +Não pára, nem sente, na sua emoção, +Que a vida lhe foge naquella canção. + +Mas quando, entre nuvens, a tarde cahia +No enlevo do canto que a essa hora gemia, + +E Apollo no seio de Thetis desceu, +O pobre do Cysne, cantando, morreu... + +Gemeram as aves; choraram as fontes; +Torceu-se nas hastes a giesta dos montes, + +E o mar soluçava na tarde sombria, +Que o manto de luto com astros tecia. + +Sollicita espera-o, das aguas á beira, +Do Cysne, já morto, fiel companheira; + +Espera que o Esposo de prompto regresse, +Mas treme e suspira, que a Noite já desce... + +As aguas luzentes parecem-lhe, ao vê-las, +Um panno d'enterro picado d'estrellas. + +Então, no seu luto, sentindo que morre, +Oceanos e praias distantes percorre; + +Mergulha nas aguas, colleia nas ondas, +Espreita as galeras de velas redondas, + +Que ao longe parece que vão a voar... +E o Cysne não volta, não pode voltar! + +Chorosa viuva, nas aguas deslisa, +Levada na fresca salsugem da brisa... + +No seu abondono nem sente canseira; +Caminha, caminha, fiel companheira, + +Chorando o perdido, desfeito casal... +Tão funda era a mágoa, tão grande o seu mal, + +Que o peito sentindo de dor estalar, +--De dor e d'angustia começa a cantar! + +E canta com tanta ternura e paixão, +Que a Vida lhe foge naquella canção. + +As aves despertam; calaram-se as fontes; +Nas hastes tremiam as urzes dos montes; + +A Lua escutava; detinha-se a Aurora, +E as vagas gemiam no vento que chora... + +Na terra, no espaço, nos astros, no ceu, +Mais alta harmonia ninguem concebeu; + +E os Deuses recebem, ouvindo-a, a chorar, +A alma do Cysne que expira a cantar... + +Desde esse momento, no Olympo onde entraram, +Em honra dos Cysnes que tanto se amaram, + +Das almas que foram leaes e sinceras, +Se Venus se mostra, surgindo da bruma, +São elles que tiram, nas altas espheras, +A concha de nácar, cercada de espuma... + + +FIM + + + + +Apreciações da «Ilha os Amores» e do «Cancioneiro Chinês» + + + + +SOBRE A «ILHA DOS AMORES» + + +Poeta por necessidade de temperamento e por fatalidade de herança, +Antonio Feijó sabe impôr, a quem o lê, a contestada mas suprema +fidalguia do verso. Emotivo e delicado como os velhos bysantinos, +amoroso e enternecido como todo o meridional, a sua bella constituição +de lyrico assegura-lhe um logar inteiramente á parte entre os technicos +portugueses. Sendo um religioso da côr, Feijó desadora as tintas +impetuosas e agressivas, e, numa preciosa doçura, dá-nos a branco e oiro +as suas figuras de mulher. O ar contemplativo, o ar extatico das suas +lyricas, veio-lhe no sangue. Numa remota ascendencia lá está frei +Agostinho da Cruz a assegurar-lhe a fatalidade da herança. + +Não é esteril a intervenção da hereditariedade na comprehensão moral +d'um poeta. O incomparavel mistico da Arrabida renasce espiritualmente +na alta uncção lyrica e nos piedosos enternecimentos de Antonio Feijó. + +Tenho aqui, sobre a minha mesa, esses dois bellos livros--a _Mystica de +frei Agostinho_ e a _Ilha dos Amores_,--tão proximos pelos laços de +familia e tão afastados pelo poder do tempo. O epilogo da Ilha dos +Amores, essa piedosa aspiração a uma vida mais simples, a um ruralismo +honesto e socegado, o que é elle, senão a affirmação d'um mysticismo +profundo, obliquado pela acção dissolvente do meio e pela orientação +revoltosa do tempo? _E tinhas Deus, para te consolar_,--diz +dolorosamente o poeta, no pungente isolamento a que o condemnou a sua +propria superioridade cerebral. O mesmo enlevo mystico d'aquelle, que + +Nas pedras do deserto achou brandura, +Nas serpentes da serra piedade +E nas pelles das feras cobertura. + +Lendo um e outro, o velho Agostinho Pimenta e o novo Antonio Feijó, vejo +a affirmação de dois grandes poetas e a imposição de duas grandes almas. +Entre o profundo amigo do duque de Aveiro e o louro diplomata, as +differenças apparentes fundem-se numa grande semelhança intima. O +primeiro, victima da sua emotividade excessiva, fugiu do amor da terra +para o amor do ceu; o outro, galante e vivo, deixou-se ficar pelo amor +da terra, e em grande verdade, ficou melhor. Mas quando a evocação da +mulher domina os espiritos d'um e de outro, quando o sentimento da côr +lhes illumina os olhos, então as apparições da Ilha dos Amores teem a +mesma luz que a apparição de Magdalena e de Santa Clara aos olhos +pisados do frade. Vejamos se as figuras que passam na insula encantada, +vestidas de oiro e de sonho, as não poderia ter evocado o cerebro d'um +mystico como Juan de la Cruz, Jacopone de Todi ou Lourenço de Medicis? +Uma _voluptuosa de si mesma_; outra, a lyrica Ignez, duas vezes virgem, +aquella, _toda de sol vestida e de astros coroada_; aquell'outra ainda, +_santa illuminada a oiro, no esplendor d'uma Assumpção_,--o que mostram +todas ellas, senão que o erotismo e o mysterio não são mais que dois +ramos da mesma arvore ou duas flôres do mesmo ramo? O mysticismo de +Agostinho Pimenta e o erotismo de Antonio Feijó, o que são elles, senão +uma e a mesma coisa? + +Disse eu, que o poeta da _Ilha dos Amores_ tinha um logar aparte entre +os technicos portugueses. A sua technica, sendo nalguns pontos +decadente, é, por assim dizer, classica e impeccavel no seu decadismo. +Feijó afastou-se da discutivel rigidez do classico absoluto, e fez um +classico seu, de cujas formulas se não aparta. As liberdades da sua +technica chegam a ser mais difficeis do que as difficuldades da technica +parnasiana. É um caso esporádico nos annaes da nossa lyrica. Seja como +fôr, Feijó tem no seu passado, como demonstração clara da sua impeccavel +métrica, dois livros modelares. Nas proprias paginas do _Auto do meu +affecto_, conserva-se um parnasiano puro. O mesmo nos sonetos da _Alma +Triste_. A _Ilha dos Amores_ veio apenas mostrar uma face nova do seu +grande poder de realização. O proprio Francisco Manoel de Mello teve +delirios metricos, como Feijó nalgumas das suas lyricas. E não é, por +isso, menos poeta. + +Deus queira que António Feijó nos traga um novo livro quando voltar,--um +livro todo de branco e oiro, em que o travor das suas nostalgias seja, +como neste ultimo, uma bem deliciosa nota. Até lá, envio-lhe, com as +saudades d'este ceu azul, o mais enternecido abraço. + +_Novidades_, 20 de Julho de 1897. + +Julio Dantas. + + * * * * * + +«ILHA DOS AMORES» + + +Temos desde hontem o novo livro de versos de Antonio Feijó--_Ilha dos +Amores_, saido, ha dias, dos prelos da Imprensa Nacional, e editado pela +casa M. Gomes, de Lisbôa. Evidentemente que, por muito menos fadigosa +que a nossa vida fôsse, nos seria absolutamente impossivel avaliar em +conjunto, dentro de tão breve espaço, a obra de um artista litterario da +nobre categoria a que pertence A. Feijó. Vai isto, assim, apenas como +registo de recepção e de vivo agradecimento, envoltamente com algumas +ligeiras notas da impressão que recebemos de uma rapida leitura. + +Essa impressão é magnifica. O talento de A. Feijó amplificou-se +notavelmente em emoção, em fantasia, em profundeza de alma; o poeta +alongou os seus passos e a sua visão pelo mundo, e á nostalgia da sua +bella mocidade, não muito longinqua, ainda, se lhe foi juntar a do seu +patrio Minho, tão distante do país scandinavo e, ao mesmo tempo, tão +brutalmente contrastado pela noite e pela neve d'essa tristissima região +polar. E é um encanto de observação o jogo d'esta dupla mágoa, d'este +complicado pungir, deliciosissimo, de que provêm as estancias da _Ilha +dos Amores_. Numa reacção vigorosa de fisiologia e de alma, assim como +os seus olhos se ensanguentaram naquella immensa noite, assim tambem, +naquella tristeza inexoravel, o coração do poeta se dilatou de saudades, +e a estetica do glorioso parnasiano antigo emoveu-se intensamente e +vibrou fundo; todas as nervuras do marmore sagrado se desmineralizaram +em veias e em arterias e uma onda rubra e fumegante circulou e palpitou +por todas ellas. + +De resto, em todos os versos que já lemos do novo livro, é o mesmo +estilo magnificente das producções de outr'ora, mas dexterisado com um +maravilhoso, consummado bom-gosto; é essa mesma amplitude +harmoniosissima e limpidez diamantina, o admiravel senso musical, a +riqueza larga de fantasia, e aquella fidalga probidade artistica, o +esmero, a esplendida perfeição de executante, que fizeram de Antonio +Feijó um dos mais elevados representantes da nossa poesia contemporanea. + +Em remate, da _Ilha dos Amores_, trasladamos para a valla do noticiario +esta divina lirica: + + +IGNEZ + + + Na tua bôca macerada +Por tantos beijos mercenarios que soffreste, +Meu labio achou ainda a candura sagrada +Que da avidez das outras bôcas escondeste... + +E no teu peito exhausto, onde em tumulto ouviste + Tantas paixões rolar, +A minh'alma escutou, num eco amargo e triste, +A primeira innocencia em segredo a chorar! + +A chorar em segredo a pureza da infancia, + A candura perdida, +De que eu sentia ainda a ultima fragrancia +A evolar-se de ti, como d'urna partida. + +Pobre flôr torturada! O teu doce perfume + Foi delicia e veneno... +Pairava o teu Amor como num alto cume: +Só podia attingi-lo o meu beijo sereno! + +Todo o teu ser vibrou como uma flor ao vento, + Tremeu, desfalleceu... +E a tua alma, esquecendo o seu longo tormento, +Num sorriso de gloria á tua bôca ascendeu! + +Vinha cheia de graça e candura ineffavel, + D'innocencia e de pejo, +Que eu fiquei a scismar se esse beijo insondavel +Seria porventura o teu primeiro beijo!... + +_Primeiro de Janeiro_, de 28 de Maio de 1897. + + * * * * * + +Ilha dos amores, por Antonio Feijó. Um vol. 114 pag. in 8^o, Lisbôa, +Editor M. Gomes 1897. + +Produz-se, ao lermos os versos d'este poeta, o desejo de simplesmente os +irmos transcrevendo todos; e nessas condições limitarmos a apreciação a +simples interjecções. Ninguem hoje, em Portugal, cinzela assim tão +primorosamente a lingua portugueza em metro e rima, e a obra litteraria +sae nitida, brilhante, completa,--sem que alguem note a fadiga do +obreiro, ou adivinhe os processos de factura. O artista confunde-se com +o dilettante, e é inconfundivel a linha de cada um d'elles. + +Reproduzo esses dezesseis versos,--e ponho ponto na prosa: + +Oh Musa Antiga, d'olhos placidos, rasgados etc. + +_Noites de Vigilia_. N.^o 16. + +Silva Pinto. + + * * * * * + +«CANCIONEIRO CHINEZ» por ANTONIO FEIJO + + +Dizia Oliveira Martins que o condão das bellas obras era relerem-se +indefinidamente. Ha treze annos que se publicou a primeira edição do +_Cancioneiro Chinez_. Desde então a poesia, sobretudo no mundo latino, +passou pela mais vertiginosa e estranha evolução, resvalando da _noble +ordonnance_ parnasiana até a anarchia quasi chaotica do decadismo, do +symbolismo, do instrumentismo, do amorphismo e d'outras phantasias +prosodicas e metricas. E, todavia, a segunda edição d'esse livro, +eminentemente artistico, nada mais faz do que renovar em quem o lê a +sensação de graça lyrica, de finura conceptual, de impecavel belleza +plastica, que fez o successo d'essa admiravel e feliz adaptação do +lyrismo chinez á nossa lingua. + +O trabalho de Antonio Feijó conseguindo, atravez das versões francezas, +tão maravilhosa transposição, sem estiolar a frescura emotiva do +original, é um dos mais bellos esforços d'arte e de gosto que a poesia +portugueza do fim do seculo passado tentou e realizou. Com a maestria +d'um habilissimo artifice da palavra, com a paciencia meticulosa d'um +beneditino do verso, elle trabalhou, limou, burilou essas pequenas e +graciosas joias, onde nos engastes da phrase perfeita scintillam as +gemmas da emoção lyrica. E como se não cingiu ás formulas inconstantes +da moda litteraria, como, em vez de martellar n'um molde o _plaqué_ +d'uma rethorica falsa, lavrou o seu pensamento no oiro puro do verbo +classico, a sua obra não envelheceu, não desbotou, nada perdeu do seu +brilho primitivo, e hoje, como ha treze annos, fulgura com o +inextinguivel esplendor do talento. + +É difficil apreciar bem uma versão, quando se não conhece a lingua +original da obra vertida. Mas mais difficil se torna ainda o fazel-o, +quando as duas linguas são tão dessimilhantes, de familias tão diversas, +de estrutura phonetica e até graphica tão differentes como são a nossa e +a chineza. Comtudo, se puzermos em confronto esses lindos poemazinhos e +as traduções da eminente sinologa, madame Judith Gautier, que verteu os +originaes chinezes para prosa franceza, fica-se surprehendido com a +exactidão, a fidelidade, o respeito meticuloso do texto, a que Antonio +Feijó se adstringiu no seu conscienciosissimo trabalho. Não é d'elle que +se poderá dizer: _traduttore, traditore_. Se os poemas chinezes são o +que a erudita filha do grande Théo nos revelou nas bellas paginas do +_Livro de Jade_, póde afoitamente dizer-se que o _Cancioneiro_ de +Antonio Feijó é a mais irreprehensivel e leal das traducções. + +Mas abstraiamos d'este ponto de vista. Supponhamos que Antonio Feijó não +buscou nos poetas chinezes mais do que motivos lyricos, para sobre elles +ensaiar variações ou glosas. Supponhamos que o Cancioneiro não é uma +traducção, nem uma adaptação, mas a obra de um poeta europeu, finamente +perfumada de orientalismo. Nem por isso a sua belleza seria menor, nem +por isso seriam menos admiraveis os versos purissimos d'essa purissima +obra d'arte. O auctor teria, neste caso, affirmado mais poderosamente as +suas faculdades de poeta e de artista, porque seria um semi-creador. E o +_Cancioneiro_, reduzido a uma imitação, não diminuiria de valor sob o +ponto de vista litterario. + +Portanto, traducção, adaptação ou imitação, esse bello livro é, de +qualquer forma, uma obra superior. As excepcionais faculdades poeticas +de Antonio Feijó, a sua ponderação, o seu gosto, a luminosidade e +elegancia do seu verbo, o seu poder de linha e de colorido, a sua +technica admiravel e conscienciosa, patenteiam-se n'elle de uma maneira +brilhante, impoem-se triumphantemente á nossa admiração. O _Cancioneiro +Chinez_ marca em Antonio Feijó a plena affirmação da sua individalidade +de artista--d'esta individualidade, que já as _Transfigurações_, um +tanto frias nas suas linhas esculpturaes, e as _Lyricas e Bucolicas_, +mais vivas e emocionadas e não menos bellas como forma, annunciavam +promettedoramente. Do _Cancioneiro Chinez_ á _Ilha dos Amores_ havia +apenas um passo a dar. Antonio Feijó deu-o com raro brilho--e tornou-se +um poeta consagrado, um verdadeiro mestre do verso. + +_O Cancioneiro_, além do _Portico_, que abre com a exotica decoração e +as sentenciosas inscripções de uma entrada de Pagode, foi accrescentado +com _O sacrificio de Gu-So-Gol_, um canto soberbo de epopeia barbara. +Neste trecho Feijó como que põe mais uma corda na sua lyra--a corda +epica. O quadro d'esse sacrificio heroico é, realmente, grande e nobre. +A flauta de yade, que modulava as docuras idyllicas ou elegiacas do +_Leque_, _Flôr Vermelha_, _Casa no Coração_, _Batel das Flores_, _Esposa +Honesta_, cede a vez á turba estridente que clangora as sublimidades do +heroismo. Os versos resoam bronzeos, metallicos, como um ruido de armas. +O seu rythmo alonga-se, ergue-se, empola-se, como uma vaga que o sopro +da tempestade entumesce. E em todo esse bello episodio uma forte +crispação tragica passa, fazendo-nos vibrar de um confuso sentimento, +mixto de terror e enthusiasmo epico. + +_Jornal da Noite_, de 14 de Agosto de 1909. + +Luiz de Magalhães. + + + + +INDICE + + +Prefacio, _por Luiz de Magalhães_ +Antonio Feijó, o que morreu de amor, _por Alberto d'Oliveira_ +Dedicatoria +Elegia d'abertura + + +SOL DE INVERNO + + +I + +Descendo a encosta do Parnaso (_A João Arroyo_) +A Armadura (_Ao Dr. Góran Björkman_) +A cidade do Sonho (_Ao Visconde de Pindella_) +Beatitude amarga (_A Silva Ramos, da Academia Brasileira_) +Castello bárbaro (_A José d'Azevedo Castello Branco_) +A Aguia prisioneira (_A Manuel da Silva Gayo_) +A Selva escura (_A João Chagas_) +O Livro da Vida (_A Antonio de Cardiellos_) + + +II + +Dyptico + » I + » II Eu e Tu +Paladinos (_Á Condessa d'Arnoso_) + » I Conde d'Arnoso, João + » II Conde d'Arnoso, Bernardo +Cabellos brancos, (_A D. Thomaz de Mello Breyner_) +Somnambula (_A João Caetano da Silva Campos_) +Cysne branco (_A Alberto d' Oliveira_) +Supplica ao Vento (_A Luiz de Magalhães_) +Gota de agua (_A memória de A. Rodrigues Braga_) +A Ventura (_A Anthero de Figueiredo_) +Entre pinheiros e cyprestes (_A meus sobrinhos Salvato e Ruy_) +Rio amargo (_A meu irmão Julio de Castro Feijó_) + + +III + +Hymno á Vida (_A Agostinho de Campos_) + » » Belleza (_A Eugenio de Castro_) + » » Dor (_Aos Condes de Sabugosa_) + » » Alegria (_A Carlos Malheiro Dias_) + » » Solidão (_Ao Padre J. I. de Araujo Lima_) + » » Morte +Epilogo + + +LENDAS E FABULAS + +Preludio +O Amor e o Tempo +Fabula antiga (_A Manuel d'Oliveira Monteiro_) +Cleopatra (_A José Coelho da Motta Prego_) +Moiro e Christã (_A Antonio de Barbosa de Mendonça_) +A resposta do Árabe (_A João Gomes d'Abreu e Lima_) +A vocação d'Ibrahim (_A Aristides da Motta_) +A Princesa encantada (_A Alfredo da Cunha_) +O Romance da Pastora Linda (_Ao Conde de Bertiandos_) +A Lenda dos Cysnes (_A Julio Dantas_) + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Sol de Inverno, by António Feijó + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK SOL DE INVERNO *** + +***** This file should be named 19532-8.txt or 19532-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/1/9/5/3/19532/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/19532-8.zip b/19532-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..33ba15f --- /dev/null +++ b/19532-8.zip diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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