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+The Project Gutenberg EBook of Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo IX, by
+Alexandre Herculano
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo IX
+
+Author: Alexandre Herculano
+
+Release Date: May 6, 2006 [EBook #18330]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OPÚSCULOS POR ALEXANDRE ***
+
+
+
+
+Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt),
+Nuno Lopes (Projecto Enclave) and edited by Rita Farinha
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+
+OPUSCULOS
+
+TOMO IX
+
+
+Proprietários e editores: José hastes & C.^a--Typographia da Antiga Casa
+Bertrand, Rua du Alegria, 100--Lisboa, 1909.
+
+
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+
+
+Opusculos
+
+POR
+
+A. HERCULANO
+
+
+TOMO IX
+
+
+LITTERATURA
+
+TOMO I
+
+
+*Antiga Casa Berfrand--JOSÉ BASTOS & C.^a--Livraria Editora*
+
+73, Rua Garrett, 75--LISBOA
+
+
+
+
+Reservados todos os direitos de propriedade. Para o Brazil, nos termos
+do ajuste feito entre Portugal e aquelle paiz em 9 de Setembro de 1889,
+mandado cumprir pelo decreto do Governo Imperial de 14 de Setembro do
+mesmo anno.
+
+
+
+
+ADVERTENCIA
+
+
+Na collecção dos tomos de opusculos de A. Herculano ainda até hoje não
+estava representado um dos grupos em que elle a dividiu--o de
+litteratura. O presente tomo vem remediar esta falta embora com a
+probabilidade de ficar isolado na divisão a que pertence. Os avulsos
+litterarios do nosso escriptor não são todos da mesma índole. Com alguns
+d'elles, os de caracter poetico, resolvemos coordenar um volume appenso
+ao grupo dos romances e lendas e que está prompto a entrar no prélo. Foi
+depois d'esta selecção que passámos a apurar entre os demais os
+adoptaveis para tomos de opusculos. Taes nos pareceu deverem ser os que
+constassem de historia, theses, controversias e juizos litterarios.
+Nestas condições a obra do escriptor era bastante para que elle tivesse
+calculado formar com ella dois tomos pelo menos e por certo mais, se
+aproveitasse interessantes cartas que no genero escrevera. Accresce que
+sendo a maioria d'estes artigos dos primeiros tempos da vida litteraria
+do auctor, elle proprio dizia tencionar acompanhá-los de um exame
+retrospectivo e ampliar alguns como em parte nelles indicara. É também o
+que se deduz do plano geral da publicação exposto na advertencia do tomo
+I. Mas dos trabalhos complementares conducentes a esse fim, e que o
+auctor de dia para dia adiava para horas de aprazivel remanso de
+espirito, não achámos vestigios nos papeis d'elle. Apenas nalguns dos
+artigos recolhidos neste tomo estavam indicadas breves correcções de
+linguagem, das quaes introduzimos nas cópias enviadas para o prélo as de
+immediata intelligencia. E ainda essas correcções, tão leves que hão-de
+passar despercebidas, seriam apenas preparativos de revisão, segundo o
+methodo adoptado pelo auctor,--meros signaes para marcar os logares e
+lembrar o sentido em que teriam de ser feitas as definitivas. Estes os
+motivos pelos quaes é provavel que tenhamos de limitar-nos ao presente
+tomo em materia de litteratura, sem todavia podermos assegurar que aos
+elementos que ficam de reserva, não venham de futuro junctar-se outros
+que por novas pesquisas possam apurar-se, e tornem possivel o seguimento
+do grupo.
+
+Dada, porém, a abundancia de original de que dispunhamos para este tomo,
+conseguimos organiza-lo de modo que os elementos que encerra quasi
+constituem um todo homogeneo de doutrina, representando em globo, sem
+embargo da falta de ampliações que haviam de enriquecê-lo; como que as
+generalidades de um curso de litteratura moderna, prevalecendo a lição
+sobre litteratura patria. E não admira que assim succeda attendendo á
+relação íntima dos artigos escolhidos com o ideal da epocha em que foram
+escriptos, e que dominava o espirito do auctor. Aspirava A. Herculano a
+encaminhar por meio d'elles a revolução litteraria que nascera para nós
+com a recente mudança de instituições politicas e que, sob o ponto de
+vista poetico com intenso brilho fôra iniciada por Almeida Garrett, com
+os dois poemas _D. Branca_ e _Camões_. D'ahi a feição doutrinal e
+harmonica que o tomo apresenta. Sabem os leitores com que riqueza e
+variedade de monumentos concorreu A. Herculano ao lado de tantos outros
+privilegiados escriptores para engrandecer a imponente phase das nossas
+letras que desde então se foi desenvolvendo. Juncto a esses monumentos
+vem, pois, occupar agora o logar que lhe compete, a propaganda com que
+elle os precedeu e os acompanhou, naquella esperançosa epocha de
+revivencia nacional.
+
+Nas paginas que precedem os artigos vão indicadas as datas em que estes
+vieram a publico e as folhas de onde foram trasladados. Mas desde já
+convém advertir que trouxemos os dois primeiros da folha quinzenal _O
+Repositorio Litterario_, publicada durante alguns meses de 1834 a 1835
+na cidade do Porto, contando o auctor vinte e quatro annos de edade. Nos
+dois annos anteriores havia elle arriscado a vida em mais de vinte
+combates do cêrco da cidade, em todos em que interviera o glorioso
+batalhão a que pertencia de _Voluntarios da Rainha_. Segundo resam
+formais attestados, e era proprio do altivo caracter que elle nunca
+desmentiu, em todos esses combates dera aos companheiros de armas
+exemplos de inexcedivel destemor, de arrojada bravura. Levantado o cêrco
+despia os trajos de soldado e quando se lhe afigurou terminada a lucta
+pelas armas, surgiu cheio de enthusiasmo, revelando inesperados
+conhecimentos e como vulto dominante do Repositorio, a pelejar no campo
+das idéas. Pela leitura dos dois artigos transcriptos d'essa folha, se
+ajuizará da originalidade e vigor com que deu começo á propaganda
+exposta no discorrer do tomo. O primeiro descreve o estado geral da
+nossa litteratura naquelle periodo de transição, visando norteá-la á luz
+das novas aspirações e exigencias sociaes, e nas varias fórmas em que
+ella tinha de manifestar-se. O segundo trata da poesia em especial, e
+como se o auctor já então quisesse dar medida do poderoso engenho
+analytico de que era dotado, ao passo que vai explanando com
+extraordinaria erudição e lucidez a famosa questão dos classicos e
+romanticos, vai tambem deduzindo e conglobando as bases de uma alta
+poetica de concepção propria, com o pensamento de afastar o genio
+nascente das aberrações de uma e outra d'aquellas seitas, e de o guiar
+para a fecunda desenvolução litteraria em que meditava.
+
+A par d'estes artigos abria o novel escriptor nas columnas do
+Repositorio, com a descripção das escholas de ensino elementar da
+Prussia, a campanha em parte descripta no tomo VIII de opusculos, e que
+não mais abandonou, em prol da instrucção popular. Provocando o
+confronto da excellencia d'aquellas escholas com a obscuridade das
+nossas, frisava por esse meio o alcance do grave assumpto, pondo em
+relevo perante os homens cultos e aquelles a quem competisse dirigir os
+destinos da nação, o maior dos obstaculos que tinham a vencer para
+assegurar o bom exito das instituições liberaes. O absolutismo politico
+fôra derrubado pelas armas e pelas geniaes concepções legislativas,
+arremessadas contra elle em som de guerra. Chegava o momento de lançar
+novas e grandes idéas, de suggestionar os espiritos para que sobre os
+escombros do derrocado edificio se erguesse gradualmente o da liberdade
+e da civilização. Era com o profundo sentimento, a nitida visão d'esta
+imperiosa necessidade social, que A. Herculano se estreava como
+propagandista no memoravel periodico portuense.
+
+_Maio de 1907_.
+
+O coordenador.
+
+
+
+
+Qual é o estado da nossa litteratura?
+
+Qual é o trilho que ella hoje tem a seguir?
+
+*REPOSITORIO LITTERARIO*
+
+1834
+
+
+
+
+Qual e o estado da nossa litteratura?
+
+Qual é o trilho que ella hoje tem a seguir?
+
+
+Estas duas perguntas pedem nada menos do que a dolorosa confissão da
+decadencia em que se acha em Portugal a poesia e a eloquencia, e o
+encargo difficultoso de indicar os meios de melhoramento no ensino e no
+estudo d'ellas. Sem pretender que sejam as unicas, nem as melhores,
+exporemos a serie das nossas idéas sobre este duplicado objecto.
+
+A convicção de uma verdade litteraria produziu nos seculos XVI e XVII um
+erro na Italia, que, extendendo-se á Hespanha e a Portugal, transviou da
+legitima direcção todos, ou quasi todos os escriptores da epocha chamada
+do seiscentismo. Sentiu-se que a metaphora, a mais bella de todas as
+figuras poeticas e oratorias, a mais repetida, a mais necessaria mesmo
+nos discursos communs da vida, abundava por isso nos bons escriptores
+classicos e modernos, que já nesse tempo illustravam a Europa: viu-se
+que as passagens bellas ou sublimes de Horacio, Pindaro e Virgilio, de
+Dante e Ariosto, deviam-lhe em grande parte a sua belleza e sublimidade,
+e isto era certo; inferiu-se d'ahi que a metaphora era o principal e
+talvez o unico meio da poesia e eloquencia, e que ella devia revestir
+todas as imagens e sujeitar ao seu imperio todos os generos, todos os
+estylos, e isto foi um erro: a vertigem metaphorica se apossou dos
+poetas e oradores, e, por uma consequencia natural, o fundo das idéas
+esqueceu e só se olhou para as fórmas: á sombra d'esta mania prosperavam
+os conceitos e as agudezas, chegando as letras a caír numa barbarie, que
+tanto mais irremediavel parecia por ser filha da civilização litteraria
+já exaggerada. _O Zodiaco soberano_, _Os crystaes d'alma_, _A Fenix
+renascida_ e outros muitos escriptos d'esse tempo, são lamentaveis
+monumentos da corrupção de gosto a que chegou Portugal no principio do
+decimo oitavo seculo.
+
+Porém o mal não foi sem remedio, e os membros da Arcadia fizeram volver
+as letras á severa singeleza das puras fórmas da Grecia. Muito ae deve a
+Garção, Gomes e Quita; mas ninguem tanto como Dinis mostrou a
+superioridade do genio e do gosto que caracterizaram a segunda metade do
+seculo XVIII. Dando os seus principaes cuidados á poesia chamada
+pindarica, genero difficil pelo audaz das figuras, pelo gigantesco das
+imagens, elle soube escapar aos defeitos e frioleiras do seiscentissimo
+que bebera na eschola, em composições nas quaes era mui facil
+introduzir-se o mau gosto; e ainda que Quita e Garção tentaram o mesmo
+genero, em nosso intender, Dinis não foi emulado. Capaz de todos os
+tons, no burlesco, no pastoril, no dithyrambico, nos deixou apreciaveis
+exemplos, e as suas dissertações sobre a poesia campestre são dictadas
+por um grande conhecimento da arte, ainda que não excedam em merecimento
+theorico as annotações de Gomes ás proprias poesias, nem os trabalhos de
+Freire e posteriormente de Barbosa e Fonseca sobre as poeticas de
+Aristoteles e Horacio.
+
+Entretanto nenhum dos poetas e litteratos do seculo de José I olhou as
+letras de um ponto de vista eminente. Similhantes aos escriptores do
+seculo de Luiz XIV, foram muito eruditos, mas pouco philosophos, e assim
+o caracter das duas litteraturas é a confusão dos principios absolutos
+com os de convenção. Cingindo-se quasi cégamente á auctoridade dos
+antigos, miudeada e explanada pelos commentadores, a sua obediencia
+illimitada a alheias opiniões contribuiu muito para a posterior
+decadencia. A impertinente questão dos archaismos e neologismos veiu
+tomar o logar das discussões da Arcadia e essa occupação dos meios
+talentos e da meia instrucção, influindo sobre objectos mais
+importantes, viciou e acanhou toda a litteratura. Se as notas, que sobre
+palavras e phrases Francisco Manuel ajunctou ás suas poesias, fossem
+dedicadas a _coisas_, quão ricas messes nós colheriamos do saber d'este
+homem! Mas infelizmente não foi assim, e a polemica suscitada sobre o
+merito do immortal cantor dos Lusiadas, pelos insultos que contra elle
+vomitou o orgulhoso auctor do gelado _Oriente_, mostraram a que
+mesquinho estado tinha a critica chegado em Portugal. Parte dos reparos
+que Macedo copiou dos criticos franceses ficaram sem cabal resposta,
+porque os systemas estheticos mais liberaes e philosophicos que o dos
+antigos, e o da eschola de Boileau, eram em geral desconhecidos entre
+nós, e estamos persuadidos de que o juizo a respeito do tão grande
+quanto infeliz Camões ainda resta a fazer, apesar da abundancia de
+escriptos que sobre este objecto se publicaram.
+
+Emquanto assim entre nós a critica se apoucava, um sentimento vago de
+desgosto pelas antigas fórmas poeticas, a influencia da philosophia na
+litteratura, a necessidade que sentia o genio de beber as suas
+inspirações num mundo de idéas mais analogas ás dos nossos tempos, e
+emfim, varias outras causas difficeis de enumerar, começaram a crear na
+Europa uma poetica nova, ou, digamos antes, a fazer abandonar os canones
+classicos. A Alemanha foi o foco da fermentação, e foi lá que os
+principios revolucionarios em litteratura começaram a tomar desde a sua
+origem uma consistencia, e a alcançar uma totalidade de doutrinas
+methodicas e consequentes, não dada, ainda hoje, ao resto das nações. Lá
+não havia a luctar com a gloria nacional para a introducção de novas
+idéas, porque os monumentos da eschola afrancesada de Opitz não honravam
+demasiadamente o dogmatismo intolerante do seculo de Luis XIV,
+impropriamente chamado classico, e Bodmer e Breitinger deram começo á
+revolução ousando preferir a poetica de Shakspeare e de Milton á de
+Racine e de Boileau; comtudo as opiniões na Alemanha teem-se desviado,
+em parte, d'esta direcção e as idéas de Schlegel já teem reagido na sua
+tendencia um tanto nova, sobre a litteratura inglesa donde tiveram
+origem. Na França o antigo systema, amparado pelo renome de muitas
+producções immortaes, disputa ainda a campanha ás innovações que entre
+esse povo, extremo em tudo, teem chegado a um deseafreamento barbaro e
+monstruoso.
+
+Mas a Portugal não coube o figurar nesta lide. A parte theorica da
+litteratura ha vinte annos que é entre nós quasi nulla: o movimento
+intellectual da Europa não passou a raia de um país onde todas as
+attenções, todos os cuidados estavam applicados ás miserias publicas e
+aos meios de as remover. Os poemas _D. Branca_ e _Camões_ appareceram um
+dia nas paginas da nossa historia litteraria sem precedentes que os
+annunciassem, um representando a poesia nacional, o _romantico_; outro a
+moderna poesia sentimental do Norte, ainda que descobrindo ás vezes o
+caracter meridional de seu auctor. Não é para este logar o exame dos
+meritos e demeritos destes dois poemas; mas o que devemos lembrar é que
+elles são para nós os primeiros e até agora os unicos monumentos de uma
+poesia mais liberal do que a de nossos maiores.
+
+Comtudo, não existindo ainda um só livro sobre as letras consideradas de
+um modo mais geral e mais philosophico do que os que possuimos; sem uma
+só voz se-ter levantado contra a auctoridade de Aristoleles e de seus
+infieis commentadores, será impossivel emittir um juizo imparcial sobre
+escriptos de similhante natureza. Julgá-los por fórmas que o poeta não
+admittiu, será um absurdo, emquanto se não provar a necessidade d'essas
+fórmas; e isto, mesmo que ellas sejam legitimas, só pode ser resultado
+de um maduro exame ou de uma polemica sincera. Antes d'isso os velhos
+eruditos, vendo offendida a _inviolabilidade_ de um tropel de preceitos
+que julgavam imprescriptiveis, só darão ao genio nascente o sorriso do
+desprezo; e os mancebos poetas, a quem o sentimento incerto das opiniões
+contemporaneas dirige por estradas que muitas vezes não conhecem, farão
+que as suas poesias corram brevemente parelhas com os desvarios que tem
+ultimamente manchado a mais bella das artes na França e na Inglaterra.
+
+Um curso de litteratura remediaria os clamnos que devemos temer, e
+serviria ao mesmo tempo de dar impulso ás letras. Em Portugal ainda ha
+homens cheios de vasta erudição, de philosophia e de genio. Tyrannias
+mais ou menos longas, mais ou menos crueis, os teem conservado na
+obscuridade de que devem saír, agora que se não receia a instrucção,
+agora que os resguarda a egide da lei. Nós não desejariamos, porém, que
+uma tal obra fosse puramente orgão d'esta ou d'aquella eschola; d'este
+ou d'aquelle partido. Convem que os principios oppostos sejam examinados
+de boa fé e sem acrimonia: a intolerancia em idéas politicas ou
+religiosas é odiosa; em materias scientificas é ridicula. Se coubesse
+nas nossas diminutas forças um trabalho de tanta magnitude, nós
+começariamos por discutir qual é o objecto da poesia, e d'esta questão
+nos parece que já se tirariam importantes resultados, e que as duas
+caracteristicas--o _icastico_ e o _ideal_--que distinguem as tendencias
+do antigo e do novo systema, surgiriam d'ella para nos servirem depois
+na resolução de varios problemas que se nos apresentariam na serie das
+nossas indagações. O exame das differentes theorias sobre o bello e o
+sublime, e as consequencias, objecto immediato a que nos conduziriam os
+primeiros raciocinios, dariam em resultado os principios necessarios e
+universaes de todas as poeticas, e consequentemente aquelles sobre que
+deveriamos emittir uma opinião absoluta e exclusiva: no resto
+respeitariamos as opiniões de cada povo, de cada epocha, em tudo aquillo
+em que ellas se não oppusessem aos principios geraes. Indagando a
+historia da poesia nos diversos tempos e nações, vê-la-íamos depois da
+queda da bella litteratura greco-latina, surgindo do norte com um
+sublime de melancholia e mesmo de ferocidade, proprio dos povos que a
+inventaram: veriamos esta poesia fundida com os restos da romana, e
+posteriormente com a arabe, produzir as diversas especies do romantico,
+d'essa poesia variada e verdadeiramente nacional, na França e nas duas
+peninsulas, e termo medio entre a bella symetria classica e o sublime
+gigantesco do septentrião: achariamos essa originalidade nascente da
+litteratura da meia-edade destruida quasi no resurgimento das letras, e
+substituida por theorias antigas, que, conservando sempre o mesmo nome,
+foram sendo enxertadas em idéas, em preceitos modernos: encontrariamos,
+finalmente, o espirito de liberdade e de nacionalidade da actual
+litteratura. O quadro das novas opiniões nas suas variedades todas, as
+vantagens ou damnos resultantes de cada uma comparada com os elementos
+universaes da arte, nos poria em estado de formar um corpo de doutrina
+que determinasse as proporções essenciaes da futura poesia portuguesa,
+completando ao mesmo tempo uma serie de juizos imparciaes sobre as
+producções das differentes eras e das differentes escholas, em relação
+ao seu genio particular, e á philosophia geral das letras.
+
+Todos sabem que os antigos dividiam a eloquencia em tres generos, que
+muitas vezes se confundem: um destinado ao elogio ou á invectiva; outro
+a fazer condemnar ou a absolver, a invocar a lei a favor do innocente, a
+invocá-la contra o criminoso; outro, emfim, destinado a ventilar os
+grandes interesses das nações nos congressos ou na tribuna popular. Foi
+a estas três classes que elles reduziram a oratoria, divisão que ainda
+hoje se conserva e que, apesar da sua arbitrariedade, nós respeitaremos
+em nossas reflexões. Em Portugal, onde a representação nacional não
+existia, onde os tribunaes eram fechados ás defesas oraes e aos juizos
+publicos, e a arte de defender e accusar consistia geralmente em
+conhecer os meios de oppor entre si a nossa ora mesquinha, ora
+contradictoria, ora obscura legislação, e numa dialectica as mais das
+vezes pueril, tanto o genero deliberativo como o judiciario não tinham
+quasi applicação: ficava sómente a eloquencia dos panegyricos para o
+orador profano, e uma mistura de todos os tres generos para o orador
+sagrado; mas em nenhuma das duas classes temos de que nos gloriar neste
+seculo. Por uma parte elogios de encommenda ou feitos com miras de
+interesse pessoal não podiam sair da bocca do orador acompanhados das
+inspirações do enthusiasmo; e sem convicção e persuasão propria não se
+póde convencer nem persuadir os outros: por outro lado a eloquencia
+sagrada nunca pôde preencher inteiramente o fim da arte, uma vez que não
+divague do seu objecto--a moral religiosa. O fim da eloquencia é
+persuadir; para isto não só é necessario mover os affectos, mas tambem
+obrigar a razão. O usar d'este meio, nervo principal da oratoria entre
+as nações civilizadas, seria ridiculo perante um auditorio christão. O
+incrédulo não vai ouvir sermões, e o orador que empregasse uma logica
+severa para provar a conveniencia da moral do christianismo, a quem
+d'isso está de antemão convencido, obraria com tanta impropriedade, como
+se o missionario diante de homens de diversa crença buscasse tão sómente
+mover os affectos sem falar á razão.
+
+O exemplo de dois grandes homens parece oppor-se ao que temos acabado de
+dizer. São elles Bourdalone e Bossuet: o primeiro empregando a
+severidade do raciocinio, o segundo tacteando todas as cordas do
+sentimento, excitando todos os terrores, todas as esperanças da
+imaginação, e ambos considerados como grandes modelos. Mas de que são
+elles modelos? É, justamente, d'essa eloquencia imperfeita, cujo vicio
+se contém na sua propria natureza. Com effeito, Bourdalone não
+preencheu, nos discursos em que se lançou no abysmo dos mysterios, o
+objecto da arte: esta dirige-se á vontade, pela acção; e a defesa
+metaphysica bem que eloquente dos dogmas christãos não requer acção
+alguma. Bossuet está no caso contrario: para que as suas orações tenham
+effeito é necessaria a fé. O homem indifferente em materias de religião,
+e que não possuir gosto bastante para avaliar seu merecimento, dormirá
+tranquillamente á leitura de qualquer d'ellas, em quanto uma philippica
+ou olynthia de Demosthenes fará sempre impressão em todo o homem que
+tiver uma patria, uma fortuna a perder. Sabemos quanto nos pódem oppor
+sobre estes dois oradores, e sobre a oratoria sagrada em geral; mas, não
+sendo possivel o entrar aqui numa questão bastante vasta que estas
+reflexões não comportam, lembraremos só aos leitores que nós
+consideramos os panegyricos e os sermões de controversia como alheios do
+pulpito; que Bourdalone, de todos os oradores sacros o que mais sentiu a
+necessidade dos raciocinios como meio da eloquencia, nos seus
+panegyricos fugia constantemente para a moral, o que nos faz crer que
+elle a considerava o objecto da sua arte como acima dissemos. Em ultimo
+logar transcreveremos uma cita da tentativa sobre a eloquencia do
+pulpito pelo abbade Maury, obra a mais acreditada entre as d'esta
+natureza: _J'avoue_, diz elle, _qu'il est très-rare de pouvoir suivre
+cette marche didactique dans nos chaires, où les discussions morales ne
+sont jamais problématiques, et où la conscience, qui ne ment jamais, ne
+saurait contester la vérité à ses remords_. O que entra justamente na
+ordem de nossas idéas, tanto sobre o objecto como sobre o defeito
+constitutivo da eloquencia sagrada.
+
+Voltando ao nosso país, na mesma eloquencia do pulpito, a unica em
+Portugal cultivada, só um orador deixou pela estampa monumentos dignos
+de exame, se attendermos á fama popular que para seu auctor grangearam:
+já se vê que falamos do P. Macedo. Como orador sagrado, Macedo deveu a
+popularidade de que gozou a um falso brilho no fundo das idéas, e sobre
+tudo a essa instrucção perfunctoria que começa a invadir a capital e que
+é mais damnosa ás letras do que a ignorancia. Sem vislumbres da
+sublimidade de Bossuet, sem a uncção de Fenelon, sem a profundeza de
+Bourdalone, sem a nobre e evangelica simplicidade de Paiva d'Andrade,
+ganhou seu renome com os ouropeis de Seneca; mas tal renome, se ainda
+soar na posteridade, não será para as suas cinzas um bafejo consolador
+de gloria.
+
+Porém não é a eloquencia sagrada que deve hoje chamar a nossa attenção:
+ella tem sido o luxo da religião, e nós desejamos vê-la substituida por
+meios mais conducentes a fazer prosperar esta. A bella e sublime moral
+do evangelho não precisa dos soccorros da arte de Demosthenes e Cicero;
+e a religião practica d'um clero virtuoso, seria a homilia mais
+eloquente para insinuar a moral do Crucificado.
+
+Antes de passar avante occorreremos a um reparo que farão os leitores: o
+de não falarmos sobre a eloquéncia desenvolvida nas côrtes da nossa
+primeira epocha de liberdade, que fórma uma excepção de quanto dissemos
+sobre a eloquencia portuguesa do XIX.^o seculo. Tivemos para isso
+razões, e talvez a principal seja o quão longe nos levaria o exame de
+alguns discursos alli pronunciados; entretanto diremos por honra da
+nossa patria que então appareceram mui grandes homens, e que
+desejariamos ver publicar uma escolha das opiniões e relatorios então
+ventilados, á maneira do que se fez em França das orações dos
+representantes nacionaes desde o principio da revolução.
+
+É, portanto, a educar homens que ventilem dignamente as questoes de
+interesse publico nas camaras legislativas, ou que defendam a innocencia
+e persigam o crime nos tribunaes já publicos, que o estudo e ensino
+d'esta parte da litteratura se deve dedicar: é assim que nós fariamos da
+essencia d'estes dois generos de oratoria o objecto da segunda parte de
+um curso litterario, tocando apenas de leve quanto é formal na arte e
+que sapientissimos rhetoricoes, copiando-se uns aos outros, de sobejo
+explicaram; mas tractando com profundeza os principios applicaveis
+principalmente aos generos judiciario e deliberativo em relação á nossa
+situação politica. Para isto seria do exame da eloquencia nos
+differentes tempos e logares, que nós partiriamos em nossas indagações:
+veriamos Demosthenes, trovejando na tribuna, armado da razão e da
+indignação, admiravelmente conciso e misturando com esta concisão os
+sublimes movimentos do patriotismo, arrastar após si a opinião das
+multidões; veriamos Cicero defender os seus clientes, tractar os mais
+importantes negocios da republica quasi sempre com uma gravidade e
+eloquencia estudadas: na historia da oratoria moderna achariamos a
+vigorosa razão de Mirabeau acompanhada de um estylo raras vezes
+rasteiro; achariamos nos discursos de Maury os mais bellos monumentos de
+uma eloquencia mascula mas tranquilla; e, finalmente, o frenesi
+inspirado pelo amor ás velhas fórmas do absolutismo nas orações de
+Montlosier: passando á da Inglaterra exporiamos o genero de Pitt, genero
+severo, renovado hoje por Makintosh e Burdett, a que succedeu o
+igualmente nervoso, porém mais cheio de artificio, de Burke, Sheridan e
+Caning, e o genero medio de Fox, terminando assim o exame das fontes
+verdadeiras da eloquencia.
+
+Seria a d'esta ultima nação que nós proporiamos como principal modelo
+sem exceptuar comtudo as outras. Entre os gregos, romanos, e franceses
+ha muito que aproveitar; mas, se é verdade que a litteratura em parte
+depende de certa harmonia com as circunstancias de cada povo, nenhuma
+eloquencia é mais digna para nós d'estudo do que a inglesa. Nem entre os
+antigos, nem na republica francesa, ella estava na mesma relação com as
+instituições sociaes que vai a estar na nossa patria. O orador, na
+discussão de uma lei perante a plebe, que deve votar sobre ella ou
+influir na votação, como acontece no calor das revoluções, tem de usar
+de meios differentes dos que hade empregar para a impugnar ou defender
+em uma camara, cujos membros são, ou devem ser, os mais conspicuos da
+nação por suas luzes e virtudes. No primeiro caso os raciocinios convem
+sejam acompanhados dos meios formais da arte para dirigir as paixões
+populares; no segundo, expostos a homens que conhecem a arte tão bem
+como o orador, sem alcançarem o seu effeito, os artificios só
+attrahiriam sobre elle a suspeita de má fé: isto sem pretendemos dizer
+que elle discuta com a secura de um geometra as questões do publico
+interesse; porém os seus movimentos devem surgir sinceros de um coração
+intimamente commovido e de nenhum modo dar a conhecer que foram
+tranquillamente calculados pelos preceitos de Quintiliano.
+
+Entre os romanos, a pequena porção de leis que havia ainda nos ultimos
+tempos da republica e o espirito de generalidade a que se limitavam,
+dava motivo a que nas causas particulares o advogado ou accusador de
+qualquer réo buscasse despertar a compaixão ou a sanha dos juizes, de
+quem muitas vezes era guia unica o senso commum e a moralidade, na falta
+de disposições preceptivas, e apesar da similhança dos tribunaes civis e
+criminaes de Roma com os nossos modernos jurados, existe entre nós e
+elles uma differença enorme por causa das circunstancias legaes. Hoje,
+entre os povos livres, ha, ou deve haver, um codigo que previne todos os
+casos com clareza e exacção, e o mister do orador reduz-se a provar se o
+seu cliente está ou não no caso da lei: então todo o pleito deverá ser
+uma questão de factos provados ou provaveis, e vice-versa.
+
+D'aqui se colhe quão sobrio elle deve ser empregando os meios que lhe
+ministra a arte. Clareza, ordem de idéas, logica severa, eis os meios
+principaes da eloquencia do fôro e das camaras legislativas.
+
+Tal é o rápido quadro do nosso modo de pensar sobre a actual litteratura
+portuguesa, e sobre os meios de a dirigir. As curtas reflexões que temos
+feito sobre a poesia e a eloquencia são as bases em que julgamos
+dever-se fundar um curso de litteratura, que serviria como de
+introducção aos estudos mais profundos do poeta e do orador. Oxalá que
+d'entre os nossos litteratos algum se encarregue d'esta util e
+importante tarefa.
+
+
+
+
+POESIA
+
+Imitação--Bello--Unidade
+
+*REPOSITORIO LITTERARIO*
+
+1835
+
+
+
+
+POESIA
+
+Imitação--Bello--Unidade
+
+
+ Je donne mon avis non comme bon, mais comme mien.
+
+ Montaigne.
+
+
+Na torrente de opiniões contrarias sobre a critica litteraria, que na
+presente epocha combatem, morrem, ou nascem, tambem nós temos a nossa: e
+vem a ser parecer-nos que da falta de exame dos principios em que se
+fundam os differentes systemas, procedem essas questões que se teem
+tornado interminaveis talvez por esse unico motivo. O genio, impellido a
+produzir no meio de idéas vagas e controvertidas sobre as fórmas, as
+condições da poesia, julga que todas ellas são indifferentes e
+desvairado se despenha; o engenho, dominado pelos preceitos que muitos
+seculos por assim dizer, sanctificaram, contrafaz e apouca as suas
+producções temendo cair naquillo que julga monstruoso e absurdo. Tal é,
+geralmente, o estado da litteratura: e emquanto se não estabelecer um
+corpo de doutrina que, afiançando a liberdade do poeta, o circumscreva
+aos limites da razão, a republica das letras similhará as associações
+politicas no meio de uma revolução espontanea onde o despotismo extremo
+e a extrema licença, os terrores e as esperanças, a felicidade e a
+desventura, se cruzam, se arruinam e se anniquilam no meio de uma
+confusão espantosa.
+
+Os que conhecem o estado actual das letras fóra de Portugal, na França,
+na Inglaterra, e ainda na Italia, sabem ao que alludimos. Trememos ao
+pronunciar as denominações de _classicos_ e _romanticos_, palavras
+indefinidas ou definidas erradamente, que sómente teem gerado sarcasmos,
+insultos, miserias, e nenhuma instrucção verdadeira; e que tambem teriam
+produzido estragos e mortes como as dos _nominaes_ e _reaes_, se
+estivessemos no XVI seculo. Infelizmente em nossa patria a litteratura
+ha já annos que adormeceu ao som dos gemidos da desgraça publica: mas
+agora ella deve despertar, e despertar no meio de uma transição de
+idéas. Esta situação é violenta, e muito mais para nós, que temos de
+passar de salto sobre um longo prazo de progressão intellectual para
+emparelharmos o nosso andamento com o do seculo. Se as opiniões
+estivessem determinadas, o mal ainda não seria tão grande; mas é num
+cháos que nos vamos mergulhar e do qual nos tiraremos talvez muito
+depois de outras nações. A influencia da litteratura estrangeira torna
+necessario este acontecimento, se aquelles a quem está encarregada esta
+porção do ensino publico não tractarem de estabelecer uma theoria segura
+que previna tanto o delirio d'uma licença absurda como a submissão
+abjecta que exige certo bando litterario. Sabemos as difficuldades que
+tal trabalho encerra; porém o amor da lilteratura vencerá todas quando
+ajudado do estudo e do genio.
+
+As reflexões que ora apresentamos são fructo de uma parte de nossas
+meditações sobre tal objecto. Desejariamos tê-las podido coordenar todas
+e estabelecer melhor algumas; mas trabalhos, posto que litterarios, de
+differente especie, impostos por um dever, nos distrahiram do nosso
+desenho. Offerecemo-las aos eruditos para que tendo alguma utilidade a
+aproveitem e sendo damnosas acautelem d'ellas aquelles a quem podem ser
+nocivas. Nós nos envergonhariamos mais de ter acertado com leveza do que
+de ter errado pensando.
+
+Talvez alguem as julgue em demasia abstrusas; mas, ou o bello, objecto
+da poesia, seja inteiramente resultado das relações das nossas
+faculdades intellectuaes entre si, ou das d'estas faculdades com o mundo
+objectivo, ou, finalmente, resida neste, é sempre a alma do homem quem o
+sente e goza. Para nós a sua existencia depende da nossa; e a
+metaphysica influirá sempre em qualquer systema que sobre tal objecto
+venhamos a adoptar. Tem-se dito, e mil vezes repetido, que é preciso
+para que a litteratura floresça afastá-la d'esta sciencia: isto equivale
+a dizer-se que para os ramos de uma arvore se conservarem virentes é
+mister decepar-lhe o tronco principal. Na poesia ha essencia e fórmas:
+estas devem convir áquella, ou, diremos melhor, d'ella devem partir. Sem
+levar o facho da philosophia ao seio das artes, sem examinar a essencia
+d'estas, as theorias formaes ficam sem fundamento; e é justamente o que
+tem acontecido. Seguiu-se quanto a nós, methodo inverso ao que devera
+seguir-se, e um grande mal d'ahi resultou: a fluctuação dos principios,
+e consequentemente dos juizos criticos. Todos sabem das controversias de
+Boileau e seus sectarios com Perrault, Lamotte, e ainda Fontenelle e
+Huet; mas o que nem todos sabem é que muitas vezes os ultimos tinham
+razão. E se é possivel entender uns e outros, veremos que o arruido
+nascia da incerteza ou da contradicção dos preceitos, o que nunca
+succederia se a poetica estivesse fundada em principios metaphysicos em
+que ambos os bandos conviessem. Mas qual era a consequencia da
+versatilidade das regras e das suas contradicções? O fazerem homens,
+aliás engenhosos, os juizos mais contradictorios sobre a mesma coisa, e
+haver uma falta de consciencia em todos esses juizos que salta aos
+olhos. A critica tomou naquella epocha um caracter mesquinho e pedante.
+Nem acreditemos que esse mesmo Boileau, tão gabado pelos seus franceses
+como homem de summo gosto e fino tacto, sobrelevasse muito outros seus
+contemporaneos. A falta d'esse gosto e d'esse tacto achamos nós numa
+carta a Brossette acêrca do Telemacho. Esta grande creação de um dos
+maiores genios do seculo (perdoem-nos os admiradores do inquisitorial e
+raivoso Bossuet) foi comparada pelo autocrata litterario da França com o
+romance de _Theagenes_ e _Chariclea_ de Heliodoro bispo de Tydea,
+romance obscuro escripto na decadencia do imperio romano e da antiga
+litteratura: bastava esta carta para sabermos o peso que deviamos dar ás
+decisões de Despreaux, quando nas suas poesias não encontrassemos já
+para isso erradas opiniões acêrca do Quinault e do Tasso.
+
+A historia da critica em França no reinado de Luís XIV e de Luís XV, e
+que tambem o é com pouca differença da que vogava em Inglaterra durante
+o governo de Anna, se reduz a que, se um poeta ousava apartar-se das
+fórmas imaginadas nos antigos monumentos, e se este poeta merecia a
+estimação publica, os criticos se viam na necessidade ou de confessar,
+se não a inutilidade, ao menos a instifficiencia de seus preceitos, ou a
+votar ao desprezo as producções do genero moderno. A opção não era
+duvidosa; as regras sempre tinham razão; mas como ante o tribunal da
+opinião era preciso que ellas apresentassem algum titulo, ahi se corria
+a pedir soccorro ao homem e ao mundo, e sempre lá se achava com que
+contentar o povo litterario. Aquelles preceitos que factos oppostos não
+controvertiam ficavam amparados por grandes nomes e pelo respeito dos
+seculos sem dar razão da sua existencia, bem como em nossas cathedraes
+os conegos á sombra do culto religioso.
+
+A justiça pede que digamos que uma grande parte dos preceitos dos
+antigos foram deduzidos do principio da unidade, d'esse principio que
+reside em nossa alma e que, emquanto existirmos sobre a terra,
+representa para nós o absoluto, ao qual nos faz constantemente tender a
+consciencia da immortalidade; mas a applicação d'este principio foi em
+nosso entender muitas vezes errada ou exaggerada. Metastasio refutou
+excellentemente a regra da restricta unidade de logar e de tempo nos
+poemas dramaticos, e nós veremos brevemente que nem só essa unidade
+carecia de fundamento: porém, a fóra das regras nascidas d'este
+principio, outras ha de tal maneira futeis que para as destruir basta
+negar-lhes a validade. Que razão daria Horacio, tirada da essencia do
+tirania, para uma tragedia ou comedia não ter nem mais nem menos de
+cinco actos? Julgamos não teria outra melhor do que uma dada
+engraçadamente pelo auctor do _Anno de 2440_ em nota a um dos seus
+dramas.[1]
+
+Nós devemos em grande parte aos antigos o que sabemos: seria uma
+ingratidão negá-lo. Elles crearam as letras e as levaram a um ponto de
+esplendor admiravel; mas por as crear e aperfeiçoar não se deve concluir
+que acertaram em tudo ou tudo sabiam. Nós não dizemos com Mr. de
+Chateaubriarid que em litteratura só devemos estudar os antigos: Camões,
+Tasso, Klopstok não nasceram na Grecia ou em Roma, e entretanto achamos
+tanto que estudar nos escriptos d'elles como nos de Homero e Virgilio. O
+mesmo Mr. de Chateaubriand é uma prova de que o genio não é partilha
+exclusiva de nenhuma epocha, de nenhum povo. No renascimento das letras
+a admiração pelos auctores classicos não deixou ver seus defeitos e
+erros, e julgou-se inviolavel a antiguidade. Venia mereciam os
+descobridores dos preciosos manuscriptos que continham o thesouro de
+idéas que nos herdaram os gregos e os romanos: laboriosas indagações,
+largos annos de applicação davam jus aos Vallas e aos Philelfos, aos
+Aldos e aos Stephanos, a não verem uma só macula nos objectos caros que
+elles revelavam á Europa: mas que, passados dois seculos, ainda a
+republica litteraria se conservasse deslumbrada pelo fulgor tios tempos
+remotos, emquanto as sciencias começavam a fazer justiça e a dar o seu a
+seu dono, é o que nos parece inexplicavel ou, para melhor dizer, o que
+com repugnancia explicariamos.
+
+Embora se apresentassem difficuldades insuperaveis, embora fosse preciso
+recorrer ás razões mais frageis, aos argumentos mais illusorios, uma vez
+que as regras fossem ou se cressem originaes, ou derivadas dos escriptos
+de Aristoteles ou de Horacio, de Cicero, de Quintiliano ou de Longino,
+era obrigatorio defendê-las sob pena de ser havido por ignorante ou por
+homem de minguado criterio. Boileau disse em uma das suas satiras que só
+a verdade era bella: o padre Castel profundo litterato que escreveu
+sobre o bello e sublime e que jurava ante os numes defender esta
+proposição (porque em fim era de Despreaux), sem mesmo se aproveitar da
+vaga distincção do verdadeiro e verosimil, que tem salvado muita coisa e
+muita gente, começou a applicá-la por esse mundo poetico; mas embicou
+logo com Virgilio. O verso _Provehimur portu terraeque urbesque
+recedunt_ recalcitrava, além de outros, contra a sentença do mestre. Que
+fez o bom rio padre?--Zás--Uma razão digna de Fr. Gerundio: «O verso de
+Virgilio exprime uma idéa verdadeira, porque ha ahi uns annos
+descobriu-se a theoria do movimento; e voto a Apollo que a regra ha-de
+passar inconcussa: o verso e bello porque é verdadeiro». Se fosse
+possivel um padre grave ludibriar o publico, nós diriamos que elle
+estava escarnecendo os leitores. Desejariamos que o padre Castel nos
+tivesse explicado porque o verso era achado bello antes d'essa theoria e
+porque o continuaria a ser mesmo se ella fosse destruida. Taes são as
+miserias que teem resultado do modo porque durante muitos seculos foram
+tractadas as letras. D'estas ninharias poderiamos dar muitos exemplos;
+mas voltemos ao nosso objecto.
+
+Depois de Aristoteles a poesia foi para os antigos a imitação do bello
+da natureza, tendo por condições a unidade e a verdade, ou a
+verosimilhança. É esta em nossa opinião a maneira mais simples de
+exprimir a philosophia da arte entre elles, ou os elementos da sua
+poetica, os quaes o continuaram a ser até nossos dias. É, pois, o valor
+dos termos _imitação_, _bello_, _unidade_, _verdade_ ou _verosimil_, que
+cumpre determinar para ver se as idéas que exprimem estão em harmonia
+entre si, e se podem dar validade a uma poetica nellas fundada.
+
+A imitação suppõe o bello em a natureza moral ou physica, e qualquer
+d'ellas existente fóra de nós. Os actos humanos serão na primeira,
+digamos assim, o _substractum_ da imitação: na segunda sê-lo-hão os
+corpos, e o bello nos será communicado por meio das sensações: qualidade
+dos corpos, fórma das acções, naquelles a sua impressão será universal,
+nesta nunca necessaria. O europeu, o chim, o hottenlote sentirão
+egualmente que o Apollo de Belvedere é bello: a acção dos templarios
+cantando hymnos a Deus no meio das chammas, e cuja morte Mr. Rainouart
+pintou divinamente num só verso:
+
+ «Il n'en etait plus tems, les chants avaient cessé.»
+
+nunca será nessariamente bella: se elle a imitou de um acto humano
+similhante, esse acto sendo contingente parece-nos não teria qualidade
+dotada de caracter necessario: se applicarmos isto a uma acção épica ou
+dramatica, ainda mais visivel é a falta de necessidade da sua existencia
+e consequentemente a dos seus caracteres formaes.
+
+Se dissermos que o bello é relativo e resultado do nosso modo de ver, da
+relação particular dos objectos comnosco, da harmonia ou desharmonia dos
+tactos com as nossas idéas moraes, nesse caso não poderemos affirmar que
+os _Lusiadas_ ou a _Odyssea_ sejam absolutamente superiores ao _Affonso_
+ou ao _Viriato Tragico_. Poderemos dizer que para nós não ha sequer
+comparação; mas seria absurdo exigir dos outros o mesmo sentimento.
+Boileau julgou esquivar-se a esta difficuldade asseverando que a opinião
+geral devia ser a norma do nosso modo de sentir, e que a totalidade dos
+homens não se engana numa crença duradoura. Desejariamos que Boileau nos
+dissesse se era pela opinião geral que elle acharia frio o gelo e quente
+o fogo. Que nos importa a opinião quando se tracta de sensações? Que
+vale mesmo aos olhos dos homens cordatos o credito de uma opinião geral?
+Cremos nós hoje na arte mágica, na alchymia, ou na virtude dos Jesuitas?
+E foram estas crenças porventura pouco geraes e pouco duradouras? Quando
+concedessemos o principio, elle nos seria inutil para julgar as
+producções contemporaneas, e a critica não nos serviria para conservar
+puras as letras, nem para gozar as creações do genio moderno: a gloria
+ou o desprezo não encontraria já nem as cinzas do poeta. Seculos
+haveriam passado para reformar a opinião, quando isso mesmo fosse
+possivel.
+
+Mas felizmente não é assim. Lamartine! com uma poesia celeste tu fazes
+adorar a religião que saudaste em teus hymnos solitarios. Monti! tu nos
+encheste de um terror delicioso conduzindo-nos aos umbraes do outro
+mundo. Schiller! quem não sentiu bater mais fortemente o coração lendo a
+despedida de Picolomini e Thecla? A infancia do seculo XIX já tem muitos
+titulos com que faça passar sua memoria enobrecida deante dos outros
+seculos. Elles julgarão como nós os genios que no meio das tempestades
+politicas consolaram o genero humano com a harmonia de seus cantos.
+Acêrca de Lamartine, de Monti, de Schiller, e não só d'elles, nós damos
+seguro da posteridade.
+
+Tal é o bello para quem o julgar em sua modalidade necessario e
+absoluto: uma idéa opposta repugna e nos afflige: nós queremos que todos
+os tempos, todos os homens o julguem e gozem como nós, e diremos sem
+hesitar, o que não for de nosso sentir ou carecerá de gosto ou o terá
+pervertido.
+
+É esta circumstancia da necessidade do nosso juizo sobre o bello que
+distingue inteiramente este do agradavel.--Do primeiro nós affirmamos a
+existencia, do segundo a sua relação comnosco. O quadro da morte da
+Clorinda na Jerusalem Libertada é bello, e que deixe os poetas aquelle
+que tal não o julgar. Um pomo saboroso é para nós agradavel, talvez para
+outrem o não seja, o que nos é indifferente. No primeiro caso julgamos;
+no segundo exprimimos a idéa da relação particular entre nós e o
+phenomeno.
+
+A que reduzirião Burke e Delaunay a maxima parte do que escreveram sobre
+o assumpto se tivessem reflectido nesta differença? Poria um porventura
+os elementos do bello nas linhas curvas e no macio e tê-lo-ia outro
+dividido geographicamente como se dividem as raças humanas? Estamos
+persuadidos que não.
+
+A incerteza acêrca do criterio do bello não é o unico resultado do
+principio da imitação: elle tambem está em contradicção com o da
+unidade: esta debalde se procuraria nos corpos: as partes do universo
+coexistem; mas individualmente, e entre individuo e individuo medeia um
+abysmo que rigorosamente falando nós não podemos eliminar: generos,
+especies, familias, causas e effeitos necessarios são fórmulas do
+entendimento; são como lhes chama Ancillon muletas da intelligencia. Se
+procurassemos a fugitiva unidade do total do Universo lá mesmo ella
+seria para nós a nuvem de Ixion. Com effeito, sendo impossivel á
+imaginação acabar a synthese dos phenomenos, ella disse quando
+cansou--isto é o universo--; mas teem acaso os objectos que produziram
+essa idéa uma ligação absoluta e una entre si?--Não: a mente faz uma
+abstracção similhante á que faz a historia natural deduzindo dos
+individuos generos, especies, familias. O Universo não é senão a
+repetição indefinida da individualidade.
+
+Parece-nos, pois, que é forçoso ou abandonar a imitação do mundo
+physico, ou não exigir a unidade nas imitações d'este genero. Outras
+razões existem para provar que a mesma difficuldade apresenta a
+conciliação dos dois principios no mundo moral; mas nós guardamos essas
+reflexões mais complicadas para quando voltarmos a este assumpto,
+temendo ser por agora tachados de prolixos.
+
+Do que temos dicto concluimos que o bello das imagem, o bello chamado
+physico não existe nos objectos porque a unidade e a necessidade da sua
+existencia seriam destruidas; mas sem estas duas condições o espirito
+não o admitte. É, pois, em nós, no mundo das idéas que o devemos buscar.
+Um typo independente do que nos cérca, deve existir, com o qual a
+faculdade de julgar possa comparar o bello de uma imagem particular.
+_Eu_--_Não eu_, eis o circulo das existencias, os dois nomenos fóra os
+quaes nada concebemos. Mas nós admittimos o necessario e o uno sem o
+encontrarmos no que nos rodeia: cumpre, pois, que elles residam em nós
+como fórmas da intelligencia.
+
+É visivel que um typo é preciso para julgar o bello: sem elle as artes
+plasticas seriam impossiveis. As comparações entre os objectos não podem
+jámais estabelecer regras invariaveis de gosto, e ellas suppõem já uma
+comparação anterior. Quando comparamos dois objectos, um bello outro
+não, o unico resultado que tiramos d'ahi é ver que são desimilhantes:
+mas por que modo agrada um, outro repugna? É sem duvida porque um
+harmoniza com uma idéa, bem que indeterminada, e outro se oppõe a ella.
+
+Será este typo resultado da experiencia? Cremos que não. Onde existe o
+typo da Venus de Medicis, de Laocoonte, ou de Marco Sexto? Quem se póde
+gabar de o ter encontrado na natureza? Elle existia na mente dos
+artistas: as idéas d'estas creacões foram para elles antes de ser para
+nós: unisonas com o seu typo, o genio as traduziu no marmore, no bronze
+e na tela. Dir-se-ha, em ultimo caso, que o estatuario e o pintor
+reuniram o bello parcial para formar o todo. Porém seria aggregado uno?
+Além d'isso, não é claro que para essa escolha precisavam de um guia
+existente na sua alma? Quem os moveu a escolher esta fronte, estes
+labios, este collo com preferencia a outros? Parece-nos que estas
+perguntas ficarão sem resposta emquanto os homens procurarem fóra de si
+o principio vivificante das artes.
+
+Quanto ao verosimil e verdadeiro na imitação, nós faremos só alguns
+leves reparos, porque de outro modo seria preciso examinar as mudanças
+que se teem feito na intelligencia d'este principio para devidamente o
+apreciar, e este trabalho exigiria longas paginas. Aristoteles
+estabelece a differença entre a verosimilhança e a verdade, dizendo que
+a primeira pertence á poesia, a segunda á historia: que a primeira
+consiste nos actos consequentes de um caracter em geral, a segunda nos
+actos practicados por um individuo existente e determinado. D'estas
+expressões resulta que para a distincção do verdadeiro e do verosimil
+physico o critico grego não nos deixou nenhuma regra, e que no moral
+cessa com o verosimil a imitação: na natureza não ha senão caracteres
+individuaes, os geraes existem por uma idéa. Confessamos nossa rudeza;
+não entendemos como as paixões concebidas da maneira que as concebe o
+genio e applicadas a um individuo, ou supposto ou historico, sejam uma
+imitação. Quando quisessemos exprimir esse caracter por factos, dar-lhe
+uma existencia real e individua, nada mais fariamos do que destruir uma
+abstracção por nos servirmos da linguagem sensualista. Além d'isso,
+suppondo que todas as nossas idéas sejam resultado de sensações, a idéa
+geral e absoluta de um caracter é uma chimera dando-lhe validade
+necessaria e imprescritivel. Circumstancias particulares, opiniões, em
+fim as _côres locaes_ viriam introduzir a confusão e a anarchia no
+imperio da critica. Supponhamos que os caracteres dos heroes da Hiada
+foram traçados, segundo a opinião de Aristoteles, pela idéa geral do
+valor, mas nós vemos esses heroes fugirem do inimigo que temem. Odoardo
+e Gildippe, na Jerusalem, cáem sob o alfange de Saladino sem terem
+voltado as costas, Sueno acaba sobre os cadaveres dos seus soldados no
+meio dos infiéis sem depor a espada, apesar de ser impossivel vencer.
+Quem imitou a idéa geral do valor? Foi Homero ou foi Tasso?
+Provavelmente Homero porque é mais antigo. Algum futuro commentador de
+Aristoteles no-lo explicará.
+
+Não nos tendo este deixado a norma para julgar o verosimil physico,
+vejamos se Horacio occorreu a esta falta. Foi por ahi que elle começou a
+epistola aos Pisões. Descrevendo um monstro que imaginou, convida-os a
+rir do quadro que lhes apresenta--e porque? Dá o poeta a razão--_vanae
+fingentur species_,--Batteux paraphraseando accrescenta--_images vagues
+qui n'ont point de modèle dans la nature_. E assim, o que for vão, o que
+não tiver typo na natureza nunca será bello. Pobre Homero! Os teus
+cyclopes, o teu Poliphemo, os monstros de Charybdis, emfim teus lindos
+sonhos devem-nos arrancar uma gargalhada. Tu mesmo, crapulario Horacio,
+quererás com o teu Pegaso fazer-nos estourar de riso? Com effeito, onde
+existem as ficções dos antigos monstros da mythologia? Quem viu um homem
+ou um cavallo alado como o Amor e o Pegaso? Nem se diga que a crença
+popular lhes tinha dado a existencia: isto são palavras que soam mas sem
+sentido.--Cremos que existir na intelligencia não é existir no mundo
+real. Se a phantasia produziu estas creações ellas não foram imitadas,
+logo não teem modelo, logo não são bellas; porque nos persuadimos que a
+mais duradoura crença nunca poderá fazer que uma coisa seja o que não
+é.--Vemos, portanto, que para a theoria do verosimil pouco se aproveita
+a poetica do illustre adulador de Meçenas e de Octaviano.
+
+Talvez Boileau nos satisfaça. Eis o que encontramos nas suas doutas
+poesias a este respeito:
+
+_Rien_ n'est beau que le vrai, le vrai seul est aimable.[2]
+
+Le vrai peut quelque fois n'être pas vraisemblabe.[3]
+
+Qual seria a conclusão que tirariamos d'estas duas proposições,
+dispondo-as em fórma de syllogismo?--Quem respeitar Despreaux não ousará
+fazê-lo.
+
+Metastasio falando da imitação nos commentarios da poetica
+d'Aristoteles, nos explica em que consiste o verosimil que o imitador é
+obrigado a conservar na sua imitação: «O alvo do copista, diz elle, é
+que a sua cópia possa substituir o original, o do imitador é conservar a
+_similhança possivel_ do objecto sem alterar a materia sujeita da
+imitação». Continua depois dizendo que o _admiravel_ d'esta consiste nas
+difficuldades que venceu o artista: o que, em nosso entender, equivale a
+dizer que o bello consiste em vencer as difficuldades da imitação:
+lembremo-nos, porém, que por este mesmo tempo Batteux reduzia as artes a
+um só principio--a imitação da _bella natureza_; e louvemos a Deus pela
+unidade de doutrina de uma eschola que hoje com tanta arrogancia accusa
+de barbarismo e incerteza todos os principios litterarios que não se
+amoldam aos seus.
+
+Tirou Metastasio da estatuaria um exemplo para nos dar a conhecer as
+differenças que ha entre imitação e cópia, mas, tractando-se de poesia,
+seria talvez bom que nesta o buscasse. Nós o faremos por elle comparando
+o retrato de Gabriella de Estées por Voltaire, com o de Ignez Sorel por
+Chapelain.--Para os nossos leitores poderem ajuizar transcreveremos
+ambos:
+
+CHAPELAIN
+
+En la plus haute part d'un visage celeste,
+...un front grand et modeste
+Sur qui vers chaque temple á bouillons séparés
+Tombent les riches flots de ses cheveux dorés
+Sous lui...
+Deux yeux étincelans... sereins...
+Au dessous se tait voir en chaque joue éclose
+Sur un fond de lis blanc une vermeille rose
+Qui de son rouge centre épandue en largeur
+Vers les extremités fait palir sa rougeur.
+Plus bas s'offre et s'avance une bouche enfantine,
+Q'une petite fosse a chaque angle termine,
+Et dont les petits bords faits d'un corail riant
+Couvrent deux blancs filets...
+
+
+VOLTAIRE
+
+Telle ne brillait point au bord de l'Eurotas
+La coupable beauté qui trahit Ménélas.
+Moins touchante et moins belle, á Tarse on vit-paraitre
+Celle qui des Romains avoit dompté le maitre
+
+ * * * * *
+
+Elle entrait dans cette age, hélas! trop redoutable,
+Qui rend des passions le joug inevitable.
+Son coeur né pour aimer, mais fier et généreux,
+D'aucun amant encor n'avoit reçu les voeux.
+Semblable en son prinptems á la rose nouvelle
+Qui renferme en naissant sa beauté naturelle,
+Cache aux vents amoureux les trésors de son sein
+Et s'ouvre aux doux rayons d'un jour pur et serein.
+
+Quem duvidará que Chapelain imita uma bella mulher com a _similhança
+possivel_ e que no retrato de Gabriella a imaginação nada póde
+affigurar-se que não seja vago e indeterminado? Quem duvidará tambem que
+o primeiro retrato é obra de um borrador e o segundo digno de Albano?
+Comtudo hoje é reputado barbaro e extravagante quem se ri das regras da
+velha poetica!...
+
+Desde Batteux, Sulzer, Jaucourt e outros, as artes em geral e a poesia
+em particular foram definidas--a imitação do bello da natureza. Esse
+principio se achava nos escriptos dos antigos, mas confundido com a idéa
+de que do artificio da imitação tambem resultava um prazer similhante ao
+produzido pelo bello. Muito devemos a estes criticos; aliás, fugindo
+constantemente da natureza para a arte e d'esta para aquella, a velha
+poetica salvaria uma grande parte dos seus canones dos olhos
+investigadores da philosophia. Era isto misturar a noção do agradavel
+com a do bello. Os modernos, reduzindo a poesia á imitação d'este,
+cairam, em nosso entender, num erro analogo confundindo-o com o bom.
+
+Diderot disse que no util consistia o bello--Watelet que o era tudo o
+que preenchia o seu fim. Mr. Lemercier dá como causa final das letras a
+utilidade. Mendelssohn creu-o a expressão sensivel da perfeição, e ao
+seu systema similha o de Mr. Laurentie ácerca do bello intellectual.
+Todos estes enunciados se podem reduzir ao de Mr. de Bonald--o bello
+absoluto é synonimo de bom. Não sabemos o que Marmontel e Laharpe
+opinaram, porque temos a infelicidade de não entender as suas
+deffinições.
+
+Os sensualistas do seculo passado, depois de um longo rodeio, voltaram á
+confusão do agradavel e do bello; e os espiritualistas d'aquelle seculo
+e do nosso foram progressivamente tirando o bello da natureza physica e
+collocando-o sómente na moralidade, ou creando uma cousa chamada _bello
+relativo_ que, ou não existe ou é o mesmo que o agradavel.
+
+Mr. Laurentie escreveu um volume para mostrar aos barbaros innovadores
+que o bom e o bello moral eram inseparaveis: neste livro toma o pobre
+Kant para a sua alma, visto que, por culpa d'elle, foi enxovalhado o
+rico e harmonioso idioma de Paschal e Bossuet com o _Eu_ e _Não-eu_. Até
+aqui bem vamos. Se Kant fosse vivo, como causa primeira de se commetter
+tão horroroso attentado, devia acabar numa fogueira: e nisto, cremos,
+conviria Mr. Laurentie, porque nos seus escriptos alguma pena mostra de
+ter visto findar as assaduras dominicanas. Mas no que não tem razão é em
+insultar a memoria do veneravel professor de Konigsberg, que estabeleceu
+antes d'elle a mesma verdade, como mostrariamos se este escripto
+comportasse uma exposição da doutrina d'aquelle philosopho acêrca do
+juizo esthetico. Não seria melhor que Mr. Laurentie, antes de decidir
+com um tom tão dogmatico e magistral estudasse primeiramente as opiniões
+que intentava impugnar? Similhante altivez não nos parece concordar com
+a humildade evangelica propria de um bom christão como Mr. Laurentie![4]
+
+Insistimos na differença do bom e do bello, porque o grande nome de
+Mendelssohn se colloca naturalmente á frente dos que os declaram
+identicos. Esta idéa se encontra já na philosophia néo-platonica e
+talvez no Hippias maior do mesmo Platão, de cujas opiniões Mendelssohn
+não estava mui longe. O que Mr. de Bonald e Alletz disseram sobre este
+ponto funda-se inteiramente naquellas doutrinas.
+
+Porém serão ellas verdadeiras? Nós cremos que não. A perfeição de
+qualquer coisa é o complemento de seus fins, e estes devem ser bons,
+aliás não se daria aquella. D'isto resulta sempre um interesse, quer no
+moral quer no physico, o que suppõe uma existencia real: porém o
+sentimento do bello é desinteressado e não carece de ser acompanhado do
+de existencia. Os jardins de Alcinoo, a ilha de Venus, não seriam mais
+bellos se os cressemos existentes fóra da Odyssea e dos Lusiadas. A
+imaginação é quem nos presta a idéa de que resulta o juizo acêrca do
+bello: o bom nasce de uma idéa determinada pela razão; porque, para
+julgar uma coisa boa e perfeita, é preciso saber para que serve, qual
+seu alvo, quaes suas relações: um edificio irregular, mas commodo e
+reparado, será bom, porque satisfaz o seu alvo objectivo: a Venus de
+Medicis chama-se bella, porque satisfaz, por uma idéa da imaginação, o
+jogo das nossas faculdades quando a comparamos com o ideal do bello
+humano.
+
+Dissemos que o bello moral é sempre acompanhado do bom. Concordando
+nisto com as opiniões actuaes dos litteratos puros, julgamos não ser
+preciso prová-lo e portanto nos absteremos d'isso. O pouco que notámos
+basta para se ver em que consiste a differença das duas idéas no mundo
+da moralidade.
+
+Cremos ter indicado, bem que mui de leve, as difficuldades e por ventura
+contradicções que encerra uma poetica respeitada por tantos seculos. Mas
+desde Aristoteles estava apontado, e por elle mesmo, o vicio da sua
+construcção. Applicando á Iliada os canones que tinha estabelecido e que
+julgou ter deduzido d'ella, achou que ás vezes elles falhavam, e viu-se
+obrigado a dizer que as regras se podiam pôr de parte quando o bello
+assim o exigisse. Não é d'este modo que nós concebemos a poesia. Seus
+preceitos devem ser imprescriptiveis sendo deduzidos do bello e de suas
+condições. De que modo o nosso criterio póde ser seguro, ter este
+caracter de necessidade que a consciencia requer, sendo incertos os seus
+meios? O jogo de arguições e replicas que constituem o capitulo 25 da
+sua poetica seria digno de um sophista, não do maior philosopho da
+antiguidade: ellas fariam luzir um estudante das nossas aulas de
+rhetorica em uma sabatina; mas para o estudo da litteratura parece-nos
+que de nada servem.
+
+Tendo até aqui procurado derribar, cumpria edificar agora: mas não
+escrevendo um livro, nem possuindo para isso o cabedal necessario,
+apenas lançaremos os primeiros traços dos (quanto a nós) unicamente
+verdadeiros fundamentos de uma poetica razoavel, para estabelecer a
+theoria da unidade de um modo mais conforme a razão, e ao mesmo tempo
+mais concorde com os grandes monumentos litterarios.
+
+A poesia é a expressão sensivel do bello por meio de uma linguagem
+harmoniosa.
+
+O bello é o resultado da relação das nossas faculdades, manifestada como
+jogo da sua actividade reciproca.
+
+Esta relação consistirá na comparação da idéa do objecto com uma idéa
+geral e indeterminada: a harmonia d'ella resultante produzirá o
+sentimento do bello: esta harmonia será sujectiva, residirá em nós; e a
+sua existencia _a priori_ necessaria e universal.
+
+Como composta a idéa do objecto leva comsigo a variedade; como geral o
+outro termo da comparação é puramente subjectivo e consequentemente uno.
+
+A condição, pois, do bello é a concordancia da variedade da idéa
+particular com a unidade geral: condição que é por tanto necessaria em
+todos os juizos acêrca do bello.
+
+Mas existindo essa harmonia no jogo das faculdades e requerendo-se para
+ella a unidade, esta será subjectivamente absoluta, e tudo o que na idéa
+particular do objecto não estiver em relação com ella nunca poderá ser
+julgado bello.
+
+Tanto nos basta da longa e difficil theoria do bello e sublime para o
+nosso intento. Na sua applicação restringir-nos-hemos aos poemas
+narrativos, porque os outros, sobretudo os dramaticos, exigiram um mais
+amplo desenvolvimento que não comporta este escripto.
+
+Dos principios que apresentámos e que em parte as antecedentes
+observações pediam, se colhe o sempre imprescriptivel canon da unidade,
+porém esta collocada mui longe d'onde os antigos a collocavam. É uma
+idéa geral e indeterminada que a torna necessaria: a acção não é mais do
+que a serie de variedades que devem, digamos assim, dar um som unisono
+com a idéa geral e una. Será, pois, em nosso systema o primeiro passo a
+dar no exame de qualquer poema o buscar qual foi essa idéa, esse _deus
+in nobis_ que constrangeu o poeta a revelar-se ao mundo em cantos
+harmoniosos. Nós a buscaremos nos cinco mais celebres poemas da
+Europa--_a Iliada_,--_a Eneida_--o _Orlando furioso_--os _Lusiadas_--e a
+_Jerusalem libertada_. Se a theoria for verdadeira acharemos essa idéa:
+as partes que os constituem serão concordes com ella; aliás estes poemas
+cessarão para nós de ser considerados como absolutamente bellos, e
+ficaremos persuadidos de que a Europa inteira se enganou tendo-os por
+modelos do gosto.
+
+Antes, porém, de tudo convem sujeitá-los a um exame cujo norte seja o
+que a antiga poetica exige para julgar similhantes producções. Seremos
+severos neste exame, mas limitar-nos-hemos ao mais importante
+principio--o da unidade de acção, a que nós temos a infelicidade de não
+dar valor algum. Com este nos contentamos, que de outro modo fariamos em
+vez de um artigo um volume.
+
+Quem será nosso guia para vêr em que essa unidade consiste? Aristoteles:
+ninguem o refusará. Elle é o unico escriptor original sobre taes
+materias: os que vieram depois d'elle o copiaram, o commentaram e talvez
+demudaram suas idéas. Diz Dacier que todas as poeticas se reduzem á do
+Stagyrita, e por outra parte Mr. Lemercier nos assegura ser bastante
+para constituir um perfeito critico em poesia o entender bem as poeticas
+de Aristoteles, Horacio, Vida e Despreaux. Reunindo, pois, as opiniões
+de dois tão illustres litteratos parece-nos que nesse escripto do velho
+grego devemos buscar a norma de nossos juizos para avaliar os poetas.
+
+Busquemos lá, com effeito, em que a unidade consiste. Achá-lo-hemos no
+capitulo 8. _Serão_, diz elle, _as partes de uma acção de tal geito
+ligadas entre si, que tirada ou transposta uma, fique tudo destruido ou
+mudado_.
+
+São os episodios que na epopêa constituem essas partes da acção,
+rigorosamente falando. Assim o julga Dacier e a Encyclopedia: assim o
+cria Voltaire dizendo que os episodios similham aos membros de um corpo
+robusto e bem affigurado. Um episodio, pois, que sendo omittido deixa a
+acção inteira, inserido nella destruirá a sua unidade. Mas ficará,
+porventura, incompleta a acção da Iliada se lhe tirarmos o longo trecho
+da descripção das naus gregas e o muito mais longo do funeral de
+Patroclo? Cremos que não, e que portanto se, pela poetica de Aristoteles
+julgarmos a Iliada, d'ella desapparecerá a unidade.
+
+Diz mais o critico grego, no começo d'este capitulo, que a identidade do
+heroe principal nunca estabelecerá a unidade, quando as acções forem
+multiplices. Ora, quem é que une a primeira metade da Eneida á
+segunda?--Apenas o heroe. Tudo é novo depois da sua chegada á Italia.
+Novas são as aventuras, novas são as personagens secundarias. É o mesmo
+Virgilio quem nos indica a duplicidade da acção do seu poema. A
+exposição da Eneida estava plenamente desenvolvida no fim do sexto
+livro, e assim, logo no principio do setimo, elle nos avisa que vai
+contar uma nova ordem de coisas[5]. Podemos, pois, affirmar affoitamente
+que na Eneida da falta a unidade.
+
+Quanto aos Lusiadas nada é preciso dizer. Salta aos olhos que a historia
+dos doze de Inglaterra, o assassinio de D. Ignez, teem tanto com a acção
+do descobrimento da India como com a da Odyssea.
+
+Todos acham bellissimo o Orlando furioso, ainda ninguem o achou uno. A
+distincção de poema heroico, de poema romance, de Dubois, Fontenelle, e
+de Mr. Lemercier nada mais é do que a impotencia absoluta de applicar a
+certas producções as regras da antiga poetica.
+
+A Jerusalem libertada é o poema que mais parece ageitar-se aos preceitos
+classicos pelo que toca á unidade. Entretanto qual é a acção do poema? A
+conquista de Jerusalem: e acaso conduziria o episodio de Olindo e
+Sophronia para o seu exito? Certo não. Além d'isso, a acção da Jerusalem
+conquistada é a mesma; o poeta mudou varios episodios e ella continuou a
+ser a da Jerusalem libertada, apesar de Aristoteles.
+
+Vejamos, segundo o nosso modo de julgar, se uma uma idéa geral e
+indeterminada póde estabelecer a unidade na serie de acções, de quadros
+e de descripções que constituem estes cinco poemas.
+
+No tempo de Homero a historia grega apresentava só um grande feito, a
+conquista e ruina de Troia. Uma grande idéa occupava a mente do poeta e
+esta idéa era a gloria da Grecia. Foi, pois, á roda d'ella que Homero
+agglomerou as variedades que lhe diziam respeito. Onde existiam ellas?
+Unicamente na memoria das batalhas pelejadas juncto aos muros de Troia:
+mas uma parte d'essa historia era vergonhosa para os gregos. Ou
+admittamos qualquer das opiniões referidas por Herodoto acêrca da queda
+d'aquella populosa cidade, ou as narrações de Triphyodoro e do supposto
+Dictys, a nodoa de fraqueza, quando não de dolo, sempre parece vir
+manchar os gregos. Neste caso o poeta repelliu todo o odioso da historia
+e aproveitou ou inventou o que dava um som unisono com a idéa que o
+dominava: assim, na Iliada tudo a ella tende; assim, o poema começa
+quando a ialta de Achilles deixa fulgir o valor dos outros heroes e
+acaba quando a morte de Heitor devia, bem pelo contrario da verdade
+historica, fazer caír Troia e dar a victoria aos gregos. Da era a mais
+gloriosa da semi-barbara Grecia, foram os successos de poucos dias que
+Homero escolheu para objecto de seus cantos; mas estes dias eram os mais
+bellos d'aquella epocha memoranda; nelles tiveram logar os mais
+brilhantes feitos de guerra tão acintosa, e o poeta ainda os tornou mais
+admiraveis com os traços vigorosos do seu pincel divino.
+
+Os caracteres dos heroes da Iliada são todos agigantados e o valor
+d'estes rude, como o podia conceber a mente de Homero; mas os valentes
+de Troia são sempre homens, em quanto os da Grecia são muitas vezes
+semi-deuses. O mesmo Heitor, que hoje (nós pelo menos) achamos a
+personagem mais interessante da Iliada, e que parece vir destruir a
+opinião de que a unidade exista neste poema por uma idea vaga da gloria
+patria, é uma prova do principio que estabelecemos. Para julgar Homero é
+preciso collocar-nos no seu tempo e no seu país. O amor paternal e
+conjugal por que Heitor nos interessa, não era para os antigos,
+sobretudo nos tempos primitivos, o mesmo que para nós. A robustez de
+braço e de coração era a principal virtude, e os affectos moraes estavam
+apenas esboçados nessas sociedades nascentes. Por isso elle devia
+interessar, não despedindo-se de Andromacha, porém combatendo por uma
+causa que reputava injusta, mas que se tinha tornado a da patria; não
+por suas virtudes domesticas, mas pelas virtudes publicas e por seu
+valor quasi egual ao de Achilles.
+
+Foi por causa d'este que Homero desenhou tão amplamente o caracter de
+Heitor. Com effeito, aquelle guerreiro que viu fugir ante si Diomedes, o
+vencedor de um nume[6], cai vencido e morto aos pés de Achilles. Quanto
+este devia parecer grande entre um povo que olhava o valor e a força
+como o dote mais digno do homem, e qual seria a ufania e a gloria de um
+país cujos filhos assim sobrelevavam os numes.
+
+Alguem crê dever notar o haver-nos Homero pintado Achilles arrastando o
+cadaver do seu inimigo á roda dos muros de Troia. Parece-nos tambem
+nascer isto de se julgar os antigos por nossas actuaes idéas. Nós vemos
+que para a maior parte das virtudes sociaes elles não tinham divindades
+particulares; comtudo havia-as para a amizade. Certo é, pois, que esta
+nobre paixão tinha preço e valia entre elles. Esqueçamo-nos das virtudes
+que devemos unicamente ao Christianismo, constituamo-nos gregos, e
+vejamos qual de nós não faria o mesmo no momento da vingança e da
+colera. Sómente aquelle desgraçado que não possuisse um amigo.
+
+Se assim examinarmos toda a Iliada, acharemos sempre a idéa de gloria
+patria servindo de nó a este admiravel poema que hoje se despreza por
+moda, crendo-se que nisso consiste o romantismo. Já lemos numa enfiada
+de versos, de que não era possivel ler vinte sem bocejar, que Homero
+fazia dormir. Ao menos quem assim calca aos pés o velho trovador da
+Grecia não corre o risco de lhe acontecer o caso do soldado liliputiano
+que metteu a lança pelo nariz de Gulliver. Homero já não espirra. Que
+pensariam taes criticos poetas se lhes dissessemos que a Odyssea, quanto
+ás imagens e mesmo ás fórmas, tem muitissimos caracteres proprios da
+poesia romantica? Certamente não nos entendiam. Não é em chamar ridiculo
+ao que é bello, nem em destemperos que deve consistir a ingenuidade das
+modernas opiniões litterarias.[7] Mas passemos a Virgilio.
+
+Foi na epocha d'este que Roma caíu em terra e que Cepias se assentou
+sobre a campa da patria. Todos sabem a historia dos feitos romanos e a
+gloria que os cerca: mas a gloria acaba onde a escravidão começa. Nesta
+transição appareceu Virgilio que, talvez exemplo unico, sabia mendigar
+as migalhas de um tyranno e nutrir idéas generosas. As recordações da
+republica, as memorias de um povo que já não existia reclamavam as
+canções do poeta. Esta idéa o agitava e ella gerou a Eneida. Porém o
+cortesão não podia no palacio de Augusto, nos banquetes da prostituição,
+ao som dos grilhões de Roma, entoar um hymno em que a lembrança da
+liberdade se associaria a quasi todas as imagens, a quasi todos os
+sentimentos. Por outro lado a grinalda dos louros romanos partia de uma
+caverna de salteadores: nascia de um ponto negro como o em que findava.
+Este podia illustrá-lo Virgilio; uma messeniana[8] e um punhal bastavam;
+mas elle queria gozos e repouso: Augusto ameigava-o, e o manhoso Mecenas
+dava-lhe os meios de satisfazer seus vergonhosos appetites. O mal
+denominado epicurismo que dominava na cidade eterna e que tanto
+contribuiu para ella deixar de o ser, o fazia olhar a vida feliz como um
+bem que se devia conservar mesmo á custa da moralidade. Tudo contribuiu
+para envilecer Virgilio, e notemos que até no seu estylo encontramos a
+prova disso. Aquelle lavrado, aquelle _molle atque fecetum_ que Horacio
+achava em seus versos não sabemos o que tem de analogo ás palavras
+suaves e attractivas de um homem abjecto quando a dula o seu patrono.
+Porque haverá tantas similhanças entre as pessoas do tempo de Luís XIV
+que dava pensões aos poetas, e as do seculo de Augusto que lhes dava
+tambem de comer? Porque serão elles nestas duas epochas modelos de
+perfeição, pelo que toca ao bem obrado do estylo, sempre em proporção de
+seus serviços e da sua frequencia nos passos dos Reis e dos grandes da
+terra?
+
+Na impossibilidade de cantar os romanos, quando dignos d'este nome,
+sómente restava a Virgilio um meio de satisfazer essa idéa de gloria
+patria, d'esse Deus que o agitava, o collocar um monumento espantoso no
+berço obscuro da sua nação: elle o fez, e a Eneida foi este monumento.
+Não tendo como Homero ao menos um pequeno cabedal de realidade, elle
+arrancou da phantasia todo o seu edificio, edificio o mais bem acabado
+que neste genero conhecemos. Porém observemos que elle desenhou os
+caracteres dos seus heroes mui differentes dos da Iliada. Os d'esta são
+rudes mas sublimes, os da Eneida são macios e cuidados, mas geralmente
+mesquinhos. No poema grego surgem, interessam individualmente os Aiaces,
+Diómedes, Ulysses, Agamemnon e tantos outros; no latino os heroes
+secundarios deslizam pelo poema, como as turbas de Roma deslizavam por
+uma existencia sem significação debaixo dos pés do Cesar. De todos os
+troianos, acabada a leitura da Eneida, apenas nos recordamos do filho de
+Anchises: Achates, Gyas, Cloantho sumiram-se como sombras. O mesmo Eneas
+tem um certo ar hypocrita que desagrada aos homens singellos e o colloca
+a seus olhos bem longe de Achilles. Foi a influencia do seculo quem fez
+Virgilio, nesta parte tão inferior a Homero: se o poeta tivesse vivido
+no tempo dos velhos romanos, nós não possuiriamos hoje a mais agradavel
+porção do 4.^o livro da Eneida. Dido não teria sido seduzida e
+abandonada, embora isto contribua, e muito, para satisfazer a idéa
+principal do poeta. Uma immoralidade tão vil, o ludibriar a
+hospitalidade e a fraqueza só podia caber a um heroe inventado na epocha
+dissoluta da queda da republica romana. Afóra isto nós não podemos
+deixar de admirar Eneas; e apesar da corrupção do seculo e da propria,
+Virgilio soube ainda dar um illustre fundador á sua patria. De todos os
+restos de Troia só d'elle precisava o poeta, assim é que só elle
+resplandece no meio dos seus troianos, emquanto os guerreiros da
+Hesperia, Turno, Pallante, Lauso, Camilla, teem muitas vezes uma côr
+homerica. Estes eram filhos da Italia e a Italia era o solo que viu
+nascer Virgilio. Quando Voltaire, acabando de ler a Eneida, achou que
+Turno interessava mais que Eneas, disse que apesar da falta da unidade
+de interesse não ousava reprehender Virgilio. Nem havia de quê: a
+unidade de interesse tem tanta validade como a de acção. Qualquer dos
+dois que interessasse principalmente, a idéa geral estava preenchida.
+Nos bellos dias de gloria de Roma, todos os povos do Lacio estavam
+fundidos no romano e as suas recordações nas d'este. Escondesse o filho
+de Venus o covil de Romulo com o seu escudo celeste, o fim de sua
+existencia estava satisfeito, e o poeta podia na serie das variedades
+buscar as que bem lhe parecessem para com ellas tirar um som accorde com
+a idéa que o dominava. Segundo nosso modo de pensar em litteratura,
+muitos defeitos que teem sido assacados á Eneida não existem nella. Em
+nenhuma coisa offendeu Virgilio os principios eternos do bello, senão
+quando o seculo com sua peçonha pôde mais do que o genio extraordinario
+do poeta. Elle não teria egual se tivesse sido livre.
+
+A ordem das idéas exige que desprezemos a rias datas. Circumstancias ha,
+como o leitor verá, que nos obrigam a falar dos Lusiadas em seguimento
+aos dois grandes poemas da antiguidade, e a unir as reflexões acerca do
+Orlando ás que temos de fazer acêrca da Jerusalem. Os Lusiadas são o
+poema onde mais apparece a necessidade de recorrer a uma idéa
+independente da acção para achar a imprescriptivel unidade, e o seu
+titulo nos revela logo a mente de Camões. Não foi, quanto a nós, o
+descobrimento da India que produziu este poema: foi sim a gloria
+nacional. Esta idéa bella, pura, immensa, como a alma de Camões, gerou
+os Lusiadas. A unidade, que procurada de outro modo nào póde
+encontrar-se neste poema, se encontra logo encarando-o por esta maneira.
+Era o feito mais espantoso da historia portuguesa que servia de
+frontispicio á longa collecção de maravilhas que ella offerecia; foi por
+alli pois que rompeu a canção nacional que entoou Camões; mas todas as
+recordações de Portugal, mesmo as suas debeis esperanças, estão
+consignadas nos Lusiadas. Não é um facto que elle cantou; são mil
+factos, mas unidos todos por um ponto, a idéa do renome português.
+Camões lançou mão de nossos annaes, rasgou e maldisse suas paginas
+negras, e arrojou o resto á eternidade. As differentes feições moraes
+traçadas no seu poema teem uma individualidade que não cede, em nossa
+opinião, á das personagens da Iliada ou da Jerusalem, mas todas com um
+ideal eminente de bello ou de sublime. Poucos sentimentos houve de que o
+poeta não revestisse algum de seus compatricios, e se Mr. de
+Chateaubriand accusa Tasso de ter esquecido o mais puro de todos elles,
+o da maternidade, não poderia dizer o mesmo do nosso Camões, que por
+este lado, despindo-nos de qualquer prevenção nacional, não podemos
+deixar de chamar divino. Se nisto ninguem o excede, talvez ninguem o
+eguale em agglomerar num quadro selvas tão densas e variadas de imagens
+e sentimentos. Diz Mr. J.B. Say que a descripção da partida dos
+portugueses para o descobrimento da India é mais do que a narração de um
+embarque. Nós dizemos que pouco achamos neste genero que assimilhar-lhe.
+
+Chegando a este trecho dos Luziadas, cremos estar vendo ondear na praia
+do Restello um tropel immenso de pessoas de todas as condições e edades;
+cremos descobrir no gesto, nas expressões de cada uma d'ellas, a
+multidão de idéas, de paixões que tal espectaculo devia excitar, e
+quando ellas acabam de passar deante de nossos olhos, um velho lá surge
+e fluem da sua bocca as palavras da sabedoria. Nós o escutamos: a vida
+exterior nos esquece: o ancião nos fez pensar sobre a vaidade de nossas
+paixões, sobre o nada de nossas esperanças; e o poeta terminando aqui e
+com arte summa um canto do poema, é que nos vem despertar da nossa
+meditação, abrindo o seguinte canto com estes versos, que exigem uma
+expressão vagarosa, similhante ao modo por que um homem embebido em
+reflexões as deixa, e começa a volver os olhos para os objectos que o
+rodeiam:
+
+Estas _sentenças_ taes o velho honrado
+_Vociferando_ estava, quando abrimos
+As azas ao _sereno e sooegado_
+Vento, e do porto amado nos partimos.
+
+Tal é sempre um poeta livre, celebrando as memorias de uma nação
+illustre. Tal é Camões a quem não pôde envilecer nem a desventura, nem o
+ar da côrte de D. João III e de seu illudido e absoluto neto, ar ja
+apestado pela escravidão. Assim talvez o unico deleito dos Lusiadas seja
+o seu absurdo maravilhoso, que elle deveu ao século, e de que mesmo
+poderiamos tirar um argumento a favor da immensidade do genio de Camões,
+se o espaço d'este artigo já demasiado longo no-lo permittisse.
+
+A admiração e o respeito que lhe consagramos nos fez desviar um tanto do
+nosso objecto: mas seja-nos isto desculpado. Só por Camões nós os
+portugueses seriamos grandes. Opprobrio da Europa nos tempos modernos,
+era debaixo da sua corôa de louro e das de antiga gloria, que já
+começavam a desfolhar-se quando elle a cantou, que nós nos abrigavamos
+para ainda entre os estranhos ousar dizer o nome de nossa patria. E esta
+com que retribuiu ao poeta? Nem com um amigo. O seu Antonio era filho da
+Asia. E em nossos dias levantou-se um verme da terra para insultar sua
+memoria. Deshonra eterna áquelle que pretendia despedaçar-nos nosso
+ultimo titulo de nobreza, nosso ultimo consolo no meio da infamia e das
+desditas!
+
+Ariosto e Tasso não tinham patria, porque é não tê-la o nascer numa
+terra de servos. D'este modo as duas idéas que dão unidade a seus poemas
+são duas idéas geraes, mas estranhas como taes á Italia,--a cavallaria e
+as cruzadas. A segunda parece conter-se na primeira, mas considerada em
+si é tão geral e tão indeterminada como ella. O que é a cavallaria? É o
+espirito humano modificado de certo modo. O que são as cruzadas? A
+resposta do Christianismo á terrivel pergunta que lhe fizera o islamismo
+quando os sarracenos invadiram a Italia, a Hespanha e uma parte da
+França. Qual de nós dominará a terra? Esta era a pergunta: a resposta
+foi o som das armas nos plainos de Ascalon, o estrondo das portas de
+Jerusalem estalando aos embates dos arietes de Godofredo. Incerta como a
+pergunta do mahometismo foi a replica da cruz. Vagas como o seu
+resultado, estas invasões longinquas teem uma certa magnificencia moral,
+digamos assim, uma certa demasia de enthusiasmo religioso, de
+generosidade e de valor que esses gélidos filhos do seculo XVIII, esses
+compiladores e discipulos da Encyclopedia escarneceram, porque eram
+incapazes de sentir profundamente o bello e sublime d'esse todo
+historico das cruzadas. Foi, pois, a idéa geral de Ariosto uma epocha
+brilhante; a de Tasso, a lucta e victoria da cruz contra o crescente. As
+variedades relativas á primeira, eram em muitissimo maior numero do que
+as relativas á segunda; assim o Orlando é mais variado do que a
+Jerusalem. Multiforme, como a vida de um cavalleiro, a idade média se
+apresentou a Ariosto ora sublime, ora bella, ora ridicula nas suas
+variedades immensas, e se o Orlando tem muitas vezes um caracter de
+verdade objectiva, isso, em vez de servir de argumento a favor da
+imitação, unicamente prova haver-se muitas vezes quasi realizado o ideal
+nesses tempos heróicos das nações modernas[9]. Faltam a Tasso a miudo as
+côres locaes, a verdade dos costumes, porque a sua grande idéa tinha um
+lado extremamente moral, e nos costumes e no historico das Cruzadas
+havia muita cousa em desharmonia com ella. O poeta substituiu tudo isso
+por ficções de côres muito mais bellas, e a Jerusalem ficou sendo um
+canto admiravel elevado em honra do christianismo e do enthusiasmo dos
+baixos tempos.
+
+Tasso respeitava as regras: a Jerusalem _conquistada_ foi o fructo
+d'esse respeito. Felizmente a _Libertada_ já era publica: aliás o poeta
+perseguido pelos preceitos e pelos pedantes teria destruido a sua obra
+prima para nos deixar um poema que ninguem hoje lê. Seria mais um mal
+produzido pelo fanatismo litterario; e apesar de Galileo e de Dureau
+Delamalle, nós folgamos que tal não acontecesse.[10]
+
+Passámos de leve na applicação de uma parte de nossos principios aos
+cinco mais celebres poemas da velha e nova Europa, porque não era
+compativel com a brevidade o fazê-lo de outro modo; por essa razão fomos
+talvez obscuros. Ser-nos-ha porventura dado algum dia tractar d'esta
+materia, fóra de uma folha periodica: então mostraremos que esta nova
+theoria não é tão horrivel como agora parecerá a muitos; nem se nos
+levará tanto a mal a nossa impiedade litteraria, quando, mais
+miudamente, fizermos surgir do cháos da antiga critica suas
+contradicções e absurdos.
+
+Mas, pertendendo destruir o systema da eschola classica, não somos nós
+romanticos? Alguem nos terá como taes: cumpre por tanto que nos
+expliquemos. Na verdadeira accepção do termo elle é o nosso symbolo;
+porém este symbolo nada tem em rigor com aquillo acêrca de que havemos
+falado. Tractámos das fórmas da poesia. As modernas opiniões dos
+verdadeiros romanticos versam sobre a sua essencia. Verdade é que a
+theoria do bello, que indicámos apenas, dá a razão da maior parte
+d'essas mesmas opiniões, cujo exame nos absteremos de encetar. Diremos
+sómente que somos romanticos, querendo que os portugueses voltem a uma
+litteratura sua, sem comtudo deixar de admirar os monumentos da grega e
+da romana: que amem a patria mesmo em poesia: que aproveitem os nossos
+tempos historicos, os quaes o Christianismo com sua doçura, e com seu
+enthusiasmo e o caracter generoso e valente desses homens livres do
+norte, que esmagaram o vil imperio de Constantino, tornaram mais bellos
+que os dos antigos: que desterrem de seus cantos esses numes dos gregos,
+agradaveis para elles, mas ridiculos para nós e as mais das vezes
+inharmonicos com as nossas idéas moraes: que os substituam por nossa
+mythologia nacional na poesia narrativa; e pela religião, pela
+philosophia e pela moral na lyrica. Isto queremos nós e neste sentido
+somos romanticos; porém naquelle que a esta palavra se tem dado
+impropriamente, com o fito de encobrir a falta de genio e de fazer amar
+a irreligião, a immoralidade e quanto ha de negro e abjecto no coração
+humano, nós declaramos que o não somos, nem esperamos sê-lo nunca. Nossa
+theoria fôra a primeira a caír por terra deante da barbaria d'esta seita
+miseravel que apenas entre os seus, conta um genio, e foi o que a creou:
+genio sem duvida immenso e insondavel, mas similhante aos abysmos dos
+mares tempestuosos que saudou em seus hymnos de desesperação: genio que
+passou pela terra como um relampago infernal, e cujo fogo mirrou os
+campos da poesia e os deixou aridos como o areal do deserto; genio emfim
+que não tem com quem comparar-se, que nunca o terá talvez, e que seus
+exaggerados admiradores apenas teem pretendido macaquear.
+
+Falamos de Byron. Qual e, com effeito, a idéa dominante nos seus poemas?
+Nenhuma ou, o que é o mesmo, um scepticismo absoluto, a negação de todas
+as idéas positivas. Com um sorriso espantoso, elle escarneceu de tudo.
+Religião, moral, affectos humanos, mesmo a liberdade e a esperança foram
+seu ludibrio. A leitura dos seus poemas só produz, em geral,
+descoroçoamento ou antes desesperação. Byron é o Mephistopheles de
+Goethe lançado na vida real.--Virtude e crime, pudor e impudencia,
+gloria e infamia, que montam em seus cantos sinistros? Mas o homem, ser
+immortal, passageiro em um mundo transitorio, não nasceu para o
+scepticismo, para um estado violento, porque elle precisa crêr, quando
+mais não fosse ao menos na voz esperançosa ou ameaçadora da consciencia:
+infeliz, pois, d'aquelle que ao acabar de ler Byron não sente no coração
+um peso insupportavel: a sua alma será tão escura e tão vasia como a
+d'este poeta sublimemente destruidor. De sua eschola apenas restará
+elle; mas como um monumento espantoso dos pricipicios do genio quando
+desacompanhado da virtude. Dos seus imitadores diremos só que elles
+farão com seus dramas, poemas e canções em honra dos crimes, que a
+Europa, volvendo a si, amaldiçoe um dia esta litteratura, que hoje tanto
+applaude. Nossa prophecia se verificará, se, como cremos, o genero
+humano tende á perfectibilidade, e se o homem não nasceu para correr na
+vida um campo de lagrymas e despenhar-se pela morte nos abysmos do nada.
+No meio das revoluções, na epocha em que os tyrannos, enfurecidos pela
+perspectiva de uma queda eminente, se apressam a exgotar sobre os povos
+os thesouros da sua barbaridade: emquanto dura o grande combate, o
+combate dos seculos, os hymnos do desespero soam accordes com as dôres
+moraes; mas quando algum dia a Europa jazer livre e tranquilla, ninguem
+olhara sem compaixao ou horror os desvarios litterarios do nosso seculo.
+Muitos mesmo não os entenderão.
+
+
+
+
+*Origens do theatro moderno--Theatro português até aos fins do seculo
+XVI*
+
+PANORAMA
+
+1837
+
+
+
+
+*Origens do theatro moderno--Theatro português até aos fins do seculo
+XVI
+
+
+O país onde primeiro appareceu a arte dramatica moderna foi a
+Inglaterra, se arte dramatica podemos chamar a espectaculos tirados de
+passos historicos da Biblia, sem invenção ou enredo, e só copiados
+litteralmente em discursos e acções. Estas primeiras tentativas
+theatraes, a que depois os franceses e italianos chamaram _mysterios_,
+appareceram na Grã-Bretanha durante o seculo XI. Os monges as compunham
+e representavam, e ainda no fim do seculo XVI elles pediam a Ricardo II
+embargasse os comediantes de exercerem uma profissão que julgavam ser um
+privilegio seu, porque ordinariamente o objecto dos dramas se tirava do
+velho e novo Testamento.
+
+Pelas muitas relações que havia entre a Inglaterra e a França, parece
+que os mysterios ingleses não tardaram em introduzir-se neste ultimo
+país. A _Morte de Santa Catherina_, representada na abbadia de
+Dunstaple, em mil cento e tantos, foi no seculo seguinte posta de novo
+em scena no mosteiro de Sancto Albano em França, e é talvez esta a
+memoria mais antiga que temos da arte dramatica francesa. Depois esta
+continuou e cresceu, chamando se ás farças prophanas _jogos_ ou
+_representações_, e aos dramas sacros _mysterios_.
+
+A Italia começou mais tarde, com este genero de composições barbaras:
+mas, tendo primeiro que nenhuma outra nação seguido o gosto da
+litteratura grega e romana, brevemente o tomou tambem no theatro. Os
+dramas de Mussato compostos no principio do seculo XIV, e em latim, são
+_Ezzelino_ e _Achilles_, imitações de Seneca, escriptas com um tão falso
+estylo como o do dramaturgo romano. Foi no XV seculo que appareceram na
+Italia os primeiros dramas vulgares: Lourenço de Medicis publicou a
+_Representação de S. João e S. Paulo_, e Angelo Policiano deu pouco
+depois a sua tragedia intitulada _Orpheo_.
+
+Desde o seculo XIV appareceram dramas na Alemanha; mas estes nada mais
+eram do que imitações dos _mysterios_ franceses, e escriptos em latim
+pelos monges. Em meado do seculo XV foi que verdadeiramente começou
+neste país o theatro nacional. Hans-Folz e Rosemblut compuseram diversas
+farças, que se representaram em Nuremberg e Calmar: estas farças, obra
+de homens rudes, são um tecido de grossarias e indecencias apenas dignas
+de se recitarem diante da plebe mais desfaçada. Depois de 1500 é que
+appareceu _Hans-Sachs_, a quem podemos chamar o Gil Vicente da Alemanha.
+
+Na Hespanha, ou porque os arabes o introduzissem, ou porque os
+hespanhoes o inventassem, ou, emfim, porque muito cedo o imitassem dos
+franceses, o drama remonta aos primeiros tempos da monarchia. Só, na
+verdade, do principio do seculo XIV conhecemos a scena hespanhola; mas
+restam memorias d'ella muitissimo mais remotas, e pouco depois de 1200,
+dizem que appareceram dramas em Valenciano. Do seculo XV ainda existem
+muitas composições neste genero de litteratura.
+
+Essas primeiras tentativas dramaticas eram forçosamente um tecido sem
+nexo, sem ordem, e ridiculo: os seus auctores se entregavam
+desenfreadamente a todos os caprichos de uma imaginação fervente, e as
+producções d'esse tempo são em geral monstruosas e absurdas. Rodrigo de
+Cotta começou a dar alguma regularidade ao drama na comedia de _Calisto
+e Melibea_; mas a licença de seus quadros e expressões mancha o
+merecimento d'esta peça, que depois foi algum tanto corrigida e
+accrescentada por Fernando de Roxas, auctor de outra comedia--_Progne e
+Philomela_. Apesar de assim emendada a obra de Cotta ainda é monstruosa.
+Uma serie de enredos amorosos e de crimes se encruzam e estendem ahi
+através de vinte e cinco actos. Entretanto a verdade dos costumes e
+caracteres e a verosimilhança dos episodios lhe deram celebridade; e com
+o titulo de _Celestina_ ella foi muitas vezes reimpressa, traduzida em
+diversas linguas e até na latina pelo celebre Barthius. A reputação da
+_Celestina_ fez nascer os imitadores; e novas composições, com o mesmo
+ou differente titulo, mas que estão longe de ter o merito da original,
+surgiram brevemente em Hespanha.
+
+Por este tempo floresceram mais outros dois auctores dramaticos, o
+Marquez de Villena e João de la Enzina, que foi o principal modelo do
+nosso Gil Vicente. Os dramas do primeiro foram representados em Saragoça
+na côrte de D. João II, pelo meado do XV seculo; os do segundo o foram
+tambem, na côrte de Fernando e Isabel nos fins d'aquella mesma era.
+
+Resurgiam então as letras gregas e romanas, e a admiração do theatro
+antigo despertou na Hespanha o genio da tragedia. Oliva publicou duas
+composições trágicas--_Hécuba triste_ e _La venganza de Agamemnon_, as
+primeiras que neste genero se escreveram na Peninsula. Restrictas e
+acanhadas imitações dos gregos, ellas se podem considerar como
+traducções livres da _Hécuba_ de Euripides e da _Electra_ de Sophocles.
+
+Em Portugal é provavel começassem as representações scenicas pelo mesmo
+tempo em que principiaram na Hespanha; mas nenhuns vestigios restam
+d'esse theatro primitivo. O que é certo é que já nos fins do seculo XIV
+havia em Portugal entremezes. Garcia de Rezende na chronica de D. João
+II, narrando as festas que se fizeram em Evora no casamento do principe
+D. Affonso com a infanta D. Isabel de Castella, fala, em varios
+capitulos, dos _entremezes_ e _representaçoens_, que nessa occasião se
+fizeram, dando a entender pelo modo porque acêrca d'elles se exprime,
+que eram uma coisa bem conhecida e vulgar, e não é impossivel que ainda
+se nos depare algum monumento d'esse nosso primitivo theatro.
+
+Porém, o mais antigo drama que hoje conhecemos é um de Gil Vicente,
+representado em 1502 na côrte de D. Manoel, e Gil Vicente é, no estado
+actual da nossa historia litteraria, considerado como o fundador da
+scena portuguesa, pela mesma razão porque o podemos ter por inventor dos
+_rimances_, ou _xácaras_, dos quaes os mais antigos que existem são os
+que elle entresachou pelos seus _Autos_, e o que elle dedicou á morte de
+el-rei D. Manoel.
+
+Gil Vicente dividiu em quatro livros as suas composições dramaticas,
+incluindo no primeiro todos os autos a que chamou de _devoção_, por
+versarem em geral sobre objectos biblicos e religiosos; mas estas _obras
+de devoção_ parecem as menos devotas de todas, se das outras
+exceptuarmos a comedia de _Rubena_ que pertence ao segundo livro. Taes
+_autos_ são na essencia o mesmo que os mysterios franceses, como elles
+cheios de indecencias, porém ao mesmo tempo ricos de sal e chistes. O
+poeta abominava cordealmente o clero, sobretudo os frades, e não
+desaproveitou occasião alguma de os presentear com chascos e epigrammas.
+Os autos das _barcas_, que são como continuação uns dos outros, e formam
+a _trilogia_, ou drama em tres quadros, mais antiga da Europa,
+constituem com _Mofina Mendes_ e _Rubena_ a flôr do theatro de Gil
+Vicente; porque talvez em nenhuma das scenas que os compõem deixa de
+patentear-se em subido gráu o genio da comedia. Este poeta reunia á
+qualidade de auctor a de actor; e com seus filhos representava os
+proprios dramas na côrte de D. Manoel e de D. João III. Apesar de
+cortesão, o poeta morreu pobre, em Evora, depois de 1550. As suas obras
+se imprimiram em Lisboa em 1562, e muito mutiladas em 1586. Uma nova
+edição completa se publicou ultimamente em Hamburgo em 1833.
+
+Gil Vicente teve um filho do seu mesmo nome, que dizem desterrou para a
+India, levado pelo ciume de este o exceder no genio dramatico. Ao moço
+Gil Vicente se attribue a composição de um auto intitulado _D. Luiz de
+los Turcos_.
+
+Pelo meado do seculo XVI appareceram em Portugal varios poetas que mais
+ou menos seguiram as pisadas do auctor de _Rubena_. Ao infante D. Luiz
+se attribue o auto de _D. Duardos_, que anda impresso como de Gil
+Vicente. Antonio Ribeiro Chiado, tão conhecido na côrte de D. João III e
+de D. Sebastião, pelos seus gracejos e agudezas, e pela propriedade com
+que remedava a voz e o gesto de todos, nos deixou dois autos assás
+engraçados, o da _Natural Invenção_ e o de _Gonçalo Chambão_. Na
+_Primeira parte dos Autos e Comedias Portuguezas_, publicada em 1587,
+livro hoje bastante raro, se imprimiram sete autos de Antonio Prestes,
+que revelam espirito comico não inferior porventura ao de Gil Vicente,
+cuja escola Prestes seguiu, bem como Jorge Pinto, auctor de _Rodrigo_ e
+_Mengo_, e Jeronymo Ribeiro Soares, auctor do _Auto do Fisico_, que vem
+naquella collecção cuja segunda parte nunca se deu á estampa. O nosso
+Jorge Ferreira de Vasconcellos, auctor dos dois romances da _Tavola
+Redonda_, floresceu tambem por estes tempos. Tres composições suas nos
+restam, _Aulegrafia_, _Euphrosina_ e _Ulyssipo_, a que elle chamou
+comedias, e que, realmente, são antes dialogos do que dramas. Nellas
+teve por alvo Jorge Ferreira reunir os proverbios e annexins da lingua
+ou a philosophia popular do seu tempo, e por este lado são ellas, na
+verdade, dignas da maior estimação; mas se as quisermos considerar como
+dramas bem pequeno é o seu merito.
+
+No reinado de D. Sebastião, o cego Balthasar Dias, poeta natural da
+Madeira, publicou um grande numero de autos e outras obras, humildes
+pelo estilo, mas com toques tão nacionaes e tão gostosos para o povo,
+que ainda hoje são lidos por este com avidez. Correi as choupanas nas
+aldeãs, as officinas e as lojas dos artifices nas cidades, e em quasi
+todas achareis uma ou outra das multiplicadas edições dos _Autos de S.
+Aleixo_, _de S. Catherina_ e da _Historia da Imperatriz Porcina_, tudo
+obras d'aquelle poeta cego do seculo XVI.
+
+Este era o theatro verdadeiramente nacional até o anno de 1600, em que
+floresceu Simão Machado, auctor do _Cerco de Diu_ e da _Pastora Alfêa_.
+Muitas composições d'este genero se perderam, ou não chegaram á nossa
+noticia, como os Autos de Antonio Pires Gonge, de Sebastião Pires, e de
+António Peres, que dizem que escrevera mais de cem dramas. O auto do
+_Fidalgo de Florença_, composto por João de Escobar, no reinado de D.
+Sebastião, teve nesse tempo grande celebridade, e se imprimiu repetidas
+vezes: porém d'elle ainda não encontrámos um unico exemplar.
+
+Emquanto assim a escola formada por Gil Vicente progredia, e, em nosso
+entender, se aperfeiçoava, independente de estranha influencia, poetas
+de grande nome trabalhavam por introduzir em nossa litteratura as fórmas
+do theatro grego ou romano. Francisco de Sá de Miranda escreveu duas
+comedias intituladas _Vilhalpandos_ e _Os Estrangeiros_, as quaes se
+imprimiram, depois de sua morte, em 1560 a primeira, e a segunda em
+1569. Nestas procurou elle seguir as pisadas de Planto e Terencio, como
+o confessa no prologo dos _Estrangeiros_, e com effeito ellas se podem
+comparar com as dos dois comicos latinos. Antonio Ferreira compôs quasi
+pelos mesmos tempos as comedias _Bristo_ e _Cioso_ e a tragedia _D.
+Ignez de Castro_, a segunda que appareceu na Europa conforme a todas as
+regras classicas, sendo a primeira a _Sophonisba_ do poeta italiano
+Trissino; mas a de Castro é superior; e nós a temos por um milagre
+dramatico, attendendo á falta de modelos modernos e ao seculo em que foi
+escripta. O illustre Camões tambem nos deixou, com o titulo de autos,
+duas comedias--_Os Amphytrioens_ e _Filodemo_, das quaes a primeira é
+quasi uma traducção de Plauto. Desde esta epocha o theatro português foi
+caindo e podemos dizer que nunca mais tornou a restaurar-se.
+
+
+
+
+*Novellas de cavallaria Portuguesas*
+
+PANORAMA
+
+1838-1840
+
+
+
+
+*Novellas de Cavallaria Portuguesas*
+
+
+I
+
+Amadis de Gaula
+
+
+As idéas de honra, de valentia e de amor, que occupavam quasi
+exclusivamente os espiritos durante a edade média, reproduziram-se em
+todas as fórmas sociaes e instituições d'aquella brilhante epocha: o
+sentimento religioso traduzia-se em cruzadas ou em guerras de seitas: o
+do prazer em justas, torneios e caçadas, que eram imagem da guerra, ou
+em serões, onde os themas inexgotaveis dos trovadores eram ou amores ou
+armas: as leis apesar de terem a sua principal origem no direito
+canonico e depois no romano, lá abriam a liça aos combates judiciarios:
+as habitações eram castellos, e os adornos dos aposentos corpos de armas
+pendurados, lanças, e razes, onde as mãos das donzellas tinham lavrado a
+historia de combates. Neste predominio exclusivo de certas idéas, como
+escaparia a litteratura de ser dominada por ellas? Assim, depois das
+cantigas dos trovadores, vieram os _rimances_ mais longos, os poemos e
+as novellas de cavallaria. Era esta a litteratura d'aquelles seculos,
+nem outra podia ser: a imaginação dos poetas e novelleiros não
+alcançaria espraiar-se além das fórmas da sociedade de então; porque a
+litteratura de todas as epochas sem exceptuar a nossa, não é mais do que
+um echo harmonioso, ou um reflexo resplendente das idéas capitães, que
+vogam em qualquer d'ellas. As aventuras, os amores, os feitos d'armas
+dos heroes do Boiardo eram a imagem, vista através de um prisma, dos
+homens do XV seculo: a ancia de liberdade descomedida, a misantropia, os
+crimes, a incredulidade dos monstros de Byron são o transumpto medonho e
+sublime d'este seculo de exaggerações e de renovação social.
+
+O prazo durante o qual os portugueses tocaram a meta do espirito
+cavalleiroso, e o conservaram em toda a pureza e vigor, prolongou-se por
+obra de um seculo, desde os ultimos annos do reinado d'el-rei D.
+Fernando até o d'el-rei D. Affonso V. Antes d'esse tempo nossos avós
+eram demasiado rudes para conceberem e reduzirem a inteira practica a
+concepção immensamente bella da cavallaria; depois d'elle, eram muito
+cidadãos para serem cavalleiros. D. Alvaro Vaz d'Almada caindo morto na
+batalha de Alfarrobeira era o symbolo da cavallaria expirando nas
+paginas da ordenação affonsina. Nesta compilação indigesta e
+essencialmente contradictoria da legislação de tres seculos, não bastava
+o ser inserido o velho regimento de guerra português, emendado por
+jurisconsultos, para salvar da morte a cavallaria, que outras
+disposições d'esse codigo indirectamente assassinavam. Nisto como em
+quasi tudo o mais, das actas das côrtes portuguesas anteriores a D. João
+II e da ordenação affonsina, se póde extrahir toda a substancia
+philosophica da historia dos primeiros tres seculos da monarchia.
+
+Se o espirito puro de cavallaria dominou tão largo periodo, os
+_cavalleiros-modelos_ (permitta-se-nos a expressão) foram só os que se
+crearam na côrte de D. João I; e a poetica ficção dos Doze de Inglaterra
+pinta a epocha em que se diz succedera essa aventura. Cavalleiros
+andantes portugueses houve-os nos seculos anteriores; mas a cortesia, a
+louçainha, e a galantaria que caracterizam a verdadeira cavallaria só as
+amostra a nossa historia nos guerreiros indomaveis, que na batalha de
+Aljubarrota formavam o esquadrão brilhante chamado a _Ala dos
+Namorados_. Eram estes guerreiros que faziam aquelles _votos denodados_,
+em demanda de cuja execução muitas vezes perdiam a vida: eram estes que,
+discorrendo pelas terras estrangeiras, ahi deixavam perenne memoria de
+seus esforçados feitos.
+
+Foi na luzida côrte do mestre de Aviz onde achou a cavallaria de toda a
+Europa o seu Homero em Vasco de Lobeira. Como antes d'aquella houve
+poetas, assim antes d'este houve romancistas; como Homero eclypsou a
+memoria dos cantos dos seus antecessores, assim Lobeira fez esquecer as
+mal tecidas invenções dos mais antigos novelleiros, e o _Amadis de
+Gaula_ é a primeira e a principal novella no extensissimo catalogo dos
+contos de cavallaria.
+
+Poucas memorias nos restam acêrca de Vasco de Lobeira. Sabe-se que foi
+natural do Porto, e armado cavalleiro por D. João I antes de começar a
+batalha de Aljubarrota. Viveu a maior parte da sua vida em Elvas, e
+morreu em 1403.
+
+Escripto muito antes da invenção da imprensa, o _Amadis_ correu
+manuscripto até o tempo de D. João V; porque os nossos antepassados
+nunca tiveram a curiosidade de o imprimir. Foram assim escasseando as
+copias d'elle, e nos ultimos tempos se havia tornado tão raro que apenas
+se lhe conhecia um ou dois exemplares. O conde da Ericeira, testemunha
+acima de toda a excepção, o viu, e o abbade Barbosa diz que o proprio
+original estava na livraria dos duques de Aveiro. O fatal terremoto de
+1755 fez desapparecer este monumento precioso da nossa litteratura, e
+tudo nos incita hoje a crêr que se perdeu para sempre.
+
+Mas, se já não existe o original, existem as versões d'elle, ainda que
+alteradas pelos traductores. Trasladado em hespanhol se publicou em
+Sevilha em 1510. Vimos esta traducção, de que ha um exemplar na
+bibliotheca publica da cidade do Porto; e bem sentimos não ter tomado
+d'ella varias notas, que de grande utilidade nos foram para o que vamos
+dizer. Lemos ultimamente a edição de Garciordonez de Montalvo, impressa
+tambem em Sevilha, em 1526, da qual nenhum bibliographo, que nós
+conheçamos, faz menção. Segundo o abbade Barbosa as edições do _Amadis_,
+vertido em hespanhol, se repetiram em 1539, 1576 e 1588.
+
+Esta novella tambem appareceu em 1540, traduzida em francês e
+accrescentada por Nicolau de Herberay: em 1583 a publicaram os alemães
+na sua lingua; e Bernarda Tasso, pai do grande Tasso, a reduziu em
+italiano quasi por esse mesmo tempo, fazendo um poema riquissimo de
+versos pomposos, e... de dormideiras. Esta acceitação unanime das
+diversas nações é o maior elogio que se podia fazer á obra do nosso
+Lobeira.
+
+O _Amadis_, como hoje o conhecemos, na antiga versão hespanhola, consta
+de quatro livros, o ultimo dos quaes foi grandemente alterado por
+Garciordonez, segundo elle mesmo diz: "Corrigi (são palavras do prologo)
+estes tres livros do Amadis, que por culpa dos máus escriptores ou
+compositores mui corruptos e viciados se liam, e _trasladei_ e emmendei
+o livro 4.^o". Estes quatro livros, traduzidos tambem em francês, foram
+continuados por diversos auctores, constando hoje a obra de vinte e
+quatro.
+
+Sendo impossivel dar uma idéa do _Amadis de Gaula_, teia immensa de
+aventuras, que ao modo das do Ariosto formam um labyrintho inextricavel,
+buscaremos ao menos dar a conhecer o tempo e o logar da acção, e o seu
+principal actor, com a brevidade a que nos constrangem os limites do
+_Panorama_.
+
+A epocha escolhida pelos romancistas de cavallarias para nella
+collocarem os seus heroes fabulosos é indeterminada em todas as
+novellas. A do _Amadis_, ainda que bastante incerta, é menos vaga. O
+heroe viveu muito antes do celebre Arthur ou Artus, rei de Inglaterra:
+mas já quando este país e o de França eram christãos. É o que se lê no
+1.^o capitulo do _Amadis_, e sendo assim este guerreiro floresceu no VI
+ou VII seculo; e como a maior parte dos romances de cavallaria, que
+ainda existem, versam sobre a vida dos seus imaginarios descendentes,
+podemos tambem para elles estabelecer, ainda que imperfeitamente, uma
+especie de chronologia.
+
+O theatro em que se passam as aventuras de _Amadis de Gaula_, é um
+theatro quasi tamanho como o mundo conhecido no tempo de D. João I. O
+heroe e os mais cavalleiros seus contemporaneos cruzavam mares extensos,
+peregrinavam centenares de leguas, com a mesma rapidez e facilidade com
+que nós fazemos visitas dentro de Lisboa. Esta commodidade
+aproveitaram-na todos os novelleiros que vieram depois de Lobeira; e
+para as distancias que seria incrivel fazer correr em curtissimo prazo a
+um cavalleiro, lá estavam as magas e os encantadores, especie de espada
+de Alexandre, que o escriptor sempre tinha á mão para cortar todos os
+nós gordios que embaraçavam as narrações.
+
+Não nos cabendo neste logar tudo o que temos de dizer acêrca do
+_Amadis_, o deixaremos para segundo artigo, continuando nos subsequentes
+com a historia das outras novellas de cavallaria portuguesas.
+
+
+II
+
+Amaclis de Gaula
+
+(Continuação)
+
+
+Promettemos no antedecente artigo dar uma brevissima idéa d'esta
+primeira novella de cavallaria: cumpri-lo-hemos aqui, tocando depois um
+ponto em que de proposito deixámos de falar, e vem a ser a célebre
+questão acêrca de saber se esta novella é obra de um auctor português,
+hespanhol, ou francês. Todas estas tres nações a pretendem para si; e na
+contenda os portugueses parece estarem peior que os seus adversarios,
+visto já não existir o original. Mas, ao cabo, são elles que teem razão,
+segundo nosso entender; e por isso não duvidámos de attribuir o _Amadis_
+a Vasco de Lobeira.
+
+O rei Perion reinava na Gaula (França): o rei Garinter na Pequena
+Bretanha, hoje a provincia de França d'este nome. Levado pelo desejo de
+conhecer Garinter intenta Perion uma longa viagem[11]; e com efteito o
+encontra numa caçada; dão-se a conhecer um ao outro, e Perion é
+conduzido á corte do seu novo amigo. Tinha este uma filha chamada
+Elisena, que se namora de Perion, o qual d'ahi a pouco parte para a
+Gaula, deixando-a gravida. Ella para esquivar-se á infamia entrega o
+fructo dos seus amores á mercê das ondas, encerrado em uma caixa. Foi
+este Amadis. Encontrado por uma barca em que ía Gandales, cavalleiro
+escocês, este o salva e cria com seu filho Gandalim, depois escudeiro de
+Amadis. Os dois moços são levados á côrte de Languines, rei da Escocia.
+Aqui viu a Amadis el-rei Lisuarte, que de Dinamarca vinha reinar em
+Inglaterra, o qual deixou na côrte de Languines a sua filha Oriana. Foi
+então que começaram os amores d'esta princeza com Amadis, que são o
+principal objecto da novella. Amadis é reconhecido por seu pai Perion,
+já casado com a filha de Garinter, e cresce em poder e renome. Mil
+difficulclades se alevantam para elle chegar a possuir Oriana, as quaes
+vence com repetidos actos de generosidade e valentia. Emfim o romance
+acaba de um modo incompleto com os trabalhos que nos seus ultimos annos
+cercaram a el-rei Lisuarte.
+
+É esta, em summa, a materia que enche o volumoso romance de _Amadis_,
+novella cheia de muitas paginas fastidiosas, mas tambem de muitas que
+grandemente excitam a curiosidade. O estylo em que está escripto é o de
+uma velha chronica do seculo XV, e notamos nelle uma grande similhança
+com os escriptos do pai da nossa historia, o singelo chronista de João
+I, Fernão Lopes, que tantas vezes se mostra mais poeta que muitos que se
+arrogam este titulo.
+
+Traçado um leve esboço da novella de _Amadis de Gaula_, segue-se tractar
+a questão de saber se a devemos attribuir a um escriptor português.
+
+Primeiro que tudo, é de notar que a tradição constante em Portugal foi
+sempre que o _Amadis_ fôra composto por Lobeira. Antonio Ferreira e o
+dr. João de Barros, que escreveram no seculo XVI, não duvidam dá-lo por
+certo: o conde da Ericeira numa conta dada á academia de historia, de
+certa colleção de livros que andava examinando, diz que ali se achava um
+manuscripto do _Amadis_, sem que sobre isso faça admiração ou reparo; o
+que parece provar que naquella academia nenhuma duvida havia acêrca da
+existencia da novella, no original português. Mas não era só nossa esta
+opinião: a maior parte dos escriptores hespanhoes convem em attribuir a
+Lobeira o _Amadis de Gaula_.
+
+Pretendem os franceses (não todos os que na materia teem escripto) que
+esta novella fôra traduzida em hespanhol do idioma picardo, e Herberay
+diz a vira nesta lingua: mas isto nada prova. Quem impedia que os
+franceses traduzissem o original de Lobeira? A outra objecção contra nós
+é ter feito o auctor os seus heroes franceses e ingleses; mas isto
+tambem nada prova: por que prova de mais. Os ingleses teriam ainda mais
+razão para pedirem a gloria d'esta obra, visto que, apesar de ser
+francesa a personagem principal, a maior parte dos acontecimentos
+põe-nos o auctor em Inglaterra, e quasi todos os cavalleiros notaveis
+são d'este país, á excepção de Amadis e seu irmão Galaor. O certo é que
+Lobeira, tendo vivido no tempo de el-rei D. Fernando I e de D. João I,
+tinha visto as proezas que em Portugal obraram os cavalleiros ingleses,
+a quem devemos os progressos que então fizemos na arte da guerra. Devia
+elle fazer portanto alta idéa da cavallaria d'aquella nação. Nada havia
+mais natural do que fazer da Inglaterra o theatro das façanhas dos seus
+imaginarios heroes. Como, porém, o agente principal de todos os
+successos devia ser o amor, naturalissimo era que o auctor buscasse um
+principe estrangeiro que viesse tornar brilhante a côrte inglesa, com
+seus amores pela dama principal, a filha de Lisuarte, que não poderia
+aliás corresponder á affeição de um subdito de seu pai. Eis a razão
+obvia porque Amadis é francês.
+
+Alem d'estas observações ha uma principal, que ainda ninguem, que nós
+saibamos, se lembrou de fazer: o examinar em si a novella, para ver se
+das suas proprias entranhas se podia arrancar a certeza da sua origem.
+Se isto se tivesse feito, a questão estaria de ha muito decidida.
+
+Citámos mui de proposito no primeiro artigo as palavras de Garciordonez,
+que diz emendara os tres livros de _Amadis_, que andavam viciados, e
+_trasladara_ o quarto. Aqui o verbo _trasladar_, é claro que não póde
+significar senão traduzir, o que mostra a olhos desapaixonados que a
+obra não era originalmente hespanhola.
+
+Seria francesa?--Dizemos, sem duvida alguma, que não. Perion encontrando
+Garinter diz-lhe que viera de mui remotas terras para o vêr. Era
+possivel acaso que um escriptor francês fizesse o rei da Pequena
+Bretanhi desconhecido do da França, e pusesse na boca d'este um tão
+descompassado erro geographico? Além d'isto Perion e Lisuarte reunem
+_côrtes_, nos casos difficeis e circumstancias importantes: nestas
+côrtes apparecem, não os barões das antigas assembleas feudaes da
+Inglaterra e França, mas os _ricos-homens_ e _homens-bons_ das côrtes
+portuguesas. Emfim o auctor descreve a passagem do canal de Inglaterra
+como uma viagem de nove dias com vento favoravel. As frequentes relações
+de guerra e de paz entre a Grã-Bretanha e a França permittiam porventura
+que ignorasse um escriptor francês a distancia de um a outro país?
+
+Nós poderiamos accrescentar muitos outros exemplos d'esta natureza; mas
+cremos serem de sobejo os que apontamos, para que á nação portuguesa
+seja cedida a palma de ter saído da penna de um escriptor seu a mais
+antiga e mais celebre das novellas cavalheirescas.
+
+
+III
+
+Novellas do seculo XV
+
+
+Quando escrevemos os dois primeiros artigos acêrca das novellas de
+cavallaria portuguesas,[12] era nossa intenção continuar sem demora a
+publicação do breve resumo, que encetámos d'esta parte da nossa historia
+litteraria, por ser aquella sobre a qual menos se tem escripto. Mas por
+isso mesmo era preciso fazer maiores indagações, que outros trabalhos
+nos não permittiam. Abrimos pois, mão do intento que hoje continuamos a
+pôr por obra: não porque julguemos sufficiente o que temos colligido,
+desde então para cá, sobre a materia; mas porque mais valem poucas
+noticias que absolutamente nenhumas.
+
+Antes que passemos adiante cumpre-nos accrescentar aqui alguma coisa
+acêrca do _Amadis_, de que largamente falámos nos artigos já publicados,
+e vem a ser um testemunho que corta por uma vez a questão da sua
+originalidade. Este testemunho é o de Gomes Eannes de Azurara,
+historiador que os nossos leitores já conhecem[13], e que diz o seguinte
+no capitulo 63 da chronica do conde D. Pedro de Menezes--«e assy o livro
+d'Amadis, como quer que sómente este fosse feito a prazer de um homem,
+que se chamava Vasco Lobeira em tempo d'el-rei D. Fernando, sendo
+toda-las cousas do dito livro fingidas do auctor»--Este logar de um
+escriptor, a bem dizer coevo, deve tirar a última sombra de duvida sobre
+a nacionalidade do celebre _Amadis de Gaula_.
+
+Assim como a côrte de D. João I foi a eschola dos mais famosos
+cavalleiros de Portugal, assim a epocha do seu reinado se pode
+considerar como a mais favoravel para as letras, que Portugal viu, até o
+tempo de D. Manuel. D. Duarte, o bom e infeliz D. Duarte,
+proporcionalmente o mais instruido dos nossos reis, não teve que ir
+aprender, nem virtudes, nem cavallaria, nem sciencias nas côrtes
+estrangeiras, porque as virtudes de que foi ornado, e os vastos
+conhecimentos que possuiu, adquiriu-os na de seu illustre pai. O infante
+D. Pedro, principe grande entre os maiores que Portugal tem gerado, se
+correu o mundo foi para encher de assombro os sabios com sua sciencia,
+os valorosos com seu valor.
+
+O infante D. Henrique ha ahi quem não o conheça? Quem não conheça o
+fundador da nossa gloria maritima? Certo que não. Nome é esse que nunca
+esquecerá. E todavia de todos os quatro filhos de João I (contando o
+infante D. Fernando) é elle quem occupa o logar mais baixo na escala das
+virtudes, e porventura na sciencia apenas lhe caberá o terceiro depois
+de D. Duarte e D. Pedro.
+
+E ainda o infante D. Fernando, esse pobre cavalleiro da cruz a quem a
+nação ousou negar o resgate, preferindo alguns palmos de terra cingidos
+de muralhas, á liberdade e á vida de um homem leal, que bem a servira,
+antepondo uma infamia a uma perda, talvez facil de remediar; ainda,
+dizemos, o bom infante sancto, o martyr resignado da patria e da fé,
+quão amigo e protector foi das letras e dos que as cultivavam! Fernão
+Lopes e Fr. João Alvarez foram feitura sua; e, provavelmente, não nos
+honrariamos hoje d'esses dois homens, dos quaes um deu o primeiro
+impulso á nossa linguagem historica, e outro á nossa linguagem oratoria,
+se a boa sombra de D. Fernando os não fizesse medrar. Leia-se o
+testamento que fez quando mancebo partiu para a Africa, e ver-se-ha
+quantos e quão notaveis livros possuia o infante; numa epocha em que,
+não existindo a typographia, muitas vezes em países então semi-barbaros,
+como por exemplo a Inglaterra, era necessario empenhar um castello ou um
+solar inteiro para obter a copia de qualquer livro. E todavia, de todos
+os quatro irmãos D. Fernando é o menos conhecido na nossa historia
+litteraria.
+
+Os vestigios da litteratura portuguesa do periodo que decorre desde os
+principios do reinado de D. João I até o de D. Affonso V são
+innumeraveis; mas são apenas vestigios. Das artes ahi está a Batalha, e
+ainda apesar de conegos, S.^{ta} Maria de Guimarães, dizendo o que em
+Portugal foi essa era de toda a casta de glorias, a que vertendo sangue,
+se acolhem os corações que por ora não renegaram do nome português, hoje
+vilipendiado e arrastado por tabernas e monturos d'estrangeiros. Dos
+monumentos, porém, da nossa velha litteratura apenas restam alguns
+nomes, e alguns titulos ou fragmentos d'obras, consumidas por incuria
+propria, e por terremotos e incendios, ou roubadas por castelhanos,
+franceses, ingleses, e, emfim, por todos aquelles que teem querido tomar
+o leve trabalho de arrebatar, ou pôr em almoerla as preciosidades dos
+nossos cartorios, bibliothecas e museus.
+
+Do já citado testamento do infante D. Fernando, do de Diogo Affonso
+Mangancha, do inventario de Vasco de Sousa, do catalogo da livraria
+d'el-rei D. Duarte, e de muitos outros documentos publicados e ineditos,
+bem como de varias passagens dos nossos chronistas, e ainda mais dos
+historiadores monasticos, se vê quão grande era em Portugal o tracto dos
+livros, numa epocha, que por ahi se chama barbara, porque era de grandes
+virtudes. E não se creia que esses livros eram só latinos: pelo
+contrario, a maior parte estava escripta nas linguas vulgares de
+Hespanha, principalmente na portuguesa. As obras de Cicero foram
+traduzidas pelo infante D. Pedro, e por sua ordem o livro do Regimento
+dos Principes. Só a lista das obras d'el rei D. Duarte espanta pela
+variedade de materias em que este rei philosopho empregou a sua penna
+nada rude. Marco Paulo já estava traduzido no seu tempo. O livro da
+côrte imperial prova que naquella epocha se tractavam em vulgar as
+arduas materias de theologia polemica. Levantavam-se cartas
+topographicas do reino, se é que os _Cadernos das cidades e villas de
+Portugal_, que existiam na livraria d'el-rei D. Duarte, não eram antes
+uma especie de estatistica, o que, em nosso entender, mais admiravel
+fôra. Então, Diogo Affonso Mangancha, Fr. Gil Lobo, os dominicanos Fr.
+Rodrigo e Fr. Fernando d'Arrotea, e tantos outros oradores, faziam
+descer do alto dos pulpitos palavras de eloquencia e de uncção, que
+chegavam ao fundo dos corações, como se viu nas exequias de D. João I.
+Estudava-se a philosophia e a historia, de que dão testemunho os livros
+philosophicos, e historiadores romanos e modernos da mesma livraria
+d'el-rei D. Duarte. Emfim o ensino da jurisprudencia, trazido de Italia
+por João das Regras, produziu uma multidão de jurisperitos, a quem
+depois Portugal deveu grande parte da legislação, excellente para
+aquelle tempo, que se encontra no codigo affonsino.
+
+Que resta de tantos homens e coisas? Esse codigo, que serviu de base aos
+que o substituiram. Dos livros que ajunctou D. Duarte apenas sabemos da
+existencia do intitulado _Côrte Imperial_ e de um fragmento do
+_Regimento de Principes_. Tudo o mais quasi com certeza se poderia
+talvez dizer, que, ou o tempo o consumiu, ou jaz sepultado por
+bibliothecas estrangeiras, como succede ás obras do mesmo monarcha.
+
+Na sua já citada livraria existiam quatro obras que pelos titulos se vê
+serem novellas de cavallaria. Eram estas o _Livro de Tristão_, _O
+Merlim_, o _Livro de Galaz_, e o _Livro d'Hannibal_. O referido
+catalogo, que apenas merece o nome de rol, só declara expressamente ser
+em português o _Livro d'Hannibal_. Incrivel é quasi que o _Amadis_
+ficasse sem imitadores, e poder-se-ia conjecturar que alguma das citadas
+novellas fosse original portuguesa. De todas, porém, temos achado rastos
+nas litteraturas estrangeiras, vindo por tanto, a serem provavelmente
+todas ellas traducções do normando-saxonio (inglês), ou com mais
+probabilidade da lingua d'Oil (francesa) ou da lingua d'Oc (provençal).
+
+Para intelligencia d'esta nossa opinião poremos aqui resumidamente uma
+idéa geral dos romances ou novellas de cavallaria.
+
+Os que teem escripto acêrca d'esta materia, e nomeadamente Sismondi,
+dividem todos os romances em três classes ou cyclos, conhecidos pelos
+nomes das primeiras personagens d'essas series de novellas, que partindo
+da historia de cada um d'aquelles heroes, continuavam pela de seus
+filhos e netos, alliados, ou inimigos indefinitamente. Estas tres
+classes são a das novellas de Amadis, a das de Artus, ou Arthur
+d'Inglaterra, e a das de Carlos-Magno. Todavia parece-nos que esta
+classificação é imperteita. Dividiriamos antes essa multidão de romances
+em cinco cyclos ou classes: a de _Artus_, a do _Sancto-Brial_, a de
+_Carlos-Magno_, a de _Amadis_, e a dos romances a que podemos chamar
+greco-romanos, porque eram as vidas dos heroes antigos, que davam
+materia ás invenções dos novelleiros. Não esconderemos que a do
+_Sancto-Brial_ está tão ligada á de _Artus_, que se confunde com esta;
+mas logo diremos porque nos parece dever-se d'ella separar.
+
+Os romances de _Artus_ ou da _Tavola-redonda_ são a historia fabulizada
+do famoso Arthur, ultimo rei d'Inglaterra, da raça dos bretões, e que
+defendeu valorosamente o seu país da invasão dos anglo-saxonios. Esta
+serie de novellas começa no romance de Bruto, composto por micer Gasse
+em 1155; a ella pertence o romance de Merlin, filho de uma dama bretã e
+do diabo, no qual se contam as guerras de Uter e de Pandragon, o
+nascimento de Artus, e a instituição da Tavola-redonda, isto é, de uma
+especie de doze pares ingleses, que costumavam comer como _eguaes_ em
+uma _mesa redonda_ nos paços d'el-rei Artus: a historia de Tristão de
+Leonis tambem pertence a este cyclo, sendo Tristão um dos cavalleiros da
+Tavola-redonda; e estes dois romances cremos nós que eram os que
+existiam traduzidos na livraria de D. Duarte: no mesmo cyclo entram as
+novellas de Meliot de Logres, Melinus de Dinamarca, Micer Galvão,
+Lancelote do Lago, Vigalois, Vigamor, e Daniel de Valdeflores, e muitas
+outras que fôra longo enumerar.
+
+Os romances do Sancto-Greal, Gral, ou Graal (que os nossos escriptores
+chamam erradamente Santo Brial) formam um cyclo bastante ligado com o
+antecedente, mas distincto pelo pensamento que presidiu á sua invenção.
+O Sancto-Greal (derivado de _Sang-réal_, ou _Sanguis-réalis_) era o vaso
+ou copa em que Jesu-Christo tinha comido com os seus discipulos na noite
+da cêa, e em que José d'Arimathea tinha, segundo a tradição dos
+novelleiros, recolhido o sangue derramado pelo Senhor na cruz; vinha
+assim esta copa imaginaria a ser o mesmo que o Sancto-Catino que os
+genovezes se gabaram de ter trazido da terra sancta. Este precioso vaso
+estava guardado, segundo os romancistas, em um templo na Hespanha, num
+sitio desconhecido, e só os cavalleiros escolhidos por Deus podiam
+atinar com elle. Para isto era necessario que se alevantassem á maior
+alteza, não só de feitos de armas, mas de virtudes moraes. Vê-se,
+portanto, que o pensamento d'estes romances era uma allegoria religiosa,
+um typo do alvo em que devia cada cavalleiro pôr a mira do seu
+procedimento para merecer tal nome, ou para ser _escolhido_ de Deus[14].
+A este cyclo pertencem o Perceval, Lohengrin, Titurel, e uma parte dos
+romances da Tavola-redonda, porque muitos dos cavalleiros de Artus
+trabalhavam por conquistar o Sancto-Greal, que, segundo escrevem alguns
+dos novelleiros d'esse cyclo, tinha sido levado para Inglaterra. O
+primeiro e principal romance do Sancto-Greal foi escripto por Christiano
+de Troyes no seculo XII, e existe manuscripto na bibliotheca real de
+Paris, na sua fórma original, que é em verso.
+
+O cyclo dos romances de Carlos Magno começa com a chronica fabulosa do
+arcebispo Turpin, publicada em 1566, por Echardt, mas escripta, segundo
+a opinião mais seguida, no undecimo ou duodecimo seculo. Este livro
+passou muito tempo por historico, e as fabulas nelle contidas foram
+inseridas como authenticas nas chronicas de S. Dinis, recopiladas por
+ordem do celebre abbade Sugerio, nos fins do seculo XII:[15] mas depois
+das cruzadas, a obra attribuida a Turpin não serviu mais senão como de
+éllo de uma multidão de novellas relativas aos suppostos pares de
+França, ou paladinos de Carlos-Magno. O romance de Bertha, o de Ogeiro
+de Dacia, e de Cleomadis, o de Reinaldos de Montalvão, o dos quatro
+filhos d'Aymão, o de Flora e Brancaflor, o do gigante Morgante, e varios
+outros, de que se aproveitaram Boiardo, Ariosto, Pulci, e os mais poetas
+romancistas d'Italia pertencem a este cyclo.
+
+O cyclo dos romances do Amadis começa por o d'aquelle nome, e
+pertencem-lhe todas as emitações que d'ellese fizeram, e das quaes, a
+mais notavel é o Amadis de Grecia. Florismarte d'Hircania, Galaos,
+Florestam, as Sergas de Esplandiam, o D. Duardos, os Palmeirins d'Oliva
+e d'Inglaterra, e muitissimos outros entram nesta divisão. É esta
+especie de novellas de cavallaria propriamente hespanhola. A maior parte
+d'ellas foram compostas nos idiomas da Peninsula, e muitas nem d'aqui
+saíram. Desgraçadamente os continuadores e emitadores de Lobeira foram,
+por via de regra, faltos de talento e cheios de máu gosto. D'ahi veio a
+graciosa justiça que d'elles fez Cervantes por mãos do cura, no seu
+inimitavel D. Quixote.
+
+A ultima classe de romances de cavallaria é aquella em que as
+personagens e successos da historia antiga, conhecidos imperfeitamente,
+davam largueza á imaginação dos novelleiros, que revestiam essas
+personagens dos costumes, crenças e opiniões da edade-média, e
+affeiçoavam esses successos pelas instituições da cavallaria, enxerindo
+até os heroes da Grecia e de Roma, nas familias fabulosas dos Artus e de
+Amadis. Pertencem a este cyclo os romances d'Alexandre, descendente
+d'el-rei Artus, o d'Eneas, o da guerra de Troia (do qual segundo parece,
+tambem existia uma traducção em aragonês na livraria de D. Duarte) e
+outros, com os titulos dos quaes escusado é encher papel.[16] Em alguma
+d'estas cinco classes entram naturalmente todas as novellas de cuja
+existencia em Portugal, no principio do seculo XV, temos noticia. O
+_Merlim_ e o _Livro de Tristão_ indicam pelo seu simples titulo, serem,
+quando muito, versões dos dois romances do cyclo da Tavola-redonda,
+conhecidos por aquelles nomes. O livro de _Galaaz_ com toda a
+probalidade não era mais que a historia de _Galaad_, filho de Lancelote
+do Lago, pertencente ao mesmo cyclo. E finalmente o livro d'_Hannibal_
+seria uma traducção de alguns dos numerosos romances do cyclo
+greco-romano.
+
+Nem nos admiremos de que na livraria d'el-rei D. Duarte predominassem os
+romances da Tavola-redonda. Todos sabem que sua mãi, a rainha D.
+Philippa, era inglesa, e nada mais natural do que ella e as pessoas da
+sua nação, que com ella vieram a Portugal, fizessem conhecer essa classe
+de novellas que, mais que nenhumas, lisongeavam o amor proprio dos
+ingleses.
+
+De outras obras se faz menção no indice d'aquella livraria, que
+vehementemente suspeitamos serem novellas de cavallaria; mas não
+passando esta opinião de mera suspeita, guardaremos sobre isso silencio.
+
+Desde a epocha de D. Duarte até o principio do reinado de D. Manuel
+nenhum rasto temos encontrado d'este genero de litteratura. Foi em 1496
+que se publicou a _Estoria do muy nobre Vespasiano emperador de Roma_,
+livro de que démos noticia a pag. 164 do 1.^o volume d'este jornal.
+
+Esta _Historia de Vespasiano_, que examinámos por permissão do nosso
+erudito collega o sr. Vasco Pinto de Balsemão, e da qual o unico
+exemplar que existe pertence á bibliotheca publica da côrte, não é senão
+uma novella de cavallaria, pertencente ao cyclo greco-romano. Ha ahi, na
+verdade, alguns factos historicos, mas os costumes, e as
+particularidades da narração não passam de meras ficções. Que a obra
+seja uma traducção, não nos parece duvidoso. Na subscripção d'ella se
+diz que fôra ordenada «por Jacob e Josep abaramatia, que a todas
+aquellas cousas foram presentes». Isto indica bastantemente a origem
+estrangeira do livro. Se, porém, nos lembrarmos de que José de
+Arimathea, figura nos romances do Santo-Greal, como tendo recebido o
+sangue de Christo nesse celebre vaso, é naturalissimo que o novelleiro,
+auctor da historia de Vespasiano, se lembrasse de lhe attribuir a
+propria composição, tanto mais que era quasi como lei entre os
+romancistas dar uma origem mysteriosa, ou ao menos remota, ao fructo das
+suas imaginações.
+
+Accresce, para mais fundamentar a nossa opinião, que Mr. Fauriel
+menciona uma _historia romance_ da destruição de Jerusalem por
+Vespasiano, escripta em provençal, e que elle classifica como livro
+connexo com o cyclo das novellas do Santo-Greal. Este romance, que,
+segundo nossa lembrança, existe manuscripto na Bibliotheca Nacional de
+Paris, é com toda a probabilidade, o original da novella portuguesa.
+
+Eis o que temos podido alcançar acêrca dos romances de cavallaria em
+Portugal, durante o seculo XV. Outros mais habeis e mais felizes terão
+chegado a maior profundidade com as suas indagações. Trouxemos á praça,
+em proveito commum, a nossa pobreza. Não eramos a mais obrigados.
+
+No artigo subsequente falaremos dos romances de cavallaria portugueses,
+no seculo XVI.[17]
+
+
+
+
+*Historia do Theatro Moderno Theatro Hespanhol*
+
+PANORAMA
+
+1839
+
+
+
+
+*Historia do theatro moderno Theatro hespanhol*
+
+
+I
+
+Ha um anno a esta parte que o theatro começa a ter entre nós a
+importancia que ha muito tinha entre as outras nações da Europa.
+Acontecimentos, vulgarmente sabidos e que não veem ao nosso proposito,
+contribuiram para que a reforma do theatro, em todas as suas partes, que
+em todas d'ella carecia[18], excitasse o espirito publico: os periodicos
+falam já das actuaes representações, e julgam, bem ou mal, não só as
+novas tentativas litterarias que se teem feito, mas o modo porque são
+levadas á scena e executadas pelos actores: e não são, por certo, esses
+artigos os que se lêem com menos avidez.
+
+No segundo numero do Panorama démos nós uma noticia do nosso theatro,
+precedida de alguns breves paragraphos acerca do theatro das outras
+nações: na conjunctura actual parece-nos que não será fóra de propósito
+o continuar aquelle artigo com mais alguns sobre a arte dramatica dos
+demais povos, cuja litteratura tem relação com a nossa, e como do
+theatro hespanhol veiu o português, conforme o que dissémos falando das
+origens d'este, será da origem e progresso do drama hespanhol, que
+tractaremos em primeiro logar.
+
+Em Hespanha, como nos outros países, foi a egreja que fez nascer o
+drama: todavia a primeira representação, a que estrictamente se póde
+chamar theatral, e de que ha menção nos annaes de Hespanha, é a que se
+fez em 1414, na festa da coroação de Fernando o bom, rei de Aragão. Foi
+composta pelo marquez de Vilhena, e só sabemos que era uma peça
+allegorica, em que figuravam a Justiça, a Paz, a Verdade, e a Clemencia,
+de modo que pertencia á classe das _moralidades_, que tiveram voga por
+algum tempo, na infancia da arte dramatica hespanhola, e que depois
+Cervantes fez reviver. Pouco depois d'esta tentativa de Vilhena, o seu
+amigo, o marquez de Santilhana, homem, como elle, de grande saber e de
+idéas claras, reduziu a drama, com o titulo de _Comedieta de Ponza_, os
+incidentes de uma batalha naval, dada em 1435, juncto á ilha de Ponza,
+entre os aragoneses e genoveses, em que estes ficaram vencedores. O
+drama nunca foi representado nem impresso com as demais obras d'este
+auctor, e só se sabia da sua existencia pelas cartas do marquez, até que
+o sr. Martinez de-la-Rosa, o grande poeta hespanhol nosso contemporaneo,
+o descobriu entre os manuscriptos da bibliotheca real de Paris. Esta
+curiosa reliquia das primeiras tentativas do genio dramatico hespanhol é
+notavel pela habilidade que nella apparece, não só no modo de tractar um
+facto historico, mas tambem no enredo, dialogo, e versificação.
+
+Foi pelos fins do seculo XV que em Castella se estabeleceu uma especie
+de theatro. Os primeiros ensaios dramaticos nesta parte da peninsula,
+fê-los João de la Encina, mui conhecido pelas suas poesias soltas, e
+cujas obras formam por si só um cancioneiro. Depois de alargar os
+limites das representações religiosas, compondo varios autos, onde não
+sómente se acham paraphrases da biblia, mas tambem invenções do poeta,
+formou o projecto de fazer saír o drama dos objectos religiosos, para o
+que compôs pequenas peças pastoraes, que denominou eclogas. Estas peças,
+em que elle proprio fazia os principaes papeis, se representaram
+primeiramente em casa do almirante de Castella, e da duqueza do
+Infantado. Como a denominação o indica, ellas de nada mais constavam do
+que de um dialogo entre dois ou mais pastores. O auctor, á imitação de
+Virgilio, usou a primeira vez d'esta invenção para celebrar, por via de
+allusões, algum acontecimento notavel, como a conclusão de pazes ou a
+volta de algum principe; e depois inventou uma acção curta e simples, na
+qual reduziu a drama as paixões das suas personagens. Estas pequenas
+peças, cortadas por danças, e acabando com vilhancicos ou cantigas,
+continham tambem alguma scena truanesca ou graciosa; de modo que nellas
+entravam juntamente os elementos da tragedia, comedia e opera. Teem
+estas primeiras tentativas bastante sal e agudeza, e ao mesmo tempo
+naturalidade e viveza. A primeira representação d'estas comedias
+pastoris fez-se em 1492, anno memoravel nos annaes de Hespanha, por ser
+o da conquista de Granada e do descubrimento do Mundo Novo. Foi tambem
+por este tempo que appareceu a famosa _Celestina_ de Rodrigo de Cota, de
+que já falámos no primeiro artigo.
+
+Os primeiros dramas regulares hespanhoes nasceram no principio do Seculo
+XVI, e, o que é mais notavel, fóra de Hespanha. Um certo Torres Naharro,
+residente em Roma, compôs alli varias comedias, que foram representadas
+perante Leão X.[19] Nellas a invenção é feliz, os caracteres bem
+traçados e o dialogo vivo, e contém algumas ousadias que neste auctor
+não eram de admirar, porque, apesar de ser clerigo e de viver na côrte
+pontificia, compôs satyras contra os ecclesiasticos, taes que Luthero
+não estimaria pouco ser auctor d'ellas. Naharro compôs tambem uma arte
+dramatica, a primeira que appareceu em castelhano: nella faz a
+distincção da tragedia e da comedia, e divide esta em duas especies,
+comedia de _noticia_, isto é, historica, e comedia de _phantasia_, isto
+é, de imaginação: foi tambem elle que inventou os _introitos_ ou
+prólogos e que deu aos actos a denominação de _jornadas_, seguida depois
+constantemente pelos auctores hespanhoes nas divisões dos seus dramas.
+
+As peças de Naharro, apenas appareceram em Hespanha, foram, prohibidas
+pela inquisição, como succedeu ás pouco mais recentes de Christovam de
+Castillego, secretario dos imperadores Maximiliano e Fernando.[20]
+Estas, quando se imprimiram as obras de Castillejo, passados annos,
+foram supprimidas e perderam-se de todo. Apresenta assim o theatro
+hespanhol o phenomeno singular de ter tido duas infancias. Havendo sido
+prohibidas, as primeiras tentativas de composições dramaticas regulares
+não acharam imitadores, e até parece que inteiramente esqueceram, porque
+no casamento de uma infanta de Castella, em 1548, foi uma peça de
+Ariosto que se representou. Entretanto alguns eruditos, como Villalobos,
+Oliva e outros, trabalhavam por apresentar os antigos como modelos
+dramaticos, traduzindo as comedias de Plauto, Terencio e Aristophanes;
+mas estas antigas composições casavam-se mal com o genio hespanhol, de
+maneira que, emquanto as producções theatraes que a Hespanha possuia,
+jaziam sepultadas nas livrarias dos curiosos, ou nos archivos da
+inquisição, o povo se entretinha com as grosseiras caturrices dos
+jograes truões. D'aqui nasceu que Schlegel, Bouterweek, Sismondi, e
+quasi todos os criticos estrangeiros, ignorando até os nomes dos
+primeiros escriptores dramaticos hespanhoes, não só d'elles não falam,
+mas põem a origem do drama castelhano no meiado do seculo XVI.
+
+O fundador do theatro hespanhol a que verdadeiramente se póde chamar
+nacional e popular, foi Lopes de Rueda de Sevilha, que deixou o seu
+officio de bátefolha para se ajunctar a uma companhia de comicos
+ambulantes dos quaes foi brevemente o cabeça, ou, segunda a expressão
+hespanhola, o _autor_. Este titulo, derivado, não do latim, _auctor_,
+mas de _auto_, dava-se naquelle tempo ao que compunha e recitava peças;
+e também lhe chamavam _maestro de hacer comedias_. Lope de Rueda tinha
+ambas as castas de talento necessarias para ser um _autor_ d'aquella
+épocha; ganhou por isso grande reputação, e foi unanimemente julgado
+grande poeta e grande actor; e tão completamente esqueceram as
+tentativas dramaticas feitas antes d'elle que o tiveram em conta de
+inventor da divisão em jornadas ou actos, e dos prologos chamados
+introitos, e depois loas. Durante uns poucos de annos discorreu Lope de
+cidade em cidade; mas por fim a sua grande reputação fez com que fosse
+chamado á côrte de Philipe II. Os poucos dramas, dialogos pastoris,
+etc., que d'elle restam, se destinguem por certa graça e viveza
+naturaes; e posto que sejam todos em prosa, elle os escrevia em verso
+com a mesma facilidade.
+
+Ha um facto curioso, que prova a indulgencia com que os ecclesiasticos
+olhavam, naquelle tempo, até para os dramas profanos; facto que se lê na
+historia de Segovia, de Colmenares: na occasião da grande festividade da
+abertura da cathedral d'aquella cidade, a companhia de Lope de Rueda
+representou em um tablado, erecto no meio da egreja, depois de vesperas
+solemnes, _una gostosa comedia_. O proprio Lope, morrendo em Cordova no
+anno de 1567, foi alli enterrado com grande pompa, no côro da cathedral.
+
+Por este tempo (1561) a côrte hespanhola, que até então tinha andado
+vagueando pelas capitães das differentes provincias, fez assento fixo em
+Madrid, circumstancia que foi favoravel para a arte dramatica, porque
+d'ella nasceu o haver um theatro fixo. Documentos authenticos provam que
+um anno depois da morte de Lope de Rueda havia theatros em Madrid.
+Existiam então, tanto na capital como nas provincias, varias companhias
+de actores, distinctas umas das outras por nomes extravagantes e
+burlescos, e tão numerosas, que um escriptor moderno hespanhol as
+distingue em oito especies differentes.
+
+Os progressos materiaes acompanharam d'ahi ávante os litterarios e
+moraes. Por 1570 estabeleceram-se os dois theatros _de la cruz e del
+principe_, que ainda existem, e alguns engenhos summos começaram a
+trabalhar em composições dramaticas, o que até então se tinha deixado
+aos directores das companhias ambulantes. Cervantes, tendo chegado do
+seu captiveiro de Argel, foi um dos primeiros que encetaram esta
+carreira; mas, apesar dos seus muitos meritos como escriptor dramatico,
+era mais inclinado ao genero narrativo, o que não se compadecia, por
+certo, com o estylo proprio do drama.
+
+Emquanto o auctor de D. _Quixote_ escrevia em Madrid, João de la Cueva
+fazia representar alguns dramas no theatro de Sevilha, reduzindo a
+quatro o numero de actos ou jornadas, que até então eram cinco ou seis.
+A representação de cada noite constava da peça principal, e, além
+d'isso, de tres entremezes e um baile. Tambem Valencia, que nas artes e
+boas letras era a rival de Sevilha, deu alguns passos na carreira
+dramatica. Foi um poeta valenciano Christovam de Virues, que ainda
+reduziu o numero de actos a que se limitaram d'ahi ávante todos os
+escriptores dramaticos hespanhoes. Até então o drama, segundo o
+engraçado conceito de Lope de Vega, tinha andado com as mãos pelo chão
+(a quatro pés) como uma creança, porque estava na idade infantil.
+
+A pompa scenica do theatro hespanhol tinha já feito grandes progressos.
+Rojas diz que no tempo de Lope de Rueda toda a vestiaria e mais aprestos
+de qualquer companhia dramatica se podia carregar ás costas de uma
+aranha, mas que no tempo de Cueva e Virues as actrizes representavam os
+seus papeis com vestuarios de seda e veludo, e com fios de pérolas e
+cadeias de ouro; que nos entremezes se cantavam tercettos e quartetos; e
+que até appareciam no tablado cavallos, quando assim era necessario para
+ser completa a illusão.
+
+Digno é de notar-se que já no seculo XVI se acha em Hespanha travada a
+guerra entre os escriptores dramaticos, que pugnavam pela sua liberdade,
+e os criticos, que os queriam sujeitar aos preceitos d'Aristoteles. Era
+assim que emquanto o _rhetorico_ Pinciano clamava que respeitassem as
+tres unidades, de que nenhum caso se fazia, João de la Cueva tomava
+despejadamente a seu cargo deffender as liberdades dramaticas no seu
+_Exemplar Poetico_. Pugnava por ellas porque eram o fructo de uma serie
+de seculos que tinham abolido todos os antigos costumes;--porque eram
+mais favoraveis aos vôos atrevidos da imaginação;--e porque, emfim, eram
+o mais adaptado meio de agradar ao publico. Mas, apresentando tão
+judiciosa opinião, estabelecia maximas para regular as composições
+dramaticas, taes que serão sempre approvadas pelo bom juizo e bom gosto,
+posto que os seus compatriotas nem d'estas mesmas fizeram caso, no seu
+ardor contra toda a casta de restricções litterarias.
+
+Este desregrado fervor de imaginação era o resultado necessario das
+particulares circumstancias que por muitos seculos tinham concorrido
+para formar o caracter nacional em Hespanha. «Os hespanhoes, diz
+Schlegel, tiveram um quinhão glorioso na historia da idade média,
+quinhão muito esquecido pela ingratidão dos tempos modernos. Elles foram
+então como uns atalaias soltos nas fronteiras da Europa: a Peninsula era
+como um arraial exposto aos incessantes commettimentos dos arabes, e
+desamparado de alheio soccorro. Acostumado a combater ao mesmo tempo
+pela liberdade e pela religião, o hespanhol era afferrado a esta com o
+zêlo fervoroso de quem a tinha comprado á custa do mais puro sangue.
+Cada solemnidade do culto divino era para elle como um premio de suas
+acções heroicas; cada templo um monumento das façanhas dos seus
+antepassados. Em mais recentes epochas nunca importou aos hespanhoes
+examinar os actos de seus superiores, mas continuaram nas guerras de
+aggressão ou ambição com a mesma fidelidade e valentia que tinham
+mostrado nas guerras de defensão. A fama individual, e o zêlo falso da
+religião os cegava acêrca da justiça das causas que os moviam. Empresas
+sem egual, levaram-nas felizmente a cabo; e o Mundo-Novo, descuberto por
+elles, foi conquistado por um punhado de valorosos aventureiros: casos
+particulares de crueza e rapina mancharam o brilho do mais acabado
+heroismo, mas estas corrupções não chegaram ao amago da nação. Em parte
+nenhuma como em Hespanha, sobreviveu o espirito de cavallaria á sua
+existencia politica por tanto tempo, por isso que ainda brilhou depois
+de ter passado o predominio de Hespanha e de ter soffrido grande
+diminuição a opulencia interna do país, em virtude dos ruinosos erros de
+Philippe II. Propagou-se o espirito cavalleiroso até o periodo mais
+florente da sua litteratura, e nella estampou o seu cunho, de não
+duvidosa maneira. A imaginação dos hespanhoes era audaz, como as suas
+acções: nenhuma aventura intellectual lhe parecia perigosa. A
+predilecção do povo por maravilhas extravagantes já se havia mostrado
+nas novellas de cavallaria. Desejavam vêr tambem o maravilhoso no
+theatro; e quando os seus poetas, eminentes na cultura litteraria, e na
+situação da vida, lhes representavam esta na fórma requerida,
+introduziam nella uma especie de harmonia, e purificavam-na da sua
+grossaria real, resultando do contraste entre o objecto e a sua fórma
+uma fascinação irresistivel. Imaginavam os espectadores que viam certo
+fulgor da omnipotente grandeza da sua nação, já muito abatida, quando
+toda a harmonia dos mais variados metros, toda a elegancia de agudas
+allusões, todo aquelle esplendor de imagens e comparações que só na sua
+lingua se acha, se derramavam por enredos dramaticos, sempre novos, e
+quasi sempre grandemente engenhosos. Buscavam-se na imaginação os mais
+ricos thesouros de passados tempos para contentar o povo, como se
+realmente existissem: pode-se dizer que nos dominios de tal poesia, como
+nos de Carlos V, nunca se punha o sol.
+
+Foi quando os animos mostravam similhante tendencia, que surgiu Lope de
+Vega, para exercitar a sua protentosa fertilidade de invenção dramatica,
+e facilidade metrica. D'este illustre dramaturgo falaremos no proximo
+artigo.
+
+
+II
+
+Lope de Vega tinha o grandissimo e principal dote para primar na
+carreira que seguia: era este dote o conhecer profundamente o gosto e
+paixões do povo para quem escrevia: porém do que nunca elle deu mostras,
+foi do mais importante e nobre merito de estimar a arte e cultivá-la com
+enthusiasmo. O effeito, segundo a vulgarissima accepção d'este vocabulo,
+não era só o seu principal objecto, como cumpre que seja para todo o
+verdadeiro escriptor dramatico, mas unico--as miras todas pô-las
+unicamente em bater neste alvo--e em verdade ninguem o alcançou como
+elle; deixando-nos assim o mais notavel exemplo de sacrificio de alta e
+duradoura reputação a troco de inegualavel mas temporaria popularidade.
+Na grande porção que nos resta das suas innumeraveis composições, o que
+mais admira é a inexhaurivel invenção de incidentes, a variedade de
+caracteres, o jogo das paixões, e o mimoso e subtil do dialogo; mas
+todas estas brilhantes circumstancias estão como que affogadas na
+espantosa exuberancia com que pullulam, em cada scena, em cada fala, e
+até em cada verso.
+
+Cumpre, porém, que digamos que nem no seu país nem fóra d'elle, teve
+Lope de Vega modelo que imitasse, ou rival que excitasse a sua emulação.
+A Italia não tinha ainda passado da _Mandragola_ de Machiavello; nem a
+França saído das informes imitações dos antigos: em Portugal só havia os
+esboços dramaticos de Gil Vicente, os dramas-novellas de Jorge Ferreira,
+e as imitações classicas de Sá de Miranda e Ferreira; a Alemanha não
+tinha saído ainda dos _mysterios_; e a Inglaterra, onde já apparecera o
+divino Shakspeare, era, excepto pelo lado politico, uma terra incognita
+para os escriptores hespanhoes.
+
+Em 1621, dôze annos antes da morte de Lope da Vega, sobreveiu a do
+triste e devoto Philippe III, a quem succedeu um principe mancebo
+inclinado aos passatempos, e mui addicto ao theatro. Philippe IV gostava
+do tracto dos homens de letras, recebia-os na côrte, e se divertia em
+compor com elles essa especie de improvisos que então, andavam muito em
+moda na Italia: até se lhe attribuem algumas composições dramaticas que
+appareceram anonymas; e tal affeição tinha aos dramas nacionaes, que não
+consentiu que em Hespanha entrasse a opera italiana, que então era muito
+estimada em todas as côrtes da Europa. Estas circumstancias augmentaram
+nova força ao impulso já dado por Lope de Vega, e trouxeram o mais
+brilhante periodo do drama hespanhol. Durante a vida de Lope, grande
+numero de escriptores seguiram as suas pisadas: taes foram os doutores
+Ramon, e Mira de Mescua; os licenciados Mexia e Miguel Sanchez; o conego
+Tarraga, Guillen de Castro, Aguilar, Luiz Velez de Guevara, Antonio de
+Galarza, Gaspar d'Avila, Damian Salustrio del Poyo, e varios outros; mas
+todos eram meros imitadores de Lope de Vega, e muito inferiores a elle;
+no fim d'este dramatico reinado é que devia apparecer um rival, que lhe
+disputasse a primazia.
+
+Foi este Calderon de la Barca, que, não menos conhecedor do genio e
+gosto do vulgo, do que o proprio Lope, unia a isso o amor pela sua arte,
+que ao outro faltava. Como as composições d'este grande escriptor teem a
+primazia entre os dramas hespanhoes verdadeiramente nacionaes; como
+ellas em nada são inferiores ás de Lope, em variedade, e o seu numero
+mais que o das de nenhum outro, se approxima do numero das d'elle; e
+como, por consequencia, nos dão os mais perfeitos monumentos de cada uma
+das differentes especies de producções dramaticas peculiarmente
+hespanholas; não ha meio nenhum de dar uma idéa clara das fómas e genio
+do theatro hespanhol na epocha do seu maior esplendor, senão
+caracterizando breve mas distinctamente, as varias classes das peças de
+Calderon. A mais corrente classificação dos dramas profanos, é para os
+mesmos hespanhoes, a de _comedias heroicas_, _comedias de capa y espada_
+e _comedias de figuron_. As da primeira d'estas classes tinham o mesmo
+logar na litteratura dramatica, que nas ficções narrativas tiveram as
+novellas de cavallaria que, expulsas da prosa pelo D. Quixote, se
+acolheram ao theatro, onde por muito tempo foram bem acceitas do
+publico. As da segunda classe, cujo nome vinha do vestuario que se usava
+na epocha em que foram escriptas, representavam os costumes hespanhoes
+d'esse mesmo tempo; mas, em consequencia do grande sabor de novella que
+esses costumes ainda conservavam, tinham um aspecto, que a homens
+modernos e de outras nações parece ideal. «Isto (observa Schlegel) não
+fóra possivel, se Calderon nos introduzisse no interior da vida
+domestica... Estas peças acabam, como as comedias dos antigos, por
+casamentos; mas quão differente é tudo o que precede a este desfecho!...
+traça, na verdade os seus principaes caracteres de ambos os sexos no
+primeiro fervor da mocidade; mas o alvo a que elles miram, e diante do
+qual tudo abate bandeiras, nunca em seus animos se confunde com outro
+qualquer desejo. A honra, o amor e o ciume, são sempre os motivos da
+peça, e o enredo nasce da impetuosa mas nobre lucta d'estas paixões...
+Nos caracteres mulheris o sentimento da honra não é menos poderoso do
+que nos dos homens: este sentimento rege o do amor, que tem logar a par
+d'elle, porém não acima d'elle. A honra das mulheres, segundo o modo de
+pensar que transluz nos dramas de Calderon, consiste em amar um homem de
+reputação sem macula, e em amá-lo com perfeita pureza. O amor requer ahi
+inviolavel segredo, até que uma legitima união permitia declará-lo
+publicamente: este segredo o salva dos effeitos da vaidade, que poderia
+misturar nelle gabos de favores concedidos, ou pretensões a elles, e lhe
+dá a apparencia de um voto, que, por isso que é mysterioso, é mais
+pontualmente observado. No meio d'esta moralidade dramatica, são, em
+verdade, admittidas manhas e dissimulações, para fins amorosos, e a
+ponto de parecer que recebe quebra a honra: mas, quando essas manhas vão
+de encontro a deveres, como, por exemplo, os da amizade, o respeito mais
+pundonoroso é constantemente guardado a esses deveres. O poder do ciume,
+sempre vivo, e revelado ás vezes de terrivel maneira; ciume não como o
+dos povos do oriente, de posse, ou de gozos materiaes, mas dos
+sentimentos suavissimos do coração, serve para ennobrecer o amor. A
+perplexidade, que nasce d'estes differentes motivos moraes, acaba muitas
+vezes em nada, e então o desfecho é grandemente comico: ás vezes, porém,
+a catastrophe é trágica, e a honra se converte em uma especie de destino
+avesso, para aquelle que com ella não póde cumprir sem anniquilar a
+propria felicidade, ou tornar-se para sempre criminoso. Grande numero
+d'estas peças não teem senão um papel burlesco, o do creado ou gracioso,
+que serve principalmente para parodiar os motivos sublimes das acções de
+seus amos, o que, por via de regra, faz com muita graça, servindo raras
+vezes para instrumento do enredo.»[21].
+
+As comedias de _figuron_, ou de caracter, distinguem-se da classe de que
+tractámos no antecedente paragrapho, em o interesse da acção não ser
+dividido pelas personagens de um enredo variadissimo, mas concentrado em
+um individuo, no qual é personalizado caracteristicamente algum vicio ou
+absurdo.
+
+Alguns dos dramas de Calderon, historicos ou mythologicos, não podem
+estrictamente ser classificados em nenhuma das tres especies
+antecedentes. Com a maior verdade aproveitou elle algumas epochas da
+antiga historia hespanhola; mas parece ter tido tamanho aferro ao genio
+da sua nação, que não pôde produzir facilmente o caracter das outras. A
+antiguidade classica era inintelligivel para elle, e por isso, o já
+citado Schlegel observa que a mythologia grega se converte, nas suas
+mãos, em uma deleitosa novella, e a historia romana em uma hiperbole
+magestosa. Outra classe de peças tem Calderon a que elle chama
+_fiestas_: eram estas destinadas para serem representadas na côrte em
+occasiões solemnes. Posto que taes peças requeressem pompa theatral,
+frequentes mudanças de scenario, e até musica, todavia podemos
+chamar-lhes _operas poeticas_, isto é, dramas, que pelo mero esplendor
+da poesia, produziam o mesmo effeito que na opera moderna produzem as
+vistas, a musica e a dança. Foi nestas composições que Calderon se
+entregou inteiramente aos vôos da sua imaginação, podendo dizer-se que
+nellas as personagens apenas pertencem a este mundo.
+
+Mas é na classe dos _autos sacramentales_, ou dramas religiosos, que o
+genio e o espirito de Calderon se desenvolveram com mais força e
+formosura. As cerimonias religiosas dos gregos tinham gerado o theatro
+grego: as cerimonias do christianismo deram origem ao theatro moderno. O
+principio fundamental dos espectaculos dramaticos, introduzido ou
+sanccionado pelo clero, consistia em apresentar ante os olhos dos fiéis,
+em todas as festividades ecclesiasticas, e dias de commemoração de
+certos sanctos, a representação ao vivo da passagem do Testamento Novo
+ou do Catalogo dos Sanctos, que tinha connexão com essa festividade.
+Estas representações, que no resto da Europa se denominavam mysterios,
+chamaram-se em Hespanha, desde o principio, _divinas comedias_ e _autos
+sacramentales_. Faziam-se com grande pompa, não só nas praças e nas
+procissões, mas tambem nos theatros publicos. Taes dramas, representados
+em dias solemnes, debaixo da protecção das auctoridades civis e
+ecclesiasticas, e em presença de todo o povo, não só davam ao auctor
+mais proveito, mas tambem mór gloria. Lope de Vega escreveu alguns
+centenares d'estas peças: mas Calderon tanta vantagem levou aos seus
+predecessores e contemporaneos, nisto como no mais, que lhe foi
+concedido um privilegio exclusivo de compor os autos que se haviam de
+representar na capital, monopolio de que gozou durante trinta e sete
+annos.
+
+Temos sido talvez mais technicos e extensos do que cumpria sobre o
+espirito e execução dos dramas hespanhoes dos fins do seculo XVI e
+principios do XVII, porque as regras dos rhetoricos e pedantes, regras
+que se desfazem em pó diante de um _porquê_,--persuadem o vulgo da
+republica das letras de que qualquer drama, a não ser grego ou romano,
+ou não trazendo, pelo menos, pós, casaca de seda e espadim, á moda de
+Luís XIV, é forçosamente barbaro, rude ou absurdo. Este pensar acanhado,
+emquanto se não derrocar de todo, torna impossivel uma verdadeira
+regeneração dramatica: os portugueses devem ser em litteratura uma só
+nação com os hespanhoes: se quisermos ter originalidade, nacionalidade,
+e o que mais é, verdade, estudemos Lope, Calderon e os seus
+contemporaneos; não nos envergonhemos de folhear livros por onde
+constantemente estudam os mais illustres escriptores dramaticos da
+Alemanha e da Inglaterra, apesar de não poderem tirar d'elles todo o
+proveito, que nós por certo tiraremos. Mas voltemos ao nosso assumpto.
+
+É digno de notar-se, que, durante o mais bello periodo do theatro
+hespanhol, o conselho de Castella se atrevesse a propôr como condição
+para se reabrirem os theatros que tinham estado fechados por causa de
+varios luctos da côrte, desde 1644 até 1649, que os dramas que se
+houvessem de representar se limitassem a objectos edificativos, sem
+mistura das profanidades do amor; e que, por consequencia, todos
+aquelles que até então se tinham representado fossem prohibidos,
+nomeadamente os de Lope de Vega, que tão prejudiciaes tinham sido á sã
+moral. Felizmente o bom gosto do monarcha, concorde com o do publico,
+fez com que fosse regeitada a proposta dos austeros conselheiros.
+
+Durante a longa carreira de Calderon, appareceu Moreto, que dotado de
+menos força inventiva e menos fervor de imaginação, se distinguiu
+principalmente por aperfeiçoar melhor as comedias de _figuron_ ou de
+caracter. Como exemplo, taes são os seus dramas--_O lindo D. Diogo_, e
+_O marquez de Cigarral_, especie de D. Quixote, endoudecido á força de
+ler e reler, sem descanso, os pergaminhos de sua casa, e os costados da
+sua arvore genealogica. Por este lado, póde-se crer que Moreto foi um
+dos modelos de Molière, entre cujas peças, com effeito, se encontra uma
+fraca imitação do _marquez de Cigarral_. Nesta mesma epocha viveu outro
+poeta dramatico, cuja fama emquanto vivo não egualou a celebridade de
+que goza depois de morto e que, por um acaso extraordinario foi
+desconhecido aos mais eminentes criticos, como Signorelli, Sismondi e
+Schlegel: era este um frade da Trindade, chamado Fr. Gabriel Telles,
+que, com o supposto nome de Tirso de Molina, pôs em scena um grande
+numero de dramas, que depois foram colligidos e publicados por um
+sobrinho seu. Menos engenhoso do que Calderon, e menos delicado, excede,
+todavia, os outros poetas do seu país em certa agudeza maledica. Pouco
+lhe importam as regras, ou a verosimilhança, com tanto que lhe venham a
+pello gracejos pungentes e maliciosos, usando de uma linguagem, ás vezes
+licenciosa, e de pensamentos que mostram tão pouco respeito ás potencias
+da terra como ás do céu. Nada poupa, uma vez que esse objecto lhe
+desagrade ou possa mover a riso. Ha só um escriptor a quem elle deva com
+exacção ser comparado, e com quem, com effeito, tem muitissima
+parecença: é este o moderno dramaturgo francês Beaumarchais. E assim
+como este auctor foi o verdadeiro pai de Figaro, do mesmo modo (facto
+certamente curioso) Fr. Gabriel foi o primeiro que pôs em scena a famosa
+historia de D. João e a Estatua (_El combidado de Piedra_)
+aproveitando-se da lenda inventada, segundo dizem, pelos franciscanos de
+Sevilha para explicarem o desapparecimento do verdadeiro D. João
+Tenorio, que, conforme tambem alguns querem, fôra por elles assassinado
+em vingança dos muitos vexames que lhes fazia.
+
+No proximo artigo mencionaremos mais alguns dramaturgos hespanhoes
+d'esta epocha, e concluiremos a historia do theatro hespanhol com a
+noticia dos escriptores mais modernos.
+
+
+III
+
+O periodo brilhante do theatro hespanhol encerra-se na primeira metade
+do seculo XVII. O gosto do monarcha, da côrte e da nação, tinha lançado
+um grande numero de homens de letras nesta carreira, que então era a
+mais honrosa e lucrativa. Assim, além dos eminentes escriptores
+mencionados no antecedente artigo, appareceu um enxame de dramaturgos de
+segunda ordem, a cuja frente devemos collocar Francisco de Rojas, que
+tinha todos os dotes de Moreto, mas que o excedia nos defeitos.
+Seguiam-se a este Guillen de Castro, Ruis de Alarcon, La-Hoz, Diamante,
+Mendoza, Belmonte, os irmãos Figueroas (que escreviam conjunctamente,
+como os modernos auctores de farças francesas), Cancer, Enciso, Salazar
+e Candamo, os quaes, posto que nenhum creasse uma eschola sua,
+produziram ao menos importantes composições theatraes.
+
+Os desastres que sobrevieram á monarchia hespanhola nos ultimos annos do
+reinado de Filippe IV, junctos com uns poucos de luctos publicos, que
+fizeram fechar por muito tempo os theatros, deram o primeiro golpe na
+arte dramatica hespanhola. Em 1665 a morte d'aquelle principe, que tinha
+sido o seu mais zeloso protector, foi o signal da queda rapida e inteira
+do theatro. O successor de Filippe IV, o parvo Carlos II, era ainda
+creança; e a rainha regente assignalou o principio da sua administração
+com um decreto, dictado, sem duvida, pelo seu director espiritual o
+jesuita Nitar, e, por certo, unico nos annaes dramaticos. Ordenava a
+rainha no citado decreto, que todas as representações cessassem até seu
+filho ter idade de se entreter com ellas. Posto que esta extravagante
+ordem não pudesse ser executada á risca, todavia é claro quão grande
+effeito devia produzir numa epocha, em que a litteratura só podia
+progredir debaixo do patrocinio dos grandes, e em que o theatro, só com
+a especial protecção do monarcha podia resistir aos repetidos ataques do
+conselho de Castella. Para vermos o que d'aqui resultou poremos em
+contraste dois factos notaveis. De um memorial, dirigido a Filippe IV em
+1632, pelo actor Ortiz, se vê que havia então em Hespanha mais de
+quarenta companhias de comicos, e que estas companhias davam a somma de
+mil actores; e que se tinham edificado tantos theatros, que poucas
+cidades ou villas notaveis havia que não tivessem o seu. No anno, porém,
+de 1679, quando Carlos II casou com uma infanta de França, na festa do
+casamento, não foi possivel reunir mais de tres companhias para virem
+representar na côrte.
+
+Neste periodo de decadencia e desprezo um unico escriptor trabalhou por
+amparar o vacillante theatro: Solis, o eloquente historiador da
+conquista do Mexico, dedicou tambem ao theatro a sua brilhante
+imaginação, polida agudeza, e vigoroso estilo. Deixou-nos varios dramas
+dignos do periodo a que sobreviveu; especialmente um d'elles que
+intitulou--_Amor al uso_, tem grandissimo merito.
+
+Com Solis póde-se dizer que expirou o theatro verdadeiramente hespanhol.
+A subida ao throno de Filippe V, tendo dado valia ao gosto francês, e
+introduzido (ao menos na côrte) os habitos e costumes da côrte de Luís
+XIV, fez que os hespanhoes, depois de terem sido os mestres e
+precursores dramaticos dos franceses, se contentassem de se converter em
+humildes imitadores e copistas d'elles. É verdade que, durante o seculo
+XVII, algumas tentativas fizeram para restabelecer o drama nacional,
+Zamora, Canizares, Luzan e Jovellanos; mas estas honrosas tentativas só
+alcançaram transitorio applauso; e para achar uma obra original
+(mencionando, todavia, os _sainetes_ de Ramon de la Cruz) cumpre chegar,
+no principio do seculo actual, a Moratin, o engraçado e elegante auctor
+do _Caffé_, do _Barão_, etc., e ao sr. Martinez de la Rosa, auctor
+de--_A mãe no baile, e a filha em casa_.
+
+A descripção que fizemos das varias especies de composições dramaticas
+do tempo de Calderon, mostra que no antigo drama hespanhol a tragedia
+classica, posto que menos que a comedia classica, podia ter amplo e
+effectivo logar. Todavia, enganados, segundo parece, pela palavra
+_comedia_, que na lingua hespanhola teve sempre uma significação tão
+geral como a palavra alemã _spiel_ ou a inglesa _play_[22], muitos
+criticos de nota, principalmente franceses, falaram da total falta de
+tragedias no theatro hespanhol, como de um phenomeno singular e
+inexplicavel. Tão enraizadas estavam nos animos de taes criticos as
+distincções _classicas_, com que os haviam educado, que assim o
+affirmavam com toda a gravidade, embora admittindo ao mesmo tempo, que
+«o elemento tragico predominava em grande numero das mais afamadas peças
+do theatro hespanhol». Mas que é este predominio senão o unico meio de
+destinguir a tragedia da comedia, unico que existe na essencia da
+natureza humana e da arte dramatica? Segundo este systema mais racional
+de classificação, o antigo theatro hespanhol, pela propria confissão dos
+criticos de que falamos é grandemente abundante na tragedia. Noticiemos
+agora brevemente as poucas amostras de obras dramaticas, que na Hespanha
+appareceram mesmo com a _denominação_ de tragedias.
+
+Boscan, que primeiro introduziu na Hespanha o estilo italiano de
+versificação, dizem que traduzira uma das tragedias d'Euripedes,
+traducção que se perdeu. Tambem pelos annos de 1520 Fernão Peres
+d'Oliva, voltando da côrte de Leão X, onde vira representar a
+_Sophonisba_ de Trissino, escreveu duas imitações do theatro grego,--a
+_Vingança d'Agamemnon_, tirada da _Electra de Sophocles_, e a _Hecuba_,
+imitação de Euripedes. Estas tragedias, escriptas em elegante prosa,
+ficaram desconhecidas fóra das universidades, e até ha razão para crer
+que nem ahi foram representadas. Em 1570, João de Malara deu ao theatro
+de Sevilha varias tragedias, de objectos biblicos, como _Absalão_,
+_Saul_, etc; e em Madrid, que então fôra escolhida para capital do
+reino, um frade, chamado Jeronymo Bermudez, tomando o nome supposto de
+Antonio da Silva, publicou duas tragedias, que merecem fazer-se d'ellas
+especial menção. São ambas fundadas na celebre historia de D. Ignez de
+Castro. A primeira, intitulada _Nise Lastimosa_, é uma imitação da
+Castro do nosso Antonio Ferreira: a segunda, intitulada _Nise Laureada_,
+que tem por acção a vingança, que o infante D. Pedro, quando subiu ao
+throno, tomou dos assassinos da sua amada, e a coroação do cadaver
+d'Ignez, é mais original que a primeira, mas inferior a ella no enredo e
+desenlace. Estas duas peças, dividida cada uma d'ellas em cinco actos,
+entresachados de coros, são as primeiras tragedias regulares, que em
+verso castelhano se escreveram. Por este mesmo tempo, em Valencia, onde
+o primeiro theatro, edificado em 1526, era pertença de um hospital,
+foram representados varios dramas, ainda mais notaveis, compostos por
+Christovam de Virues, de quem já falámos, e por Andres Rey d'Artieda.
+Virues official militar, era um dos cabeças da grande eschola que, desde
+o seu principio se gloriara de menoscabar as restricções aristotelicas.
+Foi a sua primeira producção _La Gran Semiramis_, acção que ao mesmo
+tempo tractava, em Italia, Murio Manfredi. Todavia, Virues, em vez de
+fazer a peça em cinco actos ao modo grego, dividiu-a em tres _jornadas_,
+nas quaes metteu toda a vida de Semiramis, passando-se o primeiro acto
+na Bactriana, o segundo em Ninive e o terceiro em Babilonia. Compôs
+depois, sempre com o mesmo desprezo das unidades, as tragedias da _Cruel
+Cassandra_, _Atila Furioso_, _Infeliz Marcella_, etc. A que intitulou
+_Elisa-Dido_, e que elle annunciou como escripta _conforme al arte
+antigua_, é com effeito, a unica, em que as regras são inteiramente
+respeitadas. O consocio de Virues na antiga guerra contra os preceitos
+classicos, Juan de la Cueva, depois de traduzir o _Ajax_ de Sophocles,
+publicou em Sevilha duas tragedias originaes; uma fundada em certa
+tradição popular, e intitulada--_Los Siette Infantes de Lara_, a outra
+tirada da historia romana e reunindo dois objectos tragicos, a morte de
+Virginia e a de Appio Caudio, sendo La Cueva o primeiro que pôs em scena
+estes successos, tantas vezes aproveitados depois. Entretanto no theatro
+de Madrid as tragedias de Bermudez eram substituidas pelas de Lupercio
+d'Argensola, as quaes Cervantes louva mais do que ellas merecem. O
+proprio auctor do D. _Quixote_ escreveu então a sua _Numancia_, tragedia
+a mais classica que, porventura, tem o theatro hespanhol, porque é
+aquella em que mais transluz a simplicidade e pureza do drama grego,
+posto que o espirito cavalleiroso de Cervantes appareça quasi sempre
+debaixo d'essas fórmas antigas.
+
+É claro que o espirito romantico predomina sobre o classico, até nas
+producções declaradamente tragicas do theatro hespanhol antigo. Todavia,
+quando a subida de Filippe V ao throno submetteu o gosto nacional á
+influencia do de Paris, não só os poetas tragicos franceses foram
+traduzidos em lingua castelhana, mas tambem os poetas hespanhoes fizeram
+varias tentativas para os imitar. No numero d'estas se devem contar a
+_Virginia_ e o _Ataulfo_ de Montiano.
+
+Subsequentemente, durante o alumiado ministerio do marquez d'Arauda,
+Fernandez Moratin, Cadalso e Garcia de la Huerta renovaram essas
+tentativas: o primeiro escreveu _Hormesinda_, o segundo _D. Sancho
+Garcia_ e o terceiro _Rachel_, mas estas obras, posto que valiosas,
+principalmente a ultima, não eram sufficientemente notaveis para haverem
+de naturalizar uma casta de dramas tão nova em Hespanha. No principio
+d'este seculo tentou o mesmo genero, com melhor successo, D. Nicasio
+Alvarez de Cienfuegos, habilmente ajudado pelo talento do celebre actor
+Isidoro Mayquez, de algum modo discipulo de Talma, e não indigno de seu
+mestre, posto que mais se approximasse da versatilidade maravilhosa do
+actor inglês Garrick, porque não só era feliz nos papeis tragicos, mas
+tambem em quaesquer outros, sem exceptuar os de truão e bobo.
+
+Depois de Cienfuegos, que deixou um _Idomeneu_, um _Pitaco_ e uma
+_Zoraida_, appareceram dois outros poetas tragicos, que cremos, vivem
+ainda ambos. Um d'elles, Quintana, é auctor de uma tragedia intitulada
+_Pelayo_, fundada na historia d'esse antigo campeão da causa perdida da
+independencia hespanhola contra os arabes triumphantes, peça, em
+verdade, nobre e pathetica, da qual os modernos hespanhoes, obrigados
+como seus avoengos a repellir o dominio estranho, costumavam repetir as
+passagens mais energicas, marchando para os combates. O outro, Martinez
+de-la-Rosa, ha pouco primeiro ministro d'Isabel II, é auctor de uma peça
+tambem patriotica, intitulada _A Viuva de Padilla_, fundada na memoravel
+lucta das cidades municipaes da Hespanha contra a aggressão tyrannica de
+Carlos V. Esta tragedia, a primeira de tal genero, que Martinez
+de-la-Rosa compôs, foi feita e representada em um theatro, construido
+para isso em Cadiz, quando os franceses tinham esta cidade cercada. O
+mesmo auctor compôs uma _Morayma_ um pouco ao modo da _Merope_ de
+Voltaire, e um Edipo, representado depois em Madrid, no qual, diz um dos
+mais entendidos criticos da litteratura hespanhola (Mr. Viardot) elle
+trabalhou por ser original, tractando um objecto já tractado por
+Sophocles, Seneca, Corneille, Voltaire, La-Motte e Dryden.
+
+Pelo que respeita a presente estimação theatral, que se faz dos antigos
+dramaturgos hespanhoes no seu proprio país, devemos observar que, em
+quanto Lope de Vega está desterrado nas bibliothecas, e emquanto
+Calderon e Moreto raras vezes sobem á scena, Tirso de Molina, de quem já
+falámos, apparece mais frequentemente no theatro que outro qualquer
+antigo escriptor dramatico. Fernando VII gostava muito dos _ricos_
+gracejos do licencioso frade; e esta declarada predilecção fazia calar o
+genio vidrento e pundonoroso de certas auctoridades, cuja sanha podiam
+excitar os motejos do frade contra os grandes. A comedia de Tirso,
+intitulada _D. Gil el de las calzas verdes_ era a de que el-rei mais
+gostava; e por isso a camara municipal de Madrid não deixava de a mandar
+representar nos dias de gala.
+
+Posto que a representação dos _Autos Sacramentales_ fosse supprimida em
+1765, todavia o advento e a quaresma, e especialmente a Semana Sancta,
+ainda se festejavam ha poucos annos nas igrejas com taes representações;
+levantava-se no côro uma especie de tablado, sobre o qual se
+representavam os passos da paixão de Christo, e em que as numerosas
+personagens que successivamente figuravam na peça, se apresentavam com
+os vestuarios da idade-média, quaes se deviam usar na origem d'estas
+representações, como san-benitos, mascaras pretas, farricocos, cotas,
+camisolas, e, numa palavra, toda a vestiaria de uma procissão de _auto
+da fé_.
+
+
+
+
+*Crenças populares portuguesas ou Superstições populares*
+
+PANORAMA
+
+184O
+
+
+
+
+*Crenças populares portuguesas*
+
+
+I
+
+Todas as nações tanto antigas como modernas teem sido sujeitas á doença
+moral chamada credulidade. Dada a crença da existencia dos espiritos e
+da sua immortalidade, os homens vendo diariameute morrer os seus
+semelhantes, e sentindo em si uma consciencia que repugna a
+anniquilação, perceberam facilmente que o espirito não morria: a
+revelação não fez mais que confirmar um sentimento innato no homem.
+Depois a saudade dos mortos que nos foram caros, e o temor que
+experimentavam os criminosos de que as suas victimas ainda se pudessem
+vingar d'elles além do sepulchro: emfim amor e remorsos, ajudados da
+imaginação, povoaram este mundo de phantasmas. A Grecia, sempre poetica,
+formulou esta serie de factos intellectuaes em muitas expressões
+materiaes: sirva de exemplo a descida d'Orpheu aos inferno em busca
+d'Euridice, mytho formosissimo, com que os antigos gregos simbolizaram o
+amor como capaz de unir os espiritos que passaram com os que vivem na
+terra. A imaginação multiplicou e variou estas expressões de um
+pensamento vago e primitivo. D'ahi vieram os lemures, as strygas, e
+todas essas creações extravagantes, que ainda no primeiro seculo
+christão o severo philosopho Plinio não se atrevia inteiramente a
+descrer.
+
+Entre as nações modernas a portuguesa passa por uma das mais inclinadas
+a muitas d'estas superstições. É uma das multiplicadas calumnias que
+sobre nossas cabeças lançam estrangeiros: quem d'isso se quiser
+desenganar leia o _Diccionario infernal_ de Colin de Plancy, e achará
+que qualquer provincia da França, ainda das mais civilizadas, nos deita,
+como se diz vulgarmente, a barra adiante em superstições populares.
+Quasi o mesmo se pode dizer da nação mais allumiada da Europa--a allemã.
+Na Inglaterra, basta dizer que não haverá ahi perro turco, ou brahmane
+credulo que leve vantagem em superstição ao povo dos tres reinos unidos.
+As bruxas, diabos azues, vampiros, e seiscentas outras diabruras surgem,
+por assim dizer, debaixo dos pés dos ingleses, como nos pinhaes do
+Alemtejo e Estremadura se erguem, debaixo dos pés dos caminhantes, as
+ninhadas dos sapinhos, quando sobre o pó das estradas cai em dia de
+verão um aguaceiro de trovoada.
+
+Apesar, porém, de não sermos dos povos mais abastados neste genero de
+riquezas (que poeticamente o são) tem havido entre nós muitas crenças
+populares dignas de se fazer menção d'ellas; por isso mesmo que as mais
+antigas são geralmente desconhecidas, e as mais modernas vão diariamente
+desapparecendo;--que ao menos esse bem temos tirado das nossas luctas
+politicas e d'este espirito do seculo, que renegou de tudo quanto nos
+transmittiu o passado;--tanto de umas como de outras colligiremos aqui
+algumas especies, que se nos não enganamos, serão lidas com interesse
+pelos leitores do Panorama.
+
+Um dos mais antigos documentos que nos restam sobre as nossas
+superstições populares é a celebre postura da camara de Lisboa de 1385.
+Esta postura caracteriza essencialmente o espirito religioso da epocha
+de D. João I. Nella se prohibem as superstições populares, as quaes ahi
+se enumeram, como querendo a camara agradecer assim a Deus a victoria
+d'Aljubarrota, que assegurou a independencia de Portugal.
+Transcreveremos algumas passagens do referido estatuto, sem que tentemos
+explicar muitas d'essas superstições a que se allude, porque difficil
+fôra apresentar mais do que conjecturas. Eis o que nos parece mais
+notavel naquelle assento municipal.
+
+«Os sobreditos estabelecem e ordenam, que d'aqui em diante nesta cidade,
+nem em seu termo nenhuma pessoa não use, nem obre de feitiços, nem de
+ligamento, nem de chamar os diabos, nem de descantações, nem de obra de
+veadeira, nem obre de carantulas, nem de geitos, nem de sonhos, nem
+d'encantamentos, nem lance roda, nem lance sortes, nem obre
+d'advinhamentos... nem outrosim ponha nem meça cinta, nem _escante
+olhado_ em ninguem, nem lance agua por joeira...»
+
+«Outrosim estabelecem que d'aqui em diante nesta cidade e em seu termo
+não se cantem janeiras nem maias, nem a outro nenhum mês do anno, nem se
+lance cal ás portas sob titulo de janeiro, nem se furtem aguas, nem se
+lancem sortes...»
+
+«Porque o carpir e depenar sobre os finados é costume que descende dos
+gentios, e é uma espécie de idolatria, e é contra os mandamentos de
+Deus, ordenam e estabelecem os sobreditos que d'aqui em diante nesta
+cidade, nenhum homem ou mulher, não se carpa, nem depene, nem brade
+sobre algum finado, nem por elle, ainda que seja pae, mãi, filho ou
+filha, irmão ou irmã, marido ou mulher, nem por outra nenhuma pena, nem
+nojo, não tolhendo a qualquer que não traga seu dó, e chore se
+quiser...»
+
+Muitas d'estas disposições dizem respeito a crenças que já não existem,
+ou são conhecidas por outras denominações. As janeiras e maias duraram
+até os nossos dias e ainda no Minho se chamam maias as flores da
+giesteira amarella, com que se adornam as janellas no primeiro de maio;
+alem d'isso todos os que hoje vivemos nos lembramos de ver em Lisboa os
+maios pequeninos passearem as ruas cubertos de flores, bem como de ouvir
+cantar as janeiras, o que ainda dura em muitas partes das nossas
+provincias.
+
+As prohibições da camara relativamente aos prantos pelos mortos, alludem
+ao carpirem-se e arrepellarem-se sobre o cadaver e por elle, depois
+d'enterrado, certas mulheres, que d'isso viviam chamadas carpideiras ou
+pranteadeiras, e na falta d'estas os parentes mais proximos. Fr.
+Francisco Brandão diz que tal costume se acabou no tempo de D. João I;
+mas engana-se manifestamente, porque nos nossos chronistas se acham
+memorias de similhantes prantos em epochas mui posteriores, e lá diz Gil
+Vicente.
+
+Prantos fazem em Lisboa
+Dia de Sancta Luzia
+Por elrei D. Manoel
+Que se finou neste dia.
+
+Entre as superstições antigas podem contar-se os reptos, requestas, ou
+desafios, em que se appellava para o juizo de Deus quando um homem
+accusava outro de homicidio ou traição. Este costume, geral em toda a
+Europa, vogou muito em Portugal no principio da monarchia, sendo até
+declarados nos foraes de algumas terras os casos em que o duello devia
+servir de prova da justiça ou injustiça da accusação ou querella. Muito
+cedo porém começaram os nossos reis a trabalhar, por meio de leis
+prudentes e saudaveis, em pôr termo a este costume barbaro. D. Dinis foi
+o primeiro que por lei de 1318 prohibiu houvesse reptos duas leguas em
+redor d'onde estivesse a côrte.--«Estabeleço e ponho por lei (diz elle)
+que d'aqui adiante nenhum Filho d'algo não desafie, nem mande desafiar
+outro, nem por si, nem por outrem, perante mim, nem nos logares onde eu
+fôr, nem a duas leguas aredor de mim; e aquelle que contra isto vier,
+morra por isso, e a desafiação não valha»--Successivas providencias se
+foram dando a este respeito, de modo que na ordenação affonsina apenas
+são permitidos os desafios no caso de traição contra a pessoa real, como
+se pode ver no titulo 64 do Livro 1.^o d'essa ordenação.
+
+Como, porém, os reptos não tinham logar em todos os casos, e tal era o
+de caír a suspeita do crime em mulheres, as quaes não podiam ir defender
+ás lançadas a sua innocencia, havia outros meios de recorrer ao juizo de
+Deus. D'estes eram geralmente em toda a Europa, as provas da agua fria,
+da agua quente, e do ferro em braza. A que se usou em Portugal foi a
+ultima, a qual consistia no seguinte: o accusado que queria arriscar-se
+á prova, depois de se confessar, e de jejuar rigorosamente por alguns
+dias, e de receber exorcismos, bençãos e orações de um sacerdote, ou se
+punha a andar descalço sobre uma vara de ferro em braza, ou pegava nella
+e caminhava apertando-a nas mãos por certo espaço. Se o _ferro caldo_
+(como lhe chamavam) não produzia o seu natural effeito, o culpado era
+havido por innocente; mas se lhe queimava os pés ou as mãos impunham-lhe
+a pena do crime de que fôra accusado. Já se vê que era difficultosa
+empresa achar innocentes por meio tal; todavia algumas tradições existem
+que a serem verdadeiras, provariam que a providencia apiedando-se dos
+injustamente opprimidos, suspendera algumas vezes a favor d'elles as
+leis da natureza. Juncto ao sepulcro do commendador de Leça D. Garcia
+Martins se conservava, segundo o testamento de Jorge Cardoso, um ferro
+de arado, que, posto em braza, transportou para alli a mulher de um
+ferreiro accusada de adulterio. Fr. Bernardo de Brito e Fr. Antonio
+Brandão citam uma doação feita ao mosteiro de Arouca, Por D. Tareja
+Soares, mulher de D. Gonçalo Mendes de Souza, que sendo accusada pelo
+marido d'adulterio, recorreu, em sua defeza, á prova do ferro em braza,
+e saindo illesa, se recolheu ao convento d'Arouca, ao qual fez uma
+doação, onde se menciona este successo, que seria em verdade
+extraordinario, se não fosse mais facil e razoavel crêr na supposição do
+documento do que na realidade do milagre.
+
+Esta superstição da prova por fogo parece que ainda estava muito
+arreigada em Portugal no fim do seculo XIV. Quando o Mestre d'Aviz matou
+o conde Andeiro a rainha D. Leonor, ouvindo na sua camara o ruido que
+soava, mandou saber o que era, e vieram dizer-lhe que tinham assassinado
+o conde. «A rainha quando isto ouviu, houve grão temor, porem disse: Oh
+sancta Maria vale me mataram em elle um bom servidor!--e sem o merecer;
+cá (porque) o mataram, bem sei porque. Mas eu prometto a Deus que me vá
+de manhã a S. Francisco, e que mande ahi fazer uma fogueira, e ahi farei
+taes salvas, quaes nunca mulher fez por estas cousas.» (Lopes chron. de
+D. João I cap II). Santos, narrando este mesmo successo, accrescenta:
+«Alludiu ao antigo costume de se purificarem, tomando o ferro quente, as
+mulheres accusadas, ou murmuradas d'adulterio. (Mon. Lusiti Liv. 23,
+cap. 8). E com effeito não é crivel que a rainha na sua afflicção
+fizesse uma figura de rhetorica, dizendo que se queria sujeitar a um
+costume que já não existia; muito mais que Fernão Lopes, escriptor tão
+vizinho d'aquelles tempos, parece reconhecer a actualidade de tão
+barbara usança, accrescentando que a rainha _tinha mui pouca vontade de
+o fazer_.
+
+Não era este supersticioso costume, que durou por tantos seculos, apenas
+uma invenção do vulgo. Nas antigas leis d'Hespanha, conhecidas pelo nome
+de _Fuero juzgo_, é expressamente ordenada a prova da agua a ferver, e a
+do ferro em braza, e no foral de Baeça se particularizam os casos em que
+taes provas tinham logar, bem como a maneira de as fazer.
+Transcreve-lo-hemos aqui por ser grandemente curioso, tanto mais que em
+parte diz respeito á prova do desafio.
+
+«A mulher, que sabidamente mover, sendo o movito por mau termo seja
+queimada, ou salve-se por ferro quente. E se alguma disser que é prenhe
+de algum homem, e elle a não crer, tome ferro quente, e queimando-se,
+não seja crida; mas se escapar livre do ferro, dê o filho ao pai, e
+crie-o como mandam as leis.»
+
+«A mulher que _ligar_ homens ou animaes, ou quaesquer outras cousas que
+podem ser ligadas, queimem-na, e se negar, salve-se por ferro quente; e
+se o ligador for homem seja açoutado e lançado fóra da terra, e se
+negar, salve-se por combate.»
+
+«A mulher que der hervas peçonhentas ou for feiticeira, seja queimada,
+ou se salve por ferro quente.»
+
+«A mulher que matar seu marido seja queimada, ou se livre por ferro
+quente. Toda a mulher que taes cousas faz, deve tomar ferro; mas não por
+erro da sua pessoa propria, salvo quando for approvada por má mulher, e
+que teve parte com cinco homens differentes. As _terceiras_ sejam
+queimadas, ou, se negarem, salvem-se por ferro quente.»
+
+«O ferro que se mandar fazer por justiça para esta experiencia, tenha um
+palmo de comprimento, e dous dedos de largo, e tenha quatro pés (a modo
+de banco) tão altos, que a pessoa que houver de fazer a salva possa
+metter a mão por baixo. E quando o tomarem, levem-no por distancia
+d'outo pés, e tornem-no a pôr em terra suavemente. Mas antes o benza o
+sacerdote, e depois elle e o juiz aquentem o ferro, e em quanto o ferro
+se aquentar, nenhum homem se chegue junto ao fogo, porque não acerte de
+fazer alguma feitiçaria; e a que houver de tomar o ferro primeiro se
+confesse mui bem, e depois seja olhada, porque não traga escondido algum
+feitiço. Depois lave as mãos diante de todos, e depois de limpas, tome
+ferro, mas antes façam todos oração, pedindo a Deus que mostre a
+verdade. E depois que tiver levado o ferro, o juiz lhe cubra logo a mão
+com cera, e sobre ella lhe ponha a estoupa ou linho, e depois atem-lha
+com um panno, e leve-a o juiz a sua casa, e passados tres dias vejam-lhe
+a mão e se for queimada, queimam-na tambem a ella.»
+
+Vimos que a prova do fogo durou em Portugal, pelo menos até o fim do
+seculo XIV. Não sabemos ao certo a epoca da completa extincção d'este
+abuso; todavia é sabido que elle estava em esquecimento no seculo
+seguinte. Não assim a crença em feitiçarias que, como sabemos, durou até
+aos nossos dias, e ainda hoje tem bastante voga entre os espiritos mais
+rudes.
+
+A primeira lei, que nos lembre fosse promulgada em Portugal contra os
+feiticeiros é uma de D. João I, do anno de 1403, em que se diz o
+seguinte: «Não seja nenhum tão ousado, que por buscar ouro ou prata, ou
+outro haver, lance varas, nem faça circo, nem veja em espelho ou em
+outras partes.» Esta lei foi confirmada no codigo affonsino, d'onde em
+substancia passou para os que se lhe seguiram. Vê-se por ella que a
+magia portuguesa d'esse tempo se reduzia a uma especie d'alchimia, ou
+sciencia de encontrar ouro, o que, em verdade, era bem pouco se o
+compararmos ao incremento prodigioso que teve a feitiçaria no seculo
+seguinte.
+
+Da variedade de praticas supersticiosas que produziu este incremento,
+nunca encontrámos memoria mais curiosa, que o capitulo que trata d'esta
+materia no rarissimo livro das Constituições do arcebispado d'Evora,
+impressas em Lisboa no anno de 1534. Eis aqui o texto da constituição
+primeira do titulo 25, que se intitula--_Dos feiticeiros, benzedeiros e
+agoureiros_:
+
+«Defendemos que nenhuma pessoa de qualquer estado ou condição que seja,
+tome de logar sagrado, ou não sagrado, pedra d'ara ou corporaes, ou
+parte de cada uma d'ellas, ou qualquer outra cousa sagrada; nem invoque
+diabolicos espiritos, em circulo, ou fora d'elle, ou em encruzilhada;
+nem dê a alguma pessoa a comer ou a beber qualquer cousa, para querer
+bem ou mal a outrem, ou outrem a elle; nem lance sortes para adivinhar,
+nem varas para achar haveres; nem veja em agua, ou crystal, ou em
+espelho, ou em espada, ou em outra qualquer cousa luzente, nem em
+espadua de carneiro; nem faça, para adivinhar, figuras ou imagens
+algumas de metal, nem de qualquer outra cousa; nem trabalhe de adivinhar
+em cabeça de homem morto, ou de qualquer outra alimaria; nem traga
+comsigo dente, nem baraço de enforcado, nem faça com as ditas cousas, ou
+cada uma d'ellas, nem com outra alguma semelhante, posto que aqui não
+seja nomeada, especie alguma de feitiçaria, ou para adivinhar, ou para
+fazer damno ou proveito a alguma pessoa ou fazenda: nem faça cousa para
+que uma pessoa queira bem ou mal a outrem, nem para ligar homem ou
+mulher, etc.»
+
+«Outrosim defendemos que nenhuma pessoa doente passe por silva ou
+machieiro, ou por baixo de trovisco, ou por lameiro virgem; nem benzam
+com espada que matou homem, ou que passasse o Douro e Minho tres vezes;
+nem cortem solas em figueira baforeira; nem cortem çobro em limiar da
+porta; nem tenham cabeças de saudadores encastoadas em ouro, ou em
+prata, ou em outras cousas; nem apregoem os demoninhados; nem levem as
+imagens d'alguns sanctos ácerca d'agua, fingindo que as querem lançar em
+ella, e tomando fiadores, que se até certo tempo lhes não der agua, ou
+outra cousa que pedem, que lançarão a dita imagem na agua, nem revolvam
+penedos e os lancem na agua para haver chuva; nem lancem joeira; nem
+dêem a comer bollo para saberem parte de algum furto; nem tenham
+mendracolas em sua casa, com tenção de haverem graças, ou ganharem com
+ellas; nem passem agua por cabeça de cão, para conseguir algum proveito;
+nem digam cousa alguma do que é por vir, mostrando que lhe foi revelado
+por Deus, ou algum santo, ou visão, ou em sonho, ou por qualquer outra
+maneira; nem benzam com palavras ignotas e não entendidas, nem
+approvadas pela egreja, ou com cutellos de tachas pretas, ou d'outra
+alguma côr, nem por cintos e ourelos, ou por qualquer outro modo não
+honesto; nem façam camisas fiadas e tecidas em um dia, nem as vistam,
+nem usem de alguma arte de feitiçaria »
+
+
+II
+
+Transcrevemos os titulos das constituições do arcebispado d'Evora acêrca
+de feitiçarias, com preferencia a outro qualquer documento, por ser o
+que mais especificadamente tracta d'esta materia; as outras
+constituições diocesanas que vimos, promulgadas no seculo XVI,
+limitam-se em geral a prohibir agouros e bruxedos sem os particularizar,
+e sem que d'ellas se possa tirar maior luz para a historia das crenças
+nacionaes. Muitas d'essas antigas compilações ecclesiasticas são hoje
+rarissimas, nomeadamente as que primeiro se imprimiram, como uma da
+diocese do Porto, de que nos lembra ter visto uma copia, e que pela
+linguagem e o estylo nos pareceu pertencer ainda ao seculo XV.--Nas mais
+remotas achar-se-hiam, porventura, outras noticias; mas não as pudemos
+alcançar. E de passagem lembraremos aqui aos amigos das velhas coisas do
+velho Portugal, que não ha, porventura, mais rica mina para a historia
+dos costumes de nossos avós, depois das compilações das leis civis, que
+estas leis ecclesiasticas, que íam devassar o proceder das familias, o
+proceder de todas as classes, de todos os individuos, não só nas suas
+relações sociaes, como, por via de regra, acontece com aquellas, mas
+tambem nas relações domesticas, nas relações com Deus, tomando muitas
+vezes para si os misteres e direitos, que em boa razão só deveriam
+pertencer á consciencia de cada qual. Pelas antigas constituições dos
+bispados quasi podemos seguir a existencia de nossos antepassados do
+berço ao tumulo, porque a religião de um até outro cabo os acompanhava,
+e ella então era essencialmente positiva e pratica. A lei ecclesiastica
+vigiava a infancia, a puberdade, a idade viril, e a velhice; e para cada
+epocha da vida tinha preceitos, e para cada erro castigo. Perguntava ao
+celibatario se as suas noites eram solitarias, aos esposos se o seu
+leito era casto, ao sacerdote se o seu coração era puro; batia alta
+noite á porta afferrolhada das casas da devassidão, do jogo, da
+ebriedade, e fazia tremer o devasso jogador, o ebrio; porque não era uma
+lei morta, mas sim lei com a sancção de penas materiaes. Esta legislação
+particular que tinha por base o Evangelho, por objecto os costumes,
+devia primeiro que tudo conhecer exactamente estes, e ser definida e
+precisa nas suas disposições. É assim que ella nos conservou a historia
+das crenças e abusões do povo: das suas paixões, dos seus trajos, das
+suas festas e jogos; e até dos seus alimentos: é assim que talvez se
+possa dizer em rigorosa verdade, que só com as leis civis e
+ecclesiasticas se poderia escrever a historia intima, a _historia do
+viver_ das gerações que antes de nós passaram nesta terra portuguesa,
+desde os primeiros seculos da monarchia. Para isto, todavia, é
+necessario consultar as mais remotas com dobrada curiosidade; porque o
+progresso da civilização trouxe o habito de generalizar as idéas, e este
+habito influindo na legislação, tornou a sua expressão mais geral, e por
+consequencia, neste sentido, muito menos histórica.[23]
+
+Mas, voltando ao nosso assumpto, de que um pouco nos affastámos,
+observaremos neste logar que a lei civil que por este mesmo tempo fôra
+feita (Ord. Man Liv. 5.^o Tit. 33) fazia distincção, por assim dizer, da
+grande e pequena bruxaria; porque as feitiçarias em que se usava
+empregar pedra d'ara ou corporaes, ou quaesquer outras cousas sagradas,
+era punida com pena de morte, bem como os esconjuros e invocações de
+diabos, feitos em circulo ou em encruzilhada, e o dar a beber ou a comer
+cousas enfeitiçadas para querer mal ou bem a alguem.
+
+Todos os outros bruxedos, porem, que naquella ordenação se acham
+especificados, e que são, pouco mais ou menos, os mesmos que enumeram as
+constituições d'Evora, tinham por pena a marca de ferro nas faces, e o
+degredo perpetuo para a ilha de S. Thomé. As demais superstições
+populares, que não pareciam depender de tracto com o demonio eram
+punidas com açoutes, sendo o criminoso peão, e sendo vassalo ou
+escudeiro, ou mulher de qualquer d'estes, com degredo de dous annos para
+os logares d'Africa. Estas disposições passaram quasi textualmente para
+o titulo 3.^o do livro 5.^o das Philippinas, conhecidas geralmente pela
+denominação d'Ordenações do Reino.
+
+E cumpre aqui advertir que, se quando se reformou este codigo no
+principio do seculo XVII se conservaram penas tão severas contra
+individuos que não passavam de meros charlatães, que por taes meios
+viviam á custa da credulidade publica, ou que se enganavam a si
+proprios, imaginando terem imperio nos demonios e tracto com as
+potencias invisiveis, é porque ainda então se cria que similhantes
+sonhos eram realidades. E fomos só nós acaso os que isso
+acreditámos?--Não. A Europa inteira estava na mesma persuação: nessa
+epoca todos os governos, e legisladores, e até homens da mais alta
+cathegoria litteraria admittiam a possibilidade dos maleficios, dos
+sortilegios, e dos adivinhamentos. E tão duradora foi essa crença, que
+ainda no principio do seculo decimo-oitavo, quando appareceu a _Magica
+anniquilada_ de Maffeu (livro, em nosso entender, muito aquém da sua
+reputação) se levantou uma grande discussão a similhante respeito, o que
+é claro signal de que para muitos homens instruidos a magia não era uma
+coisa inteiramente vã.
+
+ * * * * *
+
+Uma das coisas mais notaveis acêrca da credulidade dos nossos
+antepassados no seculo XVII, é um alvará datado de 15 de outubro de
+1654, impresso no _Jornal de Coimbra_ e citado por J. P. Ribeiro, em que
+se dá licença a um soldado, que dizia ter o dom de _curar com palavras_,
+para continuar a fazer uso d'esta estupenda habilidade com a obrigação
+de empregar o seu prestimo em beneficio dos militares que d'elle
+houvessem mister.
+
+O progresso, porém, das sciencias foi pouco a pouco destruindo estas
+abusões nos animos das pessoas sensatas, e os leiticeiros e bruxas, e
+adivinhões viram-se obrigados a refugiar-se entre a plebe ignorante das
+cidades, e entre a gente boa e simples dos campos. É ahi onde, ha mais
+de cincoenta annos, apenas restam usanças que revelam a existencia das
+chamadas artes diabolicas.
+
+O conflicto entre o progresso intellectual e as antigas superstições
+acarretou por vezes desgostos e perseguições áquelles que trabalhavam em
+allumiar as nações; mas tambem deu aso a acontecimentos mui graciosos,
+dos quaes re'ataremos aqui um, succedido em Evora no reinado de D. José.
+
+Um frade de certa ordem tinha sido nomeado mestre de philosophia
+naquella cidade. Querendo dar uma vez a seus discipulos idéa da
+electricidade, pôde obter emprestada uma machina electrica, com a qual
+fez algumas experiencias diante de varios padres graves do seu convento,
+que ficaram pasmados de coisa tão extraordinaria, e suppuseram lá
+comsigo andar nisto obra de feitiçaria. Esperaram, portanto, um dia em
+que o mestre de philosophia saísse fóra do convento, e mandando o
+prelado tocar á communidade, revestido, e de cruz alçada, seguido dos
+demais frades, foi ao aposento, onde estava a machina para a exorcismar.
+Começados os exorcismes tanta agua benta lhe deitaram que dentro em
+pouco ficou completamente estragada. Quando d'ahi a dias o professor
+quis trabalhar com ella, nunca o pôde alcançar; e os padres graves,
+rindo uns com os outros, escarneciam do pobre philosopho, a quem, com
+esconjuros, tinham inutilizado aquelle diabolico feitiço.
+
+Concluiremos este artigo dando uma noticia do que temos alcançado acerca
+das feitiçarias, bruxas, e lubis-homens, na opinião do vulgo, cuja
+imaginação ainda dá existencia a estes sonhos ridiculos conservados nas
+tradições populares.
+
+O povo faz distincção entre feiticeiras, bruxas, e lubis-homens. São as
+feiticeiras e bruxas, por via de regra, mulheres velhas, pobres, feias,
+immundas, e de genio melancholico, ou colerico. Estes motivos bastam
+para o vulgo as aborrecer, e para justificar a seus olhos qualquer
+accusação que lhes façam de feitiçaria ou bruxedo. O mister das
+feiticeiras é fazer maleficios a todo o genero de pessoas de qualquer
+idade que sejam: estas acompanham ordinariamente o diabo em todas as
+suas funcções neste mundo. As bruxas teem poder limitado, estando apenas
+auctorizadas para chupar de noite o sangue ou a substancia das creanças,
+matando-as pouco a pouco d'inanição, ou de repente, se chupam
+desarrazoadamente.
+
+Os lubis-homens são aquelles que teem o _fado_ ou _sina_, de se despirem
+de noite no meio de qualquer caminho, principalmente encruzilhada, darem
+cinco voltas, espoujando-se no chão em logar onde se esponjasse algum
+animal, e em virtude d'isso transformarem-se na figura do animal
+_pre-espoujado_. Esta pobre gente não faz mal a ninguem, e só anda
+cumprindo a sua _sina_, no que teem uma cenreira mui galante, porque não
+passam por caminho ou rua, onde haja luxes, senão dando grandes assopros
+e assobios para que lh'as apaguem, de modo que seria a coisa mais facil
+d'este mundo apanhar em flagrante um lubis-homem, accendendo luzes por
+todos os lados por onde elle pudesse saír do sitio em que fosse
+presentido. É verdade que nenhum dos que conta similhantes historias fez
+a experiencia.
+
+A instituição de qualquer feiticeira ou bruxa é pela seguinte maneira. A
+adepta é levada alta noite pelas feiticeïras professas a um logar ermo,
+onde o diabo apparece transformado em bode negro. Começa a ceremonia,
+como é de razão, pela matricula, e a noviça escreve o termo da vencia da
+sua alma com o proprio sangue: então o diabo lhe entrega um novello e um
+pandeirinho que são os symbolos da nova dignidade que recebe, e pelo que
+fica habil para fazer os seus maleficios, e para se transformar no que
+quiser, quer sejam corpos animados, quer inanimados. Depois d'isto o
+demonio _bodificado_ se assenta no seu throno cercado de candeinhas, e
+por baixo d'este throno passa a noviça tres vezes; acabado o que, a nova
+feiticeira dá um beijo na proximidade da cauda ao transformado rei do
+inferno.
+
+Feita esta ceremonia as circumstantes (que são todas as feiticeiras da
+provincia, chamadas alli para assistir áquelle auto) tocam os seus
+pandeirinhos, e com dansas mysteriosas levam a nova socia a casa, onde
+lhe mostram os respectivos novellos de fiado, que são maiores ou
+menores, conforme a importancia ou estimação em que as tem o diabo.
+
+Estes novellos diabolicos em que principalmente reside a força e poderio
+das feiticeiras são compostos de uma especie de linha fiada _pela mão do
+diabo_, e cuja materia prima é o pello do bode, em que o cão tinhoso
+costuma transformar-se. Tambem as bruxas teem por apanagio uma maçaroca
+preta; mas a demonologia popular não declara de que maneira, ou de que
+materia seja feita, bem como as dos lubis-homens, que tambem possuem
+este adminiculo, do qual apenas sabemos uma circumstancia, que é o ser
+de fio pardo.
+
+Quando alguma d'estas importantes personagens, que tem pacto, ou fado,
+está para morrer, chama a pessoa que mais estima, e a esta entrega o
+fatal novello. Se lh'o não aceitam, não pode expirar, ainda que esteja
+em agonias mortaes; mas apenas essa, ou alguma das circumstantes lh'o
+recebe, a pobre creatura entrega logo descansadamente a sua alma a
+satanaz. Parece que a posse de tal herança dá um direito na secretaria
+d'estado infernal, para o herdeiro ser preterido no prehenchimento do
+logar que ficou vago.
+
+Tem a feiticeira obrigação, cada vez que quer infeitiçar alguem, de
+invocar primeiramente o diabo, e de lhe pedir licença para exercer seu
+officio, o que prova que não só na terra ha maus systemas de legislação.
+A formula usada em taes casos, segundo alguns gravissimos auctores, é:
+_Tenato, ferrata, andato, passe por baixo_, o que se repete tres vezes.
+Acode o démo ao reclamo, e a professora de feitiços póde então ter a
+certeza de tirar a sua a limpo.
+
+Se, porém, se não tracta de um feitiço de segunda ordem; mas sim d'algum
+que deva produzir a morte do individuo enfeitiçado, é preciso mais
+trabalho, e pelas leis infernaes não é licito a qualquer feiticeira
+tomar sobre si só tamanha responsabilidade, d'onde se póde concluir qual
+seja a prudencia, gravidade e consciencia do diabo, que por certo não é
+tão feio como o pintam. Quando, pois, alguma d'estas boas creaturas quer
+dar cabo de qualquer individuo, toca o seu pandeirinho e chama duas suas
+companheiras para d'ellas se ajudar naquella boa obra. Então as taes
+fazem uma figura da pessoa condemnada a morrer, e compostos certos
+unguentos liquidos vão com elles unctando aquelle vulto, e á proporção
+que o trabalho se vai adiantando, vai o enfeitiçado adoecendo, até que
+chega ás ultimas. Neste ponto a feiticeira mais velha tira o seu
+novello, põe-se a dobá-lo, e quando o doente deve morrer uma das outras
+corta o fio com uma tesoura, e no mesmo instante expira o enfeitiçado.
+Depois invocam todas tres o demonio, que vem, e solda de novo o fio que
+ficou cortado.
+
+Limitamo-nos neste artigo a tractar com mais alguma individuação a mais
+notavel das superstições populares, o imaginario pacto com o demonio.
+Deixamos para outra occasião o falar de muitas outras crenças e costumes
+que poderiamos ajunctar a estes incompletos apontamentos, e então
+daremos especial noticia das _mulheres de virtude_, especie de
+contraveneno com que o povo de algum modo quis destruir os terrores que
+lhe causava o poderio das feiticeiras que elle proprio creara.
+
+
+
+
+*A Casa de Gonsalo*
+
+COMEDIA EM CINCO ACTOS
+
+PARECER
+
+Memorias do Conservatorio
+
+1840
+
+
+
+
+*A Casa de Gonsalo*
+
+COMEDIA EM CINCO ACTOS
+
+PARECER
+
+
+A commissão encarregada de dar o seu parecer sobre a comedia
+intitulada--_A Casa de Gonsalo_--que concorreu aos premios destinados
+para os dramas originaes portugueses, que mais se avantajarem entre os
+outros no concurso aberto por este Conservatorio para o corrente anno de
+1840, vem apresentar a sua opinião a este Jury, desempenhando assim o
+encargo que lhe coube em sorte.
+
+A comedia sobre que versa este parecer é precedida por um prologo, ou,
+como seu auctor lhe chama, por um endereço aos censores.
+
+A Commissão hesitou se devia ou não fazer algumas observações sobre a
+materia nelle contida: grave e importante é esta; ridicula e talvez
+chula a fórma porque o auctor a tractou; mas a Commissão intendeu por
+fim que tocando-se nesse prologo a grande questão das condições da arte,
+que hoje agita o mundo litterario, era da sua obrigação, entrar no exame
+das idéas contidas nelle. Pospondo, por tanto, os gracejos do auctor, e
+considerando somente as suas opiniões e proposições, até porque elle
+parece apresentá-las, como norma por onde os censores houvessem de
+guiar-se, antes de julgar o drama dirá algumas palavras sobre o
+mencionado prologo.
+
+Começa o auctor esse prologo pela sua biographia litteraria referindo
+como tem composto um bom numero de _comedias comicas_, e outras
+lamentosas ou patheticas, de que, segundo elle diz, são muito
+apaixonados os alemães. Deixando de parte as noticias
+biographico-litterarias, importantissimas para uma nova edição da
+Bibliotheca Lusitana, ou do Diccionario dos homens illustres, mas que no
+caso presente nada montam para o Conservatorio, a Commissão apenas se
+faz cargo das duas circumstancias que deixa apontadas: a 1.^a de ter o
+auctor composto comedias lamentosas, ou como, com Voltaire, elle lhes
+chama, _larmoyantes_: 2.^a a de affirmar que d'este genero são muito
+apaixonados os alemães. Admira com effeito, que o auctor tão afferrado
+aos sãos principios dos antigos, tão desprezador dos desvarios modernos,
+gastasse o seu tempo com um genero dramatico bastardo, em que os antigos
+nem sonharam, porque só conheceram a tragedia e a comedia, vendo-se
+daqui que houve uma epoca em que o illustre auctor da _Casa de Gonsalo_
+sacrificou ao Moloch revolucionario: não admira menos, que um escriptor
+tão versado em materias litterarias ignore que o drama lamentoso nasceu
+em França, e que a Alemanha só conta um auctor notavel neste
+genero--Kotzebue--que não teve successores, e que hoje está quasi
+completamente esquecido naquelle país, onde exclusivamente apparecem
+poucas comedias, bastantes tragedias, e infindos dramas da eschola
+moderna que está bem longe de ser a de Diderot, ou dos dramaturgos
+chorões, lamentosos ou patheticos.
+
+Continua o illustre auctor da _Casa de Gonsalo_ dizendo que sabe que a
+sua comedia não hade agradar porque tem aquelle mau gôsto de composição
+que recommenda Aristoteles e Horacio que eram uns rançosos e d'esse
+ranço é Menandro, Aristophanos e Terencio etc.; fala nos freios da arte
+da eschola classica, unidade de acção, consistencia de caracteres;
+paixões e affectos naturaes, verdade de costumes, (!) estabilidade de
+logar, unidade de tempo; fala no Sales que tinha a habilidade de fazer
+velhos os rapazes que iam ouvir-lhe as licções de poetica e rhetorica
+(!); diz que todas as regras acabaram com Hugo e Delavigne, e que os
+modernos destruiram a unidade d'acção, de caracter, de tempo, e de
+logar. Do que tudo conclue o auctor que a sua comedia não hade agradar,
+e que por isso a apresentou sem a mandar copiar.
+
+Se a letra em que a comedia está escripta, e a historia litteraria do
+illustre auctor inserida neste prologo, não revelassem, aquella a mão
+trémula de um velho, esta uma larga vida cheia de recordações do
+sapientissimo Sales, que, bem differente das magas das novellas de
+cavallaria, as quaes transformavam as rugas de velhice em viço de
+mocidade, convertia a mocidade em velhice: se a Commissão, digo, não
+inferisse de tudo isso que este prologo encerrava um pensamento de
+Sansão, classico, o qual vendo morta a sua nação quer morrer tambem
+levando comsigo os philisteus da nova arte, e se este pensamento não
+fosse generoso, ella se teria abstido de fazer observações algumas
+acêrca das idéas do auctor, que em um homem moço e que não tivesse essas
+razões d'amor ás coisas com que se creou, seriam apenas dignas de
+compaixão muda. A Commissão, porém, pertence infelizmente ao presente, e
+quando vê um campeão do passado, de quem se póde dizer como Virgilio:
+
+_Et dulces moriens reminiscitur Argos.
+Do caro Sales lembra-se morrendo_.
+
+não pode deixar de lhe dar o extremo _vale_, nem é licito que responda
+com um silencio que se poderia tomar pelo silencio do desprezo a quem
+vem lançar na estacada a luva do combate, por uma causa talvez bella,
+mas nestes tempos irreverentes e dissolutos, bem mal-aventurada.
+
+Senhores! A guerra que os homens do passado fazem ás opiniões do
+presente é um phenomeno trivialissimo, e repetido todas as vezes, que,
+ou as meditações ou as inspirações do genio, ou finalmente a accumulação
+das idéas e das observações de muitos homens, tem produzido uma
+revolução, seja ella de que natureza fôr. A razão d'isto dá-se neste
+prologo. Quem encanecendo no estudo de qualquer ramo de sciencia nunca
+pôde passar além de comprehender o que os outros pensaram, intende que a
+isto se deve reduzir todo o poderio intellectual do genero humano. Taes
+individuos são por via de regra os representantes da immobilidade. Bem
+longe da theoria do progresso indefinido, crêem que a civilização é como
+a praia do mar, os homens como as ondas d'elle, que ora se aproximam ora
+se afastam em continuados éstos. São taes individuos que nunca se
+persuadiriam de que as chamadas trevas da edade média não eram mais que
+a chrisalida de uma civilização maior e melhor que a grega e romana, de
+uma civilização cuja aura vital era a grande transformação religiosa
+chamada o christianismo. São taes individuos para quem fôra baldada a
+demonstração de que no objecto de que neste logar se tracta--o
+drama--uma nova epoca e por consequencia uma nova fórma tinha começado
+com o berço das nações modernas, e de que entre o nosso theatro e o dos
+antigos devia haver a mesma differença que ha entre a civilização
+christã e a pagã, entre o christianismo e o polytheismo; emfim que nas
+respectivas litteraturas dramaticas devia haver uma diversidade
+parallela á que ha entre aparte material do theatro antigo e a do
+theatro moderno.
+
+Era licito, pois, a estes homens morrerem abraçados com as poeticas e
+rhetoricas sobre que encaneceram; era-lhes licito desprezarem os fructos
+das cogitações dos modernos; era-lhes licito terem commentado as regras,
+na impossibilidade de fazerem dramas. Tudo isso lhes era licito menos
+ignorarem a historia da arte antiga, desconhecerem os principios da
+moderna, mentirem acêrca d'aquella, e calumniarem esta. Isto é o que tem
+feito os admiradores dos rhetoricos de todas as nações, isto é o que se
+reproduz no prologo do erudito discipulo do eruditissimo Sales.
+
+A Commissão não entrará aqui no exame do valor relativo dos principios
+da eschola antiga, e da eschola moderna que tambem os tem mais profundos
+e por ventara mais creadores de difficuldades que os da antiga. A
+comparação d'esses principios seria materia de um livro, de um curso de
+litteratura dramatica, e nunca de um parecer que deve servir de base á
+discussão especial do merito de um drama. Mas a Commissão se mostraria
+pouco attenta á dignidade, e á honra litteraria do Conservatorio se
+deixasse passar como exactas affirmativas contrarias á historia do
+theatro e á critica, sem que rectificasse inexactidões que se lhe vem
+apresentar como verdades.
+
+O auctor diz que sabe que a comedia não ha de agradar por se verem nella
+cumpridos os decretos de Aristoteles e de Horacio. Desejaria a Commissão
+que elle tivesse declarado cujo era o desagrado em que tinha a certeza
+d'incorrer. Se era o do publico, como tendo essa certeza concorre ás
+provas publicas?--Neste procedimento ha pelo menos um pleonasmo tão
+flagrante como ha no titulo de _comedia comica_ que elle dá a esta. Se é
+o do Conservatorio, parece fazer com isso grave injúria a este.
+
+O Conservatorio possue no seu seio homens de convicções differentes, e
+até certo ponto oppostas, em materias litterarias: uns pertencem, como o
+auctor, ás idéas antigas, outros ás opiniões modernas. Para os primeiros
+a execução d'essas regras é um merito; para os segundos se as suas
+opiniões assentam sobre uma theoria completa da arte--e a Commissão crê
+que sim--o desempenho d'essas regras é indifferente, porque não é nem na
+falta, nem na existencia d'ellas que consiste a arte. O auctor devia
+saber que a eschola moderna colloca quasi a par de Shakespeare e acima
+talvez de Calderon e Lopo da Vega, dois escriptores da arte dos
+preceitos--Moliere e Corneille: devia saber que ella rejeita d'esses
+preceitos aquelles que não teem uma sancção esthetica; aquelles que, ou
+o capricho, ou um exame superficial das materias litterarias, admittiu
+como canones imprescriptiveis; aquelles que são mui proximos parentes
+dos achrosticos, dos echos, e dos versos leoninos--mas devia tambem
+saber, que a eschola moderna nunca desprezou o dramaturgo, cujo genio,
+apesar d'essas peias escholasticas, se remontasse a altura da verdadeira
+arte, e que, por tanto os membros do Conservatorio cujas opiniões são
+modernas não rejeitariam o drama só porque se assujeitava ás andadeiras
+rethoricas da eschola antiga. Se um pensamento unico tivesse precedido á
+composição d'esta comedia: se o ideal de um ou muitos caracteres comicos
+tivessem nella revestido as fórmas da vida real, embora o drama
+estivesse arrebicado de cem regras e duzentos preceitos, os sectarios da
+nova eschola teriam dicto com os da antiga; _equites romani plaudant_!
+
+O digno auctor da _Casa de Gonsalo_, seguindo as pisadas dos homens da
+sua eschola parece querer tornar solidaria a arte dos gregos e romanos
+com a arte do renascimento; essa arte bella, pura, e nacional dos
+antigos com a arte caprichosa, polvilhada, cortesã e regreira do seculo
+de Luis XVI. Hoje não é licito ignorar as differenças que ha d'aquella a
+esta: ignorar que além de outras coisas duas regras essenciaes para os
+modernos faltam entre os antigos as unidades de logar e de tempo, e que
+vice-versa entre os antigos havia no theatro os coros que os classicos
+modernos deixaram, bem como a musica tanto dos coros como da scena, a
+qual fazia que o drama fosse então o que é hoje a opera italiana, ou a
+vulgar, onde esta existe.
+
+Senhores: o drama moderno nasceu dos mysterios ou representações
+religiosas da edade média: o caracter essencial dos mysterios era o
+vestir o ideal christão--e o nome o está dizendo--com as fórmas da vida
+real, e a vida real era então como hoje, como sempre, uma indistincta
+mistura de lagrimas e riso, de paixões vis e nobres, d'infamias e de
+grandezas. Nos mosteiros onde o drama começou, se reuniam os extremos
+oppostos da sociedade: o monge era a um tempo sacerdote e jogral: a
+ignorancia vejetava ahi ao lado da sciencia, a crapula ao lado da
+modestia e da virtude, o folguedo e o bom humor ao lado da penitencia,
+os grandes crimes ao lado da pura innocencia. Então o monge a quem a
+natureza fizera poeta, tendo quasi por unicos estudos a historia
+symbolica dos hebreus, as sublimes invenções da sua poesia, e esse
+evangelho tão ideal desde a primeira até a ultima pagina, não conhecendo
+o drama antigo, fazia, sem o saber, uma transformação na arte dramatica
+e começava essa eschola moderna, salva apenas na Hespanha e na
+Inglaterra no seculo XVII e restaurada hoje em toda a Europa com mais
+brilho, e aperfeiçoada pela philosophia. O caracter d'esta eschola é na
+essencia um contraste completo com a antiga: esta tomava o mundo real,
+positivo e até trivial e vestia-o de fórmas ideaes: os caracteres, as
+paixões, as situações procurava-as na vida quotidiana: nas expressões,
+na fraze é que estava a poesia, e é por isso que o poeta antigo carecia
+dos coros para ahi principalmente derramar as harmonias da sua alma; é
+por isso, que Sophócles, ou Euripides não comprehenderiam o drama em
+prosa; é por isso que o theatro dos antigos não separava a musica da
+letra, porque a tragedia não era senão uma larga elegia sobre as
+amarguras da existencia ordinaria; a comedia não era senão uma satyra,
+um escarneo contra os vicios e as ridicularias da vida commum. Pelo
+contrario o theatro da edade média buscava no ideal paixões, caracteres,
+situações. Onde achamos nós essas martyres tão suaves, tão aereas, tão
+amorosas de um objecto sumido nas profundezas do céu? Onde achamos esses
+demonios chocarreiros e perversos, cujos motejos e risadas infernaes nos
+fazem ao mesmo tempo rir e tremer? Onde esses corações, ao mesmo tempo
+tão robustos e tão delicados, dos cavalleiros do romance e do drama da
+edade média?--Nos mysterios e nos autos; e os mysterios e os autos são
+ascendentes do drama actual: as Angelas, os Myphistopheles, e os
+Hernanis não refusam a sua arvore genealogica.
+
+Esta familia, nobre, porque, como as familias humanas, vai entroncar-se
+na edade média, teve um tempo em que caíu na abjecção: foi quando os
+paços a rejeitaram; quando appareceu outra, que se chamava mais
+illustre; outra que se dizia de mais antiga ascendencia, aparentando-se
+com gregos e romanos: mas a critica mostrou que isto era falso, a
+philosophia que, ainda sendo verdade, não era tal razão bastante para a
+preferencia. Esta é em resumo a historia das vicissitudes da arte.
+
+Ha ainda duas proposições no prologo da _Casa de Gonsalo_ as quaes a
+Commissão intendeu que não devia deixar passar sem fazer sobre ellas
+alguns reparos. Consiste a primeira em dizer que os modernos destruiram
+o principio do desenvolvimento logico dos caracteres, ou como o auctor e
+a sua eschola lhe chamam--a unidade de caracter. De todas as accusações
+que se podiam fazer á eschola moderna esta é a mais infundada. Condição
+absoluta da arte actual é essa unidade dos caracteres, e neste ponto a
+Commissão não recearia d'eslabelecer parallelos entre os melhores dramas
+classicos e os dramas de segunda ordem, escriptos debaixo da influencia
+dos novos principios, certa de que a vantagem ficaria sempre ou quasi
+sempre aos ultimos. Consiste a segunda proposição em affirmar o auctor
+que todas as regras acabaram com Hugo e Delavigne: nisto ha uma
+falsidade e um êrro de historia litteraria. Falsidade porque não é
+preciso ter lido senão os prologos de Victor Hugo ao _Cromwel_, e ao
+_Ruy-Blas_ para se ver que ainda o dramaturgo mais exaggeradamente
+liberal da eschola moderna estabelece regras, que a Commissão não avalia
+aqui, mas que incontestavelmente o são, boas ou más. Accresce que, sem
+falar numa grande multidão d'escriptos sobre a arte dramatica publicados
+ha vinte annos, basta ler as revistas litterarias francesas, alemãs, e
+inglesas, para ver que a critica tem já assentado muitos principios
+incontestaveis para julgar as producções do theatro, e que se em outros
+ha diversidade de opiniões, não é isso de admirar numa eschola que conta
+apenas vinte annos como theoria, e que é obrigada a provar a justiça da
+sua causa com razões e ao mesmo tempo com obras, ao passo que os
+defensores da antiga, firmados em monumentos e glorias seculares,
+desobrigados, e por ventura incapazes de crear obras de arte, não tem
+outro trabalho senão defender e amparar seus principios, principios que
+apesar d'esses monumentos, d'essas glorias, d'essas defensões, e sobre
+tudo de sua antiguidade, não deixam muitas vezes de ser incertos e até
+contradictorios. Agora quanto ao êrro de historia litteraria a Commissão
+julga escusado dizer mais nada, senão que quem pôe em parallelo
+Delavigne e Hugo, como egualmente destructores da arte antiga, mostra
+que nem os comparou, nem os leu, e por certo nem um nem outro lhe deve
+ficar obrigado. Delavigne, o academico Delavigne, que treme a cada passo
+de pertencer ao seu seculo, não se julgaria em decente companhia
+vendo-se ao lado de Victor Hugo, e este, que vai por ventura mais longe
+do que devera, crer-se-ia sujo de todo o pó dos bacamartões pedantes dos
+commentadores d'Aristoteles, achando-se collocado a par do classico
+auctor da _Princesa Aurelia_, do bucolico auctor do _Pariá_.
+
+Entremos no exame da comedia.
+
+O auctor tomou por objecto nesta composição o converter em uma acção
+dramatica um dos antigos proverbios populares, especie de formulas com
+que o vulgo exprime muitas vezes idéas complexas. É este o que se
+applica a qualquer casa mal governada e arruinada por toda a casta de
+desvarios: _É a casa de Gonsalo_:--eis a expressão proverbial; eis o
+pensamento que presidiu á composição do drama. Vejamos como o auctor o
+tractou.
+
+Um viuvo e uma viuva são casados em segundas nupcias: ella tem uma
+filha. D. Farnacia é o nome da mulher: elle chama-se Gonsalo--pobre
+homem que se deixa governar inteiramente por D. Farnacia prezada de
+fidalga, caprichosa, e gastadora. Gonsalo instigado por D. Farnacia pôs
+na rua seu filho Bernardo, moço tão sisudo e composto, quanto Leonor,
+filha de D. Farnacia, é tola, namoradeira e desassisada.
+
+A familia compõe-se, além dos tres, Gonsalo, D. Farnacia e Leonor, de um
+irmão e de uma sobrinha de D. Farnacia, chamados Bonifacio e D.
+Dorothea; aquelle é um peralvilho, frequentador de botequins, e que não
+pensa senão em acceitar cartas d'amores; esta é uma presumida de sábia,
+que em todos os seus discursos mistura palavras e phrazes francesas, e
+que só lê novellas, citando a torto e a direito quantos destemperos tem
+lido. Um creado e uma creada desobedientes, ladrões, e desavergonhados
+completam aquella ninhada domestica.
+
+Gonsalo tem um amigo, Florencio, a quem deve obrigações, e dinheiro,
+homem prudente e sério, que pretende tirá-lo da vida de abjecção em que
+vive, aconselhando-o sempre para que tome o logar de verdadeiro dono da
+casa, e seguindo-se d'isto o ser cordealmente odiado por D. Farnacia.
+
+Dois alindados frequentam esta casa, ou antes torre de Babel--Constando
+e Carlos: o primeiro é o namorado de Leonor.
+
+É com estas personagens, que o auctor conduz a comedia a seu fim, e a
+Commissão seria demasiado prolixa se quisesse historiá-la por todos os
+cinco actos em que elle a dividiu. Bastará dizer que á fôrça de gastos
+loucos, Gonsalo se acha finalmente no maior apuro, do qual o livra o
+expulso e maltractado Bernardo, obtendo uma provisão para administrar a
+casa paterna, ajudado por Florencio, que sendo o principal credor exige
+para seu filho a mão de Leonor, e faz casar Bernardo com Dorothea, a
+qual tem um avultado dote, a que por isso era requestada por Carlos,
+amigo de Constancio, e que juntamente com elle frequentava a casa de D.
+Farnacia.
+
+Á Commissão parece que o drama é em geral bem conduzido, o dialogo
+excellentemente travado, a successão das scenas logica e natural, e a
+linguagem accommodada ao assumpto, e com poucas excepções, limpa e
+corrente. Estes são os meritos que julgou se davam no drama, e pelos
+quaes seu auctor é digno de ser louvado.
+
+Infelizmente partes e circumstancias são estas que não bastam.
+Obte-las-ha para as suas composições todo aquelle que escrever
+fortalecido de estudo: mas só o genio dá vida ás obras d'arte. As fórmas
+exteriores póde-as traçar mão amestrada; vida só a infunde o alento do
+poeta, que se assimelha ao sôpro vivificante de Deus.
+
+Os caracteres, as situações, e os pensamentos das personagens de
+qualquer comedia abrangem forçosamente toda a graça comica que nella se
+póde dar; e nesta não ha nem um caracter, nem uma situação, nem um
+pensamento verdadeiramente comico. D'isto ficarão persuadidos aquelles
+que se derem ao trabalho de ler o drama; a Commissão está prompta a
+mostrá-lo quando haja quem o conteste.
+
+Do que fica ponderado se conclue naturalmente que este drama, falho dos
+meios de attrahir a attenção dos espectadores, correrá grande risco em
+ser posto ás provas públicas, e portanto a Commissão louvando o que ha
+bom nelle, isto é, o que propriamente se póde chamar a sua parte
+material, deixa ao Conservatorio o resolver o que mais justo e acertado
+fôr quanto ao destino que se lhe deve dar.
+
+Conservatorio Dramatico, 17 de Julho de 1840.--_A. Herculano_, Relator.
+
+
+
+
+*Elogio historico*
+
+de
+
+SEBASTIÃO XAVIER BOTELHO
+
+Memorias do Conservatorio
+
+1842
+
+
+
+
+*Elogio Historico*
+
+de
+
+SEBASTIÃO XAVIER BOTELHO
+
+
+Senhores:
+
+Honrado com o encargo de revocar hoje a memoria de um nosso illustre
+consocio que a morte nos roubou, não posso deixar de sinceramente
+lamentar que este Conservatorio quisesse que eu, intendimento humilde,
+va bater á porta do sepulchro para através d'elle citar uma nobre
+intelligencia, que repousa no seio de Deus, e dizer-lhe--Vem ouvir o
+processo da tua gloria, o julgamento sobre o modo porque desempenhaste a
+tua missão intellectual na terra.
+
+Porque, Senhores, ou muito me engano, ou é esse o principal, diria quasi
+o unico mister que nos incumbe, aos que fomos escolhidos para falar
+neste dia e neste logar dos nossos fallecidos consocios. Em nome das
+letras, d'essa revelação formosa e sancta do ingenho humano, nos
+ajuntámos neste recinto: por ellas existimos como corporação: ellas nos
+fizeram irmãos e eguaes. Pelas letras as differenças voluntarias e
+incertas do mundo--as riquezas, o poder, os nomes d'avós, se convertem
+em palavras sem sentido. A democracia absoluta, sonho impossivel,
+talvez, de realizar na sociedade civil, torna-se entre nós uma condição
+d'existencia. Nas associações litterarias a vida é de certo modo
+immaterial, e as nossas distincções são unicamente as da superioridade
+do ingenho. Mas a ultima instancia onde taes preferencias se julgam é o
+tribunal da posteridade. Só a morte abre de par em par as portas d'este,
+e é ahi que definitivamente se resolve se o nome do que passou será
+lançado na herança dos seculos, na memoria perenne dos homens, ou se tal
+nome deve esquecer como esquece o som derradeiro da loisa caindo sobre a
+borda do sepulchro, onde foi repousar o que não pôde ou não soube
+conquistar a immortalidade.
+
+É por este caracter democratico, de todas as corporações como a nossa,
+porque alheias inteiramente ás condições da sociedade civil, que me
+parece não ser nos archivos d'esse pobre mundo das vaidades, a que
+chamam realidade, onde hajamos de ir buscar documentos e testemunhos,
+que provarão muito para outro genero de renome e gloria, mas que de
+nenhum modo vem a ponto para as canonizações litterarias, no momento
+solemne em que devemos preparar o processo pelo qual a posteridade tem
+de julgar intelligencias ja livres d'este sudario da vida. Antepassados,
+haveres, grandeza, cargos, que nos importam? Outra é a nossa missão:
+temos de perguntar ao que traçou algumas palavras no livro eterno e
+immenso da arte e sciencia humana--Que foi o que fizeste?--Que era o que
+podias fazer? Isto é o que nos pertence, o resto á sociedade.
+
+O nosso fallecido consocio, que passando na terra escreveu nesse livro
+uma das suas formosas paginas, foi o sr. Sebastião Xavier Botelho. Para
+se poder avaliar o merito d'esta escriptura de que preciso eu?--De
+lê-la.
+
+Difficultosa é similhante leitura; porque as palavras do homem de
+ingenho são concisas e profundas: soletram-nas a custo os que não
+possuem esse dom de cima; e, sem humildade hypocrita, eu sei que
+pertenço a estes.
+
+A culpa do máu desempenho será, pois, vossa, Senhores, que medistes
+erradamente as minhas forças pelos meus e pelos vossos desejos.
+
+A historia intellectual e intima do sr. Botelho divide-se em dois
+grandes periodos: corre o primeiro desde a epoca em que concluiu os seus
+estudos de jurisprudencia na Universidade de Coimbra até áquella em que
+importantes e laboriosos cargos, que lhe foram confiados, o
+constrangeram a dedicar-se inteiramente ao cumprimento de suas
+obrigações, e a deixar os ocios litterarios da juventude: o segundo
+abrange o tempo que discorreu desde esta epocha até á da sua morte. O
+primeiro periodo foi para elle o do tracto e cultura das boas lettras: o
+segundo o do estudo dos homens e das coisas, da sciencia, da historia e
+do governo. No primeiro, o Sr. Botelho foi poeta: foi o homem do ideal:
+no segundo foi historiador, economista, e politico; foi o homem do mundo
+real. É nestes dois periodos que eu considerarei as obras da sua
+intelligencia, e procurarei responder á pergunta--Que serviços fez o sr.
+Botelho ao progresso do espirito humano?
+
+As primeiras composições poeticas do nosso illustre consocio foram
+escriptas nos fins do anterior ou nos comêços do presente seculo:
+d'estas nenhuma viu a luz publica: as que se lhes seguiram, pertencendo
+pela maior parte á litteratura dramatica, tiveram o seu primeiro modo de
+publicação--o da scena: mas o unico penhor de duradoiras recordações e o
+unico fiador da perpetuidade da gloria, essa fonte de toda a sciencia e
+civilização modernas--a imprensa--faltou-lhes como ainda ha dez annos
+faltava commumente ás obras dos nossos bons ingenhos que nasciam e
+morriam sem a conhecerem; porque dois anjos máus a guardavam, os quaes
+tinham por nome--censura e ignorancia.
+
+Por esses archivos de theatros jazem sepultados os dramas do sr.
+Botelho, dos quaes apenas é imperfeitissimamente conhecida a tragedia
+_Ignez de Castro_, e um pouco melhor a _Zulmira_, melodrama de que
+restam varias copias.
+
+_Zulmira_ é, como todos os melodramas, uma composição hybrida,
+monstruosa, e falsa á luz dramatica; mas considerada como um hymno aos
+nobres affectos do coração humano ella nos revela quanto era poetica e
+formosa a alma do Sr. Botelho. Poucos versos haverá da epoca em que foi
+escripta, a não serem os do melhor metrificador português--Bocage--nos
+quaes se encontre tanta suavidade, melodia e arte e ao mesmo tempo tão
+generosas idéas, tão affectuoso sentir, expresso muitas vezes com
+admiravel precizão. Não é um drama a _Zulmira_!--E que importa? _Esther_
+é uma elegia; _Athalia_ uma epopea; mas elegia e epopéa sublimes de um
+poeta divino!
+
+Mais bem salvas para a historia das letras foram as numerosas versões
+dramaticas do sr. Botelho--amparavam-nas, seus originaes, largamente
+conhecidos no mundo. Alem de muitas operas de Metastasio e de quatro
+tragedias de Racine, _Berenice_, _Mitridates_, _Phedra e Bajacéto_, elle
+transportou para a scena portuguesa quasi todos os mais afamados dramas
+de Voltaire, como _Mahomet_, _Zaíra_, _Bruto_, _Marianna_, _Édipo e
+Semiramis_, aos quaes accresceram muitos outros de menos celebres
+auctores dramaticos.
+
+Já vedes, Senhores, quantas e quão largas vigilias o mancebo poeta
+consagrou ao theatro; as suas poesias volantes sabe-se que foram muitas,
+mas do naufragio do tempo apenas salvou a imprensa a epistola a Bocage,
+a qual mereceu os extremados louvores que este grande poeta dá para me
+servir da linguagem arcadica d'aquelles tempos, ao vate Salicio. Vate
+Salicio era o Sr. Botelho, que ainda então os poetas, por obrigação de
+seu officio, se desbaptizavam do nome christão, íam em espirito
+pastorear á velha Grecia, e voltavam de lá não poetas, mas pastores e
+vates.
+
+Procurei, Senhores, lembrar-vos quão extensos foram os trabalhos
+poeticos do Sr. Botelho. Resta-me, todavia, mais difficultosa tarefa, o
+recordar-vos qual foi a significação litteraria d'elles--o averiguar
+como e quanto o nosso fallecido consocio contribuiu para os progressos
+da arte nesta tão poetica terra de Portugal.
+
+Poeta elmanista, e um dos primeiros e mais distinctos sectarios d'esta
+eschola, que rainha da poesia, e dispensadora de gloria regeu sem
+partilha de imperio os dominios da arte, é no julgamento d'essa eschola
+brilhante que está o seu julgamento. Os juizos individuaes em historia
+litteraria são tão falsos como em historia social: o individuo que vai á
+frente da sua epoca, não é mais que a idéa predominante d'ella encarnada
+no homem. Julguemos a idéa, e teremos julgado o symbolo humano que a
+representa. Se aquelle que passou não a comprehendeu, não o chamemos
+tambem ao tribunal da posteridade, e deixemo-lo repousar na paz de seu
+esquecido sepulchro.
+
+Mas o pensamento progressivo que agitou uma geração ou um seculo não vem
+só: vem com elle os pensamentos dominadores das gerações ou dos seculos
+antecedentes que o produziram, e vem os que elle gerou. Sem isso o
+processo será incompleto: errada provavelmente a sentença. Expressão de
+uma serie contínua e eterna de idéas, grandes porque veem de Deus, o
+progredir humano revela o elemento intellectual de cada uma das nossas
+transformações successivas em todas as formulas da vida. Esse elemento,
+essa idéa prolifica, busquemo-la em todos os aspectos da civilização,
+que em todos a havemos de encontrar. Nas instituições, e nos costumes,
+na sciencia, e na arte, lá está escripta--escripta pela mão do anjo do
+Senhor, que deixa cair sobre a terra uma lagrima de dó, quando a mão
+d'algum louco crê que póde apagá-la, ou a voz do insensato se ergue para
+a desmentir, e nella desmentir o brado do genero humano.
+
+É na arte, á qual foi completamente dedicado o primeiro periodo da vida
+litteraria do Sr. Sebastião Xavier Botelho, que eu buscarei
+principalmente o pensamento ou facto intellectual que caracteriza e
+explica a sua epoca e a sua eschola, ligando esse facto com os que o
+precederam e com os que d'elle vieram. Oxalá que para animar-me em
+tractar um objecto acima de minhas forças me não desampare a vossa
+indulgencia!
+
+Vós sabeis, Senhores, que durante a primeira metade do decimo sexto
+seculo uma grande revolução se operou e completou no Meio-Dia da Europa.
+As sociedades feudaes e municipaes, estas, no seu crescer, aquellas na
+sua declinação, deram o ultimo arranco aos pés da sociedade monarchica.
+Toda a vida anterior das nações do occidente desabou após ellas. Entre
+nós mudou tudo: socialismo, sciencia, arte, caracter religioso. Ninguem
+curou d'isso. A robusta e intelligente monarchia d'esse tempo atirou á
+espantosa actividade de nossos avós tres partes do mundo para esmagar:
+cevou-a em poderío, e saciou-a de gloria. Compuseram-se então todos os
+aspectos da sociedade a exemplo da unidade monarchica: o senhorio feudal
+tornou-se dependencia completa: o municipio delegação: os parlamentos
+letra morta. A chronica, essa fórma tão viva, tão dramatica, tão
+nacional da historia, cedeu o campo aos Thucydedes e Livios modernos: o
+platonismo christão e espiritual, fugiu, combatendo como os Parthos,
+ante o aristotelismo argumentador e materialista: as artes plasticas
+seguiram de longe os destinos de suas irmãs d'Italia, onde as
+illuminuras aereas e incorrectas dos missaes e horas, desappareciam
+deante do pincel terreno e correcto de Rafael e as cathedraes
+mysteriosas e symbolicas se desmoronavam ao altear do templo de S.
+Pedro, prostituido á luz por Miguel Angelo: todas as artes se
+confessaram vencidas, na sua imperfeição e rudeza sublimes, pelos
+monumentos da arte antiga. O proprio christianismo se fez intolerante e
+sanguinario, como o polytheismo romano, o perseguidor dos martyres--e a
+inquisição restaurou o pretório. Finalmente a poesia nacional,
+balbuciante ainda, retrahiu-se ante o fulgor da litteratura latina. As
+instituições de Roma, a Roma dos imperadores, annullaram as nossas
+instituições primitivas, e a poesia romana mudou o caracter da poesia
+moderna. A sociedade reproduzia o pensamento que guiava o seculo. Deixou
+de ser christã e nacional, para ser pagã e peregrina. Roma que, viva e
+possante, não alcançara subjugar inteiramente este cantinho da Europa,
+cadaver já, profanado pelos pés de muitas raças barbaras, conquistou-nos
+com o esplendor da sua civilização, que resurgira triumphante. Netos dos
+celtas, dos godos, e dos arabes, esquecemo-nos de todas as tradições
+d'avós para pedirmos ás cinzas de um imperio, morto e estranho, até o
+genio da propria lingua!
+
+Mas essa civilização violenta, enxertada em arvore de diverso genero,
+devia tarde ou cedo ceder o logar a outra mais homogenea com as
+tradições e costumes, com as crenças e habitos dos povos modernos. O
+mundo antigo fôra condemnado por Deus: a sua condemnação era o
+evangelho. O ingenho humano pôde vestir-lhe o trajo dos vivos; mas por
+baixo d'este estava-lhe sobre o esqueleto mirrado o sudario dos mortos.
+Mais tarde ou mais cedo, repito, elle devia voltar á sua jazida.
+
+E a reacção não tardou os annos de tres gerações. O seiscentismo foi uma
+reacção.
+
+Ha ahi acaso quem duvide de que elle era uma revolta, senão contra a
+essencia da arte romana, de certo contra as fórmas exteriores d'essa
+arte? Bem sabeis, Senhores, que não é difficil prová-lo, e que entre a
+poesia anterior ao renascimento e a dos seiscentistas ha alguns
+caracteres analogos, e muitas tendencias similhantes. Não direi quaes,
+porque melhor o conheceis que eu--e porque preciso de approximar-me
+rapidamente á epocha em que viveu para honra das letras o Sr. Sebastião
+Xavier Botelho.
+
+Qual foi a origem do seiscentismo? A historia litteraria diz-nos que
+foram Marino, Gongora, e não sei quem mais. É uma d'aquellas falsidades
+historicas, que nascem do curto pensar. Nunca um ou alguns homens
+puderam assim mudar nem a minima das fórmulas sociaes, em cujo numero a
+arte de certo não é a ultima. São as gerações arrastadas e agitadas por
+idéas que nasceram e se derramaram insensivelmente, que fazem
+similhantes transformações. Esses cabeças d'eschola são o verbo da idéa,
+são os interpretes do genero humano--e mais nada.
+
+O seiscentismo foi uma resolução que falhou, uma tentativa de
+restauração da nacionalidade em litteratura, que não sendo acompanhada
+pela restauração social completa do modo d'existir português anterior ás
+influencias romanas, ficou aleijada e rachytica, e substituiu a uma arte
+antinacional, mas judiciosa e brilhante, outra falsa e além d'isso
+ridicula.
+
+A celebre Arcadia, e a influencia que esta corporação teve nas letras
+foi uma nova reacção litteraria, e o dogmatismo em que se restauraram as
+doutrinas romanas, posto que reflexas já d'Italia e de França, foi ainda
+mais intolerante e absoluto que na epocha do renascimento. O
+seiscentismo acabou ás mãos dos arcades, que restabeleciam o predominio
+da arte antiga e revocavam o pensar e o estylo dos poetas do tempo de D.
+João III e D. Sebastião, ao passo que o Marquez de Pombal procurava
+restaurar a esquecida robustez da monarchia com a austeridade dos seus
+principios administrativos, e com a acção vigorosa do seu governo de
+ferro.
+
+A monarchia do Marquez de Pombal era anachronica em politica: a
+restauração da arte romana era anachronica em litteratura. Ambas deviam
+necessariamente passar--e passar rapidas. Assim aconteceu. Além do
+anachronismo havia em ambas ainda outro elemento de dissolução. A
+fórmula politica nunca fôra tão absolutamente monarchica: a fórmula
+litteraria nunca fôra tão mesquinhamente romana. Nunca o motu-proprio
+fôra tão cabal explicação de todas as leis: nunca os nomes e exemplos de
+Aristoteles e de Quintiliano, de Horacio e de Virgilio, substituiram tão
+completamente o raciocinio na critica. Mas o Marquez de Pombal começava
+por discutir com a aristocracia e com a theocracia, e a Arcadia com o
+seiscentismo; os homens do futuro tinham portanto tambem o direito de
+discutir com elles. É o que tem feito e fará o nosso seculo.
+
+A Arcadia derrubara a poesia seiscentista: cumprira com sua missão.
+Depois dogmatizou e morreu. Foi d'inanição. Esta sociedade, tão activa,
+tão belligerante, tão ruidosa nos seus começos--expirou, e nem sequer o
+mundo litterario deu tino d'isso. Era que a Arcadia nunca propriamente
+vivera, porque nunca representara uma idéa progressiva.
+
+Foi depois d'ella que floreceu Bocage e a sua eschola, um de cujos
+luminares era o Sr. Sebastião Xavier Botelho. Resta-me trazer á vossa
+memoria o logar d'esse poeta e d'essa eschola nos annaes da arte.
+
+Bocage vinha depois de duas restaurações classicas, ou romanas;
+assistira ao derradeiro clarão da segunda, e fora educado por ella. Os
+seus primeiros poemas são moldados pelos dos arcades, mas já nesses
+poemas ha mais inspiração, porque Bocage nascera e não se fizera poeta,
+com se haviam feito aquelles, se exceptuarmos Garção. As variedades que
+gradualmente appareceram no seu estylo e pensar foram mui pouco
+distinctas, salvo na metrificação em que escureceu completamente os
+arcades, e na tendencia, visivel nas suas melhores composições, para
+substituir a mythologia pagã pela allegoria, o que deveu talvez á
+influencia dos poemas descriptivos franceses, a que o materialismo e a
+incredulidade do seculo XVIII tinham reduzido a poesia d'aquella nação.
+
+Mas é, Senhores, sob outro aspecto que importa considerar este homem
+extraordinario para avaliar a missão da sua eschola, e saber qual
+transformação o apparecimento d'ella veio produzir na arte.
+
+Na litteratura dos arcades, como nas litteraturas de epocha de D. João
+III e da épocha d'Augusto; a poesia tinha sido essencialmente cortesã,
+aristocratica, altiva. Os pastores da Arcadia nunca assistiram aos mais
+sublimes espectaculos do universo, nunca sentiram no coração essas
+paixões violentas que devoram as existencias. Que sabiam elles dos
+campos de batalha, das sedições, dos grandes crimes e das grandes
+virtudes? Elles ignoravam o que são lagrimas de desterro, o que são
+contentamentos de tornar a ter patria. Odios, fanatismos politicos,
+ancia de gloria popular, ambições, miserias humanas, não existiam para
+elles. Os mares e os seus terrores, as solidões profundas das serranias,
+o ruido das torrentes, o sibilar dos ventos por gandras bravias, não
+imaginavam o que fosse. As procellas emfim da natureza, e as mais
+terriveis ainda do espirito em que parece deleitar-se o poeta d'este
+seculo grave e triste, porque o converteram á melancholia e ao cogitar
+profundo os seus destinos solemnes--tudo isso era alheio á suave
+existencia dos bons arcades. Sacerdotes, magistrados, e servidores do
+estado, o seu monte Menalo era uma sala adornada de sedas e razes; a sua
+lyra ou rabil uma penna muitas vezes dourada; as suas inspirações uma
+vasta erudição. Assim os affectos e imagens dos seus poemas vacillavam
+entre a frieza e trivialidade, e a exaggeração e mentira--porque para
+elles as paixões e a natureza estavam nos livros. Os livros foram o seu
+universo.
+
+Bocage porém não era arcade. Era um homem do povo que alimentava no
+espirito todas as paixões violentas, e muitas vezes freneticas e
+desregradas do vulgo; e como o vulgo, ajunctava a feios vicios nobres e
+generosas virtudes. Era o trovador que improvisava os seus mais
+admiraveis versos no meio das multidões, á luz do sol ou dos astros da
+noite, nas orgias das cidades, nas festas campestres--em todos os
+logares, a todas as horas. Depois de Camões, Bocage foi o nosso primeiro
+poeta popular; como Camões, foi pobre, foi criminoso, e foi malfadado;
+adormeceu, como elle, muitas vezes no balouçar das vagas do oceano, e
+como elle orvalhou de lagrimas o pão do desterro, e veio morrer na
+patria sobre a enxerga da miseria. Similhante ao infermo do Evangelho
+passou pela terra abandonado, pobre, nú; mas como os antigos romeiros
+trovadores, alegrou ou commoveu os animos das classes não privilegiadas,
+ás quaes tres seculos tinham feito esquecer que a poesia era tambem e
+principalmente para ellas.
+
+Bocage é o typo mais perfeito da sua eschola, e de feito devia sê-lo.
+Ella popularizou a arte, porque poetou principalmente para o povo, e
+emballou ao mesmo tempo com as melodias da linguagem, com o sonoro do
+metro, essas almas rudes mais attentas á harmonia da fórma que ao
+poetico do pensamento.
+
+Feita assim a poesia plebea, duas consequencias deviam seguir-se d'esse
+passo gigante--a liberdade litteraria e o apparecimento do theatro. A
+poesia popular regeita como o povo, quando começa a pensar e deixa de
+querer, todas as leis que se fundam em auctoridade ou tradição e não em
+conveniencias; e o drama é a fórma mais completa da arte quando esta se
+faz burguesa. Não aconteceu todavia assim: a razão d'isso é obvia.
+
+A revolução litteraria que a geração actual intentou e concluiu, não foi
+instincto: foi resultado de largas e profundas cogitações; veio com as
+revoluções sociaes, e explica-se pelo mesmo pensamento d'estas. Mas nem
+Bocage, nem os poetas que o imitavam ou seguiam suas doctrinas, se
+doctrinas havia nessa eschola, curavam d'averiguar theorias estheticas;
+porque os tempos da grave discussão ainda não eram vindos. Poetas
+inspirados deixavam-se ir ao som das suas inspirações, viviam numa
+especie d'excitamento intellectual; o _estro_, em que tantas vezes
+falam, era uma realidade, e o improviso a forma commum em que davam
+vulto aos seus pensamentos e affectos. Esses ingenhos ardentes
+respiravam numa atmosphera d'enthusiasmo, d'ebriedade poetica.
+Similhantes á avesinha que solta o seu gorgeio como o aprendeu da
+natureza e do gorgeio paterno, elles, no seu poetar espontaneo,
+acceitavam sem exame as regras que lhe ensinara a Arcadia. E que podiam
+fazer os pobres poetas peões senão curvar a cabeça ao voto dos mui
+eruditos e cortesãos pastores do monte Menalo?
+
+Por isso a eschola bocagiana preparou só metade da revolução artistica:
+trouxe a poesia dos corrilhos e salões aristocraticos para a praça
+publica; mas não a fez nacional. Esta difficultosa empresa estava em
+grande parte guardada para um poeta tão romano em intenções e desejos,
+quanto português na indole do seu ingenho. Francisco Manuel foi quem
+acabou o que Bocage começara, completando pela nacionalidade o plebeismo
+da arte. Feito isto, seguia-se a revolução--e um poeta mancebo,
+desterrado como Francisco Manuel, rasgou a bandeira romana e hasteou a
+portuguesa. Os poemas--D. Branca e Camões--foram o signal da revolta. As
+tradições da Arcadia estavam irremissivelmente condemnadas.
+
+Foi esse incompleto da eschola elmanista que impediu nascesse no meio
+d'ella um theatro original. D'este houvera sido o fundador o Sr.
+Sebastião Xavier Botelho, se as suas tendencias, o seu agudo ingenho, e
+continua applicação a similhante genero de litteratura fossem ajudados e
+acompanhados pelo espirito da épocha, e pelo caracter da eschola a que
+pertencia. Debalde com a paciencia e tenacidade de poeta, que são as
+maiores d'este mundo, não levantou elle mão de uma empresa que era
+impossivel levar a cabo, e em que tinha ficado vencido o incansavel
+Manuel de Figueiredo e Garção, o poeta da Arcadia. A nacionalidade não
+existia ainda, e nacionalidade e theatro não ha separá-los. O theatro é
+para as multidões, e o povo não intende senão quem lhe fala na sua
+linguagem e sobre as suas coisas; das suas tradições e crenças, ou das
+suas paixões e da sua vida actual.
+
+Assim, com a logica do genio, o Sr. Botelho vira qual era a consequencia
+da revolução litteraria para que elle contribuia; conhecera que feita
+popular a poesia, e tirada dos aposentos de senhores e poderosos, ou do
+seio das academias para ser lançada no mundo--porque ella é do mundo,
+devia tomar a fórma mais adequada aos seus novos destinos; mas não viu,
+porque não podia ultrapassar as idéas do seu tempo, que a transição era
+incompleta. Foi por isso que se enganou nos meios, e pensou que trazendo
+á nossa scena as sublimes poesias liricas, epicas, e elegiacas, chamadas
+tragedias de Racine, e as dissertações dialogadas de philosophia
+incredula, chamadas tragedias de Voltaire, o theatro resurgiria; mas o
+theatro deixou-se ficar morto, porque não era a voz da individualidade
+nacional, que o revocava á vida.
+
+Eis aqui, Senhores, a luz a que eu vejo a eschola litteraria, a que
+pertenceu o Sr. Botelho no primeiro periodo da sua vida intellectual, e
+como me parece deve ser julgado elle proprio nas obras do seu ingenho. A
+essa eschola cabe um honrado logar na historia do progresso humano, ao
+Sr. Botelho toca especialmente o ter sentido, ou antes adivinhado, que,
+tornada popular a poesia, devia o drama vir a ser a sua mais completa
+expressão. Se não logrou seus desejos, segredo foi de cima. Não quis
+Deus que essa mente gigante viesse ajudar-nos a evangelizar a nova
+religião da arte com a eloquencia da palavra, e com a mais vehemente
+ainda, de obras dignas da immortalidade.
+
+Vistes, Senhores, o nosso fallecido consocio--lidando por honrar as
+letras portuguesas, e restaurar o theatro; viste-lo consagrando á poesia
+os annos proprios d'ella porque são os do imaginar; ve-lo-heis agora
+applicando na edade madura a meditação, a energia do seu vigoroso
+talento, e a experiencia alcançada no serviço da patria, a estudos
+positivos, ao desenvolvimento das mais graves questões sociaes. O poeta
+affectuoso, delicado, harmonioso, converteu esse ingenho de que a
+natureza tão prodigamente o dotara, á philosophia politica, e nesta nova
+carreira do mundo positivo, quasi posso dizer, escureceu a reputação que
+anteriormente adquirira no mundo da idealidade.
+
+Foi na sua demorada rezidencia na banda oriental das nossas desprezadas
+colonias africanas, como governador de Moçambique e dos vastos
+territorios adjacentes, que o Sr. Botelho colligiu os apontamentos e
+noticias para a sua Memoria estatistica sobre os dominios portugueses na
+Africa Oriental. Juiz incompetente, nada direi, Senhores, quanto á
+materia do livro: escripto por um homem da capacidade do Sr. Botelho, e
+talvez em grande parte naquellas mesmas provincias, facil é de suppôr
+qual seja o seu valor intrinseco. Violentamente acommettida a obra em um
+dos principaes periodicos litterarios d'Inglaterra, a Revista
+d'Edimburgo, tal e tão cerrada de razões e provas foi a resposta do Sr.
+Botelho, que não houve mais replicar, não sei se com quebra do orgulho
+inglês. Acêrca da doutrina do livro, é esta em meu intender a mais cabal
+defensão.
+
+O que porém, naquelle precioso volume chega a causar uma d'essas invejas
+que não deshonram, porque são nobres e honestas, é o estylo e a
+linguagem d'elle. Tão sua tinha feito o Sr. Botelho esta formosa lingua
+portuguesa, tão elegante e fluente é o seu descrever e narrar, que
+difficultosamente lhe levarão vantagem os nossos principaes prosadores.
+Ha no livro do Sr. Botelho uma circumstancia que muitos teem notado:
+paginas inteiras das relações dos naufragios, principalmente das que
+escreveu o celebre Diogo do Couto, se acham ahi reproduzidas
+textualmente. Estas paginas, o mais exercitado leitor do Couto não será
+capaz de as distinguir entre as do nosso illustre consocio, tão
+irmão-gemeo é o seu estylo e linguagem com os d'aquelle admiravel
+historiador. Ou esse apparente plagiato fosse uma prova incontestavel,
+que o Sr. Botelho nos quisesse dar, de que o seu talento e saber o
+egualavam com os nossos melhores classicos, ou fossem reminiscencias
+involuntarias (que não precisava elle d'alheios haveres para ser
+abastado) é indubitavel que tal circumstancia basta para caracterizar a
+alteza a que chegara como prosador aquelle de quem como poeta dissera
+Bocage:
+
+O solemne idioma, o tom dos numes,
+A voz que longe vai, que longe sobe,
+Que sôa além do mundo, além dos tempos.
+
+Esta importante Memoria foi coordenada e concluida no periodo que
+discorreu desde 1828 até 1833, em que o Sr. Botelho esteve inteiramente
+afastado dos negocios publicos. Precedeu pois a sua composição aos
+opusculos politicos do nosso fallecido consocio, por isso a mencionei
+primeiramente. Estes opusculos são, a Carta a S. M. I. o Duque de
+Bragança, impressa em Londres em 1833, e as Reflexões Politicas
+publicadas successivamente no seguinte anno. Escriptos com a singeleza e
+sincera liberdade de homem que sentia bater dentro do peito um coração
+português, esses opusculos são, litteralmente considerados, uma nova
+corôa para o Sr. Botelho pela gravidade do estylo e pelo pensar profundo
+que nelles transluz. Versam sobre importantes successos da época em que
+foram publicados. Nesse tempo de paixões violentissimas, taes escriptos
+pareceram talvez revelar em seu auctor demasiado apego ás coisas do
+passado, e ainda hoje assim parecerão a muitos. Todavia, confesso-vos,
+Senhores, que não vejo eu ahi senão novos motivos de venerar a memoria
+do nosso illustre consocio, e de admirar a sua consummada prudencia, e o
+seu amor de patria. É um filho extremoso que treme e desmaia vendo
+applicar a seu pai velho e infermo, medicina violenta, que póde salvá-lo
+ou arremessá-lo ao tumulo. E quem ousaria condemnar receios e hesitações
+de um filho, nesse arriscado momento?
+
+A epoca de 1833 foi a unica epocha revolucionaria porque tem passado
+Portugal, neste seculo. Nem antes, nem depois, quadra tal epitheto aos
+successos politicos do nosso país; porque só então foi substituida a
+vida interina da sociedade por uma nova existencia. As fôrças sociaes
+antigas desappareceram para dar logar a novas forças; destruiram-se
+classes; crearam-se novos interesses, que substituiram os que se
+anniquilaram: os elementos politicos mudaram de situação.--Podia esta
+mudança fazer-se lentamente e sem convulsões dolorosas, ou cumpria que a
+revolução fosse rapida e energica? Nem saber, nem vontade tenho eu para
+o resolver. O Sr. Botelho julgou que o mais conveniente methodo era o
+primeiro; disse-o sinceramente, e procurou prová-lo. Eis a substancia do
+que nesses opusculos póde parecer menos progressivo a esses cujo
+espirito vai após o futuro. Mas, na verdade, nem um só dos grandes
+principios de reforma, que então se converteram em factos, foi combatido
+pelo Sr. Botelho. A questão que elle tractou era a do tempo, e era a
+prudencia quem movia a sua penna. As diligencias para conter o rapido
+desabar das velhas instituições e costumes, era dever dos homens, cuja
+edade grave e capacidade extraordinaria abonava d'experimentados.
+Inquieto e ardente é por natureza o espirito da mocidade neste seculo de
+grandes idéas e de grandes transformações. Aos velhos, aos que, melhor
+que nós mancebos, conheceram a sociedade que expirou, incumbe
+apontar-nos o que ella tinha respeitavel e bom, e o que ha em nossas
+opiniões exaggerado ou perigoso, e a nós incumbe escutá-os com respeito.
+Esses homens falam-nos com a mão sobre o coração, porque entre elles e o
+julgamento de Deus, e da posteridade medeia só a grossura de uma loisa.
+Elles nos admoestam encostados á borda da sepultura, e raro será que até
+lá a hypocrisia ou a lembrança de mesquinhos proveitos acompanhem os que
+viveram sem mancha uma larga vida. Solemnes e venerandas julgo eu as
+palavras da velhice, porque a velhice é uma especie de sacerdocio, e
+quando o ancião se ergue para soltar um brado de reprovação, se
+escutarmos esse brado, elle poderá contribuir mais para o verdadeiro
+progresso do que se os ultimos homens da sociedade extincta saudassem
+covardemente a victoria das novas idéas; se caminhando para a morte,
+imitassem os gladiadores de Roma, nos circenses do triumpho, que nesse
+momento supremo saudavam os Cezares vencedores com aquellas horriveis
+palavras: «Salve, Cezar! Os que vão morrer te saúdam!» Arriscar-se-ía
+com isso a ser despenho o nosso progresso, e ao despenho segue-se ou o
+perecer no abysmo, ou um doloroso retrogradar.
+
+Considerados a esta luz, os opusculos politicos do Sr. Botelho não são
+mais que o complemento de dilatados trabalhos encaminhados
+constantemente ao aperfeiçoamento intellectual dos seus compatricios.
+Poeta na mocidade, bem mereceu da arte: historiador e estadista na edade
+grave, mais bem mereceu da patria por escriptos proprios d'essa épocha
+da vida. Nós que o tractámos, que o vimos no meio de nós, que com
+saudade nos lembramos do seu mérito, fazemos-lhe inteira justiça.
+Far-lha-ha tambem a posteridade--e mais completa; porque se como homem
+da arte e da sciencia tão honrado nome deixou entre nós, que será para o
+mundo, que além d'essas razões de lhe venerar as cinzas, tem a rica
+herança dos exemplos de virtudes domesticas, d'amor de patria, de
+serviços ao estado, emfim de um nobre proceder--como homem, como pai de
+familia, e como cidadão? Os vindouros, que não nós, porão o cimo e
+remate ao formoso monumento da sua glória.--_Disse_.
+
+
+
+
+*D. Maria Telles*
+
+DRAMA. EM CINCO ACTOS
+
+PARECER
+
+Memorias do conservatorio
+
+1842
+
+
+
+
+*D. Maria Telles*
+
+DRAMA EM CINCO ACTOS
+
+PARECER
+
+
+A Secção de Litteratura encarregada por vós de dar um parecer que sirva
+de texto á discussão dos meritos ou demeritos do drama--_D. Maria
+Telles_--que concorreu aos premios, offerecidos por este Conservatorio
+para animar os nossos auctores dramaticos; vem apresentar-vos por minha
+intervenção as reflexões que lhe occorrem sobre a materia, e que
+rectificadas e ampliadas pelas dos outros membros d'esta Academia, devem
+produzir a final um juizo prudente e acertado que sirva não só para em
+especial determinar o valor litterario d'esta composição, mas para
+illustrar os noveis que commettem tão difficil genero de litteratura.
+
+_D. Maria Telles_--é um drama historico--historico ao menos na intenção,
+de seu auctor.--A acção e a época escolhida pelo poeta, é bem conhecida.
+A historia da formosa irmã da nossa Lucrecia Borgia--de D. Leonor
+Telles--é uma d'aquellas biographias que encerram um só facto; mas que
+por esse facto são perpetuamente celebres. Não ha ninguem que ignore com
+que arte infernal a adultera D. Leonor sabia obter sempre a satisfação
+das suas paixões: entre estas houve uma que era pura, o unico pensamento
+sancto e suave que mora no coração d'essas hyenas com gesto humano
+chamadas Telles ou Borgias, as quaes felizmente raro apparecem no mundo.
+Este affecto era o amor materno. Devia ser vivo e profundo, se o
+avaliarmos pelos crimes que D. Leonor commetteu para segurar na cabeça
+de sua filha D. Beatriz a coroa de D. Fernando, que se cria seu pai e
+que talvez o seria. O Infante D. João era um obstaculo que podia
+oppor-se aos intentos d'aquella mulher diabolica. Como livrar se
+d'elle?--Convertendo-o em um grande criminoso. Foi então que para o
+perder lhe soprou na alma as duas paixões mais ferozes do coração
+humano--a ambição e o ciume--e D. Maria Telles foi assassinada pelo
+marido porque D. Leonor precisava do seu cadaver para calçar a estrada
+por onde D. Beatriz devia subir ao throno. É este assassinio o desfeixo
+a que nos conduz o drama: os acontecimentos que o prepararam são a tela
+onde se desprega o lavor da imaginação do poeta.
+
+Os caracteres introduzidos neste drama são o de D. Maria Telles; o do
+Infante D. João: o de D. Lopo Dias de Sousa, filho de D. Maria e de seu
+primeiro marido: o de Garcia Affonso, Commendador d'Elvas; o de João
+Lourenço da Cunha, marido de D. Leonor Telles; o de D. Fernando I; o de
+D. Leonor; o de Vasco, pagem de D. Leonor, e o de Fr. Soeiro, Director
+espiritual, segundo parece, de D. Maria Telles. Um carcereiro, Damas,
+Cavalleiros, povo, constituem isso a que se chama cheios, comparsas, ou
+personagens mudos.
+
+Não se póde na verdade negar ao auctor d'esta composição uma grande
+ousadia litteraria em ajuntar no seu quadro tantos vultos difficultosos
+de desenhar, e que por ventura seriam rebeldes aos pinceis de grandes
+mestres. Vejamos como elle resolveu o seu problema dramatico
+relativamente aos caracteres principaes.
+
+D. Maria Telles era uma formosa viuva, de quem o Infante D. João se
+enamorou. Os affectos do Principe só acharam correspondencia quando
+prometteu casar com ella, e o casamento effectuou-se, porque a paixão do
+Infante era ardente, mas d'esse ardor um tanto brutal proprio de uma
+Côrte dissoluta como a de D. Fernando, e d'uma épocha em que o amor
+demasiadamente metaphysico nos escriptos dos trovadores, era assás
+grosseiro na realidade dos costumes. As probabilidades todas são que
+similhante consorcio foi do lado de D. Maria Telles um calculo
+d'ambição, e do lado do Infante um meio de satisfazer seus desejos. Isto
+é o que resulta da historia. Mas o auctor podia substituir este
+argumento historico pelo de um amor talvez mais lyrico, mas por ventura
+não mais dramatico. O que não devia era dar a esse amor a fórma e
+expressão que lhe deu. Expliquemo-nos.
+
+D. Maria Telles não era uma donzella na primavera da vida: era uma dona
+entrada já naquella edade a que se póde chamar o outono da formosura. O
+auctor nesta parte acceitou o argumento da historia, introduzindo no seu
+drama o Mestre de Christo, mancebo de dezoito ou vinte annos, filho de
+D. Maria Telles. Forçosamente esta passara por isso o viço da mocidade.
+O seu amor portanto devia ser intenso, mas grave: revelar-se
+profundamente nos factos e muitissimo pouco em discursos. Devia ser um
+amor que não tarda a transformar-se em amizade; que, por assim dizer,
+começa a ter pudor do si mesmo, porque as illusões da juventude teem
+quasi todas passado. Difficil é na verdade o pintar esse affecto severo
+e intimo; mas se já deixou de ser um merito vencer difficuldades
+inuteis, ainda é restricta obrigação do poeta o conhecer as phases do
+coração humano, e não as desmentir jámais porque a natureza é immutavel.
+O auctor sentiu ao que parece confusamente a verdade d'esta observação;
+quis dar gravidade ao caracter de D. Maria Telles: não lhe deu senão
+tristeza. Tristeza tanto quando se vai desposar com o Infante como
+depois que elle começa a afastar-se d'ella, e a dar-lhe não equivocos
+signaes de desamor. Porque está ella triste até á morte, segundo a
+expressão de Job, quando se approxima aos altares? É por certos
+presagios; é por sonhos; é por certo dizer do coração; é por vergonha
+que tem de seu filho. Afora a ultima, nenhuma d'estas razões é
+verdadeira, dramaticamente, e a tristeza fica inexplicavel, porque o
+pudor não é melancolia. Sereno devia ser o seu contentamento; mas devia
+ser contentamento. Não era nessa afflicção e lucto infundados que podia
+revellar-se a gravidade do caracter de D. Maria Telles, quando por outra
+parte todas as palavras d'esta mulher affectuosa, como o auctor a quis
+pintar, só condizem com o amor dos vinte annos que se dilata impetuoso
+até aos extremos horizontes da vida. Senão nos enganamos o caracter de
+D. Maria Telles está falsificado em relação á historia, e o que mais é
+em relação á natureza.
+
+O caracter do Infante apenas se póde dizer que existe: no primeiro
+apparece para dizer a D. Maria Telles que muito a ama. Das suas palavras
+não resulta individualidade; repete o que em similhante materia se diz
+desde o principio do mundo. No terceiro acto onde torna a apparecer, é
+ameaçado e affrontado por João Lourenço da Cunha, e fica impassivel,
+salvo quando este, provavelmente aborrecido de tanta tranquillidade,
+volta as injurias e feros contra D. Leonor que está tambem presente. É
+então que o Infante arranca da espada; mas el-rei acode: um dialogo se
+trava entre este e João Lourenço. E o Infante? Não sabemos mais d'elle,
+senão no V acto em que já quasi persuadido de que sua mulher é infiel,
+encontra as provas suppostas d'essa infidelidade. Desde este momento não
+é mais possivel o desenhar D. João; porque a furiosa cholera que o
+domina o torna necessariamente similhante a qualquer outro homem em
+situação analoga. A honra offendida pede sangue; é um pensamento
+doloroso moralmente necessario á situação que depois d'isso actua no
+drama, não a individualidade d'um homem. Onde está portanto o caracter
+do infante?
+
+E todavia esse caracter lá tinha os seus principaes lineamentos traçados
+nos capitulos 98.^o e 99.^o da chronica de D. Fernando pelo grande
+poeta-chronista Fernão Lopes. O genio aventuroso, folgazão e ousado, do
+filho de D. Ignez de Castro, estudados nesses traços do grande mestre,
+dariam facilmente a individualidade do personagem ao auctor de--_D.
+Maria Telles_--e por certo que essa individualidade variando a monotonia
+dos caracteres produziria maior contraste, e por consequencia maior
+effeito no terrivel desfeixo do drama.
+
+A monotonia dos caracteres dissemos nós. A monotonia na invenção é na
+verdade o principal defeito d'esta composição. Ha ahi quatro ou cinco
+vingativos, quatro ou cinco vinganças empastadas por toda ella. Vinga-se
+o Infante de sua mulher, de quem tambem se vinga o Commendador d'Elvas,
+cujo amor ella desprezara. João Lourenço quer vingar-se de D. Leonor: D.
+Leonor de quasi toda a gente. D'esta identidade de situações moraes
+forçosamente devia resultar esse capital defeito.
+
+Os dois caracteres que nos parecem individuados são o de D. Leonor e o
+do D. Lopo Dias. D. Leonor é a mulher successivamente hypocrita e
+insolente: vil e orgulhosa; pobre de crenças moraes, rica de paixões
+violentas. É a D. Leonor da historia, salvo em uma ou outra scena; é o
+vulto principal do drama. D. Lopo é mancebo, poeta e triste como sua
+mãi, mas sobram-lhe para isso razões. O mesquinho está phtysico, pelo
+que se collige das suas palavras. Molestia é esta que tem levado muito
+poeta imberbe á sepultura. Feliz ainda no meio de seus males, a
+afflicção pulmonar que o consome é chronica e por isso lenta, por tal
+arte que esperando elle morrer já no primeiro acto, ainda no quinto,
+(cujos successos são posteriores mais d'um anno, aos do primeiro) D.
+Lopo vive, e ao caír o panno fica de saude, não perfeita; mas da saude
+que é compativel com a existencia de tuberculos pulmonares. Apesar de
+que a phtysica não pareça coisa excessivamente dramatica e possa ter
+algum perigo de ridiculo no theatro, é certo que essa vida cuja
+distancia da morte a victima póde quasi exactamente medir: esse caminhar
+para o sepulchro por uma estrada onde não ha de retroceder, e na qual
+não passa hora ou momento em que a campa senão contemple erguida e
+immovel no horizonte: esse oratorio peior que o do sentenciado, porque
+dura meses emquanto este dura apenas tres dias; tudo isso é tremendo e
+solemne, e o verdadeiro poeta poderá achar nas phases da longa e cruel
+agonia do phtysico situações dolorosas e terribilissimas. Alexandre
+Dumas as achou num dos seus melhores dramas. Seguiu-o de longe o nosso
+auctor, mas nem por isso deixa este caracter de ser um dos mais bem
+sustentados em--_D. Maria Telles_.--Os affectos de Lopo Dias são
+generosos e puros: teem certa brandura de resignação, certa saudade de
+quem pela esperança vive já num mundo melhor, mas que ainda pela
+affeição filial está preso ás tristezas da terra. Este personagem é na
+verdade possivel e poetico, absolutamente falando. O seu unico defeito é
+o commum a todos; é não representar a épocha a que o poeta que o creou
+quis que elle pertencesse.
+
+Os outros caracteres do drama ou são nullos, ou reflexos mais ou menos
+pallidos dos que ficam avaliados. Os sentimentos de vingança que
+subjugam D. João Lourenço da Cunha e o Commendador d'Elvas, tornam
+confusos os traços de um com os do outro, apesar das diligencias que o
+auctor fez para lhes variar as situações; confusão esta que se augmenta
+com a analogia que ha entre ambos e os de D. Leonor e do Infante. Fr.
+Soeiro é perfeitamente nullo; e Vasco, seide de D. Leonor, é um caracter
+que não pode fixar-se por demasiadamente transitorio, posto que
+fortemente concebido. Se tivesse passado de um esboço seria talvez o
+mais dramatico de todos elles. Isabel emfim é a eterna confidente do
+theatro classico, cuja utilidade dramatica foi, é e será sempre passiva;
+substituição impertinente do monologo; especie de titere que se deixa
+mover á mercê do auctor, e que por mais que fale, se esforça ou chore,
+por via de regra, serve tanto para o andamento da acção como as polés em
+que se movem os bastidores.
+
+Notámos acima que os personagens d'este drama não representam a época a
+que historicamente pertencem: é este depois do uniforme, e confuso dos
+caracteres o maximo defeito d'elle. Nesta parte accrescentaremos algumas
+considerações que não parecerão inteiramente inuteis para os cultores
+principiantes d'este genero de litteratura. A epocha dos reinados de D.
+Fernando e D. João I é incontestavelmente a mais dramatica da historia
+portuguesa. São-no os factos politicos e a vida civil d'esse tempo: as
+pessoas e as coisas. A nobreza era chegada ao apogeu da sua grandeza,
+porque as instituições feudaes que se haviam misturado com a nossa
+primitiva indole social, tinham tocado então a méta do seu predominio:
+quando já a sua dilatada agonia começava no resto da Europa: o povo dava
+signaes exteriores de que existia, e existia robusto; a monarchia
+exgotava a sua generosidade e os testemunhos do seu temor para com a
+aristocracia na vespera de dar principio ao duello de morte para que ia
+reptá-la, e que devia durar cem annos. Nestes dois reinados operou-se
+uma transformação nacional: o fim do seculo XIV foi um periodo
+revolucionario: revolucionario não tanto para as pessoas como para as
+coisas; os elementos da vida social foram então chamados a uma grande
+lucta, e, como acontece sempre em similhantes situações, tanto os que
+deviam ser vencidos como os que haviam de ficar vencedores combateram
+energicamente. Os grandes vultos historicos d'esse tempo--os personagens
+extraordinarios, diriamos quasi homericos, que então surgiram--os
+caracteres profundamente distinctos, e altamente poeticos, quer pela
+negrura, quer pela formusura moral:--todos nasceram da situação social
+do país: foram o resultado e o resumo d'esta, e por ella sómente se
+podem comprehender, avaliar e explicar. Se porém essas imagens tão
+aproveitaveis para a arte, forem arrancadas do quadro em cujo chão e luz
+appropriados a ellas, unicamente se devem contemplar, ficarão
+convertidas em desenhos de morte-côr, e o que mais é, perderão os seus
+lineamentos caracteristicos; serão abstracções; serão quando muito
+objectos d'estudo para a physiologia das paixões: serão representantes
+do genero humano em geral, mas nunca de uma geração, de uma época, e
+d'um país: darão materia para o drama metaphysico, para o drama como o
+conceberam Goethe em _Ferv_ e _Betly_ ou na _Filha Natural_, e Byron no
+_Manfredo_; porém não para o drama historico, para o drama que se
+incarna na realidade, para o drama que não é um poema lyrico como a
+_Athalia_ ou uma amplificação brilhante como _Mahomet_, mas uma obra
+d'arte que toma por expressão a vida humana, e que é destinada para a
+scena.
+
+O titulo do drama historico dado ás composições mais notaveis neste
+genero, que no seculo passado e no presente tem apparecido na Europa,
+como _Goetz_, _Wallensteim_, _Hernani_, e tantos outros, não foi uma
+phantasia ou capricho dos eminentes poetas que as produziram ou dos
+criticos que as julgaram. Este titulo corresponde a uma realidade:
+representa uma theoria litteraria verdadeira e nova substituida a outra
+velha e falsa. O theatro antigo por via de regra era uma abstracção: os
+seus personagens são vultos por assim dizer desenhados na atmosphera, e
+que se movem nos raios do sol; não pisam a terra; não choram nem folgam
+humanamente; não descendem como nós de Adão; não estão sugeitos senão a
+certas condições da vida real. O dramaturgo antigo creava o caracter de
+um tyranno, chamava-lhe Nero; de um voluptuario, chamava-lhe
+Sardanapalo; de uma incestuosa chamava-lhe Phedra; de um hypocrita
+feroz, chamava-lhe Mahomet. Podia chamar-lhes outra qualquer coisa;
+buscar na historia ou fóra d'ella outros quaesquer nomes. _Constei
+sibi_: eis o que exigia d'esses caracteres a philosophia da arte.
+Satisfeita esta condição bem pouco importava se o personagem era romano,
+syro, grego, ou arabe. _Constet sibi_.--Pouco importava se as suas
+dimensões eram humanas. _Constet sibi_. Pouco importava quaes haviam
+sido as crenças, as condições da vida civil, os varios aspectos emfim da
+sociedade e da época em que o individuo que se arrastava para o theatro
+tinha vivido, e que forçosamente deviam modificar-lhe de certo ou certo
+modo as paixões ou os affectos, o pensar intimo ou o porte exterior.
+_Constet sibi_: era o que lhe pedia a arte antiga. E na verdade não era
+pedir muito. A arte moderna que os ingenuos e innocentes defensores do
+passado accusam de licenciosa põe apenas mil vezes mais duras condições
+aos seus sacerdotes; porque alem da constancia dos caracteres
+dramaticos, exige nestes circumstancias, que só o muito estudo e um
+ingenho profundamente synthetico póde fazer que se liguem ás obras
+filhas da imaginação do poeta.
+
+Se tão leves de soffrer foram outr'ora as condições dramaticas quanto
+aos caracteres, escusado parece dizer que foram nullas quanto á
+phisiologia intima do drama. Malbaratou-se toda a esthetica dos antigos
+nas fórmas materiaes e externas d'elle, na anatomia dos ossos e
+cartilagens. Os escriptores _licenciosos_ do seculo presente sentiram
+não tanto que esta anatomia era erronea, apesar de o ser muito, quanto
+sentiram que era incompletissima. Posto o principio incontestavel de que
+o drama não é mais do que a arte vasada no molde da vida social, tiraram
+o corollario forçoso de que era preciso primeiro que tudo estudar esta,
+e exclusivamente esta. A arte não se estuda; porque a arte é o ideal, e
+o ideal vem de Deus; é uma inspiração: o que se estuda são as formulas
+materiaes em que ella se revela, os typos em que se resume; para que
+estes possam ser claros e definidos como meios de communicação entre o
+poeta e o mundo. No drama a historia é a expressão da arte, é a voz
+articulada do homem inspirado. Elle deve por isso saber perfundamente a
+historia da épocha e do povo que vai alevantar do sepulchro, para servir
+d'interprete entre elle e as gerações que hão de escutar as suas
+revelações de poeta.
+
+Se os antigos pudessem ter adivinhado e seguido esta _licenciosa_
+theoria, os seus estudos não houveram sido apesar d'isso nem largos nem
+custosos. A historia era falsa como a arte. Reduzia-se a biographias
+soltas e incompletas; era tambem um aggregado d'abstracções; resumia-se
+nos factos politicos. A vida social passava desconhecida: o povo
+desapparecia nas sombras gigantes que derramavam em volta de si os
+homens eminentes. Ao passo, porém, que a arte se reconstruia,
+reconstruia-se a historia. Ao lado de Goethe e Schiller apparecia Herder
+e Muleer; ao lado d'Hugo, Guizot e Thierry. Ambas as refórmas se viram e
+vêem obrigadas a refutar o passado com as razões e com o exemplo. Mas o
+poeta é constrangido a encerrar-se na época e no país cuja historia se
+acha escripta por um systema racional, ou a ser ao mesmo tempo
+historiador e poeta, tarefa difficil debaixo da qual poucos hombros
+deixarão de vergar; mas que é indispensavel leve a cabo aquelle que
+quiser incarnar a sua obra dramatica na historia do passado, sob pena de
+cair no convencional e incompleto do antigo theatro, porque não basta
+sacudir o jugo dos preceitos pueris das poeticas para escrever o drama
+historico: importa redigir-lhe a formula, e esta não está em achar
+quatro datas, e seis nomes illustres, mas na resurreição completa da
+epoca escolhida para nella se delinear a concepção dramatica. Primeiro
+que tudo, importa que essa epoca se alevante, como Lazaro á voz ele
+Jesus, cheia de vigor e de vida.
+
+É de lamentar que os nossos mancebos, esperanças da litteratura patria,
+prefiram ordinariamente as epocas historicas que passaram para nellas
+traduzirem ao mundo os fructos do seu ingenho dramatico, tendo aliás
+para isso a vida presente que tambem é sociedade e historia. Não seria
+melhor que estudassem o mundo que os rodeia, e que vestissem os filhos
+da sua imaginação com os trages da actualidade? Não lhes era mais facil,
+mais agradavel até, este estudo feito no meio dos banquetes, dos bailes,
+das conversações, do ruido, do presente, no qual os leva
+irresistivelmente a lançarem-se a superabundancia de vida, o fogo da
+mocidade? Muito se enganam elles, crendo que acham a historia em alguns
+pobres livros historicos que por ahi existem. Não: a historia não está
+lá! Não, vós não achastes a formula material para a vossa idealidade; o
+vosso drama é a visão infernal mas ridicula de Perrault; é a sombra do
+cocheiro que alimpava a sombra de uma carruagem com a sombra de uma
+escova. Na vossa obra não ha drama porque na sua forma externa não ha
+realidade, e a expressão é o real. Para achar este cumpre ter o estamago
+e os braços robustos, os orgãos do olfacto endurecidos, a paciencia de
+ferro, porque é preciso revolver a grande lagem que cobre o cadaver do
+passado; é preciso aspirar o pó do sepulchro, deslizar prega por prega o
+sudario apodrecido das gerações extinctas: é preciso contemplar as
+formosuras das sociedades que se transformaram ou pereceram mas tambem
+apalpares cancros que as devoraram: é preciso contemplar seus monumentos
+sublimes de marmore; mas tambem ler lentamente os quasi apagados e
+barbaros caracteres dos seus pergaminhos, e as obscuras, tediosas e
+incertas sentenças da sua legislação; é preciso viver com os grandes
+d'outr'ora em seus paços esplendidos, mas assistir tambem ás miserias e
+agonias dos peões, cuja desventura faria hoje recuar de horror o maior
+malaventurado. Tudo isto é necessario, sem contar o grande e fatal risco
+de perderdes neste rude trabalho o que vale mais do que elle--a
+imaginação e a poesia. Deixai que outros a quem alguma vocação fatal
+leva para este genero de estudo, o mais tedioso talvez de todos, vos
+reconstruam os tempos que se dissolveram em pedaços. Então podereis
+livremente escolher a urdidura da vossa têa, e bordá-la com os ricos
+matizes das vossas inspirações.
+
+Que resulta de se escolherem para objectos de composições dramaticas
+successos e individuos pertencentes a uma geração e a uma sociedade cuja
+indole e modo de existir se ignora? Resulta cair-se no vicio do theatro
+antigo; fazer abstracções, e desmentir a verdadeira arte. É o que
+succede em--_D. Maria Telles_.--Ponham-se ahi em vez d'esses nomes tão
+conhecidos do fim do decimo quarto seculo, signaes algebricos: cortem-se
+todas as allusões aos acontecimentos politicos ou pessoas notaveis
+d'então, e o drama pertencerá á epoca e ao país que nos approuver. E
+porque? Porque falta ahi a individualidade portuguesa d'então: faltam o
+crer, os costumes, as relações sociaes d'essas eras. E sendo isto assim
+poder-se-ha dar a--_D. Maria Telles_--o titulo de um drama historico,
+que evidentemente quis seu auctor se lhe désse?
+
+Julgámos ser nossa obrigação dilatar-mo-nos nestas considerações sobre
+duas partes importantissimas de qualquer drama--os caracteres, e a côr e
+verdade historica e local, porque é preciso confessar que depois da
+restauração do nosso theatro, é sobre estes dois pontos que a critica
+litteraria attenta em demasia a averiguações, sobre a correcção de
+lingua, tem sido assás negligente e escaça. Resta agora examinarmos com
+a brevidade possivel a disposição ou enredo do drama, a propriedade do
+seu estylo, e a pureza da sua linguagem. A traça do drama é a seguinte.
+
+Primeiro acto.--O Infante D. João está a ponto de desposar-se com D.
+Maria Telles. Esta o espera no castello de Barcellos, onde a ceremonia
+do casamento deve celebrar-se a occultas, e alta noite, a despeito dos
+sagrados canones. A boa dona possuida de uma tristeza inexplicavel está
+acompanhada da sua confidente e ora na capella, onde se vê o tumulo do
+seu primeiro marido. Por Isabel manda chamar Fr. Soeiro para que venha
+animá-la e consolá-la, e fica sozinha. Chega seu filho D. Lopo Dias, D.
+Maria Telles lhe escondera o negocio do casamento, mas elle o aventara
+não sabemos como, nem o auctor o diz. Queixas do filho porque fica
+desamparado; razão tinha, attento o seu estado de phtysico. Promessas da
+mãi, de que toda a familia ficará junta, por que elle Lopo Dias e o
+Infante são os seus unicos amigos. _Ainda tendes outro_, lhe brada um
+cavalleiro de armadura negra e viseira callada que apparece á porta da
+capella. Dizendo e fazendo, ei-lo que entra. D. Lopo pergunta-lhe quem
+é: resposta; _sou um defensor de vossa mãi_. D. Lopo diz que lhe fica
+muito obrigado mas que ella não precisa de defensores. Insiste o
+desconhecido porque D. Leonor ha de persegui-la. Isso é a mim que
+toca:--acode D. Lopo. Com bom fundamento o affirmava, e por isso o
+cavalleiro não acertando a replicar-lhe vai-se ao tropheu d'armas que
+está sobre o tumulo de Alvaro Dias, pega na espada do defuncto e
+entrega-a ao mancebo recommendando-lhe que se mostre digno d'ella. A tão
+bom conselho não havia fazer reparos. D. Lopo promette dar-lhe o devido
+uso. Então o cavalleiro sai, não sem offerecer a D. Lopo o seu braço e
+espada para qualquer lanço apertado; já se sabe sem dizer quem é ou onde
+mora. Ido o cavalleiro, D. Maria pergunta ao filho quem seria aquelle
+homem, era melhor ter-lho perguntado a elle. Se o conhecesse como as
+suas mãos D. Lopo não responderia mais confiado: _É um homem que vos
+ama, e que vigia sobre vós_. Não diz isto porque o conheça: mas porque o
+sabe ab alto, a proposito do que vem uma dissertação sobre o dom
+d'adivinhar que teem os phtysicos. Saindo Lopo, volta Isabel com Fr.
+Soeiro: scena inutil.--Chega então o Infante, acompanhado do Commendador
+d'Elvas; colloquios amorosos. O Commendador Garcia Affonso nas visagens
+que faz, nos á partes que murmura mostra a raiva que lhe accende na alma
+o affecto dos dois conjuges, que finalizam o acto ajoelhando junto ao
+altar provavelmente para receberem a benção matrimonial de Fr. Soeiro.
+
+Este acto, afora a inutilidade da scena VI, involve grave falta de
+probabilidade. Como pôde um cavalleiro desconhecido entrar de viseira
+callada e depois da meia noite na capella de um castello do seculo XIV?
+Como rodou a ponte levadiça para lhe dar passagem? Que fazia o madraço
+do alcaide; que faziam os vigias das quadrellas, roldas e sobre roldas,
+que assim deixavam devassar a boa fortaleza d'el-rei de Portugal? Como
+entrou esse homem? Eis o que o auctor não diz, nem lhe fôra facil
+dizê-lo. Depois, é acaso natural que D. Maria Telles nem sequer deseje
+conhecer quem elle é? Homem que fosse, não descansaria sem o saber,
+quanto mais sendo mulher! D. Lopo indaga na verdade quem elle seja; mas
+contenta-se com uma resposta evasiva, e consente que o incognito lhe vá
+buscar a espada de seu pai, e lh'a entregue com a comminação de que ha
+de fazer bom uso d'ella. O melhor uso que D. Lopo naquelle momento podia
+fazer d'esse ferro era pôr-lho aos peitos para o obrigar a erguer a
+viseira. Sua mãi vai celebrar um casamento occulto, e é quasi na hora
+prefixa para a ceremonia que elle tolera venha um desconhecido devassar
+a capella, sem o obrigar a descobrir-se? A theoria de que os phtysicos
+adivinham será muito boa e verdadeira; mas a palhologia ainda não chegou
+a atinar com essa circumstancia nas affecções pulmonares, e os
+espectadores não poderão admittir a razão com que o auctor por bocca de
+D. Lopo pretende desculpar a inverosimilhança de tal procedimento, isto
+é, que elle já tem o que quer que seja d'alma do outro mundo, e que por
+isso sabe que o desconhecido é pessoa de confiança. O antigo theatro só
+consentia milagres em casos apertadissimos. _Nec Deus interrit nisi
+dignos vindice nodus_. A licenciosa eschola moderna em nenhum admitte
+taes meios, quer seja para conduzir o drama, quer para desfeixo d'elle.
+Natureza e verdade são os seus unicos elementos.
+
+Segundo acto.--Tem passado um anno. D. Maria Telles está em Coimbra com
+seu filho, e o Infante que já começa a esquecer-se de sua mulher anda na
+côrte. D. Lopo faz versos e carpe-se: D. Maria carpe-se e ouve-lh'os
+declamar. Mas como lagrimas e versos continuados são duas grandes
+canseiras, a pobre dama abandonada convida seu filho para irem
+espairecer suas maguas pelas margens do Mondego. A isto acode D. Lopo,
+que é melhor irem ao monte visitar a caverna do solitario.--Qual
+solitario? Logo o sabereis. D. Maria Telles faz suas objecções: a
+caverna do referido solitario ou _homem dos mysterios_ tem má nomeada:
+ninguem se atreve a chegar perto d'ella: a isto acode o poeta, com dizer
+que todos esses medos são sandices do vulgo, e que lá por certos
+barruntos que elle tem, adivinha que o solitario é pessoa de porte e de
+bondade. Desassombrada de seus temores D. Maria está a ponto de sair eis
+senão quando chega o Commendador d'Elvas com uma carta do Infante. Roto
+o fecho da carta com o punhal de Garcia Affonso, D. Maria lê o contheudo
+d'ella em voz baixa. A boa da carta era fria, fria como gêlo: nem uma
+palavra affectuosa! Apenas lhe diz sua mercê o Infante que não pode ir a
+Coimbra, demorado na côrte por negocios d'alta monta. Desesperação de D.
+Maria que sente por isto que vai morrer. Porque? Porque D. João, marido
+já de um anno, e preoccupado por graves negocios, não lhe escreve uma
+carta de amores, e não lhe declara que negocios são esses que lhe
+embargam os passos. Vêr a morte diante dos olhos; ficar desesperada por
+tal motivo seria loucura d'uma rapariga de vinte annos, mas em uma dona
+de trinta e seis é uma inverosimilhança inadmissivel. Se todas as
+mulheres casadas de mais de um anno morressem por não serem as cartas de
+seus maridos ausentes adubadas de amores e requebros: a proporção das
+viuvas com o resto da população seria mais descommunal e espantosa do
+que em Inglaterra a dos que morrem de fome com os que teem que comer.
+Quanto ao segredo que o Infante guarda sobre os negocios que o reteem,
+razão tinha D. Maria Telles, porque mencioná-los sem os particularizar,
+era fazer nascer desejos vãos á insaciavel curiosidade feminina, e
+todavia não podiam ser materias d'estado esses negocios?--não podiam ser
+coisas que nada importassem a D. Maria? Para um desmaio ainda a carta
+teria substancia se a dama fosse uma rapariguinha; mas para agonias
+mortaes em uma dona sisuda, como lhe chama Fernão Lopes, não havia ahi
+motivo. Por uns longes que se enxergam em dois á partes do Commendador
+vê-se que foi elle quem armou esta negregada invenção da carta, e que
+folga com o effeito d'ella. Se o auctor do drama tivesse concedido a D.
+Maria Telles mais uma mealha de senso commum, Garcia Affonso não teria
+mostrado ser na tal invenção da carta, senão um solemnissimo mentecapto,
+se a sua intenção era, como elle diz num monologo, vingar-se d'ella e do
+Infante.
+
+Lida a carta, D. Maria chama o filho para irem visitar o solitario,
+porque só nelle poderá achar consolações. Pois que tem o solitario (de
+quem ella ha um instante tremia de medo) com o desamor de D. João? O
+poeta, que fôra o movedor d'esta ida está prestes, e lá vão ambos por
+montes e valles em cata do mysterioso anachoreta.
+
+Não tardam muito a encontrá-lo. É apenas o tempo necessario para a
+mutação da scena, cair e levantar-se o panno; não para mudança de acto,
+mas de quadro. O solitario está na caverna falando a sós comsigo. De seu
+dizer consta que havendo amado D. Maria Telles, e não podendo obtê-la
+por ser já casada com Alvaro Dias de Sousa, casara com sua irmã D.
+Leonor, que o deixou para subir ao throno. É, portanto, o eremita--João
+Lourenço da Cunha, que lida com suas maguas, e que depois de invocar a
+morte e sonhar vinganças, o que não é a mais approvada disposição moral
+para esse transe tremendo, cai desfallecido sobre um rochedo. É neste
+ponto que chegam Lopo Dias e sua mãi. lista apenas entra, diz-lhe que
+vem trazer-lhe consolações. Impertinencia de mulher! Quem lhe disse a
+ella que o anachoreta de cuja caverna ninguem ousa approximar-se, entrou
+na vida eremitica por desventuras e não pelo arrependimento de seus
+peccados? Quem lhe dá a certeza de que poderá consolá-lo, ella que não o
+conhece, e que não sabe provavelmente o que lhe ha de dizer? Dar-lhe
+consolações?! De que genero e de que modo? Que affirmou ella ao sair de
+casa? Que vinha pedir e não offerecer consolo. Disse uma coisa sem
+sentido, sem verdade, e agora diz outra. O solitario offende-se da
+offerta e com razão. Affirmando-se porém na recem chegada, reconhece-a,
+e ella reconhece-o a elle.--Explicações mutuas. João Lourenço refere
+então como foi elle o cavalleiro d'armas negras que lhe appareceu na
+capella, e explica-lhe o proceder do Infante. Este occultou na côrte o
+seu casamento, e a mão da Infante D. Beatriz acaba de lhe ser
+offerecida. Cheia d'angustia, neste logar, justa e bem fundada, D. Maria
+Telles pergunta: e _acceitou-a_?--Uma voz que sôa na bocca da caverna
+responde--_Acceitou_!--É o Commendador d'Elvas que assoma involto numa
+capa, já se sabe, negra. D. Maria desmaia e cai o panno.
+
+Este desfeixo do acto é natural e dramatico, e a melhor coisa de todo
+elle. O Commendador vendo-a sair seguia-lhe os passos; escutou a
+conversação, e em seus pensamentos de vingança não consentiu que outrem
+desse a punhalada mortal nessa mulher de quem queria vingar-se. Aqui o
+efleito dramatico vem naturalmente da situação e caracter dos
+personagens. Quanto ás scenas anteriores parece-nos que estão abaixo de
+toda a critica.
+
+Acto terceiro.--D. Leonor está só debatendo-se com os remordimentos de
+sua consciencia; entra o Commendador d'Elvas. Vem trazer-lhe a noticia
+de que fez ao Infante a proposta do casamento com D. Beatriz, e que
+achando-o mau de resolver lhe dera suspeitas de que sua mulher o
+trahira. D. Leonor relucta contra esta nova calumnia: martyrizam-na os
+remorsos porque viu em sonhos os castigos que lhes estavam reservados no
+outro mundo a elle Commendador e a ella Rainha; nesses tormentos,
+conforme o direito, e em vista da nossa moderna jurisprudencia
+dramatica, ha pontas de rochedos em braza para arrastar o miseravel
+Commendador. O triplicado da punição; as pontas, os rochedos e as
+brazas, aterram-no, mas finge-se resoluto. Não assim a rainha a quem os
+sonhos pavorosos não podem esquecer. Segue-se uma lucta moral em que os
+insultos refervem entre os dois. O Commendador sai ameaçando a rainha.
+Apenas esta se acha só, entra João Lourenço da Cunha: scena violenta
+entre os dois em que a rainha successivamente treme, humilha-se,
+amaldiçoa e ameaça, e em que elle fala constantemente a linguagem do
+odio profundo. No meio da altercação sobrevem o Infante que tendo João
+Lourenço por morto, crê que é a sua alma em pena. Este o ameaça tambem
+por querer dissolver o matrimonio contrahido com D. Maria Telles. A
+rainha nega o casamento: João Lourenço injuria-a de novo, e o Infante
+arranca da espada. A ponto já de brigarem acode el-rei aos brados de D.
+Leonor. João Lourenço que enfiou a ladainha dos doestos affronta tambem
+D. Fernando que chega a levar a mão á espada, mas que lembrando-se de
+quem é, manda-o como era de razão, metter na cadêa. Partindo, o antigo
+marido da rainha, pergunta a si mesmo, quem, preso elle, defenderá D.
+Maria Telles. D. Lopo Dias apparecendo no fundo responde-lhe;--_Seu
+filho_!--E cai o panno.
+
+Este acto, tem entre todos como é evidente, a primazia no desalinhavado
+e absurdo do desenho, posto que não lhe falta merito ás vezes na
+execução das scenas. Primeiramente como é crivel que tendo Garcia
+Affonso sido encarregado pela Rainha de propôr ao Infante o novo
+casamento, e estando este na côrte, o Commendador antes de dar parte a
+D. Leonor do desempenho da commissão, fosse a Coimbra levar a celebre
+carta do acto 2.^o, o que podia fazer qualquer pagem ou correio? Em
+segundo logar, não estaria doido João Lourenço, tendo tomado a peito
+defender D. Maria Telles, em vir metter-se nas garras da rainha, só para
+a injuriar e aos outros seus inimigos, porque não consta do drama que
+viesse fazer outra coisa? Que esperava elle lhe succedesse, entrando no
+paço, onde todos o conheciam, para practicar aquellas gentilezas, senão
+ir jazer na cadêa? Depois como entrou elle sem licença até o quarto de
+D. Leonor? É a mesma inverosimilhança do primeiro acto. O paço real no
+seculo XIV era menos vedado que hoje: permittia-o a differença dos
+tempos; mas nem por isso era uma taberna, onde qualquer entrasse quando
+e como lhe approuvesse; e todavia é sobre estes argumentos que assentam
+os dois ultimos actos. Quanto a este abster-nos-hemos de dizer mais nada
+contentando-nos com observar que termina por um effeito dramatico
+perfeitamente analogo ao desfeixo do segundo, isto é pelo apparecimento
+de um personagem inesperado.
+
+Acto quarto.--João Lourenço está na masmorra em que a propria
+imprudencia o lançou. Ahi se dóe e queixa de Deus, em vez de se queixar
+de si. No meio de suas lástimas passa uma barca pelo Téjo, e ouve-se
+nella uma voz que se approxima da prisão. A unica prisão em que podia
+estar João Lourenço era a dos paços do Castello e como de lá se ouvia
+uma voz no rio e esta se approximava da masmorra não será facil dizer:
+todavia deixemos bagatellas. Provavelmente quem cantava era D. Lopo que
+d'ahi a pouco entra no calaboiço, aliás, não intendemos que pudesse
+trazer-se a proposito tal cantiga que nada tem com o drama. D. Lopo vem
+livrá-lo, acompanhado do carcereiro que provavelmente para isso peitou.
+Isto de carcereiros comprados como meio dramatico, é coisa quasi tão
+velha e gasta quanto o estão os confidentes classicos. O prêso recusa a
+liberdade porque quer morrer. Aqui fica evidente a doidice de João
+Lourenço. Não podem ter passado cinco minutos desde que elle dizia: _Oh
+Senhor Deus deixar-me-heis morrer sem ter salvado a innocente Maria?...
+Oh, nem uma esperança me dais_?--e agora que o querem soltar responde
+com vehemencia; _deixai-me morrer; deixai-me morrer_!?--Pois se quer
+morrer para que estava apoquentando os céus com seus queixumes? Isto era
+capaz d'impacientar até o sancto dos sanctos. Em fim depois de varias
+ponderações do poeta phtysico o homem resolve-se a sair. D. Lopo diz-lhe
+que espere que vai arranjar os meios da fuga, e parte com o carcereiro.
+Fica só o prêso, porém não tarda companhia. Uma porta secreta se abre e
+D. Leonor entra, tira a chave e encaminha-se para seu primeiro marido.
+Vem dizer-lhe que elle ha de morrer alli mesmo: vem saciar o seu odio:
+João Lourenço depois de ameaças mutuas tira-lhe repentinamente a chave
+da porta secreta, e diz-lhe que vai salvar D. Maria Telles; a isto acode
+a Rainha que não lhe achará senão o cadaver. Desesperação de João
+Lourenço da Cunha, que supplica de joelhos, e que achando D. Leonor
+inabalavel, ergue-se furioso e quer matá-la com um punhal que traz
+escondido: é então que ella supplica; é então que elle se torna
+inexoravel. Aponto de a apunhalar chega D. Lopo; a esperança amortece a
+cholera no coração do marido da Rainha; o punhal cai-lhe das mãos. D.
+Leonor continua todavia a ficar de joelhos, a pedir não que lhe deixem a
+vida, porque esta já ella sabe que está salva; mas que a soltem: que lhe
+permitiam sair d'aquelle logar d'horror. Sublime hypocrisia que encubriu
+o animo damnado com a mascara do susto. Recusam-lho: então a cholera
+trasborda do peito d'essa mulher que é um abysmo de maldade. Nem a
+demora d'uma hora a que elles a condemnam saindo, soffre a rainha.
+Apenas se acha só a régia hyena corre, e lança raivosa as garras ás
+grades da masmorra; depois ajoelha e quer orar, mas alevanta-se logo, e
+sorri. Pensa um momento, e com gesto ameaçador exclama: _D'aqui a uma
+hora serei outra vez rainha_. Um pensamento atroz e medonho reluziu por
+certo á luz sanguinea que bruxulea nessa alma? Qual foi elle?
+Sabe-lo-hemos no sexto e derradeiro quadro.
+
+Nas tres ultimas scenas d'este curtissimo acto, tão curto que talvez a
+representação d'elle não occupe quinze minutos a scena, revela-se um
+poeta. Não mencionaremos defeitos porque o que tem excellente no-los
+varreu da memoria: o auctor comprehendeu perfeitamente o caracter de D.
+Leonor: ha aqui o talento profundo de um verdadeiro escriptor dramatico.
+Oxalá poderamos dar de tudo e de todo o drama os mesmos testemunhos de
+louvor e admiração! Com magua temos feito o contrario, porque é o nosso
+penoso dever distribuir recta e severa justiça, e corresponder á
+confiança que em nós depositou esta assemblêa.
+
+Quinto acto.--Estamos em Coimbra nos paços do Infante. Ao correr do
+panno D. Leonor e Garcia Affonso falam a sós. A rainha, segundo parece,
+saíu da prisão e chegou a Coimbra antes que João Lourenço e D. Lopo. Não
+6 isto provavel mas é possivel; porque o odio entranhavel costuma ser ás
+vezes mais diligente que todas as affeições. A scena da prisão, uma
+vingança falha, uma humilhação necessaria mas cruel, espertaram toda a
+violencia do caracter da rainha: os remorsos desappareceram, e ella
+precisa de sangue. Incita por isso o Commendador para que positivamente
+accuse sua irmã~ de adultera: conhecera pelo terror de João Lourenço que
+este a amava, e é de bom-grado fratricida para começar pela vingança que
+mais deve doer a seu antigo marido. É este o verdadeiro retrato de D.
+Leonor, mas o que é falso, o que não condiz com o caracter profundamente
+dissimulado que lhe attribue a historia, e o auctor tão bem pintou no
+fim do 4.^o acto, é o injuriar gratuitamente o mesmo homem que está
+incitando para que seja instrumento da sua vingança. Embora ambos se
+conhecessem bem mutuamente: embora estas duas almas negrissimas
+estivessem sem máscara; mas ainda os maiores malvados não ouzam recordar
+uns aos outros os seus crimes, e injuriarem-se com elles senão nos
+extremos de cholera. Vemos que do aspecto que toma esta scena e do seu
+desfeixo, depende a existencia de duas ou tres scenas seguintes: a
+inverosimilhança porém da origem diminue-lhes grande parte do merito que
+possam ter. As affrontas da rainha são correspondidas por Garcia
+Affonso, que acceitando a infame commissão, e um bracellete que deve
+servir de prova á calumnia, sai praguejando e ameaçando D. Leonor, e
+ameaçado e praguejado por ella. Esta scena é evidentemente desarrazoada,
+ou antes impossivel. D. Leonor fica só, e num monologo resolve a morte
+do Commendador: foi para isto que se delineou a scena antecedente. Por
+assim dizer, o auctor fez num drama o que se diz fazia Boileau nos seus
+alexandrinos, sugeitou a rima do primeiro verso á do segundo. Resolvido
+o assassinio do seu antigo cumplice, a rainha dá um signal e apparece
+Vasco seu pagem. D. Leonor diz-lhe que um homem a ultrajava: responde o
+pagem que lhe diga seu nome e elle morrerá: esta scena está felizmente
+imaginada e o caracter de um official d'assassino dado ao pagem é rapida
+e profundamente traçado. Vasco sai e a rainha esconde-se em uma camara
+para d'alli ver morrer Garcia Affonso. Apenas ella se retira o Infante
+entra com o Commendador d'Elvas que pretende persuadi-lo da infidelidade
+de D. Maria Telles e que por fim o convence com a prova do bracellete, o
+qual, diz elle, João Lourenço perdera. Fraquissima é a prova, mas
+acceitemo-la, visto que o Infante a acceita. Este arranca a adaga,
+arromba a porta da camara de Maria Telles e arroja-se para lá furioso.
+Garcia Affonso fica só e tirando um frasco de veneno, declara em um
+monologo que envenenará o Infante logo que tenha assassinado sua mulher.
+Vasco entra então, e gracejando com Garcia Affonso, diz-lhe que precisa
+de lhe communicar um segredo, mas que antes d'isso beberá com elle um
+trago de vinho. O aspecto de Vasco assustou o Commendador lembrado do
+que passou com a rainha, e de que este pagem é o executor das suas
+vinganças secretas. Emquanto Vasco vai buscar o vinho, elle lança á
+cautella veneno em uma das taças que alli estão, e quando o pagem volta
+enche-a e offerece-lh'a, tomando para si outra. Ambos levam as taças á
+bocca, mas nenhum bebe. Garcia Affonso põe a sua sobre a mesa e pergunta
+ao pagem qual é o segredo; rindo atrozmente este lhe pergunta se quer
+sabê-lo; Garcia Affonso responde que sim, e que o diga depressa porque
+lhe resta pouco tempo para o revelar por estar envenenado: o pagem
+continua a rir e replica que é elle que o está, e que esse era o
+segredo. Garcia Affonso despejando a taça mostra que lhe não tocara: o
+pagem faz o mesmo. O Commendador então lhe diz: _Pois bem! nem um nem
+outro morreremos_.--_Enganaes-vos_!--torna Vasco soltando uma risada
+terrivel e dando-lhe uma punhalada. Garcia Affonso, amaldiçoa-se a si e
+ao pagem, procurando tambem feri-lo. Neste momento ouve-se dentro a voz
+de D. Maria Telles que implora piedade. O horror appossa-se do
+Commendador agonizante, os gritos de D. Maria redobram, e o Infante sai
+da camara com a adaga na mão tinta em sangue. Os remorsos fazem que o
+Commendador moribundo confesse a innocencia de D. Maria Telles. O
+infante furioso quer cravar-lhe a adaga, mas antes d'isso cai morto.
+Garcia Affonso João Lourenço chega já tarde seguido de cavalleiros e
+povo: o Infante desesperado pede que o matem, e João Lourenço quer
+cumprir-lhe os desejos, quando D. Maria Telles saindo da camara o retem
+e vai cair nos braços do Infante a quem perdoa morrendo. Apparece então
+D. Leonor, e apontando para os cadaveres da irmã e de Commendador diz
+para o marido--que veja como se vingou uma rainha. D. Lopo apparecendo
+subitamente com a espada na mão, abre uma janella e mostrando a praça
+atulhada de povo armado, diz-lhe:--_Senhora rainha, o filho vingará
+tambem a morte de sua mãi, e o povo as injurias recebidas_. Assim se
+conclue o drama.
+
+Este acto é incontestavelmente o melhor, e o seu effeito scenico deve
+ser grande. Apesar das imperfeições que n'elle se pódem e com razão
+reprehender, o auctor procurou resgatar aqui os defeitos que pullulam
+nos antecedentes, como successivamente notamos em cada um d'elles.
+
+Restam algumas observações sobre estylo e linguagem: assim completaremos
+o exame d'este drama visto a todas as luzes a que se deve considerar.
+
+O estylo para dizer tudo em poucas palavras é o da moda: isto é, a maior
+parte das vezes falso: comparações frequentes, que a situação moral dos
+personagens que as fazem não comporta: certa poesia na dicção impropria
+do dialogo: fartura d'essas exaggerações com que embasbacam os parvos da
+platéa, e que os homens de juizo não podem soffrer. Ás mãos cheias estão
+por ahi derramadas as maldições, os anjos de azas brancas, os rochedos
+em braza, os infernos, os demonios, e toda a mais ferramenta dramatica,
+usada hoje no theatro, e que não sabemos d'onde veio, porque sendo
+evidente que os nossos escriptores principiantes buscam imitar os
+grandes dramaturgos franceses, é certo que raramente acharão lá essa
+linguagem ôca e falsa, que só póde servir para disfarçar a falta de
+affectos e pensamentos: Victor Hugo e Dumas não precisam nem usam de
+taes meios, e para citarmos de casa, já que temos cá o exemplo, que
+esses noveis vejam se nos dramas do nosso primeiro escriptor dramatico,
+se no _Aucto de Gil Vicente_ ou no _Alfageme_ ha essa linguagem de
+cortiça e ouropel, ha essas expressões turgidas e descommunaes que fazem
+arripiar o senso commum, e que offendem a verdade e a natureza. O estylo
+é tudo, dizia Voltaire. Não somos da sua opinião absolutamente, mas é
+incontestavel que uma obra litteraria excellente em todas as demais
+partes, se lhe falecer a propriedade do estylo nunca poderá obter para
+seu auctor uma reputação duradoira. Não faltam na historia litteraria de
+todas as nações exemplos d'esta exactissima observação.
+
+Quanto aos erros de lingua e construcção, faceis são elles de emendar:
+assim o fossem os de estylo, e ainda mais os de contextura!
+Intoleraveis, mais que nenhuns, nos parecem o vicio constante do
+introduzir um _i_ nas segundas pessoas do plural dos preteritos como
+_fizesteis_, _tivesteis_, etc.--por fizestes, tivestes; _soffrer_ por
+_padecer_, sendo a significação portuguesa de _soffrer_ a de _padecer
+com paciencia ou constancia_: o uso demasiado dos possessivos que tanto
+afrancezam o nosso mui illiptico idioma: a substituição escusada de
+preteritos simples pelos compostos do participio e dos auxiliares:
+tautologias indisculpaveis, como--_abysmo immenso e sem fim_; _caverna
+que parece zombar e escarnecer, etc._;--gradações ás avessas, como:
+_cheio de desesperação e pesar_. A estes e outros defeitos poderia o
+auctor dar remedio revendo attentamente o manuscripto, que talvez o
+limite de tempo para o concurso lhe não deixou aperfeiçoar e pulir, e
+por isso intendemos dever nessa parte ser indulgente a censura do
+Conservatorio.
+
+Temos feito longa e severamente a critica do drama--_D. Maria
+Telles_.--Fizemo-lo assim por muitas e mui urgentes razões. Tem soado
+queixas contra a fórma demasiado simples com que se costumam exarar os
+pareceres sobre os dramas que annualmente concorrem a premios: conselhos
+sinceramente dados tem-se tomado pela expressão do orgulho; imaginou-se
+uma aristocracia litteraria, contraria a todos os ingenhos que surgem de
+novo. É preciso confessar que pelo que toca ao não motivado, e á
+brevidade dos pareceres, sobre tudo d'aquelles que condemnam, é justa a
+queixa. Todas as mais são infundadas. Os factos de quatro annos ahi
+estão provando o contrario. Se alguma culpa se pode lançar ao
+Conservatorio é a nimia indulgencia; já algumas das suas sentenças
+favoraveis tem sido reformadas pelo supremo tribunal do publico, ao
+passo que ainda nenhum drama condemnado por elle toi levado por
+appellação ao grande jury da opinião da platea: todavia se os auctores
+d'esses dramas tinham a consciencia da injustiça no julgamento, para lá
+deviam aggravar-se. Esta é a nossa defensão completa contra as vãs
+accusações de parcialidade; contra os sonhos de uma imaginaria
+aristocracia litteraria com que a mediocridade pretende passar aos olhos
+de parvos e ignorantes, pelo ingenho perseguido ou menoscabado.
+
+A Secção da Litteratura pensa por tanto, que importa ao bom nome do
+Conservatorio o fazer sempre miuda e inexoravelmente o exame dos dramas
+que concorrem aos premios, e motivar largamente as suas sentenças. Tanto
+os concorrentes como a nação teem direito de assim o exigirem. O tempo
+da censura inquisitorial, que muitas vezes só serve de capa á
+incapacidade, passou. É nossa obrigação restricta fundamentar as
+opiniões que assentamos: julgadores aqui, seremos lá fóra réos, e o
+commum juiz que é o publico não está adstricto a julgar por nossas
+palavras. Por outra parte esta miudeza e severidade de critica servirá
+de correcção aos auctores, para cuja emenda é inutil um parecer
+superficial e vazio de doutrina, ao passo que lhes habilita o amor
+proprio para crer que não foram elles, mas fomos nós os que errámos.
+
+Além d'isso, a Secção da Litteratura intende que é necessario ser
+finalmente severa a censura do Conservatorio, para o verdadeiro
+progresso dramatico. Durante quatro annos este progresso tem sido
+unicamente em extensão: falta a profundidade. O numero dos dramas
+augmenta, mas o merito d'elles é o mesmo, senão é menor. A principio
+convinha affagar todas as tentativas: hoje é preciso afastar as não
+vocações dramaticas que a facilidade das recompensas tem tornado em
+demasia ousadas, e é preciso constranger aquelles que podem e sabem
+produzir fructos de verdadeiro ingenho a darem ao theatro obras que os
+honrem e honrem a patria.
+
+Pelo que respeita em especial ao drama--_D. Maria Telles_--a Secção de
+Litteratura ainda pede para elle a indulgencia do Conservatorio. A
+leitura d'esta composição revéla a verdura d'annos e inexperiencia do
+seu auctor. O desconnexo e inverosimil da contextura, a ignorancia quasi
+absoluta dos costumes e instituições da epoca escolhida, e ainda mais a
+falta de conhecimento da logica das paixões e affectos, e por isso da
+consistencia dos caracteres estão dizendo que o mundo e a sociedade é em
+grande parte um mysterio para elle, mysterio que ainda mal as
+tempestades politicas e a vida demasiado energica do nosso seculo lhe
+revelarão em breve. Se o auctor quiser acceitar os conselhos prudentes
+que para melhorar o seu escripto lhe não recusarão, por certo, os
+membros d'este Conservatorio, o drama--_D. Maria Telles_--poderá subir á
+scena, não com a certeza de obter a approvação de summo juiz
+o--publico--mas de apparecer ante elle sem deshonra sua, e sem que nós
+sejamos accusados de desleixo no cumprimento dos nossos deveres. O
+parecer da Secção da Litteratura é portanto, que a Mesa convide o auctor
+do drama a dirigir-se a ella para o fim apontado. O Conservatorio
+resolverá o que fôr mais justo e conveniente.--_Alexandre Herculano_.
+
+
+
+
+*D. Leonor d'Almeida, Marqueza d'Alorna*
+
+
+
+
+*D. Leonor d'Almeida, Marqueza d'Alorna*[24]
+
+
+Por grande que deva ser a gratidão que se associa ás recordações
+d'aquelles que nos geraram, por funda que vá a saudade inseparavel da
+memoria paterna, no coração do bom filho ha um affecto não menos puro, e
+não menos indestructivel para o homem cujo espirito allumiado pela
+cultura intellectual tem a consciencia de que o seu logar e os seus
+destinos no mundo são mais elevados e nobres que os d'esses tantos que
+nasceram para viverem uma vida toda material e externa, e depois
+morrerem sem deixar vestigio. Este affecto é uma especie de amor filial
+para com aquelles que nos revelaram os thesouros da sciencia; que nos
+regeneraram pelo baptismo das letras; que nos disseram: «caminha!» e nos
+apontaram para a senda do estudo e da illustração, caminho tão povoado
+de espinhos como de flores, e em cujo primeiro marco milliario muitos se
+teem assentado, não para repousarem e seguirem ávante, mas para
+retrocederem desalentados, quando sózinhos não sentem mão amiga apertar
+a sua e conduzi-los após si. Tirai á paternidade os exemplos de um
+proceder honesto, as inspirações da dignidade humana, a severidade para
+com os erros dos filhos, os cuidados da sua educação, e dizei-nos o que
+fica? Fica um certo instincto, ficam os laços do habito, e para impedir
+que tão frageis prisões se partam, fica o preceito de cima que nos
+ordena acatemos e amemos os que nos geraram, ainda que a elles não nos
+prenda senão a dadiva da existencia, esse tão contestavel beneficio.
+Pelo contrario aquelles que foram nossos mestres; que nos attrahiram com
+a persuação e com o proprio exemplo para o bom e para o bello; que nos
+abriram as portas da vida interior; que nos iniciaram nos contentamentos
+supremos que ella encerra; para esses não é preciso que a lei de
+agradecimentos e de amor esteja escripta por Deus: a razão e a
+consciencia estamparam-na no coração: cada gozo intellectual do poeta,
+do erudito, do sabio, lh'a recorda, e quando elles se comparam com o
+vulgo das intelligencias, reconhecem plenamente a justiça do sentimento
+de gratidão que os domina.
+
+Estas reflexões occorreram-me ao abrir o primeiro volume das obras da
+senhora marqueza de Alorna, condessa de Oeinhausen e Assumar, D. Leonor
+d'Almeida, que actualmente se publicam e de que já dois volumes se acham
+nitidamente impressos. E foi para mim um prazer verdadeiro escrever
+estas cogitações d'um momento. Aquella mulher extraordinária, a quem só
+faltou outra patria, que não fosse esta pobre e esquecida terra de
+Portugal, para ser uma das mais brilhantes provas contra as vãs
+pretensões de superioridade excessiva do nosso sexo, é que eu devi
+incitamento e protecção litteraria, quando ainda no verdor dos annos
+dava os primeiros passos na estrada das letras. Apraz-me confessá-lo
+aqui, como outros muitos o fariam se a occasião se lhes offerecesse;
+porque o menor vislumbre d'engenho, a menor tentativa d'arte ou de
+sciencia achavam nella tal favor, que ainda os mais apoucados e timidos
+se alentavam; e d'isso eu proprio sou bem claro argumento. A critica da
+senhora marqueza de Alorna não affectava jamais o tom pedagogico e quasi
+insolente de certos litteratos que ás vezes nem sequer entendem o que
+condemnam, e que tomam a brancura das proprias cãs por titulo de
+sciencia, de gosto, e de tudo. A sua critica era modesta e tinha não sei
+o que de natural e affectuoso que se recebia com tão bom animo como os
+louvores, de que não se mostrava escaça quando merecidos. Uma virtude
+rara nos homens de letras, mais rara talvez entre as mulheres que se
+teem distinguido pelo seu talento e saber, é a de não alardearem
+escusadamente erudição, e essa virtude tinha-a a senhora marqueza em
+grau eminente. A sua conversação variada e instructiva era ao mesmo
+tempo facil e amena. E todavia dos seus contemporaneos quem conheceu tão
+bem, não dizemos a litteratura grega e romana, em que egualava os
+melhores, mas a moderna de quasi todas as nações da Europa, no que
+nenhum dos nossos portugueses por ventura a egualou? Como madame de
+Stael ella fazia voltar a attenção da mocidade para a arte de Alemanha,
+a qual veio dar nova seiva á arte meridional que vegetava na imitação
+servil das chamadas letras classicas, e ainda estas estudadas no
+transumpto infiel da litteratura francesa da epocha de Luís XIV. Foi por
+isso, e pelo seu profundo engenho, que, com sobeja razão, se lhe
+attribuiu o nome de Stael portuguesa.
+
+A vida d'esta nossa celebre compatricia acha-se á frente da edição das
+suas obras: para lá remetto o leitor. Ahi verá como em todas as phases
+da sua larga e não pouco tempestuosa carreira, ella soube dar perenne
+testemunho do seu nobre caracter de independencia e generosidade: verá
+que emquanto na terra natal primeiro a tyrannia e depois a ignorancia e
+a inveja a perseguiam, ella ia encontrar entre estranhos a justa
+estimação de principes e de illustres personagens da republica das
+letras. Ahi verá como nascida no seculo do materialismo, vivendo largos
+annos no foco das idéas anti-religiosas, acostumada a ouvir todos os
+dias repetir essas idéas por homens de incontestavel talento, ella soube
+conservar pura a crença da sua infancia, e expirar no seio do
+christianismo. Ahi finalmente verá como as ausencias, por vezes
+involuntarias, da sua terra natal, não puderam fazer-lhe esquecer o amor
+que devemos a esta, ainda no meio das injustiças e violencias de todo o
+genero.
+
+O primeiro volume das obras poeticas da senhora marqueza de Alorna
+contém, afóra a vida da auctora, e uma noticia biographica do conde de
+Oeynhausen seu marido, as poesias compostas na mocidade. Boa parte
+d'estas foram escriptas no mosteiro de Chellas, para onde entrou de oito
+annos de idade com sua mãi, occorrendo a prisão do marquez de Alorna D.
+João. Encerrada naquelle mosteiro passou D. Leonor d'Almeida os annos
+mais viçosos da juventude, tendo para alegrar as tristezas de tão longo
+captiveiro que excedeu desoito annos, unicamente o linitivo do estudo, e
+os conselhos e affagos maternos. Quisera alguem que tivesse havido mais
+severidade na escolha das composições d'aquella epocha, algumas das
+quaes desdizem do primor que noutras posteriores se encontra. Eu lamento
+só que senão pudesse ajunctar a cada uma a sua data. Assim, bem longe de
+ter sido um inconveniente essa desigualdade innegavel, houvera ella sido
+um meio para se avaliarem bem os rapidos progressos da joven auctora,
+que nas obras de tão verdes annos annunciava já o seu brilhante futuro
+nos rasgos frequentes de um engenho ao mesmo tempo solido, delicado e
+vivo.
+
+O resto do primeiro volume e o segundo contém as poesias da senhora
+marqueza posteriores á sua saída do mosteiro. Na disposição d'ellas
+tambem não se guarda o methodo chronologico: a natureza dos poemas
+determina a ordem d'elles. Julgar essa grande variedade de composições
+não cabia nos estreitos limites d'este jornal. Os que as teem lido, e
+que sabem entendê-las appreciam-nas devidamente. Ellas são um illustre
+monumento para a historia da poesia portuguesa, um nobre testemunho da
+piedade filial que as trouxe á luz publica, e para em tudo esta
+publicação ser apreciada, a sua nitidez typographica é uma prova dos
+progressos que a arte de imprimir tem feito entre nós[25].
+
+FIM DO TOMO
+
+
+
+
+Índice
+
+
+Advertência
+Qual é o estado da nossa litteratura? Qual é o
+ trilho que ella hoje tem a seguir?
+Poesia: Imitação--Bello--Unidade
+Origens do theatro moderno--Theatro português
+ até aos fins do seculo XVI
+Novellas de cavallaria portuguesas
+Historia do theatro moderno--Theatro hespanhol
+Crenças populares portuguesas ou superstições
+ populares
+_A Casa de Gonsalo_, comedia em cinco actos:--Parecer
+Elogio historico de Sebastião Xavier Botelho
+_D. Maria Telles_, drama em cinco actos:--Parecer
+D. Leonor d'Almeida, Marqueza d'Alorna
+
+
+
+
+Notas:
+
+
+[1] Diz Mercier em uma annotação, que segundo nossa lembrança vem no
+1.^o tomo de suas obras dramaticas, que a divisão de cinco actos é
+fundada em ser preciso atiçar cinco vezes as luzes do theatro em quanto
+dura uma recita.
+
+[2] Epist. 9--v. 43.
+
+[3] Art. poet. C. 3--v. 48.
+
+[4] Talvez alguns dos nossos leitores extranhem o modo por que tractamos
+um escriptor accreditado e ainda vivo. Nós sabemos que a urbanidade é o
+principal dever de quem impugna qualquer opinião: mas confessamos que
+não pudemos resistir á tentação. Mr. Laurentie é um defensor do
+absolutismo, e muito mal tractou a causa da nossa patria no seu exame da
+Carta portuguesa. É uma pequena vingança litteraria que se nos deve
+perdoar.
+
+[5] Major mihi rerum nascitur ordo:
+Majus opus moveo--7, 4 4.
+
+[6] Iliad, 5.^o.
+
+[7] O nosso socio o Sr. Castilho teve tambem o seu _quinhom_ de critica
+na referida moxinifada romantica. Cremos piamente que elle riu tanto
+como teria rido o bom do Homero se fosse nosso contemporaneo.
+
+[8] Alludimos ás Messenianas de Barthelemy e ás de Mr. Delavigne, de que
+talvez as primeiras deram a idéa. Das ultimas lembrámo-nos
+principalmente da de Waterloo.
+
+[9] Em um curso de litteratura como nós o concebemos daria materia esta
+idea, aqui apenas ennunciada, a dois capitulos interessantíssimos, o da
+theoria do agradavel e o da poesia nacional, ou dos objectos da poesia
+moderna.
+
+[10] É curioso ver as observações de Galileo acêrca da Jerusalem
+libertada, as quaes jaziam ineditas e foram publicadas em 1793, assim
+como o é ler a dissertação de Dureau Delamalle comparando as duas
+Jerusalens, a qual vem no fim do 1.^o tomo da Historia das Cruzadas de
+Mr. Michaud.
+
+[11] Livro 1.^o, capitulo 1.^o.
+
+[12] Publicados no vol. de 1838, e o terceiro no vol. de 1840.
+
+[13] Opusculos, tomo V, pag. 10.
+
+[14] Herzog-Geschichte der deutschen Nat-Litt.--pg. 99 (Jen. 1831.)
+
+[15] Sismondi. De la litteratura du Midi--tomo I, pg. 289.
+
+[16] Os que sobre esta materia desejarem mais ampla instrucção consultem
+as dissertações de Mr. Fauriel ácerca da origem da Epopeia Cavalleirosa,
+no 8.^o vol. da _Revue des Deux-Mondes_ (anno se bem nos lembra, de
+1832). A opinião de Mr. Fauriel, contraria á de Sismondi, põe o berço da
+maior e melhor parte das novellas de cavallaria na Provença; mas antes
+de abraçar essa opinião cumpre lêr e pesar maduramente as reflexões de
+Sismondi, que o põe na Normandia, a pag. 273 e seg. do 1.^o vol. da sua
+Historia Litteraria do Meio-dia da Europa.
+
+[17] Não appareceu este novo artigo quer nos seguintes numeros do vol.
+4.^o quer nos demais volumes, emquanto A. Herculano foi collaborador
+permanente do Panorama. De outros mui variados assumptos litterarios o
+auctor se occupou nesses volumes. A melhor conjectura sobre tal
+interrupção não é a de um simples esquecimento, mas a de que o auctor,
+certo de haver esclarecido a materia especial d'estes artigos onde mais
+interessava, tencionasse porventura ligar o porseguimento d'ella a
+certos pontos da nossa historia litteraria que demandavam vagarosa
+meditação.
+
+[18] Sem exceptuar a dos espectadores, que, bem como tudo o mais,
+permitta-se-nos a expressão, é preciso crear de novo.
+
+Sobre isso publicaremos brevemente um artigo que, dizendo respeito a um
+objecto realtivo á civilização e moral publicas, entra naturalmente no
+plano d'este jornal.
+
+[19] E impressas em Napoles em 1517. Esta rara edição existe na
+bibliotheca publica do Porto, e pertencia segundo nossa lembrança, á
+livraria do Visconde Balsemão.
+
+[20] O mesmo succedeu aos dramas portugueses contemporaneos: d'ahi
+provém, principalmente, a extrema raridade das primeiras edições de
+alguns d'elles, como de Jorge Ferreira, que só são conhecidos nas
+edições mutiladas.
+
+[21] Como hoje tanta gente faz criticas dramaticas--as mais difficeis de
+todas--bom será que reparem nesta observação de Schlegel acêrca do
+gracioso, personagem especial do drama peninsular. E ainda o grande
+critico alemão não apontou o motivo principal d'este elemento dramatico:
+o gracioso faz com que o drama seja em verdade a representação da vida,
+onde sempre o terrivel e o lepido se cruzam e misturam
+inextricavelmente. Não ser o gracioso elemento necessario do enredo tem
+por motivo a natureza d'esse papel: o burlesco póde deixar de ser
+necessidade da acção; mas nunca de ser essencivel á _fórma_ da acção: no
+quadro dramatico o gracioso não é _desenho_, é _côr_; é a sombra do
+clarão do bello e sublime. A tragedia classica, e a tragedia de Racine
+morreu, porque não havia ahi o contraste: a comedia de Moliere vive, e
+viverá para sempre, porque nella as lagrymas tolhem ás vezes o riso: na
+comedia antiga apparecia o drama; na tragedia apenas havia poesia.
+
+[22] Julgamos dever notar aqui que os nossos modernos actores ainda não
+chamam geralmente qualquer drama, senão _comedia_, embora elle seja
+tragico. Porventura é isto uma _tradição de bastidores_, conservada
+desde o seculo XVII, em que entre nós eram tão vulgares as
+representações dos dramas de Lope e Calderon, como na propria Hespanha.
+
+[23] Para prova de quanto se podem aproveitar as leis como fontes da
+historia, não dos reis ou dos soldados, mas do _progresso das nações_,
+deixando as leis civis de que poderiamos apontar circumstancias de
+extraordinaria curiosidade, limitar-nos-hemos a dizer que d'estas mesmas
+constituições d'Evora se deprehende o uso antiquissimo das
+representações nas igrejas, e de outras indecencias semelhantes que o
+povo julgava então ou licitas ou piedosas. «Deffendemos, diz a
+constituição 10 do titulo 15, a todas as pessoas ecclesiasticas e
+seculares, de qualquer estado e condição que sejam, que não _comam nas
+egrejas, nem bebam, em mezas_, nem sem mezas; nem cantem, nem bailem, em
+ellas, nem em seus adros: nem os leigos façam ajuntamentos dentro dellas
+sobre cousas profanas; nem se façam nas ditas igrejas, ou adros dellas,
+jogos alguns, posto que seja em vigilia de sanctos ou d'alguma festa;
+nem _representações, ainda que sejam da paixão de nosso Senhor J. C., ou
+da sita resurreição ou nascença; de dia, nem de noite_, sem nossa
+especial licença; porque _dos taes autos_ se seguem muitos
+inconvenientes que muitas vezes trazem escandalo nos corações d'aquelles
+que não estão muito firmes na nossa sancta fé catholica, _vendo as
+desordens e excessos que nisto se fazem_.» D'esta passagem se póde
+concluir que o uso de fazer autos nas igrejas data pelo menos do decimo
+sexto seculo, sendo, além d'isso, provavel, que semelhante usança
+remonte a epocha muito mais remota; porque os costumes populares levam
+muitos annos, tanto a estabelecer-se como a destruir-se; e com effeito,
+ainda no fim do seculo XVII o bispo do Porto, D. Fernando Corrêa de
+Lacerda, fulminava censuras contra taes comedias, como se vê de uma sua
+ordenança que lemos, ainda mais curiosa que a antecedente constituição;
+mas que por brevidade não apontaremos aqui.
+
+[24] Nasceu em 31 de Outubro de 1750. Falleceu em 11 de Outubro de 1839.
+
+[25] Na capa d'este artigo se omittiram por esquecimento em seguida ao
+titulo as palavras _Panorama_--1844.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of Opúsculos por Alexandre Herculano -
+Tomo IX, by Alexandre Herculano
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OPÚSCULOS POR ALEXANDRE ***
+
+***** This file should be named 18330-8.txt or 18330-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
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+Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt),
+Nuno Lopes (Projecto Enclave) and edited by Rita Farinha
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+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
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+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
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+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
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+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
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+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
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+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
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+electronic work or group of works on different terms than are set
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+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS' WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
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+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
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+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
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+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card donations.
+To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
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+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
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+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
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+No investigation has been made concerning possible copyrights in
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+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
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