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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/18330-8.txt b/18330-8.txt new file mode 100644 index 0000000..70869c9 --- /dev/null +++ b/18330-8.txt @@ -0,0 +1,5784 @@ +The Project Gutenberg EBook of Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo IX, by +Alexandre Herculano + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo IX + +Author: Alexandre Herculano + +Release Date: May 6, 2006 [EBook #18330] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OPÚSCULOS POR ALEXANDRE *** + + + + +Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt), +Nuno Lopes (Projecto Enclave) and edited by Rita Farinha + + + + + + +OPUSCULOS + +TOMO IX + + +Proprietários e editores: José hastes & C.^a--Typographia da Antiga Casa +Bertrand, Rua du Alegria, 100--Lisboa, 1909. + + + + + +Opusculos + +POR + +A. HERCULANO + + +TOMO IX + + +LITTERATURA + +TOMO I + + +*Antiga Casa Berfrand--JOSÉ BASTOS & C.^a--Livraria Editora* + +73, Rua Garrett, 75--LISBOA + + + + +Reservados todos os direitos de propriedade. Para o Brazil, nos termos +do ajuste feito entre Portugal e aquelle paiz em 9 de Setembro de 1889, +mandado cumprir pelo decreto do Governo Imperial de 14 de Setembro do +mesmo anno. + + + + +ADVERTENCIA + + +Na collecção dos tomos de opusculos de A. Herculano ainda até hoje não +estava representado um dos grupos em que elle a dividiu--o de +litteratura. O presente tomo vem remediar esta falta embora com a +probabilidade de ficar isolado na divisão a que pertence. Os avulsos +litterarios do nosso escriptor não são todos da mesma índole. Com alguns +d'elles, os de caracter poetico, resolvemos coordenar um volume appenso +ao grupo dos romances e lendas e que está prompto a entrar no prélo. Foi +depois d'esta selecção que passámos a apurar entre os demais os +adoptaveis para tomos de opusculos. Taes nos pareceu deverem ser os que +constassem de historia, theses, controversias e juizos litterarios. +Nestas condições a obra do escriptor era bastante para que elle tivesse +calculado formar com ella dois tomos pelo menos e por certo mais, se +aproveitasse interessantes cartas que no genero escrevera. Accresce que +sendo a maioria d'estes artigos dos primeiros tempos da vida litteraria +do auctor, elle proprio dizia tencionar acompanhá-los de um exame +retrospectivo e ampliar alguns como em parte nelles indicara. É também o +que se deduz do plano geral da publicação exposto na advertencia do tomo +I. Mas dos trabalhos complementares conducentes a esse fim, e que o +auctor de dia para dia adiava para horas de aprazivel remanso de +espirito, não achámos vestigios nos papeis d'elle. Apenas nalguns dos +artigos recolhidos neste tomo estavam indicadas breves correcções de +linguagem, das quaes introduzimos nas cópias enviadas para o prélo as de +immediata intelligencia. E ainda essas correcções, tão leves que hão-de +passar despercebidas, seriam apenas preparativos de revisão, segundo o +methodo adoptado pelo auctor,--meros signaes para marcar os logares e +lembrar o sentido em que teriam de ser feitas as definitivas. Estes os +motivos pelos quaes é provavel que tenhamos de limitar-nos ao presente +tomo em materia de litteratura, sem todavia podermos assegurar que aos +elementos que ficam de reserva, não venham de futuro junctar-se outros +que por novas pesquisas possam apurar-se, e tornem possivel o seguimento +do grupo. + +Dada, porém, a abundancia de original de que dispunhamos para este tomo, +conseguimos organiza-lo de modo que os elementos que encerra quasi +constituem um todo homogeneo de doutrina, representando em globo, sem +embargo da falta de ampliações que haviam de enriquecê-lo; como que as +generalidades de um curso de litteratura moderna, prevalecendo a lição +sobre litteratura patria. E não admira que assim succeda attendendo á +relação íntima dos artigos escolhidos com o ideal da epocha em que foram +escriptos, e que dominava o espirito do auctor. Aspirava A. Herculano a +encaminhar por meio d'elles a revolução litteraria que nascera para nós +com a recente mudança de instituições politicas e que, sob o ponto de +vista poetico com intenso brilho fôra iniciada por Almeida Garrett, com +os dois poemas _D. Branca_ e _Camões_. D'ahi a feição doutrinal e +harmonica que o tomo apresenta. Sabem os leitores com que riqueza e +variedade de monumentos concorreu A. Herculano ao lado de tantos outros +privilegiados escriptores para engrandecer a imponente phase das nossas +letras que desde então se foi desenvolvendo. Juncto a esses monumentos +vem, pois, occupar agora o logar que lhe compete, a propaganda com que +elle os precedeu e os acompanhou, naquella esperançosa epocha de +revivencia nacional. + +Nas paginas que precedem os artigos vão indicadas as datas em que estes +vieram a publico e as folhas de onde foram trasladados. Mas desde já +convém advertir que trouxemos os dois primeiros da folha quinzenal _O +Repositorio Litterario_, publicada durante alguns meses de 1834 a 1835 +na cidade do Porto, contando o auctor vinte e quatro annos de edade. Nos +dois annos anteriores havia elle arriscado a vida em mais de vinte +combates do cêrco da cidade, em todos em que interviera o glorioso +batalhão a que pertencia de _Voluntarios da Rainha_. Segundo resam +formais attestados, e era proprio do altivo caracter que elle nunca +desmentiu, em todos esses combates dera aos companheiros de armas +exemplos de inexcedivel destemor, de arrojada bravura. Levantado o cêrco +despia os trajos de soldado e quando se lhe afigurou terminada a lucta +pelas armas, surgiu cheio de enthusiasmo, revelando inesperados +conhecimentos e como vulto dominante do Repositorio, a pelejar no campo +das idéas. Pela leitura dos dois artigos transcriptos d'essa folha, se +ajuizará da originalidade e vigor com que deu começo á propaganda +exposta no discorrer do tomo. O primeiro descreve o estado geral da +nossa litteratura naquelle periodo de transição, visando norteá-la á luz +das novas aspirações e exigencias sociaes, e nas varias fórmas em que +ella tinha de manifestar-se. O segundo trata da poesia em especial, e +como se o auctor já então quisesse dar medida do poderoso engenho +analytico de que era dotado, ao passo que vai explanando com +extraordinaria erudição e lucidez a famosa questão dos classicos e +romanticos, vai tambem deduzindo e conglobando as bases de uma alta +poetica de concepção propria, com o pensamento de afastar o genio +nascente das aberrações de uma e outra d'aquellas seitas, e de o guiar +para a fecunda desenvolução litteraria em que meditava. + +A par d'estes artigos abria o novel escriptor nas columnas do +Repositorio, com a descripção das escholas de ensino elementar da +Prussia, a campanha em parte descripta no tomo VIII de opusculos, e que +não mais abandonou, em prol da instrucção popular. Provocando o +confronto da excellencia d'aquellas escholas com a obscuridade das +nossas, frisava por esse meio o alcance do grave assumpto, pondo em +relevo perante os homens cultos e aquelles a quem competisse dirigir os +destinos da nação, o maior dos obstaculos que tinham a vencer para +assegurar o bom exito das instituições liberaes. O absolutismo politico +fôra derrubado pelas armas e pelas geniaes concepções legislativas, +arremessadas contra elle em som de guerra. Chegava o momento de lançar +novas e grandes idéas, de suggestionar os espiritos para que sobre os +escombros do derrocado edificio se erguesse gradualmente o da liberdade +e da civilização. Era com o profundo sentimento, a nitida visão d'esta +imperiosa necessidade social, que A. Herculano se estreava como +propagandista no memoravel periodico portuense. + +_Maio de 1907_. + +O coordenador. + + + + +Qual é o estado da nossa litteratura? + +Qual é o trilho que ella hoje tem a seguir? + +*REPOSITORIO LITTERARIO* + +1834 + + + + +Qual e o estado da nossa litteratura? + +Qual é o trilho que ella hoje tem a seguir? + + +Estas duas perguntas pedem nada menos do que a dolorosa confissão da +decadencia em que se acha em Portugal a poesia e a eloquencia, e o +encargo difficultoso de indicar os meios de melhoramento no ensino e no +estudo d'ellas. Sem pretender que sejam as unicas, nem as melhores, +exporemos a serie das nossas idéas sobre este duplicado objecto. + +A convicção de uma verdade litteraria produziu nos seculos XVI e XVII um +erro na Italia, que, extendendo-se á Hespanha e a Portugal, transviou da +legitima direcção todos, ou quasi todos os escriptores da epocha chamada +do seiscentismo. Sentiu-se que a metaphora, a mais bella de todas as +figuras poeticas e oratorias, a mais repetida, a mais necessaria mesmo +nos discursos communs da vida, abundava por isso nos bons escriptores +classicos e modernos, que já nesse tempo illustravam a Europa: viu-se +que as passagens bellas ou sublimes de Horacio, Pindaro e Virgilio, de +Dante e Ariosto, deviam-lhe em grande parte a sua belleza e sublimidade, +e isto era certo; inferiu-se d'ahi que a metaphora era o principal e +talvez o unico meio da poesia e eloquencia, e que ella devia revestir +todas as imagens e sujeitar ao seu imperio todos os generos, todos os +estylos, e isto foi um erro: a vertigem metaphorica se apossou dos +poetas e oradores, e, por uma consequencia natural, o fundo das idéas +esqueceu e só se olhou para as fórmas: á sombra d'esta mania prosperavam +os conceitos e as agudezas, chegando as letras a caír numa barbarie, que +tanto mais irremediavel parecia por ser filha da civilização litteraria +já exaggerada. _O Zodiaco soberano_, _Os crystaes d'alma_, _A Fenix +renascida_ e outros muitos escriptos d'esse tempo, são lamentaveis +monumentos da corrupção de gosto a que chegou Portugal no principio do +decimo oitavo seculo. + +Porém o mal não foi sem remedio, e os membros da Arcadia fizeram volver +as letras á severa singeleza das puras fórmas da Grecia. Muito ae deve a +Garção, Gomes e Quita; mas ninguem tanto como Dinis mostrou a +superioridade do genio e do gosto que caracterizaram a segunda metade do +seculo XVIII. Dando os seus principaes cuidados á poesia chamada +pindarica, genero difficil pelo audaz das figuras, pelo gigantesco das +imagens, elle soube escapar aos defeitos e frioleiras do seiscentissimo +que bebera na eschola, em composições nas quaes era mui facil +introduzir-se o mau gosto; e ainda que Quita e Garção tentaram o mesmo +genero, em nosso intender, Dinis não foi emulado. Capaz de todos os +tons, no burlesco, no pastoril, no dithyrambico, nos deixou apreciaveis +exemplos, e as suas dissertações sobre a poesia campestre são dictadas +por um grande conhecimento da arte, ainda que não excedam em merecimento +theorico as annotações de Gomes ás proprias poesias, nem os trabalhos de +Freire e posteriormente de Barbosa e Fonseca sobre as poeticas de +Aristoteles e Horacio. + +Entretanto nenhum dos poetas e litteratos do seculo de José I olhou as +letras de um ponto de vista eminente. Similhantes aos escriptores do +seculo de Luiz XIV, foram muito eruditos, mas pouco philosophos, e assim +o caracter das duas litteraturas é a confusão dos principios absolutos +com os de convenção. Cingindo-se quasi cégamente á auctoridade dos +antigos, miudeada e explanada pelos commentadores, a sua obediencia +illimitada a alheias opiniões contribuiu muito para a posterior +decadencia. A impertinente questão dos archaismos e neologismos veiu +tomar o logar das discussões da Arcadia e essa occupação dos meios +talentos e da meia instrucção, influindo sobre objectos mais +importantes, viciou e acanhou toda a litteratura. Se as notas, que sobre +palavras e phrases Francisco Manuel ajunctou ás suas poesias, fossem +dedicadas a _coisas_, quão ricas messes nós colheriamos do saber d'este +homem! Mas infelizmente não foi assim, e a polemica suscitada sobre o +merito do immortal cantor dos Lusiadas, pelos insultos que contra elle +vomitou o orgulhoso auctor do gelado _Oriente_, mostraram a que +mesquinho estado tinha a critica chegado em Portugal. Parte dos reparos +que Macedo copiou dos criticos franceses ficaram sem cabal resposta, +porque os systemas estheticos mais liberaes e philosophicos que o dos +antigos, e o da eschola de Boileau, eram em geral desconhecidos entre +nós, e estamos persuadidos de que o juizo a respeito do tão grande +quanto infeliz Camões ainda resta a fazer, apesar da abundancia de +escriptos que sobre este objecto se publicaram. + +Emquanto assim entre nós a critica se apoucava, um sentimento vago de +desgosto pelas antigas fórmas poeticas, a influencia da philosophia na +litteratura, a necessidade que sentia o genio de beber as suas +inspirações num mundo de idéas mais analogas ás dos nossos tempos, e +emfim, varias outras causas difficeis de enumerar, começaram a crear na +Europa uma poetica nova, ou, digamos antes, a fazer abandonar os canones +classicos. A Alemanha foi o foco da fermentação, e foi lá que os +principios revolucionarios em litteratura começaram a tomar desde a sua +origem uma consistencia, e a alcançar uma totalidade de doutrinas +methodicas e consequentes, não dada, ainda hoje, ao resto das nações. Lá +não havia a luctar com a gloria nacional para a introducção de novas +idéas, porque os monumentos da eschola afrancesada de Opitz não honravam +demasiadamente o dogmatismo intolerante do seculo de Luis XIV, +impropriamente chamado classico, e Bodmer e Breitinger deram começo á +revolução ousando preferir a poetica de Shakspeare e de Milton á de +Racine e de Boileau; comtudo as opiniões na Alemanha teem-se desviado, +em parte, d'esta direcção e as idéas de Schlegel já teem reagido na sua +tendencia um tanto nova, sobre a litteratura inglesa donde tiveram +origem. Na França o antigo systema, amparado pelo renome de muitas +producções immortaes, disputa ainda a campanha ás innovações que entre +esse povo, extremo em tudo, teem chegado a um deseafreamento barbaro e +monstruoso. + +Mas a Portugal não coube o figurar nesta lide. A parte theorica da +litteratura ha vinte annos que é entre nós quasi nulla: o movimento +intellectual da Europa não passou a raia de um país onde todas as +attenções, todos os cuidados estavam applicados ás miserias publicas e +aos meios de as remover. Os poemas _D. Branca_ e _Camões_ appareceram um +dia nas paginas da nossa historia litteraria sem precedentes que os +annunciassem, um representando a poesia nacional, o _romantico_; outro a +moderna poesia sentimental do Norte, ainda que descobrindo ás vezes o +caracter meridional de seu auctor. Não é para este logar o exame dos +meritos e demeritos destes dois poemas; mas o que devemos lembrar é que +elles são para nós os primeiros e até agora os unicos monumentos de uma +poesia mais liberal do que a de nossos maiores. + +Comtudo, não existindo ainda um só livro sobre as letras consideradas de +um modo mais geral e mais philosophico do que os que possuimos; sem uma +só voz se-ter levantado contra a auctoridade de Aristoleles e de seus +infieis commentadores, será impossivel emittir um juizo imparcial sobre +escriptos de similhante natureza. Julgá-los por fórmas que o poeta não +admittiu, será um absurdo, emquanto se não provar a necessidade d'essas +fórmas; e isto, mesmo que ellas sejam legitimas, só pode ser resultado +de um maduro exame ou de uma polemica sincera. Antes d'isso os velhos +eruditos, vendo offendida a _inviolabilidade_ de um tropel de preceitos +que julgavam imprescriptiveis, só darão ao genio nascente o sorriso do +desprezo; e os mancebos poetas, a quem o sentimento incerto das opiniões +contemporaneas dirige por estradas que muitas vezes não conhecem, farão +que as suas poesias corram brevemente parelhas com os desvarios que tem +ultimamente manchado a mais bella das artes na França e na Inglaterra. + +Um curso de litteratura remediaria os clamnos que devemos temer, e +serviria ao mesmo tempo de dar impulso ás letras. Em Portugal ainda ha +homens cheios de vasta erudição, de philosophia e de genio. Tyrannias +mais ou menos longas, mais ou menos crueis, os teem conservado na +obscuridade de que devem saír, agora que se não receia a instrucção, +agora que os resguarda a egide da lei. Nós não desejariamos, porém, que +uma tal obra fosse puramente orgão d'esta ou d'aquella eschola; d'este +ou d'aquelle partido. Convem que os principios oppostos sejam examinados +de boa fé e sem acrimonia: a intolerancia em idéas politicas ou +religiosas é odiosa; em materias scientificas é ridicula. Se coubesse +nas nossas diminutas forças um trabalho de tanta magnitude, nós +começariamos por discutir qual é o objecto da poesia, e d'esta questão +nos parece que já se tirariam importantes resultados, e que as duas +caracteristicas--o _icastico_ e o _ideal_--que distinguem as tendencias +do antigo e do novo systema, surgiriam d'ella para nos servirem depois +na resolução de varios problemas que se nos apresentariam na serie das +nossas indagações. O exame das differentes theorias sobre o bello e o +sublime, e as consequencias, objecto immediato a que nos conduziriam os +primeiros raciocinios, dariam em resultado os principios necessarios e +universaes de todas as poeticas, e consequentemente aquelles sobre que +deveriamos emittir uma opinião absoluta e exclusiva: no resto +respeitariamos as opiniões de cada povo, de cada epocha, em tudo aquillo +em que ellas se não oppusessem aos principios geraes. Indagando a +historia da poesia nos diversos tempos e nações, vê-la-íamos depois da +queda da bella litteratura greco-latina, surgindo do norte com um +sublime de melancholia e mesmo de ferocidade, proprio dos povos que a +inventaram: veriamos esta poesia fundida com os restos da romana, e +posteriormente com a arabe, produzir as diversas especies do romantico, +d'essa poesia variada e verdadeiramente nacional, na França e nas duas +peninsulas, e termo medio entre a bella symetria classica e o sublime +gigantesco do septentrião: achariamos essa originalidade nascente da +litteratura da meia-edade destruida quasi no resurgimento das letras, e +substituida por theorias antigas, que, conservando sempre o mesmo nome, +foram sendo enxertadas em idéas, em preceitos modernos: encontrariamos, +finalmente, o espirito de liberdade e de nacionalidade da actual +litteratura. O quadro das novas opiniões nas suas variedades todas, as +vantagens ou damnos resultantes de cada uma comparada com os elementos +universaes da arte, nos poria em estado de formar um corpo de doutrina +que determinasse as proporções essenciaes da futura poesia portuguesa, +completando ao mesmo tempo uma serie de juizos imparciaes sobre as +producções das differentes eras e das differentes escholas, em relação +ao seu genio particular, e á philosophia geral das letras. + +Todos sabem que os antigos dividiam a eloquencia em tres generos, que +muitas vezes se confundem: um destinado ao elogio ou á invectiva; outro +a fazer condemnar ou a absolver, a invocar a lei a favor do innocente, a +invocá-la contra o criminoso; outro, emfim, destinado a ventilar os +grandes interesses das nações nos congressos ou na tribuna popular. Foi +a estas três classes que elles reduziram a oratoria, divisão que ainda +hoje se conserva e que, apesar da sua arbitrariedade, nós respeitaremos +em nossas reflexões. Em Portugal, onde a representação nacional não +existia, onde os tribunaes eram fechados ás defesas oraes e aos juizos +publicos, e a arte de defender e accusar consistia geralmente em +conhecer os meios de oppor entre si a nossa ora mesquinha, ora +contradictoria, ora obscura legislação, e numa dialectica as mais das +vezes pueril, tanto o genero deliberativo como o judiciario não tinham +quasi applicação: ficava sómente a eloquencia dos panegyricos para o +orador profano, e uma mistura de todos os tres generos para o orador +sagrado; mas em nenhuma das duas classes temos de que nos gloriar neste +seculo. Por uma parte elogios de encommenda ou feitos com miras de +interesse pessoal não podiam sair da bocca do orador acompanhados das +inspirações do enthusiasmo; e sem convicção e persuasão propria não se +póde convencer nem persuadir os outros: por outro lado a eloquencia +sagrada nunca pôde preencher inteiramente o fim da arte, uma vez que não +divague do seu objecto--a moral religiosa. O fim da eloquencia é +persuadir; para isto não só é necessario mover os affectos, mas tambem +obrigar a razão. O usar d'este meio, nervo principal da oratoria entre +as nações civilizadas, seria ridiculo perante um auditorio christão. O +incrédulo não vai ouvir sermões, e o orador que empregasse uma logica +severa para provar a conveniencia da moral do christianismo, a quem +d'isso está de antemão convencido, obraria com tanta impropriedade, como +se o missionario diante de homens de diversa crença buscasse tão sómente +mover os affectos sem falar á razão. + +O exemplo de dois grandes homens parece oppor-se ao que temos acabado de +dizer. São elles Bourdalone e Bossuet: o primeiro empregando a +severidade do raciocinio, o segundo tacteando todas as cordas do +sentimento, excitando todos os terrores, todas as esperanças da +imaginação, e ambos considerados como grandes modelos. Mas de que são +elles modelos? É, justamente, d'essa eloquencia imperfeita, cujo vicio +se contém na sua propria natureza. Com effeito, Bourdalone não +preencheu, nos discursos em que se lançou no abysmo dos mysterios, o +objecto da arte: esta dirige-se á vontade, pela acção; e a defesa +metaphysica bem que eloquente dos dogmas christãos não requer acção +alguma. Bossuet está no caso contrario: para que as suas orações tenham +effeito é necessaria a fé. O homem indifferente em materias de religião, +e que não possuir gosto bastante para avaliar seu merecimento, dormirá +tranquillamente á leitura de qualquer d'ellas, em quanto uma philippica +ou olynthia de Demosthenes fará sempre impressão em todo o homem que +tiver uma patria, uma fortuna a perder. Sabemos quanto nos pódem oppor +sobre estes dois oradores, e sobre a oratoria sagrada em geral; mas, não +sendo possivel o entrar aqui numa questão bastante vasta que estas +reflexões não comportam, lembraremos só aos leitores que nós +consideramos os panegyricos e os sermões de controversia como alheios do +pulpito; que Bourdalone, de todos os oradores sacros o que mais sentiu a +necessidade dos raciocinios como meio da eloquencia, nos seus +panegyricos fugia constantemente para a moral, o que nos faz crer que +elle a considerava o objecto da sua arte como acima dissemos. Em ultimo +logar transcreveremos uma cita da tentativa sobre a eloquencia do +pulpito pelo abbade Maury, obra a mais acreditada entre as d'esta +natureza: _J'avoue_, diz elle, _qu'il est très-rare de pouvoir suivre +cette marche didactique dans nos chaires, où les discussions morales ne +sont jamais problématiques, et où la conscience, qui ne ment jamais, ne +saurait contester la vérité à ses remords_. O que entra justamente na +ordem de nossas idéas, tanto sobre o objecto como sobre o defeito +constitutivo da eloquencia sagrada. + +Voltando ao nosso país, na mesma eloquencia do pulpito, a unica em +Portugal cultivada, só um orador deixou pela estampa monumentos dignos +de exame, se attendermos á fama popular que para seu auctor grangearam: +já se vê que falamos do P. Macedo. Como orador sagrado, Macedo deveu a +popularidade de que gozou a um falso brilho no fundo das idéas, e sobre +tudo a essa instrucção perfunctoria que começa a invadir a capital e que +é mais damnosa ás letras do que a ignorancia. Sem vislumbres da +sublimidade de Bossuet, sem a uncção de Fenelon, sem a profundeza de +Bourdalone, sem a nobre e evangelica simplicidade de Paiva d'Andrade, +ganhou seu renome com os ouropeis de Seneca; mas tal renome, se ainda +soar na posteridade, não será para as suas cinzas um bafejo consolador +de gloria. + +Porém não é a eloquencia sagrada que deve hoje chamar a nossa attenção: +ella tem sido o luxo da religião, e nós desejamos vê-la substituida por +meios mais conducentes a fazer prosperar esta. A bella e sublime moral +do evangelho não precisa dos soccorros da arte de Demosthenes e Cicero; +e a religião practica d'um clero virtuoso, seria a homilia mais +eloquente para insinuar a moral do Crucificado. + +Antes de passar avante occorreremos a um reparo que farão os leitores: o +de não falarmos sobre a eloquéncia desenvolvida nas côrtes da nossa +primeira epocha de liberdade, que fórma uma excepção de quanto dissemos +sobre a eloquencia portuguesa do XIX.^o seculo. Tivemos para isso +razões, e talvez a principal seja o quão longe nos levaria o exame de +alguns discursos alli pronunciados; entretanto diremos por honra da +nossa patria que então appareceram mui grandes homens, e que +desejariamos ver publicar uma escolha das opiniões e relatorios então +ventilados, á maneira do que se fez em França das orações dos +representantes nacionaes desde o principio da revolução. + +É, portanto, a educar homens que ventilem dignamente as questoes de +interesse publico nas camaras legislativas, ou que defendam a innocencia +e persigam o crime nos tribunaes já publicos, que o estudo e ensino +d'esta parte da litteratura se deve dedicar: é assim que nós fariamos da +essencia d'estes dois generos de oratoria o objecto da segunda parte de +um curso litterario, tocando apenas de leve quanto é formal na arte e +que sapientissimos rhetoricoes, copiando-se uns aos outros, de sobejo +explicaram; mas tractando com profundeza os principios applicaveis +principalmente aos generos judiciario e deliberativo em relação á nossa +situação politica. Para isto seria do exame da eloquencia nos +differentes tempos e logares, que nós partiriamos em nossas indagações: +veriamos Demosthenes, trovejando na tribuna, armado da razão e da +indignação, admiravelmente conciso e misturando com esta concisão os +sublimes movimentos do patriotismo, arrastar após si a opinião das +multidões; veriamos Cicero defender os seus clientes, tractar os mais +importantes negocios da republica quasi sempre com uma gravidade e +eloquencia estudadas: na historia da oratoria moderna achariamos a +vigorosa razão de Mirabeau acompanhada de um estylo raras vezes +rasteiro; achariamos nos discursos de Maury os mais bellos monumentos de +uma eloquencia mascula mas tranquilla; e, finalmente, o frenesi +inspirado pelo amor ás velhas fórmas do absolutismo nas orações de +Montlosier: passando á da Inglaterra exporiamos o genero de Pitt, genero +severo, renovado hoje por Makintosh e Burdett, a que succedeu o +igualmente nervoso, porém mais cheio de artificio, de Burke, Sheridan e +Caning, e o genero medio de Fox, terminando assim o exame das fontes +verdadeiras da eloquencia. + +Seria a d'esta ultima nação que nós proporiamos como principal modelo +sem exceptuar comtudo as outras. Entre os gregos, romanos, e franceses +ha muito que aproveitar; mas, se é verdade que a litteratura em parte +depende de certa harmonia com as circunstancias de cada povo, nenhuma +eloquencia é mais digna para nós d'estudo do que a inglesa. Nem entre os +antigos, nem na republica francesa, ella estava na mesma relação com as +instituições sociaes que vai a estar na nossa patria. O orador, na +discussão de uma lei perante a plebe, que deve votar sobre ella ou +influir na votação, como acontece no calor das revoluções, tem de usar +de meios differentes dos que hade empregar para a impugnar ou defender +em uma camara, cujos membros são, ou devem ser, os mais conspicuos da +nação por suas luzes e virtudes. No primeiro caso os raciocinios convem +sejam acompanhados dos meios formais da arte para dirigir as paixões +populares; no segundo, expostos a homens que conhecem a arte tão bem +como o orador, sem alcançarem o seu effeito, os artificios só +attrahiriam sobre elle a suspeita de má fé: isto sem pretendemos dizer +que elle discuta com a secura de um geometra as questões do publico +interesse; porém os seus movimentos devem surgir sinceros de um coração +intimamente commovido e de nenhum modo dar a conhecer que foram +tranquillamente calculados pelos preceitos de Quintiliano. + +Entre os romanos, a pequena porção de leis que havia ainda nos ultimos +tempos da republica e o espirito de generalidade a que se limitavam, +dava motivo a que nas causas particulares o advogado ou accusador de +qualquer réo buscasse despertar a compaixão ou a sanha dos juizes, de +quem muitas vezes era guia unica o senso commum e a moralidade, na falta +de disposições preceptivas, e apesar da similhança dos tribunaes civis e +criminaes de Roma com os nossos modernos jurados, existe entre nós e +elles uma differença enorme por causa das circunstancias legaes. Hoje, +entre os povos livres, ha, ou deve haver, um codigo que previne todos os +casos com clareza e exacção, e o mister do orador reduz-se a provar se o +seu cliente está ou não no caso da lei: então todo o pleito deverá ser +uma questão de factos provados ou provaveis, e vice-versa. + +D'aqui se colhe quão sobrio elle deve ser empregando os meios que lhe +ministra a arte. Clareza, ordem de idéas, logica severa, eis os meios +principaes da eloquencia do fôro e das camaras legislativas. + +Tal é o rápido quadro do nosso modo de pensar sobre a actual litteratura +portuguesa, e sobre os meios de a dirigir. As curtas reflexões que temos +feito sobre a poesia e a eloquencia são as bases em que julgamos +dever-se fundar um curso de litteratura, que serviria como de +introducção aos estudos mais profundos do poeta e do orador. Oxalá que +d'entre os nossos litteratos algum se encarregue d'esta util e +importante tarefa. + + + + +POESIA + +Imitação--Bello--Unidade + +*REPOSITORIO LITTERARIO* + +1835 + + + + +POESIA + +Imitação--Bello--Unidade + + + Je donne mon avis non comme bon, mais comme mien. + + Montaigne. + + +Na torrente de opiniões contrarias sobre a critica litteraria, que na +presente epocha combatem, morrem, ou nascem, tambem nós temos a nossa: e +vem a ser parecer-nos que da falta de exame dos principios em que se +fundam os differentes systemas, procedem essas questões que se teem +tornado interminaveis talvez por esse unico motivo. O genio, impellido a +produzir no meio de idéas vagas e controvertidas sobre as fórmas, as +condições da poesia, julga que todas ellas são indifferentes e +desvairado se despenha; o engenho, dominado pelos preceitos que muitos +seculos por assim dizer, sanctificaram, contrafaz e apouca as suas +producções temendo cair naquillo que julga monstruoso e absurdo. Tal é, +geralmente, o estado da litteratura: e emquanto se não estabelecer um +corpo de doutrina que, afiançando a liberdade do poeta, o circumscreva +aos limites da razão, a republica das letras similhará as associações +politicas no meio de uma revolução espontanea onde o despotismo extremo +e a extrema licença, os terrores e as esperanças, a felicidade e a +desventura, se cruzam, se arruinam e se anniquilam no meio de uma +confusão espantosa. + +Os que conhecem o estado actual das letras fóra de Portugal, na França, +na Inglaterra, e ainda na Italia, sabem ao que alludimos. Trememos ao +pronunciar as denominações de _classicos_ e _romanticos_, palavras +indefinidas ou definidas erradamente, que sómente teem gerado sarcasmos, +insultos, miserias, e nenhuma instrucção verdadeira; e que tambem teriam +produzido estragos e mortes como as dos _nominaes_ e _reaes_, se +estivessemos no XVI seculo. Infelizmente em nossa patria a litteratura +ha já annos que adormeceu ao som dos gemidos da desgraça publica: mas +agora ella deve despertar, e despertar no meio de uma transição de +idéas. Esta situação é violenta, e muito mais para nós, que temos de +passar de salto sobre um longo prazo de progressão intellectual para +emparelharmos o nosso andamento com o do seculo. Se as opiniões +estivessem determinadas, o mal ainda não seria tão grande; mas é num +cháos que nos vamos mergulhar e do qual nos tiraremos talvez muito +depois de outras nações. A influencia da litteratura estrangeira torna +necessario este acontecimento, se aquelles a quem está encarregada esta +porção do ensino publico não tractarem de estabelecer uma theoria segura +que previna tanto o delirio d'uma licença absurda como a submissão +abjecta que exige certo bando litterario. Sabemos as difficuldades que +tal trabalho encerra; porém o amor da lilteratura vencerá todas quando +ajudado do estudo e do genio. + +As reflexões que ora apresentamos são fructo de uma parte de nossas +meditações sobre tal objecto. Desejariamos tê-las podido coordenar todas +e estabelecer melhor algumas; mas trabalhos, posto que litterarios, de +differente especie, impostos por um dever, nos distrahiram do nosso +desenho. Offerecemo-las aos eruditos para que tendo alguma utilidade a +aproveitem e sendo damnosas acautelem d'ellas aquelles a quem podem ser +nocivas. Nós nos envergonhariamos mais de ter acertado com leveza do que +de ter errado pensando. + +Talvez alguem as julgue em demasia abstrusas; mas, ou o bello, objecto +da poesia, seja inteiramente resultado das relações das nossas +faculdades intellectuaes entre si, ou das d'estas faculdades com o mundo +objectivo, ou, finalmente, resida neste, é sempre a alma do homem quem o +sente e goza. Para nós a sua existencia depende da nossa; e a +metaphysica influirá sempre em qualquer systema que sobre tal objecto +venhamos a adoptar. Tem-se dito, e mil vezes repetido, que é preciso +para que a litteratura floresça afastá-la d'esta sciencia: isto equivale +a dizer-se que para os ramos de uma arvore se conservarem virentes é +mister decepar-lhe o tronco principal. Na poesia ha essencia e fórmas: +estas devem convir áquella, ou, diremos melhor, d'ella devem partir. Sem +levar o facho da philosophia ao seio das artes, sem examinar a essencia +d'estas, as theorias formaes ficam sem fundamento; e é justamente o que +tem acontecido. Seguiu-se quanto a nós, methodo inverso ao que devera +seguir-se, e um grande mal d'ahi resultou: a fluctuação dos principios, +e consequentemente dos juizos criticos. Todos sabem das controversias de +Boileau e seus sectarios com Perrault, Lamotte, e ainda Fontenelle e +Huet; mas o que nem todos sabem é que muitas vezes os ultimos tinham +razão. E se é possivel entender uns e outros, veremos que o arruido +nascia da incerteza ou da contradicção dos preceitos, o que nunca +succederia se a poetica estivesse fundada em principios metaphysicos em +que ambos os bandos conviessem. Mas qual era a consequencia da +versatilidade das regras e das suas contradicções? O fazerem homens, +aliás engenhosos, os juizos mais contradictorios sobre a mesma coisa, e +haver uma falta de consciencia em todos esses juizos que salta aos +olhos. A critica tomou naquella epocha um caracter mesquinho e pedante. +Nem acreditemos que esse mesmo Boileau, tão gabado pelos seus franceses +como homem de summo gosto e fino tacto, sobrelevasse muito outros seus +contemporaneos. A falta d'esse gosto e d'esse tacto achamos nós numa +carta a Brossette acêrca do Telemacho. Esta grande creação de um dos +maiores genios do seculo (perdoem-nos os admiradores do inquisitorial e +raivoso Bossuet) foi comparada pelo autocrata litterario da França com o +romance de _Theagenes_ e _Chariclea_ de Heliodoro bispo de Tydea, +romance obscuro escripto na decadencia do imperio romano e da antiga +litteratura: bastava esta carta para sabermos o peso que deviamos dar ás +decisões de Despreaux, quando nas suas poesias não encontrassemos já +para isso erradas opiniões acêrca do Quinault e do Tasso. + +A historia da critica em França no reinado de Luís XIV e de Luís XV, e +que tambem o é com pouca differença da que vogava em Inglaterra durante +o governo de Anna, se reduz a que, se um poeta ousava apartar-se das +fórmas imaginadas nos antigos monumentos, e se este poeta merecia a +estimação publica, os criticos se viam na necessidade ou de confessar, +se não a inutilidade, ao menos a instifficiencia de seus preceitos, ou a +votar ao desprezo as producções do genero moderno. A opção não era +duvidosa; as regras sempre tinham razão; mas como ante o tribunal da +opinião era preciso que ellas apresentassem algum titulo, ahi se corria +a pedir soccorro ao homem e ao mundo, e sempre lá se achava com que +contentar o povo litterario. Aquelles preceitos que factos oppostos não +controvertiam ficavam amparados por grandes nomes e pelo respeito dos +seculos sem dar razão da sua existencia, bem como em nossas cathedraes +os conegos á sombra do culto religioso. + +A justiça pede que digamos que uma grande parte dos preceitos dos +antigos foram deduzidos do principio da unidade, d'esse principio que +reside em nossa alma e que, emquanto existirmos sobre a terra, +representa para nós o absoluto, ao qual nos faz constantemente tender a +consciencia da immortalidade; mas a applicação d'este principio foi em +nosso entender muitas vezes errada ou exaggerada. Metastasio refutou +excellentemente a regra da restricta unidade de logar e de tempo nos +poemas dramaticos, e nós veremos brevemente que nem só essa unidade +carecia de fundamento: porém, a fóra das regras nascidas d'este +principio, outras ha de tal maneira futeis que para as destruir basta +negar-lhes a validade. Que razão daria Horacio, tirada da essencia do +tirania, para uma tragedia ou comedia não ter nem mais nem menos de +cinco actos? Julgamos não teria outra melhor do que uma dada +engraçadamente pelo auctor do _Anno de 2440_ em nota a um dos seus +dramas.[1] + +Nós devemos em grande parte aos antigos o que sabemos: seria uma +ingratidão negá-lo. Elles crearam as letras e as levaram a um ponto de +esplendor admiravel; mas por as crear e aperfeiçoar não se deve concluir +que acertaram em tudo ou tudo sabiam. Nós não dizemos com Mr. de +Chateaubriarid que em litteratura só devemos estudar os antigos: Camões, +Tasso, Klopstok não nasceram na Grecia ou em Roma, e entretanto achamos +tanto que estudar nos escriptos d'elles como nos de Homero e Virgilio. O +mesmo Mr. de Chateaubriand é uma prova de que o genio não é partilha +exclusiva de nenhuma epocha, de nenhum povo. No renascimento das letras +a admiração pelos auctores classicos não deixou ver seus defeitos e +erros, e julgou-se inviolavel a antiguidade. Venia mereciam os +descobridores dos preciosos manuscriptos que continham o thesouro de +idéas que nos herdaram os gregos e os romanos: laboriosas indagações, +largos annos de applicação davam jus aos Vallas e aos Philelfos, aos +Aldos e aos Stephanos, a não verem uma só macula nos objectos caros que +elles revelavam á Europa: mas que, passados dois seculos, ainda a +republica litteraria se conservasse deslumbrada pelo fulgor tios tempos +remotos, emquanto as sciencias começavam a fazer justiça e a dar o seu a +seu dono, é o que nos parece inexplicavel ou, para melhor dizer, o que +com repugnancia explicariamos. + +Embora se apresentassem difficuldades insuperaveis, embora fosse preciso +recorrer ás razões mais frageis, aos argumentos mais illusorios, uma vez +que as regras fossem ou se cressem originaes, ou derivadas dos escriptos +de Aristoteles ou de Horacio, de Cicero, de Quintiliano ou de Longino, +era obrigatorio defendê-las sob pena de ser havido por ignorante ou por +homem de minguado criterio. Boileau disse em uma das suas satiras que só +a verdade era bella: o padre Castel profundo litterato que escreveu +sobre o bello e sublime e que jurava ante os numes defender esta +proposição (porque em fim era de Despreaux), sem mesmo se aproveitar da +vaga distincção do verdadeiro e verosimil, que tem salvado muita coisa e +muita gente, começou a applicá-la por esse mundo poetico; mas embicou +logo com Virgilio. O verso _Provehimur portu terraeque urbesque +recedunt_ recalcitrava, além de outros, contra a sentença do mestre. Que +fez o bom rio padre?--Zás--Uma razão digna de Fr. Gerundio: «O verso de +Virgilio exprime uma idéa verdadeira, porque ha ahi uns annos +descobriu-se a theoria do movimento; e voto a Apollo que a regra ha-de +passar inconcussa: o verso e bello porque é verdadeiro». Se fosse +possivel um padre grave ludibriar o publico, nós diriamos que elle +estava escarnecendo os leitores. Desejariamos que o padre Castel nos +tivesse explicado porque o verso era achado bello antes d'essa theoria e +porque o continuaria a ser mesmo se ella fosse destruida. Taes são as +miserias que teem resultado do modo porque durante muitos seculos foram +tractadas as letras. D'estas ninharias poderiamos dar muitos exemplos; +mas voltemos ao nosso objecto. + +Depois de Aristoteles a poesia foi para os antigos a imitação do bello +da natureza, tendo por condições a unidade e a verdade, ou a +verosimilhança. É esta em nossa opinião a maneira mais simples de +exprimir a philosophia da arte entre elles, ou os elementos da sua +poetica, os quaes o continuaram a ser até nossos dias. É, pois, o valor +dos termos _imitação_, _bello_, _unidade_, _verdade_ ou _verosimil_, que +cumpre determinar para ver se as idéas que exprimem estão em harmonia +entre si, e se podem dar validade a uma poetica nellas fundada. + +A imitação suppõe o bello em a natureza moral ou physica, e qualquer +d'ellas existente fóra de nós. Os actos humanos serão na primeira, +digamos assim, o _substractum_ da imitação: na segunda sê-lo-hão os +corpos, e o bello nos será communicado por meio das sensações: qualidade +dos corpos, fórma das acções, naquelles a sua impressão será universal, +nesta nunca necessaria. O europeu, o chim, o hottenlote sentirão +egualmente que o Apollo de Belvedere é bello: a acção dos templarios +cantando hymnos a Deus no meio das chammas, e cuja morte Mr. Rainouart +pintou divinamente num só verso: + + «Il n'en etait plus tems, les chants avaient cessé.» + +nunca será nessariamente bella: se elle a imitou de um acto humano +similhante, esse acto sendo contingente parece-nos não teria qualidade +dotada de caracter necessario: se applicarmos isto a uma acção épica ou +dramatica, ainda mais visivel é a falta de necessidade da sua existencia +e consequentemente a dos seus caracteres formaes. + +Se dissermos que o bello é relativo e resultado do nosso modo de ver, da +relação particular dos objectos comnosco, da harmonia ou desharmonia dos +tactos com as nossas idéas moraes, nesse caso não poderemos affirmar que +os _Lusiadas_ ou a _Odyssea_ sejam absolutamente superiores ao _Affonso_ +ou ao _Viriato Tragico_. Poderemos dizer que para nós não ha sequer +comparação; mas seria absurdo exigir dos outros o mesmo sentimento. +Boileau julgou esquivar-se a esta difficuldade asseverando que a opinião +geral devia ser a norma do nosso modo de sentir, e que a totalidade dos +homens não se engana numa crença duradoura. Desejariamos que Boileau nos +dissesse se era pela opinião geral que elle acharia frio o gelo e quente +o fogo. Que nos importa a opinião quando se tracta de sensações? Que +vale mesmo aos olhos dos homens cordatos o credito de uma opinião geral? +Cremos nós hoje na arte mágica, na alchymia, ou na virtude dos Jesuitas? +E foram estas crenças porventura pouco geraes e pouco duradouras? Quando +concedessemos o principio, elle nos seria inutil para julgar as +producções contemporaneas, e a critica não nos serviria para conservar +puras as letras, nem para gozar as creações do genio moderno: a gloria +ou o desprezo não encontraria já nem as cinzas do poeta. Seculos +haveriam passado para reformar a opinião, quando isso mesmo fosse +possivel. + +Mas felizmente não é assim. Lamartine! com uma poesia celeste tu fazes +adorar a religião que saudaste em teus hymnos solitarios. Monti! tu nos +encheste de um terror delicioso conduzindo-nos aos umbraes do outro +mundo. Schiller! quem não sentiu bater mais fortemente o coração lendo a +despedida de Picolomini e Thecla? A infancia do seculo XIX já tem muitos +titulos com que faça passar sua memoria enobrecida deante dos outros +seculos. Elles julgarão como nós os genios que no meio das tempestades +politicas consolaram o genero humano com a harmonia de seus cantos. +Acêrca de Lamartine, de Monti, de Schiller, e não só d'elles, nós damos +seguro da posteridade. + +Tal é o bello para quem o julgar em sua modalidade necessario e +absoluto: uma idéa opposta repugna e nos afflige: nós queremos que todos +os tempos, todos os homens o julguem e gozem como nós, e diremos sem +hesitar, o que não for de nosso sentir ou carecerá de gosto ou o terá +pervertido. + +É esta circumstancia da necessidade do nosso juizo sobre o bello que +distingue inteiramente este do agradavel.--Do primeiro nós affirmamos a +existencia, do segundo a sua relação comnosco. O quadro da morte da +Clorinda na Jerusalem Libertada é bello, e que deixe os poetas aquelle +que tal não o julgar. Um pomo saboroso é para nós agradavel, talvez para +outrem o não seja, o que nos é indifferente. No primeiro caso julgamos; +no segundo exprimimos a idéa da relação particular entre nós e o +phenomeno. + +A que reduzirião Burke e Delaunay a maxima parte do que escreveram sobre +o assumpto se tivessem reflectido nesta differença? Poria um porventura +os elementos do bello nas linhas curvas e no macio e tê-lo-ia outro +dividido geographicamente como se dividem as raças humanas? Estamos +persuadidos que não. + +A incerteza acêrca do criterio do bello não é o unico resultado do +principio da imitação: elle tambem está em contradicção com o da +unidade: esta debalde se procuraria nos corpos: as partes do universo +coexistem; mas individualmente, e entre individuo e individuo medeia um +abysmo que rigorosamente falando nós não podemos eliminar: generos, +especies, familias, causas e effeitos necessarios são fórmulas do +entendimento; são como lhes chama Ancillon muletas da intelligencia. Se +procurassemos a fugitiva unidade do total do Universo lá mesmo ella +seria para nós a nuvem de Ixion. Com effeito, sendo impossivel á +imaginação acabar a synthese dos phenomenos, ella disse quando +cansou--isto é o universo--; mas teem acaso os objectos que produziram +essa idéa uma ligação absoluta e una entre si?--Não: a mente faz uma +abstracção similhante á que faz a historia natural deduzindo dos +individuos generos, especies, familias. O Universo não é senão a +repetição indefinida da individualidade. + +Parece-nos, pois, que é forçoso ou abandonar a imitação do mundo +physico, ou não exigir a unidade nas imitações d'este genero. Outras +razões existem para provar que a mesma difficuldade apresenta a +conciliação dos dois principios no mundo moral; mas nós guardamos essas +reflexões mais complicadas para quando voltarmos a este assumpto, +temendo ser por agora tachados de prolixos. + +Do que temos dicto concluimos que o bello das imagem, o bello chamado +physico não existe nos objectos porque a unidade e a necessidade da sua +existencia seriam destruidas; mas sem estas duas condições o espirito +não o admitte. É, pois, em nós, no mundo das idéas que o devemos buscar. +Um typo independente do que nos cérca, deve existir, com o qual a +faculdade de julgar possa comparar o bello de uma imagem particular. +_Eu_--_Não eu_, eis o circulo das existencias, os dois nomenos fóra os +quaes nada concebemos. Mas nós admittimos o necessario e o uno sem o +encontrarmos no que nos rodeia: cumpre, pois, que elles residam em nós +como fórmas da intelligencia. + +É visivel que um typo é preciso para julgar o bello: sem elle as artes +plasticas seriam impossiveis. As comparações entre os objectos não podem +jámais estabelecer regras invariaveis de gosto, e ellas suppõem já uma +comparação anterior. Quando comparamos dois objectos, um bello outro +não, o unico resultado que tiramos d'ahi é ver que são desimilhantes: +mas por que modo agrada um, outro repugna? É sem duvida porque um +harmoniza com uma idéa, bem que indeterminada, e outro se oppõe a ella. + +Será este typo resultado da experiencia? Cremos que não. Onde existe o +typo da Venus de Medicis, de Laocoonte, ou de Marco Sexto? Quem se póde +gabar de o ter encontrado na natureza? Elle existia na mente dos +artistas: as idéas d'estas creacões foram para elles antes de ser para +nós: unisonas com o seu typo, o genio as traduziu no marmore, no bronze +e na tela. Dir-se-ha, em ultimo caso, que o estatuario e o pintor +reuniram o bello parcial para formar o todo. Porém seria aggregado uno? +Além d'isso, não é claro que para essa escolha precisavam de um guia +existente na sua alma? Quem os moveu a escolher esta fronte, estes +labios, este collo com preferencia a outros? Parece-nos que estas +perguntas ficarão sem resposta emquanto os homens procurarem fóra de si +o principio vivificante das artes. + +Quanto ao verosimil e verdadeiro na imitação, nós faremos só alguns +leves reparos, porque de outro modo seria preciso examinar as mudanças +que se teem feito na intelligencia d'este principio para devidamente o +apreciar, e este trabalho exigiria longas paginas. Aristoteles +estabelece a differença entre a verosimilhança e a verdade, dizendo que +a primeira pertence á poesia, a segunda á historia: que a primeira +consiste nos actos consequentes de um caracter em geral, a segunda nos +actos practicados por um individuo existente e determinado. D'estas +expressões resulta que para a distincção do verdadeiro e do verosimil +physico o critico grego não nos deixou nenhuma regra, e que no moral +cessa com o verosimil a imitação: na natureza não ha senão caracteres +individuaes, os geraes existem por uma idéa. Confessamos nossa rudeza; +não entendemos como as paixões concebidas da maneira que as concebe o +genio e applicadas a um individuo, ou supposto ou historico, sejam uma +imitação. Quando quisessemos exprimir esse caracter por factos, dar-lhe +uma existencia real e individua, nada mais fariamos do que destruir uma +abstracção por nos servirmos da linguagem sensualista. Além d'isso, +suppondo que todas as nossas idéas sejam resultado de sensações, a idéa +geral e absoluta de um caracter é uma chimera dando-lhe validade +necessaria e imprescritivel. Circumstancias particulares, opiniões, em +fim as _côres locaes_ viriam introduzir a confusão e a anarchia no +imperio da critica. Supponhamos que os caracteres dos heroes da Hiada +foram traçados, segundo a opinião de Aristoteles, pela idéa geral do +valor, mas nós vemos esses heroes fugirem do inimigo que temem. Odoardo +e Gildippe, na Jerusalem, cáem sob o alfange de Saladino sem terem +voltado as costas, Sueno acaba sobre os cadaveres dos seus soldados no +meio dos infiéis sem depor a espada, apesar de ser impossivel vencer. +Quem imitou a idéa geral do valor? Foi Homero ou foi Tasso? +Provavelmente Homero porque é mais antigo. Algum futuro commentador de +Aristoteles no-lo explicará. + +Não nos tendo este deixado a norma para julgar o verosimil physico, +vejamos se Horacio occorreu a esta falta. Foi por ahi que elle começou a +epistola aos Pisões. Descrevendo um monstro que imaginou, convida-os a +rir do quadro que lhes apresenta--e porque? Dá o poeta a razão--_vanae +fingentur species_,--Batteux paraphraseando accrescenta--_images vagues +qui n'ont point de modèle dans la nature_. E assim, o que for vão, o que +não tiver typo na natureza nunca será bello. Pobre Homero! Os teus +cyclopes, o teu Poliphemo, os monstros de Charybdis, emfim teus lindos +sonhos devem-nos arrancar uma gargalhada. Tu mesmo, crapulario Horacio, +quererás com o teu Pegaso fazer-nos estourar de riso? Com effeito, onde +existem as ficções dos antigos monstros da mythologia? Quem viu um homem +ou um cavallo alado como o Amor e o Pegaso? Nem se diga que a crença +popular lhes tinha dado a existencia: isto são palavras que soam mas sem +sentido.--Cremos que existir na intelligencia não é existir no mundo +real. Se a phantasia produziu estas creações ellas não foram imitadas, +logo não teem modelo, logo não são bellas; porque nos persuadimos que a +mais duradoura crença nunca poderá fazer que uma coisa seja o que não +é.--Vemos, portanto, que para a theoria do verosimil pouco se aproveita +a poetica do illustre adulador de Meçenas e de Octaviano. + +Talvez Boileau nos satisfaça. Eis o que encontramos nas suas doutas +poesias a este respeito: + +_Rien_ n'est beau que le vrai, le vrai seul est aimable.[2] + +Le vrai peut quelque fois n'être pas vraisemblabe.[3] + +Qual seria a conclusão que tirariamos d'estas duas proposições, +dispondo-as em fórma de syllogismo?--Quem respeitar Despreaux não ousará +fazê-lo. + +Metastasio falando da imitação nos commentarios da poetica +d'Aristoteles, nos explica em que consiste o verosimil que o imitador é +obrigado a conservar na sua imitação: «O alvo do copista, diz elle, é +que a sua cópia possa substituir o original, o do imitador é conservar a +_similhança possivel_ do objecto sem alterar a materia sujeita da +imitação». Continua depois dizendo que o _admiravel_ d'esta consiste nas +difficuldades que venceu o artista: o que, em nosso entender, equivale a +dizer que o bello consiste em vencer as difficuldades da imitação: +lembremo-nos, porém, que por este mesmo tempo Batteux reduzia as artes a +um só principio--a imitação da _bella natureza_; e louvemos a Deus pela +unidade de doutrina de uma eschola que hoje com tanta arrogancia accusa +de barbarismo e incerteza todos os principios litterarios que não se +amoldam aos seus. + +Tirou Metastasio da estatuaria um exemplo para nos dar a conhecer as +differenças que ha entre imitação e cópia, mas, tractando-se de poesia, +seria talvez bom que nesta o buscasse. Nós o faremos por elle comparando +o retrato de Gabriella de Estées por Voltaire, com o de Ignez Sorel por +Chapelain.--Para os nossos leitores poderem ajuizar transcreveremos +ambos: + +CHAPELAIN + +En la plus haute part d'un visage celeste, +...un front grand et modeste +Sur qui vers chaque temple á bouillons séparés +Tombent les riches flots de ses cheveux dorés +Sous lui... +Deux yeux étincelans... sereins... +Au dessous se tait voir en chaque joue éclose +Sur un fond de lis blanc une vermeille rose +Qui de son rouge centre épandue en largeur +Vers les extremités fait palir sa rougeur. +Plus bas s'offre et s'avance une bouche enfantine, +Q'une petite fosse a chaque angle termine, +Et dont les petits bords faits d'un corail riant +Couvrent deux blancs filets... + + +VOLTAIRE + +Telle ne brillait point au bord de l'Eurotas +La coupable beauté qui trahit Ménélas. +Moins touchante et moins belle, á Tarse on vit-paraitre +Celle qui des Romains avoit dompté le maitre + + * * * * * + +Elle entrait dans cette age, hélas! trop redoutable, +Qui rend des passions le joug inevitable. +Son coeur né pour aimer, mais fier et généreux, +D'aucun amant encor n'avoit reçu les voeux. +Semblable en son prinptems á la rose nouvelle +Qui renferme en naissant sa beauté naturelle, +Cache aux vents amoureux les trésors de son sein +Et s'ouvre aux doux rayons d'un jour pur et serein. + +Quem duvidará que Chapelain imita uma bella mulher com a _similhança +possivel_ e que no retrato de Gabriella a imaginação nada póde +affigurar-se que não seja vago e indeterminado? Quem duvidará tambem que +o primeiro retrato é obra de um borrador e o segundo digno de Albano? +Comtudo hoje é reputado barbaro e extravagante quem se ri das regras da +velha poetica!... + +Desde Batteux, Sulzer, Jaucourt e outros, as artes em geral e a poesia +em particular foram definidas--a imitação do bello da natureza. Esse +principio se achava nos escriptos dos antigos, mas confundido com a idéa +de que do artificio da imitação tambem resultava um prazer similhante ao +produzido pelo bello. Muito devemos a estes criticos; aliás, fugindo +constantemente da natureza para a arte e d'esta para aquella, a velha +poetica salvaria uma grande parte dos seus canones dos olhos +investigadores da philosophia. Era isto misturar a noção do agradavel +com a do bello. Os modernos, reduzindo a poesia á imitação d'este, +cairam, em nosso entender, num erro analogo confundindo-o com o bom. + +Diderot disse que no util consistia o bello--Watelet que o era tudo o +que preenchia o seu fim. Mr. Lemercier dá como causa final das letras a +utilidade. Mendelssohn creu-o a expressão sensivel da perfeição, e ao +seu systema similha o de Mr. Laurentie ácerca do bello intellectual. +Todos estes enunciados se podem reduzir ao de Mr. de Bonald--o bello +absoluto é synonimo de bom. Não sabemos o que Marmontel e Laharpe +opinaram, porque temos a infelicidade de não entender as suas +deffinições. + +Os sensualistas do seculo passado, depois de um longo rodeio, voltaram á +confusão do agradavel e do bello; e os espiritualistas d'aquelle seculo +e do nosso foram progressivamente tirando o bello da natureza physica e +collocando-o sómente na moralidade, ou creando uma cousa chamada _bello +relativo_ que, ou não existe ou é o mesmo que o agradavel. + +Mr. Laurentie escreveu um volume para mostrar aos barbaros innovadores +que o bom e o bello moral eram inseparaveis: neste livro toma o pobre +Kant para a sua alma, visto que, por culpa d'elle, foi enxovalhado o +rico e harmonioso idioma de Paschal e Bossuet com o _Eu_ e _Não-eu_. Até +aqui bem vamos. Se Kant fosse vivo, como causa primeira de se commetter +tão horroroso attentado, devia acabar numa fogueira: e nisto, cremos, +conviria Mr. Laurentie, porque nos seus escriptos alguma pena mostra de +ter visto findar as assaduras dominicanas. Mas no que não tem razão é em +insultar a memoria do veneravel professor de Konigsberg, que estabeleceu +antes d'elle a mesma verdade, como mostrariamos se este escripto +comportasse uma exposição da doutrina d'aquelle philosopho acêrca do +juizo esthetico. Não seria melhor que Mr. Laurentie, antes de decidir +com um tom tão dogmatico e magistral estudasse primeiramente as opiniões +que intentava impugnar? Similhante altivez não nos parece concordar com +a humildade evangelica propria de um bom christão como Mr. Laurentie![4] + +Insistimos na differença do bom e do bello, porque o grande nome de +Mendelssohn se colloca naturalmente á frente dos que os declaram +identicos. Esta idéa se encontra já na philosophia néo-platonica e +talvez no Hippias maior do mesmo Platão, de cujas opiniões Mendelssohn +não estava mui longe. O que Mr. de Bonald e Alletz disseram sobre este +ponto funda-se inteiramente naquellas doutrinas. + +Porém serão ellas verdadeiras? Nós cremos que não. A perfeição de +qualquer coisa é o complemento de seus fins, e estes devem ser bons, +aliás não se daria aquella. D'isto resulta sempre um interesse, quer no +moral quer no physico, o que suppõe uma existencia real: porém o +sentimento do bello é desinteressado e não carece de ser acompanhado do +de existencia. Os jardins de Alcinoo, a ilha de Venus, não seriam mais +bellos se os cressemos existentes fóra da Odyssea e dos Lusiadas. A +imaginação é quem nos presta a idéa de que resulta o juizo acêrca do +bello: o bom nasce de uma idéa determinada pela razão; porque, para +julgar uma coisa boa e perfeita, é preciso saber para que serve, qual +seu alvo, quaes suas relações: um edificio irregular, mas commodo e +reparado, será bom, porque satisfaz o seu alvo objectivo: a Venus de +Medicis chama-se bella, porque satisfaz, por uma idéa da imaginação, o +jogo das nossas faculdades quando a comparamos com o ideal do bello +humano. + +Dissemos que o bello moral é sempre acompanhado do bom. Concordando +nisto com as opiniões actuaes dos litteratos puros, julgamos não ser +preciso prová-lo e portanto nos absteremos d'isso. O pouco que notámos +basta para se ver em que consiste a differença das duas idéas no mundo +da moralidade. + +Cremos ter indicado, bem que mui de leve, as difficuldades e por ventura +contradicções que encerra uma poetica respeitada por tantos seculos. Mas +desde Aristoteles estava apontado, e por elle mesmo, o vicio da sua +construcção. Applicando á Iliada os canones que tinha estabelecido e que +julgou ter deduzido d'ella, achou que ás vezes elles falhavam, e viu-se +obrigado a dizer que as regras se podiam pôr de parte quando o bello +assim o exigisse. Não é d'este modo que nós concebemos a poesia. Seus +preceitos devem ser imprescriptiveis sendo deduzidos do bello e de suas +condições. De que modo o nosso criterio póde ser seguro, ter este +caracter de necessidade que a consciencia requer, sendo incertos os seus +meios? O jogo de arguições e replicas que constituem o capitulo 25 da +sua poetica seria digno de um sophista, não do maior philosopho da +antiguidade: ellas fariam luzir um estudante das nossas aulas de +rhetorica em uma sabatina; mas para o estudo da litteratura parece-nos +que de nada servem. + +Tendo até aqui procurado derribar, cumpria edificar agora: mas não +escrevendo um livro, nem possuindo para isso o cabedal necessario, +apenas lançaremos os primeiros traços dos (quanto a nós) unicamente +verdadeiros fundamentos de uma poetica razoavel, para estabelecer a +theoria da unidade de um modo mais conforme a razão, e ao mesmo tempo +mais concorde com os grandes monumentos litterarios. + +A poesia é a expressão sensivel do bello por meio de uma linguagem +harmoniosa. + +O bello é o resultado da relação das nossas faculdades, manifestada como +jogo da sua actividade reciproca. + +Esta relação consistirá na comparação da idéa do objecto com uma idéa +geral e indeterminada: a harmonia d'ella resultante produzirá o +sentimento do bello: esta harmonia será sujectiva, residirá em nós; e a +sua existencia _a priori_ necessaria e universal. + +Como composta a idéa do objecto leva comsigo a variedade; como geral o +outro termo da comparação é puramente subjectivo e consequentemente uno. + +A condição, pois, do bello é a concordancia da variedade da idéa +particular com a unidade geral: condição que é por tanto necessaria em +todos os juizos acêrca do bello. + +Mas existindo essa harmonia no jogo das faculdades e requerendo-se para +ella a unidade, esta será subjectivamente absoluta, e tudo o que na idéa +particular do objecto não estiver em relação com ella nunca poderá ser +julgado bello. + +Tanto nos basta da longa e difficil theoria do bello e sublime para o +nosso intento. Na sua applicação restringir-nos-hemos aos poemas +narrativos, porque os outros, sobretudo os dramaticos, exigiram um mais +amplo desenvolvimento que não comporta este escripto. + +Dos principios que apresentámos e que em parte as antecedentes +observações pediam, se colhe o sempre imprescriptivel canon da unidade, +porém esta collocada mui longe d'onde os antigos a collocavam. É uma +idéa geral e indeterminada que a torna necessaria: a acção não é mais do +que a serie de variedades que devem, digamos assim, dar um som unisono +com a idéa geral e una. Será, pois, em nosso systema o primeiro passo a +dar no exame de qualquer poema o buscar qual foi essa idéa, esse _deus +in nobis_ que constrangeu o poeta a revelar-se ao mundo em cantos +harmoniosos. Nós a buscaremos nos cinco mais celebres poemas da +Europa--_a Iliada_,--_a Eneida_--o _Orlando furioso_--os _Lusiadas_--e a +_Jerusalem libertada_. Se a theoria for verdadeira acharemos essa idéa: +as partes que os constituem serão concordes com ella; aliás estes poemas +cessarão para nós de ser considerados como absolutamente bellos, e +ficaremos persuadidos de que a Europa inteira se enganou tendo-os por +modelos do gosto. + +Antes, porém, de tudo convem sujeitá-los a um exame cujo norte seja o +que a antiga poetica exige para julgar similhantes producções. Seremos +severos neste exame, mas limitar-nos-hemos ao mais importante +principio--o da unidade de acção, a que nós temos a infelicidade de não +dar valor algum. Com este nos contentamos, que de outro modo fariamos em +vez de um artigo um volume. + +Quem será nosso guia para vêr em que essa unidade consiste? Aristoteles: +ninguem o refusará. Elle é o unico escriptor original sobre taes +materias: os que vieram depois d'elle o copiaram, o commentaram e talvez +demudaram suas idéas. Diz Dacier que todas as poeticas se reduzem á do +Stagyrita, e por outra parte Mr. Lemercier nos assegura ser bastante +para constituir um perfeito critico em poesia o entender bem as poeticas +de Aristoteles, Horacio, Vida e Despreaux. Reunindo, pois, as opiniões +de dois tão illustres litteratos parece-nos que nesse escripto do velho +grego devemos buscar a norma de nossos juizos para avaliar os poetas. + +Busquemos lá, com effeito, em que a unidade consiste. Achá-lo-hemos no +capitulo 8. _Serão_, diz elle, _as partes de uma acção de tal geito +ligadas entre si, que tirada ou transposta uma, fique tudo destruido ou +mudado_. + +São os episodios que na epopêa constituem essas partes da acção, +rigorosamente falando. Assim o julga Dacier e a Encyclopedia: assim o +cria Voltaire dizendo que os episodios similham aos membros de um corpo +robusto e bem affigurado. Um episodio, pois, que sendo omittido deixa a +acção inteira, inserido nella destruirá a sua unidade. Mas ficará, +porventura, incompleta a acção da Iliada se lhe tirarmos o longo trecho +da descripção das naus gregas e o muito mais longo do funeral de +Patroclo? Cremos que não, e que portanto se, pela poetica de Aristoteles +julgarmos a Iliada, d'ella desapparecerá a unidade. + +Diz mais o critico grego, no começo d'este capitulo, que a identidade do +heroe principal nunca estabelecerá a unidade, quando as acções forem +multiplices. Ora, quem é que une a primeira metade da Eneida á +segunda?--Apenas o heroe. Tudo é novo depois da sua chegada á Italia. +Novas são as aventuras, novas são as personagens secundarias. É o mesmo +Virgilio quem nos indica a duplicidade da acção do seu poema. A +exposição da Eneida estava plenamente desenvolvida no fim do sexto +livro, e assim, logo no principio do setimo, elle nos avisa que vai +contar uma nova ordem de coisas[5]. Podemos, pois, affirmar affoitamente +que na Eneida da falta a unidade. + +Quanto aos Lusiadas nada é preciso dizer. Salta aos olhos que a historia +dos doze de Inglaterra, o assassinio de D. Ignez, teem tanto com a acção +do descobrimento da India como com a da Odyssea. + +Todos acham bellissimo o Orlando furioso, ainda ninguem o achou uno. A +distincção de poema heroico, de poema romance, de Dubois, Fontenelle, e +de Mr. Lemercier nada mais é do que a impotencia absoluta de applicar a +certas producções as regras da antiga poetica. + +A Jerusalem libertada é o poema que mais parece ageitar-se aos preceitos +classicos pelo que toca á unidade. Entretanto qual é a acção do poema? A +conquista de Jerusalem: e acaso conduziria o episodio de Olindo e +Sophronia para o seu exito? Certo não. Além d'isso, a acção da Jerusalem +conquistada é a mesma; o poeta mudou varios episodios e ella continuou a +ser a da Jerusalem libertada, apesar de Aristoteles. + +Vejamos, segundo o nosso modo de julgar, se uma uma idéa geral e +indeterminada póde estabelecer a unidade na serie de acções, de quadros +e de descripções que constituem estes cinco poemas. + +No tempo de Homero a historia grega apresentava só um grande feito, a +conquista e ruina de Troia. Uma grande idéa occupava a mente do poeta e +esta idéa era a gloria da Grecia. Foi, pois, á roda d'ella que Homero +agglomerou as variedades que lhe diziam respeito. Onde existiam ellas? +Unicamente na memoria das batalhas pelejadas juncto aos muros de Troia: +mas uma parte d'essa historia era vergonhosa para os gregos. Ou +admittamos qualquer das opiniões referidas por Herodoto acêrca da queda +d'aquella populosa cidade, ou as narrações de Triphyodoro e do supposto +Dictys, a nodoa de fraqueza, quando não de dolo, sempre parece vir +manchar os gregos. Neste caso o poeta repelliu todo o odioso da historia +e aproveitou ou inventou o que dava um som unisono com a idéa que o +dominava: assim, na Iliada tudo a ella tende; assim, o poema começa +quando a ialta de Achilles deixa fulgir o valor dos outros heroes e +acaba quando a morte de Heitor devia, bem pelo contrario da verdade +historica, fazer caír Troia e dar a victoria aos gregos. Da era a mais +gloriosa da semi-barbara Grecia, foram os successos de poucos dias que +Homero escolheu para objecto de seus cantos; mas estes dias eram os mais +bellos d'aquella epocha memoranda; nelles tiveram logar os mais +brilhantes feitos de guerra tão acintosa, e o poeta ainda os tornou mais +admiraveis com os traços vigorosos do seu pincel divino. + +Os caracteres dos heroes da Iliada são todos agigantados e o valor +d'estes rude, como o podia conceber a mente de Homero; mas os valentes +de Troia são sempre homens, em quanto os da Grecia são muitas vezes +semi-deuses. O mesmo Heitor, que hoje (nós pelo menos) achamos a +personagem mais interessante da Iliada, e que parece vir destruir a +opinião de que a unidade exista neste poema por uma idea vaga da gloria +patria, é uma prova do principio que estabelecemos. Para julgar Homero é +preciso collocar-nos no seu tempo e no seu país. O amor paternal e +conjugal por que Heitor nos interessa, não era para os antigos, +sobretudo nos tempos primitivos, o mesmo que para nós. A robustez de +braço e de coração era a principal virtude, e os affectos moraes estavam +apenas esboçados nessas sociedades nascentes. Por isso elle devia +interessar, não despedindo-se de Andromacha, porém combatendo por uma +causa que reputava injusta, mas que se tinha tornado a da patria; não +por suas virtudes domesticas, mas pelas virtudes publicas e por seu +valor quasi egual ao de Achilles. + +Foi por causa d'este que Homero desenhou tão amplamente o caracter de +Heitor. Com effeito, aquelle guerreiro que viu fugir ante si Diomedes, o +vencedor de um nume[6], cai vencido e morto aos pés de Achilles. Quanto +este devia parecer grande entre um povo que olhava o valor e a força +como o dote mais digno do homem, e qual seria a ufania e a gloria de um +país cujos filhos assim sobrelevavam os numes. + +Alguem crê dever notar o haver-nos Homero pintado Achilles arrastando o +cadaver do seu inimigo á roda dos muros de Troia. Parece-nos tambem +nascer isto de se julgar os antigos por nossas actuaes idéas. Nós vemos +que para a maior parte das virtudes sociaes elles não tinham divindades +particulares; comtudo havia-as para a amizade. Certo é, pois, que esta +nobre paixão tinha preço e valia entre elles. Esqueçamo-nos das virtudes +que devemos unicamente ao Christianismo, constituamo-nos gregos, e +vejamos qual de nós não faria o mesmo no momento da vingança e da +colera. Sómente aquelle desgraçado que não possuisse um amigo. + +Se assim examinarmos toda a Iliada, acharemos sempre a idéa de gloria +patria servindo de nó a este admiravel poema que hoje se despreza por +moda, crendo-se que nisso consiste o romantismo. Já lemos numa enfiada +de versos, de que não era possivel ler vinte sem bocejar, que Homero +fazia dormir. Ao menos quem assim calca aos pés o velho trovador da +Grecia não corre o risco de lhe acontecer o caso do soldado liliputiano +que metteu a lança pelo nariz de Gulliver. Homero já não espirra. Que +pensariam taes criticos poetas se lhes dissessemos que a Odyssea, quanto +ás imagens e mesmo ás fórmas, tem muitissimos caracteres proprios da +poesia romantica? Certamente não nos entendiam. Não é em chamar ridiculo +ao que é bello, nem em destemperos que deve consistir a ingenuidade das +modernas opiniões litterarias.[7] Mas passemos a Virgilio. + +Foi na epocha d'este que Roma caíu em terra e que Cepias se assentou +sobre a campa da patria. Todos sabem a historia dos feitos romanos e a +gloria que os cerca: mas a gloria acaba onde a escravidão começa. Nesta +transição appareceu Virgilio que, talvez exemplo unico, sabia mendigar +as migalhas de um tyranno e nutrir idéas generosas. As recordações da +republica, as memorias de um povo que já não existia reclamavam as +canções do poeta. Esta idéa o agitava e ella gerou a Eneida. Porém o +cortesão não podia no palacio de Augusto, nos banquetes da prostituição, +ao som dos grilhões de Roma, entoar um hymno em que a lembrança da +liberdade se associaria a quasi todas as imagens, a quasi todos os +sentimentos. Por outro lado a grinalda dos louros romanos partia de uma +caverna de salteadores: nascia de um ponto negro como o em que findava. +Este podia illustrá-lo Virgilio; uma messeniana[8] e um punhal bastavam; +mas elle queria gozos e repouso: Augusto ameigava-o, e o manhoso Mecenas +dava-lhe os meios de satisfazer seus vergonhosos appetites. O mal +denominado epicurismo que dominava na cidade eterna e que tanto +contribuiu para ella deixar de o ser, o fazia olhar a vida feliz como um +bem que se devia conservar mesmo á custa da moralidade. Tudo contribuiu +para envilecer Virgilio, e notemos que até no seu estylo encontramos a +prova disso. Aquelle lavrado, aquelle _molle atque fecetum_ que Horacio +achava em seus versos não sabemos o que tem de analogo ás palavras +suaves e attractivas de um homem abjecto quando a dula o seu patrono. +Porque haverá tantas similhanças entre as pessoas do tempo de Luís XIV +que dava pensões aos poetas, e as do seculo de Augusto que lhes dava +tambem de comer? Porque serão elles nestas duas epochas modelos de +perfeição, pelo que toca ao bem obrado do estylo, sempre em proporção de +seus serviços e da sua frequencia nos passos dos Reis e dos grandes da +terra? + +Na impossibilidade de cantar os romanos, quando dignos d'este nome, +sómente restava a Virgilio um meio de satisfazer essa idéa de gloria +patria, d'esse Deus que o agitava, o collocar um monumento espantoso no +berço obscuro da sua nação: elle o fez, e a Eneida foi este monumento. +Não tendo como Homero ao menos um pequeno cabedal de realidade, elle +arrancou da phantasia todo o seu edificio, edificio o mais bem acabado +que neste genero conhecemos. Porém observemos que elle desenhou os +caracteres dos seus heroes mui differentes dos da Iliada. Os d'esta são +rudes mas sublimes, os da Eneida são macios e cuidados, mas geralmente +mesquinhos. No poema grego surgem, interessam individualmente os Aiaces, +Diómedes, Ulysses, Agamemnon e tantos outros; no latino os heroes +secundarios deslizam pelo poema, como as turbas de Roma deslizavam por +uma existencia sem significação debaixo dos pés do Cesar. De todos os +troianos, acabada a leitura da Eneida, apenas nos recordamos do filho de +Anchises: Achates, Gyas, Cloantho sumiram-se como sombras. O mesmo Eneas +tem um certo ar hypocrita que desagrada aos homens singellos e o colloca +a seus olhos bem longe de Achilles. Foi a influencia do seculo quem fez +Virgilio, nesta parte tão inferior a Homero: se o poeta tivesse vivido +no tempo dos velhos romanos, nós não possuiriamos hoje a mais agradavel +porção do 4.^o livro da Eneida. Dido não teria sido seduzida e +abandonada, embora isto contribua, e muito, para satisfazer a idéa +principal do poeta. Uma immoralidade tão vil, o ludibriar a +hospitalidade e a fraqueza só podia caber a um heroe inventado na epocha +dissoluta da queda da republica romana. Afóra isto nós não podemos +deixar de admirar Eneas; e apesar da corrupção do seculo e da propria, +Virgilio soube ainda dar um illustre fundador á sua patria. De todos os +restos de Troia só d'elle precisava o poeta, assim é que só elle +resplandece no meio dos seus troianos, emquanto os guerreiros da +Hesperia, Turno, Pallante, Lauso, Camilla, teem muitas vezes uma côr +homerica. Estes eram filhos da Italia e a Italia era o solo que viu +nascer Virgilio. Quando Voltaire, acabando de ler a Eneida, achou que +Turno interessava mais que Eneas, disse que apesar da falta da unidade +de interesse não ousava reprehender Virgilio. Nem havia de quê: a +unidade de interesse tem tanta validade como a de acção. Qualquer dos +dois que interessasse principalmente, a idéa geral estava preenchida. +Nos bellos dias de gloria de Roma, todos os povos do Lacio estavam +fundidos no romano e as suas recordações nas d'este. Escondesse o filho +de Venus o covil de Romulo com o seu escudo celeste, o fim de sua +existencia estava satisfeito, e o poeta podia na serie das variedades +buscar as que bem lhe parecessem para com ellas tirar um som accorde com +a idéa que o dominava. Segundo nosso modo de pensar em litteratura, +muitos defeitos que teem sido assacados á Eneida não existem nella. Em +nenhuma coisa offendeu Virgilio os principios eternos do bello, senão +quando o seculo com sua peçonha pôde mais do que o genio extraordinario +do poeta. Elle não teria egual se tivesse sido livre. + +A ordem das idéas exige que desprezemos a rias datas. Circumstancias ha, +como o leitor verá, que nos obrigam a falar dos Lusiadas em seguimento +aos dois grandes poemas da antiguidade, e a unir as reflexões acerca do +Orlando ás que temos de fazer acêrca da Jerusalem. Os Lusiadas são o +poema onde mais apparece a necessidade de recorrer a uma idéa +independente da acção para achar a imprescriptivel unidade, e o seu +titulo nos revela logo a mente de Camões. Não foi, quanto a nós, o +descobrimento da India que produziu este poema: foi sim a gloria +nacional. Esta idéa bella, pura, immensa, como a alma de Camões, gerou +os Lusiadas. A unidade, que procurada de outro modo nào póde +encontrar-se neste poema, se encontra logo encarando-o por esta maneira. +Era o feito mais espantoso da historia portuguesa que servia de +frontispicio á longa collecção de maravilhas que ella offerecia; foi por +alli pois que rompeu a canção nacional que entoou Camões; mas todas as +recordações de Portugal, mesmo as suas debeis esperanças, estão +consignadas nos Lusiadas. Não é um facto que elle cantou; são mil +factos, mas unidos todos por um ponto, a idéa do renome português. +Camões lançou mão de nossos annaes, rasgou e maldisse suas paginas +negras, e arrojou o resto á eternidade. As differentes feições moraes +traçadas no seu poema teem uma individualidade que não cede, em nossa +opinião, á das personagens da Iliada ou da Jerusalem, mas todas com um +ideal eminente de bello ou de sublime. Poucos sentimentos houve de que o +poeta não revestisse algum de seus compatricios, e se Mr. de +Chateaubriand accusa Tasso de ter esquecido o mais puro de todos elles, +o da maternidade, não poderia dizer o mesmo do nosso Camões, que por +este lado, despindo-nos de qualquer prevenção nacional, não podemos +deixar de chamar divino. Se nisto ninguem o excede, talvez ninguem o +eguale em agglomerar num quadro selvas tão densas e variadas de imagens +e sentimentos. Diz Mr. J.B. Say que a descripção da partida dos +portugueses para o descobrimento da India é mais do que a narração de um +embarque. Nós dizemos que pouco achamos neste genero que assimilhar-lhe. + +Chegando a este trecho dos Luziadas, cremos estar vendo ondear na praia +do Restello um tropel immenso de pessoas de todas as condições e edades; +cremos descobrir no gesto, nas expressões de cada uma d'ellas, a +multidão de idéas, de paixões que tal espectaculo devia excitar, e +quando ellas acabam de passar deante de nossos olhos, um velho lá surge +e fluem da sua bocca as palavras da sabedoria. Nós o escutamos: a vida +exterior nos esquece: o ancião nos fez pensar sobre a vaidade de nossas +paixões, sobre o nada de nossas esperanças; e o poeta terminando aqui e +com arte summa um canto do poema, é que nos vem despertar da nossa +meditação, abrindo o seguinte canto com estes versos, que exigem uma +expressão vagarosa, similhante ao modo por que um homem embebido em +reflexões as deixa, e começa a volver os olhos para os objectos que o +rodeiam: + +Estas _sentenças_ taes o velho honrado +_Vociferando_ estava, quando abrimos +As azas ao _sereno e sooegado_ +Vento, e do porto amado nos partimos. + +Tal é sempre um poeta livre, celebrando as memorias de uma nação +illustre. Tal é Camões a quem não pôde envilecer nem a desventura, nem o +ar da côrte de D. João III e de seu illudido e absoluto neto, ar ja +apestado pela escravidão. Assim talvez o unico deleito dos Lusiadas seja +o seu absurdo maravilhoso, que elle deveu ao século, e de que mesmo +poderiamos tirar um argumento a favor da immensidade do genio de Camões, +se o espaço d'este artigo já demasiado longo no-lo permittisse. + +A admiração e o respeito que lhe consagramos nos fez desviar um tanto do +nosso objecto: mas seja-nos isto desculpado. Só por Camões nós os +portugueses seriamos grandes. Opprobrio da Europa nos tempos modernos, +era debaixo da sua corôa de louro e das de antiga gloria, que já +começavam a desfolhar-se quando elle a cantou, que nós nos abrigavamos +para ainda entre os estranhos ousar dizer o nome de nossa patria. E esta +com que retribuiu ao poeta? Nem com um amigo. O seu Antonio era filho da +Asia. E em nossos dias levantou-se um verme da terra para insultar sua +memoria. Deshonra eterna áquelle que pretendia despedaçar-nos nosso +ultimo titulo de nobreza, nosso ultimo consolo no meio da infamia e das +desditas! + +Ariosto e Tasso não tinham patria, porque é não tê-la o nascer numa +terra de servos. D'este modo as duas idéas que dão unidade a seus poemas +são duas idéas geraes, mas estranhas como taes á Italia,--a cavallaria e +as cruzadas. A segunda parece conter-se na primeira, mas considerada em +si é tão geral e tão indeterminada como ella. O que é a cavallaria? É o +espirito humano modificado de certo modo. O que são as cruzadas? A +resposta do Christianismo á terrivel pergunta que lhe fizera o islamismo +quando os sarracenos invadiram a Italia, a Hespanha e uma parte da +França. Qual de nós dominará a terra? Esta era a pergunta: a resposta +foi o som das armas nos plainos de Ascalon, o estrondo das portas de +Jerusalem estalando aos embates dos arietes de Godofredo. Incerta como a +pergunta do mahometismo foi a replica da cruz. Vagas como o seu +resultado, estas invasões longinquas teem uma certa magnificencia moral, +digamos assim, uma certa demasia de enthusiasmo religioso, de +generosidade e de valor que esses gélidos filhos do seculo XVIII, esses +compiladores e discipulos da Encyclopedia escarneceram, porque eram +incapazes de sentir profundamente o bello e sublime d'esse todo +historico das cruzadas. Foi, pois, a idéa geral de Ariosto uma epocha +brilhante; a de Tasso, a lucta e victoria da cruz contra o crescente. As +variedades relativas á primeira, eram em muitissimo maior numero do que +as relativas á segunda; assim o Orlando é mais variado do que a +Jerusalem. Multiforme, como a vida de um cavalleiro, a idade média se +apresentou a Ariosto ora sublime, ora bella, ora ridicula nas suas +variedades immensas, e se o Orlando tem muitas vezes um caracter de +verdade objectiva, isso, em vez de servir de argumento a favor da +imitação, unicamente prova haver-se muitas vezes quasi realizado o ideal +nesses tempos heróicos das nações modernas[9]. Faltam a Tasso a miudo as +côres locaes, a verdade dos costumes, porque a sua grande idéa tinha um +lado extremamente moral, e nos costumes e no historico das Cruzadas +havia muita cousa em desharmonia com ella. O poeta substituiu tudo isso +por ficções de côres muito mais bellas, e a Jerusalem ficou sendo um +canto admiravel elevado em honra do christianismo e do enthusiasmo dos +baixos tempos. + +Tasso respeitava as regras: a Jerusalem _conquistada_ foi o fructo +d'esse respeito. Felizmente a _Libertada_ já era publica: aliás o poeta +perseguido pelos preceitos e pelos pedantes teria destruido a sua obra +prima para nos deixar um poema que ninguem hoje lê. Seria mais um mal +produzido pelo fanatismo litterario; e apesar de Galileo e de Dureau +Delamalle, nós folgamos que tal não acontecesse.[10] + +Passámos de leve na applicação de uma parte de nossos principios aos +cinco mais celebres poemas da velha e nova Europa, porque não era +compativel com a brevidade o fazê-lo de outro modo; por essa razão fomos +talvez obscuros. Ser-nos-ha porventura dado algum dia tractar d'esta +materia, fóra de uma folha periodica: então mostraremos que esta nova +theoria não é tão horrivel como agora parecerá a muitos; nem se nos +levará tanto a mal a nossa impiedade litteraria, quando, mais +miudamente, fizermos surgir do cháos da antiga critica suas +contradicções e absurdos. + +Mas, pertendendo destruir o systema da eschola classica, não somos nós +romanticos? Alguem nos terá como taes: cumpre por tanto que nos +expliquemos. Na verdadeira accepção do termo elle é o nosso symbolo; +porém este symbolo nada tem em rigor com aquillo acêrca de que havemos +falado. Tractámos das fórmas da poesia. As modernas opiniões dos +verdadeiros romanticos versam sobre a sua essencia. Verdade é que a +theoria do bello, que indicámos apenas, dá a razão da maior parte +d'essas mesmas opiniões, cujo exame nos absteremos de encetar. Diremos +sómente que somos romanticos, querendo que os portugueses voltem a uma +litteratura sua, sem comtudo deixar de admirar os monumentos da grega e +da romana: que amem a patria mesmo em poesia: que aproveitem os nossos +tempos historicos, os quaes o Christianismo com sua doçura, e com seu +enthusiasmo e o caracter generoso e valente desses homens livres do +norte, que esmagaram o vil imperio de Constantino, tornaram mais bellos +que os dos antigos: que desterrem de seus cantos esses numes dos gregos, +agradaveis para elles, mas ridiculos para nós e as mais das vezes +inharmonicos com as nossas idéas moraes: que os substituam por nossa +mythologia nacional na poesia narrativa; e pela religião, pela +philosophia e pela moral na lyrica. Isto queremos nós e neste sentido +somos romanticos; porém naquelle que a esta palavra se tem dado +impropriamente, com o fito de encobrir a falta de genio e de fazer amar +a irreligião, a immoralidade e quanto ha de negro e abjecto no coração +humano, nós declaramos que o não somos, nem esperamos sê-lo nunca. Nossa +theoria fôra a primeira a caír por terra deante da barbaria d'esta seita +miseravel que apenas entre os seus, conta um genio, e foi o que a creou: +genio sem duvida immenso e insondavel, mas similhante aos abysmos dos +mares tempestuosos que saudou em seus hymnos de desesperação: genio que +passou pela terra como um relampago infernal, e cujo fogo mirrou os +campos da poesia e os deixou aridos como o areal do deserto; genio emfim +que não tem com quem comparar-se, que nunca o terá talvez, e que seus +exaggerados admiradores apenas teem pretendido macaquear. + +Falamos de Byron. Qual e, com effeito, a idéa dominante nos seus poemas? +Nenhuma ou, o que é o mesmo, um scepticismo absoluto, a negação de todas +as idéas positivas. Com um sorriso espantoso, elle escarneceu de tudo. +Religião, moral, affectos humanos, mesmo a liberdade e a esperança foram +seu ludibrio. A leitura dos seus poemas só produz, em geral, +descoroçoamento ou antes desesperação. Byron é o Mephistopheles de +Goethe lançado na vida real.--Virtude e crime, pudor e impudencia, +gloria e infamia, que montam em seus cantos sinistros? Mas o homem, ser +immortal, passageiro em um mundo transitorio, não nasceu para o +scepticismo, para um estado violento, porque elle precisa crêr, quando +mais não fosse ao menos na voz esperançosa ou ameaçadora da consciencia: +infeliz, pois, d'aquelle que ao acabar de ler Byron não sente no coração +um peso insupportavel: a sua alma será tão escura e tão vasia como a +d'este poeta sublimemente destruidor. De sua eschola apenas restará +elle; mas como um monumento espantoso dos pricipicios do genio quando +desacompanhado da virtude. Dos seus imitadores diremos só que elles +farão com seus dramas, poemas e canções em honra dos crimes, que a +Europa, volvendo a si, amaldiçoe um dia esta litteratura, que hoje tanto +applaude. Nossa prophecia se verificará, se, como cremos, o genero +humano tende á perfectibilidade, e se o homem não nasceu para correr na +vida um campo de lagrymas e despenhar-se pela morte nos abysmos do nada. +No meio das revoluções, na epocha em que os tyrannos, enfurecidos pela +perspectiva de uma queda eminente, se apressam a exgotar sobre os povos +os thesouros da sua barbaridade: emquanto dura o grande combate, o +combate dos seculos, os hymnos do desespero soam accordes com as dôres +moraes; mas quando algum dia a Europa jazer livre e tranquilla, ninguem +olhara sem compaixao ou horror os desvarios litterarios do nosso seculo. +Muitos mesmo não os entenderão. + + + + +*Origens do theatro moderno--Theatro português até aos fins do seculo +XVI* + +PANORAMA + +1837 + + + + +*Origens do theatro moderno--Theatro português até aos fins do seculo +XVI + + +O país onde primeiro appareceu a arte dramatica moderna foi a +Inglaterra, se arte dramatica podemos chamar a espectaculos tirados de +passos historicos da Biblia, sem invenção ou enredo, e só copiados +litteralmente em discursos e acções. Estas primeiras tentativas +theatraes, a que depois os franceses e italianos chamaram _mysterios_, +appareceram na Grã-Bretanha durante o seculo XI. Os monges as compunham +e representavam, e ainda no fim do seculo XVI elles pediam a Ricardo II +embargasse os comediantes de exercerem uma profissão que julgavam ser um +privilegio seu, porque ordinariamente o objecto dos dramas se tirava do +velho e novo Testamento. + +Pelas muitas relações que havia entre a Inglaterra e a França, parece +que os mysterios ingleses não tardaram em introduzir-se neste ultimo +país. A _Morte de Santa Catherina_, representada na abbadia de +Dunstaple, em mil cento e tantos, foi no seculo seguinte posta de novo +em scena no mosteiro de Sancto Albano em França, e é talvez esta a +memoria mais antiga que temos da arte dramatica francesa. Depois esta +continuou e cresceu, chamando se ás farças prophanas _jogos_ ou +_representações_, e aos dramas sacros _mysterios_. + +A Italia começou mais tarde, com este genero de composições barbaras: +mas, tendo primeiro que nenhuma outra nação seguido o gosto da +litteratura grega e romana, brevemente o tomou tambem no theatro. Os +dramas de Mussato compostos no principio do seculo XIV, e em latim, são +_Ezzelino_ e _Achilles_, imitações de Seneca, escriptas com um tão falso +estylo como o do dramaturgo romano. Foi no XV seculo que appareceram na +Italia os primeiros dramas vulgares: Lourenço de Medicis publicou a +_Representação de S. João e S. Paulo_, e Angelo Policiano deu pouco +depois a sua tragedia intitulada _Orpheo_. + +Desde o seculo XIV appareceram dramas na Alemanha; mas estes nada mais +eram do que imitações dos _mysterios_ franceses, e escriptos em latim +pelos monges. Em meado do seculo XV foi que verdadeiramente começou +neste país o theatro nacional. Hans-Folz e Rosemblut compuseram diversas +farças, que se representaram em Nuremberg e Calmar: estas farças, obra +de homens rudes, são um tecido de grossarias e indecencias apenas dignas +de se recitarem diante da plebe mais desfaçada. Depois de 1500 é que +appareceu _Hans-Sachs_, a quem podemos chamar o Gil Vicente da Alemanha. + +Na Hespanha, ou porque os arabes o introduzissem, ou porque os +hespanhoes o inventassem, ou, emfim, porque muito cedo o imitassem dos +franceses, o drama remonta aos primeiros tempos da monarchia. Só, na +verdade, do principio do seculo XIV conhecemos a scena hespanhola; mas +restam memorias d'ella muitissimo mais remotas, e pouco depois de 1200, +dizem que appareceram dramas em Valenciano. Do seculo XV ainda existem +muitas composições neste genero de litteratura. + +Essas primeiras tentativas dramaticas eram forçosamente um tecido sem +nexo, sem ordem, e ridiculo: os seus auctores se entregavam +desenfreadamente a todos os caprichos de uma imaginação fervente, e as +producções d'esse tempo são em geral monstruosas e absurdas. Rodrigo de +Cotta começou a dar alguma regularidade ao drama na comedia de _Calisto +e Melibea_; mas a licença de seus quadros e expressões mancha o +merecimento d'esta peça, que depois foi algum tanto corrigida e +accrescentada por Fernando de Roxas, auctor de outra comedia--_Progne e +Philomela_. Apesar de assim emendada a obra de Cotta ainda é monstruosa. +Uma serie de enredos amorosos e de crimes se encruzam e estendem ahi +através de vinte e cinco actos. Entretanto a verdade dos costumes e +caracteres e a verosimilhança dos episodios lhe deram celebridade; e com +o titulo de _Celestina_ ella foi muitas vezes reimpressa, traduzida em +diversas linguas e até na latina pelo celebre Barthius. A reputação da +_Celestina_ fez nascer os imitadores; e novas composições, com o mesmo +ou differente titulo, mas que estão longe de ter o merito da original, +surgiram brevemente em Hespanha. + +Por este tempo floresceram mais outros dois auctores dramaticos, o +Marquez de Villena e João de la Enzina, que foi o principal modelo do +nosso Gil Vicente. Os dramas do primeiro foram representados em Saragoça +na côrte de D. João II, pelo meado do XV seculo; os do segundo o foram +tambem, na côrte de Fernando e Isabel nos fins d'aquella mesma era. + +Resurgiam então as letras gregas e romanas, e a admiração do theatro +antigo despertou na Hespanha o genio da tragedia. Oliva publicou duas +composições trágicas--_Hécuba triste_ e _La venganza de Agamemnon_, as +primeiras que neste genero se escreveram na Peninsula. Restrictas e +acanhadas imitações dos gregos, ellas se podem considerar como +traducções livres da _Hécuba_ de Euripides e da _Electra_ de Sophocles. + +Em Portugal é provavel começassem as representações scenicas pelo mesmo +tempo em que principiaram na Hespanha; mas nenhuns vestigios restam +d'esse theatro primitivo. O que é certo é que já nos fins do seculo XIV +havia em Portugal entremezes. Garcia de Rezende na chronica de D. João +II, narrando as festas que se fizeram em Evora no casamento do principe +D. Affonso com a infanta D. Isabel de Castella, fala, em varios +capitulos, dos _entremezes_ e _representaçoens_, que nessa occasião se +fizeram, dando a entender pelo modo porque acêrca d'elles se exprime, +que eram uma coisa bem conhecida e vulgar, e não é impossivel que ainda +se nos depare algum monumento d'esse nosso primitivo theatro. + +Porém, o mais antigo drama que hoje conhecemos é um de Gil Vicente, +representado em 1502 na côrte de D. Manoel, e Gil Vicente é, no estado +actual da nossa historia litteraria, considerado como o fundador da +scena portuguesa, pela mesma razão porque o podemos ter por inventor dos +_rimances_, ou _xácaras_, dos quaes os mais antigos que existem são os +que elle entresachou pelos seus _Autos_, e o que elle dedicou á morte de +el-rei D. Manoel. + +Gil Vicente dividiu em quatro livros as suas composições dramaticas, +incluindo no primeiro todos os autos a que chamou de _devoção_, por +versarem em geral sobre objectos biblicos e religiosos; mas estas _obras +de devoção_ parecem as menos devotas de todas, se das outras +exceptuarmos a comedia de _Rubena_ que pertence ao segundo livro. Taes +_autos_ são na essencia o mesmo que os mysterios franceses, como elles +cheios de indecencias, porém ao mesmo tempo ricos de sal e chistes. O +poeta abominava cordealmente o clero, sobretudo os frades, e não +desaproveitou occasião alguma de os presentear com chascos e epigrammas. +Os autos das _barcas_, que são como continuação uns dos outros, e formam +a _trilogia_, ou drama em tres quadros, mais antiga da Europa, +constituem com _Mofina Mendes_ e _Rubena_ a flôr do theatro de Gil +Vicente; porque talvez em nenhuma das scenas que os compõem deixa de +patentear-se em subido gráu o genio da comedia. Este poeta reunia á +qualidade de auctor a de actor; e com seus filhos representava os +proprios dramas na côrte de D. Manoel e de D. João III. Apesar de +cortesão, o poeta morreu pobre, em Evora, depois de 1550. As suas obras +se imprimiram em Lisboa em 1562, e muito mutiladas em 1586. Uma nova +edição completa se publicou ultimamente em Hamburgo em 1833. + +Gil Vicente teve um filho do seu mesmo nome, que dizem desterrou para a +India, levado pelo ciume de este o exceder no genio dramatico. Ao moço +Gil Vicente se attribue a composição de um auto intitulado _D. Luiz de +los Turcos_. + +Pelo meado do seculo XVI appareceram em Portugal varios poetas que mais +ou menos seguiram as pisadas do auctor de _Rubena_. Ao infante D. Luiz +se attribue o auto de _D. Duardos_, que anda impresso como de Gil +Vicente. Antonio Ribeiro Chiado, tão conhecido na côrte de D. João III e +de D. Sebastião, pelos seus gracejos e agudezas, e pela propriedade com +que remedava a voz e o gesto de todos, nos deixou dois autos assás +engraçados, o da _Natural Invenção_ e o de _Gonçalo Chambão_. Na +_Primeira parte dos Autos e Comedias Portuguezas_, publicada em 1587, +livro hoje bastante raro, se imprimiram sete autos de Antonio Prestes, +que revelam espirito comico não inferior porventura ao de Gil Vicente, +cuja escola Prestes seguiu, bem como Jorge Pinto, auctor de _Rodrigo_ e +_Mengo_, e Jeronymo Ribeiro Soares, auctor do _Auto do Fisico_, que vem +naquella collecção cuja segunda parte nunca se deu á estampa. O nosso +Jorge Ferreira de Vasconcellos, auctor dos dois romances da _Tavola +Redonda_, floresceu tambem por estes tempos. Tres composições suas nos +restam, _Aulegrafia_, _Euphrosina_ e _Ulyssipo_, a que elle chamou +comedias, e que, realmente, são antes dialogos do que dramas. Nellas +teve por alvo Jorge Ferreira reunir os proverbios e annexins da lingua +ou a philosophia popular do seu tempo, e por este lado são ellas, na +verdade, dignas da maior estimação; mas se as quisermos considerar como +dramas bem pequeno é o seu merito. + +No reinado de D. Sebastião, o cego Balthasar Dias, poeta natural da +Madeira, publicou um grande numero de autos e outras obras, humildes +pelo estilo, mas com toques tão nacionaes e tão gostosos para o povo, +que ainda hoje são lidos por este com avidez. Correi as choupanas nas +aldeãs, as officinas e as lojas dos artifices nas cidades, e em quasi +todas achareis uma ou outra das multiplicadas edições dos _Autos de S. +Aleixo_, _de S. Catherina_ e da _Historia da Imperatriz Porcina_, tudo +obras d'aquelle poeta cego do seculo XVI. + +Este era o theatro verdadeiramente nacional até o anno de 1600, em que +floresceu Simão Machado, auctor do _Cerco de Diu_ e da _Pastora Alfêa_. +Muitas composições d'este genero se perderam, ou não chegaram á nossa +noticia, como os Autos de Antonio Pires Gonge, de Sebastião Pires, e de +António Peres, que dizem que escrevera mais de cem dramas. O auto do +_Fidalgo de Florença_, composto por João de Escobar, no reinado de D. +Sebastião, teve nesse tempo grande celebridade, e se imprimiu repetidas +vezes: porém d'elle ainda não encontrámos um unico exemplar. + +Emquanto assim a escola formada por Gil Vicente progredia, e, em nosso +entender, se aperfeiçoava, independente de estranha influencia, poetas +de grande nome trabalhavam por introduzir em nossa litteratura as fórmas +do theatro grego ou romano. Francisco de Sá de Miranda escreveu duas +comedias intituladas _Vilhalpandos_ e _Os Estrangeiros_, as quaes se +imprimiram, depois de sua morte, em 1560 a primeira, e a segunda em +1569. Nestas procurou elle seguir as pisadas de Planto e Terencio, como +o confessa no prologo dos _Estrangeiros_, e com effeito ellas se podem +comparar com as dos dois comicos latinos. Antonio Ferreira compôs quasi +pelos mesmos tempos as comedias _Bristo_ e _Cioso_ e a tragedia _D. +Ignez de Castro_, a segunda que appareceu na Europa conforme a todas as +regras classicas, sendo a primeira a _Sophonisba_ do poeta italiano +Trissino; mas a de Castro é superior; e nós a temos por um milagre +dramatico, attendendo á falta de modelos modernos e ao seculo em que foi +escripta. O illustre Camões tambem nos deixou, com o titulo de autos, +duas comedias--_Os Amphytrioens_ e _Filodemo_, das quaes a primeira é +quasi uma traducção de Plauto. Desde esta epocha o theatro português foi +caindo e podemos dizer que nunca mais tornou a restaurar-se. + + + + +*Novellas de cavallaria Portuguesas* + +PANORAMA + +1838-1840 + + + + +*Novellas de Cavallaria Portuguesas* + + +I + +Amadis de Gaula + + +As idéas de honra, de valentia e de amor, que occupavam quasi +exclusivamente os espiritos durante a edade média, reproduziram-se em +todas as fórmas sociaes e instituições d'aquella brilhante epocha: o +sentimento religioso traduzia-se em cruzadas ou em guerras de seitas: o +do prazer em justas, torneios e caçadas, que eram imagem da guerra, ou +em serões, onde os themas inexgotaveis dos trovadores eram ou amores ou +armas: as leis apesar de terem a sua principal origem no direito +canonico e depois no romano, lá abriam a liça aos combates judiciarios: +as habitações eram castellos, e os adornos dos aposentos corpos de armas +pendurados, lanças, e razes, onde as mãos das donzellas tinham lavrado a +historia de combates. Neste predominio exclusivo de certas idéas, como +escaparia a litteratura de ser dominada por ellas? Assim, depois das +cantigas dos trovadores, vieram os _rimances_ mais longos, os poemos e +as novellas de cavallaria. Era esta a litteratura d'aquelles seculos, +nem outra podia ser: a imaginação dos poetas e novelleiros não +alcançaria espraiar-se além das fórmas da sociedade de então; porque a +litteratura de todas as epochas sem exceptuar a nossa, não é mais do que +um echo harmonioso, ou um reflexo resplendente das idéas capitães, que +vogam em qualquer d'ellas. As aventuras, os amores, os feitos d'armas +dos heroes do Boiardo eram a imagem, vista através de um prisma, dos +homens do XV seculo: a ancia de liberdade descomedida, a misantropia, os +crimes, a incredulidade dos monstros de Byron são o transumpto medonho e +sublime d'este seculo de exaggerações e de renovação social. + +O prazo durante o qual os portugueses tocaram a meta do espirito +cavalleiroso, e o conservaram em toda a pureza e vigor, prolongou-se por +obra de um seculo, desde os ultimos annos do reinado d'el-rei D. +Fernando até o d'el-rei D. Affonso V. Antes d'esse tempo nossos avós +eram demasiado rudes para conceberem e reduzirem a inteira practica a +concepção immensamente bella da cavallaria; depois d'elle, eram muito +cidadãos para serem cavalleiros. D. Alvaro Vaz d'Almada caindo morto na +batalha de Alfarrobeira era o symbolo da cavallaria expirando nas +paginas da ordenação affonsina. Nesta compilação indigesta e +essencialmente contradictoria da legislação de tres seculos, não bastava +o ser inserido o velho regimento de guerra português, emendado por +jurisconsultos, para salvar da morte a cavallaria, que outras +disposições d'esse codigo indirectamente assassinavam. Nisto como em +quasi tudo o mais, das actas das côrtes portuguesas anteriores a D. João +II e da ordenação affonsina, se póde extrahir toda a substancia +philosophica da historia dos primeiros tres seculos da monarchia. + +Se o espirito puro de cavallaria dominou tão largo periodo, os +_cavalleiros-modelos_ (permitta-se-nos a expressão) foram só os que se +crearam na côrte de D. João I; e a poetica ficção dos Doze de Inglaterra +pinta a epocha em que se diz succedera essa aventura. Cavalleiros +andantes portugueses houve-os nos seculos anteriores; mas a cortesia, a +louçainha, e a galantaria que caracterizam a verdadeira cavallaria só as +amostra a nossa historia nos guerreiros indomaveis, que na batalha de +Aljubarrota formavam o esquadrão brilhante chamado a _Ala dos +Namorados_. Eram estes guerreiros que faziam aquelles _votos denodados_, +em demanda de cuja execução muitas vezes perdiam a vida: eram estes que, +discorrendo pelas terras estrangeiras, ahi deixavam perenne memoria de +seus esforçados feitos. + +Foi na luzida côrte do mestre de Aviz onde achou a cavallaria de toda a +Europa o seu Homero em Vasco de Lobeira. Como antes d'aquella houve +poetas, assim antes d'este houve romancistas; como Homero eclypsou a +memoria dos cantos dos seus antecessores, assim Lobeira fez esquecer as +mal tecidas invenções dos mais antigos novelleiros, e o _Amadis de +Gaula_ é a primeira e a principal novella no extensissimo catalogo dos +contos de cavallaria. + +Poucas memorias nos restam acêrca de Vasco de Lobeira. Sabe-se que foi +natural do Porto, e armado cavalleiro por D. João I antes de começar a +batalha de Aljubarrota. Viveu a maior parte da sua vida em Elvas, e +morreu em 1403. + +Escripto muito antes da invenção da imprensa, o _Amadis_ correu +manuscripto até o tempo de D. João V; porque os nossos antepassados +nunca tiveram a curiosidade de o imprimir. Foram assim escasseando as +copias d'elle, e nos ultimos tempos se havia tornado tão raro que apenas +se lhe conhecia um ou dois exemplares. O conde da Ericeira, testemunha +acima de toda a excepção, o viu, e o abbade Barbosa diz que o proprio +original estava na livraria dos duques de Aveiro. O fatal terremoto de +1755 fez desapparecer este monumento precioso da nossa litteratura, e +tudo nos incita hoje a crêr que se perdeu para sempre. + +Mas, se já não existe o original, existem as versões d'elle, ainda que +alteradas pelos traductores. Trasladado em hespanhol se publicou em +Sevilha em 1510. Vimos esta traducção, de que ha um exemplar na +bibliotheca publica da cidade do Porto; e bem sentimos não ter tomado +d'ella varias notas, que de grande utilidade nos foram para o que vamos +dizer. Lemos ultimamente a edição de Garciordonez de Montalvo, impressa +tambem em Sevilha, em 1526, da qual nenhum bibliographo, que nós +conheçamos, faz menção. Segundo o abbade Barbosa as edições do _Amadis_, +vertido em hespanhol, se repetiram em 1539, 1576 e 1588. + +Esta novella tambem appareceu em 1540, traduzida em francês e +accrescentada por Nicolau de Herberay: em 1583 a publicaram os alemães +na sua lingua; e Bernarda Tasso, pai do grande Tasso, a reduziu em +italiano quasi por esse mesmo tempo, fazendo um poema riquissimo de +versos pomposos, e... de dormideiras. Esta acceitação unanime das +diversas nações é o maior elogio que se podia fazer á obra do nosso +Lobeira. + +O _Amadis_, como hoje o conhecemos, na antiga versão hespanhola, consta +de quatro livros, o ultimo dos quaes foi grandemente alterado por +Garciordonez, segundo elle mesmo diz: "Corrigi (são palavras do prologo) +estes tres livros do Amadis, que por culpa dos máus escriptores ou +compositores mui corruptos e viciados se liam, e _trasladei_ e emmendei +o livro 4.^o". Estes quatro livros, traduzidos tambem em francês, foram +continuados por diversos auctores, constando hoje a obra de vinte e +quatro. + +Sendo impossivel dar uma idéa do _Amadis de Gaula_, teia immensa de +aventuras, que ao modo das do Ariosto formam um labyrintho inextricavel, +buscaremos ao menos dar a conhecer o tempo e o logar da acção, e o seu +principal actor, com a brevidade a que nos constrangem os limites do +_Panorama_. + +A epocha escolhida pelos romancistas de cavallarias para nella +collocarem os seus heroes fabulosos é indeterminada em todas as +novellas. A do _Amadis_, ainda que bastante incerta, é menos vaga. O +heroe viveu muito antes do celebre Arthur ou Artus, rei de Inglaterra: +mas já quando este país e o de França eram christãos. É o que se lê no +1.^o capitulo do _Amadis_, e sendo assim este guerreiro floresceu no VI +ou VII seculo; e como a maior parte dos romances de cavallaria, que +ainda existem, versam sobre a vida dos seus imaginarios descendentes, +podemos tambem para elles estabelecer, ainda que imperfeitamente, uma +especie de chronologia. + +O theatro em que se passam as aventuras de _Amadis de Gaula_, é um +theatro quasi tamanho como o mundo conhecido no tempo de D. João I. O +heroe e os mais cavalleiros seus contemporaneos cruzavam mares extensos, +peregrinavam centenares de leguas, com a mesma rapidez e facilidade com +que nós fazemos visitas dentro de Lisboa. Esta commodidade +aproveitaram-na todos os novelleiros que vieram depois de Lobeira; e +para as distancias que seria incrivel fazer correr em curtissimo prazo a +um cavalleiro, lá estavam as magas e os encantadores, especie de espada +de Alexandre, que o escriptor sempre tinha á mão para cortar todos os +nós gordios que embaraçavam as narrações. + +Não nos cabendo neste logar tudo o que temos de dizer acêrca do +_Amadis_, o deixaremos para segundo artigo, continuando nos subsequentes +com a historia das outras novellas de cavallaria portuguesas. + + +II + +Amaclis de Gaula + +(Continuação) + + +Promettemos no antedecente artigo dar uma brevissima idéa d'esta +primeira novella de cavallaria: cumpri-lo-hemos aqui, tocando depois um +ponto em que de proposito deixámos de falar, e vem a ser a célebre +questão acêrca de saber se esta novella é obra de um auctor português, +hespanhol, ou francês. Todas estas tres nações a pretendem para si; e na +contenda os portugueses parece estarem peior que os seus adversarios, +visto já não existir o original. Mas, ao cabo, são elles que teem razão, +segundo nosso entender; e por isso não duvidámos de attribuir o _Amadis_ +a Vasco de Lobeira. + +O rei Perion reinava na Gaula (França): o rei Garinter na Pequena +Bretanha, hoje a provincia de França d'este nome. Levado pelo desejo de +conhecer Garinter intenta Perion uma longa viagem[11]; e com efteito o +encontra numa caçada; dão-se a conhecer um ao outro, e Perion é +conduzido á corte do seu novo amigo. Tinha este uma filha chamada +Elisena, que se namora de Perion, o qual d'ahi a pouco parte para a +Gaula, deixando-a gravida. Ella para esquivar-se á infamia entrega o +fructo dos seus amores á mercê das ondas, encerrado em uma caixa. Foi +este Amadis. Encontrado por uma barca em que ía Gandales, cavalleiro +escocês, este o salva e cria com seu filho Gandalim, depois escudeiro de +Amadis. Os dois moços são levados á côrte de Languines, rei da Escocia. +Aqui viu a Amadis el-rei Lisuarte, que de Dinamarca vinha reinar em +Inglaterra, o qual deixou na côrte de Languines a sua filha Oriana. Foi +então que começaram os amores d'esta princeza com Amadis, que são o +principal objecto da novella. Amadis é reconhecido por seu pai Perion, +já casado com a filha de Garinter, e cresce em poder e renome. Mil +difficulclades se alevantam para elle chegar a possuir Oriana, as quaes +vence com repetidos actos de generosidade e valentia. Emfim o romance +acaba de um modo incompleto com os trabalhos que nos seus ultimos annos +cercaram a el-rei Lisuarte. + +É esta, em summa, a materia que enche o volumoso romance de _Amadis_, +novella cheia de muitas paginas fastidiosas, mas tambem de muitas que +grandemente excitam a curiosidade. O estylo em que está escripto é o de +uma velha chronica do seculo XV, e notamos nelle uma grande similhança +com os escriptos do pai da nossa historia, o singelo chronista de João +I, Fernão Lopes, que tantas vezes se mostra mais poeta que muitos que se +arrogam este titulo. + +Traçado um leve esboço da novella de _Amadis de Gaula_, segue-se tractar +a questão de saber se a devemos attribuir a um escriptor português. + +Primeiro que tudo, é de notar que a tradição constante em Portugal foi +sempre que o _Amadis_ fôra composto por Lobeira. Antonio Ferreira e o +dr. João de Barros, que escreveram no seculo XVI, não duvidam dá-lo por +certo: o conde da Ericeira numa conta dada á academia de historia, de +certa colleção de livros que andava examinando, diz que ali se achava um +manuscripto do _Amadis_, sem que sobre isso faça admiração ou reparo; o +que parece provar que naquella academia nenhuma duvida havia acêrca da +existencia da novella, no original português. Mas não era só nossa esta +opinião: a maior parte dos escriptores hespanhoes convem em attribuir a +Lobeira o _Amadis de Gaula_. + +Pretendem os franceses (não todos os que na materia teem escripto) que +esta novella fôra traduzida em hespanhol do idioma picardo, e Herberay +diz a vira nesta lingua: mas isto nada prova. Quem impedia que os +franceses traduzissem o original de Lobeira? A outra objecção contra nós +é ter feito o auctor os seus heroes franceses e ingleses; mas isto +tambem nada prova: por que prova de mais. Os ingleses teriam ainda mais +razão para pedirem a gloria d'esta obra, visto que, apesar de ser +francesa a personagem principal, a maior parte dos acontecimentos +põe-nos o auctor em Inglaterra, e quasi todos os cavalleiros notaveis +são d'este país, á excepção de Amadis e seu irmão Galaor. O certo é que +Lobeira, tendo vivido no tempo de el-rei D. Fernando I e de D. João I, +tinha visto as proezas que em Portugal obraram os cavalleiros ingleses, +a quem devemos os progressos que então fizemos na arte da guerra. Devia +elle fazer portanto alta idéa da cavallaria d'aquella nação. Nada havia +mais natural do que fazer da Inglaterra o theatro das façanhas dos seus +imaginarios heroes. Como, porém, o agente principal de todos os +successos devia ser o amor, naturalissimo era que o auctor buscasse um +principe estrangeiro que viesse tornar brilhante a côrte inglesa, com +seus amores pela dama principal, a filha de Lisuarte, que não poderia +aliás corresponder á affeição de um subdito de seu pai. Eis a razão +obvia porque Amadis é francês. + +Alem d'estas observações ha uma principal, que ainda ninguem, que nós +saibamos, se lembrou de fazer: o examinar em si a novella, para ver se +das suas proprias entranhas se podia arrancar a certeza da sua origem. +Se isto se tivesse feito, a questão estaria de ha muito decidida. + +Citámos mui de proposito no primeiro artigo as palavras de Garciordonez, +que diz emendara os tres livros de _Amadis_, que andavam viciados, e +_trasladara_ o quarto. Aqui o verbo _trasladar_, é claro que não póde +significar senão traduzir, o que mostra a olhos desapaixonados que a +obra não era originalmente hespanhola. + +Seria francesa?--Dizemos, sem duvida alguma, que não. Perion encontrando +Garinter diz-lhe que viera de mui remotas terras para o vêr. Era +possivel acaso que um escriptor francês fizesse o rei da Pequena +Bretanhi desconhecido do da França, e pusesse na boca d'este um tão +descompassado erro geographico? Além d'isto Perion e Lisuarte reunem +_côrtes_, nos casos difficeis e circumstancias importantes: nestas +côrtes apparecem, não os barões das antigas assembleas feudaes da +Inglaterra e França, mas os _ricos-homens_ e _homens-bons_ das côrtes +portuguesas. Emfim o auctor descreve a passagem do canal de Inglaterra +como uma viagem de nove dias com vento favoravel. As frequentes relações +de guerra e de paz entre a Grã-Bretanha e a França permittiam porventura +que ignorasse um escriptor francês a distancia de um a outro país? + +Nós poderiamos accrescentar muitos outros exemplos d'esta natureza; mas +cremos serem de sobejo os que apontamos, para que á nação portuguesa +seja cedida a palma de ter saído da penna de um escriptor seu a mais +antiga e mais celebre das novellas cavalheirescas. + + +III + +Novellas do seculo XV + + +Quando escrevemos os dois primeiros artigos acêrca das novellas de +cavallaria portuguesas,[12] era nossa intenção continuar sem demora a +publicação do breve resumo, que encetámos d'esta parte da nossa historia +litteraria, por ser aquella sobre a qual menos se tem escripto. Mas por +isso mesmo era preciso fazer maiores indagações, que outros trabalhos +nos não permittiam. Abrimos pois, mão do intento que hoje continuamos a +pôr por obra: não porque julguemos sufficiente o que temos colligido, +desde então para cá, sobre a materia; mas porque mais valem poucas +noticias que absolutamente nenhumas. + +Antes que passemos adiante cumpre-nos accrescentar aqui alguma coisa +acêrca do _Amadis_, de que largamente falámos nos artigos já publicados, +e vem a ser um testemunho que corta por uma vez a questão da sua +originalidade. Este testemunho é o de Gomes Eannes de Azurara, +historiador que os nossos leitores já conhecem[13], e que diz o seguinte +no capitulo 63 da chronica do conde D. Pedro de Menezes--«e assy o livro +d'Amadis, como quer que sómente este fosse feito a prazer de um homem, +que se chamava Vasco Lobeira em tempo d'el-rei D. Fernando, sendo +toda-las cousas do dito livro fingidas do auctor»--Este logar de um +escriptor, a bem dizer coevo, deve tirar a última sombra de duvida sobre +a nacionalidade do celebre _Amadis de Gaula_. + +Assim como a côrte de D. João I foi a eschola dos mais famosos +cavalleiros de Portugal, assim a epocha do seu reinado se pode +considerar como a mais favoravel para as letras, que Portugal viu, até o +tempo de D. Manuel. D. Duarte, o bom e infeliz D. Duarte, +proporcionalmente o mais instruido dos nossos reis, não teve que ir +aprender, nem virtudes, nem cavallaria, nem sciencias nas côrtes +estrangeiras, porque as virtudes de que foi ornado, e os vastos +conhecimentos que possuiu, adquiriu-os na de seu illustre pai. O infante +D. Pedro, principe grande entre os maiores que Portugal tem gerado, se +correu o mundo foi para encher de assombro os sabios com sua sciencia, +os valorosos com seu valor. + +O infante D. Henrique ha ahi quem não o conheça? Quem não conheça o +fundador da nossa gloria maritima? Certo que não. Nome é esse que nunca +esquecerá. E todavia de todos os quatro filhos de João I (contando o +infante D. Fernando) é elle quem occupa o logar mais baixo na escala das +virtudes, e porventura na sciencia apenas lhe caberá o terceiro depois +de D. Duarte e D. Pedro. + +E ainda o infante D. Fernando, esse pobre cavalleiro da cruz a quem a +nação ousou negar o resgate, preferindo alguns palmos de terra cingidos +de muralhas, á liberdade e á vida de um homem leal, que bem a servira, +antepondo uma infamia a uma perda, talvez facil de remediar; ainda, +dizemos, o bom infante sancto, o martyr resignado da patria e da fé, +quão amigo e protector foi das letras e dos que as cultivavam! Fernão +Lopes e Fr. João Alvarez foram feitura sua; e, provavelmente, não nos +honrariamos hoje d'esses dois homens, dos quaes um deu o primeiro +impulso á nossa linguagem historica, e outro á nossa linguagem oratoria, +se a boa sombra de D. Fernando os não fizesse medrar. Leia-se o +testamento que fez quando mancebo partiu para a Africa, e ver-se-ha +quantos e quão notaveis livros possuia o infante; numa epocha em que, +não existindo a typographia, muitas vezes em países então semi-barbaros, +como por exemplo a Inglaterra, era necessario empenhar um castello ou um +solar inteiro para obter a copia de qualquer livro. E todavia, de todos +os quatro irmãos D. Fernando é o menos conhecido na nossa historia +litteraria. + +Os vestigios da litteratura portuguesa do periodo que decorre desde os +principios do reinado de D. João I até o de D. Affonso V são +innumeraveis; mas são apenas vestigios. Das artes ahi está a Batalha, e +ainda apesar de conegos, S.^{ta} Maria de Guimarães, dizendo o que em +Portugal foi essa era de toda a casta de glorias, a que vertendo sangue, +se acolhem os corações que por ora não renegaram do nome português, hoje +vilipendiado e arrastado por tabernas e monturos d'estrangeiros. Dos +monumentos, porém, da nossa velha litteratura apenas restam alguns +nomes, e alguns titulos ou fragmentos d'obras, consumidas por incuria +propria, e por terremotos e incendios, ou roubadas por castelhanos, +franceses, ingleses, e, emfim, por todos aquelles que teem querido tomar +o leve trabalho de arrebatar, ou pôr em almoerla as preciosidades dos +nossos cartorios, bibliothecas e museus. + +Do já citado testamento do infante D. Fernando, do de Diogo Affonso +Mangancha, do inventario de Vasco de Sousa, do catalogo da livraria +d'el-rei D. Duarte, e de muitos outros documentos publicados e ineditos, +bem como de varias passagens dos nossos chronistas, e ainda mais dos +historiadores monasticos, se vê quão grande era em Portugal o tracto dos +livros, numa epocha, que por ahi se chama barbara, porque era de grandes +virtudes. E não se creia que esses livros eram só latinos: pelo +contrario, a maior parte estava escripta nas linguas vulgares de +Hespanha, principalmente na portuguesa. As obras de Cicero foram +traduzidas pelo infante D. Pedro, e por sua ordem o livro do Regimento +dos Principes. Só a lista das obras d'el rei D. Duarte espanta pela +variedade de materias em que este rei philosopho empregou a sua penna +nada rude. Marco Paulo já estava traduzido no seu tempo. O livro da +côrte imperial prova que naquella epocha se tractavam em vulgar as +arduas materias de theologia polemica. Levantavam-se cartas +topographicas do reino, se é que os _Cadernos das cidades e villas de +Portugal_, que existiam na livraria d'el-rei D. Duarte, não eram antes +uma especie de estatistica, o que, em nosso entender, mais admiravel +fôra. Então, Diogo Affonso Mangancha, Fr. Gil Lobo, os dominicanos Fr. +Rodrigo e Fr. Fernando d'Arrotea, e tantos outros oradores, faziam +descer do alto dos pulpitos palavras de eloquencia e de uncção, que +chegavam ao fundo dos corações, como se viu nas exequias de D. João I. +Estudava-se a philosophia e a historia, de que dão testemunho os livros +philosophicos, e historiadores romanos e modernos da mesma livraria +d'el-rei D. Duarte. Emfim o ensino da jurisprudencia, trazido de Italia +por João das Regras, produziu uma multidão de jurisperitos, a quem +depois Portugal deveu grande parte da legislação, excellente para +aquelle tempo, que se encontra no codigo affonsino. + +Que resta de tantos homens e coisas? Esse codigo, que serviu de base aos +que o substituiram. Dos livros que ajunctou D. Duarte apenas sabemos da +existencia do intitulado _Côrte Imperial_ e de um fragmento do +_Regimento de Principes_. Tudo o mais quasi com certeza se poderia +talvez dizer, que, ou o tempo o consumiu, ou jaz sepultado por +bibliothecas estrangeiras, como succede ás obras do mesmo monarcha. + +Na sua já citada livraria existiam quatro obras que pelos titulos se vê +serem novellas de cavallaria. Eram estas o _Livro de Tristão_, _O +Merlim_, o _Livro de Galaz_, e o _Livro d'Hannibal_. O referido +catalogo, que apenas merece o nome de rol, só declara expressamente ser +em português o _Livro d'Hannibal_. Incrivel é quasi que o _Amadis_ +ficasse sem imitadores, e poder-se-ia conjecturar que alguma das citadas +novellas fosse original portuguesa. De todas, porém, temos achado rastos +nas litteraturas estrangeiras, vindo por tanto, a serem provavelmente +todas ellas traducções do normando-saxonio (inglês), ou com mais +probabilidade da lingua d'Oil (francesa) ou da lingua d'Oc (provençal). + +Para intelligencia d'esta nossa opinião poremos aqui resumidamente uma +idéa geral dos romances ou novellas de cavallaria. + +Os que teem escripto acêrca d'esta materia, e nomeadamente Sismondi, +dividem todos os romances em três classes ou cyclos, conhecidos pelos +nomes das primeiras personagens d'essas series de novellas, que partindo +da historia de cada um d'aquelles heroes, continuavam pela de seus +filhos e netos, alliados, ou inimigos indefinitamente. Estas tres +classes são a das novellas de Amadis, a das de Artus, ou Arthur +d'Inglaterra, e a das de Carlos-Magno. Todavia parece-nos que esta +classificação é imperteita. Dividiriamos antes essa multidão de romances +em cinco cyclos ou classes: a de _Artus_, a do _Sancto-Brial_, a de +_Carlos-Magno_, a de _Amadis_, e a dos romances a que podemos chamar +greco-romanos, porque eram as vidas dos heroes antigos, que davam +materia ás invenções dos novelleiros. Não esconderemos que a do +_Sancto-Brial_ está tão ligada á de _Artus_, que se confunde com esta; +mas logo diremos porque nos parece dever-se d'ella separar. + +Os romances de _Artus_ ou da _Tavola-redonda_ são a historia fabulizada +do famoso Arthur, ultimo rei d'Inglaterra, da raça dos bretões, e que +defendeu valorosamente o seu país da invasão dos anglo-saxonios. Esta +serie de novellas começa no romance de Bruto, composto por micer Gasse +em 1155; a ella pertence o romance de Merlin, filho de uma dama bretã e +do diabo, no qual se contam as guerras de Uter e de Pandragon, o +nascimento de Artus, e a instituição da Tavola-redonda, isto é, de uma +especie de doze pares ingleses, que costumavam comer como _eguaes_ em +uma _mesa redonda_ nos paços d'el-rei Artus: a historia de Tristão de +Leonis tambem pertence a este cyclo, sendo Tristão um dos cavalleiros da +Tavola-redonda; e estes dois romances cremos nós que eram os que +existiam traduzidos na livraria de D. Duarte: no mesmo cyclo entram as +novellas de Meliot de Logres, Melinus de Dinamarca, Micer Galvão, +Lancelote do Lago, Vigalois, Vigamor, e Daniel de Valdeflores, e muitas +outras que fôra longo enumerar. + +Os romances do Sancto-Greal, Gral, ou Graal (que os nossos escriptores +chamam erradamente Santo Brial) formam um cyclo bastante ligado com o +antecedente, mas distincto pelo pensamento que presidiu á sua invenção. +O Sancto-Greal (derivado de _Sang-réal_, ou _Sanguis-réalis_) era o vaso +ou copa em que Jesu-Christo tinha comido com os seus discipulos na noite +da cêa, e em que José d'Arimathea tinha, segundo a tradição dos +novelleiros, recolhido o sangue derramado pelo Senhor na cruz; vinha +assim esta copa imaginaria a ser o mesmo que o Sancto-Catino que os +genovezes se gabaram de ter trazido da terra sancta. Este precioso vaso +estava guardado, segundo os romancistas, em um templo na Hespanha, num +sitio desconhecido, e só os cavalleiros escolhidos por Deus podiam +atinar com elle. Para isto era necessario que se alevantassem á maior +alteza, não só de feitos de armas, mas de virtudes moraes. Vê-se, +portanto, que o pensamento d'estes romances era uma allegoria religiosa, +um typo do alvo em que devia cada cavalleiro pôr a mira do seu +procedimento para merecer tal nome, ou para ser _escolhido_ de Deus[14]. +A este cyclo pertencem o Perceval, Lohengrin, Titurel, e uma parte dos +romances da Tavola-redonda, porque muitos dos cavalleiros de Artus +trabalhavam por conquistar o Sancto-Greal, que, segundo escrevem alguns +dos novelleiros d'esse cyclo, tinha sido levado para Inglaterra. O +primeiro e principal romance do Sancto-Greal foi escripto por Christiano +de Troyes no seculo XII, e existe manuscripto na bibliotheca real de +Paris, na sua fórma original, que é em verso. + +O cyclo dos romances de Carlos Magno começa com a chronica fabulosa do +arcebispo Turpin, publicada em 1566, por Echardt, mas escripta, segundo +a opinião mais seguida, no undecimo ou duodecimo seculo. Este livro +passou muito tempo por historico, e as fabulas nelle contidas foram +inseridas como authenticas nas chronicas de S. Dinis, recopiladas por +ordem do celebre abbade Sugerio, nos fins do seculo XII:[15] mas depois +das cruzadas, a obra attribuida a Turpin não serviu mais senão como de +éllo de uma multidão de novellas relativas aos suppostos pares de +França, ou paladinos de Carlos-Magno. O romance de Bertha, o de Ogeiro +de Dacia, e de Cleomadis, o de Reinaldos de Montalvão, o dos quatro +filhos d'Aymão, o de Flora e Brancaflor, o do gigante Morgante, e varios +outros, de que se aproveitaram Boiardo, Ariosto, Pulci, e os mais poetas +romancistas d'Italia pertencem a este cyclo. + +O cyclo dos romances do Amadis começa por o d'aquelle nome, e +pertencem-lhe todas as emitações que d'ellese fizeram, e das quaes, a +mais notavel é o Amadis de Grecia. Florismarte d'Hircania, Galaos, +Florestam, as Sergas de Esplandiam, o D. Duardos, os Palmeirins d'Oliva +e d'Inglaterra, e muitissimos outros entram nesta divisão. É esta +especie de novellas de cavallaria propriamente hespanhola. A maior parte +d'ellas foram compostas nos idiomas da Peninsula, e muitas nem d'aqui +saíram. Desgraçadamente os continuadores e emitadores de Lobeira foram, +por via de regra, faltos de talento e cheios de máu gosto. D'ahi veio a +graciosa justiça que d'elles fez Cervantes por mãos do cura, no seu +inimitavel D. Quixote. + +A ultima classe de romances de cavallaria é aquella em que as +personagens e successos da historia antiga, conhecidos imperfeitamente, +davam largueza á imaginação dos novelleiros, que revestiam essas +personagens dos costumes, crenças e opiniões da edade-média, e +affeiçoavam esses successos pelas instituições da cavallaria, enxerindo +até os heroes da Grecia e de Roma, nas familias fabulosas dos Artus e de +Amadis. Pertencem a este cyclo os romances d'Alexandre, descendente +d'el-rei Artus, o d'Eneas, o da guerra de Troia (do qual segundo parece, +tambem existia uma traducção em aragonês na livraria de D. Duarte) e +outros, com os titulos dos quaes escusado é encher papel.[16] Em alguma +d'estas cinco classes entram naturalmente todas as novellas de cuja +existencia em Portugal, no principio do seculo XV, temos noticia. O +_Merlim_ e o _Livro de Tristão_ indicam pelo seu simples titulo, serem, +quando muito, versões dos dois romances do cyclo da Tavola-redonda, +conhecidos por aquelles nomes. O livro de _Galaaz_ com toda a +probalidade não era mais que a historia de _Galaad_, filho de Lancelote +do Lago, pertencente ao mesmo cyclo. E finalmente o livro d'_Hannibal_ +seria uma traducção de alguns dos numerosos romances do cyclo +greco-romano. + +Nem nos admiremos de que na livraria d'el-rei D. Duarte predominassem os +romances da Tavola-redonda. Todos sabem que sua mãi, a rainha D. +Philippa, era inglesa, e nada mais natural do que ella e as pessoas da +sua nação, que com ella vieram a Portugal, fizessem conhecer essa classe +de novellas que, mais que nenhumas, lisongeavam o amor proprio dos +ingleses. + +De outras obras se faz menção no indice d'aquella livraria, que +vehementemente suspeitamos serem novellas de cavallaria; mas não +passando esta opinião de mera suspeita, guardaremos sobre isso silencio. + +Desde a epocha de D. Duarte até o principio do reinado de D. Manuel +nenhum rasto temos encontrado d'este genero de litteratura. Foi em 1496 +que se publicou a _Estoria do muy nobre Vespasiano emperador de Roma_, +livro de que démos noticia a pag. 164 do 1.^o volume d'este jornal. + +Esta _Historia de Vespasiano_, que examinámos por permissão do nosso +erudito collega o sr. Vasco Pinto de Balsemão, e da qual o unico +exemplar que existe pertence á bibliotheca publica da côrte, não é senão +uma novella de cavallaria, pertencente ao cyclo greco-romano. Ha ahi, na +verdade, alguns factos historicos, mas os costumes, e as +particularidades da narração não passam de meras ficções. Que a obra +seja uma traducção, não nos parece duvidoso. Na subscripção d'ella se +diz que fôra ordenada «por Jacob e Josep abaramatia, que a todas +aquellas cousas foram presentes». Isto indica bastantemente a origem +estrangeira do livro. Se, porém, nos lembrarmos de que José de +Arimathea, figura nos romances do Santo-Greal, como tendo recebido o +sangue de Christo nesse celebre vaso, é naturalissimo que o novelleiro, +auctor da historia de Vespasiano, se lembrasse de lhe attribuir a +propria composição, tanto mais que era quasi como lei entre os +romancistas dar uma origem mysteriosa, ou ao menos remota, ao fructo das +suas imaginações. + +Accresce, para mais fundamentar a nossa opinião, que Mr. Fauriel +menciona uma _historia romance_ da destruição de Jerusalem por +Vespasiano, escripta em provençal, e que elle classifica como livro +connexo com o cyclo das novellas do Santo-Greal. Este romance, que, +segundo nossa lembrança, existe manuscripto na Bibliotheca Nacional de +Paris, é com toda a probabilidade, o original da novella portuguesa. + +Eis o que temos podido alcançar acêrca dos romances de cavallaria em +Portugal, durante o seculo XV. Outros mais habeis e mais felizes terão +chegado a maior profundidade com as suas indagações. Trouxemos á praça, +em proveito commum, a nossa pobreza. Não eramos a mais obrigados. + +No artigo subsequente falaremos dos romances de cavallaria portugueses, +no seculo XVI.[17] + + + + +*Historia do Theatro Moderno Theatro Hespanhol* + +PANORAMA + +1839 + + + + +*Historia do theatro moderno Theatro hespanhol* + + +I + +Ha um anno a esta parte que o theatro começa a ter entre nós a +importancia que ha muito tinha entre as outras nações da Europa. +Acontecimentos, vulgarmente sabidos e que não veem ao nosso proposito, +contribuiram para que a reforma do theatro, em todas as suas partes, que +em todas d'ella carecia[18], excitasse o espirito publico: os periodicos +falam já das actuaes representações, e julgam, bem ou mal, não só as +novas tentativas litterarias que se teem feito, mas o modo porque são +levadas á scena e executadas pelos actores: e não são, por certo, esses +artigos os que se lêem com menos avidez. + +No segundo numero do Panorama démos nós uma noticia do nosso theatro, +precedida de alguns breves paragraphos acerca do theatro das outras +nações: na conjunctura actual parece-nos que não será fóra de propósito +o continuar aquelle artigo com mais alguns sobre a arte dramatica dos +demais povos, cuja litteratura tem relação com a nossa, e como do +theatro hespanhol veiu o português, conforme o que dissémos falando das +origens d'este, será da origem e progresso do drama hespanhol, que +tractaremos em primeiro logar. + +Em Hespanha, como nos outros países, foi a egreja que fez nascer o +drama: todavia a primeira representação, a que estrictamente se póde +chamar theatral, e de que ha menção nos annaes de Hespanha, é a que se +fez em 1414, na festa da coroação de Fernando o bom, rei de Aragão. Foi +composta pelo marquez de Vilhena, e só sabemos que era uma peça +allegorica, em que figuravam a Justiça, a Paz, a Verdade, e a Clemencia, +de modo que pertencia á classe das _moralidades_, que tiveram voga por +algum tempo, na infancia da arte dramatica hespanhola, e que depois +Cervantes fez reviver. Pouco depois d'esta tentativa de Vilhena, o seu +amigo, o marquez de Santilhana, homem, como elle, de grande saber e de +idéas claras, reduziu a drama, com o titulo de _Comedieta de Ponza_, os +incidentes de uma batalha naval, dada em 1435, juncto á ilha de Ponza, +entre os aragoneses e genoveses, em que estes ficaram vencedores. O +drama nunca foi representado nem impresso com as demais obras d'este +auctor, e só se sabia da sua existencia pelas cartas do marquez, até que +o sr. Martinez de-la-Rosa, o grande poeta hespanhol nosso contemporaneo, +o descobriu entre os manuscriptos da bibliotheca real de Paris. Esta +curiosa reliquia das primeiras tentativas do genio dramatico hespanhol é +notavel pela habilidade que nella apparece, não só no modo de tractar um +facto historico, mas tambem no enredo, dialogo, e versificação. + +Foi pelos fins do seculo XV que em Castella se estabeleceu uma especie +de theatro. Os primeiros ensaios dramaticos nesta parte da peninsula, +fê-los João de la Encina, mui conhecido pelas suas poesias soltas, e +cujas obras formam por si só um cancioneiro. Depois de alargar os +limites das representações religiosas, compondo varios autos, onde não +sómente se acham paraphrases da biblia, mas tambem invenções do poeta, +formou o projecto de fazer saír o drama dos objectos religiosos, para o +que compôs pequenas peças pastoraes, que denominou eclogas. Estas peças, +em que elle proprio fazia os principaes papeis, se representaram +primeiramente em casa do almirante de Castella, e da duqueza do +Infantado. Como a denominação o indica, ellas de nada mais constavam do +que de um dialogo entre dois ou mais pastores. O auctor, á imitação de +Virgilio, usou a primeira vez d'esta invenção para celebrar, por via de +allusões, algum acontecimento notavel, como a conclusão de pazes ou a +volta de algum principe; e depois inventou uma acção curta e simples, na +qual reduziu a drama as paixões das suas personagens. Estas pequenas +peças, cortadas por danças, e acabando com vilhancicos ou cantigas, +continham tambem alguma scena truanesca ou graciosa; de modo que nellas +entravam juntamente os elementos da tragedia, comedia e opera. Teem +estas primeiras tentativas bastante sal e agudeza, e ao mesmo tempo +naturalidade e viveza. A primeira representação d'estas comedias +pastoris fez-se em 1492, anno memoravel nos annaes de Hespanha, por ser +o da conquista de Granada e do descubrimento do Mundo Novo. Foi tambem +por este tempo que appareceu a famosa _Celestina_ de Rodrigo de Cota, de +que já falámos no primeiro artigo. + +Os primeiros dramas regulares hespanhoes nasceram no principio do Seculo +XVI, e, o que é mais notavel, fóra de Hespanha. Um certo Torres Naharro, +residente em Roma, compôs alli varias comedias, que foram representadas +perante Leão X.[19] Nellas a invenção é feliz, os caracteres bem +traçados e o dialogo vivo, e contém algumas ousadias que neste auctor +não eram de admirar, porque, apesar de ser clerigo e de viver na côrte +pontificia, compôs satyras contra os ecclesiasticos, taes que Luthero +não estimaria pouco ser auctor d'ellas. Naharro compôs tambem uma arte +dramatica, a primeira que appareceu em castelhano: nella faz a +distincção da tragedia e da comedia, e divide esta em duas especies, +comedia de _noticia_, isto é, historica, e comedia de _phantasia_, isto +é, de imaginação: foi tambem elle que inventou os _introitos_ ou +prólogos e que deu aos actos a denominação de _jornadas_, seguida depois +constantemente pelos auctores hespanhoes nas divisões dos seus dramas. + +As peças de Naharro, apenas appareceram em Hespanha, foram, prohibidas +pela inquisição, como succedeu ás pouco mais recentes de Christovam de +Castillego, secretario dos imperadores Maximiliano e Fernando.[20] +Estas, quando se imprimiram as obras de Castillejo, passados annos, +foram supprimidas e perderam-se de todo. Apresenta assim o theatro +hespanhol o phenomeno singular de ter tido duas infancias. Havendo sido +prohibidas, as primeiras tentativas de composições dramaticas regulares +não acharam imitadores, e até parece que inteiramente esqueceram, porque +no casamento de uma infanta de Castella, em 1548, foi uma peça de +Ariosto que se representou. Entretanto alguns eruditos, como Villalobos, +Oliva e outros, trabalhavam por apresentar os antigos como modelos +dramaticos, traduzindo as comedias de Plauto, Terencio e Aristophanes; +mas estas antigas composições casavam-se mal com o genio hespanhol, de +maneira que, emquanto as producções theatraes que a Hespanha possuia, +jaziam sepultadas nas livrarias dos curiosos, ou nos archivos da +inquisição, o povo se entretinha com as grosseiras caturrices dos +jograes truões. D'aqui nasceu que Schlegel, Bouterweek, Sismondi, e +quasi todos os criticos estrangeiros, ignorando até os nomes dos +primeiros escriptores dramaticos hespanhoes, não só d'elles não falam, +mas põem a origem do drama castelhano no meiado do seculo XVI. + +O fundador do theatro hespanhol a que verdadeiramente se póde chamar +nacional e popular, foi Lopes de Rueda de Sevilha, que deixou o seu +officio de bátefolha para se ajunctar a uma companhia de comicos +ambulantes dos quaes foi brevemente o cabeça, ou, segunda a expressão +hespanhola, o _autor_. Este titulo, derivado, não do latim, _auctor_, +mas de _auto_, dava-se naquelle tempo ao que compunha e recitava peças; +e também lhe chamavam _maestro de hacer comedias_. Lope de Rueda tinha +ambas as castas de talento necessarias para ser um _autor_ d'aquella +épocha; ganhou por isso grande reputação, e foi unanimemente julgado +grande poeta e grande actor; e tão completamente esqueceram as +tentativas dramaticas feitas antes d'elle que o tiveram em conta de +inventor da divisão em jornadas ou actos, e dos prologos chamados +introitos, e depois loas. Durante uns poucos de annos discorreu Lope de +cidade em cidade; mas por fim a sua grande reputação fez com que fosse +chamado á côrte de Philipe II. Os poucos dramas, dialogos pastoris, +etc., que d'elle restam, se destinguem por certa graça e viveza +naturaes; e posto que sejam todos em prosa, elle os escrevia em verso +com a mesma facilidade. + +Ha um facto curioso, que prova a indulgencia com que os ecclesiasticos +olhavam, naquelle tempo, até para os dramas profanos; facto que se lê na +historia de Segovia, de Colmenares: na occasião da grande festividade da +abertura da cathedral d'aquella cidade, a companhia de Lope de Rueda +representou em um tablado, erecto no meio da egreja, depois de vesperas +solemnes, _una gostosa comedia_. O proprio Lope, morrendo em Cordova no +anno de 1567, foi alli enterrado com grande pompa, no côro da cathedral. + +Por este tempo (1561) a côrte hespanhola, que até então tinha andado +vagueando pelas capitães das differentes provincias, fez assento fixo em +Madrid, circumstancia que foi favoravel para a arte dramatica, porque +d'ella nasceu o haver um theatro fixo. Documentos authenticos provam que +um anno depois da morte de Lope de Rueda havia theatros em Madrid. +Existiam então, tanto na capital como nas provincias, varias companhias +de actores, distinctas umas das outras por nomes extravagantes e +burlescos, e tão numerosas, que um escriptor moderno hespanhol as +distingue em oito especies differentes. + +Os progressos materiaes acompanharam d'ahi ávante os litterarios e +moraes. Por 1570 estabeleceram-se os dois theatros _de la cruz e del +principe_, que ainda existem, e alguns engenhos summos começaram a +trabalhar em composições dramaticas, o que até então se tinha deixado +aos directores das companhias ambulantes. Cervantes, tendo chegado do +seu captiveiro de Argel, foi um dos primeiros que encetaram esta +carreira; mas, apesar dos seus muitos meritos como escriptor dramatico, +era mais inclinado ao genero narrativo, o que não se compadecia, por +certo, com o estylo proprio do drama. + +Emquanto o auctor de D. _Quixote_ escrevia em Madrid, João de la Cueva +fazia representar alguns dramas no theatro de Sevilha, reduzindo a +quatro o numero de actos ou jornadas, que até então eram cinco ou seis. +A representação de cada noite constava da peça principal, e, além +d'isso, de tres entremezes e um baile. Tambem Valencia, que nas artes e +boas letras era a rival de Sevilha, deu alguns passos na carreira +dramatica. Foi um poeta valenciano Christovam de Virues, que ainda +reduziu o numero de actos a que se limitaram d'ahi ávante todos os +escriptores dramaticos hespanhoes. Até então o drama, segundo o +engraçado conceito de Lope de Vega, tinha andado com as mãos pelo chão +(a quatro pés) como uma creança, porque estava na idade infantil. + +A pompa scenica do theatro hespanhol tinha já feito grandes progressos. +Rojas diz que no tempo de Lope de Rueda toda a vestiaria e mais aprestos +de qualquer companhia dramatica se podia carregar ás costas de uma +aranha, mas que no tempo de Cueva e Virues as actrizes representavam os +seus papeis com vestuarios de seda e veludo, e com fios de pérolas e +cadeias de ouro; que nos entremezes se cantavam tercettos e quartetos; e +que até appareciam no tablado cavallos, quando assim era necessario para +ser completa a illusão. + +Digno é de notar-se que já no seculo XVI se acha em Hespanha travada a +guerra entre os escriptores dramaticos, que pugnavam pela sua liberdade, +e os criticos, que os queriam sujeitar aos preceitos d'Aristoteles. Era +assim que emquanto o _rhetorico_ Pinciano clamava que respeitassem as +tres unidades, de que nenhum caso se fazia, João de la Cueva tomava +despejadamente a seu cargo deffender as liberdades dramaticas no seu +_Exemplar Poetico_. Pugnava por ellas porque eram o fructo de uma serie +de seculos que tinham abolido todos os antigos costumes;--porque eram +mais favoraveis aos vôos atrevidos da imaginação;--e porque, emfim, eram +o mais adaptado meio de agradar ao publico. Mas, apresentando tão +judiciosa opinião, estabelecia maximas para regular as composições +dramaticas, taes que serão sempre approvadas pelo bom juizo e bom gosto, +posto que os seus compatriotas nem d'estas mesmas fizeram caso, no seu +ardor contra toda a casta de restricções litterarias. + +Este desregrado fervor de imaginação era o resultado necessario das +particulares circumstancias que por muitos seculos tinham concorrido +para formar o caracter nacional em Hespanha. «Os hespanhoes, diz +Schlegel, tiveram um quinhão glorioso na historia da idade média, +quinhão muito esquecido pela ingratidão dos tempos modernos. Elles foram +então como uns atalaias soltos nas fronteiras da Europa: a Peninsula era +como um arraial exposto aos incessantes commettimentos dos arabes, e +desamparado de alheio soccorro. Acostumado a combater ao mesmo tempo +pela liberdade e pela religião, o hespanhol era afferrado a esta com o +zêlo fervoroso de quem a tinha comprado á custa do mais puro sangue. +Cada solemnidade do culto divino era para elle como um premio de suas +acções heroicas; cada templo um monumento das façanhas dos seus +antepassados. Em mais recentes epochas nunca importou aos hespanhoes +examinar os actos de seus superiores, mas continuaram nas guerras de +aggressão ou ambição com a mesma fidelidade e valentia que tinham +mostrado nas guerras de defensão. A fama individual, e o zêlo falso da +religião os cegava acêrca da justiça das causas que os moviam. Empresas +sem egual, levaram-nas felizmente a cabo; e o Mundo-Novo, descuberto por +elles, foi conquistado por um punhado de valorosos aventureiros: casos +particulares de crueza e rapina mancharam o brilho do mais acabado +heroismo, mas estas corrupções não chegaram ao amago da nação. Em parte +nenhuma como em Hespanha, sobreviveu o espirito de cavallaria á sua +existencia politica por tanto tempo, por isso que ainda brilhou depois +de ter passado o predominio de Hespanha e de ter soffrido grande +diminuição a opulencia interna do país, em virtude dos ruinosos erros de +Philippe II. Propagou-se o espirito cavalleiroso até o periodo mais +florente da sua litteratura, e nella estampou o seu cunho, de não +duvidosa maneira. A imaginação dos hespanhoes era audaz, como as suas +acções: nenhuma aventura intellectual lhe parecia perigosa. A +predilecção do povo por maravilhas extravagantes já se havia mostrado +nas novellas de cavallaria. Desejavam vêr tambem o maravilhoso no +theatro; e quando os seus poetas, eminentes na cultura litteraria, e na +situação da vida, lhes representavam esta na fórma requerida, +introduziam nella uma especie de harmonia, e purificavam-na da sua +grossaria real, resultando do contraste entre o objecto e a sua fórma +uma fascinação irresistivel. Imaginavam os espectadores que viam certo +fulgor da omnipotente grandeza da sua nação, já muito abatida, quando +toda a harmonia dos mais variados metros, toda a elegancia de agudas +allusões, todo aquelle esplendor de imagens e comparações que só na sua +lingua se acha, se derramavam por enredos dramaticos, sempre novos, e +quasi sempre grandemente engenhosos. Buscavam-se na imaginação os mais +ricos thesouros de passados tempos para contentar o povo, como se +realmente existissem: pode-se dizer que nos dominios de tal poesia, como +nos de Carlos V, nunca se punha o sol. + +Foi quando os animos mostravam similhante tendencia, que surgiu Lope de +Vega, para exercitar a sua protentosa fertilidade de invenção dramatica, +e facilidade metrica. D'este illustre dramaturgo falaremos no proximo +artigo. + + +II + +Lope de Vega tinha o grandissimo e principal dote para primar na +carreira que seguia: era este dote o conhecer profundamente o gosto e +paixões do povo para quem escrevia: porém do que nunca elle deu mostras, +foi do mais importante e nobre merito de estimar a arte e cultivá-la com +enthusiasmo. O effeito, segundo a vulgarissima accepção d'este vocabulo, +não era só o seu principal objecto, como cumpre que seja para todo o +verdadeiro escriptor dramatico, mas unico--as miras todas pô-las +unicamente em bater neste alvo--e em verdade ninguem o alcançou como +elle; deixando-nos assim o mais notavel exemplo de sacrificio de alta e +duradoura reputação a troco de inegualavel mas temporaria popularidade. +Na grande porção que nos resta das suas innumeraveis composições, o que +mais admira é a inexhaurivel invenção de incidentes, a variedade de +caracteres, o jogo das paixões, e o mimoso e subtil do dialogo; mas +todas estas brilhantes circumstancias estão como que affogadas na +espantosa exuberancia com que pullulam, em cada scena, em cada fala, e +até em cada verso. + +Cumpre, porém, que digamos que nem no seu país nem fóra d'elle, teve +Lope de Vega modelo que imitasse, ou rival que excitasse a sua emulação. +A Italia não tinha ainda passado da _Mandragola_ de Machiavello; nem a +França saído das informes imitações dos antigos: em Portugal só havia os +esboços dramaticos de Gil Vicente, os dramas-novellas de Jorge Ferreira, +e as imitações classicas de Sá de Miranda e Ferreira; a Alemanha não +tinha saído ainda dos _mysterios_; e a Inglaterra, onde já apparecera o +divino Shakspeare, era, excepto pelo lado politico, uma terra incognita +para os escriptores hespanhoes. + +Em 1621, dôze annos antes da morte de Lope da Vega, sobreveiu a do +triste e devoto Philippe III, a quem succedeu um principe mancebo +inclinado aos passatempos, e mui addicto ao theatro. Philippe IV gostava +do tracto dos homens de letras, recebia-os na côrte, e se divertia em +compor com elles essa especie de improvisos que então, andavam muito em +moda na Italia: até se lhe attribuem algumas composições dramaticas que +appareceram anonymas; e tal affeição tinha aos dramas nacionaes, que não +consentiu que em Hespanha entrasse a opera italiana, que então era muito +estimada em todas as côrtes da Europa. Estas circumstancias augmentaram +nova força ao impulso já dado por Lope de Vega, e trouxeram o mais +brilhante periodo do drama hespanhol. Durante a vida de Lope, grande +numero de escriptores seguiram as suas pisadas: taes foram os doutores +Ramon, e Mira de Mescua; os licenciados Mexia e Miguel Sanchez; o conego +Tarraga, Guillen de Castro, Aguilar, Luiz Velez de Guevara, Antonio de +Galarza, Gaspar d'Avila, Damian Salustrio del Poyo, e varios outros; mas +todos eram meros imitadores de Lope de Vega, e muito inferiores a elle; +no fim d'este dramatico reinado é que devia apparecer um rival, que lhe +disputasse a primazia. + +Foi este Calderon de la Barca, que, não menos conhecedor do genio e +gosto do vulgo, do que o proprio Lope, unia a isso o amor pela sua arte, +que ao outro faltava. Como as composições d'este grande escriptor teem a +primazia entre os dramas hespanhoes verdadeiramente nacionaes; como +ellas em nada são inferiores ás de Lope, em variedade, e o seu numero +mais que o das de nenhum outro, se approxima do numero das d'elle; e +como, por consequencia, nos dão os mais perfeitos monumentos de cada uma +das differentes especies de producções dramaticas peculiarmente +hespanholas; não ha meio nenhum de dar uma idéa clara das fómas e genio +do theatro hespanhol na epocha do seu maior esplendor, senão +caracterizando breve mas distinctamente, as varias classes das peças de +Calderon. A mais corrente classificação dos dramas profanos, é para os +mesmos hespanhoes, a de _comedias heroicas_, _comedias de capa y espada_ +e _comedias de figuron_. As da primeira d'estas classes tinham o mesmo +logar na litteratura dramatica, que nas ficções narrativas tiveram as +novellas de cavallaria que, expulsas da prosa pelo D. Quixote, se +acolheram ao theatro, onde por muito tempo foram bem acceitas do +publico. As da segunda classe, cujo nome vinha do vestuario que se usava +na epocha em que foram escriptas, representavam os costumes hespanhoes +d'esse mesmo tempo; mas, em consequencia do grande sabor de novella que +esses costumes ainda conservavam, tinham um aspecto, que a homens +modernos e de outras nações parece ideal. «Isto (observa Schlegel) não +fóra possivel, se Calderon nos introduzisse no interior da vida +domestica... Estas peças acabam, como as comedias dos antigos, por +casamentos; mas quão differente é tudo o que precede a este desfecho!... +traça, na verdade os seus principaes caracteres de ambos os sexos no +primeiro fervor da mocidade; mas o alvo a que elles miram, e diante do +qual tudo abate bandeiras, nunca em seus animos se confunde com outro +qualquer desejo. A honra, o amor e o ciume, são sempre os motivos da +peça, e o enredo nasce da impetuosa mas nobre lucta d'estas paixões... +Nos caracteres mulheris o sentimento da honra não é menos poderoso do +que nos dos homens: este sentimento rege o do amor, que tem logar a par +d'elle, porém não acima d'elle. A honra das mulheres, segundo o modo de +pensar que transluz nos dramas de Calderon, consiste em amar um homem de +reputação sem macula, e em amá-lo com perfeita pureza. O amor requer ahi +inviolavel segredo, até que uma legitima união permitia declará-lo +publicamente: este segredo o salva dos effeitos da vaidade, que poderia +misturar nelle gabos de favores concedidos, ou pretensões a elles, e lhe +dá a apparencia de um voto, que, por isso que é mysterioso, é mais +pontualmente observado. No meio d'esta moralidade dramatica, são, em +verdade, admittidas manhas e dissimulações, para fins amorosos, e a +ponto de parecer que recebe quebra a honra: mas, quando essas manhas vão +de encontro a deveres, como, por exemplo, os da amizade, o respeito mais +pundonoroso é constantemente guardado a esses deveres. O poder do ciume, +sempre vivo, e revelado ás vezes de terrivel maneira; ciume não como o +dos povos do oriente, de posse, ou de gozos materiaes, mas dos +sentimentos suavissimos do coração, serve para ennobrecer o amor. A +perplexidade, que nasce d'estes differentes motivos moraes, acaba muitas +vezes em nada, e então o desfecho é grandemente comico: ás vezes, porém, +a catastrophe é trágica, e a honra se converte em uma especie de destino +avesso, para aquelle que com ella não póde cumprir sem anniquilar a +propria felicidade, ou tornar-se para sempre criminoso. Grande numero +d'estas peças não teem senão um papel burlesco, o do creado ou gracioso, +que serve principalmente para parodiar os motivos sublimes das acções de +seus amos, o que, por via de regra, faz com muita graça, servindo raras +vezes para instrumento do enredo.»[21]. + +As comedias de _figuron_, ou de caracter, distinguem-se da classe de que +tractámos no antecedente paragrapho, em o interesse da acção não ser +dividido pelas personagens de um enredo variadissimo, mas concentrado em +um individuo, no qual é personalizado caracteristicamente algum vicio ou +absurdo. + +Alguns dos dramas de Calderon, historicos ou mythologicos, não podem +estrictamente ser classificados em nenhuma das tres especies +antecedentes. Com a maior verdade aproveitou elle algumas epochas da +antiga historia hespanhola; mas parece ter tido tamanho aferro ao genio +da sua nação, que não pôde produzir facilmente o caracter das outras. A +antiguidade classica era inintelligivel para elle, e por isso, o já +citado Schlegel observa que a mythologia grega se converte, nas suas +mãos, em uma deleitosa novella, e a historia romana em uma hiperbole +magestosa. Outra classe de peças tem Calderon a que elle chama +_fiestas_: eram estas destinadas para serem representadas na côrte em +occasiões solemnes. Posto que taes peças requeressem pompa theatral, +frequentes mudanças de scenario, e até musica, todavia podemos +chamar-lhes _operas poeticas_, isto é, dramas, que pelo mero esplendor +da poesia, produziam o mesmo effeito que na opera moderna produzem as +vistas, a musica e a dança. Foi nestas composições que Calderon se +entregou inteiramente aos vôos da sua imaginação, podendo dizer-se que +nellas as personagens apenas pertencem a este mundo. + +Mas é na classe dos _autos sacramentales_, ou dramas religiosos, que o +genio e o espirito de Calderon se desenvolveram com mais força e +formosura. As cerimonias religiosas dos gregos tinham gerado o theatro +grego: as cerimonias do christianismo deram origem ao theatro moderno. O +principio fundamental dos espectaculos dramaticos, introduzido ou +sanccionado pelo clero, consistia em apresentar ante os olhos dos fiéis, +em todas as festividades ecclesiasticas, e dias de commemoração de +certos sanctos, a representação ao vivo da passagem do Testamento Novo +ou do Catalogo dos Sanctos, que tinha connexão com essa festividade. +Estas representações, que no resto da Europa se denominavam mysterios, +chamaram-se em Hespanha, desde o principio, _divinas comedias_ e _autos +sacramentales_. Faziam-se com grande pompa, não só nas praças e nas +procissões, mas tambem nos theatros publicos. Taes dramas, representados +em dias solemnes, debaixo da protecção das auctoridades civis e +ecclesiasticas, e em presença de todo o povo, não só davam ao auctor +mais proveito, mas tambem mór gloria. Lope de Vega escreveu alguns +centenares d'estas peças: mas Calderon tanta vantagem levou aos seus +predecessores e contemporaneos, nisto como no mais, que lhe foi +concedido um privilegio exclusivo de compor os autos que se haviam de +representar na capital, monopolio de que gozou durante trinta e sete +annos. + +Temos sido talvez mais technicos e extensos do que cumpria sobre o +espirito e execução dos dramas hespanhoes dos fins do seculo XVI e +principios do XVII, porque as regras dos rhetoricos e pedantes, regras +que se desfazem em pó diante de um _porquê_,--persuadem o vulgo da +republica das letras de que qualquer drama, a não ser grego ou romano, +ou não trazendo, pelo menos, pós, casaca de seda e espadim, á moda de +Luís XIV, é forçosamente barbaro, rude ou absurdo. Este pensar acanhado, +emquanto se não derrocar de todo, torna impossivel uma verdadeira +regeneração dramatica: os portugueses devem ser em litteratura uma só +nação com os hespanhoes: se quisermos ter originalidade, nacionalidade, +e o que mais é, verdade, estudemos Lope, Calderon e os seus +contemporaneos; não nos envergonhemos de folhear livros por onde +constantemente estudam os mais illustres escriptores dramaticos da +Alemanha e da Inglaterra, apesar de não poderem tirar d'elles todo o +proveito, que nós por certo tiraremos. Mas voltemos ao nosso assumpto. + +É digno de notar-se, que, durante o mais bello periodo do theatro +hespanhol, o conselho de Castella se atrevesse a propôr como condição +para se reabrirem os theatros que tinham estado fechados por causa de +varios luctos da côrte, desde 1644 até 1649, que os dramas que se +houvessem de representar se limitassem a objectos edificativos, sem +mistura das profanidades do amor; e que, por consequencia, todos +aquelles que até então se tinham representado fossem prohibidos, +nomeadamente os de Lope de Vega, que tão prejudiciaes tinham sido á sã +moral. Felizmente o bom gosto do monarcha, concorde com o do publico, +fez com que fosse regeitada a proposta dos austeros conselheiros. + +Durante a longa carreira de Calderon, appareceu Moreto, que dotado de +menos força inventiva e menos fervor de imaginação, se distinguiu +principalmente por aperfeiçoar melhor as comedias de _figuron_ ou de +caracter. Como exemplo, taes são os seus dramas--_O lindo D. Diogo_, e +_O marquez de Cigarral_, especie de D. Quixote, endoudecido á força de +ler e reler, sem descanso, os pergaminhos de sua casa, e os costados da +sua arvore genealogica. Por este lado, póde-se crer que Moreto foi um +dos modelos de Molière, entre cujas peças, com effeito, se encontra uma +fraca imitação do _marquez de Cigarral_. Nesta mesma epocha viveu outro +poeta dramatico, cuja fama emquanto vivo não egualou a celebridade de +que goza depois de morto e que, por um acaso extraordinario foi +desconhecido aos mais eminentes criticos, como Signorelli, Sismondi e +Schlegel: era este um frade da Trindade, chamado Fr. Gabriel Telles, +que, com o supposto nome de Tirso de Molina, pôs em scena um grande +numero de dramas, que depois foram colligidos e publicados por um +sobrinho seu. Menos engenhoso do que Calderon, e menos delicado, excede, +todavia, os outros poetas do seu país em certa agudeza maledica. Pouco +lhe importam as regras, ou a verosimilhança, com tanto que lhe venham a +pello gracejos pungentes e maliciosos, usando de uma linguagem, ás vezes +licenciosa, e de pensamentos que mostram tão pouco respeito ás potencias +da terra como ás do céu. Nada poupa, uma vez que esse objecto lhe +desagrade ou possa mover a riso. Ha só um escriptor a quem elle deva com +exacção ser comparado, e com quem, com effeito, tem muitissima +parecença: é este o moderno dramaturgo francês Beaumarchais. E assim +como este auctor foi o verdadeiro pai de Figaro, do mesmo modo (facto +certamente curioso) Fr. Gabriel foi o primeiro que pôs em scena a famosa +historia de D. João e a Estatua (_El combidado de Piedra_) +aproveitando-se da lenda inventada, segundo dizem, pelos franciscanos de +Sevilha para explicarem o desapparecimento do verdadeiro D. João +Tenorio, que, conforme tambem alguns querem, fôra por elles assassinado +em vingança dos muitos vexames que lhes fazia. + +No proximo artigo mencionaremos mais alguns dramaturgos hespanhoes +d'esta epocha, e concluiremos a historia do theatro hespanhol com a +noticia dos escriptores mais modernos. + + +III + +O periodo brilhante do theatro hespanhol encerra-se na primeira metade +do seculo XVII. O gosto do monarcha, da côrte e da nação, tinha lançado +um grande numero de homens de letras nesta carreira, que então era a +mais honrosa e lucrativa. Assim, além dos eminentes escriptores +mencionados no antecedente artigo, appareceu um enxame de dramaturgos de +segunda ordem, a cuja frente devemos collocar Francisco de Rojas, que +tinha todos os dotes de Moreto, mas que o excedia nos defeitos. +Seguiam-se a este Guillen de Castro, Ruis de Alarcon, La-Hoz, Diamante, +Mendoza, Belmonte, os irmãos Figueroas (que escreviam conjunctamente, +como os modernos auctores de farças francesas), Cancer, Enciso, Salazar +e Candamo, os quaes, posto que nenhum creasse uma eschola sua, +produziram ao menos importantes composições theatraes. + +Os desastres que sobrevieram á monarchia hespanhola nos ultimos annos do +reinado de Filippe IV, junctos com uns poucos de luctos publicos, que +fizeram fechar por muito tempo os theatros, deram o primeiro golpe na +arte dramatica hespanhola. Em 1665 a morte d'aquelle principe, que tinha +sido o seu mais zeloso protector, foi o signal da queda rapida e inteira +do theatro. O successor de Filippe IV, o parvo Carlos II, era ainda +creança; e a rainha regente assignalou o principio da sua administração +com um decreto, dictado, sem duvida, pelo seu director espiritual o +jesuita Nitar, e, por certo, unico nos annaes dramaticos. Ordenava a +rainha no citado decreto, que todas as representações cessassem até seu +filho ter idade de se entreter com ellas. Posto que esta extravagante +ordem não pudesse ser executada á risca, todavia é claro quão grande +effeito devia produzir numa epocha, em que a litteratura só podia +progredir debaixo do patrocinio dos grandes, e em que o theatro, só com +a especial protecção do monarcha podia resistir aos repetidos ataques do +conselho de Castella. Para vermos o que d'aqui resultou poremos em +contraste dois factos notaveis. De um memorial, dirigido a Filippe IV em +1632, pelo actor Ortiz, se vê que havia então em Hespanha mais de +quarenta companhias de comicos, e que estas companhias davam a somma de +mil actores; e que se tinham edificado tantos theatros, que poucas +cidades ou villas notaveis havia que não tivessem o seu. No anno, porém, +de 1679, quando Carlos II casou com uma infanta de França, na festa do +casamento, não foi possivel reunir mais de tres companhias para virem +representar na côrte. + +Neste periodo de decadencia e desprezo um unico escriptor trabalhou por +amparar o vacillante theatro: Solis, o eloquente historiador da +conquista do Mexico, dedicou tambem ao theatro a sua brilhante +imaginação, polida agudeza, e vigoroso estilo. Deixou-nos varios dramas +dignos do periodo a que sobreviveu; especialmente um d'elles que +intitulou--_Amor al uso_, tem grandissimo merito. + +Com Solis póde-se dizer que expirou o theatro verdadeiramente hespanhol. +A subida ao throno de Filippe V, tendo dado valia ao gosto francês, e +introduzido (ao menos na côrte) os habitos e costumes da côrte de Luís +XIV, fez que os hespanhoes, depois de terem sido os mestres e +precursores dramaticos dos franceses, se contentassem de se converter em +humildes imitadores e copistas d'elles. É verdade que, durante o seculo +XVII, algumas tentativas fizeram para restabelecer o drama nacional, +Zamora, Canizares, Luzan e Jovellanos; mas estas honrosas tentativas só +alcançaram transitorio applauso; e para achar uma obra original +(mencionando, todavia, os _sainetes_ de Ramon de la Cruz) cumpre chegar, +no principio do seculo actual, a Moratin, o engraçado e elegante auctor +do _Caffé_, do _Barão_, etc., e ao sr. Martinez de la Rosa, auctor +de--_A mãe no baile, e a filha em casa_. + +A descripção que fizemos das varias especies de composições dramaticas +do tempo de Calderon, mostra que no antigo drama hespanhol a tragedia +classica, posto que menos que a comedia classica, podia ter amplo e +effectivo logar. Todavia, enganados, segundo parece, pela palavra +_comedia_, que na lingua hespanhola teve sempre uma significação tão +geral como a palavra alemã _spiel_ ou a inglesa _play_[22], muitos +criticos de nota, principalmente franceses, falaram da total falta de +tragedias no theatro hespanhol, como de um phenomeno singular e +inexplicavel. Tão enraizadas estavam nos animos de taes criticos as +distincções _classicas_, com que os haviam educado, que assim o +affirmavam com toda a gravidade, embora admittindo ao mesmo tempo, que +«o elemento tragico predominava em grande numero das mais afamadas peças +do theatro hespanhol». Mas que é este predominio senão o unico meio de +destinguir a tragedia da comedia, unico que existe na essencia da +natureza humana e da arte dramatica? Segundo este systema mais racional +de classificação, o antigo theatro hespanhol, pela propria confissão dos +criticos de que falamos é grandemente abundante na tragedia. Noticiemos +agora brevemente as poucas amostras de obras dramaticas, que na Hespanha +appareceram mesmo com a _denominação_ de tragedias. + +Boscan, que primeiro introduziu na Hespanha o estilo italiano de +versificação, dizem que traduzira uma das tragedias d'Euripedes, +traducção que se perdeu. Tambem pelos annos de 1520 Fernão Peres +d'Oliva, voltando da côrte de Leão X, onde vira representar a +_Sophonisba_ de Trissino, escreveu duas imitações do theatro grego,--a +_Vingança d'Agamemnon_, tirada da _Electra de Sophocles_, e a _Hecuba_, +imitação de Euripedes. Estas tragedias, escriptas em elegante prosa, +ficaram desconhecidas fóra das universidades, e até ha razão para crer +que nem ahi foram representadas. Em 1570, João de Malara deu ao theatro +de Sevilha varias tragedias, de objectos biblicos, como _Absalão_, +_Saul_, etc; e em Madrid, que então fôra escolhida para capital do +reino, um frade, chamado Jeronymo Bermudez, tomando o nome supposto de +Antonio da Silva, publicou duas tragedias, que merecem fazer-se d'ellas +especial menção. São ambas fundadas na celebre historia de D. Ignez de +Castro. A primeira, intitulada _Nise Lastimosa_, é uma imitação da +Castro do nosso Antonio Ferreira: a segunda, intitulada _Nise Laureada_, +que tem por acção a vingança, que o infante D. Pedro, quando subiu ao +throno, tomou dos assassinos da sua amada, e a coroação do cadaver +d'Ignez, é mais original que a primeira, mas inferior a ella no enredo e +desenlace. Estas duas peças, dividida cada uma d'ellas em cinco actos, +entresachados de coros, são as primeiras tragedias regulares, que em +verso castelhano se escreveram. Por este mesmo tempo, em Valencia, onde +o primeiro theatro, edificado em 1526, era pertença de um hospital, +foram representados varios dramas, ainda mais notaveis, compostos por +Christovam de Virues, de quem já falámos, e por Andres Rey d'Artieda. +Virues official militar, era um dos cabeças da grande eschola que, desde +o seu principio se gloriara de menoscabar as restricções aristotelicas. +Foi a sua primeira producção _La Gran Semiramis_, acção que ao mesmo +tempo tractava, em Italia, Murio Manfredi. Todavia, Virues, em vez de +fazer a peça em cinco actos ao modo grego, dividiu-a em tres _jornadas_, +nas quaes metteu toda a vida de Semiramis, passando-se o primeiro acto +na Bactriana, o segundo em Ninive e o terceiro em Babilonia. Compôs +depois, sempre com o mesmo desprezo das unidades, as tragedias da _Cruel +Cassandra_, _Atila Furioso_, _Infeliz Marcella_, etc. A que intitulou +_Elisa-Dido_, e que elle annunciou como escripta _conforme al arte +antigua_, é com effeito, a unica, em que as regras são inteiramente +respeitadas. O consocio de Virues na antiga guerra contra os preceitos +classicos, Juan de la Cueva, depois de traduzir o _Ajax_ de Sophocles, +publicou em Sevilha duas tragedias originaes; uma fundada em certa +tradição popular, e intitulada--_Los Siette Infantes de Lara_, a outra +tirada da historia romana e reunindo dois objectos tragicos, a morte de +Virginia e a de Appio Caudio, sendo La Cueva o primeiro que pôs em scena +estes successos, tantas vezes aproveitados depois. Entretanto no theatro +de Madrid as tragedias de Bermudez eram substituidas pelas de Lupercio +d'Argensola, as quaes Cervantes louva mais do que ellas merecem. O +proprio auctor do D. _Quixote_ escreveu então a sua _Numancia_, tragedia +a mais classica que, porventura, tem o theatro hespanhol, porque é +aquella em que mais transluz a simplicidade e pureza do drama grego, +posto que o espirito cavalleiroso de Cervantes appareça quasi sempre +debaixo d'essas fórmas antigas. + +É claro que o espirito romantico predomina sobre o classico, até nas +producções declaradamente tragicas do theatro hespanhol antigo. Todavia, +quando a subida de Filippe V ao throno submetteu o gosto nacional á +influencia do de Paris, não só os poetas tragicos franceses foram +traduzidos em lingua castelhana, mas tambem os poetas hespanhoes fizeram +varias tentativas para os imitar. No numero d'estas se devem contar a +_Virginia_ e o _Ataulfo_ de Montiano. + +Subsequentemente, durante o alumiado ministerio do marquez d'Arauda, +Fernandez Moratin, Cadalso e Garcia de la Huerta renovaram essas +tentativas: o primeiro escreveu _Hormesinda_, o segundo _D. Sancho +Garcia_ e o terceiro _Rachel_, mas estas obras, posto que valiosas, +principalmente a ultima, não eram sufficientemente notaveis para haverem +de naturalizar uma casta de dramas tão nova em Hespanha. No principio +d'este seculo tentou o mesmo genero, com melhor successo, D. Nicasio +Alvarez de Cienfuegos, habilmente ajudado pelo talento do celebre actor +Isidoro Mayquez, de algum modo discipulo de Talma, e não indigno de seu +mestre, posto que mais se approximasse da versatilidade maravilhosa do +actor inglês Garrick, porque não só era feliz nos papeis tragicos, mas +tambem em quaesquer outros, sem exceptuar os de truão e bobo. + +Depois de Cienfuegos, que deixou um _Idomeneu_, um _Pitaco_ e uma +_Zoraida_, appareceram dois outros poetas tragicos, que cremos, vivem +ainda ambos. Um d'elles, Quintana, é auctor de uma tragedia intitulada +_Pelayo_, fundada na historia d'esse antigo campeão da causa perdida da +independencia hespanhola contra os arabes triumphantes, peça, em +verdade, nobre e pathetica, da qual os modernos hespanhoes, obrigados +como seus avoengos a repellir o dominio estranho, costumavam repetir as +passagens mais energicas, marchando para os combates. O outro, Martinez +de-la-Rosa, ha pouco primeiro ministro d'Isabel II, é auctor de uma peça +tambem patriotica, intitulada _A Viuva de Padilla_, fundada na memoravel +lucta das cidades municipaes da Hespanha contra a aggressão tyrannica de +Carlos V. Esta tragedia, a primeira de tal genero, que Martinez +de-la-Rosa compôs, foi feita e representada em um theatro, construido +para isso em Cadiz, quando os franceses tinham esta cidade cercada. O +mesmo auctor compôs uma _Morayma_ um pouco ao modo da _Merope_ de +Voltaire, e um Edipo, representado depois em Madrid, no qual, diz um dos +mais entendidos criticos da litteratura hespanhola (Mr. Viardot) elle +trabalhou por ser original, tractando um objecto já tractado por +Sophocles, Seneca, Corneille, Voltaire, La-Motte e Dryden. + +Pelo que respeita a presente estimação theatral, que se faz dos antigos +dramaturgos hespanhoes no seu proprio país, devemos observar que, em +quanto Lope de Vega está desterrado nas bibliothecas, e emquanto +Calderon e Moreto raras vezes sobem á scena, Tirso de Molina, de quem já +falámos, apparece mais frequentemente no theatro que outro qualquer +antigo escriptor dramatico. Fernando VII gostava muito dos _ricos_ +gracejos do licencioso frade; e esta declarada predilecção fazia calar o +genio vidrento e pundonoroso de certas auctoridades, cuja sanha podiam +excitar os motejos do frade contra os grandes. A comedia de Tirso, +intitulada _D. Gil el de las calzas verdes_ era a de que el-rei mais +gostava; e por isso a camara municipal de Madrid não deixava de a mandar +representar nos dias de gala. + +Posto que a representação dos _Autos Sacramentales_ fosse supprimida em +1765, todavia o advento e a quaresma, e especialmente a Semana Sancta, +ainda se festejavam ha poucos annos nas igrejas com taes representações; +levantava-se no côro uma especie de tablado, sobre o qual se +representavam os passos da paixão de Christo, e em que as numerosas +personagens que successivamente figuravam na peça, se apresentavam com +os vestuarios da idade-média, quaes se deviam usar na origem d'estas +representações, como san-benitos, mascaras pretas, farricocos, cotas, +camisolas, e, numa palavra, toda a vestiaria de uma procissão de _auto +da fé_. + + + + +*Crenças populares portuguesas ou Superstições populares* + +PANORAMA + +184O + + + + +*Crenças populares portuguesas* + + +I + +Todas as nações tanto antigas como modernas teem sido sujeitas á doença +moral chamada credulidade. Dada a crença da existencia dos espiritos e +da sua immortalidade, os homens vendo diariameute morrer os seus +semelhantes, e sentindo em si uma consciencia que repugna a +anniquilação, perceberam facilmente que o espirito não morria: a +revelação não fez mais que confirmar um sentimento innato no homem. +Depois a saudade dos mortos que nos foram caros, e o temor que +experimentavam os criminosos de que as suas victimas ainda se pudessem +vingar d'elles além do sepulchro: emfim amor e remorsos, ajudados da +imaginação, povoaram este mundo de phantasmas. A Grecia, sempre poetica, +formulou esta serie de factos intellectuaes em muitas expressões +materiaes: sirva de exemplo a descida d'Orpheu aos inferno em busca +d'Euridice, mytho formosissimo, com que os antigos gregos simbolizaram o +amor como capaz de unir os espiritos que passaram com os que vivem na +terra. A imaginação multiplicou e variou estas expressões de um +pensamento vago e primitivo. D'ahi vieram os lemures, as strygas, e +todas essas creações extravagantes, que ainda no primeiro seculo +christão o severo philosopho Plinio não se atrevia inteiramente a +descrer. + +Entre as nações modernas a portuguesa passa por uma das mais inclinadas +a muitas d'estas superstições. É uma das multiplicadas calumnias que +sobre nossas cabeças lançam estrangeiros: quem d'isso se quiser +desenganar leia o _Diccionario infernal_ de Colin de Plancy, e achará +que qualquer provincia da França, ainda das mais civilizadas, nos deita, +como se diz vulgarmente, a barra adiante em superstições populares. +Quasi o mesmo se pode dizer da nação mais allumiada da Europa--a allemã. +Na Inglaterra, basta dizer que não haverá ahi perro turco, ou brahmane +credulo que leve vantagem em superstição ao povo dos tres reinos unidos. +As bruxas, diabos azues, vampiros, e seiscentas outras diabruras surgem, +por assim dizer, debaixo dos pés dos ingleses, como nos pinhaes do +Alemtejo e Estremadura se erguem, debaixo dos pés dos caminhantes, as +ninhadas dos sapinhos, quando sobre o pó das estradas cai em dia de +verão um aguaceiro de trovoada. + +Apesar, porém, de não sermos dos povos mais abastados neste genero de +riquezas (que poeticamente o são) tem havido entre nós muitas crenças +populares dignas de se fazer menção d'ellas; por isso mesmo que as mais +antigas são geralmente desconhecidas, e as mais modernas vão diariamente +desapparecendo;--que ao menos esse bem temos tirado das nossas luctas +politicas e d'este espirito do seculo, que renegou de tudo quanto nos +transmittiu o passado;--tanto de umas como de outras colligiremos aqui +algumas especies, que se nos não enganamos, serão lidas com interesse +pelos leitores do Panorama. + +Um dos mais antigos documentos que nos restam sobre as nossas +superstições populares é a celebre postura da camara de Lisboa de 1385. +Esta postura caracteriza essencialmente o espirito religioso da epocha +de D. João I. Nella se prohibem as superstições populares, as quaes ahi +se enumeram, como querendo a camara agradecer assim a Deus a victoria +d'Aljubarrota, que assegurou a independencia de Portugal. +Transcreveremos algumas passagens do referido estatuto, sem que tentemos +explicar muitas d'essas superstições a que se allude, porque difficil +fôra apresentar mais do que conjecturas. Eis o que nos parece mais +notavel naquelle assento municipal. + +«Os sobreditos estabelecem e ordenam, que d'aqui em diante nesta cidade, +nem em seu termo nenhuma pessoa não use, nem obre de feitiços, nem de +ligamento, nem de chamar os diabos, nem de descantações, nem de obra de +veadeira, nem obre de carantulas, nem de geitos, nem de sonhos, nem +d'encantamentos, nem lance roda, nem lance sortes, nem obre +d'advinhamentos... nem outrosim ponha nem meça cinta, nem _escante +olhado_ em ninguem, nem lance agua por joeira...» + +«Outrosim estabelecem que d'aqui em diante nesta cidade e em seu termo +não se cantem janeiras nem maias, nem a outro nenhum mês do anno, nem se +lance cal ás portas sob titulo de janeiro, nem se furtem aguas, nem se +lancem sortes...» + +«Porque o carpir e depenar sobre os finados é costume que descende dos +gentios, e é uma espécie de idolatria, e é contra os mandamentos de +Deus, ordenam e estabelecem os sobreditos que d'aqui em diante nesta +cidade, nenhum homem ou mulher, não se carpa, nem depene, nem brade +sobre algum finado, nem por elle, ainda que seja pae, mãi, filho ou +filha, irmão ou irmã, marido ou mulher, nem por outra nenhuma pena, nem +nojo, não tolhendo a qualquer que não traga seu dó, e chore se +quiser...» + +Muitas d'estas disposições dizem respeito a crenças que já não existem, +ou são conhecidas por outras denominações. As janeiras e maias duraram +até os nossos dias e ainda no Minho se chamam maias as flores da +giesteira amarella, com que se adornam as janellas no primeiro de maio; +alem d'isso todos os que hoje vivemos nos lembramos de ver em Lisboa os +maios pequeninos passearem as ruas cubertos de flores, bem como de ouvir +cantar as janeiras, o que ainda dura em muitas partes das nossas +provincias. + +As prohibições da camara relativamente aos prantos pelos mortos, alludem +ao carpirem-se e arrepellarem-se sobre o cadaver e por elle, depois +d'enterrado, certas mulheres, que d'isso viviam chamadas carpideiras ou +pranteadeiras, e na falta d'estas os parentes mais proximos. Fr. +Francisco Brandão diz que tal costume se acabou no tempo de D. João I; +mas engana-se manifestamente, porque nos nossos chronistas se acham +memorias de similhantes prantos em epochas mui posteriores, e lá diz Gil +Vicente. + +Prantos fazem em Lisboa +Dia de Sancta Luzia +Por elrei D. Manoel +Que se finou neste dia. + +Entre as superstições antigas podem contar-se os reptos, requestas, ou +desafios, em que se appellava para o juizo de Deus quando um homem +accusava outro de homicidio ou traição. Este costume, geral em toda a +Europa, vogou muito em Portugal no principio da monarchia, sendo até +declarados nos foraes de algumas terras os casos em que o duello devia +servir de prova da justiça ou injustiça da accusação ou querella. Muito +cedo porém começaram os nossos reis a trabalhar, por meio de leis +prudentes e saudaveis, em pôr termo a este costume barbaro. D. Dinis foi +o primeiro que por lei de 1318 prohibiu houvesse reptos duas leguas em +redor d'onde estivesse a côrte.--«Estabeleço e ponho por lei (diz elle) +que d'aqui adiante nenhum Filho d'algo não desafie, nem mande desafiar +outro, nem por si, nem por outrem, perante mim, nem nos logares onde eu +fôr, nem a duas leguas aredor de mim; e aquelle que contra isto vier, +morra por isso, e a desafiação não valha»--Successivas providencias se +foram dando a este respeito, de modo que na ordenação affonsina apenas +são permitidos os desafios no caso de traição contra a pessoa real, como +se pode ver no titulo 64 do Livro 1.^o d'essa ordenação. + +Como, porém, os reptos não tinham logar em todos os casos, e tal era o +de caír a suspeita do crime em mulheres, as quaes não podiam ir defender +ás lançadas a sua innocencia, havia outros meios de recorrer ao juizo de +Deus. D'estes eram geralmente em toda a Europa, as provas da agua fria, +da agua quente, e do ferro em braza. A que se usou em Portugal foi a +ultima, a qual consistia no seguinte: o accusado que queria arriscar-se +á prova, depois de se confessar, e de jejuar rigorosamente por alguns +dias, e de receber exorcismos, bençãos e orações de um sacerdote, ou se +punha a andar descalço sobre uma vara de ferro em braza, ou pegava nella +e caminhava apertando-a nas mãos por certo espaço. Se o _ferro caldo_ +(como lhe chamavam) não produzia o seu natural effeito, o culpado era +havido por innocente; mas se lhe queimava os pés ou as mãos impunham-lhe +a pena do crime de que fôra accusado. Já se vê que era difficultosa +empresa achar innocentes por meio tal; todavia algumas tradições existem +que a serem verdadeiras, provariam que a providencia apiedando-se dos +injustamente opprimidos, suspendera algumas vezes a favor d'elles as +leis da natureza. Juncto ao sepulcro do commendador de Leça D. Garcia +Martins se conservava, segundo o testamento de Jorge Cardoso, um ferro +de arado, que, posto em braza, transportou para alli a mulher de um +ferreiro accusada de adulterio. Fr. Bernardo de Brito e Fr. Antonio +Brandão citam uma doação feita ao mosteiro de Arouca, Por D. Tareja +Soares, mulher de D. Gonçalo Mendes de Souza, que sendo accusada pelo +marido d'adulterio, recorreu, em sua defeza, á prova do ferro em braza, +e saindo illesa, se recolheu ao convento d'Arouca, ao qual fez uma +doação, onde se menciona este successo, que seria em verdade +extraordinario, se não fosse mais facil e razoavel crêr na supposição do +documento do que na realidade do milagre. + +Esta superstição da prova por fogo parece que ainda estava muito +arreigada em Portugal no fim do seculo XIV. Quando o Mestre d'Aviz matou +o conde Andeiro a rainha D. Leonor, ouvindo na sua camara o ruido que +soava, mandou saber o que era, e vieram dizer-lhe que tinham assassinado +o conde. «A rainha quando isto ouviu, houve grão temor, porem disse: Oh +sancta Maria vale me mataram em elle um bom servidor!--e sem o merecer; +cá (porque) o mataram, bem sei porque. Mas eu prometto a Deus que me vá +de manhã a S. Francisco, e que mande ahi fazer uma fogueira, e ahi farei +taes salvas, quaes nunca mulher fez por estas cousas.» (Lopes chron. de +D. João I cap II). Santos, narrando este mesmo successo, accrescenta: +«Alludiu ao antigo costume de se purificarem, tomando o ferro quente, as +mulheres accusadas, ou murmuradas d'adulterio. (Mon. Lusiti Liv. 23, +cap. 8). E com effeito não é crivel que a rainha na sua afflicção +fizesse uma figura de rhetorica, dizendo que se queria sujeitar a um +costume que já não existia; muito mais que Fernão Lopes, escriptor tão +vizinho d'aquelles tempos, parece reconhecer a actualidade de tão +barbara usança, accrescentando que a rainha _tinha mui pouca vontade de +o fazer_. + +Não era este supersticioso costume, que durou por tantos seculos, apenas +uma invenção do vulgo. Nas antigas leis d'Hespanha, conhecidas pelo nome +de _Fuero juzgo_, é expressamente ordenada a prova da agua a ferver, e a +do ferro em braza, e no foral de Baeça se particularizam os casos em que +taes provas tinham logar, bem como a maneira de as fazer. +Transcreve-lo-hemos aqui por ser grandemente curioso, tanto mais que em +parte diz respeito á prova do desafio. + +«A mulher, que sabidamente mover, sendo o movito por mau termo seja +queimada, ou salve-se por ferro quente. E se alguma disser que é prenhe +de algum homem, e elle a não crer, tome ferro quente, e queimando-se, +não seja crida; mas se escapar livre do ferro, dê o filho ao pai, e +crie-o como mandam as leis.» + +«A mulher que _ligar_ homens ou animaes, ou quaesquer outras cousas que +podem ser ligadas, queimem-na, e se negar, salve-se por ferro quente; e +se o ligador for homem seja açoutado e lançado fóra da terra, e se +negar, salve-se por combate.» + +«A mulher que der hervas peçonhentas ou for feiticeira, seja queimada, +ou se salve por ferro quente.» + +«A mulher que matar seu marido seja queimada, ou se livre por ferro +quente. Toda a mulher que taes cousas faz, deve tomar ferro; mas não por +erro da sua pessoa propria, salvo quando for approvada por má mulher, e +que teve parte com cinco homens differentes. As _terceiras_ sejam +queimadas, ou, se negarem, salvem-se por ferro quente.» + +«O ferro que se mandar fazer por justiça para esta experiencia, tenha um +palmo de comprimento, e dous dedos de largo, e tenha quatro pés (a modo +de banco) tão altos, que a pessoa que houver de fazer a salva possa +metter a mão por baixo. E quando o tomarem, levem-no por distancia +d'outo pés, e tornem-no a pôr em terra suavemente. Mas antes o benza o +sacerdote, e depois elle e o juiz aquentem o ferro, e em quanto o ferro +se aquentar, nenhum homem se chegue junto ao fogo, porque não acerte de +fazer alguma feitiçaria; e a que houver de tomar o ferro primeiro se +confesse mui bem, e depois seja olhada, porque não traga escondido algum +feitiço. Depois lave as mãos diante de todos, e depois de limpas, tome +ferro, mas antes façam todos oração, pedindo a Deus que mostre a +verdade. E depois que tiver levado o ferro, o juiz lhe cubra logo a mão +com cera, e sobre ella lhe ponha a estoupa ou linho, e depois atem-lha +com um panno, e leve-a o juiz a sua casa, e passados tres dias vejam-lhe +a mão e se for queimada, queimam-na tambem a ella.» + +Vimos que a prova do fogo durou em Portugal, pelo menos até o fim do +seculo XIV. Não sabemos ao certo a epoca da completa extincção d'este +abuso; todavia é sabido que elle estava em esquecimento no seculo +seguinte. Não assim a crença em feitiçarias que, como sabemos, durou até +aos nossos dias, e ainda hoje tem bastante voga entre os espiritos mais +rudes. + +A primeira lei, que nos lembre fosse promulgada em Portugal contra os +feiticeiros é uma de D. João I, do anno de 1403, em que se diz o +seguinte: «Não seja nenhum tão ousado, que por buscar ouro ou prata, ou +outro haver, lance varas, nem faça circo, nem veja em espelho ou em +outras partes.» Esta lei foi confirmada no codigo affonsino, d'onde em +substancia passou para os que se lhe seguiram. Vê-se por ella que a +magia portuguesa d'esse tempo se reduzia a uma especie d'alchimia, ou +sciencia de encontrar ouro, o que, em verdade, era bem pouco se o +compararmos ao incremento prodigioso que teve a feitiçaria no seculo +seguinte. + +Da variedade de praticas supersticiosas que produziu este incremento, +nunca encontrámos memoria mais curiosa, que o capitulo que trata d'esta +materia no rarissimo livro das Constituições do arcebispado d'Evora, +impressas em Lisboa no anno de 1534. Eis aqui o texto da constituição +primeira do titulo 25, que se intitula--_Dos feiticeiros, benzedeiros e +agoureiros_: + +«Defendemos que nenhuma pessoa de qualquer estado ou condição que seja, +tome de logar sagrado, ou não sagrado, pedra d'ara ou corporaes, ou +parte de cada uma d'ellas, ou qualquer outra cousa sagrada; nem invoque +diabolicos espiritos, em circulo, ou fora d'elle, ou em encruzilhada; +nem dê a alguma pessoa a comer ou a beber qualquer cousa, para querer +bem ou mal a outrem, ou outrem a elle; nem lance sortes para adivinhar, +nem varas para achar haveres; nem veja em agua, ou crystal, ou em +espelho, ou em espada, ou em outra qualquer cousa luzente, nem em +espadua de carneiro; nem faça, para adivinhar, figuras ou imagens +algumas de metal, nem de qualquer outra cousa; nem trabalhe de adivinhar +em cabeça de homem morto, ou de qualquer outra alimaria; nem traga +comsigo dente, nem baraço de enforcado, nem faça com as ditas cousas, ou +cada uma d'ellas, nem com outra alguma semelhante, posto que aqui não +seja nomeada, especie alguma de feitiçaria, ou para adivinhar, ou para +fazer damno ou proveito a alguma pessoa ou fazenda: nem faça cousa para +que uma pessoa queira bem ou mal a outrem, nem para ligar homem ou +mulher, etc.» + +«Outrosim defendemos que nenhuma pessoa doente passe por silva ou +machieiro, ou por baixo de trovisco, ou por lameiro virgem; nem benzam +com espada que matou homem, ou que passasse o Douro e Minho tres vezes; +nem cortem solas em figueira baforeira; nem cortem çobro em limiar da +porta; nem tenham cabeças de saudadores encastoadas em ouro, ou em +prata, ou em outras cousas; nem apregoem os demoninhados; nem levem as +imagens d'alguns sanctos ácerca d'agua, fingindo que as querem lançar em +ella, e tomando fiadores, que se até certo tempo lhes não der agua, ou +outra cousa que pedem, que lançarão a dita imagem na agua, nem revolvam +penedos e os lancem na agua para haver chuva; nem lancem joeira; nem +dêem a comer bollo para saberem parte de algum furto; nem tenham +mendracolas em sua casa, com tenção de haverem graças, ou ganharem com +ellas; nem passem agua por cabeça de cão, para conseguir algum proveito; +nem digam cousa alguma do que é por vir, mostrando que lhe foi revelado +por Deus, ou algum santo, ou visão, ou em sonho, ou por qualquer outra +maneira; nem benzam com palavras ignotas e não entendidas, nem +approvadas pela egreja, ou com cutellos de tachas pretas, ou d'outra +alguma côr, nem por cintos e ourelos, ou por qualquer outro modo não +honesto; nem façam camisas fiadas e tecidas em um dia, nem as vistam, +nem usem de alguma arte de feitiçaria » + + +II + +Transcrevemos os titulos das constituições do arcebispado d'Evora acêrca +de feitiçarias, com preferencia a outro qualquer documento, por ser o +que mais especificadamente tracta d'esta materia; as outras +constituições diocesanas que vimos, promulgadas no seculo XVI, +limitam-se em geral a prohibir agouros e bruxedos sem os particularizar, +e sem que d'ellas se possa tirar maior luz para a historia das crenças +nacionaes. Muitas d'essas antigas compilações ecclesiasticas são hoje +rarissimas, nomeadamente as que primeiro se imprimiram, como uma da +diocese do Porto, de que nos lembra ter visto uma copia, e que pela +linguagem e o estylo nos pareceu pertencer ainda ao seculo XV.--Nas mais +remotas achar-se-hiam, porventura, outras noticias; mas não as pudemos +alcançar. E de passagem lembraremos aqui aos amigos das velhas coisas do +velho Portugal, que não ha, porventura, mais rica mina para a historia +dos costumes de nossos avós, depois das compilações das leis civis, que +estas leis ecclesiasticas, que íam devassar o proceder das familias, o +proceder de todas as classes, de todos os individuos, não só nas suas +relações sociaes, como, por via de regra, acontece com aquellas, mas +tambem nas relações domesticas, nas relações com Deus, tomando muitas +vezes para si os misteres e direitos, que em boa razão só deveriam +pertencer á consciencia de cada qual. Pelas antigas constituições dos +bispados quasi podemos seguir a existencia de nossos antepassados do +berço ao tumulo, porque a religião de um até outro cabo os acompanhava, +e ella então era essencialmente positiva e pratica. A lei ecclesiastica +vigiava a infancia, a puberdade, a idade viril, e a velhice; e para cada +epocha da vida tinha preceitos, e para cada erro castigo. Perguntava ao +celibatario se as suas noites eram solitarias, aos esposos se o seu +leito era casto, ao sacerdote se o seu coração era puro; batia alta +noite á porta afferrolhada das casas da devassidão, do jogo, da +ebriedade, e fazia tremer o devasso jogador, o ebrio; porque não era uma +lei morta, mas sim lei com a sancção de penas materiaes. Esta legislação +particular que tinha por base o Evangelho, por objecto os costumes, +devia primeiro que tudo conhecer exactamente estes, e ser definida e +precisa nas suas disposições. É assim que ella nos conservou a historia +das crenças e abusões do povo: das suas paixões, dos seus trajos, das +suas festas e jogos; e até dos seus alimentos: é assim que talvez se +possa dizer em rigorosa verdade, que só com as leis civis e +ecclesiasticas se poderia escrever a historia intima, a _historia do +viver_ das gerações que antes de nós passaram nesta terra portuguesa, +desde os primeiros seculos da monarchia. Para isto, todavia, é +necessario consultar as mais remotas com dobrada curiosidade; porque o +progresso da civilização trouxe o habito de generalizar as idéas, e este +habito influindo na legislação, tornou a sua expressão mais geral, e por +consequencia, neste sentido, muito menos histórica.[23] + +Mas, voltando ao nosso assumpto, de que um pouco nos affastámos, +observaremos neste logar que a lei civil que por este mesmo tempo fôra +feita (Ord. Man Liv. 5.^o Tit. 33) fazia distincção, por assim dizer, da +grande e pequena bruxaria; porque as feitiçarias em que se usava +empregar pedra d'ara ou corporaes, ou quaesquer outras cousas sagradas, +era punida com pena de morte, bem como os esconjuros e invocações de +diabos, feitos em circulo ou em encruzilhada, e o dar a beber ou a comer +cousas enfeitiçadas para querer mal ou bem a alguem. + +Todos os outros bruxedos, porem, que naquella ordenação se acham +especificados, e que são, pouco mais ou menos, os mesmos que enumeram as +constituições d'Evora, tinham por pena a marca de ferro nas faces, e o +degredo perpetuo para a ilha de S. Thomé. As demais superstições +populares, que não pareciam depender de tracto com o demonio eram +punidas com açoutes, sendo o criminoso peão, e sendo vassalo ou +escudeiro, ou mulher de qualquer d'estes, com degredo de dous annos para +os logares d'Africa. Estas disposições passaram quasi textualmente para +o titulo 3.^o do livro 5.^o das Philippinas, conhecidas geralmente pela +denominação d'Ordenações do Reino. + +E cumpre aqui advertir que, se quando se reformou este codigo no +principio do seculo XVII se conservaram penas tão severas contra +individuos que não passavam de meros charlatães, que por taes meios +viviam á custa da credulidade publica, ou que se enganavam a si +proprios, imaginando terem imperio nos demonios e tracto com as +potencias invisiveis, é porque ainda então se cria que similhantes +sonhos eram realidades. E fomos só nós acaso os que isso +acreditámos?--Não. A Europa inteira estava na mesma persuação: nessa +epoca todos os governos, e legisladores, e até homens da mais alta +cathegoria litteraria admittiam a possibilidade dos maleficios, dos +sortilegios, e dos adivinhamentos. E tão duradora foi essa crença, que +ainda no principio do seculo decimo-oitavo, quando appareceu a _Magica +anniquilada_ de Maffeu (livro, em nosso entender, muito aquém da sua +reputação) se levantou uma grande discussão a similhante respeito, o que +é claro signal de que para muitos homens instruidos a magia não era uma +coisa inteiramente vã. + + * * * * * + +Uma das coisas mais notaveis acêrca da credulidade dos nossos +antepassados no seculo XVII, é um alvará datado de 15 de outubro de +1654, impresso no _Jornal de Coimbra_ e citado por J. P. Ribeiro, em que +se dá licença a um soldado, que dizia ter o dom de _curar com palavras_, +para continuar a fazer uso d'esta estupenda habilidade com a obrigação +de empregar o seu prestimo em beneficio dos militares que d'elle +houvessem mister. + +O progresso, porém, das sciencias foi pouco a pouco destruindo estas +abusões nos animos das pessoas sensatas, e os leiticeiros e bruxas, e +adivinhões viram-se obrigados a refugiar-se entre a plebe ignorante das +cidades, e entre a gente boa e simples dos campos. É ahi onde, ha mais +de cincoenta annos, apenas restam usanças que revelam a existencia das +chamadas artes diabolicas. + +O conflicto entre o progresso intellectual e as antigas superstições +acarretou por vezes desgostos e perseguições áquelles que trabalhavam em +allumiar as nações; mas tambem deu aso a acontecimentos mui graciosos, +dos quaes re'ataremos aqui um, succedido em Evora no reinado de D. José. + +Um frade de certa ordem tinha sido nomeado mestre de philosophia +naquella cidade. Querendo dar uma vez a seus discipulos idéa da +electricidade, pôde obter emprestada uma machina electrica, com a qual +fez algumas experiencias diante de varios padres graves do seu convento, +que ficaram pasmados de coisa tão extraordinaria, e suppuseram lá +comsigo andar nisto obra de feitiçaria. Esperaram, portanto, um dia em +que o mestre de philosophia saísse fóra do convento, e mandando o +prelado tocar á communidade, revestido, e de cruz alçada, seguido dos +demais frades, foi ao aposento, onde estava a machina para a exorcismar. +Começados os exorcismes tanta agua benta lhe deitaram que dentro em +pouco ficou completamente estragada. Quando d'ahi a dias o professor +quis trabalhar com ella, nunca o pôde alcançar; e os padres graves, +rindo uns com os outros, escarneciam do pobre philosopho, a quem, com +esconjuros, tinham inutilizado aquelle diabolico feitiço. + +Concluiremos este artigo dando uma noticia do que temos alcançado acerca +das feitiçarias, bruxas, e lubis-homens, na opinião do vulgo, cuja +imaginação ainda dá existencia a estes sonhos ridiculos conservados nas +tradições populares. + +O povo faz distincção entre feiticeiras, bruxas, e lubis-homens. São as +feiticeiras e bruxas, por via de regra, mulheres velhas, pobres, feias, +immundas, e de genio melancholico, ou colerico. Estes motivos bastam +para o vulgo as aborrecer, e para justificar a seus olhos qualquer +accusação que lhes façam de feitiçaria ou bruxedo. O mister das +feiticeiras é fazer maleficios a todo o genero de pessoas de qualquer +idade que sejam: estas acompanham ordinariamente o diabo em todas as +suas funcções neste mundo. As bruxas teem poder limitado, estando apenas +auctorizadas para chupar de noite o sangue ou a substancia das creanças, +matando-as pouco a pouco d'inanição, ou de repente, se chupam +desarrazoadamente. + +Os lubis-homens são aquelles que teem o _fado_ ou _sina_, de se despirem +de noite no meio de qualquer caminho, principalmente encruzilhada, darem +cinco voltas, espoujando-se no chão em logar onde se esponjasse algum +animal, e em virtude d'isso transformarem-se na figura do animal +_pre-espoujado_. Esta pobre gente não faz mal a ninguem, e só anda +cumprindo a sua _sina_, no que teem uma cenreira mui galante, porque não +passam por caminho ou rua, onde haja luxes, senão dando grandes assopros +e assobios para que lh'as apaguem, de modo que seria a coisa mais facil +d'este mundo apanhar em flagrante um lubis-homem, accendendo luzes por +todos os lados por onde elle pudesse saír do sitio em que fosse +presentido. É verdade que nenhum dos que conta similhantes historias fez +a experiencia. + +A instituição de qualquer feiticeira ou bruxa é pela seguinte maneira. A +adepta é levada alta noite pelas feiticeïras professas a um logar ermo, +onde o diabo apparece transformado em bode negro. Começa a ceremonia, +como é de razão, pela matricula, e a noviça escreve o termo da vencia da +sua alma com o proprio sangue: então o diabo lhe entrega um novello e um +pandeirinho que são os symbolos da nova dignidade que recebe, e pelo que +fica habil para fazer os seus maleficios, e para se transformar no que +quiser, quer sejam corpos animados, quer inanimados. Depois d'isto o +demonio _bodificado_ se assenta no seu throno cercado de candeinhas, e +por baixo d'este throno passa a noviça tres vezes; acabado o que, a nova +feiticeira dá um beijo na proximidade da cauda ao transformado rei do +inferno. + +Feita esta ceremonia as circumstantes (que são todas as feiticeiras da +provincia, chamadas alli para assistir áquelle auto) tocam os seus +pandeirinhos, e com dansas mysteriosas levam a nova socia a casa, onde +lhe mostram os respectivos novellos de fiado, que são maiores ou +menores, conforme a importancia ou estimação em que as tem o diabo. + +Estes novellos diabolicos em que principalmente reside a força e poderio +das feiticeiras são compostos de uma especie de linha fiada _pela mão do +diabo_, e cuja materia prima é o pello do bode, em que o cão tinhoso +costuma transformar-se. Tambem as bruxas teem por apanagio uma maçaroca +preta; mas a demonologia popular não declara de que maneira, ou de que +materia seja feita, bem como as dos lubis-homens, que tambem possuem +este adminiculo, do qual apenas sabemos uma circumstancia, que é o ser +de fio pardo. + +Quando alguma d'estas importantes personagens, que tem pacto, ou fado, +está para morrer, chama a pessoa que mais estima, e a esta entrega o +fatal novello. Se lh'o não aceitam, não pode expirar, ainda que esteja +em agonias mortaes; mas apenas essa, ou alguma das circumstantes lh'o +recebe, a pobre creatura entrega logo descansadamente a sua alma a +satanaz. Parece que a posse de tal herança dá um direito na secretaria +d'estado infernal, para o herdeiro ser preterido no prehenchimento do +logar que ficou vago. + +Tem a feiticeira obrigação, cada vez que quer infeitiçar alguem, de +invocar primeiramente o diabo, e de lhe pedir licença para exercer seu +officio, o que prova que não só na terra ha maus systemas de legislação. +A formula usada em taes casos, segundo alguns gravissimos auctores, é: +_Tenato, ferrata, andato, passe por baixo_, o que se repete tres vezes. +Acode o démo ao reclamo, e a professora de feitiços póde então ter a +certeza de tirar a sua a limpo. + +Se, porém, se não tracta de um feitiço de segunda ordem; mas sim d'algum +que deva produzir a morte do individuo enfeitiçado, é preciso mais +trabalho, e pelas leis infernaes não é licito a qualquer feiticeira +tomar sobre si só tamanha responsabilidade, d'onde se póde concluir qual +seja a prudencia, gravidade e consciencia do diabo, que por certo não é +tão feio como o pintam. Quando, pois, alguma d'estas boas creaturas quer +dar cabo de qualquer individuo, toca o seu pandeirinho e chama duas suas +companheiras para d'ellas se ajudar naquella boa obra. Então as taes +fazem uma figura da pessoa condemnada a morrer, e compostos certos +unguentos liquidos vão com elles unctando aquelle vulto, e á proporção +que o trabalho se vai adiantando, vai o enfeitiçado adoecendo, até que +chega ás ultimas. Neste ponto a feiticeira mais velha tira o seu +novello, põe-se a dobá-lo, e quando o doente deve morrer uma das outras +corta o fio com uma tesoura, e no mesmo instante expira o enfeitiçado. +Depois invocam todas tres o demonio, que vem, e solda de novo o fio que +ficou cortado. + +Limitamo-nos neste artigo a tractar com mais alguma individuação a mais +notavel das superstições populares, o imaginario pacto com o demonio. +Deixamos para outra occasião o falar de muitas outras crenças e costumes +que poderiamos ajunctar a estes incompletos apontamentos, e então +daremos especial noticia das _mulheres de virtude_, especie de +contraveneno com que o povo de algum modo quis destruir os terrores que +lhe causava o poderio das feiticeiras que elle proprio creara. + + + + +*A Casa de Gonsalo* + +COMEDIA EM CINCO ACTOS + +PARECER + +Memorias do Conservatorio + +1840 + + + + +*A Casa de Gonsalo* + +COMEDIA EM CINCO ACTOS + +PARECER + + +A commissão encarregada de dar o seu parecer sobre a comedia +intitulada--_A Casa de Gonsalo_--que concorreu aos premios destinados +para os dramas originaes portugueses, que mais se avantajarem entre os +outros no concurso aberto por este Conservatorio para o corrente anno de +1840, vem apresentar a sua opinião a este Jury, desempenhando assim o +encargo que lhe coube em sorte. + +A comedia sobre que versa este parecer é precedida por um prologo, ou, +como seu auctor lhe chama, por um endereço aos censores. + +A Commissão hesitou se devia ou não fazer algumas observações sobre a +materia nelle contida: grave e importante é esta; ridicula e talvez +chula a fórma porque o auctor a tractou; mas a Commissão intendeu por +fim que tocando-se nesse prologo a grande questão das condições da arte, +que hoje agita o mundo litterario, era da sua obrigação, entrar no exame +das idéas contidas nelle. Pospondo, por tanto, os gracejos do auctor, e +considerando somente as suas opiniões e proposições, até porque elle +parece apresentá-las, como norma por onde os censores houvessem de +guiar-se, antes de julgar o drama dirá algumas palavras sobre o +mencionado prologo. + +Começa o auctor esse prologo pela sua biographia litteraria referindo +como tem composto um bom numero de _comedias comicas_, e outras +lamentosas ou patheticas, de que, segundo elle diz, são muito +apaixonados os alemães. Deixando de parte as noticias +biographico-litterarias, importantissimas para uma nova edição da +Bibliotheca Lusitana, ou do Diccionario dos homens illustres, mas que no +caso presente nada montam para o Conservatorio, a Commissão apenas se +faz cargo das duas circumstancias que deixa apontadas: a 1.^a de ter o +auctor composto comedias lamentosas, ou como, com Voltaire, elle lhes +chama, _larmoyantes_: 2.^a a de affirmar que d'este genero são muito +apaixonados os alemães. Admira com effeito, que o auctor tão afferrado +aos sãos principios dos antigos, tão desprezador dos desvarios modernos, +gastasse o seu tempo com um genero dramatico bastardo, em que os antigos +nem sonharam, porque só conheceram a tragedia e a comedia, vendo-se +daqui que houve uma epoca em que o illustre auctor da _Casa de Gonsalo_ +sacrificou ao Moloch revolucionario: não admira menos, que um escriptor +tão versado em materias litterarias ignore que o drama lamentoso nasceu +em França, e que a Alemanha só conta um auctor notavel neste +genero--Kotzebue--que não teve successores, e que hoje está quasi +completamente esquecido naquelle país, onde exclusivamente apparecem +poucas comedias, bastantes tragedias, e infindos dramas da eschola +moderna que está bem longe de ser a de Diderot, ou dos dramaturgos +chorões, lamentosos ou patheticos. + +Continua o illustre auctor da _Casa de Gonsalo_ dizendo que sabe que a +sua comedia não hade agradar porque tem aquelle mau gôsto de composição +que recommenda Aristoteles e Horacio que eram uns rançosos e d'esse +ranço é Menandro, Aristophanos e Terencio etc.; fala nos freios da arte +da eschola classica, unidade de acção, consistencia de caracteres; +paixões e affectos naturaes, verdade de costumes, (!) estabilidade de +logar, unidade de tempo; fala no Sales que tinha a habilidade de fazer +velhos os rapazes que iam ouvir-lhe as licções de poetica e rhetorica +(!); diz que todas as regras acabaram com Hugo e Delavigne, e que os +modernos destruiram a unidade d'acção, de caracter, de tempo, e de +logar. Do que tudo conclue o auctor que a sua comedia não hade agradar, +e que por isso a apresentou sem a mandar copiar. + +Se a letra em que a comedia está escripta, e a historia litteraria do +illustre auctor inserida neste prologo, não revelassem, aquella a mão +trémula de um velho, esta uma larga vida cheia de recordações do +sapientissimo Sales, que, bem differente das magas das novellas de +cavallaria, as quaes transformavam as rugas de velhice em viço de +mocidade, convertia a mocidade em velhice: se a Commissão, digo, não +inferisse de tudo isso que este prologo encerrava um pensamento de +Sansão, classico, o qual vendo morta a sua nação quer morrer tambem +levando comsigo os philisteus da nova arte, e se este pensamento não +fosse generoso, ella se teria abstido de fazer observações algumas +acêrca das idéas do auctor, que em um homem moço e que não tivesse essas +razões d'amor ás coisas com que se creou, seriam apenas dignas de +compaixão muda. A Commissão, porém, pertence infelizmente ao presente, e +quando vê um campeão do passado, de quem se póde dizer como Virgilio: + +_Et dulces moriens reminiscitur Argos. +Do caro Sales lembra-se morrendo_. + +não pode deixar de lhe dar o extremo _vale_, nem é licito que responda +com um silencio que se poderia tomar pelo silencio do desprezo a quem +vem lançar na estacada a luva do combate, por uma causa talvez bella, +mas nestes tempos irreverentes e dissolutos, bem mal-aventurada. + +Senhores! A guerra que os homens do passado fazem ás opiniões do +presente é um phenomeno trivialissimo, e repetido todas as vezes, que, +ou as meditações ou as inspirações do genio, ou finalmente a accumulação +das idéas e das observações de muitos homens, tem produzido uma +revolução, seja ella de que natureza fôr. A razão d'isto dá-se neste +prologo. Quem encanecendo no estudo de qualquer ramo de sciencia nunca +pôde passar além de comprehender o que os outros pensaram, intende que a +isto se deve reduzir todo o poderio intellectual do genero humano. Taes +individuos são por via de regra os representantes da immobilidade. Bem +longe da theoria do progresso indefinido, crêem que a civilização é como +a praia do mar, os homens como as ondas d'elle, que ora se aproximam ora +se afastam em continuados éstos. São taes individuos que nunca se +persuadiriam de que as chamadas trevas da edade média não eram mais que +a chrisalida de uma civilização maior e melhor que a grega e romana, de +uma civilização cuja aura vital era a grande transformação religiosa +chamada o christianismo. São taes individuos para quem fôra baldada a +demonstração de que no objecto de que neste logar se tracta--o +drama--uma nova epoca e por consequencia uma nova fórma tinha começado +com o berço das nações modernas, e de que entre o nosso theatro e o dos +antigos devia haver a mesma differença que ha entre a civilização +christã e a pagã, entre o christianismo e o polytheismo; emfim que nas +respectivas litteraturas dramaticas devia haver uma diversidade +parallela á que ha entre aparte material do theatro antigo e a do +theatro moderno. + +Era licito, pois, a estes homens morrerem abraçados com as poeticas e +rhetoricas sobre que encaneceram; era-lhes licito desprezarem os fructos +das cogitações dos modernos; era-lhes licito terem commentado as regras, +na impossibilidade de fazerem dramas. Tudo isso lhes era licito menos +ignorarem a historia da arte antiga, desconhecerem os principios da +moderna, mentirem acêrca d'aquella, e calumniarem esta. Isto é o que tem +feito os admiradores dos rhetoricos de todas as nações, isto é o que se +reproduz no prologo do erudito discipulo do eruditissimo Sales. + +A Commissão não entrará aqui no exame do valor relativo dos principios +da eschola antiga, e da eschola moderna que tambem os tem mais profundos +e por ventara mais creadores de difficuldades que os da antiga. A +comparação d'esses principios seria materia de um livro, de um curso de +litteratura dramatica, e nunca de um parecer que deve servir de base á +discussão especial do merito de um drama. Mas a Commissão se mostraria +pouco attenta á dignidade, e á honra litteraria do Conservatorio se +deixasse passar como exactas affirmativas contrarias á historia do +theatro e á critica, sem que rectificasse inexactidões que se lhe vem +apresentar como verdades. + +O auctor diz que sabe que a comedia não ha de agradar por se verem nella +cumpridos os decretos de Aristoteles e de Horacio. Desejaria a Commissão +que elle tivesse declarado cujo era o desagrado em que tinha a certeza +d'incorrer. Se era o do publico, como tendo essa certeza concorre ás +provas publicas?--Neste procedimento ha pelo menos um pleonasmo tão +flagrante como ha no titulo de _comedia comica_ que elle dá a esta. Se é +o do Conservatorio, parece fazer com isso grave injúria a este. + +O Conservatorio possue no seu seio homens de convicções differentes, e +até certo ponto oppostas, em materias litterarias: uns pertencem, como o +auctor, ás idéas antigas, outros ás opiniões modernas. Para os primeiros +a execução d'essas regras é um merito; para os segundos se as suas +opiniões assentam sobre uma theoria completa da arte--e a Commissão crê +que sim--o desempenho d'essas regras é indifferente, porque não é nem na +falta, nem na existencia d'ellas que consiste a arte. O auctor devia +saber que a eschola moderna colloca quasi a par de Shakespeare e acima +talvez de Calderon e Lopo da Vega, dois escriptores da arte dos +preceitos--Moliere e Corneille: devia saber que ella rejeita d'esses +preceitos aquelles que não teem uma sancção esthetica; aquelles que, ou +o capricho, ou um exame superficial das materias litterarias, admittiu +como canones imprescriptiveis; aquelles que são mui proximos parentes +dos achrosticos, dos echos, e dos versos leoninos--mas devia tambem +saber, que a eschola moderna nunca desprezou o dramaturgo, cujo genio, +apesar d'essas peias escholasticas, se remontasse a altura da verdadeira +arte, e que, por tanto os membros do Conservatorio cujas opiniões são +modernas não rejeitariam o drama só porque se assujeitava ás andadeiras +rethoricas da eschola antiga. Se um pensamento unico tivesse precedido á +composição d'esta comedia: se o ideal de um ou muitos caracteres comicos +tivessem nella revestido as fórmas da vida real, embora o drama +estivesse arrebicado de cem regras e duzentos preceitos, os sectarios da +nova eschola teriam dicto com os da antiga; _equites romani plaudant_! + +O digno auctor da _Casa de Gonsalo_, seguindo as pisadas dos homens da +sua eschola parece querer tornar solidaria a arte dos gregos e romanos +com a arte do renascimento; essa arte bella, pura, e nacional dos +antigos com a arte caprichosa, polvilhada, cortesã e regreira do seculo +de Luis XVI. Hoje não é licito ignorar as differenças que ha d'aquella a +esta: ignorar que além de outras coisas duas regras essenciaes para os +modernos faltam entre os antigos as unidades de logar e de tempo, e que +vice-versa entre os antigos havia no theatro os coros que os classicos +modernos deixaram, bem como a musica tanto dos coros como da scena, a +qual fazia que o drama fosse então o que é hoje a opera italiana, ou a +vulgar, onde esta existe. + +Senhores: o drama moderno nasceu dos mysterios ou representações +religiosas da edade média: o caracter essencial dos mysterios era o +vestir o ideal christão--e o nome o está dizendo--com as fórmas da vida +real, e a vida real era então como hoje, como sempre, uma indistincta +mistura de lagrimas e riso, de paixões vis e nobres, d'infamias e de +grandezas. Nos mosteiros onde o drama começou, se reuniam os extremos +oppostos da sociedade: o monge era a um tempo sacerdote e jogral: a +ignorancia vejetava ahi ao lado da sciencia, a crapula ao lado da +modestia e da virtude, o folguedo e o bom humor ao lado da penitencia, +os grandes crimes ao lado da pura innocencia. Então o monge a quem a +natureza fizera poeta, tendo quasi por unicos estudos a historia +symbolica dos hebreus, as sublimes invenções da sua poesia, e esse +evangelho tão ideal desde a primeira até a ultima pagina, não conhecendo +o drama antigo, fazia, sem o saber, uma transformação na arte dramatica +e começava essa eschola moderna, salva apenas na Hespanha e na +Inglaterra no seculo XVII e restaurada hoje em toda a Europa com mais +brilho, e aperfeiçoada pela philosophia. O caracter d'esta eschola é na +essencia um contraste completo com a antiga: esta tomava o mundo real, +positivo e até trivial e vestia-o de fórmas ideaes: os caracteres, as +paixões, as situações procurava-as na vida quotidiana: nas expressões, +na fraze é que estava a poesia, e é por isso que o poeta antigo carecia +dos coros para ahi principalmente derramar as harmonias da sua alma; é +por isso, que Sophócles, ou Euripides não comprehenderiam o drama em +prosa; é por isso que o theatro dos antigos não separava a musica da +letra, porque a tragedia não era senão uma larga elegia sobre as +amarguras da existencia ordinaria; a comedia não era senão uma satyra, +um escarneo contra os vicios e as ridicularias da vida commum. Pelo +contrario o theatro da edade média buscava no ideal paixões, caracteres, +situações. Onde achamos nós essas martyres tão suaves, tão aereas, tão +amorosas de um objecto sumido nas profundezas do céu? Onde achamos esses +demonios chocarreiros e perversos, cujos motejos e risadas infernaes nos +fazem ao mesmo tempo rir e tremer? Onde esses corações, ao mesmo tempo +tão robustos e tão delicados, dos cavalleiros do romance e do drama da +edade média?--Nos mysterios e nos autos; e os mysterios e os autos são +ascendentes do drama actual: as Angelas, os Myphistopheles, e os +Hernanis não refusam a sua arvore genealogica. + +Esta familia, nobre, porque, como as familias humanas, vai entroncar-se +na edade média, teve um tempo em que caíu na abjecção: foi quando os +paços a rejeitaram; quando appareceu outra, que se chamava mais +illustre; outra que se dizia de mais antiga ascendencia, aparentando-se +com gregos e romanos: mas a critica mostrou que isto era falso, a +philosophia que, ainda sendo verdade, não era tal razão bastante para a +preferencia. Esta é em resumo a historia das vicissitudes da arte. + +Ha ainda duas proposições no prologo da _Casa de Gonsalo_ as quaes a +Commissão intendeu que não devia deixar passar sem fazer sobre ellas +alguns reparos. Consiste a primeira em dizer que os modernos destruiram +o principio do desenvolvimento logico dos caracteres, ou como o auctor e +a sua eschola lhe chamam--a unidade de caracter. De todas as accusações +que se podiam fazer á eschola moderna esta é a mais infundada. Condição +absoluta da arte actual é essa unidade dos caracteres, e neste ponto a +Commissão não recearia d'eslabelecer parallelos entre os melhores dramas +classicos e os dramas de segunda ordem, escriptos debaixo da influencia +dos novos principios, certa de que a vantagem ficaria sempre ou quasi +sempre aos ultimos. Consiste a segunda proposição em affirmar o auctor +que todas as regras acabaram com Hugo e Delavigne: nisto ha uma +falsidade e um êrro de historia litteraria. Falsidade porque não é +preciso ter lido senão os prologos de Victor Hugo ao _Cromwel_, e ao +_Ruy-Blas_ para se ver que ainda o dramaturgo mais exaggeradamente +liberal da eschola moderna estabelece regras, que a Commissão não avalia +aqui, mas que incontestavelmente o são, boas ou más. Accresce que, sem +falar numa grande multidão d'escriptos sobre a arte dramatica publicados +ha vinte annos, basta ler as revistas litterarias francesas, alemãs, e +inglesas, para ver que a critica tem já assentado muitos principios +incontestaveis para julgar as producções do theatro, e que se em outros +ha diversidade de opiniões, não é isso de admirar numa eschola que conta +apenas vinte annos como theoria, e que é obrigada a provar a justiça da +sua causa com razões e ao mesmo tempo com obras, ao passo que os +defensores da antiga, firmados em monumentos e glorias seculares, +desobrigados, e por ventura incapazes de crear obras de arte, não tem +outro trabalho senão defender e amparar seus principios, principios que +apesar d'esses monumentos, d'essas glorias, d'essas defensões, e sobre +tudo de sua antiguidade, não deixam muitas vezes de ser incertos e até +contradictorios. Agora quanto ao êrro de historia litteraria a Commissão +julga escusado dizer mais nada, senão que quem pôe em parallelo +Delavigne e Hugo, como egualmente destructores da arte antiga, mostra +que nem os comparou, nem os leu, e por certo nem um nem outro lhe deve +ficar obrigado. Delavigne, o academico Delavigne, que treme a cada passo +de pertencer ao seu seculo, não se julgaria em decente companhia +vendo-se ao lado de Victor Hugo, e este, que vai por ventura mais longe +do que devera, crer-se-ia sujo de todo o pó dos bacamartões pedantes dos +commentadores d'Aristoteles, achando-se collocado a par do classico +auctor da _Princesa Aurelia_, do bucolico auctor do _Pariá_. + +Entremos no exame da comedia. + +O auctor tomou por objecto nesta composição o converter em uma acção +dramatica um dos antigos proverbios populares, especie de formulas com +que o vulgo exprime muitas vezes idéas complexas. É este o que se +applica a qualquer casa mal governada e arruinada por toda a casta de +desvarios: _É a casa de Gonsalo_:--eis a expressão proverbial; eis o +pensamento que presidiu á composição do drama. Vejamos como o auctor o +tractou. + +Um viuvo e uma viuva são casados em segundas nupcias: ella tem uma +filha. D. Farnacia é o nome da mulher: elle chama-se Gonsalo--pobre +homem que se deixa governar inteiramente por D. Farnacia prezada de +fidalga, caprichosa, e gastadora. Gonsalo instigado por D. Farnacia pôs +na rua seu filho Bernardo, moço tão sisudo e composto, quanto Leonor, +filha de D. Farnacia, é tola, namoradeira e desassisada. + +A familia compõe-se, além dos tres, Gonsalo, D. Farnacia e Leonor, de um +irmão e de uma sobrinha de D. Farnacia, chamados Bonifacio e D. +Dorothea; aquelle é um peralvilho, frequentador de botequins, e que não +pensa senão em acceitar cartas d'amores; esta é uma presumida de sábia, +que em todos os seus discursos mistura palavras e phrazes francesas, e +que só lê novellas, citando a torto e a direito quantos destemperos tem +lido. Um creado e uma creada desobedientes, ladrões, e desavergonhados +completam aquella ninhada domestica. + +Gonsalo tem um amigo, Florencio, a quem deve obrigações, e dinheiro, +homem prudente e sério, que pretende tirá-lo da vida de abjecção em que +vive, aconselhando-o sempre para que tome o logar de verdadeiro dono da +casa, e seguindo-se d'isto o ser cordealmente odiado por D. Farnacia. + +Dois alindados frequentam esta casa, ou antes torre de Babel--Constando +e Carlos: o primeiro é o namorado de Leonor. + +É com estas personagens, que o auctor conduz a comedia a seu fim, e a +Commissão seria demasiado prolixa se quisesse historiá-la por todos os +cinco actos em que elle a dividiu. Bastará dizer que á fôrça de gastos +loucos, Gonsalo se acha finalmente no maior apuro, do qual o livra o +expulso e maltractado Bernardo, obtendo uma provisão para administrar a +casa paterna, ajudado por Florencio, que sendo o principal credor exige +para seu filho a mão de Leonor, e faz casar Bernardo com Dorothea, a +qual tem um avultado dote, a que por isso era requestada por Carlos, +amigo de Constancio, e que juntamente com elle frequentava a casa de D. +Farnacia. + +Á Commissão parece que o drama é em geral bem conduzido, o dialogo +excellentemente travado, a successão das scenas logica e natural, e a +linguagem accommodada ao assumpto, e com poucas excepções, limpa e +corrente. Estes são os meritos que julgou se davam no drama, e pelos +quaes seu auctor é digno de ser louvado. + +Infelizmente partes e circumstancias são estas que não bastam. +Obte-las-ha para as suas composições todo aquelle que escrever +fortalecido de estudo: mas só o genio dá vida ás obras d'arte. As fórmas +exteriores póde-as traçar mão amestrada; vida só a infunde o alento do +poeta, que se assimelha ao sôpro vivificante de Deus. + +Os caracteres, as situações, e os pensamentos das personagens de +qualquer comedia abrangem forçosamente toda a graça comica que nella se +póde dar; e nesta não ha nem um caracter, nem uma situação, nem um +pensamento verdadeiramente comico. D'isto ficarão persuadidos aquelles +que se derem ao trabalho de ler o drama; a Commissão está prompta a +mostrá-lo quando haja quem o conteste. + +Do que fica ponderado se conclue naturalmente que este drama, falho dos +meios de attrahir a attenção dos espectadores, correrá grande risco em +ser posto ás provas públicas, e portanto a Commissão louvando o que ha +bom nelle, isto é, o que propriamente se póde chamar a sua parte +material, deixa ao Conservatorio o resolver o que mais justo e acertado +fôr quanto ao destino que se lhe deve dar. + +Conservatorio Dramatico, 17 de Julho de 1840.--_A. Herculano_, Relator. + + + + +*Elogio historico* + +de + +SEBASTIÃO XAVIER BOTELHO + +Memorias do Conservatorio + +1842 + + + + +*Elogio Historico* + +de + +SEBASTIÃO XAVIER BOTELHO + + +Senhores: + +Honrado com o encargo de revocar hoje a memoria de um nosso illustre +consocio que a morte nos roubou, não posso deixar de sinceramente +lamentar que este Conservatorio quisesse que eu, intendimento humilde, +va bater á porta do sepulchro para através d'elle citar uma nobre +intelligencia, que repousa no seio de Deus, e dizer-lhe--Vem ouvir o +processo da tua gloria, o julgamento sobre o modo porque desempenhaste a +tua missão intellectual na terra. + +Porque, Senhores, ou muito me engano, ou é esse o principal, diria quasi +o unico mister que nos incumbe, aos que fomos escolhidos para falar +neste dia e neste logar dos nossos fallecidos consocios. Em nome das +letras, d'essa revelação formosa e sancta do ingenho humano, nos +ajuntámos neste recinto: por ellas existimos como corporação: ellas nos +fizeram irmãos e eguaes. Pelas letras as differenças voluntarias e +incertas do mundo--as riquezas, o poder, os nomes d'avós, se convertem +em palavras sem sentido. A democracia absoluta, sonho impossivel, +talvez, de realizar na sociedade civil, torna-se entre nós uma condição +d'existencia. Nas associações litterarias a vida é de certo modo +immaterial, e as nossas distincções são unicamente as da superioridade +do ingenho. Mas a ultima instancia onde taes preferencias se julgam é o +tribunal da posteridade. Só a morte abre de par em par as portas d'este, +e é ahi que definitivamente se resolve se o nome do que passou será +lançado na herança dos seculos, na memoria perenne dos homens, ou se tal +nome deve esquecer como esquece o som derradeiro da loisa caindo sobre a +borda do sepulchro, onde foi repousar o que não pôde ou não soube +conquistar a immortalidade. + +É por este caracter democratico, de todas as corporações como a nossa, +porque alheias inteiramente ás condições da sociedade civil, que me +parece não ser nos archivos d'esse pobre mundo das vaidades, a que +chamam realidade, onde hajamos de ir buscar documentos e testemunhos, +que provarão muito para outro genero de renome e gloria, mas que de +nenhum modo vem a ponto para as canonizações litterarias, no momento +solemne em que devemos preparar o processo pelo qual a posteridade tem +de julgar intelligencias ja livres d'este sudario da vida. Antepassados, +haveres, grandeza, cargos, que nos importam? Outra é a nossa missão: +temos de perguntar ao que traçou algumas palavras no livro eterno e +immenso da arte e sciencia humana--Que foi o que fizeste?--Que era o que +podias fazer? Isto é o que nos pertence, o resto á sociedade. + +O nosso fallecido consocio, que passando na terra escreveu nesse livro +uma das suas formosas paginas, foi o sr. Sebastião Xavier Botelho. Para +se poder avaliar o merito d'esta escriptura de que preciso eu?--De +lê-la. + +Difficultosa é similhante leitura; porque as palavras do homem de +ingenho são concisas e profundas: soletram-nas a custo os que não +possuem esse dom de cima; e, sem humildade hypocrita, eu sei que +pertenço a estes. + +A culpa do máu desempenho será, pois, vossa, Senhores, que medistes +erradamente as minhas forças pelos meus e pelos vossos desejos. + +A historia intellectual e intima do sr. Botelho divide-se em dois +grandes periodos: corre o primeiro desde a epoca em que concluiu os seus +estudos de jurisprudencia na Universidade de Coimbra até áquella em que +importantes e laboriosos cargos, que lhe foram confiados, o +constrangeram a dedicar-se inteiramente ao cumprimento de suas +obrigações, e a deixar os ocios litterarios da juventude: o segundo +abrange o tempo que discorreu desde esta epocha até á da sua morte. O +primeiro periodo foi para elle o do tracto e cultura das boas lettras: o +segundo o do estudo dos homens e das coisas, da sciencia, da historia e +do governo. No primeiro, o Sr. Botelho foi poeta: foi o homem do ideal: +no segundo foi historiador, economista, e politico; foi o homem do mundo +real. É nestes dois periodos que eu considerarei as obras da sua +intelligencia, e procurarei responder á pergunta--Que serviços fez o sr. +Botelho ao progresso do espirito humano? + +As primeiras composições poeticas do nosso illustre consocio foram +escriptas nos fins do anterior ou nos comêços do presente seculo: +d'estas nenhuma viu a luz publica: as que se lhes seguiram, pertencendo +pela maior parte á litteratura dramatica, tiveram o seu primeiro modo de +publicação--o da scena: mas o unico penhor de duradoiras recordações e o +unico fiador da perpetuidade da gloria, essa fonte de toda a sciencia e +civilização modernas--a imprensa--faltou-lhes como ainda ha dez annos +faltava commumente ás obras dos nossos bons ingenhos que nasciam e +morriam sem a conhecerem; porque dois anjos máus a guardavam, os quaes +tinham por nome--censura e ignorancia. + +Por esses archivos de theatros jazem sepultados os dramas do sr. +Botelho, dos quaes apenas é imperfeitissimamente conhecida a tragedia +_Ignez de Castro_, e um pouco melhor a _Zulmira_, melodrama de que +restam varias copias. + +_Zulmira_ é, como todos os melodramas, uma composição hybrida, +monstruosa, e falsa á luz dramatica; mas considerada como um hymno aos +nobres affectos do coração humano ella nos revela quanto era poetica e +formosa a alma do Sr. Botelho. Poucos versos haverá da epoca em que foi +escripta, a não serem os do melhor metrificador português--Bocage--nos +quaes se encontre tanta suavidade, melodia e arte e ao mesmo tempo tão +generosas idéas, tão affectuoso sentir, expresso muitas vezes com +admiravel precizão. Não é um drama a _Zulmira_!--E que importa? _Esther_ +é uma elegia; _Athalia_ uma epopea; mas elegia e epopéa sublimes de um +poeta divino! + +Mais bem salvas para a historia das letras foram as numerosas versões +dramaticas do sr. Botelho--amparavam-nas, seus originaes, largamente +conhecidos no mundo. Alem de muitas operas de Metastasio e de quatro +tragedias de Racine, _Berenice_, _Mitridates_, _Phedra e Bajacéto_, elle +transportou para a scena portuguesa quasi todos os mais afamados dramas +de Voltaire, como _Mahomet_, _Zaíra_, _Bruto_, _Marianna_, _Édipo e +Semiramis_, aos quaes accresceram muitos outros de menos celebres +auctores dramaticos. + +Já vedes, Senhores, quantas e quão largas vigilias o mancebo poeta +consagrou ao theatro; as suas poesias volantes sabe-se que foram muitas, +mas do naufragio do tempo apenas salvou a imprensa a epistola a Bocage, +a qual mereceu os extremados louvores que este grande poeta dá para me +servir da linguagem arcadica d'aquelles tempos, ao vate Salicio. Vate +Salicio era o Sr. Botelho, que ainda então os poetas, por obrigação de +seu officio, se desbaptizavam do nome christão, íam em espirito +pastorear á velha Grecia, e voltavam de lá não poetas, mas pastores e +vates. + +Procurei, Senhores, lembrar-vos quão extensos foram os trabalhos +poeticos do Sr. Botelho. Resta-me, todavia, mais difficultosa tarefa, o +recordar-vos qual foi a significação litteraria d'elles--o averiguar +como e quanto o nosso fallecido consocio contribuiu para os progressos +da arte nesta tão poetica terra de Portugal. + +Poeta elmanista, e um dos primeiros e mais distinctos sectarios d'esta +eschola, que rainha da poesia, e dispensadora de gloria regeu sem +partilha de imperio os dominios da arte, é no julgamento d'essa eschola +brilhante que está o seu julgamento. Os juizos individuaes em historia +litteraria são tão falsos como em historia social: o individuo que vai á +frente da sua epoca, não é mais que a idéa predominante d'ella encarnada +no homem. Julguemos a idéa, e teremos julgado o symbolo humano que a +representa. Se aquelle que passou não a comprehendeu, não o chamemos +tambem ao tribunal da posteridade, e deixemo-lo repousar na paz de seu +esquecido sepulchro. + +Mas o pensamento progressivo que agitou uma geração ou um seculo não vem +só: vem com elle os pensamentos dominadores das gerações ou dos seculos +antecedentes que o produziram, e vem os que elle gerou. Sem isso o +processo será incompleto: errada provavelmente a sentença. Expressão de +uma serie contínua e eterna de idéas, grandes porque veem de Deus, o +progredir humano revela o elemento intellectual de cada uma das nossas +transformações successivas em todas as formulas da vida. Esse elemento, +essa idéa prolifica, busquemo-la em todos os aspectos da civilização, +que em todos a havemos de encontrar. Nas instituições, e nos costumes, +na sciencia, e na arte, lá está escripta--escripta pela mão do anjo do +Senhor, que deixa cair sobre a terra uma lagrima de dó, quando a mão +d'algum louco crê que póde apagá-la, ou a voz do insensato se ergue para +a desmentir, e nella desmentir o brado do genero humano. + +É na arte, á qual foi completamente dedicado o primeiro periodo da vida +litteraria do Sr. Sebastião Xavier Botelho, que eu buscarei +principalmente o pensamento ou facto intellectual que caracteriza e +explica a sua epoca e a sua eschola, ligando esse facto com os que o +precederam e com os que d'elle vieram. Oxalá que para animar-me em +tractar um objecto acima de minhas forças me não desampare a vossa +indulgencia! + +Vós sabeis, Senhores, que durante a primeira metade do decimo sexto +seculo uma grande revolução se operou e completou no Meio-Dia da Europa. +As sociedades feudaes e municipaes, estas, no seu crescer, aquellas na +sua declinação, deram o ultimo arranco aos pés da sociedade monarchica. +Toda a vida anterior das nações do occidente desabou após ellas. Entre +nós mudou tudo: socialismo, sciencia, arte, caracter religioso. Ninguem +curou d'isso. A robusta e intelligente monarchia d'esse tempo atirou á +espantosa actividade de nossos avós tres partes do mundo para esmagar: +cevou-a em poderío, e saciou-a de gloria. Compuseram-se então todos os +aspectos da sociedade a exemplo da unidade monarchica: o senhorio feudal +tornou-se dependencia completa: o municipio delegação: os parlamentos +letra morta. A chronica, essa fórma tão viva, tão dramatica, tão +nacional da historia, cedeu o campo aos Thucydedes e Livios modernos: o +platonismo christão e espiritual, fugiu, combatendo como os Parthos, +ante o aristotelismo argumentador e materialista: as artes plasticas +seguiram de longe os destinos de suas irmãs d'Italia, onde as +illuminuras aereas e incorrectas dos missaes e horas, desappareciam +deante do pincel terreno e correcto de Rafael e as cathedraes +mysteriosas e symbolicas se desmoronavam ao altear do templo de S. +Pedro, prostituido á luz por Miguel Angelo: todas as artes se +confessaram vencidas, na sua imperfeição e rudeza sublimes, pelos +monumentos da arte antiga. O proprio christianismo se fez intolerante e +sanguinario, como o polytheismo romano, o perseguidor dos martyres--e a +inquisição restaurou o pretório. Finalmente a poesia nacional, +balbuciante ainda, retrahiu-se ante o fulgor da litteratura latina. As +instituições de Roma, a Roma dos imperadores, annullaram as nossas +instituições primitivas, e a poesia romana mudou o caracter da poesia +moderna. A sociedade reproduzia o pensamento que guiava o seculo. Deixou +de ser christã e nacional, para ser pagã e peregrina. Roma que, viva e +possante, não alcançara subjugar inteiramente este cantinho da Europa, +cadaver já, profanado pelos pés de muitas raças barbaras, conquistou-nos +com o esplendor da sua civilização, que resurgira triumphante. Netos dos +celtas, dos godos, e dos arabes, esquecemo-nos de todas as tradições +d'avós para pedirmos ás cinzas de um imperio, morto e estranho, até o +genio da propria lingua! + +Mas essa civilização violenta, enxertada em arvore de diverso genero, +devia tarde ou cedo ceder o logar a outra mais homogenea com as +tradições e costumes, com as crenças e habitos dos povos modernos. O +mundo antigo fôra condemnado por Deus: a sua condemnação era o +evangelho. O ingenho humano pôde vestir-lhe o trajo dos vivos; mas por +baixo d'este estava-lhe sobre o esqueleto mirrado o sudario dos mortos. +Mais tarde ou mais cedo, repito, elle devia voltar á sua jazida. + +E a reacção não tardou os annos de tres gerações. O seiscentismo foi uma +reacção. + +Ha ahi acaso quem duvide de que elle era uma revolta, senão contra a +essencia da arte romana, de certo contra as fórmas exteriores d'essa +arte? Bem sabeis, Senhores, que não é difficil prová-lo, e que entre a +poesia anterior ao renascimento e a dos seiscentistas ha alguns +caracteres analogos, e muitas tendencias similhantes. Não direi quaes, +porque melhor o conheceis que eu--e porque preciso de approximar-me +rapidamente á epocha em que viveu para honra das letras o Sr. Sebastião +Xavier Botelho. + +Qual foi a origem do seiscentismo? A historia litteraria diz-nos que +foram Marino, Gongora, e não sei quem mais. É uma d'aquellas falsidades +historicas, que nascem do curto pensar. Nunca um ou alguns homens +puderam assim mudar nem a minima das fórmulas sociaes, em cujo numero a +arte de certo não é a ultima. São as gerações arrastadas e agitadas por +idéas que nasceram e se derramaram insensivelmente, que fazem +similhantes transformações. Esses cabeças d'eschola são o verbo da idéa, +são os interpretes do genero humano--e mais nada. + +O seiscentismo foi uma resolução que falhou, uma tentativa de +restauração da nacionalidade em litteratura, que não sendo acompanhada +pela restauração social completa do modo d'existir português anterior ás +influencias romanas, ficou aleijada e rachytica, e substituiu a uma arte +antinacional, mas judiciosa e brilhante, outra falsa e além d'isso +ridicula. + +A celebre Arcadia, e a influencia que esta corporação teve nas letras +foi uma nova reacção litteraria, e o dogmatismo em que se restauraram as +doutrinas romanas, posto que reflexas já d'Italia e de França, foi ainda +mais intolerante e absoluto que na epocha do renascimento. O +seiscentismo acabou ás mãos dos arcades, que restabeleciam o predominio +da arte antiga e revocavam o pensar e o estylo dos poetas do tempo de D. +João III e D. Sebastião, ao passo que o Marquez de Pombal procurava +restaurar a esquecida robustez da monarchia com a austeridade dos seus +principios administrativos, e com a acção vigorosa do seu governo de +ferro. + +A monarchia do Marquez de Pombal era anachronica em politica: a +restauração da arte romana era anachronica em litteratura. Ambas deviam +necessariamente passar--e passar rapidas. Assim aconteceu. Além do +anachronismo havia em ambas ainda outro elemento de dissolução. A +fórmula politica nunca fôra tão absolutamente monarchica: a fórmula +litteraria nunca fôra tão mesquinhamente romana. Nunca o motu-proprio +fôra tão cabal explicação de todas as leis: nunca os nomes e exemplos de +Aristoteles e de Quintiliano, de Horacio e de Virgilio, substituiram tão +completamente o raciocinio na critica. Mas o Marquez de Pombal começava +por discutir com a aristocracia e com a theocracia, e a Arcadia com o +seiscentismo; os homens do futuro tinham portanto tambem o direito de +discutir com elles. É o que tem feito e fará o nosso seculo. + +A Arcadia derrubara a poesia seiscentista: cumprira com sua missão. +Depois dogmatizou e morreu. Foi d'inanição. Esta sociedade, tão activa, +tão belligerante, tão ruidosa nos seus começos--expirou, e nem sequer o +mundo litterario deu tino d'isso. Era que a Arcadia nunca propriamente +vivera, porque nunca representara uma idéa progressiva. + +Foi depois d'ella que floreceu Bocage e a sua eschola, um de cujos +luminares era o Sr. Sebastião Xavier Botelho. Resta-me trazer á vossa +memoria o logar d'esse poeta e d'essa eschola nos annaes da arte. + +Bocage vinha depois de duas restaurações classicas, ou romanas; +assistira ao derradeiro clarão da segunda, e fora educado por ella. Os +seus primeiros poemas são moldados pelos dos arcades, mas já nesses +poemas ha mais inspiração, porque Bocage nascera e não se fizera poeta, +com se haviam feito aquelles, se exceptuarmos Garção. As variedades que +gradualmente appareceram no seu estylo e pensar foram mui pouco +distinctas, salvo na metrificação em que escureceu completamente os +arcades, e na tendencia, visivel nas suas melhores composições, para +substituir a mythologia pagã pela allegoria, o que deveu talvez á +influencia dos poemas descriptivos franceses, a que o materialismo e a +incredulidade do seculo XVIII tinham reduzido a poesia d'aquella nação. + +Mas é, Senhores, sob outro aspecto que importa considerar este homem +extraordinario para avaliar a missão da sua eschola, e saber qual +transformação o apparecimento d'ella veio produzir na arte. + +Na litteratura dos arcades, como nas litteraturas de epocha de D. João +III e da épocha d'Augusto; a poesia tinha sido essencialmente cortesã, +aristocratica, altiva. Os pastores da Arcadia nunca assistiram aos mais +sublimes espectaculos do universo, nunca sentiram no coração essas +paixões violentas que devoram as existencias. Que sabiam elles dos +campos de batalha, das sedições, dos grandes crimes e das grandes +virtudes? Elles ignoravam o que são lagrimas de desterro, o que são +contentamentos de tornar a ter patria. Odios, fanatismos politicos, +ancia de gloria popular, ambições, miserias humanas, não existiam para +elles. Os mares e os seus terrores, as solidões profundas das serranias, +o ruido das torrentes, o sibilar dos ventos por gandras bravias, não +imaginavam o que fosse. As procellas emfim da natureza, e as mais +terriveis ainda do espirito em que parece deleitar-se o poeta d'este +seculo grave e triste, porque o converteram á melancholia e ao cogitar +profundo os seus destinos solemnes--tudo isso era alheio á suave +existencia dos bons arcades. Sacerdotes, magistrados, e servidores do +estado, o seu monte Menalo era uma sala adornada de sedas e razes; a sua +lyra ou rabil uma penna muitas vezes dourada; as suas inspirações uma +vasta erudição. Assim os affectos e imagens dos seus poemas vacillavam +entre a frieza e trivialidade, e a exaggeração e mentira--porque para +elles as paixões e a natureza estavam nos livros. Os livros foram o seu +universo. + +Bocage porém não era arcade. Era um homem do povo que alimentava no +espirito todas as paixões violentas, e muitas vezes freneticas e +desregradas do vulgo; e como o vulgo, ajunctava a feios vicios nobres e +generosas virtudes. Era o trovador que improvisava os seus mais +admiraveis versos no meio das multidões, á luz do sol ou dos astros da +noite, nas orgias das cidades, nas festas campestres--em todos os +logares, a todas as horas. Depois de Camões, Bocage foi o nosso primeiro +poeta popular; como Camões, foi pobre, foi criminoso, e foi malfadado; +adormeceu, como elle, muitas vezes no balouçar das vagas do oceano, e +como elle orvalhou de lagrimas o pão do desterro, e veio morrer na +patria sobre a enxerga da miseria. Similhante ao infermo do Evangelho +passou pela terra abandonado, pobre, nú; mas como os antigos romeiros +trovadores, alegrou ou commoveu os animos das classes não privilegiadas, +ás quaes tres seculos tinham feito esquecer que a poesia era tambem e +principalmente para ellas. + +Bocage é o typo mais perfeito da sua eschola, e de feito devia sê-lo. +Ella popularizou a arte, porque poetou principalmente para o povo, e +emballou ao mesmo tempo com as melodias da linguagem, com o sonoro do +metro, essas almas rudes mais attentas á harmonia da fórma que ao +poetico do pensamento. + +Feita assim a poesia plebea, duas consequencias deviam seguir-se d'esse +passo gigante--a liberdade litteraria e o apparecimento do theatro. A +poesia popular regeita como o povo, quando começa a pensar e deixa de +querer, todas as leis que se fundam em auctoridade ou tradição e não em +conveniencias; e o drama é a fórma mais completa da arte quando esta se +faz burguesa. Não aconteceu todavia assim: a razão d'isso é obvia. + +A revolução litteraria que a geração actual intentou e concluiu, não foi +instincto: foi resultado de largas e profundas cogitações; veio com as +revoluções sociaes, e explica-se pelo mesmo pensamento d'estas. Mas nem +Bocage, nem os poetas que o imitavam ou seguiam suas doctrinas, se +doctrinas havia nessa eschola, curavam d'averiguar theorias estheticas; +porque os tempos da grave discussão ainda não eram vindos. Poetas +inspirados deixavam-se ir ao som das suas inspirações, viviam numa +especie d'excitamento intellectual; o _estro_, em que tantas vezes +falam, era uma realidade, e o improviso a forma commum em que davam +vulto aos seus pensamentos e affectos. Esses ingenhos ardentes +respiravam numa atmosphera d'enthusiasmo, d'ebriedade poetica. +Similhantes á avesinha que solta o seu gorgeio como o aprendeu da +natureza e do gorgeio paterno, elles, no seu poetar espontaneo, +acceitavam sem exame as regras que lhe ensinara a Arcadia. E que podiam +fazer os pobres poetas peões senão curvar a cabeça ao voto dos mui +eruditos e cortesãos pastores do monte Menalo? + +Por isso a eschola bocagiana preparou só metade da revolução artistica: +trouxe a poesia dos corrilhos e salões aristocraticos para a praça +publica; mas não a fez nacional. Esta difficultosa empresa estava em +grande parte guardada para um poeta tão romano em intenções e desejos, +quanto português na indole do seu ingenho. Francisco Manuel foi quem +acabou o que Bocage começara, completando pela nacionalidade o plebeismo +da arte. Feito isto, seguia-se a revolução--e um poeta mancebo, +desterrado como Francisco Manuel, rasgou a bandeira romana e hasteou a +portuguesa. Os poemas--D. Branca e Camões--foram o signal da revolta. As +tradições da Arcadia estavam irremissivelmente condemnadas. + +Foi esse incompleto da eschola elmanista que impediu nascesse no meio +d'ella um theatro original. D'este houvera sido o fundador o Sr. +Sebastião Xavier Botelho, se as suas tendencias, o seu agudo ingenho, e +continua applicação a similhante genero de litteratura fossem ajudados e +acompanhados pelo espirito da épocha, e pelo caracter da eschola a que +pertencia. Debalde com a paciencia e tenacidade de poeta, que são as +maiores d'este mundo, não levantou elle mão de uma empresa que era +impossivel levar a cabo, e em que tinha ficado vencido o incansavel +Manuel de Figueiredo e Garção, o poeta da Arcadia. A nacionalidade não +existia ainda, e nacionalidade e theatro não ha separá-los. O theatro é +para as multidões, e o povo não intende senão quem lhe fala na sua +linguagem e sobre as suas coisas; das suas tradições e crenças, ou das +suas paixões e da sua vida actual. + +Assim, com a logica do genio, o Sr. Botelho vira qual era a consequencia +da revolução litteraria para que elle contribuia; conhecera que feita +popular a poesia, e tirada dos aposentos de senhores e poderosos, ou do +seio das academias para ser lançada no mundo--porque ella é do mundo, +devia tomar a fórma mais adequada aos seus novos destinos; mas não viu, +porque não podia ultrapassar as idéas do seu tempo, que a transição era +incompleta. Foi por isso que se enganou nos meios, e pensou que trazendo +á nossa scena as sublimes poesias liricas, epicas, e elegiacas, chamadas +tragedias de Racine, e as dissertações dialogadas de philosophia +incredula, chamadas tragedias de Voltaire, o theatro resurgiria; mas o +theatro deixou-se ficar morto, porque não era a voz da individualidade +nacional, que o revocava á vida. + +Eis aqui, Senhores, a luz a que eu vejo a eschola litteraria, a que +pertenceu o Sr. Botelho no primeiro periodo da sua vida intellectual, e +como me parece deve ser julgado elle proprio nas obras do seu ingenho. A +essa eschola cabe um honrado logar na historia do progresso humano, ao +Sr. Botelho toca especialmente o ter sentido, ou antes adivinhado, que, +tornada popular a poesia, devia o drama vir a ser a sua mais completa +expressão. Se não logrou seus desejos, segredo foi de cima. Não quis +Deus que essa mente gigante viesse ajudar-nos a evangelizar a nova +religião da arte com a eloquencia da palavra, e com a mais vehemente +ainda, de obras dignas da immortalidade. + +Vistes, Senhores, o nosso fallecido consocio--lidando por honrar as +letras portuguesas, e restaurar o theatro; viste-lo consagrando á poesia +os annos proprios d'ella porque são os do imaginar; ve-lo-heis agora +applicando na edade madura a meditação, a energia do seu vigoroso +talento, e a experiencia alcançada no serviço da patria, a estudos +positivos, ao desenvolvimento das mais graves questões sociaes. O poeta +affectuoso, delicado, harmonioso, converteu esse ingenho de que a +natureza tão prodigamente o dotara, á philosophia politica, e nesta nova +carreira do mundo positivo, quasi posso dizer, escureceu a reputação que +anteriormente adquirira no mundo da idealidade. + +Foi na sua demorada rezidencia na banda oriental das nossas desprezadas +colonias africanas, como governador de Moçambique e dos vastos +territorios adjacentes, que o Sr. Botelho colligiu os apontamentos e +noticias para a sua Memoria estatistica sobre os dominios portugueses na +Africa Oriental. Juiz incompetente, nada direi, Senhores, quanto á +materia do livro: escripto por um homem da capacidade do Sr. Botelho, e +talvez em grande parte naquellas mesmas provincias, facil é de suppôr +qual seja o seu valor intrinseco. Violentamente acommettida a obra em um +dos principaes periodicos litterarios d'Inglaterra, a Revista +d'Edimburgo, tal e tão cerrada de razões e provas foi a resposta do Sr. +Botelho, que não houve mais replicar, não sei se com quebra do orgulho +inglês. Acêrca da doutrina do livro, é esta em meu intender a mais cabal +defensão. + +O que porém, naquelle precioso volume chega a causar uma d'essas invejas +que não deshonram, porque são nobres e honestas, é o estylo e a +linguagem d'elle. Tão sua tinha feito o Sr. Botelho esta formosa lingua +portuguesa, tão elegante e fluente é o seu descrever e narrar, que +difficultosamente lhe levarão vantagem os nossos principaes prosadores. +Ha no livro do Sr. Botelho uma circumstancia que muitos teem notado: +paginas inteiras das relações dos naufragios, principalmente das que +escreveu o celebre Diogo do Couto, se acham ahi reproduzidas +textualmente. Estas paginas, o mais exercitado leitor do Couto não será +capaz de as distinguir entre as do nosso illustre consocio, tão +irmão-gemeo é o seu estylo e linguagem com os d'aquelle admiravel +historiador. Ou esse apparente plagiato fosse uma prova incontestavel, +que o Sr. Botelho nos quisesse dar, de que o seu talento e saber o +egualavam com os nossos melhores classicos, ou fossem reminiscencias +involuntarias (que não precisava elle d'alheios haveres para ser +abastado) é indubitavel que tal circumstancia basta para caracterizar a +alteza a que chegara como prosador aquelle de quem como poeta dissera +Bocage: + +O solemne idioma, o tom dos numes, +A voz que longe vai, que longe sobe, +Que sôa além do mundo, além dos tempos. + +Esta importante Memoria foi coordenada e concluida no periodo que +discorreu desde 1828 até 1833, em que o Sr. Botelho esteve inteiramente +afastado dos negocios publicos. Precedeu pois a sua composição aos +opusculos politicos do nosso fallecido consocio, por isso a mencionei +primeiramente. Estes opusculos são, a Carta a S. M. I. o Duque de +Bragança, impressa em Londres em 1833, e as Reflexões Politicas +publicadas successivamente no seguinte anno. Escriptos com a singeleza e +sincera liberdade de homem que sentia bater dentro do peito um coração +português, esses opusculos são, litteralmente considerados, uma nova +corôa para o Sr. Botelho pela gravidade do estylo e pelo pensar profundo +que nelles transluz. Versam sobre importantes successos da época em que +foram publicados. Nesse tempo de paixões violentissimas, taes escriptos +pareceram talvez revelar em seu auctor demasiado apego ás coisas do +passado, e ainda hoje assim parecerão a muitos. Todavia, confesso-vos, +Senhores, que não vejo eu ahi senão novos motivos de venerar a memoria +do nosso illustre consocio, e de admirar a sua consummada prudencia, e o +seu amor de patria. É um filho extremoso que treme e desmaia vendo +applicar a seu pai velho e infermo, medicina violenta, que póde salvá-lo +ou arremessá-lo ao tumulo. E quem ousaria condemnar receios e hesitações +de um filho, nesse arriscado momento? + +A epoca de 1833 foi a unica epocha revolucionaria porque tem passado +Portugal, neste seculo. Nem antes, nem depois, quadra tal epitheto aos +successos politicos do nosso país; porque só então foi substituida a +vida interina da sociedade por uma nova existencia. As fôrças sociaes +antigas desappareceram para dar logar a novas forças; destruiram-se +classes; crearam-se novos interesses, que substituiram os que se +anniquilaram: os elementos politicos mudaram de situação.--Podia esta +mudança fazer-se lentamente e sem convulsões dolorosas, ou cumpria que a +revolução fosse rapida e energica? Nem saber, nem vontade tenho eu para +o resolver. O Sr. Botelho julgou que o mais conveniente methodo era o +primeiro; disse-o sinceramente, e procurou prová-lo. Eis a substancia do +que nesses opusculos póde parecer menos progressivo a esses cujo +espirito vai após o futuro. Mas, na verdade, nem um só dos grandes +principios de reforma, que então se converteram em factos, foi combatido +pelo Sr. Botelho. A questão que elle tractou era a do tempo, e era a +prudencia quem movia a sua penna. As diligencias para conter o rapido +desabar das velhas instituições e costumes, era dever dos homens, cuja +edade grave e capacidade extraordinaria abonava d'experimentados. +Inquieto e ardente é por natureza o espirito da mocidade neste seculo de +grandes idéas e de grandes transformações. Aos velhos, aos que, melhor +que nós mancebos, conheceram a sociedade que expirou, incumbe +apontar-nos o que ella tinha respeitavel e bom, e o que ha em nossas +opiniões exaggerado ou perigoso, e a nós incumbe escutá-os com respeito. +Esses homens falam-nos com a mão sobre o coração, porque entre elles e o +julgamento de Deus, e da posteridade medeia só a grossura de uma loisa. +Elles nos admoestam encostados á borda da sepultura, e raro será que até +lá a hypocrisia ou a lembrança de mesquinhos proveitos acompanhem os que +viveram sem mancha uma larga vida. Solemnes e venerandas julgo eu as +palavras da velhice, porque a velhice é uma especie de sacerdocio, e +quando o ancião se ergue para soltar um brado de reprovação, se +escutarmos esse brado, elle poderá contribuir mais para o verdadeiro +progresso do que se os ultimos homens da sociedade extincta saudassem +covardemente a victoria das novas idéas; se caminhando para a morte, +imitassem os gladiadores de Roma, nos circenses do triumpho, que nesse +momento supremo saudavam os Cezares vencedores com aquellas horriveis +palavras: «Salve, Cezar! Os que vão morrer te saúdam!» Arriscar-se-ía +com isso a ser despenho o nosso progresso, e ao despenho segue-se ou o +perecer no abysmo, ou um doloroso retrogradar. + +Considerados a esta luz, os opusculos politicos do Sr. Botelho não são +mais que o complemento de dilatados trabalhos encaminhados +constantemente ao aperfeiçoamento intellectual dos seus compatricios. +Poeta na mocidade, bem mereceu da arte: historiador e estadista na edade +grave, mais bem mereceu da patria por escriptos proprios d'essa épocha +da vida. Nós que o tractámos, que o vimos no meio de nós, que com +saudade nos lembramos do seu mérito, fazemos-lhe inteira justiça. +Far-lha-ha tambem a posteridade--e mais completa; porque se como homem +da arte e da sciencia tão honrado nome deixou entre nós, que será para o +mundo, que além d'essas razões de lhe venerar as cinzas, tem a rica +herança dos exemplos de virtudes domesticas, d'amor de patria, de +serviços ao estado, emfim de um nobre proceder--como homem, como pai de +familia, e como cidadão? Os vindouros, que não nós, porão o cimo e +remate ao formoso monumento da sua glória.--_Disse_. + + + + +*D. Maria Telles* + +DRAMA. EM CINCO ACTOS + +PARECER + +Memorias do conservatorio + +1842 + + + + +*D. Maria Telles* + +DRAMA EM CINCO ACTOS + +PARECER + + +A Secção de Litteratura encarregada por vós de dar um parecer que sirva +de texto á discussão dos meritos ou demeritos do drama--_D. Maria +Telles_--que concorreu aos premios, offerecidos por este Conservatorio +para animar os nossos auctores dramaticos; vem apresentar-vos por minha +intervenção as reflexões que lhe occorrem sobre a materia, e que +rectificadas e ampliadas pelas dos outros membros d'esta Academia, devem +produzir a final um juizo prudente e acertado que sirva não só para em +especial determinar o valor litterario d'esta composição, mas para +illustrar os noveis que commettem tão difficil genero de litteratura. + +_D. Maria Telles_--é um drama historico--historico ao menos na intenção, +de seu auctor.--A acção e a época escolhida pelo poeta, é bem conhecida. +A historia da formosa irmã da nossa Lucrecia Borgia--de D. Leonor +Telles--é uma d'aquellas biographias que encerram um só facto; mas que +por esse facto são perpetuamente celebres. Não ha ninguem que ignore com +que arte infernal a adultera D. Leonor sabia obter sempre a satisfação +das suas paixões: entre estas houve uma que era pura, o unico pensamento +sancto e suave que mora no coração d'essas hyenas com gesto humano +chamadas Telles ou Borgias, as quaes felizmente raro apparecem no mundo. +Este affecto era o amor materno. Devia ser vivo e profundo, se o +avaliarmos pelos crimes que D. Leonor commetteu para segurar na cabeça +de sua filha D. Beatriz a coroa de D. Fernando, que se cria seu pai e +que talvez o seria. O Infante D. João era um obstaculo que podia +oppor-se aos intentos d'aquella mulher diabolica. Como livrar se +d'elle?--Convertendo-o em um grande criminoso. Foi então que para o +perder lhe soprou na alma as duas paixões mais ferozes do coração +humano--a ambição e o ciume--e D. Maria Telles foi assassinada pelo +marido porque D. Leonor precisava do seu cadaver para calçar a estrada +por onde D. Beatriz devia subir ao throno. É este assassinio o desfeixo +a que nos conduz o drama: os acontecimentos que o prepararam são a tela +onde se desprega o lavor da imaginação do poeta. + +Os caracteres introduzidos neste drama são o de D. Maria Telles; o do +Infante D. João: o de D. Lopo Dias de Sousa, filho de D. Maria e de seu +primeiro marido: o de Garcia Affonso, Commendador d'Elvas; o de João +Lourenço da Cunha, marido de D. Leonor Telles; o de D. Fernando I; o de +D. Leonor; o de Vasco, pagem de D. Leonor, e o de Fr. Soeiro, Director +espiritual, segundo parece, de D. Maria Telles. Um carcereiro, Damas, +Cavalleiros, povo, constituem isso a que se chama cheios, comparsas, ou +personagens mudos. + +Não se póde na verdade negar ao auctor d'esta composição uma grande +ousadia litteraria em ajuntar no seu quadro tantos vultos difficultosos +de desenhar, e que por ventura seriam rebeldes aos pinceis de grandes +mestres. Vejamos como elle resolveu o seu problema dramatico +relativamente aos caracteres principaes. + +D. Maria Telles era uma formosa viuva, de quem o Infante D. João se +enamorou. Os affectos do Principe só acharam correspondencia quando +prometteu casar com ella, e o casamento effectuou-se, porque a paixão do +Infante era ardente, mas d'esse ardor um tanto brutal proprio de uma +Côrte dissoluta como a de D. Fernando, e d'uma épocha em que o amor +demasiadamente metaphysico nos escriptos dos trovadores, era assás +grosseiro na realidade dos costumes. As probabilidades todas são que +similhante consorcio foi do lado de D. Maria Telles um calculo +d'ambição, e do lado do Infante um meio de satisfazer seus desejos. Isto +é o que resulta da historia. Mas o auctor podia substituir este +argumento historico pelo de um amor talvez mais lyrico, mas por ventura +não mais dramatico. O que não devia era dar a esse amor a fórma e +expressão que lhe deu. Expliquemo-nos. + +D. Maria Telles não era uma donzella na primavera da vida: era uma dona +entrada já naquella edade a que se póde chamar o outono da formosura. O +auctor nesta parte acceitou o argumento da historia, introduzindo no seu +drama o Mestre de Christo, mancebo de dezoito ou vinte annos, filho de +D. Maria Telles. Forçosamente esta passara por isso o viço da mocidade. +O seu amor portanto devia ser intenso, mas grave: revelar-se +profundamente nos factos e muitissimo pouco em discursos. Devia ser um +amor que não tarda a transformar-se em amizade; que, por assim dizer, +começa a ter pudor do si mesmo, porque as illusões da juventude teem +quasi todas passado. Difficil é na verdade o pintar esse affecto severo +e intimo; mas se já deixou de ser um merito vencer difficuldades +inuteis, ainda é restricta obrigação do poeta o conhecer as phases do +coração humano, e não as desmentir jámais porque a natureza é immutavel. +O auctor sentiu ao que parece confusamente a verdade d'esta observação; +quis dar gravidade ao caracter de D. Maria Telles: não lhe deu senão +tristeza. Tristeza tanto quando se vai desposar com o Infante como +depois que elle começa a afastar-se d'ella, e a dar-lhe não equivocos +signaes de desamor. Porque está ella triste até á morte, segundo a +expressão de Job, quando se approxima aos altares? É por certos +presagios; é por sonhos; é por certo dizer do coração; é por vergonha +que tem de seu filho. Afora a ultima, nenhuma d'estas razões é +verdadeira, dramaticamente, e a tristeza fica inexplicavel, porque o +pudor não é melancolia. Sereno devia ser o seu contentamento; mas devia +ser contentamento. Não era nessa afflicção e lucto infundados que podia +revellar-se a gravidade do caracter de D. Maria Telles, quando por outra +parte todas as palavras d'esta mulher affectuosa, como o auctor a quis +pintar, só condizem com o amor dos vinte annos que se dilata impetuoso +até aos extremos horizontes da vida. Senão nos enganamos o caracter de +D. Maria Telles está falsificado em relação á historia, e o que mais é +em relação á natureza. + +O caracter do Infante apenas se póde dizer que existe: no primeiro +apparece para dizer a D. Maria Telles que muito a ama. Das suas palavras +não resulta individualidade; repete o que em similhante materia se diz +desde o principio do mundo. No terceiro acto onde torna a apparecer, é +ameaçado e affrontado por João Lourenço da Cunha, e fica impassivel, +salvo quando este, provavelmente aborrecido de tanta tranquillidade, +volta as injurias e feros contra D. Leonor que está tambem presente. É +então que o Infante arranca da espada; mas el-rei acode: um dialogo se +trava entre este e João Lourenço. E o Infante? Não sabemos mais d'elle, +senão no V acto em que já quasi persuadido de que sua mulher é infiel, +encontra as provas suppostas d'essa infidelidade. Desde este momento não +é mais possivel o desenhar D. João; porque a furiosa cholera que o +domina o torna necessariamente similhante a qualquer outro homem em +situação analoga. A honra offendida pede sangue; é um pensamento +doloroso moralmente necessario á situação que depois d'isso actua no +drama, não a individualidade d'um homem. Onde está portanto o caracter +do infante? + +E todavia esse caracter lá tinha os seus principaes lineamentos traçados +nos capitulos 98.^o e 99.^o da chronica de D. Fernando pelo grande +poeta-chronista Fernão Lopes. O genio aventuroso, folgazão e ousado, do +filho de D. Ignez de Castro, estudados nesses traços do grande mestre, +dariam facilmente a individualidade do personagem ao auctor de--_D. +Maria Telles_--e por certo que essa individualidade variando a monotonia +dos caracteres produziria maior contraste, e por consequencia maior +effeito no terrivel desfeixo do drama. + +A monotonia dos caracteres dissemos nós. A monotonia na invenção é na +verdade o principal defeito d'esta composição. Ha ahi quatro ou cinco +vingativos, quatro ou cinco vinganças empastadas por toda ella. Vinga-se +o Infante de sua mulher, de quem tambem se vinga o Commendador d'Elvas, +cujo amor ella desprezara. João Lourenço quer vingar-se de D. Leonor: D. +Leonor de quasi toda a gente. D'esta identidade de situações moraes +forçosamente devia resultar esse capital defeito. + +Os dois caracteres que nos parecem individuados são o de D. Leonor e o +do D. Lopo Dias. D. Leonor é a mulher successivamente hypocrita e +insolente: vil e orgulhosa; pobre de crenças moraes, rica de paixões +violentas. É a D. Leonor da historia, salvo em uma ou outra scena; é o +vulto principal do drama. D. Lopo é mancebo, poeta e triste como sua +mãi, mas sobram-lhe para isso razões. O mesquinho está phtysico, pelo +que se collige das suas palavras. Molestia é esta que tem levado muito +poeta imberbe á sepultura. Feliz ainda no meio de seus males, a +afflicção pulmonar que o consome é chronica e por isso lenta, por tal +arte que esperando elle morrer já no primeiro acto, ainda no quinto, +(cujos successos são posteriores mais d'um anno, aos do primeiro) D. +Lopo vive, e ao caír o panno fica de saude, não perfeita; mas da saude +que é compativel com a existencia de tuberculos pulmonares. Apesar de +que a phtysica não pareça coisa excessivamente dramatica e possa ter +algum perigo de ridiculo no theatro, é certo que essa vida cuja +distancia da morte a victima póde quasi exactamente medir: esse caminhar +para o sepulchro por uma estrada onde não ha de retroceder, e na qual +não passa hora ou momento em que a campa senão contemple erguida e +immovel no horizonte: esse oratorio peior que o do sentenciado, porque +dura meses emquanto este dura apenas tres dias; tudo isso é tremendo e +solemne, e o verdadeiro poeta poderá achar nas phases da longa e cruel +agonia do phtysico situações dolorosas e terribilissimas. Alexandre +Dumas as achou num dos seus melhores dramas. Seguiu-o de longe o nosso +auctor, mas nem por isso deixa este caracter de ser um dos mais bem +sustentados em--_D. Maria Telles_.--Os affectos de Lopo Dias são +generosos e puros: teem certa brandura de resignação, certa saudade de +quem pela esperança vive já num mundo melhor, mas que ainda pela +affeição filial está preso ás tristezas da terra. Este personagem é na +verdade possivel e poetico, absolutamente falando. O seu unico defeito é +o commum a todos; é não representar a épocha a que o poeta que o creou +quis que elle pertencesse. + +Os outros caracteres do drama ou são nullos, ou reflexos mais ou menos +pallidos dos que ficam avaliados. Os sentimentos de vingança que +subjugam D. João Lourenço da Cunha e o Commendador d'Elvas, tornam +confusos os traços de um com os do outro, apesar das diligencias que o +auctor fez para lhes variar as situações; confusão esta que se augmenta +com a analogia que ha entre ambos e os de D. Leonor e do Infante. Fr. +Soeiro é perfeitamente nullo; e Vasco, seide de D. Leonor, é um caracter +que não pode fixar-se por demasiadamente transitorio, posto que +fortemente concebido. Se tivesse passado de um esboço seria talvez o +mais dramatico de todos elles. Isabel emfim é a eterna confidente do +theatro classico, cuja utilidade dramatica foi, é e será sempre passiva; +substituição impertinente do monologo; especie de titere que se deixa +mover á mercê do auctor, e que por mais que fale, se esforça ou chore, +por via de regra, serve tanto para o andamento da acção como as polés em +que se movem os bastidores. + +Notámos acima que os personagens d'este drama não representam a época a +que historicamente pertencem: é este depois do uniforme, e confuso dos +caracteres o maximo defeito d'elle. Nesta parte accrescentaremos algumas +considerações que não parecerão inteiramente inuteis para os cultores +principiantes d'este genero de litteratura. A epocha dos reinados de D. +Fernando e D. João I é incontestavelmente a mais dramatica da historia +portuguesa. São-no os factos politicos e a vida civil d'esse tempo: as +pessoas e as coisas. A nobreza era chegada ao apogeu da sua grandeza, +porque as instituições feudaes que se haviam misturado com a nossa +primitiva indole social, tinham tocado então a méta do seu predominio: +quando já a sua dilatada agonia começava no resto da Europa: o povo dava +signaes exteriores de que existia, e existia robusto; a monarchia +exgotava a sua generosidade e os testemunhos do seu temor para com a +aristocracia na vespera de dar principio ao duello de morte para que ia +reptá-la, e que devia durar cem annos. Nestes dois reinados operou-se +uma transformação nacional: o fim do seculo XIV foi um periodo +revolucionario: revolucionario não tanto para as pessoas como para as +coisas; os elementos da vida social foram então chamados a uma grande +lucta, e, como acontece sempre em similhantes situações, tanto os que +deviam ser vencidos como os que haviam de ficar vencedores combateram +energicamente. Os grandes vultos historicos d'esse tempo--os personagens +extraordinarios, diriamos quasi homericos, que então surgiram--os +caracteres profundamente distinctos, e altamente poeticos, quer pela +negrura, quer pela formusura moral:--todos nasceram da situação social +do país: foram o resultado e o resumo d'esta, e por ella sómente se +podem comprehender, avaliar e explicar. Se porém essas imagens tão +aproveitaveis para a arte, forem arrancadas do quadro em cujo chão e luz +appropriados a ellas, unicamente se devem contemplar, ficarão +convertidas em desenhos de morte-côr, e o que mais é, perderão os seus +lineamentos caracteristicos; serão abstracções; serão quando muito +objectos d'estudo para a physiologia das paixões: serão representantes +do genero humano em geral, mas nunca de uma geração, de uma época, e +d'um país: darão materia para o drama metaphysico, para o drama como o +conceberam Goethe em _Ferv_ e _Betly_ ou na _Filha Natural_, e Byron no +_Manfredo_; porém não para o drama historico, para o drama que se +incarna na realidade, para o drama que não é um poema lyrico como a +_Athalia_ ou uma amplificação brilhante como _Mahomet_, mas uma obra +d'arte que toma por expressão a vida humana, e que é destinada para a +scena. + +O titulo do drama historico dado ás composições mais notaveis neste +genero, que no seculo passado e no presente tem apparecido na Europa, +como _Goetz_, _Wallensteim_, _Hernani_, e tantos outros, não foi uma +phantasia ou capricho dos eminentes poetas que as produziram ou dos +criticos que as julgaram. Este titulo corresponde a uma realidade: +representa uma theoria litteraria verdadeira e nova substituida a outra +velha e falsa. O theatro antigo por via de regra era uma abstracção: os +seus personagens são vultos por assim dizer desenhados na atmosphera, e +que se movem nos raios do sol; não pisam a terra; não choram nem folgam +humanamente; não descendem como nós de Adão; não estão sugeitos senão a +certas condições da vida real. O dramaturgo antigo creava o caracter de +um tyranno, chamava-lhe Nero; de um voluptuario, chamava-lhe +Sardanapalo; de uma incestuosa chamava-lhe Phedra; de um hypocrita +feroz, chamava-lhe Mahomet. Podia chamar-lhes outra qualquer coisa; +buscar na historia ou fóra d'ella outros quaesquer nomes. _Constei +sibi_: eis o que exigia d'esses caracteres a philosophia da arte. +Satisfeita esta condição bem pouco importava se o personagem era romano, +syro, grego, ou arabe. _Constet sibi_.--Pouco importava se as suas +dimensões eram humanas. _Constet sibi_. Pouco importava quaes haviam +sido as crenças, as condições da vida civil, os varios aspectos emfim da +sociedade e da época em que o individuo que se arrastava para o theatro +tinha vivido, e que forçosamente deviam modificar-lhe de certo ou certo +modo as paixões ou os affectos, o pensar intimo ou o porte exterior. +_Constet sibi_: era o que lhe pedia a arte antiga. E na verdade não era +pedir muito. A arte moderna que os ingenuos e innocentes defensores do +passado accusam de licenciosa põe apenas mil vezes mais duras condições +aos seus sacerdotes; porque alem da constancia dos caracteres +dramaticos, exige nestes circumstancias, que só o muito estudo e um +ingenho profundamente synthetico póde fazer que se liguem ás obras +filhas da imaginação do poeta. + +Se tão leves de soffrer foram outr'ora as condições dramaticas quanto +aos caracteres, escusado parece dizer que foram nullas quanto á +phisiologia intima do drama. Malbaratou-se toda a esthetica dos antigos +nas fórmas materiaes e externas d'elle, na anatomia dos ossos e +cartilagens. Os escriptores _licenciosos_ do seculo presente sentiram +não tanto que esta anatomia era erronea, apesar de o ser muito, quanto +sentiram que era incompletissima. Posto o principio incontestavel de que +o drama não é mais do que a arte vasada no molde da vida social, tiraram +o corollario forçoso de que era preciso primeiro que tudo estudar esta, +e exclusivamente esta. A arte não se estuda; porque a arte é o ideal, e +o ideal vem de Deus; é uma inspiração: o que se estuda são as formulas +materiaes em que ella se revela, os typos em que se resume; para que +estes possam ser claros e definidos como meios de communicação entre o +poeta e o mundo. No drama a historia é a expressão da arte, é a voz +articulada do homem inspirado. Elle deve por isso saber perfundamente a +historia da épocha e do povo que vai alevantar do sepulchro, para servir +d'interprete entre elle e as gerações que hão de escutar as suas +revelações de poeta. + +Se os antigos pudessem ter adivinhado e seguido esta _licenciosa_ +theoria, os seus estudos não houveram sido apesar d'isso nem largos nem +custosos. A historia era falsa como a arte. Reduzia-se a biographias +soltas e incompletas; era tambem um aggregado d'abstracções; resumia-se +nos factos politicos. A vida social passava desconhecida: o povo +desapparecia nas sombras gigantes que derramavam em volta de si os +homens eminentes. Ao passo, porém, que a arte se reconstruia, +reconstruia-se a historia. Ao lado de Goethe e Schiller apparecia Herder +e Muleer; ao lado d'Hugo, Guizot e Thierry. Ambas as refórmas se viram e +vêem obrigadas a refutar o passado com as razões e com o exemplo. Mas o +poeta é constrangido a encerrar-se na época e no país cuja historia se +acha escripta por um systema racional, ou a ser ao mesmo tempo +historiador e poeta, tarefa difficil debaixo da qual poucos hombros +deixarão de vergar; mas que é indispensavel leve a cabo aquelle que +quiser incarnar a sua obra dramatica na historia do passado, sob pena de +cair no convencional e incompleto do antigo theatro, porque não basta +sacudir o jugo dos preceitos pueris das poeticas para escrever o drama +historico: importa redigir-lhe a formula, e esta não está em achar +quatro datas, e seis nomes illustres, mas na resurreição completa da +epoca escolhida para nella se delinear a concepção dramatica. Primeiro +que tudo, importa que essa epoca se alevante, como Lazaro á voz ele +Jesus, cheia de vigor e de vida. + +É de lamentar que os nossos mancebos, esperanças da litteratura patria, +prefiram ordinariamente as epocas historicas que passaram para nellas +traduzirem ao mundo os fructos do seu ingenho dramatico, tendo aliás +para isso a vida presente que tambem é sociedade e historia. Não seria +melhor que estudassem o mundo que os rodeia, e que vestissem os filhos +da sua imaginação com os trages da actualidade? Não lhes era mais facil, +mais agradavel até, este estudo feito no meio dos banquetes, dos bailes, +das conversações, do ruido, do presente, no qual os leva +irresistivelmente a lançarem-se a superabundancia de vida, o fogo da +mocidade? Muito se enganam elles, crendo que acham a historia em alguns +pobres livros historicos que por ahi existem. Não: a historia não está +lá! Não, vós não achastes a formula material para a vossa idealidade; o +vosso drama é a visão infernal mas ridicula de Perrault; é a sombra do +cocheiro que alimpava a sombra de uma carruagem com a sombra de uma +escova. Na vossa obra não ha drama porque na sua forma externa não ha +realidade, e a expressão é o real. Para achar este cumpre ter o estamago +e os braços robustos, os orgãos do olfacto endurecidos, a paciencia de +ferro, porque é preciso revolver a grande lagem que cobre o cadaver do +passado; é preciso aspirar o pó do sepulchro, deslizar prega por prega o +sudario apodrecido das gerações extinctas: é preciso contemplar as +formosuras das sociedades que se transformaram ou pereceram mas tambem +apalpares cancros que as devoraram: é preciso contemplar seus monumentos +sublimes de marmore; mas tambem ler lentamente os quasi apagados e +barbaros caracteres dos seus pergaminhos, e as obscuras, tediosas e +incertas sentenças da sua legislação; é preciso viver com os grandes +d'outr'ora em seus paços esplendidos, mas assistir tambem ás miserias e +agonias dos peões, cuja desventura faria hoje recuar de horror o maior +malaventurado. Tudo isto é necessario, sem contar o grande e fatal risco +de perderdes neste rude trabalho o que vale mais do que elle--a +imaginação e a poesia. Deixai que outros a quem alguma vocação fatal +leva para este genero de estudo, o mais tedioso talvez de todos, vos +reconstruam os tempos que se dissolveram em pedaços. Então podereis +livremente escolher a urdidura da vossa têa, e bordá-la com os ricos +matizes das vossas inspirações. + +Que resulta de se escolherem para objectos de composições dramaticas +successos e individuos pertencentes a uma geração e a uma sociedade cuja +indole e modo de existir se ignora? Resulta cair-se no vicio do theatro +antigo; fazer abstracções, e desmentir a verdadeira arte. É o que +succede em--_D. Maria Telles_.--Ponham-se ahi em vez d'esses nomes tão +conhecidos do fim do decimo quarto seculo, signaes algebricos: cortem-se +todas as allusões aos acontecimentos politicos ou pessoas notaveis +d'então, e o drama pertencerá á epoca e ao país que nos approuver. E +porque? Porque falta ahi a individualidade portuguesa d'então: faltam o +crer, os costumes, as relações sociaes d'essas eras. E sendo isto assim +poder-se-ha dar a--_D. Maria Telles_--o titulo de um drama historico, +que evidentemente quis seu auctor se lhe désse? + +Julgámos ser nossa obrigação dilatar-mo-nos nestas considerações sobre +duas partes importantissimas de qualquer drama--os caracteres, e a côr e +verdade historica e local, porque é preciso confessar que depois da +restauração do nosso theatro, é sobre estes dois pontos que a critica +litteraria attenta em demasia a averiguações, sobre a correcção de +lingua, tem sido assás negligente e escaça. Resta agora examinarmos com +a brevidade possivel a disposição ou enredo do drama, a propriedade do +seu estylo, e a pureza da sua linguagem. A traça do drama é a seguinte. + +Primeiro acto.--O Infante D. João está a ponto de desposar-se com D. +Maria Telles. Esta o espera no castello de Barcellos, onde a ceremonia +do casamento deve celebrar-se a occultas, e alta noite, a despeito dos +sagrados canones. A boa dona possuida de uma tristeza inexplicavel está +acompanhada da sua confidente e ora na capella, onde se vê o tumulo do +seu primeiro marido. Por Isabel manda chamar Fr. Soeiro para que venha +animá-la e consolá-la, e fica sozinha. Chega seu filho D. Lopo Dias, D. +Maria Telles lhe escondera o negocio do casamento, mas elle o aventara +não sabemos como, nem o auctor o diz. Queixas do filho porque fica +desamparado; razão tinha, attento o seu estado de phtysico. Promessas da +mãi, de que toda a familia ficará junta, por que elle Lopo Dias e o +Infante são os seus unicos amigos. _Ainda tendes outro_, lhe brada um +cavalleiro de armadura negra e viseira callada que apparece á porta da +capella. Dizendo e fazendo, ei-lo que entra. D. Lopo pergunta-lhe quem +é: resposta; _sou um defensor de vossa mãi_. D. Lopo diz que lhe fica +muito obrigado mas que ella não precisa de defensores. Insiste o +desconhecido porque D. Leonor ha de persegui-la. Isso é a mim que +toca:--acode D. Lopo. Com bom fundamento o affirmava, e por isso o +cavalleiro não acertando a replicar-lhe vai-se ao tropheu d'armas que +está sobre o tumulo de Alvaro Dias, pega na espada do defuncto e +entrega-a ao mancebo recommendando-lhe que se mostre digno d'ella. A tão +bom conselho não havia fazer reparos. D. Lopo promette dar-lhe o devido +uso. Então o cavalleiro sai, não sem offerecer a D. Lopo o seu braço e +espada para qualquer lanço apertado; já se sabe sem dizer quem é ou onde +mora. Ido o cavalleiro, D. Maria pergunta ao filho quem seria aquelle +homem, era melhor ter-lho perguntado a elle. Se o conhecesse como as +suas mãos D. Lopo não responderia mais confiado: _É um homem que vos +ama, e que vigia sobre vós_. Não diz isto porque o conheça: mas porque o +sabe ab alto, a proposito do que vem uma dissertação sobre o dom +d'adivinhar que teem os phtysicos. Saindo Lopo, volta Isabel com Fr. +Soeiro: scena inutil.--Chega então o Infante, acompanhado do Commendador +d'Elvas; colloquios amorosos. O Commendador Garcia Affonso nas visagens +que faz, nos á partes que murmura mostra a raiva que lhe accende na alma +o affecto dos dois conjuges, que finalizam o acto ajoelhando junto ao +altar provavelmente para receberem a benção matrimonial de Fr. Soeiro. + +Este acto, afora a inutilidade da scena VI, involve grave falta de +probabilidade. Como pôde um cavalleiro desconhecido entrar de viseira +callada e depois da meia noite na capella de um castello do seculo XIV? +Como rodou a ponte levadiça para lhe dar passagem? Que fazia o madraço +do alcaide; que faziam os vigias das quadrellas, roldas e sobre roldas, +que assim deixavam devassar a boa fortaleza d'el-rei de Portugal? Como +entrou esse homem? Eis o que o auctor não diz, nem lhe fôra facil +dizê-lo. Depois, é acaso natural que D. Maria Telles nem sequer deseje +conhecer quem elle é? Homem que fosse, não descansaria sem o saber, +quanto mais sendo mulher! D. Lopo indaga na verdade quem elle seja; mas +contenta-se com uma resposta evasiva, e consente que o incognito lhe vá +buscar a espada de seu pai, e lh'a entregue com a comminação de que ha +de fazer bom uso d'ella. O melhor uso que D. Lopo naquelle momento podia +fazer d'esse ferro era pôr-lho aos peitos para o obrigar a erguer a +viseira. Sua mãi vai celebrar um casamento occulto, e é quasi na hora +prefixa para a ceremonia que elle tolera venha um desconhecido devassar +a capella, sem o obrigar a descobrir-se? A theoria de que os phtysicos +adivinham será muito boa e verdadeira; mas a palhologia ainda não chegou +a atinar com essa circumstancia nas affecções pulmonares, e os +espectadores não poderão admittir a razão com que o auctor por bocca de +D. Lopo pretende desculpar a inverosimilhança de tal procedimento, isto +é, que elle já tem o que quer que seja d'alma do outro mundo, e que por +isso sabe que o desconhecido é pessoa de confiança. O antigo theatro só +consentia milagres em casos apertadissimos. _Nec Deus interrit nisi +dignos vindice nodus_. A licenciosa eschola moderna em nenhum admitte +taes meios, quer seja para conduzir o drama, quer para desfeixo d'elle. +Natureza e verdade são os seus unicos elementos. + +Segundo acto.--Tem passado um anno. D. Maria Telles está em Coimbra com +seu filho, e o Infante que já começa a esquecer-se de sua mulher anda na +côrte. D. Lopo faz versos e carpe-se: D. Maria carpe-se e ouve-lh'os +declamar. Mas como lagrimas e versos continuados são duas grandes +canseiras, a pobre dama abandonada convida seu filho para irem +espairecer suas maguas pelas margens do Mondego. A isto acode D. Lopo, +que é melhor irem ao monte visitar a caverna do solitario.--Qual +solitario? Logo o sabereis. D. Maria Telles faz suas objecções: a +caverna do referido solitario ou _homem dos mysterios_ tem má nomeada: +ninguem se atreve a chegar perto d'ella: a isto acode o poeta, com dizer +que todos esses medos são sandices do vulgo, e que lá por certos +barruntos que elle tem, adivinha que o solitario é pessoa de porte e de +bondade. Desassombrada de seus temores D. Maria está a ponto de sair eis +senão quando chega o Commendador d'Elvas com uma carta do Infante. Roto +o fecho da carta com o punhal de Garcia Affonso, D. Maria lê o contheudo +d'ella em voz baixa. A boa da carta era fria, fria como gêlo: nem uma +palavra affectuosa! Apenas lhe diz sua mercê o Infante que não pode ir a +Coimbra, demorado na côrte por negocios d'alta monta. Desesperação de D. +Maria que sente por isto que vai morrer. Porque? Porque D. João, marido +já de um anno, e preoccupado por graves negocios, não lhe escreve uma +carta de amores, e não lhe declara que negocios são esses que lhe +embargam os passos. Vêr a morte diante dos olhos; ficar desesperada por +tal motivo seria loucura d'uma rapariga de vinte annos, mas em uma dona +de trinta e seis é uma inverosimilhança inadmissivel. Se todas as +mulheres casadas de mais de um anno morressem por não serem as cartas de +seus maridos ausentes adubadas de amores e requebros: a proporção das +viuvas com o resto da população seria mais descommunal e espantosa do +que em Inglaterra a dos que morrem de fome com os que teem que comer. +Quanto ao segredo que o Infante guarda sobre os negocios que o reteem, +razão tinha D. Maria Telles, porque mencioná-los sem os particularizar, +era fazer nascer desejos vãos á insaciavel curiosidade feminina, e +todavia não podiam ser materias d'estado esses negocios?--não podiam ser +coisas que nada importassem a D. Maria? Para um desmaio ainda a carta +teria substancia se a dama fosse uma rapariguinha; mas para agonias +mortaes em uma dona sisuda, como lhe chama Fernão Lopes, não havia ahi +motivo. Por uns longes que se enxergam em dois á partes do Commendador +vê-se que foi elle quem armou esta negregada invenção da carta, e que +folga com o effeito d'ella. Se o auctor do drama tivesse concedido a D. +Maria Telles mais uma mealha de senso commum, Garcia Affonso não teria +mostrado ser na tal invenção da carta, senão um solemnissimo mentecapto, +se a sua intenção era, como elle diz num monologo, vingar-se d'ella e do +Infante. + +Lida a carta, D. Maria chama o filho para irem visitar o solitario, +porque só nelle poderá achar consolações. Pois que tem o solitario (de +quem ella ha um instante tremia de medo) com o desamor de D. João? O +poeta, que fôra o movedor d'esta ida está prestes, e lá vão ambos por +montes e valles em cata do mysterioso anachoreta. + +Não tardam muito a encontrá-lo. É apenas o tempo necessario para a +mutação da scena, cair e levantar-se o panno; não para mudança de acto, +mas de quadro. O solitario está na caverna falando a sós comsigo. De seu +dizer consta que havendo amado D. Maria Telles, e não podendo obtê-la +por ser já casada com Alvaro Dias de Sousa, casara com sua irmã D. +Leonor, que o deixou para subir ao throno. É, portanto, o eremita--João +Lourenço da Cunha, que lida com suas maguas, e que depois de invocar a +morte e sonhar vinganças, o que não é a mais approvada disposição moral +para esse transe tremendo, cai desfallecido sobre um rochedo. É neste +ponto que chegam Lopo Dias e sua mãi. lista apenas entra, diz-lhe que +vem trazer-lhe consolações. Impertinencia de mulher! Quem lhe disse a +ella que o anachoreta de cuja caverna ninguem ousa approximar-se, entrou +na vida eremitica por desventuras e não pelo arrependimento de seus +peccados? Quem lhe dá a certeza de que poderá consolá-lo, ella que não o +conhece, e que não sabe provavelmente o que lhe ha de dizer? Dar-lhe +consolações?! De que genero e de que modo? Que affirmou ella ao sair de +casa? Que vinha pedir e não offerecer consolo. Disse uma coisa sem +sentido, sem verdade, e agora diz outra. O solitario offende-se da +offerta e com razão. Affirmando-se porém na recem chegada, reconhece-a, +e ella reconhece-o a elle.--Explicações mutuas. João Lourenço refere +então como foi elle o cavalleiro d'armas negras que lhe appareceu na +capella, e explica-lhe o proceder do Infante. Este occultou na côrte o +seu casamento, e a mão da Infante D. Beatriz acaba de lhe ser +offerecida. Cheia d'angustia, neste logar, justa e bem fundada, D. Maria +Telles pergunta: e _acceitou-a_?--Uma voz que sôa na bocca da caverna +responde--_Acceitou_!--É o Commendador d'Elvas que assoma involto numa +capa, já se sabe, negra. D. Maria desmaia e cai o panno. + +Este desfeixo do acto é natural e dramatico, e a melhor coisa de todo +elle. O Commendador vendo-a sair seguia-lhe os passos; escutou a +conversação, e em seus pensamentos de vingança não consentiu que outrem +desse a punhalada mortal nessa mulher de quem queria vingar-se. Aqui o +efleito dramatico vem naturalmente da situação e caracter dos +personagens. Quanto ás scenas anteriores parece-nos que estão abaixo de +toda a critica. + +Acto terceiro.--D. Leonor está só debatendo-se com os remordimentos de +sua consciencia; entra o Commendador d'Elvas. Vem trazer-lhe a noticia +de que fez ao Infante a proposta do casamento com D. Beatriz, e que +achando-o mau de resolver lhe dera suspeitas de que sua mulher o +trahira. D. Leonor relucta contra esta nova calumnia: martyrizam-na os +remorsos porque viu em sonhos os castigos que lhes estavam reservados no +outro mundo a elle Commendador e a ella Rainha; nesses tormentos, +conforme o direito, e em vista da nossa moderna jurisprudencia +dramatica, ha pontas de rochedos em braza para arrastar o miseravel +Commendador. O triplicado da punição; as pontas, os rochedos e as +brazas, aterram-no, mas finge-se resoluto. Não assim a rainha a quem os +sonhos pavorosos não podem esquecer. Segue-se uma lucta moral em que os +insultos refervem entre os dois. O Commendador sai ameaçando a rainha. +Apenas esta se acha só, entra João Lourenço da Cunha: scena violenta +entre os dois em que a rainha successivamente treme, humilha-se, +amaldiçoa e ameaça, e em que elle fala constantemente a linguagem do +odio profundo. No meio da altercação sobrevem o Infante que tendo João +Lourenço por morto, crê que é a sua alma em pena. Este o ameaça tambem +por querer dissolver o matrimonio contrahido com D. Maria Telles. A +rainha nega o casamento: João Lourenço injuria-a de novo, e o Infante +arranca da espada. A ponto já de brigarem acode el-rei aos brados de D. +Leonor. João Lourenço que enfiou a ladainha dos doestos affronta tambem +D. Fernando que chega a levar a mão á espada, mas que lembrando-se de +quem é, manda-o como era de razão, metter na cadêa. Partindo, o antigo +marido da rainha, pergunta a si mesmo, quem, preso elle, defenderá D. +Maria Telles. D. Lopo Dias apparecendo no fundo responde-lhe;--_Seu +filho_!--E cai o panno. + +Este acto, tem entre todos como é evidente, a primazia no desalinhavado +e absurdo do desenho, posto que não lhe falta merito ás vezes na +execução das scenas. Primeiramente como é crivel que tendo Garcia +Affonso sido encarregado pela Rainha de propôr ao Infante o novo +casamento, e estando este na côrte, o Commendador antes de dar parte a +D. Leonor do desempenho da commissão, fosse a Coimbra levar a celebre +carta do acto 2.^o, o que podia fazer qualquer pagem ou correio? Em +segundo logar, não estaria doido João Lourenço, tendo tomado a peito +defender D. Maria Telles, em vir metter-se nas garras da rainha, só para +a injuriar e aos outros seus inimigos, porque não consta do drama que +viesse fazer outra coisa? Que esperava elle lhe succedesse, entrando no +paço, onde todos o conheciam, para practicar aquellas gentilezas, senão +ir jazer na cadêa? Depois como entrou elle sem licença até o quarto de +D. Leonor? É a mesma inverosimilhança do primeiro acto. O paço real no +seculo XIV era menos vedado que hoje: permittia-o a differença dos +tempos; mas nem por isso era uma taberna, onde qualquer entrasse quando +e como lhe approuvesse; e todavia é sobre estes argumentos que assentam +os dois ultimos actos. Quanto a este abster-nos-hemos de dizer mais nada +contentando-nos com observar que termina por um effeito dramatico +perfeitamente analogo ao desfeixo do segundo, isto é pelo apparecimento +de um personagem inesperado. + +Acto quarto.--João Lourenço está na masmorra em que a propria +imprudencia o lançou. Ahi se dóe e queixa de Deus, em vez de se queixar +de si. No meio de suas lástimas passa uma barca pelo Téjo, e ouve-se +nella uma voz que se approxima da prisão. A unica prisão em que podia +estar João Lourenço era a dos paços do Castello e como de lá se ouvia +uma voz no rio e esta se approximava da masmorra não será facil dizer: +todavia deixemos bagatellas. Provavelmente quem cantava era D. Lopo que +d'ahi a pouco entra no calaboiço, aliás, não intendemos que pudesse +trazer-se a proposito tal cantiga que nada tem com o drama. D. Lopo vem +livrá-lo, acompanhado do carcereiro que provavelmente para isso peitou. +Isto de carcereiros comprados como meio dramatico, é coisa quasi tão +velha e gasta quanto o estão os confidentes classicos. O prêso recusa a +liberdade porque quer morrer. Aqui fica evidente a doidice de João +Lourenço. Não podem ter passado cinco minutos desde que elle dizia: _Oh +Senhor Deus deixar-me-heis morrer sem ter salvado a innocente Maria?... +Oh, nem uma esperança me dais_?--e agora que o querem soltar responde +com vehemencia; _deixai-me morrer; deixai-me morrer_!?--Pois se quer +morrer para que estava apoquentando os céus com seus queixumes? Isto era +capaz d'impacientar até o sancto dos sanctos. Em fim depois de varias +ponderações do poeta phtysico o homem resolve-se a sair. D. Lopo diz-lhe +que espere que vai arranjar os meios da fuga, e parte com o carcereiro. +Fica só o prêso, porém não tarda companhia. Uma porta secreta se abre e +D. Leonor entra, tira a chave e encaminha-se para seu primeiro marido. +Vem dizer-lhe que elle ha de morrer alli mesmo: vem saciar o seu odio: +João Lourenço depois de ameaças mutuas tira-lhe repentinamente a chave +da porta secreta, e diz-lhe que vai salvar D. Maria Telles; a isto acode +a Rainha que não lhe achará senão o cadaver. Desesperação de João +Lourenço da Cunha, que supplica de joelhos, e que achando D. Leonor +inabalavel, ergue-se furioso e quer matá-la com um punhal que traz +escondido: é então que ella supplica; é então que elle se torna +inexoravel. Aponto de a apunhalar chega D. Lopo; a esperança amortece a +cholera no coração do marido da Rainha; o punhal cai-lhe das mãos. D. +Leonor continua todavia a ficar de joelhos, a pedir não que lhe deixem a +vida, porque esta já ella sabe que está salva; mas que a soltem: que lhe +permitiam sair d'aquelle logar d'horror. Sublime hypocrisia que encubriu +o animo damnado com a mascara do susto. Recusam-lho: então a cholera +trasborda do peito d'essa mulher que é um abysmo de maldade. Nem a +demora d'uma hora a que elles a condemnam saindo, soffre a rainha. +Apenas se acha só a régia hyena corre, e lança raivosa as garras ás +grades da masmorra; depois ajoelha e quer orar, mas alevanta-se logo, e +sorri. Pensa um momento, e com gesto ameaçador exclama: _D'aqui a uma +hora serei outra vez rainha_. Um pensamento atroz e medonho reluziu por +certo á luz sanguinea que bruxulea nessa alma? Qual foi elle? +Sabe-lo-hemos no sexto e derradeiro quadro. + +Nas tres ultimas scenas d'este curtissimo acto, tão curto que talvez a +representação d'elle não occupe quinze minutos a scena, revela-se um +poeta. Não mencionaremos defeitos porque o que tem excellente no-los +varreu da memoria: o auctor comprehendeu perfeitamente o caracter de D. +Leonor: ha aqui o talento profundo de um verdadeiro escriptor dramatico. +Oxalá poderamos dar de tudo e de todo o drama os mesmos testemunhos de +louvor e admiração! Com magua temos feito o contrario, porque é o nosso +penoso dever distribuir recta e severa justiça, e corresponder á +confiança que em nós depositou esta assemblêa. + +Quinto acto.--Estamos em Coimbra nos paços do Infante. Ao correr do +panno D. Leonor e Garcia Affonso falam a sós. A rainha, segundo parece, +saíu da prisão e chegou a Coimbra antes que João Lourenço e D. Lopo. Não +6 isto provavel mas é possivel; porque o odio entranhavel costuma ser ás +vezes mais diligente que todas as affeições. A scena da prisão, uma +vingança falha, uma humilhação necessaria mas cruel, espertaram toda a +violencia do caracter da rainha: os remorsos desappareceram, e ella +precisa de sangue. Incita por isso o Commendador para que positivamente +accuse sua irmã~ de adultera: conhecera pelo terror de João Lourenço que +este a amava, e é de bom-grado fratricida para começar pela vingança que +mais deve doer a seu antigo marido. É este o verdadeiro retrato de D. +Leonor, mas o que é falso, o que não condiz com o caracter profundamente +dissimulado que lhe attribue a historia, e o auctor tão bem pintou no +fim do 4.^o acto, é o injuriar gratuitamente o mesmo homem que está +incitando para que seja instrumento da sua vingança. Embora ambos se +conhecessem bem mutuamente: embora estas duas almas negrissimas +estivessem sem máscara; mas ainda os maiores malvados não ouzam recordar +uns aos outros os seus crimes, e injuriarem-se com elles senão nos +extremos de cholera. Vemos que do aspecto que toma esta scena e do seu +desfeixo, depende a existencia de duas ou tres scenas seguintes: a +inverosimilhança porém da origem diminue-lhes grande parte do merito que +possam ter. As affrontas da rainha são correspondidas por Garcia +Affonso, que acceitando a infame commissão, e um bracellete que deve +servir de prova á calumnia, sai praguejando e ameaçando D. Leonor, e +ameaçado e praguejado por ella. Esta scena é evidentemente desarrazoada, +ou antes impossivel. D. Leonor fica só, e num monologo resolve a morte +do Commendador: foi para isto que se delineou a scena antecedente. Por +assim dizer, o auctor fez num drama o que se diz fazia Boileau nos seus +alexandrinos, sugeitou a rima do primeiro verso á do segundo. Resolvido +o assassinio do seu antigo cumplice, a rainha dá um signal e apparece +Vasco seu pagem. D. Leonor diz-lhe que um homem a ultrajava: responde o +pagem que lhe diga seu nome e elle morrerá: esta scena está felizmente +imaginada e o caracter de um official d'assassino dado ao pagem é rapida +e profundamente traçado. Vasco sai e a rainha esconde-se em uma camara +para d'alli ver morrer Garcia Affonso. Apenas ella se retira o Infante +entra com o Commendador d'Elvas que pretende persuadi-lo da infidelidade +de D. Maria Telles e que por fim o convence com a prova do bracellete, o +qual, diz elle, João Lourenço perdera. Fraquissima é a prova, mas +acceitemo-la, visto que o Infante a acceita. Este arranca a adaga, +arromba a porta da camara de Maria Telles e arroja-se para lá furioso. +Garcia Affonso fica só e tirando um frasco de veneno, declara em um +monologo que envenenará o Infante logo que tenha assassinado sua mulher. +Vasco entra então, e gracejando com Garcia Affonso, diz-lhe que precisa +de lhe communicar um segredo, mas que antes d'isso beberá com elle um +trago de vinho. O aspecto de Vasco assustou o Commendador lembrado do +que passou com a rainha, e de que este pagem é o executor das suas +vinganças secretas. Emquanto Vasco vai buscar o vinho, elle lança á +cautella veneno em uma das taças que alli estão, e quando o pagem volta +enche-a e offerece-lh'a, tomando para si outra. Ambos levam as taças á +bocca, mas nenhum bebe. Garcia Affonso põe a sua sobre a mesa e pergunta +ao pagem qual é o segredo; rindo atrozmente este lhe pergunta se quer +sabê-lo; Garcia Affonso responde que sim, e que o diga depressa porque +lhe resta pouco tempo para o revelar por estar envenenado: o pagem +continua a rir e replica que é elle que o está, e que esse era o +segredo. Garcia Affonso despejando a taça mostra que lhe não tocara: o +pagem faz o mesmo. O Commendador então lhe diz: _Pois bem! nem um nem +outro morreremos_.--_Enganaes-vos_!--torna Vasco soltando uma risada +terrivel e dando-lhe uma punhalada. Garcia Affonso, amaldiçoa-se a si e +ao pagem, procurando tambem feri-lo. Neste momento ouve-se dentro a voz +de D. Maria Telles que implora piedade. O horror appossa-se do +Commendador agonizante, os gritos de D. Maria redobram, e o Infante sai +da camara com a adaga na mão tinta em sangue. Os remorsos fazem que o +Commendador moribundo confesse a innocencia de D. Maria Telles. O +infante furioso quer cravar-lhe a adaga, mas antes d'isso cai morto. +Garcia Affonso João Lourenço chega já tarde seguido de cavalleiros e +povo: o Infante desesperado pede que o matem, e João Lourenço quer +cumprir-lhe os desejos, quando D. Maria Telles saindo da camara o retem +e vai cair nos braços do Infante a quem perdoa morrendo. Apparece então +D. Leonor, e apontando para os cadaveres da irmã e de Commendador diz +para o marido--que veja como se vingou uma rainha. D. Lopo apparecendo +subitamente com a espada na mão, abre uma janella e mostrando a praça +atulhada de povo armado, diz-lhe:--_Senhora rainha, o filho vingará +tambem a morte de sua mãi, e o povo as injurias recebidas_. Assim se +conclue o drama. + +Este acto é incontestavelmente o melhor, e o seu effeito scenico deve +ser grande. Apesar das imperfeições que n'elle se pódem e com razão +reprehender, o auctor procurou resgatar aqui os defeitos que pullulam +nos antecedentes, como successivamente notamos em cada um d'elles. + +Restam algumas observações sobre estylo e linguagem: assim completaremos +o exame d'este drama visto a todas as luzes a que se deve considerar. + +O estylo para dizer tudo em poucas palavras é o da moda: isto é, a maior +parte das vezes falso: comparações frequentes, que a situação moral dos +personagens que as fazem não comporta: certa poesia na dicção impropria +do dialogo: fartura d'essas exaggerações com que embasbacam os parvos da +platéa, e que os homens de juizo não podem soffrer. Ás mãos cheias estão +por ahi derramadas as maldições, os anjos de azas brancas, os rochedos +em braza, os infernos, os demonios, e toda a mais ferramenta dramatica, +usada hoje no theatro, e que não sabemos d'onde veio, porque sendo +evidente que os nossos escriptores principiantes buscam imitar os +grandes dramaturgos franceses, é certo que raramente acharão lá essa +linguagem ôca e falsa, que só póde servir para disfarçar a falta de +affectos e pensamentos: Victor Hugo e Dumas não precisam nem usam de +taes meios, e para citarmos de casa, já que temos cá o exemplo, que +esses noveis vejam se nos dramas do nosso primeiro escriptor dramatico, +se no _Aucto de Gil Vicente_ ou no _Alfageme_ ha essa linguagem de +cortiça e ouropel, ha essas expressões turgidas e descommunaes que fazem +arripiar o senso commum, e que offendem a verdade e a natureza. O estylo +é tudo, dizia Voltaire. Não somos da sua opinião absolutamente, mas é +incontestavel que uma obra litteraria excellente em todas as demais +partes, se lhe falecer a propriedade do estylo nunca poderá obter para +seu auctor uma reputação duradoira. Não faltam na historia litteraria de +todas as nações exemplos d'esta exactissima observação. + +Quanto aos erros de lingua e construcção, faceis são elles de emendar: +assim o fossem os de estylo, e ainda mais os de contextura! +Intoleraveis, mais que nenhuns, nos parecem o vicio constante do +introduzir um _i_ nas segundas pessoas do plural dos preteritos como +_fizesteis_, _tivesteis_, etc.--por fizestes, tivestes; _soffrer_ por +_padecer_, sendo a significação portuguesa de _soffrer_ a de _padecer +com paciencia ou constancia_: o uso demasiado dos possessivos que tanto +afrancezam o nosso mui illiptico idioma: a substituição escusada de +preteritos simples pelos compostos do participio e dos auxiliares: +tautologias indisculpaveis, como--_abysmo immenso e sem fim_; _caverna +que parece zombar e escarnecer, etc._;--gradações ás avessas, como: +_cheio de desesperação e pesar_. A estes e outros defeitos poderia o +auctor dar remedio revendo attentamente o manuscripto, que talvez o +limite de tempo para o concurso lhe não deixou aperfeiçoar e pulir, e +por isso intendemos dever nessa parte ser indulgente a censura do +Conservatorio. + +Temos feito longa e severamente a critica do drama--_D. Maria +Telles_.--Fizemo-lo assim por muitas e mui urgentes razões. Tem soado +queixas contra a fórma demasiado simples com que se costumam exarar os +pareceres sobre os dramas que annualmente concorrem a premios: conselhos +sinceramente dados tem-se tomado pela expressão do orgulho; imaginou-se +uma aristocracia litteraria, contraria a todos os ingenhos que surgem de +novo. É preciso confessar que pelo que toca ao não motivado, e á +brevidade dos pareceres, sobre tudo d'aquelles que condemnam, é justa a +queixa. Todas as mais são infundadas. Os factos de quatro annos ahi +estão provando o contrario. Se alguma culpa se pode lançar ao +Conservatorio é a nimia indulgencia; já algumas das suas sentenças +favoraveis tem sido reformadas pelo supremo tribunal do publico, ao +passo que ainda nenhum drama condemnado por elle toi levado por +appellação ao grande jury da opinião da platea: todavia se os auctores +d'esses dramas tinham a consciencia da injustiça no julgamento, para lá +deviam aggravar-se. Esta é a nossa defensão completa contra as vãs +accusações de parcialidade; contra os sonhos de uma imaginaria +aristocracia litteraria com que a mediocridade pretende passar aos olhos +de parvos e ignorantes, pelo ingenho perseguido ou menoscabado. + +A Secção da Litteratura pensa por tanto, que importa ao bom nome do +Conservatorio o fazer sempre miuda e inexoravelmente o exame dos dramas +que concorrem aos premios, e motivar largamente as suas sentenças. Tanto +os concorrentes como a nação teem direito de assim o exigirem. O tempo +da censura inquisitorial, que muitas vezes só serve de capa á +incapacidade, passou. É nossa obrigação restricta fundamentar as +opiniões que assentamos: julgadores aqui, seremos lá fóra réos, e o +commum juiz que é o publico não está adstricto a julgar por nossas +palavras. Por outra parte esta miudeza e severidade de critica servirá +de correcção aos auctores, para cuja emenda é inutil um parecer +superficial e vazio de doutrina, ao passo que lhes habilita o amor +proprio para crer que não foram elles, mas fomos nós os que errámos. + +Além d'isso, a Secção da Litteratura intende que é necessario ser +finalmente severa a censura do Conservatorio, para o verdadeiro +progresso dramatico. Durante quatro annos este progresso tem sido +unicamente em extensão: falta a profundidade. O numero dos dramas +augmenta, mas o merito d'elles é o mesmo, senão é menor. A principio +convinha affagar todas as tentativas: hoje é preciso afastar as não +vocações dramaticas que a facilidade das recompensas tem tornado em +demasia ousadas, e é preciso constranger aquelles que podem e sabem +produzir fructos de verdadeiro ingenho a darem ao theatro obras que os +honrem e honrem a patria. + +Pelo que respeita em especial ao drama--_D. Maria Telles_--a Secção de +Litteratura ainda pede para elle a indulgencia do Conservatorio. A +leitura d'esta composição revéla a verdura d'annos e inexperiencia do +seu auctor. O desconnexo e inverosimil da contextura, a ignorancia quasi +absoluta dos costumes e instituições da epoca escolhida, e ainda mais a +falta de conhecimento da logica das paixões e affectos, e por isso da +consistencia dos caracteres estão dizendo que o mundo e a sociedade é em +grande parte um mysterio para elle, mysterio que ainda mal as +tempestades politicas e a vida demasiado energica do nosso seculo lhe +revelarão em breve. Se o auctor quiser acceitar os conselhos prudentes +que para melhorar o seu escripto lhe não recusarão, por certo, os +membros d'este Conservatorio, o drama--_D. Maria Telles_--poderá subir á +scena, não com a certeza de obter a approvação de summo juiz +o--publico--mas de apparecer ante elle sem deshonra sua, e sem que nós +sejamos accusados de desleixo no cumprimento dos nossos deveres. O +parecer da Secção da Litteratura é portanto, que a Mesa convide o auctor +do drama a dirigir-se a ella para o fim apontado. O Conservatorio +resolverá o que fôr mais justo e conveniente.--_Alexandre Herculano_. + + + + +*D. Leonor d'Almeida, Marqueza d'Alorna* + + + + +*D. Leonor d'Almeida, Marqueza d'Alorna*[24] + + +Por grande que deva ser a gratidão que se associa ás recordações +d'aquelles que nos geraram, por funda que vá a saudade inseparavel da +memoria paterna, no coração do bom filho ha um affecto não menos puro, e +não menos indestructivel para o homem cujo espirito allumiado pela +cultura intellectual tem a consciencia de que o seu logar e os seus +destinos no mundo são mais elevados e nobres que os d'esses tantos que +nasceram para viverem uma vida toda material e externa, e depois +morrerem sem deixar vestigio. Este affecto é uma especie de amor filial +para com aquelles que nos revelaram os thesouros da sciencia; que nos +regeneraram pelo baptismo das letras; que nos disseram: «caminha!» e nos +apontaram para a senda do estudo e da illustração, caminho tão povoado +de espinhos como de flores, e em cujo primeiro marco milliario muitos se +teem assentado, não para repousarem e seguirem ávante, mas para +retrocederem desalentados, quando sózinhos não sentem mão amiga apertar +a sua e conduzi-los após si. Tirai á paternidade os exemplos de um +proceder honesto, as inspirações da dignidade humana, a severidade para +com os erros dos filhos, os cuidados da sua educação, e dizei-nos o que +fica? Fica um certo instincto, ficam os laços do habito, e para impedir +que tão frageis prisões se partam, fica o preceito de cima que nos +ordena acatemos e amemos os que nos geraram, ainda que a elles não nos +prenda senão a dadiva da existencia, esse tão contestavel beneficio. +Pelo contrario aquelles que foram nossos mestres; que nos attrahiram com +a persuação e com o proprio exemplo para o bom e para o bello; que nos +abriram as portas da vida interior; que nos iniciaram nos contentamentos +supremos que ella encerra; para esses não é preciso que a lei de +agradecimentos e de amor esteja escripta por Deus: a razão e a +consciencia estamparam-na no coração: cada gozo intellectual do poeta, +do erudito, do sabio, lh'a recorda, e quando elles se comparam com o +vulgo das intelligencias, reconhecem plenamente a justiça do sentimento +de gratidão que os domina. + +Estas reflexões occorreram-me ao abrir o primeiro volume das obras da +senhora marqueza de Alorna, condessa de Oeinhausen e Assumar, D. Leonor +d'Almeida, que actualmente se publicam e de que já dois volumes se acham +nitidamente impressos. E foi para mim um prazer verdadeiro escrever +estas cogitações d'um momento. Aquella mulher extraordinária, a quem só +faltou outra patria, que não fosse esta pobre e esquecida terra de +Portugal, para ser uma das mais brilhantes provas contra as vãs +pretensões de superioridade excessiva do nosso sexo, é que eu devi +incitamento e protecção litteraria, quando ainda no verdor dos annos +dava os primeiros passos na estrada das letras. Apraz-me confessá-lo +aqui, como outros muitos o fariam se a occasião se lhes offerecesse; +porque o menor vislumbre d'engenho, a menor tentativa d'arte ou de +sciencia achavam nella tal favor, que ainda os mais apoucados e timidos +se alentavam; e d'isso eu proprio sou bem claro argumento. A critica da +senhora marqueza de Alorna não affectava jamais o tom pedagogico e quasi +insolente de certos litteratos que ás vezes nem sequer entendem o que +condemnam, e que tomam a brancura das proprias cãs por titulo de +sciencia, de gosto, e de tudo. A sua critica era modesta e tinha não sei +o que de natural e affectuoso que se recebia com tão bom animo como os +louvores, de que não se mostrava escaça quando merecidos. Uma virtude +rara nos homens de letras, mais rara talvez entre as mulheres que se +teem distinguido pelo seu talento e saber, é a de não alardearem +escusadamente erudição, e essa virtude tinha-a a senhora marqueza em +grau eminente. A sua conversação variada e instructiva era ao mesmo +tempo facil e amena. E todavia dos seus contemporaneos quem conheceu tão +bem, não dizemos a litteratura grega e romana, em que egualava os +melhores, mas a moderna de quasi todas as nações da Europa, no que +nenhum dos nossos portugueses por ventura a egualou? Como madame de +Stael ella fazia voltar a attenção da mocidade para a arte de Alemanha, +a qual veio dar nova seiva á arte meridional que vegetava na imitação +servil das chamadas letras classicas, e ainda estas estudadas no +transumpto infiel da litteratura francesa da epocha de Luís XIV. Foi por +isso, e pelo seu profundo engenho, que, com sobeja razão, se lhe +attribuiu o nome de Stael portuguesa. + +A vida d'esta nossa celebre compatricia acha-se á frente da edição das +suas obras: para lá remetto o leitor. Ahi verá como em todas as phases +da sua larga e não pouco tempestuosa carreira, ella soube dar perenne +testemunho do seu nobre caracter de independencia e generosidade: verá +que emquanto na terra natal primeiro a tyrannia e depois a ignorancia e +a inveja a perseguiam, ella ia encontrar entre estranhos a justa +estimação de principes e de illustres personagens da republica das +letras. Ahi verá como nascida no seculo do materialismo, vivendo largos +annos no foco das idéas anti-religiosas, acostumada a ouvir todos os +dias repetir essas idéas por homens de incontestavel talento, ella soube +conservar pura a crença da sua infancia, e expirar no seio do +christianismo. Ahi finalmente verá como as ausencias, por vezes +involuntarias, da sua terra natal, não puderam fazer-lhe esquecer o amor +que devemos a esta, ainda no meio das injustiças e violencias de todo o +genero. + +O primeiro volume das obras poeticas da senhora marqueza de Alorna +contém, afóra a vida da auctora, e uma noticia biographica do conde de +Oeynhausen seu marido, as poesias compostas na mocidade. Boa parte +d'estas foram escriptas no mosteiro de Chellas, para onde entrou de oito +annos de idade com sua mãi, occorrendo a prisão do marquez de Alorna D. +João. Encerrada naquelle mosteiro passou D. Leonor d'Almeida os annos +mais viçosos da juventude, tendo para alegrar as tristezas de tão longo +captiveiro que excedeu desoito annos, unicamente o linitivo do estudo, e +os conselhos e affagos maternos. Quisera alguem que tivesse havido mais +severidade na escolha das composições d'aquella epocha, algumas das +quaes desdizem do primor que noutras posteriores se encontra. Eu lamento +só que senão pudesse ajunctar a cada uma a sua data. Assim, bem longe de +ter sido um inconveniente essa desigualdade innegavel, houvera ella sido +um meio para se avaliarem bem os rapidos progressos da joven auctora, +que nas obras de tão verdes annos annunciava já o seu brilhante futuro +nos rasgos frequentes de um engenho ao mesmo tempo solido, delicado e +vivo. + +O resto do primeiro volume e o segundo contém as poesias da senhora +marqueza posteriores á sua saída do mosteiro. Na disposição d'ellas +tambem não se guarda o methodo chronologico: a natureza dos poemas +determina a ordem d'elles. Julgar essa grande variedade de composições +não cabia nos estreitos limites d'este jornal. Os que as teem lido, e +que sabem entendê-las appreciam-nas devidamente. Ellas são um illustre +monumento para a historia da poesia portuguesa, um nobre testemunho da +piedade filial que as trouxe á luz publica, e para em tudo esta +publicação ser apreciada, a sua nitidez typographica é uma prova dos +progressos que a arte de imprimir tem feito entre nós[25]. + +FIM DO TOMO + + + + +Índice + + +Advertência +Qual é o estado da nossa litteratura? Qual é o + trilho que ella hoje tem a seguir? +Poesia: Imitação--Bello--Unidade +Origens do theatro moderno--Theatro português + até aos fins do seculo XVI +Novellas de cavallaria portuguesas +Historia do theatro moderno--Theatro hespanhol +Crenças populares portuguesas ou superstições + populares +_A Casa de Gonsalo_, comedia em cinco actos:--Parecer +Elogio historico de Sebastião Xavier Botelho +_D. Maria Telles_, drama em cinco actos:--Parecer +D. Leonor d'Almeida, Marqueza d'Alorna + + + + +Notas: + + +[1] Diz Mercier em uma annotação, que segundo nossa lembrança vem no +1.^o tomo de suas obras dramaticas, que a divisão de cinco actos é +fundada em ser preciso atiçar cinco vezes as luzes do theatro em quanto +dura uma recita. + +[2] Epist. 9--v. 43. + +[3] Art. poet. C. 3--v. 48. + +[4] Talvez alguns dos nossos leitores extranhem o modo por que tractamos +um escriptor accreditado e ainda vivo. Nós sabemos que a urbanidade é o +principal dever de quem impugna qualquer opinião: mas confessamos que +não pudemos resistir á tentação. Mr. Laurentie é um defensor do +absolutismo, e muito mal tractou a causa da nossa patria no seu exame da +Carta portuguesa. É uma pequena vingança litteraria que se nos deve +perdoar. + +[5] Major mihi rerum nascitur ordo: +Majus opus moveo--7, 4 4. + +[6] Iliad, 5.^o. + +[7] O nosso socio o Sr. Castilho teve tambem o seu _quinhom_ de critica +na referida moxinifada romantica. Cremos piamente que elle riu tanto +como teria rido o bom do Homero se fosse nosso contemporaneo. + +[8] Alludimos ás Messenianas de Barthelemy e ás de Mr. Delavigne, de que +talvez as primeiras deram a idéa. Das ultimas lembrámo-nos +principalmente da de Waterloo. + +[9] Em um curso de litteratura como nós o concebemos daria materia esta +idea, aqui apenas ennunciada, a dois capitulos interessantíssimos, o da +theoria do agradavel e o da poesia nacional, ou dos objectos da poesia +moderna. + +[10] É curioso ver as observações de Galileo acêrca da Jerusalem +libertada, as quaes jaziam ineditas e foram publicadas em 1793, assim +como o é ler a dissertação de Dureau Delamalle comparando as duas +Jerusalens, a qual vem no fim do 1.^o tomo da Historia das Cruzadas de +Mr. Michaud. + +[11] Livro 1.^o, capitulo 1.^o. + +[12] Publicados no vol. de 1838, e o terceiro no vol. de 1840. + +[13] Opusculos, tomo V, pag. 10. + +[14] Herzog-Geschichte der deutschen Nat-Litt.--pg. 99 (Jen. 1831.) + +[15] Sismondi. De la litteratura du Midi--tomo I, pg. 289. + +[16] Os que sobre esta materia desejarem mais ampla instrucção consultem +as dissertações de Mr. Fauriel ácerca da origem da Epopeia Cavalleirosa, +no 8.^o vol. da _Revue des Deux-Mondes_ (anno se bem nos lembra, de +1832). A opinião de Mr. Fauriel, contraria á de Sismondi, põe o berço da +maior e melhor parte das novellas de cavallaria na Provença; mas antes +de abraçar essa opinião cumpre lêr e pesar maduramente as reflexões de +Sismondi, que o põe na Normandia, a pag. 273 e seg. do 1.^o vol. da sua +Historia Litteraria do Meio-dia da Europa. + +[17] Não appareceu este novo artigo quer nos seguintes numeros do vol. +4.^o quer nos demais volumes, emquanto A. Herculano foi collaborador +permanente do Panorama. De outros mui variados assumptos litterarios o +auctor se occupou nesses volumes. A melhor conjectura sobre tal +interrupção não é a de um simples esquecimento, mas a de que o auctor, +certo de haver esclarecido a materia especial d'estes artigos onde mais +interessava, tencionasse porventura ligar o porseguimento d'ella a +certos pontos da nossa historia litteraria que demandavam vagarosa +meditação. + +[18] Sem exceptuar a dos espectadores, que, bem como tudo o mais, +permitta-se-nos a expressão, é preciso crear de novo. + +Sobre isso publicaremos brevemente um artigo que, dizendo respeito a um +objecto realtivo á civilização e moral publicas, entra naturalmente no +plano d'este jornal. + +[19] E impressas em Napoles em 1517. Esta rara edição existe na +bibliotheca publica do Porto, e pertencia segundo nossa lembrança, á +livraria do Visconde Balsemão. + +[20] O mesmo succedeu aos dramas portugueses contemporaneos: d'ahi +provém, principalmente, a extrema raridade das primeiras edições de +alguns d'elles, como de Jorge Ferreira, que só são conhecidos nas +edições mutiladas. + +[21] Como hoje tanta gente faz criticas dramaticas--as mais difficeis de +todas--bom será que reparem nesta observação de Schlegel acêrca do +gracioso, personagem especial do drama peninsular. E ainda o grande +critico alemão não apontou o motivo principal d'este elemento dramatico: +o gracioso faz com que o drama seja em verdade a representação da vida, +onde sempre o terrivel e o lepido se cruzam e misturam +inextricavelmente. Não ser o gracioso elemento necessario do enredo tem +por motivo a natureza d'esse papel: o burlesco póde deixar de ser +necessidade da acção; mas nunca de ser essencivel á _fórma_ da acção: no +quadro dramatico o gracioso não é _desenho_, é _côr_; é a sombra do +clarão do bello e sublime. A tragedia classica, e a tragedia de Racine +morreu, porque não havia ahi o contraste: a comedia de Moliere vive, e +viverá para sempre, porque nella as lagrymas tolhem ás vezes o riso: na +comedia antiga apparecia o drama; na tragedia apenas havia poesia. + +[22] Julgamos dever notar aqui que os nossos modernos actores ainda não +chamam geralmente qualquer drama, senão _comedia_, embora elle seja +tragico. Porventura é isto uma _tradição de bastidores_, conservada +desde o seculo XVII, em que entre nós eram tão vulgares as +representações dos dramas de Lope e Calderon, como na propria Hespanha. + +[23] Para prova de quanto se podem aproveitar as leis como fontes da +historia, não dos reis ou dos soldados, mas do _progresso das nações_, +deixando as leis civis de que poderiamos apontar circumstancias de +extraordinaria curiosidade, limitar-nos-hemos a dizer que d'estas mesmas +constituições d'Evora se deprehende o uso antiquissimo das +representações nas igrejas, e de outras indecencias semelhantes que o +povo julgava então ou licitas ou piedosas. «Deffendemos, diz a +constituição 10 do titulo 15, a todas as pessoas ecclesiasticas e +seculares, de qualquer estado e condição que sejam, que não _comam nas +egrejas, nem bebam, em mezas_, nem sem mezas; nem cantem, nem bailem, em +ellas, nem em seus adros: nem os leigos façam ajuntamentos dentro dellas +sobre cousas profanas; nem se façam nas ditas igrejas, ou adros dellas, +jogos alguns, posto que seja em vigilia de sanctos ou d'alguma festa; +nem _representações, ainda que sejam da paixão de nosso Senhor J. C., ou +da sita resurreição ou nascença; de dia, nem de noite_, sem nossa +especial licença; porque _dos taes autos_ se seguem muitos +inconvenientes que muitas vezes trazem escandalo nos corações d'aquelles +que não estão muito firmes na nossa sancta fé catholica, _vendo as +desordens e excessos que nisto se fazem_.» D'esta passagem se póde +concluir que o uso de fazer autos nas igrejas data pelo menos do decimo +sexto seculo, sendo, além d'isso, provavel, que semelhante usança +remonte a epocha muito mais remota; porque os costumes populares levam +muitos annos, tanto a estabelecer-se como a destruir-se; e com effeito, +ainda no fim do seculo XVII o bispo do Porto, D. Fernando Corrêa de +Lacerda, fulminava censuras contra taes comedias, como se vê de uma sua +ordenança que lemos, ainda mais curiosa que a antecedente constituição; +mas que por brevidade não apontaremos aqui. + +[24] Nasceu em 31 de Outubro de 1750. Falleceu em 11 de Outubro de 1839. + +[25] Na capa d'este artigo se omittiram por esquecimento em seguida ao +titulo as palavras _Panorama_--1844. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of Opúsculos por Alexandre Herculano - +Tomo IX, by Alexandre Herculano + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OPÚSCULOS POR ALEXANDRE *** + +***** This file should be named 18330-8.txt or 18330-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/1/8/3/3/18330/ + +Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt), +Nuno Lopes (Projecto Enclave) and edited by Rita Farinha + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/18330-8.zip b/18330-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..a090615 --- /dev/null +++ b/18330-8.zip diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. 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