diff options
| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 04:52:10 -0700 |
|---|---|---|
| committer | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 04:52:10 -0700 |
| commit | 84d7c8ee61801fe31ec31c5d75791e55091e1e9c (patch) | |
| tree | a78035e7bb304404f8e763d4d5d359d1299c7012 | |
| -rw-r--r-- | .gitattributes | 3 | ||||
| -rw-r--r-- | 17927-8.txt | 7034 | ||||
| -rw-r--r-- | 17927-8.zip | bin | 0 -> 135255 bytes | |||
| -rw-r--r-- | LICENSE.txt | 11 | ||||
| -rw-r--r-- | README.md | 2 |
5 files changed, 7050 insertions, 0 deletions
diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/17927-8.txt b/17927-8.txt new file mode 100644 index 0000000..31828fe --- /dev/null +++ b/17927-8.txt @@ -0,0 +1,7034 @@ +The Project Gutenberg EBook of A Queda d'um Anjo, by Camilo Castelo Branco + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Queda d'um Anjo + Romance + +Author: Camilo Castelo Branco + +Release Date: March 5, 2006 [EBook #17927] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A QUEDA D'UM ANJO *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal)) + + + + + + + + + +A QUEDA D'UM ANJO + +ROMANCE + +POR + +CAMILLO CASTELLO BRANCO + + + +LISBOA + +LIVRARIA DE CAMPOS JUNIOR--EDITOR + +77--Rua Augusta--81 + +1866 + + + + +Imprensa de J. G. de Sousa Neves--Rua do Caldeira, 17 + + + + +*DEDICATORIA* + + +ILL.^{MO} E EX.^{MO} SR. ANTONIO RODRIGUES SAMPAIO + + +Meu amigo. + + +Volto a offerecer-lhe uma das minhas bagatelas. Chamo assim, para me +fingir modesto, bagatelas a umas coisas que eu reputo no maximo valor. +Se não fossem ellas, naturalmente eu não chegaria a grangear a estima de +V. Ex.^a, que m'as tem lido, e alguma vez louvado. Já V. Ex.^a, antes de +me conhecer, quiz encravar a roda do meu infortunio, roda com que eu +estou sempre brincando como as creanças com os seus arcos. Que tinha eu +feito para commover a bemquerença do meu prestante amigo? Tinha feito +uns livros futilissimos, á imitação d'este que lhe offereço. + +Não é esta boa opportunidade de eu vir com a minha oblação de pobre a V. +Ex.^a Lembra-me a sentença do nosso Diogo de Teive: + + _Donat cum egenus diviti + Retia videtur tendere_. + +Os praguentos hão de querer ver aquellas _rêdes_, por que não sabem que +V. Ex.^a já me constituiu, ha muito, no dever de eterna e profunda +gratidão. + +Lessa da Palmeira 27 de setembro de 1865. + +CAMILLO CASTELLO BRANCO. + + + + +I + +*O heroe do conto* + + +Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de +Freimas, tem hoje quarenta e nove annos, por ter nascido em 1815, na +aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda. + +Seu pae, tambem Calisto, era cavalleiro fidalgo com filhamento, e decimo +sexto varão dos Barbudas da Agra. Sua mãe, D. Basilissa Escolastica, +procedia dos Silos, altas dignidades da egreja, commendatarios, sangue +limpo, já bom sangue no tempo do senhor rei D. Affonso I, fundador de +Miranda. + +Fez seus estudos de latinidade no seminario bracharense o filho unico do +morgado da Agra de Freimas, destinando-se a doutoramento _in utroque +jure_. Porém, como quer que o pae lhe fallecesse, e a mãe contrariasse a +projectada formatura, em razão de ficar sosinha no solar de Caçarelhos, +Calisto, como bom filho, renunciou á carreira das lettras, deu-se ao +governo da casa algum tanto, e muito á leitura da copiosa livraria, +parte de seus avós paternos, e a maior dos doutores em canones, conegos, +desembargadores do ecclesiastico, cathedraticos, chantres, arcediagos e +bispos, parentella illustrissima de sua mãe. + +Casou o morgado, ao tocar pelos vinte annos, com sua segunda prima D. +Theodora Barbuda de Figueirôa, morgada de Travanca, senhora de raro +aviso, e muito apontada em amanho de casa, e ignorante mais que o +necessario para ter juizo. + +Unidos os dois morgadios, ficou sendo a casa de Calisto a maior da +comarca; e, com o rodar de dez annos, prosperou a olho, tendo grande +parte n'este incremento a parcimonia a que o morgado circumscreveu seus +prazeres, e, por sobre isto, o genio cainho e apertado de D. Theodora. + +_Remenda teu panno, chegar-te-ha ao anno_, dizia a morgada de Travanca; +e, afferrada ao seu adagio predilecto, remendava sempre, e sergia com +perfeição justamente admirada entre a familia, e fallada como exemplo na +área de quatro leguas, ou mais. + +Em quanto ella recortava o fundilho ou apanhava a malha rôta da pinga, o +marido lia até noite velha, e adormecia sobre os in-folios, e acordava a +pedir contas á memoria das riquezas confiadas. + +Os livros de Calisto Eloy eram chronicões, historias ecclesiasticas, +biographias de varões preclaros, corographias, legislação antiga, +foraes, memorias da academia real da historia portugueza, cathalogos de +reis, numismatica, genealogias, annaes, poemas de cunho velho, etc. + +Respeito a idiomas estranhos, dos vivos conhecia o francez muito pela +rama; porém, o latim fallava-o como lingua propria, e interpretava +correntemente o grego. + +Memoria prompta, e cultivada com aturado e indigesto estudo, não podia +sair-se com menos de um erudito em historia antiga, e repositorio de +noticias miudas sobre factos e pessoas de Portugal. + +Consultavm-n'o os sabios transmontanos como juiz indeclinavel em +decifrar cipos e inscripções, em restabelecer épocas e successos +controvertidos por authores contradictorios. + +Sobre castas e linhagens, coisa que elle tirasse a limpo, não dava péga +a duvida nenhuma. Ia elle desenterrar geração já sepultada ha setecentos +annos, e provar que, na era de 1201, D. Fuas Mendo casára com a filha de +um mesteiral, e D. Dorzia se havia sujado casando mofinamente com um +pagem da lança de seu irmão D. Payo Ramires. + +Farpeados pela viperina lingua d'elle, os fidalgos provincianos +retaliavam quanto podiam a prosapia dos Benevides, propalando que +n'aquella familia se gerára um clerigo grande femieiro, beberrão e +lambaz, a quem o santo arcebispo D. Frei Bartholomeu dos Martyres, uma +vez, perguntára que nome havia; e, como quer que o padre respondesse +_Onofre de Benevides_, o arcebispo accudira dizendo: Melhor vos acertará +com o nome, segundo a vida que fazeis, quem vos chamará de _Bene bibis_ +e _male vivis_.»[1] O remoque, talvez por ser de santo, era medianamente +engraçado e pouco para affligir; assim mesmo Calisto Eloy, á conta +d'esta injuria dos fidalgos comarcãos, tanto lhes esgravatou nas +gerações, que descobriu radicalmente serem quasi todas de má casta. + +É superfluo dizer-se a qual doutrinação politica pendia o animo do +morgado da Agra de Freimas. Estava com a decisão das côrtes de Lamego. +Fizera-se n'ellas, e cuidava ter assistido, em 1145, áquelle congresso +mythologico, e ter conclamado com Gonçalo Mendes da Maya, o Lidador, e +com Lourenço Viegas, o Espadeiro: _Nos liberi summus, rex noster liber +est_.[2] Todavia, se assim fossem todos os doutrinarios politicos, a +gente apodrecia na mais refestelada paz, e supina ignorancia do +andamento da humanidade. + +Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda queria que se venerasse o +passado, a moral antiga como o monumento antigo, as leis de João das +Regras e Martim d'Ocem, como o mosteiro da Batalha, as ordenações +manuelinas como o convento dos Jeronymos. + +O mal que d'aqui surdia ao genero humano, a fallar verdade, era nenhum. +Este bom fidalgo, se lhe tirassem o sestro de esmiuçar desdouros nas +gerações das familias patriciatas, era inoffensiva creatura. D'este +senão, a causa foi um chamado _Livro-negro_, que herdára de seu tio avô +Marcos de Barbuda Tenazes de Lacerda Falcão, genealogico pavoroso, o +qual gastára sessenta dos oitenta annos vividos, a colligir borrões, +travessias, mancebias, adulterios, coitos damnados, e incestos de muitas +familias n'aquellas satanicas costaneiras, denominadas _Livro-negro das +linhagens de Portugal_. + +Em summa, Calisto era legitimista quieto, calado, e incapaz de impecer a +roda do progresso, com tanto que elle não lhe entrasse em casa, nem o +quizesse levar comsigo. + +Prova cabal de sua tolerancia foi elle acceitar em 1840 a presidencia +municipal de Miranda. Na primeira sessão camararia fallou de feitio e +geito, que os ouvintes cuidavam estar escutando um alcaide do seculo xv +levantado do seu jazigo da cathedral. Queria elle que se restaurassem as +leis do foral dado a Miranda pelo monarcha fundador. Este requerimento +gelou de espanto os vereadores; d'estes, os que poderam degelar-se, +riram na cara do seu presidente, e emendaram a galhofa dizendo que a +humanidade havia já caminhado sete seculos depois que Miranda tivera +foral. + +--Pois se caminhou, replicou o presidente, não caminhou direita. Os +homens são sempre os mesmos e quejandos; as leis devem ser sempre as +mesmas. + +--Mas... retorquiu a opposição illustrada, o regimen municipal expirou +em 1211, sr. presidente! V. ex.^a não ignora que ha hoje um codigo de +leis communs de todo o territorio portuguez, e que desde Affonso II se +estatuiram leis geraes. V. ex.^a de certo leu isto... + +--Li, atalhou Calisto de Barbuda, mas reprovo! + +--Pois seria util e racional que v. ex.^a approvasse. + +--Util a quem? perguntou o presidente. + +--Ao municipio, responderam. + +--Approvem os srs. vereadores, e façam obra por essas leis, que eu +despeço-me d'isto. Tenho o governo de minha casa, onde sou rei e +govérno, segundo os foraes da antiga honra portugueza. + +Disse; saiu; e nunca mais voltou á camara. + + + + +II + +*Dois candidatos* + + +Desde o qual incidente, o morgado, convicto da podridão dos vereadores +em particular, e da humanidade em geral, prometteu a onze retratos, que +tinha de onze avós, pintados indignamente, nunca mais tocar o cancro +social com suas mãos impollutas. + +N'este proposito, nem ao menos consentiu que o vigario lhe mandasse o +_Periodico dos Pobres_ do Porto de que era assignante emparceirado com +mais quatro reitores limitrophes, e o mestre escola e o boticario. + +Um dia, porém, quando elle saia da festividade de S. Sebastião, cujo +mordomo era, deteve-se no adro, onde o rodearam os mais graudos +lavradores da sua freguezia e das visinhas. N'outro grupo, fallava-se do +sermão, e da constancia do santo capitão das guardas do barbaro +Diocleciano, e da desmoralisação do imperio. + +Estas puchadas reflexões era o boticario que as expendia, coadjuvado +pelo mestre de primeiras lettras, sujeito que sabia mais historia romana +do que é permittido a um professor da preciosa e capitalissima sciencia +de ler, contar e escrever, pelo que o sabio vinha a grangear para a +humanidade a sciencia, e para elle nove vintens e meio por dia. E comia +o sabio estes nove vintens e meio quotidianos, e ensinava os rapazes, e +sobejava-lhe tempo para ler historia! Podéra!... Os governos davam-lhe +férias grandes ao estomago, em proveito do espirito. Se elle andasse bem +nutrido e succado de tripa, não aprendia nem ensinava coisa de monta. +Que a pobresa é o estimulo das maiores façanhas da intelligencia. +_Paupertas impulit audax_[3]. Isto que o Horacio faminto dizia de si, +accomodam-no os regedores da coisa publica aos professores de primeiras +lettras; porém, outros muitos versos do Horacio farto, esses tomam-os +elles para seu uso. + +Estava, pois, o mestre-escola, de parceria com o boticario, a castigar a +perversidade dos imperadores romanos, por amor do martyr S. Sebastião, +que, segunda vez, acabava de ser fréchado no panegyrico. N'este comenos, +abeirou-se d'elles Calisto Eloy, e para logo se callaram as duas +capacidades, em referencia ao Salomão da terra. + +--Que dizem vocemecês?--perguntou Calisto benignamente. Continuem... +Parece que fallavam do santo. + +--É verdade, sr. morgado--accudiu o boticario, ajustando os collarinhos +percucientes ao lóbulo das orelhas, escarlates do atrito da +gomma.--Fallavamos na malvadez dos imperadores pagãos. + +--Sim!--disse Calisto, com proeminencia declamatoria,--sim! Horrorosos +tempos aquelles foram! Mas os tempos actuaes não se differençam tanto +dos antigos, que possamos, em consciencia e sciencia, encarecer o +presente e praguejar o passado. Diocleciano era pagão, cego á luz da +graça: os crimes d'elle hão de ser contrapesados, e descontados, na +balança divina, com a ignorancia do delinquente. Ai, porém, dos que +prevaricaram fechando olhos á luz da notoria verdade, afim de se +fingirem cegos! Ai dos impios, cujas entranhas estão afistuladas de +herpes! No grande dia, funestissima ha de ser a sentença d'elles, novos +Caligulas, novos Tiberios, e Dioclecianos novos! + +Relanceou o pharmaceutico uma olhadella esguelhada ao professor, o qual, +abanando tres vezes e de compasso a cabeça, dava assim a perceber que +abundava na admiração do seu amigo e consocio erudito em historia +romana. + +Obrigado ás orelhas do auditorio attento, Calisto, em toada de Ezequiel, +continuou: + +--Portugal está alagado pela onda da corrupção, que subverteu a Roma +imperial! Os costumes de nossos maiores são mettidos a riso! As leis +antigas, que eram o baluarte das antigas virtudes, dizem os sycophantas +modernos, que já não servem á humanidade, a qual, em consequencia de ter +mais sete seculos, se emancipou da tutela das leis. (Allusão bervada aos +vereadores de Miranda, que discreparam do intento restaurador do foral +dado por D. Affonso. Vinham a ser sycophantas os collegas +municipalenses.) _Credite, posteri_!--exclamou Calisto Eloy com enfase, +nobilitando a postura. + +O latim não lh'o entenderam, salvo o mestre-escola, que antes de ser +sargento de milicias, havia sido donato no convento dominicano de +Villa-Real. + +E repetiu: _Credite, posteri_! + +N'esta occasião, saiu da egreja a sr.^a D. Theodora Figueirôa, e disse +ao esposo: + +--Vem d'ahi, Calisto. Vamos jantar, que é uma hora, e já lá vae o padre +prégador para casa. + +Enguliu o morgado tres phrases de polpa, que lhe inflavam os bocios, e +foi ao jantar, sacrificando-se á regularidade das suas horas +inalteraveis de repasto. + +Ficaram o boticario e o professor de primeiras lettras, e mais os +lavradores, ruminando as palavras do fidalgo, e glosando-as de notas +illustrativas, ao alcance das capacidades. + +Um dos mais graves e anciãos lavradores, regedor, ensaiador e ponto nos +entremezes do entrudo exclamou: + +--Aquillo é que dava um deputado ás direitas! Um homem assim, se fosse a +Lisboa fallar ao rei, as contribuições haviam de acabar! + +--Isso não, perdoará vocemecê, tio José do Cruzeiro,--observou o +mestre-escola--os impostos é necessario pagal-os. Sem impostos, não +haveria rei nem professores de instrucção primaria (observem a modestia +da gradação!) nem tropa, nem anatomia nacional. + +O mestre-escola havia lido, repetidas vezes no _Periodico dos Pobres_, +as palavras _autonomia nacional_. Falhou-lhe d'esta feita a memoria, +lapso que não destoou em nenhumas orelhas, exceptuadas as do boticario, +que resmungou: + +--Anatomia nacional! + +--Que é?!--perguntou ao pharmaceutico um estudante de clerigo. + +--Parece-me que é asneira!--respondeu o outro com certa indecisão. + +Proseguiu, concluindo, o mestre-escola: + +--E, portanto os tributos, tio José do Cruzeiro, são necessarios ao +estado como a agua aos milhos. Ora, agora, que ha muito quem bebe o suor +do povo, isso ha; e aquelles, que deviam ser bem pagos, são os que menos +comem da fazenda nacional. Aqui estou eu, que sou um funccionario +indispensavel á patria, e receberia cento e noventa réis por dia, se não +trouxesse rebatidos seis recibos a trinta e seis por cento, de modo que +venho a receber seis e cinco! Que paiz!... O senhor morgado disse bem: +estamos chegados aos tempos dos Dioclecianos e Caligulas! + +O auditorio já vacillava em decidir qual dos dois era mais talhado para +ir fallar ao rei a Lisboa, se Calisto, se o mestre escola. + + + + +III + +*O demonio parlamentar descobre o anjo* + + +Fermentou na mente dos principaes lavradores e parochos das freguezias +do circulo eleitoral a idéa de levar ao parlamento o morgado da Agra de +Freimas. + +Os deputados eleitos até áquelle anno no circulo de Calisto Eloy, eram +coisas que os constituintes realmente não tinham enviado ao congresso +legislativo. Pela maior parte, os representantes dos mirandenses tinham +sido uns rapazes bem fallantes, areopagitas do café Marrare, gente +conhecida pela figura desde o botequim até S. Carlos, e affeita a beber +na Castalia, quando, para encher a veia, não preferia antes beber da +garrafeira do Matta, ou outro que tal ecónomo dos apollineos dons. + +Em geral, aquella mocidade esperançosa, eleita por Miranda e outros +sertões lusitanos, não sabia topographicamente em que parte demoravam os +povos seus comittentes, nem entendia que os aborigenes das serranias +tivessem mais necessidades que fazerem-se representar, obrigados pelo +regimen da constituição. Se algum influente eleitoral, prelibando as +delicias do habito de Christo, obrigára a urna e o senso commum a gemer +nos apertos do doloroso parto do paralta lisboeta, o tal influente +considerava-se idóneo para escrever ao deputado incumbindo-lhe trabalhar +na nomeação d'um vigario chamôrro, ou outra coisa, que foi denominação +de bando politico, em tempo que a politica não sabia sequer dar-se nomes +decentes. Pois o deputado não respondia á carta do influente, nem o +requerente sabia onde procural-o, fóra do Marrare. + +Por muitos factos d'esta natureza conspiraram os influentes do circulo +de Miranda contra os delegados do governo; e a idéa de eleger o morgado +foi recebida entusiasticamente por todos aquelles que o ouviram fallar +no adro da egreja, e por quantos houveram noticias da sua parlenda. + +O partido, que o mestre-escola ganhára de eloquente assalto, cedeu ao +imperio das rasoaveis conveniencias, e conglobou-se na maioria. A +verbosidade, porém, do professor não ficou despremiada, sendo nomeado +secretario da junta de parochia. + +Resistiu Calisto de Barbuda tenazmente ás solicitações dos lavradores, +que o procuraram com o mestre-escola á frente, facto que muito honra +este desinteresseiro e reportado funccionario. N'este encontro, o +professor excedeu o juizo avantajado que elle propriamente fazia de sua +vocação oratoria. Mostrou as fauces do abysmo escancaradas para tragarem +Portugal, se os sabios e virtuosos não acudissem a salvar a patria +moribunda. Calisto Eloy, enternecido até ás lagrimas pela sorte da terra +de D. João I, voltou-se para a esposa, e disse, como o agricultor +Cincinnatus: + +--Aceito o jugo! Assás receio, mulher, que os nossos campos sejam mal +cultivados este anno... + +Estavam proximas as eleições. + +A authoridade, assim que soube da resolução do morgado da Agra, preveniu +o governo da inutilidade da lucta. Não obstante, o ministro do reino +redobrou instancias e promessas, no intuito de vingar a candidatura de +um poeta de Lisboa, mancebo de muitas promessas ao futuro, que tinha +escripto revistas de espectaculos, e recitava versos d'elle ao piano, +cuja falta ou demasia de syllabas a bulha dos sonoros martellos +disfarçava. Redarguiu o administrador do concelho ao governador civil, +que pedia sua demissão para não soffrer a inevitavel e desairosa +derrota. + +Quiz assim mesmo o governo alliciar no circulo algum proprietario, que +contraminasse a influencia do candidato legitimista, fazendo-se eleger. +Alguns lavradores, menos afferrados á candidatura de Calisto, lembraram +á authoridade o professor de instrucção primaria, estropeando phrases +dos discursos d'elle, proferidos na botica. O administrador riu-se, e +mandou-os bugiar, como parvoinhos que eram. + +Por derradeiro, o governador civil fez saber ao ministerio que os povos +de Vimioso, Alcanissas e Miranda se haviam levantado com selvagem +independencia e tintam fugido com a urna para os desfiladeiros das suas +serras. Pelo conseguinte, não pôde ser proposto o poeta, que beliscado +na sua vaidade assanhou-se contra o governo, escrevendo umas feras +objurgatorias, as quaes, se tivessem grammatica á proporção do fel, o +governo havia de pôr as mãos na cabeça e demittir-se. + +Á excepção de uma lista, o morgado da Agra de Freimas teve-as todas. A +que não tinha o nome sympathico aos eleitores, votava em Braz Lobato, +professor de instrucção primaria, secretario da junta de parochia, e +ex-sargento das milicias de Mirandella. Parece que votára em si o +mestre-escola. A final, maculou a alvura do nobilissimo desprendimento +com que perorara em pró da eleição de Calisto! Fragilidade humana! + +Principiou, desde logo, o morgado eleito a refrescar a memoria com as +suas leituras de historia grega e romana; era isto entroixar sciencia e +enfreixar flores para o parlamento. Depois, releu a legislação dos bons +tempos de Portugal, afim de restaurar os costumes desbaratados, fazendo +remoçar as leis, que haviam sido o tabernaculo da moral humana guardado +pelo temor de Deus. Tosquenejou muitas noites sobre os bacamartes +pulvéreos; e, desde que a manhã raiava até horas de almoço, ia á margem +do Douro, que lhe lambia a ourela da quinta, declamar, como Demosthenes +nas ribas maritimas, ao stridor de uma açude e das rodas de duas +azenhas. Os moleiros, que o viam bracejar, e lhe ouviam o vozeamento, +benziam-se, pensando que o sabio treslêra, ou coisa má lhe entrara no +corpo. A sr.^a D. Theodora Figueirôa, vendo o marido assim tresnoitado, +seguia-o ás vezes, de madrugada, espreitava-o de um cabeço sobranceiro +ao rio, e benzia-se tambem, dizendo: «Dão-me com o homem doido!» + +Chegou o tempo de partir para a capital. + +O deputado mandou adiante por almocreve duas cargas de livros, nenhum +dos quaes tinha menos de cento e cincoenta annos. + +Seguia-se, na conducta dos machos portadores, uma carga de persunto e +orelheira, substancia quotidiana da alimentação de Calisto Eloy. + +Depois, outra carga de ancoretas de vinho velho, e na entrecarga uma +garrafeira com duas duzias de garrafas de vinho, que competia +antiguidade com a fundação da companhia. + +A guarda-roupa do procurador dos povos era modesta, salvo o chapéo +armado, calção de tafetá e espadim, com que elle, na qualidade de +fidalgo cavalleiro, costumava contribuir para a magestade das procissões +de Miranda, pegando ao pallio. + +A pessoa de Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda foi em liteira, +e chegou a Lisboa ao decimo quinto dia de jornada, trabalhada de +perigos, superiores á descripção de que somos capaz. + +De proposito, saltamos por cima dos pormenores da partida, para não +descrever o quadro lastimoso do apartamento de Calisto e Theodora. + +O apartamento de Theodora e Calisto era titulo para dois capitulos de +lagrimas. + + + + +IV + +*Asneiras da erudição* + + +Por fins de janeiro, chegou Benevides de Barbuda a Lisboa, e alugou casa +no bairro de Alfama, por lhe terem dito que, n'aquella porção da Lisboa +antiga, a cada esquina havia um monumento á espera de archeologo +competente. + +Ao cabo de tres dias, Calisto mudou-se para rua mais limpa, suppondo que +os lamaçaes de Alfama haviam tragado os monumentos, lamaçaes em que elle +desastradamente escorregára, e d'onde saíra mal-limpo, e assoviado por +marujos e collarejas, seus visinhos mais chegados. Mau agouro! A +primeira chimera de Calisto, seu tanto ou quanto scientifica, +atascara-se na lama d'aquella parte de Lisboa, que devia de ser a +_inclita Ulissea_ de Luiz de Camões! + +O deputado, sem embargo de ir habitar o quarto andar de uma casa lavada +de ares e muito desafogada na rua da Procissão, quiz-lhe parecer que a +atmosphera da capital não cheirava bem. + +Abriu um dos seus livros velhos, intitulado _Do sitio de Lisboa_ etc. +por Luiz Mendes de Vasconcellos, e leu: + +«...E assim, de todo o territorio de Lisboa, parece que da terra, fontes +e rios, respiram suavissimos vapores, amigos da natureza humana; porque +é coisa certissima que a benignidade dos ares d'este sitio, não só é por +natureza deleitosa, pelo seu temperamento, mas de grandissimo proveito +para algumas doenças, etc...» + +Calisto Eloy fechou o livro, e disse de si para comsigo, tomando uma vez +de rapé: + +--O meu classico não podia mentir. Este mau cheiro é desconcerto da +minha membrana pituitaria. + +E alcatroou segunda vez, as ventas com uma pitada desinfectante. + +Pareceu-lhe tambem pesada e salôbra a agua. + +Recorreu ao seu classico Luiz Mendes, no artigo _agua_, e leu que o +chafariz de El-Rei dava uma lympha gostosa e de suave quentura, a qual +limpava a garganta de toda a roquidão, e afinava as vozes, _e assim_, +dizia o classico, _não errará quem disser que ella é causa das boas +vozes que em Lisboa docemente ouvimos cantar; e tambem dos bons carões +que conservam as mulheres_. + +Em quanto aos bons carões das mulheres, Calisto, que, de um relancear +honesto de olhos, observára os rostos pallidos e esgrouviados de algumas +senhoras de Lisboa, não podendo arguir de fallacia o dizer de Luiz +Mendes, attribuiu á degeneração dos costumes e raças o descarnado e +amarellido das caras; no tocante á suavidade das vozes, ficou indeciso, +não querendo desmentir o seiscentista, nem formar conceito por uns +grunhidos de cantaróla barbara com que os vendilhões pregoavam os +comestiveis. + +Todavia, como a agua do chafariz de El-Rei aclarava o orgão vocal, e +Calisto, á força de berrar ao pé da açuda e azenhas, estava um tanto +rouco, mandou buscar um barril d'aquella salutifera agua, que o Mendes +de Vasconcellos compára á das fontes camenas. Bebeu á tripa fôrra o +deputado, e teve uma dôr de barriga precursora de febres quartãs. +Valeu-se ainda do seu classico, e por conta d'elle mandou buscar á +Pimenteira outro barril de agua, a qual, diz o citado author, _se busca +para os doentes de febres_. + +O velho criado e enfermeiro, quando viu o seu amo encharcado e cada vez +peior, foi de moto proprio em cata do cirurgião, o qual deu o morgado +rijo e fero em quinze dias com algumas beberagens quinadas. + +Desde então, Calisto Eloy não bebeu senão vinho, e melhorou da garganta +e do espirito, um tanto quebrantado, recitando, a cada garrafa que +abria, o proverbio da sagrada escriptura:--_Vinum bonum laetifical cor +hominis_.[4] + +Não obstante, o descredito do seu classico deveras lhe doeu, mormente +pelo tom de mofa com que o cirurgião enxovalhou as cãs do honrado e +lusitanissimo escriptor Luiz Mendes. + +Apenas convalescido, Calisto abria outro livro da mesma edade, escripto +por identico motivo, para averiguar se o author do _Sitio de Lisboa_ +claudicára como patranheiro em materia de chafarizes. + +O bacamarte consultado era a _Fundação, antiguidades e grandezas da +muito insigne cidade de Lisboa_, etc., escripto pelo capitão Luiz +Marinho de Azevedo. + +--Cá está!--exclamou Barbuda em soliloquio--cá está explicada a minha +dôr de barriga! era destemperança do figado. + +O deputado acabava de ler o seguinte periodo de Luiz Marinho: + +«Encareceu Plinio muito a agua, que vinha a Roma da fonte Marcia, e +Vitruvio a das fontes Camenas, porque nasciam quentes e eram saborosas +no gosto, sendo por esta causa muito sadias e proveitosas para conservar +saude. E posto que (_sic_) Luiz Mendes de Vasconcellos queira que por +estas propriedades tenha a agua do charariz d'El-Rei as mesmas +qualidades; a experiencia mostra que, sendo suave no gosto, o não é nos +effeitos, porque lhe attribuem os medicos a destemperança do figado, que +muitas pessoas padecem, e de que procedem varias enfermidades.» + +--Fie-se lá a gente!--monologou o deputado.--É preciso cuidado com os +classicos a respeito da agua de Lisboa. + +E, proseguindo na leitura, encontrou confirmada a maravilha de se +afinarem as vozes com o uso da agua do chafariz d'El-Rei, por estes +termos: + +«É causa das boas vozes dos musicos naturaes de Lisboa, ou que n'ella +moraram, que tanto lustram em sua real capella, e na da corte de +Madrid[5], conventos e egrejas cathedraes d'este reino e do de Castella: +excellencia que tambem se acha nas mulheres, cuja feminina voz enleva os +sentidos, como se experimenta ouvindo cantar as religiosas dos mosteiros +d'esta cidade, em que mais parece se ouvem córos de anjos que vozes +humanas.» + +Á primeira vez que saiu, andou Calisto em demanda dos conventos de +freiras, e das festividades de cada um. Disseram-lhe, em face de um +repertorio, que a mais proxima festa era, no domingo immediato, em Santa +Joanna. Foi Calisto á festa para ouvir cantar as freiras. Não lhe +pareceu cantoria o que ouviu: eram tres narizes roufinhando destoantes. +Calisto saiu do templo, foi ao palratorio, chamou a madre-porteira, e +disse-lhe, com a sua candura de bom homem, que recommendasse ás senhoras +cantoras a agua do chafariz d'El-Rei. A madre ficou passada do +disparate, e voltou-lhe as costas. + +Como quer que o morgado da Agra de Freimas não fosse homem que estudasse +as materias perfunctoriamente, quiz esquadrinhar a respeito de aguas +toda a substancia d'este importante elemento. + +Decepções sobre decepções! + +Quando morára na Alfama, observára elle que, n'aquelle bairro, as +mulheres eram sardentas, rôxo-terra, e crespas de pelle. Pois o classico +Marinho saía-lhe com este desmentido aos seus proprios olhos: + +«Tem mais outra propriedade occulta a agua do chafariz (d'El-Rei) que é +conservar os rostos das mulheres, que com ella se lavam, em uma alvura +engraçada, e côr natural tão encarnada, que não necessita de unturas, +nem confecções, com que ellas se envelhecem antes de tempo: _o que se vê +claramente na vantagem que as de Alfama levam ás dos outros bairros no +carão, rosto mimoso, e côr que logo se conhece por natural_; e, se +bastára isto, por desengano ás que as usam postiças, não fôra pequeno o +fructo, que se tirára de ler este paragrapho, havendo quem lh'o +recitasse.» + +Calisto Eloy certamente não iria recitar o paragrapho a nenhuma senhora +pallida e magra, depois da incivil resposta, que lhe deu a porteira de +Santa Joanna, e mais ainda com a desconfiança em que o puzeram os bons +authores da sua predilecção. + +Parece, porém, que elle andava aporfiado em afogar o seu recto juizo nas +aguas de Lisboa. Lêra o deputado que tambem o _chafariz dos cavallos da +rua Nova_ tinha prodigiosas virtudes em cura de molestias d'olhos. +Procurou a rua Nova, que o terramoto de 1755 sotterrára; procurou o +chafariz, que segundo elle, devia de estar na rua dos Capellistas ou +Algibebes successoras d'aquella rua. Ninguem lhe dava conta do _chafariz +dos cavallos_; e alguns logistas interrogados suppuzeram que o +provinciano não podia beber em fonte que não tivesse aquella +applicação.[6] + +O erudito respondia aos chacoteadores. + +--Pois saibam que se perdeu um mirifico chafariz! Resam os meus livros +que as saluberrimas aguas d'esta fonte perdida tinham a propriedade +occulta de engordar as cavalgaduras que bebiam d'ella; e acrescenta +Marinho d'Azevedo, textualissimas palavras: _e quando ella faz tão +conhecidos effeitos nos animaes, os fizera nos corpos humanos, se a +beberam em sua fonte_. + +Um bacharel, que ouvira as lastimas de Calisto, disse a um visinho a +meia-voz: + +--Este homem parece que tem uma cavalgadura magra no corpo! + +Com estas zombarias é que em Portugal os sabios são premiados... Se +Calisto fosse um parvo, o governo dava-lhe um subsidio até elle achar o +chafariz dos cavallos. + + + + +V + +*Estreia parlamentar de Calisto* + + +Antes de apresentar-se na sala das sessões, Calisto Eloy de Barbuda leu +o _Regimento interno da camara dos deputados_, juntamente com um collega +transmontano, o abbade de Estevães, sujeito de annos, e doutrina +monarchico-absolutos. + +O morgado de Agra embicou logo na fórma do juramento, e disse que não +jurava sem aspar as palavras que o obrigavam a ser inviolavelmente fiel +á carta constitucional. O abbade quiz amaciar-lhe a rigidez de +espiritos, absolvendo-o do perjurio, que não era serio, porque já de si +o juramento era irrisorio e mera brincadeira de nenhum peso na balança +da justiça divina. + +E allegava o clerigo esclarecido que os representantes da nação, com +quanto jurassem fidelidade á religião-catholica-apostolica-romana, eram +aliás atheus; jurando fidelidade ao rei, injuriavam-n'o nas gazetas; +jurando fidelidade á nação, avexavam-n'a de tributos, e alguns a queriam +fundir na Hespanha. Comedia e comedoria! exclamava o abbade. Se os +deixarmos a elles jurar e mentir á sua vontade, a monarchia portugueza +d'aqui a pouco não terá mais realidade no mappamundi que a ilha +Berataria do Miguel Cervantes, ou as ilhas beatas do poeta Alceu! + +A respeito das ilhas beatas do poeta Alceu, saiu-se Calisto de Barbuda +com uma despropositada torrente de citações, em que a paciencia do padre +esteve a pique. Era perigoso dar-lhe azo ás ejecções da sciencia velha, +que não havia abafar-lhe as valvulas ejaculatorias. + +O sabio, lá na sua terra, nunca tivera auditorio digno; escutava-se a si +proprio; admirava-se e applaudia-se com perdoavel, senão legitima +vaidade; faltava-lhe, porém, alguma coisa, a qual coisa era o abbade de +Estevães. + +Este clerigo, bem que tivesse exercido as funcções desembargatorias na +relação ecclesiastica de Braga, era menos lettrado que o antiquario de +Caçarelhos, mas um tanto mais illustrado em critica da historia. Por +delicadesa, fingia engulir as araras que o morgado lhe ministrava +guizadas pelo monge de Alcobaça Bernardo de Brito, por Fernão Mendes e +Miguel Leitão d'Andrade, e centenares de outros escrevedores de polpa, +que mentiram «mais do que permitte a força humana.» + +Convencido da irresponsabilidade seria do juramento parlamentar, foi +Calisto Eloy de Silos empossar-se da sua cadeira na representação +nacional. Porém, proferido o juramento, e antes de sentar-se, não teve +mão de si, e disse: + +--Sr. presidente! + +O abbade de Estevães ainda ciciou um _cio_, como quem lembrava ao +collega que o _Regimento_ lhe tolhia o dom da palavra assim abrupta +n'aquelle acto; mas o presidente, como esperasse alguma extraordinaria +reflexão, deixou violar o artigo 30.^o do titulo e ouviu-o. + +Continuou Calisto: + +--Sr. presidente! Nos primordios da humanidade, a boa fé dispensava os +juramentos: hoje em dia, para tudo se faz mister jurar, porque a boa fé +desappareceu _velut umbra_ da face da terra. Se bem me recordo, os casos +de juramentos mais antigos lêem-se nas sagradas escripturas. Abrahão +jurou ao rei de Sodoma e ao rei Abimelech; Elieser a Abrahão; e Jacob a +Labão... + +O presidente, como o riso andasse já contagioso na sala e galerias, +observou: + +--O sr. deputado está fóra das prescripções do regimento. Peço licença +para o convidar a sentar-se do lado que lhe convier. + +--Eu concluo em duas palavras, tornou Calisto, conformando-me com o +regimento, e mais ainda com o jurisconsulto Struvius, o qual no seu +_jurisprudencia civilis syntagma_, diz que não deve exigir-se o +juramento quando póde temer-se o perjurio. Preceito de mui remontada +moralidade; sr. presidente! Preceito, cujo despreso, é a causa +efficiente das apostasias que deshonram, dos sacrilegios que condemnam a +alma, e estampam na testa dos precitos lemma de opprobrio indelevel. +Disse. + +E foi sentar-se, flauteando cromathicamente uma pitada, á beira do seu +amigo abbade de Estevães. + +A maior parte dos legisladores estava como indecisa entre rir-se ou +espantar-se do aprumo com que o transmontano, atando facilmente as +phrases, atirava á cara dos legisladores um murro indirecto. Tres brados +lhe haviam victoriado o cabeçalho do discurso: eram expansões de +deputados legitimistas, que entre si se ficaram victoriando de terem um +homem bastante audaz, se necessario fosse, para fallar ao imperante como +João Mendes Cicioso fallara a El-Rei D. Manuel. + +--Fallou á portugueza, sr. morgado; mas extemporaneamente--murmurou-lhe +o abbade de Estevães. + +--A verdade é de todas as horas, abbade--redarguiu Calisto--mal de nós +se havemos de esperar que ella caia a talho de fouce!... Deixem-me ir +assim, que os meus constituintes assim me querem, Catão e Cicero, +Hortensio e Demosthenes não fallavam pelo regimento. O conselheiro que +disse a Affonso IV «senão procuremos outro rei» não pediu licença a +presidente algum, nem viu no regimento se era hora de lh'o dizer. Eu li +de tento e vagar o regimento, amigo abbade; e a mim me quiz parecer que +tudo aquillo é um modo, o mais cerimonioso, de fazer callar aquelles +cujos dizeres desagradam á presidencia, por via de regra, mancommunada +com o governo. + +--_Prudentia in omnibus_, diz o sabio--retorquiu o abbade.[7] + +O morgado accudiu logo: + +--_Estote prudentes, sicut serpentes et simplices sicut columbae_, disse +Jesus, o sabio dos sabios.[8] + + + + +VI + +*Virtuosas parvoiçadas* + + +A estreia parlamentar de Calisto de Barbuda fez hyperbolico estrondo nos +salões da aristocracia, legitimista, que abriu suas portas ao +esperançoso Berryer de Portugal. + +Algum tempo se andou furtando o morgado ás solicitadas apresentações. +Impediam-n'o o natural acanhamento de provinciano, e o affecto +entranhado aos seus classicos, que lhe eram o deleite das horas feriadas +do dia, e dos serões do inverno. + +Como á força, fôra elle uma noite, ao theatro lyrico, em companhia do +abbade de Estevães, que amava a musica pelo muito amor que tinha á +guitarra, delicias da sua mocidade, e consoladora da velhice, já saudosa +do tempo em que o coração lhe gemia nos bordões do instrumento +apaixonado. + +Calisto inteirou-se do enredo da opera, e assistiu em convulsões ao +espectaculo, que era a _Lucrecia Borgia_. Saiu da platéa frio de horror +e protestou, em presença de Deus e do abbade, nunca mais contribuir com +oito tostões para a exposição das chagas asquerosas da humanidade. +Rompeu-lhe então do imo peito esta exclamação sentida: _Amici_, noctem +_perdidi_! Melhor me fôra estar lendo o meu Euripides e Seneca, o +tragico! Medéa não mata os filhos cantando, como a scelerada Lucrecia! +As devassidões postas em musica, dão bem a entender que geração esta é! +Brinca-se com o crime, abafando-se os gemidos da humanidade com o +stridor das trompas e dos zabumbas. É um tripudio isto, amigo abbade! +Quem sae do seio da natureza rude, e de repente se acha à lavareda +d'estes focos das grandes cidades, é que atina com a providencial +phylosophia d'estas tramoias de theatros! + +Assanhou o abbade de Estevães o azedume do fidalgo, dizendo-lhe que o +estado subsidiava o theatro de S. Carlos com vinte contos de réis +annuaes. Calisto fez pé atraz, e exclamou: + +--_Obstupui_!... O abbade zomba!... _O estado_!... o meu collega disse o +estado! + +--Sim o thesouro... confirmou o clerigo. + +--A res publica? o dinheiro da nação? + +--Certamente: pois de quem hade ser o dinheiro, senão da nação? + +--Pois eu e os meus constituintes estamos pagando para estas cantilenas +do theatro de Lisboa! + +--Vinte contos de réis. + +Calisto Eloy correu a mão pela fronte humedecida de suor civico, e +sentou-se nas escadas da egreja de S. Roque, por que ao espanto, colera +e dôr d'alma seguiram-se-lhes caimbras nas pernas. Minutos depois, +ergueu-se taciturno, despediu-se do abbade, e foi para casa. + +Os alvores da primeira manhã acharam-no passeando e declamando na +estreita saleta do seu aposento. Via-se-lhe no rosto a pallidez dos +Fabricios. + +Ás onze horas entrou na camara. Dir-se-hia que entrava Cicero a delatar +a conjuração de Catilina. Deu nos olhos dos seus tres correligionarios +que entre si disseram: + +--Calisto vae fazer alguma interpellação de grande alcance! + +Acabava de sentar-se quando um deputado do Porto se ergueu, e disse: + +--Sr. presidente. Muito a meu pezar, e talvez da camara, volto de novo a +expender as razões já tres vezes inutilmente expendidas sobre o dever, e +justiça com que o Porto reclama um subsidio para o seu theatro lyrico. +Sr. presidente... + +--Peço a palavra! bradou Calisto Eloy, erguendo-se inteiriço e +fulminante--Peço a palavra! + +O representante do Porto expendeu a quarta edição peorada das suas +idéas, sobre o dever e justiça, com que o theatro de S. João reclamava +subsidio, e sentou-se. + +--Tem a palavra o sr. Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda, +disse o presidente. + +O morgado da Agra escorvou-se de rapé, trombeteou a pitada, e orou +d'este theor: + +--Sr. presidente. Em Grecia e Roma as festas annuaes eram solemnisadas +com espectaculos. Os cidadãos timbravam em se dispenderem aporfiadamente +para o maior realce das representações theatraes. Na Grecia, o archonte +eponymo, a cargo de quem o estado delegava as despezas das +representações, esmava o dispendio de cada uma em dois talentos, +3:250$000 réis, pouco mais ou menos da nossa moeda. Este dispendio +faziam-no espontaneamente os ricos; e se era o thesouro nacional, que +adiantava as despezas, a concorrencia convidava pelo preço diminutissimo +do _theorikon_ ou entrada, que correspondia ao vintem da nossa moeda. E +de Pericles em diante, sr. presidente, tomou o estado á sua conta o +pagamento das entradas dos pobres. Entre os romanos, eram os poderosos, +como Lepido e Pompeu, e, ao diante, os imperadores, que sustentavam do +seu bolsinho as representações theatraes. Os imperios opulentos, sr. +presidente, os imperios, que digeriam a substancia do universo, os +imperios que edificavam theatros para trinta mil espectadores, não +impunham aos povos a obrigação de se privarem do necessario para +abrilhantarem Athenas ou Roma, com luxuosas superfluidades. Os serranos +das provindas do Lacio não eram constrangidos a pagarem as delicias dos +patricios romanos. Estes, sr. presidente, quando queriam divertir-se em +espectaculos theatraes, pagavam-os, e regalavam a gente pobre em vez de +a obrigarem a entrar no erario com o estipendio dos actores. (_Sussurro +e alguns «apoiados» provocados pelo sussurro_.) + +Sr. presidente--continuou o orador, tomando rapé com a soffreguidão de +quem teme que o raio inspirativo se arrefente--sr. presidente! Eu tenho +o desgosto de ter nascido n'um paiz, em que o mestre-escola ganha cento +e noventa réis por dia, e as cantarinas, segundo me dizem, ganham trinta +e quarenta moedas por noite. Eu sou de um paiz, sr. presidente, em que +se pede ao povo o subsidio litterario para pagar com elle as tramoias da +Lucrecia Borgia. Eu sou de um paiz, pobrissimo, em que a veia da nação +exangue soffre cada anno a sangria de algumas duzias de contos para +sustentar comediantes, farcistas, funambulos e dansarinas impudicas! Sr. +presidente, v. ex.^a sorriu-se, vejo que a camara está sorrindo, e eu +ouso dizer a v. ex.^a e aos meus collegas, como o poeta mantuano: _sunt +lacrimae rerum_. Aqui é o ponto de se carpirem por seus filhos aquelles, +que se cuidam muito avantajados em civilisação a seus avós. Aqui é o +ponto de nos alembrarmos dos israelitas livres, que sorriam em +Jerusalem, e choravam depois escravos ás margens do rio estranho. Depois +será o declamarmos com o epico: + + Em Babylonia, sobre os rios, quando + De ti, Sião sagrada, nos lembramos, + Alli com gran saudade nos sentamos + O bem perdido, miseros, chorando. + + Os instrumentos musicos deixando + +Peço á camara que repare nos tres versos, que completam a quadra e a +prophecia: + + Os instrumentos musicos deixando + Nos estranhos salgueiros penduramos, + +_Hic_, sr. presidente: + + Quando aos cantares que já em ti cantamos + Nos estavam imigos incitando. + +Nos _cantares_, sr. presidente, é que bate o ponto do meu discurso: +(_Hilaridade: susurro nas galerias: o presidente tange a campainha_). + +O _orador_:--Sr. presidente! que me não queiram persuadir de que estou +em casa de orates! Que é isto? Que bailar d'ebrios é este em volta de +Portugal moribundo? Como podem rir-se os enviados do povo, quando um +enviado do povo exclama: Não tireis á nação o que ella vos não póde dar, +governos! Não espremais o ubre da vacca faminta, que ordenhareis sangue! +Não queiraes converter os clamores do povo em cantorias de theatro! Não +vades pedir ao lavrador quebrado de trabalho os ratinhados cobres das +suas economias, para regalos da capital, em quanto elle se priva do +aprezigo de uma sardinha, por que não tem uma pogeia com que compral-a. + +E vinte contos e trinta contos de subsidios que moralidade fomentam, que +lampadas accendem nos altares da civilisação? Eu peço á camara que leia +attentamente o discurso theologico do padre Ignacio de Camargo, lente no +real collegio de Salamanca, ácerca dos theatros. Não menos +fervorosamente peço a v. ex.^a e ás camaras que leiam as mirificas +paginas do nosso oratoriano Manuel Bernardes, sobre representações +theatraes. O que são comedias? Responda por mim o eminente moralista, e +mais que todos vernaculissimo escriptor: «Os assumptos das comedias pela +maior parte são impuros cheios de lascivos amores, de galanteios +profanos, de papeis amorosos, de rondas, passeios, musicas, dadivas, +visitas, solicitações torpes, finezas loucas, empenhos desatinados, +chimeras, emprezas impossiveis, que as solicita ordinariamente um +criado, uma mulher terceira, uma chave, um jardim, uma porta falsa, um +descuido do pae, ou do irmão, ou do marido da dama, e tudo isto costuma +parar em uma communicação deshonesta, em um incesto, ou em um adulterio, +em que ha muitos lances torpes, louvores lisongeiros da formosura, +expressões affectadas de amor, promessas de constancia, competencias de +affectos, temores, ciumes, suspeitas, sustos, desesperações, e em summa, +uma gentilica idolatria, ajustada pontualmente ás infames leis de Venus +e Cupido, e aos torpes documentos de Ovidio no livro de _Arte amandi_.» + +_Vozes da galeria_: _Muito bem_! _Bravo_! (Espirram as risadas de varios +sujeitos. Gargalhada compacta). + +_O orador_: Sr. presidente! Eu irei contar aos povos, que me aqui +mandaram, as gargalhadas com que fui recebido no seio da representação +nacional, por que ousei dizer que um paiz carregado de dividas não +instaura divertimentos attentatorios dos bons costumes com o dinheiro da +nação. Irei dizer aos meus constituintes que se desfaçam das arrecadas e +cordões de suas mulheres e filhas, para enfeitarem as gargantas +despeitoradas das Lucrecias Borgias que custam quarenta libras por +noite! + +Sr. presidente, nossos avós, os coevos d'el-rei D. Manuel e D. João III, +tiveram theatros. Era no tempo em que as frotas da India rompiam Téjo +acima carregadas de oiro. O Plauto portuguez deliciava os paços dos +reis, e os pateos e tablados do povo. Quando se abriu o erario para +locupletar o alto engenho de Gil Vicente? Quando foi necessario ir mundo +fóra em cata de gritadores que vendem tão caro o ar dos pulmões vibrado +no mechanismo da garganta? + +_Uma voz_: Fez-se a civilisação depois. + +O _orador_: E a pobreza tambem. A civilisação que canta e dança, em +quanto tres partes do paiz choram. A civilisação dos civilisados que +dizem: _Coronemus nos rosis antequam marcessant_[9]. A civilisação do +perdulario irrisorio, que traja de luzente lemiste no exterior, e +aconchêga da pelle uma camisa surrada e fetida. Magnifica civilisação! +Não sei de selvagens que nol-a possam invejar, e queiram cambiar +comnosco a sua selvatiqueza! + +Sr. presidente gosem nas boas horas os sátrapas da capital os deleites +da sua civilisação theatral. Dispendam-se, arruinem-se, doudejem com +essas ficções e visualidades, que relembram factos de alto escandalo que +não deviam ser vistos á luz da civilisação, que o meu illustre collega +preconisa. Se gostam, não serei eu, homem de outros tempos e gostos, +quem lhes impugne a racionalidade de seus passatempos. O que eu +requeiro, em nome da justiça e da pobreza do paiz, é que se não sizem os +povos provinciaes para manutenção dos divertimentos de Lisboa. O que eu +contesto é o direito de me fazerem pagar a mim e aos meus visinhos as +notas garganteadas dos ganha-pães, que não tem na sua terra officio +honesto em que vivam com seriedade e utilidade commum. O que eu +sobretudo lamento, sr. presidente, é o silencio desapprovador dos meus +collegas. Sou eu só: serei eu só o vencido. Não importa! _Victis +honos_![10] As pequenas coisas tratam-n'as os pequenos: _Parvum parva +decent_. Eu abro mão das glorias promettidas ao nobre collega, que, +pouco ha, pediu subsidio para o theatro do Porto. Dêem-lh'o. Desenrolem +a onda aurifera do Pactolo do nosso thesouro até Braga. Quem pede +subsidio para o theatro bracharense? A equidade reclama-o. O meu circulo +tambem quer um theatro. Theatro e subsidio para todo o logarejo onde +morar um contribuinte. Estamos em vida ficticia como paiz independente. +Somos como o sapateiro, que se veste de principe no entrudo. Pois bem! +Comedia geral! Seja Portugal um theatro desde Monção ao cabo da Roca! +Peço uma companhia italiana para a minha terra. Os meus constituintes +querem provar o sabor das delicias que tem estipendiadas em Lisboa. Se +eu não posso, sr. presidente, levar-lhes a boa nova de que vão ter +estradas que os liguem á sua nação, seja-me permittida a gloria de lhes +levar a Lucrecia Borgia, a incestuosa e envenenadora Lucrecia, que os ha +de edificar e converter á civilisação. Disse. + +_Algumas vozes por entre frouxos de riso_: Muito bem! Bravissimo! + +Eram as ironias dos sublimes engenhos, que, ás vezes, não sabem como hão +de havel-as com espiritos selvaticos do desplante montezinho de Calisto +de Barbuda. + + + + +VII + +*Figura, vestido, e outras coisas do homem* + + +Assim que os personagens dos romances começam a ganhar a estima ou +aversão de quem lê, vem logo ao leitor a vontade de compor a physionomia +do personagem plasticamente. Se o narrador lhe dá o bosquejo, a +imaginativa do leitor aperfeiçoa o que sae muito em sombra e confuso no +informe debuxo do romancista. Porém, se o descuido ou proposito deixa ao +alvedrio de quem lê imaginar as qualidades corporaes de um sujeito +importante como Calisto Eloy, bem póde ser que a intuição engenhosa do +leitor adivinhe mais depressa e ao certo a figura do homem, que se lh'a +descrevessem com abundancia de relevos e rara habilidade no estampal-os +na phantasia estranha. + +Não devo ater-me á imaginação do leitor n'este grave caso. Calisto Eloy +não é a figura que pensam. Estou a adivinhar que o inquadraram já em +molde grotesco, e lhe deram a edade que costuma authorisar, mórmente no +congresso dos legisladores, os desconcertos do espirito, exemplificados +pelo deputado por Miranda. Dei eu azo á falsa apreciação, por não +antecipar o esboço do personagem. Acudo pelos creditos do personagem. + +Calisto Eloy, n'aquelle tempo, orçava por quarenta e quatro annos. Não +era desageitado de sua pessoa. Tinha poucas carnes, e compleição, como +dizem, afidalgada. A sensivel e dessimetrica saliencia do abdomen +devia-se ao uso destemperado da carne de porco e outros alimentos +intumecentes. Pés e mãos justificavam a raça que as gerações vieram +adelgaçando de carnes. Tinha o nariz algum tanto estragado das invasões +do rapé e torceduras do lenço de algodão vermelho. A dilatação das +ventas e o escarlate das cartilagens não eram assim mesmo coisa de +repulsão. Estes narizes, se não se prestam á poesia lyrica, inculcam a +seriedade de seus donos, o que é melhor. Eram assim os narizes de José +Liberato Freire de Carvalho e de Silvestre Pinheiro. Quasi todos os +estadistas de 1820 se condecoravam com a rubidez nazal. Não sei que ha +n'isto indicativo de estudo, gravidade e meditação; mas ha o quer que +seja. + +As restantes feições de Calisto Eloy de Silos eram regulares, a não +querermos encarecer a alta e brunida fronte, que poderia servir de +rotulo a um talento abalisado, se o inimigo da Lucrecia Borgia não +fosse, a meu ver, capacidade eminente, viciada pela educação e tradições +de familia. Excedia a estatura meã, e era direito de pernas. No tronco +havia tal qual inclinação, que denunciava o arqueamento da espinha por +effeito da incansavel leitura, e minguado exercicio. + +O que certamente o desairava era o traje. Calisto Eloy vestia de briche +da Gollegã, e dos alfaiates de Miranda. A gola e portinholas da casaca +eram serias de mais para estes tempos em que um homem se veste hoje á +moda, e d'aqui a um mez corre o perigo de sair ridiculamente entrajado. +Não se sabe a razão por que o morgado da Agra se affeiçoara ás calças +rematando em polainas abotoadas de madreperola. Vestira assim umas +pantalonas em 1833, quando se matrimoniou com D. Theodora. Ou por que a +esposa gostasse do feitio das calças, ou porque a moda se mantivesse, +mantida pelo fidalgo, na comarca de Miranda, o certo é que desde aquella +época todas as pantalonas de Calisto foram talhadas pelas primeiras, e a +abotoadura sempre aproveitada. + +Ora, isto em Lisboa fez uma rasoavel impressão, especialmente no +espirito observador dos gaiatos. Um d'estes desbragados ousou chamar +gebo ao legislador; e outro levou a gandaíce ao extremo de planear-lhe +um assalto ao chapéo. + +Fartas vezes o advertira o abbade de Estevães da necessidade de reformar +o vestido, e entrajar-se conforme o costume. Calisto respondia que não +tinha que intender em costumes, que não fossem, em lusitanissima phrase, +ruins costumes. Em quanto a vestiduras, dizia que o estofo das suas era +portuguez como elle, e o feitio d'ellas era o que mais se aproximava das +usanças dos seus maiores, os quaes andavam mais apontados no trajar do +espirito que nas galanices do corpo. Salvo o abbade, ninguem se atrevia +a contrarial-o, desde que a um joven deputado, que lhe observou o +archaismo do trajo perguntou se elle era o alfaiate da camara, ou se as +modas tinham fiscal subsidiado no parlamento. + +Aconteceu ainda que outro deputado lhe analysasse galhofeiramente as +botas aguçadas no bico. Sabia Calisto Eloy que este deputado era filho +de um sujeito de Espozende que começara sua vida fazendo botas. Assim, +pois, que o chocarreiro subiu da analyse das botas para a das polainas +da calça, teve mão d'elle, dizendo-lhe: «agora, alto ahi! Em quanto o +senhor escarneceu o feitio das minhas botas, estava no seu officio e no +seu direito. Das botas acima, não. É o caso de eu lhe dizer como Apelles +ao sapateiro, que lhe censurava a pintura: _ne sutor ultra crepidam_; o +que em linguagem quer dizer: «não analyse o sapateiro acima da chinela.» +Os circumstantes e a victima fizeram-se da côr do nariz de Calisto. + +Estas passagens, significativas do salgado espirito do provinciano, +sobre-doiravam a reputação que o trazia nas boas graças da fidalguia +realista. + +Sabia Calisto, como profundo genealogico, que existia illustrissima +parentela sua em Lisboa; porém, pesavam graves motivos para que elle não +quizesse recordar parentesco remoto com tal gente. Era o grão caso que, +nos tempos do mestre d'Aviz estava na côrte um Martim Annes de Barbuda, +da casa de Agra de Freimas, o qual conjurára com o Mestre na façanha do +assassino do conde Andeiro. Até aqui havia muito para que o honrado +portuguez se desvanecesse de tal parente. Martim Annes, todavia temeroso +ou arrependido depois do feito, passou-se a Leonor Telles, e com ella e +sua familia se foi a Hespanha, onde morreu, desprezado e amaldiçoado dos +portuguezes. Na época de D. Duarte, os descendentes de Martim voltaram +ao reino, e conseguiram perdão e posse dos seus haveres confiscados para +a corôa. Eis aqui a razão do odio de Calisto á raça do máo portuguez. + +Estava elle, um dia, folheando a reformação das leis de 1760 por Diogo +de Pina, no intento de cravejar de erudição um projecto de lei +sumptuaria, quando lhe annunciaram a visita do conde do Reguengo. +Calisto estremeceu, e disse de si comsigo: «Vens ver o que eram e o que +são os legitimos Barbudas de Agra de Freimas... Sê bem vindo!» + +Entrou o conde, e disse com alegre alvoroço: + +--Venho apertar nos braços um parente, que me honra tanto com a +intelligencia, quanto seus avós me honraram com a lança. + +Calisto permaneceu immovel na cadeira, e, tirando os oculos de prata, +disse: + +--Falta saber se meus avós se honraram dos avós de v. ex.^a + +--Eu sou o conde do Reguengo---disse o outro, attonito. + +--Já sei. O conde do Reguengo é o decimo sexto varão de Martim Annes de +Barbuda? + +--Sou eu mesmo. + +Calisto ergueu-se, montou os oculos, foi mui depausa e a passo mesurado +á estante dos seus livros, e tirou um in-folio. Voltou a sentar-se, +mandou sentar o conde, abriu o livro e disse: + +--Esta é a chronica dos reis, escripta por Duarte Nunes de Leão, e +mandada publicar por D. Rodrigo da Cunha, arcebispo de Lisboa. Abro a +pagina vinte e tres, e peço ao excellentissimo conde do Reguengo que +leia. + +O conde recebeu entre mãos a chronica, e leu o seguinte desde o +paragrapho indigitado por Calisto: «As razões que ao Mestre moviam a +apressar sua ida para fóra de Portugal, era conhecer a condição da +Rainha, que, além do natural das mulheres, que é serem vingativas, ella +o era mais que todas; mas, como mulher de grandes espiritos, e astuta +que era, onde maior odio tinha, alli mostrava mais benevolencia, pelo +que o Mestre tinha por mui suspeita a mostra de amizade que lhe fazia, e +se temia mais d'ella, e tanto cria que lhe tinha maior odio, quanto mais +affeiçoada era ella ao conde João Fernandes, de quem elle a apartou. +Ajuntava-se a isto ter ella mandado chamar a El-Rei de Castella. Pelo +que, sendo ella Rainha, e tendo o favor d'El-Rei presente, não confiava +o Mestre que sua vida estava segura, pois em vida d'El-Rei D. Fernando, +não sendo aggravada d'elle, o fez prender e o faria matar. Além d'isto, +(as seguintes palavras estavam sublinhadas na chronica e emendadas com +um _proh dolor_! da letra de Calisto) muitos dos que se a elle chegaram +o deixavam e se passavam á Rainha, como fez Vasco Porcalho, e Martim +Annes de Barbuda, commendadores de sua ordem, e Garcia Peres Craveiro de +Alcantara, que para elle se viera.» + +O conde entregou a chronica, e disse n'um tom de abborrido e confuso: + +--E então? + +--É v. ex.^a da progenie d'esse Barbuda infamado na pagina eterna de +Duarte Nunes? + +--Sou--respondeu ufanamente. + +--Pois vá em paz, que eu não procedo d'esses Barbudas. Eu sou o decimo +sexto varão de Gonçalo Pero de Barbuda, que morreu em Aljubarrota, na +ala dos namorados. Gonçalo era irmão de Martim: mas, ao entrar na +batalha, pediu a D. João I que lhe legitimasse um filho natural, para +que, no caso d'elle perecer, os filhos do irmão trêdo lhe não manchassem +o solar. Gonçalo, morreu e D. João I cumpriu a vontade do portuguez de +lei. + +--O que d'ahi infiro--disse sarcasticamente o conde--é que v. ex.^a +procede de um filho natural. + +--A mãe do filho natural era abbadessa de Vairão, da familia dos +Alvins--redarguiu triumphantemente Calisto. + +--Coito damnado!--retorquiu o conde. + +--Discutamos esses pontos graves--voltou serenamente o morgado da Agra, +tomando rapé.--A decima segunda avó de v. ex.^a Jeronyma Talha, era +judia de Cezimbra, e esteve como covilheira dos sobrinhos de um Heitor +de Barbuda com quem casou. Sua tresavó enviuvou sem filhos e casou com +um filho do capellão. D'este matrimonio nasceu seu avô Luiz de Almeida +de Barbuda, que foi o primeiro conde do Reguengo. Reconciliemo-nos, sr. +conde, em quanto ao sangue de coito damnado, se v. ex.^a quer emparelhar +o filho do padre com a abbadessa de Vairão, tia da mulher de Nuno +Alvares Pereira por Alvins. + +O conde ergueu-se accendido em raiva, e disse: + +--No que não podemos emparelhar, sr. Calisto, é na tolice. Vou-me +embora, com a vergonha de ter aqui vindo. + +--Não vá, acudiu Calisto Eloy, que eu é que me hei de forrar á vergonha +de dizer que v. ex.^a veiu cá. + +E, passando a penna de ferro na pagina da chronica, rasgou a linha que +dizia _Martim Annes de Barbuda_. + + + + +VIII + +*Faz rir o parlamento* + + +Andava o animo de Calisto Eloy martellado pelo desejo de pôr cobro ao +luxo da gente de Lisboa, sendo grande parte n'este intento o haverem-lhe +os dois pisa-verdes do parlamento mettido a riso a sua casaca de briche. +Impugnavam-lhe a idéa o abbade de Estevães, e outros correligionarios +cordatos, mais entrados do espirito do seculo, e convencidos da +inutilidade de atravessar represas á torrente caudal da indole de cada +época. O deputado de Miranda respondia que viera de sua terra a +cauterisar as chagas do corpo social, e não a cobril-as de pachos e +lenimentos palliativos em respeito á sensibilidade dos doentes. Rebelde +ás admoestações sisudas de amigos, que lhe receavam alguma queda mortal +no conceito da camara, Calisto, provocado por um debate sobre importação +e direitos de objectos de luxo, pediu a palavra, e o mesmo foi alvorotar +alegremente a camara, desejosa de ouvil-o. + +Concedida a palavra, e feito o silencio da curiosidade na sala, +ergueu-se o morgado da Agra, e orou d'este feitio: + +--Sr. presidente! Os conselheiros dos antigos reis de Portugal, homens +de claro juizo e sciencia bastante, cortavam os abusos do luxo com +pragmaticas, quando os vassallos se desmandavam em trajos, regalos e +ostentações ruinosas do individuo, e, portanto, da cidade. O senhor rei +D. Sebastião, que santa memoria haja, promulgou justas e rigorosas leis +sobre o uso das sedas. E, n'aquelle tempo, sr. presidente, Portugal +ainda se banqueteava com a baixella d'oiro do Pegu: ainda as paredes das +salas nobres estavam colgadas de gualdamecins e razes da Persia. Era o +Portugal, já não robusto nem enthusiasta; mas ainda sopitado das +embriagadoras delicias dos reinados de D. Manuel e D. João III. + +Nas Ordenações Filippinas, liv. 5.^o t. 82, § 4.^o, e seguintes, foram +incluidas as principaes leis da reformação da justiça de 27 de julho de +1582. + +Lá se vê quão salutar era a vara ferrea da lei no castigo dos contumazes +em proveito da communidade. (_Um deputado boceja contagiosamente: outros +bocejam; e o presidente de ministros adormece_). Vejamos a pena dos +infractores: o peão perdia o vestido defezo, e pagava da cadeia quinze +cruzados; e o nobre pagava da cadeia mais quinze cruzados que o plebeu. +Note a camara que as reformas liberaes não complanaram tanto a egualdade +entre poderoso e fraco. Bradam por ahi os ignaros contra os privilegios +e exempções da fidalguia dos tempos ominosos. Estes democratas, se +acontece de cairem nas presas da justiça, gritam pelo codigo das +egualdades, e então experimentam o que vae da bonita redacção da lei á +execução d'ella. Recolho-me ao assumpto, sr. presidente.... + +_Um deputado_: Faz bem. + +_O orador_: Não me lisongea o beneplacito do collega. Recolho-me ao +assumpto, sr. presidente. Lastimo este luxo que vejo em Lisboa! Por toda +a parte, oiro, pedrarias, sedas, veludos, pompas, vaidades! Parece que +toda esta gente voltou hontem da India nas naus que trouxeram as parias +do Oriente! Essas ruas estrondeiam de carroagens, calechas e berlindas, +como se cada dia se estivesse commemorando a passagem do cabo +tormentorio ou o descobrimento da terra de Santa Cruz, atirando ás +rebalinhas os thesouros que de lá nos vem. Por entre estas soberbas +carroças... + +_Um deputado_: Carroças são de lixo. + +_O orador_: E bem póde ser que seja lixo o que vae n'ellas... Por entre +estas soberbas carroças, sr. presidente, vejo eu passar mal arrimados ás +paredes, e temerosos de serem esmagados, uns homens de aspecto +melancholico, e mal entrajados. N'estes cuido eu vêr D. João de Castro, +que empenhou as barbas, e tem duas arvores em Cintra; Duarte Pacheco, +que vae entrar no hospital; e Luiz de Camões que vem de comer as sopas +dos frades de S. Domingos. Cada época tem centenares d'estas illustres +victimas. + +_Um deputado_: Vê coisas magnificas! + +_O orador_: E tambem vejo o dedo do propheta escrevendo na parede o +lemma d'aquelle devasso festim... (_Pausa. O orador conserva o braço em +postura sculptural, apontando á parede. O presidente accorda +estremunhado, com a risada do ministro da fazenda_). O que eu vejo? quer +o illustre deputado saber o que eu vejo? É a industria agricola de +Portugal devorada pelas fabricas do estrangeiro; é o braço do artifice +nacional alugado á escravidão do Brazil, porque a patria não lhe dá +fabricas; é o funccionario publico prevaricado, corrupto e ladrão, +porque os ordenados lhe não abastam ao luxo em que se desbarata; é o +julgador dos vicios e crimes sociaes transigindo com os criminosos +ricos, para poder correr parelhas com elles em regalias; é a mulher de +baixa condição prostituida, para poder realçar pelos ornatos sua +belleza; é a alluvião de homens, inhabeis, que rompe contra os +reposteiros das secretarias pedindo empregos, e conjurando nas +revoluções se lh'os não dão. O que eu vejo, sr. presidente, são sete +abysmos, e á bocca de cada um o rotulo dos sete peccados capitaes que +assolaram Babylonia, Cartago, Thebas, Roma, Tyro, etc. É o luxo, sr. +presidente! + +_Um deputado do Porto_:--Peço a palavra. + +_O orador continuando_: + +--De que desconhecida lua choveu ouro sobre estes paraltas enluvados e +encalamistrados que pejam os theatros, praças, e botequins de Lisboa? +Foi para estes tempos que um sabio e claro varão d'outro seculo +escreveu: «Desde o bico do pé até á cabeça anda um d'estes cavalheiros +bizarros (ou qualquer d'estes bizarros ainda que não sejam cavalheiros) +armado de vaidade e de estudos de sua compostura, que são captiveiros de +espirito, corrupções dos costumes, da republica, e despezas da sua +fazenda, ou talvez da fazenda que não é sua.» + +Aqui é que bate o ponto: _da fazenda que não é sua_. Á custa de quem se +vestem estes Narcisos e Adonis? Que incognitos veios de ouro exploram? +Qual é sua arte, se não devo antes perguntar quaes sejam suas manhas ou +ronhas? Que sabe a policia d'elles? + +E eu já vi, sr. presidente, andarem as senhorias e excellencias, as +pobres esfarrapadinhas, por meio d'estes peralvilhos, que saem de casa +do alfayate com o fôro grande e o desaforo maior. Que desbarato e +corruptela é esta dos tratamentos em Lisboa? Abandalha-se tudo para +passar a rasoira por sobre um lamaçal plano? Isso é congruente; mas +então tapem lá o rôto cofre das graças, que a toda hora nos está +despejando corôas e veneras, cruzes e mais cruzes, cruzes onde a honra +de Portugal geme cravejada! Fechem lá esses decretos de permanente +carnaval, que nos trazem sempre acotovellados com mascaras, que eram +hontem os nossos fornecedores de bacalhau, e hoje nos não conhecem a +nós, receiosos de que os conheçamos a elles! + +Sr. presidente! v. ex.^a conhece a pragmatica do Sr. D. João V, ácerca +de tratamentos. Eu tenho de a ler ámanhã a um tendeiro, que me vendeu +figos de comadre, por que o homem se offendeu de receber um _vossemecê_, +que eu longanimamente lhe dei. O alvará resa assim: «Que aos viscondes e +barões, aos officiaes da minha casa, e aos das casas das rainhas, e +princezas d'estes reinos; aos gentis-homens das camaras dos infantes; +aos filhos e filhas legitimos dos grandes, dos viscondes e barões... +como tambem aos moços fidalgos... se dê o tratamento de senhoria.» + +Senhoria aos ministros no estrangeiro; senhoria aos governadores das +praças; reitor da universidade; senhorias ás dignidades prelaciaes e +civis; sr. presidente, falta uma senhoria legal para o homem, que me +vendeu os figos. Creêmos esta senhoria, para alliviarmos de escrupulos +os que lh'a derem a medo. Legislemos a podridão dos tratamentos +nobilitarios. Atiremos ao esterquilinio com esta moeda refece. Isto já +não vale nada, não prova nada, não estrema coisa nenhuma. Latissima +licença de condecorar-se a gentalha! Se algum mesteiral, uma vez, +praticar feito nobre, que lhe conquiste justo galardão, havemos de +honral-o chamando-lhe homem do povo, d'aquella raça de povo, que D. +Diniz e D. João I amaram cordialmente. + +Desviei-me algum tanto, sr. presidente. Vou chegar-me á questão, e +concluir, porque a hora me não permitte delongas, nem a camara terá a +benevolencia de m'as tolerar. + +Invoco a attenção dos representantes do paiz para a mortal peçonha, que +vae cancerando o machismo vital da nossa independencia. Rédeas ao luxo! +Tranquem-se as alfandegas ás drogas estrangeiras. Carreguem-se de +direitos as mercadorias, que incitam o appetite e prevertem as condições +melhormente morigeradas. Vistamo-nos do que podemos colher de nossas +possessões, e do estofo, que nossas fabricas podem dar. Sigam-se as leis +velhas do ultimo rei da dynastia de Aviz. Coimem-se e castiguem-se os +que venderem tecidos estrangeiros e os que os puzerem em obra. + +_Um deputado_: Como redigirá o illustre deputado similhante absurdo de +lei? + +_O orador_: Como redigirei? Facilmente. Como D. João II legislou a +respeito das mulas dos frades. Ora aconteceu que os frades teimaram em +cavalgar mulas. Que fez então o estomagado rei? Deu sentença de morte +aos ferradores, que ferrassem as mulas dos frades. E o caso foi que os +desmontou. + +Conclui, sr. presidente. + +_O presidente_: Fica reservada para amanhã a palavra ao sr. dr. Liborio +de Meirelles, e está fechada a sessão. + +O dr. Liborio de Meirelles era o deputado portuense, que pedira a +palavra, durante o discurso de Calisto Eloy. + +--Que sairá d'aquelle arganaz?--perguntou o morgado de Agra ao abbade de +Estevães. + +--Dizem que é moço de muita sabedoria, e que já escreveu livros. + +Calisto sorriu-se e disse: + +--Estou bem aviado, se elle escreveu livros! + + + + +IX + +*O doutor do Porto* + + +O dr. Liborio de Meirelles, sujeito de trinta e dois annos, cara +honesta, e posturas contemplativas, reunia os predicados que nos outros +paizes ou passam despercebidos, ou são solemnisados pela irrisão +publica; mas, em Portugal, taes predicados alçam o homem ao cume da +escala politica, e dão-lhe escolta de absurdos propicios até onde o +parvo laureado quer guindar-se. + +Esta pessoa madrugou aos dezoito annos escrevendo poemas satyricos +contra os titulares portuenses, não porque elle se pejasse de vel-os em +sua plana, mas porque lhe fugiram d'ella. O progenitor de Liborio era um +tendeiro, que entrara na estrada franca da fortuna prospera, creando de +sua cabeça, para uso de gallegos e carretões madrugadores, um mixto +saboroso e alcalino de licores, que ainda hoje sustentam o credito e +primasia. Afóra isto, inventara o pae do dr. a aguardente de nabos. + +Liborio foi menos feliz que o pae, no genero a que se dedicou. Os seus +poemas viveram alguns dias afagados pela calumnia, como a belleza das +collarejas lisongeada pelo rosto derrancado dos libertinos. Depois, o +filho do tendeiro, graças á baixesa de sua posição social, antes de +grangear o odio dos insultados, já tinha caido no desprezo d'elles. + +Impellido pelo couce do pégaso, Liborio já não podia retroceder. Foi +para Coimbra: fez-se examinar em latim, e foi reprovado. Desde este +funesto dia de sua vida, Liborio começou a dizer que era sabio, e, por +vingança dos examinadores, traduziu um poema latino com tanta claresa e +fidelidade, que o poema original ficou sendo muito mais intelligivel aos +ignorantes de latim, do que a versão; com que a memoria de Lucrecio fôra +ultrajada. + +Formou-se e doutorou-se Liborio, sem impedimento de uns _rr_ que, alguma +vez, lhe acalcanharam o orgulho. Em seguida foi visitar a Europa; e, de +volta aos lares, achou-se no regaço da estupida fortuna que o beijou, na +fronte, e lhe disse: «este anhelito de meus beiços côa-te fogo ao +cerebro! Amo-te, porque careço de ti. Eu sou a Circe dos gregos: +bestifico tudo que toco, e em ti delego o condão de radiares tua +bestidade ao cerebro de quem embarrar por ti. Proponho-me transfigurar, +não já em cochinos, mas em mais nobres alimarias, os regedores da coisa +publica de Portugal. Tu, dilecto, vae caminho da gloria. Hoje és +deputado; d'aqui a pouco serás ministro.» + +De feito, Liborio estava deputado, á mesma hora em que o fidalgo da Agra +de Freimas era fadado a ser um dia verberado no parlamento pelo filho do +inventor da aguardente de nabos. + +Calisto entrou á sala, e, digamol-o com espanto de sua fleuma, ia +tranquillo e até contente, sem embargo de lhe haverem dito alguns +collegas quão funesto era o contendor que a sua má sorte e imprudencia +lhe deparara. + +O dr. Liborio, dada a palavra, ergueu-se com ademanes não vulgares, +alisou os bigodes, encravou na orbita esquerda um vidro sem grau, e +disse: + +--Sr. presidente, discorri cêrca d'anno por estranhas plagas. Fui-me +mundo fóra com o meu bordão e concha de romeiro do progredimento social. +Bebi a tragos nas enchentes de mel hybleú que desborda dos mananciaes da +civilisação. Vi muito, vi tudo, que me abraseavam sedes de aprender, +fomes de Ugolino que rompe seus ferros, e se defronta com lautos +estendaes de loirejantes iguarias. Que deliquios de exultação me tomavam +alma! como eu me sentia a tragar luz e humanidade por aquelles climas +onde o supremo architecto chove inventos a frouxo e a flux! Vi muito, e +vi tudo, sr. presidente. Encheu-se-me o peito de anhelos pela sorte da +patria, e d'amores muito seus d'ella, como de filho que do imo das +entranhas lhe quer. Volvi-me no rumo do ninho meu; e mal se enrubesceram +os horisontes d'esta minha e tão nossa terra de fragrancias e idyllios, +assim me coou as fibras do seio um como filtro de melancholia, que me +subia aos olhos exsudando lagrimas. + +(_Calisto Eloy, em perigo de rebentar, ri-se. Parte da camara ciciou-lhe +um sio prolongado. Calisto accommoda-se e desconfia que a maior parte da +camara é tola_). + +_O orador_: É que eu, sr. presidente, muito a dentro d'alma sentia uns +rebates de presagio. Locustas de excruciantissimos toxicos, que me +estavam empeçonhando esperanças, enleios, arrobos e dulcissimas chimeras +de ainda ver florejarem os agros da patria, estrellarem-se estes céos +plumbeos e rasgarem-se os horisontes á onda fecundante d'este uberrimo +torrão. Doeu-me alma, choraram-me olhos, e comprehendi a angustia +virgiliana do hemestichio: _pulcia linquimus arva_. (_Muitos apoiados_.) + +Pois que, sr. presidente? Cançariam maguas a quem se lhe antolhasse ter +de ainda ouvir n'esta casa voz de homem, de homem nado do ventre d'este +seculo, de homem que aqui entrou a verter no gasolifacio do templo do +eterno Christo da eterna liberdade, a drachma ou o talento, a mialha ou +o thesouro de sua dedicação, repito, sr. presidente, quem deixára de +estillar bagas de pranto, ao aportar em chão portuguez com o presagio de +que, alguma hora, havia de ouvir n'este _sancta-sanctorum_ das luzes, +blasphemias contra o luxo, que é a arteria, a órta do corpo industrial? +Quem quizera, por tal preço, dizer ás nações cultas: «eu sou d'aquelle +céo, nasci n'aquelle jardim de magas, onde Camões poetou glorias para +invejas do mundo? Sou da terra dos laranjaes onde suspirou Bernardim? +Sou da raça dos bravos que perpetuavam Aljubarrota, Badajoz, Valverde? +(_Apoiados prolongados_.) Na minha terra... (quem quererá já dizer!) +nasceram Gamas, nasceram Cabraes, e Castros, e Abuquerques, Nunes e +Regras? Quem sr. presidente? + +(_Calisto pede a palavra_.) + +_O orador_: Que é o luxo? Perguntae ao selvatico das florestas invias o +que é o seu _hamac_, e ao europeu o que é o seu almadraque de plumas, +tão crato e flacido ás evoluções corporeas. Perguntae ás bellas europeas +que lhes faz a grinalda de brilhantes, e ás bellas da Florida que prazer +lhes insinuam os vitreos adornos de variegadas côres. Oh! o luxo! o +luxo, senhores, é marco miliario de civilisação, a pomba que se volita +da arca, e se vae espanejando de azas por céos e terras além, recobrada +dos pavores primeiros, e saltitando de frança em frança. Oh! que +rejubilos de coração para quem fadado lhe foi de cima o entender e amar, +que o comprehender é amar, na phrase incisiva e galharda de Victor Hugo! + +Sr. presidente! O coração da França, o encephalo, o grande nervo da +França é o luxo. E eu estive na França, sr. presidente, fui lá para me +reverberarem nos cristaes d'alma os lumes d'aquella perla d'Offir! Ai! a +França! Quando nos entreluzem os zimborios da moderna Babylonia, «_a +esperança remonta-se-nos em rasgado vôo para tudo mais vasto, mais +copioso, mais opulento, a espirar vida e bem para o alto, para o largo e +de muita benção, a branquear-nos a casinha da serra, a florir-nos o +pomar da veiga, a dar-nos canções e alegrias no artifice_.» [11] + +O luxo, sr. presidente, é o espantalho dos animos sandios e cainhos. + +_O deputado Calisto_: Seja pelo amor de Deus! + +_O orador_: Pois seja, e muito que lhe preste ao collega, que mister se +lhe faz perdão de Deus pelas blasphemias economicas que ejaculou, sem +dar de olhos na civilisaçao, matrona prestimosa, que toda se desentranha +em blandicias e florinhas de viço e olor para opulentos e desremediados. + +_O deputado Calisto_: Isso que diz em vernaculo? + +_O orador_: Que me não falle á mão, se lhe sobranceio o intellecto. +Affigura-se-me, sr. presidente, que tenho pela frente sombra, e sombra +de que não ha temermo-n'os. Não sei, á bofé, com quem me esgrimo. +Propugnar por artes, pôr peito a defender industrias, ruir os cancêlos +das fabricas, bafejar incentivos á imaginativa do artifice, emfim e +derradeiramente, encarecer a utilidade do luxo, isto me está assetteando +o animo temeroso de desfechar injuria ao progresso, á idéa, ao _fiat_, á +humanidade! Para que me estou aqui afadigando e derramando, sr. +presidente se só mumias podem sair-me com esgares, de encontro ao +civilisador principio? (_Muitos apoiados_.) + +Corre-me obrigação de silencio. Já de contricto me recolho, e da +offensa, á luz me penitencío; que eu me estive a espancar trevas que, em +que pese a pávidos agoireiros, já não hão de espessar-se em derredor do +sol esplendorosissimo. + +_E, pois, antevejo que não ha mais dizer, sem entibiar-me a nota de +repetições, aqui ponho fecho_.[12] + +_O orador foi comprimentado_. + +O _presidente_: Tem a palavra o nobre deputado Calisto Eloy de Silos de +Benevides de Barbuda. + +--Sr. presidente!--disse Calisto--Eu entendi quasi nada, porque o sr. +deputado dr. Liborio não fallou portuguez de gente (_riso nas +galerias_.) As laranjas, espremidas de mais, dão sumo azedo, que corta a +lingua. O sr. deputado fez do seu idioma laranja azeda. Se a linguagem +portugueza fosse aquillo que eu acabo de ouvir, devia de estar no +vocabulario da lingua bunda. Parece me que os obreiros da torre de +Babel, quando Deus os puniu do atrevimento impio, fallaram d'aquelle +feitio! (_Ordem_! _ordem_!) + +O _orador_: Ordem, srs. deputados, peço eu para a lingua portugueza! +Peço-a em nome dos illustres finados Luiz de Sousa, Barros, Couto, e +quantos, no dia do juizo, se hão de filar á perna do sr. dr. Liborio. + +O _presidente_: Peço ao illustre deputado que se abstenha de usar +phrases não parlamentares. + +O _orador_: Tomo a liberdade de perguntar a v. ex.^a se as locuções +repolhudas do illustre collega são parlamentares; e, se o são, peço +ainda a mercê de se me dizer onde se estudam aquellas farfalhices. +(Vozes: _Ordem_! _ordem_!) + +O _orador_: Quando aquelle senhor me chamou _sandio_, não foi violada a +ordem? (_Apoiados_). Ora pois: eu não quero desordens. Vou pacificamente +responder ao sr. deputado, como souber e podér. Estou a desconfiar que a +minha linguagem secca e desornada raspará nos ouvidos da camara, que +ainda agora se deleitou com a rethorica florida do sr. deputado do +Porto. Sou homem das serras. Creei-me por lá no tracto facil e chão dos +velhos escriptores: aprendi coisa de nada, ou pouquissimo. A mim, +todavia, me quer parecer que o fallar gente palavras do uso commum é +coisa util para nos entendermos todos aqui, e para que o paiz nos +entenda. Do menospreço d'esta utilidade resulta não poder eu +aperceber-me de razões para cabalmente responder aos argumentos do +discreteador mancebo. Percebi, a longes, pouquinhas idéas; porém, +querendo Deus, hei de, se me ajudar a paciencia com que estudei o idioma +de Thucydides, decifrar os dizeres de s. ex.^a no «_Diario das +Camaras_.» (_Riso_). + +O illustre deputado quer que o luxo indique a riqueza das nações. Isto é +o que eu entendi do seu arrasoamento. Em França viu s. ex.^a mosquitos +por cordas. Pois, sr. presidente, eu li que, em França, onde o luxo é +maior, ahi é menor, em proporção, o numero dos individuos ricos (Vozes: +_apoiado_!) Este caso, se é verdadeiro, corta pela haste as flores todas +dos jardins oratorios do sr. dr. Liborio. Que mais disse s. ex.^a? +Faça-me a graça de m'o achanar na linguagem caseira com que o diria á +sua familia em _pratica como do lar_, consoante phrase a D. Francisco +Manuel de Mello na _Carta de Guia_. + +O _dr. Liborio de Meirelles_: Não velei as armas do raciocinio para me +ir á liça da absurdeza. Melhores fadas me fadaram; e não me estou aqui +sabbatinando como em pleitos de bancos escolares. (Vozes: _Muito bem_.) + +O _orador_: Muito bem o que?... Vae-me parecendo historia isto, sr. +presidente!... Eu queria-me entender com o sr. deputado, afim de +tirarmos algum proveito d'este debate; mas s. ex.^a, pelos modos por me +vêr assim minguado de affeites poeticos, acoima-me de absurdidade, e +despreza-me!... Valha-me Deus! Se o sr. dr. Liborio me não lançasse da +sua presença com tamanho desamor, havia de perguntar-lhe por que foram +Athenas e Roma bem morigeradas quando pobres, e corrompidas quando ricas +e luxuosas? Havia de perguntar-lhe que artes e sciencias progrediram +entre os sybaritas e lydios, povos que a mais elevado gráo de luxo +subiram? Havia da perguntar-lhe por que foi que os persas acaudilhados +por Ciro cortados de vida aspera e privada do necessario, subjugaram as +nações opulentas? Havia de perguntar-lhe porque foram os persas, logo +que se deram ás delicias do luxo, vencidos pelos lacedemonios? + +A suprema verdade, sr. presidente, a verdade que os arrebiques da +rhetorica não seduzem, é que á medida que os imperios antigos se +locupletavam, o luxo ia de foz em fóra, e os costumes a destragarem-se +gradualmente, e o pulso da independencia a quebrantar-se, e os cimentos +das nações a estremecerem. Depois, era o cair do Egypto, da Persia, da +Grecia e Roma. + +Até aqui a historia, sr. presidente; d'aqui em diante o sr. dr. Liborio +de Meirelles, o moço poeta, que foi a França, e achou desmentidos +Xenophonte e Thucidydes, Livio e Tacito, Plutarcho e Flavio. + +O sr. dr., a meu juizo, é sujeito de grande imaginativa. Bonita coisa é +idear fabulações em academia de poetas; porém, n'esta casa, onde a nação +nos manda depurar a verdade dos fallaciosos ornatos com que a mentira se +arrea, mister é que sejamos sinceros. Já o insigne author dos _Apologos +dialogaes_ disse que a _imaginação era curral do conselho, onde, por não +ter portas, todo o animal tinha entrada_. Bom é tambem que os moços +muito imaginativos senão pavoneem até ao philaucioso sobrecenho de +passarem alvará de sandeus á gente que raciocina mais porque imagina +menos. É permittido aos versistas poetarem em prosa; mas as liberdades +poeticas não ajustam bem nos debates circumspectos da res publica. + +Vou concluir, sr. presidente, votando contra a proposta do illustre +collega, que propoz a reducção dos direitos aduaneiros das sedas, e +pedindo ao sr. dr. Liborio, que, se outra vez me der a honra de imbicar +com este pobre homem lá das montanhas da raia, haja por bem de se +expressar em linguagem correntia. Não sou homem de salvas e rodeios: +digo as coisas á moda velha. Quero-me portuguez com os do sujeito, verbo +e caso no seu competente logar. E, se assim não fôr, ir-me-hei com +aquellas palavras que ouviu Arsenio: _Fuje, quíesce, et tace_; «foge, +socega, e não falles.» + +Sentou-se Calisto Eloy. Alguns deputados anciãos do partido liberal +foram cumprimental-o; e outros, que se pejaram de imitar os velhos, +encararam no rustico provinciano com cortezia e tal qual veneração. +Calisto Eloy ganhára consideração na camara e no paiz. + +Os deputados governamentaes acercaram-se d'elle, convidando-o em termos +delicados a aceitar, no banquete do progresso, o logar que a sua +intelligencia reclamava. Os deputados opposicionistas conjuravam-no a +não levantar mão de sobre os projectos depredadores com que a facção +governamental andava cavando novas voragens ao paiz. + +O morgado da Agra respondia que estava descontente de gregos e troyanos, +e acrescentava: + +--Não sei, por ora, de qual dos lados da camara se falla peor a lingua +patria. Tenho ouvido os quinhentistas á la moda, e os galliparlas. Todos +ressabem á hervilhaca; uns estão gafados de francezias, outros tresandam +nos seus dizeres o bafio que os bons seiscentistas regeitaram. Carecem +de cunho nacional estes homens. O máo portuguez principia a sel-o, desde +que mareia a pureza de sua lingua. Dêem-me portuguezes de lingua, e eu +me bandearei com elles, como com portuguezes de coração. Com aquelle dr. +Liborio do Porto nem para o céo. Tenho medo que Deus o não entenda, e +nos ponha ambos fóra de cambulhada. + + + + +X + +*O coração do homem* + + +Entremos no coração de Calisto Eloy. + +Cuidava o leitor que não tinhamos que entender com aquella entranha do +homem? Estou que a julgaram inviolavel ás suspeitas da historia em acto +de tanto alcance na biographia d'este personagem! + +Já se disse que orçava pelos quarenta e quatro o morgado. N'aquella +edade, se ha fibras virginaes no coração, eram as d'elle. + +Casára com sua prima Theodora, menina estimabilissima por virtudes, mas +mais feia do que pede a razão que seja uma senhora honesta. A noiva +deixou-se ir pela mão do pae á casa do esposo. Não ia alegre nem triste. +Tanto se lhe dava casar com o primo Calisto como com o primo Leonardo. +Logo que o pae lhe consentiu que levasse para Caçarelhos umas tres +duzias de gallinhas e parrecos, que ella creara, não lhe ficou na casa +natal coisa para sérias saudades. + +Encontrou marido ao pintar. Coraram ambos ao mesmo tempo, quando o +bulicio das festas nupciaes se aquietou e a mãe do noivo lhes disse: +«Meninos, cada môcho a seu soito» phrase amenissima que em pouco e +depressa exprime a muita poesia de toda aquella família. + +Calisto, ao outro dia da primeira noite de esposo, por volta das sete +horas da manhã, já estava a ler a _Viagem á terra santa_, por frei +Pantaleão de Aveiro; e, á mesma hora a noiva andava de pé sobre um catre +de pau preto rendilhado, com uma bassoira de giesta, a limpar teias de +aranha do tecto. + +Almoçaram, e foram visitar o pae e o sogro, em cuja casa jantaram. +Durante a visita, a sr.^a D. Theodora esteve a ensinar uma criada a +engommar as camisas do pae; e Calisto, como descobrisse n'um armario um +tratado de alveitaria de 1610, levou-o de um folego, e tirou +apontamentos, visto que o sogro se tratava por aquelle tratado, +diminuindo as doses das drogas. Não sei quem lhe dissera a elle que o +sr. D. João IV, nas doenças graves, se medicava com um veterinario. + +Ora, d'este começo de amores infiram v. ex.^as o restante d'aquella doce +vida! + +Theodora tomou a cargo os cuidados domesticos de sua sogra, e muitos do +tracto com caseiros, vendo que o marido, tirante as horas de comer, não +saia da livraria, onde a mulher, como amavel sombra, o ia visitar, e +olhando com desdem sobre os infolios, dizia-lhe: + +--Ó homem, ainda não acabaste de ler estes missaes? + +--Isto não são missaes, rapariga. Não estejas a profanar os meus +classicos. + +A esposa não entendia isto, e pedia-lhe que lhe lêsse pela vigesima vez +as _Sete partidas de D. Pedro_. E o bom marido lia-lhe pela vigesima vez +as _Sete partidas_, porque estavam escriptas em portuguez de lei. Vida +para invejar! paraiso em que Deus se esqueceu de mandar o anjo do +montante de fogo vedar a entrada! + +Discorreram annos, sem que o morgado tivesse de perguntar á sua +consciencia a explicação do minimo alvoroto de sangue na presença de +mulher estranha. Andava por feiras, quando a mulher o mandava comprar +utensilios agricolas; pernoitava por diversas casas da provincia, +famosas pela belleza das donas, e contava-lhes casos mirificos de suas +leituras, se acontecia não achar livro velho, que lhe deliciasse o +serão. + +Da maior, e talvez unica dôr litteraria da sua vida, fui eu causa. +Calisto, pernoitando em não sei que solar de damas dadas á leitura +amena, pediu algum livro, e deram-lhe um romance meu. Consta-me que +deixou o volume com as margens annotadas de gallicismos e nodoas de toda +a casta. Imaginem quantas punhaladas eu dei n'aquelle lusitanissimo +coração! + +Afóra este incidente, as boninas da vida campestre floriam +immarcessiveis para o homem de bem, raro exemplo de compostura; salvo +quando lhe beliscavam a estirpe que, então, como já disse, retaliava +descaridosamente, e revelava a quebra contingente de todo homem +imperfeito de sua natureza. Isto creou-lhe inimigos; mas detrahidores de +sua fidelidade marital nenhum tentou infamar-lhe o bom nome. Das +virtudes conjugaes de Theodora até me treme a penna sómente de escrever +isto para encarecel-as! Duvide-se da pureza das onze mil virgens, antes +de maliciar suspeitas d'aquella matrona, em tudo romana, do puro estofo +das Cornelias, Poncias e Arrias. + +Com esta pureza de vida entrara em Lisboa o morgado da Agra. + +Ahi está um como Daniel á beira da fornalha. Ahi está o homem-anjo! +Quarenta e quatro annos immaculados! Um coração que, se algumas imagens +tem gravadas, são as dos frontispicios apparatosos de alguma edição +princeps, d'algum Elsevir annotado por Grenobio. + + + + +XI + +*Santas ousadias!* + + +Natural coisa é que este sujeito, intangivel ás caricias do amor, seja +severo e intolerante com as fragilidades do coração. + +Aconteceu-lhe frequentar, uma noite por outra, a sala d'um antigo +desembargador do paço, que era pae de duas galantes senhoras, uma casada +e outra solteira. + +Soou aos ouvidos de Calisto Eloy, que uma das illustres damas innodoava +sua gentileza e prosapia, violando os deveres de esposa. Fez-lhe sangrar +o coração honrado tão funesta nova, e communicou elle o seu espanto e +dôr ao collega abbade. O abbade desfechou-lhe na cara uma estrallada de +riso civilisado, e disse-lhe: + +--Ora o morgado tem coisas! V. ex.^a parece que caiu, ha pouco, de algum +planeta! Olhe que Lisboa não é Miranda, meu amigo. Se o morgado tem de +espantar-se por cada caso d'estes que chegar ao seu conhecimento, a sua +vida na capital tem de ser um permanente ponto de admiração!... Deixe +correr o mundo... + +--Que remedio!--atalhou o morgado--mas o que eu farei é sacudir o pó dos +meus botins á porta das casas, cuja desordem de costumes me escandalisa. +Não voltarei a casa do desembargador Sarmento. + +--Faça v. ex.^a o que quizer; porém, consinta que eu reprove similhante +procedimento, por duas razões; seja a primeira, que o desembargador e a +familia receberam o sr. morgado com cordeal affecto; segunda razão, é +que v. ex.^a já não está em edade de perder a sua virtude seduzida por +máos exemplos. Faça como eu: lamente as miserias dos homens, e viva com +elles, sem participar-lhes dos defeitos; porque, meu nobre amigo, se a +gente vae a regeitar as relações das familias, justa ou injustamente +abocanhadas pela maledicencia, a poucos passos não temos quem nos +receba. + +--Eu tenho os meus livros, accudiu Calisto. + +--E os seus livros, as suas chronicas, os seus classicos gregos e +latinos não lhe contam enormes desmoralisações? V. ex.^a, que leu a vida +romana em Tacito, e Apuleio, e no Festim de Trimalicão de Petronio... + +--De qual Petronio?--interrompeu o morgado. Foram doze os Petronios em +Roma, e todos escreveram com mais ou menos despejo. + +--Pois melhor. Se v. ex.^a leu doze, eu li um, que era o ecónomo, ou +arbitro dos prazeres de Nero, e este me bastou para edificação do meu +espirito. Pois se o meu amigo póde ler sem horror as infamias das +saturnaes, e os mysterios da deusa Bona, e quejandas protervias dos +antigos tempos, como póde espantar-se do que ouve dizer da filha do +desembargador Sarmento, que a final de contas, póde estar innocente do +crime que lhe assacam?! Não a vê v. ex.^a filha cuidadosa, mãe +estremecida, e esposa honesta na apparencia? Já a ouviu defender theses +da moral do adulterio? Que lhe importa a v. ex.^a o que se passa lá na +vida privada da mulher? + +Calisto deteve-se breves instantes com a resposta, e disse: + +--Acho-lhe razão, sr. abbade, não tanto pelo que disse, como pelo que +não disse. As pessoas de vida impolluta devem acercar-se d'aquellas que +prevaricam. Lá vem uma hora em que o conselho é taboa salvadora... Quem +sabe se eu terei predestinação de desviar aquella senhora do caminho +máo!?... + +--É verdade--assentiu o abbade;--mas é justo e urbano que v. ex.^a não +vá interrogal-a sobre coisas do fôro intimo. + +--Não me ensine as leis da cortezia, abbade--replicou algum tanto +affrontado o fidalgo da Agra.--Eu não me fiz em alcatifas de salas; mas +aprendi a policia e trato humano nas lições de galãs afamados como D. +Francisco Manuel. E, demais d'isso, meu caro sr. abbade, não me peça +Deus conta de minha soberba, se lhe eu digo que o bom sangue como que já +tem congeniaes e infusas em si as regras da urbanidade cortezã. Não se +fazem mister directorios de civilidade a sujeitos, que herdam com a +fidalguia a indole de avoengos palacianos, feitos nas côrtes, e affeitos +a sentarem-se na ourella dos thronos. + +--Não ponho duvida n'isso;--obtemperou o abbade, e accrescentou com +malicia e bem rebuçada ironia--alguns fidalgos muito mal-creados que +tenho topado, em quanto a mim, não lhes faltou a herança de polidez; +foram elles que propriamente derrancaram sua indole, até se fazerem +plebe grosseira e ignobil. + +--Acertadamente--disse o morgado. + +--Eu ensinar cortezia a v. ex.^a!--insistiu o deputado bracharense.--A +minha observação tendia a moderar os impulsos descomedidos da sua justa +censura aos máos costumes da sr.^a D. Catharina Sarmento. _Noli esse +multum justum_, diz o Ecclesiastico.[13] Bem fidalgos e policiados eram +S. Domingos de Gusmão, S. Francisco de Borgia, e Santo Ignacio de +Loyola, todavia, bem sabe v. ex.^a com que exempção e santa descortezia +elles invectivavam as corruptelas da mais elevada sociedade, em rosto +dos proprios delinquentes. + +--Mas eu não sou apostolo--acudiu Calisto.--Conheço que já não vim a +tempo, nem a missão me condecora. + +Assim mesmo, sem desaire das pessoas, hei de pôr a pontaria aos vicios, +e, se poder, influirei pensamentos de emenda ao animo dos viciosos. + +N'uma das seguintes noites, foi Calisto ao chá do desembargador +Sarmento. Achou mais abatido e melancholico o antigo magistrado. +Estiveram conversando á puridade sobre o desgosto que revia á face do +hospedeiro ancião. Crê-se que Sarmento lhe dissera que sua filha +Catharina, depois de haver casado por paixão, com cedo se desaviera da +vontade do marido, e este da estima d'ella; de modo que raro dia +deixavam de altercar e renhir por motivos insignificantes. D'isto +resultava a tristeza constante do velho, acrescentada agora com ter-lhe +dito alguem que sua filha andava infamada pela voz publica. + +--Ferro penetrante--exclamou o desembargador--que me traspassou este +corpo já fraco, e pendido á campa. + +Calisto apertou-o nos braços e clamou: + +--Amigo e senhor meu! A desgraça não derrete o aço dos peitos fortes. +Tenha-se v. ex.^a arrimado ao bordão de sua honra, que não hão de +adversidades derribal-o. Aqui me ponho de seu lado, com a fortaleza da +amizade, para, como filho de v. ex.^a e irmão da sr.^a D. Catharina, +minha senhora, tirar a limpo da sugidade da calumnia, se o é, a virtude +d'ella, e o contentamento de v. ex.^a. Aqui vem de molde o repetir as +palavras affectivas do meu dilecto Heitor Pinto, no tractado da +_Tribulação_: «O que eu queria é que a boceta de vossas angustias +estivesse depositada em minhas entranhas, e que os meus bens fossem +vossos, e os vossos males fossem meus.» + +Ouvido isto, o desembargador commoveu-se até ás lagrimas, e disse com +mui entranhado affecto: + +Quem me dera assim um marido para a minha Adelaide, que n'esta casa +reinaria o socego da virtude! Agora vejo que lá nos escondrijos dos +mattos da provincia se refugiaram as reliquias da honra portugueza! +Ditosa senhora a que avassallou tão honesta alma! + +D'ahi a pouco, o morgado da Agra, buscando azo de estar apartado com +Catharina a um canto da sala, e praticando sobre livros perigosos, +rompeu elle n'esta pergunta: + +--A sr.^a D. Catharina já leu Homero? + +--É romance? disse ella. + +--Romance ou fabulado de alta moral lhe havemos de chamar; não já +romances d'uns que, de oitiva o sei, por ahi impestam a sociedade. Na +Iliada de Homero achei dois pares de casados; um é Paris, que se +matrimoniou com Helena; o outro é Ulysses, que se casou com Peneloppe. +Os primeiros, cubiçosos e voluptuarios, cobriram a Grecia de +calamidades; os segundos, prudentes e discretos, foram o modelo do +thalamo ditoso. + +Fez Calisto uma longa pausa, e proseguiu, interpollando os dizeres com +algumas pitadas, que solemnisavam a gravidade das fallas. + +--Ninguem devera casar sem muito lêr e sem applaudir aquelles preceitos +do casamento, escriptos pelo eminentissimo Plutarcho. + +--Não conheço, disse a dama... Li _Le mariage_, de Balzac. + +--Não sei quem é: deve ser francez. + +--Pois não leu? + +--Eu não leio francez. Não me chega o meu tempo para tirar aguas sujas +de poços infectos. Plutarcho é oraculo n'esta materia. Um pensamento lhe +li que me chegou á medula, e que ainda agora em Lisboa me saiu +explicado. Diz elle algures. «Não podem as mulheres convencer-se de que +Pasiphae, bem que esposa d'um rei, se enamorasse apaixonadamente de um +touro; ao passo que estão vendo, sem espanto, mulheres que menospresam +maridos benemeritos e honrados, e se dedicam a homens bestificados pela +libertinagem.» Asseveram-me os pilotos peritos n'estes mares verdes e +aparcellados da capital, que ha d'isto muito por aqui. + +--É possivel... balbuciou D. Catharina. + +--E porque não ha de ser, se algumas senhoras conheço eu casadas, tornou +Calisto, que andam com os braços nus fóra das alcovas do seu leito +nupcial!... + +--E isso que tem?--atalhou a dama--é a moda... + +--A moda, que franqueia as portas aos ruins desejos, ás cogitações +viciosas, aos afrontamentos, ao pudor. Aquella filha de Pytagoras, a +quem encareceram o feitio do braço, respondeu: «Bello é; mas não para +ser visto». Na Andromacha de Euripedes, Hermion exclama: +«Infelicitei-me, consentindo que de mim se achegassem mulheres +preversas.» Quantas damas de hoje em dia poderão dizer, e na consciencia +o estarão dizendo: Consenti, para minha desgraça, que preversos homens +convisinhassem de mim!... + +--Mas onde quer v. ex.^a chegar com o seu discurso? interrompeu a filha +do desembargador. + +--Á razão da sr.^a D. Catharina, minha senhora. + +--Como assim?! quem o auctorisa... + +--As lagrimas de seu ex.^{mo} pae. + +--Veja lá, sr. Barbuda, que se não equivocasse com as lagrimas de meu +pae... A minha reputação e costumes repellem similhantes allusões, se o +são. + +--Peores do que estas, sr.^a D. Catharina, minha senhora, peores +referencias do que estas lhe faz a voz do mundo. + +--A mim? + +--Á fé! que sim! Dou-lhe em penhor da verdade a minha honra. + +--Mas--interrogou irada e rubra de despeito a dama--que ousadia a de v. +ex.^a fallar assim a uma senhora, que apenas conhece!... Olhe que essas +liberdades de provincia não se usam cá em Lisboa. + +--Não se moleste assim, minha senhora--tornou Calisto.--Respeito tanto +v. ex.^a quanto estimo seu venerando pae. O atrevimento é grande, maior +será a magnanimidade de v. ex.^a em perdoar-m'o. Lagrimas de velho e de +pae dão estranho ousio. Desgraças sobranceiras incutem alentos +destemidos nas mais fracas almas. No proposito de conjurar a tormenta, +que se encapella e ameaça de sossobrar a felicidade de uma familia +illustre, é que eu, sr.^a D. Catharina, me affoitei a ser o advogado +espontaneo do bem de todos. + +--Agradeço o zelo; mas agradecera-lhe mais a discrição--disse D. +Catharina; e, retirando-se, fez uma ceremoniosa mesura a Calisto. + +Não voltou mais á sala a dama. O desembargador não desfitava olhos de +Calisto Eloy, que se assentou meditativo no mais assombrado do recinto. + +Erguera-se do voltarete o abbade de Estevães, e abeirou-se d'elle, +dizendo: + +--Desconfiei que v. ex.^a estava missionando a dama... Amolleceu-a? + +Calisto ergueu a fronte, enclavinhou os dedos das mãos sobre o peito +consternado, e murmurou: + +--Agora acabo de entender o meu padre Manuel Bernardes. + +E repetiu em tom cavo: + +«...Converto minha attenção, e temor a ti ó Lisboa, Lisboa, considerando +o que em ti passa. Medo me fazem tuas corrupções tão graves e tão +devassas, que já o lançar-t'as em rosto, não seja nos zelosos falta de +prudencia, senão obra de magua.» + +Depois, suspirou, e cheirou rapé. + + + + +XII + +*O anjo custodio* + + +Santa audacia! Bizarra indole de antigo cavalleiro, que abriga no peito +a generosidade com que os heroes dos Lobeiras, Barros, e Moraes se +lançavam ás aventurosas lides, no intento de corrigir vicios e +indireitar as tortuosidades da humana maldade! + +Não desanimou Calisto Eloy, tão desabridamente rebatido por D. Catharina +Sarmento. + +Averiguou quem fosse o galan d'aquella cega dama, e facilmente lh'o +nomearam. Era um gentil moço, ouzeiro e vezeiro de similhantes baldas, +enfatuado d'ellas, e respondendo por si com sabre ou florete, quando +gente intromettida em vidas alheias lhe fallava á mão. + +O informador do morgado esplanou diffusamente as qualidades do sujeito, +relatando as victimas, e os acutilados na defeza d'ellas. + +Occorreu á memoria de Calisto aquella apostolica e heroica intrepidez de +fr. Bartholomeu dos Martyres, quando foi a defrontar-se com um criminoso +e façanhudo balio, que promettia engulir o arcebispo de Braga, e o +collegio dos cardeaes com o proprio papa, se necessario fosse! Grande +coisa é ter lido os bons classicos, se desejamos saber a lingua +portugueza, e crear alentos para atacar velhacos! + +Ahi vae o esforçado Calisto Eloy de Silos em demanda de D. Bruno de +Mascarenhas. Um escudeiro annuncia ao fidalgo um ratazana. + +--Quem é um ratazana?--pergunta D. Bruno. + +É um sujeitorio, diz o criado, vestido ratonamente, e não diz o nome, +porque v. ex.^a o não conhece. + +--Que quer elle? + +--Fallar com v. ex.^a + +Vae perguntar-lhe quem é, d'onde vem, e que quer. + +Interrogou o criado com máo semblante o morgado. + +Calisto escreveu n'uma pagina rasgada da carteira, e perguntou ao criado +se sabia lêr. Disse que não o interrogado. + +--Pois entrega esse papel a s. ex.^a + +D. Bruno leu, meditou algum espaço, e perguntou: + +--Sabes se em casa do desembargador Sarmento ha algum criado chamado +Custodio? + +--Não, senhor, não havia até hontem; só se entrou hoje. + +--Esse homem que ahi está dá ares de criado? + +--Não, senhor: é assim um jarreta vestido á antiga, com uma gravata que +parece um colete. + +--Manda-o entrar para aqui. + +D. Bruno releu a linha escripta a lapis, e disse entre si: + +--Que Custodio é este!? + +N'isto, assomou Calisto Eloy. + +Bruno de Mascarenhas adiantou-se a recebel-o, e disse-lhe maravilhado. + +--Eu já tive a honra de comprimentar v. ex.^a no escriptorio da _Nação_. +V. ex.^a é o sr. Calisto Eloy de Barbuda. + +--Sou, e agora me recordo que já tive o prazer de o encontrar... + +--Mas v. ex.^a n'este bilhete diz que é Custodio!--tornou Bruno. + +--Custodio, que é sinonymo de anjo-da-guarda, ou anjo-custodio da +ex.^{ma} sr.^a D. Catharina Sarmento. + +Abriu o moço a bôcca, e disse: + +--Ah... agora é que eu entendi... Mas... queira v. ex.^a sentar-se... Eu +não sei que allusão possa ser esta... que... a respeito de... + +Calisto sentou-se, estendeu o braço direito com a mão aberta, e atalhou +o enleio de Bruno, dizendo solemnemente: + +--Vou fallar. + +E, apoz curta pausa, relanceou discretamente os olhos á porta, como quem +receia ser ouvido. + +--Póde v. ex.^a fallar, que eu fecho a porta, disse o confuso +Mascarenhas. + +--O sr. Bruno de Mascarenhas--proseguiu o morgado--é solteiro. Cedo ou +tarde ha de ser casado, por que é varão de preclarissima linhagem, e +duas forças invenciveis hão de compellil-o a propagar-se: o sentimento +congenito da especie, e a gloria, que vangloria não é, da prosecução da +raça. + +(Este exordio abrupto invencilhou os espiritos de D. Bruno, os quaes +eram pouco entendidos em estylo garrafal.) + +Façamos de conta--proseguiu Calisto--que v. ex.^a é hoje, como será, +volvidos mezes ou annos, casado com uma dama egual em sangue, de honrada +fama, acatada do conceito geral, dama emfim, na qual v. ex.^a empregou +suas complacencias todas. Á boa dita de esposo succede-lhe a +prosperidade de pae. Vê v. ex.^a em redor de si umas alegres +creancinhas, que o beijam e o furtam com graciosas blandicias ás graves +cogitações dos negocios, e aos aborrimentos que salteam as existencias +mais descuidadas e desprendidas. A mãe dos filhinhos de v. ex.^a é o +cofre de oiro: as creanças são as joias inestimaveis que v. ex.^a lá +encontrou e lá encerra. + +A mãe é a flôr, os filhos são o fructo. V. ex.^a arde de amores d'elles +e d'ella. Por que a sua familia é não sómente a sua alegria domestica, +senão que lhe é fóra de casa um pregão da honestidade e honra que vae +n'ella. + +De repente, quando v. ex.^a está meditando nos jubilos da velhice, com +seus filhos já homens, com sua esposa laureada pelas cans sem macula, de +repente, digo, ha um amigo em lagrimas, ou um inimigo secretamente +satisfeito, que, lhe diz: «Tua mulher deshonra-te; essas creanças, que +tu affagas, e para quem estás multiplicando os teus haveres, podem não +ser teus filhos, por que tua mulher prevaricou.» Pergunto eu ao ex.^{mo} +Bruno de Mascarenhas: a sua agonia, n'essa hora de atroz revelação, como +hão de expressal-a os que a não sentiram ainda? + +--Não sei...--respondeu Bruno--Só, no caso de se darem as circumstancias +que v. ex.^a diz, é que se póde responder. + +--Todavia, o seu entendimento e coração, já antes da experiencia, podem +antever qual deva ser a agonia do marido deshonrado pela ignominia de +sua mulher... + +--Sim... + +--Até aqui a hypothese em v. ex.^a: agora o exemplo em Duarte de +Malafaya, marido de D. Catharina Sarmento. Duarte era rico, e dos mais +fidalgos; por excesso de amor casou com D. Catharina, filha de um +nobilissimo cavalheiro, porém magistrado empobrecido pelos desconcertos +da politica. Duarte entrou n'aquella casa, restaurou a decencia antiga, +e encostou ao seio as cans do magistrado octogenario, assegurando-lhe o +socego e contentamentos dos annos ultimos da vida. + +Decorridos cinco annos, Duarte tem cinco filhos. São anjos que descem a +povoar o paraiso d'aquella ditosa familia. Brincam á volta de sua mãe, e +como que lhe estão dando os alegres emboras da felicidade que elle está +gosando, e lhe augura a elles. + +É n'este ensejo que o inferno se abre aos pés d'esta familia honrada e +ditosa. Surge das tenebrosas agonias um homem que despedaça ás mãos os +laços humanos e divinos da santa união do velho, da filha, do genro, e +dos netos. Ora, o homem que os assaltou no seu eden, foi o sr. D. Bruno +de Mascarenhas. + +--Eu!...--exclamou o moço com artificial espanto. + +--V. ex.^a. Vejo-o admirado, não sei se da minha affoitesa, se da +responsabilidade que lhe pesa, sr. D. Bruno! + +--Mas que houve em casa do Sarmento?--perguntou alvoroçado o fidalgo. + +--O que eu antes de hontem vi foi a face do ancião lavada de lagrimas. O +que eu vi hontem á noite foi Duarte de Malafaya fitar os olhos nas +creancinhas, e escondel-os para que o não vissem chorar. O que hoje +verei em casa do desembargador Sarmento, se v. ex.^a o não presagia... +Não temos tempo para conjecturas: a chaga deve ser cauterisada já, para +não ser gangrena ámanhã. Quer v. ex.^a ajudar-me a conjurar a nuvem +negra que vae rasgar-se em torrentes de desgraças? + +D. Bruno reflectiu dois segundos, como se houvesse pejo de responder, no +primeiro instante: + +--Da melhor vontade. Eu desisto d'estas relações, para evitar desgostos +serios á sr.^a D. Catharina. + +--Falla-me um honrado portuguez, que tem o appellido dos Mascarenhas? +perguntou com solemnidade o Barbuda. + +--Juro pela honra de meus avós. + +--Que vae fazer v. ex.^a?--tornou Calisto. + +--Antecipo um passeio que mais tarde tencionava fazer á Europa. Parto no +paquete de ámanhã para França. + +--Sem dizer, nem fazer saber á sr.^a D. Catharina que esteve aqui um +amigo do desembargador Sarmento... + +--Nada direi sr. Barbuda. + +--Aperto-lhe e beijo esta mão. Agradeço-lh'o em nome dos cinco filhos de +Duarte de Malafaya, ou dos cinco anjos que lhe chamam pae. + +--E saíu com os olhos marejados. + + * * * * * + +D. Bruno cumpriu a promessa com tanta pontualidade como o faria um +sujeito de menos fidalgos brios, se lhe dissessem: «Afasta-te, se não +queres o encargo de amparar uma familia, cujo esteio estás quebrando.» + +É coisa que pouquissimo custa, em condições analogas, o ser pontual. Ás +vezes, até se vinga fama de prudente e ajuizado. + +Como quer que fosse Calisto Eloy foi d'alli em direitura á poltrona do +magistrado, e disse-lhe: + +--Cobre animo, amigo e senhor meu. O inimigo levantou o cerco. A +maledicencia descaridosa, se não mudar de juizo, esquece-se. + +Seguiu-se a narrativa do acontecido, e as alegrias do ancião +interpolladas de agradecidas lagrimas. + + + + +XIII + +*Regeneração* + + +Ó coração sensivel! ó peccadora Catharina, que vaes agora expiar o teu +crime nas agonias da saudade! Aquelle Calisto, cuidando que te salvava, +matou-te! + +Não foi tanto quanto diz a apostrophe; mas, de feito, Catharina, quando +recebeu de Bruno de Mascarenhas uma carta saturada de sãs doutrinas e +reflexões, como as faria S. Francisco de Salles a mad. du Chantal, +entendeu de si para comsigo que devia morrer de despeito e raiva. O +fugitivo escrevia-lhe pouco antes de embarcar-se. Não referia o dialogo +com Calisto; dava porém como certa uma tempestade a prumo das cabeças +d'elles delinquentes. «Irei, dizia elle, morrer longe da mulher que amo, +para lhe não sacrificar os creditos e os filhos. Se souberes que eu +morri, recompensa-me esta virtude rara, dizendo em tua consciencia que +eu te amei, como já ninguem ama sobre a face da terra.» + +Depois, seguiam-se na carta os conselhos ajustados á felicidade da vida. +Expunha as consequencias funestas das paixões. E terminava dizendo que +as lagrimas o não deixavam continuar. + +Que dama resistiria, depois d'isto, á morte? + +Encerrou-se a filha do desembargador, no intento de providenciar em +artigo de morte, e entrouxar para a eternidade. + +N'estas cogitações a surprehendeu a mana Adelaide, mostrando-lhe uma +carta de um certo Vasco da Cunha, que escrevia desde muito, e +honestamente a menina solteira, no proposito de casamento. Este Vasco, +de boa linhagem, conhecia Bruno, e via com desprazer os amores da dama, +que havia de ser sua cunhada. Eventualmente soubera elle do embarque do +Mascarenhas. Pessoas que o viram a bordo, referiram-lhe que o sujeito, +perguntado ácerca dos amores de Catharina Malafaya, respondera +fatuamente que se ia escapando a um aguaceiro de escandalos, com que +elle não queria brincar, por que a mulher, enthusiasta e apaixonada mais +que o necessario, seria capaz de o fazer assumir as funcções de marido +não canonico. + +Pouco mais ou menos, era d'aquella amavel contextura o periodo que D. +Adelaide leu a sua irmã lagrimosa. + +D. Catharina levantou-se com fidalgos brios, chamou pelos filhos, +abraçou-se n'elles, e disse á irmã: + +--Estou bem! Deus me perdoará, rogado por estes innocentes. Meu amado +marido, como eu te quero hoje! como eu sinto o teu coração a consolar-me +n'estes remorsos!... + +Ora, eu não tenho a caridade de crêr nos remorsos de D. Catharina; mas +piamente acredito que a mulher se estava sentindo mais amiga do marido, +fineza que elle devia agradecer-lhe com as suas mais melifluas caricias. + +E veiu logo a succeder que o esposo, surprehendido pela extremosa +ternura da senhora, estranhou o caso, e requereu brandamente a +explicação da improvisa mudança. Catharina, imaginosa como todas as +pessoas que amam muito, explicou, entre alegre e lagrimante, que a final +se convencera de que o seu Duarte a não trahia: suspeita de tanta força +para ella, que podéra empeçonhar, com as serpes do ciume, a felicidade +de duas almas, ligadas por paixão. + +Duarte ficou lisongeado e satisfeito. Seguiu-se confessar elle tambem as +suas vagas desconfianças emquanto á lealdade da esposa. Aqui é que foi a +scena, digna de mais conspicuo narrador. A offendida senhora pregou os +olhos no firmamento de madeira, espreitou por elle o azul do empyreo, +com a dupla vista que dá a angustia, e murmurou: + +--Céos! que injustiça! + +Era dôr que lhe encolhia os folipos das lagrimas. Não arranjou a chorar. +Caíu de golpe na poltrona de mais capacidade e flacidez para quedas +d'aquella natureza! e, tapando a face com as mãos alvissimas, balbuciou, +desentallando-se dos suspiros: + +--Oh! que infeliz! que infeliz! + +Duarte inclinou-se com os labios ao colo de Catharina, e disse +affectuosamente: + +--Perdoemos um ao outro. Estes ciumes reciprocos dizem que nos amavamos +por egual. + +Não queria a magoada senhora perdoar; porém, como lhe faltasse fôlego de +despejo para sustentar a scena, envergonhou-se de si mesma, e teve dó do +marido, a quem ella, e pae, e irmã, deviam a decencia, estado, +representação e sociabilidade com as primeiras familias de Lisboa. + +Instantes foram estes de consciencia rehabilitada, que poderam muito com +ella no decurso da vida, e promettem ser-lhe amparo até ao fim. + +É-me pequeno o peito para o prazer que sinto, relatando este caso, que é +unico dos meus apontamentos, em egualdade de circumstancias. Ainda ha +gente boa e de muitissima virtude: isto é que é verdade. + +O fautor d'este successo, com que a gente se consola, foi, sem debate, +Calisto Eloy, aquelle anjo! + +Com que delicias d'alma contemplava elle a restaurada ventura d'aquelles +casados, e o jubilo do desembargador! E os agradecimentos do ancião, que +bem lhe faziam ao peito honrado! E os affectos de Catharina, que de todo +ignorava ter sido elle o agente do seu socego; porém muito lhe queria +pelo tom grosseiro, mas paternal com que lhe admoestára a culpa! + +Afóra o desembargador, uma pessoa unica sabia que o morgado tinha sido o +conciliador engenhoso da paz da familia: era Adelaide. Esta menina +vivera receosa de que o seu Vasco, rapaz timbroso, a não quizesse +esposar, fazendo-a cumplice dos desvios da irmã. Agora, já mais +esperançada na realisação do casamento, via com olhos agradecidos o bom +provinciano, e attendia-o com os disvelos de extremosa amiga. A isto a +incitava o pae, que frequentes vezes lhe dizia: + +--Se este honrado fidalgo fosse solteiro, e podesses amal-o, filha, que +prazer o nosso se... + +---Oh! papá...--atalhava quasi sempre a menina--pois eu havia de casar +com elle?... + +--Por que não? Honra, riqueza, sciencia e nobreza... que mais querias +tu, filha?--perguntava o pae. + +Adelaide sorria-se, e murmurava de si comsigo. + +--Ainda bem que elle é casado, senão eu tinha que vêr com a jarrêta da +creatura!... + +No entanto, a reconhecida senhora, no auge da sua gratidão, jogava a +sueca emparceirada com Calisto de Barbuda, e ensinou-lhe a jogar as +damas, prenda em que o morgado revelou uma inhabilidade que excede todo +o encarecimento. + + + + +XIV + +*Tentação! Amor! Poesia!* + + +Eis que, a subitas, do coração de Calisto resalta a primeira faisca de +amor! + +Conheço que este desastre não se devia contar sem grandes prologos. Sei +que o leitor ficou passado com esta noticia. Grita que a +inverosimilhança é flagrante. Não póde de boamente consentir que se lhe +desfigure a sisuda physionomia moral do marido de D. Theodora Figueirôa. +Quer que se limpe da fronte d'este homem o stigma de um pensamento +adultero. Honrados desejos! + +Mas eu não posso! Queria e não posso! Tenho aqui á minha beira o demonio +da verdade, inseparavel do historiador sincero, o demonio da verdade que +não censentiu ao sr. Alexandre Herculano dizer que Affonso Henriques viu +coisas extraordinarias no céo do campo de Ourique, e a mim me não deixa +dizer que Calisto Eloy não adulterou em pensamento! Estes são os ossos +malditos do officio; esta é a condemnação dos infelizes artifices que +edificam para a posteridade, e exploram nas cavernas do coração humano +os cimentos da sua obra. + +Ai! Se Calisto Eloy foi de repente assalteado do dragão do amor, como +hei de eu inventar preludios e antecedencias que a natureza não usou com +elle!? Se o homem, espantado, a si mesmo se interrogava, e dizia: «isto +que é?!» como hei de eu dizer ao leitor o que foi aquillo?! + +O que elle sabia e eu sei é que, estando Calisto de Barbuda a jogar a +sueca de parceiro com Adelaide, a razão de cruzado novo a partida, a +menina passou a sua bolsinha de filagrana para a mão do parceiro, e +disse-lhe: + +--Administre-me o meu thesouro, sr. morgado. Tenho ahi o meu dote. + +--Pois sejam todos muito boas testemunhas da quantia que recebo da +ex.^{ma} sr.^a D. Adelaide, minha senhora;--disse Calisto, esvasiando a +bolsinha. + +Com as moedas de prata e oiro, que a bolsa continha, saíu um pequeno +coração de oiro esmaltado com iniciaes. + +Ah!--acudiu Adelaide pressurosa--isto não!...--E retirou sofregamente o +coraçãosinho. + +Algum dos circumstantes disse: + +--Então o sr. morgado não serve para administrar corações?! + +--Serve para os dominar com a sua bondade, e enchel-os de affectuosa +estima--respondeu com adoravel graça a menina. + +Foi n'este instante que o morgado da Agra de Freimas sentiu no lado +esquerdo do peito, entre a quarta e quinta costella, um calor de +ventosa, acompanhado de vibrações electricas, e vaporações calidas, que +lhe passaram á espinha dorsal, e d'aqui ao cerebêlo, e pouco depois, a +toda a cabeça, purpureando-lhe as maçãs de ambas as faces com o rubor +mais virginal. + +D'isto não deu tento Adelaide nem a outra gente. + +Duas enfermidades ha ahi, cujos symptomas não descobrem as pessoas +inexpertas; uma é o amor, a outra é a tenia. Os symptomas do amor, em +muitos individuos enfermos, confundem-se com os symptomas do idiotismo. +É mister muito acume de vista e longa pratica para descriminal-os. Passa +o mesmo com a tenia, lombriga por excellencia. O aspecto morbido das +victimas d'aquelle parasita, que é para os intestinos baixos o que o +amor é para os intestinos altos, confunde-se com os symptomas de graves +achaques, desde o hidrotorax até á espinhela caída. + +E aqui está que Calisto Eloy--ia me esquecendo dizel-o--tambem sentiu a +queda da espinhela, sensação esquisita de vacuo e despêgo, que a gente +experimenta, uma pollegada e tres linhas acima do estomago, quando o +amor ou o susto nos leva de assalto repentinamente. + +Sem embargo da concumitancia de tantas enfermidades, Calisto de Barbuda +embaralhou as cartas, passou-as á esquerda, e jogou a primeira partida +com tamanha incuria e desacerto, que Adelaide, no acto do pagamento da +aposta observou ao parceiro que era preciso administrar com mais zelo o +dote da sua amiga. + +E ajuntou: + +--V. ex.^a esteve a compor algum bello discurso para a camara... + +O morgado cacarejou um sorriso, e mais nada. + +Proseguiu o jogo. Calisto deu provas de supina bestidade em quatro +partidas de sueca. Adelaide, dissimulando a má sombra do fastio com que +estava jogando, aturou até ao fim a partida, com grande desfalque do seu +peculio. + +Tinha-se feito uma atmosphera nova em redor dos pulmões de Calisto. A +loquacidade, embrechada de sentenças e latinismos, com que elle +costumava aligeirar as palestras dos eruditos amigos do desembargador, +desamparou-o n'aquella noite. Isto causou extranhesa e cuidados ao +amoravel Sarmento, que presava Calisto como a filho. + +A partida acabou taciturna e triste. + +Fechado em seu gabinete de estudo, o morgado da Agra, sentou-se á banca, +apanhou entre dois dedos o beiço superior, e esteve assim meditabundo +largo espaço. Depois, ergueu-se para dar largas ao coração que pulava, e +andou passeando com desusada agilidade e aprumo de corpo. Parou diante +da livraria, tirou d'entre os poetas classicos o dilecto Antonio +Ferreira, sentou-se, abriu á sorte, e leu, declamando os dois quartetos +do soneto V; + + Dos mais fermosos olhos, mais fermoso + Rosto, qu'entre nós ha, do mais divino + Lume, mais branca neve, oiro mais fino, + Mais doce fala, riso mais gracioso: + + D'um Angelico ar, de um amoroso + Meneo, de um spirito peregrino + S'acendeu em mim o fogo, de qu'indino + Me sinto, e tanto mais assi ditoso. + +Repetiu, fez pausa, suspirou, e declamou ainda o primeiro verso do +terceto: + + Não cabe em mim tal bem-aventurança! + +N'isto, a imagem de sua prima e esposa D. Theodora Figueirôa, trazida +alli por decreto do alto, antepoz-se-lhe aos olhos enleados na imagem de +Adelaide. Calisto estremeceu de puro pejo de sua fraqueza, e lançou mão +da ultima carta que recebêra de sua saudosa mulher. Resava assim, +escripta por mão de uma filha do boticario de Caçarelhos, com +orthographia mais imaginosa que a minha: + +«Meu amado Calisto. Cá soube pelo mestre-escóla que tens botado algumas +fallas nas côrtes, e que tens muita sabedoria. O sr. abbade já cá veiu +ler-me um pedaço do teu dito, e oxalá que seja para bem da religião. +Olha se botas abaixo as decimas, que é o mais necessario. Aqui veiu um +padre de Miranda para tu o despachares para abbade; e o regedor tambem +quer que tu lhe arranjes um habito de Christo para elle, e uma pensão +para a tia Josepha, que é viuva de um sargento de milicias de +Mirandella. Assim que arranjares isso, manda para cá. + +Saberás que mandei trocar os bois barrosãos á feira dos onze, e comprei +vaccas de cria. Os sevados não saíram de boa casta, e acho que será bom +trocal-os na feira dos dezenove. A porca russa teve dez leitões hontem +de madrugada. E, com isto, olha se isso lá acaba depressa, que eu ando +por cá triste e acabrunhada de saudades. Na semana que passou andei mal +das reins, e muito despegada do peito. Hoje vou vêr medir seis carros de +centeio, que vão para a feira, por isso não te enfado mais. D'esta tua +mulher muito amiga, _Theodora_.» + +Por mais que recolhesse o espirito vagabundo, Calisto não dava tento +d'estes dizeres de Theodora, encantadores de simplicidade e boa +governança de casa. Arrumou a carta, re-abriu o seu Antonio Ferreira, e +leu no soneto XXXIII: + + Eu vi em vossos olhos novo lume, + Qu'apartando dos meus a nevoa escura. + Viram outra escondida fermosura, + Fóra da sorte e do geral costume... + +Deitou-se por deshoras, e dormitou sobresaltado. Ante-manhã espertou com +as alvoradas de uns pintassilgos e calhandras, que lhe cantavam +amorosamente na alma. Eram as alegrias do primeiro amor, aquelles +momentos de céo, visita dos anjos, que todo coração hospedou na +infancia, na virilidade, ou já na decadencia na vida. Saíu alegre do +leito, e leu algumas lyricas de Camões e Filintho Elysio. + +Nunca em sua vida poetára Calisto Eloy de Silos. O amor não lhe havia +dado o beliscão suavissimo, que por vezes, abre torrentes de metro da +veia ignorada. Eis que o corisco da inspiração lhe vulcanisa o peito. +Levanta machinalmente a mão á fronte, como a palpar a excrescencia +febril que todo o poeta apalpa no conflicto sublimado do estro. +Senta-se: pega da penna, e o coração distilla por ella este fragmento de +madrigal, que, a meu vêr, foi o ultimo que o sincero amor suggeriu em +peito portuguez: + + Senhora de grão primor, + Meu amor, + Formosissima deidade, + Arde meu peito em saudade, + Quem fui hontem, não sou hoje; + Minha alegria me foge, + Se vos olho. + Já captivo em vós me acôlho, + Havei de mim piedade; + Sêde minha divindade; + Não leveis a mal que eu chore + Com tanto que vos adore + Gentil e nobre menina + Como Camões a Cath'rina + E como Ovidio a Corinna. + +Posto isto, o morgado da Agra relanceou os olhos com desdem para o +taboleiro do almoço, e com muita repugnancia, consentiu ao appetite que +se desejuasse com uma linguiça assada, almoço que elle alternava com um +salpicão frito. + +Depois quando se estava vestindo, olhou para a casaca de briche e para +as pantalonas apolainadas, e teve engulho d'esta fatiota. Vestiu-se, +saíu apressado, entrou no estabelecimento do sr. Nunes na rua dos +Algibebes. Aqui o vestiram o mais desgraciosamente que puderam, com um +farto paletó de panno côr de rato, e umas calças, de xadrez cinzento, e +colete azul, de rebuço, com botões de coralinas falsas. No Chiado +abjurou um chapéo de molas de merino, e comprou outro de castor, á +ingleza. Cumpria-lhe vestir as primeiras luvas de sua vida. No vestil-as +arrostou com difficuldades, que venceu, rompendo a primeira luva de meio +a meio. Disse-lhe a luveira que não introduzisse os cinco dedos ao mesmo +tempo, e ajudou o na ardua empreza. + +Dois mancebos galhofeiros, que estavam na loja, riram indelicadamente da +inexperiencia do sujeito desconhecido. Um d'elles, confiado na inepcia +tolerante do provinciano, ou supposto brazileiro, disse, a meia voz, ao +outro: + +--Quatro pés nunca vestiram luvas. + +Calisto encarou n'elles com sorriso minacissimo, e disse á luveira: + +--As luvas são boa coisa para a gente não dar bofetadas com as mãos. + +Os joviaes sujeitos olharam-se com ar consultivo, sobre o despique digno +da affronta, e tacitamente concordaram em se irem embora. + +Ao meio dia, entrou o morgado na camara, e fez sensação. As calças de +xadrez eram uma das grandes desgraças, que a providencia, por intermedio +do sr. Nunes aljubêta mandára a este mundo. Como se a substancia não +fosse já um crime de leso gosto e lesa seriedade; ainda por cima as +pernas caíam sobre as botas em feitio de boca de sino. + +A camara afogou o riso, salvo o dr. Liborio do Porto, que tirou de +dentro esta facecia puchada á fieira do costumado estylo: + +--Guapamente intrajado vem mestre Calisto! Faz-se mister saber que rolos +de pragmaticas lhe impendem entre as botinas e as pantalonas. Certo, que +o urso se pule e lustra. Bom seria que o cerebro se lhe vestisse de +roupagens novas e hodiernos afeites!... + +Foram festejados estes apódos pelos tolos mais convisinhos do dr. +Liborio. + +Calisto houve noticia da zombaria do doutor: a intriga politica não +perdeu lanço de acirrar o morgado contra Liborio, que era governamental. + +N'esta sessão fôra dada ao deputado portuense a palavra, na discussão de +uma proposta de lei sobre cadeias. O morgado, assim que lh'o disseram, +aguardou opportunidade de desforrar-se da chacota. + +Ai da patria, quando os talentos parlamentares se incanzinam n'estas +pugnas inglorias! + + + + +XV + +*Ecce iterum Crispinus...* + + +Corrido um quarto de hora, fez-se na camara o silencio da subterranea +Pompea. É que o dr. Liborio ia fallar. + +--Sr. presidente, e senhores deputados da nação portugueza!--disse +elle--_Vem-nos agora sob a mão assumpto, até aqui pretermittido_.[14] +Pelo que toca e friza com cadeias patrias, direi os cinco stygmas que um +estylista de folego esculpiu nos frontaes d'esses antros: + +INJUSTIÇA! + +IMMORALIDADE! + +IMMUNDICIE! + +INSULTO! + +INFERNO! + +Inferno, sr. presidente, inferno dantesco, inferno theologico em que ha +o ranger de dentes, _stridor dentium_! + +Que é da civilisação d'esta miserrima e tão coitada terra? Quem nos +lampeja verdade n'esta escureza em que nos estorcemos? Ai! _A verdade +ainda não matiza de rosicler a alvorada do novo dia_. As idéas entre nós +estão como _flores palpitantes no gomo nascente_. Eu me esquivo, sr. +presidente, _o lavor de historiar as successivas phases que tem +percorrido os methodos do aprisoamento_. Urge primeiro pregoar a brados +que se faz mister funda cauterisação na lei. O direito não se estudou +ainda em Portugal. Pois que é o direito? _No seu todo synthetico e como +corpo doutrinal, o direito é a sciencia da condicionalidade ao fim do +homem_. Consoante vige e viça o nosso direito de punir, sr. presidente, +_o juiz é o delegado de Deus, o carrasco o substituto do anjo S. +Miguel_.[15] + +Calisto Eloy pediu a palavra. O orador proseguiu: + +--Sr. presidente, n'este paiz não se attende ás bossas. Os legisladores +não estudam o crime com o compasso sobre um craneo esbrugado. _Se fordes +a Windsor Castle e vos metterdes de gôrra com os guardas que mostram o +castello, ouvireis que um dos filhos da rainha tem uma irresistivel +tendencia para a rapina: é uma pêga humana_. Uma pêga humana, +rapacissima, a mais não! Sr. presidente, _do nosso rei D. Miguel se +conta, que já mancebo saodo da puericia, se entretinha a maltratar +animaes, chegando um dia a ser encontrado arrancando as tripas a uma +gallinha viva com um sacarolhas_.[16] + +--_Vozes_: Á ordem! Á ordem! + +--_O orador_: Pois em que me transviei da ordem? + +--_Uma voz_: Não se diz no seio da representação nacional: _o nosso rei +D. Miguel_. + +--_O orador_: Eu referi o caso com as expressões em que o acho narrado +n'um livro mirifico e sobre-excellente do sr. dr. Ayres de Gouveia. + +--_Uma voz_: Pois não faça obra por inepcias do dr. Ayres de Gouveia. + +--_O orador_: Retiro a dessoante phrase, que impensada destilei do +labio, e ao ponto me revêrto. Sem a sciencia de Porta e de Blumenbache +toda a penalidade saírá vêsga, bestial, e infernalissima. É natural, sr. +presidente, que o sentimento se corrompa, assim como o _calculo se +empedra, e arraiga o cancro nas entranhas, e o coração se ossifica, e o +hydrocephalo se gera, ainda nos mais solicitos em hygiene_: + +Posto isto, sr. presidente, cumpre dividir os sexos, pelo que diz +respeito ao calibre do castigo. Eu citarei com quanta emphase me cabe +n'alma, algumas linhas do jovem explendido de verbo, que auspicia e +promette o primeiro criminalista d'esta terra. Fallo de Ayres de +Gouveia, e n'elle me estribo. O douto viajeiro diz: «O individuo, para +quem a lei legisla, e a quem tem em vista, é o homem (_vir_), não a +mulher (_mulier_), desde os vinte e um annos, ou época do predominio +racional, até aos sessenta, ou principio do periodo debilitante, no +estado generico, ou que constitue a generalidade de ser homem, não +descendo sequer ás gradações principaes, que tornam o _homo_ homem, o +genero especie.»[17] + +É certo, sr. presidente, que _a femina toca o requinte da depravação, e +chega a effeituar horrores cuja narração é de si para gelar ardencias de +sangue, para infundir pavor em peitos equanimes_, porem, o mobil dos +crimes seus d'ellas é outro: _as faculdades da mulher agitam-se +perturbadas; é um periodo de evolução_, e não ha ahi _arcar com +evidencia_. + +Que farte me hei despendido em razões que superabundam no caso em que me +empenho, de parçaria com Victor Hugo, e com quejandas lumieiras que +esplendem na vanguarda d'esta caravana da humanidade, que se vae +demandando a Meca da perfectibilidade. Faça-se a lei, restaure-se a +justiça, e depois crie-se a penitencia, regimente-se o criminoso +_aprisoado_! Aos que já metteram rêlha e adubo no torrão do novo +plantio, d'aqui me desentranho _em louvores e muitos e francos e +perennes_. + +Sr. presidente! Em quanto a cadeias, estamos no mesmo _pé de idéas da +inquisição_! Que esterquilinios! que protervia! Eu quero, com o dr. +Ayres, que _todo o preso seja de todo barbeado semanalmente, lave rosto +e mãos duas vezes por dia, e tenha o cabello da cabeça cortado á +escovinha_. Eu quero, com o doutor supracitado, que elle não fume, nem +beba bebida fermentada. _Água em abundancia_, e mais nada potavel. Não +quero que os presos se conversem, porque, no dizer do insigue patricio +meu, e abalisado humanista, _das cadeias saem delineamentos de assaltos, +e assassinatos de homens que sabem ricos_. + +_Lastimado isto_, sr. presidente, um preso descomedido entre os de mais, +_é qual febricitante despedido do leito que como setta voada do arco, +exaspera em barulho os males de toda a enfermaria_. + +Eu quero que o preso funcionne intellectivamente, e de lavores corporaes +se não desquite. O homem sem instrucção _obra instinctivamente, obra +egoistamente, obra septicamente_, se lhe escaceia religião. Ao preso +_lide-lhe a mão na tarefa, sim; mas lide-lhe tambem a cabeça na idéa_. +_Inclinando rasoamento_ para isto, em todas as cadeias europeas lustram +sciencias, pulem saber, e se amenisam instinctos. Veja-se o que diz o +nunca de sobra invocado Ayres, honra e joia da cidade de Sá de Menezes, +d'Andrade Caminha, de Garrett, cidade onde me eu rejubilo de haver +vagido nas faixas infantis. É mister que se entranhe o sacerdote no +cancro das masmorras; mas o sacerdote _atilado de engenho e todo +impeccavel de costumes_; e não padres cuja _uncção sacrosanta se lhes +convertesse no corpo em lascivos amavíos_. Quem sabe ahi _joeirar o +optimo para capellães de prisões_? + +Depois quer-se _um director, olho e norma_. _E tão boas partes se lhes +requerem, que ainda scismando talhal-o um composto de virtudes, o não +viriamos delinear senão escorço_. + +Deu a hora, sr. presidente. A materia é tal e tão rica, e para tamanho +cavar n'ella, que se me confrange alma de lhe não dar largas. Aqui me +fico, e do imo peito espido brado de louvor, que louvaminha não é, ao +illustre membro d'esta camara que mandou para a mesa a proposta da +reformação das cadeias. Bençãos lhe chovam, que assim, com valida mão, +emborca a froixo urnas de balsamos sobre a esqualidez da mais ascosa +ulcera da humanidade. (Prolongados applausos. _O orador foi +comprimentado por pessoas graves, que tinham estado a rir-se_.) + +Calisto Eloy contemplou-o com a fixidez de medico, que estuda os +symptomas da demencia nos olhos do enfermo. Depois, voltando-se contra o +abbade de Estevães, disse: + +--Eu queria ver como este dr. Liborio tem a cabeça por dentro. + +E rythmando o compasso com os dedos na tampa da caixa declamou: + + Quantos folgam fallar a prisca lingua + Qual Egas, qual fallou, Fuas Roupinho, + Qual esse conde antigo, que levára + A villa de Condeixa por compadre! + Mas como a fallam? Põem sua méestria + Em palavras sediças, termos velhos + Termos de saibo e mofo, que arrepiam + Os cabellos da gente... + Que dizes d'isto? + Como chamas a estes?..... + Que eu não acerto a dar-lhe um nome proprio. + Que bem quadre a tão rancidos guedelhas? + Quando estas coisas desvairadas vejo + Dão-me engulhos de riso, ou já bocejos, + Como arrepiques certos de gran fome![18] + + + + +XVI + +*Quantum mutatus!...* + + +Á noite, no salão do desembargador Sarmento, soube-se que o morgado da +Agra havia de orar no dia seguinte. Entre as pessoas alvoraçadas com a +noticia, a mais empenhada em ouvil-o era D. Adelaide. Ao encontro de +Calisto Eloy saiu ella pedindo-lhe com requebrada doçura, tres entradas +na galeria das senhoras, para ella, irmã e pae. + +--Já sou considerado senhora, amigo Barbuda!--ajuntou o velho--São as +tristes honras da ancianidade!... E lá vou, lá vamos ouvil-o. Ha seis +mezes que não saí de casa, nem saíria para ouvir o proprio Berryer ou +Montalembert. + +--Beijo-lhe as mãos pela cortezia, meu benigno amigo--disse Calisto; +porém olhe que ha de chorar o tempo malbaratado. Eu não vou discorrer, +nem cogitei ainda no que direi. Pedi a palavra, quando uma brava sandice +me esfusiou nos tympanos, e estorcegou os nervos. Soou-me lá que o +carrasco estava substituindo o anjo S. Miguel!... Ó meu caro +desembargador, eu entro a desconfiar que a besta do apocalipse já tem +tres pés bem ferrados no parlamento! Quando lá metter o quarto pé, a +gente escorreita é posta fóra da sala a couces. Peço a vv. ex.^{as} +perdão do pleismo do termo--disse Calisto voltando-se para as damas, que +estavam examinando com espanto as transfiguradas vestes do morgado.--A +boa policia, continuou elle, perde-se com a paciencia. Hei grão medo de +volver-me ás minhas serras mais rudo do que vim. + +--Está-se desmentindo v. ex.^a--acudiu D. Catharina graciosamente--com +os trages cidadãos que apresenta hoje! Cuidavamos que havia jurado nunca +reformar a sua _toilette_ de 1820! + +Calisto sorriu contrafeito, e sentiu-se algum tanto molestado no seu +pundonor e seriedade. Como a causa da mudança do vestido era pouco menos +de irrisoria, o homem foi logo castigado pela propria consciencia. A si +lhe quiz parecer que era já ante si proprio, outro sujeito, e que os +estranhos lhe liam no rosto o desaire inquietador. Então lhe foi +desabafo o coração. Soccorreu-se d'elle para contradizer as reprimendas +do juizo; e o coração, coadjuvado pelas maneiras e ditos affectuosos de +Adelaide despontara as ferroadas do juizo. + +Os visitantes habituaes do desembargador e as senhoras da casa notaram +certa mudança nos modos e linguagem de Calisto. Dir-se-ia que o paletó e +as pantalonas lhe tolhiam a liberdade dos movimentos, e aquella assim +rude, que sympathica espontaneidade da expressão. + +Authorisados philosophos e christãos disseram que o vestido actua +imperiosamente sobre o moral do individuo. Nas paginas immorredouras de +fr. Luiz de Sousa está confirmado isto. «É nossa natureza muito amiga de +si (diz o historiador do santo arcebispo) e experiencia nos ensina que +não ha nenhuma tão mortificada, que deixe de mostrar algum alvoroço para +uma peça de vestido novo. Alegra e estima-se ou seja pela novidade ou +pela honra, e gasalhado que recebe o corpo. Até os pensamentos e as +esperanças renova um vestido novo.»[19] + +O adoravel dominicano, pelo que diz da alegria que influe no animo um +vestido em folha, enganou-se a respeito de Calisto Eloy. O homem dava ar +de quebranto e melancholia, salvo se o jubilo se lhe introvertera ao +coração. Creio que era isto. Era o amor abscondito a magoal-o docemente. +E a não ser o amor, o que poderia ser senão as calças de xadrez? De +feito, o amor quando é serio, põe ás canhas o mais pespontado espirito, +e o mais mazorral tambem. O amoroso de grande loquella, volve-se +parvoinho em presença da sua amada; o sandeu tem inspirações e raptos, +que seriam influxo do céo, se não soubessemos, que o demonio tentador +costuma incubar-se e parvoejar eloquentemente no corpo d'estes palermas. + +Calisto Eloy pagou o tributo dos espiritos esclarecidos. Umas eloquentes +simplezas, com que elle costumava alegrar o auditorio; as maximas +joviaes de Supico e outras com que elle intermeava a conversação; as +gargalhadas provincianas, as liberdades desmaliciosas, o ar de familia +com que elle se fazia bem-querer e desculpar de alguma demasia menos +urbana do que permitte a convenção das salas: tudo isto, que lhe ia tão +bem ao morgado, se demudou em recolhimento cogitativo, sombra triste e +acanhada parvolez. + +N'esta noite, concorreu á partida do desembargador aquelle Vasco da +Cunha, galanteador de Adelaide, mancebo bem composto de sua pessoa, +sisudo, e muito catholico. Este fidalgo, representante dos melhores +Cunhas, mencionados na «Historia Genealogica da Casa Real» e no +«Villas-boas» além do brilho herdado, estava-se gosando de lustre +propriamente seu, figurando sempre nos annuncios pios em que os fieis +eram convidados a assistir a tal festividade religiosa, ou convocando +assembléas de irmandades, para o fim de consultas attinentes á maior +pompa do culto divino. Dito isto, dispensa o leitor que se annumerem +outras virtudes a facto só por si tão significativo. As outras virtudes +hão de vir apparecendo naturalmente. + +Alguem disse a Calisto Eloy que o circumspecto Vasco da Cunha não era +estranho ao coração de Adelaide. Esta nova sobresaltou o peito do +morgado, sem comtudo, lhe innevoar os olhos do discreto juizo, a ponto +de se dar em espectaculo de risivel ciume. Reparou no porte de ambos; e +tão graves e cerimoniosos os viu durante a partida, que não achou razão +para os crer enamorados bem que, n'esta noite, Adelaide jogasse o +voltarete com Vasco da Cunha, e seu cunhado Duarte Malafaya. + +Ás onze horas, Calisto Eloy retirou-se taciturno e contristado. + +A só com a sua consciencia, e debaixo do olhar severo dos seus livros, o +marido de D. Theodora Figueirôa reflectiu conturbado na transformação do +seu modo de viver e sentir. Gritou-lhe a razão que fizesse pé atraz no +caminho que o levava á ladeira de algum abysmo, ou ás fauces +voracissimas do amor que tão illustres victimas tinha ingulido. A +memoria, alliada da razão, abriu-lhe os fastos desgraçados do coração +humano, desde o perdimento de Troia até á extincção do imperio godo nas +Hespanhas. Viu desfilarem, uma por uma, todas as mulheres fataes, desde +Dalila até Florinda, a forçada do conde Julião; e, no couce de todas, a +phantasia febril da insomnia afigurou-lhe Adelaide. + +Aos quarenta e quatro annos a razão póde muito, se o coração já está +enervado e enfraquecido de luctas e quedas; todavia, a razão dos +quarenta e quatro annos é ainda frouxa e transigente, se o coração +começa a amar tão a deshoras. Não se calculam as miserias e parvoiçadas +d'esta serodia mocidade! + +Não obstante, Calisto, pouco antes de adormecer por volta das quatro da +manhã, protestára esquecer Adelaide, perguntando a si proprio se seria +crime amal-a como os paladinos dos tempos heroicos amaram incognitamente +grandes damas, sem mais logro de seus amores que adorarem-n'as? Com isto +queria elle responder á imagem plangente de Theodora, que o estava +arguindo. + +Pobre senhora! àquella hora já ella andaria a pé, a moirejar pela +cosinha, a fim de mandar almoçados para a lavoura os servos, e cuidar +dos leitões. + +Ai! maridos, maridos! Quando a Providencia vos enviar mulheres d'este +raro cunho, encostae a face ao regaço d'ellas, e não queiraes saber como +é que o inimigo de Deus enfeita as suas cumplices na perdição da +humanidade! + + + + +XVII + +*In Liborium* + + +Estavam cheias as galerias da camara. + +Entre as mais formosas, extremava-se a filha do desembargador Sarmento. +A pedido de Calisto Eloy, fôra o abbade de Estevães levar as entradas ao +magistrado, e offerecer-se a conduzir as senhoras á galeria. + +O vistoso coreto das damas exornavam-n'o, talvez mais que a formosura, +algumas senhoras doutas enfrascadas em politica, amoraveis Cormenins, +que aquilatavam o merito dos oradores com incontrastavel rectidão de +juizo e apurado gosto. Lisboa tem dezenas d'estas senhoras Cormenins. + +Não dírei que o renome de Calisto attrahisse as damas illustradas: era +grande parte n'este concurso femeal a esperança de rirem. A nomeada do +provinciano, bem que favorecida quanto a dotes intellectuaes, cobrára +fama de coisa extravagante e impropria d'esta geração. + +Entrou Calisto na sala um pouco mais tarde que o costume, porque fôra +vestir-se de calça mais cordata em côr e feitio. Não me acoimem de +archivista de insignificancias. Este pormenor das calças prende mui +intimamente com o cataclismo que passa no coração de Barbuda. Aquella +alma vae-se transformando á proporção da roupa. Assim como o leitor, á +medida que o amor lhe fosse avassalando o peito, escreveria paginas +intimas, ou ainda peor, cartas corruptoras á mulher querida, Calisto, em +vez d'isso, muda de calças. + +As damas, que o esperavam vestido conforme a fama lh'o pintára, +desgostaram-se de vêl-o trajado no vulgar desgracioso, do commum dos +representantes do paiz. + +Apenas Calisto Eloy se assentou, entrou-se na ordem do dia, e logo o +presidente lhe deu a palavra. + +Cessou o reboliço e fallario d'aquella feira veneranda, assim que o +deputado por Miranda, começou d'este theor: + +--Sr. presidente! Muito ha que se foi d'este mundo o unico sujeito, de +que me eu lembro, capaz de entender o sr. dr. Liborio, e capaz de fallar +portuguez digno de s. ex.^a. Era o chorado defuncto um personagem que +foi uma vez consultar o dr. Manuel Mendes Enchundia, ácerca d'aquella +famigerada casa que elle tinha na ilha do Pico, com um passadiço para o +Baltico. V. ex.^a e a camara, podem refrescar a memoria, lendo aquelle +pedaço de estylo, que presagiou estas farfalharias de hoje. + +Sr. presidente, a mim faz-me tristeza contemplar a ribaldaria, com que +os belfurinheiros de missangas e lantejoulas adornam a lingua de Camões, +despojando-a dos seus adereços diamantinos. A pobresinha, trajada por +mãos de gente ignara, anda por aqui a negacear-nos o riso como moura do +auto, ou anjo de procissão de aldeia. Se acerta de lhe pagarem os +farrapinhos broslados de folha de Flandres em algum silvedo, a mesquinha +fica núa, e nós a córarmos de vergonha por amor d'ella. + +É forçoso, sr. presidente, que a linguagem castiça vá com a patria a +pique? + +Á hora final da terra de D. Manuel, não haverá quem lavre um protesto em +portuguez de João Pinto Ribeiro, contra os Iskariotas, Juliões, +Vasconcellos e Mouras, que nos vendem? + +_Vozes_: Á ordem! + +_O orador_: É contra o regimento d'esta casa, repetir o que está dito na +historia, sr. presidente? + +_O presidente_: Sem offensa de particulares. + +_O orador_: Authorisa-me portanto, v. ex.^a a crer que n'esta casa está +Iskariotas, e o bispo Julião, e Miguel de Vasconcelos, e... + +_Vozes_: Á ordem! + +_O orador_: Pois então eu calo-me, se offendo estes personagens a quem +me não apresentaram, ainda bem! As minhas intenções são inoffensivas, no +entanto, desconsola-me a camaradagem. Se eu soubesse que estava aqui +similhante gente, não vinha cá, palavra de homem de bem! + +_O dr. Liborio_: Mais prestimoso fôra ao cosmos, se o sr. Calisto +estanceasse no agro do seu covil a lidar com a fereza dos javalis. + +_O orador_: Não percebi o dito bordalengo: faça favor de explicar-se. + +_O dr. Liborio_: Já disse que não desço. + +_O orador_: Se não desce, cairá de mais alto. Refiro a v. ex.^a a fabula +da aguia e do kágado, na linguagem lidima e chan de D. Francisco Manuel +de Mello. É o _Relogio da Aldeia_, que falla no dialogo dos _Relogios +fallantes_: «...Lembra-me agora o que vi succeder a um kágado com uma +aguia, lá em certa lagoa da minha aldeia: veiu a aguia, e de repente o +levantou nas unhas, não com pequena inveja das rãs, e de outros kágados, +que o viam ir subindo, vendo-se elles ficar tão inferiores a seu +parceiro. Julgavam por gran fortuna que um animal tão para pouco, fosse +assim sublimado á vista de seus eguaes. Quando n'isto, eis que vemos +que, retirada a aguia com sua presa a uma serra, não fazia mais que +levantar o triste animal, e deixal-o cair nas pedras vivas, até que +quebrando-lhe as conchas com que se defendia...» não me lembra bem se D. +Francisco Manuel diz que a aguia lhe comeu o miolo. + +Se o sybillino collega figura na moralidade d'este conto, offerece-se-me +cuidar que não é a aguia. + +(_Pausa do orador: riso das galerias_.) + +Sabido, pois, sr. presidente, que as citações historicas fazem +repugnancias ao regimento e á ordem, abjuro e exorciso os demonios +incubos e succubos da historia, pelo que rogo a v. ex.^a muito rogado +que me descoime de desordeiro. + +Direi de Quintiliano, se este nome não desconcerta a ordem. Trata-se de +oradores, e de estylos viciosos. Diz este mestre dos rethoricos que «ha +um natural prazer em escutar qualquer que falla, ainda que seja um +pedante, e d'aqui aquelles circulos que a cada hora vemos nas praças á +roda dos charlatães» N'esta nossa edade, Quintiliano redivivo diria: +«nas praças e nos parlamentos.» + +_Vozes_: Á ordem? + +_O orador_: Pois tambem Quintiliano?! + +Bem me quer parecer que rarissimas vezes o admittem aqui a elle!... + +_O presidente_: Lembro ao nobre deputado, que a camara não é aula de +rethorica. + +_O orador_: Assim devo presumil-o, vendo que todos a professam com +dignidade, exceptuado eu, que me não desdoiro, em confessar que sou o +discipulo unico e máo de tantos mestres. Eu direi a v. ex.^a qual +eloquencia considero necessaria n'esta casa da nação: é a eloquencia que +a nação entenda. A arte de bem fallar, _ars béne dicendi_, é o estudo da +clareza no exprimir a idéa. Os affectos, as galas da linguagem, que lhe +tolhem o mostrar-se e dar-se a conhecer dos rudos, não é arte, é +tramoya, não é luz, é escuridade. Os meus constituintes mandaram-me aqui +fallar das necessidades d'elles em termos taes que por elles v. ex.^a e +a camara lh'as conheçam, ponderem, e remedeiem. + +Sou da velha clientela de Quintiliano, sr. presidente. Com elle entendo +que por de mais se enganam aquelles que alcunham de popular o estylo +vicioso e corrupto, qual é o saltitante, o agudo, o inchado, e o pueril, +que o mestre denomina _proedulce dicendi genus_, todo affectação +menineira de florinhas, broslados de pechisbeque, recamos de fitas como +em bandeirolas de arraial. + +Eis-me já de força inclinado á substancia do discurso do sr. dr. +Liborio. Primeiro me cumpre declarar que não sei pelo claro a quem me +dirijo. Ha dias me regalei de ler o succoso livro de um doutor grande +lettrado que escreveu da _Reforma das Cadeias_. Achei-o lusitanissimo na +palavra; mas hebraico na locução. Tem elle de bom e singular que tanto +se percebe lendo-o da esquerda para a direita como da direita para a +esquerda. Soou-me que o sr. dr. Liborio, amador do que é bom, se +identificára com o livro, e aformosentára o seu discurso com muitas +louçainhas d'aquelle thesouro. + +Não sei, pois, se me debato com o sr. dr. Ayres, se com o sr. dr. +Liborio. _Se me debato_, desavisadamente disse! O discurso não dá péga a +debates que não sejam philologicos. Estes não vem aqui de molde. +Rethorica, grammatica e logica, se alguem quizer tratal-a n'este predio, +entretenha-se lá em baixo no pateo com o porteiro, ou com as viuvas e +orphãos, que pedem pão com a logica da desgraça, e com a rethorica das +lagrimas: grammatica não sei eu se a fome a respeita: parece-me que não, +por que na representação nacional ha famintos que a não exercitam +primorosamente. (_Murmurio e agitação na direita. Applausos na galeria. +Um «bravo» estridulo do desembargador Sarmento. Um cautelleiro dá palmas +na galeria popular. A tolice é contagiosa. O presidente sacode a +campainha. Restabelece-se o silencio. Calisto Eloy tabaqueia da caixa do +radioso abbade de Estevães_.) + +_O presidente_: Relembro, já com magoa, ao sr. deputado que se abstenha +de divagações alheias do debate. + +_O orador_: De maneira, sr. presidente, que v. ex.^a quer á fina força, +subjugar as minhas pobres idéas em _aprisoamento_, como disse +gentilmente o illustre collega! + +Pois assim sou esbulhado de um sacratissimo direito? É então certo, como +disse o sr. dr. Liborio, que não ha direito em Portugal? V. ex.^a sem o +querer, está sendo, na phrase ingrata do illustre deputado, o +_substituto do anjo S. Miguel_! (_Riso_) Oh! V. ex.^a não será algoz do +pensamento, já de si tão intanguido que não é mister matal-o: basta +deixal-o morrer... Callar-me-hei, se estou magoando v. ex.^a. + +_Vozes_: Falle! falle! + +_O orador_: O illustre collega referiu o que vem contado no livro do sr. +dr. Ayres de Gouveia: _que o nosso rei D. Miguel já mancebo, saido da +puericia se entretinha a maltratar animaes, chegando um dia a ser +encontrado, arrancando as tripas a uma gallinha com um sacarolhas_. É +pasmoso, sr. presidente, que os dois doutores, protestando pela +legitimidade do seu rei, um no livro, outro no discurso, refiram a +sanguinaria historia do sacarolhas nos intestinos da deploravel +gallinha! Eu suei quando ouvi este canibalismo, suei de afflicção, sr. +presidente, figurando-me o desgosto da ave! + +Protesto, sr. presidente, protesto contra a suja aleivosia cuspida na +sombra de um principe ausente, indefeso e respeitavel como todos os +desgraçados. Que historia villã é esta? Quem contou ao sr. dr. Ayres o +caso infando do sacarolhas nas tripas da gallinha?! Em que soalheiro de +antigos lacaios de Queluz ou Alfeite ouviram os refundidores da justiça +estas anedoctas hediondas, e mais torpes no squalôr de recontal-as? + +E, depois, sr. presidente, que me diz v. ex.^a e a camara áquelle filho +da rainha da Grã-Bretanha, que é um rapinante: _uma pêga humana_! Que +musa de tamancos! _uma pêga humana_! Que imagem! que allegoria tão +ignobil, e extractado do vocabulario da ralé!... + +Em desconto d'estas repugnantes noticias, fez-nos o sr. doutor o bom +serviço de nos dizer que homem em latim é _vir_, e mulher é _mulier_, e +que, em alguns casos, _homo_ tambem é homem. Ficamos inteirados e +agradecidos. Uma lição de linguagens latinas para nos advertir que a lei +não legisla para a mulher!... Teremos ainda de assistir á repetição do +concilio em que havemos de averiguar se a mulher é da especie humana? Se +os srs. drs. Ayres ou Liborio, alguma vez, dirigirem os negocios +judiciarios e ecclesiasticos em Portugal, receio que os legisladores +excluam a mulher das penas codificadas, e que os bispos lusitanos as +excluam da especie humana!... E peior será se algum d'estes ministros, +no intento de punil-as, as classificam nas aves, e nomeadamente nas +gallinhas! O horror dos sacarolhas, sr. presidente, não me desaperta o +animo! + +Porque não ha de ser castigada a mulher por egual com o homem? Resposta +séria á pergunta que tresanda a paradoxo: «Porque, no delicto, as +faculdades da mulher agitam-se perturbadas; é um periodo de evolução.» A +mulher, que mata, por ciume é que mata; a mulher, que propina venenos, +por ciume é que despedaça as entranhas da victima. Isto é crime, ao que +parece; crime, porém, de _faculdades que se agitam perturbadas, e +periodo de evolução_. Se o termo fosse parlamentar, eu diria +_farelório_! + +Quem ha de enristar armas de argumentação contra estes odres de vento? + +O que eu melhor entendi, graças á linguagem correntia e pedestre da +arenga, foi que o illustre collega, avençado com o sr. dr. Ayres, querem +_que todo o preso seja de todo barbeado semanalmente, lave o rosto e +mãos duas vezes por dia, e tenha o cabello cortado á escovinha, e beba +agua com abundancia, e não beba bebidas fermentadas, nem fume_. + +N'este projecto de lei a pequice corre parelhas com a crueldade. Que o +preso lave a cara duas vezes por dia, isso bom é que elle o faça, se +tiver a cara suja, mas obrigal-o a lavatorios superfluos, é risivel +puerilidade, juizo pouco aceiado que precisa tambem de barrela. + +Privar do uso do tabaco o preso que tem o habito de fumar inveterado, é +requisito de deshumanidade que sobreleva á pena de prisão perpetua ou +degredo por toda a vida. Tirem o cigarro ao preso; mas pendurem logo o +padecente, que elle ha de agradecer-lhe o beneficio. + +Estes reformadores de cadeias, sr. presidente, parece que tem d'olho +apertar mais as cordas que amarram o condemnado á sentença; picar-lhe as +veias, e desangral-o gota a gota, na intenção de o regenerar e +rehabilitar! Optima rehabilitação! humanissimos legisladores! Querem que +o preso se regenere hydropaticamente. Mandam-n'o lavar a cara duas vezes +por dia. _Agua em abundancia_, conclamam os dois doutores. Fazem elles o +favor de dar ao preso agua em abundancia; mas descontam n'esta +magnanimidade prohibindo-os de fallarem aos companheiros de infortunio, +com o formidavel argumento de que _sáem das cadeias delineamentos de +assaltos, e assassinatos de homens que sabem ricos_!... + +«Delineamentos de assassinatos»! Que é isto? _Assassinato_ é coisa que +me não cheira a idioma de Bernardes e Barros. Seja o que fôr, é coisa +horrivel que sáe das cadeias com seus delineamentos, contra homens que +os _presos sabem ricos_. Aqui, sr. presidente, n'este _sabem ricos_, +quem soffre o _assassinato_ é a grammatica. O alticismo d'esta phrase é +grego de mais para ouvidos lusitanos. + +O que é um preso descomedido, sr. presidente? Dil-o-hei? _Vox faucibus +haesit_!... + +_É febricitante despedido do leito, que, como setta voada do arco, +exaspera em barulho os males de toda a enfermaria_. Que se ha de fazer a +um patife que é setta voada do arco? Faz-se-lhe lavar a cara terceira +vez! + +Que desperdicio de poesia para descrever um preso bulhento! + +_Setta voada do arco_! Que infladas necedades assopram estes estylistas +de má morte! + +_Inclinando rasoamento_ (peço venia para me tambem enriquecer com esta +locução do sr. dr. Ayres) inclinando rasoamento a pôr fecho n'este +palanfrorio com que dilapido o precioso tempo da camara, sou a dizer, +sr. presidente, que a melhor reforma das cadeias será aquella que +legislar melhor cama, melhor alimento, e mais christã caridade para o +preso. Impugno os systemas de reforma que disparam em accrescentamento +de flagelação sobre o encarcerado. Visto que Jesus Christo, ou seus +discipulos, nos ensinam como obra de misericordia visitar os presos, +conversal-os humanamente, amaciar-lhes pela convivencia a ferocia dos +costumes, não venham cá estes civilisadores aventar a soledade aos +ferrolhos, o insulamento do preso, aquelle terrivel _voe soli_! que +exacerba o rancor, e os instinctos enfurecidos do delinquente. + +Tenho dito, sr. presidente. Não redarguo ao mais do discurso, porque não +percebi. Sou um lavrador lá de cima, e não adivinhador de enygmas. +_Davus sum, non OEdipus_. + +_O orador foi comprimentado por alguns provincianos velhos_. + + + + +XVIII + +*Vae cair o anjo!* + + +A respeito do ultimo discurso de Calisto Eloy, as gazetas governamentaes +estamparam que a sala da representação nacional nunca tinha sido +testimunha de insolencias de tamanha rudesa e tão audaciosa ignorancia. +Os jornaes da opposição liberal disseram que o representante de Miranda, +á parte as demasias escolares do seu discurso, déra uma util, bem que +severissima lição, aos meninos que jogueteam com o paiz, indo ao +sanctuario das leis bailar em acro-batismos de linguagem, que seriam +irrisorios em palestra de estudantes de selecta segunda. + +Em casa do desembargador é que o morgado deslumbrou o renome dos +fulminadores de catilinarias e filippicas. A numerosa roda do fidalgo +legitimista encarava com venerabundo assombro em Calisto Eloy. As raças +godas, que o não conheciam, concorreram a dar-lhe os emboras a casa de +Sarmento. Sangue dos Affonsos e Joões não se dedignava de inventar em +Calisto um primo. Todos queriam ter nas arterias sangue de Barbudas. E +elle, o genealogico por excellencia, modestamente contradictava o +empenho de alguns parentes honorarios; bem que, de si para si, e para +alguns amigos, se ufanava de não carecer de tal parentella para +egualar-se barba por barba com os mais antigos titulares em limpeza de +sangue. As expressões laudatorias que mais calaram no animo de Calisto +Eloy disse-as Adelaide. A menina, confessando sua surpresa no +parlamento, foi sincera. Não o julgava tão denodado e destemido em face +de gente nova, que parecia acovardar-se diante da coragem de um +provinciano algum tanto achamboado. Disse ella á mana Catharina que a +fronte de Calisto parecia allumiada, e no todo das feições e ademanes se +revelava certa nobreza e garbo, que o faziam parecer mais novo. + +E era assim. Os quarenta e quatro annos do morgado, vividos na aldeia, e +no resguardo da bibliotheca, viçavam ainda frescura de mocidade. A +reforma do trajar fôra grande parte n'isto. A casaca antiga, e o +restante da roupa trazida de Miranda, tolhiam-lhe a elegancia das +posturas e movimentos, nos primeiros discursos. + +Cicero e Demosthenes, se entrassem de frak, no forum ou na ágora, +desdouravam os mais luzentes relevos de suas esculpturaes orações. A +estatuaria do orador pende grandemente do alfaiate. Vistam Casal Ribeiro +ou Latino Coelho, Thomaz Ribeiro ou Rebello da Silva, Vieira de Castro +ou Fontes, de casaca de brixe e gravata sepulchral da mandibula +inferior: hão de vêr que as perolas desabotoadas d'aquellas bocas de +oiro se transformam em graniso glacial no coração dos ouvintes. + +--Eu estava encantada de ouvil-o, sr. Barbuda--disse Adelaide--Tem uma +voz muito sã e argentina. Gostei de vêr a presença de espirito de v. +ex.^a, quando se levantou aquella algazarra contra as suas ironias. +Lembrou-me então que prazer sentiria sua senhora, se o escutasse! + +--Minha prima Theodora de certo me não attendia--observou o morgado.--Em +quanto eu fallasse, estaria ella pensando no governo da casa, e na +calacice dos criados. Eu já disse a v. ex.^a que minha prima Theodora +entendeu no summo rigor da expressão a palavra «casamento». _Casamento_ +deriva de _casa_. Senhora de casa e para casa é que ella é. E eu assim a +acceitei e assim a préso. + +--Mas o coração...--atalhou Adelaide. + +--O coração, minha senhora, ninguem lá nos disse que era necessario á +felicidade domestica. Tanto sabia eu o que era coração, como aquella +creancinha, que sua ex.^{ma} mana tem nos braços, sabe o que é sensação +do fogo. Ora veja como ella está estendendo as mãosinhas inexperientes +para a chamma das velas... Se as tocar, que dôr não sentirá ella? + +--Então, volveu a filha do magistrado, hei de crêr que v. ex.^a ainda +ignora o que seja coração... o que seja amor? + +--Se ignoro o que seja...--balbuciou Calisto.--Sabe v. ex.^a--proseguiu +elle, reanimado, apoz longa pausa--sabe v. ex.^a que no paraizo existiu +uma celestial ignorancia, até ao momento em que na arvore da sciencia +tocou Eva? + +--Sim... E Adão lambem tocou... + +--Depois, minha senhora. Mas não discutamos a primasia: tocaram ambos, e +eu comprehendo que deviam ambos peccar. Maior crime sería a resistencia +a Eva que a Deus. Perdoe-me o céo a blasphemia!... A que hei de eu +comparar nos nossos tempos, e n'este instante, a arvore da sciencia, da +sciencia do coração?!... Comparo-a a v. ex.^a. + +--A mim?! que idéa! + +--A v. ex.^a. Eu contemplei-a, e... aprendi!... Hoje sei o que é +coração: agora começo a estudar a maneira de o matar ao passo que elle +vae nascendo. + +Calisto levantou-se, agradecendo á Providencia a chegada de um ancião +respeitavel que se aproximava d'elle a cortejal-o. + +Adelaide quedou pensativa. Reflectiu, e considerou-se molestada e +mescabada no respeito que devia ás suas virtudes um homem casado. + +Receiosa de ajuizar mal, por equivoca intelligencia do que ouvira, +buscou azo de provocar explicações de Calisto Eloy. Como o ensejo lhe +não saisse de molde, consultou a irmã, referindo-lhe o supposto +galanteio do morgado. D. Catharina dissuadiu-a de pedir esclarecimentos, +aconselhando-a a simular que o não entendêra. + +Pouco antes de terminada a partida, um moço legitimista recitou um +poemeto dedicado ao nascimento do terceiro filho do sr. D. Miguel de +Bragança. Perguntou alguem a Calisto se conversava alguma hora com as +musas, ou se, á maneira de Cicero, escrevia o desgracioso: + + _Ó fortunatam natam, me consule, Romam_. + +Disse o morgado relanceando os olhos a Adelaide, que o seu primeiro +parto metrico apenas tinha de vida quarenta e oito horas, e tão aleijado +saíra, que elle se envergonhava de o offerecer ao apadrinhamento de +pessoas authorisadas. + +Instaram damas e cavalheiros pela amostra da obra prima, que certamente +o era, attenta a modestia do poeta. + +--São versos, disse elle, que se poderiam mostrar aos quinze annos, e +que seriam derisão e lastima aos quarenta e quatro. + +Objectaram as damas argumentando que o homem de quarenta e quatro annos +devia receber as inspirações dos vinte, porque no vigor da edade é que o +coração fulgura em toda a sua luz. + +Tregeitou Calisto uns esgaros de satisfação ridicula. Eram os +percursores de alguma enorme necedade. + +Embora resistisse á exposição da sua estreada musa, não se conteve que, +despedindo-se de cada uma das senhoras da casa, disse, á puridade, a D. +Adelaide: + +--V. ex.^a verá as trovas que só Deus viu, e ninguem mais verá no mundo. + +D. Adelaide ficou embaçada. Seria aggravar as meninas de dezoito annos, +e educadas como a filha do desembargador, e amantes como ellas de um +compromettido esposo, estar eu aqui a definir a entranhada zanga que lhe +fez no espirito d'ella o desproposito de Calisto. A estima affectuosa +que lhe ella ganhára, por amor d'aquella cavalheirosa acção, por onde a +paz domestica se restaurára, não teve força de rebater o tedio e o odio +do tom mysterioso do provinciano. + +Em quanto ella confiava da irmã o despeito e aversão com que a deixaram +as ultimas palavras de Calisto Eloy, estava elle no seu gabinete +retocando e peorando aquellas linhas rimadas, a cuja rebentação assistiu +o leitor com piedosa tristeza. + + + + +XIX + +*Ó mulheres!...* + + +Seguiram-se horas de insomnia. O juizo dava-lhe tratos amarissimos ao +coração. O homem sentava-se na cama, e remechia-se inquieto como se o +escarneo o estivesse picando d'entre a palha do enxergão. + +Os intervalos lucidos eram-lhe intervalos do inferno. Os axiomas +classicos sobre o amor caiam-lhe na memoria como chuva de dardos. Quem +mais o suppliciou foi o seu mestre e amigo D. Amador Arraiz. Este santo +bispo apresentou-se-lhe em visão, com D. Theodora Figueirôa ao lado, e +disse-lhe as palavras do capitulo XLV dos _Dialogos_: «Em a lei de +Christo a fidelidade que deve a mulher ao marido, essa mesma deve o +marido á mulher; e, se as leis civis dão mais poder aos maridos que ás +mulheres, não é para as offender e maltratar, nem para um ter mór +jurisdição sobre si que o outro.» + +Seguiram-se outras visões de não somenos pavor. Ahi pela madrugada, +Calisto Eloy amodorrou-se em roncado dormir; mas a fada que lhe abrira +os thesouros virgineos do coração, a esbelta Adelaide bateu-lhe com as +azas brancas nas palpebras, e o homem acordou estremunhado a desgrudar +os olhos, que se haviam fechado com duas lagrimas, as primeiras que o +amor lhe esponjára do seio, e cristalisára nos cilios, como diria o dr. +Liborio. Então foi o trabalharem-n'o umas cogitações tão sandias, que +seriam imperdoaveis, se não estivessem na tresloucada natureza de todo +homem que ama. + +Entrou a inventariar as alterações que devia fazer no substancial e +accidental da sua personalidade. + +O uso do meio grosso pareceu-lhe incompativel com um galan. Aquelles +sibilos da pitada, bem que denotassem espiritos cogitantes e gravidade +de juizo, deviam de toar ingratamente nos ouvidos de Adelaide. De mais +d'isso, a saraivada de bagos de rapé que elle sacudia dos sorvedouros +nasaes, algumas vezes obrigava as damas a formarem sobre os olhos com os +dedos um antemural sanitario contra as insuflações immundas do sabio. +Deliberou, portanto, immolar as delicias pituitarias. + +Viu-se no espelho de barbear, modesto utensilio do estojo de bezerro, e +conveio no deslavado prosaismo da sua cara clerical. Resolveu deixar +pera e meia barba, como transição para o bigode, que devia ir-lhe bem na +tez um tanto moreno-pallida. + +Como o estudo lhe havia extenuado os olhos, e por amor d'isso usava +oculos de prata quando lia, adoptou a luneta de oiro com molas pensis. + +N'este proposito, saiu a delinear as reformas capillares; fez alinhar as +bases de uma cabelleira, que trouxera escadeada da provincia; e +consentiu que lhe encalamistrassem dois topes rebeldes ao ferro. + +Depois, quando a ancia de uma pitada começava a importunal-o, fez +provisão de charutos, e fumou o primeiro com afflictivas caretas, e +engulhos de estomago. + +Colheu informações dos alfaiates de melhor fama, e foi ao Keil +encommendar duas andainas de fato. O artista offereceu-lhe os figurinos; +e, como lhe fallasse francez, Calisto suppoz que o attencioso alfaiate +lhe dava a conhecer os retratos de alguns sujeitos illustres da França. +Corrido do engano, depois de lêr as indicações das _toilettes_, saiu +d'alli a procurar mestre de linguas, e a comprar diccionarios e guias de +conversação. + +Se o leitor, mais perseguido da fortuna esquerda, nunca passou por +lances analogos, não se tenha em conta de desgraçado. + +Quem tivesse conhecido, um mez antes, Calisto Eloy de Silos e Benevides +de Barbuda, devia choral-o, quando o viu entrar n'um café a pedir agua +para combater os vomitos provocados pelo charuto! + +Irá perder-se aquella alma tão portugueza, aquelle exemplar marido, +aquelle sacerdote e glorificador dos classicos lusitanos? + +O amor abrirá no pavimento da camara um alçapão, onde se afunda aquelle +grande brilhante, desluzido, mas promettedor de refulgente lume? + +_Di meliora piis_! + +Ó Lisboa!... + +Ó mulheres!... + + + + +XX + +*Proh dolor!...* + + +Adelaide, temerosa de algum imprevisto accidente, que a desmerecesse no +conceito de Vasco, por causa do morgado da Agra, relatou ao pae o +dialogo da antevespera, e a promessa da poesia para a noite seguinte. + +O desembargador duvidou do entendimento da filha, antes de acreditar na +insania do seu melhor amigo. Como havia de crer elle no intento +deshonesto de um homem que lhe emergira a outra filha da voragem? E, +crendo, como se comportaria em lanço de tanto melindre? + +Meditou, e discretamente resolveu que suas filhas e genro fossem passar +alguma temporada da primavera na sua quinta de Campolide; e se +pretextasse a doença de uma neta, para que a saida se fizesse n'aquelle +mesmo dia. Pôde mais com o velho a gratidão que a offensa. + +Calisto Eloy chegou á hora costumada. Já não entrava á presença do +magistrado com a facilidade e lhanesa de outros dias. A sisudeza do +semblante arguia o incommodo da consciencia. Mais lh'a inquietava a +estudada jovialidade, com que Sarmento o recebeu. Antes de perguntar +pelas senhoras, lhe disse o velho o motivo da inopinada saida para ares. +Calisto passou o restante da noite com os amigos da casa; porém, +insolitamente abstraido, concorreu a augmentar a lethargia d'aquelles +velhos soporosos, que pareciam ajuntar-se para se narcotisarem, e +entrarem emparceirados nas silenciosas regiões da morte. + +Fez sensação na assembléa tirar Calisto de uma charuteira de prata um +charuto, e baforar columnas de fumo, com uns modos aperalvilhados, e +improprios de sua gravidade. Sarmento, com delicada liberdade, observou +a preponderancia que os costumes de Lisboa iam actuando sobre o animo do +seu bom amigo. Sentiu que os ruins exemplos vingassem quebrantar aquella +admiravel singeleza de trajo e maneiras que o morgado trouxera da sua +provincia. Lamentou que, em menos de tres mezes, o modelo do portuguez +dos bons tempos, se baralhasse com os usos modernos e viciosos. + +Calisto Eloy defendeu-se froixamente, allegando que as mudanças +exteriores não faziam implicancia ás faculdades pensantes; e ajuntou +que, sciente de que tinha sido incentivo da mofa entre os seus collegas, +á conta da simpleza um tanto anachronica dos seus costumes, entendera +que a prudencia o mandava viver em Lisboa consoante os costumes de +Lisboa, e na provincia, segundo o seu genio e habitos aldeãos. Concluiu, +dizendo que: _Cum fueris Roma, Romam vivito mora_,[20] e que o fazer-se +singular importava fazer-se ridiculoso; e que os seus annos não eram +ainda bastantes para authorisarem a distinguir-se no mero accidente dos +trajos. + +Perguntado por que deixára de tomar rapé, costume indicativo de homem +pensador e estudioso, respondeu que alguns escriptores modernos +attribuiam á ammoniaca componente do rapé, o deperecimento das +faculdades retentivas, pela acção deleteria que o poderoso alcali +exercitava sobre a massa encephalica. Além de que a fumarada do charuto, +sobre ser purificante e anti-putrida, dava aos alvéolos solidez, e +consistencia aos dentes. + +Estas explicações não evitaram que o desembargador, com os seus velhos +amigos, prognosticassem o derrancamento do morgado da Agra, depois que +elle se retirou, algum tanto azedado das reflexões d'aquella gente +encanecida. + +Sarmento não o convidára a ir visitar as filhas a Campolide, nem de +leve; no correr da noite, fallou d'ellas. Calisto Eloy tambem não +suscitou conversação relativa ás senhoras, porque já a doblez do +espirito lhe tolhia a usual franqueza e familiaridade. + +Entrou a dementar-se aquella desconcertada cabeça. A saudade, em vez de +lhe tirar lagrimas do intimo amadurou-lhe temporamente a apostêma de +sandices, que em todo homem se cria paredes-meias com o coração. Ahi +começa elle a imaginar que o desembargador Sarmento, adivinhando os +amores mal recatados de Adelaide, a obrigara a sair de Lisboa. +Corroborava a suspeita não o convidar elle a visitar as damas. Isto +sobre excitou-lhe o sentimento; por que, a seu vêr, Adelaide estava +penando, havia uma victima, um coração sopesado, uma alma em abafos de +paixão. + +Esta conjectura atirou com Calisto para os tempos cavalleirosos. + +O olhar em si, e ver-se maneatado pelos vinculos sacramentaes, não o +reduzia á compostura e honestidade de seu estado e annos. Ainda assim, +sejamos justiceiros e ao mesmo tempo misericordiosos com esta alma +enferma: na cabeça allucinada de Calisto de Barbuda não havia idéa +ignobil e impudica. + +O amor, resaltando da cratera abafada quarenta e quatro annos, dizia-lhe +que era fidalguia de alma não transigir, por conveniencias e respeitos +sociaes, com a oppressão, e alvedrio paterno. Se Adelaide o amava como e +quanto Calisto já não podia duvidar, sua honra d'elle era pôr peito á +defesa da oppressa, beber metade do absyntho do seu calix, luctar, sem +desdouro da probidade de um Barbuda, até perecer, exemplo de amadores de +antiga tempera. + +Amou quem isto lê, e tresvariou aos vinte annos? Passou por uns hórridos +eclipses de entendimento, que apoz si deixam lagrimas tardias e +vergonhas insanaveis? + +Amisere-se, pois, d'aquelles lucidissimos espiritos de Calisto, que por +um se vão apagando ao ventar rijo da paixão, quaes se apagam em céo de +bronze as estrellas do mar alto, já quando o naufrago desesperançado +finca os dedos recurvos na espuma das vagas. + +Ó mal-sorteado Calisto! que aureola de patriarcha te resplendia em volta +do teu chapéo de merino e aço, quando entraste em Lisboa! Que anjo eras, +entrajado na tua casaca de saragoça sem nodoas! Aquella scientifica boa +fé com que procuravas monumentos em Alfama, e agua depurante do muco +catharroso no chafariz d'El-Rei, e querias que os aljubêtas da rua de S. +Julião te dessem conta do chafariz dos cavallos!... + +Que te valeram as maximas de boa vida colhidas a centenares nos teus +classicos, e enceleiradas n'essa alma, refractaria á ternura de tanta +moça escarlate e succada, que, lá em Caçarelhos, se enfeitava para achar +graça em teus olhos? + +Cairias tu nas piozes d'esta princeza dos mares, d'esta Lisboa que +filtra aos nervos dos seus habitantes o fogo que lhe estua nas +entranhas? + +Cairias tu, anjo? + + + + +XXI + +*O mordomo das tres virtudes cardeaes* + + +Era por uma noite escura e fria de abril. + +O vento esfusiava nas ramalheiras de Campolide. + +A lua, a longas intermittencias, parecia, wagon dos céos, correr +velocissima entre nuvens pardas, para ir ingolfar-se n'outras. Então era +o carregar-se a escuridão da terra, e mais para pavores o rangido das +arvores sacudidas pelos bulcões do septentrião. + +Soaram doze horas por egrejas d'aquelles valles. Era um como crebro +soluçar da natureza por pulmões de bronze. Era o grão clamor da terra em +angustias parturientes de alguma enorme calamidade. + +Áquella hora, e por aquella noite capeadora de assassinos e +bestas-feras, Calisto Eloy, embrulhado n'um capote de tres cabeções e +mangas, que trouxera de Caçarelhos, passava rente com o muramento da +quinta de Adelaide. + +Depois, como saisse da vereda escura a um recio que defrontava com a +frontaria da casa, aqui parou, e cruzando os braços, se esteve largo +espaço quedo, e fito nas janellas. + +Nem lua nem scintilla de estrella no céo! As confidentes d'aquelle +amador torvo como o cerrado da noite, negro como o coração que lhe arfa +a lapela esquerda do collete, são as trevas. Quiz accender um charuto. +Nem os phosphoros vingavam lampejar na escuridão. + +E o vento assoviava no vigamento da casa, e nas orelhas de Calisto, o +qual, levado do instincto da conservação, levantou a gola do capote á +altura das bossas parietaes, e disse, como Carlos VI: + +--Tenho frio! + +E passou-lhe então pelo espirito um painel da sua situação tirado pelo +natural. Viu-se no espelho, que a razão lhe offereceu, e cobrou horror +da sua figura. + +Bem que tal acto não implicasse delicto, nem affrontasse os bons +costumes, Calisto, apertado no transito difficil das indoles que se +passam do comportamento austero e captivo ás liberdades e solturas do +vicio, olhava com saudade o seu passado, as suas alegrias puras; e, mais +que tudo, áquella hora, como o frio cortava as orelhas, lembrou-se da +quentura e aconchego do leito nupcial. + +E como esta visão honesta, para mais o pungir, havia de ser encarecida +com uma imagem de mulher leal e immaculada, Calisto viu D. Theodora de +touca, n'aquelle dormir placido de quem adormeceu com a alma quieta e +intemerata. Não bastava a touca, tão hygienica quanto pudica, a +penitencial-o com remordentes saudades: viu-lhe tambem o lenço de tres +pontas de algodão azul com que ella costumava resguardar os hombros, +antes de subir as quatro escadinhas que conduziam ao alteroso leito de +páo santo. + +Se visões analogas, alguma vez, puzeram guerra ao demonio tentador dos +maridos infieis e o venceram, d'esta feita não se logra a sã virtude do +triumpho. + +É que as toucas e lencinhos pudibundos, sobre não serem enfeites mui +seductores, algumas vezes tornam a virtude rançosa e tamsómente boa para +adubar palestras de avós com as netas casadoiras. Este mal deve-se ás +artes da estatuaria, artes em que a imaginativa não põe nada seu, porque +tudo é copiado da natureza nua, ou quasi nua. Nem se quer as Niobes, as +Lucrecias e Penelopes o buril respeita. Nos casos mais lacrimaveis e +tragicos, querem fados máos que os olhos achem sempre pasto á cobiça, +quando a impressão devera ser toda para levantamentos de espirito, e +«visões altas» como diz o bom Sá de Miranda. + +Quando a arte deshonesta não despe as figuras, veste-as de feitio que +pelo ondeado das roupas transparentes esteja o peccado a fazer negaças a +conjecturas taes que, certo estou, Calisto Eloy, antes de se empestar em +Lisboa, se taes impudicias visse, romperia no parlamento os vesuvios da +sua eloquente indignação. E a posteridade, ajuizando da moral d'esta +nossa edade de limos e alforrecas, viria a este lameiral esgaravatar a +perola da edade aurea, caida dos labios do marido de D. Theodora, a +qual, segundo fica dito, dormia de touca e lencinho de algodão azul de +tres pontas. + +Esta peregrina imagem não bastou a desandar Calisto pelo caminho de +Lisboa, e do seu gabinete, onde os pergaminhos dos seus livros pareciam +rever lagrimas de amigos descaroavelmente desprezados. O infeliz não +desfitava olhos de certa janella, desde que vira perpassar uma luz pelos +resquicios das portadas. Podia a trahida Theodora antepôr-se aos olhos +extasiados do esposo, com a pudenda touca, ou com as madeixas +estrelladas de brilhantes, que elle não a via nem queria ver. + +Ahi por volta de meia noite estava Calisto recordando o que dissera, em +circumstancias analogas, Palmeirim aquelle grão cavalleiro de Francisco +de Moraes, diante do castello de Almourol que fechava em seus arcanos a +formosa Miraguarda. N'isto scismava, comprehendendo então as phrases +mélicas dos famosos amadores, quando as portadas da janella se abriram +subtilmente, e logo a vidraça foi subindo mui de leve. + +O recanto, em que o morgado da Agra se abrigára do vento, estava fóra do +caminho, e sumido aos olhos da pessoa que abrira a janella. Ao mesmo +tempo, ouvia elle passos na estrada, e logo viu acercar-se um vulto +rebuçado da casa de Adelaide, e parar debaixo da janella que se abrira. + +Conjecturou Calisto de Barbuda, que D. Catharina Sarmento, a esposa +infida, reincidira nas presas do velho peccado, e sentiu algum tanto +molestada sua vaidade de regenerador de corações estragados. Tambem +suspeitou que Bruno de Vasconcellos, quebrando a palavra jurada, voltára +do estrangeiro a reatar a criminosa alliança. Não lhe deram tempo a mais +conjecturas. O encapotado espectorou um cacarejo de tosse secca; da +janella, como contra-senha, respondeu outro cacarejo de mais sympathico +som, e logo as duas almas se abriram n'este dialogo: + +--Ainda bem que recebeste a minha carta, Vasco!...--disse +Adelaide--Estavas em casa da tia condessa? Eu mandei lá por me lembrar +que se fazia lá hoje a novena das Chagas... + +--Fiquei espantado--disse Vasco da Cunha--Que rapida deliberação foi +esta?! Vir para uma quinta com tão máo tempo! Foi caso de maior!... + +--Fui eu a causa--tornou ella--São melindres do meu coração, que, por +amor de ti, não soffre que outra voz de homem lhe falle a linguagem que +eu só quero e acceito de tua bocca. Antes me quero aqui escondida com a +tua imagem, que ver-me obrigada a tolerar os atrevimentos do Calisto de +Barbuda... + +--Que!--atalhou Vasco--pois aquelle homem tão serio!... tão temente a +Deus!... + +--É um hypocrita com a brutalidade de um provinciano!... Offereceu-me +uns versos em segredo! Que ultraje! que falta de respeito á minha +posição... + +--E que desmoralisada e irreligiosa creatura! Casado, já d'aquelles +annos, legitimista, e catholico, segundo diz, e ousar... Estou +espantado! E a tia condessa que me tinha encarregado de o convidar para +assistir, no domingo á festa das Chagas! Fiem-se lá!... E tu não faltes, +á festa, Adelaide. Esto anno fazemol-a com toda a pompa. O prégador já +me leu o discurso, e trata eruditamente a materia. A prima Lacerda vae +cantar um _Benedicite_, e a prima viscondessa de Lagos canta um _Tantum +ergo_. Havemos de fazer melhor festa que a do conde de Melres. Eu começo +ámanhã a colher flores e a pedil-as para enfeitar o altar dos tres reis +magos e das tres virtudes cardeaes, de que me fizeram mordomo, não sei +se sabias? + +--Não sabia, meu amor--disse Adelaide, congratulando-se com os +enthusiasmos pios do excellente moço. + +A palestra proseguiu n'este tom por espaço de uma hora. A lua espreitava +estas duas pessoas por entre as nuvens, que a pouco e pouco se foram +descondensando. O céo azulejou-se e estrellou-se para galardoar a +virtude do mordomo das tres virtudes cardeaes e da bella menina +destinada a maridar-se com o mais energico influente da festa das +Chagas, com que o devoto conde de Melres se havia de dar a perros. + +No entanto, Calisto Eloy, consultando a sua consciencia a respeito de +Vasco da Cunha, decidiu que o homem, se não era um santo, propendia +grandemente para a semsaboria de idiotismo. Esta critica é a prova de um +animo já iscado da peçonha da meia impiedade que degenera em impiedade +inteira. Já como castigo de escarnecer um moço virtuoso, sentia elle +encher-se-lhe de amargura o coração. Não bastava ouvir-se qualificado de +hypocrita brutal por Adelaide; quiz de mais d'isto a providencia dos +amantes lerdos, providencia que eu não posso escrever se não com _p_ +pequeno, quiz, digo, que Vasco da Cunha, mancebo em flor d'annos e +gentileza, se estivesse alli rejubilando em novenas e mordomias das tres +virtudes cardeaes, em quanto elle Calisto, a mais de meio caminho da +morte, ardia em fogo impuro e cobiça peccaminosa, com os olhos cerrados +á visão duas vezes pura de uma esposa de touca e lencinho azul de tres +pontas sobre as espaduas não despeciendas, segundo me consta. + +Merecem escriptura as ultimas phrases de Adelaide e Vasco. + +A menina, interrompendo os enlevos do devoto moço, que se deleitava em +conjecturar a zanga do conde de Melres, perguntou-lhe, com doce +requebro, quando viria o dia suspirado de sua união. + +Vasco deteve a resposta alguns segundos, e disse: + +--Deixemos vêr se morre minha tia Quiteria, que me quer deixar os +vinculos do Algarve. + +--Pois nós--volveu Adelaide magoada--não poderemos ser felizes sem os +vinculos de tua tia Quiteria, meu Vasco? + +--Ninguém é feliz desobedecendo aos seus maiores, replicou Vasco. A tia +Quiteria quer que eu espere a volta d'el-rei para depois tomar ordens +sacras, e trazer mais uma mytra episcopal á nossa linhagem onde estavam +como em vinculo as principaes prelazias do reino. + +Adelaide, não obstante o coração, quando aquillo ouviu, sentiu-se mal do +estomago. + + + + +XXII + +*Outro abysmo* + + +Esta pungente lancetada não esvermou a postema do peito de Calisto de +Barbuda. Desde que qualquer sujeito perde o siso do coração, escusado é +esperar que a razão lh'o restaure: em tão boa hora que elle o recupera +depois das amargas provas. O homem, porém, que amanhece tolo aos +quarenta e quatro annos, a mim me quer parecer que ao entardecer-lhe a +vida a tolice refinará. + +Tenho dois grandes exemplos d'isto: um é Calisto de Caçarelhos; o outro +é Henrique VIII de Inglaterra. Este, ahi pelas alturas dos quarenta +annos, tão bom homem era, que até escrevia contra o impio Luthero, e +vivia santamente com sua esposa, Catharina de Aragão. Insandeceu de +amor, vinte annos depois de marido exemplar, e d'ahi por diante sabe o +leitor que golpes elle deu no peito invulneravel do papa e no fragil +pescoço das pobres mulheres. + +Calisto Eloy não será capaz de repudiar nem degolar Theodora, porque +n'este paiz ha leis que reprimem os patetas sanguinarios; todavia, eu +não assevero que elle seja incapaz, alguma hora, de lhe chamar parva e +hedionda, e de lhe atirar com a touca e com o lenço azul de tres pontas +á cara vermelha de pudor. Veremos. + +Calisto, digamol-o sem refolhos, caiu. Atascou-se. Foi de cabeça ao +fundo do pégo em que deram a ossada o ultimo rei dos godos, e Marco +Antonio, e o rei enfeitiçado pela comborça Leonor Telles, e Simplicio da +Paixão, e varias pessoas minhas conhecidas, que experimentaram todos os +systemas de desfazer a vida, desde o muro de S. Pedro d'Alcantara até ás +cabeças dos palitos phosphoricos. + +Este enguiçado Barbuda, na volta de Campolide, não teve uma lagrima que +chorasse sobre a sua dignidade esfarrapada. Circumvagou a vista pelos +seus livros, figurou-se-lhe vêr na lombada de cada in-folio o olho de um +demonio zombeteiro, bem que aquelles pergaminhos encadernassem almas, no +céo bem-aventuradas, e na terra immorredoiras, almas que n'este mundo se +chamaram fr. João de Jesus Christo, fr. Pantaleão d'Aveiro, fr. Antonio +das Chagas, e dezenas d'estes talismans, que tem salvado o leitor e a +mim de soçobrarmos nos parceis que esbravejam á volta de Calisto. + +Eram duas horas da manhã, quando o morgado experimentou uma sensação, +que viria a definir-lhe o espirito, se alguem carecesse de vêr este +homem a luz extraordinaria. + +Nas aguas-furtadas do andar, em que elle morava, residia uma viuva de um +tenente, senhora d'annos insuspeitos, de muitas lerias, minguada de +recursos, e, por amor d'isso, se offerecêra a cuidar da casa e da +cosinha do deputado. Ás duas horas, pois, bateu Calisto á porta da +visinha, e, como ella lhe fallasse, exprimiu elle a sensação imperativa, +que o levou alli, por estes termos: + +--Sr.^a D. Thomazia, ha por ahi alguma coisa que se coma? + +--Não ha nada feito; mas eu vou fazer chá, sr. Barbuda, e o que v. ex.^a +quizer. + +--Olhe se me póde frigir uns ovos com presunto--volveu elle. + +--Pois lá vão ter d'aqui a pouco. + +--Veja lá que se não constipe, sr.^a D. Thomazia--recommendou elle. + +--Não tem duvida. Olhe que eu tenho muito que lhe dizer. Achou um +bilhete de visita na escrevaninha? perguntou D. Thomazia pelo buraco da +fechadura. + +--Não achei. + +--Pois lá está. Faz favor de ir, que eu vou vestir-me. + +--Então a sr.^a D. Thomazia está-se constipando? Ora esta! Isso é que eu +não queria!... Cá desço, e até logo. + +O bilhete, que o deputado encontrou, dizia: Iphigenia de Teive Ponce de +Leão, e logo a lapis: _viuva do tenente general Gonçalo Telles Teive +Ponce de Leão_. + +Desfilaram por diante do espirito de Calisto Eloy regimentos de +illustres familias oriundas dos Telles e dos Teives e dos Ponce de Leão. +Na linhagem dos Barbudas tambem alguma vez tinham entrado os Teives, e +uma decima nona avó de Calisto viera de Hespanha, e era Ponce, dos +Ponces genuinos dos duques de Banhos. + +Estava o morgado combinando estes parentescos contrahidos ahi pelo +ultimo quartel do seculo XII, quando D. Thomazia entrou com o presunto e +ovos. Calisto assentou o prato sobre dois volumes da Historia +Geneologica, que lhe tomavam a banca: e quanto a deglutição lh'o +permittia, n'alguns intervalos, foi perguntando: + +--Então quem é esta senhora, que me procurou? + +--Eu só sei dizer, respondeu D. Thomazia, que é uma creatura linda, +linda quanto se póde ser! + +--Como assim?! atalhou Calisto, retendo uma lasca de presunto entre os +dentes molares, pois ella não é a viuva de um tenente general, que +naturalmente havia de morrer velho? + +--Póde ser que elle morresse velho; mas a viuva o mais que póde ter é +trinta annos. + +--E com que então galante? + +--É uma imagem de cera. V. ex.^a ha de vêl-a. E então elegante! A +cintura cabe aqui, proseguiu D. Thomazia, formando um annel com dois +dedos. Eu, quando ouvi parar uma carruagem, cuidei que era v. ex.^a e +vim abrir as portas do escriptorio. A senhora veiu subindo, e puchou á +campainha. Eu espreitei lá de cima, e, a fallar verdade, lembrei-me se +seria a sua esposa, que lhe quisesse fazer uma agradavel surpreza. +Perguntou-me ella pelo sr. Barbuda de Benevides, e foi entrando comigo +para a sala. Levantou o véo, e disse: «Não está em casa?» Que voz, sr. +morgado, que voz de creatura aquella! + +--E isso a que horas foi? atalhou Calisto. Era por noite alta? + +--Não, meu senhor. Eram seis horas da tarde. V. ex.^a tornou ás oito, +mas saiu logo; e, quando eu voltei de fazer uma visita, já o não achei +para lhe dar esta noticia. + +--E depois a senhora que mais disse? + +--Mostrou-se pesarosa de o não encontrar, e prometteu de voltar hoje ás +tres horas. + +--E a sr.^a D. Thomazia saberá o que me quer essa dama? + +--Não sei; o que ella sómente disse foi que v. ex.^a era um genio. + +--Pois ella disse-lhe isso sem mais nem menos? + +--Foi a respeito de vêr aqui estes livros muito grandes, acho eu. Esteve +a reparar n'elles com uma luneta... E a graça com que ella punha a +luneta!... Mulher assim!... Os homens ás vezes por mais asneiras que +façam, teem desculpa!... + +--As paixões, minha sr.^a D. Thomazia...--obtemperou o morgado, e lambeu +os beiços molhados da libação de um vinho nervoso d'aquella garrafeira +já mencionada. E proseguiu.--As paixões do amor... Nem os grandes sabios +nem os grandes santos se exemptaram d'ellas. Somos todos de quebradiço +barro; somos uns pucarinhos de Extremoz nas mãos infantis das mulheres. +O tributo é fatal: quem o não pagou aos vinte annos, ha de pagal-o aos +quarenta, e mais tarde, quando Deus quer... Deus ou o demonio, que eu +não sei ao justo quem fiscalisa estes malaventurados successos de amor, +que a historia conta e a humanidade experimenta cada dia... + +--É um gosto ouvil-o!--interrompeu D. Thomazia--Bem no disse aquella +senhora: v. ex.^a é um genio, e falla de modo que se mette no coração da +gente. Quer que lhe diga a verdade, sr. Barbuda? Foi bom que v. ex.^a me +encontrasse n'esta edade. Se eu fosse moça e bonita, como dizem que fui, +um homem como v. ex.^a havia de me dar cuidados. + +--Ora, minha sr.^a D. Thomazia, isso é lisonja e favor. Eu já não estou +tambem na edade de tocar corações, nem os meus habitos vão muito para +ahi! + +--Edade!--accudiu a viuva do tenente--v. ex.^a póde dizer que tem trinta +e cinco annos, que ninguem lh'o duvida. É mania agora dos rapazes +quererem á fina força passar por velhos. Pergunte quem quizer á visinha +do primeiro andar se o acha velho. Está-me sempre a perguntar se v. +ex.^a me diz d'ella alguma coisa... Conhece-a? + +--Bem sei: uma mocetona cheia, com umas fitas escarlates na cabeça... +Não é má... + +--E sabe v. ex.^a que mais? Eu vou apostar que esta senhora, que veiu +cá, traz coisa no coração, que a obrigou. Assim uma senhora nova, +sosinha, tão encantadora!... Aquillo, em quanto a mim, é que já o ouviu +no parlamento, e apaixonou-se. Ha muitos casos assim cá em Lisboa de +senhoras apaixonadas pelos homens de talento. O talento é uma coisa +muito bonita! Meu marido casou comigo quando era sargento do treze de +infanteria, e andava nos estudos. Era feio, e ao principio tinha-lhe +medo; mas assim que elle me mandou um acrostico... V. ex.^a sabe fazer +acrosticos? + +--Ainda não me puz a isso. + +--Pois como eu me chamo Thomazia Leonor e tenho quatorze letras fez-me +elle um soneto que me deu volta á cabeça, e tamanho incendio me tomou o +peito, que o amei até á morte, e ainda agora, ficando eu viuva aos +trinta e nove annos, fui, sou e serei fiel á sua memoria. + +N'este ponto, D. Thomazia, ferida n'alma pelo acrostico memorando, +chorou. + +Calisto represou-lhe os prantos com algumas maximas consoladoras sobre a +morte, e bocejou, já por que eram tres horas e meia da manhã, já por que +o dialogo descaira nos aborrimentos de uma palestra em dia de fieis +defuntos. D. Thomazia começou a espirrar, por que se não agasalhára +bastantemente, e assim se apartaram estas duas pessoas, que uma hora de +expansão aproximara. + +Calisto, conforme ao antigo uso, levou um livro para a cabeceira do +leito. Escolheu poeta, e saiu-lhe o seu já tão querido outr'ora Sá de +Miranda. Abriu ao acaso, e saiu-lhe n'uma pagina _d'Os Estrangeiros_ +esta maxima: _Duas sortes de homens ha no mundo que se possam servir: ou +muito parvos ou muito namorados, e ainda os namorados tem grande +vantagem_. + +A meu vêr, o espirito d'aquelle honrado doutor, que tão santo marido +fôra de Briolanja de Azevedo, até de saudades d'ella se deixar morrer, +alli lhe viera, áquella hora, relembrar occasionalmente e a ponto uma de +suas maximas, como em paga do affectuoso respeito com que Barbuda o lia +e inculcava á mocidade depravada. + +Calisto Eloy pôde ainda admirar o lidimo portuguez da maxima, e +adormeceu. + + + + +XXIII + +*Tenta o seu anjo da guarda salval-o mediante uma carta da esposa* + + +Calisto dormiu mal. + +As alvoradas de um dia feliz são mais temporãs que as da estrella +d'alva. O coração acorda primeiro que os passaros. O amor diz o seu +_fiat lux_ primeiro que Deus. Estas tres sentenças, a meu vêr, são mais +intelligiveis que o contentamento do morgado da Agra, ao levantar-se da +cama em que dormitára algumas escassas horas alvoroçadas. + +O desastre de Campolide quebrantaria um homem qualquer que viesse a +cumprir n'este mundo os vulgares destinos da maxima parte dos mortaes. +Individuos notaveis já sairam scepticos e bravos cynicos de aperturas +menos dilacerantes. Os annaes ensanguentados da humanidade estão cheios +de facinoras, empuxados ao crime pela ingratidão injuriosa de mulheres +muito amadas e perversissimas. Superabundam casos de embaçadellas +analogas á de Calisto: d'estes lances obscuros tem saido aparvalhada +muita gente que era escorreita, e que se volve daninha á republica. São +uns homens que vos namoram as criadas, se vos não podem requestar a +familia; uns vampiros de sangue femeal, que trazem o demonio da vingança +no corpo, demonio meridiano e nocturno, que bebe lagrimas de mulher, em +quanto os possessos d'elle bebem cognac e absyntho. Um homem d'estes, +encostado a frade de esquina, é o leão que espreita da sua caverna +lybica a antilopa descuidosa. Officiala de modista, que se espaneja nas +verduras do jardim da Estrella, como alvéola nas praias borrifadas de +espuma, se o anjo da guarda a desampara um quarto de hora, tem os seus +dias contados. O scelerado, com o simples auxilio de um gallego, em que +por vezes se ingere e chafurda o confidente de Fausto, arranca da fronte +da alegre palmilhadeira de botinhas a grinalda de laranjeira em botão, +que esperava a sua primavera, o seu abrir-se e rescender, no primeiro +dia nupcial. Que tristeza! E ninguem falla d'isto senão eu, porque me +cumpre fazer o elogio de Calisto Eloy, que não fez cousa nenhuma +d'aquellas. + +Assim que se ergueu cuidou em aformosear a saleta, cuja decoração era +menos de modesta. Saiu açodado ao armazem dos mais elegantes estofos, e +comprou alfaias magnificas. O homem pasmava dos nomes d'aquelles +objectos, nenhum dos quaes soava portuguezmente. + +--Porque chamam a isto _chaise-longue_?--perguntava Calisto Eloy ao +engenhoso Margoteau. + +--Porque chamam?! + +--Sim: eu creio que se não offende a França no caso de chamarmos a este +movel uma cadeira longa, ou uma preguiceira, que sôa melhor. E _étagère_ +e _console_ e _téte-à-tête_, e _onaise_? E é carissimo tudo isto! A +gente, pelos modos, de fóra parte os objectos, tambem paga a lição de +francez de samblador, que vem aqui aprender? + +Sem embargo d'estes reparos, o oiro saiu-lhe generosamente da algibeira +bem apercebida. + +A pobre saleta do morgado, dentro em pouco, transformou-se em recinto +digno de uma Ponce de Leão. Calisto, refestelado nos coxins elasticos da +ottomana, contemplava os restantes adornos do aposento, quando lhe +chegou do correio carta da sua esposa. + +Dizia assim: + +«Já com esta são tres que te escrevo, e ó por hora nem uma nem duas da +tua parte. Marido! que fazes tu, que não respondes? Ando a futurar que +não tens o miolo no seu logar. Longe da vista, longe do coração, diz lá +o ditado. Ora, queira Deus que não seja por minga de saude; e, se é, +dil-o para cá, que eu estou aqui estou lá. + +«O primo Affonso de Gamboa esteve cá ha dias, e a modo de caçoada foi-me +dizendo que lá na capital as mulheres inguiçam os homens, e fazem +d'elles gato sapato. Eu fiquei sem pinga de sangue, meu Calisto! Mal fiz +eu em te deixar ir ás côrtes. Bem tolo é quem está bem na sua casa, e se +mette n'estas coisas dos governos, que só servem para quem não tem que +perder, como diz o primo Affonso. + +O peor é se tu pegas a doidejar com as mulheres, e saes do teu sério. +Eras um marido perfeito como a santa religião o quer, e tenho cá uns +agouros no peito que me não deixam fechar olho ha tres noites. Deus te +defenda, homem, e te traga aos braços da tua mulher são e escorreito da +alma e do corpo. + +Saberás que o mestre-escola anda de candeias ás avessas por que tu lhe +não respondes á carta em que elle te pediu uma venera. Olha se lhe +arranjas isso ainda que te custe pedir ao rei ou lá a quem é a tal +coisa. O homem tem-me feito favores, quando eu preciso que elle me leia +a relação dos foreiros. A vacca preta comeu o bicho, e morreu hontem á +noite. Lá se vão cinco moedas e um quartinho com a breca. O centeio da +tulha do meio deu-lhe o gorgulho, e tratei de o vender, a trezentos e +quinze, foi bem bom arranjo; eram mil e duzentos alqueires. + +Olha cá, meu Calisto, disse-me a Joanna Pedra, que ouvira dizer ao +Manuel da Loja, que ouviu dizer ao compadre Francisco Lampreia, que veiu +de Bragança que lá lhe disseram que tu mandaras ir de casa de um +negociante mais de cem moedas de ouro!!! Fiquei estarrecida. Pois tu lá +não recebes do rei dinheiro que te sobre? Em que affundes tu tantas +moedas, homem? Vê lá no que andas mettido, Calisto! E, se te fôr muito +necessario algum dinheiro, cá estou eu para t'o mandar. Aquelle caixote +de peças de duas caras fui ha dias escondêl-o na lareira da cosinha +velha, porque tenho medo á ladroeira desde que tu andas por lá. + +Não te enfado mais. Responde sem demora, que estou muito consternada. + + Tua mulher que muito te quer + _Theodora_.» + +Calisto Eloy dobrou a carta vagarosamente, e disse de si para comsigo: + +--Pobre mulher! já me sinto enfadado com as tuas cartas... Já as tuas +sinceras babozeiras me incommodam e enjoam!... Agora vejo que tu eras +quasi nada na minha vida. Não sei em que logar do meu coração estiveste, +porque não dou pela falta, nem sequer a saudade me chama para ti!... Os +contentamentos da minha vida passada deu-m'os o estudo. O coração dormia +como os ventos da tempestade no bojo da nuvem negra, que serenamente se +vae acastellando no horisonte. Eil-a começa a desfechar agora relampagos +e coriscos. Mas o viver é isto! eu quero e preciso amar. Levam-me os +impetos de uma vontade juvenil, e «a vontade é vida» como diz o Jorge +Ferreira na Eufrozina. Amor! amor! que me caldeaste e retemperaste o +peito nas tuas forjas! emborca-me os teus nectareos phyltros, +embriaga-me este coração, que já não póde respirar de afogado nos seus +ardores!... + +Disse, e tirou de uma charuteira de canudos de prata um havano, cujas +ondulações de fumo lhe perfumaram o quarto e subtilisaram a phantasia. + +Depois, com forçado tregeito, estendeu o braço sobre uma banqueta de +charão, em que assentava um tinteiro de crystal, e escreveu á esposa, +n'este theor: + +«Prima Theodora e estimada esposa. + +Passo bem de saude; mas saudoso de ti. Não te tenho escripto, porque os +negocios do estado me levam todo o tempo. Mandei vir dinheiro de +Bragança, para emprezas de grande vantagem. Não te dê cuidado os meus +gastos, que somos muito ricos, e não temos filhos. Até aqui vivemos +miseravelmente, quando eu voltar a casa, quero que mudes de vida, prima. +Hei de reformar o nosso palacete de Miranda, e viveremos como nossos +avós, com representação e commodidades proprias d'este tempo. É preciso +gosarmos a vida, que é curta. Não andes por lá a medir grão nem a tratar +das aves. Entrega isso ás criadas, e faz-te a senhora e fidalga que és. + +Em quanto ao mestre-escola, e á sua exigencia do habito de Christo, devo +dizer-te que o mestre-escola é um asno. Não respondo a taes cartas. +Manda-o á tabua, e não admittas similhante palerma á tua conversação. +Lembra-te que és uma Figueirôa, casada com um Barbuda. + +Se receberes ordem minha, em mão de algum negociante de Bragança, paga o +dinheiro que disser a ordem. + +Não te lembres de infidelidades do teu Calisto. O primo Gamboa é um +patarata sem juizo, que te diz essas coisas para te disfructar. + +Quando vier o recoveiro de Miranda, manda-me presunto, salpicões, e +algumas ancoretas do vinho da Ribeira. + + Teu muito affecto e extremoso + _Calisto_.» + + + + +XXIV + +*A mulher fatal* + + +Ás tres horas em ponto, parou uma sege de praça, á porta de Calisto Eloy +de Silos. O bolieiro subiu ao terceiro andar, perguntando se s. ex.^a +estava em casa. O morgado arregaçou com o pente as mechas do cabello, +que lhe escondiam porção das escampadas fontes, apertou os cordões do +rob-de-chambre na volta mais airosa da cintura, e desceu ao pateo a +receber a visita. + +Saltou da sege, amparando-se levemente na mão de Calisto, uma mulher +d'aquellas que Lucifer fazia, quando assaltava no deserto a pudicicia +dos Antonios, dos Paulos, dos Pacomios e Hilarioens. + +Era alta e pallida: rutilavam-lhe os olhos como lustrosos azeviches á +flor de um busto de marfim, algum tanto emaciado. Calisto machinalmente +levou a mão ao coração: traspassara-lh'o uma azagaia electrica. + +--É muita delicadeza da parte de v. ex.^a, disse Iphigenia. + +--Oh, minha senhora!... tartamudeou o morgado da Agra, offerecendo-lhe o +braço. + +--Parece, tornou ella quando iam subindo, que o meu palpite não me +enganou... + +--O palpite de v. ex.^a? + +--Sim... eu contava com um cavalheiro no rigor da palavra... Delicadeza +egual ao talento, qualidades que raras vezes se conformam. + +Entraram á sala. O morgado conduziu Iphigenia ao sophá, e disse com voz +tremida: + +--A que devo eu a honra d'esta visita, minha senhora? + +--Abreviarei a minha historia e a minha pretenção. As suas horas deve-as +v. ex.^a ao bem da patria, e indiscreta fui eu obrigando-o a estar fóra +do parlamento a esta hora... + +--Minha senhora... que vale a patria, em comparação da honra que v. +ex.^a me dá?! atalhou Calisto Eloy, com o coração nos labios a sorrir. + +--Sou brazileira. Pela falla me terá já conhecido... + +--Sim: eu estava notando no fallar de v. ex.^a, uma graça indisivel... + +--Meu pae era portuguez, capitão de mar e guerra. Foi de Portugal com D. +João VI, e casou no Rio de Janeiro, com minha mãe, senhora de boa +linhagem, mas de pouquissimos recursos. Nasci em 1830, e casei em 1846 +com um official general, do exercito do imperador do Brazil. Meu marido +tinha sessenta e seis annos. Emigrára em 1834, com a patente de +brigadeiro dada por D. Miguel, tendo sido coronel ainda no reinado de D. +João. Gonçalo Telles offereceu a sua espada e intelligencia a Pedro II, +serviu bravamente o imperio, e subiu em postos. Eu vivia orphã de pae e +mãe, na companhia de parentes maternos, que pensavam constantemente em +me dar posição. Casaram-me, e, se me não fizeram feliz, deram-me pae, +amigo e mestre na pessoa de Gonçalo Telles. + +Ha dois annos que meu marido morreu. Deixou-me pouco, porque ninguem +póde grangear muito com honra, principalmente na vida militar. Pouco +antes de cair enfermo, me disse que, se algum dia me faltassem recursos +e beneficios do governo brazileiro, viesse a Portugal e procurasse o +amparo de alguns grandes fidalgos, seus parentes que elle me nomeou um +por um; e ajuntou que, se os parentes me não amparassem, pedisse ao +estado uma tença em attenção aos muitos serviços que elle fizera á +patria em trinta annos, até ao dia em que foi promovido a coronel de +cavallaria. + +Ha tres mezes que cheguei a Lisboa. Procurei os parentes do meu marido. +Apeei á porta de grandes palacios, e esperei largas horas em grandes +salas de espera, como viuva que anda requerendo esmola. Enganaram-se. + +Alguns, por mais tractos que deram á memoria, já não conseguiram +lembrar-se de Gonçalo Telles de Teive Ponce de Leão; outros, os mais +velhos, recordavam-se do sujeito, e lastimavam que elle deixasse o +serviço da patria. Quando eu não tinha mais que lhes dizer nem elles a +mim, eu levantava-me, elles levantavam-se, e despediamo-nos +cerimoniosamente. A altivez com que eu os despreso, sr. Barbuda, +authorisa-me a dizer-lhe que os miseraveis são elles: eu tenho comigo a +riqueza do meu orgulho; e, se conservo os appellidos de meu marido, é +porque elle foi talvez o unico de sua raça que os não desdourou... + +--Diz v. ex.^a muito bem--atalhou Calisto.--Que nobre alma as suas +palavras me manifestam! + +--Ha dias, por não ter de portas a dentro coisa que me distraisse de +pensares melancholicos, fui ao parlamento. Segui umas senhoras que iam +subindo para as galerias. Um homem pediu-me o meu bilhete de admissão: +eu não tinha bilhete, e ia descer algum tanto envergonhada, quando um +deputado cortezmente me disse: «aqui tem uma entrada, minha senhora.» +Agradeci, posto que a minha vontade seria regeitar. Entrei, quando v. +ex.^a começava a fallar. Impressionou-me a sua eloquencia chã, os seus +ares graves, a compostura, um não sei quê mais sério que os seus annos, +permitta-me assim fallar. E, ao mesmo tempo, lembrou-me a recommendação +de meu marido, respectivamente aos direitos que elle tinha de ser +remunerado na pessoa de sua viuva. Eu nada sei de leis nem consultei +quem as soubesse; ignoro se tenho direito a reclamar o que meu marido +nunca reclamou. V. ex.^a póde de prompto responder-me? + +--Não, minha senhora. O que eu de prompto posso asseverar a v. ex.^a é +que, em honra da memoria e cinzas do honrado brigadeiro do sr. D. +Miguel, não erguerei minha voz humilde no parlamento, pedindo aos +inimigos de D. Miguel favores para a viuva de Gonçalo Telles. + +--Em tal caso...--balbuciou D. Iphigenia--baldou-se a minha pretenção. + +--Queira v. ex.^a ouvir-me...--Molesta-se com o fumo do +charuto?--perguntou elle erguendo-se. + +--Não, senhor. + +Calisto accendeu o charuto com ademanes theatraes, e voltou a sentar-se, +proseguindo: + +--Se o marido de v. ex.^a houvesse profundamente estudado a sua arvore +genealogica, ajuntaria alguns nomes, mais obscuros mas não menos +antigos, á lista dos parentes em Portugal. Mais obscuros, digo eu; +porém, a illustração dos mais claros não é de invejar, minha nobilissima +senhora. Entre aquelles que se honram do parentesco dos Telles, dos +Teives e ainda dos leonezes chamados Ponces de Leão, ha um que dispensou +estes appellidos por se não demasiar em composturas nobiliarias. E esse, +minha senhora e prima, sou eu. + +--V. ex.^a?!--acudiu Iphigenia. + +--Eu, que não costumo fallar de meus antepassados, sem invocar o +testemunho dos tratadistas nobliarchicos, dos chronistas, dos +genealogicos impressos e não impressos. Devo poupal-a a discursos, aliás +curiosos, de agradaveis e historicas noticias: mais tarde v. ex.^a +ouvirá com interesse as allianças travadas entre os meus maiores e os de +meu parente Gonçalo Telles de Teive. Achou, pois, v. ex.^a um parente em +Portugal. Boa estrella nos fez confluir a Lisboa; em boa hora me deixei +vencer das instancias dos meus constituintes. + +--Eu estou maravilhada!...--exclamou Iphigenia--Ha presentimentos +prodigiosos!... Que força estranha era esta que me impellia para v. +ex.^a!? Subi as escadas de sua casa com desusada affoiteza. Comecei a +fallar-lhe com segurança e tranquilidade extraordinarias! Não me lembrei +que estava diante de um cavalheiro, que podia intender-me falsa e +desairosamente... Em fim, eu fallava a v. ex.^a como se deve fallar... a +um primo. + +--E mais que tudo a um amigo. E, como amigo, ouso perguntar a v. ex.^a +qual é actualmente a sua situação. + +--Francamente responderei. Entrei em Lisboa com dinheiro, que poderia +bastar á minha economica subsistencia de dois annos; porém, como ao fim +de tres mezes, não se me antolhava amparo de ninguem, nem esperanças de +alcançar a paga dos serviços de meu marido, pensei em trabalhar para não +exhaurir o peculio que tinha. Li um annuncio, convidando mestra de +linguas ingleza e franceza para collegio. Confiei bastante em mim, e +apresentei-me aos directores. Fallei francez, e cuidaram que eu nascêra +em França; em quanto a inglez, deram-me como bastante conhecedora da +lingua. Pareceu-me que a minha posição melhorava; mas enganei-me. Eu +levava comigo o fatal condão de algumas mulheres; dizem que ainda não +estou velha nem feia... + +--Que favor lhe fazem, minha senhora!--atalhou Calisto mui risonho. + +--Pois este accidente, de que tanto se desvanecem algumas mulheres, +tornou-se para mim supplicio. Não querem crêr que eu envolvi meu coração +na mortalha de meu marido, no tumulo d'elle o fechei; e, se podesse, +este resto de formosura atirara áquella campa, que me roubou um pae. + +--Então é certo que minha prima abjurou todas as alegrias do +coração?--perguntou Calisto, já ferido n'alma por este desengano á +paixão que o ia queimando com um crescer e desenvolvimento para pavores! + +--Todas as que não condigam com a minha situação de viuva. + +--Pois se a Providencia lhe deparasse um marido digno... + +--Maridos dignos são unicamente aquelles que affagam como a filhas as +mulheres; são aquelles que as mulheres estremecem como paes; são os que +concentram todo o seu viver no pequenino ambito da familia, na placidez +e silencios de almas que se contemplam mudas, quando as vozes do coração +já não tem que dizer. Eu experimentei estes contentamentos ao lado de um +pae, que me deu todo o seu saber quando já não tinha forças para manejar +a espada. Não se podem repetir as situações do meu passado; lembro-as +com saudade; mas não cogito nem levemente em revivêl-as. Aqui tem v. +ex.^a a sincera exposição do que sou. Veiu isto a dizer-lhe que a vida +de mestra, que adoptei, me é golpeada de desgostos e repugnancias que me +fazem desgraçada. + +--E como seria v. ex.^a feliz?--interrompeu Calisto. + +--N'uma casinha entre duas arvores, com os meus livros e com as minhas +saudades. Ambiciono muito, porque ha pessoas abastadas que nunca puderam +conseguir esta felicidade, tão moderada apparentemente. + +Ergueu-se Calisto Eloy de golpe, avisinhou-se da brazileira, tomou-lhe a +mão com solemnidade, e abriu do peito estas graves e doces vozes: + +--Prima Iphigenia, eu não permittirei que a sua mocidade vá +emmurchecer-se n'uma casinha entre duas arvores. Para as arvores e +flôres se fizeram as aves; e, todavia, na estação desabrida, umas aves +desferem remontado vôo a outros climas, e outras pipilam enfezadas de +frio e fome. Na estação das manhãs regorgeadas e das tardes inspirativas +terá v. ex.^a a sua casa bem assombrada de arvores e rodeada de relvas e +fontes que retemperem as calmas do estio. Porém, no inverno, gosará o +aconchêgo e regalos que as grandes populações offerecem. Não lhe admitto +replicas, prima. Achou um parente de edade authorisada, que requer +obediencia. Agora, fallar-lhe-hei de mim. Sou rico, não tenho filhos, +com quanto seja casado... + +N'este ponto do discurso, Calisto de Barbuda fez ama visagem funebre, e +correu os dedos vertiginosamente por sobre o bigode, ainda escasso. +Depois, desentranhou um suspiro cavo, e continuou: + +--Minha prima e mulher, se alguma vez se encontrar com v. ex.^a +abrir-lhe-ha os braços de parenta. É uma creatura feita no campo, dotada +apenas das luzes naturaes, que a levam pelo melhor caminho da felicidade +n'este mundo. Casei, por que era necessario que o vinculo dos Figueirôas +voltasse á casa d'onde saíra. Acho-me ha vinte e alguns annos ligado á +mulher, que não devia ser minha. E, se ella é feliz, isso prova a muita +probidade e resignação com que me tenho conformado ao meu destino... + +Fez uma breve pausa, e proseguiu: + +--V. ex.^a deu largas á sua alma: consinta que eu seja avaro do prazer +de uma expansão. + +--Porque não ha de sêl-o?--accudiu D. Iphigenia, interessada na +commovente historia. + +--Não sei o que é felicidade. Tenho quarenta e quatro annos, e ainda não +vi uma aurora benigna. Muitos annos procurei aturdir-me no estudo. +Roía-me o abutre de um desejo vago; mas eu, que me segregára do mundo +para o escondrijo da minha bibliotheca, se ás vezes passava de relance +entre mulheres, que poderiam espertar-me paixões, fitava n'ellas como +idiota que perdeu a memoria da terra natal, e se quêda espantado das +coisas que ligeiramente lhe espertam a lembrança. Se alguma vez me +surpresou algum sentimento estranho de affecto, podia tanto comigo a +consciencia da sujeição ao dever, que o mesmo era cerrar os ouvidos da +alma ao quer que era, entidade dupla, que me segredava delicias de uma +vida incognita. Estas breves e poucas pelejas, com o discorrer dos +annos, cessaram. Eu tinha consummado a paralysia do coração, e chamado +sobre mim todos os habitos da velhice. A minha vinda para Lisboa foi o +resurgimento da vida, sepultada antes de haver consciencia de si. +Achei-me entre homens, aquecidos á luz d'este seculo. Na athmosphera +d'esta cidade ha perfumes que vaporam do coração das esposas amadas, das +amantes queridas, das pombas ideaes, que volteam á volta dos espiritos +anhelantes de cada homem. Pulou-me como arfar de vulcões a vida no +peito. Vi-me no passado, e tive pesar, e saudade, e pejo da minha +mocidade... Onde vão estas candidas revelações do meu pobre coração? Não +na enfadam porventura minha senhora? + +--Interessam-me e commovem-me--disse com affectuosa sympathia a +brazileira--Vae dizer-me que se apaixonou? + +--Tive um delirio--respondeu o morgado, compassando as palavras em tom +muito do intimo--Um delirio, sonho de infeliz, que se desperta a +arrancar do seio uma frecha. Foi o estremecer do terremoto, que alarma +terrores, e se aquieta. Medi a profundeza da minha alma, e pude vêr que +eu seria capaz de um crime... E, todavia, se algum seio de mulher +podesse comprehender quanta pureza sanctificava os meus affectos!... Se +alguem visse a aguia que por tão alto avoeja, sem descer ás searas a +roubar um grão!... Fallo a um espirito elevado, que tem obrigação de me +comprehender... Agora, senhora, perdão! Eu disse tudo: confessei-me +diante de um anjo de Deus. Mostrei-lhe o desamparo d'este meu viver. E, +se estas lagrimas alguma coisa significam, é uma supplica de amizade. Eu +vejo ahi uma formosura que dobra a alma, e ouso procurar o +compadecimento de uma amiga, porque sei agora que ha mulheres, diante +das quaes um homem precisa chorar. + +Calou-se o morgado. Iphigenia encarava n'elle com certo assombro e +estranheza de pessoa que não póde, nem quer conhecer dos sentimentos que +a alvoroçam. O inesperado remate d'este dialogo figurou-se-lhe a ella a +passagem de um romance, que se não presa de muito verosimil. Porém, como +quer que a viuva do general Ponce de Leão fosse grandemente lida em +novellas francezas, o caso não lhe pareceu tão extraordinario como ao +leitor e a mim, quando m'o referiram. + +Passados momentos, Iphigenia, contemplando, sem as vêr, umas figuras +chinezas do seu leque, disse: + +--De maneira que esta apparição imprevista de uma mulher desafortunada, +se deu logar á expansão, tambem foi causa a uma dôr de v. ex.^a!... + +Calisto entrelaçou os dedos em postura supplicante, e exclamou: + +--Chovam-lhe os archanjos do Senhor quantas felicidades a +bem-aventurança encerra! Nunca uma nuvem escura lhe ennegreça os seus +sonhos de felicidade! Multipliquem-se em alegrias eternas para v. ex.^a, +estes instantes de ventura que me deu, minha misericordiosa amiga! + +Nenhuma paixão subita estalou ainda com estrondos d'este tamanho. A +gente comprehende como estas coisas acontecem; casos se podem ter dado +comnosco da mesma natureza, mas o que nós não fizemos nunca, se o amor +nos assaltou de improviso, foi fallar assim, romper tão depressa em +vehemencias de enthusiasmo. Nós, homens creados mais ou menos por salas, +affeitos a subordinar o sentimento ás praticas da civilidade, +desafogâmos em extasis e suspiros, contemplamos embellezados a mulher +que nos endoudece, respondemos com frioleiras gagas a uma pergunta, que +nos ella faz com toda a presença do seu espirito. Toda a lastima é pouca +para os ridiculissimos tregeitos que fazemos então. + +Ora, isto é bom que assim continue a ser. Esse quarto de hora de suprema +realeza das mulheres é tudo que ellas tem, e pouco mais. Esse espaço de +fascinação, que nos embrutece, é a divinisação d'ellas. Ás pobresinhas, +quando o tempo as apêa dos altares, e os maridos convertem a prata dos +thuribulos em caixas de rapé, fica-lhes sempre a memoria consolativa +d'aquelle quarto de hora. + +Tornando ao ponto, queria eu dizer, que o morgado da Agra de Freimas não +fallaria d'aquelle modo, nem tão do intimo da alma apaixonada, se +tivesse experiencia dos usos da boa sociedade. Os bons usos ordenam que +o homem se declare á mulher que ama, depois que as impressões repetidas +de vêl-a e ouvil-a bajam desfalcado o vigor do sentimento. A praxe +requer primeiro o extasis, depois as semsaborias tratamudas, ultimamente +a declaração, com intervalo de tres mezes ao extasis. + + + + +XXV + +*Perdido!* + + +Fecharam-se as camaras. + +Calisto Eloy desamparára a sua cadeira do parlamento, quinze dias antes +de encerrada a legislatura. Era opinião geral que o deputado de Miranda, +desgostoso do governo e da opposição, se retirara, convicto da fraqueza +de seus hombros contra o colosso, que tombava sobre o desangrado +Portugal. + +As gazetas realistas indigitavam Calisto como exemplo de peito illustre +e invulneravel no marnel de febres podres em que ardiam e patinhavam +miseraveis ambiciosos. Deram-lhe, á conta d'isso, varios nomes gregos e +romanos, que lhe ajustavam tão a primor, como a verdade historica á +legenda das fabulosas virtudes de Grecia e Roma. A opposição liberal +lamentava que as medidas obnoxias e hybridas do governo afugentassem da +camara um deputado como Benevides de Barbuda, a cuja alta intelligencia +e virtude repugnavam os desatinos da camarilha. Calisto Eloy lia estas +coisas nas gazetas, e dizia entre si: + +--Como hei de eu crer no que vejo escripto a respeito dos outros!... + +Ao tempo que estes juizos dos publicistas eram impressos e mandados á +posteridade, estava o morgado da Agra no hotel de Cíntra, cuidando em +alugar e trastejar com elegancia britannica uma casa, entre moitas de +arbustos, a qual parecia feita para a rainha das flores ou para +repousar-se em fresca sesta a aurora. + +Decoradas as paredes interiores, cobertos de oleado os pavimentos, e +afestoadas as paredes exteriormente com lilazes e jasmineiros, baunilhas +e eras de verdejante urdidura, entrou n'aquella casa D. Iphigenia, +conduzida pelo braço de Calisto, e seguida de uma senhora de porte +honesto e recommendavel, que vinha a ser aquella D. Thomazia Leonor, em +honra de quem as musas do defuncto tenente suspiraram acrosticos. Mais +atraz, iam duas criadas, e um servo fardado de casimira côr de pombo, +com gola e canhões escarlates, golpeados de listas amarellas, +distinctivos da libré dos Ponces de Leão de Hespanha. + +Iphigenia foi surprehendida pelo seu gabinete de estudo, decorado de +graciosas estantes e _étagères_, cheias de livros luxuosamente +encadernados, acondicionados com tão elegante symetria que induziam +muito mais á contemplação que á leitura. O restante d'aquella vivenda de +fadas era por egual magnifico, em gosto e riqueza. + +Calisto deu posse da casa a sua prima, e retirou-se ao hotel, para que +ella sestiasse e se recobrasse da fadiga e calma da jornada. + +Ao descair da tarde, o morgado foi bater á porta d'aquelle eden. +Iphigenia saiu-lhe ao encontro com um ramilhete de flores, e disse-lhe: + +--Aqui tem as primicias do seu jardim, primo. + +Calisto aspirou o aroma das flores, osculou a mão que lh'as offerecera, +e murmurou: + +--Fechem-se os meus olhos, quando eu as poder vêr sem lagrimas de +gratidão. + +--Lagrimas... para que?--Volveu ella com meiguice.--As lagrimas +deixemol-as aos infelizes. O primo não comparte do meu contentamento? +Não vê que me realisou o meu sonho com tamanho excesso de delicias, que +eu não me atrevera, sequer, a imaginar? Sinto-me ditosa!... Ainda não +quiz pensar um instante se estas alegrias podem descair em magoas... +Estou sonhando, e não quero que me acordem. Seria crueldade dizerem-me +que ha viboras debaixo d'estas alcatifas de flores. Isto deve ser +paraizo sem culpa, ignorancia santa do porvir sem pomo de arvore da +sciencia que m'o descubra. Não é assim?... + +--Que fallar o seu prima!--disse com vehemente, mas suffocado amor, o +morgado--Que melodias!... Eu não sei responder-lhe... Apenas sei +escutal-a. N'uma composição dramatica de Sá de Miranda, chamada +_Vilhalpandos_, ha um epitheto dado a uma mulher, o qual eu não podia +perceber, sem que o baptismo das doces lagrimas me chamassem o coração á +vida. + +--Sempre lagrimas!...--atalhou Iphigenia--Então que é que diz o Sá de +Miranda? + +--Na bocca de um amante, que encontra a sua amada, põe estas palavras: +«mulher santissima». Quem disse mais n'este mundo? os seus poetas +francezes disseram coisa mais peregrina?... E n'esta mesma scena, poucas +linhas abaixo, diz o amante a Fausta: «Sabes que sonho?». Que immenso +amor devia de ser o de Antonioto, que assim perguntava á vida de sua +alma: «Sabes que sonho?» + +--_Fausta_!... é um nome lindo, disse a mimosa viuva. + +--Se não existisse Iphigenia...--accudiu Calisto. Já este nome me soava +docemente quando, na minha mocidade relia as angustias da filha da +Agamemnão, cujo sacrificio o oraculo de Aulida demandava. + +--Ah! tambem eu conheço essas angustias da tragedia de Racine. Quantas +vezes eu, nas minhas horas tristes, repetia com a Iphigenia do grande +poeta francez, e com o espirito na alma de minha mãe, assim como ella o +tinha no afflicto rosto da sua: + + _Ah! + Sous quel astre-cruel avez-vous mis au jour + Le malheureux objet d'un si tendre amour?_ + +O primo, continuou ella, conhece perfeitamente Racine e Corneille? + +--Perfunctoriamente. Conheço melhor Euripedes e Seneca. Pendi sempre á +lição de classicos gregos, latinos e portuguezes. Crê-se nas provincias +que o saber humano está n'isto. Os francezes começo a presal-os agora, +porque... não ha linguagem que não sôe divinamente fallada por minha +prima. + +--Essas lisonjas--volveu ella sorrindo--aprendeu-as nos seus livros +velhos, primo Calisto? + +--A lisonja deixará alguma hora de ser mentira?... Eu não podia +mentir-lhe, prima Iphigenia. Não!... Os meus classicos só me ensinaram +duas palavras, que eu possa dizer-lhe: Mulher Santissima! + +Iphigenia deixou-se amorosamente beijar nos dedos. + +A natureza de Cintra, incluindo os rouxinoes d'aquellas ramarias, +poderia espantar-se: eu, não. + + + + +XXVI + +*E ella amava-o!* + + +Era já pleno estio. Os galans mais hardidos de Lisboa estanceavam por +Sitiaes, por Pisões, e por aquellas varzeas de Collares, a engarrafar +lyrismo para gastarem por salas nas noites de inverno. + +O primeiro d'elles que descortinou por entre arvores a formosa +brazileira foi alviçarando aos outros a ondina incognita, que saira das +vagas a buscar camilha de folhagem e boninas entre as fragas da serra da +lua. + +Entram os agitados monteiros da estranha caça a circumvagarem nas +encostas e oiteirinhos que rodeavam a vivenda de Iphigenia. Uns a viam +ao sol posto, outros ao arraiar da manhã, e outros, quando ella +perpassava por entre aleas de cylindras para uma gruta fechada como +concha de perola. + +A presença de Calisto Eloy, confundido com os arbustos floridos da +casinha mysteriosa, augmentou a curiosidade dos indagadores. Uns +consideraram esposa do deputado a bella esquiva; outros aventaram +hypotheses mais romanticas, mas menos honestas. Á primeira conjectura +oppunha-se uma forte razão negativa: se era marido, porque vivia no +hotel do Victor? Á segunda conjectura, contradictava outra razão +ponderavel: se era amante, que descuidado amante era elle, que se +encerrava no seu quarto do hotel, durante as noites,--facto averiguado +minudenciosamente pelos interessados? O mysterio, pelo conseguinte, a +nublar-se, e as esporas de uma curiosidade impaciente a picar os moços +ociosos, e os ricassos velhos, que espreitavam por entre a rede das +sebes verdejantes, esta Susana, mais cuidadosa do que a outra, que +accendia fogos nos lubricos juizes de Israel. + +Entre os mancebos, estremava-se um, que passava grandes espaços de tempo +em quietismo esculptural debaixo de um olmo, que sobranceava a casa de +Iphigenia. Sempre que ella, á hora da maior calma, se aproximava da +janella do seu gabinete a respirar o frescor do jardim, via o +contemplativo sujeito de braços cruzados, e olhos fitos. Mas, assim que, +ao intardecer, os arredores da casa começavam a ser frequentados, o +moço, como quem se resguarda, desapparecia. + +Era este sujeito aquelle Vasco da Cunha, que esperava a herança de uma +tia para casar com Adelaide Sarmento. Os olhos indifferentes de +Iphigenia assetearam-lhe a pia alma, n'um d'aquelles dias em que elle +viera de Lisboa a Cintra para assistir á novena de Santo Antonio de +Padua, celebrada solemnemente na capella de uma tia marqueza. Ou porque +o ascetico fidalgo andasse com o coração amollecido pelas praticas +piedosas, ou porque Iphigenia se lhe figurasse algum d'aquelles +seraphins que visitavam os anachoretas da Thebaida, o certo é que não +houve mais despegar-se-lhe a phantasia d'aquella imagem, que se +interpunha entre elle e o santo filho de Martim de Bulhões. + +Iphigenia attentou na pertinacia do homem, e contou ao primo Calisto, +gracejando, a tempestade amorosa que lhe andava imminente na pessoa +d'aquelle sujeito. Assomaram differentes côres ao rosto do morgado. +Quizera elle dissimular o sobresalto com o sorriso: mas a rubidez +sanguinea dos olhos, se o dramaturgo inglez a visse, arranjaria +d'aquelle aspeito feroz assumpto para mais scelerado preto. + +Iphigenia lisongeou-se d'aquella explosão de lavas que archejavam na +testa do homem. + +_Lisongeou-se_!... Pois amava-o ella?! + +Não sei com que direito me fazem esta pergunta assim com uns visos de +espanto! Amava-o como quem não tinha amado nunca. E para lisongear-se de +incutir ciume não lhe fôra mister amal-o, digamol-o de passagem, e em +nome da consciencia incorruptivel das senhoras, cuja attenção e reparo é +felicidade que eu anteponha a todas. + +Amava-o, sem pensar os beneficios extremamente delicados com que elle +lhe dulcificava a existencia. Amava-o captiva do quer que é que primeiro +prende a vontade da mulher, sem dependencia dos dons da alma. Calisto +Eloy de Silos estava uma esbelta figura de homem. A cara compuzera-se +arabicamente. O bigode cerrado e negro caía-lhe sobre as claviculas. O +descostume da leitura restituira-lhe o aprumo da espinha dorsal. O +ventre baixou ás proporções rasoaveis. No trajar; refinava em elegancia +e gosto, subordinando-se ao alvitre do alfaiate. Todo aquelle ar de +meneios, posturas e geitos accusava os fidalgos espiritos, resgatados da +brutesa da antiga vida. Póde ser que alguma affectação lhe maculasse os +modos e garbo das attitudes: sem embargo, o senhor da Agra de Freimas +era homem para merecer, sem favor, a consideração de qualquer dama +superciliosa na escolha. + +Se isto não bastasse a ponderar no animo de Iphigenia, mal poderia +resistir-lhe o coração aos respeitos, porventura demasiados, com que +elle interpunha largo stadio entre as expansões da palavra e o minimo +vislumbre de qualquer intento menos decoroso. Casos houve era que ella o +surprehendeu com os olhos marejados de lagrimas e um sorriso nos labios, +sorriso supplicante, de perdão para as lagrimas. Casos houve em que ella +sentiu ferver-lhe o desejo de lhe pedir que, em vez de lagrimas, lhe +desse um beijo na face, um d'aquelles beijos, que não tiram nada á +formosura do corpo nem da alma, porque no rosto augmentam o rubor--o que +é bello--; e na alma convencem a consciencia da adoração--o que é +sublime. Difficil coisa será achar a virtude que se furta a estes +conflictos! Virtude, que se esconde e encolhe para não ser alcançada +pela flecha de um beijo, ás vezes acontece que, por muito esquivar-se, +apouca-se, vapora-se, safa-se e ninguem sabe como ella se foi, nem como +é possivel que um vaso fechado de essencias aromaticas appareça vasio +sem ter sido quebrado. Este caso, naturalmente, anda explicado na +esthetica. Eu hei de vêr o que é isto quando tiver vagar. + +Vamos já rodeando por longe dos ciumes de Calisto Eloy. Revertamos ao +assumpto. + +Iphigenia tomou-lhe amorosamente da mão e disse-lhe: + +--Meu primo, eu não quero lêr em sua alma uma pagina que se não +assimelha ás outras. + +--Pois que é, prima?... perguntou elle enleado e tremente. + +--Eu não quero ter de justificar-me, tornou ella balbuciante. + +--Justificar-se.... + +--Sim. Duas palavras que bastem a definir-me. Se eu perder a sua +amizade, quero morrer. Veja quanto eu farei para lh'a merecer. + +Calisto dobrou o joelho, e beijou a mão, que lhe estreitava +calorosamente, a d'elle. + +Seguiu-se silencio de alguns minutos. + +Se houvesse elos na cadeia da felicidade humana, o ultimo, a maxima +perfeição, devia prender com os gosos celestiaes. Esse ultimo elo não o +ha: se existisse, o morgado, n'aquelle instante, perderia a consciencia +d'esta vida, e entraria na exaltação beatifica dos anjos. + +A fortuna dos corações que desbordam da felicidade no amor, deve ser +aquella _Fortuna parva_, á qual Servio Tullio erigiu templos. Tito +Livio, a meu vêr, toma o _parva_ no sentido de _baixa_ ou _pequena_: eu +traduzo latamente «fortuna lorpa»; porque não conheço, quem, n'uns +lances analogos ao de Calisto, mantivesse a inteireza de sua razão e +espiritos. É que o morgado não disse coisa que mereça escriptura, elle +que tão donosamente, em supremos apertos, face a face do dr. Liborio, +tirou da veia copiosa repuchos de eloquencia! + +No dia seguinte, quando as aves abraseadas do sol das onze horas, se +embrenhavam nos tufos das ramagens, lá estava Vasco da Cunha debaixo da +arvore. + +Á mesma hora, Calisto Eloy circuitava a parede da matta em que se +emboscava o religioso mancebo, saltava de manso, e quasi a subitas +passava rente d'elle hombro a hombro. + +Vasco não conheceu o homem que o fitava com sobranceria. Tres mezes +antes se havia encontrado em casa do desembargador Sarmento com um +Calisto, que não tinha que vêr com aquelle homem. + +Sorriu-se o morgado, e disse-lhe: + +--Costuma v. ex.^a intermear as suas novenas com a oração mental nas +brenhas e florestas, á imitação dos antigos padres? Ou está pedindo aos +deuses infernaes que lhe levem a alma da tia, e lhe deixem o vinculo da +mesma para poder maridar-se com a sr.^a D. Adelaide Sarmento? + +Alumiou-se Vasco de uns longes de suspeita, e cuidou estar ouvindo a voz +mesurada e sonora de Calisto. + +--O senhor... disse elle. + +--Eu, que?--atalhou o morgado á suspensão do moço. + +--Com que direito vem aqui incommodar-me?--tornou o mordomo das tres +virtudes cardeaes. + +--Não o incommodo, nem me incommodo. Dir-lhe-hei muito de relance que +mora alli n'aquella casa uma prima de um Barbuda, e accrescentarei que +tal dama não faz novenas a santo nenhum das particulares devoções de v. +ex.^a. Se o sr. Vasco da Cunha aqui voltar ámanhã, continuaremos a +palestra. + +Vasco não voltou. + + + + +XXVII + +*A saudade e a sciencia em dialogo* + + +Dois mezes depois de fechado o parlamento, D. Theodora Figueirôa, farta +de escrever cartas, e de esperar respostas que lhe iam a razão de uma +por dez, mandou chamar aquelle Braz Lobato, professor de instrucção +primaria, e, com os olhos vermelhos de chorar, abriu do peito oppresso +estas palavras: + +--Que me diz vocemecê sr. Braz, á demora do meu homem? + +--Eu estou passado, fidalga!--disse o mestre-escola empunhando e +sacudindo o queixo inferior.--Seu marido, a minha opinião é que ficou +por lá embeiçado n'alguma mulher. Lisboa é uma Babylonia, fidalga. Quem +para lá vae com um bocado de temor de Deus, perde-o; e quem não tiver +muito lume no olho, e alguns annos de tarimba e experiencia do mundo, +como eu, póde contar que em lá chegando fica reduzido á expressão mais +simples. + +--E que é ficar reduzido á... que? como disse vocemecê? perguntou D. +Theodora. + +--Quero dizer que dá com as canastras n'agua. Foi o que succedeu ao +fidalgo, futura-se-me isto! Sabio era elle, mas faltava-lhe a pratica do +mundo. Foi uma asneira mandal-o a côrtes; eu bem não queria... mas +emfim... tanto me azoinaram os abbades e os lavradores, que eu deixei-me +ir com os outros... (O impostor que tinha votado em si!) E que diz elle +nas cartas a v. ex.^a? + +--Lá por milagre recebo alguma... Aqui tem vocemecê a que veiu aqui ha +dias atraz. Ora leia lá isso. + +Braz montou os oculos de cobre, e leu: + +«Prima Theodora. Cessa de ter cuidado com a minha saude: eu passo +soffrivelmente. Não me pude ainda desembaraçar dos negocios do estado, +que me não deixam tomar fôlego. Á vista te contarei o que tenho feito a +favor da nação. Tem tu saude, e descança da vida trabalhosa que tens. Ha +de ir ahi um sujeito de Bragança para lhe entregares oito centos mil +réis. Vende o grão todo que houver, e diz aos lavradores que por lá tem +dinheiro a juro que eu preciso recolher essas quantias para negocio de +mais interesse. Teu primo e affectuoso marido _Calisto_.» + +Ahi tem vocemecê!--continuou a esposa atribulada, com os braços em cruz +e as mãos nos sovacos.--O dinheiro, que ha sete mezes tem saido d'esta +casa, é um louvar a Deus! Ainda o dinheiro vá que o leve a breca! mas +andar-me por lá o marido, o meu homem, que d'antes, se ficava uma noite +fóra de casa, era lá uma vez de anno a anno, e dizia elle que não estava +bem senão á beira de sua mulher!... Que me diz a isto sr. Braz? Então +vocemecê é de parecer que elle está por lá embeiçado? Pois o meu Calisto +seria capaz d'isso?! + +--Olhe fidalga--respondeu o professor de instrucção primaria fazendo com +os beiços um bico e logo um arco, tregeitos meditabundos com que elle +usava solemnisar os dizeres graves.--Um homem cá nas aldeias é uma +coisa, e nas cidades é outra. Eu corri mundo, e sei o que fui. As +mulheres das cidades tem umas artes e manhas, que, se um homem se não +precata, ás duas por tres, não sabe de que freguezia é. Ainda que a +gente não queira aquelles demonios taes esparrelas armam, que não ha +remedio senão cair em fragilidades proprias da fragil natureza humana, +como o outro que diz. O sr. morgado já não é rapaz; mas tambem não é +velho. Aquillo, em quanto a mim, e oxalá que eu me engane, deu por lá +com alguma menina que o embruxou... + +--Sabe vocemecê que mais--interrompeu com abrupta resolução D. +Theodora--pégo em mim, metto-me n'uma liteira, e vou por ahi abaixo até +á capital. É o que eu faço! + +--Essa idéa precisa de ser pensada com prudencia--observou o +mestre-escola, erguendo-se, e dando alguns passeios na eira, onde +estavam dialogando--Se a fidalga fôr, esta casa fica sem dono, entregue +á criadagem, e o sr. morgado póde zangar-se. De mais a mais, ora +supponhamos nós que o senhor seu esposo está, como elle diz na sua, +occupado em negocios do estado; a ida de v. ex.^a vae atrapalhal-o, por +que elle não a ha de deixar sosinha na estalagem. Depois a fidalga vae, +palavra puxa palavra, um diz uma coisa, outro diz outra, e afinal +desavem-se, e começam a viver de esguêlha. A minha opinião é que v. +ex.^a se deixe estar em sua casa, e espere a vêr para onde correm os +ventos. Se elle por lá anda com a cabeça a juros, deixal-o pagar o +tributo, que elle cairá em si. Antes isso que quebrar uma perna. Lá o +dinheiro isso é o menos. A casa dá para tudo, graças a Deus. A fidalga +não sabe o que tem de seu. Lá em quanto ao marido, uma extravagancia não +lhe dá nem tira. Salomão foi o mais sabio dos homens e teve trezentas +mulheres e setecentas concubinas, e mais acho que foi santo. David, +tambem era santo, e caiu tambem na fraqueza de amar a mulher de um +capitão, general, ou uma coisa assim. As sagradas escripturas contam +muitos casos d'estes... Pois emfim, a fidalga não esteja ahi a chorar. +Seu marido ha de voltar são e salvo. O mais que eu posso fazer-lhe é ir +por ahi abaixo ter com elle, e desenganar-me por meus proprios olhos. + +--Isso é que era bom, sr. Braz!--exclamou Theodora, limpando as lagrimas +ao avental de chita. + +--Eu estou ainda com a idéa ferrada do habito de Christo. É cá uma birra +com o boticario, que disse ao cirurgião que eu havia de ser cavalleiro +do habito quando elle fosse papa. O sr. morgado não me responde ás +cartas: é um ingrato d'aquella casta; mas, emfim, os favores que lhe fiz +na eleição não me arrependo de lh'os fazer... Emfim, fidalga, se v. +ex.^a quer, eu vou ter-me com o sr. morgado, e póde ser que venha com +elle para cima e com o habito. + +--Está dito!--clamou Theodora--Vocemecê vae, e eu faço-lhe as despezas. + +--Isso lá como v. ex.^a quizer... Eu, a fallar verdade, não estou muito +indinheirado, e alguns vintens que tenho todos me hão de ser precisos +para pagar os direitos da mercê. + + * * * * * + +Ahi vem Braz Lobato, caminho de Lisboa. + + + + +XXVIII + +*Ingratidão de um deputado* + + +Braz Lobato, antigo sargento de milicias, e antigo borra de frades +franciscanos, era legitimo homem para farejar Calisto em Lisboa. Cuidou +elle que encontraria o marido de D. Theodora de Figueirôa nos logares +mais celebrados e admirados da capital, segundo é fama nas provincias. +Como o não encontrasse na Memoria do Terreiro do Paço, foi procural-o ao +Aqueducto das Aguas-Livres. Depois de baldadas estas pesquisas, outro +qualquer sujeito desanimaria; Braz Lobato, porém, resolveu ir ao Paço +das Necessidades em busca do seu patricio, porque, no seu modo de julgar +as correlações dos altos poderes do estado, Calisto Eloy devia +frequentar regularmente a casa real. + +Perguntou o mestre-escola affoitamente á sentinella do paço se o +representante nacional, morgado da Agra estava em palacio. A sentinella +mandou-o entrar, e que perguntasse ao commandante da guarda. O +commandante mandou-o a um fidalgo que vinha descendo, e o fidalgo +interrogado mandou-o á fava. + +Com o quê, Braz Lobato saiu á rua, e perguntou a um aguadeiro se alli +não morava o rei. E, como soubesse que a familia real estava em Cintra, +conjecturou que os deputados, e particularmente Calisto, deviam estar em +Cintra para de lá governarem a monarchia. + +Chegou o mestre-escola a Cintra, e descavalgou do jumento portador, á +porta do palacio. Fez as suas perguntas á sentinella com aquelle ar +marcial que lhe ficou das milicias. Esperou a vinda de um camarista, +velho fidalgo attencioso, que sorriu da supposição do provinciano, e lhe +disse que o deputado Calisto Eloy residia no hotel do Victor. + +Chegado ao hotel, á hora mais de passeio, por fim da tarde, não +encontrou Calisto, e foi demandal-o nos logares mais frequentados. +Abeirou-se de um grupo de sujeitos, que inculcavam gente grave, e +perguntou por Calisto Eloy de Silos Benevides de Barbuda. + +Esta pergunta coincidiu com o caso de estarem aquelles individuos +aventando hypotheses sobre a formosa solitaria, cujo ninho de folhas e +flores apenas Calisto de Barbuda frequentava. + +O ar provinciano de Braz fez crêr aos curiosos que o homem, sendo +patricio de Calisto, poderia esclarecel-os ácerca da creatura +mysteriosa. + +--D'onde conhece vocemecê o sr. Barbuda?--perguntou um. + +--Conheço-o desde menino, que é da minha terra, e eu sou o professor de +instrucção primaria lá do concelho do sr. morgado da Agra de Freimas. + +--Então, volveu outro, ha de saber se a senhora que está com elle em +Cintra é parenta d'elle, ou mulher ou amante. + +--A mulher do sr. morgado ficou em casa; parenta não me consta que elle +tenha cá nenhuma. Isso ha de ser negocio de contrabando, em quanto a +mim. Fazem favor vv. s.^as de me ensinarem o caminho da casa onde elle +está? + +Conduzido á espessa cancella de ferro, que estremava o jardim do caminho +publico, Braz Lobato puchou a campainha. Fallou lhe um criado de libré, +o qual, perguntado se o sr. morgado estava em casa, respondeu que +n'aquella casa morava a viuva do general Ponce de Leão. + +Dada a resposta, o criado rodou solemnemente nos calcanhares, e deixou o +mestre-escola com o nariz n'um orificio da grade, e os olhos n'outros +orificios, espreitando os massiços de murtas, que escondiam a fachada da +casa. + +D'ahi a pouco lobrigou elle entre os arbustos um galhardo homem com uma +senhora pelo braço, atravessando vagarosamente para um bosque de +aveleiras. + +Fitou-se n'elle; mas não viu coisa que lhe désse lembranças do fidalgo +da Agra. Cuidou que o tinham enganado os lisboetas, e desandou para a +hospedaria. + +Novamente informado, resolveu esperar que o morgado entrasse ás dez +horas, consoante o costume. + +Sentou-se á porta do pateo. + +Viu entrar um empavesado sujeito retorcendo as guias do bigode, com os +olhos postos na lua atravez de uma luneta. Levou urbanamente a mão ao +chapéo. Calisto, divertido pela acção civil do sujeito, ia corresponder, +quando reconheceu o mestre-escola. + +--Você aqui, Braz! disse elle. + +O professor arregaçou as palpebras, e exclamou: + +--Que vejo! a voz é a do fidalgo! + +--Sou eu, não tenha duvida nenhuma. + +Braz levou a mão á testa, e da testa ao peito, e de um hombro ao outro, +murmurando: + +--Em nome do Padre, e do Filho, e do Espirito Santo! Coisa assim nunca +os meus olhos esperaram vêr!... V. ex.^a é outro homem!... Eu estarei a +dormir! E esfregava os olhos, desconfiando seriamente que estava +dormindo. + +--Entre cá dentro, disse o morgado. + +Entrados á sala, perguntou o fidalgo com um ar secco: + +--Que novidade o traz aqui? + +--Vim por ahi abaixo, afim de vêr v. ex.^a, e ao mesmo tempo... + +--Bem sei no que quer fallar. O habito de Christo, sim? + +--Não sendo coisa muito de costa acima... + +--Ha de arranjar-se. E que mais? + +---E que mais?... + +Braz Lobato sentia-se como esmagado pelo tom rispido e sobranceria do +fidalgo. A concisão e rapidez das perguntas enleavam-no a ponto de o +engasgarem nas respostas. + +--Como ficou minha prima? disse Calisto. + +--Está muito contristada, senhor. + +--Porque? + +--São saudades. Ainda na vespera da minha vinda esteve a chorar na +eira... O melhor seria que v. ex^a viesse comigo para casa... Mas como o +fidalgo está mudado!... Então v. ex.^a, pelos modos, era o mesmo que eu +vi, ao fim da tarde, n'aquella casa que tem porta de ferro! Bem me +diziam que v. ex.^a estava lá com uma madama, e eu não o conheci. + +--Aonde?--atalhou desabrido o morgado. + +--N'aquella casa que tem muitas flores. + +--Quem o mandou lá? + +--Uns fidalgos a quem eu perguntei por v. ex.^a + +--E quem o manda perguntar por mim?! Quem lhe disse que eu estava em +Cintra? + +--Foi no palacio do rei que... + +--Então foi-me procurar ao palacio do rei! O sr. Braz é parvo!... Bem. +Eu preciso recolher-me. Quer mais alguma coisa? + +--Não, sr. fidalgo... E v. ex.^a não quer nada lá para a terra?--volveu +logo o antigo sargento com o nariz rubro de colera. + +--Não quero nada. + +--Pois eu para cá vou. Passe muito bem por cá, e até lá. + +Não pôde ter mão de si o professor: voltou ao limiar da porta, que se +fechava, e disse: + +--Sr. morgado... + +--Que é? + +--Eu, para a outra vez, elegerei deputado que me arrange o habito de +Christo. Faça favor de se não incommodar. + +--É asno!--murmurou Calisto batendo a porta com impeto. + + + + +XXIX + +*O demonio em Caçarelhos* + + +Estava D. Theodora presidindo á limpeza do lagar em que se havia de +fabricar o azeite, quando Braz Lobato, ainda empoado da jornada, assumou +á porta, e chamou de parte a fidalga. + +--O meu homem veiu!--exclamou ella. + +--Faz favor de me ouvir aqui fóra, disse elle á puridade.--E, retirados +ao escuro de um bosque de castanheiro, continuou: + +--Seu marido está perdido, sr.^a morgada. + +--Que me diz? bradou a pallida consorte. + +--Estragou-se; d'alli ao inferno não tem mais que morrer. + +--Credo! Então que é? + +--Seu marido está tolhido! A mulher que o roubou á patria, e á esposa, e +aos amigos, está lá n'uma serra, cercada de arvores, e de grades de +ferro![21] Dizem que é a viuva de um general, e bonita como os serafins. +Eu ainda a enxerguei pelo braço do fidalgo; ia vestida de branco, e +parecia uma estrella. + +--Ai! que eu estalo! clamou Theodora, apertando a cabeça entre as mãos. + +--Seu marido, se a senhora o vir agora não o conhece. Está mais apanhado +do corpo; aquella barriga, que elle tinha, sumiu-se-lhe. Tem um bigode +muito grande, e aqui no queixo uma moita de pellos, como os bodes. Traz +os cabellos puchados para cima e retorcidos. Usa oculos á moderna, de +oiro, pendurados ao pescoço. O panno de roupa luzia como vidro, e andava +apertado n'ella e puchado á substancia que parecia espremido no peso do +lagar. Repito: a sr.^a morgada, se o vir, não o conhece. + +--E então elle está lá com essa mulher? insistiu soluçando a quebrantada +senhora. + +--É verdade, lá a tem como uma princeza. Agora já sabe a fidalga no que +elle estraga o dinheiro. + +--E vocemecê não lhe disse que viesse para sua casa? + +--Ora se disse! chamou-me parvo e asno. Asno a mim fidalga! E eu +acommodei-me, porque não quero testilhas com doidos. Afinal, eu estava a +vêr quando me empurrava pela porta fóra! Aqui tem o que ha a tal +respeito. Sirva-lhe de governo, sr.^a morgada. Agora, faça por ter mão +na manta. A casa é grande; mas tem-se visto acabarem casas maiores. O +que a fidalga deve fazer é não deixar ir pela agua abaixo o seu +patrimonio. + +--Não, que eu vou a Lisboa!--exclamou ella batendo o pé, e vibrando +murros contra o ar.--Vou a Lisboa, e faço lá o diabo!... Então a tal +mulher está n'uma serra? Vocemecê disse que ella estava n'uma serra?... + +--É serra; mas a terra é bonita. Ha por lá arvores do começo do mundo, e +cada pedaço de jardim que dava trezentos alqueires de centeio. Chama-se +Cintra, e está lá o rei e a fidalguia. + +--Pois vou lá, que o meu homem é meu--vociferou ella voz em grita.--Se +elle não quizer vir para casa, vou fallar ao rei e aos governos. + +--Fidalga, pense bem no que faz, e ouça o que lhe diz o senhor seu primo +Lopo de Gamboa, que sabe mais do que eu. D'aqui me vou a vêr a minha +gente, e até amanhã, fidalga. + +Doida de afflicção, a traida esposa mandou logo um criado á casa da +Verdoeira chamar o primo Lopo de Gamboa. + +Este Lopo, bacharel em direito, homem de trinta e tantos annos, e sagaz +até á protervia, vivia na companhia do irmão morgado, comendo o +rendimento da sua escassa legitima de filho segundo. Tinha máo nome em +materia de mulheres. A bruteza dos espiritos não lhe implicava o +exercicio de tramoias e bom palavriado com que mareara a reputação de +muitas moças, que, á conta d'elle, ficaram solteiras; e tambem de +algumas casadas, que não conservam as costellas todas. + +Calisto desadorava este primo de sua mulher, em razão das suas ruins +manhas; não obstante, admittia-o ao seu trato familiar, e consentia que +Theodora, uma vez por outra, lhe désse alguns pintos para charutos, já +que o morgado lh'os não dava, sem lançar o emprestimo a desconto da +legitima. + +Theodora, com quanto o excedesse em edade uns quatro annos, tinha sido +creada com elle, e por suas mãos lhe fizera o enxoval, que o primo Lopo +levou para Coimbra. Esta poesia de infancia converteu-se n'ella em +sentimentos benignos de generosidade para com as privações monetarias do +sujeito, algumas das quaes lhe remediou liberalmente a occultas do +marido. Mais se afervorou a estima da prima Theodora, quando viu que +Lopo, na ausencia de Calisto, amiudava as visitas, e lhe fazia companhia +ao serão nas noites de inverno. + +Mandou, pois, a esposa angustiada chamar o primo Lopo de Gamboa. Já +raivosa, já em mavioso soluçar, contou Theodora o que ouvira ao +mestre-escola. + +--Bem t'o agourava eu, prima!--disse Lopo, concluidos os queixumes de +Theodora.--Eu sei o que são homens. Quando meu irmão morgado e outros +santarrões me apontavam como exemplo as virtudes de teu marido, +dizia-lhes eu: «Tirem-n'o da aldeia para Lisboa ou Porto, deixem-n'o lá +estar dois mezes, e fallem-me depois á mão.» O Calisto vivia bem com +todo o mundo e comtigo, Theodora, porque se apaixonou pela livralhada, e +encheu a cabeça d'aquellas velhas arólas dos seus classicos, e não +queria saber de mais nada. E, além d'isso, diz-me tu prima, que grande +amor era o d'elle por ti? Passavam-se dias e noites que o não vias, +senão enterrado na livraria. Nunca lhe vi fazer-te uma meiguice! + +--Pois fazia; estás enganado, Lopo--atalhou D. Theodora, molestada no +instincto da sua vaidade de esposa. + +--Parecia-te isso, prima, porque tu não viste ainda como os bons maridos +acariciam as suas mulheres. Nunca te levou aos banhos do mar, precisando +tu de tonicos; nunca te levou a festa nenhuma de Miranda nem de +Bragança; sendo tu a mais rica herdeira d'estes arredores, deixou-te +viver para ahi sujamente; a cuidar em sevados e gallinhas. As senhoras, +que não te chegam em fidalguia aos calcanhares, vivem á lei da nobreza, +visitam-se, tem os seus bailes, vão ás romarias ricamente vestidas; e +tu?... chorava-me o coração, quando vim de me formar, e te visitei, e +vim dar comtigo a cortar couves para fazer a comida dos patos. + +--Isso é porque eu gosto. + +--Muito embora gostasses; teu marido não devia consentir que o fizesses. +Trabalhar é bom e necessario; mas cada qual trabalhe segundo a pessoa +que é. As senhoras cozem, bordam, marcam, e dão-se a outros muitos +cuidados domesticos e limpos. Os serviços, que tu fazias, pertencem ás +criadas da cosinha. De maneira que a tua riqueza não te dava o descanço +e bem estar que desfrutam as pessoas da lavoira. Esta casa parecia-me +sordida; e, apezar das grandes sabenças de teu marido, ainda não vi +casados que tão estupidamente vivessem! Ahi está agora teu marido a +despejar sacas de dinheiro no regaço de uma amasia, e tu aqui de vestido +de chita e chinellas! Tu!... de chinellas!... Foi bom que levasses vida +de negra vinte annos para elle agora levar em Lisboa vida de principe! + +--Não ha de levar, que eu vou lá!--bradou Theodora assanhada pelas +reflexões do primo. + +--Não vaes, prima, que os teus parentes não consentem que tu vás ser em +Lisboa motivo de gargalhadas d'aquella gente, e maltratada por Calisto. +A morgada de Travanca, a filha de Francisco de Figueirôa, não vae, como +as mulherinhas da ralé, procurar o marido fóra de sua casa. Se elle +vier, veiu; se elle ficar, fique embora. Gaste o que quizer, mas que não +gaste a casa de sua mulher. N'este paiz ha leis que separam do máo +marido a esposa affrontada, e prohibem que os bens dos Figueirôas sejam +desbaratados em devassidões de um extravagante. + +--Eu não quero separar-me do meu homem!--balbuciou ella afogada de +soluços. + +--Tambem te não aconselho a que o faças por em quanto, prima. Ainda é +cedo. Póde ser que teu marido caia em si, e se arrependa. Isto da +separação é um remedio extremo, que se ha de applicar no caso de +continuarem os saques de dinheiro como até aqui, e os embustes infames +com que o Calisto te tem enganado. Ai! prima, prima, grande desgraça foi +para ti e para mim, que te esquecesses do nosso amor de creanças, e tão +depressa aceitasses o casamento com este homem! Eu estava a concluir a +minha formatura, resolvido a pedir-te, e casar comtigo, quer teu pae +quizesse, quer não. Nunca t'o disse; digo-t'o agora, porque a minha dôr +me obriga. Não serias tu mais feliz, se casasses com teu primo Lopo? + +--Eu sei cá?...--disse ella, alimpando as lagrimas. + +--Pois duvidas, Theodora? + +--Tu tens sido um estroina com mulheres... + +--E não sabes por que? + +--Não... + +--Desesperado por te encontrar casada, quando cheguei de Coimbra, não +tratei mais de me ligar seriamente ao coração de mulher nenhuma. Queria +distrahir-me, e fazia desatinos que me tornavam ainda mais desgraçado. A +minha consolação unica era estar alguns momentos ao pé de ti; mas +quantas vezes, eu saía do teu lado com o coração cheio de fel!... Nunca +te disse uma palavra por onde tu desconfiasses o meu estado, pois não? + +--Tu o que me dizias ás vezes é que estavas afflicto por causa de +dividas, e eu dava-te o dinheiro que podia arranjar... + +--É verdade: foste sempre o meu bom anjo, prima; mas olha que essas +mesmas dividas as fazia eu para poder sair d'estes sitios; ia para as +feiras, para as caldas, por toda a parte á busca de distracções, e não +achava coisa que me distraisse de ti o pensamento. Toda a gente da nossa +parentella me aborrecia, menos tu. Ora imagina, prima, que tormentosa +vida a minha desde os dezenove annos! Amar-te, amar-te sempre, e vêr-te +mulher de outro homem; e, de mais a mais, de outro homem indigno de ti! +Céos! que martyrio! que martyrio! + +Lopo cobriu a cara deslavada com as mãos enormes. + +Theodora estava como idiota a olhar para aquillo, sem poder atinar com +as sensações atrapalhadas que aquellas palavras lhe causavam. + +Ergueu-se o velhaco de golpe, e disse: + +--Adeus, prima: eu estou profundamente magoado com a tua desgraça; +doem-me mais os teus pezares que os meus. Disse-te o que me pareceu +rasoavel a respeito de teu marido, d'esse cruel que me roubou a mulher +do meu coração, da minha alma, da minha vida, e da minha morte. Adeus, +prima! + +--Tu vaes afflicto, Lopo!--exclamou ella, resahindo do spasmo tolo em +que estivera--Vem cá; se te aconteceu alguma desgraça, remedeia-se como +poder ser. + +--Ha doenças sem remedio, prima. A minha é mortal. + +--Então que tens, primo? que te dóe? + +--Doe-me a certeza de que estou morrendo desde o primeiro dia da tua +união com este homem!... a certeza de que o has de amar sempre, ainda +que elle te despreze como já te desprezou. + +--Pois se elle é o meu homem recebido á face do altar!... + +--Por isso, por isso, é que eu perdi o teu amor, Theodora!... + +--Pois eu sou casada, bem no sabes, senão teria casado comtigo. + +--Não fallemos mais n'isto--atalhou com muita serenidade Lopo--Já +chorei, e fiquei melhor!--continuou elle esborrachando os olhos até +elles reverem agua--Estas lagrimas estavam aqui no peito ha vinte annos. +Foi bom que tu as visses para que saibas que o homem que chora por ti, +bem mais te merecia que o outro que te despreza... Queres mais alguma +coisa de mim, prima? Queres que eu escreva a teu marido, e lhe diga que +seja honrado e digno da melhor das esposas? Queres que eu mesmo o vá +procurar a Cintra? + +--Se tu lá fosses, Lopo, não seria máo!--disse ella. + +Lopo de Gamboa, como grande farçola que era, sentiu impulso de desfechar +uma risada na cara da prima. O homem viu-se ridiculo até onde a +consciencia de um bargante se póde vêr a si mesma. + +Reteve-o, porém, a coherencia do seu plano. Resolutamente disse que iria +a Cintra, bem que nenhum sacrificio lhe podesse ser mais cruelmente +imposto ao coração. + +--Irei, disse elle, irei buscar o marido da mulher que adoro. Venha mais +esta punhalada da tua mão, prima. + +---Valha-me Deus!--exclamou ella afflictivamente.--Tu dizes-me coisas +que me fazem endoudecer! Pois tu não vês que eu já não posso dar o meu +coração a outro em quanto fôr casada com um? + +--Vejo que me não amaste nunca, Theodora. Diz a verdade... Nunca me +tiveste amor? + +--Eu sei cá, primo!... Se me casasse comtigo, tinha-te amor... Assim +como casei com o meu marido, que hei de eu fazer agora? + +--Matar-me!--disse com vehemencia Lopo, deixando cair os braços, e +descendo ao chão os olhos amortiçados. + +--Ai! que peccados os meus! exclamou Theodora--Eu não sei o que te hei +de fazer, Lopo! + +--Diz-me quando queres que eu parta para Lisboa--tornou elle gravemente. + +--Então sempre queres ir, primo? + +--Ámanhã, hoje, quando quizeres. + +--E não te custa? + +--E a ti não te custa que eu vá? + +--Eu queria que fosses, a vêr se trazias para casa aquelle perdido. + +--Irei, já t'o disse. + +--Então eu vou buscar-te dinheiro, primo, quanto queres tu levar? + +--Nada, prima. Se alguma vez aceitei as tuas franquezas, foi por que tu +ignoravas quanto eu te amava, e eras minha proxima parenta, filha de uma +prima de minha mãe. Hoje que sabes que te amo, não posso, não me +consente a minha honra que receba de ti o mais pequeno favor de +dinheiro. + +--Então não quero que vás--accudiu ella--que tu não podes ir á tua +custa... + +N'este comenos, Theodora escuta muito attenta um rumor de campainhas, e +brada: + +--É uma liteira! Será o meu homem? + +Corre a uma janella; o primo vae depoz ella: affirmam-se na liteira que +desce uma congosta, e reconhece Calisto Eloy, não pela figura; mas por +que uns rapazes vinham adiante gritando que era o fidalgo. Theodora +espede tres ais, que pareciam de ave nocturna, e perde os sentidos. Lopo +amparou-a nos braços, foi sental-a n'uma cadeira incourada de espaldar +alto, e desceu ao pateo a receber nos braços o primo Calisto de Barbuda. + + + + +XXX + +*Como ella o amava!* + + +O morgado previu o seguimento funesto da desabrida recepção e despedida +que deu ao mestre-escola. + +A sua felicidade era d'aquellas que o possuidor receia, a cada hora, +perder; e o desaccordo com sua mulher podia redundar-lhe em dissabores +grandissimos. De todos, o de que elle mais se temia,--o dissabor por +excellencia monstruoso--era a vinda de Theodora a Cintra, a isso +aguilhoada por o professor de primeiras lettras, azedado pelo desprezo. +Envergonhava-se elle, além de muitas outras vergonhas, que a morgada de +Travanca lhe apparecesse em Cintra com a cintura do vestido sobre o +estomago, com as ancas desprovidas de balão, com a cara incavernada n'um +chapéo de 1832, que lá chamavam barretina, de immensas orelhas de palha +amarellada pelo rodar dos annos. Era-lhe aviltante o caso aos olhos de +toda a gente, e especialmente aos de Iphigenia. + +Para prevenir esta e outras calamidades, saiu Calisto, caminho de +Caçarelhos, quatro dias depois de Braz Lobato, e afim de encurtar tempo, +embarcou em o vapor, e do Porto para cima accelerou as jornadas, +repousando poucas horas. Contava elle anticipar-se ao mestre-escola. +Chegou tarde; mas o coração da esposa estava ainda aberto. + +--Tua senhora desmaiou de alegria, primo--disse-lhe Lopo de +Gamboa--estava chorando comigo quando ouvimos a guizalhada da liteira. +Muito te quer a nossa santa prima? Boas as fizeste por lá... Olha que o +patife do mestre-escola veiu contar tudo! + +--Já chegou?! + +--Hoje ás cinco da tarde. + +--Que disse? + +--Contou que tens lá em Cintra uma mulher teúda e manteúda... + +--Que infame embusteiro!--clamou o fidalgo--Chama-me um lacaio, que lhe +vou mandar cortar as carnes, com um tagante! + +Merecia-o! Mas quem deu cá o lacaio? É coisa que ainda cá não vi! + +Assim dialogando, entraram á sala em que D. Theodora estava ainda +muitissimo intalada de soluços. + +--Então que é isto, Theodora?!--perguntou brandamente Calisto, pondo-lhe +as pontas dos dedos na face. + +Ergueu-se ella arrebatada, e pendurou-se-lhe ao pescoço exclamando: + +--Meu Calisto, meu Calisto, cuidei que te não tornava a enxergar! + +--És tola, és tola, prima!--disse elle, assás incommodado com o apertão +do abraço--Pois eu não havia de tornar?! Quem te metteu essa na cabeça? + +Theodora entrou a encarar no homem muito de fito, e rompeu n'um choro +desfeito. + +--Que tens tu?--perguntou elle. + +--Como tu estás mudado! não me pareces o meu homem!... Corta essas +barbas; por alma de tua mãe, corta-me essas barbas, que pareces o diabo, +Deus me perdôe!... + +Calisto sorriu-se, com um profundo tédio de sua mulher. N'aquelle +instante alanceou-o mortalmente a saudade de Iphigenia. Aquella casa de +Caçarelhos e a mulher pareceram-lhe um retalho do inferno, d'aquelle +inferno alagado e frio de que falla o padre A. Vieira. + +Começou a passeiar na sala, e a despedir baforadas de anciada respiração +do peito. A mulher não lhe despregava os olhos das barbas, e de vez em +quando arrancava um ai das entranhas. + +--A fallar verdade--observou Lopo de Gamboa--estás um homem +completamente differente! E o caso é que pareces muito mais novo! Já nem +andas corcovado, nem tens aquella proeminencia da barriga. Olha os ares +de Lisboa o que fazem, primo Barbuda! + +Calisto exprimia o seu nojo de tudo aquillo, sorrindo-se. Tirou da +algibeira um charuto, e accendeu um phosphoro. Eis que a mulher rompeu +em mais desentoada choradeira, dizendo: + +--O meu homem a fumar!... Que feitiçaria te fizeram, Calisto!... + +--De maneira, disse o morgado vencido pela impaciencia, de maneira que +me recebes com choradeiras, e observações estupidas, Theodora! Ora +acabemos com esta feia comedia, e manda-me preparar jantar, que preciso +comer e dormir. + +Saiu Theodora cabisbaixa da saleta, e Lopo de Gamboa despediu-se, +pedindo-lhe que tolerasse com generosidade as tolices de sua prima, que +tudo aquillo n'ella era rudeza e bondade do coração. + +--Bem sei, bem sei...--disse Calisto Eloy, e recolheu-se á sua +bibliotheca, a principiar uma carta, que dizia: + +«Minha querida Iphigenia. + +Não te asseguro tres horas da minha vida, se me disserem que hei de aqui +viver tres dias. Não é enôjo, é peior, é horror o que me faz tudo isto! +Deixa-me pedir coragem ao teu retrato. Ó imagem da filha do meu coração, +salva-me, resgata-me, arranca-me d'este tumulo! Ó consoladora d'esta +agonia sem nome, vale-me, tem mão n'esta vida, que me foge...» + +Entrou Theodora esbofada de dar ordens, de cortar o presunto, de ir á +cesta dos ovos, de andar á pilha da mais gorda gallinha. + +Correu a abraçar-se outra vez n'elle com mais possante enthusiasmo, +emquanto o marido com um braço a cingia ao peito, e com o outro escondia +o retrato. + +--Meu Calistinho--suspirava a esposa palpitante--meu amado marido, não +tornes mais para Lisboa, eu não te deixo sair mais de tua casa!... + +--Que remedio senão ir, Theodora!...--disse elle--Sou obrigado por esta +desgraçada posição de deputado a assistir mais algum tempo na capital. + +--Não é isso, não é isso!--clamou ella, saindo-lhe dos braços, que a +largaram facilmente--Bem sei o que é... + +--Sabes o que?--interrompeu com violentada placidez o marido--Sabes as +calumnias que te veiu contar o Braz, o villão que se vingou como canalha +por lhe eu não alcançar o habito de Christo! É o que faltava! pendurar a +imagem da cruz n'um peito cheio de tanta porcaria!... Então que te disse +elle?... + +--Que tinhas lá outra... e que te viu a passeiar com ella. + +--Viu-me a passear com uma nossa parenta, viuva de um general. Quem +disse ao javardo que esta senhora era minha amante? Hei de +perguntar-lh'o diante de ti. Manda-o chamar á minha presença. + +--Agora mando! que o leve a breca!--disse Theodora com alegre +aspecto--Como tu vieste, foi o que eu quiz; agora, pilhei-te cá, e não +te deixo ir embora. Mas tu has de cortar estas barbas, sim? e não +estejas a fumar por isso, que me fazes embrulhar a estomago, não? + +O tom e gesto caricioso, com que ella dizia isto, não moveu medianamente +o esposo. Impava de zangado e aborrecido dos languidos amorinhos com que +a meiga senhora se lhe quebrava langorosamente nos braços. + +--Eu preciso escrever umas cartas que ainda hoje hão de ir para Miranda, +disse elle, afastando brandamente a esposa. Vae-te embora, e logo +conversaremos. + +Theodora estava n'um d'aquelles elevados gráos de amoroso sentimento, em +que a mulher menos esperta conhece, que é desamada. Repellida d'aquelle +modo, ainda as lagrimas lhe vidraram os olhos; mas o despeito seccou-as. + +--Não me podes vêr á tua beira! disse ella com altiveza. Vê-se mesmo na +tua cara que me aborreces! Ainda agora chegaste, e já estás a fallar na +ida para Lisboa. Escusavas então de cá vir. Mal haja a hora em que +saiste d'esta casa. Já não tenho marido!... + +N'este ponto, não pôde represar as lagrimas. Acocorou-se no chão a +chorar, com a cara mettida entre os joelhos. + +Calisto saltou da cadeira n'um empuchão de raiva, e passou á sala +immediata, gesticulando com phreneticos sacões de braços. + +Que diabo vim eu aqui fazer? dizia entre si o desesperado. + +O demonio da expiação já andava ás cavalleiras do homem. A saudade de +Iphigenia era uma serpente de fogo que lhe abafava os respiradouros das +goelas. + + + + +XXXI + +*Vence o demonio! choram os anjos!* + + +Para distrahir-se do supplicio de alguns dias, Calisto Eloy, sem +consultar a esposa, entretinha-se a ajuntar os cabedaes, espalhados por +mão de lavradores, e a remir alguns foros, que sommaram consideravel +quantia. + +Theodora presenciava com suffocada ira as diligencias do marido, e +acautellava o sacco das peças de duas caras, que trouxera de casa de seu +pae, thesouro antigo na familia de Travanca, trazido por seu bisavô, +governador do Brazil. Era um dos soberanos gosos de Theodora addicionar +mais uma peça de D. Maria e D. Pedro III ás mil e duzentas que seu +bisavô reunira. Bem que o marido respeitasse sempre aquelle peculio, +Theodora receiava muito que os respeitos d'outro tempo não podessem nada +agora com elle, e dispoz-se a resistir a todo trance ao sacrilegio. + +Não carecia o morgado de lançar mão de alguma verba do patrimonio de sua +mulher: tinha muito que explorar no propriamente seu, antes de alienar +alguma das quintas; no entanto, quando a consorte abespinhada lhe disse +que as peças eram d'ella, e não cuidasse elle que as havia de levar, +Calisto encarou na mulher com tal enchente de odio, e logo desprezo, que +lhe voltou as costas para lhe não redarguir. + +D'ahi em diante, nas quarenta e oito horas que o morgado se deteve em +Caçarelhos, baldaram-se as tentativas conciliatorias de Theodora. +Fechado no seu quarto, que elle desde a chegada fizera propriedade sua +exclusiva, ou encerrado na bibliotheca, onde escrevia monologos +saturados de lagrimas, em vão a esposa o espreitava pelos orificios das +fechaduras, e lhe assoprava suspiros dignos de mais humano marido. + +No dia da partida, a despedaçada senhora experimentou um ataque de +eloquencia. Entrou com o almoço no gabinete do marido, e bradou: + +--Então que é isto? Entendamo-nos. + +--Isto quê? + +--Sempre vaes para a vida perdida? + +--Vou hoje para Lisboa--respondeu serenamente Calisto Eloy, dobrando em +massos os titulos de sua casa. + +--E então da tua mulher não queres saber mais nada? + +--Minha mulher fica em sua casa, e eu vou cumprir os meus deveres como +deputado. + +--Mas eu não quero saber d'isso. + +--Então que queres tu saber, prima Theodora? + +--Quero saber a lei em que hei de viver. + +--Vive na lei de Deus. + +--E tu na do diabo, ein? + +--Berra pouco. + +--Hei de berrar o que eu quizer. + +--Pois berra, que eu não te hei de ouvir muito tempo. + +--Se isto é assim, quero separar-me. + +--Separa-te. + +--Vou para o meu morgadio de Travanca. + +--Pois vae. + +--Cada qual fique com o que é seu. + +--Pois sim. Leva d'aqui o que fôr teu. + +A desesperação de Theodora augmentava á medida que a fleugma do marido +lhe cravava o dardo do desengano no coração ainda fiel. Começou a pobre +mulher a saltar no pavimento, sem proferir sons articulados. Expedia uns +grunhidos roucos, que fizeram pavor a Calisto. Este feiíssimo tregeitar +desfechou n'um insulto nervoso, com symptomas epilepticos. + +A commiseração feriu as estragadas entranhas do morgado. Foi apanhar a +mulher do chão, reteve-lhe os braços que escabujavam, e levou-a d'alli +para um leito, onde a deixou entregue ás criadas e ao primo Lopo de +Gamboa, que vinha entrando. + +Passada a crise, Theodora ardia em febre, e dava pouco tino das pessoas +que a rodeavam. Pareceu-lhe, porém, sentir um beijo nas costas da mão +esquerda; e, olhando apressada na supposição de que era o marido, viu o +rosto lastimoso do primo Lopo, que lhe disse a meia voz: + +--Esquece o ingrato, prima!... Guarda a tua vida para quem te ama!... + +Calou-se, porque entrava uma criada com um chá de sidreira e macella. +Tomou elle das mãos da criada a chavena, e ministrou o charope a +Theodora, que o foi bebendo com muitos vágados da cabeça desfallecida +para sobre a espadua de Lopo, que se ageitára para amparal-a. + +Á hora final Calisto entrou ao quarto, e não se commoveu. Disse algumas +breves e seccas palavras de despedida, acrescentando que fechado o +segundo anno da sua legislatura, viria para casa. + +Theodora ainda balbuciou: + +--E deixas-me assim doente, homem? + +--Esse incommodo é passageiro, prima. Logo que tu reflexiones um pouco, +levantas-te curada. Mal da patria, se os deputados casados obedecessem +aos caprichos das mulheres, que lhes impedem irem onde o dever os chama. +Pensas assim, porque foste educada rusticamente. Era minha tenção +tirar-te d'aqui, levar-te para terra de gente, dar-te alguma educação, +para depois te poder levar comigo para qualquer terra culta; vejo, +porém, que desatinas e te fazes creança n'uma edade impropria de ciumes. + +--Olha que não és mais novo que eu!--bradou ella.--Tens quarenta e +quatro e eu quarenta. + +--Está bom, está bom--obviou elle--não discutamos edades. O que se segue +é que ambos envelhecemos: razão de mais para justificar a toleima dos +teus zelos e desconfianças... Não posso demorar-me, que já ahi está a +liteira, e a jornada de hoje é muito grande. Adeus. Primo Lopo, olha tu +se dás juizo a tua prima, e manda-me no que quizeres em Lisboa. + +--Parece-me que me não pões mais os olhos, Calisto!--clamou ella com +profunda angustia. + +--Adeus, adeus, minha tola; não penses em tal. + +E saiu alegre como o encarcerado da prisão de longos annos. As azas +candidas de Iphigenia sacudiam-lhe do espirito saudades e remorsos. + + + + +XXXII + +*A virtude de Theodora em paroxismos* + + +Em outubro d'aquelle anno, a friza dezeseis do theatro de S. Carlos +expoz uma cara desconhecida de todos, excepto de alguns raros rapazes da +nata social que a tinham visto de relance, entre as aves e flores de +Cintra. + +Era Iphigenia, a formosa do novo-mundo, que uns chamavam a feição +genuina da Circassia, outros a romana herdeira do perfil correcto das +Faustinas e Fulvias; e os mais circumscreviam a sua admiração á mulher +dispensando-se de lhe esquadrinhar o typo. + +De feito, Iphigenia era belleza das que sómente se assimelham +propriamente a si. + +Ao lado d'esta mulher estava um homem, cuja nobre e fidalga presença +abonava e encarecia a qualidade da dama: era o morgado da Agra de +Freimas, Benevides de Barbuda. + +A opinião publica da platéa e camarotes estava ou duvidosa ou indecisa. +Aqui dizia-se que Iphigenia era parenta do cavalheiro, além +desdouravam-lhe a posição, sem comtudo os rostos se voltarem corridos do +escandalo. + +Iphigenia, á saída do theatro, entrava n'uma luxuosa caleche tirada por +hanoverianos soberbos. Calisto Eloy apertava a mão da dama, e entrava +n'outra sege. A caleche parava na rua de S. João dos Bem Casados, no +pateo de um palacete; o morgado apeava da sege em frente do hotel +inglez, a Buenos-Ayres. + +As pesquizas sincavam n'esta diversidade de paragens. Sabia-se que o +deputado frequentava o palacete a horas em que se visitam senhoras +cerimoniosamente. Sabia-se que morava alli a viuva do general Ponce de +Leão, o qual morrera no serviço do Brazil. A pouco e pouco, a +maledicencia ajuntou á admiração o respeito. + +Uns parentes do general, porventura filhos d'aquelles que se +entre-lembravam de terem sido procurados por uma viuva, levaram os seus +cumprimentos ao palacete de S. João dos Bem Casados. Iphigenia fez-lhes +saber pelo seu escudeiro que lhes agradecia a delicadeza e a honra do +parentesco. E mais nada. + +Ora, Calisto Eloy, sem embargo da seriedade e gentil compostura de sua +pessoa, não podia de todo poupar-se ao riso de certas pessoas da platéa. +Estava alli gente que o ouvira fulminar no parlamento o theatro lyrico, +e nomeadamente a Lucrecia Borgia. Estava quem se lembrasse d'aquellas +calças de polainas assertoadas de madre-perola, e do farfalhoso colete, +e das pantalonas axadrezadas do aljubeta Nunes & filho. O doutor +Liborio, do Porto, principalmente, ainda estomagado da reprimenda, +saboreava a vingança, indigitando-o á hilaridade dos camaradas parelhos +em nascimento, asnidade e estylo. + +N'uma noite, Iphigenia reparou na attenção e nos sorrisos de um grupo. +Ao voltar a vista para seu primo, encontrou os olhos d'elle, com uma +tempestade sobranceira, que era o avincado profundo da testa. Andava por +alli n'aquella fronte sangue de Traz-os-Montes, sangue de Barbudas. + +Calisto estremara o doutor Liborio de Meirelles, entre a roda dos +peraltas, que bebiam da garrafeira do paternal tendeiro, prodigalisada +ao filho das esperanças suas e da patria. + +N'um intervallo, saiu Calisto Eloy do camarote, e como não encontrasse +no portico nem nos corredores o risonho deputado portuense, entrou á +platéa. + +Avisinhou-se de Liborio, que o encarou com semblante de côr incerta. + +--O collega por aqui?--disse o doutor--Reminiscencias me não acodem de +havel-o visto na platéa! + +Calisto, sem o fitar no rosto, respondeu: + +--Venho vêr as dimensões das suas orelhas. + +--Como assim!...--balbuciou Liborio. + +--Tenciono puchar-lh'as até á bocca, no proposito de tapar com ellas um +riso alvar que vossa mercê tem, e que me incommoda grandemente. Veja lá +se a operação lhe convém aqui ou lá fora. + +--Não comprehendo a razão do insulto!--disse Liborio. + +--Será lá fora--concluiu Calisto e saiu. + +A gente, que rodeava o doutor portuense, comportou-se bem: cada qual, +dizia de si para comsigo, que, se o caso fosse com elle, o provinciano +enguliria a injuria com uma balla; assim, como não era com elles o caso, +Calisto mereceu a Deus a felicidade de não ser varado de ballas. + +O que passa como certo é que Liborio nunca mais desfranziu um riso +voltado para a friza de Iphigenia. + +N'uma d'essas noites, estava na friza fronteira á de Calisto a familia +Sarmento. Adelaide não despregava o occulo de Iphigenia, salvo quando +Catharina lh'o tirava da mão, para lh'o assestar. + +Calisto exultava em delicias incomparaveis. Era a vingança, a +carapinhada dos deuses n'um meio dia de julho, a vingança de amador +menoscabado. Este cuidar que se vingam, mulheres e homens, é inepcia de +marca maior, a que não houve esquivar-se aquelle sujeito de condição +muito ajuizada se o confrontamos com outros, a quem o amor aleijou de +todo em todo. + +Reparou Calisto que no camarote de Duarte Malafaia, marido de D. +Catharina Sarmento, entrara um sujeito que lhe não era desconhecido. +Examinou-o com o binoculo, e reconhecera aquelle D. Bruno de +Mascarenhas, a quem elle se apresentara na qualidade de anjo Custodio de +D. Catharina. Sorriu-se o morgado para dentro por que lhe já não ficava +bem indignar-se por dentro nem por fóra. A esposa de Duarte, segundo +parecia, raro relance de olhos desfechava sobre o perturbador da sua +consciencia de outro tempo. O morgado entendeu que a esposa regenerada +reincidira na velha culpa. Enganara-se. + +Permanecia ainda o salutar effeito da façanha moralisadora de Calisto +Eloy. Bruno era odioso a Catharina: o anjo advogado dos maridos a estava +sempre lustrando com as lagrimas do arrependimento. Não sei se o morgado +da Agra levará ao desconto do juizo final duas acções que pesem tanto +como esta na balança. + +Passaram dois mezes sem que D. Theodora escrevesse ao marido. Embargada +no leito pela enfermidade, que a poz em começos de phtisica, a pobre +senhora, esteiada no amparo da piedade, fazia penosas promessas a santos +da sua particular devoção, pedindo-lhes a amizade e restituição do +marido. D'esta feita, pelo que a gente está vendo, os santos não levaram +a melhor da legião de demonios que resaltam dos olbos de uma brazileira +galante. Não obstante, a protecção dos privados do céo valeu-lhe o +levantar-se da cama, e convalecer-se com leite de jumenta e oleo de +figados de bacalhau. Mas o coração estava ainda, e cada vez mais +encancerado; a saudade crescia consoante a ausencia e desprezo do marido +se augmentava. + +Por ventura, aquelles santos tão rogados estavam em volta d'ella a +defendel-a das tentações do primo Lopo. Já Theodora o repulsava +desabridamente, quando se via no risco de ser abalada em sua fidelidade. +A pervicacia, porém, do astuto negociador de seus vilissimos interesses, +servidos por infames lagrimas e exclamações compungentes, alguma vez a +surprehendeu quasi desprotegida do escudo celestial. + +Mas--honra á virtude que cae mais tarde que o costume!--honra á virtude +de Theodora, que lhe punha sempre diante dos olhos, nas conjuncturas +perigosas, a imagem do marido, e de sua mãe e avós todas esposas +immaculadas! + +Passemos a esponja por sobre Penelopes e Lucrecias. + +Começou Calisto a receber cartas de sua mulher. Algumas, que abriu, não +pôde digeril-as. Como a dôr sincera não costuma ser eloquente, nem a +orthographia da filha do boticario exprimia com certeza as singelas +lastimas de Theodora, o cru marido queimava as cartas para desmemoria +eterna. + + + + +XXXIII + +*Escandalos* + + +Abriram-se as camaras. + +A opposição espantou-se de vêr o deputado por Miranda conversando muito +mão por mão com os ministros. O abbade de Estevães ousou perguntar ao +seu collega, amigo e correligionario, de que rumo estava. Calisto +respondeu que estava de rumo em que o pharol da civilisação alumiava com +mais clara luz. O antigo desembargador do ecclesiastico redarguiu com +admoestações benevolas. O morgado sorriu-lhe na cara veneranda, e +disse-lhe: + +--Meu amigo, abra os olhos, que não ha martyrologio para as toupeiras. +As idéas não se formam na cabeça do homem; voejam na athmosphera, +respiram-se no ar, bebem-se na agua, coam-se no sangue, entram nas +moleculas, e refundem, reformam e renovam a compleição do homem. + +--Segue-se que está liberal?--perguntou o pavido abbade. + +--Estou portuguez do seculo XIX. + +--Apostatou!--disse com pesar mui entranhado o padre--Apostatou!... + +--Da religião dos nescios. + +--Mercês!--accudiu o abbade. + +--Sem direitos--retorquiu o sardonico Barbuda. + +Não tornaram a fallar-se, até um dia do anno seguinte em que o padre, +despachado conego da sé patriarchal de Lisboa, aceitou o parabem e o +sorriso pungitivo de Calisto Eloy. + +Na primeira votação importante para o ministerio, Calisto Eloy defendeu +o projecto que era vital para o governo, e fez-se desde logo necessario +á situação. Orou por vezes, com seriedade tal de principios, que não +servem para romance os seus discursos. Explicou a profissão da sua nova +fé, respeitando as crenças politicas dos seus antigos correligionarios. +Disse que escolhia o seu humilde posto nas fileiras dos governamentaes, +por que era figadal inimigo da desordem, e convencido estava de que a +ordem só podia mantel-a o poder executivo, e não só mantel-a, senão +defendel-a para consolidar as posições, obtidas contra os cubiçosos de +posições. Reflexionou sisudamente, e fez escola. Seguiram-se-lhe +discipulos convictissimos, que ainda agora pugnam por todos os governos, +e por amor da ordem que está como poder executivo. + +Preparava Calisto um projecto de lei para a abolição dos vinculos, +quando recebeu a seguinte carta de Lopo de Gamboa: + +«Primo e amigo. + +Recommendaste-me que désse juizo a tua senhora e minha prima. Contra +paixões não ha conselhos. Tu lá o sabes por theoria e experiencia, como +eu que não tenho dado máo burro ao dizimo, um coisas de coração. + +Préguei-lhe prudencia, conformidade e paciencia. O abbade tambem lhe +citou exemplos admiraveis de esposas sanctificadas pela ingratidão dos +maridos. Não conseguimos nada. Cada vez te ama com mais furor. Diz que +te ha de ir buscar ás entranhas da terra e aos abysmos do bárathro. Isto +vae de galhofa; mas eu tenho sincera pena da nossa pobre prima. +Desculpo-te, porque és homem, porque amas outra mulher, e porque esta +realmente, deve pouco á formosura e graças. Não sou de ambages: digo o +que sinto. + +Contou-me o primo Gastão de Villarandêlho que te vira em S. Carlos, e +comtigo no camarote uma deidade arrebatadora. Se é essa a rival da +Theodora, quem ousará chamar-te ao caminho da probidade conjugal?! Já +agora, só milagre. Nas nossas edades, meu amigo e primo, amores que +entram, não ha juizo purgativo que os ponha fóra do corpo. + +Vamos agora ao que importa. + +Está tua senhora resolvida a ir procurar-te a Lisboa. Tenho tido mão +d'ella; mas já não posso. Como lhe não respondeste á carta, +desesperou-se, declarou-te guerra de morte, e tens que vêr com uma +mulher furiosa. Fiz-lhe vêr que póde ser mal recebida e desprezada. +Responde que quer esganar quem lhe roubou seu marido. Está doida; mas +quem ha de contel-a?! Alguns parentes nossos dão-lhe razão: é o diabo +isto; espicassam-n'a, e ella volta-se contra mim, dizendo que sou um +patife como tu. Isto é bonito! + +Em divorcio não quer que lhe fallem. Diz que quer o seu homem e não ha +tiral-a d'aqui. + +Prevejo os crueis desgostos que te vae ahi dar, além das vergonhas. +Disse-lhe que não fosse, sem se vestir ao estylo das senhoras de Lisboa. +Não quer. Apparece-te ahi gothicamente vestida, com o fatal vestido do +casamento, e o fatal chapéo, que é um monstro de palha. Ha dois annos te +dizia eu que vestisses tua mulher senhorilmente. Respondias-me que os +melhores enfeites de uma virtuosa são as virtudes. Agora, atura-a. Se +ella ahi fôr vestida de virtudes, diz lá a essa gente que se não ria +d'ella. + +E se tu tens de a vêr a testilhas com essa _diva_, que em quanto a mim +não é _casta_? Então é que ellas são, primo Barbuda! Sobre arranhaduras, +escandalo! A tua posição seria feita ludibrio da canalha. Os jornaes a +fustigarem-te, e tu com a cabeça perdida! Eu imagino-me na tua situação, +e tenho horror. + +Que has de tu fazer n'estes apertos? Tens uma boa cabeça; mas eu estou +mais a sangue frio para te aconselhar. O meu parecer é que sáias de +Lisboa com essa dama, e vás para onde Theodora não te veja o rasto. Olha +que vae com ella o tio Paulo Figueirôa de Travanca, besta finoria que ha +de dar comtigo, se te não esconderes a bom recado. + +A lealdade impoz-me o dever de te dar esta má noticia. Mais má seria, se +t'a levasse tua senhora. Sei que outra pessoa te faria reflexões +inuteis; mas eu tenho obrigação de conhecer os homens. No entanto, faz o +que teu bom juizo te suggerir. + + Teu primo muito dedicado + _Lopo_.» + +No dia seguinte, Calisto Eloy pediu licença á camara para retirar-se por +algum tempo de Lisboa, a cuidar de sua saude. + +Ao outro dia embarcou para França. + +Perguntava-lhe Iphigenia, contente da repentina deliberação: + +--Porque é isto, primo? Nunca me fallaste em visitarmos Paris! + +--Quiz dar-te o prazer da surpreza. As melhores coisas, muito pensadas +antes de possuidas, desmerecem quando se possuem. + +Partiram. + +No palacete da rua de S. João dos Bem Casados, ficou governando os +criados, aquella sr.^a D. Thomazia Leonor, que fôra já desde Cintra, +recebida como dispenseira e aia de Iphigenia. + + + + +XXXIV + +*Perdida!...* + + +Para leitores entendidos na perversidade humana, a carta de Lopo de +Gamboa é uma refinada e suja barganteria, estudada e escripta com um +despejo não vulgar em bachareis d'aquelles sitios. Aquelle homem, se +tivesse nascido em terras onde ha a centralisação dos biltres, morria +com um nome para lembrança duradoura. Assim, nascido n'aquellas serras, +onde não apégou ainda romancista de medrança, se o eu não transplantar +para a corja dos birbantes das minhas novellas, o homem escorrega lá da +serra no inferno, sem que a execração publica o cubra de maldições. + +Repulso do coração da prima, que incessantemente se estava entregando á +protecção dos santos, mudou o plano das insidias, incitando-a a procurar +o marido em Lisboa, como ultimo desengano e final affronta. Convinha-lhe +que a pobre mulher afogasse em lagrimas as ultimas e mais entranhadas +raizes da sua pureza. + +Em companhia de um velho inexperiente e credulo, o honrado Paulo de +Figueirôa, que nunca saira das ruinas solarengas de Travanca, metteu-se +D. Theodora a caminho de Lisboa. Deu um geito ás abas do chapéo que se +entortara na canastra esquecida, lavou as fitas e a palha com chá da +India, arejou o bafio do vestido de veludo que embolecera no inverno +passado, e d'este geito entrajada se encaixotou na liteira, defronte do +tio, que tinha a sinceridade de achar sua sobrinha muito bonita, vestida +assim á moderna. + +Nas differentes villas que atravessou até ao Porto, D. Theodora prendeu +o espanto publico. Muita gente, aliás urbana, ria-se a cair. Onde +parasse a liteira, o gentio fazia-lhe roda, e queria saber d'onde vinha +aquella creatura incomparavel. Theodora, á entrada de Penafiel, a pedido +respeitoso do liteireiro, tirou o chapéo e cobriu a cabeça com um +lencinho de tres pontas. Ainda assim, o vestido de veludo côr de ginja +dava nos olhos. Os padres de Penafiel, quando avistaram a liteira, +cuidaram um momento que vinha alli alguma preeminencia ecclesiastica, +como cardeal, ou coisa assim. A desharmonia do lencinho com o vestido +offendia o bello ideal, e a symetria esthetica das damas da terra, as +quaes ao verem-na saltar da liteira para o pateo da estalagem com o +chapéo na mão, similhante a um cabaz de cavacas das Caldas, soltaram +grande estrallada de riso. As meninas da estalagem, condoidas do aspecto +doentio e honesto da viandante, informaram-se da qualidade da pessoa, e +romperam no louvavel excesso de se insinuarem na fidalga, para lhe +pedirem que se vestisse de outra maneira. + +Accedeu sem repugnancia Theodora. As risadas francas do povo haviam-na +amolecido. O velho tambem votou pela reforma dos trajos. E, como alli +pernoitasse e deliberasse esperar o dia seguinte, deu tempo a que a +provessem de chapéo rasoavel, e vestido com o competente paletó de seda, +nas quaes coisas collaboraram todas as modistas da terra. Regenerada +pelo vestido, parecia outra. As meninas pentearam-lhe os opulentos e +negros cabellos a Stuart, segundo ellas disseram. Descobriram-lhe a +fronte bem talhada. Deram-lhe umas lições de pisar e arregaçar-se, para +a desacostumarem de ir com os pés sobre a orla do vestido, ou mostrar os +calcanhares na andadura. O mirinaque foi um golpe certeiro no desaire da +fidalga de Travanca. Ella mesma, olhando em si, dizia no secreto da sua +consciencia illustrada em Penafiel: + +--Eu assim estou melhor, a fallar verdade! + +O tio Paulo torcia um pouco o nariz ao mirinaque, dizendo: + +--Pareces-me uma boneca de roda de fogo! Tens aleijados os quadris, +salvo tal logar! Mas, se é moda, deixa-te ir assim, menina até Lisboa; +porém, quando entrares em casa, manda espetar esses arcos n'um pau, para +espantar os pardaes da sementeira. + +Como o velho fidalgo desejasse vêr o mar, resolveram ir para Lisboa no +vapor. Theodora, quando principiou a enjoar, pediu os sacramentos; +animada, porém com as risadas de outras senhoras, convenceu-se de que +não era mortal a sua afflicção. + +Hospedaram-se no cáes do Sodré. D. Theodora, não obstante a anciedade em +que ia de avistar-se com o marido cuidou em reparar as forças com um +dormir d'aquelles que a Providencia concede ás consciencias puras e ás +pessoas que desembarcam enjoadas. + +Paulo de Figueirôa saiu para a rua, no intento de informar-se da +residencia de Calisto. Porém, como encontrasse na rua do Alecrim um +macaco encavalgado n'um cão, que trotava a compasso de realejo, +deixou-se ficar pasmado no espectaculo; depois, foi subindo até ao largo +das Duas Egrejas, e quedou-se a ouvir um cego de oculos verdes que +pregoava e referia o successo negro de um homem que matára seu avô. +Terminava o cego, offerecendo a noticia impressa, onde tudo estava +declarado. Comprou o fidalgo da Travanca a pavorosa noticia, e esteve +largo tempo a soletral-a, sentado á porta da egreja do Loreto. + +Terminada a leitura, o velho disse entre si: + +--Isto é má terra! Tomara-me eu d'aqui para fóra!... Os netos matam os +avôs!... + +Chamou um gallego, que o guiou ao palacio das côrtes. Perguntou ao +porteiro se estava lá dentro o deputado Calisto Eloy, morgado da Agra de +Freimas. + +--Não sei--disse mal encarado o funccionario. + +--Eu sou tio d'elle; faça favor de lhe ir dizer que está aqui o tio +Paulo de Figueirôa. + +--Não posso lá ir--volveu o porteiro, mais brando.--Peça áquelle sr. +deputado, que ahi vem que lh'o diga. + +Paulo dirigiu-se a um sujeito de exterior sacerdotal. Era o abbade de +Estevães. + +--Essa pessoa está fóra de Lisboa, creio eu--disse o deputado--pelo +menos pediu licença ás camaras para retirar-se. + +--Iria para casa?--perguntou o velho. + +--Creio que não. Então o senhor é tio d'elle! + +--Sou tio d'elle em terceiro gráo, e sou irmão do pae da esposa d'elle. + +--Pobre senhora! Murmurou compassivamente o padre.--Ella perdeu um +excellente marido e o partido legitimista um strenuo defensor. + +--Então meu sobrinho--atalhou Paulo--já não é legitimista?! + +--Qual! fez-se um malhado acerrimo. Está com esta gente, e demais a mais +fez-se governamental!... + +--Oh! que maroto!... + +--E tudo isto, meu caro senhor, deve-se á desmoralisação de uma mulher, +que lhe tirou o juizo e a dignidade, e lhe ha de dar cabo da casa. +Apresenta-se com ella nos theatros, e tem-na em palacete com carruagem +montada, e lacaios e estado de princeza. E a pobre senhora lá na +provincia a economisar as rendas, que elle está por cá delapidando!... + +--Minha sobrinha veiu comigo--observou o velho. + +--Veiu? Coitada da infeliz senhora! Quanto desejava eu poder ir +comprimental-a; mas como estou indisposto com o sr. Barbuda, não quero +que elle me julgue capaz de irritar sua consorte com os meus despeitos. +Pois senhor, se sua sobrinha quizer vêr a pompa e luxo com que está +vivendo a manceba de seu marido, que vá á rua de S. João dos Bem +Casados, e veja o palacio, que está ao cimo da rua, onde lá os visinhos +dizem que mora a chamada «fidalga brazileira». + +--Faz favor de tornar a dizer?--pediu Paulo desenrolando o nastro de uma +enorme carteira escarlate, para fazer nota da residencia da brazileira. + +--Se eu lhe prestar de alguma coisa, aqui estou como principal amigo que +fui do desgraçado sr. Calisto Eloy--ajuntou o abbade de Estevães. + +Ao fim da tarde d'este dia, D. Theodora, que fremia de raiva desde que o +tio lhe revelou as informações do padre, entrou com o velho n'uma sege +de praça, por lhe dizerem que era muito longe a rua de S. João dos Bem +Casados. + +Apeou á porta do palacete, que um logista lhe indicou. Perguntou ao +criado, que lhe fallou por um postigo da cavallariça, se estava em casa +o sr. Calisto. + +--Não mora aqui--disse o lacaio. + +--Mora aqui!--teimou D. Theodora. + +--Já lhe disse que não mora aqui--recalcitrou o criado. + +--Então aqui não está uma mulher viuva? + +--Mulher viuva? + +--Sim. + +--Está lá em cima uma mulher viuva, que é a governante da casa. + +--Essa mesma é que eu quero vêr, disse D. Theodora. + +--Quem lhe hei de eu dizer que a procura? + +--Diga-lha que é uma pessoa. + +--A este tempo estava já na janella a sr.^a D. Thomazia Leonor, cuja +attenção fôra chamada pelo desabrimento do dialogo. + +--Quem é a senhora?--perguntou a viuva do tenente. + +D. Theodora impertigou o pescoço, e como visse uma mulher de touca +parda, e já avelhentada, conjecturou que fallava com uma criada. + +--Quero fallar á senhora viuva. + +--Abra a porta, José--disse D. Thomazia ao criado. + +--Subiu a fidalga com o tio, entraram na sala de espera, que já estava +aberta, e d'ahi a pouco entravam n'outra sala, que era a das visitas. + +D. Theodora olhava em de redor de si por sobre aquelles riquissimos +setins e marmores, e dizia intallada: + +--Olha o meu dinheiro por onde anda!... + +Paulo benzia-se e murmurava: + +--Parece o palacio do rei! + +D. Thomazia demorara-se a mudar de touca, de cazebeque e botinhas. +Entrou na sala com o garbo de lisboeta, e disse a D. Theodora: + +--Eu desejo saber com quem tenho a honra de fallar. + +--Então a senhora é que é a viuva? + +--Eu é que sou a viuva do tenente de infanteria 13, João da Silva +Gonçalves. Dar-se-ha caso que v. ex.^a seja uma prima que meu marido +tinha na provincia do Minho? + +--Não sou quem a senhora pensa. + +--Então tem a bondade de dizer... + +--Pois a senhora é que é a tal pessoa?...--tornou Theodora, já menos +raivosa, que espantada do depravado gosto do marido. + +--Que pessoa? não sei de quem v. ex.^a falla. + +--A amasia de meu marido... + +--Amasia de seu marido!... Cruzes!... a senhora veiu enganada... Eu sou +uma viuva honrada; chamo-me Thomazia Leonor. Quem é o marido da +senhora?! Isto tem graça!... + +--Meu marido é o deputado Calisto Eloy. + +--Ah!--exclamou Thomazia--Então v. ex.^a é esposa do sr. morgado... + +--Já me conhece?!...--disse sorrindo ferozmente Theodora. + +--Agora tenho a honra de a conhecer; mas eu não sou a pessoa que v. +ex.^a procura. Bem vê que sou uma mulher de edade, e por desgraça estou +aqui n'esta casa da prima do sr. morgado como dispenseira, e aia da +fidalga. + +--E que é da tal fidalga? + +--Anda a viajar pela Europa. + +--Onde é a Europa?--perguntou D. Theodora colerica. + +--A Europa é este mundo por onde anda a gente, minha senhora--respondeu +promptamente a viuva. + +--Mas é longe onde está a tal prima de meu marido? + +--Muito longe: elles já embarcaram ha seis dias... Deus sabe onde elles +estão agora. + +--Pois foram os dois?--bradou Theodora, sacudindo murros fechados. + +--Foram sim, minha senhora. + +--E quando voltam? + +--Quem sabe!... Os fidalgos não disseram nada: póde ser que passem +alguns mezes lá por fóra. + +--Raios os partam!--vociferou Theodora. + +--Deus os defenda!--emendou Thomazia--Pois v. ex.^a deseja tanto mal a +seu marido, que é um anjo, e a sua prima, que é um serafim!... + +--A minha prima?!--ululou a morgada. + +--Sim, minha senhora; pois tão prima é ella do marido de v. ex.^a como +sua. + +--Ella o que é, sabe que mais? é uma desavergonhada, e tudo que aqui +está é meu, foi comprado com o meu dinheiro. + +--Seria--disse Thomazia algum tanto enfadada--seria, mas eu não tenho +nada com isso, minha senhora. A sr.^a D. Iphigenia Ponce de Leão +entregou-me a sua casa, quando foi viajar: hei de entregar-lh'a como a +recebi; e v. ex.^a lá se avenha com seu marido, quando elle voltar. D. +Theodora Figueirôa, empuchada por impulsos dos nervos, corria de angulo +para angulo o salão. De uma vez, olhou por entre duas portadas mal +fechadas para o interior de outra sala, e exclamou: + +--Olhe, meu tio! olhe que riqueza aqui vae! + +Deu um pontapé nas portadas, e entrou, bradando: + +--O meu dinheiro! o meu dinheiro!... + +Era ali o sumptuoso gabinete de leitura e musica de D. Iphigenia. +Ornavam as paredes dois retratos a corpo inteiro: Calisto Eloy com a +farda de fidalgo cavalleiro; e Iphigenia trajada de amazona. + +--Olha o meu marido!--clamou Theodora--aquella é a tal mulher? perguntou +á espantada Thomazia. + +--Aquella é a sr.^a D. Iphigenia. + +--Vou rasgar aquelle diabo!--berrou a morgada, puchando uma cadeira para +trepar. + +--Isso alto lá, minha senhora!--acudiu irada a dispenseira--V. ex.^a não +estraga coisa nenhuma. E, se continua n'esse disparate, eu mando chamar +o cabo da rua para a pôr lá fóra. + +--Pôr-me a mim lá fóra?! bradou Theodora! + +--Sim, minha senhora, que isto não são termos. Nem me parece senhora! cá +em Lisboa acções d'estas só as praticam as peixeiras. + +Paulo foi ao pé da sobrinha, e disse-lhe: + +--Theodora, vamos. A mulher tem razão, porque é criada da casa e tem de +dar contas. + +--Não sou criada; sou aia da fidalga--corregiu a viuva, offendida nas +dragonas do seu defunto tenente. + +--Aia, ou o diabo que é--tornou Paulo--Vem d'ahi, sobrinha--e tirou-a +pelo braço, em quanto ella assestava os punhos fechados ao retrato de +Iphigenia. + +Á saida d'aquella casa, D. Theodora, a consorte fiel, a mulher que fez +eclypse nas virtudes conjugaes do Indostão, sentiu quebrar-se o ultimo +cabello que a prendia á historia das esposas exemplares. + +N'aquella hora funesta, lembrou-se com saudades do primo Lopo de Gamboa. + +O patife vencêra! + + + + +XXXV + +*A felicidade infernal do crime* + + +Recebeu Calisto Eloy em Paris a minudenciosa narrativa dos factos +acontecidos, e escondeu de Iphigenia a carta de D. Thomazia. + +Foi tamanha sua vergonha e odio, que d'alli escreveu a Lopo de Gamboa, +reagradecendo-lhe o aviso que lhe dera do infame projecto de Theodora; +e, lhe asseverava que, depois de tão incrivel e original desaforo, se +considerava viuvo, e nunca mais diante de seus olhos consentiria +similhante furia. Ajuntava que, na volta para Portugal, ia requerer +divorcio, e separação dos casaes, se a esse tempo Theodora se não +houvesse recolhido á sua casa de Travanca, sem tocar no minimo dos +valores pertencentes ao casal da Agra de Freimas. + +Tirante o que, n'esta carta, dizia respeito ao aviso enviado para +Lisboa, Lopo leu declamatoriamenle as ameaças de Calisto, e os epithetos +injuriosos com que elle castigava a petulancia da mulher. Ao tempo +d'esta leitura, superflua já era tão rija catapulta para derrubar a +virtude de Theodora. + +Quasi impassivelmente recebeu ella os insultos. Cuidou logo em +transferir-se para o seu solar, e repartiu entre o velho Paulo e seu +primo Lopo, o cuidado da administração dos seus abastosos vinculos. Ora, +o primo Lopo, afim de esmerar-se na tarefa que lhe era confiada, mudou a +sua residencia para casa da prima, e cuidou de restituir áquelle solar a +antiga magestade dos defuntos Figueirôas. Para isto, lhe transmittiu sua +prima aquelle caixote das peças, que para alli estavam amuadas, desde +que o governador da India voltára com ellas d'além-mar, provavelmente +adquiridas com tanta honestidade como agora iam ser esbanjadas. + +Graças ás modistas de Penafiel, e, mais ainda, ás meninas da estalagem, +D. Theodora Figueirôa affeiçoou-se ao merinaque, e ao feitio e estofo do +vestido e paletó. O primo Lopo dizia-lhe, algumas vezes, que ella, em +companhia de Calisto, era um diamante bruto; e se n'isto havia +encarecimento, até certo ponto o bacharel maravilhava-se do influxo que +o trajar exercitava nas fórmas de sua prima. A cintura adelgaçou-se; +apequenou-se-lhe o pé; alargaram-se-lhe os encontros; amaciou-se-lhe a +cutis; branquearam-se-lhe os braços; escampou-se-lhe a fronte com o +riçado dos cabellos; toda ella adquiriu no andar certo requebro e +donaire que lhe ia tão ao natural como se tivesse sido educada por salas +e adextrada em flexuras da dança! A mulher, com effeito, é um mysterio! +Estas methamorphoses aos quarenta annos só podem fazer-se e estudar-se a +espelho, cujo aço tem composição dos laboratorios d'aquelle imaginoso +chefe dos rebeldes, que Deus despenhou do empyreo, sem todavia o +esbulhar dos dons da intelligencia! + +E, por sobre tudo isto, para que ninguem duvide da intervenção diabolica +n'este caso, Theodora vivia contente, esquecida, feliz! + + + + +XXXVI + +*Saldo de contas conjugal* + + +Chegou a Paris a boa nova, desacompanhada de pormenores deshonrosos. +Dizia apenas o feitor do morgado que a fidalga se retirara para +Travanca, deixando tudo que encontrára, e levando tudo que trouxera. +Lopo de Gamboa industriára o feitor na direcção que havia de dar á +carta. Faltou-lhe apurar o desvergonhamento ao extremo de continuar +correspondencia com o marido de sua prima. + +Calisto desandou para Lisboa, prevenindo Thomazia que occultasse de +Iphigenia a indecorosa scena que sua mulher fizera. + +Na volta de Paris, o morgado aposentou-se no palacete da brazileira. O +passeio á Europa limpou-lhe do espirito as teias: é bom desempoeirar os +olhos com a viração salutar dos ares de França e Italia. Lisboa pareceu +a Calisto Eloy terra pequena de mais para sacrificios tamanhos. +Emancipou o coração, e obedeceu-lhe. + +Assistiu ainda o deputado a algumas sessões parlamentares. Floreou os +seus discursos com as recordações do progresso industrial no +estrangeiro. Enlevou-se nas delicias de França, e não andou por muito +longe da phrase arrobada do dr. Liborio de Meirelles na apologia dos +esplendores estranhos, e lamentações das miserias da patria. + +Providenciou sobre negocios de sua casa, para que os recursos lhe não +minguassem nas pompas do seu viver em Lisboa, e começou um doce viver, +não mareado de minimo dissabor. Renasceu-lhe no espirito, já livre dos +sobresaltos do coração, o amor á leitura de livros modernos, em que se +lhe deparavam luzes e idéas, que elle, a furto, conseguia entrever nas +litteraturas antigas. Avermelhava-se-lhe o rosto, quando lia o seu +discurso ácerca do luxo, e o outro mais tôlo sobre Lucrecia Borgia do +theatro lyrico. A sciencia moderna flagellava-o. Tinha elle escripto nos +dois primeiros mezes alguns quadernos de papel, no proposito de dar á +estampa um livro contra o luxo. Releu com pejo a sua obra, e ordenou a +um criado que queimasse o manuscripto. O criado não o queimou. +Escondeu-o sem máo intento; e alguma vez saberá o mundo litterario como +aquelles papeis vieram á minha mão, e ainda me são deleite e licção de +sã linguagem e sãs doutrinas. + +Decorreram alguns mezes sem successo que dê capitulo d'algum interesse. +Fechado o triennio da legislatura, Calisto Eloy foi agraciado com o +titulo de barão da Agra de Freimas, e carta do conselho. Sondou o animo +de alguns influentes eleitoraes de Miranda para reeleger-se pelo seu +circulo. Disseram-lhe que o mestre-escola lhe hostilisava a candidatura, +emparceirado com o boticario. Comprou o barão dois habitos de Christo +que fez entregar, com os respectivos diplomas, aos dois influentes. Na +volta do correio foi-lhe assegurada a eleição, que, de mais a mais, o +governo apoiava. + +Por esta occasião, Braz Lobato, religada a amizade antiga, escreveu ao +fidalgo uma carta em que, pouco menos de brutalmente, reproduzia os +boatos correntes ácerca do procedimento da sr.^a D. Theodora com o seu +primo Lopo de Gamboa. + +O barão experimentou um mal-estar de especie nova, que se desvaneceu a +pouco e pouco, e só mui levemente se repetiu no dia seguinte. Eu creio +que o homem aprendêra em Paris dois consolativos versos de Molière: + + _Quel mal cela fait-il? la jambe en devient elle + Plus tortue, après tout, et la taille moins belle_? + +Averiguei quanto em mim coube o viver interno de Iphigenia e do primo. +Convinha-me descobrir amarguras lá dentro, para tirar d'ellas o symptoma +da expiação. Não descobri coisa alguma, que não fosse invejavel. O mais +que se me deixou vêr de novidade foram duas creanças loiras, lindas, +alvas de neve, e amimadas entre Iphigenia e Calisto como dois penhores +de felicidade infinita. + +Como ali cairam dos pombaes do céo aquellas duas avesinhas, que +saltitavam dos braços de um para o colo do outro, não sei. Eu digo ao +leitor o que as mães de recem-nascidos dizem aos filhos mais velhos: +«vieram de França n'uma condecinha.» + +Ouvi rosnar que no sollar de Travanca tambem appareceu um ropolhudo +menino, que pelos modos, tambem veiu n'um cêsto de alguma parte. Se não +fossem estas remessas prodigiosas de creanças, acabavam duas +illustrissimas familias sem posteridade. A natureza é muito engenhosa. + +O barão esperava que a mulher morresse, para legitimar os seus meninos, +um dos quaes se chamava Mem de Barbuda como seu decimo setimo avô, e o +outro Egas de Barbuda como seu decimo oitavo avô. + +A baroneza, que, digamol-o depressa, não regeitou o titulo do marido, +esperava que o marido se anniquillasse na perdição dos seus costumes, +para tambem legitimar o seu Bernabé. Chamava-se Bernabé aquelle gordo +menino, gordo que não parecia fructo outoniço de arvore já tão +esgravinhada e resêca! O amor é tão engenhoso como a natureza. + + + + +*Conclusão* + + +Deixal-o ser feliz: deixal-o. Calisto Eloy, aquelle santo homem lá das +serras o anjo do fragmento paradisico do Portugal velho, caíu. + +Caiu o anjo, e ficou simplesmente o homem, homem como quasi todos os +outros, e com mais algumas vantagens que o commum dos homens. + +Dinheiro a rôdo! + +Uma prima que o presa muito! + +Dois meninos que se lhe cavalgam no costado! + +Saude de ferro! + +E barão! + +Conjectura muita gente que elle é desgraçado, apezar da prima, do +baronato, dos meninos, do dinheiro e da saude. + +Eu, como já disse, não sei realmente se lá no recesso dos arcanos +domesticos ha borrascas. + +Na qualidade de anjo, Calisto, sem duvida, seria mais feliz; mas, na +qualidade de homem a que o reduziram as paixões, lá se vae concertando +menos mal com a sua vida. + +Eu, como romancista, lamento que elle não viva muitissimo apoquentado, +para poder tirar a limpo a sã moralidade d'este conto. + +Fica sendo, portanto, esta coisa uma novella que não ha de levar ao céo +numero d'almas mais vantajoso que o do anno passado. + + +FIM + + + + +*INDICE* + + +Dedicatoria +I--O heroe do conto +II--Dois candidatos +III--O demonio parlamentar descobre o anjo +IV--Asneiras da erudição +V--Estreia parlamentar de Calisto +VI--Virtuosas parvoiçadas +VII--Figura, vestido, e outras coisas do homem +VIII--Faz rir o parlamento +IX--O doutor do Porto +X--O coração do homem +XI--Santas ousadias! +XII--O anjo custodio +XIII--Regeneração +XIV--Tentação! Amor! Poesia! +XV--Ecce iterum Crispinus +XVI--Quantum mutatus! +XVII--In Liborium +XVIII--Vae cair o anjo! +XIX--Ó mulheres! +XX--Proh dolor! +XXI--O mordomo das tres virtudes cardeaes +XXII--Outro abysmo +XXIII--Tenta o seu anjo da guarda salval-o mediante uma carta da esposa +XXIV--A mulher fatal +XXV--Perdido! +XXVI--E ella amava-o! +XXVII--A saudade e a sciencia em dialogo +XXVIII--Ingratidão de um deputado +XXIX--O demonio em Caçarelhos +XXX--Como ella o amava! +XXXI--Vence o demonio! choram os anjos! +XXXII--A virtude de Theodora em paroxismos +XXXIII--Escandalos +XXXIV--Perdida! +XXXV--A felicidade infernal do crime +XXXVI--Saldo de contas conjugal +Conclusão + + + + +*NOTAS* + + +[1] _Bebes bem_ e _vives mal_. Fr. Luiz de Sousa confirma este caso, +algures, na _Vida do arcebispo de Braga_. + +[2] _Nós e nosso rei somos livres, etc_. + +[3] L. II, Epist. II, v. 51. + +[4] O bom vinho alegra o coração do homem. + +[5] Marinho escreveu no periodo da usurpação dos Filippes. + +[6] Duarte Nunes de Leão ainda via os cavalleiros de bronze cujos +cavallos deram o nome ao chafariz. Historiando o reinado de D. Fernando, +e a invasão de castelhanos em Lisboa, escreve a pag. 205 e seguintes, da +primeira parte da chronica dos reis: + +«...E ardeu toda a rua nova, e a freguezia da Madanella e de S. Gião e +toda a judaria com a melhor parte da cidade. E para memoria daquelle +grande incendio, tomarão h[~u]as fermosas portas da alfandega da cidade +para levarem a Castella quando se fossem. E assi quiserão levar h[~u]s +cavalleiros de bronze, mui bem feitos, [~q] stavã no chafariz, a que +ficou o nome dos cavallos por cuja bocca sahia aquella grossa agua. Mas +os cidadãos prevenirão nisso, e os guardarão [~q] lh'os não tomassem, +por ser cousa publica, e [~q] sendo levado o terião por affronta. Estes +cavallos que... por aquella differença [~q] os antigos tiverão sobre +elles os houveram de conservar os governadores da cidade, nestes dias +proximos, como poucos curiosos de antiguidades, mandaram sem proposito +tirar, donde tantos tempos estiveram.» + +[7] Prudencia em tudo. + +[8] Sede prudentes como as serpentes, e simplices como as pombas. _S. +Matt._ c. x. v. 16. + +[9] Coroemo-nos de rosas em quanto ellas não fenecem. + +[10] Gloria aos vencidos. + +[11] O orador forrageou os elegantes dizeres, que vão sublinhados, na +feracissima seara de um livro do sr. dr. A. Ayres do Gouveia Osorio, +intitulado: «_A reforma das prisões_.» + +[12] Esta chave de oiro do peregrino discurso foi tambem roubada dos +thesouros do sr. dr. Ayres de Gouveia, ministro da justiça. Pag. 150, +2.^o vol. da _Reforma das prisões_. + +[13] Não sejas por demasia justo. + +[14] Palavras e phrases sublinhadas são plagiatos. O dr. Liborio tinha +vasta leitura da _Reforma das Cadeias_ do insigne escriptor, A. Ayres de +Gouveia, ministro da justiça, ao fazer d'esta nota (20 de março de 1865, +meia-noite). + +[15] Já se disse que os primores sublinhados são despejadamente +forrageados no livro do sr. dr. Ayres de Gouveia. + +[16] _A Reforma das Cadeias_, part. I, pag. 26. + +[17] _Ibid._, pag. 17. + +[18] Antonio Ribeiro dos Santos, 1.^o vol., p. 186.--_A. Alexis_ + +[19] É egual o sentir do padre Manuel Bernardes. Diz assim: «Adverte que +as varias disposições e accidentes que tocam ao nosso corpo, pegam o seu +modo tambem ao espirito... Diversa feição e actualidade tem o espirito +de quem vae montado em um formoso cavallo, e o do que vae em um +despresivel jumento. Se o teu vestido fôr pobre e roto, repara que o +espirito recebe d'aqui alguma disposição differente da que tem quando o +vestido é novo e asseado: e assim nas mais cousas. (Luz e Calor. _Silva +de varios dictames espirituaes_.) + +[20] Se fores a Roma, vive á moda de Roma. + +[21] Creio que os grandes effeitos d'esta narrativa foram detidamente +estudados e calculados pelo caminho. + + + + + + +End of Project Gutenberg's A Queda d'um Anjo, by Camilo Castelo Branco + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A QUEDA D'UM ANJO *** + +***** This file should be named 17927-8.txt or 17927-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/1/7/9/2/17927/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal)) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +http://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. Of course, we hope that you will support the Project +Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by +freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of +this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with +the work. You can easily comply with the terms of this agreement by +keeping this work in the same format with its attached full Project +Gutenberg-tm License when you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in +a constant state of change. If you are outside the United States, check +the laws of your country in addition to the terms of this agreement +before downloading, copying, displaying, performing, distributing or +creating derivative works based on this work or any other Project +Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning +the copyright status of any work in any country outside the United +States. + +1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: + +1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate +access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently +whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the +phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project +Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed, +copied or distributed: + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + +1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. However, if you provide access to or +distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than +"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version +posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org), +you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a +copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon +request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other +form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm +License as specified in paragraph 1.E.1. + +1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, +performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works +unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. + +1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing +access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided +that + +- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from + the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method + you already use to calculate your applicable taxes. The fee is + owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he + has agreed to donate royalties under this paragraph to the + Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments + must be paid within 60 days following each date on which you + prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax + returns. Royalty payments should be clearly marked as such and + sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the + address specified in Section 4, "Information about donations to + the Project Gutenberg Literary Archive Foundation." + +- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies + you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he + does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm + License. You must require such a user to return or + destroy all copies of the works possessed in a physical medium + and discontinue all use of and all access to other copies of + Project Gutenberg-tm works. + +- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any + money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the + electronic work is discovered and reported to you within 90 days + of receipt of the work. + +- You comply with all other terms of this agreement for free + distribution of Project Gutenberg-tm works. + +1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm +electronic work or group of works on different terms than are set +forth in this agreement, you must obtain permission in writing from +both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael +Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the +Foundation as set forth in Section 3 below. + +1.F. + +1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable +effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread +public domain works in creating the Project Gutenberg-tm +collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic +works, and the medium on which they may be stored, may contain +"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or +corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual +property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a +computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by +your equipment. + +1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right +of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project +Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project +Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all +liability to you for damages, costs and expenses, including legal +fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT +LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE +PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE +TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE +LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR +INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH +DAMAGE. + +1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a +defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can +receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a +written explanation to the person you received the work from. If you +received the work on a physical medium, you must return the medium with +your written explanation. The person or entity that provided you with +the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a +refund. If you received the work electronically, the person or entity +providing it to you may choose to give you a second opportunity to +receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy +is also defective, you may demand a refund in writing without further +opportunities to fix the problem. + +1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth +in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO OTHER +WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO +WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. + +1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied +warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages. +If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the +law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be +interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by +the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any +provision of this agreement shall not void the remaining provisions. + +1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit http://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: http://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + +*** END: FULL LICENSE *** + diff --git a/17927-8.zip b/17927-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..36e7a20 --- /dev/null +++ b/17927-8.zip diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize +this eBook outside of the United States should confirm copyright +status under the laws that apply to them. diff --git a/README.md b/README.md new file mode 100644 index 0000000..9175176 --- /dev/null +++ b/README.md @@ -0,0 +1,2 @@ +Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for +eBook #17927 (https://www.gutenberg.org/ebooks/17927) |
