summaryrefslogtreecommitdiff
diff options
context:
space:
mode:
authorRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 04:52:10 -0700
committerRoger Frank <rfrank@pglaf.org>2025-10-15 04:52:10 -0700
commit84d7c8ee61801fe31ec31c5d75791e55091e1e9c (patch)
treea78035e7bb304404f8e763d4d5d359d1299c7012
initial commit of ebook 17927HEADmain
-rw-r--r--.gitattributes3
-rw-r--r--17927-8.txt7034
-rw-r--r--17927-8.zipbin0 -> 135255 bytes
-rw-r--r--LICENSE.txt11
-rw-r--r--README.md2
5 files changed, 7050 insertions, 0 deletions
diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes
new file mode 100644
index 0000000..6833f05
--- /dev/null
+++ b/.gitattributes
@@ -0,0 +1,3 @@
+* text=auto
+*.txt text
+*.md text
diff --git a/17927-8.txt b/17927-8.txt
new file mode 100644
index 0000000..31828fe
--- /dev/null
+++ b/17927-8.txt
@@ -0,0 +1,7034 @@
+The Project Gutenberg EBook of A Queda d'um Anjo, by Camilo Castelo Branco
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Queda d'um Anjo
+ Romance
+
+Author: Camilo Castelo Branco
+
+Release Date: March 5, 2006 [EBook #17927]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A QUEDA D'UM ANJO ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal))
+
+
+
+
+
+
+
+
+
+A QUEDA D'UM ANJO
+
+ROMANCE
+
+POR
+
+CAMILLO CASTELLO BRANCO
+
+
+
+LISBOA
+
+LIVRARIA DE CAMPOS JUNIOR--EDITOR
+
+77--Rua Augusta--81
+
+1866
+
+
+
+
+Imprensa de J. G. de Sousa Neves--Rua do Caldeira, 17
+
+
+
+
+*DEDICATORIA*
+
+
+ILL.^{MO} E EX.^{MO} SR. ANTONIO RODRIGUES SAMPAIO
+
+
+Meu amigo.
+
+
+Volto a offerecer-lhe uma das minhas bagatelas. Chamo assim, para me
+fingir modesto, bagatelas a umas coisas que eu reputo no maximo valor.
+Se não fossem ellas, naturalmente eu não chegaria a grangear a estima de
+V. Ex.^a, que m'as tem lido, e alguma vez louvado. Já V. Ex.^a, antes de
+me conhecer, quiz encravar a roda do meu infortunio, roda com que eu
+estou sempre brincando como as creanças com os seus arcos. Que tinha eu
+feito para commover a bemquerença do meu prestante amigo? Tinha feito
+uns livros futilissimos, á imitação d'este que lhe offereço.
+
+Não é esta boa opportunidade de eu vir com a minha oblação de pobre a V.
+Ex.^a Lembra-me a sentença do nosso Diogo de Teive:
+
+ _Donat cum egenus diviti
+ Retia videtur tendere_.
+
+Os praguentos hão de querer ver aquellas _rêdes_, por que não sabem que
+V. Ex.^a já me constituiu, ha muito, no dever de eterna e profunda
+gratidão.
+
+Lessa da Palmeira 27 de setembro de 1865.
+
+CAMILLO CASTELLO BRANCO.
+
+
+
+
+I
+
+*O heroe do conto*
+
+
+Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de
+Freimas, tem hoje quarenta e nove annos, por ter nascido em 1815, na
+aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda.
+
+Seu pae, tambem Calisto, era cavalleiro fidalgo com filhamento, e decimo
+sexto varão dos Barbudas da Agra. Sua mãe, D. Basilissa Escolastica,
+procedia dos Silos, altas dignidades da egreja, commendatarios, sangue
+limpo, já bom sangue no tempo do senhor rei D. Affonso I, fundador de
+Miranda.
+
+Fez seus estudos de latinidade no seminario bracharense o filho unico do
+morgado da Agra de Freimas, destinando-se a doutoramento _in utroque
+jure_. Porém, como quer que o pae lhe fallecesse, e a mãe contrariasse a
+projectada formatura, em razão de ficar sosinha no solar de Caçarelhos,
+Calisto, como bom filho, renunciou á carreira das lettras, deu-se ao
+governo da casa algum tanto, e muito á leitura da copiosa livraria,
+parte de seus avós paternos, e a maior dos doutores em canones, conegos,
+desembargadores do ecclesiastico, cathedraticos, chantres, arcediagos e
+bispos, parentella illustrissima de sua mãe.
+
+Casou o morgado, ao tocar pelos vinte annos, com sua segunda prima D.
+Theodora Barbuda de Figueirôa, morgada de Travanca, senhora de raro
+aviso, e muito apontada em amanho de casa, e ignorante mais que o
+necessario para ter juizo.
+
+Unidos os dois morgadios, ficou sendo a casa de Calisto a maior da
+comarca; e, com o rodar de dez annos, prosperou a olho, tendo grande
+parte n'este incremento a parcimonia a que o morgado circumscreveu seus
+prazeres, e, por sobre isto, o genio cainho e apertado de D. Theodora.
+
+_Remenda teu panno, chegar-te-ha ao anno_, dizia a morgada de Travanca;
+e, afferrada ao seu adagio predilecto, remendava sempre, e sergia com
+perfeição justamente admirada entre a familia, e fallada como exemplo na
+área de quatro leguas, ou mais.
+
+Em quanto ella recortava o fundilho ou apanhava a malha rôta da pinga, o
+marido lia até noite velha, e adormecia sobre os in-folios, e acordava a
+pedir contas á memoria das riquezas confiadas.
+
+Os livros de Calisto Eloy eram chronicões, historias ecclesiasticas,
+biographias de varões preclaros, corographias, legislação antiga,
+foraes, memorias da academia real da historia portugueza, cathalogos de
+reis, numismatica, genealogias, annaes, poemas de cunho velho, etc.
+
+Respeito a idiomas estranhos, dos vivos conhecia o francez muito pela
+rama; porém, o latim fallava-o como lingua propria, e interpretava
+correntemente o grego.
+
+Memoria prompta, e cultivada com aturado e indigesto estudo, não podia
+sair-se com menos de um erudito em historia antiga, e repositorio de
+noticias miudas sobre factos e pessoas de Portugal.
+
+Consultavm-n'o os sabios transmontanos como juiz indeclinavel em
+decifrar cipos e inscripções, em restabelecer épocas e successos
+controvertidos por authores contradictorios.
+
+Sobre castas e linhagens, coisa que elle tirasse a limpo, não dava péga
+a duvida nenhuma. Ia elle desenterrar geração já sepultada ha setecentos
+annos, e provar que, na era de 1201, D. Fuas Mendo casára com a filha de
+um mesteiral, e D. Dorzia se havia sujado casando mofinamente com um
+pagem da lança de seu irmão D. Payo Ramires.
+
+Farpeados pela viperina lingua d'elle, os fidalgos provincianos
+retaliavam quanto podiam a prosapia dos Benevides, propalando que
+n'aquella familia se gerára um clerigo grande femieiro, beberrão e
+lambaz, a quem o santo arcebispo D. Frei Bartholomeu dos Martyres, uma
+vez, perguntára que nome havia; e, como quer que o padre respondesse
+_Onofre de Benevides_, o arcebispo accudira dizendo: Melhor vos acertará
+com o nome, segundo a vida que fazeis, quem vos chamará de _Bene bibis_
+e _male vivis_.»[1] O remoque, talvez por ser de santo, era medianamente
+engraçado e pouco para affligir; assim mesmo Calisto Eloy, á conta
+d'esta injuria dos fidalgos comarcãos, tanto lhes esgravatou nas
+gerações, que descobriu radicalmente serem quasi todas de má casta.
+
+É superfluo dizer-se a qual doutrinação politica pendia o animo do
+morgado da Agra de Freimas. Estava com a decisão das côrtes de Lamego.
+Fizera-se n'ellas, e cuidava ter assistido, em 1145, áquelle congresso
+mythologico, e ter conclamado com Gonçalo Mendes da Maya, o Lidador, e
+com Lourenço Viegas, o Espadeiro: _Nos liberi summus, rex noster liber
+est_.[2] Todavia, se assim fossem todos os doutrinarios politicos, a
+gente apodrecia na mais refestelada paz, e supina ignorancia do
+andamento da humanidade.
+
+Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda queria que se venerasse o
+passado, a moral antiga como o monumento antigo, as leis de João das
+Regras e Martim d'Ocem, como o mosteiro da Batalha, as ordenações
+manuelinas como o convento dos Jeronymos.
+
+O mal que d'aqui surdia ao genero humano, a fallar verdade, era nenhum.
+Este bom fidalgo, se lhe tirassem o sestro de esmiuçar desdouros nas
+gerações das familias patriciatas, era inoffensiva creatura. D'este
+senão, a causa foi um chamado _Livro-negro_, que herdára de seu tio avô
+Marcos de Barbuda Tenazes de Lacerda Falcão, genealogico pavoroso, o
+qual gastára sessenta dos oitenta annos vividos, a colligir borrões,
+travessias, mancebias, adulterios, coitos damnados, e incestos de muitas
+familias n'aquellas satanicas costaneiras, denominadas _Livro-negro das
+linhagens de Portugal_.
+
+Em summa, Calisto era legitimista quieto, calado, e incapaz de impecer a
+roda do progresso, com tanto que elle não lhe entrasse em casa, nem o
+quizesse levar comsigo.
+
+Prova cabal de sua tolerancia foi elle acceitar em 1840 a presidencia
+municipal de Miranda. Na primeira sessão camararia fallou de feitio e
+geito, que os ouvintes cuidavam estar escutando um alcaide do seculo xv
+levantado do seu jazigo da cathedral. Queria elle que se restaurassem as
+leis do foral dado a Miranda pelo monarcha fundador. Este requerimento
+gelou de espanto os vereadores; d'estes, os que poderam degelar-se,
+riram na cara do seu presidente, e emendaram a galhofa dizendo que a
+humanidade havia já caminhado sete seculos depois que Miranda tivera
+foral.
+
+--Pois se caminhou, replicou o presidente, não caminhou direita. Os
+homens são sempre os mesmos e quejandos; as leis devem ser sempre as
+mesmas.
+
+--Mas... retorquiu a opposição illustrada, o regimen municipal expirou
+em 1211, sr. presidente! V. ex.^a não ignora que ha hoje um codigo de
+leis communs de todo o territorio portuguez, e que desde Affonso II se
+estatuiram leis geraes. V. ex.^a de certo leu isto...
+
+--Li, atalhou Calisto de Barbuda, mas reprovo!
+
+--Pois seria util e racional que v. ex.^a approvasse.
+
+--Util a quem? perguntou o presidente.
+
+--Ao municipio, responderam.
+
+--Approvem os srs. vereadores, e façam obra por essas leis, que eu
+despeço-me d'isto. Tenho o governo de minha casa, onde sou rei e
+govérno, segundo os foraes da antiga honra portugueza.
+
+Disse; saiu; e nunca mais voltou á camara.
+
+
+
+
+II
+
+*Dois candidatos*
+
+
+Desde o qual incidente, o morgado, convicto da podridão dos vereadores
+em particular, e da humanidade em geral, prometteu a onze retratos, que
+tinha de onze avós, pintados indignamente, nunca mais tocar o cancro
+social com suas mãos impollutas.
+
+N'este proposito, nem ao menos consentiu que o vigario lhe mandasse o
+_Periodico dos Pobres_ do Porto de que era assignante emparceirado com
+mais quatro reitores limitrophes, e o mestre escola e o boticario.
+
+Um dia, porém, quando elle saia da festividade de S. Sebastião, cujo
+mordomo era, deteve-se no adro, onde o rodearam os mais graudos
+lavradores da sua freguezia e das visinhas. N'outro grupo, fallava-se do
+sermão, e da constancia do santo capitão das guardas do barbaro
+Diocleciano, e da desmoralisação do imperio.
+
+Estas puchadas reflexões era o boticario que as expendia, coadjuvado
+pelo mestre de primeiras lettras, sujeito que sabia mais historia romana
+do que é permittido a um professor da preciosa e capitalissima sciencia
+de ler, contar e escrever, pelo que o sabio vinha a grangear para a
+humanidade a sciencia, e para elle nove vintens e meio por dia. E comia
+o sabio estes nove vintens e meio quotidianos, e ensinava os rapazes, e
+sobejava-lhe tempo para ler historia! Podéra!... Os governos davam-lhe
+férias grandes ao estomago, em proveito do espirito. Se elle andasse bem
+nutrido e succado de tripa, não aprendia nem ensinava coisa de monta.
+Que a pobresa é o estimulo das maiores façanhas da intelligencia.
+_Paupertas impulit audax_[3]. Isto que o Horacio faminto dizia de si,
+accomodam-no os regedores da coisa publica aos professores de primeiras
+lettras; porém, outros muitos versos do Horacio farto, esses tomam-os
+elles para seu uso.
+
+Estava, pois, o mestre-escola, de parceria com o boticario, a castigar a
+perversidade dos imperadores romanos, por amor do martyr S. Sebastião,
+que, segunda vez, acabava de ser fréchado no panegyrico. N'este comenos,
+abeirou-se d'elles Calisto Eloy, e para logo se callaram as duas
+capacidades, em referencia ao Salomão da terra.
+
+--Que dizem vocemecês?--perguntou Calisto benignamente. Continuem...
+Parece que fallavam do santo.
+
+--É verdade, sr. morgado--accudiu o boticario, ajustando os collarinhos
+percucientes ao lóbulo das orelhas, escarlates do atrito da
+gomma.--Fallavamos na malvadez dos imperadores pagãos.
+
+--Sim!--disse Calisto, com proeminencia declamatoria,--sim! Horrorosos
+tempos aquelles foram! Mas os tempos actuaes não se differençam tanto
+dos antigos, que possamos, em consciencia e sciencia, encarecer o
+presente e praguejar o passado. Diocleciano era pagão, cego á luz da
+graça: os crimes d'elle hão de ser contrapesados, e descontados, na
+balança divina, com a ignorancia do delinquente. Ai, porém, dos que
+prevaricaram fechando olhos á luz da notoria verdade, afim de se
+fingirem cegos! Ai dos impios, cujas entranhas estão afistuladas de
+herpes! No grande dia, funestissima ha de ser a sentença d'elles, novos
+Caligulas, novos Tiberios, e Dioclecianos novos!
+
+Relanceou o pharmaceutico uma olhadella esguelhada ao professor, o qual,
+abanando tres vezes e de compasso a cabeça, dava assim a perceber que
+abundava na admiração do seu amigo e consocio erudito em historia
+romana.
+
+Obrigado ás orelhas do auditorio attento, Calisto, em toada de Ezequiel,
+continuou:
+
+--Portugal está alagado pela onda da corrupção, que subverteu a Roma
+imperial! Os costumes de nossos maiores são mettidos a riso! As leis
+antigas, que eram o baluarte das antigas virtudes, dizem os sycophantas
+modernos, que já não servem á humanidade, a qual, em consequencia de ter
+mais sete seculos, se emancipou da tutela das leis. (Allusão bervada aos
+vereadores de Miranda, que discreparam do intento restaurador do foral
+dado por D. Affonso. Vinham a ser sycophantas os collegas
+municipalenses.) _Credite, posteri_!--exclamou Calisto Eloy com enfase,
+nobilitando a postura.
+
+O latim não lh'o entenderam, salvo o mestre-escola, que antes de ser
+sargento de milicias, havia sido donato no convento dominicano de
+Villa-Real.
+
+E repetiu: _Credite, posteri_!
+
+N'esta occasião, saiu da egreja a sr.^a D. Theodora Figueirôa, e disse
+ao esposo:
+
+--Vem d'ahi, Calisto. Vamos jantar, que é uma hora, e já lá vae o padre
+prégador para casa.
+
+Enguliu o morgado tres phrases de polpa, que lhe inflavam os bocios, e
+foi ao jantar, sacrificando-se á regularidade das suas horas
+inalteraveis de repasto.
+
+Ficaram o boticario e o professor de primeiras lettras, e mais os
+lavradores, ruminando as palavras do fidalgo, e glosando-as de notas
+illustrativas, ao alcance das capacidades.
+
+Um dos mais graves e anciãos lavradores, regedor, ensaiador e ponto nos
+entremezes do entrudo exclamou:
+
+--Aquillo é que dava um deputado ás direitas! Um homem assim, se fosse a
+Lisboa fallar ao rei, as contribuições haviam de acabar!
+
+--Isso não, perdoará vocemecê, tio José do Cruzeiro,--observou o
+mestre-escola--os impostos é necessario pagal-os. Sem impostos, não
+haveria rei nem professores de instrucção primaria (observem a modestia
+da gradação!) nem tropa, nem anatomia nacional.
+
+O mestre-escola havia lido, repetidas vezes no _Periodico dos Pobres_,
+as palavras _autonomia nacional_. Falhou-lhe d'esta feita a memoria,
+lapso que não destoou em nenhumas orelhas, exceptuadas as do boticario,
+que resmungou:
+
+--Anatomia nacional!
+
+--Que é?!--perguntou ao pharmaceutico um estudante de clerigo.
+
+--Parece-me que é asneira!--respondeu o outro com certa indecisão.
+
+Proseguiu, concluindo, o mestre-escola:
+
+--E, portanto os tributos, tio José do Cruzeiro, são necessarios ao
+estado como a agua aos milhos. Ora, agora, que ha muito quem bebe o suor
+do povo, isso ha; e aquelles, que deviam ser bem pagos, são os que menos
+comem da fazenda nacional. Aqui estou eu, que sou um funccionario
+indispensavel á patria, e receberia cento e noventa réis por dia, se não
+trouxesse rebatidos seis recibos a trinta e seis por cento, de modo que
+venho a receber seis e cinco! Que paiz!... O senhor morgado disse bem:
+estamos chegados aos tempos dos Dioclecianos e Caligulas!
+
+O auditorio já vacillava em decidir qual dos dois era mais talhado para
+ir fallar ao rei a Lisboa, se Calisto, se o mestre escola.
+
+
+
+
+III
+
+*O demonio parlamentar descobre o anjo*
+
+
+Fermentou na mente dos principaes lavradores e parochos das freguezias
+do circulo eleitoral a idéa de levar ao parlamento o morgado da Agra de
+Freimas.
+
+Os deputados eleitos até áquelle anno no circulo de Calisto Eloy, eram
+coisas que os constituintes realmente não tinham enviado ao congresso
+legislativo. Pela maior parte, os representantes dos mirandenses tinham
+sido uns rapazes bem fallantes, areopagitas do café Marrare, gente
+conhecida pela figura desde o botequim até S. Carlos, e affeita a beber
+na Castalia, quando, para encher a veia, não preferia antes beber da
+garrafeira do Matta, ou outro que tal ecónomo dos apollineos dons.
+
+Em geral, aquella mocidade esperançosa, eleita por Miranda e outros
+sertões lusitanos, não sabia topographicamente em que parte demoravam os
+povos seus comittentes, nem entendia que os aborigenes das serranias
+tivessem mais necessidades que fazerem-se representar, obrigados pelo
+regimen da constituição. Se algum influente eleitoral, prelibando as
+delicias do habito de Christo, obrigára a urna e o senso commum a gemer
+nos apertos do doloroso parto do paralta lisboeta, o tal influente
+considerava-se idóneo para escrever ao deputado incumbindo-lhe trabalhar
+na nomeação d'um vigario chamôrro, ou outra coisa, que foi denominação
+de bando politico, em tempo que a politica não sabia sequer dar-se nomes
+decentes. Pois o deputado não respondia á carta do influente, nem o
+requerente sabia onde procural-o, fóra do Marrare.
+
+Por muitos factos d'esta natureza conspiraram os influentes do circulo
+de Miranda contra os delegados do governo; e a idéa de eleger o morgado
+foi recebida entusiasticamente por todos aquelles que o ouviram fallar
+no adro da egreja, e por quantos houveram noticias da sua parlenda.
+
+O partido, que o mestre-escola ganhára de eloquente assalto, cedeu ao
+imperio das rasoaveis conveniencias, e conglobou-se na maioria. A
+verbosidade, porém, do professor não ficou despremiada, sendo nomeado
+secretario da junta de parochia.
+
+Resistiu Calisto de Barbuda tenazmente ás solicitações dos lavradores,
+que o procuraram com o mestre-escola á frente, facto que muito honra
+este desinteresseiro e reportado funccionario. N'este encontro, o
+professor excedeu o juizo avantajado que elle propriamente fazia de sua
+vocação oratoria. Mostrou as fauces do abysmo escancaradas para tragarem
+Portugal, se os sabios e virtuosos não acudissem a salvar a patria
+moribunda. Calisto Eloy, enternecido até ás lagrimas pela sorte da terra
+de D. João I, voltou-se para a esposa, e disse, como o agricultor
+Cincinnatus:
+
+--Aceito o jugo! Assás receio, mulher, que os nossos campos sejam mal
+cultivados este anno...
+
+Estavam proximas as eleições.
+
+A authoridade, assim que soube da resolução do morgado da Agra, preveniu
+o governo da inutilidade da lucta. Não obstante, o ministro do reino
+redobrou instancias e promessas, no intuito de vingar a candidatura de
+um poeta de Lisboa, mancebo de muitas promessas ao futuro, que tinha
+escripto revistas de espectaculos, e recitava versos d'elle ao piano,
+cuja falta ou demasia de syllabas a bulha dos sonoros martellos
+disfarçava. Redarguiu o administrador do concelho ao governador civil,
+que pedia sua demissão para não soffrer a inevitavel e desairosa
+derrota.
+
+Quiz assim mesmo o governo alliciar no circulo algum proprietario, que
+contraminasse a influencia do candidato legitimista, fazendo-se eleger.
+Alguns lavradores, menos afferrados á candidatura de Calisto, lembraram
+á authoridade o professor de instrucção primaria, estropeando phrases
+dos discursos d'elle, proferidos na botica. O administrador riu-se, e
+mandou-os bugiar, como parvoinhos que eram.
+
+Por derradeiro, o governador civil fez saber ao ministerio que os povos
+de Vimioso, Alcanissas e Miranda se haviam levantado com selvagem
+independencia e tintam fugido com a urna para os desfiladeiros das suas
+serras. Pelo conseguinte, não pôde ser proposto o poeta, que beliscado
+na sua vaidade assanhou-se contra o governo, escrevendo umas feras
+objurgatorias, as quaes, se tivessem grammatica á proporção do fel, o
+governo havia de pôr as mãos na cabeça e demittir-se.
+
+Á excepção de uma lista, o morgado da Agra de Freimas teve-as todas. A
+que não tinha o nome sympathico aos eleitores, votava em Braz Lobato,
+professor de instrucção primaria, secretario da junta de parochia, e
+ex-sargento das milicias de Mirandella. Parece que votára em si o
+mestre-escola. A final, maculou a alvura do nobilissimo desprendimento
+com que perorara em pró da eleição de Calisto! Fragilidade humana!
+
+Principiou, desde logo, o morgado eleito a refrescar a memoria com as
+suas leituras de historia grega e romana; era isto entroixar sciencia e
+enfreixar flores para o parlamento. Depois, releu a legislação dos bons
+tempos de Portugal, afim de restaurar os costumes desbaratados, fazendo
+remoçar as leis, que haviam sido o tabernaculo da moral humana guardado
+pelo temor de Deus. Tosquenejou muitas noites sobre os bacamartes
+pulvéreos; e, desde que a manhã raiava até horas de almoço, ia á margem
+do Douro, que lhe lambia a ourela da quinta, declamar, como Demosthenes
+nas ribas maritimas, ao stridor de uma açude e das rodas de duas
+azenhas. Os moleiros, que o viam bracejar, e lhe ouviam o vozeamento,
+benziam-se, pensando que o sabio treslêra, ou coisa má lhe entrara no
+corpo. A sr.^a D. Theodora Figueirôa, vendo o marido assim tresnoitado,
+seguia-o ás vezes, de madrugada, espreitava-o de um cabeço sobranceiro
+ao rio, e benzia-se tambem, dizendo: «Dão-me com o homem doido!»
+
+Chegou o tempo de partir para a capital.
+
+O deputado mandou adiante por almocreve duas cargas de livros, nenhum
+dos quaes tinha menos de cento e cincoenta annos.
+
+Seguia-se, na conducta dos machos portadores, uma carga de persunto e
+orelheira, substancia quotidiana da alimentação de Calisto Eloy.
+
+Depois, outra carga de ancoretas de vinho velho, e na entrecarga uma
+garrafeira com duas duzias de garrafas de vinho, que competia
+antiguidade com a fundação da companhia.
+
+A guarda-roupa do procurador dos povos era modesta, salvo o chapéo
+armado, calção de tafetá e espadim, com que elle, na qualidade de
+fidalgo cavalleiro, costumava contribuir para a magestade das procissões
+de Miranda, pegando ao pallio.
+
+A pessoa de Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda foi em liteira,
+e chegou a Lisboa ao decimo quinto dia de jornada, trabalhada de
+perigos, superiores á descripção de que somos capaz.
+
+De proposito, saltamos por cima dos pormenores da partida, para não
+descrever o quadro lastimoso do apartamento de Calisto e Theodora.
+
+O apartamento de Theodora e Calisto era titulo para dois capitulos de
+lagrimas.
+
+
+
+
+IV
+
+*Asneiras da erudição*
+
+
+Por fins de janeiro, chegou Benevides de Barbuda a Lisboa, e alugou casa
+no bairro de Alfama, por lhe terem dito que, n'aquella porção da Lisboa
+antiga, a cada esquina havia um monumento á espera de archeologo
+competente.
+
+Ao cabo de tres dias, Calisto mudou-se para rua mais limpa, suppondo que
+os lamaçaes de Alfama haviam tragado os monumentos, lamaçaes em que elle
+desastradamente escorregára, e d'onde saíra mal-limpo, e assoviado por
+marujos e collarejas, seus visinhos mais chegados. Mau agouro! A
+primeira chimera de Calisto, seu tanto ou quanto scientifica,
+atascara-se na lama d'aquella parte de Lisboa, que devia de ser a
+_inclita Ulissea_ de Luiz de Camões!
+
+O deputado, sem embargo de ir habitar o quarto andar de uma casa lavada
+de ares e muito desafogada na rua da Procissão, quiz-lhe parecer que a
+atmosphera da capital não cheirava bem.
+
+Abriu um dos seus livros velhos, intitulado _Do sitio de Lisboa_ etc.
+por Luiz Mendes de Vasconcellos, e leu:
+
+«...E assim, de todo o territorio de Lisboa, parece que da terra, fontes
+e rios, respiram suavissimos vapores, amigos da natureza humana; porque
+é coisa certissima que a benignidade dos ares d'este sitio, não só é por
+natureza deleitosa, pelo seu temperamento, mas de grandissimo proveito
+para algumas doenças, etc...»
+
+Calisto Eloy fechou o livro, e disse de si para comsigo, tomando uma vez
+de rapé:
+
+--O meu classico não podia mentir. Este mau cheiro é desconcerto da
+minha membrana pituitaria.
+
+E alcatroou segunda vez, as ventas com uma pitada desinfectante.
+
+Pareceu-lhe tambem pesada e salôbra a agua.
+
+Recorreu ao seu classico Luiz Mendes, no artigo _agua_, e leu que o
+chafariz de El-Rei dava uma lympha gostosa e de suave quentura, a qual
+limpava a garganta de toda a roquidão, e afinava as vozes, _e assim_,
+dizia o classico, _não errará quem disser que ella é causa das boas
+vozes que em Lisboa docemente ouvimos cantar; e tambem dos bons carões
+que conservam as mulheres_.
+
+Em quanto aos bons carões das mulheres, Calisto, que, de um relancear
+honesto de olhos, observára os rostos pallidos e esgrouviados de algumas
+senhoras de Lisboa, não podendo arguir de fallacia o dizer de Luiz
+Mendes, attribuiu á degeneração dos costumes e raças o descarnado e
+amarellido das caras; no tocante á suavidade das vozes, ficou indeciso,
+não querendo desmentir o seiscentista, nem formar conceito por uns
+grunhidos de cantaróla barbara com que os vendilhões pregoavam os
+comestiveis.
+
+Todavia, como a agua do chafariz de El-Rei aclarava o orgão vocal, e
+Calisto, á força de berrar ao pé da açuda e azenhas, estava um tanto
+rouco, mandou buscar um barril d'aquella salutifera agua, que o Mendes
+de Vasconcellos compára á das fontes camenas. Bebeu á tripa fôrra o
+deputado, e teve uma dôr de barriga precursora de febres quartãs.
+Valeu-se ainda do seu classico, e por conta d'elle mandou buscar á
+Pimenteira outro barril de agua, a qual, diz o citado author, _se busca
+para os doentes de febres_.
+
+O velho criado e enfermeiro, quando viu o seu amo encharcado e cada vez
+peior, foi de moto proprio em cata do cirurgião, o qual deu o morgado
+rijo e fero em quinze dias com algumas beberagens quinadas.
+
+Desde então, Calisto Eloy não bebeu senão vinho, e melhorou da garganta
+e do espirito, um tanto quebrantado, recitando, a cada garrafa que
+abria, o proverbio da sagrada escriptura:--_Vinum bonum laetifical cor
+hominis_.[4]
+
+Não obstante, o descredito do seu classico deveras lhe doeu, mormente
+pelo tom de mofa com que o cirurgião enxovalhou as cãs do honrado e
+lusitanissimo escriptor Luiz Mendes.
+
+Apenas convalescido, Calisto abria outro livro da mesma edade, escripto
+por identico motivo, para averiguar se o author do _Sitio de Lisboa_
+claudicára como patranheiro em materia de chafarizes.
+
+O bacamarte consultado era a _Fundação, antiguidades e grandezas da
+muito insigne cidade de Lisboa_, etc., escripto pelo capitão Luiz
+Marinho de Azevedo.
+
+--Cá está!--exclamou Barbuda em soliloquio--cá está explicada a minha
+dôr de barriga! era destemperança do figado.
+
+O deputado acabava de ler o seguinte periodo de Luiz Marinho:
+
+«Encareceu Plinio muito a agua, que vinha a Roma da fonte Marcia, e
+Vitruvio a das fontes Camenas, porque nasciam quentes e eram saborosas
+no gosto, sendo por esta causa muito sadias e proveitosas para conservar
+saude. E posto que (_sic_) Luiz Mendes de Vasconcellos queira que por
+estas propriedades tenha a agua do charariz d'El-Rei as mesmas
+qualidades; a experiencia mostra que, sendo suave no gosto, o não é nos
+effeitos, porque lhe attribuem os medicos a destemperança do figado, que
+muitas pessoas padecem, e de que procedem varias enfermidades.»
+
+--Fie-se lá a gente!--monologou o deputado.--É preciso cuidado com os
+classicos a respeito da agua de Lisboa.
+
+E, proseguindo na leitura, encontrou confirmada a maravilha de se
+afinarem as vozes com o uso da agua do chafariz d'El-Rei, por estes
+termos:
+
+«É causa das boas vozes dos musicos naturaes de Lisboa, ou que n'ella
+moraram, que tanto lustram em sua real capella, e na da corte de
+Madrid[5], conventos e egrejas cathedraes d'este reino e do de Castella:
+excellencia que tambem se acha nas mulheres, cuja feminina voz enleva os
+sentidos, como se experimenta ouvindo cantar as religiosas dos mosteiros
+d'esta cidade, em que mais parece se ouvem córos de anjos que vozes
+humanas.»
+
+Á primeira vez que saiu, andou Calisto em demanda dos conventos de
+freiras, e das festividades de cada um. Disseram-lhe, em face de um
+repertorio, que a mais proxima festa era, no domingo immediato, em Santa
+Joanna. Foi Calisto á festa para ouvir cantar as freiras. Não lhe
+pareceu cantoria o que ouviu: eram tres narizes roufinhando destoantes.
+Calisto saiu do templo, foi ao palratorio, chamou a madre-porteira, e
+disse-lhe, com a sua candura de bom homem, que recommendasse ás senhoras
+cantoras a agua do chafariz d'El-Rei. A madre ficou passada do
+disparate, e voltou-lhe as costas.
+
+Como quer que o morgado da Agra de Freimas não fosse homem que estudasse
+as materias perfunctoriamente, quiz esquadrinhar a respeito de aguas
+toda a substancia d'este importante elemento.
+
+Decepções sobre decepções!
+
+Quando morára na Alfama, observára elle que, n'aquelle bairro, as
+mulheres eram sardentas, rôxo-terra, e crespas de pelle. Pois o classico
+Marinho saía-lhe com este desmentido aos seus proprios olhos:
+
+«Tem mais outra propriedade occulta a agua do chafariz (d'El-Rei) que é
+conservar os rostos das mulheres, que com ella se lavam, em uma alvura
+engraçada, e côr natural tão encarnada, que não necessita de unturas,
+nem confecções, com que ellas se envelhecem antes de tempo: _o que se vê
+claramente na vantagem que as de Alfama levam ás dos outros bairros no
+carão, rosto mimoso, e côr que logo se conhece por natural_; e, se
+bastára isto, por desengano ás que as usam postiças, não fôra pequeno o
+fructo, que se tirára de ler este paragrapho, havendo quem lh'o
+recitasse.»
+
+Calisto Eloy certamente não iria recitar o paragrapho a nenhuma senhora
+pallida e magra, depois da incivil resposta, que lhe deu a porteira de
+Santa Joanna, e mais ainda com a desconfiança em que o puzeram os bons
+authores da sua predilecção.
+
+Parece, porém, que elle andava aporfiado em afogar o seu recto juizo nas
+aguas de Lisboa. Lêra o deputado que tambem o _chafariz dos cavallos da
+rua Nova_ tinha prodigiosas virtudes em cura de molestias d'olhos.
+Procurou a rua Nova, que o terramoto de 1755 sotterrára; procurou o
+chafariz, que segundo elle, devia de estar na rua dos Capellistas ou
+Algibebes successoras d'aquella rua. Ninguem lhe dava conta do _chafariz
+dos cavallos_; e alguns logistas interrogados suppuzeram que o
+provinciano não podia beber em fonte que não tivesse aquella
+applicação.[6]
+
+O erudito respondia aos chacoteadores.
+
+--Pois saibam que se perdeu um mirifico chafariz! Resam os meus livros
+que as saluberrimas aguas d'esta fonte perdida tinham a propriedade
+occulta de engordar as cavalgaduras que bebiam d'ella; e acrescenta
+Marinho d'Azevedo, textualissimas palavras: _e quando ella faz tão
+conhecidos effeitos nos animaes, os fizera nos corpos humanos, se a
+beberam em sua fonte_.
+
+Um bacharel, que ouvira as lastimas de Calisto, disse a um visinho a
+meia-voz:
+
+--Este homem parece que tem uma cavalgadura magra no corpo!
+
+Com estas zombarias é que em Portugal os sabios são premiados... Se
+Calisto fosse um parvo, o governo dava-lhe um subsidio até elle achar o
+chafariz dos cavallos.
+
+
+
+
+V
+
+*Estreia parlamentar de Calisto*
+
+
+Antes de apresentar-se na sala das sessões, Calisto Eloy de Barbuda leu
+o _Regimento interno da camara dos deputados_, juntamente com um collega
+transmontano, o abbade de Estevães, sujeito de annos, e doutrina
+monarchico-absolutos.
+
+O morgado de Agra embicou logo na fórma do juramento, e disse que não
+jurava sem aspar as palavras que o obrigavam a ser inviolavelmente fiel
+á carta constitucional. O abbade quiz amaciar-lhe a rigidez de
+espiritos, absolvendo-o do perjurio, que não era serio, porque já de si
+o juramento era irrisorio e mera brincadeira de nenhum peso na balança
+da justiça divina.
+
+E allegava o clerigo esclarecido que os representantes da nação, com
+quanto jurassem fidelidade á religião-catholica-apostolica-romana, eram
+aliás atheus; jurando fidelidade ao rei, injuriavam-n'o nas gazetas;
+jurando fidelidade á nação, avexavam-n'a de tributos, e alguns a queriam
+fundir na Hespanha. Comedia e comedoria! exclamava o abbade. Se os
+deixarmos a elles jurar e mentir á sua vontade, a monarchia portugueza
+d'aqui a pouco não terá mais realidade no mappamundi que a ilha
+Berataria do Miguel Cervantes, ou as ilhas beatas do poeta Alceu!
+
+A respeito das ilhas beatas do poeta Alceu, saiu-se Calisto de Barbuda
+com uma despropositada torrente de citações, em que a paciencia do padre
+esteve a pique. Era perigoso dar-lhe azo ás ejecções da sciencia velha,
+que não havia abafar-lhe as valvulas ejaculatorias.
+
+O sabio, lá na sua terra, nunca tivera auditorio digno; escutava-se a si
+proprio; admirava-se e applaudia-se com perdoavel, senão legitima
+vaidade; faltava-lhe, porém, alguma coisa, a qual coisa era o abbade de
+Estevães.
+
+Este clerigo, bem que tivesse exercido as funcções desembargatorias na
+relação ecclesiastica de Braga, era menos lettrado que o antiquario de
+Caçarelhos, mas um tanto mais illustrado em critica da historia. Por
+delicadesa, fingia engulir as araras que o morgado lhe ministrava
+guizadas pelo monge de Alcobaça Bernardo de Brito, por Fernão Mendes e
+Miguel Leitão d'Andrade, e centenares de outros escrevedores de polpa,
+que mentiram «mais do que permitte a força humana.»
+
+Convencido da irresponsabilidade seria do juramento parlamentar, foi
+Calisto Eloy de Silos empossar-se da sua cadeira na representação
+nacional. Porém, proferido o juramento, e antes de sentar-se, não teve
+mão de si, e disse:
+
+--Sr. presidente!
+
+O abbade de Estevães ainda ciciou um _cio_, como quem lembrava ao
+collega que o _Regimento_ lhe tolhia o dom da palavra assim abrupta
+n'aquelle acto; mas o presidente, como esperasse alguma extraordinaria
+reflexão, deixou violar o artigo 30.^o do titulo e ouviu-o.
+
+Continuou Calisto:
+
+--Sr. presidente! Nos primordios da humanidade, a boa fé dispensava os
+juramentos: hoje em dia, para tudo se faz mister jurar, porque a boa fé
+desappareceu _velut umbra_ da face da terra. Se bem me recordo, os casos
+de juramentos mais antigos lêem-se nas sagradas escripturas. Abrahão
+jurou ao rei de Sodoma e ao rei Abimelech; Elieser a Abrahão; e Jacob a
+Labão...
+
+O presidente, como o riso andasse já contagioso na sala e galerias,
+observou:
+
+--O sr. deputado está fóra das prescripções do regimento. Peço licença
+para o convidar a sentar-se do lado que lhe convier.
+
+--Eu concluo em duas palavras, tornou Calisto, conformando-me com o
+regimento, e mais ainda com o jurisconsulto Struvius, o qual no seu
+_jurisprudencia civilis syntagma_, diz que não deve exigir-se o
+juramento quando póde temer-se o perjurio. Preceito de mui remontada
+moralidade; sr. presidente! Preceito, cujo despreso, é a causa
+efficiente das apostasias que deshonram, dos sacrilegios que condemnam a
+alma, e estampam na testa dos precitos lemma de opprobrio indelevel.
+Disse.
+
+E foi sentar-se, flauteando cromathicamente uma pitada, á beira do seu
+amigo abbade de Estevães.
+
+A maior parte dos legisladores estava como indecisa entre rir-se ou
+espantar-se do aprumo com que o transmontano, atando facilmente as
+phrases, atirava á cara dos legisladores um murro indirecto. Tres brados
+lhe haviam victoriado o cabeçalho do discurso: eram expansões de
+deputados legitimistas, que entre si se ficaram victoriando de terem um
+homem bastante audaz, se necessario fosse, para fallar ao imperante como
+João Mendes Cicioso fallara a El-Rei D. Manuel.
+
+--Fallou á portugueza, sr. morgado; mas extemporaneamente--murmurou-lhe
+o abbade de Estevães.
+
+--A verdade é de todas as horas, abbade--redarguiu Calisto--mal de nós
+se havemos de esperar que ella caia a talho de fouce!... Deixem-me ir
+assim, que os meus constituintes assim me querem, Catão e Cicero,
+Hortensio e Demosthenes não fallavam pelo regimento. O conselheiro que
+disse a Affonso IV «senão procuremos outro rei» não pediu licença a
+presidente algum, nem viu no regimento se era hora de lh'o dizer. Eu li
+de tento e vagar o regimento, amigo abbade; e a mim me quiz parecer que
+tudo aquillo é um modo, o mais cerimonioso, de fazer callar aquelles
+cujos dizeres desagradam á presidencia, por via de regra, mancommunada
+com o governo.
+
+--_Prudentia in omnibus_, diz o sabio--retorquiu o abbade.[7]
+
+O morgado accudiu logo:
+
+--_Estote prudentes, sicut serpentes et simplices sicut columbae_, disse
+Jesus, o sabio dos sabios.[8]
+
+
+
+
+VI
+
+*Virtuosas parvoiçadas*
+
+
+A estreia parlamentar de Calisto de Barbuda fez hyperbolico estrondo nos
+salões da aristocracia, legitimista, que abriu suas portas ao
+esperançoso Berryer de Portugal.
+
+Algum tempo se andou furtando o morgado ás solicitadas apresentações.
+Impediam-n'o o natural acanhamento de provinciano, e o affecto
+entranhado aos seus classicos, que lhe eram o deleite das horas feriadas
+do dia, e dos serões do inverno.
+
+Como á força, fôra elle uma noite, ao theatro lyrico, em companhia do
+abbade de Estevães, que amava a musica pelo muito amor que tinha á
+guitarra, delicias da sua mocidade, e consoladora da velhice, já saudosa
+do tempo em que o coração lhe gemia nos bordões do instrumento
+apaixonado.
+
+Calisto inteirou-se do enredo da opera, e assistiu em convulsões ao
+espectaculo, que era a _Lucrecia Borgia_. Saiu da platéa frio de horror
+e protestou, em presença de Deus e do abbade, nunca mais contribuir com
+oito tostões para a exposição das chagas asquerosas da humanidade.
+Rompeu-lhe então do imo peito esta exclamação sentida: _Amici_, noctem
+_perdidi_! Melhor me fôra estar lendo o meu Euripides e Seneca, o
+tragico! Medéa não mata os filhos cantando, como a scelerada Lucrecia!
+As devassidões postas em musica, dão bem a entender que geração esta é!
+Brinca-se com o crime, abafando-se os gemidos da humanidade com o
+stridor das trompas e dos zabumbas. É um tripudio isto, amigo abbade!
+Quem sae do seio da natureza rude, e de repente se acha à lavareda
+d'estes focos das grandes cidades, é que atina com a providencial
+phylosophia d'estas tramoias de theatros!
+
+Assanhou o abbade de Estevães o azedume do fidalgo, dizendo-lhe que o
+estado subsidiava o theatro de S. Carlos com vinte contos de réis
+annuaes. Calisto fez pé atraz, e exclamou:
+
+--_Obstupui_!... O abbade zomba!... _O estado_!... o meu collega disse o
+estado!
+
+--Sim o thesouro... confirmou o clerigo.
+
+--A res publica? o dinheiro da nação?
+
+--Certamente: pois de quem hade ser o dinheiro, senão da nação?
+
+--Pois eu e os meus constituintes estamos pagando para estas cantilenas
+do theatro de Lisboa!
+
+--Vinte contos de réis.
+
+Calisto Eloy correu a mão pela fronte humedecida de suor civico, e
+sentou-se nas escadas da egreja de S. Roque, por que ao espanto, colera
+e dôr d'alma seguiram-se-lhes caimbras nas pernas. Minutos depois,
+ergueu-se taciturno, despediu-se do abbade, e foi para casa.
+
+Os alvores da primeira manhã acharam-no passeando e declamando na
+estreita saleta do seu aposento. Via-se-lhe no rosto a pallidez dos
+Fabricios.
+
+Ás onze horas entrou na camara. Dir-se-hia que entrava Cicero a delatar
+a conjuração de Catilina. Deu nos olhos dos seus tres correligionarios
+que entre si disseram:
+
+--Calisto vae fazer alguma interpellação de grande alcance!
+
+Acabava de sentar-se quando um deputado do Porto se ergueu, e disse:
+
+--Sr. presidente. Muito a meu pezar, e talvez da camara, volto de novo a
+expender as razões já tres vezes inutilmente expendidas sobre o dever, e
+justiça com que o Porto reclama um subsidio para o seu theatro lyrico.
+Sr. presidente...
+
+--Peço a palavra! bradou Calisto Eloy, erguendo-se inteiriço e
+fulminante--Peço a palavra!
+
+O representante do Porto expendeu a quarta edição peorada das suas
+idéas, sobre o dever e justiça, com que o theatro de S. João reclamava
+subsidio, e sentou-se.
+
+--Tem a palavra o sr. Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda,
+disse o presidente.
+
+O morgado da Agra escorvou-se de rapé, trombeteou a pitada, e orou
+d'este theor:
+
+--Sr. presidente. Em Grecia e Roma as festas annuaes eram solemnisadas
+com espectaculos. Os cidadãos timbravam em se dispenderem aporfiadamente
+para o maior realce das representações theatraes. Na Grecia, o archonte
+eponymo, a cargo de quem o estado delegava as despezas das
+representações, esmava o dispendio de cada uma em dois talentos,
+3:250$000 réis, pouco mais ou menos da nossa moeda. Este dispendio
+faziam-no espontaneamente os ricos; e se era o thesouro nacional, que
+adiantava as despezas, a concorrencia convidava pelo preço diminutissimo
+do _theorikon_ ou entrada, que correspondia ao vintem da nossa moeda. E
+de Pericles em diante, sr. presidente, tomou o estado á sua conta o
+pagamento das entradas dos pobres. Entre os romanos, eram os poderosos,
+como Lepido e Pompeu, e, ao diante, os imperadores, que sustentavam do
+seu bolsinho as representações theatraes. Os imperios opulentos, sr.
+presidente, os imperios, que digeriam a substancia do universo, os
+imperios que edificavam theatros para trinta mil espectadores, não
+impunham aos povos a obrigação de se privarem do necessario para
+abrilhantarem Athenas ou Roma, com luxuosas superfluidades. Os serranos
+das provindas do Lacio não eram constrangidos a pagarem as delicias dos
+patricios romanos. Estes, sr. presidente, quando queriam divertir-se em
+espectaculos theatraes, pagavam-os, e regalavam a gente pobre em vez de
+a obrigarem a entrar no erario com o estipendio dos actores. (_Sussurro
+e alguns «apoiados» provocados pelo sussurro_.)
+
+Sr. presidente--continuou o orador, tomando rapé com a soffreguidão de
+quem teme que o raio inspirativo se arrefente--sr. presidente! Eu tenho
+o desgosto de ter nascido n'um paiz, em que o mestre-escola ganha cento
+e noventa réis por dia, e as cantarinas, segundo me dizem, ganham trinta
+e quarenta moedas por noite. Eu sou de um paiz, sr. presidente, em que
+se pede ao povo o subsidio litterario para pagar com elle as tramoias da
+Lucrecia Borgia. Eu sou de um paiz, pobrissimo, em que a veia da nação
+exangue soffre cada anno a sangria de algumas duzias de contos para
+sustentar comediantes, farcistas, funambulos e dansarinas impudicas! Sr.
+presidente, v. ex.^a sorriu-se, vejo que a camara está sorrindo, e eu
+ouso dizer a v. ex.^a e aos meus collegas, como o poeta mantuano: _sunt
+lacrimae rerum_. Aqui é o ponto de se carpirem por seus filhos aquelles,
+que se cuidam muito avantajados em civilisação a seus avós. Aqui é o
+ponto de nos alembrarmos dos israelitas livres, que sorriam em
+Jerusalem, e choravam depois escravos ás margens do rio estranho. Depois
+será o declamarmos com o epico:
+
+ Em Babylonia, sobre os rios, quando
+ De ti, Sião sagrada, nos lembramos,
+ Alli com gran saudade nos sentamos
+ O bem perdido, miseros, chorando.
+
+ Os instrumentos musicos deixando
+
+Peço á camara que repare nos tres versos, que completam a quadra e a
+prophecia:
+
+ Os instrumentos musicos deixando
+ Nos estranhos salgueiros penduramos,
+
+_Hic_, sr. presidente:
+
+ Quando aos cantares que já em ti cantamos
+ Nos estavam imigos incitando.
+
+Nos _cantares_, sr. presidente, é que bate o ponto do meu discurso:
+(_Hilaridade: susurro nas galerias: o presidente tange a campainha_).
+
+O _orador_:--Sr. presidente! que me não queiram persuadir de que estou
+em casa de orates! Que é isto? Que bailar d'ebrios é este em volta de
+Portugal moribundo? Como podem rir-se os enviados do povo, quando um
+enviado do povo exclama: Não tireis á nação o que ella vos não póde dar,
+governos! Não espremais o ubre da vacca faminta, que ordenhareis sangue!
+Não queiraes converter os clamores do povo em cantorias de theatro! Não
+vades pedir ao lavrador quebrado de trabalho os ratinhados cobres das
+suas economias, para regalos da capital, em quanto elle se priva do
+aprezigo de uma sardinha, por que não tem uma pogeia com que compral-a.
+
+E vinte contos e trinta contos de subsidios que moralidade fomentam, que
+lampadas accendem nos altares da civilisação? Eu peço á camara que leia
+attentamente o discurso theologico do padre Ignacio de Camargo, lente no
+real collegio de Salamanca, ácerca dos theatros. Não menos
+fervorosamente peço a v. ex.^a e ás camaras que leiam as mirificas
+paginas do nosso oratoriano Manuel Bernardes, sobre representações
+theatraes. O que são comedias? Responda por mim o eminente moralista, e
+mais que todos vernaculissimo escriptor: «Os assumptos das comedias pela
+maior parte são impuros cheios de lascivos amores, de galanteios
+profanos, de papeis amorosos, de rondas, passeios, musicas, dadivas,
+visitas, solicitações torpes, finezas loucas, empenhos desatinados,
+chimeras, emprezas impossiveis, que as solicita ordinariamente um
+criado, uma mulher terceira, uma chave, um jardim, uma porta falsa, um
+descuido do pae, ou do irmão, ou do marido da dama, e tudo isto costuma
+parar em uma communicação deshonesta, em um incesto, ou em um adulterio,
+em que ha muitos lances torpes, louvores lisongeiros da formosura,
+expressões affectadas de amor, promessas de constancia, competencias de
+affectos, temores, ciumes, suspeitas, sustos, desesperações, e em summa,
+uma gentilica idolatria, ajustada pontualmente ás infames leis de Venus
+e Cupido, e aos torpes documentos de Ovidio no livro de _Arte amandi_.»
+
+_Vozes da galeria_: _Muito bem_! _Bravo_! (Espirram as risadas de varios
+sujeitos. Gargalhada compacta).
+
+_O orador_: Sr. presidente! Eu irei contar aos povos, que me aqui
+mandaram, as gargalhadas com que fui recebido no seio da representação
+nacional, por que ousei dizer que um paiz carregado de dividas não
+instaura divertimentos attentatorios dos bons costumes com o dinheiro da
+nação. Irei dizer aos meus constituintes que se desfaçam das arrecadas e
+cordões de suas mulheres e filhas, para enfeitarem as gargantas
+despeitoradas das Lucrecias Borgias que custam quarenta libras por
+noite!
+
+Sr. presidente, nossos avós, os coevos d'el-rei D. Manuel e D. João III,
+tiveram theatros. Era no tempo em que as frotas da India rompiam Téjo
+acima carregadas de oiro. O Plauto portuguez deliciava os paços dos
+reis, e os pateos e tablados do povo. Quando se abriu o erario para
+locupletar o alto engenho de Gil Vicente? Quando foi necessario ir mundo
+fóra em cata de gritadores que vendem tão caro o ar dos pulmões vibrado
+no mechanismo da garganta?
+
+_Uma voz_: Fez-se a civilisação depois.
+
+O _orador_: E a pobreza tambem. A civilisação que canta e dança, em
+quanto tres partes do paiz choram. A civilisação dos civilisados que
+dizem: _Coronemus nos rosis antequam marcessant_[9]. A civilisação do
+perdulario irrisorio, que traja de luzente lemiste no exterior, e
+aconchêga da pelle uma camisa surrada e fetida. Magnifica civilisação!
+Não sei de selvagens que nol-a possam invejar, e queiram cambiar
+comnosco a sua selvatiqueza!
+
+Sr. presidente gosem nas boas horas os sátrapas da capital os deleites
+da sua civilisação theatral. Dispendam-se, arruinem-se, doudejem com
+essas ficções e visualidades, que relembram factos de alto escandalo que
+não deviam ser vistos á luz da civilisação, que o meu illustre collega
+preconisa. Se gostam, não serei eu, homem de outros tempos e gostos,
+quem lhes impugne a racionalidade de seus passatempos. O que eu
+requeiro, em nome da justiça e da pobreza do paiz, é que se não sizem os
+povos provinciaes para manutenção dos divertimentos de Lisboa. O que eu
+contesto é o direito de me fazerem pagar a mim e aos meus visinhos as
+notas garganteadas dos ganha-pães, que não tem na sua terra officio
+honesto em que vivam com seriedade e utilidade commum. O que eu
+sobretudo lamento, sr. presidente, é o silencio desapprovador dos meus
+collegas. Sou eu só: serei eu só o vencido. Não importa! _Victis
+honos_![10] As pequenas coisas tratam-n'as os pequenos: _Parvum parva
+decent_. Eu abro mão das glorias promettidas ao nobre collega, que,
+pouco ha, pediu subsidio para o theatro do Porto. Dêem-lh'o. Desenrolem
+a onda aurifera do Pactolo do nosso thesouro até Braga. Quem pede
+subsidio para o theatro bracharense? A equidade reclama-o. O meu circulo
+tambem quer um theatro. Theatro e subsidio para todo o logarejo onde
+morar um contribuinte. Estamos em vida ficticia como paiz independente.
+Somos como o sapateiro, que se veste de principe no entrudo. Pois bem!
+Comedia geral! Seja Portugal um theatro desde Monção ao cabo da Roca!
+Peço uma companhia italiana para a minha terra. Os meus constituintes
+querem provar o sabor das delicias que tem estipendiadas em Lisboa. Se
+eu não posso, sr. presidente, levar-lhes a boa nova de que vão ter
+estradas que os liguem á sua nação, seja-me permittida a gloria de lhes
+levar a Lucrecia Borgia, a incestuosa e envenenadora Lucrecia, que os ha
+de edificar e converter á civilisação. Disse.
+
+_Algumas vozes por entre frouxos de riso_: Muito bem! Bravissimo!
+
+Eram as ironias dos sublimes engenhos, que, ás vezes, não sabem como hão
+de havel-as com espiritos selvaticos do desplante montezinho de Calisto
+de Barbuda.
+
+
+
+
+VII
+
+*Figura, vestido, e outras coisas do homem*
+
+
+Assim que os personagens dos romances começam a ganhar a estima ou
+aversão de quem lê, vem logo ao leitor a vontade de compor a physionomia
+do personagem plasticamente. Se o narrador lhe dá o bosquejo, a
+imaginativa do leitor aperfeiçoa o que sae muito em sombra e confuso no
+informe debuxo do romancista. Porém, se o descuido ou proposito deixa ao
+alvedrio de quem lê imaginar as qualidades corporaes de um sujeito
+importante como Calisto Eloy, bem póde ser que a intuição engenhosa do
+leitor adivinhe mais depressa e ao certo a figura do homem, que se lh'a
+descrevessem com abundancia de relevos e rara habilidade no estampal-os
+na phantasia estranha.
+
+Não devo ater-me á imaginação do leitor n'este grave caso. Calisto Eloy
+não é a figura que pensam. Estou a adivinhar que o inquadraram já em
+molde grotesco, e lhe deram a edade que costuma authorisar, mórmente no
+congresso dos legisladores, os desconcertos do espirito, exemplificados
+pelo deputado por Miranda. Dei eu azo á falsa apreciação, por não
+antecipar o esboço do personagem. Acudo pelos creditos do personagem.
+
+Calisto Eloy, n'aquelle tempo, orçava por quarenta e quatro annos. Não
+era desageitado de sua pessoa. Tinha poucas carnes, e compleição, como
+dizem, afidalgada. A sensivel e dessimetrica saliencia do abdomen
+devia-se ao uso destemperado da carne de porco e outros alimentos
+intumecentes. Pés e mãos justificavam a raça que as gerações vieram
+adelgaçando de carnes. Tinha o nariz algum tanto estragado das invasões
+do rapé e torceduras do lenço de algodão vermelho. A dilatação das
+ventas e o escarlate das cartilagens não eram assim mesmo coisa de
+repulsão. Estes narizes, se não se prestam á poesia lyrica, inculcam a
+seriedade de seus donos, o que é melhor. Eram assim os narizes de José
+Liberato Freire de Carvalho e de Silvestre Pinheiro. Quasi todos os
+estadistas de 1820 se condecoravam com a rubidez nazal. Não sei que ha
+n'isto indicativo de estudo, gravidade e meditação; mas ha o quer que
+seja.
+
+As restantes feições de Calisto Eloy de Silos eram regulares, a não
+querermos encarecer a alta e brunida fronte, que poderia servir de
+rotulo a um talento abalisado, se o inimigo da Lucrecia Borgia não
+fosse, a meu ver, capacidade eminente, viciada pela educação e tradições
+de familia. Excedia a estatura meã, e era direito de pernas. No tronco
+havia tal qual inclinação, que denunciava o arqueamento da espinha por
+effeito da incansavel leitura, e minguado exercicio.
+
+O que certamente o desairava era o traje. Calisto Eloy vestia de briche
+da Gollegã, e dos alfaiates de Miranda. A gola e portinholas da casaca
+eram serias de mais para estes tempos em que um homem se veste hoje á
+moda, e d'aqui a um mez corre o perigo de sair ridiculamente entrajado.
+Não se sabe a razão por que o morgado da Agra se affeiçoara ás calças
+rematando em polainas abotoadas de madreperola. Vestira assim umas
+pantalonas em 1833, quando se matrimoniou com D. Theodora. Ou por que a
+esposa gostasse do feitio das calças, ou porque a moda se mantivesse,
+mantida pelo fidalgo, na comarca de Miranda, o certo é que desde aquella
+época todas as pantalonas de Calisto foram talhadas pelas primeiras, e a
+abotoadura sempre aproveitada.
+
+Ora, isto em Lisboa fez uma rasoavel impressão, especialmente no
+espirito observador dos gaiatos. Um d'estes desbragados ousou chamar
+gebo ao legislador; e outro levou a gandaíce ao extremo de planear-lhe
+um assalto ao chapéo.
+
+Fartas vezes o advertira o abbade de Estevães da necessidade de reformar
+o vestido, e entrajar-se conforme o costume. Calisto respondia que não
+tinha que intender em costumes, que não fossem, em lusitanissima phrase,
+ruins costumes. Em quanto a vestiduras, dizia que o estofo das suas era
+portuguez como elle, e o feitio d'ellas era o que mais se aproximava das
+usanças dos seus maiores, os quaes andavam mais apontados no trajar do
+espirito que nas galanices do corpo. Salvo o abbade, ninguem se atrevia
+a contrarial-o, desde que a um joven deputado, que lhe observou o
+archaismo do trajo perguntou se elle era o alfaiate da camara, ou se as
+modas tinham fiscal subsidiado no parlamento.
+
+Aconteceu ainda que outro deputado lhe analysasse galhofeiramente as
+botas aguçadas no bico. Sabia Calisto Eloy que este deputado era filho
+de um sujeito de Espozende que começara sua vida fazendo botas. Assim,
+pois, que o chocarreiro subiu da analyse das botas para a das polainas
+da calça, teve mão d'elle, dizendo-lhe: «agora, alto ahi! Em quanto o
+senhor escarneceu o feitio das minhas botas, estava no seu officio e no
+seu direito. Das botas acima, não. É o caso de eu lhe dizer como Apelles
+ao sapateiro, que lhe censurava a pintura: _ne sutor ultra crepidam_; o
+que em linguagem quer dizer: «não analyse o sapateiro acima da chinela.»
+Os circumstantes e a victima fizeram-se da côr do nariz de Calisto.
+
+Estas passagens, significativas do salgado espirito do provinciano,
+sobre-doiravam a reputação que o trazia nas boas graças da fidalguia
+realista.
+
+Sabia Calisto, como profundo genealogico, que existia illustrissima
+parentela sua em Lisboa; porém, pesavam graves motivos para que elle não
+quizesse recordar parentesco remoto com tal gente. Era o grão caso que,
+nos tempos do mestre d'Aviz estava na côrte um Martim Annes de Barbuda,
+da casa de Agra de Freimas, o qual conjurára com o Mestre na façanha do
+assassino do conde Andeiro. Até aqui havia muito para que o honrado
+portuguez se desvanecesse de tal parente. Martim Annes, todavia temeroso
+ou arrependido depois do feito, passou-se a Leonor Telles, e com ella e
+sua familia se foi a Hespanha, onde morreu, desprezado e amaldiçoado dos
+portuguezes. Na época de D. Duarte, os descendentes de Martim voltaram
+ao reino, e conseguiram perdão e posse dos seus haveres confiscados para
+a corôa. Eis aqui a razão do odio de Calisto á raça do máo portuguez.
+
+Estava elle, um dia, folheando a reformação das leis de 1760 por Diogo
+de Pina, no intento de cravejar de erudição um projecto de lei
+sumptuaria, quando lhe annunciaram a visita do conde do Reguengo.
+Calisto estremeceu, e disse de si comsigo: «Vens ver o que eram e o que
+são os legitimos Barbudas de Agra de Freimas... Sê bem vindo!»
+
+Entrou o conde, e disse com alegre alvoroço:
+
+--Venho apertar nos braços um parente, que me honra tanto com a
+intelligencia, quanto seus avós me honraram com a lança.
+
+Calisto permaneceu immovel na cadeira, e, tirando os oculos de prata,
+disse:
+
+--Falta saber se meus avós se honraram dos avós de v. ex.^a
+
+--Eu sou o conde do Reguengo---disse o outro, attonito.
+
+--Já sei. O conde do Reguengo é o decimo sexto varão de Martim Annes de
+Barbuda?
+
+--Sou eu mesmo.
+
+Calisto ergueu-se, montou os oculos, foi mui depausa e a passo mesurado
+á estante dos seus livros, e tirou um in-folio. Voltou a sentar-se,
+mandou sentar o conde, abriu o livro e disse:
+
+--Esta é a chronica dos reis, escripta por Duarte Nunes de Leão, e
+mandada publicar por D. Rodrigo da Cunha, arcebispo de Lisboa. Abro a
+pagina vinte e tres, e peço ao excellentissimo conde do Reguengo que
+leia.
+
+O conde recebeu entre mãos a chronica, e leu o seguinte desde o
+paragrapho indigitado por Calisto: «As razões que ao Mestre moviam a
+apressar sua ida para fóra de Portugal, era conhecer a condição da
+Rainha, que, além do natural das mulheres, que é serem vingativas, ella
+o era mais que todas; mas, como mulher de grandes espiritos, e astuta
+que era, onde maior odio tinha, alli mostrava mais benevolencia, pelo
+que o Mestre tinha por mui suspeita a mostra de amizade que lhe fazia, e
+se temia mais d'ella, e tanto cria que lhe tinha maior odio, quanto mais
+affeiçoada era ella ao conde João Fernandes, de quem elle a apartou.
+Ajuntava-se a isto ter ella mandado chamar a El-Rei de Castella. Pelo
+que, sendo ella Rainha, e tendo o favor d'El-Rei presente, não confiava
+o Mestre que sua vida estava segura, pois em vida d'El-Rei D. Fernando,
+não sendo aggravada d'elle, o fez prender e o faria matar. Além d'isto,
+(as seguintes palavras estavam sublinhadas na chronica e emendadas com
+um _proh dolor_! da letra de Calisto) muitos dos que se a elle chegaram
+o deixavam e se passavam á Rainha, como fez Vasco Porcalho, e Martim
+Annes de Barbuda, commendadores de sua ordem, e Garcia Peres Craveiro de
+Alcantara, que para elle se viera.»
+
+O conde entregou a chronica, e disse n'um tom de abborrido e confuso:
+
+--E então?
+
+--É v. ex.^a da progenie d'esse Barbuda infamado na pagina eterna de
+Duarte Nunes?
+
+--Sou--respondeu ufanamente.
+
+--Pois vá em paz, que eu não procedo d'esses Barbudas. Eu sou o decimo
+sexto varão de Gonçalo Pero de Barbuda, que morreu em Aljubarrota, na
+ala dos namorados. Gonçalo era irmão de Martim: mas, ao entrar na
+batalha, pediu a D. João I que lhe legitimasse um filho natural, para
+que, no caso d'elle perecer, os filhos do irmão trêdo lhe não manchassem
+o solar. Gonçalo, morreu e D. João I cumpriu a vontade do portuguez de
+lei.
+
+--O que d'ahi infiro--disse sarcasticamente o conde--é que v. ex.^a
+procede de um filho natural.
+
+--A mãe do filho natural era abbadessa de Vairão, da familia dos
+Alvins--redarguiu triumphantemente Calisto.
+
+--Coito damnado!--retorquiu o conde.
+
+--Discutamos esses pontos graves--voltou serenamente o morgado da Agra,
+tomando rapé.--A decima segunda avó de v. ex.^a Jeronyma Talha, era
+judia de Cezimbra, e esteve como covilheira dos sobrinhos de um Heitor
+de Barbuda com quem casou. Sua tresavó enviuvou sem filhos e casou com
+um filho do capellão. D'este matrimonio nasceu seu avô Luiz de Almeida
+de Barbuda, que foi o primeiro conde do Reguengo. Reconciliemo-nos, sr.
+conde, em quanto ao sangue de coito damnado, se v. ex.^a quer emparelhar
+o filho do padre com a abbadessa de Vairão, tia da mulher de Nuno
+Alvares Pereira por Alvins.
+
+O conde ergueu-se accendido em raiva, e disse:
+
+--No que não podemos emparelhar, sr. Calisto, é na tolice. Vou-me
+embora, com a vergonha de ter aqui vindo.
+
+--Não vá, acudiu Calisto Eloy, que eu é que me hei de forrar á vergonha
+de dizer que v. ex.^a veiu cá.
+
+E, passando a penna de ferro na pagina da chronica, rasgou a linha que
+dizia _Martim Annes de Barbuda_.
+
+
+
+
+VIII
+
+*Faz rir o parlamento*
+
+
+Andava o animo de Calisto Eloy martellado pelo desejo de pôr cobro ao
+luxo da gente de Lisboa, sendo grande parte n'este intento o haverem-lhe
+os dois pisa-verdes do parlamento mettido a riso a sua casaca de briche.
+Impugnavam-lhe a idéa o abbade de Estevães, e outros correligionarios
+cordatos, mais entrados do espirito do seculo, e convencidos da
+inutilidade de atravessar represas á torrente caudal da indole de cada
+época. O deputado de Miranda respondia que viera de sua terra a
+cauterisar as chagas do corpo social, e não a cobril-as de pachos e
+lenimentos palliativos em respeito á sensibilidade dos doentes. Rebelde
+ás admoestações sisudas de amigos, que lhe receavam alguma queda mortal
+no conceito da camara, Calisto, provocado por um debate sobre importação
+e direitos de objectos de luxo, pediu a palavra, e o mesmo foi alvorotar
+alegremente a camara, desejosa de ouvil-o.
+
+Concedida a palavra, e feito o silencio da curiosidade na sala,
+ergueu-se o morgado da Agra, e orou d'este feitio:
+
+--Sr. presidente! Os conselheiros dos antigos reis de Portugal, homens
+de claro juizo e sciencia bastante, cortavam os abusos do luxo com
+pragmaticas, quando os vassallos se desmandavam em trajos, regalos e
+ostentações ruinosas do individuo, e, portanto, da cidade. O senhor rei
+D. Sebastião, que santa memoria haja, promulgou justas e rigorosas leis
+sobre o uso das sedas. E, n'aquelle tempo, sr. presidente, Portugal
+ainda se banqueteava com a baixella d'oiro do Pegu: ainda as paredes das
+salas nobres estavam colgadas de gualdamecins e razes da Persia. Era o
+Portugal, já não robusto nem enthusiasta; mas ainda sopitado das
+embriagadoras delicias dos reinados de D. Manuel e D. João III.
+
+Nas Ordenações Filippinas, liv. 5.^o t. 82, § 4.^o, e seguintes, foram
+incluidas as principaes leis da reformação da justiça de 27 de julho de
+1582.
+
+Lá se vê quão salutar era a vara ferrea da lei no castigo dos contumazes
+em proveito da communidade. (_Um deputado boceja contagiosamente: outros
+bocejam; e o presidente de ministros adormece_). Vejamos a pena dos
+infractores: o peão perdia o vestido defezo, e pagava da cadeia quinze
+cruzados; e o nobre pagava da cadeia mais quinze cruzados que o plebeu.
+Note a camara que as reformas liberaes não complanaram tanto a egualdade
+entre poderoso e fraco. Bradam por ahi os ignaros contra os privilegios
+e exempções da fidalguia dos tempos ominosos. Estes democratas, se
+acontece de cairem nas presas da justiça, gritam pelo codigo das
+egualdades, e então experimentam o que vae da bonita redacção da lei á
+execução d'ella. Recolho-me ao assumpto, sr. presidente....
+
+_Um deputado_: Faz bem.
+
+_O orador_: Não me lisongea o beneplacito do collega. Recolho-me ao
+assumpto, sr. presidente. Lastimo este luxo que vejo em Lisboa! Por toda
+a parte, oiro, pedrarias, sedas, veludos, pompas, vaidades! Parece que
+toda esta gente voltou hontem da India nas naus que trouxeram as parias
+do Oriente! Essas ruas estrondeiam de carroagens, calechas e berlindas,
+como se cada dia se estivesse commemorando a passagem do cabo
+tormentorio ou o descobrimento da terra de Santa Cruz, atirando ás
+rebalinhas os thesouros que de lá nos vem. Por entre estas soberbas
+carroças...
+
+_Um deputado_: Carroças são de lixo.
+
+_O orador_: E bem póde ser que seja lixo o que vae n'ellas... Por entre
+estas soberbas carroças, sr. presidente, vejo eu passar mal arrimados ás
+paredes, e temerosos de serem esmagados, uns homens de aspecto
+melancholico, e mal entrajados. N'estes cuido eu vêr D. João de Castro,
+que empenhou as barbas, e tem duas arvores em Cintra; Duarte Pacheco,
+que vae entrar no hospital; e Luiz de Camões que vem de comer as sopas
+dos frades de S. Domingos. Cada época tem centenares d'estas illustres
+victimas.
+
+_Um deputado_: Vê coisas magnificas!
+
+_O orador_: E tambem vejo o dedo do propheta escrevendo na parede o
+lemma d'aquelle devasso festim... (_Pausa. O orador conserva o braço em
+postura sculptural, apontando á parede. O presidente accorda
+estremunhado, com a risada do ministro da fazenda_). O que eu vejo? quer
+o illustre deputado saber o que eu vejo? É a industria agricola de
+Portugal devorada pelas fabricas do estrangeiro; é o braço do artifice
+nacional alugado á escravidão do Brazil, porque a patria não lhe dá
+fabricas; é o funccionario publico prevaricado, corrupto e ladrão,
+porque os ordenados lhe não abastam ao luxo em que se desbarata; é o
+julgador dos vicios e crimes sociaes transigindo com os criminosos
+ricos, para poder correr parelhas com elles em regalias; é a mulher de
+baixa condição prostituida, para poder realçar pelos ornatos sua
+belleza; é a alluvião de homens, inhabeis, que rompe contra os
+reposteiros das secretarias pedindo empregos, e conjurando nas
+revoluções se lh'os não dão. O que eu vejo, sr. presidente, são sete
+abysmos, e á bocca de cada um o rotulo dos sete peccados capitaes que
+assolaram Babylonia, Cartago, Thebas, Roma, Tyro, etc. É o luxo, sr.
+presidente!
+
+_Um deputado do Porto_:--Peço a palavra.
+
+_O orador continuando_:
+
+--De que desconhecida lua choveu ouro sobre estes paraltas enluvados e
+encalamistrados que pejam os theatros, praças, e botequins de Lisboa?
+Foi para estes tempos que um sabio e claro varão d'outro seculo
+escreveu: «Desde o bico do pé até á cabeça anda um d'estes cavalheiros
+bizarros (ou qualquer d'estes bizarros ainda que não sejam cavalheiros)
+armado de vaidade e de estudos de sua compostura, que são captiveiros de
+espirito, corrupções dos costumes, da republica, e despezas da sua
+fazenda, ou talvez da fazenda que não é sua.»
+
+Aqui é que bate o ponto: _da fazenda que não é sua_. Á custa de quem se
+vestem estes Narcisos e Adonis? Que incognitos veios de ouro exploram?
+Qual é sua arte, se não devo antes perguntar quaes sejam suas manhas ou
+ronhas? Que sabe a policia d'elles?
+
+E eu já vi, sr. presidente, andarem as senhorias e excellencias, as
+pobres esfarrapadinhas, por meio d'estes peralvilhos, que saem de casa
+do alfayate com o fôro grande e o desaforo maior. Que desbarato e
+corruptela é esta dos tratamentos em Lisboa? Abandalha-se tudo para
+passar a rasoira por sobre um lamaçal plano? Isso é congruente; mas
+então tapem lá o rôto cofre das graças, que a toda hora nos está
+despejando corôas e veneras, cruzes e mais cruzes, cruzes onde a honra
+de Portugal geme cravejada! Fechem lá esses decretos de permanente
+carnaval, que nos trazem sempre acotovellados com mascaras, que eram
+hontem os nossos fornecedores de bacalhau, e hoje nos não conhecem a
+nós, receiosos de que os conheçamos a elles!
+
+Sr. presidente! v. ex.^a conhece a pragmatica do Sr. D. João V, ácerca
+de tratamentos. Eu tenho de a ler ámanhã a um tendeiro, que me vendeu
+figos de comadre, por que o homem se offendeu de receber um _vossemecê_,
+que eu longanimamente lhe dei. O alvará resa assim: «Que aos viscondes e
+barões, aos officiaes da minha casa, e aos das casas das rainhas, e
+princezas d'estes reinos; aos gentis-homens das camaras dos infantes;
+aos filhos e filhas legitimos dos grandes, dos viscondes e barões...
+como tambem aos moços fidalgos... se dê o tratamento de senhoria.»
+
+Senhoria aos ministros no estrangeiro; senhoria aos governadores das
+praças; reitor da universidade; senhorias ás dignidades prelaciaes e
+civis; sr. presidente, falta uma senhoria legal para o homem, que me
+vendeu os figos. Creêmos esta senhoria, para alliviarmos de escrupulos
+os que lh'a derem a medo. Legislemos a podridão dos tratamentos
+nobilitarios. Atiremos ao esterquilinio com esta moeda refece. Isto já
+não vale nada, não prova nada, não estrema coisa nenhuma. Latissima
+licença de condecorar-se a gentalha! Se algum mesteiral, uma vez,
+praticar feito nobre, que lhe conquiste justo galardão, havemos de
+honral-o chamando-lhe homem do povo, d'aquella raça de povo, que D.
+Diniz e D. João I amaram cordialmente.
+
+Desviei-me algum tanto, sr. presidente. Vou chegar-me á questão, e
+concluir, porque a hora me não permitte delongas, nem a camara terá a
+benevolencia de m'as tolerar.
+
+Invoco a attenção dos representantes do paiz para a mortal peçonha, que
+vae cancerando o machismo vital da nossa independencia. Rédeas ao luxo!
+Tranquem-se as alfandegas ás drogas estrangeiras. Carreguem-se de
+direitos as mercadorias, que incitam o appetite e prevertem as condições
+melhormente morigeradas. Vistamo-nos do que podemos colher de nossas
+possessões, e do estofo, que nossas fabricas podem dar. Sigam-se as leis
+velhas do ultimo rei da dynastia de Aviz. Coimem-se e castiguem-se os
+que venderem tecidos estrangeiros e os que os puzerem em obra.
+
+_Um deputado_: Como redigirá o illustre deputado similhante absurdo de
+lei?
+
+_O orador_: Como redigirei? Facilmente. Como D. João II legislou a
+respeito das mulas dos frades. Ora aconteceu que os frades teimaram em
+cavalgar mulas. Que fez então o estomagado rei? Deu sentença de morte
+aos ferradores, que ferrassem as mulas dos frades. E o caso foi que os
+desmontou.
+
+Conclui, sr. presidente.
+
+_O presidente_: Fica reservada para amanhã a palavra ao sr. dr. Liborio
+de Meirelles, e está fechada a sessão.
+
+O dr. Liborio de Meirelles era o deputado portuense, que pedira a
+palavra, durante o discurso de Calisto Eloy.
+
+--Que sairá d'aquelle arganaz?--perguntou o morgado de Agra ao abbade de
+Estevães.
+
+--Dizem que é moço de muita sabedoria, e que já escreveu livros.
+
+Calisto sorriu-se e disse:
+
+--Estou bem aviado, se elle escreveu livros!
+
+
+
+
+IX
+
+*O doutor do Porto*
+
+
+O dr. Liborio de Meirelles, sujeito de trinta e dois annos, cara
+honesta, e posturas contemplativas, reunia os predicados que nos outros
+paizes ou passam despercebidos, ou são solemnisados pela irrisão
+publica; mas, em Portugal, taes predicados alçam o homem ao cume da
+escala politica, e dão-lhe escolta de absurdos propicios até onde o
+parvo laureado quer guindar-se.
+
+Esta pessoa madrugou aos dezoito annos escrevendo poemas satyricos
+contra os titulares portuenses, não porque elle se pejasse de vel-os em
+sua plana, mas porque lhe fugiram d'ella. O progenitor de Liborio era um
+tendeiro, que entrara na estrada franca da fortuna prospera, creando de
+sua cabeça, para uso de gallegos e carretões madrugadores, um mixto
+saboroso e alcalino de licores, que ainda hoje sustentam o credito e
+primasia. Afóra isto, inventara o pae do dr. a aguardente de nabos.
+
+Liborio foi menos feliz que o pae, no genero a que se dedicou. Os seus
+poemas viveram alguns dias afagados pela calumnia, como a belleza das
+collarejas lisongeada pelo rosto derrancado dos libertinos. Depois, o
+filho do tendeiro, graças á baixesa de sua posição social, antes de
+grangear o odio dos insultados, já tinha caido no desprezo d'elles.
+
+Impellido pelo couce do pégaso, Liborio já não podia retroceder. Foi
+para Coimbra: fez-se examinar em latim, e foi reprovado. Desde este
+funesto dia de sua vida, Liborio começou a dizer que era sabio, e, por
+vingança dos examinadores, traduziu um poema latino com tanta claresa e
+fidelidade, que o poema original ficou sendo muito mais intelligivel aos
+ignorantes de latim, do que a versão; com que a memoria de Lucrecio fôra
+ultrajada.
+
+Formou-se e doutorou-se Liborio, sem impedimento de uns _rr_ que, alguma
+vez, lhe acalcanharam o orgulho. Em seguida foi visitar a Europa; e, de
+volta aos lares, achou-se no regaço da estupida fortuna que o beijou, na
+fronte, e lhe disse: «este anhelito de meus beiços côa-te fogo ao
+cerebro! Amo-te, porque careço de ti. Eu sou a Circe dos gregos:
+bestifico tudo que toco, e em ti delego o condão de radiares tua
+bestidade ao cerebro de quem embarrar por ti. Proponho-me transfigurar,
+não já em cochinos, mas em mais nobres alimarias, os regedores da coisa
+publica de Portugal. Tu, dilecto, vae caminho da gloria. Hoje és
+deputado; d'aqui a pouco serás ministro.»
+
+De feito, Liborio estava deputado, á mesma hora em que o fidalgo da Agra
+de Freimas era fadado a ser um dia verberado no parlamento pelo filho do
+inventor da aguardente de nabos.
+
+Calisto entrou á sala, e, digamol-o com espanto de sua fleuma, ia
+tranquillo e até contente, sem embargo de lhe haverem dito alguns
+collegas quão funesto era o contendor que a sua má sorte e imprudencia
+lhe deparara.
+
+O dr. Liborio, dada a palavra, ergueu-se com ademanes não vulgares,
+alisou os bigodes, encravou na orbita esquerda um vidro sem grau, e
+disse:
+
+--Sr. presidente, discorri cêrca d'anno por estranhas plagas. Fui-me
+mundo fóra com o meu bordão e concha de romeiro do progredimento social.
+Bebi a tragos nas enchentes de mel hybleú que desborda dos mananciaes da
+civilisação. Vi muito, vi tudo, que me abraseavam sedes de aprender,
+fomes de Ugolino que rompe seus ferros, e se defronta com lautos
+estendaes de loirejantes iguarias. Que deliquios de exultação me tomavam
+alma! como eu me sentia a tragar luz e humanidade por aquelles climas
+onde o supremo architecto chove inventos a frouxo e a flux! Vi muito, e
+vi tudo, sr. presidente. Encheu-se-me o peito de anhelos pela sorte da
+patria, e d'amores muito seus d'ella, como de filho que do imo das
+entranhas lhe quer. Volvi-me no rumo do ninho meu; e mal se enrubesceram
+os horisontes d'esta minha e tão nossa terra de fragrancias e idyllios,
+assim me coou as fibras do seio um como filtro de melancholia, que me
+subia aos olhos exsudando lagrimas.
+
+(_Calisto Eloy, em perigo de rebentar, ri-se. Parte da camara ciciou-lhe
+um sio prolongado. Calisto accommoda-se e desconfia que a maior parte da
+camara é tola_).
+
+_O orador_: É que eu, sr. presidente, muito a dentro d'alma sentia uns
+rebates de presagio. Locustas de excruciantissimos toxicos, que me
+estavam empeçonhando esperanças, enleios, arrobos e dulcissimas chimeras
+de ainda ver florejarem os agros da patria, estrellarem-se estes céos
+plumbeos e rasgarem-se os horisontes á onda fecundante d'este uberrimo
+torrão. Doeu-me alma, choraram-me olhos, e comprehendi a angustia
+virgiliana do hemestichio: _pulcia linquimus arva_. (_Muitos apoiados_.)
+
+Pois que, sr. presidente? Cançariam maguas a quem se lhe antolhasse ter
+de ainda ouvir n'esta casa voz de homem, de homem nado do ventre d'este
+seculo, de homem que aqui entrou a verter no gasolifacio do templo do
+eterno Christo da eterna liberdade, a drachma ou o talento, a mialha ou
+o thesouro de sua dedicação, repito, sr. presidente, quem deixára de
+estillar bagas de pranto, ao aportar em chão portuguez com o presagio de
+que, alguma hora, havia de ouvir n'este _sancta-sanctorum_ das luzes,
+blasphemias contra o luxo, que é a arteria, a órta do corpo industrial?
+Quem quizera, por tal preço, dizer ás nações cultas: «eu sou d'aquelle
+céo, nasci n'aquelle jardim de magas, onde Camões poetou glorias para
+invejas do mundo? Sou da terra dos laranjaes onde suspirou Bernardim?
+Sou da raça dos bravos que perpetuavam Aljubarrota, Badajoz, Valverde?
+(_Apoiados prolongados_.) Na minha terra... (quem quererá já dizer!)
+nasceram Gamas, nasceram Cabraes, e Castros, e Abuquerques, Nunes e
+Regras? Quem sr. presidente?
+
+(_Calisto pede a palavra_.)
+
+_O orador_: Que é o luxo? Perguntae ao selvatico das florestas invias o
+que é o seu _hamac_, e ao europeu o que é o seu almadraque de plumas,
+tão crato e flacido ás evoluções corporeas. Perguntae ás bellas europeas
+que lhes faz a grinalda de brilhantes, e ás bellas da Florida que prazer
+lhes insinuam os vitreos adornos de variegadas côres. Oh! o luxo! o
+luxo, senhores, é marco miliario de civilisação, a pomba que se volita
+da arca, e se vae espanejando de azas por céos e terras além, recobrada
+dos pavores primeiros, e saltitando de frança em frança. Oh! que
+rejubilos de coração para quem fadado lhe foi de cima o entender e amar,
+que o comprehender é amar, na phrase incisiva e galharda de Victor Hugo!
+
+Sr. presidente! O coração da França, o encephalo, o grande nervo da
+França é o luxo. E eu estive na França, sr. presidente, fui lá para me
+reverberarem nos cristaes d'alma os lumes d'aquella perla d'Offir! Ai! a
+França! Quando nos entreluzem os zimborios da moderna Babylonia, «_a
+esperança remonta-se-nos em rasgado vôo para tudo mais vasto, mais
+copioso, mais opulento, a espirar vida e bem para o alto, para o largo e
+de muita benção, a branquear-nos a casinha da serra, a florir-nos o
+pomar da veiga, a dar-nos canções e alegrias no artifice_.» [11]
+
+O luxo, sr. presidente, é o espantalho dos animos sandios e cainhos.
+
+_O deputado Calisto_: Seja pelo amor de Deus!
+
+_O orador_: Pois seja, e muito que lhe preste ao collega, que mister se
+lhe faz perdão de Deus pelas blasphemias economicas que ejaculou, sem
+dar de olhos na civilisaçao, matrona prestimosa, que toda se desentranha
+em blandicias e florinhas de viço e olor para opulentos e desremediados.
+
+_O deputado Calisto_: Isso que diz em vernaculo?
+
+_O orador_: Que me não falle á mão, se lhe sobranceio o intellecto.
+Affigura-se-me, sr. presidente, que tenho pela frente sombra, e sombra
+de que não ha temermo-n'os. Não sei, á bofé, com quem me esgrimo.
+Propugnar por artes, pôr peito a defender industrias, ruir os cancêlos
+das fabricas, bafejar incentivos á imaginativa do artifice, emfim e
+derradeiramente, encarecer a utilidade do luxo, isto me está assetteando
+o animo temeroso de desfechar injuria ao progresso, á idéa, ao _fiat_, á
+humanidade! Para que me estou aqui afadigando e derramando, sr.
+presidente se só mumias podem sair-me com esgares, de encontro ao
+civilisador principio? (_Muitos apoiados_.)
+
+Corre-me obrigação de silencio. Já de contricto me recolho, e da
+offensa, á luz me penitencío; que eu me estive a espancar trevas que, em
+que pese a pávidos agoireiros, já não hão de espessar-se em derredor do
+sol esplendorosissimo.
+
+_E, pois, antevejo que não ha mais dizer, sem entibiar-me a nota de
+repetições, aqui ponho fecho_.[12]
+
+_O orador foi comprimentado_.
+
+O _presidente_: Tem a palavra o nobre deputado Calisto Eloy de Silos de
+Benevides de Barbuda.
+
+--Sr. presidente!--disse Calisto--Eu entendi quasi nada, porque o sr.
+deputado dr. Liborio não fallou portuguez de gente (_riso nas
+galerias_.) As laranjas, espremidas de mais, dão sumo azedo, que corta a
+lingua. O sr. deputado fez do seu idioma laranja azeda. Se a linguagem
+portugueza fosse aquillo que eu acabo de ouvir, devia de estar no
+vocabulario da lingua bunda. Parece me que os obreiros da torre de
+Babel, quando Deus os puniu do atrevimento impio, fallaram d'aquelle
+feitio! (_Ordem_! _ordem_!)
+
+O _orador_: Ordem, srs. deputados, peço eu para a lingua portugueza!
+Peço-a em nome dos illustres finados Luiz de Sousa, Barros, Couto, e
+quantos, no dia do juizo, se hão de filar á perna do sr. dr. Liborio.
+
+O _presidente_: Peço ao illustre deputado que se abstenha de usar
+phrases não parlamentares.
+
+O _orador_: Tomo a liberdade de perguntar a v. ex.^a se as locuções
+repolhudas do illustre collega são parlamentares; e, se o são, peço
+ainda a mercê de se me dizer onde se estudam aquellas farfalhices.
+(Vozes: _Ordem_! _ordem_!)
+
+O _orador_: Quando aquelle senhor me chamou _sandio_, não foi violada a
+ordem? (_Apoiados_). Ora pois: eu não quero desordens. Vou pacificamente
+responder ao sr. deputado, como souber e podér. Estou a desconfiar que a
+minha linguagem secca e desornada raspará nos ouvidos da camara, que
+ainda agora se deleitou com a rethorica florida do sr. deputado do
+Porto. Sou homem das serras. Creei-me por lá no tracto facil e chão dos
+velhos escriptores: aprendi coisa de nada, ou pouquissimo. A mim,
+todavia, me quer parecer que o fallar gente palavras do uso commum é
+coisa util para nos entendermos todos aqui, e para que o paiz nos
+entenda. Do menospreço d'esta utilidade resulta não poder eu
+aperceber-me de razões para cabalmente responder aos argumentos do
+discreteador mancebo. Percebi, a longes, pouquinhas idéas; porém,
+querendo Deus, hei de, se me ajudar a paciencia com que estudei o idioma
+de Thucydides, decifrar os dizeres de s. ex.^a no «_Diario das
+Camaras_.» (_Riso_).
+
+O illustre deputado quer que o luxo indique a riqueza das nações. Isto é
+o que eu entendi do seu arrasoamento. Em França viu s. ex.^a mosquitos
+por cordas. Pois, sr. presidente, eu li que, em França, onde o luxo é
+maior, ahi é menor, em proporção, o numero dos individuos ricos (Vozes:
+_apoiado_!) Este caso, se é verdadeiro, corta pela haste as flores todas
+dos jardins oratorios do sr. dr. Liborio. Que mais disse s. ex.^a?
+Faça-me a graça de m'o achanar na linguagem caseira com que o diria á
+sua familia em _pratica como do lar_, consoante phrase a D. Francisco
+Manuel de Mello na _Carta de Guia_.
+
+O _dr. Liborio de Meirelles_: Não velei as armas do raciocinio para me
+ir á liça da absurdeza. Melhores fadas me fadaram; e não me estou aqui
+sabbatinando como em pleitos de bancos escolares. (Vozes: _Muito bem_.)
+
+O _orador_: Muito bem o que?... Vae-me parecendo historia isto, sr.
+presidente!... Eu queria-me entender com o sr. deputado, afim de
+tirarmos algum proveito d'este debate; mas s. ex.^a, pelos modos por me
+vêr assim minguado de affeites poeticos, acoima-me de absurdidade, e
+despreza-me!... Valha-me Deus! Se o sr. dr. Liborio me não lançasse da
+sua presença com tamanho desamor, havia de perguntar-lhe por que foram
+Athenas e Roma bem morigeradas quando pobres, e corrompidas quando ricas
+e luxuosas? Havia de perguntar-lhe que artes e sciencias progrediram
+entre os sybaritas e lydios, povos que a mais elevado gráo de luxo
+subiram? Havia da perguntar-lhe por que foi que os persas acaudilhados
+por Ciro cortados de vida aspera e privada do necessario, subjugaram as
+nações opulentas? Havia de perguntar-lhe porque foram os persas, logo
+que se deram ás delicias do luxo, vencidos pelos lacedemonios?
+
+A suprema verdade, sr. presidente, a verdade que os arrebiques da
+rhetorica não seduzem, é que á medida que os imperios antigos se
+locupletavam, o luxo ia de foz em fóra, e os costumes a destragarem-se
+gradualmente, e o pulso da independencia a quebrantar-se, e os cimentos
+das nações a estremecerem. Depois, era o cair do Egypto, da Persia, da
+Grecia e Roma.
+
+Até aqui a historia, sr. presidente; d'aqui em diante o sr. dr. Liborio
+de Meirelles, o moço poeta, que foi a França, e achou desmentidos
+Xenophonte e Thucidydes, Livio e Tacito, Plutarcho e Flavio.
+
+O sr. dr., a meu juizo, é sujeito de grande imaginativa. Bonita coisa é
+idear fabulações em academia de poetas; porém, n'esta casa, onde a nação
+nos manda depurar a verdade dos fallaciosos ornatos com que a mentira se
+arrea, mister é que sejamos sinceros. Já o insigne author dos _Apologos
+dialogaes_ disse que a _imaginação era curral do conselho, onde, por não
+ter portas, todo o animal tinha entrada_. Bom é tambem que os moços
+muito imaginativos senão pavoneem até ao philaucioso sobrecenho de
+passarem alvará de sandeus á gente que raciocina mais porque imagina
+menos. É permittido aos versistas poetarem em prosa; mas as liberdades
+poeticas não ajustam bem nos debates circumspectos da res publica.
+
+Vou concluir, sr. presidente, votando contra a proposta do illustre
+collega, que propoz a reducção dos direitos aduaneiros das sedas, e
+pedindo ao sr. dr. Liborio, que, se outra vez me der a honra de imbicar
+com este pobre homem lá das montanhas da raia, haja por bem de se
+expressar em linguagem correntia. Não sou homem de salvas e rodeios:
+digo as coisas á moda velha. Quero-me portuguez com os do sujeito, verbo
+e caso no seu competente logar. E, se assim não fôr, ir-me-hei com
+aquellas palavras que ouviu Arsenio: _Fuje, quíesce, et tace_; «foge,
+socega, e não falles.»
+
+Sentou-se Calisto Eloy. Alguns deputados anciãos do partido liberal
+foram cumprimental-o; e outros, que se pejaram de imitar os velhos,
+encararam no rustico provinciano com cortezia e tal qual veneração.
+Calisto Eloy ganhára consideração na camara e no paiz.
+
+Os deputados governamentaes acercaram-se d'elle, convidando-o em termos
+delicados a aceitar, no banquete do progresso, o logar que a sua
+intelligencia reclamava. Os deputados opposicionistas conjuravam-no a
+não levantar mão de sobre os projectos depredadores com que a facção
+governamental andava cavando novas voragens ao paiz.
+
+O morgado da Agra respondia que estava descontente de gregos e troyanos,
+e acrescentava:
+
+--Não sei, por ora, de qual dos lados da camara se falla peor a lingua
+patria. Tenho ouvido os quinhentistas á la moda, e os galliparlas. Todos
+ressabem á hervilhaca; uns estão gafados de francezias, outros tresandam
+nos seus dizeres o bafio que os bons seiscentistas regeitaram. Carecem
+de cunho nacional estes homens. O máo portuguez principia a sel-o, desde
+que mareia a pureza de sua lingua. Dêem-me portuguezes de lingua, e eu
+me bandearei com elles, como com portuguezes de coração. Com aquelle dr.
+Liborio do Porto nem para o céo. Tenho medo que Deus o não entenda, e
+nos ponha ambos fóra de cambulhada.
+
+
+
+
+X
+
+*O coração do homem*
+
+
+Entremos no coração de Calisto Eloy.
+
+Cuidava o leitor que não tinhamos que entender com aquella entranha do
+homem? Estou que a julgaram inviolavel ás suspeitas da historia em acto
+de tanto alcance na biographia d'este personagem!
+
+Já se disse que orçava pelos quarenta e quatro o morgado. N'aquella
+edade, se ha fibras virginaes no coração, eram as d'elle.
+
+Casára com sua prima Theodora, menina estimabilissima por virtudes, mas
+mais feia do que pede a razão que seja uma senhora honesta. A noiva
+deixou-se ir pela mão do pae á casa do esposo. Não ia alegre nem triste.
+Tanto se lhe dava casar com o primo Calisto como com o primo Leonardo.
+Logo que o pae lhe consentiu que levasse para Caçarelhos umas tres
+duzias de gallinhas e parrecos, que ella creara, não lhe ficou na casa
+natal coisa para sérias saudades.
+
+Encontrou marido ao pintar. Coraram ambos ao mesmo tempo, quando o
+bulicio das festas nupciaes se aquietou e a mãe do noivo lhes disse:
+«Meninos, cada môcho a seu soito» phrase amenissima que em pouco e
+depressa exprime a muita poesia de toda aquella família.
+
+Calisto, ao outro dia da primeira noite de esposo, por volta das sete
+horas da manhã, já estava a ler a _Viagem á terra santa_, por frei
+Pantaleão de Aveiro; e, á mesma hora a noiva andava de pé sobre um catre
+de pau preto rendilhado, com uma bassoira de giesta, a limpar teias de
+aranha do tecto.
+
+Almoçaram, e foram visitar o pae e o sogro, em cuja casa jantaram.
+Durante a visita, a sr.^a D. Theodora esteve a ensinar uma criada a
+engommar as camisas do pae; e Calisto, como descobrisse n'um armario um
+tratado de alveitaria de 1610, levou-o de um folego, e tirou
+apontamentos, visto que o sogro se tratava por aquelle tratado,
+diminuindo as doses das drogas. Não sei quem lhe dissera a elle que o
+sr. D. João IV, nas doenças graves, se medicava com um veterinario.
+
+Ora, d'este começo de amores infiram v. ex.^as o restante d'aquella doce
+vida!
+
+Theodora tomou a cargo os cuidados domesticos de sua sogra, e muitos do
+tracto com caseiros, vendo que o marido, tirante as horas de comer, não
+saia da livraria, onde a mulher, como amavel sombra, o ia visitar, e
+olhando com desdem sobre os infolios, dizia-lhe:
+
+--Ó homem, ainda não acabaste de ler estes missaes?
+
+--Isto não são missaes, rapariga. Não estejas a profanar os meus
+classicos.
+
+A esposa não entendia isto, e pedia-lhe que lhe lêsse pela vigesima vez
+as _Sete partidas de D. Pedro_. E o bom marido lia-lhe pela vigesima vez
+as _Sete partidas_, porque estavam escriptas em portuguez de lei. Vida
+para invejar! paraiso em que Deus se esqueceu de mandar o anjo do
+montante de fogo vedar a entrada!
+
+Discorreram annos, sem que o morgado tivesse de perguntar á sua
+consciencia a explicação do minimo alvoroto de sangue na presença de
+mulher estranha. Andava por feiras, quando a mulher o mandava comprar
+utensilios agricolas; pernoitava por diversas casas da provincia,
+famosas pela belleza das donas, e contava-lhes casos mirificos de suas
+leituras, se acontecia não achar livro velho, que lhe deliciasse o
+serão.
+
+Da maior, e talvez unica dôr litteraria da sua vida, fui eu causa.
+Calisto, pernoitando em não sei que solar de damas dadas á leitura
+amena, pediu algum livro, e deram-lhe um romance meu. Consta-me que
+deixou o volume com as margens annotadas de gallicismos e nodoas de toda
+a casta. Imaginem quantas punhaladas eu dei n'aquelle lusitanissimo
+coração!
+
+Afóra este incidente, as boninas da vida campestre floriam
+immarcessiveis para o homem de bem, raro exemplo de compostura; salvo
+quando lhe beliscavam a estirpe que, então, como já disse, retaliava
+descaridosamente, e revelava a quebra contingente de todo homem
+imperfeito de sua natureza. Isto creou-lhe inimigos; mas detrahidores de
+sua fidelidade marital nenhum tentou infamar-lhe o bom nome. Das
+virtudes conjugaes de Theodora até me treme a penna sómente de escrever
+isto para encarecel-as! Duvide-se da pureza das onze mil virgens, antes
+de maliciar suspeitas d'aquella matrona, em tudo romana, do puro estofo
+das Cornelias, Poncias e Arrias.
+
+Com esta pureza de vida entrara em Lisboa o morgado da Agra.
+
+Ahi está um como Daniel á beira da fornalha. Ahi está o homem-anjo!
+Quarenta e quatro annos immaculados! Um coração que, se algumas imagens
+tem gravadas, são as dos frontispicios apparatosos de alguma edição
+princeps, d'algum Elsevir annotado por Grenobio.
+
+
+
+
+XI
+
+*Santas ousadias!*
+
+
+Natural coisa é que este sujeito, intangivel ás caricias do amor, seja
+severo e intolerante com as fragilidades do coração.
+
+Aconteceu-lhe frequentar, uma noite por outra, a sala d'um antigo
+desembargador do paço, que era pae de duas galantes senhoras, uma casada
+e outra solteira.
+
+Soou aos ouvidos de Calisto Eloy, que uma das illustres damas innodoava
+sua gentileza e prosapia, violando os deveres de esposa. Fez-lhe sangrar
+o coração honrado tão funesta nova, e communicou elle o seu espanto e
+dôr ao collega abbade. O abbade desfechou-lhe na cara uma estrallada de
+riso civilisado, e disse-lhe:
+
+--Ora o morgado tem coisas! V. ex.^a parece que caiu, ha pouco, de algum
+planeta! Olhe que Lisboa não é Miranda, meu amigo. Se o morgado tem de
+espantar-se por cada caso d'estes que chegar ao seu conhecimento, a sua
+vida na capital tem de ser um permanente ponto de admiração!... Deixe
+correr o mundo...
+
+--Que remedio!--atalhou o morgado--mas o que eu farei é sacudir o pó dos
+meus botins á porta das casas, cuja desordem de costumes me escandalisa.
+Não voltarei a casa do desembargador Sarmento.
+
+--Faça v. ex.^a o que quizer; porém, consinta que eu reprove similhante
+procedimento, por duas razões; seja a primeira, que o desembargador e a
+familia receberam o sr. morgado com cordeal affecto; segunda razão, é
+que v. ex.^a já não está em edade de perder a sua virtude seduzida por
+máos exemplos. Faça como eu: lamente as miserias dos homens, e viva com
+elles, sem participar-lhes dos defeitos; porque, meu nobre amigo, se a
+gente vae a regeitar as relações das familias, justa ou injustamente
+abocanhadas pela maledicencia, a poucos passos não temos quem nos
+receba.
+
+--Eu tenho os meus livros, accudiu Calisto.
+
+--E os seus livros, as suas chronicas, os seus classicos gregos e
+latinos não lhe contam enormes desmoralisações? V. ex.^a, que leu a vida
+romana em Tacito, e Apuleio, e no Festim de Trimalicão de Petronio...
+
+--De qual Petronio?--interrompeu o morgado. Foram doze os Petronios em
+Roma, e todos escreveram com mais ou menos despejo.
+
+--Pois melhor. Se v. ex.^a leu doze, eu li um, que era o ecónomo, ou
+arbitro dos prazeres de Nero, e este me bastou para edificação do meu
+espirito. Pois se o meu amigo póde ler sem horror as infamias das
+saturnaes, e os mysterios da deusa Bona, e quejandas protervias dos
+antigos tempos, como póde espantar-se do que ouve dizer da filha do
+desembargador Sarmento, que a final de contas, póde estar innocente do
+crime que lhe assacam?! Não a vê v. ex.^a filha cuidadosa, mãe
+estremecida, e esposa honesta na apparencia? Já a ouviu defender theses
+da moral do adulterio? Que lhe importa a v. ex.^a o que se passa lá na
+vida privada da mulher?
+
+Calisto deteve-se breves instantes com a resposta, e disse:
+
+--Acho-lhe razão, sr. abbade, não tanto pelo que disse, como pelo que
+não disse. As pessoas de vida impolluta devem acercar-se d'aquellas que
+prevaricam. Lá vem uma hora em que o conselho é taboa salvadora... Quem
+sabe se eu terei predestinação de desviar aquella senhora do caminho
+máo!?...
+
+--É verdade--assentiu o abbade;--mas é justo e urbano que v. ex.^a não
+vá interrogal-a sobre coisas do fôro intimo.
+
+--Não me ensine as leis da cortezia, abbade--replicou algum tanto
+affrontado o fidalgo da Agra.--Eu não me fiz em alcatifas de salas; mas
+aprendi a policia e trato humano nas lições de galãs afamados como D.
+Francisco Manuel. E, demais d'isso, meu caro sr. abbade, não me peça
+Deus conta de minha soberba, se lhe eu digo que o bom sangue como que já
+tem congeniaes e infusas em si as regras da urbanidade cortezã. Não se
+fazem mister directorios de civilidade a sujeitos, que herdam com a
+fidalguia a indole de avoengos palacianos, feitos nas côrtes, e affeitos
+a sentarem-se na ourella dos thronos.
+
+--Não ponho duvida n'isso;--obtemperou o abbade, e accrescentou com
+malicia e bem rebuçada ironia--alguns fidalgos muito mal-creados que
+tenho topado, em quanto a mim, não lhes faltou a herança de polidez;
+foram elles que propriamente derrancaram sua indole, até se fazerem
+plebe grosseira e ignobil.
+
+--Acertadamente--disse o morgado.
+
+--Eu ensinar cortezia a v. ex.^a!--insistiu o deputado bracharense.--A
+minha observação tendia a moderar os impulsos descomedidos da sua justa
+censura aos máos costumes da sr.^a D. Catharina Sarmento. _Noli esse
+multum justum_, diz o Ecclesiastico.[13] Bem fidalgos e policiados eram
+S. Domingos de Gusmão, S. Francisco de Borgia, e Santo Ignacio de
+Loyola, todavia, bem sabe v. ex.^a com que exempção e santa descortezia
+elles invectivavam as corruptelas da mais elevada sociedade, em rosto
+dos proprios delinquentes.
+
+--Mas eu não sou apostolo--acudiu Calisto.--Conheço que já não vim a
+tempo, nem a missão me condecora.
+
+Assim mesmo, sem desaire das pessoas, hei de pôr a pontaria aos vicios,
+e, se poder, influirei pensamentos de emenda ao animo dos viciosos.
+
+N'uma das seguintes noites, foi Calisto ao chá do desembargador
+Sarmento. Achou mais abatido e melancholico o antigo magistrado.
+Estiveram conversando á puridade sobre o desgosto que revia á face do
+hospedeiro ancião. Crê-se que Sarmento lhe dissera que sua filha
+Catharina, depois de haver casado por paixão, com cedo se desaviera da
+vontade do marido, e este da estima d'ella; de modo que raro dia
+deixavam de altercar e renhir por motivos insignificantes. D'isto
+resultava a tristeza constante do velho, acrescentada agora com ter-lhe
+dito alguem que sua filha andava infamada pela voz publica.
+
+--Ferro penetrante--exclamou o desembargador--que me traspassou este
+corpo já fraco, e pendido á campa.
+
+Calisto apertou-o nos braços e clamou:
+
+--Amigo e senhor meu! A desgraça não derrete o aço dos peitos fortes.
+Tenha-se v. ex.^a arrimado ao bordão de sua honra, que não hão de
+adversidades derribal-o. Aqui me ponho de seu lado, com a fortaleza da
+amizade, para, como filho de v. ex.^a e irmão da sr.^a D. Catharina,
+minha senhora, tirar a limpo da sugidade da calumnia, se o é, a virtude
+d'ella, e o contentamento de v. ex.^a. Aqui vem de molde o repetir as
+palavras affectivas do meu dilecto Heitor Pinto, no tractado da
+_Tribulação_: «O que eu queria é que a boceta de vossas angustias
+estivesse depositada em minhas entranhas, e que os meus bens fossem
+vossos, e os vossos males fossem meus.»
+
+Ouvido isto, o desembargador commoveu-se até ás lagrimas, e disse com
+mui entranhado affecto:
+
+Quem me dera assim um marido para a minha Adelaide, que n'esta casa
+reinaria o socego da virtude! Agora vejo que lá nos escondrijos dos
+mattos da provincia se refugiaram as reliquias da honra portugueza!
+Ditosa senhora a que avassallou tão honesta alma!
+
+D'ahi a pouco, o morgado da Agra, buscando azo de estar apartado com
+Catharina a um canto da sala, e praticando sobre livros perigosos,
+rompeu elle n'esta pergunta:
+
+--A sr.^a D. Catharina já leu Homero?
+
+--É romance? disse ella.
+
+--Romance ou fabulado de alta moral lhe havemos de chamar; não já
+romances d'uns que, de oitiva o sei, por ahi impestam a sociedade. Na
+Iliada de Homero achei dois pares de casados; um é Paris, que se
+matrimoniou com Helena; o outro é Ulysses, que se casou com Peneloppe.
+Os primeiros, cubiçosos e voluptuarios, cobriram a Grecia de
+calamidades; os segundos, prudentes e discretos, foram o modelo do
+thalamo ditoso.
+
+Fez Calisto uma longa pausa, e proseguiu, interpollando os dizeres com
+algumas pitadas, que solemnisavam a gravidade das fallas.
+
+--Ninguem devera casar sem muito lêr e sem applaudir aquelles preceitos
+do casamento, escriptos pelo eminentissimo Plutarcho.
+
+--Não conheço, disse a dama... Li _Le mariage_, de Balzac.
+
+--Não sei quem é: deve ser francez.
+
+--Pois não leu?
+
+--Eu não leio francez. Não me chega o meu tempo para tirar aguas sujas
+de poços infectos. Plutarcho é oraculo n'esta materia. Um pensamento lhe
+li que me chegou á medula, e que ainda agora em Lisboa me saiu
+explicado. Diz elle algures. «Não podem as mulheres convencer-se de que
+Pasiphae, bem que esposa d'um rei, se enamorasse apaixonadamente de um
+touro; ao passo que estão vendo, sem espanto, mulheres que menospresam
+maridos benemeritos e honrados, e se dedicam a homens bestificados pela
+libertinagem.» Asseveram-me os pilotos peritos n'estes mares verdes e
+aparcellados da capital, que ha d'isto muito por aqui.
+
+--É possivel... balbuciou D. Catharina.
+
+--E porque não ha de ser, se algumas senhoras conheço eu casadas, tornou
+Calisto, que andam com os braços nus fóra das alcovas do seu leito
+nupcial!...
+
+--E isso que tem?--atalhou a dama--é a moda...
+
+--A moda, que franqueia as portas aos ruins desejos, ás cogitações
+viciosas, aos afrontamentos, ao pudor. Aquella filha de Pytagoras, a
+quem encareceram o feitio do braço, respondeu: «Bello é; mas não para
+ser visto». Na Andromacha de Euripedes, Hermion exclama:
+«Infelicitei-me, consentindo que de mim se achegassem mulheres
+preversas.» Quantas damas de hoje em dia poderão dizer, e na consciencia
+o estarão dizendo: Consenti, para minha desgraça, que preversos homens
+convisinhassem de mim!...
+
+--Mas onde quer v. ex.^a chegar com o seu discurso? interrompeu a filha
+do desembargador.
+
+--Á razão da sr.^a D. Catharina, minha senhora.
+
+--Como assim?! quem o auctorisa...
+
+--As lagrimas de seu ex.^{mo} pae.
+
+--Veja lá, sr. Barbuda, que se não equivocasse com as lagrimas de meu
+pae... A minha reputação e costumes repellem similhantes allusões, se o
+são.
+
+--Peores do que estas, sr.^a D. Catharina, minha senhora, peores
+referencias do que estas lhe faz a voz do mundo.
+
+--A mim?
+
+--Á fé! que sim! Dou-lhe em penhor da verdade a minha honra.
+
+--Mas--interrogou irada e rubra de despeito a dama--que ousadia a de v.
+ex.^a fallar assim a uma senhora, que apenas conhece!... Olhe que essas
+liberdades de provincia não se usam cá em Lisboa.
+
+--Não se moleste assim, minha senhora--tornou Calisto.--Respeito tanto
+v. ex.^a quanto estimo seu venerando pae. O atrevimento é grande, maior
+será a magnanimidade de v. ex.^a em perdoar-m'o. Lagrimas de velho e de
+pae dão estranho ousio. Desgraças sobranceiras incutem alentos
+destemidos nas mais fracas almas. No proposito de conjurar a tormenta,
+que se encapella e ameaça de sossobrar a felicidade de uma familia
+illustre, é que eu, sr.^a D. Catharina, me affoitei a ser o advogado
+espontaneo do bem de todos.
+
+--Agradeço o zelo; mas agradecera-lhe mais a discrição--disse D.
+Catharina; e, retirando-se, fez uma ceremoniosa mesura a Calisto.
+
+Não voltou mais á sala a dama. O desembargador não desfitava olhos de
+Calisto Eloy, que se assentou meditativo no mais assombrado do recinto.
+
+Erguera-se do voltarete o abbade de Estevães, e abeirou-se d'elle,
+dizendo:
+
+--Desconfiei que v. ex.^a estava missionando a dama... Amolleceu-a?
+
+Calisto ergueu a fronte, enclavinhou os dedos das mãos sobre o peito
+consternado, e murmurou:
+
+--Agora acabo de entender o meu padre Manuel Bernardes.
+
+E repetiu em tom cavo:
+
+«...Converto minha attenção, e temor a ti ó Lisboa, Lisboa, considerando
+o que em ti passa. Medo me fazem tuas corrupções tão graves e tão
+devassas, que já o lançar-t'as em rosto, não seja nos zelosos falta de
+prudencia, senão obra de magua.»
+
+Depois, suspirou, e cheirou rapé.
+
+
+
+
+XII
+
+*O anjo custodio*
+
+
+Santa audacia! Bizarra indole de antigo cavalleiro, que abriga no peito
+a generosidade com que os heroes dos Lobeiras, Barros, e Moraes se
+lançavam ás aventurosas lides, no intento de corrigir vicios e
+indireitar as tortuosidades da humana maldade!
+
+Não desanimou Calisto Eloy, tão desabridamente rebatido por D. Catharina
+Sarmento.
+
+Averiguou quem fosse o galan d'aquella cega dama, e facilmente lh'o
+nomearam. Era um gentil moço, ouzeiro e vezeiro de similhantes baldas,
+enfatuado d'ellas, e respondendo por si com sabre ou florete, quando
+gente intromettida em vidas alheias lhe fallava á mão.
+
+O informador do morgado esplanou diffusamente as qualidades do sujeito,
+relatando as victimas, e os acutilados na defeza d'ellas.
+
+Occorreu á memoria de Calisto aquella apostolica e heroica intrepidez de
+fr. Bartholomeu dos Martyres, quando foi a defrontar-se com um criminoso
+e façanhudo balio, que promettia engulir o arcebispo de Braga, e o
+collegio dos cardeaes com o proprio papa, se necessario fosse! Grande
+coisa é ter lido os bons classicos, se desejamos saber a lingua
+portugueza, e crear alentos para atacar velhacos!
+
+Ahi vae o esforçado Calisto Eloy de Silos em demanda de D. Bruno de
+Mascarenhas. Um escudeiro annuncia ao fidalgo um ratazana.
+
+--Quem é um ratazana?--pergunta D. Bruno.
+
+É um sujeitorio, diz o criado, vestido ratonamente, e não diz o nome,
+porque v. ex.^a o não conhece.
+
+--Que quer elle?
+
+--Fallar com v. ex.^a
+
+Vae perguntar-lhe quem é, d'onde vem, e que quer.
+
+Interrogou o criado com máo semblante o morgado.
+
+Calisto escreveu n'uma pagina rasgada da carteira, e perguntou ao criado
+se sabia lêr. Disse que não o interrogado.
+
+--Pois entrega esse papel a s. ex.^a
+
+D. Bruno leu, meditou algum espaço, e perguntou:
+
+--Sabes se em casa do desembargador Sarmento ha algum criado chamado
+Custodio?
+
+--Não, senhor, não havia até hontem; só se entrou hoje.
+
+--Esse homem que ahi está dá ares de criado?
+
+--Não, senhor: é assim um jarreta vestido á antiga, com uma gravata que
+parece um colete.
+
+--Manda-o entrar para aqui.
+
+D. Bruno releu a linha escripta a lapis, e disse entre si:
+
+--Que Custodio é este!?
+
+N'isto, assomou Calisto Eloy.
+
+Bruno de Mascarenhas adiantou-se a recebel-o, e disse-lhe maravilhado.
+
+--Eu já tive a honra de comprimentar v. ex.^a no escriptorio da _Nação_.
+V. ex.^a é o sr. Calisto Eloy de Barbuda.
+
+--Sou, e agora me recordo que já tive o prazer de o encontrar...
+
+--Mas v. ex.^a n'este bilhete diz que é Custodio!--tornou Bruno.
+
+--Custodio, que é sinonymo de anjo-da-guarda, ou anjo-custodio da
+ex.^{ma} sr.^a D. Catharina Sarmento.
+
+Abriu o moço a bôcca, e disse:
+
+--Ah... agora é que eu entendi... Mas... queira v. ex.^a sentar-se... Eu
+não sei que allusão possa ser esta... que... a respeito de...
+
+Calisto sentou-se, estendeu o braço direito com a mão aberta, e atalhou
+o enleio de Bruno, dizendo solemnemente:
+
+--Vou fallar.
+
+E, apoz curta pausa, relanceou discretamente os olhos á porta, como quem
+receia ser ouvido.
+
+--Póde v. ex.^a fallar, que eu fecho a porta, disse o confuso
+Mascarenhas.
+
+--O sr. Bruno de Mascarenhas--proseguiu o morgado--é solteiro. Cedo ou
+tarde ha de ser casado, por que é varão de preclarissima linhagem, e
+duas forças invenciveis hão de compellil-o a propagar-se: o sentimento
+congenito da especie, e a gloria, que vangloria não é, da prosecução da
+raça.
+
+(Este exordio abrupto invencilhou os espiritos de D. Bruno, os quaes
+eram pouco entendidos em estylo garrafal.)
+
+Façamos de conta--proseguiu Calisto--que v. ex.^a é hoje, como será,
+volvidos mezes ou annos, casado com uma dama egual em sangue, de honrada
+fama, acatada do conceito geral, dama emfim, na qual v. ex.^a empregou
+suas complacencias todas. Á boa dita de esposo succede-lhe a
+prosperidade de pae. Vê v. ex.^a em redor de si umas alegres
+creancinhas, que o beijam e o furtam com graciosas blandicias ás graves
+cogitações dos negocios, e aos aborrimentos que salteam as existencias
+mais descuidadas e desprendidas. A mãe dos filhinhos de v. ex.^a é o
+cofre de oiro: as creanças são as joias inestimaveis que v. ex.^a lá
+encontrou e lá encerra.
+
+A mãe é a flôr, os filhos são o fructo. V. ex.^a arde de amores d'elles
+e d'ella. Por que a sua familia é não sómente a sua alegria domestica,
+senão que lhe é fóra de casa um pregão da honestidade e honra que vae
+n'ella.
+
+De repente, quando v. ex.^a está meditando nos jubilos da velhice, com
+seus filhos já homens, com sua esposa laureada pelas cans sem macula, de
+repente, digo, ha um amigo em lagrimas, ou um inimigo secretamente
+satisfeito, que, lhe diz: «Tua mulher deshonra-te; essas creanças, que
+tu affagas, e para quem estás multiplicando os teus haveres, podem não
+ser teus filhos, por que tua mulher prevaricou.» Pergunto eu ao ex.^{mo}
+Bruno de Mascarenhas: a sua agonia, n'essa hora de atroz revelação, como
+hão de expressal-a os que a não sentiram ainda?
+
+--Não sei...--respondeu Bruno--Só, no caso de se darem as circumstancias
+que v. ex.^a diz, é que se póde responder.
+
+--Todavia, o seu entendimento e coração, já antes da experiencia, podem
+antever qual deva ser a agonia do marido deshonrado pela ignominia de
+sua mulher...
+
+--Sim...
+
+--Até aqui a hypothese em v. ex.^a: agora o exemplo em Duarte de
+Malafaya, marido de D. Catharina Sarmento. Duarte era rico, e dos mais
+fidalgos; por excesso de amor casou com D. Catharina, filha de um
+nobilissimo cavalheiro, porém magistrado empobrecido pelos desconcertos
+da politica. Duarte entrou n'aquella casa, restaurou a decencia antiga,
+e encostou ao seio as cans do magistrado octogenario, assegurando-lhe o
+socego e contentamentos dos annos ultimos da vida.
+
+Decorridos cinco annos, Duarte tem cinco filhos. São anjos que descem a
+povoar o paraiso d'aquella ditosa familia. Brincam á volta de sua mãe, e
+como que lhe estão dando os alegres emboras da felicidade que elle está
+gosando, e lhe augura a elles.
+
+É n'este ensejo que o inferno se abre aos pés d'esta familia honrada e
+ditosa. Surge das tenebrosas agonias um homem que despedaça ás mãos os
+laços humanos e divinos da santa união do velho, da filha, do genro, e
+dos netos. Ora, o homem que os assaltou no seu eden, foi o sr. D. Bruno
+de Mascarenhas.
+
+--Eu!...--exclamou o moço com artificial espanto.
+
+--V. ex.^a. Vejo-o admirado, não sei se da minha affoitesa, se da
+responsabilidade que lhe pesa, sr. D. Bruno!
+
+--Mas que houve em casa do Sarmento?--perguntou alvoroçado o fidalgo.
+
+--O que eu antes de hontem vi foi a face do ancião lavada de lagrimas. O
+que eu vi hontem á noite foi Duarte de Malafaya fitar os olhos nas
+creancinhas, e escondel-os para que o não vissem chorar. O que hoje
+verei em casa do desembargador Sarmento, se v. ex.^a o não presagia...
+Não temos tempo para conjecturas: a chaga deve ser cauterisada já, para
+não ser gangrena ámanhã. Quer v. ex.^a ajudar-me a conjurar a nuvem
+negra que vae rasgar-se em torrentes de desgraças?
+
+D. Bruno reflectiu dois segundos, como se houvesse pejo de responder, no
+primeiro instante:
+
+--Da melhor vontade. Eu desisto d'estas relações, para evitar desgostos
+serios á sr.^a D. Catharina.
+
+--Falla-me um honrado portuguez, que tem o appellido dos Mascarenhas?
+perguntou com solemnidade o Barbuda.
+
+--Juro pela honra de meus avós.
+
+--Que vae fazer v. ex.^a?--tornou Calisto.
+
+--Antecipo um passeio que mais tarde tencionava fazer á Europa. Parto no
+paquete de ámanhã para França.
+
+--Sem dizer, nem fazer saber á sr.^a D. Catharina que esteve aqui um
+amigo do desembargador Sarmento...
+
+--Nada direi sr. Barbuda.
+
+--Aperto-lhe e beijo esta mão. Agradeço-lh'o em nome dos cinco filhos de
+Duarte de Malafaya, ou dos cinco anjos que lhe chamam pae.
+
+--E saíu com os olhos marejados.
+
+ * * * * *
+
+D. Bruno cumpriu a promessa com tanta pontualidade como o faria um
+sujeito de menos fidalgos brios, se lhe dissessem: «Afasta-te, se não
+queres o encargo de amparar uma familia, cujo esteio estás quebrando.»
+
+É coisa que pouquissimo custa, em condições analogas, o ser pontual. Ás
+vezes, até se vinga fama de prudente e ajuizado.
+
+Como quer que fosse Calisto Eloy foi d'alli em direitura á poltrona do
+magistrado, e disse-lhe:
+
+--Cobre animo, amigo e senhor meu. O inimigo levantou o cerco. A
+maledicencia descaridosa, se não mudar de juizo, esquece-se.
+
+Seguiu-se a narrativa do acontecido, e as alegrias do ancião
+interpolladas de agradecidas lagrimas.
+
+
+
+
+XIII
+
+*Regeneração*
+
+
+Ó coração sensivel! ó peccadora Catharina, que vaes agora expiar o teu
+crime nas agonias da saudade! Aquelle Calisto, cuidando que te salvava,
+matou-te!
+
+Não foi tanto quanto diz a apostrophe; mas, de feito, Catharina, quando
+recebeu de Bruno de Mascarenhas uma carta saturada de sãs doutrinas e
+reflexões, como as faria S. Francisco de Salles a mad. du Chantal,
+entendeu de si para comsigo que devia morrer de despeito e raiva. O
+fugitivo escrevia-lhe pouco antes de embarcar-se. Não referia o dialogo
+com Calisto; dava porém como certa uma tempestade a prumo das cabeças
+d'elles delinquentes. «Irei, dizia elle, morrer longe da mulher que amo,
+para lhe não sacrificar os creditos e os filhos. Se souberes que eu
+morri, recompensa-me esta virtude rara, dizendo em tua consciencia que
+eu te amei, como já ninguem ama sobre a face da terra.»
+
+Depois, seguiam-se na carta os conselhos ajustados á felicidade da vida.
+Expunha as consequencias funestas das paixões. E terminava dizendo que
+as lagrimas o não deixavam continuar.
+
+Que dama resistiria, depois d'isto, á morte?
+
+Encerrou-se a filha do desembargador, no intento de providenciar em
+artigo de morte, e entrouxar para a eternidade.
+
+N'estas cogitações a surprehendeu a mana Adelaide, mostrando-lhe uma
+carta de um certo Vasco da Cunha, que escrevia desde muito, e
+honestamente a menina solteira, no proposito de casamento. Este Vasco,
+de boa linhagem, conhecia Bruno, e via com desprazer os amores da dama,
+que havia de ser sua cunhada. Eventualmente soubera elle do embarque do
+Mascarenhas. Pessoas que o viram a bordo, referiram-lhe que o sujeito,
+perguntado ácerca dos amores de Catharina Malafaya, respondera
+fatuamente que se ia escapando a um aguaceiro de escandalos, com que
+elle não queria brincar, por que a mulher, enthusiasta e apaixonada mais
+que o necessario, seria capaz de o fazer assumir as funcções de marido
+não canonico.
+
+Pouco mais ou menos, era d'aquella amavel contextura o periodo que D.
+Adelaide leu a sua irmã lagrimosa.
+
+D. Catharina levantou-se com fidalgos brios, chamou pelos filhos,
+abraçou-se n'elles, e disse á irmã:
+
+--Estou bem! Deus me perdoará, rogado por estes innocentes. Meu amado
+marido, como eu te quero hoje! como eu sinto o teu coração a consolar-me
+n'estes remorsos!...
+
+Ora, eu não tenho a caridade de crêr nos remorsos de D. Catharina; mas
+piamente acredito que a mulher se estava sentindo mais amiga do marido,
+fineza que elle devia agradecer-lhe com as suas mais melifluas caricias.
+
+E veiu logo a succeder que o esposo, surprehendido pela extremosa
+ternura da senhora, estranhou o caso, e requereu brandamente a
+explicação da improvisa mudança. Catharina, imaginosa como todas as
+pessoas que amam muito, explicou, entre alegre e lagrimante, que a final
+se convencera de que o seu Duarte a não trahia: suspeita de tanta força
+para ella, que podéra empeçonhar, com as serpes do ciume, a felicidade
+de duas almas, ligadas por paixão.
+
+Duarte ficou lisongeado e satisfeito. Seguiu-se confessar elle tambem as
+suas vagas desconfianças emquanto á lealdade da esposa. Aqui é que foi a
+scena, digna de mais conspicuo narrador. A offendida senhora pregou os
+olhos no firmamento de madeira, espreitou por elle o azul do empyreo,
+com a dupla vista que dá a angustia, e murmurou:
+
+--Céos! que injustiça!
+
+Era dôr que lhe encolhia os folipos das lagrimas. Não arranjou a chorar.
+Caíu de golpe na poltrona de mais capacidade e flacidez para quedas
+d'aquella natureza! e, tapando a face com as mãos alvissimas, balbuciou,
+desentallando-se dos suspiros:
+
+--Oh! que infeliz! que infeliz!
+
+Duarte inclinou-se com os labios ao colo de Catharina, e disse
+affectuosamente:
+
+--Perdoemos um ao outro. Estes ciumes reciprocos dizem que nos amavamos
+por egual.
+
+Não queria a magoada senhora perdoar; porém, como lhe faltasse fôlego de
+despejo para sustentar a scena, envergonhou-se de si mesma, e teve dó do
+marido, a quem ella, e pae, e irmã, deviam a decencia, estado,
+representação e sociabilidade com as primeiras familias de Lisboa.
+
+Instantes foram estes de consciencia rehabilitada, que poderam muito com
+ella no decurso da vida, e promettem ser-lhe amparo até ao fim.
+
+É-me pequeno o peito para o prazer que sinto, relatando este caso, que é
+unico dos meus apontamentos, em egualdade de circumstancias. Ainda ha
+gente boa e de muitissima virtude: isto é que é verdade.
+
+O fautor d'este successo, com que a gente se consola, foi, sem debate,
+Calisto Eloy, aquelle anjo!
+
+Com que delicias d'alma contemplava elle a restaurada ventura d'aquelles
+casados, e o jubilo do desembargador! E os agradecimentos do ancião, que
+bem lhe faziam ao peito honrado! E os affectos de Catharina, que de todo
+ignorava ter sido elle o agente do seu socego; porém muito lhe queria
+pelo tom grosseiro, mas paternal com que lhe admoestára a culpa!
+
+Afóra o desembargador, uma pessoa unica sabia que o morgado tinha sido o
+conciliador engenhoso da paz da familia: era Adelaide. Esta menina
+vivera receosa de que o seu Vasco, rapaz timbroso, a não quizesse
+esposar, fazendo-a cumplice dos desvios da irmã. Agora, já mais
+esperançada na realisação do casamento, via com olhos agradecidos o bom
+provinciano, e attendia-o com os disvelos de extremosa amiga. A isto a
+incitava o pae, que frequentes vezes lhe dizia:
+
+--Se este honrado fidalgo fosse solteiro, e podesses amal-o, filha, que
+prazer o nosso se...
+
+---Oh! papá...--atalhava quasi sempre a menina--pois eu havia de casar
+com elle?...
+
+--Por que não? Honra, riqueza, sciencia e nobreza... que mais querias
+tu, filha?--perguntava o pae.
+
+Adelaide sorria-se, e murmurava de si comsigo.
+
+--Ainda bem que elle é casado, senão eu tinha que vêr com a jarrêta da
+creatura!...
+
+No entanto, a reconhecida senhora, no auge da sua gratidão, jogava a
+sueca emparceirada com Calisto de Barbuda, e ensinou-lhe a jogar as
+damas, prenda em que o morgado revelou uma inhabilidade que excede todo
+o encarecimento.
+
+
+
+
+XIV
+
+*Tentação! Amor! Poesia!*
+
+
+Eis que, a subitas, do coração de Calisto resalta a primeira faisca de
+amor!
+
+Conheço que este desastre não se devia contar sem grandes prologos. Sei
+que o leitor ficou passado com esta noticia. Grita que a
+inverosimilhança é flagrante. Não póde de boamente consentir que se lhe
+desfigure a sisuda physionomia moral do marido de D. Theodora Figueirôa.
+Quer que se limpe da fronte d'este homem o stigma de um pensamento
+adultero. Honrados desejos!
+
+Mas eu não posso! Queria e não posso! Tenho aqui á minha beira o demonio
+da verdade, inseparavel do historiador sincero, o demonio da verdade que
+não censentiu ao sr. Alexandre Herculano dizer que Affonso Henriques viu
+coisas extraordinarias no céo do campo de Ourique, e a mim me não deixa
+dizer que Calisto Eloy não adulterou em pensamento! Estes são os ossos
+malditos do officio; esta é a condemnação dos infelizes artifices que
+edificam para a posteridade, e exploram nas cavernas do coração humano
+os cimentos da sua obra.
+
+Ai! Se Calisto Eloy foi de repente assalteado do dragão do amor, como
+hei de eu inventar preludios e antecedencias que a natureza não usou com
+elle!? Se o homem, espantado, a si mesmo se interrogava, e dizia: «isto
+que é?!» como hei de eu dizer ao leitor o que foi aquillo?!
+
+O que elle sabia e eu sei é que, estando Calisto de Barbuda a jogar a
+sueca de parceiro com Adelaide, a razão de cruzado novo a partida, a
+menina passou a sua bolsinha de filagrana para a mão do parceiro, e
+disse-lhe:
+
+--Administre-me o meu thesouro, sr. morgado. Tenho ahi o meu dote.
+
+--Pois sejam todos muito boas testemunhas da quantia que recebo da
+ex.^{ma} sr.^a D. Adelaide, minha senhora;--disse Calisto, esvasiando a
+bolsinha.
+
+Com as moedas de prata e oiro, que a bolsa continha, saíu um pequeno
+coração de oiro esmaltado com iniciaes.
+
+Ah!--acudiu Adelaide pressurosa--isto não!...--E retirou sofregamente o
+coraçãosinho.
+
+Algum dos circumstantes disse:
+
+--Então o sr. morgado não serve para administrar corações?!
+
+--Serve para os dominar com a sua bondade, e enchel-os de affectuosa
+estima--respondeu com adoravel graça a menina.
+
+Foi n'este instante que o morgado da Agra de Freimas sentiu no lado
+esquerdo do peito, entre a quarta e quinta costella, um calor de
+ventosa, acompanhado de vibrações electricas, e vaporações calidas, que
+lhe passaram á espinha dorsal, e d'aqui ao cerebêlo, e pouco depois, a
+toda a cabeça, purpureando-lhe as maçãs de ambas as faces com o rubor
+mais virginal.
+
+D'isto não deu tento Adelaide nem a outra gente.
+
+Duas enfermidades ha ahi, cujos symptomas não descobrem as pessoas
+inexpertas; uma é o amor, a outra é a tenia. Os symptomas do amor, em
+muitos individuos enfermos, confundem-se com os symptomas do idiotismo.
+É mister muito acume de vista e longa pratica para descriminal-os. Passa
+o mesmo com a tenia, lombriga por excellencia. O aspecto morbido das
+victimas d'aquelle parasita, que é para os intestinos baixos o que o
+amor é para os intestinos altos, confunde-se com os symptomas de graves
+achaques, desde o hidrotorax até á espinhela caída.
+
+E aqui está que Calisto Eloy--ia me esquecendo dizel-o--tambem sentiu a
+queda da espinhela, sensação esquisita de vacuo e despêgo, que a gente
+experimenta, uma pollegada e tres linhas acima do estomago, quando o
+amor ou o susto nos leva de assalto repentinamente.
+
+Sem embargo da concumitancia de tantas enfermidades, Calisto de Barbuda
+embaralhou as cartas, passou-as á esquerda, e jogou a primeira partida
+com tamanha incuria e desacerto, que Adelaide, no acto do pagamento da
+aposta observou ao parceiro que era preciso administrar com mais zelo o
+dote da sua amiga.
+
+E ajuntou:
+
+--V. ex.^a esteve a compor algum bello discurso para a camara...
+
+O morgado cacarejou um sorriso, e mais nada.
+
+Proseguiu o jogo. Calisto deu provas de supina bestidade em quatro
+partidas de sueca. Adelaide, dissimulando a má sombra do fastio com que
+estava jogando, aturou até ao fim a partida, com grande desfalque do seu
+peculio.
+
+Tinha-se feito uma atmosphera nova em redor dos pulmões de Calisto. A
+loquacidade, embrechada de sentenças e latinismos, com que elle
+costumava aligeirar as palestras dos eruditos amigos do desembargador,
+desamparou-o n'aquella noite. Isto causou extranhesa e cuidados ao
+amoravel Sarmento, que presava Calisto como a filho.
+
+A partida acabou taciturna e triste.
+
+Fechado em seu gabinete de estudo, o morgado da Agra, sentou-se á banca,
+apanhou entre dois dedos o beiço superior, e esteve assim meditabundo
+largo espaço. Depois, ergueu-se para dar largas ao coração que pulava, e
+andou passeando com desusada agilidade e aprumo de corpo. Parou diante
+da livraria, tirou d'entre os poetas classicos o dilecto Antonio
+Ferreira, sentou-se, abriu á sorte, e leu, declamando os dois quartetos
+do soneto V;
+
+ Dos mais fermosos olhos, mais fermoso
+ Rosto, qu'entre nós ha, do mais divino
+ Lume, mais branca neve, oiro mais fino,
+ Mais doce fala, riso mais gracioso:
+
+ D'um Angelico ar, de um amoroso
+ Meneo, de um spirito peregrino
+ S'acendeu em mim o fogo, de qu'indino
+ Me sinto, e tanto mais assi ditoso.
+
+Repetiu, fez pausa, suspirou, e declamou ainda o primeiro verso do
+terceto:
+
+ Não cabe em mim tal bem-aventurança!
+
+N'isto, a imagem de sua prima e esposa D. Theodora Figueirôa, trazida
+alli por decreto do alto, antepoz-se-lhe aos olhos enleados na imagem de
+Adelaide. Calisto estremeceu de puro pejo de sua fraqueza, e lançou mão
+da ultima carta que recebêra de sua saudosa mulher. Resava assim,
+escripta por mão de uma filha do boticario de Caçarelhos, com
+orthographia mais imaginosa que a minha:
+
+«Meu amado Calisto. Cá soube pelo mestre-escóla que tens botado algumas
+fallas nas côrtes, e que tens muita sabedoria. O sr. abbade já cá veiu
+ler-me um pedaço do teu dito, e oxalá que seja para bem da religião.
+Olha se botas abaixo as decimas, que é o mais necessario. Aqui veiu um
+padre de Miranda para tu o despachares para abbade; e o regedor tambem
+quer que tu lhe arranjes um habito de Christo para elle, e uma pensão
+para a tia Josepha, que é viuva de um sargento de milicias de
+Mirandella. Assim que arranjares isso, manda para cá.
+
+Saberás que mandei trocar os bois barrosãos á feira dos onze, e comprei
+vaccas de cria. Os sevados não saíram de boa casta, e acho que será bom
+trocal-os na feira dos dezenove. A porca russa teve dez leitões hontem
+de madrugada. E, com isto, olha se isso lá acaba depressa, que eu ando
+por cá triste e acabrunhada de saudades. Na semana que passou andei mal
+das reins, e muito despegada do peito. Hoje vou vêr medir seis carros de
+centeio, que vão para a feira, por isso não te enfado mais. D'esta tua
+mulher muito amiga, _Theodora_.»
+
+Por mais que recolhesse o espirito vagabundo, Calisto não dava tento
+d'estes dizeres de Theodora, encantadores de simplicidade e boa
+governança de casa. Arrumou a carta, re-abriu o seu Antonio Ferreira, e
+leu no soneto XXXIII:
+
+ Eu vi em vossos olhos novo lume,
+ Qu'apartando dos meus a nevoa escura.
+ Viram outra escondida fermosura,
+ Fóra da sorte e do geral costume...
+
+Deitou-se por deshoras, e dormitou sobresaltado. Ante-manhã espertou com
+as alvoradas de uns pintassilgos e calhandras, que lhe cantavam
+amorosamente na alma. Eram as alegrias do primeiro amor, aquelles
+momentos de céo, visita dos anjos, que todo coração hospedou na
+infancia, na virilidade, ou já na decadencia na vida. Saíu alegre do
+leito, e leu algumas lyricas de Camões e Filintho Elysio.
+
+Nunca em sua vida poetára Calisto Eloy de Silos. O amor não lhe havia
+dado o beliscão suavissimo, que por vezes, abre torrentes de metro da
+veia ignorada. Eis que o corisco da inspiração lhe vulcanisa o peito.
+Levanta machinalmente a mão á fronte, como a palpar a excrescencia
+febril que todo o poeta apalpa no conflicto sublimado do estro.
+Senta-se: pega da penna, e o coração distilla por ella este fragmento de
+madrigal, que, a meu vêr, foi o ultimo que o sincero amor suggeriu em
+peito portuguez:
+
+ Senhora de grão primor,
+ Meu amor,
+ Formosissima deidade,
+ Arde meu peito em saudade,
+ Quem fui hontem, não sou hoje;
+ Minha alegria me foge,
+ Se vos olho.
+ Já captivo em vós me acôlho,
+ Havei de mim piedade;
+ Sêde minha divindade;
+ Não leveis a mal que eu chore
+ Com tanto que vos adore
+ Gentil e nobre menina
+ Como Camões a Cath'rina
+ E como Ovidio a Corinna.
+
+Posto isto, o morgado da Agra relanceou os olhos com desdem para o
+taboleiro do almoço, e com muita repugnancia, consentiu ao appetite que
+se desejuasse com uma linguiça assada, almoço que elle alternava com um
+salpicão frito.
+
+Depois quando se estava vestindo, olhou para a casaca de briche e para
+as pantalonas apolainadas, e teve engulho d'esta fatiota. Vestiu-se,
+saíu apressado, entrou no estabelecimento do sr. Nunes na rua dos
+Algibebes. Aqui o vestiram o mais desgraciosamente que puderam, com um
+farto paletó de panno côr de rato, e umas calças, de xadrez cinzento, e
+colete azul, de rebuço, com botões de coralinas falsas. No Chiado
+abjurou um chapéo de molas de merino, e comprou outro de castor, á
+ingleza. Cumpria-lhe vestir as primeiras luvas de sua vida. No vestil-as
+arrostou com difficuldades, que venceu, rompendo a primeira luva de meio
+a meio. Disse-lhe a luveira que não introduzisse os cinco dedos ao mesmo
+tempo, e ajudou o na ardua empreza.
+
+Dois mancebos galhofeiros, que estavam na loja, riram indelicadamente da
+inexperiencia do sujeito desconhecido. Um d'elles, confiado na inepcia
+tolerante do provinciano, ou supposto brazileiro, disse, a meia voz, ao
+outro:
+
+--Quatro pés nunca vestiram luvas.
+
+Calisto encarou n'elles com sorriso minacissimo, e disse á luveira:
+
+--As luvas são boa coisa para a gente não dar bofetadas com as mãos.
+
+Os joviaes sujeitos olharam-se com ar consultivo, sobre o despique digno
+da affronta, e tacitamente concordaram em se irem embora.
+
+Ao meio dia, entrou o morgado na camara, e fez sensação. As calças de
+xadrez eram uma das grandes desgraças, que a providencia, por intermedio
+do sr. Nunes aljubêta mandára a este mundo. Como se a substancia não
+fosse já um crime de leso gosto e lesa seriedade; ainda por cima as
+pernas caíam sobre as botas em feitio de boca de sino.
+
+A camara afogou o riso, salvo o dr. Liborio do Porto, que tirou de
+dentro esta facecia puchada á fieira do costumado estylo:
+
+--Guapamente intrajado vem mestre Calisto! Faz-se mister saber que rolos
+de pragmaticas lhe impendem entre as botinas e as pantalonas. Certo, que
+o urso se pule e lustra. Bom seria que o cerebro se lhe vestisse de
+roupagens novas e hodiernos afeites!...
+
+Foram festejados estes apódos pelos tolos mais convisinhos do dr.
+Liborio.
+
+Calisto houve noticia da zombaria do doutor: a intriga politica não
+perdeu lanço de acirrar o morgado contra Liborio, que era governamental.
+
+N'esta sessão fôra dada ao deputado portuense a palavra, na discussão de
+uma proposta de lei sobre cadeias. O morgado, assim que lh'o disseram,
+aguardou opportunidade de desforrar-se da chacota.
+
+Ai da patria, quando os talentos parlamentares se incanzinam n'estas
+pugnas inglorias!
+
+
+
+
+XV
+
+*Ecce iterum Crispinus...*
+
+
+Corrido um quarto de hora, fez-se na camara o silencio da subterranea
+Pompea. É que o dr. Liborio ia fallar.
+
+--Sr. presidente, e senhores deputados da nação portugueza!--disse
+elle--_Vem-nos agora sob a mão assumpto, até aqui pretermittido_.[14]
+Pelo que toca e friza com cadeias patrias, direi os cinco stygmas que um
+estylista de folego esculpiu nos frontaes d'esses antros:
+
+INJUSTIÇA!
+
+IMMORALIDADE!
+
+IMMUNDICIE!
+
+INSULTO!
+
+INFERNO!
+
+Inferno, sr. presidente, inferno dantesco, inferno theologico em que ha
+o ranger de dentes, _stridor dentium_!
+
+Que é da civilisação d'esta miserrima e tão coitada terra? Quem nos
+lampeja verdade n'esta escureza em que nos estorcemos? Ai! _A verdade
+ainda não matiza de rosicler a alvorada do novo dia_. As idéas entre nós
+estão como _flores palpitantes no gomo nascente_. Eu me esquivo, sr.
+presidente, _o lavor de historiar as successivas phases que tem
+percorrido os methodos do aprisoamento_. Urge primeiro pregoar a brados
+que se faz mister funda cauterisação na lei. O direito não se estudou
+ainda em Portugal. Pois que é o direito? _No seu todo synthetico e como
+corpo doutrinal, o direito é a sciencia da condicionalidade ao fim do
+homem_. Consoante vige e viça o nosso direito de punir, sr. presidente,
+_o juiz é o delegado de Deus, o carrasco o substituto do anjo S.
+Miguel_.[15]
+
+Calisto Eloy pediu a palavra. O orador proseguiu:
+
+--Sr. presidente, n'este paiz não se attende ás bossas. Os legisladores
+não estudam o crime com o compasso sobre um craneo esbrugado. _Se fordes
+a Windsor Castle e vos metterdes de gôrra com os guardas que mostram o
+castello, ouvireis que um dos filhos da rainha tem uma irresistivel
+tendencia para a rapina: é uma pêga humana_. Uma pêga humana,
+rapacissima, a mais não! Sr. presidente, _do nosso rei D. Miguel se
+conta, que já mancebo saodo da puericia, se entretinha a maltratar
+animaes, chegando um dia a ser encontrado arrancando as tripas a uma
+gallinha viva com um sacarolhas_.[16]
+
+--_Vozes_: Á ordem! Á ordem!
+
+--_O orador_: Pois em que me transviei da ordem?
+
+--_Uma voz_: Não se diz no seio da representação nacional: _o nosso rei
+D. Miguel_.
+
+--_O orador_: Eu referi o caso com as expressões em que o acho narrado
+n'um livro mirifico e sobre-excellente do sr. dr. Ayres de Gouveia.
+
+--_Uma voz_: Pois não faça obra por inepcias do dr. Ayres de Gouveia.
+
+--_O orador_: Retiro a dessoante phrase, que impensada destilei do
+labio, e ao ponto me revêrto. Sem a sciencia de Porta e de Blumenbache
+toda a penalidade saírá vêsga, bestial, e infernalissima. É natural, sr.
+presidente, que o sentimento se corrompa, assim como o _calculo se
+empedra, e arraiga o cancro nas entranhas, e o coração se ossifica, e o
+hydrocephalo se gera, ainda nos mais solicitos em hygiene_:
+
+Posto isto, sr. presidente, cumpre dividir os sexos, pelo que diz
+respeito ao calibre do castigo. Eu citarei com quanta emphase me cabe
+n'alma, algumas linhas do jovem explendido de verbo, que auspicia e
+promette o primeiro criminalista d'esta terra. Fallo de Ayres de
+Gouveia, e n'elle me estribo. O douto viajeiro diz: «O individuo, para
+quem a lei legisla, e a quem tem em vista, é o homem (_vir_), não a
+mulher (_mulier_), desde os vinte e um annos, ou época do predominio
+racional, até aos sessenta, ou principio do periodo debilitante, no
+estado generico, ou que constitue a generalidade de ser homem, não
+descendo sequer ás gradações principaes, que tornam o _homo_ homem, o
+genero especie.»[17]
+
+É certo, sr. presidente, que _a femina toca o requinte da depravação, e
+chega a effeituar horrores cuja narração é de si para gelar ardencias de
+sangue, para infundir pavor em peitos equanimes_, porem, o mobil dos
+crimes seus d'ellas é outro: _as faculdades da mulher agitam-se
+perturbadas; é um periodo de evolução_, e não ha ahi _arcar com
+evidencia_.
+
+Que farte me hei despendido em razões que superabundam no caso em que me
+empenho, de parçaria com Victor Hugo, e com quejandas lumieiras que
+esplendem na vanguarda d'esta caravana da humanidade, que se vae
+demandando a Meca da perfectibilidade. Faça-se a lei, restaure-se a
+justiça, e depois crie-se a penitencia, regimente-se o criminoso
+_aprisoado_! Aos que já metteram rêlha e adubo no torrão do novo
+plantio, d'aqui me desentranho _em louvores e muitos e francos e
+perennes_.
+
+Sr. presidente! Em quanto a cadeias, estamos no mesmo _pé de idéas da
+inquisição_! Que esterquilinios! que protervia! Eu quero, com o dr.
+Ayres, que _todo o preso seja de todo barbeado semanalmente, lave rosto
+e mãos duas vezes por dia, e tenha o cabello da cabeça cortado á
+escovinha_. Eu quero, com o doutor supracitado, que elle não fume, nem
+beba bebida fermentada. _Água em abundancia_, e mais nada potavel. Não
+quero que os presos se conversem, porque, no dizer do insigue patricio
+meu, e abalisado humanista, _das cadeias saem delineamentos de assaltos,
+e assassinatos de homens que sabem ricos_.
+
+_Lastimado isto_, sr. presidente, um preso descomedido entre os de mais,
+_é qual febricitante despedido do leito que como setta voada do arco,
+exaspera em barulho os males de toda a enfermaria_.
+
+Eu quero que o preso funcionne intellectivamente, e de lavores corporaes
+se não desquite. O homem sem instrucção _obra instinctivamente, obra
+egoistamente, obra septicamente_, se lhe escaceia religião. Ao preso
+_lide-lhe a mão na tarefa, sim; mas lide-lhe tambem a cabeça na idéa_.
+_Inclinando rasoamento_ para isto, em todas as cadeias europeas lustram
+sciencias, pulem saber, e se amenisam instinctos. Veja-se o que diz o
+nunca de sobra invocado Ayres, honra e joia da cidade de Sá de Menezes,
+d'Andrade Caminha, de Garrett, cidade onde me eu rejubilo de haver
+vagido nas faixas infantis. É mister que se entranhe o sacerdote no
+cancro das masmorras; mas o sacerdote _atilado de engenho e todo
+impeccavel de costumes_; e não padres cuja _uncção sacrosanta se lhes
+convertesse no corpo em lascivos amavíos_. Quem sabe ahi _joeirar o
+optimo para capellães de prisões_?
+
+Depois quer-se _um director, olho e norma_. _E tão boas partes se lhes
+requerem, que ainda scismando talhal-o um composto de virtudes, o não
+viriamos delinear senão escorço_.
+
+Deu a hora, sr. presidente. A materia é tal e tão rica, e para tamanho
+cavar n'ella, que se me confrange alma de lhe não dar largas. Aqui me
+fico, e do imo peito espido brado de louvor, que louvaminha não é, ao
+illustre membro d'esta camara que mandou para a mesa a proposta da
+reformação das cadeias. Bençãos lhe chovam, que assim, com valida mão,
+emborca a froixo urnas de balsamos sobre a esqualidez da mais ascosa
+ulcera da humanidade. (Prolongados applausos. _O orador foi
+comprimentado por pessoas graves, que tinham estado a rir-se_.)
+
+Calisto Eloy contemplou-o com a fixidez de medico, que estuda os
+symptomas da demencia nos olhos do enfermo. Depois, voltando-se contra o
+abbade de Estevães, disse:
+
+--Eu queria ver como este dr. Liborio tem a cabeça por dentro.
+
+E rythmando o compasso com os dedos na tampa da caixa declamou:
+
+ Quantos folgam fallar a prisca lingua
+ Qual Egas, qual fallou, Fuas Roupinho,
+ Qual esse conde antigo, que levára
+ A villa de Condeixa por compadre!
+ Mas como a fallam? Põem sua méestria
+ Em palavras sediças, termos velhos
+ Termos de saibo e mofo, que arrepiam
+ Os cabellos da gente...
+ Que dizes d'isto?
+ Como chamas a estes?.....
+ Que eu não acerto a dar-lhe um nome proprio.
+ Que bem quadre a tão rancidos guedelhas?
+ Quando estas coisas desvairadas vejo
+ Dão-me engulhos de riso, ou já bocejos,
+ Como arrepiques certos de gran fome![18]
+
+
+
+
+XVI
+
+*Quantum mutatus!...*
+
+
+Á noite, no salão do desembargador Sarmento, soube-se que o morgado da
+Agra havia de orar no dia seguinte. Entre as pessoas alvoraçadas com a
+noticia, a mais empenhada em ouvil-o era D. Adelaide. Ao encontro de
+Calisto Eloy saiu ella pedindo-lhe com requebrada doçura, tres entradas
+na galeria das senhoras, para ella, irmã e pae.
+
+--Já sou considerado senhora, amigo Barbuda!--ajuntou o velho--São as
+tristes honras da ancianidade!... E lá vou, lá vamos ouvil-o. Ha seis
+mezes que não saí de casa, nem saíria para ouvir o proprio Berryer ou
+Montalembert.
+
+--Beijo-lhe as mãos pela cortezia, meu benigno amigo--disse Calisto;
+porém olhe que ha de chorar o tempo malbaratado. Eu não vou discorrer,
+nem cogitei ainda no que direi. Pedi a palavra, quando uma brava sandice
+me esfusiou nos tympanos, e estorcegou os nervos. Soou-me lá que o
+carrasco estava substituindo o anjo S. Miguel!... Ó meu caro
+desembargador, eu entro a desconfiar que a besta do apocalipse já tem
+tres pés bem ferrados no parlamento! Quando lá metter o quarto pé, a
+gente escorreita é posta fóra da sala a couces. Peço a vv. ex.^{as}
+perdão do pleismo do termo--disse Calisto voltando-se para as damas, que
+estavam examinando com espanto as transfiguradas vestes do morgado.--A
+boa policia, continuou elle, perde-se com a paciencia. Hei grão medo de
+volver-me ás minhas serras mais rudo do que vim.
+
+--Está-se desmentindo v. ex.^a--acudiu D. Catharina graciosamente--com
+os trages cidadãos que apresenta hoje! Cuidavamos que havia jurado nunca
+reformar a sua _toilette_ de 1820!
+
+Calisto sorriu contrafeito, e sentiu-se algum tanto molestado no seu
+pundonor e seriedade. Como a causa da mudança do vestido era pouco menos
+de irrisoria, o homem foi logo castigado pela propria consciencia. A si
+lhe quiz parecer que era já ante si proprio, outro sujeito, e que os
+estranhos lhe liam no rosto o desaire inquietador. Então lhe foi
+desabafo o coração. Soccorreu-se d'elle para contradizer as reprimendas
+do juizo; e o coração, coadjuvado pelas maneiras e ditos affectuosos de
+Adelaide despontara as ferroadas do juizo.
+
+Os visitantes habituaes do desembargador e as senhoras da casa notaram
+certa mudança nos modos e linguagem de Calisto. Dir-se-ia que o paletó e
+as pantalonas lhe tolhiam a liberdade dos movimentos, e aquella assim
+rude, que sympathica espontaneidade da expressão.
+
+Authorisados philosophos e christãos disseram que o vestido actua
+imperiosamente sobre o moral do individuo. Nas paginas immorredouras de
+fr. Luiz de Sousa está confirmado isto. «É nossa natureza muito amiga de
+si (diz o historiador do santo arcebispo) e experiencia nos ensina que
+não ha nenhuma tão mortificada, que deixe de mostrar algum alvoroço para
+uma peça de vestido novo. Alegra e estima-se ou seja pela novidade ou
+pela honra, e gasalhado que recebe o corpo. Até os pensamentos e as
+esperanças renova um vestido novo.»[19]
+
+O adoravel dominicano, pelo que diz da alegria que influe no animo um
+vestido em folha, enganou-se a respeito de Calisto Eloy. O homem dava ar
+de quebranto e melancholia, salvo se o jubilo se lhe introvertera ao
+coração. Creio que era isto. Era o amor abscondito a magoal-o docemente.
+E a não ser o amor, o que poderia ser senão as calças de xadrez? De
+feito, o amor quando é serio, põe ás canhas o mais pespontado espirito,
+e o mais mazorral tambem. O amoroso de grande loquella, volve-se
+parvoinho em presença da sua amada; o sandeu tem inspirações e raptos,
+que seriam influxo do céo, se não soubessemos, que o demonio tentador
+costuma incubar-se e parvoejar eloquentemente no corpo d'estes palermas.
+
+Calisto Eloy pagou o tributo dos espiritos esclarecidos. Umas eloquentes
+simplezas, com que elle costumava alegrar o auditorio; as maximas
+joviaes de Supico e outras com que elle intermeava a conversação; as
+gargalhadas provincianas, as liberdades desmaliciosas, o ar de familia
+com que elle se fazia bem-querer e desculpar de alguma demasia menos
+urbana do que permitte a convenção das salas: tudo isto, que lhe ia tão
+bem ao morgado, se demudou em recolhimento cogitativo, sombra triste e
+acanhada parvolez.
+
+N'esta noite, concorreu á partida do desembargador aquelle Vasco da
+Cunha, galanteador de Adelaide, mancebo bem composto de sua pessoa,
+sisudo, e muito catholico. Este fidalgo, representante dos melhores
+Cunhas, mencionados na «Historia Genealogica da Casa Real» e no
+«Villas-boas» além do brilho herdado, estava-se gosando de lustre
+propriamente seu, figurando sempre nos annuncios pios em que os fieis
+eram convidados a assistir a tal festividade religiosa, ou convocando
+assembléas de irmandades, para o fim de consultas attinentes á maior
+pompa do culto divino. Dito isto, dispensa o leitor que se annumerem
+outras virtudes a facto só por si tão significativo. As outras virtudes
+hão de vir apparecendo naturalmente.
+
+Alguem disse a Calisto Eloy que o circumspecto Vasco da Cunha não era
+estranho ao coração de Adelaide. Esta nova sobresaltou o peito do
+morgado, sem comtudo, lhe innevoar os olhos do discreto juizo, a ponto
+de se dar em espectaculo de risivel ciume. Reparou no porte de ambos; e
+tão graves e cerimoniosos os viu durante a partida, que não achou razão
+para os crer enamorados bem que, n'esta noite, Adelaide jogasse o
+voltarete com Vasco da Cunha, e seu cunhado Duarte Malafaya.
+
+Ás onze horas, Calisto Eloy retirou-se taciturno e contristado.
+
+A só com a sua consciencia, e debaixo do olhar severo dos seus livros, o
+marido de D. Theodora Figueirôa reflectiu conturbado na transformação do
+seu modo de viver e sentir. Gritou-lhe a razão que fizesse pé atraz no
+caminho que o levava á ladeira de algum abysmo, ou ás fauces
+voracissimas do amor que tão illustres victimas tinha ingulido. A
+memoria, alliada da razão, abriu-lhe os fastos desgraçados do coração
+humano, desde o perdimento de Troia até á extincção do imperio godo nas
+Hespanhas. Viu desfilarem, uma por uma, todas as mulheres fataes, desde
+Dalila até Florinda, a forçada do conde Julião; e, no couce de todas, a
+phantasia febril da insomnia afigurou-lhe Adelaide.
+
+Aos quarenta e quatro annos a razão póde muito, se o coração já está
+enervado e enfraquecido de luctas e quedas; todavia, a razão dos
+quarenta e quatro annos é ainda frouxa e transigente, se o coração
+começa a amar tão a deshoras. Não se calculam as miserias e parvoiçadas
+d'esta serodia mocidade!
+
+Não obstante, Calisto, pouco antes de adormecer por volta das quatro da
+manhã, protestára esquecer Adelaide, perguntando a si proprio se seria
+crime amal-a como os paladinos dos tempos heroicos amaram incognitamente
+grandes damas, sem mais logro de seus amores que adorarem-n'as? Com isto
+queria elle responder á imagem plangente de Theodora, que o estava
+arguindo.
+
+Pobre senhora! àquella hora já ella andaria a pé, a moirejar pela
+cosinha, a fim de mandar almoçados para a lavoura os servos, e cuidar
+dos leitões.
+
+Ai! maridos, maridos! Quando a Providencia vos enviar mulheres d'este
+raro cunho, encostae a face ao regaço d'ellas, e não queiraes saber como
+é que o inimigo de Deus enfeita as suas cumplices na perdição da
+humanidade!
+
+
+
+
+XVII
+
+*In Liborium*
+
+
+Estavam cheias as galerias da camara.
+
+Entre as mais formosas, extremava-se a filha do desembargador Sarmento.
+A pedido de Calisto Eloy, fôra o abbade de Estevães levar as entradas ao
+magistrado, e offerecer-se a conduzir as senhoras á galeria.
+
+O vistoso coreto das damas exornavam-n'o, talvez mais que a formosura,
+algumas senhoras doutas enfrascadas em politica, amoraveis Cormenins,
+que aquilatavam o merito dos oradores com incontrastavel rectidão de
+juizo e apurado gosto. Lisboa tem dezenas d'estas senhoras Cormenins.
+
+Não dírei que o renome de Calisto attrahisse as damas illustradas: era
+grande parte n'este concurso femeal a esperança de rirem. A nomeada do
+provinciano, bem que favorecida quanto a dotes intellectuaes, cobrára
+fama de coisa extravagante e impropria d'esta geração.
+
+Entrou Calisto na sala um pouco mais tarde que o costume, porque fôra
+vestir-se de calça mais cordata em côr e feitio. Não me acoimem de
+archivista de insignificancias. Este pormenor das calças prende mui
+intimamente com o cataclismo que passa no coração de Barbuda. Aquella
+alma vae-se transformando á proporção da roupa. Assim como o leitor, á
+medida que o amor lhe fosse avassalando o peito, escreveria paginas
+intimas, ou ainda peor, cartas corruptoras á mulher querida, Calisto, em
+vez d'isso, muda de calças.
+
+As damas, que o esperavam vestido conforme a fama lh'o pintára,
+desgostaram-se de vêl-o trajado no vulgar desgracioso, do commum dos
+representantes do paiz.
+
+Apenas Calisto Eloy se assentou, entrou-se na ordem do dia, e logo o
+presidente lhe deu a palavra.
+
+Cessou o reboliço e fallario d'aquella feira veneranda, assim que o
+deputado por Miranda, começou d'este theor:
+
+--Sr. presidente! Muito ha que se foi d'este mundo o unico sujeito, de
+que me eu lembro, capaz de entender o sr. dr. Liborio, e capaz de fallar
+portuguez digno de s. ex.^a. Era o chorado defuncto um personagem que
+foi uma vez consultar o dr. Manuel Mendes Enchundia, ácerca d'aquella
+famigerada casa que elle tinha na ilha do Pico, com um passadiço para o
+Baltico. V. ex.^a e a camara, podem refrescar a memoria, lendo aquelle
+pedaço de estylo, que presagiou estas farfalharias de hoje.
+
+Sr. presidente, a mim faz-me tristeza contemplar a ribaldaria, com que
+os belfurinheiros de missangas e lantejoulas adornam a lingua de Camões,
+despojando-a dos seus adereços diamantinos. A pobresinha, trajada por
+mãos de gente ignara, anda por aqui a negacear-nos o riso como moura do
+auto, ou anjo de procissão de aldeia. Se acerta de lhe pagarem os
+farrapinhos broslados de folha de Flandres em algum silvedo, a mesquinha
+fica núa, e nós a córarmos de vergonha por amor d'ella.
+
+É forçoso, sr. presidente, que a linguagem castiça vá com a patria a
+pique?
+
+Á hora final da terra de D. Manuel, não haverá quem lavre um protesto em
+portuguez de João Pinto Ribeiro, contra os Iskariotas, Juliões,
+Vasconcellos e Mouras, que nos vendem?
+
+_Vozes_: Á ordem!
+
+_O orador_: É contra o regimento d'esta casa, repetir o que está dito na
+historia, sr. presidente?
+
+_O presidente_: Sem offensa de particulares.
+
+_O orador_: Authorisa-me portanto, v. ex.^a a crer que n'esta casa está
+Iskariotas, e o bispo Julião, e Miguel de Vasconcelos, e...
+
+_Vozes_: Á ordem!
+
+_O orador_: Pois então eu calo-me, se offendo estes personagens a quem
+me não apresentaram, ainda bem! As minhas intenções são inoffensivas, no
+entanto, desconsola-me a camaradagem. Se eu soubesse que estava aqui
+similhante gente, não vinha cá, palavra de homem de bem!
+
+_O dr. Liborio_: Mais prestimoso fôra ao cosmos, se o sr. Calisto
+estanceasse no agro do seu covil a lidar com a fereza dos javalis.
+
+_O orador_: Não percebi o dito bordalengo: faça favor de explicar-se.
+
+_O dr. Liborio_: Já disse que não desço.
+
+_O orador_: Se não desce, cairá de mais alto. Refiro a v. ex.^a a fabula
+da aguia e do kágado, na linguagem lidima e chan de D. Francisco Manuel
+de Mello. É o _Relogio da Aldeia_, que falla no dialogo dos _Relogios
+fallantes_: «...Lembra-me agora o que vi succeder a um kágado com uma
+aguia, lá em certa lagoa da minha aldeia: veiu a aguia, e de repente o
+levantou nas unhas, não com pequena inveja das rãs, e de outros kágados,
+que o viam ir subindo, vendo-se elles ficar tão inferiores a seu
+parceiro. Julgavam por gran fortuna que um animal tão para pouco, fosse
+assim sublimado á vista de seus eguaes. Quando n'isto, eis que vemos
+que, retirada a aguia com sua presa a uma serra, não fazia mais que
+levantar o triste animal, e deixal-o cair nas pedras vivas, até que
+quebrando-lhe as conchas com que se defendia...» não me lembra bem se D.
+Francisco Manuel diz que a aguia lhe comeu o miolo.
+
+Se o sybillino collega figura na moralidade d'este conto, offerece-se-me
+cuidar que não é a aguia.
+
+(_Pausa do orador: riso das galerias_.)
+
+Sabido, pois, sr. presidente, que as citações historicas fazem
+repugnancias ao regimento e á ordem, abjuro e exorciso os demonios
+incubos e succubos da historia, pelo que rogo a v. ex.^a muito rogado
+que me descoime de desordeiro.
+
+Direi de Quintiliano, se este nome não desconcerta a ordem. Trata-se de
+oradores, e de estylos viciosos. Diz este mestre dos rethoricos que «ha
+um natural prazer em escutar qualquer que falla, ainda que seja um
+pedante, e d'aqui aquelles circulos que a cada hora vemos nas praças á
+roda dos charlatães» N'esta nossa edade, Quintiliano redivivo diria:
+«nas praças e nos parlamentos.»
+
+_Vozes_: Á ordem?
+
+_O orador_: Pois tambem Quintiliano?!
+
+Bem me quer parecer que rarissimas vezes o admittem aqui a elle!...
+
+_O presidente_: Lembro ao nobre deputado, que a camara não é aula de
+rethorica.
+
+_O orador_: Assim devo presumil-o, vendo que todos a professam com
+dignidade, exceptuado eu, que me não desdoiro, em confessar que sou o
+discipulo unico e máo de tantos mestres. Eu direi a v. ex.^a qual
+eloquencia considero necessaria n'esta casa da nação: é a eloquencia que
+a nação entenda. A arte de bem fallar, _ars béne dicendi_, é o estudo da
+clareza no exprimir a idéa. Os affectos, as galas da linguagem, que lhe
+tolhem o mostrar-se e dar-se a conhecer dos rudos, não é arte, é
+tramoya, não é luz, é escuridade. Os meus constituintes mandaram-me aqui
+fallar das necessidades d'elles em termos taes que por elles v. ex.^a e
+a camara lh'as conheçam, ponderem, e remedeiem.
+
+Sou da velha clientela de Quintiliano, sr. presidente. Com elle entendo
+que por de mais se enganam aquelles que alcunham de popular o estylo
+vicioso e corrupto, qual é o saltitante, o agudo, o inchado, e o pueril,
+que o mestre denomina _proedulce dicendi genus_, todo affectação
+menineira de florinhas, broslados de pechisbeque, recamos de fitas como
+em bandeirolas de arraial.
+
+Eis-me já de força inclinado á substancia do discurso do sr. dr.
+Liborio. Primeiro me cumpre declarar que não sei pelo claro a quem me
+dirijo. Ha dias me regalei de ler o succoso livro de um doutor grande
+lettrado que escreveu da _Reforma das Cadeias_. Achei-o lusitanissimo na
+palavra; mas hebraico na locução. Tem elle de bom e singular que tanto
+se percebe lendo-o da esquerda para a direita como da direita para a
+esquerda. Soou-me que o sr. dr. Liborio, amador do que é bom, se
+identificára com o livro, e aformosentára o seu discurso com muitas
+louçainhas d'aquelle thesouro.
+
+Não sei, pois, se me debato com o sr. dr. Ayres, se com o sr. dr.
+Liborio. _Se me debato_, desavisadamente disse! O discurso não dá péga a
+debates que não sejam philologicos. Estes não vem aqui de molde.
+Rethorica, grammatica e logica, se alguem quizer tratal-a n'este predio,
+entretenha-se lá em baixo no pateo com o porteiro, ou com as viuvas e
+orphãos, que pedem pão com a logica da desgraça, e com a rethorica das
+lagrimas: grammatica não sei eu se a fome a respeita: parece-me que não,
+por que na representação nacional ha famintos que a não exercitam
+primorosamente. (_Murmurio e agitação na direita. Applausos na galeria.
+Um «bravo» estridulo do desembargador Sarmento. Um cautelleiro dá palmas
+na galeria popular. A tolice é contagiosa. O presidente sacode a
+campainha. Restabelece-se o silencio. Calisto Eloy tabaqueia da caixa do
+radioso abbade de Estevães_.)
+
+_O presidente_: Relembro, já com magoa, ao sr. deputado que se abstenha
+de divagações alheias do debate.
+
+_O orador_: De maneira, sr. presidente, que v. ex.^a quer á fina força,
+subjugar as minhas pobres idéas em _aprisoamento_, como disse
+gentilmente o illustre collega!
+
+Pois assim sou esbulhado de um sacratissimo direito? É então certo, como
+disse o sr. dr. Liborio, que não ha direito em Portugal? V. ex.^a sem o
+querer, está sendo, na phrase ingrata do illustre deputado, o
+_substituto do anjo S. Miguel_! (_Riso_) Oh! V. ex.^a não será algoz do
+pensamento, já de si tão intanguido que não é mister matal-o: basta
+deixal-o morrer... Callar-me-hei, se estou magoando v. ex.^a.
+
+_Vozes_: Falle! falle!
+
+_O orador_: O illustre collega referiu o que vem contado no livro do sr.
+dr. Ayres de Gouveia: _que o nosso rei D. Miguel já mancebo, saido da
+puericia se entretinha a maltratar animaes, chegando um dia a ser
+encontrado, arrancando as tripas a uma gallinha com um sacarolhas_. É
+pasmoso, sr. presidente, que os dois doutores, protestando pela
+legitimidade do seu rei, um no livro, outro no discurso, refiram a
+sanguinaria historia do sacarolhas nos intestinos da deploravel
+gallinha! Eu suei quando ouvi este canibalismo, suei de afflicção, sr.
+presidente, figurando-me o desgosto da ave!
+
+Protesto, sr. presidente, protesto contra a suja aleivosia cuspida na
+sombra de um principe ausente, indefeso e respeitavel como todos os
+desgraçados. Que historia villã é esta? Quem contou ao sr. dr. Ayres o
+caso infando do sacarolhas nas tripas da gallinha?! Em que soalheiro de
+antigos lacaios de Queluz ou Alfeite ouviram os refundidores da justiça
+estas anedoctas hediondas, e mais torpes no squalôr de recontal-as?
+
+E, depois, sr. presidente, que me diz v. ex.^a e a camara áquelle filho
+da rainha da Grã-Bretanha, que é um rapinante: _uma pêga humana_! Que
+musa de tamancos! _uma pêga humana_! Que imagem! que allegoria tão
+ignobil, e extractado do vocabulario da ralé!...
+
+Em desconto d'estas repugnantes noticias, fez-nos o sr. doutor o bom
+serviço de nos dizer que homem em latim é _vir_, e mulher é _mulier_, e
+que, em alguns casos, _homo_ tambem é homem. Ficamos inteirados e
+agradecidos. Uma lição de linguagens latinas para nos advertir que a lei
+não legisla para a mulher!... Teremos ainda de assistir á repetição do
+concilio em que havemos de averiguar se a mulher é da especie humana? Se
+os srs. drs. Ayres ou Liborio, alguma vez, dirigirem os negocios
+judiciarios e ecclesiasticos em Portugal, receio que os legisladores
+excluam a mulher das penas codificadas, e que os bispos lusitanos as
+excluam da especie humana!... E peior será se algum d'estes ministros,
+no intento de punil-as, as classificam nas aves, e nomeadamente nas
+gallinhas! O horror dos sacarolhas, sr. presidente, não me desaperta o
+animo!
+
+Porque não ha de ser castigada a mulher por egual com o homem? Resposta
+séria á pergunta que tresanda a paradoxo: «Porque, no delicto, as
+faculdades da mulher agitam-se perturbadas; é um periodo de evolução.» A
+mulher, que mata, por ciume é que mata; a mulher, que propina venenos,
+por ciume é que despedaça as entranhas da victima. Isto é crime, ao que
+parece; crime, porém, de _faculdades que se agitam perturbadas, e
+periodo de evolução_. Se o termo fosse parlamentar, eu diria
+_farelório_!
+
+Quem ha de enristar armas de argumentação contra estes odres de vento?
+
+O que eu melhor entendi, graças á linguagem correntia e pedestre da
+arenga, foi que o illustre collega, avençado com o sr. dr. Ayres, querem
+_que todo o preso seja de todo barbeado semanalmente, lave o rosto e
+mãos duas vezes por dia, e tenha o cabello cortado á escovinha, e beba
+agua com abundancia, e não beba bebidas fermentadas, nem fume_.
+
+N'este projecto de lei a pequice corre parelhas com a crueldade. Que o
+preso lave a cara duas vezes por dia, isso bom é que elle o faça, se
+tiver a cara suja, mas obrigal-o a lavatorios superfluos, é risivel
+puerilidade, juizo pouco aceiado que precisa tambem de barrela.
+
+Privar do uso do tabaco o preso que tem o habito de fumar inveterado, é
+requisito de deshumanidade que sobreleva á pena de prisão perpetua ou
+degredo por toda a vida. Tirem o cigarro ao preso; mas pendurem logo o
+padecente, que elle ha de agradecer-lhe o beneficio.
+
+Estes reformadores de cadeias, sr. presidente, parece que tem d'olho
+apertar mais as cordas que amarram o condemnado á sentença; picar-lhe as
+veias, e desangral-o gota a gota, na intenção de o regenerar e
+rehabilitar! Optima rehabilitação! humanissimos legisladores! Querem que
+o preso se regenere hydropaticamente. Mandam-n'o lavar a cara duas vezes
+por dia. _Agua em abundancia_, conclamam os dois doutores. Fazem elles o
+favor de dar ao preso agua em abundancia; mas descontam n'esta
+magnanimidade prohibindo-os de fallarem aos companheiros de infortunio,
+com o formidavel argumento de que _sáem das cadeias delineamentos de
+assaltos, e assassinatos de homens que sabem ricos_!...
+
+«Delineamentos de assassinatos»! Que é isto? _Assassinato_ é coisa que
+me não cheira a idioma de Bernardes e Barros. Seja o que fôr, é coisa
+horrivel que sáe das cadeias com seus delineamentos, contra homens que
+os _presos sabem ricos_. Aqui, sr. presidente, n'este _sabem ricos_,
+quem soffre o _assassinato_ é a grammatica. O alticismo d'esta phrase é
+grego de mais para ouvidos lusitanos.
+
+O que é um preso descomedido, sr. presidente? Dil-o-hei? _Vox faucibus
+haesit_!...
+
+_É febricitante despedido do leito, que, como setta voada do arco,
+exaspera em barulho os males de toda a enfermaria_. Que se ha de fazer a
+um patife que é setta voada do arco? Faz-se-lhe lavar a cara terceira
+vez!
+
+Que desperdicio de poesia para descrever um preso bulhento!
+
+_Setta voada do arco_! Que infladas necedades assopram estes estylistas
+de má morte!
+
+_Inclinando rasoamento_ (peço venia para me tambem enriquecer com esta
+locução do sr. dr. Ayres) inclinando rasoamento a pôr fecho n'este
+palanfrorio com que dilapido o precioso tempo da camara, sou a dizer,
+sr. presidente, que a melhor reforma das cadeias será aquella que
+legislar melhor cama, melhor alimento, e mais christã caridade para o
+preso. Impugno os systemas de reforma que disparam em accrescentamento
+de flagelação sobre o encarcerado. Visto que Jesus Christo, ou seus
+discipulos, nos ensinam como obra de misericordia visitar os presos,
+conversal-os humanamente, amaciar-lhes pela convivencia a ferocia dos
+costumes, não venham cá estes civilisadores aventar a soledade aos
+ferrolhos, o insulamento do preso, aquelle terrivel _voe soli_! que
+exacerba o rancor, e os instinctos enfurecidos do delinquente.
+
+Tenho dito, sr. presidente. Não redarguo ao mais do discurso, porque não
+percebi. Sou um lavrador lá de cima, e não adivinhador de enygmas.
+_Davus sum, non OEdipus_.
+
+_O orador foi comprimentado por alguns provincianos velhos_.
+
+
+
+
+XVIII
+
+*Vae cair o anjo!*
+
+
+A respeito do ultimo discurso de Calisto Eloy, as gazetas governamentaes
+estamparam que a sala da representação nacional nunca tinha sido
+testimunha de insolencias de tamanha rudesa e tão audaciosa ignorancia.
+Os jornaes da opposição liberal disseram que o representante de Miranda,
+á parte as demasias escolares do seu discurso, déra uma util, bem que
+severissima lição, aos meninos que jogueteam com o paiz, indo ao
+sanctuario das leis bailar em acro-batismos de linguagem, que seriam
+irrisorios em palestra de estudantes de selecta segunda.
+
+Em casa do desembargador é que o morgado deslumbrou o renome dos
+fulminadores de catilinarias e filippicas. A numerosa roda do fidalgo
+legitimista encarava com venerabundo assombro em Calisto Eloy. As raças
+godas, que o não conheciam, concorreram a dar-lhe os emboras a casa de
+Sarmento. Sangue dos Affonsos e Joões não se dedignava de inventar em
+Calisto um primo. Todos queriam ter nas arterias sangue de Barbudas. E
+elle, o genealogico por excellencia, modestamente contradictava o
+empenho de alguns parentes honorarios; bem que, de si para si, e para
+alguns amigos, se ufanava de não carecer de tal parentella para
+egualar-se barba por barba com os mais antigos titulares em limpeza de
+sangue. As expressões laudatorias que mais calaram no animo de Calisto
+Eloy disse-as Adelaide. A menina, confessando sua surpresa no
+parlamento, foi sincera. Não o julgava tão denodado e destemido em face
+de gente nova, que parecia acovardar-se diante da coragem de um
+provinciano algum tanto achamboado. Disse ella á mana Catharina que a
+fronte de Calisto parecia allumiada, e no todo das feições e ademanes se
+revelava certa nobreza e garbo, que o faziam parecer mais novo.
+
+E era assim. Os quarenta e quatro annos do morgado, vividos na aldeia, e
+no resguardo da bibliotheca, viçavam ainda frescura de mocidade. A
+reforma do trajar fôra grande parte n'isto. A casaca antiga, e o
+restante da roupa trazida de Miranda, tolhiam-lhe a elegancia das
+posturas e movimentos, nos primeiros discursos.
+
+Cicero e Demosthenes, se entrassem de frak, no forum ou na ágora,
+desdouravam os mais luzentes relevos de suas esculpturaes orações. A
+estatuaria do orador pende grandemente do alfaiate. Vistam Casal Ribeiro
+ou Latino Coelho, Thomaz Ribeiro ou Rebello da Silva, Vieira de Castro
+ou Fontes, de casaca de brixe e gravata sepulchral da mandibula
+inferior: hão de vêr que as perolas desabotoadas d'aquellas bocas de
+oiro se transformam em graniso glacial no coração dos ouvintes.
+
+--Eu estava encantada de ouvil-o, sr. Barbuda--disse Adelaide--Tem uma
+voz muito sã e argentina. Gostei de vêr a presença de espirito de v.
+ex.^a, quando se levantou aquella algazarra contra as suas ironias.
+Lembrou-me então que prazer sentiria sua senhora, se o escutasse!
+
+--Minha prima Theodora de certo me não attendia--observou o morgado.--Em
+quanto eu fallasse, estaria ella pensando no governo da casa, e na
+calacice dos criados. Eu já disse a v. ex.^a que minha prima Theodora
+entendeu no summo rigor da expressão a palavra «casamento». _Casamento_
+deriva de _casa_. Senhora de casa e para casa é que ella é. E eu assim a
+acceitei e assim a préso.
+
+--Mas o coração...--atalhou Adelaide.
+
+--O coração, minha senhora, ninguem lá nos disse que era necessario á
+felicidade domestica. Tanto sabia eu o que era coração, como aquella
+creancinha, que sua ex.^{ma} mana tem nos braços, sabe o que é sensação
+do fogo. Ora veja como ella está estendendo as mãosinhas inexperientes
+para a chamma das velas... Se as tocar, que dôr não sentirá ella?
+
+--Então, volveu a filha do magistrado, hei de crêr que v. ex.^a ainda
+ignora o que seja coração... o que seja amor?
+
+--Se ignoro o que seja...--balbuciou Calisto.--Sabe v. ex.^a--proseguiu
+elle, reanimado, apoz longa pausa--sabe v. ex.^a que no paraizo existiu
+uma celestial ignorancia, até ao momento em que na arvore da sciencia
+tocou Eva?
+
+--Sim... E Adão lambem tocou...
+
+--Depois, minha senhora. Mas não discutamos a primasia: tocaram ambos, e
+eu comprehendo que deviam ambos peccar. Maior crime sería a resistencia
+a Eva que a Deus. Perdoe-me o céo a blasphemia!... A que hei de eu
+comparar nos nossos tempos, e n'este instante, a arvore da sciencia, da
+sciencia do coração?!... Comparo-a a v. ex.^a.
+
+--A mim?! que idéa!
+
+--A v. ex.^a. Eu contemplei-a, e... aprendi!... Hoje sei o que é
+coração: agora começo a estudar a maneira de o matar ao passo que elle
+vae nascendo.
+
+Calisto levantou-se, agradecendo á Providencia a chegada de um ancião
+respeitavel que se aproximava d'elle a cortejal-o.
+
+Adelaide quedou pensativa. Reflectiu, e considerou-se molestada e
+mescabada no respeito que devia ás suas virtudes um homem casado.
+
+Receiosa de ajuizar mal, por equivoca intelligencia do que ouvira,
+buscou azo de provocar explicações de Calisto Eloy. Como o ensejo lhe
+não saisse de molde, consultou a irmã, referindo-lhe o supposto
+galanteio do morgado. D. Catharina dissuadiu-a de pedir esclarecimentos,
+aconselhando-a a simular que o não entendêra.
+
+Pouco antes de terminada a partida, um moço legitimista recitou um
+poemeto dedicado ao nascimento do terceiro filho do sr. D. Miguel de
+Bragança. Perguntou alguem a Calisto se conversava alguma hora com as
+musas, ou se, á maneira de Cicero, escrevia o desgracioso:
+
+ _Ó fortunatam natam, me consule, Romam_.
+
+Disse o morgado relanceando os olhos a Adelaide, que o seu primeiro
+parto metrico apenas tinha de vida quarenta e oito horas, e tão aleijado
+saíra, que elle se envergonhava de o offerecer ao apadrinhamento de
+pessoas authorisadas.
+
+Instaram damas e cavalheiros pela amostra da obra prima, que certamente
+o era, attenta a modestia do poeta.
+
+--São versos, disse elle, que se poderiam mostrar aos quinze annos, e
+que seriam derisão e lastima aos quarenta e quatro.
+
+Objectaram as damas argumentando que o homem de quarenta e quatro annos
+devia receber as inspirações dos vinte, porque no vigor da edade é que o
+coração fulgura em toda a sua luz.
+
+Tregeitou Calisto uns esgaros de satisfação ridicula. Eram os
+percursores de alguma enorme necedade.
+
+Embora resistisse á exposição da sua estreada musa, não se conteve que,
+despedindo-se de cada uma das senhoras da casa, disse, á puridade, a D.
+Adelaide:
+
+--V. ex.^a verá as trovas que só Deus viu, e ninguem mais verá no mundo.
+
+D. Adelaide ficou embaçada. Seria aggravar as meninas de dezoito annos,
+e educadas como a filha do desembargador, e amantes como ellas de um
+compromettido esposo, estar eu aqui a definir a entranhada zanga que lhe
+fez no espirito d'ella o desproposito de Calisto. A estima affectuosa
+que lhe ella ganhára, por amor d'aquella cavalheirosa acção, por onde a
+paz domestica se restaurára, não teve força de rebater o tedio e o odio
+do tom mysterioso do provinciano.
+
+Em quanto ella confiava da irmã o despeito e aversão com que a deixaram
+as ultimas palavras de Calisto Eloy, estava elle no seu gabinete
+retocando e peorando aquellas linhas rimadas, a cuja rebentação assistiu
+o leitor com piedosa tristeza.
+
+
+
+
+XIX
+
+*Ó mulheres!...*
+
+
+Seguiram-se horas de insomnia. O juizo dava-lhe tratos amarissimos ao
+coração. O homem sentava-se na cama, e remechia-se inquieto como se o
+escarneo o estivesse picando d'entre a palha do enxergão.
+
+Os intervalos lucidos eram-lhe intervalos do inferno. Os axiomas
+classicos sobre o amor caiam-lhe na memoria como chuva de dardos. Quem
+mais o suppliciou foi o seu mestre e amigo D. Amador Arraiz. Este santo
+bispo apresentou-se-lhe em visão, com D. Theodora Figueirôa ao lado, e
+disse-lhe as palavras do capitulo XLV dos _Dialogos_: «Em a lei de
+Christo a fidelidade que deve a mulher ao marido, essa mesma deve o
+marido á mulher; e, se as leis civis dão mais poder aos maridos que ás
+mulheres, não é para as offender e maltratar, nem para um ter mór
+jurisdição sobre si que o outro.»
+
+Seguiram-se outras visões de não somenos pavor. Ahi pela madrugada,
+Calisto Eloy amodorrou-se em roncado dormir; mas a fada que lhe abrira
+os thesouros virgineos do coração, a esbelta Adelaide bateu-lhe com as
+azas brancas nas palpebras, e o homem acordou estremunhado a desgrudar
+os olhos, que se haviam fechado com duas lagrimas, as primeiras que o
+amor lhe esponjára do seio, e cristalisára nos cilios, como diria o dr.
+Liborio. Então foi o trabalharem-n'o umas cogitações tão sandias, que
+seriam imperdoaveis, se não estivessem na tresloucada natureza de todo
+homem que ama.
+
+Entrou a inventariar as alterações que devia fazer no substancial e
+accidental da sua personalidade.
+
+O uso do meio grosso pareceu-lhe incompativel com um galan. Aquelles
+sibilos da pitada, bem que denotassem espiritos cogitantes e gravidade
+de juizo, deviam de toar ingratamente nos ouvidos de Adelaide. De mais
+d'isso, a saraivada de bagos de rapé que elle sacudia dos sorvedouros
+nasaes, algumas vezes obrigava as damas a formarem sobre os olhos com os
+dedos um antemural sanitario contra as insuflações immundas do sabio.
+Deliberou, portanto, immolar as delicias pituitarias.
+
+Viu-se no espelho de barbear, modesto utensilio do estojo de bezerro, e
+conveio no deslavado prosaismo da sua cara clerical. Resolveu deixar
+pera e meia barba, como transição para o bigode, que devia ir-lhe bem na
+tez um tanto moreno-pallida.
+
+Como o estudo lhe havia extenuado os olhos, e por amor d'isso usava
+oculos de prata quando lia, adoptou a luneta de oiro com molas pensis.
+
+N'este proposito, saiu a delinear as reformas capillares; fez alinhar as
+bases de uma cabelleira, que trouxera escadeada da provincia; e
+consentiu que lhe encalamistrassem dois topes rebeldes ao ferro.
+
+Depois, quando a ancia de uma pitada começava a importunal-o, fez
+provisão de charutos, e fumou o primeiro com afflictivas caretas, e
+engulhos de estomago.
+
+Colheu informações dos alfaiates de melhor fama, e foi ao Keil
+encommendar duas andainas de fato. O artista offereceu-lhe os figurinos;
+e, como lhe fallasse francez, Calisto suppoz que o attencioso alfaiate
+lhe dava a conhecer os retratos de alguns sujeitos illustres da França.
+Corrido do engano, depois de lêr as indicações das _toilettes_, saiu
+d'alli a procurar mestre de linguas, e a comprar diccionarios e guias de
+conversação.
+
+Se o leitor, mais perseguido da fortuna esquerda, nunca passou por
+lances analogos, não se tenha em conta de desgraçado.
+
+Quem tivesse conhecido, um mez antes, Calisto Eloy de Silos e Benevides
+de Barbuda, devia choral-o, quando o viu entrar n'um café a pedir agua
+para combater os vomitos provocados pelo charuto!
+
+Irá perder-se aquella alma tão portugueza, aquelle exemplar marido,
+aquelle sacerdote e glorificador dos classicos lusitanos?
+
+O amor abrirá no pavimento da camara um alçapão, onde se afunda aquelle
+grande brilhante, desluzido, mas promettedor de refulgente lume?
+
+_Di meliora piis_!
+
+Ó Lisboa!...
+
+Ó mulheres!...
+
+
+
+
+XX
+
+*Proh dolor!...*
+
+
+Adelaide, temerosa de algum imprevisto accidente, que a desmerecesse no
+conceito de Vasco, por causa do morgado da Agra, relatou ao pae o
+dialogo da antevespera, e a promessa da poesia para a noite seguinte.
+
+O desembargador duvidou do entendimento da filha, antes de acreditar na
+insania do seu melhor amigo. Como havia de crer elle no intento
+deshonesto de um homem que lhe emergira a outra filha da voragem? E,
+crendo, como se comportaria em lanço de tanto melindre?
+
+Meditou, e discretamente resolveu que suas filhas e genro fossem passar
+alguma temporada da primavera na sua quinta de Campolide; e se
+pretextasse a doença de uma neta, para que a saida se fizesse n'aquelle
+mesmo dia. Pôde mais com o velho a gratidão que a offensa.
+
+Calisto Eloy chegou á hora costumada. Já não entrava á presença do
+magistrado com a facilidade e lhanesa de outros dias. A sisudeza do
+semblante arguia o incommodo da consciencia. Mais lh'a inquietava a
+estudada jovialidade, com que Sarmento o recebeu. Antes de perguntar
+pelas senhoras, lhe disse o velho o motivo da inopinada saida para ares.
+Calisto passou o restante da noite com os amigos da casa; porém,
+insolitamente abstraido, concorreu a augmentar a lethargia d'aquelles
+velhos soporosos, que pareciam ajuntar-se para se narcotisarem, e
+entrarem emparceirados nas silenciosas regiões da morte.
+
+Fez sensação na assembléa tirar Calisto de uma charuteira de prata um
+charuto, e baforar columnas de fumo, com uns modos aperalvilhados, e
+improprios de sua gravidade. Sarmento, com delicada liberdade, observou
+a preponderancia que os costumes de Lisboa iam actuando sobre o animo do
+seu bom amigo. Sentiu que os ruins exemplos vingassem quebrantar aquella
+admiravel singeleza de trajo e maneiras que o morgado trouxera da sua
+provincia. Lamentou que, em menos de tres mezes, o modelo do portuguez
+dos bons tempos, se baralhasse com os usos modernos e viciosos.
+
+Calisto Eloy defendeu-se froixamente, allegando que as mudanças
+exteriores não faziam implicancia ás faculdades pensantes; e ajuntou
+que, sciente de que tinha sido incentivo da mofa entre os seus collegas,
+á conta da simpleza um tanto anachronica dos seus costumes, entendera
+que a prudencia o mandava viver em Lisboa consoante os costumes de
+Lisboa, e na provincia, segundo o seu genio e habitos aldeãos. Concluiu,
+dizendo que: _Cum fueris Roma, Romam vivito mora_,[20] e que o fazer-se
+singular importava fazer-se ridiculoso; e que os seus annos não eram
+ainda bastantes para authorisarem a distinguir-se no mero accidente dos
+trajos.
+
+Perguntado por que deixára de tomar rapé, costume indicativo de homem
+pensador e estudioso, respondeu que alguns escriptores modernos
+attribuiam á ammoniaca componente do rapé, o deperecimento das
+faculdades retentivas, pela acção deleteria que o poderoso alcali
+exercitava sobre a massa encephalica. Além de que a fumarada do charuto,
+sobre ser purificante e anti-putrida, dava aos alvéolos solidez, e
+consistencia aos dentes.
+
+Estas explicações não evitaram que o desembargador, com os seus velhos
+amigos, prognosticassem o derrancamento do morgado da Agra, depois que
+elle se retirou, algum tanto azedado das reflexões d'aquella gente
+encanecida.
+
+Sarmento não o convidára a ir visitar as filhas a Campolide, nem de
+leve; no correr da noite, fallou d'ellas. Calisto Eloy tambem não
+suscitou conversação relativa ás senhoras, porque já a doblez do
+espirito lhe tolhia a usual franqueza e familiaridade.
+
+Entrou a dementar-se aquella desconcertada cabeça. A saudade, em vez de
+lhe tirar lagrimas do intimo amadurou-lhe temporamente a apostêma de
+sandices, que em todo homem se cria paredes-meias com o coração. Ahi
+começa elle a imaginar que o desembargador Sarmento, adivinhando os
+amores mal recatados de Adelaide, a obrigara a sair de Lisboa.
+Corroborava a suspeita não o convidar elle a visitar as damas. Isto
+sobre excitou-lhe o sentimento; por que, a seu vêr, Adelaide estava
+penando, havia uma victima, um coração sopesado, uma alma em abafos de
+paixão.
+
+Esta conjectura atirou com Calisto para os tempos cavalleirosos.
+
+O olhar em si, e ver-se maneatado pelos vinculos sacramentaes, não o
+reduzia á compostura e honestidade de seu estado e annos. Ainda assim,
+sejamos justiceiros e ao mesmo tempo misericordiosos com esta alma
+enferma: na cabeça allucinada de Calisto de Barbuda não havia idéa
+ignobil e impudica.
+
+O amor, resaltando da cratera abafada quarenta e quatro annos, dizia-lhe
+que era fidalguia de alma não transigir, por conveniencias e respeitos
+sociaes, com a oppressão, e alvedrio paterno. Se Adelaide o amava como e
+quanto Calisto já não podia duvidar, sua honra d'elle era pôr peito á
+defesa da oppressa, beber metade do absyntho do seu calix, luctar, sem
+desdouro da probidade de um Barbuda, até perecer, exemplo de amadores de
+antiga tempera.
+
+Amou quem isto lê, e tresvariou aos vinte annos? Passou por uns hórridos
+eclipses de entendimento, que apoz si deixam lagrimas tardias e
+vergonhas insanaveis?
+
+Amisere-se, pois, d'aquelles lucidissimos espiritos de Calisto, que por
+um se vão apagando ao ventar rijo da paixão, quaes se apagam em céo de
+bronze as estrellas do mar alto, já quando o naufrago desesperançado
+finca os dedos recurvos na espuma das vagas.
+
+Ó mal-sorteado Calisto! que aureola de patriarcha te resplendia em volta
+do teu chapéo de merino e aço, quando entraste em Lisboa! Que anjo eras,
+entrajado na tua casaca de saragoça sem nodoas! Aquella scientifica boa
+fé com que procuravas monumentos em Alfama, e agua depurante do muco
+catharroso no chafariz d'El-Rei, e querias que os aljubêtas da rua de S.
+Julião te dessem conta do chafariz dos cavallos!...
+
+Que te valeram as maximas de boa vida colhidas a centenares nos teus
+classicos, e enceleiradas n'essa alma, refractaria á ternura de tanta
+moça escarlate e succada, que, lá em Caçarelhos, se enfeitava para achar
+graça em teus olhos?
+
+Cairias tu nas piozes d'esta princeza dos mares, d'esta Lisboa que
+filtra aos nervos dos seus habitantes o fogo que lhe estua nas
+entranhas?
+
+Cairias tu, anjo?
+
+
+
+
+XXI
+
+*O mordomo das tres virtudes cardeaes*
+
+
+Era por uma noite escura e fria de abril.
+
+O vento esfusiava nas ramalheiras de Campolide.
+
+A lua, a longas intermittencias, parecia, wagon dos céos, correr
+velocissima entre nuvens pardas, para ir ingolfar-se n'outras. Então era
+o carregar-se a escuridão da terra, e mais para pavores o rangido das
+arvores sacudidas pelos bulcões do septentrião.
+
+Soaram doze horas por egrejas d'aquelles valles. Era um como crebro
+soluçar da natureza por pulmões de bronze. Era o grão clamor da terra em
+angustias parturientes de alguma enorme calamidade.
+
+Áquella hora, e por aquella noite capeadora de assassinos e
+bestas-feras, Calisto Eloy, embrulhado n'um capote de tres cabeções e
+mangas, que trouxera de Caçarelhos, passava rente com o muramento da
+quinta de Adelaide.
+
+Depois, como saisse da vereda escura a um recio que defrontava com a
+frontaria da casa, aqui parou, e cruzando os braços, se esteve largo
+espaço quedo, e fito nas janellas.
+
+Nem lua nem scintilla de estrella no céo! As confidentes d'aquelle
+amador torvo como o cerrado da noite, negro como o coração que lhe arfa
+a lapela esquerda do collete, são as trevas. Quiz accender um charuto.
+Nem os phosphoros vingavam lampejar na escuridão.
+
+E o vento assoviava no vigamento da casa, e nas orelhas de Calisto, o
+qual, levado do instincto da conservação, levantou a gola do capote á
+altura das bossas parietaes, e disse, como Carlos VI:
+
+--Tenho frio!
+
+E passou-lhe então pelo espirito um painel da sua situação tirado pelo
+natural. Viu-se no espelho, que a razão lhe offereceu, e cobrou horror
+da sua figura.
+
+Bem que tal acto não implicasse delicto, nem affrontasse os bons
+costumes, Calisto, apertado no transito difficil das indoles que se
+passam do comportamento austero e captivo ás liberdades e solturas do
+vicio, olhava com saudade o seu passado, as suas alegrias puras; e, mais
+que tudo, áquella hora, como o frio cortava as orelhas, lembrou-se da
+quentura e aconchego do leito nupcial.
+
+E como esta visão honesta, para mais o pungir, havia de ser encarecida
+com uma imagem de mulher leal e immaculada, Calisto viu D. Theodora de
+touca, n'aquelle dormir placido de quem adormeceu com a alma quieta e
+intemerata. Não bastava a touca, tão hygienica quanto pudica, a
+penitencial-o com remordentes saudades: viu-lhe tambem o lenço de tres
+pontas de algodão azul com que ella costumava resguardar os hombros,
+antes de subir as quatro escadinhas que conduziam ao alteroso leito de
+páo santo.
+
+Se visões analogas, alguma vez, puzeram guerra ao demonio tentador dos
+maridos infieis e o venceram, d'esta feita não se logra a sã virtude do
+triumpho.
+
+É que as toucas e lencinhos pudibundos, sobre não serem enfeites mui
+seductores, algumas vezes tornam a virtude rançosa e tamsómente boa para
+adubar palestras de avós com as netas casadoiras. Este mal deve-se ás
+artes da estatuaria, artes em que a imaginativa não põe nada seu, porque
+tudo é copiado da natureza nua, ou quasi nua. Nem se quer as Niobes, as
+Lucrecias e Penelopes o buril respeita. Nos casos mais lacrimaveis e
+tragicos, querem fados máos que os olhos achem sempre pasto á cobiça,
+quando a impressão devera ser toda para levantamentos de espirito, e
+«visões altas» como diz o bom Sá de Miranda.
+
+Quando a arte deshonesta não despe as figuras, veste-as de feitio que
+pelo ondeado das roupas transparentes esteja o peccado a fazer negaças a
+conjecturas taes que, certo estou, Calisto Eloy, antes de se empestar em
+Lisboa, se taes impudicias visse, romperia no parlamento os vesuvios da
+sua eloquente indignação. E a posteridade, ajuizando da moral d'esta
+nossa edade de limos e alforrecas, viria a este lameiral esgaravatar a
+perola da edade aurea, caida dos labios do marido de D. Theodora, a
+qual, segundo fica dito, dormia de touca e lencinho de algodão azul de
+tres pontas.
+
+Esta peregrina imagem não bastou a desandar Calisto pelo caminho de
+Lisboa, e do seu gabinete, onde os pergaminhos dos seus livros pareciam
+rever lagrimas de amigos descaroavelmente desprezados. O infeliz não
+desfitava olhos de certa janella, desde que vira perpassar uma luz pelos
+resquicios das portadas. Podia a trahida Theodora antepôr-se aos olhos
+extasiados do esposo, com a pudenda touca, ou com as madeixas
+estrelladas de brilhantes, que elle não a via nem queria ver.
+
+Ahi por volta de meia noite estava Calisto recordando o que dissera, em
+circumstancias analogas, Palmeirim aquelle grão cavalleiro de Francisco
+de Moraes, diante do castello de Almourol que fechava em seus arcanos a
+formosa Miraguarda. N'isto scismava, comprehendendo então as phrases
+mélicas dos famosos amadores, quando as portadas da janella se abriram
+subtilmente, e logo a vidraça foi subindo mui de leve.
+
+O recanto, em que o morgado da Agra se abrigára do vento, estava fóra do
+caminho, e sumido aos olhos da pessoa que abrira a janella. Ao mesmo
+tempo, ouvia elle passos na estrada, e logo viu acercar-se um vulto
+rebuçado da casa de Adelaide, e parar debaixo da janella que se abrira.
+
+Conjecturou Calisto de Barbuda, que D. Catharina Sarmento, a esposa
+infida, reincidira nas presas do velho peccado, e sentiu algum tanto
+molestada sua vaidade de regenerador de corações estragados. Tambem
+suspeitou que Bruno de Vasconcellos, quebrando a palavra jurada, voltára
+do estrangeiro a reatar a criminosa alliança. Não lhe deram tempo a mais
+conjecturas. O encapotado espectorou um cacarejo de tosse secca; da
+janella, como contra-senha, respondeu outro cacarejo de mais sympathico
+som, e logo as duas almas se abriram n'este dialogo:
+
+--Ainda bem que recebeste a minha carta, Vasco!...--disse
+Adelaide--Estavas em casa da tia condessa? Eu mandei lá por me lembrar
+que se fazia lá hoje a novena das Chagas...
+
+--Fiquei espantado--disse Vasco da Cunha--Que rapida deliberação foi
+esta?! Vir para uma quinta com tão máo tempo! Foi caso de maior!...
+
+--Fui eu a causa--tornou ella--São melindres do meu coração, que, por
+amor de ti, não soffre que outra voz de homem lhe falle a linguagem que
+eu só quero e acceito de tua bocca. Antes me quero aqui escondida com a
+tua imagem, que ver-me obrigada a tolerar os atrevimentos do Calisto de
+Barbuda...
+
+--Que!--atalhou Vasco--pois aquelle homem tão serio!... tão temente a
+Deus!...
+
+--É um hypocrita com a brutalidade de um provinciano!... Offereceu-me
+uns versos em segredo! Que ultraje! que falta de respeito á minha
+posição...
+
+--E que desmoralisada e irreligiosa creatura! Casado, já d'aquelles
+annos, legitimista, e catholico, segundo diz, e ousar... Estou
+espantado! E a tia condessa que me tinha encarregado de o convidar para
+assistir, no domingo á festa das Chagas! Fiem-se lá!... E tu não faltes,
+á festa, Adelaide. Esto anno fazemol-a com toda a pompa. O prégador já
+me leu o discurso, e trata eruditamente a materia. A prima Lacerda vae
+cantar um _Benedicite_, e a prima viscondessa de Lagos canta um _Tantum
+ergo_. Havemos de fazer melhor festa que a do conde de Melres. Eu começo
+ámanhã a colher flores e a pedil-as para enfeitar o altar dos tres reis
+magos e das tres virtudes cardeaes, de que me fizeram mordomo, não sei
+se sabias?
+
+--Não sabia, meu amor--disse Adelaide, congratulando-se com os
+enthusiasmos pios do excellente moço.
+
+A palestra proseguiu n'este tom por espaço de uma hora. A lua espreitava
+estas duas pessoas por entre as nuvens, que a pouco e pouco se foram
+descondensando. O céo azulejou-se e estrellou-se para galardoar a
+virtude do mordomo das tres virtudes cardeaes e da bella menina
+destinada a maridar-se com o mais energico influente da festa das
+Chagas, com que o devoto conde de Melres se havia de dar a perros.
+
+No entanto, Calisto Eloy, consultando a sua consciencia a respeito de
+Vasco da Cunha, decidiu que o homem, se não era um santo, propendia
+grandemente para a semsaboria de idiotismo. Esta critica é a prova de um
+animo já iscado da peçonha da meia impiedade que degenera em impiedade
+inteira. Já como castigo de escarnecer um moço virtuoso, sentia elle
+encher-se-lhe de amargura o coração. Não bastava ouvir-se qualificado de
+hypocrita brutal por Adelaide; quiz de mais d'isto a providencia dos
+amantes lerdos, providencia que eu não posso escrever se não com _p_
+pequeno, quiz, digo, que Vasco da Cunha, mancebo em flor d'annos e
+gentileza, se estivesse alli rejubilando em novenas e mordomias das tres
+virtudes cardeaes, em quanto elle Calisto, a mais de meio caminho da
+morte, ardia em fogo impuro e cobiça peccaminosa, com os olhos cerrados
+á visão duas vezes pura de uma esposa de touca e lencinho azul de tres
+pontas sobre as espaduas não despeciendas, segundo me consta.
+
+Merecem escriptura as ultimas phrases de Adelaide e Vasco.
+
+A menina, interrompendo os enlevos do devoto moço, que se deleitava em
+conjecturar a zanga do conde de Melres, perguntou-lhe, com doce
+requebro, quando viria o dia suspirado de sua união.
+
+Vasco deteve a resposta alguns segundos, e disse:
+
+--Deixemos vêr se morre minha tia Quiteria, que me quer deixar os
+vinculos do Algarve.
+
+--Pois nós--volveu Adelaide magoada--não poderemos ser felizes sem os
+vinculos de tua tia Quiteria, meu Vasco?
+
+--Ninguém é feliz desobedecendo aos seus maiores, replicou Vasco. A tia
+Quiteria quer que eu espere a volta d'el-rei para depois tomar ordens
+sacras, e trazer mais uma mytra episcopal á nossa linhagem onde estavam
+como em vinculo as principaes prelazias do reino.
+
+Adelaide, não obstante o coração, quando aquillo ouviu, sentiu-se mal do
+estomago.
+
+
+
+
+XXII
+
+*Outro abysmo*
+
+
+Esta pungente lancetada não esvermou a postema do peito de Calisto de
+Barbuda. Desde que qualquer sujeito perde o siso do coração, escusado é
+esperar que a razão lh'o restaure: em tão boa hora que elle o recupera
+depois das amargas provas. O homem, porém, que amanhece tolo aos
+quarenta e quatro annos, a mim me quer parecer que ao entardecer-lhe a
+vida a tolice refinará.
+
+Tenho dois grandes exemplos d'isto: um é Calisto de Caçarelhos; o outro
+é Henrique VIII de Inglaterra. Este, ahi pelas alturas dos quarenta
+annos, tão bom homem era, que até escrevia contra o impio Luthero, e
+vivia santamente com sua esposa, Catharina de Aragão. Insandeceu de
+amor, vinte annos depois de marido exemplar, e d'ahi por diante sabe o
+leitor que golpes elle deu no peito invulneravel do papa e no fragil
+pescoço das pobres mulheres.
+
+Calisto Eloy não será capaz de repudiar nem degolar Theodora, porque
+n'este paiz ha leis que reprimem os patetas sanguinarios; todavia, eu
+não assevero que elle seja incapaz, alguma hora, de lhe chamar parva e
+hedionda, e de lhe atirar com a touca e com o lenço azul de tres pontas
+á cara vermelha de pudor. Veremos.
+
+Calisto, digamol-o sem refolhos, caiu. Atascou-se. Foi de cabeça ao
+fundo do pégo em que deram a ossada o ultimo rei dos godos, e Marco
+Antonio, e o rei enfeitiçado pela comborça Leonor Telles, e Simplicio da
+Paixão, e varias pessoas minhas conhecidas, que experimentaram todos os
+systemas de desfazer a vida, desde o muro de S. Pedro d'Alcantara até ás
+cabeças dos palitos phosphoricos.
+
+Este enguiçado Barbuda, na volta de Campolide, não teve uma lagrima que
+chorasse sobre a sua dignidade esfarrapada. Circumvagou a vista pelos
+seus livros, figurou-se-lhe vêr na lombada de cada in-folio o olho de um
+demonio zombeteiro, bem que aquelles pergaminhos encadernassem almas, no
+céo bem-aventuradas, e na terra immorredoiras, almas que n'este mundo se
+chamaram fr. João de Jesus Christo, fr. Pantaleão d'Aveiro, fr. Antonio
+das Chagas, e dezenas d'estes talismans, que tem salvado o leitor e a
+mim de soçobrarmos nos parceis que esbravejam á volta de Calisto.
+
+Eram duas horas da manhã, quando o morgado experimentou uma sensação,
+que viria a definir-lhe o espirito, se alguem carecesse de vêr este
+homem a luz extraordinaria.
+
+Nas aguas-furtadas do andar, em que elle morava, residia uma viuva de um
+tenente, senhora d'annos insuspeitos, de muitas lerias, minguada de
+recursos, e, por amor d'isso, se offerecêra a cuidar da casa e da
+cosinha do deputado. Ás duas horas, pois, bateu Calisto á porta da
+visinha, e, como ella lhe fallasse, exprimiu elle a sensação imperativa,
+que o levou alli, por estes termos:
+
+--Sr.^a D. Thomazia, ha por ahi alguma coisa que se coma?
+
+--Não ha nada feito; mas eu vou fazer chá, sr. Barbuda, e o que v. ex.^a
+quizer.
+
+--Olhe se me póde frigir uns ovos com presunto--volveu elle.
+
+--Pois lá vão ter d'aqui a pouco.
+
+--Veja lá que se não constipe, sr.^a D. Thomazia--recommendou elle.
+
+--Não tem duvida. Olhe que eu tenho muito que lhe dizer. Achou um
+bilhete de visita na escrevaninha? perguntou D. Thomazia pelo buraco da
+fechadura.
+
+--Não achei.
+
+--Pois lá está. Faz favor de ir, que eu vou vestir-me.
+
+--Então a sr.^a D. Thomazia está-se constipando? Ora esta! Isso é que eu
+não queria!... Cá desço, e até logo.
+
+O bilhete, que o deputado encontrou, dizia: Iphigenia de Teive Ponce de
+Leão, e logo a lapis: _viuva do tenente general Gonçalo Telles Teive
+Ponce de Leão_.
+
+Desfilaram por diante do espirito de Calisto Eloy regimentos de
+illustres familias oriundas dos Telles e dos Teives e dos Ponce de Leão.
+Na linhagem dos Barbudas tambem alguma vez tinham entrado os Teives, e
+uma decima nona avó de Calisto viera de Hespanha, e era Ponce, dos
+Ponces genuinos dos duques de Banhos.
+
+Estava o morgado combinando estes parentescos contrahidos ahi pelo
+ultimo quartel do seculo XII, quando D. Thomazia entrou com o presunto e
+ovos. Calisto assentou o prato sobre dois volumes da Historia
+Geneologica, que lhe tomavam a banca: e quanto a deglutição lh'o
+permittia, n'alguns intervalos, foi perguntando:
+
+--Então quem é esta senhora, que me procurou?
+
+--Eu só sei dizer, respondeu D. Thomazia, que é uma creatura linda,
+linda quanto se póde ser!
+
+--Como assim?! atalhou Calisto, retendo uma lasca de presunto entre os
+dentes molares, pois ella não é a viuva de um tenente general, que
+naturalmente havia de morrer velho?
+
+--Póde ser que elle morresse velho; mas a viuva o mais que póde ter é
+trinta annos.
+
+--E com que então galante?
+
+--É uma imagem de cera. V. ex.^a ha de vêl-a. E então elegante! A
+cintura cabe aqui, proseguiu D. Thomazia, formando um annel com dois
+dedos. Eu, quando ouvi parar uma carruagem, cuidei que era v. ex.^a e
+vim abrir as portas do escriptorio. A senhora veiu subindo, e puchou á
+campainha. Eu espreitei lá de cima, e, a fallar verdade, lembrei-me se
+seria a sua esposa, que lhe quisesse fazer uma agradavel surpreza.
+Perguntou-me ella pelo sr. Barbuda de Benevides, e foi entrando comigo
+para a sala. Levantou o véo, e disse: «Não está em casa?» Que voz, sr.
+morgado, que voz de creatura aquella!
+
+--E isso a que horas foi? atalhou Calisto. Era por noite alta?
+
+--Não, meu senhor. Eram seis horas da tarde. V. ex.^a tornou ás oito,
+mas saiu logo; e, quando eu voltei de fazer uma visita, já o não achei
+para lhe dar esta noticia.
+
+--E depois a senhora que mais disse?
+
+--Mostrou-se pesarosa de o não encontrar, e prometteu de voltar hoje ás
+tres horas.
+
+--E a sr.^a D. Thomazia saberá o que me quer essa dama?
+
+--Não sei; o que ella sómente disse foi que v. ex.^a era um genio.
+
+--Pois ella disse-lhe isso sem mais nem menos?
+
+--Foi a respeito de vêr aqui estes livros muito grandes, acho eu. Esteve
+a reparar n'elles com uma luneta... E a graça com que ella punha a
+luneta!... Mulher assim!... Os homens ás vezes por mais asneiras que
+façam, teem desculpa!...
+
+--As paixões, minha sr.^a D. Thomazia...--obtemperou o morgado, e lambeu
+os beiços molhados da libação de um vinho nervoso d'aquella garrafeira
+já mencionada. E proseguiu.--As paixões do amor... Nem os grandes sabios
+nem os grandes santos se exemptaram d'ellas. Somos todos de quebradiço
+barro; somos uns pucarinhos de Extremoz nas mãos infantis das mulheres.
+O tributo é fatal: quem o não pagou aos vinte annos, ha de pagal-o aos
+quarenta, e mais tarde, quando Deus quer... Deus ou o demonio, que eu
+não sei ao justo quem fiscalisa estes malaventurados successos de amor,
+que a historia conta e a humanidade experimenta cada dia...
+
+--É um gosto ouvil-o!--interrompeu D. Thomazia--Bem no disse aquella
+senhora: v. ex.^a é um genio, e falla de modo que se mette no coração da
+gente. Quer que lhe diga a verdade, sr. Barbuda? Foi bom que v. ex.^a me
+encontrasse n'esta edade. Se eu fosse moça e bonita, como dizem que fui,
+um homem como v. ex.^a havia de me dar cuidados.
+
+--Ora, minha sr.^a D. Thomazia, isso é lisonja e favor. Eu já não estou
+tambem na edade de tocar corações, nem os meus habitos vão muito para
+ahi!
+
+--Edade!--accudiu a viuva do tenente--v. ex.^a póde dizer que tem trinta
+e cinco annos, que ninguem lh'o duvida. É mania agora dos rapazes
+quererem á fina força passar por velhos. Pergunte quem quizer á visinha
+do primeiro andar se o acha velho. Está-me sempre a perguntar se v.
+ex.^a me diz d'ella alguma coisa... Conhece-a?
+
+--Bem sei: uma mocetona cheia, com umas fitas escarlates na cabeça...
+Não é má...
+
+--E sabe v. ex.^a que mais? Eu vou apostar que esta senhora, que veiu
+cá, traz coisa no coração, que a obrigou. Assim uma senhora nova,
+sosinha, tão encantadora!... Aquillo, em quanto a mim, é que já o ouviu
+no parlamento, e apaixonou-se. Ha muitos casos assim cá em Lisboa de
+senhoras apaixonadas pelos homens de talento. O talento é uma coisa
+muito bonita! Meu marido casou comigo quando era sargento do treze de
+infanteria, e andava nos estudos. Era feio, e ao principio tinha-lhe
+medo; mas assim que elle me mandou um acrostico... V. ex.^a sabe fazer
+acrosticos?
+
+--Ainda não me puz a isso.
+
+--Pois como eu me chamo Thomazia Leonor e tenho quatorze letras fez-me
+elle um soneto que me deu volta á cabeça, e tamanho incendio me tomou o
+peito, que o amei até á morte, e ainda agora, ficando eu viuva aos
+trinta e nove annos, fui, sou e serei fiel á sua memoria.
+
+N'este ponto, D. Thomazia, ferida n'alma pelo acrostico memorando,
+chorou.
+
+Calisto represou-lhe os prantos com algumas maximas consoladoras sobre a
+morte, e bocejou, já por que eram tres horas e meia da manhã, já por que
+o dialogo descaira nos aborrimentos de uma palestra em dia de fieis
+defuntos. D. Thomazia começou a espirrar, por que se não agasalhára
+bastantemente, e assim se apartaram estas duas pessoas, que uma hora de
+expansão aproximara.
+
+Calisto, conforme ao antigo uso, levou um livro para a cabeceira do
+leito. Escolheu poeta, e saiu-lhe o seu já tão querido outr'ora Sá de
+Miranda. Abriu ao acaso, e saiu-lhe n'uma pagina _d'Os Estrangeiros_
+esta maxima: _Duas sortes de homens ha no mundo que se possam servir: ou
+muito parvos ou muito namorados, e ainda os namorados tem grande
+vantagem_.
+
+A meu vêr, o espirito d'aquelle honrado doutor, que tão santo marido
+fôra de Briolanja de Azevedo, até de saudades d'ella se deixar morrer,
+alli lhe viera, áquella hora, relembrar occasionalmente e a ponto uma de
+suas maximas, como em paga do affectuoso respeito com que Barbuda o lia
+e inculcava á mocidade depravada.
+
+Calisto Eloy pôde ainda admirar o lidimo portuguez da maxima, e
+adormeceu.
+
+
+
+
+XXIII
+
+*Tenta o seu anjo da guarda salval-o mediante uma carta da esposa*
+
+
+Calisto dormiu mal.
+
+As alvoradas de um dia feliz são mais temporãs que as da estrella
+d'alva. O coração acorda primeiro que os passaros. O amor diz o seu
+_fiat lux_ primeiro que Deus. Estas tres sentenças, a meu vêr, são mais
+intelligiveis que o contentamento do morgado da Agra, ao levantar-se da
+cama em que dormitára algumas escassas horas alvoroçadas.
+
+O desastre de Campolide quebrantaria um homem qualquer que viesse a
+cumprir n'este mundo os vulgares destinos da maxima parte dos mortaes.
+Individuos notaveis já sairam scepticos e bravos cynicos de aperturas
+menos dilacerantes. Os annaes ensanguentados da humanidade estão cheios
+de facinoras, empuxados ao crime pela ingratidão injuriosa de mulheres
+muito amadas e perversissimas. Superabundam casos de embaçadellas
+analogas á de Calisto: d'estes lances obscuros tem saido aparvalhada
+muita gente que era escorreita, e que se volve daninha á republica. São
+uns homens que vos namoram as criadas, se vos não podem requestar a
+familia; uns vampiros de sangue femeal, que trazem o demonio da vingança
+no corpo, demonio meridiano e nocturno, que bebe lagrimas de mulher, em
+quanto os possessos d'elle bebem cognac e absyntho. Um homem d'estes,
+encostado a frade de esquina, é o leão que espreita da sua caverna
+lybica a antilopa descuidosa. Officiala de modista, que se espaneja nas
+verduras do jardim da Estrella, como alvéola nas praias borrifadas de
+espuma, se o anjo da guarda a desampara um quarto de hora, tem os seus
+dias contados. O scelerado, com o simples auxilio de um gallego, em que
+por vezes se ingere e chafurda o confidente de Fausto, arranca da fronte
+da alegre palmilhadeira de botinhas a grinalda de laranjeira em botão,
+que esperava a sua primavera, o seu abrir-se e rescender, no primeiro
+dia nupcial. Que tristeza! E ninguem falla d'isto senão eu, porque me
+cumpre fazer o elogio de Calisto Eloy, que não fez cousa nenhuma
+d'aquellas.
+
+Assim que se ergueu cuidou em aformosear a saleta, cuja decoração era
+menos de modesta. Saiu açodado ao armazem dos mais elegantes estofos, e
+comprou alfaias magnificas. O homem pasmava dos nomes d'aquelles
+objectos, nenhum dos quaes soava portuguezmente.
+
+--Porque chamam a isto _chaise-longue_?--perguntava Calisto Eloy ao
+engenhoso Margoteau.
+
+--Porque chamam?!
+
+--Sim: eu creio que se não offende a França no caso de chamarmos a este
+movel uma cadeira longa, ou uma preguiceira, que sôa melhor. E _étagère_
+e _console_ e _téte-à-tête_, e _onaise_? E é carissimo tudo isto! A
+gente, pelos modos, de fóra parte os objectos, tambem paga a lição de
+francez de samblador, que vem aqui aprender?
+
+Sem embargo d'estes reparos, o oiro saiu-lhe generosamente da algibeira
+bem apercebida.
+
+A pobre saleta do morgado, dentro em pouco, transformou-se em recinto
+digno de uma Ponce de Leão. Calisto, refestelado nos coxins elasticos da
+ottomana, contemplava os restantes adornos do aposento, quando lhe
+chegou do correio carta da sua esposa.
+
+Dizia assim:
+
+«Já com esta são tres que te escrevo, e ó por hora nem uma nem duas da
+tua parte. Marido! que fazes tu, que não respondes? Ando a futurar que
+não tens o miolo no seu logar. Longe da vista, longe do coração, diz lá
+o ditado. Ora, queira Deus que não seja por minga de saude; e, se é,
+dil-o para cá, que eu estou aqui estou lá.
+
+«O primo Affonso de Gamboa esteve cá ha dias, e a modo de caçoada foi-me
+dizendo que lá na capital as mulheres inguiçam os homens, e fazem
+d'elles gato sapato. Eu fiquei sem pinga de sangue, meu Calisto! Mal fiz
+eu em te deixar ir ás côrtes. Bem tolo é quem está bem na sua casa, e se
+mette n'estas coisas dos governos, que só servem para quem não tem que
+perder, como diz o primo Affonso.
+
+O peor é se tu pegas a doidejar com as mulheres, e saes do teu sério.
+Eras um marido perfeito como a santa religião o quer, e tenho cá uns
+agouros no peito que me não deixam fechar olho ha tres noites. Deus te
+defenda, homem, e te traga aos braços da tua mulher são e escorreito da
+alma e do corpo.
+
+Saberás que o mestre-escola anda de candeias ás avessas por que tu lhe
+não respondes á carta em que elle te pediu uma venera. Olha se lhe
+arranjas isso ainda que te custe pedir ao rei ou lá a quem é a tal
+coisa. O homem tem-me feito favores, quando eu preciso que elle me leia
+a relação dos foreiros. A vacca preta comeu o bicho, e morreu hontem á
+noite. Lá se vão cinco moedas e um quartinho com a breca. O centeio da
+tulha do meio deu-lhe o gorgulho, e tratei de o vender, a trezentos e
+quinze, foi bem bom arranjo; eram mil e duzentos alqueires.
+
+Olha cá, meu Calisto, disse-me a Joanna Pedra, que ouvira dizer ao
+Manuel da Loja, que ouviu dizer ao compadre Francisco Lampreia, que veiu
+de Bragança que lá lhe disseram que tu mandaras ir de casa de um
+negociante mais de cem moedas de ouro!!! Fiquei estarrecida. Pois tu lá
+não recebes do rei dinheiro que te sobre? Em que affundes tu tantas
+moedas, homem? Vê lá no que andas mettido, Calisto! E, se te fôr muito
+necessario algum dinheiro, cá estou eu para t'o mandar. Aquelle caixote
+de peças de duas caras fui ha dias escondêl-o na lareira da cosinha
+velha, porque tenho medo á ladroeira desde que tu andas por lá.
+
+Não te enfado mais. Responde sem demora, que estou muito consternada.
+
+ Tua mulher que muito te quer
+ _Theodora_.»
+
+Calisto Eloy dobrou a carta vagarosamente, e disse de si para comsigo:
+
+--Pobre mulher! já me sinto enfadado com as tuas cartas... Já as tuas
+sinceras babozeiras me incommodam e enjoam!... Agora vejo que tu eras
+quasi nada na minha vida. Não sei em que logar do meu coração estiveste,
+porque não dou pela falta, nem sequer a saudade me chama para ti!... Os
+contentamentos da minha vida passada deu-m'os o estudo. O coração dormia
+como os ventos da tempestade no bojo da nuvem negra, que serenamente se
+vae acastellando no horisonte. Eil-a começa a desfechar agora relampagos
+e coriscos. Mas o viver é isto! eu quero e preciso amar. Levam-me os
+impetos de uma vontade juvenil, e «a vontade é vida» como diz o Jorge
+Ferreira na Eufrozina. Amor! amor! que me caldeaste e retemperaste o
+peito nas tuas forjas! emborca-me os teus nectareos phyltros,
+embriaga-me este coração, que já não póde respirar de afogado nos seus
+ardores!...
+
+Disse, e tirou de uma charuteira de canudos de prata um havano, cujas
+ondulações de fumo lhe perfumaram o quarto e subtilisaram a phantasia.
+
+Depois, com forçado tregeito, estendeu o braço sobre uma banqueta de
+charão, em que assentava um tinteiro de crystal, e escreveu á esposa,
+n'este theor:
+
+«Prima Theodora e estimada esposa.
+
+Passo bem de saude; mas saudoso de ti. Não te tenho escripto, porque os
+negocios do estado me levam todo o tempo. Mandei vir dinheiro de
+Bragança, para emprezas de grande vantagem. Não te dê cuidado os meus
+gastos, que somos muito ricos, e não temos filhos. Até aqui vivemos
+miseravelmente, quando eu voltar a casa, quero que mudes de vida, prima.
+Hei de reformar o nosso palacete de Miranda, e viveremos como nossos
+avós, com representação e commodidades proprias d'este tempo. É preciso
+gosarmos a vida, que é curta. Não andes por lá a medir grão nem a tratar
+das aves. Entrega isso ás criadas, e faz-te a senhora e fidalga que és.
+
+Em quanto ao mestre-escola, e á sua exigencia do habito de Christo, devo
+dizer-te que o mestre-escola é um asno. Não respondo a taes cartas.
+Manda-o á tabua, e não admittas similhante palerma á tua conversação.
+Lembra-te que és uma Figueirôa, casada com um Barbuda.
+
+Se receberes ordem minha, em mão de algum negociante de Bragança, paga o
+dinheiro que disser a ordem.
+
+Não te lembres de infidelidades do teu Calisto. O primo Gamboa é um
+patarata sem juizo, que te diz essas coisas para te disfructar.
+
+Quando vier o recoveiro de Miranda, manda-me presunto, salpicões, e
+algumas ancoretas do vinho da Ribeira.
+
+ Teu muito affecto e extremoso
+ _Calisto_.»
+
+
+
+
+XXIV
+
+*A mulher fatal*
+
+
+Ás tres horas em ponto, parou uma sege de praça, á porta de Calisto Eloy
+de Silos. O bolieiro subiu ao terceiro andar, perguntando se s. ex.^a
+estava em casa. O morgado arregaçou com o pente as mechas do cabello,
+que lhe escondiam porção das escampadas fontes, apertou os cordões do
+rob-de-chambre na volta mais airosa da cintura, e desceu ao pateo a
+receber a visita.
+
+Saltou da sege, amparando-se levemente na mão de Calisto, uma mulher
+d'aquellas que Lucifer fazia, quando assaltava no deserto a pudicicia
+dos Antonios, dos Paulos, dos Pacomios e Hilarioens.
+
+Era alta e pallida: rutilavam-lhe os olhos como lustrosos azeviches á
+flor de um busto de marfim, algum tanto emaciado. Calisto machinalmente
+levou a mão ao coração: traspassara-lh'o uma azagaia electrica.
+
+--É muita delicadeza da parte de v. ex.^a, disse Iphigenia.
+
+--Oh, minha senhora!... tartamudeou o morgado da Agra, offerecendo-lhe o
+braço.
+
+--Parece, tornou ella quando iam subindo, que o meu palpite não me
+enganou...
+
+--O palpite de v. ex.^a?
+
+--Sim... eu contava com um cavalheiro no rigor da palavra... Delicadeza
+egual ao talento, qualidades que raras vezes se conformam.
+
+Entraram á sala. O morgado conduziu Iphigenia ao sophá, e disse com voz
+tremida:
+
+--A que devo eu a honra d'esta visita, minha senhora?
+
+--Abreviarei a minha historia e a minha pretenção. As suas horas deve-as
+v. ex.^a ao bem da patria, e indiscreta fui eu obrigando-o a estar fóra
+do parlamento a esta hora...
+
+--Minha senhora... que vale a patria, em comparação da honra que v.
+ex.^a me dá?! atalhou Calisto Eloy, com o coração nos labios a sorrir.
+
+--Sou brazileira. Pela falla me terá já conhecido...
+
+--Sim: eu estava notando no fallar de v. ex.^a, uma graça indisivel...
+
+--Meu pae era portuguez, capitão de mar e guerra. Foi de Portugal com D.
+João VI, e casou no Rio de Janeiro, com minha mãe, senhora de boa
+linhagem, mas de pouquissimos recursos. Nasci em 1830, e casei em 1846
+com um official general, do exercito do imperador do Brazil. Meu marido
+tinha sessenta e seis annos. Emigrára em 1834, com a patente de
+brigadeiro dada por D. Miguel, tendo sido coronel ainda no reinado de D.
+João. Gonçalo Telles offereceu a sua espada e intelligencia a Pedro II,
+serviu bravamente o imperio, e subiu em postos. Eu vivia orphã de pae e
+mãe, na companhia de parentes maternos, que pensavam constantemente em
+me dar posição. Casaram-me, e, se me não fizeram feliz, deram-me pae,
+amigo e mestre na pessoa de Gonçalo Telles.
+
+Ha dois annos que meu marido morreu. Deixou-me pouco, porque ninguem
+póde grangear muito com honra, principalmente na vida militar. Pouco
+antes de cair enfermo, me disse que, se algum dia me faltassem recursos
+e beneficios do governo brazileiro, viesse a Portugal e procurasse o
+amparo de alguns grandes fidalgos, seus parentes que elle me nomeou um
+por um; e ajuntou que, se os parentes me não amparassem, pedisse ao
+estado uma tença em attenção aos muitos serviços que elle fizera á
+patria em trinta annos, até ao dia em que foi promovido a coronel de
+cavallaria.
+
+Ha tres mezes que cheguei a Lisboa. Procurei os parentes do meu marido.
+Apeei á porta de grandes palacios, e esperei largas horas em grandes
+salas de espera, como viuva que anda requerendo esmola. Enganaram-se.
+
+Alguns, por mais tractos que deram á memoria, já não conseguiram
+lembrar-se de Gonçalo Telles de Teive Ponce de Leão; outros, os mais
+velhos, recordavam-se do sujeito, e lastimavam que elle deixasse o
+serviço da patria. Quando eu não tinha mais que lhes dizer nem elles a
+mim, eu levantava-me, elles levantavam-se, e despediamo-nos
+cerimoniosamente. A altivez com que eu os despreso, sr. Barbuda,
+authorisa-me a dizer-lhe que os miseraveis são elles: eu tenho comigo a
+riqueza do meu orgulho; e, se conservo os appellidos de meu marido, é
+porque elle foi talvez o unico de sua raça que os não desdourou...
+
+--Diz v. ex.^a muito bem--atalhou Calisto.--Que nobre alma as suas
+palavras me manifestam!
+
+--Ha dias, por não ter de portas a dentro coisa que me distraisse de
+pensares melancholicos, fui ao parlamento. Segui umas senhoras que iam
+subindo para as galerias. Um homem pediu-me o meu bilhete de admissão:
+eu não tinha bilhete, e ia descer algum tanto envergonhada, quando um
+deputado cortezmente me disse: «aqui tem uma entrada, minha senhora.»
+Agradeci, posto que a minha vontade seria regeitar. Entrei, quando v.
+ex.^a começava a fallar. Impressionou-me a sua eloquencia chã, os seus
+ares graves, a compostura, um não sei quê mais sério que os seus annos,
+permitta-me assim fallar. E, ao mesmo tempo, lembrou-me a recommendação
+de meu marido, respectivamente aos direitos que elle tinha de ser
+remunerado na pessoa de sua viuva. Eu nada sei de leis nem consultei
+quem as soubesse; ignoro se tenho direito a reclamar o que meu marido
+nunca reclamou. V. ex.^a póde de prompto responder-me?
+
+--Não, minha senhora. O que eu de prompto posso asseverar a v. ex.^a é
+que, em honra da memoria e cinzas do honrado brigadeiro do sr. D.
+Miguel, não erguerei minha voz humilde no parlamento, pedindo aos
+inimigos de D. Miguel favores para a viuva de Gonçalo Telles.
+
+--Em tal caso...--balbuciou D. Iphigenia--baldou-se a minha pretenção.
+
+--Queira v. ex.^a ouvir-me...--Molesta-se com o fumo do
+charuto?--perguntou elle erguendo-se.
+
+--Não, senhor.
+
+Calisto accendeu o charuto com ademanes theatraes, e voltou a sentar-se,
+proseguindo:
+
+--Se o marido de v. ex.^a houvesse profundamente estudado a sua arvore
+genealogica, ajuntaria alguns nomes, mais obscuros mas não menos
+antigos, á lista dos parentes em Portugal. Mais obscuros, digo eu;
+porém, a illustração dos mais claros não é de invejar, minha nobilissima
+senhora. Entre aquelles que se honram do parentesco dos Telles, dos
+Teives e ainda dos leonezes chamados Ponces de Leão, ha um que dispensou
+estes appellidos por se não demasiar em composturas nobiliarias. E esse,
+minha senhora e prima, sou eu.
+
+--V. ex.^a?!--acudiu Iphigenia.
+
+--Eu, que não costumo fallar de meus antepassados, sem invocar o
+testemunho dos tratadistas nobliarchicos, dos chronistas, dos
+genealogicos impressos e não impressos. Devo poupal-a a discursos, aliás
+curiosos, de agradaveis e historicas noticias: mais tarde v. ex.^a
+ouvirá com interesse as allianças travadas entre os meus maiores e os de
+meu parente Gonçalo Telles de Teive. Achou, pois, v. ex.^a um parente em
+Portugal. Boa estrella nos fez confluir a Lisboa; em boa hora me deixei
+vencer das instancias dos meus constituintes.
+
+--Eu estou maravilhada!...--exclamou Iphigenia--Ha presentimentos
+prodigiosos!... Que força estranha era esta que me impellia para v.
+ex.^a!? Subi as escadas de sua casa com desusada affoiteza. Comecei a
+fallar-lhe com segurança e tranquilidade extraordinarias! Não me lembrei
+que estava diante de um cavalheiro, que podia intender-me falsa e
+desairosamente... Em fim, eu fallava a v. ex.^a como se deve fallar... a
+um primo.
+
+--E mais que tudo a um amigo. E, como amigo, ouso perguntar a v. ex.^a
+qual é actualmente a sua situação.
+
+--Francamente responderei. Entrei em Lisboa com dinheiro, que poderia
+bastar á minha economica subsistencia de dois annos; porém, como ao fim
+de tres mezes, não se me antolhava amparo de ninguem, nem esperanças de
+alcançar a paga dos serviços de meu marido, pensei em trabalhar para não
+exhaurir o peculio que tinha. Li um annuncio, convidando mestra de
+linguas ingleza e franceza para collegio. Confiei bastante em mim, e
+apresentei-me aos directores. Fallei francez, e cuidaram que eu nascêra
+em França; em quanto a inglez, deram-me como bastante conhecedora da
+lingua. Pareceu-me que a minha posição melhorava; mas enganei-me. Eu
+levava comigo o fatal condão de algumas mulheres; dizem que ainda não
+estou velha nem feia...
+
+--Que favor lhe fazem, minha senhora!--atalhou Calisto mui risonho.
+
+--Pois este accidente, de que tanto se desvanecem algumas mulheres,
+tornou-se para mim supplicio. Não querem crêr que eu envolvi meu coração
+na mortalha de meu marido, no tumulo d'elle o fechei; e, se podesse,
+este resto de formosura atirara áquella campa, que me roubou um pae.
+
+--Então é certo que minha prima abjurou todas as alegrias do
+coração?--perguntou Calisto, já ferido n'alma por este desengano á
+paixão que o ia queimando com um crescer e desenvolvimento para pavores!
+
+--Todas as que não condigam com a minha situação de viuva.
+
+--Pois se a Providencia lhe deparasse um marido digno...
+
+--Maridos dignos são unicamente aquelles que affagam como a filhas as
+mulheres; são aquelles que as mulheres estremecem como paes; são os que
+concentram todo o seu viver no pequenino ambito da familia, na placidez
+e silencios de almas que se contemplam mudas, quando as vozes do coração
+já não tem que dizer. Eu experimentei estes contentamentos ao lado de um
+pae, que me deu todo o seu saber quando já não tinha forças para manejar
+a espada. Não se podem repetir as situações do meu passado; lembro-as
+com saudade; mas não cogito nem levemente em revivêl-as. Aqui tem v.
+ex.^a a sincera exposição do que sou. Veiu isto a dizer-lhe que a vida
+de mestra, que adoptei, me é golpeada de desgostos e repugnancias que me
+fazem desgraçada.
+
+--E como seria v. ex.^a feliz?--interrompeu Calisto.
+
+--N'uma casinha entre duas arvores, com os meus livros e com as minhas
+saudades. Ambiciono muito, porque ha pessoas abastadas que nunca puderam
+conseguir esta felicidade, tão moderada apparentemente.
+
+Ergueu-se Calisto Eloy de golpe, avisinhou-se da brazileira, tomou-lhe a
+mão com solemnidade, e abriu do peito estas graves e doces vozes:
+
+--Prima Iphigenia, eu não permittirei que a sua mocidade vá
+emmurchecer-se n'uma casinha entre duas arvores. Para as arvores e
+flôres se fizeram as aves; e, todavia, na estação desabrida, umas aves
+desferem remontado vôo a outros climas, e outras pipilam enfezadas de
+frio e fome. Na estação das manhãs regorgeadas e das tardes inspirativas
+terá v. ex.^a a sua casa bem assombrada de arvores e rodeada de relvas e
+fontes que retemperem as calmas do estio. Porém, no inverno, gosará o
+aconchêgo e regalos que as grandes populações offerecem. Não lhe admitto
+replicas, prima. Achou um parente de edade authorisada, que requer
+obediencia. Agora, fallar-lhe-hei de mim. Sou rico, não tenho filhos,
+com quanto seja casado...
+
+N'este ponto do discurso, Calisto de Barbuda fez ama visagem funebre, e
+correu os dedos vertiginosamente por sobre o bigode, ainda escasso.
+Depois, desentranhou um suspiro cavo, e continuou:
+
+--Minha prima e mulher, se alguma vez se encontrar com v. ex.^a
+abrir-lhe-ha os braços de parenta. É uma creatura feita no campo, dotada
+apenas das luzes naturaes, que a levam pelo melhor caminho da felicidade
+n'este mundo. Casei, por que era necessario que o vinculo dos Figueirôas
+voltasse á casa d'onde saíra. Acho-me ha vinte e alguns annos ligado á
+mulher, que não devia ser minha. E, se ella é feliz, isso prova a muita
+probidade e resignação com que me tenho conformado ao meu destino...
+
+Fez uma breve pausa, e proseguiu:
+
+--V. ex.^a deu largas á sua alma: consinta que eu seja avaro do prazer
+de uma expansão.
+
+--Porque não ha de sêl-o?--accudiu D. Iphigenia, interessada na
+commovente historia.
+
+--Não sei o que é felicidade. Tenho quarenta e quatro annos, e ainda não
+vi uma aurora benigna. Muitos annos procurei aturdir-me no estudo.
+Roía-me o abutre de um desejo vago; mas eu, que me segregára do mundo
+para o escondrijo da minha bibliotheca, se ás vezes passava de relance
+entre mulheres, que poderiam espertar-me paixões, fitava n'ellas como
+idiota que perdeu a memoria da terra natal, e se quêda espantado das
+coisas que ligeiramente lhe espertam a lembrança. Se alguma vez me
+surpresou algum sentimento estranho de affecto, podia tanto comigo a
+consciencia da sujeição ao dever, que o mesmo era cerrar os ouvidos da
+alma ao quer que era, entidade dupla, que me segredava delicias de uma
+vida incognita. Estas breves e poucas pelejas, com o discorrer dos
+annos, cessaram. Eu tinha consummado a paralysia do coração, e chamado
+sobre mim todos os habitos da velhice. A minha vinda para Lisboa foi o
+resurgimento da vida, sepultada antes de haver consciencia de si.
+Achei-me entre homens, aquecidos á luz d'este seculo. Na athmosphera
+d'esta cidade ha perfumes que vaporam do coração das esposas amadas, das
+amantes queridas, das pombas ideaes, que volteam á volta dos espiritos
+anhelantes de cada homem. Pulou-me como arfar de vulcões a vida no
+peito. Vi-me no passado, e tive pesar, e saudade, e pejo da minha
+mocidade... Onde vão estas candidas revelações do meu pobre coração? Não
+na enfadam porventura minha senhora?
+
+--Interessam-me e commovem-me--disse com affectuosa sympathia a
+brazileira--Vae dizer-me que se apaixonou?
+
+--Tive um delirio--respondeu o morgado, compassando as palavras em tom
+muito do intimo--Um delirio, sonho de infeliz, que se desperta a
+arrancar do seio uma frecha. Foi o estremecer do terremoto, que alarma
+terrores, e se aquieta. Medi a profundeza da minha alma, e pude vêr que
+eu seria capaz de um crime... E, todavia, se algum seio de mulher
+podesse comprehender quanta pureza sanctificava os meus affectos!... Se
+alguem visse a aguia que por tão alto avoeja, sem descer ás searas a
+roubar um grão!... Fallo a um espirito elevado, que tem obrigação de me
+comprehender... Agora, senhora, perdão! Eu disse tudo: confessei-me
+diante de um anjo de Deus. Mostrei-lhe o desamparo d'este meu viver. E,
+se estas lagrimas alguma coisa significam, é uma supplica de amizade. Eu
+vejo ahi uma formosura que dobra a alma, e ouso procurar o
+compadecimento de uma amiga, porque sei agora que ha mulheres, diante
+das quaes um homem precisa chorar.
+
+Calou-se o morgado. Iphigenia encarava n'elle com certo assombro e
+estranheza de pessoa que não póde, nem quer conhecer dos sentimentos que
+a alvoroçam. O inesperado remate d'este dialogo figurou-se-lhe a ella a
+passagem de um romance, que se não presa de muito verosimil. Porém, como
+quer que a viuva do general Ponce de Leão fosse grandemente lida em
+novellas francezas, o caso não lhe pareceu tão extraordinario como ao
+leitor e a mim, quando m'o referiram.
+
+Passados momentos, Iphigenia, contemplando, sem as vêr, umas figuras
+chinezas do seu leque, disse:
+
+--De maneira que esta apparição imprevista de uma mulher desafortunada,
+se deu logar á expansão, tambem foi causa a uma dôr de v. ex.^a!...
+
+Calisto entrelaçou os dedos em postura supplicante, e exclamou:
+
+--Chovam-lhe os archanjos do Senhor quantas felicidades a
+bem-aventurança encerra! Nunca uma nuvem escura lhe ennegreça os seus
+sonhos de felicidade! Multipliquem-se em alegrias eternas para v. ex.^a,
+estes instantes de ventura que me deu, minha misericordiosa amiga!
+
+Nenhuma paixão subita estalou ainda com estrondos d'este tamanho. A
+gente comprehende como estas coisas acontecem; casos se podem ter dado
+comnosco da mesma natureza, mas o que nós não fizemos nunca, se o amor
+nos assaltou de improviso, foi fallar assim, romper tão depressa em
+vehemencias de enthusiasmo. Nós, homens creados mais ou menos por salas,
+affeitos a subordinar o sentimento ás praticas da civilidade,
+desafogâmos em extasis e suspiros, contemplamos embellezados a mulher
+que nos endoudece, respondemos com frioleiras gagas a uma pergunta, que
+nos ella faz com toda a presença do seu espirito. Toda a lastima é pouca
+para os ridiculissimos tregeitos que fazemos então.
+
+Ora, isto é bom que assim continue a ser. Esse quarto de hora de suprema
+realeza das mulheres é tudo que ellas tem, e pouco mais. Esse espaço de
+fascinação, que nos embrutece, é a divinisação d'ellas. Ás pobresinhas,
+quando o tempo as apêa dos altares, e os maridos convertem a prata dos
+thuribulos em caixas de rapé, fica-lhes sempre a memoria consolativa
+d'aquelle quarto de hora.
+
+Tornando ao ponto, queria eu dizer, que o morgado da Agra de Freimas não
+fallaria d'aquelle modo, nem tão do intimo da alma apaixonada, se
+tivesse experiencia dos usos da boa sociedade. Os bons usos ordenam que
+o homem se declare á mulher que ama, depois que as impressões repetidas
+de vêl-a e ouvil-a bajam desfalcado o vigor do sentimento. A praxe
+requer primeiro o extasis, depois as semsaborias tratamudas, ultimamente
+a declaração, com intervalo de tres mezes ao extasis.
+
+
+
+
+XXV
+
+*Perdido!*
+
+
+Fecharam-se as camaras.
+
+Calisto Eloy desamparára a sua cadeira do parlamento, quinze dias antes
+de encerrada a legislatura. Era opinião geral que o deputado de Miranda,
+desgostoso do governo e da opposição, se retirara, convicto da fraqueza
+de seus hombros contra o colosso, que tombava sobre o desangrado
+Portugal.
+
+As gazetas realistas indigitavam Calisto como exemplo de peito illustre
+e invulneravel no marnel de febres podres em que ardiam e patinhavam
+miseraveis ambiciosos. Deram-lhe, á conta d'isso, varios nomes gregos e
+romanos, que lhe ajustavam tão a primor, como a verdade historica á
+legenda das fabulosas virtudes de Grecia e Roma. A opposição liberal
+lamentava que as medidas obnoxias e hybridas do governo afugentassem da
+camara um deputado como Benevides de Barbuda, a cuja alta intelligencia
+e virtude repugnavam os desatinos da camarilha. Calisto Eloy lia estas
+coisas nas gazetas, e dizia entre si:
+
+--Como hei de eu crer no que vejo escripto a respeito dos outros!...
+
+Ao tempo que estes juizos dos publicistas eram impressos e mandados á
+posteridade, estava o morgado da Agra no hotel de Cíntra, cuidando em
+alugar e trastejar com elegancia britannica uma casa, entre moitas de
+arbustos, a qual parecia feita para a rainha das flores ou para
+repousar-se em fresca sesta a aurora.
+
+Decoradas as paredes interiores, cobertos de oleado os pavimentos, e
+afestoadas as paredes exteriormente com lilazes e jasmineiros, baunilhas
+e eras de verdejante urdidura, entrou n'aquella casa D. Iphigenia,
+conduzida pelo braço de Calisto, e seguida de uma senhora de porte
+honesto e recommendavel, que vinha a ser aquella D. Thomazia Leonor, em
+honra de quem as musas do defuncto tenente suspiraram acrosticos. Mais
+atraz, iam duas criadas, e um servo fardado de casimira côr de pombo,
+com gola e canhões escarlates, golpeados de listas amarellas,
+distinctivos da libré dos Ponces de Leão de Hespanha.
+
+Iphigenia foi surprehendida pelo seu gabinete de estudo, decorado de
+graciosas estantes e _étagères_, cheias de livros luxuosamente
+encadernados, acondicionados com tão elegante symetria que induziam
+muito mais á contemplação que á leitura. O restante d'aquella vivenda de
+fadas era por egual magnifico, em gosto e riqueza.
+
+Calisto deu posse da casa a sua prima, e retirou-se ao hotel, para que
+ella sestiasse e se recobrasse da fadiga e calma da jornada.
+
+Ao descair da tarde, o morgado foi bater á porta d'aquelle eden.
+Iphigenia saiu-lhe ao encontro com um ramilhete de flores, e disse-lhe:
+
+--Aqui tem as primicias do seu jardim, primo.
+
+Calisto aspirou o aroma das flores, osculou a mão que lh'as offerecera,
+e murmurou:
+
+--Fechem-se os meus olhos, quando eu as poder vêr sem lagrimas de
+gratidão.
+
+--Lagrimas... para que?--Volveu ella com meiguice.--As lagrimas
+deixemol-as aos infelizes. O primo não comparte do meu contentamento?
+Não vê que me realisou o meu sonho com tamanho excesso de delicias, que
+eu não me atrevera, sequer, a imaginar? Sinto-me ditosa!... Ainda não
+quiz pensar um instante se estas alegrias podem descair em magoas...
+Estou sonhando, e não quero que me acordem. Seria crueldade dizerem-me
+que ha viboras debaixo d'estas alcatifas de flores. Isto deve ser
+paraizo sem culpa, ignorancia santa do porvir sem pomo de arvore da
+sciencia que m'o descubra. Não é assim?...
+
+--Que fallar o seu prima!--disse com vehemente, mas suffocado amor, o
+morgado--Que melodias!... Eu não sei responder-lhe... Apenas sei
+escutal-a. N'uma composição dramatica de Sá de Miranda, chamada
+_Vilhalpandos_, ha um epitheto dado a uma mulher, o qual eu não podia
+perceber, sem que o baptismo das doces lagrimas me chamassem o coração á
+vida.
+
+--Sempre lagrimas!...--atalhou Iphigenia--Então que é que diz o Sá de
+Miranda?
+
+--Na bocca de um amante, que encontra a sua amada, põe estas palavras:
+«mulher santissima». Quem disse mais n'este mundo? os seus poetas
+francezes disseram coisa mais peregrina?... E n'esta mesma scena, poucas
+linhas abaixo, diz o amante a Fausta: «Sabes que sonho?». Que immenso
+amor devia de ser o de Antonioto, que assim perguntava á vida de sua
+alma: «Sabes que sonho?»
+
+--_Fausta_!... é um nome lindo, disse a mimosa viuva.
+
+--Se não existisse Iphigenia...--accudiu Calisto. Já este nome me soava
+docemente quando, na minha mocidade relia as angustias da filha da
+Agamemnão, cujo sacrificio o oraculo de Aulida demandava.
+
+--Ah! tambem eu conheço essas angustias da tragedia de Racine. Quantas
+vezes eu, nas minhas horas tristes, repetia com a Iphigenia do grande
+poeta francez, e com o espirito na alma de minha mãe, assim como ella o
+tinha no afflicto rosto da sua:
+
+ _Ah!
+ Sous quel astre-cruel avez-vous mis au jour
+ Le malheureux objet d'un si tendre amour?_
+
+O primo, continuou ella, conhece perfeitamente Racine e Corneille?
+
+--Perfunctoriamente. Conheço melhor Euripedes e Seneca. Pendi sempre á
+lição de classicos gregos, latinos e portuguezes. Crê-se nas provincias
+que o saber humano está n'isto. Os francezes começo a presal-os agora,
+porque... não ha linguagem que não sôe divinamente fallada por minha
+prima.
+
+--Essas lisonjas--volveu ella sorrindo--aprendeu-as nos seus livros
+velhos, primo Calisto?
+
+--A lisonja deixará alguma hora de ser mentira?... Eu não podia
+mentir-lhe, prima Iphigenia. Não!... Os meus classicos só me ensinaram
+duas palavras, que eu possa dizer-lhe: Mulher Santissima!
+
+Iphigenia deixou-se amorosamente beijar nos dedos.
+
+A natureza de Cintra, incluindo os rouxinoes d'aquellas ramarias,
+poderia espantar-se: eu, não.
+
+
+
+
+XXVI
+
+*E ella amava-o!*
+
+
+Era já pleno estio. Os galans mais hardidos de Lisboa estanceavam por
+Sitiaes, por Pisões, e por aquellas varzeas de Collares, a engarrafar
+lyrismo para gastarem por salas nas noites de inverno.
+
+O primeiro d'elles que descortinou por entre arvores a formosa
+brazileira foi alviçarando aos outros a ondina incognita, que saira das
+vagas a buscar camilha de folhagem e boninas entre as fragas da serra da
+lua.
+
+Entram os agitados monteiros da estranha caça a circumvagarem nas
+encostas e oiteirinhos que rodeavam a vivenda de Iphigenia. Uns a viam
+ao sol posto, outros ao arraiar da manhã, e outros, quando ella
+perpassava por entre aleas de cylindras para uma gruta fechada como
+concha de perola.
+
+A presença de Calisto Eloy, confundido com os arbustos floridos da
+casinha mysteriosa, augmentou a curiosidade dos indagadores. Uns
+consideraram esposa do deputado a bella esquiva; outros aventaram
+hypotheses mais romanticas, mas menos honestas. Á primeira conjectura
+oppunha-se uma forte razão negativa: se era marido, porque vivia no
+hotel do Victor? Á segunda conjectura, contradictava outra razão
+ponderavel: se era amante, que descuidado amante era elle, que se
+encerrava no seu quarto do hotel, durante as noites,--facto averiguado
+minudenciosamente pelos interessados? O mysterio, pelo conseguinte, a
+nublar-se, e as esporas de uma curiosidade impaciente a picar os moços
+ociosos, e os ricassos velhos, que espreitavam por entre a rede das
+sebes verdejantes, esta Susana, mais cuidadosa do que a outra, que
+accendia fogos nos lubricos juizes de Israel.
+
+Entre os mancebos, estremava-se um, que passava grandes espaços de tempo
+em quietismo esculptural debaixo de um olmo, que sobranceava a casa de
+Iphigenia. Sempre que ella, á hora da maior calma, se aproximava da
+janella do seu gabinete a respirar o frescor do jardim, via o
+contemplativo sujeito de braços cruzados, e olhos fitos. Mas, assim que,
+ao intardecer, os arredores da casa começavam a ser frequentados, o
+moço, como quem se resguarda, desapparecia.
+
+Era este sujeito aquelle Vasco da Cunha, que esperava a herança de uma
+tia para casar com Adelaide Sarmento. Os olhos indifferentes de
+Iphigenia assetearam-lhe a pia alma, n'um d'aquelles dias em que elle
+viera de Lisboa a Cintra para assistir á novena de Santo Antonio de
+Padua, celebrada solemnemente na capella de uma tia marqueza. Ou porque
+o ascetico fidalgo andasse com o coração amollecido pelas praticas
+piedosas, ou porque Iphigenia se lhe figurasse algum d'aquelles
+seraphins que visitavam os anachoretas da Thebaida, o certo é que não
+houve mais despegar-se-lhe a phantasia d'aquella imagem, que se
+interpunha entre elle e o santo filho de Martim de Bulhões.
+
+Iphigenia attentou na pertinacia do homem, e contou ao primo Calisto,
+gracejando, a tempestade amorosa que lhe andava imminente na pessoa
+d'aquelle sujeito. Assomaram differentes côres ao rosto do morgado.
+Quizera elle dissimular o sobresalto com o sorriso: mas a rubidez
+sanguinea dos olhos, se o dramaturgo inglez a visse, arranjaria
+d'aquelle aspeito feroz assumpto para mais scelerado preto.
+
+Iphigenia lisongeou-se d'aquella explosão de lavas que archejavam na
+testa do homem.
+
+_Lisongeou-se_!... Pois amava-o ella?!
+
+Não sei com que direito me fazem esta pergunta assim com uns visos de
+espanto! Amava-o como quem não tinha amado nunca. E para lisongear-se de
+incutir ciume não lhe fôra mister amal-o, digamol-o de passagem, e em
+nome da consciencia incorruptivel das senhoras, cuja attenção e reparo é
+felicidade que eu anteponha a todas.
+
+Amava-o, sem pensar os beneficios extremamente delicados com que elle
+lhe dulcificava a existencia. Amava-o captiva do quer que é que primeiro
+prende a vontade da mulher, sem dependencia dos dons da alma. Calisto
+Eloy de Silos estava uma esbelta figura de homem. A cara compuzera-se
+arabicamente. O bigode cerrado e negro caía-lhe sobre as claviculas. O
+descostume da leitura restituira-lhe o aprumo da espinha dorsal. O
+ventre baixou ás proporções rasoaveis. No trajar; refinava em elegancia
+e gosto, subordinando-se ao alvitre do alfaiate. Todo aquelle ar de
+meneios, posturas e geitos accusava os fidalgos espiritos, resgatados da
+brutesa da antiga vida. Póde ser que alguma affectação lhe maculasse os
+modos e garbo das attitudes: sem embargo, o senhor da Agra de Freimas
+era homem para merecer, sem favor, a consideração de qualquer dama
+superciliosa na escolha.
+
+Se isto não bastasse a ponderar no animo de Iphigenia, mal poderia
+resistir-lhe o coração aos respeitos, porventura demasiados, com que
+elle interpunha largo stadio entre as expansões da palavra e o minimo
+vislumbre de qualquer intento menos decoroso. Casos houve era que ella o
+surprehendeu com os olhos marejados de lagrimas e um sorriso nos labios,
+sorriso supplicante, de perdão para as lagrimas. Casos houve em que ella
+sentiu ferver-lhe o desejo de lhe pedir que, em vez de lagrimas, lhe
+desse um beijo na face, um d'aquelles beijos, que não tiram nada á
+formosura do corpo nem da alma, porque no rosto augmentam o rubor--o que
+é bello--; e na alma convencem a consciencia da adoração--o que é
+sublime. Difficil coisa será achar a virtude que se furta a estes
+conflictos! Virtude, que se esconde e encolhe para não ser alcançada
+pela flecha de um beijo, ás vezes acontece que, por muito esquivar-se,
+apouca-se, vapora-se, safa-se e ninguem sabe como ella se foi, nem como
+é possivel que um vaso fechado de essencias aromaticas appareça vasio
+sem ter sido quebrado. Este caso, naturalmente, anda explicado na
+esthetica. Eu hei de vêr o que é isto quando tiver vagar.
+
+Vamos já rodeando por longe dos ciumes de Calisto Eloy. Revertamos ao
+assumpto.
+
+Iphigenia tomou-lhe amorosamente da mão e disse-lhe:
+
+--Meu primo, eu não quero lêr em sua alma uma pagina que se não
+assimelha ás outras.
+
+--Pois que é, prima?... perguntou elle enleado e tremente.
+
+--Eu não quero ter de justificar-me, tornou ella balbuciante.
+
+--Justificar-se....
+
+--Sim. Duas palavras que bastem a definir-me. Se eu perder a sua
+amizade, quero morrer. Veja quanto eu farei para lh'a merecer.
+
+Calisto dobrou o joelho, e beijou a mão, que lhe estreitava
+calorosamente, a d'elle.
+
+Seguiu-se silencio de alguns minutos.
+
+Se houvesse elos na cadeia da felicidade humana, o ultimo, a maxima
+perfeição, devia prender com os gosos celestiaes. Esse ultimo elo não o
+ha: se existisse, o morgado, n'aquelle instante, perderia a consciencia
+d'esta vida, e entraria na exaltação beatifica dos anjos.
+
+A fortuna dos corações que desbordam da felicidade no amor, deve ser
+aquella _Fortuna parva_, á qual Servio Tullio erigiu templos. Tito
+Livio, a meu vêr, toma o _parva_ no sentido de _baixa_ ou _pequena_: eu
+traduzo latamente «fortuna lorpa»; porque não conheço, quem, n'uns
+lances analogos ao de Calisto, mantivesse a inteireza de sua razão e
+espiritos. É que o morgado não disse coisa que mereça escriptura, elle
+que tão donosamente, em supremos apertos, face a face do dr. Liborio,
+tirou da veia copiosa repuchos de eloquencia!
+
+No dia seguinte, quando as aves abraseadas do sol das onze horas, se
+embrenhavam nos tufos das ramagens, lá estava Vasco da Cunha debaixo da
+arvore.
+
+Á mesma hora, Calisto Eloy circuitava a parede da matta em que se
+emboscava o religioso mancebo, saltava de manso, e quasi a subitas
+passava rente d'elle hombro a hombro.
+
+Vasco não conheceu o homem que o fitava com sobranceria. Tres mezes
+antes se havia encontrado em casa do desembargador Sarmento com um
+Calisto, que não tinha que vêr com aquelle homem.
+
+Sorriu-se o morgado, e disse-lhe:
+
+--Costuma v. ex.^a intermear as suas novenas com a oração mental nas
+brenhas e florestas, á imitação dos antigos padres? Ou está pedindo aos
+deuses infernaes que lhe levem a alma da tia, e lhe deixem o vinculo da
+mesma para poder maridar-se com a sr.^a D. Adelaide Sarmento?
+
+Alumiou-se Vasco de uns longes de suspeita, e cuidou estar ouvindo a voz
+mesurada e sonora de Calisto.
+
+--O senhor... disse elle.
+
+--Eu, que?--atalhou o morgado á suspensão do moço.
+
+--Com que direito vem aqui incommodar-me?--tornou o mordomo das tres
+virtudes cardeaes.
+
+--Não o incommodo, nem me incommodo. Dir-lhe-hei muito de relance que
+mora alli n'aquella casa uma prima de um Barbuda, e accrescentarei que
+tal dama não faz novenas a santo nenhum das particulares devoções de v.
+ex.^a. Se o sr. Vasco da Cunha aqui voltar ámanhã, continuaremos a
+palestra.
+
+Vasco não voltou.
+
+
+
+
+XXVII
+
+*A saudade e a sciencia em dialogo*
+
+
+Dois mezes depois de fechado o parlamento, D. Theodora Figueirôa, farta
+de escrever cartas, e de esperar respostas que lhe iam a razão de uma
+por dez, mandou chamar aquelle Braz Lobato, professor de instrucção
+primaria, e, com os olhos vermelhos de chorar, abriu do peito oppresso
+estas palavras:
+
+--Que me diz vocemecê sr. Braz, á demora do meu homem?
+
+--Eu estou passado, fidalga!--disse o mestre-escola empunhando e
+sacudindo o queixo inferior.--Seu marido, a minha opinião é que ficou
+por lá embeiçado n'alguma mulher. Lisboa é uma Babylonia, fidalga. Quem
+para lá vae com um bocado de temor de Deus, perde-o; e quem não tiver
+muito lume no olho, e alguns annos de tarimba e experiencia do mundo,
+como eu, póde contar que em lá chegando fica reduzido á expressão mais
+simples.
+
+--E que é ficar reduzido á... que? como disse vocemecê? perguntou D.
+Theodora.
+
+--Quero dizer que dá com as canastras n'agua. Foi o que succedeu ao
+fidalgo, futura-se-me isto! Sabio era elle, mas faltava-lhe a pratica do
+mundo. Foi uma asneira mandal-o a côrtes; eu bem não queria... mas
+emfim... tanto me azoinaram os abbades e os lavradores, que eu deixei-me
+ir com os outros... (O impostor que tinha votado em si!) E que diz elle
+nas cartas a v. ex.^a?
+
+--Lá por milagre recebo alguma... Aqui tem vocemecê a que veiu aqui ha
+dias atraz. Ora leia lá isso.
+
+Braz montou os oculos de cobre, e leu:
+
+«Prima Theodora. Cessa de ter cuidado com a minha saude: eu passo
+soffrivelmente. Não me pude ainda desembaraçar dos negocios do estado,
+que me não deixam tomar fôlego. Á vista te contarei o que tenho feito a
+favor da nação. Tem tu saude, e descança da vida trabalhosa que tens. Ha
+de ir ahi um sujeito de Bragança para lhe entregares oito centos mil
+réis. Vende o grão todo que houver, e diz aos lavradores que por lá tem
+dinheiro a juro que eu preciso recolher essas quantias para negocio de
+mais interesse. Teu primo e affectuoso marido _Calisto_.»
+
+Ahi tem vocemecê!--continuou a esposa atribulada, com os braços em cruz
+e as mãos nos sovacos.--O dinheiro, que ha sete mezes tem saido d'esta
+casa, é um louvar a Deus! Ainda o dinheiro vá que o leve a breca! mas
+andar-me por lá o marido, o meu homem, que d'antes, se ficava uma noite
+fóra de casa, era lá uma vez de anno a anno, e dizia elle que não estava
+bem senão á beira de sua mulher!... Que me diz a isto sr. Braz? Então
+vocemecê é de parecer que elle está por lá embeiçado? Pois o meu Calisto
+seria capaz d'isso?!
+
+--Olhe fidalga--respondeu o professor de instrucção primaria fazendo com
+os beiços um bico e logo um arco, tregeitos meditabundos com que elle
+usava solemnisar os dizeres graves.--Um homem cá nas aldeias é uma
+coisa, e nas cidades é outra. Eu corri mundo, e sei o que fui. As
+mulheres das cidades tem umas artes e manhas, que, se um homem se não
+precata, ás duas por tres, não sabe de que freguezia é. Ainda que a
+gente não queira aquelles demonios taes esparrelas armam, que não ha
+remedio senão cair em fragilidades proprias da fragil natureza humana,
+como o outro que diz. O sr. morgado já não é rapaz; mas tambem não é
+velho. Aquillo, em quanto a mim, e oxalá que eu me engane, deu por lá
+com alguma menina que o embruxou...
+
+--Sabe vocemecê que mais--interrompeu com abrupta resolução D.
+Theodora--pégo em mim, metto-me n'uma liteira, e vou por ahi abaixo até
+á capital. É o que eu faço!
+
+--Essa idéa precisa de ser pensada com prudencia--observou o
+mestre-escola, erguendo-se, e dando alguns passeios na eira, onde
+estavam dialogando--Se a fidalga fôr, esta casa fica sem dono, entregue
+á criadagem, e o sr. morgado póde zangar-se. De mais a mais, ora
+supponhamos nós que o senhor seu esposo está, como elle diz na sua,
+occupado em negocios do estado; a ida de v. ex.^a vae atrapalhal-o, por
+que elle não a ha de deixar sosinha na estalagem. Depois a fidalga vae,
+palavra puxa palavra, um diz uma coisa, outro diz outra, e afinal
+desavem-se, e começam a viver de esguêlha. A minha opinião é que v.
+ex.^a se deixe estar em sua casa, e espere a vêr para onde correm os
+ventos. Se elle por lá anda com a cabeça a juros, deixal-o pagar o
+tributo, que elle cairá em si. Antes isso que quebrar uma perna. Lá o
+dinheiro isso é o menos. A casa dá para tudo, graças a Deus. A fidalga
+não sabe o que tem de seu. Lá em quanto ao marido, uma extravagancia não
+lhe dá nem tira. Salomão foi o mais sabio dos homens e teve trezentas
+mulheres e setecentas concubinas, e mais acho que foi santo. David,
+tambem era santo, e caiu tambem na fraqueza de amar a mulher de um
+capitão, general, ou uma coisa assim. As sagradas escripturas contam
+muitos casos d'estes... Pois emfim, a fidalga não esteja ahi a chorar.
+Seu marido ha de voltar são e salvo. O mais que eu posso fazer-lhe é ir
+por ahi abaixo ter com elle, e desenganar-me por meus proprios olhos.
+
+--Isso é que era bom, sr. Braz!--exclamou Theodora, limpando as lagrimas
+ao avental de chita.
+
+--Eu estou ainda com a idéa ferrada do habito de Christo. É cá uma birra
+com o boticario, que disse ao cirurgião que eu havia de ser cavalleiro
+do habito quando elle fosse papa. O sr. morgado não me responde ás
+cartas: é um ingrato d'aquella casta; mas, emfim, os favores que lhe fiz
+na eleição não me arrependo de lh'os fazer... Emfim, fidalga, se v.
+ex.^a quer, eu vou ter-me com o sr. morgado, e póde ser que venha com
+elle para cima e com o habito.
+
+--Está dito!--clamou Theodora--Vocemecê vae, e eu faço-lhe as despezas.
+
+--Isso lá como v. ex.^a quizer... Eu, a fallar verdade, não estou muito
+indinheirado, e alguns vintens que tenho todos me hão de ser precisos
+para pagar os direitos da mercê.
+
+ * * * * *
+
+Ahi vem Braz Lobato, caminho de Lisboa.
+
+
+
+
+XXVIII
+
+*Ingratidão de um deputado*
+
+
+Braz Lobato, antigo sargento de milicias, e antigo borra de frades
+franciscanos, era legitimo homem para farejar Calisto em Lisboa. Cuidou
+elle que encontraria o marido de D. Theodora de Figueirôa nos logares
+mais celebrados e admirados da capital, segundo é fama nas provincias.
+Como o não encontrasse na Memoria do Terreiro do Paço, foi procural-o ao
+Aqueducto das Aguas-Livres. Depois de baldadas estas pesquisas, outro
+qualquer sujeito desanimaria; Braz Lobato, porém, resolveu ir ao Paço
+das Necessidades em busca do seu patricio, porque, no seu modo de julgar
+as correlações dos altos poderes do estado, Calisto Eloy devia
+frequentar regularmente a casa real.
+
+Perguntou o mestre-escola affoitamente á sentinella do paço se o
+representante nacional, morgado da Agra estava em palacio. A sentinella
+mandou-o entrar, e que perguntasse ao commandante da guarda. O
+commandante mandou-o a um fidalgo que vinha descendo, e o fidalgo
+interrogado mandou-o á fava.
+
+Com o quê, Braz Lobato saiu á rua, e perguntou a um aguadeiro se alli
+não morava o rei. E, como soubesse que a familia real estava em Cintra,
+conjecturou que os deputados, e particularmente Calisto, deviam estar em
+Cintra para de lá governarem a monarchia.
+
+Chegou o mestre-escola a Cintra, e descavalgou do jumento portador, á
+porta do palacio. Fez as suas perguntas á sentinella com aquelle ar
+marcial que lhe ficou das milicias. Esperou a vinda de um camarista,
+velho fidalgo attencioso, que sorriu da supposição do provinciano, e lhe
+disse que o deputado Calisto Eloy residia no hotel do Victor.
+
+Chegado ao hotel, á hora mais de passeio, por fim da tarde, não
+encontrou Calisto, e foi demandal-o nos logares mais frequentados.
+Abeirou-se de um grupo de sujeitos, que inculcavam gente grave, e
+perguntou por Calisto Eloy de Silos Benevides de Barbuda.
+
+Esta pergunta coincidiu com o caso de estarem aquelles individuos
+aventando hypotheses sobre a formosa solitaria, cujo ninho de folhas e
+flores apenas Calisto de Barbuda frequentava.
+
+O ar provinciano de Braz fez crêr aos curiosos que o homem, sendo
+patricio de Calisto, poderia esclarecel-os ácerca da creatura
+mysteriosa.
+
+--D'onde conhece vocemecê o sr. Barbuda?--perguntou um.
+
+--Conheço-o desde menino, que é da minha terra, e eu sou o professor de
+instrucção primaria lá do concelho do sr. morgado da Agra de Freimas.
+
+--Então, volveu outro, ha de saber se a senhora que está com elle em
+Cintra é parenta d'elle, ou mulher ou amante.
+
+--A mulher do sr. morgado ficou em casa; parenta não me consta que elle
+tenha cá nenhuma. Isso ha de ser negocio de contrabando, em quanto a
+mim. Fazem favor vv. s.^as de me ensinarem o caminho da casa onde elle
+está?
+
+Conduzido á espessa cancella de ferro, que estremava o jardim do caminho
+publico, Braz Lobato puchou a campainha. Fallou lhe um criado de libré,
+o qual, perguntado se o sr. morgado estava em casa, respondeu que
+n'aquella casa morava a viuva do general Ponce de Leão.
+
+Dada a resposta, o criado rodou solemnemente nos calcanhares, e deixou o
+mestre-escola com o nariz n'um orificio da grade, e os olhos n'outros
+orificios, espreitando os massiços de murtas, que escondiam a fachada da
+casa.
+
+D'ahi a pouco lobrigou elle entre os arbustos um galhardo homem com uma
+senhora pelo braço, atravessando vagarosamente para um bosque de
+aveleiras.
+
+Fitou-se n'elle; mas não viu coisa que lhe désse lembranças do fidalgo
+da Agra. Cuidou que o tinham enganado os lisboetas, e desandou para a
+hospedaria.
+
+Novamente informado, resolveu esperar que o morgado entrasse ás dez
+horas, consoante o costume.
+
+Sentou-se á porta do pateo.
+
+Viu entrar um empavesado sujeito retorcendo as guias do bigode, com os
+olhos postos na lua atravez de uma luneta. Levou urbanamente a mão ao
+chapéo. Calisto, divertido pela acção civil do sujeito, ia corresponder,
+quando reconheceu o mestre-escola.
+
+--Você aqui, Braz! disse elle.
+
+O professor arregaçou as palpebras, e exclamou:
+
+--Que vejo! a voz é a do fidalgo!
+
+--Sou eu, não tenha duvida nenhuma.
+
+Braz levou a mão á testa, e da testa ao peito, e de um hombro ao outro,
+murmurando:
+
+--Em nome do Padre, e do Filho, e do Espirito Santo! Coisa assim nunca
+os meus olhos esperaram vêr!... V. ex.^a é outro homem!... Eu estarei a
+dormir! E esfregava os olhos, desconfiando seriamente que estava
+dormindo.
+
+--Entre cá dentro, disse o morgado.
+
+Entrados á sala, perguntou o fidalgo com um ar secco:
+
+--Que novidade o traz aqui?
+
+--Vim por ahi abaixo, afim de vêr v. ex.^a, e ao mesmo tempo...
+
+--Bem sei no que quer fallar. O habito de Christo, sim?
+
+--Não sendo coisa muito de costa acima...
+
+--Ha de arranjar-se. E que mais?
+
+---E que mais?...
+
+Braz Lobato sentia-se como esmagado pelo tom rispido e sobranceria do
+fidalgo. A concisão e rapidez das perguntas enleavam-no a ponto de o
+engasgarem nas respostas.
+
+--Como ficou minha prima? disse Calisto.
+
+--Está muito contristada, senhor.
+
+--Porque?
+
+--São saudades. Ainda na vespera da minha vinda esteve a chorar na
+eira... O melhor seria que v. ex^a viesse comigo para casa... Mas como o
+fidalgo está mudado!... Então v. ex.^a, pelos modos, era o mesmo que eu
+vi, ao fim da tarde, n'aquella casa que tem porta de ferro! Bem me
+diziam que v. ex.^a estava lá com uma madama, e eu não o conheci.
+
+--Aonde?--atalhou desabrido o morgado.
+
+--N'aquella casa que tem muitas flores.
+
+--Quem o mandou lá?
+
+--Uns fidalgos a quem eu perguntei por v. ex.^a
+
+--E quem o manda perguntar por mim?! Quem lhe disse que eu estava em
+Cintra?
+
+--Foi no palacio do rei que...
+
+--Então foi-me procurar ao palacio do rei! O sr. Braz é parvo!... Bem.
+Eu preciso recolher-me. Quer mais alguma coisa?
+
+--Não, sr. fidalgo... E v. ex.^a não quer nada lá para a terra?--volveu
+logo o antigo sargento com o nariz rubro de colera.
+
+--Não quero nada.
+
+--Pois eu para cá vou. Passe muito bem por cá, e até lá.
+
+Não pôde ter mão de si o professor: voltou ao limiar da porta, que se
+fechava, e disse:
+
+--Sr. morgado...
+
+--Que é?
+
+--Eu, para a outra vez, elegerei deputado que me arrange o habito de
+Christo. Faça favor de se não incommodar.
+
+--É asno!--murmurou Calisto batendo a porta com impeto.
+
+
+
+
+XXIX
+
+*O demonio em Caçarelhos*
+
+
+Estava D. Theodora presidindo á limpeza do lagar em que se havia de
+fabricar o azeite, quando Braz Lobato, ainda empoado da jornada, assumou
+á porta, e chamou de parte a fidalga.
+
+--O meu homem veiu!--exclamou ella.
+
+--Faz favor de me ouvir aqui fóra, disse elle á puridade.--E, retirados
+ao escuro de um bosque de castanheiro, continuou:
+
+--Seu marido está perdido, sr.^a morgada.
+
+--Que me diz? bradou a pallida consorte.
+
+--Estragou-se; d'alli ao inferno não tem mais que morrer.
+
+--Credo! Então que é?
+
+--Seu marido está tolhido! A mulher que o roubou á patria, e á esposa, e
+aos amigos, está lá n'uma serra, cercada de arvores, e de grades de
+ferro![21] Dizem que é a viuva de um general, e bonita como os serafins.
+Eu ainda a enxerguei pelo braço do fidalgo; ia vestida de branco, e
+parecia uma estrella.
+
+--Ai! que eu estalo! clamou Theodora, apertando a cabeça entre as mãos.
+
+--Seu marido, se a senhora o vir agora não o conhece. Está mais apanhado
+do corpo; aquella barriga, que elle tinha, sumiu-se-lhe. Tem um bigode
+muito grande, e aqui no queixo uma moita de pellos, como os bodes. Traz
+os cabellos puchados para cima e retorcidos. Usa oculos á moderna, de
+oiro, pendurados ao pescoço. O panno de roupa luzia como vidro, e andava
+apertado n'ella e puchado á substancia que parecia espremido no peso do
+lagar. Repito: a sr.^a morgada, se o vir, não o conhece.
+
+--E então elle está lá com essa mulher? insistiu soluçando a quebrantada
+senhora.
+
+--É verdade, lá a tem como uma princeza. Agora já sabe a fidalga no que
+elle estraga o dinheiro.
+
+--E vocemecê não lhe disse que viesse para sua casa?
+
+--Ora se disse! chamou-me parvo e asno. Asno a mim fidalga! E eu
+acommodei-me, porque não quero testilhas com doidos. Afinal, eu estava a
+vêr quando me empurrava pela porta fóra! Aqui tem o que ha a tal
+respeito. Sirva-lhe de governo, sr.^a morgada. Agora, faça por ter mão
+na manta. A casa é grande; mas tem-se visto acabarem casas maiores. O
+que a fidalga deve fazer é não deixar ir pela agua abaixo o seu
+patrimonio.
+
+--Não, que eu vou a Lisboa!--exclamou ella batendo o pé, e vibrando
+murros contra o ar.--Vou a Lisboa, e faço lá o diabo!... Então a tal
+mulher está n'uma serra? Vocemecê disse que ella estava n'uma serra?...
+
+--É serra; mas a terra é bonita. Ha por lá arvores do começo do mundo, e
+cada pedaço de jardim que dava trezentos alqueires de centeio. Chama-se
+Cintra, e está lá o rei e a fidalguia.
+
+--Pois vou lá, que o meu homem é meu--vociferou ella voz em grita.--Se
+elle não quizer vir para casa, vou fallar ao rei e aos governos.
+
+--Fidalga, pense bem no que faz, e ouça o que lhe diz o senhor seu primo
+Lopo de Gamboa, que sabe mais do que eu. D'aqui me vou a vêr a minha
+gente, e até amanhã, fidalga.
+
+Doida de afflicção, a traida esposa mandou logo um criado á casa da
+Verdoeira chamar o primo Lopo de Gamboa.
+
+Este Lopo, bacharel em direito, homem de trinta e tantos annos, e sagaz
+até á protervia, vivia na companhia do irmão morgado, comendo o
+rendimento da sua escassa legitima de filho segundo. Tinha máo nome em
+materia de mulheres. A bruteza dos espiritos não lhe implicava o
+exercicio de tramoias e bom palavriado com que mareara a reputação de
+muitas moças, que, á conta d'elle, ficaram solteiras; e tambem de
+algumas casadas, que não conservam as costellas todas.
+
+Calisto desadorava este primo de sua mulher, em razão das suas ruins
+manhas; não obstante, admittia-o ao seu trato familiar, e consentia que
+Theodora, uma vez por outra, lhe désse alguns pintos para charutos, já
+que o morgado lh'os não dava, sem lançar o emprestimo a desconto da
+legitima.
+
+Theodora, com quanto o excedesse em edade uns quatro annos, tinha sido
+creada com elle, e por suas mãos lhe fizera o enxoval, que o primo Lopo
+levou para Coimbra. Esta poesia de infancia converteu-se n'ella em
+sentimentos benignos de generosidade para com as privações monetarias do
+sujeito, algumas das quaes lhe remediou liberalmente a occultas do
+marido. Mais se afervorou a estima da prima Theodora, quando viu que
+Lopo, na ausencia de Calisto, amiudava as visitas, e lhe fazia companhia
+ao serão nas noites de inverno.
+
+Mandou, pois, a esposa angustiada chamar o primo Lopo de Gamboa. Já
+raivosa, já em mavioso soluçar, contou Theodora o que ouvira ao
+mestre-escola.
+
+--Bem t'o agourava eu, prima!--disse Lopo, concluidos os queixumes de
+Theodora.--Eu sei o que são homens. Quando meu irmão morgado e outros
+santarrões me apontavam como exemplo as virtudes de teu marido,
+dizia-lhes eu: «Tirem-n'o da aldeia para Lisboa ou Porto, deixem-n'o lá
+estar dois mezes, e fallem-me depois á mão.» O Calisto vivia bem com
+todo o mundo e comtigo, Theodora, porque se apaixonou pela livralhada, e
+encheu a cabeça d'aquellas velhas arólas dos seus classicos, e não
+queria saber de mais nada. E, além d'isso, diz-me tu prima, que grande
+amor era o d'elle por ti? Passavam-se dias e noites que o não vias,
+senão enterrado na livraria. Nunca lhe vi fazer-te uma meiguice!
+
+--Pois fazia; estás enganado, Lopo--atalhou D. Theodora, molestada no
+instincto da sua vaidade de esposa.
+
+--Parecia-te isso, prima, porque tu não viste ainda como os bons maridos
+acariciam as suas mulheres. Nunca te levou aos banhos do mar, precisando
+tu de tonicos; nunca te levou a festa nenhuma de Miranda nem de
+Bragança; sendo tu a mais rica herdeira d'estes arredores, deixou-te
+viver para ahi sujamente; a cuidar em sevados e gallinhas. As senhoras,
+que não te chegam em fidalguia aos calcanhares, vivem á lei da nobreza,
+visitam-se, tem os seus bailes, vão ás romarias ricamente vestidas; e
+tu?... chorava-me o coração, quando vim de me formar, e te visitei, e
+vim dar comtigo a cortar couves para fazer a comida dos patos.
+
+--Isso é porque eu gosto.
+
+--Muito embora gostasses; teu marido não devia consentir que o fizesses.
+Trabalhar é bom e necessario; mas cada qual trabalhe segundo a pessoa
+que é. As senhoras cozem, bordam, marcam, e dão-se a outros muitos
+cuidados domesticos e limpos. Os serviços, que tu fazias, pertencem ás
+criadas da cosinha. De maneira que a tua riqueza não te dava o descanço
+e bem estar que desfrutam as pessoas da lavoira. Esta casa parecia-me
+sordida; e, apezar das grandes sabenças de teu marido, ainda não vi
+casados que tão estupidamente vivessem! Ahi está agora teu marido a
+despejar sacas de dinheiro no regaço de uma amasia, e tu aqui de vestido
+de chita e chinellas! Tu!... de chinellas!... Foi bom que levasses vida
+de negra vinte annos para elle agora levar em Lisboa vida de principe!
+
+--Não ha de levar, que eu vou lá!--bradou Theodora assanhada pelas
+reflexões do primo.
+
+--Não vaes, prima, que os teus parentes não consentem que tu vás ser em
+Lisboa motivo de gargalhadas d'aquella gente, e maltratada por Calisto.
+A morgada de Travanca, a filha de Francisco de Figueirôa, não vae, como
+as mulherinhas da ralé, procurar o marido fóra de sua casa. Se elle
+vier, veiu; se elle ficar, fique embora. Gaste o que quizer, mas que não
+gaste a casa de sua mulher. N'este paiz ha leis que separam do máo
+marido a esposa affrontada, e prohibem que os bens dos Figueirôas sejam
+desbaratados em devassidões de um extravagante.
+
+--Eu não quero separar-me do meu homem!--balbuciou ella afogada de
+soluços.
+
+--Tambem te não aconselho a que o faças por em quanto, prima. Ainda é
+cedo. Póde ser que teu marido caia em si, e se arrependa. Isto da
+separação é um remedio extremo, que se ha de applicar no caso de
+continuarem os saques de dinheiro como até aqui, e os embustes infames
+com que o Calisto te tem enganado. Ai! prima, prima, grande desgraça foi
+para ti e para mim, que te esquecesses do nosso amor de creanças, e tão
+depressa aceitasses o casamento com este homem! Eu estava a concluir a
+minha formatura, resolvido a pedir-te, e casar comtigo, quer teu pae
+quizesse, quer não. Nunca t'o disse; digo-t'o agora, porque a minha dôr
+me obriga. Não serias tu mais feliz, se casasses com teu primo Lopo?
+
+--Eu sei cá?...--disse ella, alimpando as lagrimas.
+
+--Pois duvidas, Theodora?
+
+--Tu tens sido um estroina com mulheres...
+
+--E não sabes por que?
+
+--Não...
+
+--Desesperado por te encontrar casada, quando cheguei de Coimbra, não
+tratei mais de me ligar seriamente ao coração de mulher nenhuma. Queria
+distrahir-me, e fazia desatinos que me tornavam ainda mais desgraçado. A
+minha consolação unica era estar alguns momentos ao pé de ti; mas
+quantas vezes, eu saía do teu lado com o coração cheio de fel!... Nunca
+te disse uma palavra por onde tu desconfiasses o meu estado, pois não?
+
+--Tu o que me dizias ás vezes é que estavas afflicto por causa de
+dividas, e eu dava-te o dinheiro que podia arranjar...
+
+--É verdade: foste sempre o meu bom anjo, prima; mas olha que essas
+mesmas dividas as fazia eu para poder sair d'estes sitios; ia para as
+feiras, para as caldas, por toda a parte á busca de distracções, e não
+achava coisa que me distraisse de ti o pensamento. Toda a gente da nossa
+parentella me aborrecia, menos tu. Ora imagina, prima, que tormentosa
+vida a minha desde os dezenove annos! Amar-te, amar-te sempre, e vêr-te
+mulher de outro homem; e, de mais a mais, de outro homem indigno de ti!
+Céos! que martyrio! que martyrio!
+
+Lopo cobriu a cara deslavada com as mãos enormes.
+
+Theodora estava como idiota a olhar para aquillo, sem poder atinar com
+as sensações atrapalhadas que aquellas palavras lhe causavam.
+
+Ergueu-se o velhaco de golpe, e disse:
+
+--Adeus, prima: eu estou profundamente magoado com a tua desgraça;
+doem-me mais os teus pezares que os meus. Disse-te o que me pareceu
+rasoavel a respeito de teu marido, d'esse cruel que me roubou a mulher
+do meu coração, da minha alma, da minha vida, e da minha morte. Adeus,
+prima!
+
+--Tu vaes afflicto, Lopo!--exclamou ella, resahindo do spasmo tolo em
+que estivera--Vem cá; se te aconteceu alguma desgraça, remedeia-se como
+poder ser.
+
+--Ha doenças sem remedio, prima. A minha é mortal.
+
+--Então que tens, primo? que te dóe?
+
+--Doe-me a certeza de que estou morrendo desde o primeiro dia da tua
+união com este homem!... a certeza de que o has de amar sempre, ainda
+que elle te despreze como já te desprezou.
+
+--Pois se elle é o meu homem recebido á face do altar!...
+
+--Por isso, por isso, é que eu perdi o teu amor, Theodora!...
+
+--Pois eu sou casada, bem no sabes, senão teria casado comtigo.
+
+--Não fallemos mais n'isto--atalhou com muita serenidade Lopo--Já
+chorei, e fiquei melhor!--continuou elle esborrachando os olhos até
+elles reverem agua--Estas lagrimas estavam aqui no peito ha vinte annos.
+Foi bom que tu as visses para que saibas que o homem que chora por ti,
+bem mais te merecia que o outro que te despreza... Queres mais alguma
+coisa de mim, prima? Queres que eu escreva a teu marido, e lhe diga que
+seja honrado e digno da melhor das esposas? Queres que eu mesmo o vá
+procurar a Cintra?
+
+--Se tu lá fosses, Lopo, não seria máo!--disse ella.
+
+Lopo de Gamboa, como grande farçola que era, sentiu impulso de desfechar
+uma risada na cara da prima. O homem viu-se ridiculo até onde a
+consciencia de um bargante se póde vêr a si mesma.
+
+Reteve-o, porém, a coherencia do seu plano. Resolutamente disse que iria
+a Cintra, bem que nenhum sacrificio lhe podesse ser mais cruelmente
+imposto ao coração.
+
+--Irei, disse elle, irei buscar o marido da mulher que adoro. Venha mais
+esta punhalada da tua mão, prima.
+
+---Valha-me Deus!--exclamou ella afflictivamente.--Tu dizes-me coisas
+que me fazem endoudecer! Pois tu não vês que eu já não posso dar o meu
+coração a outro em quanto fôr casada com um?
+
+--Vejo que me não amaste nunca, Theodora. Diz a verdade... Nunca me
+tiveste amor?
+
+--Eu sei cá, primo!... Se me casasse comtigo, tinha-te amor... Assim
+como casei com o meu marido, que hei de eu fazer agora?
+
+--Matar-me!--disse com vehemencia Lopo, deixando cair os braços, e
+descendo ao chão os olhos amortiçados.
+
+--Ai! que peccados os meus! exclamou Theodora--Eu não sei o que te hei
+de fazer, Lopo!
+
+--Diz-me quando queres que eu parta para Lisboa--tornou elle gravemente.
+
+--Então sempre queres ir, primo?
+
+--Ámanhã, hoje, quando quizeres.
+
+--E não te custa?
+
+--E a ti não te custa que eu vá?
+
+--Eu queria que fosses, a vêr se trazias para casa aquelle perdido.
+
+--Irei, já t'o disse.
+
+--Então eu vou buscar-te dinheiro, primo, quanto queres tu levar?
+
+--Nada, prima. Se alguma vez aceitei as tuas franquezas, foi por que tu
+ignoravas quanto eu te amava, e eras minha proxima parenta, filha de uma
+prima de minha mãe. Hoje que sabes que te amo, não posso, não me
+consente a minha honra que receba de ti o mais pequeno favor de
+dinheiro.
+
+--Então não quero que vás--accudiu ella--que tu não podes ir á tua
+custa...
+
+N'este comenos, Theodora escuta muito attenta um rumor de campainhas, e
+brada:
+
+--É uma liteira! Será o meu homem?
+
+Corre a uma janella; o primo vae depoz ella: affirmam-se na liteira que
+desce uma congosta, e reconhece Calisto Eloy, não pela figura; mas por
+que uns rapazes vinham adiante gritando que era o fidalgo. Theodora
+espede tres ais, que pareciam de ave nocturna, e perde os sentidos. Lopo
+amparou-a nos braços, foi sental-a n'uma cadeira incourada de espaldar
+alto, e desceu ao pateo a receber nos braços o primo Calisto de Barbuda.
+
+
+
+
+XXX
+
+*Como ella o amava!*
+
+
+O morgado previu o seguimento funesto da desabrida recepção e despedida
+que deu ao mestre-escola.
+
+A sua felicidade era d'aquellas que o possuidor receia, a cada hora,
+perder; e o desaccordo com sua mulher podia redundar-lhe em dissabores
+grandissimos. De todos, o de que elle mais se temia,--o dissabor por
+excellencia monstruoso--era a vinda de Theodora a Cintra, a isso
+aguilhoada por o professor de primeiras lettras, azedado pelo desprezo.
+Envergonhava-se elle, além de muitas outras vergonhas, que a morgada de
+Travanca lhe apparecesse em Cintra com a cintura do vestido sobre o
+estomago, com as ancas desprovidas de balão, com a cara incavernada n'um
+chapéo de 1832, que lá chamavam barretina, de immensas orelhas de palha
+amarellada pelo rodar dos annos. Era-lhe aviltante o caso aos olhos de
+toda a gente, e especialmente aos de Iphigenia.
+
+Para prevenir esta e outras calamidades, saiu Calisto, caminho de
+Caçarelhos, quatro dias depois de Braz Lobato, e afim de encurtar tempo,
+embarcou em o vapor, e do Porto para cima accelerou as jornadas,
+repousando poucas horas. Contava elle anticipar-se ao mestre-escola.
+Chegou tarde; mas o coração da esposa estava ainda aberto.
+
+--Tua senhora desmaiou de alegria, primo--disse-lhe Lopo de
+Gamboa--estava chorando comigo quando ouvimos a guizalhada da liteira.
+Muito te quer a nossa santa prima? Boas as fizeste por lá... Olha que o
+patife do mestre-escola veiu contar tudo!
+
+--Já chegou?!
+
+--Hoje ás cinco da tarde.
+
+--Que disse?
+
+--Contou que tens lá em Cintra uma mulher teúda e manteúda...
+
+--Que infame embusteiro!--clamou o fidalgo--Chama-me um lacaio, que lhe
+vou mandar cortar as carnes, com um tagante!
+
+Merecia-o! Mas quem deu cá o lacaio? É coisa que ainda cá não vi!
+
+Assim dialogando, entraram á sala em que D. Theodora estava ainda
+muitissimo intalada de soluços.
+
+--Então que é isto, Theodora?!--perguntou brandamente Calisto, pondo-lhe
+as pontas dos dedos na face.
+
+Ergueu-se ella arrebatada, e pendurou-se-lhe ao pescoço exclamando:
+
+--Meu Calisto, meu Calisto, cuidei que te não tornava a enxergar!
+
+--És tola, és tola, prima!--disse elle, assás incommodado com o apertão
+do abraço--Pois eu não havia de tornar?! Quem te metteu essa na cabeça?
+
+Theodora entrou a encarar no homem muito de fito, e rompeu n'um choro
+desfeito.
+
+--Que tens tu?--perguntou elle.
+
+--Como tu estás mudado! não me pareces o meu homem!... Corta essas
+barbas; por alma de tua mãe, corta-me essas barbas, que pareces o diabo,
+Deus me perdôe!...
+
+Calisto sorriu-se, com um profundo tédio de sua mulher. N'aquelle
+instante alanceou-o mortalmente a saudade de Iphigenia. Aquella casa de
+Caçarelhos e a mulher pareceram-lhe um retalho do inferno, d'aquelle
+inferno alagado e frio de que falla o padre A. Vieira.
+
+Começou a passeiar na sala, e a despedir baforadas de anciada respiração
+do peito. A mulher não lhe despregava os olhos das barbas, e de vez em
+quando arrancava um ai das entranhas.
+
+--A fallar verdade--observou Lopo de Gamboa--estás um homem
+completamente differente! E o caso é que pareces muito mais novo! Já nem
+andas corcovado, nem tens aquella proeminencia da barriga. Olha os ares
+de Lisboa o que fazem, primo Barbuda!
+
+Calisto exprimia o seu nojo de tudo aquillo, sorrindo-se. Tirou da
+algibeira um charuto, e accendeu um phosphoro. Eis que a mulher rompeu
+em mais desentoada choradeira, dizendo:
+
+--O meu homem a fumar!... Que feitiçaria te fizeram, Calisto!...
+
+--De maneira, disse o morgado vencido pela impaciencia, de maneira que
+me recebes com choradeiras, e observações estupidas, Theodora! Ora
+acabemos com esta feia comedia, e manda-me preparar jantar, que preciso
+comer e dormir.
+
+Saiu Theodora cabisbaixa da saleta, e Lopo de Gamboa despediu-se,
+pedindo-lhe que tolerasse com generosidade as tolices de sua prima, que
+tudo aquillo n'ella era rudeza e bondade do coração.
+
+--Bem sei, bem sei...--disse Calisto Eloy, e recolheu-se á sua
+bibliotheca, a principiar uma carta, que dizia:
+
+«Minha querida Iphigenia.
+
+Não te asseguro tres horas da minha vida, se me disserem que hei de aqui
+viver tres dias. Não é enôjo, é peior, é horror o que me faz tudo isto!
+Deixa-me pedir coragem ao teu retrato. Ó imagem da filha do meu coração,
+salva-me, resgata-me, arranca-me d'este tumulo! Ó consoladora d'esta
+agonia sem nome, vale-me, tem mão n'esta vida, que me foge...»
+
+Entrou Theodora esbofada de dar ordens, de cortar o presunto, de ir á
+cesta dos ovos, de andar á pilha da mais gorda gallinha.
+
+Correu a abraçar-se outra vez n'elle com mais possante enthusiasmo,
+emquanto o marido com um braço a cingia ao peito, e com o outro escondia
+o retrato.
+
+--Meu Calistinho--suspirava a esposa palpitante--meu amado marido, não
+tornes mais para Lisboa, eu não te deixo sair mais de tua casa!...
+
+--Que remedio senão ir, Theodora!...--disse elle--Sou obrigado por esta
+desgraçada posição de deputado a assistir mais algum tempo na capital.
+
+--Não é isso, não é isso!--clamou ella, saindo-lhe dos braços, que a
+largaram facilmente--Bem sei o que é...
+
+--Sabes o que?--interrompeu com violentada placidez o marido--Sabes as
+calumnias que te veiu contar o Braz, o villão que se vingou como canalha
+por lhe eu não alcançar o habito de Christo! É o que faltava! pendurar a
+imagem da cruz n'um peito cheio de tanta porcaria!... Então que te disse
+elle?...
+
+--Que tinhas lá outra... e que te viu a passeiar com ella.
+
+--Viu-me a passear com uma nossa parenta, viuva de um general. Quem
+disse ao javardo que esta senhora era minha amante? Hei de
+perguntar-lh'o diante de ti. Manda-o chamar á minha presença.
+
+--Agora mando! que o leve a breca!--disse Theodora com alegre
+aspecto--Como tu vieste, foi o que eu quiz; agora, pilhei-te cá, e não
+te deixo ir embora. Mas tu has de cortar estas barbas, sim? e não
+estejas a fumar por isso, que me fazes embrulhar a estomago, não?
+
+O tom e gesto caricioso, com que ella dizia isto, não moveu medianamente
+o esposo. Impava de zangado e aborrecido dos languidos amorinhos com que
+a meiga senhora se lhe quebrava langorosamente nos braços.
+
+--Eu preciso escrever umas cartas que ainda hoje hão de ir para Miranda,
+disse elle, afastando brandamente a esposa. Vae-te embora, e logo
+conversaremos.
+
+Theodora estava n'um d'aquelles elevados gráos de amoroso sentimento, em
+que a mulher menos esperta conhece, que é desamada. Repellida d'aquelle
+modo, ainda as lagrimas lhe vidraram os olhos; mas o despeito seccou-as.
+
+--Não me podes vêr á tua beira! disse ella com altiveza. Vê-se mesmo na
+tua cara que me aborreces! Ainda agora chegaste, e já estás a fallar na
+ida para Lisboa. Escusavas então de cá vir. Mal haja a hora em que
+saiste d'esta casa. Já não tenho marido!...
+
+N'este ponto, não pôde represar as lagrimas. Acocorou-se no chão a
+chorar, com a cara mettida entre os joelhos.
+
+Calisto saltou da cadeira n'um empuchão de raiva, e passou á sala
+immediata, gesticulando com phreneticos sacões de braços.
+
+Que diabo vim eu aqui fazer? dizia entre si o desesperado.
+
+O demonio da expiação já andava ás cavalleiras do homem. A saudade de
+Iphigenia era uma serpente de fogo que lhe abafava os respiradouros das
+goelas.
+
+
+
+
+XXXI
+
+*Vence o demonio! choram os anjos!*
+
+
+Para distrahir-se do supplicio de alguns dias, Calisto Eloy, sem
+consultar a esposa, entretinha-se a ajuntar os cabedaes, espalhados por
+mão de lavradores, e a remir alguns foros, que sommaram consideravel
+quantia.
+
+Theodora presenciava com suffocada ira as diligencias do marido, e
+acautellava o sacco das peças de duas caras, que trouxera de casa de seu
+pae, thesouro antigo na familia de Travanca, trazido por seu bisavô,
+governador do Brazil. Era um dos soberanos gosos de Theodora addicionar
+mais uma peça de D. Maria e D. Pedro III ás mil e duzentas que seu
+bisavô reunira. Bem que o marido respeitasse sempre aquelle peculio,
+Theodora receiava muito que os respeitos d'outro tempo não podessem nada
+agora com elle, e dispoz-se a resistir a todo trance ao sacrilegio.
+
+Não carecia o morgado de lançar mão de alguma verba do patrimonio de sua
+mulher: tinha muito que explorar no propriamente seu, antes de alienar
+alguma das quintas; no entanto, quando a consorte abespinhada lhe disse
+que as peças eram d'ella, e não cuidasse elle que as havia de levar,
+Calisto encarou na mulher com tal enchente de odio, e logo desprezo, que
+lhe voltou as costas para lhe não redarguir.
+
+D'ahi em diante, nas quarenta e oito horas que o morgado se deteve em
+Caçarelhos, baldaram-se as tentativas conciliatorias de Theodora.
+Fechado no seu quarto, que elle desde a chegada fizera propriedade sua
+exclusiva, ou encerrado na bibliotheca, onde escrevia monologos
+saturados de lagrimas, em vão a esposa o espreitava pelos orificios das
+fechaduras, e lhe assoprava suspiros dignos de mais humano marido.
+
+No dia da partida, a despedaçada senhora experimentou um ataque de
+eloquencia. Entrou com o almoço no gabinete do marido, e bradou:
+
+--Então que é isto? Entendamo-nos.
+
+--Isto quê?
+
+--Sempre vaes para a vida perdida?
+
+--Vou hoje para Lisboa--respondeu serenamente Calisto Eloy, dobrando em
+massos os titulos de sua casa.
+
+--E então da tua mulher não queres saber mais nada?
+
+--Minha mulher fica em sua casa, e eu vou cumprir os meus deveres como
+deputado.
+
+--Mas eu não quero saber d'isso.
+
+--Então que queres tu saber, prima Theodora?
+
+--Quero saber a lei em que hei de viver.
+
+--Vive na lei de Deus.
+
+--E tu na do diabo, ein?
+
+--Berra pouco.
+
+--Hei de berrar o que eu quizer.
+
+--Pois berra, que eu não te hei de ouvir muito tempo.
+
+--Se isto é assim, quero separar-me.
+
+--Separa-te.
+
+--Vou para o meu morgadio de Travanca.
+
+--Pois vae.
+
+--Cada qual fique com o que é seu.
+
+--Pois sim. Leva d'aqui o que fôr teu.
+
+A desesperação de Theodora augmentava á medida que a fleugma do marido
+lhe cravava o dardo do desengano no coração ainda fiel. Começou a pobre
+mulher a saltar no pavimento, sem proferir sons articulados. Expedia uns
+grunhidos roucos, que fizeram pavor a Calisto. Este feiíssimo tregeitar
+desfechou n'um insulto nervoso, com symptomas epilepticos.
+
+A commiseração feriu as estragadas entranhas do morgado. Foi apanhar a
+mulher do chão, reteve-lhe os braços que escabujavam, e levou-a d'alli
+para um leito, onde a deixou entregue ás criadas e ao primo Lopo de
+Gamboa, que vinha entrando.
+
+Passada a crise, Theodora ardia em febre, e dava pouco tino das pessoas
+que a rodeavam. Pareceu-lhe, porém, sentir um beijo nas costas da mão
+esquerda; e, olhando apressada na supposição de que era o marido, viu o
+rosto lastimoso do primo Lopo, que lhe disse a meia voz:
+
+--Esquece o ingrato, prima!... Guarda a tua vida para quem te ama!...
+
+Calou-se, porque entrava uma criada com um chá de sidreira e macella.
+Tomou elle das mãos da criada a chavena, e ministrou o charope a
+Theodora, que o foi bebendo com muitos vágados da cabeça desfallecida
+para sobre a espadua de Lopo, que se ageitára para amparal-a.
+
+Á hora final Calisto entrou ao quarto, e não se commoveu. Disse algumas
+breves e seccas palavras de despedida, acrescentando que fechado o
+segundo anno da sua legislatura, viria para casa.
+
+Theodora ainda balbuciou:
+
+--E deixas-me assim doente, homem?
+
+--Esse incommodo é passageiro, prima. Logo que tu reflexiones um pouco,
+levantas-te curada. Mal da patria, se os deputados casados obedecessem
+aos caprichos das mulheres, que lhes impedem irem onde o dever os chama.
+Pensas assim, porque foste educada rusticamente. Era minha tenção
+tirar-te d'aqui, levar-te para terra de gente, dar-te alguma educação,
+para depois te poder levar comigo para qualquer terra culta; vejo,
+porém, que desatinas e te fazes creança n'uma edade impropria de ciumes.
+
+--Olha que não és mais novo que eu!--bradou ella.--Tens quarenta e
+quatro e eu quarenta.
+
+--Está bom, está bom--obviou elle--não discutamos edades. O que se segue
+é que ambos envelhecemos: razão de mais para justificar a toleima dos
+teus zelos e desconfianças... Não posso demorar-me, que já ahi está a
+liteira, e a jornada de hoje é muito grande. Adeus. Primo Lopo, olha tu
+se dás juizo a tua prima, e manda-me no que quizeres em Lisboa.
+
+--Parece-me que me não pões mais os olhos, Calisto!--clamou ella com
+profunda angustia.
+
+--Adeus, adeus, minha tola; não penses em tal.
+
+E saiu alegre como o encarcerado da prisão de longos annos. As azas
+candidas de Iphigenia sacudiam-lhe do espirito saudades e remorsos.
+
+
+
+
+XXXII
+
+*A virtude de Theodora em paroxismos*
+
+
+Em outubro d'aquelle anno, a friza dezeseis do theatro de S. Carlos
+expoz uma cara desconhecida de todos, excepto de alguns raros rapazes da
+nata social que a tinham visto de relance, entre as aves e flores de
+Cintra.
+
+Era Iphigenia, a formosa do novo-mundo, que uns chamavam a feição
+genuina da Circassia, outros a romana herdeira do perfil correcto das
+Faustinas e Fulvias; e os mais circumscreviam a sua admiração á mulher
+dispensando-se de lhe esquadrinhar o typo.
+
+De feito, Iphigenia era belleza das que sómente se assimelham
+propriamente a si.
+
+Ao lado d'esta mulher estava um homem, cuja nobre e fidalga presença
+abonava e encarecia a qualidade da dama: era o morgado da Agra de
+Freimas, Benevides de Barbuda.
+
+A opinião publica da platéa e camarotes estava ou duvidosa ou indecisa.
+Aqui dizia-se que Iphigenia era parenta do cavalheiro, além
+desdouravam-lhe a posição, sem comtudo os rostos se voltarem corridos do
+escandalo.
+
+Iphigenia, á saída do theatro, entrava n'uma luxuosa caleche tirada por
+hanoverianos soberbos. Calisto Eloy apertava a mão da dama, e entrava
+n'outra sege. A caleche parava na rua de S. João dos Bem Casados, no
+pateo de um palacete; o morgado apeava da sege em frente do hotel
+inglez, a Buenos-Ayres.
+
+As pesquizas sincavam n'esta diversidade de paragens. Sabia-se que o
+deputado frequentava o palacete a horas em que se visitam senhoras
+cerimoniosamente. Sabia-se que morava alli a viuva do general Ponce de
+Leão, o qual morrera no serviço do Brazil. A pouco e pouco, a
+maledicencia ajuntou á admiração o respeito.
+
+Uns parentes do general, porventura filhos d'aquelles que se
+entre-lembravam de terem sido procurados por uma viuva, levaram os seus
+cumprimentos ao palacete de S. João dos Bem Casados. Iphigenia fez-lhes
+saber pelo seu escudeiro que lhes agradecia a delicadeza e a honra do
+parentesco. E mais nada.
+
+Ora, Calisto Eloy, sem embargo da seriedade e gentil compostura de sua
+pessoa, não podia de todo poupar-se ao riso de certas pessoas da platéa.
+Estava alli gente que o ouvira fulminar no parlamento o theatro lyrico,
+e nomeadamente a Lucrecia Borgia. Estava quem se lembrasse d'aquellas
+calças de polainas assertoadas de madre-perola, e do farfalhoso colete,
+e das pantalonas axadrezadas do aljubeta Nunes & filho. O doutor
+Liborio, do Porto, principalmente, ainda estomagado da reprimenda,
+saboreava a vingança, indigitando-o á hilaridade dos camaradas parelhos
+em nascimento, asnidade e estylo.
+
+N'uma noite, Iphigenia reparou na attenção e nos sorrisos de um grupo.
+Ao voltar a vista para seu primo, encontrou os olhos d'elle, com uma
+tempestade sobranceira, que era o avincado profundo da testa. Andava por
+alli n'aquella fronte sangue de Traz-os-Montes, sangue de Barbudas.
+
+Calisto estremara o doutor Liborio de Meirelles, entre a roda dos
+peraltas, que bebiam da garrafeira do paternal tendeiro, prodigalisada
+ao filho das esperanças suas e da patria.
+
+N'um intervallo, saiu Calisto Eloy do camarote, e como não encontrasse
+no portico nem nos corredores o risonho deputado portuense, entrou á
+platéa.
+
+Avisinhou-se de Liborio, que o encarou com semblante de côr incerta.
+
+--O collega por aqui?--disse o doutor--Reminiscencias me não acodem de
+havel-o visto na platéa!
+
+Calisto, sem o fitar no rosto, respondeu:
+
+--Venho vêr as dimensões das suas orelhas.
+
+--Como assim!...--balbuciou Liborio.
+
+--Tenciono puchar-lh'as até á bocca, no proposito de tapar com ellas um
+riso alvar que vossa mercê tem, e que me incommoda grandemente. Veja lá
+se a operação lhe convém aqui ou lá fora.
+
+--Não comprehendo a razão do insulto!--disse Liborio.
+
+--Será lá fora--concluiu Calisto e saiu.
+
+A gente, que rodeava o doutor portuense, comportou-se bem: cada qual,
+dizia de si para comsigo, que, se o caso fosse com elle, o provinciano
+enguliria a injuria com uma balla; assim, como não era com elles o caso,
+Calisto mereceu a Deus a felicidade de não ser varado de ballas.
+
+O que passa como certo é que Liborio nunca mais desfranziu um riso
+voltado para a friza de Iphigenia.
+
+N'uma d'essas noites, estava na friza fronteira á de Calisto a familia
+Sarmento. Adelaide não despregava o occulo de Iphigenia, salvo quando
+Catharina lh'o tirava da mão, para lh'o assestar.
+
+Calisto exultava em delicias incomparaveis. Era a vingança, a
+carapinhada dos deuses n'um meio dia de julho, a vingança de amador
+menoscabado. Este cuidar que se vingam, mulheres e homens, é inepcia de
+marca maior, a que não houve esquivar-se aquelle sujeito de condição
+muito ajuizada se o confrontamos com outros, a quem o amor aleijou de
+todo em todo.
+
+Reparou Calisto que no camarote de Duarte Malafaia, marido de D.
+Catharina Sarmento, entrara um sujeito que lhe não era desconhecido.
+Examinou-o com o binoculo, e reconhecera aquelle D. Bruno de
+Mascarenhas, a quem elle se apresentara na qualidade de anjo Custodio de
+D. Catharina. Sorriu-se o morgado para dentro por que lhe já não ficava
+bem indignar-se por dentro nem por fóra. A esposa de Duarte, segundo
+parecia, raro relance de olhos desfechava sobre o perturbador da sua
+consciencia de outro tempo. O morgado entendeu que a esposa regenerada
+reincidira na velha culpa. Enganara-se.
+
+Permanecia ainda o salutar effeito da façanha moralisadora de Calisto
+Eloy. Bruno era odioso a Catharina: o anjo advogado dos maridos a estava
+sempre lustrando com as lagrimas do arrependimento. Não sei se o morgado
+da Agra levará ao desconto do juizo final duas acções que pesem tanto
+como esta na balança.
+
+Passaram dois mezes sem que D. Theodora escrevesse ao marido. Embargada
+no leito pela enfermidade, que a poz em começos de phtisica, a pobre
+senhora, esteiada no amparo da piedade, fazia penosas promessas a santos
+da sua particular devoção, pedindo-lhes a amizade e restituição do
+marido. D'esta feita, pelo que a gente está vendo, os santos não levaram
+a melhor da legião de demonios que resaltam dos olbos de uma brazileira
+galante. Não obstante, a protecção dos privados do céo valeu-lhe o
+levantar-se da cama, e convalecer-se com leite de jumenta e oleo de
+figados de bacalhau. Mas o coração estava ainda, e cada vez mais
+encancerado; a saudade crescia consoante a ausencia e desprezo do marido
+se augmentava.
+
+Por ventura, aquelles santos tão rogados estavam em volta d'ella a
+defendel-a das tentações do primo Lopo. Já Theodora o repulsava
+desabridamente, quando se via no risco de ser abalada em sua fidelidade.
+A pervicacia, porém, do astuto negociador de seus vilissimos interesses,
+servidos por infames lagrimas e exclamações compungentes, alguma vez a
+surprehendeu quasi desprotegida do escudo celestial.
+
+Mas--honra á virtude que cae mais tarde que o costume!--honra á virtude
+de Theodora, que lhe punha sempre diante dos olhos, nas conjuncturas
+perigosas, a imagem do marido, e de sua mãe e avós todas esposas
+immaculadas!
+
+Passemos a esponja por sobre Penelopes e Lucrecias.
+
+Começou Calisto a receber cartas de sua mulher. Algumas, que abriu, não
+pôde digeril-as. Como a dôr sincera não costuma ser eloquente, nem a
+orthographia da filha do boticario exprimia com certeza as singelas
+lastimas de Theodora, o cru marido queimava as cartas para desmemoria
+eterna.
+
+
+
+
+XXXIII
+
+*Escandalos*
+
+
+Abriram-se as camaras.
+
+A opposição espantou-se de vêr o deputado por Miranda conversando muito
+mão por mão com os ministros. O abbade de Estevães ousou perguntar ao
+seu collega, amigo e correligionario, de que rumo estava. Calisto
+respondeu que estava de rumo em que o pharol da civilisação alumiava com
+mais clara luz. O antigo desembargador do ecclesiastico redarguiu com
+admoestações benevolas. O morgado sorriu-lhe na cara veneranda, e
+disse-lhe:
+
+--Meu amigo, abra os olhos, que não ha martyrologio para as toupeiras.
+As idéas não se formam na cabeça do homem; voejam na athmosphera,
+respiram-se no ar, bebem-se na agua, coam-se no sangue, entram nas
+moleculas, e refundem, reformam e renovam a compleição do homem.
+
+--Segue-se que está liberal?--perguntou o pavido abbade.
+
+--Estou portuguez do seculo XIX.
+
+--Apostatou!--disse com pesar mui entranhado o padre--Apostatou!...
+
+--Da religião dos nescios.
+
+--Mercês!--accudiu o abbade.
+
+--Sem direitos--retorquiu o sardonico Barbuda.
+
+Não tornaram a fallar-se, até um dia do anno seguinte em que o padre,
+despachado conego da sé patriarchal de Lisboa, aceitou o parabem e o
+sorriso pungitivo de Calisto Eloy.
+
+Na primeira votação importante para o ministerio, Calisto Eloy defendeu
+o projecto que era vital para o governo, e fez-se desde logo necessario
+á situação. Orou por vezes, com seriedade tal de principios, que não
+servem para romance os seus discursos. Explicou a profissão da sua nova
+fé, respeitando as crenças politicas dos seus antigos correligionarios.
+Disse que escolhia o seu humilde posto nas fileiras dos governamentaes,
+por que era figadal inimigo da desordem, e convencido estava de que a
+ordem só podia mantel-a o poder executivo, e não só mantel-a, senão
+defendel-a para consolidar as posições, obtidas contra os cubiçosos de
+posições. Reflexionou sisudamente, e fez escola. Seguiram-se-lhe
+discipulos convictissimos, que ainda agora pugnam por todos os governos,
+e por amor da ordem que está como poder executivo.
+
+Preparava Calisto um projecto de lei para a abolição dos vinculos,
+quando recebeu a seguinte carta de Lopo de Gamboa:
+
+«Primo e amigo.
+
+Recommendaste-me que désse juizo a tua senhora e minha prima. Contra
+paixões não ha conselhos. Tu lá o sabes por theoria e experiencia, como
+eu que não tenho dado máo burro ao dizimo, um coisas de coração.
+
+Préguei-lhe prudencia, conformidade e paciencia. O abbade tambem lhe
+citou exemplos admiraveis de esposas sanctificadas pela ingratidão dos
+maridos. Não conseguimos nada. Cada vez te ama com mais furor. Diz que
+te ha de ir buscar ás entranhas da terra e aos abysmos do bárathro. Isto
+vae de galhofa; mas eu tenho sincera pena da nossa pobre prima.
+Desculpo-te, porque és homem, porque amas outra mulher, e porque esta
+realmente, deve pouco á formosura e graças. Não sou de ambages: digo o
+que sinto.
+
+Contou-me o primo Gastão de Villarandêlho que te vira em S. Carlos, e
+comtigo no camarote uma deidade arrebatadora. Se é essa a rival da
+Theodora, quem ousará chamar-te ao caminho da probidade conjugal?! Já
+agora, só milagre. Nas nossas edades, meu amigo e primo, amores que
+entram, não ha juizo purgativo que os ponha fóra do corpo.
+
+Vamos agora ao que importa.
+
+Está tua senhora resolvida a ir procurar-te a Lisboa. Tenho tido mão
+d'ella; mas já não posso. Como lhe não respondeste á carta,
+desesperou-se, declarou-te guerra de morte, e tens que vêr com uma
+mulher furiosa. Fiz-lhe vêr que póde ser mal recebida e desprezada.
+Responde que quer esganar quem lhe roubou seu marido. Está doida; mas
+quem ha de contel-a?! Alguns parentes nossos dão-lhe razão: é o diabo
+isto; espicassam-n'a, e ella volta-se contra mim, dizendo que sou um
+patife como tu. Isto é bonito!
+
+Em divorcio não quer que lhe fallem. Diz que quer o seu homem e não ha
+tiral-a d'aqui.
+
+Prevejo os crueis desgostos que te vae ahi dar, além das vergonhas.
+Disse-lhe que não fosse, sem se vestir ao estylo das senhoras de Lisboa.
+Não quer. Apparece-te ahi gothicamente vestida, com o fatal vestido do
+casamento, e o fatal chapéo, que é um monstro de palha. Ha dois annos te
+dizia eu que vestisses tua mulher senhorilmente. Respondias-me que os
+melhores enfeites de uma virtuosa são as virtudes. Agora, atura-a. Se
+ella ahi fôr vestida de virtudes, diz lá a essa gente que se não ria
+d'ella.
+
+E se tu tens de a vêr a testilhas com essa _diva_, que em quanto a mim
+não é _casta_? Então é que ellas são, primo Barbuda! Sobre arranhaduras,
+escandalo! A tua posição seria feita ludibrio da canalha. Os jornaes a
+fustigarem-te, e tu com a cabeça perdida! Eu imagino-me na tua situação,
+e tenho horror.
+
+Que has de tu fazer n'estes apertos? Tens uma boa cabeça; mas eu estou
+mais a sangue frio para te aconselhar. O meu parecer é que sáias de
+Lisboa com essa dama, e vás para onde Theodora não te veja o rasto. Olha
+que vae com ella o tio Paulo Figueirôa de Travanca, besta finoria que ha
+de dar comtigo, se te não esconderes a bom recado.
+
+A lealdade impoz-me o dever de te dar esta má noticia. Mais má seria, se
+t'a levasse tua senhora. Sei que outra pessoa te faria reflexões
+inuteis; mas eu tenho obrigação de conhecer os homens. No entanto, faz o
+que teu bom juizo te suggerir.
+
+ Teu primo muito dedicado
+ _Lopo_.»
+
+No dia seguinte, Calisto Eloy pediu licença á camara para retirar-se por
+algum tempo de Lisboa, a cuidar de sua saude.
+
+Ao outro dia embarcou para França.
+
+Perguntava-lhe Iphigenia, contente da repentina deliberação:
+
+--Porque é isto, primo? Nunca me fallaste em visitarmos Paris!
+
+--Quiz dar-te o prazer da surpreza. As melhores coisas, muito pensadas
+antes de possuidas, desmerecem quando se possuem.
+
+Partiram.
+
+No palacete da rua de S. João dos Bem Casados, ficou governando os
+criados, aquella sr.^a D. Thomazia Leonor, que fôra já desde Cintra,
+recebida como dispenseira e aia de Iphigenia.
+
+
+
+
+XXXIV
+
+*Perdida!...*
+
+
+Para leitores entendidos na perversidade humana, a carta de Lopo de
+Gamboa é uma refinada e suja barganteria, estudada e escripta com um
+despejo não vulgar em bachareis d'aquelles sitios. Aquelle homem, se
+tivesse nascido em terras onde ha a centralisação dos biltres, morria
+com um nome para lembrança duradoura. Assim, nascido n'aquellas serras,
+onde não apégou ainda romancista de medrança, se o eu não transplantar
+para a corja dos birbantes das minhas novellas, o homem escorrega lá da
+serra no inferno, sem que a execração publica o cubra de maldições.
+
+Repulso do coração da prima, que incessantemente se estava entregando á
+protecção dos santos, mudou o plano das insidias, incitando-a a procurar
+o marido em Lisboa, como ultimo desengano e final affronta. Convinha-lhe
+que a pobre mulher afogasse em lagrimas as ultimas e mais entranhadas
+raizes da sua pureza.
+
+Em companhia de um velho inexperiente e credulo, o honrado Paulo de
+Figueirôa, que nunca saira das ruinas solarengas de Travanca, metteu-se
+D. Theodora a caminho de Lisboa. Deu um geito ás abas do chapéo que se
+entortara na canastra esquecida, lavou as fitas e a palha com chá da
+India, arejou o bafio do vestido de veludo que embolecera no inverno
+passado, e d'este geito entrajada se encaixotou na liteira, defronte do
+tio, que tinha a sinceridade de achar sua sobrinha muito bonita, vestida
+assim á moderna.
+
+Nas differentes villas que atravessou até ao Porto, D. Theodora prendeu
+o espanto publico. Muita gente, aliás urbana, ria-se a cair. Onde
+parasse a liteira, o gentio fazia-lhe roda, e queria saber d'onde vinha
+aquella creatura incomparavel. Theodora, á entrada de Penafiel, a pedido
+respeitoso do liteireiro, tirou o chapéo e cobriu a cabeça com um
+lencinho de tres pontas. Ainda assim, o vestido de veludo côr de ginja
+dava nos olhos. Os padres de Penafiel, quando avistaram a liteira,
+cuidaram um momento que vinha alli alguma preeminencia ecclesiastica,
+como cardeal, ou coisa assim. A desharmonia do lencinho com o vestido
+offendia o bello ideal, e a symetria esthetica das damas da terra, as
+quaes ao verem-na saltar da liteira para o pateo da estalagem com o
+chapéo na mão, similhante a um cabaz de cavacas das Caldas, soltaram
+grande estrallada de riso. As meninas da estalagem, condoidas do aspecto
+doentio e honesto da viandante, informaram-se da qualidade da pessoa, e
+romperam no louvavel excesso de se insinuarem na fidalga, para lhe
+pedirem que se vestisse de outra maneira.
+
+Accedeu sem repugnancia Theodora. As risadas francas do povo haviam-na
+amolecido. O velho tambem votou pela reforma dos trajos. E, como alli
+pernoitasse e deliberasse esperar o dia seguinte, deu tempo a que a
+provessem de chapéo rasoavel, e vestido com o competente paletó de seda,
+nas quaes coisas collaboraram todas as modistas da terra. Regenerada
+pelo vestido, parecia outra. As meninas pentearam-lhe os opulentos e
+negros cabellos a Stuart, segundo ellas disseram. Descobriram-lhe a
+fronte bem talhada. Deram-lhe umas lições de pisar e arregaçar-se, para
+a desacostumarem de ir com os pés sobre a orla do vestido, ou mostrar os
+calcanhares na andadura. O mirinaque foi um golpe certeiro no desaire da
+fidalga de Travanca. Ella mesma, olhando em si, dizia no secreto da sua
+consciencia illustrada em Penafiel:
+
+--Eu assim estou melhor, a fallar verdade!
+
+O tio Paulo torcia um pouco o nariz ao mirinaque, dizendo:
+
+--Pareces-me uma boneca de roda de fogo! Tens aleijados os quadris,
+salvo tal logar! Mas, se é moda, deixa-te ir assim, menina até Lisboa;
+porém, quando entrares em casa, manda espetar esses arcos n'um pau, para
+espantar os pardaes da sementeira.
+
+Como o velho fidalgo desejasse vêr o mar, resolveram ir para Lisboa no
+vapor. Theodora, quando principiou a enjoar, pediu os sacramentos;
+animada, porém com as risadas de outras senhoras, convenceu-se de que
+não era mortal a sua afflicção.
+
+Hospedaram-se no cáes do Sodré. D. Theodora, não obstante a anciedade em
+que ia de avistar-se com o marido cuidou em reparar as forças com um
+dormir d'aquelles que a Providencia concede ás consciencias puras e ás
+pessoas que desembarcam enjoadas.
+
+Paulo de Figueirôa saiu para a rua, no intento de informar-se da
+residencia de Calisto. Porém, como encontrasse na rua do Alecrim um
+macaco encavalgado n'um cão, que trotava a compasso de realejo,
+deixou-se ficar pasmado no espectaculo; depois, foi subindo até ao largo
+das Duas Egrejas, e quedou-se a ouvir um cego de oculos verdes que
+pregoava e referia o successo negro de um homem que matára seu avô.
+Terminava o cego, offerecendo a noticia impressa, onde tudo estava
+declarado. Comprou o fidalgo da Travanca a pavorosa noticia, e esteve
+largo tempo a soletral-a, sentado á porta da egreja do Loreto.
+
+Terminada a leitura, o velho disse entre si:
+
+--Isto é má terra! Tomara-me eu d'aqui para fóra!... Os netos matam os
+avôs!...
+
+Chamou um gallego, que o guiou ao palacio das côrtes. Perguntou ao
+porteiro se estava lá dentro o deputado Calisto Eloy, morgado da Agra de
+Freimas.
+
+--Não sei--disse mal encarado o funccionario.
+
+--Eu sou tio d'elle; faça favor de lhe ir dizer que está aqui o tio
+Paulo de Figueirôa.
+
+--Não posso lá ir--volveu o porteiro, mais brando.--Peça áquelle sr.
+deputado, que ahi vem que lh'o diga.
+
+Paulo dirigiu-se a um sujeito de exterior sacerdotal. Era o abbade de
+Estevães.
+
+--Essa pessoa está fóra de Lisboa, creio eu--disse o deputado--pelo
+menos pediu licença ás camaras para retirar-se.
+
+--Iria para casa?--perguntou o velho.
+
+--Creio que não. Então o senhor é tio d'elle!
+
+--Sou tio d'elle em terceiro gráo, e sou irmão do pae da esposa d'elle.
+
+--Pobre senhora! Murmurou compassivamente o padre.--Ella perdeu um
+excellente marido e o partido legitimista um strenuo defensor.
+
+--Então meu sobrinho--atalhou Paulo--já não é legitimista?!
+
+--Qual! fez-se um malhado acerrimo. Está com esta gente, e demais a mais
+fez-se governamental!...
+
+--Oh! que maroto!...
+
+--E tudo isto, meu caro senhor, deve-se á desmoralisação de uma mulher,
+que lhe tirou o juizo e a dignidade, e lhe ha de dar cabo da casa.
+Apresenta-se com ella nos theatros, e tem-na em palacete com carruagem
+montada, e lacaios e estado de princeza. E a pobre senhora lá na
+provincia a economisar as rendas, que elle está por cá delapidando!...
+
+--Minha sobrinha veiu comigo--observou o velho.
+
+--Veiu? Coitada da infeliz senhora! Quanto desejava eu poder ir
+comprimental-a; mas como estou indisposto com o sr. Barbuda, não quero
+que elle me julgue capaz de irritar sua consorte com os meus despeitos.
+Pois senhor, se sua sobrinha quizer vêr a pompa e luxo com que está
+vivendo a manceba de seu marido, que vá á rua de S. João dos Bem
+Casados, e veja o palacio, que está ao cimo da rua, onde lá os visinhos
+dizem que mora a chamada «fidalga brazileira».
+
+--Faz favor de tornar a dizer?--pediu Paulo desenrolando o nastro de uma
+enorme carteira escarlate, para fazer nota da residencia da brazileira.
+
+--Se eu lhe prestar de alguma coisa, aqui estou como principal amigo que
+fui do desgraçado sr. Calisto Eloy--ajuntou o abbade de Estevães.
+
+Ao fim da tarde d'este dia, D. Theodora, que fremia de raiva desde que o
+tio lhe revelou as informações do padre, entrou com o velho n'uma sege
+de praça, por lhe dizerem que era muito longe a rua de S. João dos Bem
+Casados.
+
+Apeou á porta do palacete, que um logista lhe indicou. Perguntou ao
+criado, que lhe fallou por um postigo da cavallariça, se estava em casa
+o sr. Calisto.
+
+--Não mora aqui--disse o lacaio.
+
+--Mora aqui!--teimou D. Theodora.
+
+--Já lhe disse que não mora aqui--recalcitrou o criado.
+
+--Então aqui não está uma mulher viuva?
+
+--Mulher viuva?
+
+--Sim.
+
+--Está lá em cima uma mulher viuva, que é a governante da casa.
+
+--Essa mesma é que eu quero vêr, disse D. Theodora.
+
+--Quem lhe hei de eu dizer que a procura?
+
+--Diga-lha que é uma pessoa.
+
+--A este tempo estava já na janella a sr.^a D. Thomazia Leonor, cuja
+attenção fôra chamada pelo desabrimento do dialogo.
+
+--Quem é a senhora?--perguntou a viuva do tenente.
+
+D. Theodora impertigou o pescoço, e como visse uma mulher de touca
+parda, e já avelhentada, conjecturou que fallava com uma criada.
+
+--Quero fallar á senhora viuva.
+
+--Abra a porta, José--disse D. Thomazia ao criado.
+
+--Subiu a fidalga com o tio, entraram na sala de espera, que já estava
+aberta, e d'ahi a pouco entravam n'outra sala, que era a das visitas.
+
+D. Theodora olhava em de redor de si por sobre aquelles riquissimos
+setins e marmores, e dizia intallada:
+
+--Olha o meu dinheiro por onde anda!...
+
+Paulo benzia-se e murmurava:
+
+--Parece o palacio do rei!
+
+D. Thomazia demorara-se a mudar de touca, de cazebeque e botinhas.
+Entrou na sala com o garbo de lisboeta, e disse a D. Theodora:
+
+--Eu desejo saber com quem tenho a honra de fallar.
+
+--Então a senhora é que é a viuva?
+
+--Eu é que sou a viuva do tenente de infanteria 13, João da Silva
+Gonçalves. Dar-se-ha caso que v. ex.^a seja uma prima que meu marido
+tinha na provincia do Minho?
+
+--Não sou quem a senhora pensa.
+
+--Então tem a bondade de dizer...
+
+--Pois a senhora é que é a tal pessoa?...--tornou Theodora, já menos
+raivosa, que espantada do depravado gosto do marido.
+
+--Que pessoa? não sei de quem v. ex.^a falla.
+
+--A amasia de meu marido...
+
+--Amasia de seu marido!... Cruzes!... a senhora veiu enganada... Eu sou
+uma viuva honrada; chamo-me Thomazia Leonor. Quem é o marido da
+senhora?! Isto tem graça!...
+
+--Meu marido é o deputado Calisto Eloy.
+
+--Ah!--exclamou Thomazia--Então v. ex.^a é esposa do sr. morgado...
+
+--Já me conhece?!...--disse sorrindo ferozmente Theodora.
+
+--Agora tenho a honra de a conhecer; mas eu não sou a pessoa que v.
+ex.^a procura. Bem vê que sou uma mulher de edade, e por desgraça estou
+aqui n'esta casa da prima do sr. morgado como dispenseira, e aia da
+fidalga.
+
+--E que é da tal fidalga?
+
+--Anda a viajar pela Europa.
+
+--Onde é a Europa?--perguntou D. Theodora colerica.
+
+--A Europa é este mundo por onde anda a gente, minha senhora--respondeu
+promptamente a viuva.
+
+--Mas é longe onde está a tal prima de meu marido?
+
+--Muito longe: elles já embarcaram ha seis dias... Deus sabe onde elles
+estão agora.
+
+--Pois foram os dois?--bradou Theodora, sacudindo murros fechados.
+
+--Foram sim, minha senhora.
+
+--E quando voltam?
+
+--Quem sabe!... Os fidalgos não disseram nada: póde ser que passem
+alguns mezes lá por fóra.
+
+--Raios os partam!--vociferou Theodora.
+
+--Deus os defenda!--emendou Thomazia--Pois v. ex.^a deseja tanto mal a
+seu marido, que é um anjo, e a sua prima, que é um serafim!...
+
+--A minha prima?!--ululou a morgada.
+
+--Sim, minha senhora; pois tão prima é ella do marido de v. ex.^a como
+sua.
+
+--Ella o que é, sabe que mais? é uma desavergonhada, e tudo que aqui
+está é meu, foi comprado com o meu dinheiro.
+
+--Seria--disse Thomazia algum tanto enfadada--seria, mas eu não tenho
+nada com isso, minha senhora. A sr.^a D. Iphigenia Ponce de Leão
+entregou-me a sua casa, quando foi viajar: hei de entregar-lh'a como a
+recebi; e v. ex.^a lá se avenha com seu marido, quando elle voltar. D.
+Theodora Figueirôa, empuchada por impulsos dos nervos, corria de angulo
+para angulo o salão. De uma vez, olhou por entre duas portadas mal
+fechadas para o interior de outra sala, e exclamou:
+
+--Olhe, meu tio! olhe que riqueza aqui vae!
+
+Deu um pontapé nas portadas, e entrou, bradando:
+
+--O meu dinheiro! o meu dinheiro!...
+
+Era ali o sumptuoso gabinete de leitura e musica de D. Iphigenia.
+Ornavam as paredes dois retratos a corpo inteiro: Calisto Eloy com a
+farda de fidalgo cavalleiro; e Iphigenia trajada de amazona.
+
+--Olha o meu marido!--clamou Theodora--aquella é a tal mulher? perguntou
+á espantada Thomazia.
+
+--Aquella é a sr.^a D. Iphigenia.
+
+--Vou rasgar aquelle diabo!--berrou a morgada, puchando uma cadeira para
+trepar.
+
+--Isso alto lá, minha senhora!--acudiu irada a dispenseira--V. ex.^a não
+estraga coisa nenhuma. E, se continua n'esse disparate, eu mando chamar
+o cabo da rua para a pôr lá fóra.
+
+--Pôr-me a mim lá fóra?! bradou Theodora!
+
+--Sim, minha senhora, que isto não são termos. Nem me parece senhora! cá
+em Lisboa acções d'estas só as praticam as peixeiras.
+
+Paulo foi ao pé da sobrinha, e disse-lhe:
+
+--Theodora, vamos. A mulher tem razão, porque é criada da casa e tem de
+dar contas.
+
+--Não sou criada; sou aia da fidalga--corregiu a viuva, offendida nas
+dragonas do seu defunto tenente.
+
+--Aia, ou o diabo que é--tornou Paulo--Vem d'ahi, sobrinha--e tirou-a
+pelo braço, em quanto ella assestava os punhos fechados ao retrato de
+Iphigenia.
+
+Á saida d'aquella casa, D. Theodora, a consorte fiel, a mulher que fez
+eclypse nas virtudes conjugaes do Indostão, sentiu quebrar-se o ultimo
+cabello que a prendia á historia das esposas exemplares.
+
+N'aquella hora funesta, lembrou-se com saudades do primo Lopo de Gamboa.
+
+O patife vencêra!
+
+
+
+
+XXXV
+
+*A felicidade infernal do crime*
+
+
+Recebeu Calisto Eloy em Paris a minudenciosa narrativa dos factos
+acontecidos, e escondeu de Iphigenia a carta de D. Thomazia.
+
+Foi tamanha sua vergonha e odio, que d'alli escreveu a Lopo de Gamboa,
+reagradecendo-lhe o aviso que lhe dera do infame projecto de Theodora;
+e, lhe asseverava que, depois de tão incrivel e original desaforo, se
+considerava viuvo, e nunca mais diante de seus olhos consentiria
+similhante furia. Ajuntava que, na volta para Portugal, ia requerer
+divorcio, e separação dos casaes, se a esse tempo Theodora se não
+houvesse recolhido á sua casa de Travanca, sem tocar no minimo dos
+valores pertencentes ao casal da Agra de Freimas.
+
+Tirante o que, n'esta carta, dizia respeito ao aviso enviado para
+Lisboa, Lopo leu declamatoriamenle as ameaças de Calisto, e os epithetos
+injuriosos com que elle castigava a petulancia da mulher. Ao tempo
+d'esta leitura, superflua já era tão rija catapulta para derrubar a
+virtude de Theodora.
+
+Quasi impassivelmente recebeu ella os insultos. Cuidou logo em
+transferir-se para o seu solar, e repartiu entre o velho Paulo e seu
+primo Lopo, o cuidado da administração dos seus abastosos vinculos. Ora,
+o primo Lopo, afim de esmerar-se na tarefa que lhe era confiada, mudou a
+sua residencia para casa da prima, e cuidou de restituir áquelle solar a
+antiga magestade dos defuntos Figueirôas. Para isto, lhe transmittiu sua
+prima aquelle caixote das peças, que para alli estavam amuadas, desde
+que o governador da India voltára com ellas d'além-mar, provavelmente
+adquiridas com tanta honestidade como agora iam ser esbanjadas.
+
+Graças ás modistas de Penafiel, e, mais ainda, ás meninas da estalagem,
+D. Theodora Figueirôa affeiçoou-se ao merinaque, e ao feitio e estofo do
+vestido e paletó. O primo Lopo dizia-lhe, algumas vezes, que ella, em
+companhia de Calisto, era um diamante bruto; e se n'isto havia
+encarecimento, até certo ponto o bacharel maravilhava-se do influxo que
+o trajar exercitava nas fórmas de sua prima. A cintura adelgaçou-se;
+apequenou-se-lhe o pé; alargaram-se-lhe os encontros; amaciou-se-lhe a
+cutis; branquearam-se-lhe os braços; escampou-se-lhe a fronte com o
+riçado dos cabellos; toda ella adquiriu no andar certo requebro e
+donaire que lhe ia tão ao natural como se tivesse sido educada por salas
+e adextrada em flexuras da dança! A mulher, com effeito, é um mysterio!
+Estas methamorphoses aos quarenta annos só podem fazer-se e estudar-se a
+espelho, cujo aço tem composição dos laboratorios d'aquelle imaginoso
+chefe dos rebeldes, que Deus despenhou do empyreo, sem todavia o
+esbulhar dos dons da intelligencia!
+
+E, por sobre tudo isto, para que ninguem duvide da intervenção diabolica
+n'este caso, Theodora vivia contente, esquecida, feliz!
+
+
+
+
+XXXVI
+
+*Saldo de contas conjugal*
+
+
+Chegou a Paris a boa nova, desacompanhada de pormenores deshonrosos.
+Dizia apenas o feitor do morgado que a fidalga se retirara para
+Travanca, deixando tudo que encontrára, e levando tudo que trouxera.
+Lopo de Gamboa industriára o feitor na direcção que havia de dar á
+carta. Faltou-lhe apurar o desvergonhamento ao extremo de continuar
+correspondencia com o marido de sua prima.
+
+Calisto desandou para Lisboa, prevenindo Thomazia que occultasse de
+Iphigenia a indecorosa scena que sua mulher fizera.
+
+Na volta de Paris, o morgado aposentou-se no palacete da brazileira. O
+passeio á Europa limpou-lhe do espirito as teias: é bom desempoeirar os
+olhos com a viração salutar dos ares de França e Italia. Lisboa pareceu
+a Calisto Eloy terra pequena de mais para sacrificios tamanhos.
+Emancipou o coração, e obedeceu-lhe.
+
+Assistiu ainda o deputado a algumas sessões parlamentares. Floreou os
+seus discursos com as recordações do progresso industrial no
+estrangeiro. Enlevou-se nas delicias de França, e não andou por muito
+longe da phrase arrobada do dr. Liborio de Meirelles na apologia dos
+esplendores estranhos, e lamentações das miserias da patria.
+
+Providenciou sobre negocios de sua casa, para que os recursos lhe não
+minguassem nas pompas do seu viver em Lisboa, e começou um doce viver,
+não mareado de minimo dissabor. Renasceu-lhe no espirito, já livre dos
+sobresaltos do coração, o amor á leitura de livros modernos, em que se
+lhe deparavam luzes e idéas, que elle, a furto, conseguia entrever nas
+litteraturas antigas. Avermelhava-se-lhe o rosto, quando lia o seu
+discurso ácerca do luxo, e o outro mais tôlo sobre Lucrecia Borgia do
+theatro lyrico. A sciencia moderna flagellava-o. Tinha elle escripto nos
+dois primeiros mezes alguns quadernos de papel, no proposito de dar á
+estampa um livro contra o luxo. Releu com pejo a sua obra, e ordenou a
+um criado que queimasse o manuscripto. O criado não o queimou.
+Escondeu-o sem máo intento; e alguma vez saberá o mundo litterario como
+aquelles papeis vieram á minha mão, e ainda me são deleite e licção de
+sã linguagem e sãs doutrinas.
+
+Decorreram alguns mezes sem successo que dê capitulo d'algum interesse.
+Fechado o triennio da legislatura, Calisto Eloy foi agraciado com o
+titulo de barão da Agra de Freimas, e carta do conselho. Sondou o animo
+de alguns influentes eleitoraes de Miranda para reeleger-se pelo seu
+circulo. Disseram-lhe que o mestre-escola lhe hostilisava a candidatura,
+emparceirado com o boticario. Comprou o barão dois habitos de Christo
+que fez entregar, com os respectivos diplomas, aos dois influentes. Na
+volta do correio foi-lhe assegurada a eleição, que, de mais a mais, o
+governo apoiava.
+
+Por esta occasião, Braz Lobato, religada a amizade antiga, escreveu ao
+fidalgo uma carta em que, pouco menos de brutalmente, reproduzia os
+boatos correntes ácerca do procedimento da sr.^a D. Theodora com o seu
+primo Lopo de Gamboa.
+
+O barão experimentou um mal-estar de especie nova, que se desvaneceu a
+pouco e pouco, e só mui levemente se repetiu no dia seguinte. Eu creio
+que o homem aprendêra em Paris dois consolativos versos de Molière:
+
+ _Quel mal cela fait-il? la jambe en devient elle
+ Plus tortue, après tout, et la taille moins belle_?
+
+Averiguei quanto em mim coube o viver interno de Iphigenia e do primo.
+Convinha-me descobrir amarguras lá dentro, para tirar d'ellas o symptoma
+da expiação. Não descobri coisa alguma, que não fosse invejavel. O mais
+que se me deixou vêr de novidade foram duas creanças loiras, lindas,
+alvas de neve, e amimadas entre Iphigenia e Calisto como dois penhores
+de felicidade infinita.
+
+Como ali cairam dos pombaes do céo aquellas duas avesinhas, que
+saltitavam dos braços de um para o colo do outro, não sei. Eu digo ao
+leitor o que as mães de recem-nascidos dizem aos filhos mais velhos:
+«vieram de França n'uma condecinha.»
+
+Ouvi rosnar que no sollar de Travanca tambem appareceu um ropolhudo
+menino, que pelos modos, tambem veiu n'um cêsto de alguma parte. Se não
+fossem estas remessas prodigiosas de creanças, acabavam duas
+illustrissimas familias sem posteridade. A natureza é muito engenhosa.
+
+O barão esperava que a mulher morresse, para legitimar os seus meninos,
+um dos quaes se chamava Mem de Barbuda como seu decimo setimo avô, e o
+outro Egas de Barbuda como seu decimo oitavo avô.
+
+A baroneza, que, digamol-o depressa, não regeitou o titulo do marido,
+esperava que o marido se anniquillasse na perdição dos seus costumes,
+para tambem legitimar o seu Bernabé. Chamava-se Bernabé aquelle gordo
+menino, gordo que não parecia fructo outoniço de arvore já tão
+esgravinhada e resêca! O amor é tão engenhoso como a natureza.
+
+
+
+
+*Conclusão*
+
+
+Deixal-o ser feliz: deixal-o. Calisto Eloy, aquelle santo homem lá das
+serras o anjo do fragmento paradisico do Portugal velho, caíu.
+
+Caiu o anjo, e ficou simplesmente o homem, homem como quasi todos os
+outros, e com mais algumas vantagens que o commum dos homens.
+
+Dinheiro a rôdo!
+
+Uma prima que o presa muito!
+
+Dois meninos que se lhe cavalgam no costado!
+
+Saude de ferro!
+
+E barão!
+
+Conjectura muita gente que elle é desgraçado, apezar da prima, do
+baronato, dos meninos, do dinheiro e da saude.
+
+Eu, como já disse, não sei realmente se lá no recesso dos arcanos
+domesticos ha borrascas.
+
+Na qualidade de anjo, Calisto, sem duvida, seria mais feliz; mas, na
+qualidade de homem a que o reduziram as paixões, lá se vae concertando
+menos mal com a sua vida.
+
+Eu, como romancista, lamento que elle não viva muitissimo apoquentado,
+para poder tirar a limpo a sã moralidade d'este conto.
+
+Fica sendo, portanto, esta coisa uma novella que não ha de levar ao céo
+numero d'almas mais vantajoso que o do anno passado.
+
+
+FIM
+
+
+
+
+*INDICE*
+
+
+Dedicatoria
+I--O heroe do conto
+II--Dois candidatos
+III--O demonio parlamentar descobre o anjo
+IV--Asneiras da erudição
+V--Estreia parlamentar de Calisto
+VI--Virtuosas parvoiçadas
+VII--Figura, vestido, e outras coisas do homem
+VIII--Faz rir o parlamento
+IX--O doutor do Porto
+X--O coração do homem
+XI--Santas ousadias!
+XII--O anjo custodio
+XIII--Regeneração
+XIV--Tentação! Amor! Poesia!
+XV--Ecce iterum Crispinus
+XVI--Quantum mutatus!
+XVII--In Liborium
+XVIII--Vae cair o anjo!
+XIX--Ó mulheres!
+XX--Proh dolor!
+XXI--O mordomo das tres virtudes cardeaes
+XXII--Outro abysmo
+XXIII--Tenta o seu anjo da guarda salval-o mediante uma carta da esposa
+XXIV--A mulher fatal
+XXV--Perdido!
+XXVI--E ella amava-o!
+XXVII--A saudade e a sciencia em dialogo
+XXVIII--Ingratidão de um deputado
+XXIX--O demonio em Caçarelhos
+XXX--Como ella o amava!
+XXXI--Vence o demonio! choram os anjos!
+XXXII--A virtude de Theodora em paroxismos
+XXXIII--Escandalos
+XXXIV--Perdida!
+XXXV--A felicidade infernal do crime
+XXXVI--Saldo de contas conjugal
+Conclusão
+
+
+
+
+*NOTAS*
+
+
+[1] _Bebes bem_ e _vives mal_. Fr. Luiz de Sousa confirma este caso,
+algures, na _Vida do arcebispo de Braga_.
+
+[2] _Nós e nosso rei somos livres, etc_.
+
+[3] L. II, Epist. II, v. 51.
+
+[4] O bom vinho alegra o coração do homem.
+
+[5] Marinho escreveu no periodo da usurpação dos Filippes.
+
+[6] Duarte Nunes de Leão ainda via os cavalleiros de bronze cujos
+cavallos deram o nome ao chafariz. Historiando o reinado de D. Fernando,
+e a invasão de castelhanos em Lisboa, escreve a pag. 205 e seguintes, da
+primeira parte da chronica dos reis:
+
+«...E ardeu toda a rua nova, e a freguezia da Madanella e de S. Gião e
+toda a judaria com a melhor parte da cidade. E para memoria daquelle
+grande incendio, tomarão h[~u]as fermosas portas da alfandega da cidade
+para levarem a Castella quando se fossem. E assi quiserão levar h[~u]s
+cavalleiros de bronze, mui bem feitos, [~q] stavã no chafariz, a que
+ficou o nome dos cavallos por cuja bocca sahia aquella grossa agua. Mas
+os cidadãos prevenirão nisso, e os guardarão [~q] lh'os não tomassem,
+por ser cousa publica, e [~q] sendo levado o terião por affronta. Estes
+cavallos que... por aquella differença [~q] os antigos tiverão sobre
+elles os houveram de conservar os governadores da cidade, nestes dias
+proximos, como poucos curiosos de antiguidades, mandaram sem proposito
+tirar, donde tantos tempos estiveram.»
+
+[7] Prudencia em tudo.
+
+[8] Sede prudentes como as serpentes, e simplices como as pombas. _S.
+Matt._ c. x. v. 16.
+
+[9] Coroemo-nos de rosas em quanto ellas não fenecem.
+
+[10] Gloria aos vencidos.
+
+[11] O orador forrageou os elegantes dizeres, que vão sublinhados, na
+feracissima seara de um livro do sr. dr. A. Ayres do Gouveia Osorio,
+intitulado: «_A reforma das prisões_.»
+
+[12] Esta chave de oiro do peregrino discurso foi tambem roubada dos
+thesouros do sr. dr. Ayres de Gouveia, ministro da justiça. Pag. 150,
+2.^o vol. da _Reforma das prisões_.
+
+[13] Não sejas por demasia justo.
+
+[14] Palavras e phrases sublinhadas são plagiatos. O dr. Liborio tinha
+vasta leitura da _Reforma das Cadeias_ do insigne escriptor, A. Ayres de
+Gouveia, ministro da justiça, ao fazer d'esta nota (20 de março de 1865,
+meia-noite).
+
+[15] Já se disse que os primores sublinhados são despejadamente
+forrageados no livro do sr. dr. Ayres de Gouveia.
+
+[16] _A Reforma das Cadeias_, part. I, pag. 26.
+
+[17] _Ibid._, pag. 17.
+
+[18] Antonio Ribeiro dos Santos, 1.^o vol., p. 186.--_A. Alexis_
+
+[19] É egual o sentir do padre Manuel Bernardes. Diz assim: «Adverte que
+as varias disposições e accidentes que tocam ao nosso corpo, pegam o seu
+modo tambem ao espirito... Diversa feição e actualidade tem o espirito
+de quem vae montado em um formoso cavallo, e o do que vae em um
+despresivel jumento. Se o teu vestido fôr pobre e roto, repara que o
+espirito recebe d'aqui alguma disposição differente da que tem quando o
+vestido é novo e asseado: e assim nas mais cousas. (Luz e Calor. _Silva
+de varios dictames espirituaes_.)
+
+[20] Se fores a Roma, vive á moda de Roma.
+
+[21] Creio que os grandes effeitos d'esta narrativa foram detidamente
+estudados e calculados pelo caminho.
+
+
+
+
+
+
+End of Project Gutenberg's A Queda d'um Anjo, by Camilo Castelo Branco
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A QUEDA D'UM ANJO ***
+
+***** This file should be named 17927-8.txt or 17927-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ http://www.gutenberg.org/1/7/9/2/17927/
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal))
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
+Creating the works from public domain print editions means that no
+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
+permission and without paying copyright royalties. Special rules,
+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
+practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is
+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
+PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK
+
+To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free
+distribution of electronic works, by using or distributing this work
+(or any other work associated in any way with the phrase "Project
+Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project
+Gutenberg-tm License (available with this file or online at
+http://gutenberg.org/license).
+
+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
+
+1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm
+electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to
+and accept all the terms of this license and intellectual property
+(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all
+the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy
+all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession.
+If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project
+Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the
+terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or
+entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8.
+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
+Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by
+freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of
+this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with
+the work. You can easily comply with the terms of this agreement by
+keeping this work in the same format with its attached full Project
+Gutenberg-tm License when you share it without charge with others.
+
+1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern
+what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in
+a constant state of change. If you are outside the United States, check
+the laws of your country in addition to the terms of this agreement
+before downloading, copying, displaying, performing, distributing or
+creating derivative works based on this work or any other Project
+Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning
+the copyright status of any work in any country outside the United
+States.
+
+1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg:
+
+1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate
+access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently
+whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the
+phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project
+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
+copied or distributed:
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived
+from the public domain (does not contain a notice indicating that it is
+posted with permission of the copyright holder), the work can be copied
+and distributed to anyone in the United States without paying any fees
+or charges. If you are redistributing or providing access to a work
+with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the
+work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1
+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
+prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with
+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
+1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary,
+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
+word processing or hypertext form. However, if you provide access to or
+distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than
+"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version
+posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org),
+you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a
+copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon
+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
+performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works
+unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9.
+
+1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing
+access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided
+that
+
+- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from
+ the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method
+ you already use to calculate your applicable taxes. The fee is
+ owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he
+ has agreed to donate royalties under this paragraph to the
+ Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments
+ must be paid within 60 days following each date on which you
+ prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax
+ returns. Royalty payments should be clearly marked as such and
+ sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the
+ address specified in Section 4, "Information about donations to
+ the Project Gutenberg Literary Archive Foundation."
+
+- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies
+ you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he
+ does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm
+ License. You must require such a user to return or
+ destroy all copies of the works possessed in a physical medium
+ and discontinue all use of and all access to other copies of
+ Project Gutenberg-tm works.
+
+- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any
+ money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the
+ electronic work is discovered and reported to you within 90 days
+ of receipt of the work.
+
+- You comply with all other terms of this agreement for free
+ distribution of Project Gutenberg-tm works.
+
+1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm
+electronic work or group of works on different terms than are set
+forth in this agreement, you must obtain permission in writing from
+both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael
+Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the
+Foundation as set forth in Section 3 below.
+
+1.F.
+
+1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable
+effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread
+public domain works in creating the Project Gutenberg-tm
+collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic
+works, and the medium on which they may be stored, may contain
+"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or
+corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual
+property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a
+computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by
+your equipment.
+
+1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right
+of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project
+Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project
+Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all
+liability to you for damages, costs and expenses, including legal
+fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT
+LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE
+PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE
+TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE
+LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR
+INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH
+DAMAGE.
+
+1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a
+defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can
+receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a
+written explanation to the person you received the work from. If you
+received the work on a physical medium, you must return the medium with
+your written explanation. The person or entity that provided you with
+the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a
+refund. If you received the work electronically, the person or entity
+providing it to you may choose to give you a second opportunity to
+receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy
+is also defective, you may demand a refund in writing without further
+opportunities to fix the problem.
+
+1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth
+in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO OTHER
+WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO
+WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE.
+
+1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied
+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
+law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be
+interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by
+the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any
+provision of this agreement shall not void the remaining provisions.
+
+1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the
+trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone
+providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance
+with this agreement, and any volunteers associated with the production,
+promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works,
+harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees,
+that arise directly or indirectly from any of the following which you do
+or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm
+work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any
+Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause.
+
+
+Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm
+
+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
+electronic works in formats readable by the widest variety of computers
+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+*** END: FULL LICENSE ***
+
diff --git a/17927-8.zip b/17927-8.zip
new file mode 100644
index 0000000..36e7a20
--- /dev/null
+++ b/17927-8.zip
Binary files differ
diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt
new file mode 100644
index 0000000..6312041
--- /dev/null
+++ b/LICENSE.txt
@@ -0,0 +1,11 @@
+This eBook, including all associated images, markup, improvements,
+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
+in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES.
+
+Procedures for determining public domain status are described in
+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
+
+No investigation has been made concerning possible copyrights in
+jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize
+this eBook outside of the United States should confirm copyright
+status under the laws that apply to them.
diff --git a/README.md b/README.md
new file mode 100644
index 0000000..9175176
--- /dev/null
+++ b/README.md
@@ -0,0 +1,2 @@
+Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for
+eBook #17927 (https://www.gutenberg.org/ebooks/17927)