diff options
| author | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 04:51:34 -0700 |
|---|---|---|
| committer | Roger Frank <rfrank@pglaf.org> | 2025-10-15 04:51:34 -0700 |
| commit | 580745a7198ab3107e79a80e4614074553412779 (patch) | |
| tree | 3a47c27e4a14a9202aa682a3d14fbd365214b999 | |
| -rw-r--r-- | .gitattributes | 3 | ||||
| -rw-r--r-- | 17639-8.txt | 3051 | ||||
| -rw-r--r-- | 17639-8.zip | bin | 0 -> 42150 bytes | |||
| -rw-r--r-- | LICENSE.txt | 11 | ||||
| -rw-r--r-- | README.md | 2 |
5 files changed, 3067 insertions, 0 deletions
diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/17639-8.txt b/17639-8.txt new file mode 100644 index 0000000..8ce5f8b --- /dev/null +++ b/17639-8.txt @@ -0,0 +1,3051 @@ +The Project Gutenberg EBook of A Alma Nova, by Guilherme d'Azevedo + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: A Alma Nova + +Author: Guilherme d'Azevedo + +Release Date: January 30, 2006 [EBook #17639] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A ALMA NOVA *** + + + + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + + + + + + + + +GUILHERME D'AZEVEDO + +A ALMA NOVA + + +LISBOA + +TYPOGRAPHIA SOUSA & FILHO + +Rua do Norte, 145 + +1874 + + + + +A ANTHERO DE QUENTAL + + + + +A ANTHERO DE QUENTAL + +_Meu amigo. + + +Este livro parece-me um pouco do nosso tempo. Sorrindo ou combatendo, +fala da Humanidade e da Justiça, inspirando-se no mundo que nos rodeia. + +E porque julgo que elle segue na direcção nova dos espiritos, offereço-o +a um obreiro honesto do pensamento: a uma alma lucida, moderna e +generosa_. + +Dezembro de 1873. + +Guilherme d'Azevedo. + + + + +I + + +Eu poucas vezes canto os casos melancolicos, +Os lethargos gentis, os extasis bucolicos +E as desditas crueis do proprio coração; +Mas não celebro o vicio e odeio o desalinho +Da muza sem pudor que mostra no caminho +A liga á multidão. + +A sagrada poesia, a peregrina eterna, +Ouvi dizer que soffre uma affecção moderna, +Uns fastios sem nome, uns tedios ideaes; +Que ensaia, presumida, o gesto romanesco +E, vaidosa de si, no collo eburneo e fresco, +Põe crémes triviaes! + +Oh, pensam mal de ti, da tua castidade! +Deslumbra-os o fulgor dos astros da cidade, +Os falsos ouropeis das cortezãs gentis, +E julgam já tocar-te as roçagantes vestes +Ó deusa virginal das coleras celestes, +Das graças juvenis! + +Retine a cançoneta alegre das bachantes, +Saudadas nos wagons, nos caes, nos restaurantes, +Visões d'olhar travesso e provocantes pés, +E julgam já escutar a voz do paraiso, +Amando o que ha de falso e torpe no sorriso +Das musas dos cafés! + +Oh, tu não és, de certo, a virgem quebradiça +Estiolada e gentil, que vem depois da missa +Mostrar pela cidade o seu fino desdem, +Nem a fada que sente um vaporoso tedio +Emquanto vae sonhando um noivo rico e nédio +Que a possa pagar bem! + +Nem posso mesmo crêr, archanjo, que tu sejas +A menina gentil que ás portas das egrejas +Emquanto a multidão galante adora a cruz, +A bem do pobre enfermo á turba pede esmola +Nas pompas ideaes da moda, que a consola +Das magoas do Jesus! + +E nas horas de luta emquanto os povos choram +E a guerra tudo mata e os reis tudo devoram, +Não posso dizer bem se acaso tu serás +A senhora que espalha os languidos fastios +Nos pomposos salões, sorrindo a fazer fios +Á viva luz do gaz! + +Tu és a apparição gentil, meia selvagem, +D'olhar profundo e bom, de candida roupagem, +De fronte immaculada e seios virginaes, +Que desenha no espaço o limpido contorno +E cinge na cabeça o virginal adorno +De folhas naturaes. + +Tens a linha ideal das candidas figuras; +As curvas divinaes; as tintas sãs e puras +Da austera virgindade; as bellas correcções; +E segues magestosa em teu longo caminho +Deixando fluctuar a tunica de linho +Ás frescas virações! + +Quando trava batalha a tua irmã Justiça +Acodes ao combate e apontas sobre a liça +Uma espada de luz ao Mal dominador: +E pensas na belleza harmonica das cousas +Sentindo que se move um mundo sob as louzas +No germen d'uma flôr! + +N'um sorriso cruel, pungente d'ironia, +Tambem sabes vibrar, serena, altiva e fria, +O latego febril das grandes punições; +E vendo-te sorrir, a geração doente, +Sentir cuida, talvez, a nota decadente, +Das morbidas canções! + +Oh, vôa sem cessar traçando nos teus hombros +O manto constellado, ó deusa dos assombros, +Até chegar um dia ás regiões de luz, +Aonde, na poeira aurifera dos astros, +Contricto, Satanaz enxugará de rastos, +As chagas de Jesus! + +Logar á minha fada ó languidas senhoras! +E vós que amaes do circo as noites tentadoras, +Os fluctuantes véos, os gestos divinaes, +Podeis vel-a passar n'um turbilhão fantastico, +Voando no corcel febril, nervoso, elastico, +Dos novos ideaes! + + + + +II + + +Eu vi passar, além, vogando sobre os mares +O cadaver d'Ophelia: a espuma da voragem +E as algas naturaes, serviam de roupagem +Á triste apparição das noites seculares! + +Seguia tristemente ás regiões polares +Nos limos das marés; e a rija cartilagem +Sustinha-lhe tremendo aos halitos da aragem, +No peito carcomido, uns grandes nenuphares! + +Oh! lembro-me que tu, minha alma, em certos dias +Sorriste já, tambem, nas vagas harmonias +Das cousas ideaes! mas hoje á luz mortiça + +Dos astros, caminhando; apenas as ruinas +Das tuas creações fantasticas, divinas, +De pasto vão servindo aos lyrios da justiça! + + + + +III + +VELHA FARÇA + + +Rufa ao longe um tambor. Dir-se-ia ser o arranco +D'um mundo que desaba; ahi vae tudo em tropel! +Vão ver passar na rua um velho saltimbanco +E uma féra que dansa atada a um cordel. + +Ó funambulos vis, comediantes rotos, +O vosso riso alvar agrada á multidão! +E quando vós passaes o archanjo dos esgotos +Atira-vos a flôr que mais encontra á mão! + +Lá vae tudo a correr: são as grotescas dansas +D'uns velhos animaes que já foram crueis +E agora vão soffrendo os risos das creanças +E os apupos da turba a troco de dez réis. + +Conta um velho histrião, descabellado e pallido, +Da féra sanguinaria o instincto vil e mau, +E vae chicoteando um urso meio invalido +Que lambe as mãos ao povo e faz jogo de páu. + +Depois inclina a face e obriga a que lh'a beije +A fera legendaria olhada com pavor: +E uma deosa gentil, vestida de bareje, +Annuncia o prodigio a rufo de tambor! + +E as mães erguem ao collo uns filhos enfezados +Que nunca tinham visto a luz dos ouropeis: +E accresce á multidão a turba dos soldados, +--Ao ilota da cidade o escravo dos quarteis. + +E o funambulo grita; impõe qual evangelho +Á turba extasiada a grande narração. +E sobre um cão enfermo um ourangotango velho +Passeia nobremente os gestos de truão. + +Correi de toda a parte, aligeirae o passo, +Deixae a grande lida e vinde á rua vêr +As prendas d'uma fera, as galas d'um palhaço, +E um archanjo que sua e pede de beber! + +A tua imagem tens ó povo legendario +No comico festim que mal podes pagar, +Pois tu ainda és no mundo o velho dromedario +Que a vara do histrião nas praças faz dansar. + + + + +IV + +GRAÇA POSTHUMA + + +Depois da tua morte eu heide ver se arranco, +N'uma noite serena, ao teu berço final, +Um producto mimoso;--um grande lyrio branco +Da alvura do teu collo eburneo e divinal! + +Aquella flôr suave, ó minha visão estherica, +Debruçada gentil, na taça em que a puzer, +Fazer-me-ha lembrar a graça cadaverica +Do teu corpo franzino e ethereo de mulher! + +E mesmo conterá, de certo, alguma cousa +Do que me traz submisso e prezo ao teu olhar: +--Teu corpo a pouco e pouco irá fugindo á louza +Depois tornado em lyrio á terra hade voltar!-- + +E em longas noites, n'elle, eu beberei sosinho, +Sonhando as convulsões d'uns lindos braços nús, +A fragrancia que exhala a candidez do linho +Em que hoje ondeias leve e onde os meus labios puz, + +--Saudando a boa mãe que faz com que eu te gose +Depois do verme vil teu seio polluir, +Mais pura no frescor de tal metamorphose +Do que eras a scismar, do que eras a sorrir! + +Ó minha doce Ophelia! Os rapidos momentos +Da vida, são crueis mas passam como um som! +Um dia quando em fim dos velhos sedimentos +Teu corpo renascer n'um lyrio immenso e bom, + +Talvez que eu durma já tambem sob os matizes +Das flôres, ao sorrir das mil germinações, +Dando um pasto fecundo ás tuas sãas raizes +Depois de te sagrar as ultimas canções! + + + + +V + +HISTORIA SIMPLES + + +Havia um rapaz são, robusto, bom, valente, +De espadua larga e rija; um ceifador gentil. +Cavava todo o dia, andou sempre contente +E a feria dava á mãe sem falta d'um ceitil. + +Elle amava a campina e os ceus largos, serenos. +Aos domingos a mãe deixava-lhe uns dez reis. +Deitava-se ao luar, dormindo sobre os fênos, +Na fragrancia do trêvo, ao pé dos cães fieis. + +A mãe tinha de seu duas vaquitas mansas: +N'um cerro agreste e vil alguns palmos de chão. +E tinha ainda mais não sei quantas creanças +Que andavam nuas sempre e sempre a pedir pão. + +O pae mal se sustinha ás vezes sobre as pernas: +Era bebado e mau, batia na mulher; +E á noite, ao scintillar dos vinhos nas tavernas, +Cantava canções vis de a gente ensurdecer. + +Um dia uma senhora honesta da cidade, +Esplendida, gentil, sabendo-se sorrir, +Reparou no rapaz; achou-lhe propria a idade +E fez-lhe um certo gesto:--o moço não quiz ir. + +Teve um assomo de raiva, então, sua excellencia. +Ordenou-lhe que fosse: o moço disse,--irei! +Despediu-se dos seus: devia obediencia +Á senhora gentil que se chamava... a Lei! + +Pegou no velho alforge e no bordão nodozo +E metteu-se a caminho. Os pobres dos irmãos +Choravam á partida:--um quadro doloroso! +A mãe louca de dôr torcia as magras mãos! + +Chegando no outro dia ao ponto onde o chamaram +Primeiro foi medido e todos a final, +Depois de bem revisto, á uma, concordaram +Que ao serviço do rei convinha este animal! + +Aquell'outra senhora, astuta, grave, terna, +--A ordem--jubilava em doces pulsações! +Contava mais um servo, um filho, na cazerna, +Gastando pouco mais:--uns cobres e uns feijões!... + +Agora quando passa o batalhão luzente +Na rua, podeis ver o pobre cavador +Com modos imbecis, marchar pesadamente +--Heroe por conta alheia--ao rufo do tambor! + +Não sabe onde caminha entre as guerreiras hostes! +Perguntem-lhe o que é patria e liberdade e lei! +Caminha simplesmente ás ordens dos prebostes +Que trazem no chicote a salvação do rei. + +E na pobre cabana ainda se conserva +O mesmo quadro triste:--a lacrimosa mãe; +Alguns pequenos nús rolando sobre a herva, +E um ebrio que pragueja e não pensa em ninguem!-- + +Mulher não chores mais: a quadra é pura e bella: +Emquanto na campina alouram os trigaes, +Teu filho guarda o mundo e a Deus faz sentinella: +Receiam que Deus faça andar o mundo mais. + +Em breve elle virá de jubilo e d'assombro +Encher tua alma, em fim, quando ámanhã voltar +Com seu velho canudo, a trouxa posta ao hombro, +Trazendo novamente a luz ao pobre lar. + +E tu perguntarás: o que é meu filho, é ouro!! +A quantas guerras foste? ó ceus, como tu vens! +--Mãe tome essa lata! esconda o meu thesouro +E deixe-me ir dormir no fêno ao pé dos cães! + + + + +VI + + +Á meza do festim, cercada de formosas, +O canto dos cristaes e o scintillar dos vinhos +Saudavam juntamente os bellos desalinhos +Das galantes vizões das ceias luminozas! + +Molhavam-se em champagne as pétalas das rozas! +E em baixo, a nossos pés, em leves murmurinhos +A gaze sobreposta á candidez dos linhos +Erguia-se n'um mar de vagas caprichosas! + +Ali tudo era paz! Nem odios vis nem zelos! +Os labios pois limpando ás rendas e aos cabellos +Da menos trivial das fadas tentadoras, + +Eu brindo aos mortos!--disse: á legião sagrada +Que foi á solidão, á eternidade, ao nada! +--Ás almas e ao pudor d'estas gentis senhoras. + + + + +VII + +OS SONHOS MORTOS + + +Embora triste a noite, a vagabunda lua +Mais branca do que nunca erguia-se nos ceus, +Igual a uma donzella ingenua e toda nua +No leito ajoelhada erguendo a fronte a Deus! + +O mar tinha talvez scintillações funestas. +A praia estava fria, as vagas davam ais; +Semelhavam, ao longe, as extensas florestas +Fantasmas ao galope em monstros colossaes. + +E eu vi n'um campo immenso, agreste e desolado, +Immerso no fulgor diaphano da luz, +Juncando tristemente o solo ensanguentado +Sinistra multidão de corpos semi-nus! + +Tinha a morte cruel, em sua orgia louca, +Deposto em cada fronte um osculo brutal; +E um ironico rizo ainda em muita boca +Se abria, como a flôr fantastica do mal! + +E eu vi corpos gentis de virgens delicadas +Beijando a fria terra, as mãos hirtas no ar, +Em sagrada nudez!... Cabeças decepadas!... +Em muito peito ainda o sangue a borbulhar!... + +E sobre a corrupção das brancas epidermes +Luzentes de luar e d'esplendor dos ceus, +Orgulhosos passando os triumphantes vermes, +Da santa formosura os ultimos Romeus! + +Se tu minha alma livre ainda hoje conservas +Memoria das vizões que amaste com fervor +Ahi as tens agora alimentando as ervas +De novo dando á terra o que ella deu á flôr! + +São ellas! as vizões dos meus dias felizes, +Meus sonhos virginaes, as minhas illusões, +Que a seiva dão agora aos vermes e ás raizes, +Que em pasto dão seu corpo a novos corações! + +São as sombras que amei, divinas, castas, bellas; +As chymeras gentis, os vagos ideaes, +Que de rozas cingi, que illuminei d'estrellas, +E que não podem já da terra erguer-se mais! + + + + +VIII + +FALA A ORDEM + + +Pequeno, d'onde vens cantando a Marselhesa; +Da barricada infame, ou d'outra vil torpeza? + +Que esplendido porvir! Do nada apenas sahes +Começas a morder as purpuras reaes +Ó filho trivial da livida canalha!... +E, vamos, deixa ver, guardaste uma navalha,?! +Não tremas que eu bem vi! que trazes tu na mão? +Intentas já limar as grades da prizão, + +Fazendo scintillar um ferro contra o solio +Archanjo que adejaes nos fumos do petroleo?!... +Mas, vamos abre a mão: não queiras que eu te dê. + +Bandido eu bem dizia!--a carta do A B C!... + + + + +IX + + +Ó lirios da cidade, ó corações doentes +Das vagas affecções modernas e galantes; +Eu sei que vós morreis aos sons agonisantes +Das orchestras febris,--nos sonhos dissolventes! + +Sois os fructos gentis que balançaes pendentes +Nas arvores da vida; e os pobres viajantes +Famintos d'ideal, sorriem triumphantes +Julgando-vos colher nas seivas innocentes! + +E tragam com fervor o pomo apetecido +Que deve ter um mel oculto no tecido, +--Um raio bom do sol que nos sorri tão alto; + +Mas vós que sois da moda um luminozo aborto, +Como os fructos crueis das margens do mar morto +Apenas conteis dentro uma porção d'asphalto! + + + + +X + +MISERIA SANTA + + +Entrando esta manhã n'um templo da cidade +Aberto á multidão mas triste e quasi só, +O ver ao desamparo a velha magestade +N'um throno a desabar, meteu-me certo dó. + +Restavam tão somente alguns dourados velhos +Do passado esplendor, e foi-me facil ver +Que uma nuvem de pó cobria os evangelhos +Como cousa esquecida e impropria de se ler! + +A virgem, sobretudo; a mãe predestinada +Que o Golgotha lavou nas lagrimas de fel +Que sempre hade chorar toda a mulher amada, +Ou seja a mãe de Christo, ou seja a de Rossel; + +Achei-a desolada e triste lá n'um canto, +Sem pompas e sem luz, coberta d'ouropeis +Tão velhos como o roto e desbotado manto +Que ha muito, já, deveu á crença dos fieis! + +Dizer-me póde alguem d'affectos bons e puros +Que eu posso ainda encontrar as bellas cathedraes +Aonde o simples Christo e os martyres obscuros +Campeiam no fulgor de pompas theatraes. + +Bem sei; mas como disse, o acaso ou o quer que fosse +Levou-me a um templo pobre e foi n'elle que vi +Que ha mendigos do céo, d'olhar sereno e doce, +Proletarios do altar a quem ninguem sorri! + +E ao ver esta humildade,--eu tenho d'isto ás vezes,-- +Pensei, não sei porque, nas morbidas vizões +Que não passam de ser as filhas dos burguezes +Mas de rendas de França enfeitam seus roupões! + + + + +XI + +ASTRO DA RUA + + +Fazia hontem já tarde um nevoeiro espesso. +--Que insonia em mim produz este humido vapor!-- +Eu vinha enfastiado, ou turvo, emfim confesso, +Dos fumos do café, da luz e do rumor. + +Um fantastico véo cobria as longas praças; +E o gaz ria atravez da grande cerração +Que em lagrimas descia ao longo das vidraças +E em flocos d'alva neve humedecia o chão. + +Eu mesmo achava em tudo um tom maravilhoso. +Dispuz-me a crer no ceu a amar este ideal: +Do subito eis que passa um astro radioso +Luzindo-me atravez do magico cendal! + +Que vaga exhalaçao ó cousas vis que adoro! +Que bello olhar de Deus, deixae-me assim dizer! +Pelo sulco de luz julguei um meteóro, +Pelo aroma subtil sonhei uma mulher! + +Passou porém, fugiu: no fim eis em resumo +A sua breve historia! o sonho é sempre assim! +Ha cousas que ao passar ainda deixam fumo: +Aquella só deixava um vacuo dentro em mim. + +Archanjos caminhae, que eu espero o grande dia +Da nossa atroz vingança, ó despotas do ceu! +Nossa alma anda algemada á vossa tirannia +Mas hade erguer-se a escrava...--Assim dizia eu + +E a mesma aparição de novo a deslumbrar-me! +De novo a mesma aurora o espaço a illuminar! +Agora pude vêl-a e posso recordar-me +Dos abysmos de luz que havia em seu olhar. + +O astro vinha envolto em nuvens d'escumilha: +De resto era uma fada, eu mais não sei dizer. +Deixava atraz de si um aroma de baunilha +D'um louco se abysmar d'um pobre enlouquecer! + +Quem quer que sejas tu, que sejam sempre bellos +Teus ceus sem vendaval, teus dias sem revez! +Feliz de quem poder beijar os teus cabellos +E aos labios aquentar os teus pequenos pés! + +--Dizendo caminheí. Porém novo prodigio! +Ainda a perseguir-me a mesma aparição +E eu ainda sentia o lucido vestigio +Que ha pouco em mim deixára a outra exhalação! + +Mas agora reparo, attento em sua chama! +Que olhar tão insolente, o ceu não luz assim! +Na gaze que ella arrasta ha um debrum de lama, +Na face macerada uns traços de carmim! + +Oh! astro! emfim conheço a orbita que traça +O teu curso veloz! bem sei onde tu vaes! +Prosegue no teu giro em volta d'essa praça +E Deus te dê mais luz e menos lamaçaes. + + + + +XII + + +Quando Martha morrer, depois do extremo arranco, +Não tratem d'orações; +Desprendam-lhe o cabello o vistam-a de branco +Á moda das visões. + +Desejo vel-a então passar d'esta maneira +Depois de tal revêz, +Por entre a chama azul e tenue da poncheira +No fumo dos cafés. + +Áquelle bom paiz das pallidas chymeras, +Monotonia azul; +Não temam que ella vá no fogo das espheras +Queimar o véu de tulle. + +Assusta-a muito o frio, a chuva, o sol dos tropicos +A nuvem triste e vã, +E pódem-lhe prender os pés tão microscopicos +As nevoas da manhãa! + +De noite ella virá com seus trajes singellos, +Archanjo d'outros ceus, +Nos suspiros febris dos meigos violoncellos +Dizer-nos mal de Deus. + +Contar-nos por que foge á doce transparencia +Que o ceu formoso tem, +Meiga filha gentil da mesma decadencia +Que é nossa boa mãe. + +Se as lagrimas de luz que chora o firmamento +Em noites de luar, +Ao seu pescoço nú podessem, n'um momento, +Cingir-se n'um collar; + +De certo ella daria ao pallido comêta +E á estrella trivial, +A mesma adoração que dava á cançoneta +Que amou até final! + +E á saida do circo, ao astro romanesco, +Á noite iria, então, +Contar, ainda a sorrir, o ardor funambulesco +Do livido truão! + +Assim, não quer ouvir aos córos invisiveis +Um hymno d'enfadar, +Cantado por milhões d'archanjos insensiveis +Sem um que a possa amar! + +E não lhe esquecem nunca os rapidos instantes +Do que ella amava mais: +--A vida illuminada á luz dos restaurantes +N'um sonho de cristaes! + + + + +XIII + +AS VICTIMAS + + +Eu vejo muita vez e raro já me assombro +--Minha alma tanto afiz ás tristes commoções!-- +Na rua, junto a mim, passar hombro com hombro +No transito penozo as longas procissões, + +De victimas da sorte e victimas do mundo! +Umas boas, gentis, outras feias, crueis, +Envoltas n'um sudario ou n'um burel immundo; +Nas pompas theatraes, nas galas dos bordeis, + +Não são filhas do sonho ou creaçoes chymericas +Da mente allucinada, ou vagos ideaes; +São magros peitos nús, são faces cadavericas, +São as tristes, as vís desolações carnaes. + +São pequenos sem pão que vão pedindo esmola +Nas lamas encharcando os regelados pés: +Que dormem nos portaes, que nunca vão á escóla +--Flôres que enfeitarão a noite das galés! + +São aquellas gentis e pobres costureiras +De peito comprimido; anemica expressão; +Que passam a tossir, cansadas, com olheiras, +Ganhando em todo o dia apenas um tostão, + +Curvadas a cozer o languido velludo, +O irritante setim dos grandes enxovaes, +Das princezas do Banco, herdeiras d'isto tudo; +Depois indo morrer nos tristes hospitaes! + +São os pobres heroes que os seus irmãos combatem; +Que morrem sob o pezo enorme dos canhões, +E o cortejo de mães pedindo aos reis que as matem +E os reis fazendo rir das suas maldições! + +São da lugubre noite umas flôres sem nome +Batidas muito já dos grandes vendavaes, +Que, por que sentem frio ou por que sentem fome, +Derramam pelo seio aromas triviaes + +E fingem depois ser apparições divinas, +Erguendo um pouco a saia, a fimbria sensual, +Abrindo um vil leilão de beijos, nas esquinas, +Aos apetites vís da multidão brutal! + +São mineiros sem luz; são velhos britadores, +Que o contacto da pedra um dia endureceu, +Queimados pelo sol, gelados nos horrores +Do tumulo cruel que em vida os recebeu! + +São aquelles heroes, em fim, dos grandes sonhos, +Que sentiram na terra as vastas corrupções +E ás turbas apontando uns mundos mais risonhos +Tentaram espedaçar os ultimos grilhões + +E que passam tambem um tanto contristados, +Talvez cheios de tedio, ao verem que hoje, nós, +Os deixamos seguir ainda apedrejados +Não raro desprezando a sua augusta voz! + +E a grande multidão de martyres sublimes, +De tristes semi-nús, constante a caminhar, +Aos ceus erguendo as mãos, queixando-se dos crimes +Dos despotas que aos pés não cessam de os calcar! + +A fila tenebroza, a procissão de victimas, +Augmenta mais e mais; não deixa de crescer! +E do estygma cruel das penas mais legitimas +Em muita fronte bella um traço podeis ver! + +Caminhe muito embora: a sorte é sempre varia +E a turba soffredora, ó grandes bem sabeis, +Podia dividir a tunica cezarea +Lançando aos que estão nús a purpura dos reis! + + + + +XIV + +EVOCAÇÃO + + +Levanta-te Romeu do tumulo em que dormes +E vem sorrir de novo á boa, á eterna luz! +De noite, ouço dizer que ha sombras desconformes +E as noites do passado, oh, devem ser enormes +Na atonia fatal das larvas e da cruz! + +Conchega gentilmente ao peito carcomido +Os restos do teu manto:--assim, que bem que estás! + +Na terra hão de julgar-te um grande Aborrecido +Que busca desdenhoso o centro do ruido +Nas horas vis do tedio e das insonias más. + +O mundo transformou-se; aquelle fundo abysmo +Do antigo amor fatal, fechou-se d'uma vez, +E tu filho gentil do velho romantismo, +Tu vens achar dormindo o rude prozaismo +No berço onde sonhava a doce candidez! + +No entanto pódes crer; faz muito menos frio +Á luz do novo sol; do gaz provocador; +E o seculo apezar de gasto e doentio, +Não pode já escutar o cantico sombrio +Que fala de edeaes e cousas sem valor! + +Em paz deixa dormir a terna Julieta +Que aos ceos ainda por ti levanta as brancas mãos; +E em quanto por mim corre a tetrica ampulheta, +Da muza alegre e vil da torpe cançoneta +Saudemos a nudez a par dos bons pagãos! + +Nas praças, tu bem vês; a turba prazenteira +Innunda-se na luz de mil constellacões! +E os archanjos da rua assomam na poeira +Que exhala o macadam, trazendo em cada olheira +O astro creador das grandes sensações! + +E quando a cotovia á estrella matutina +Mandar a saudação, lá fora, em pleno céo, +Romeu tu beijarás, que é tua eterna sina, +A trança da belleza anemica e franzina +Que entre os fumos da festa, a amar, adormeceu! + + + + +XV + + +Boas noites coveiro: a tua enxada +Não cessa ha tanto tempo de cavar?! +Cavalleiro da morte, ó fronte desolada +Não sentes a mão tremula e cançada +De tanto trabalhar! + +Tu esperas hoje as legiões sombrias +De mortos, que eu supponho ao longe ver? +Os felizes caídos nas orgias +E os tristes que além todos os dias +O gelo vem colher?! + +Que immensa valla aberta! são medonhos +Os risos d'essa boca infame, alvar!... +Descansa dos teus dias enfadonhos! +--Eu cavo a sepultura dos teus sonhos +Não posso descançar! + + + + +XVI + +FLOR DA MODA + + +Alice, o turbilhão das salas elegantes, +Começa a entristecer; ninguem sabe por quê! +Aquella flôr doente amava muito d'antes +As festas, o ruido, as cousas deslumbrantes, +Agora é desolada e penso que descrê. + +Que tedio se abrigou na vaga transparencia +D'um todo tão subtil, aerio, divinal. +--Moderna creação da santa decadencia, +Que alia gentilmente ás pompas da regencia +Os indecisos tons d'um ar sentimental?! + +Archanjo por quem és! desvenda esse mysterio +Das vagas oppressões da tua insomnia má, +E diz-me o teu sonhar visão do baixo imperio, +Vestal que amas o gaz e tens o fogo ethereo +Na conta d'uma cousa um tanto usada já! + +No idylio pastoril das noites venturosas +Não sonhas tu de certo, e raro o hão de sonhar +N'um mundo todo nosso, as bellas desditosas +Que em trinta annos de fogo as suas velhas rozas +Nos grandes vendavaes sentiram desbotar! + +E quando a augusta voz do mar ou das florestas +Abala o coração dos justos e dos bons, +Bem sei que tu não vaes, fugindo ás grandes festas, + +No amor das castelãs scismar entre as giestas +Com medo que te acorde a bulha dos wagons! + +Eu sei talvez teu mal! A febre que hoje sentes +Abraza a geração de lyrios ideaes +Que passam, como tu, galantes e doentes, +D'um amor desordenado ás cousas dissolventes, +Ás vozes da guitarra e aos cantos sensuaes!... + +E tem de os consumir a grande nostalgia +D'um mundo mais á moda e menos trivial, +Onde haja um grande caso, ao menos, cada dia +E se possa esquecer a vil monotonia +De tudo que nos cerca:--Alice eis o teu mal mal! + +No entanto eu sei que és boa: apenas das insomnias +A febre, mãe cruel d'estranhas sensações, +Na fria placidez do gaz e das bigonias +Construe na tua mente as grandes babylonias +D'um mundo extraordinario e monstro de visões! + +Tocou-te um mal galante: és tenue e caprichosa: +És boa e fazes gala em que te julguem má. +E sentes sobre tudo uns tedios côr de rosa +E os extasis crueis d'uma mulher nervosa: +--Se existe a mulher-flôr, tu és a flôr de chá! + +E chame-te o bom Deus ao foco aonde brilha +Aquella eterna luz, amor dos immortaes, +Que tu amortalhada em rendas e escumilha +Achar deves, talvez, da moda, ó terna filha, +O céo modesto um pouco e os anjos triviaes! + + + + +XII + + +Ó machinas febris! eu sinto a cada passo, +Nos silvos que soltaes, aquelle canto immenso, +Que a nova geração nos labios traz suspenso +Como a estancia viril d'uma epopea d'aço! + +Emquanto o velho mundo arfando de cansaço +Prostrado cae na luta; em fumo negro e denso +Levanta-se a espiral d'esse moderno incenso +Que offusca os deuses vãos, anuviando o espaço! + +Vós sois as creações fulgentes, fabulosas, +Que, vibrantes, crueis, de lavas sequiosas, +Mordeis o pedestal da velha Magestade! + +E as grandes combustões que sempre vos consomem +Começam, n'um cadinho, a refundir o homem +Fazendo resurgir mais larga a Humanidade! + + + + +XVIII + +A CHRISTO + + +Precisamos Jesus, se não te sentes velho, +Que cinjas novamente o resplendor de luz +E venhas explicar a letra do evangelho +A muitos que hoje vês prostrados ante a cruz! + +Ainda não cessou, de todo, essa contenda +Que um dia, ha muito já, tentaste debellar: +E aquelles que são bons e adoram tua lenda +Desejavam tambem ouvir-te hoje falar. + +Apenas resoasse o teu verbo indignado, +O latego febril das grandes corrupções, +Iria atraz de ti um mundo revoltado +Que sente na consciencia a luz das redempções. + +E embora não houvesse, aqui, outra alma gemea +Da tua, e tão ungida em balsamos dos céos, +Havias d'encontrar essa alma de bohemia +Que sonha uma justiça e sente em si um Deus! + +Mas não, não voltes cá: teu corpo combalido +Não póde supportar os gelos da manhã. +Precisavas de pão, d'abrigo e de vestido +E a vida aqui é cara e longo o macadam! + +Terias d'encontrar, de certo, mil estorvos +No mundo revolvido, e escuta-me Jesus: +Se não fosses, em fim, comido pelos corvos +Talvez te fuzilasse um cura Santa-Cruz! + +Serias apontado a dêdo, muitas vezes, +Como um simples bandido, um agitador feroz, +E haviam de esconder seus ouros os burguezes +Apenas resoasse, ao longe, a tua voz! + +Depois vinhas achar a par do proletario, +Ao pé do que se innunda em bagas de suor, +Aquelle velho Pedro, agora millionario, +E triste por pensar que já esteve melhor! + +E perto do ocio vil á sombra do qual medra +O egoismo feroz que extingue o coração, +Lutando todo o dia o britador de pedra +A quem á noite espera, em casa, um negro pão; + +E uns pequenos sem côr; talvez cheios de fome, +Com pouca luz no olhar; atrophiados, nús; +Abrindo os olhos muito á codea que elle come +E indo-se deitar sem roupas e sem luz! + +Assim deixa-te estar. O teu cadaver triste +Recende uma fragrancia etherea e divinal, +Emquanto o mundo segue e vae de lança em riste +Sem treguas combatendo as legiões do Mal! + +Tu foste o paladino, o trovador sagrado, +Que falaste do amor, da paz e do perdão, +E o ferro que varou teu corpo lado a lado +Comtudo inda reluz altivo em muita mão! + +Nós, hoje, quando em luta erguemos sobre a liça +O gladio vingador das oppressões crueis, +Soltamos, n'um sorriso, o nome da Justiça, +E ha quem saiba morrer sem bençãos nem laureis! + +Descansa pois Jesus! Bem basta que tu sintas, +N'esse velho sepulchro, o immenso vozear +Dos mineiros sem luz, das legiões famintas, +Que nunca, um dia só, deixaram de lutar, + +Mas que hão de em fim vencer, porque a suprema essencia +A jorros cae do céo nas mãos dos Prometheus, +E tanto vae subindo a vaga da consciencia +Que um dia ha de abismar-se em nós o proprio Deus + + + + +XIX + + +Eu tive um sonho estranho: ouvi que vou dizel-o. +Era em praia dezerta, em frente a um longo mar: +Nos céos havia a nevoa, a mãe do Pezadêlo, +E o vago, o incerto, o informe em tudo a oscillar! + +De subito surgiu, na praia, uma criança +D'olhar profundo e bom, d'angelica expressão, +E o mar contemplou com tanta confiança +Que nem que visse n'elle o berço d'um irmão! + +Mas a vaga subindo, em cada extremo arranco +Levando ia comsigo aquella flôr dos céos! +E em breve só boiava um tenue vulto branco +No mar onde fluctua o espirito de Deus! + +Mais tarde á beira-mar chegava a pura imagem +Da mais casta mulher que em vida pude ver. +Detinha-se distante:--a espuma da voragem +Só meia extenuada aos pés lhe ia morrer!-- + +O immenso mar, porém, crescia a cada instante +Mais turvo e mais veloz! depois... Não quiz vêr mais. +Ergui-me e caminhei de val em val errante +Pensando tristemente em coisas ideaes!-- + +Ao longe, muito além, na serra desviada +De subito encontrei--ó estranha apparição--! +Uma pobre velhita enferma e desolada +Trazendo já no olhar a grande cerração! + +Que idéa me assaltou não sei dizel-o agora. +Aonde iria o espectro, aquella sombra vãa? +Iria aonde vae o que hontem foi aurora +E aonde irão tambem as rosas d'ámanhãa?... + +Dos meus instantes bons, ó lucida chimera, +Bem vês que os sonhos maus são faceis d'esquecer! +Que importa a grande noite em plena primavera, +Que importa o que tu foste, o que és, e o que has de ser!! + + + + +XX + +O GRANDE TEMPLO + + +Eu não trajo o burel do magro cenobita +Nem me posso infligir crueis macerações; +Mas não rio d'alguem que busca a paz bemdita +No seio casto e bom das grandes solidões. + +Bem sei que ha na montanha aromas penetrantes +E certas vibrações que podem fazer mal; +Mas se é preciso Deus, direi que é melhor antes +Amal-o com fervor no templo universal! + +Em quanto sobre o altar das serras azuladas +Mil lampadas do céo derramam toda a luz, +Nas velhas cathedraes, já meio arruinadas, +O Tempo,--o grande verme!--até devora a cruz! + +Depois é facil vêr, por entre os arabescos +Que a arte sensual traçou com tanto amor, +Ás vezes, o sorrir dos Satyros grotescos +Pungindo cruelmente a face do Senhor. + +Ou mais; podemos nós voar todos captivos +Do sereno ideal, d'aquelle summo bem, +Ao vermos tanta vez os Faunos mais lascivos +Olhando de revez a virgem nossa mãe?! + +E ainda mil traições: as musicas, as flôres +Os lindos seraphins voando todos nús; +Da sêda que se arrasta os languidos rumores +Do incenso as espiraes; os turbilhões de luz! + +Oh! visto haver de tudo; aromas e decotes, +O vinho scintillante, a viva luz do gaz; +Que a vossa rouca voz, pomposos sacerdotes, +Não cante apenas Deus; que solte alguns _hurrahs_! + +O fumo d'essa festa, a mim, pouco me assusta. +Se eu quero alguma vez fugir do pó, voar, +Eu tenho o val profundo ou a floresta augusta, +As montanhas, os céos, e o bello, o vasto mar! + +Da casta natureza ó templo gigantesco, +Tu és mais amplo, sim; mais livre, muito mais! +O meigo e doce olhar do Christo romanesco +A multidão gentil não chama aos teus umbraes. + + + + +XXI + +A UM CERTO HOMEM + + +Agora és todo nosso: a rude voz da historia +Já póde hoje falar +E dar-te um balancete ás nodoas e á gloria +Rei-sol de _boulevard_. + +Que dias d'esplendor! Porém como começa +A noite e a podridão! +Foi Deus que te mandou tambem para a Lambessa +Da eterna punição! + +Enfarda a tua gloria e leva-a que é vergonha +Que vejam ámanhã, +Que até lhe depennou as aguias de Bolonha +O abutre de Sedan! + +E visto que em redor nenhuma estrella brilha +E a noite é longa e má, +No caminho do opprobrio acende a cigarrilha +E, cezar, ouve lá: + +Que altiva e bella a França! aquella Gallia ardente +Que de Valmy levou, +Descalça, quasi núa; a Marselheza em frente; +Nossa alma até Moscow! + +Seus filhos teem a fouce: envergam rudes clamydes +Depois, caminham sós; +E em quanto ceifam reis acordam nas Pyramides +A alma dos Pharaós! + +E vão cheios de fé, bandeira solta ao vento, +Na gleba das nações, +Convictos semeando o novo pensamento +No sulco dos canhões! + +Mas tu chegas um dia: afogas-lhe a grandeza +E quando a tens aos pés, +Celebras a victoria aos hymnos de Thereza, +A musa dos cafés! + +Banquetes dás ao crime; e os teus heroes d'esquína +Ainda a afrontam mais, +Tornando a _Marselheza_ em torpe Messalina +D'um circo de chacaes! + +E sobre alguns montões de mortos ainda quentes, +Emfim campeias, tu, +Que déste á sagração das cousas dissolventes +Um Petroneo-Sardou! + +Porém, quando ao colher ainda um beijo á Fama +Um dia avanças mais, +Teu carro triumphal trambolha-te na lama +E então como tu saes!... + +Revolves-te no horror das vis, infectas ondas +De lodo e podridão, +E vaes de manto roto e vestes hediondas +Buscar a escuridão! + +Em vez de reclinar a fronte ao sol ardente +Da luta que sorri, +Do fumo dos canhões fugiste, e de repente... +Matou-te um bistori!... + +Que entrada a tua, então, na funebre morada, +Pizando, incerto, o pó, +Á luz d'uma _lanterna_, ao vir da encruzilhada, +Sinistro, sujo e só! + +Das cinzas levantou-se um brado entre os jazigos +Dos bons e dos leaes, +Apenas descobriste a marca dos _castigos_ +Nas faces triviaes! + +E quando te assustava o olhar altivo d'Hoche +E o gesto de Danton, +Sorria-te na sombra o amor da Rigolboche +Meu cezar-Benoiton! + +73--Janeiro. + + + + +XXII + +Á HORA DO SILENCIO + + +Eu quiz hontem sonhar, sentir como um romantico +A doce embriaguez do pallido luar, +Ouvindo em pleno azul passar o immenso cantico +Dos astros no seu giro e em sua luta o mar! + +A cidade dormia o somno dos devassos; +Aquelle somno turvo, infecto e sensual: +E a lua, antiga fada, erguia nos espaços +Tranquilla e sempre ingenua a fronte de vestal! + +E sobre a quietação das coisas vis e exoticas +Sentiam-se as febrís, crueis respirações, +Dos tristes hospitaes e das virgens clorothicas, +Dos amantes fataes da febre e das paixões! + +A noite era em silencio, a athmosphera doce +E ria a natureza aos beijos d'um bom Deus. +De subito escutei, ao longe, o quer que fosse +D'um canto que suppuz então baixar dos céos! + +Attento ao vago som, porém, a pouco e pouco +Senti que era uma voz disforme e sensual, +Soltando uma canção n'aquelle accento rouco +Da triste inspiração alcoolica e brutal!... + +Ó terna vagabunda, enamorada lua! +Emquanto ias assim, diaphana e sem véo, +Uma triste mulher passava, então, na rua +Cuspindo uma porção d'infamias para o céo! + + + + +XXIII + + +Eu quizera depois das lutas acabadas, +Na paz dos vegetaes adormecer um dia +E nunca mais volver da santa lethargia, +Meu corpo dando em pasto ás plantas delicadas! + +Seria bello ouvir nas moutas perfumadas, +Emquanto a mesma seiva em mim tambem corria, +As sãas vegetações, em intima harmonia, +Aos troncos enlaçando as lividas ossadas! + +Ó belleza fatal que ha tanto tempo gabo: +Se eu volvesse depois feito em jasmins do Cabo, +--Gentil metamorphose em que n'esta hora penso;-- + +Tu, felina mulher com garras de veludo +Havias de trazer meu espirito, comtudo, +Envolto muita vez nas dobras do teu lenço! + + + + +XXIV + +O VELHO CÃO + + +Soltava hontem já tarde um velho cão felpudo +Uns doloridos ais, +Em frente d'um palacio altivo, bello e mudo, +Cerrado aos vendavaes. + +Fazia pena ouvil-o, o misero mollosso +Em seu triste chorar! +Era quasi uma sombra: apenas pelle e osso +E um vago, um doce olhar!... + +Eis a sorte cruel do pobre que não come, +Dos miseros sem pão! +Em paga ainda em cima os vae tragando a Fome, +A negra apparição! + +Latia o cão faminto. O frio era mordente, +Feroz, quasi voraz! +E o pobre não sabia, em fim, que ha muita gente +Que adora a santa paz. + +Ora perto vivia uma galante rosa, +Etherea, virginal, +Que tinha um lindo collo, amava, era nervosa +E a quem fazia mal, + +Aquelle uivar sinistro; a ponto de em desmaios +Pender a fronte ao chão! +Saíram pois á rua impavidos lacaios +E foram dar no cão. + +--Ha no mundo um rafeiro, um velho cão esfaimado, +--O povo soffredor, +Que ás vezes vae ganir, com fome, o seu bocado +Ás portas d'um senhor. + +O resto é velha historia: ocioso é já dizer-vos +O fim que ella ha de ter. +A Ordem, só d'ouvil-o, alteram-se-lhe os nervos +E manda-lhe bater! + + + + +XXV + +AS VELHITAS + + +Eu não professo muito o culto das ruinas. +Prefiro uma officina ás velhas barbacãs; +Das velhinhas, porém, mirradas, pequeninas, +No entanto nunca insulto as prateadas cãns. + +Deixal-as caminhar, curvadas, vagarosas, +Com seu bento rozario, os seus fofos beitões, +A rirem-se de nós, crueis, maliciosas, +Sagazes comentando as nossas illusões! + +Ah, velhitas sem côr! cabeças regeladas, +Vulcões de que só resta a cinza e nada mais: +Já fostes as visões; talvez as brancas fadas; +Prendestes vossos pés nos humidos rosaes; + +Tivestes já no olhar os bons reflexos magicos +Dos lagos ideaes cubertos de luar; +As curvas sensuaes, os bellos dedos tragicos; +As rosas más do inferno, os lyrios bons do altar! + +Pendestes já scismando as frontes melancolicas +Nas varandas á noite, amantes dos Titães +Do bello amor antigo! ó Marcias das bucolicas! +E agora apenas sois as mães de nossas mães! + +Segui vosso caminho: as graciosas fadas, +As bellas da cidade, anémicas, gentis, +Sorriem-se, talvez, das fitas desbotadas, +Dos provectos chapéos, das gallas que vestis! + +Oh! mostrando os trophéos das vossas velhas rosas, +Dizei-lhes, a sorrir das futeis illusões, +Que fostes já, tambem, galantes e nervosas +Mas destes isso tudo a varios corações! + +Agora tendes pouco: apenas uns lamentos +Sentidos contra nós; queixumes sem valor +E ao mundo importam muito os vossos testamentos +E importa muito pouco a vossa immensa dôr! + +Batei á grande porta: os bellos dias vossos +Velhitas, bem sabeis, não podem voltar mais! +Á terra ide levar, em fim, n'uns tristes ossos +O residuo fatal das cousas virginaes! + + + + +XXVI + +ÁS VISÕES + + +Pois que visões! não cessa a rapida corrida +E seja noite ou dia, +Volteadoras crueis! vós sempre a toda a brida +Na minha phantasia! + +Parti chymeras vãs! archanjos ou _madonnas_, +Parti, que o mando eu, +Como um bando fatal de velhas amasonas +Que o circo aborreceu! + +Levae tudo comvosco: as settas mais a aljava; +O angelico sorriso; +E as azas d'escumilha em que eu voava +Á noite, ao paraiso! + +Eu quero, em fim, dormir; passar as noites gratas +Sentindo-me feliz, +No somno machinal dos velhos acrobatas +Depois das farças vis! + +Mais tarde hei de sorrir, ou escarnecer-me quasi, +Lembrando-me--ó verdade!-- +Que onde eu suppunha aurora havia apenas gaze +E uns traços d'alvaiade. + +Perdão se vos insulto! oh, não, vós sois do empyreo, +D'aquelle meigo azul, +Que a todos tem sorrido: a Christo no martyrio, +Na dôr, ao rei de Thule; + +E quando vos apraz, nas azas transparentes, +Mais alto ides por certo, +Do que as deusas gentis, aerias, insolentes, +Que vemos voar tão perto! + +No entanto podeis crer ó lucidos fantasmas +Que o seculo, afinal, +Occulta no esplendor não sei que vis miasmas +Que fazem muito mal! + +E quando vós passaes, nas horas do mysterio +D'estrellas revestidas, +Bebemos nós, talvez, o aroma deleterio +Das rosas corrompidas! + +Oh sim! parti depressa; erguei-vos d'este abysmo +Archanjos ideaes, +Deixando-nos colher a flôr do realismo +Nas coisas triviaes! + + + + +XXVII + + +Melancolias do outono! Eu quando além descubro, +Nas tristezas do campo, as filas mugidoras +Dos vagarosos bois que voltam das lavouras, +Compungem-me as crueis desolações d'outubro! + +Das orlas do poente, afogueado, rubro, +Ó moribundo sol! com que poesia douras, +As formas triviaes das cabecitas louras, +Que, ás portas dos casaes, de bençãos tambem cubro!... + +Solta o canto final a orchestra da folhagem: +São horas de partir; apresta-se a viagem, +E as noites dos saraus hão de voltar mais bellas! + +Mas as vistas lançando ás regiões saudosas, +Nos esforços crueis das tosses dolorosas, +Em bandos vão partindo as tisicas donzellas! + + + + +XXVIII + +O VELHO MUNDO + + +Eu vejo em toda a terra um vasto cemiterio, +A necrópole immensa, a campa dos colossos, +Aonde em paz descansa o velho megatherio, +Por entre a fauna morta, os carcomidos ossos! + +E os grandes leviathaãs dos primitivos mares; +Os tremendos reptis, crueis, descommunaes, +Celebram no silencio as nupcias singulares +Dos seus residuos vis, com ricos mineraes! + +E os esqueletos nús dos lividos gigantes +Abraçam-se melhor; conchegam-se na cova, +Deixando um logar vago aos velhos elephantes +Que vão fugindo á luz da natureza nova! + +Tambem no mundo interno as almas vão seguindo. +Na corrente da vida, em mil circulações; +E da consciencia humana o largo abysmo infindo +Occulta, ha muito já, disformes creações! + +Ellas dormem na sombra immensa do passado +Aonde em breve hão de ir nos trances doloridos, +A velha Realeza e o trémulo Papado +Sem forças descançar os corpos corrompidos. + +Depois virão mais tarde as gerações futuras +E os dois espectros vãos da sombra hão de evocar, +Bem como a nossa voz, as grandes creaturas +Do mundo primitivo, obriga a despertar. + +E as crianças terão seus nomes de memoria, +Como exemplo, na vida, a todos os momentos; +E vel-os-eis de pé, nas paginas da historia, +Grotescos, machinaes, pezados, somnolentos; + +Fazendo-nos pensar; d'espanto enchendo tudo; +Soffrendo o riso alvar do ingenuo e do plebeu, +Eguaes ao masthodonte armado para estudo +E exposto ás irrisões nas salas d'um museu! + + + + +XXIX + + +Eis a velha cidade! a cortesã devassa, +A velha imperatriz da inercia e da cubiça, +Que da torpeza acorda e á pressa corre á missa! +Baixando o olhar incerto em frente de quem passa! + +Ella estreita no seio a velha populaça, +Nas vis dissoluções da lama e da preguiça, +E nunca o santo impulso, o grito da Justiça, +Lhe fez estremecer a fibra inerte e lassa! + +E póde receber o beijo e a bofetada +Sem que sinta o rubor da colera sagrada +Acender-lhe na face as duas rosas bellas! + +Sómente d'um sorriso alvar e deshonesto, +Ás vezes, acompanha o provocante gesto +Quando sôa a guitarra, á noite, nas viellas! + + + + +XXX + +Á NOITE + + +Eu gosto de velar a percorrer os mundos +Ó noite dos bons canticos, +Aos lividos clarões dos astros vagabundos +Nos extasis romanticos, + +Emquanto a vil cidade, a cortesã devassa +Dos falsos ouropeis, +Com seus famintos cães, a sua lua baça +E os seus negros bordeis, + +Resona torpemente aos beijos deleterios +D'alguns velhos amantes; +--Os longos hospitaes e os tristes cemiterios +Que a afagam delirantes! + +Comtudo eu tambem sei que existe muito instante +De gelos, em que tu, +Feroz, cravas o dente agudo e penetrante +No pobre seio nú! + +Que ha horas em que vens, nas humidas cidades, +Nas choças, nos esgotos, +Cuspir cynicamente as frias tempestades +No seio vil dos rotos, + +Sem ter pena, sequer, da pobre mãe que passa +Um dia sem ter pão, +Nem d'essa esfarrapada e velha populaça +Que rosna como um cão!... + +Mas em breve deixando as tenebrosas vestes, +O manto dos horrores, +E o gladio vingador das coleras celestes +Ó noite dos amores, + +Retomas o tom puro e santo do mysterio +Da pallida mulher +Que vae colher, scismando, um lyrio ao cemiterio +E ao campo um malmequer! + +Em horas de tormenta és a mulher colerica! +Até cospes na cruz! +E formam-te espiraes na coma athmospherica +As viboras de luz! + +Porém no teu regaço, altivo, casto, enorme, +Em doce e plena paz, +É que a virtude sonha e que a desgraça dorme +Depois das horas más, + +E em lucidos cristaes, ha scintillantes vinhos; +Os casos mais galantes; +As languidas canções; os bellos desalinhos +E os gestos provocantes!... + +Ó filha do silencio! Aos puros alabastros +Dos hombros ideaes, +Se Deus arremessasse a quantidade d'astros +Que em ti brilham a mais, + +As pallidas visões que passam doloridas, +E um tanto contristadas, +Haviam de surgir d'estrellas revestidas +Em trajos d'alvoradas! + +Em ti cuida escutar uns sons inexprimiveis +De languidas canções, +O pobre sonhador de coisas impossiveis +Que adora as solidões! + +E quando o resplendor de mundos luminosos +Na tua fronte cinges, +Os gatos sensuaes, electricos, nervosos +Repouzam como esphinges; + +Emquanto as combustões dos lividos comêtas, +Errantes e fataes, +Comsomem lentamente as grandes borboletas +Dos nossos ideaes! + + + + +XXXI + +A VALLA + + +Trazei mortos á valla; a hydra está com fome +E deve ser-lhe longa a hora em que não come! +Olhae como ella mostra aquelles que a vão ver, +Inerte, sem pudor, de fauce escancarada, +A amargura cruel da bocca desdentada +Que pede de comer! + +Lançae ao monstro informe algum repasto novo! +Trazei-lhe carne humana; arremeçae-lhe o povo. +Tranzido pelo frio ou morto pelo sol! +E visto haver na fera abysmos insondaveis +Mandae-lhe as legiões dos grandes miseraveis +Que morrem sem lençol! + +Eu quero vel-a farta, a lugubre panthera, +Que, na sombra agachada, olhando em roda, espera +A preza que lhe inveja a gula dos chacaes. +Começa a ouvir-se ao longe a marcha vagarosa +Da triste procissão cruel e dolorosa +Que vem dos hospitaes. + +Um velho esquife chega: em duas taboas toscas +Um pobre semi-nú coberto já de moscas, +N'um riso deixa ver não sei que tons crueis! +Emquanto nos sorria a luz das noites bellas, +Talvez que elle varresse a lama das viellas +E o lixo dos bordeis!... + +E poude, em fim, dormir no seio bom da morte! +Apoz, como se fôra a livida consorte +D'aquelle vil despojo, ás mesmas horas vem, +Trazendo por sudario os seus vestidos rotos, +Uma triste mulher caída nos esgotos +Sem bençãos de ninguem! + +Devora-os ambos fera! Engole-os juntamente: +Reune-os em consorcio e dá-os de presente +Á larva que partilha as ancias do teu ser! +Aguça o teu desejo!--A garra infecta lança +Ao corpo tenro e nú d'uma gentil criança +Que a mãe te vem trazer! + +Redobra d'appetite! Alonga-se a teu lado +A fila tenebrosa! O espectro do soldado +A par do que vergou cançado de cavar: +E o mineiro sem luz, o martyr legendario; +E amparando-se a custo ao velho proletario +A flôr do lupanar! + +Mastiga a turba vil e alonga essa guela! +Bem vês que vem chegando um corpo de donzella +Que pela candidez recorda uma vestal! +Voou-lhe, n'um sorriso, o derradeiro arranco +E traz viçoso ainda um grande lyrio branco +No seio virginal! + +Ó monstro sensual na sombra tripudia! +Celebra no silencio a tenebrosa orgia, +Que as Deusas vem chegando ao lubrico festim! +N'um beijo os labios colla á frigida epiderme +E o D. Juan da morte, o cavalheiro Verme, +Que viva e gose emfim! + +Eu quero ver-te farta, em halitos profundos, +Dormindo o somno vil dos animaes imundos, +De ventre para o ar; serpente infecta e má! +E ámanhã, na estação dos candidos amores, +Veremos rebentar n'um tapete de flôres +O lixo que em ti ha! + +E a santa mocidade; as languidas mulheres; +Virão depois colher os gratos malmequeres, +Pizando-te sem medo e cheias de desdem, +Em danças sensuaes; o fato em desalinho; +Compondo-te canções; regando-te de vinho; +Sem pena de ninguem! + +E tu que és monstruosa, infame, vil, medonha; +Que não mostras pudor; que não sentes vergonha; +Que és a campa-monturo e não pódes ser mais; +Cingida em fim, tambem, de rosas orvalhadas, +Terás dado um perfume ás almas namoradas, +E pasto aos animaes! + + + + +XXXII + + +Ó vultos ideaes, fantasticos e bellos, +Que ás vezes revoaes nas salas deslumbrantes, +N'um grande mar de tulle, ethereas, fluctuantes. +Aos suspiros fataes dos meigos violoncellos; + +Que bom que era sonhar nos pallidos castellos, +Á noite, á beira mar, nas solidões distantes, +Nos tempos em que a flôr dos timidos amantes +Á lua confiava os intimos anhelos!... + +Agora sois gentis, despepticas, vistosas; +Pagaes por alto preço as exquisitas rosas; +Nos rapidos wagons correis o mundo em roda; + +Mas prostradas do baile, amarrotando a luva, +Emquanto cae na rua a somnolenta chuva, +Scismaes no Deus-Milhão,--no Creador da moda! + + + + +XXXIII + + +Eu vejo em tua bocca as pétalas vermelhas +D'uma rosa de fogo aonde vão libar, +O mel das illusões, quaes timidas abelhas, +Uns velhos ideaes que em vão tento expulsar. + +Dizer-me pódes tu de que ovulo espontaneo, +Tocado pelo sol, em mim poude nascer +Este bando cruel que dentro do meu craneo +Não faz ha muito já senão roer, roer?! + +Ás vezes vôa ao largo; ás serras, ás campinas; +Remonta aos astros bons; torna a descer dos céos; +E volta a demolir as trémulas ruinas +Do templo onde crepita a luz dos dias meus! + +Ó grande flôr suave! e n'isto se resume +A constante batalha, o sempiterno afan! +Aspira a minha essencia ao teu grato perfume; +Sossobra o dia d'hoje ao dia d'ámanhã! + +Oh, volvamos á terra; aos placidos logares, +Aonde os hymeneus fecundos e reaes, +Produzem, dia a dia, os fetos singulares +E as sãs vegetações dos candidos rozaes! + +E o que ha d'ethereo em nós, que siga as breves phases +D'um fluido transitorio, erguendo-se nos céos, +Nas grandes expansões dos fugitivos gazes +Onde em linguas de fogo ás vezes fala Deus. + +Forçoso é separar os dois rivaes antigos, +Na batalha cruel que em nós se reproduz. +Sorria o que é da terra aos vegetaes amigos; +Rebrilhe o que é do céo nas refracções da luz! + + + + +XXXIV + +NOS CAMPOS + + +A fragrancia do trevo o das flôres selvagens +Da noite embalsamava as tepidas bafagens: +Ao longe os astros bons olhavam-nos dos céos. +O mundo era um altar; as serras grandes aras; +E os canticos da paz corriam nas searas +Em honra do bom Deus. + +No solemne silencio immersa ia minha alma +Em tranquilla mudez; n'aquella doce calma +Que sente germinar os frescos vegetaes. +De subito uma voz deixou-me um pouco extatico: +Detive-me um momento; olhei:--era o viatico! +De noite a horas taes, + +Que andava Deus fazendo, assim, pela campina, +Trazido pela mão d'um padre sem batina +Roubado ás sensações d'um longo resonar? +Fui seguindo o cortejo até que n'uma choça +O Rei dos reis entrava: o padre, com voz grossa, +Movia-se a rezar. + +Nos restos d'uma enxerga, ali, no vil cazebre, +Um pobre cavador, mordido pela febre, +Torcia as grossas mãos nas ancias do estertor; +E os filhos semi-nus sentindo a pena ignota +Tentavam-se esconder na velha saia rota +Da mãe louca de dôr! + +A voz do sacerdote a custo resoava. +A palavra d'amor que ali se precisava, +Não posso dizer bem se acaso elle a soltou. +Falava o Deus severo e forte dos castigos, +Ou esse bom Jesus que aos pés d'alguns mendigos +Um dia ajoelhou? + +Do padre tinham medo os tremulos pequenos. +Os magros cães fieis erguendo-se dos fênos +Latiam tristemente em volta do cazal: +E o levita lançava áquella noite escura +A benção derradeira, erguendo a mão segura, +N'um gesto machinal! + +Depois transpondo, á pressa, a porta da cabana, +Sahia sem deixar da sãa verdade humana +O balsamo suave, o dom consolador! +Oh, de certo o Jesus de que nos fallam tanto +Não era o que deixava ali, n'aquelle canto +Sósinha a mesma dôr! + +Sorria Deus, no entanto, em toda a natureza! +Nas florestas, no val, nas serras, na deveza, +Nas moitas dos rozaes, no movediço mar! +O constellado azul dir-se-ía um sanctuario! +Havia aquelle albergue apenas solitario, +E frio o pobre lar! + +E o rude agonisante, o triste moribundo +Que em breve ía partir; abandonar o mundo; +Os seus deixando sós, na terra, sem ninguem, +Talvez ao presentir o fim da insana lida +Soltasse maldicções, ainda, contra a vida +E contra nós tambem! + +E eu lembrei-me então d'aquelles bons valentes +Que lutam todo o dia e vão morrer contentes +Á noite, ao pé dos seus, depondo os vãos laureis; +E d'aquelles, tambem, de frontes requeimadas +Que pela causa santa, em pé, nas barricadas, +Se batem contra os reis! + +Lembraram-me os heroes, serenos, bons, austeros, +Que sagram toda a vida aos ideaes severos +Da justiça e do bem; caíndo com valor, +Sem que a dextra cruel dos despotas os dome +Nas batalhas da idéa; oppressos pela fome, +Varados pela dor! + +Ó pobres multidões! as grandes noites frias +Não cessam de morder, famintas e sombrias, +N'um banquete nefando os vossos corpos nus! +E o lyrio da justiça; a grande flôr sagrada, +Nem sempre mostra, em vós, aberta e desdobrada, +As petalas de luz! + +Eu quando porem lanço as vistas ao futuro +E vejo dia a dia a despontar mais puro +O grande sol da idéa, em rubidos clarões, +Recordo-me que sois a productiva leiva +Aonde já circula uma opulenta seiva, +De grandes creações! + + + + +XXXV + +O ULTIMO D. JUAN + + +D'aquelle de quem falo, as socegadas lousas +Podiam-vos contar as violações brutaes! +A gula com que morde as mais sagradas cousas +D'horror faz recuar os trémulos chacaes. + +Não descanta á viola, á noite, os seus enleios: +Elle vive na sombra e eu sei também que vós, +Gentis bellezas d'hoje, ó astros dos Passeios, +Lhe não lançaes, a furto, a escada de retroz. + +Mas sede muito embora as virgens sem desejos, +As monjas virginaes, uns pudicos dragões; +Fechae o niveo collo aos vendavaes dos beijos, +E ás noites de luar os vossos corações; + +Um dia hade chegar em que elle, informe, tosco, +Sem garbo, sem pudor, grotesco, infame, vil; +Nas grandes solidões irá dormir comvosco, +Mordendo em cada seio o lyrio mais gentil! + +E o que elle adora muito ó virgens romanescas +Não é o que abrigaes d'ethereo e virginal: +Adora os corpos nus; as bellas carnes frescas; +Deixando o resto a vós damnados do ideal! + +Não vive como nós de candidas mentiras: +Não communga do amor esse illuzorio pão: +Devora com fervor as pallidas Elviras +E em muitos seios bons dá pasto ao coração! + +Tem palacios na sombra e fazem-lhe um thesouro +Maior do que o dos reis; adora as solidões: +Não uza d'espadim; não traz esporas d'ouro; +Mas vive como os reis das grandes corrupções! + +Flôres sentimentaes! tremei do paladino, +Do velho D. Juan, feroz conquistador, +A quem da vossa bocca um halito divino, +Em vida, faz fugir talvez cheio d'horror; + +Mas que um dia virá, na candida epiderme, +Na sagrada nudez dos collos virginaes, +Em hymnos de triumpho--o grande Cezar-Verme!-- +Colher o que ficou de tantos ideaes! + + + + +XXXVI + + +Formosuras do inverno! Ao sol das duas horas +A aérea multidão de fadas quebradiças, +Gentis apparições dos bailes e das missas, +Desliza no fulgor das pompas seductoras. + +No arfar da cazimira ha frases tentadoras +E maciezas taes nas languidas pelliças, +Que as tristes commoções, decrepitas, mortiças, +Resurgem do lethargo ó pallidas senhoras! + +E muitos hão de ter uns extasis divinos +Ouvindo soluçar, á noite, aos violinos, +A vaga introducção d'uma balada aerea; + +Em quanto, do futuro, ao toque da alvorada, +Se escuta, a martellar na sua barricada, +Sinistra rota e fria, a livida Miseria. + + + + +XXXVII + +ANTIGO THEMA + + +Passae larvas gentis na rua da cidade +Aonde se atropella a turba folgazã; +A noite é um tanto agreste e cheia d'humidade +Mas o tedio mortal precisa a claridade +Que em vosso olhar trazeis, vizões do macadam! + +Estatuas sem calor! vós sois das grandes vazas +D'um corrompido mar as Deusas menos vis! +Se á noite abandonaes, voando, as pobres casas, +E vindes pela rua enlamear as azas, +Quem sabe a fome occulta, as sedes que sentis! + +A pallida Miseria em seu triste cortejo +Precisa as contracções de muitos hombros nús: +E vós ides sorrindo ao lubrico desejo, +Do carro da desgraça arremessando um beijo +Que apenas é de lama em vez de ser de luz! + +Embora! caminhae deixando um grande rasto +D'estranhas emoções, d'aromas sensuaes: +E ao pobre que mendiga a pallidez d'um astro; +Ao que sonha vizões e archanjos d'alabastro +Fazei por despenhar nos longos tremedaes! + +Do velho idyllio, a muza, ha muito já que dorme, +E o arroio em vão suspira e chora a nossos pés! +A grande multidão,--a vaga, a onda enorme, +Que oscilla sem cessar, e gira multiforme +Ás corridas, ao circo, ao templo e aos cafés, + +Talvez ao presentir que tudo, emfim, declina, +Adore a immensa luz, em vós, constellações, +Que não baixaes do céo; que vindes d'uma esquina, +Vagando no rumor da aérea musselina, +Em plena bacchanal fingindo de vizões? + +Oh, sois do nosso tempo! A languida existencia +De tedios se consome e sente febres más! +Aspira ao que é bizarro: a uma exquisita essencia +Que exhala aquella flôr que vem na decadencia +E quando a toda a luz succede a luz do gaz! + +Do seculo a voz rude apenas diz--trabalha!-- +Ao poste vil amarra o lubrico ideal +Que expira, emfim, talhando a funebre mortalha +Na vossa trança gasta, ó muzas da canalha +Que apenas revoaes do olimpo ao hospital! + + + + +XXXVIII + +A MÃE + + +Eu canto-vos, mulher, por que vos tenho visto +Na palpebra vermelha a lagrima d'amôr, +Que vem d'Eva a Maria--a doce mãe de Christo-- +Formando a stalactite immensa d'uma dôr! + +Oh, quantas vezes já n'aldeia miseravel +Nas tristezas do campo, ás portas dos casaes, +Vos tenho surprehendido, em extasi adoravel, +Em quanto os filhos nús ao peito conchegaes! + +A fria noite chega. Os maus, de bocca cheia, +Rebolam-se na terra: ainda pedem pão! +Com elles repartis a vossa parca ceia; +E vendo-os a dormir podeis sorrir então. + +D'inverno quasi sempre as noites são mordentes. +Uivam lobos na serra: o vento uiva tambem: +Mas elles vão dormindo os longos somnos quentes, +Em quanto a vil insomnia opprime a pobre mãe! + +Tendes sustos crueis. Temendo que lhes caia +A roupa que os abafa, aos pobres acudis; +E aninhando-os melhor nas vossas velhas saias +Podeis então dormir um tanto mais feliz. + +Mulher quanto é suave e longo esse poema +Quanto é preciso ó mãe, no transito cruel, +Que vossa alma estremeça e o vosso peito gema +A fim de que em vós brilhe o mais alto laurel! + +Quem é que nunca viu, na rua, a cada passo, +A pallida mulher que rompe a multidão, +Trazendo agasalhado, um filho no regaço, +E aos tombos, muita vez, um outro pela mão?! + +Nos frios do lagedo, ás vezes, pede esmola +Ás portas dos cafés: ninguem a quer ouvir: +E a ella qualquer codea a farta e a consola +Comtanto que sem fome os filhos vão dormir! + +E em quanto á luz do gaz a turba prazenteira +No fumo dos festins revoa em turbilhão, +Quantos dramas crueis nas humidas trapeiras; +Nos campos quantas mães sem roupas e sem pão?! + +E sempre a mesma lenda, a mesma historia antiga: +Do palacio á cabana o vosso doce olhar, +Nas insomnias crueis, na fome ou na fadiga, +D'um raio creador o berço a illuminar! + +No entanto á doce mãe, se aquelle amor sem termo, +Da moda traja agora os novos ouropeis, +E o vosso coração já gasto e um pouco enfermo, +Soffrendo se dilue nos ideaes crueis; + +Nas vagas pulsações d'umas recentes ancias, +Se aquella santa flôr das grandes commoções, +Apenas tem logar nas vossas elegancias. +Como um enfeite de mimo amado nos salões; + +Na corrente fatal que ao longe arrasta os povos, +Se o vosso grande affecto intenta erguer-se mais, +Sonhando a sagração dos heroismos novos, +Resplendente de luz; vistosa de metaes: + +Aos reflexos do gaz, ó mãe, abri passagem +Por entre a saudação das alas cortezãs, +Levando as seducções da vossa doce imagem +Aos delirios da noite, ás ceias das manhãs! + +Surgi do canto obscuro aonde o casto seio +Palpita ingenuo e bom na paz da solidão, +E o vosso amor levae á opera e ao passeio +A fim de que elle arranque um bravo á multidão! + +E eu heide rir ao ver que o peito onde um thesouro +Maior do que nenhum podemos encontrar, +Intenta seduzir pela medalha d'ouro +Que aos pequenos heroes os reis costumam dar! + + + + +XXXIX + + +Archanjo vae-te embora: é tarde: em nossas casas +Talvez alguem se afflija; é tão deserta a rua!... +Tu deves sentir frio! Embuça-te nas asas; +Dá saudades á lua. + +Um beijo em cada estrella!... Espera que eu sou louco! +Sonhei devo pagar: perdão anjo dos céos! +Agora tem cuidado; o céo escorrega um pouco: +Boas noites adeus! + + + + +XL + +SANTA SIMPLICIDADE + + +Na serena missão de paz que tu cumpriste +Ó suave Jesus, ó doce galileu, +Que santa singeleza e que perfume triste +Do teu casto perfil no mundo rescendeu! + +Havia no teu verbo aquella unção divina +Que a velha harpa de Job soltou nas solidões, +E o bello, o puro sol da antiga Palestina +Suave contornou, de luz, tuas feições! + +Compunham-te o cortejo uns pobres pescadores +Almas rectas e sãs; marchavas por teu pé, +E sorrias falando aos rudes e aos pastores, +Sentado nos portaes da pobre Nazareth. + +Da tua Galiléa os valles percorrias +Levando um bom quinhão d'affecto a cada lar, +E o grande olhar suave e terno das judias +Turbaste muita vez, de certo, sem pensar! + +E mais simples na morte, apenas a tua alma +Transpunha as regiões purissimas do sol, +Tu que havias colhido a immorredoura palma +Não tinhas para o corpo as gallas d'um lençol! + +Consola-te ó Jesus! Tu deves já ter visto +Que sobre a terra, agora, ao teu nome fieis, +Os que se dizem ser apostolos de Christo +Não precisam trajar os infimos bureis. + +Não maceram seus pés! não vão pobres e rotos +Envoltos na estamenha, apedrejados, sós, +Nos desertos viver de mel e gafanhotos, +Convertendo o gentio ao som da sua voz. + +Ante elles, ao contrario, alargam-se os batentes +Dos palacios reaes, nas grandes recepções, +E formam-lhes cortejo os coches reluzentes +Atraz dos quaes se bate um trote d'esquadrões! + +Cobrindo-lhes, depois, d'insignias as roupetas, +Afim d'honrar melhor a primitiva fé, +Redobram-se ainda mais as velhas etiquetas; +Polvilham-se melhor os homens da libré! + +E dão-se-lhes festins onde ha grandes baixellas, +Fataes scintillações de vinhos e rubins, +Gargantas ideaes, grandes espaduas bellas, +Lampejos de cristaes, insidias de setins! + +Oh! temo bem Jesus que tantas pedrarias +Façam peso de mais na barca do Senhor, +Quando é certo que as mãos de Pedro um pouco frias +Mal podem segurar o leme salvador! + +Por isso quando avisto o espaço que negreja +E o mar que se encapella, eu temo que ámanhã +Do fendido baixel da tua velha Egreja +Apenas reste, á prôa, uma ficção pagã! + + + + +XLI + + +O velho Olimpo dorme o bom somno comprido +Que prostra o lutador no fim d'uma batalha, +E os Deuses d'outro tempo, em livida mortalha, +Descançam no torpor d'um mundo corrompido. + +No puro céo christão, de estrellas revestido, +No entanto ha muito já que chora e que trabalha, +Por nós, o Christo bom sem que seu Pae lhe valha, +A fim de ver, de todo, o mundo redimido! + +Justiça, traça o manto alvissimo e estrellado +E senta-te, mulher, no throno abandonado +Pelos vultos gentis de tantos Deuses velhos! + +Depois inda maior, mais pura e mais serena, +No sangue de Jesus molhando a tua penna +Explica a nova lei no fim dos evangelhos! + + + + +XLII + +OS PALHAÇOS + + +Heroes da gargalhada, ó nobres saltimbancos, +Eu gosto do vossês, +Por que amo as expansões dos grandes rizos francos +E os gestos d'entremez, + +E prezo, sobretudo, as grandes ironias +Das farças joviaes, +Que em visagens crueis, imperturbaveis, frias, +Á turba arremeçaes! + +Alegres histriões dos circos e das praças, +Oh, sim, gosto de os ver +Nas grandes contorsões, a rir, a dizer graças +Do povo enlouquecer, + +Ungidos para a luta heroica, descambada, +De giz e de carmim, +Nas mimicas sem par, heroes da bofetada, +Titães do trampolim! + +Correi, subi, voae n'um turbilhão fantastico +Por entre as saudações +Da turba que festeja o semi-deos elastico +Nas grandes ascenções, + +E no curso veloz, vertiginoso, aerio, +Fazei por disparar +Na face trivial do mundo egoista e serio +A gargalhada alvar! + +Depois mais perto ainda, a voltear no espaço, +Pregae-lhe, se podeis, +Um pontapé furtivo, ó lividos palhaços +Lusentes como reis! + +Eu rio sempre ao ver aquella magestade, +Os tragicos desdens, +Com que nos divertis, cobertos d'alvaiade, +A troco d'uns vintens! + +Mas rio ainda mais dos histriões burguezes +Cobertos d'ouropeis +Que tomam, n'este mundo, em longos entremezes, +A serio os seus papeis. + +São elles, almas vãs, consciencias rebocadas, +Que, em fim, merecem mais +O comentario atroz das rijas gargalhadas +Que ás vezes disparaes! + +Portanto é rir, é rir, hirsutos, grandes, lestos, +Nas comicas funcções, +Até fazer morrer, em desmanchados gestos, +De riso as multidões! + +E eu que amo as expansões dos grandes risos francos +E os gestos d'entremez, +Deixae-me dizer isto ó nobres saltimbancos, +Eu gosto de vossês! + + + + +XLIII + +A HYDRA + + +Ha muito que desceu das orientaes montanhas +A hydra singular que espalha nas ardencias +D'uma luta febril scintillações estranhas! + +Ella galga, rugindo, ás grandes eminencias, +E emquanto vae soltando o silvo pelo espaço +Engrossa á luz do sol na seiva das consciencias. + +Tem rijezas sem par, como de roscas d'aço +E corre descrevendo em giros caprichosos +Na leiva popular um indefinido traço. + +Prefere aos antros vis os focos luminosos +E em mil voltas crueis aperta dia a dia, +N'uma longa espiral, os thronos carunchosos. + +Passou pelo paiz da candida Utopia: +Nos mythicos rosaes viveu d'um vago aroma +Ao pallido fulgor da aurora que rompia. + +Mas hoje com valor em toda a parte assoma, +E sem temer sequer a lugubre vizeira +Ha muito que transpoz os porticos de Roma. + +E os Papas mais os Reis sentindo-a na carreira +Do seu longo triumpho, um tanto apavorados, +Trataram d'acender a livida fogueira. + +E ao galope lançando os esquadrões cerrados +Começaram depois, na terra, a perseguil-a, +A cumplice fatal dos lividos Pecados! + +Mas ella sem temor, nos cerberos tranquilla, +Derrama cada vez mais bellos e fecundos +Os intensos clarões da lucida pupilla, + +E emquanto a imprecação de tantos moribundos, +Os despotas crueis, acolhem com desdem, +A hydra immensa--a Idéa--a farejar nos mundos +Ainda a garra adunca afia contra alguem! + + + + +XLIV + +OS NOVOS LEVIATHÃS + + +Dos antigos Titães, o mar,--fera indomavel, +Agora verga o dorso ao peso colossal +Dos novos leviathãs que em bando formidavel, +Nas grandes explosões da colera insondavel, +Já levam de vencida o abysmo e o vendaval! + +Elles seguem no mar, altivos no seu rumo, +Em halitos de fogo, á nossa voz fieis, +E como o combatente erguendo a lança a prumo, +Era turbilhões rompendo, as flamulas de fumo +Ostentam sem cessar correndo entre os parceis! + +Que sopro creador, que força omnipotente +Os fez surgir do nada, os monstros colossaes? +Ó novos leviathãs provindes tão somente +Do fecundo hymeneu, d'este connubio ardente +Do Genio e do Trabalho, amantes immortaes! + +Correis de mar em mar, altivos, triumphantes, +Levando a toda a parte a vida, a nova luz, +E as sereias gentis não fazem como d'antes, +Ao som da sua voz, perder os navegantes; +O dorso dos delfins, no mar, já não reluz! + +Ó alma antiga dorme inerte no regaço +Dos velhos Deuses vãos, que o homem creador +Agora ri de ti, prostrada de cansaço, +Emquanto vae soprando em mil gigantes d'aço +Outra alma inda mais larga,--o novo Deus-Vapor! + + + + +XLV + + +Sua alteza real o pequenino infante +Matou, d'um tiro só, dois gamos na carreira: +Um hymno mais ao céo, pois era a vez primeira +Que sua alteza vinha á diversão galante! + +Ó vergontea gentil! quando um tropel distante +De subito acordar os echos da clareira +E uma preza cansada, em rolos de poeira, +Varada, a vossos pés, caír agonisante, + +Acercai-vos então da pobre fera exangue +Que estrebuxa de dôr n'um mar de lama e sangue +Sem que um grito de dó nos corações acorde! + +No entanto não fiqueis na doce gloria absorto: +O velho javali parece ás vezes morto +Mas surge da agonia e os seus algozes morde! + + + + +XLVI + +VERSOS A * + + +Eu sou, mulher suave, aquelle antigo louco, +O triste sonhador que o teu olhar cantou, +E que hoje vae sentindo, o sonho, a pouco e pouco, +Fugir como o luar d'um astro que expirou! + +Que morra, porque, emfim, bem longo elle tem sido +E tempo é já, talvez, da Morte desposar +O sonho que em minha alma entrou como um bandido +E só da vida sae depois de me roubar! + +Eu devera amarral-o á braga do forçado, +Como a Justiça faz aos despreziveis réos, +E lançal-o depois á valla do passado +Aonde o fulminasse a colera dos céos. + +Mas não; quero embalar-lhe os ultimos momentos +Ao som d'uma canção das quadras juvenis, +E amortalhar depois--em doces pensamentos-- +No manto da saudade, os seus restos gentis. + +E quando elle seguir ás regiões saudosas, +Aonde todos nós iremos repousar, +Ao esquife hei de atirar-lhe as derradeiras rosas +Que dentro de minha alma houver por desfolhar! + +Ninguem profanará seus restos adorados, +Que em paz irão dormir n'um fundo mausoleo; +E quando alguma vez já hirtos, regelados, +Acordem, por ventura, á luz que vem do céo; + +Em vão tu baterás, ó sonho, á fria porta +Que em breve has de sentir fechada sobre ti, +Porque a tua Memoria, emfim, já estará morta, +E não te escutarei... porque também morri! + + + + +XLVII + + +Ó pobres versos meus, lançae-vos pela estrada +Agreste e pedregosa, aonde os companheiros +Da luta, encontrareis, meus infimos guerreiros, +Formando os batalhões da bellica avançada! + +E o trajo em desalinho, a face illuminada, +Transponde, sem demora, os fossos derradeiros +Que separam de nós os braços justiceiros +Da serena Verdade, a Deusa idolatrada. + +Vencidos no combate, ou pouco ou nada importa. +Ao chão vergae sem pena a faço semi-morta, +Mordendo, inda a lutar, o pó da enorme liça: + +E tudo, emfim, esquecendo; os odios e os desprezos; +Que d'entre vós alguns, ao menos, fiquem prezos +Como fios de luz, ao manto da Justiça! + +FIM. + + + + +APPENDICE + + +Nas paginas que em seguida se leem acha-se tão bem determinada, com +tanta eloquencia e tão profunda observação, a missão da poesia +contemporanea, que não podemos resistir ao desejo de as trazer das +folhas passageiras do jornal, aonde pela primeira vez viram a luz, para +as paginas d'este livro, por ventura um pouco menos ephemeras. + +O autor das _Radiações da Noite_, intenta sobretudo mostrar que o seu +espirito, correspondendo ás indicações da critica, procura inspirar-se, +tanto quanto lhe é possivel, no mundo que o cerca, nos factos e nas +acções do nosso tempo. Das _Radiações da Noite_ á _Alma Nova_ +poder-se-ha talvez notar um certo caminho andado na direcção em que vae +seguindo a arte contemporanea. + +Do escripto como primitivamente foi publicado, entendemos, como o leitor +tambem de certo comprehenderá, suprimir, hoje, a parte final em que o +talentoso critico se referia, d'um modo demasiadamente lisongeiro, á +individualidade litteraria do autor das _Radiações_. + +Guilherme d'Azevedo + + + + +TENDENCIAS NOVAS DA POESIA CONTEMPORANEA + +a preposito das + +RADIAÇÕES DA NOITE + +do sr. + +Guilherme d'Azevedo + + + + +O seculo XIX, cujos primeiros annos enflorou uma corôa poetica de +esplendor incomparavel, tem mentido cruelmente ás esperanças da sua +aurora. Envelhecendo, perdeu o dom do canto, ou, pelo menos, o +sentimento que faz os cantores verdadeiros. Os Goethe, os Byron, os +Lamartine, os Miczkawicz, os Hugo, os OEhlenschlaeger, não deixaram +descendencia digna d'aquella poderosa geração. O romantismo foi um +meteoro. O grande canto do seculo esvaeceu-se gradualmente n'um +murmurio. A poesia contemporanea não tem unidade, e não tem sobre tudo o +largo folego de inspiração, que caracterisa as verdadeiras épocas +poeticas. O interesse do tempo dirige-se evidentemente para outro lado. +No meio das preoccupações da actualidade, a poesia é como a canção de um +conviva distraído que se affasta da sala do festim, e cuja voz se perde +pouco a pouco no silencio da distancia e da noute. + +Depois do apparecimento do romantismo, a sua queda é o maior facto +litterario, do seculo. Porém essa queda, que como facto todos +reconhecem, mas cuja phenomenalidade poucos tentam explicar, será uma +justa sentença lavrada pela razão publica, ou será uma condemnaçao +arbitraria que deshonra o tribunal que a firma? Indicará para o espirito +do nosso tempo um progresso ou uma decadencia? uma gloria ou um +deslustre aos olhos da historia? + +Não hesito em responder. O romantismo foi justamente condemnado. O +seculo, com um sentimento lucido da sua verdadeira missão, affastou-se +d'aquelles que lhe fallavam uma linguagem, cujo brilho, cuja eloquencia, +cuja sinceridade, por maiores que fossem, não podiam encobrir o falso do +principio, que a inspirava. Essa missão é essencialmente positiva, +social e racional, e o romantismo era essencialmente apaixonado, +individual e subjectivo. Por mais que se virasse para o futuro, a sua +alma pertencia ao passado; emquanto que o seculo, ainda nos momentos em +que parece invocar o passado, é sempre para o futuro que caminha. No +fundo, uma sociedade saída da revolução, e uma poesia que se inspirava +das tradições da edade-media, contradiziam-se, negavam-se radicalmente. +Um equivoco historico pôde por um momento estabelecer aquelle infundado +accordo: no dia, porém, em que se conheceram, separaram-se. + +Ainda ha muita gente que _sente_, _chora_, _crê_, e _aspira_, á maneira +dos grandes, melancolicos e apaixonados de 1820. Mas já nos não commovem +como então, já não influem poderosamente no mundo que os rodeia. São +vozes sem ecco. É quanto basta para que nada signifiquem, +historicamente: tanto mais que aquellas vozes frouxas não teem já o +timbre ardente de indomavel paixão, que nas outras nos commovia. A +paixão d'estas é mais estudada na escola, do que saída do coração. Não é +já como então, um convencimento violento dos direitos da propria +loucura, que os inspira: são apenas os livros dos mestres: ora, não é +nos bancos apertados da escola, mas no seio da livre natureza, que se +criam os verdadeiros poetas. + +Os poetas da geração actual vêem-se pois, rasgado aquelle veo +phantastico da _sentimentalidade_ d'outr'ora, em face d'uma sociedade, +que elles não comprehendem, porque ella mesma a si se não comprehende +bem, mas que os não quer escutar senão com a condição de lhe falarem +d'aquillo que a interessa e a preoccupa, de se inspirarem da sua vida +real e das suas verdadeiras aspirações. É d'esta situação anormal que +resulta a incerteza, a anarchia, a fraqueza da poesia contemporanea. A +idéa poetica acha-se confusa, embaraçada no meio de factos sociaes, que +se não definem claramente: as fontes da inspiração correm escassas ou +turvas. A antiga nascente, tão querida e conhecida, está quasi secca: a +nova, já por ser nova, e depois por que só deixa rebentar, em cachões, +uma agua turbida, cheia de elementos estranhos, assusta os que a ella se +chegam pela primeira vez; os mais ousados inclinam-se um momento, tomam +a medo um golle da bebida suspeita, e retiram-se furtivamente como se +acabassem de fazer uma acção má. + +E todavia, é alli que é necessario beber, porque é alli, n'aquellas +aguas rumorosas e confusas, que se conteem os elementos da inspiração +real, os principios vitaes de que se nutre a sociedade, e de que tem por +conseguinte de se alimentar tambem a poesia, sob pena de se tornar uma +abstracção, um phantasma, uma puerilidade. O problema da evolução +poetica na actualidade encerra-se todo n'isto. + +Mas aqui apresenta-se uma questão, que nos detem. Terá a sociedade +contemporanea (essa sociedade, ao que dizem, positiva até ao mais +desolador utilitarismo) na sua atmosphera suffocadora de industria, de +lutas sociaes e de sciencia friamente analytica, condições de vida e +desenvolvimento normal para a constituição delicada das castas musas, +das musas melindrosas e scismativas? Não será uma sociedade +essencialmente anti-poetica, esta nossa, um mundo rebelde a toda a +idealidade? Por outras palavras; poderá haver poesia racional, positiva +e social? Será um ser _poetico_ o homem do nosso tempo? + +Intendo que póde haver tal poesia; que a alma moderna, na sua titanica +aspiração de verdade e justiça, é poetica, poetica essencialmente, +d'aquella poesia forte e audaciosa dos mythos de Prometeu e Ajax; que ha +uma fonte abundante de inspiração n'esta luta historica de nações, de +classes e de idéas, que é a epopea e a tragedia viva do nosso seculo; +que, finalmente, á maneira que os factos confusos da nossa epoca se +forem desembrulhando, mais lucida e evidente se irá mostrando a +idealidade sublime que n'esse chaos apparente se contém. + +E a idéa d'essa poesia nova não só existe, mas deve ser superior á idéa +poetica das eras anteriores, porque corresponde a um periodo mais +adiantado da consciencia humana, penetra com maior intensidade a +natureza e o espirito, extrae o bello da propria realidade universal, +não das visões de um subjectivismo inexperiente, e dá por base ao +sentimento, em vez de sonhos e intuições quasi instinctivas, os factos +luminosos da rasão. + +Os caracteres essenciaes d'essa poesia já hoje se podem indicar, e todos +elles se consubstanciam n'uma palavra, que resume tambem as tendencias +da nossa civilisação: o Humanismo. A inspiração social e naturalista vem +substituir a sentimentalidade toda subjectiva e pessoal, ou o +transcendentalismo contemplativo de outras idades poeticas. A poesia +deixa de duvidar e scismar, para affirmar e combater; mostra-nos o +interesse profundo e o valor ideal dos factos de cada dia; dá ás acções, +que parecem triviaes, da vida ordinaria, um caracter, e significação +universaes; e surrindo maternalmente para as creanças, as mulheres, os +simples, caminha todavia armada no meio das lutas dos homens. + +Uma tal missão ninguem dirá que é mesquinha ou vulgar: ha n'isto com que +tentar os mais altos engenhos, captivar os corações mais generosos. E, +sobretudo, deve seduzir os espiritos verdadeiramente poeticos acharem-se +em communicação directa e constante com o seu tempo, com as aspirações, +os interesses, as crenças da sociedade que os rodêa, e de cuja vida +vivem, como meio historico a que fatalmente pertencem. + +Certamente que essa evolução nova da poesia tem de ser lenta, como lenta +é a evolução do edeal social, que a deve inspirar. Ha um certo receio, e +uma certa incerteza. O novo assusta: o indistincto faz hesitar, mas +insensivelmente, e fatalmente tambem, caminha-se n'aquella direcção. Os +symptomas d'este movimento tornam-se cada dia mais accentuados. Em +França e Allemanha, sobre tudo, paizes aonde as idéas e tendencias novas +se pronunciam n'uma agitação crescente, podem já indicar-se exemplos bem +significativos; em Allemanha ainda mais do que em França. Alli a poesia +inspira-se resolutamente das lutas sociaes e religiosas do tempo, e +abalança-se já, ainda que com incerta fortuna, ás grandes composições +epicas, aonde se desenha uma sociedade, consubstanciada nos seus typos e +paixões mais caracteristicas. Entre nós, ha apenas indicios tenues e +raros, mas que, porisso mesmo, devemos recolher tanto mais +cuidadosamente, quanto parecem provar que nem tudo está inteiramente +morto no espirito portuguez, e nos animam a esperar com alguma confiança +n'um melhor futuro. + +Anthero de Quental. + + + + +NOTA + + +Na revisão d'este livro escapou uma ou outra incorrecção que não +mencionamos, e de que o leitor benevolo nos absolverá. A paginas 63, +devemos porém notar, em especial, o 3.^o verso, que insidiosamente +apparece mascarado em alexandrino puro, feição que de certo lhe não +compete. Aos entendidos concedemos plena autorisacão para demolir o +verso referido, reconstruindo-o depois como julgarem mais proprio. + + + + +INDICE + + + + +INDICE + + +I--Eu poucas vezes canto os casos melancolicos +II--Eu vi passar além vogando sobre os mares +III--Velha farça +IV--Graça posthuma +V--Historia simples +VI--A meza do festim cercada de formosas +VII--Os sonhos mortos +VIII--Falta a ordem +IX--Ó lyrios da cidade, ó corações doentes +X--Miseria santa +XI--Astro da rua +XII--Quando Martha morrer, depois do extremo arranco +XIII--As victimas +XIV--Evocacas +XV--Boas noites, coveiro, a tua enxada +XVI--Flor da moda +XVII--Ó machinas febris, eu sinto a cada passo +XVIII--A Christo +XIX--Eu tive um sonho estranho: ouvi que vou dizel-o +XX--O grande templo +XXI--A um certo homem +XXII--Á hora do silencio +XXIII--Eu quizera depois das lutas acabadas +XXIV--O velho cão +XXV--As velhitas +XXVI--As vizões +XXVII--Melancolias d'outono! eu quando além descubro +XXVIII--O velho mundo +XXIX--Eis a velha cidade, a cortezã devassa +XXX--Á noite +XXXI--A valla +XXXII--Ó vultos ideaes, fantasticos e bellos +XXXIII--Eu vejo em tua boca as petalas vermelhas +XXXIV--Nos campos +XXXV--O ultimo D. Juan +XXXVI--Formosuras do inverno! Ao sol das duas horas +XXXVII--Antigo thema +XXXVIII--A mãe +XXXIX--Arcanjo vae-te embora, é tarde em nossas casas +XL--Santa simplicidade +XLI--O velho Olimpo dorme o bom somno profundo +XLII--Os palhaços +XLIII--A hydra +XLIV--Os novos leviathãs +XLV--Sua alteza real o pequenino infante +XLVI--Versos a * +XLVII--O pobres versos meus, lançae-vos pela estrada +Appendice + + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of A Alma Nova, by Guilherme d'Azevedo + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A ALMA NOVA *** + +***** This file should be named 17639-8.txt or 17639-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + http://www.gutenberg.org/1/7/6/3/17639/ + +Produced by Rita Farinha and the Online Distributed +Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was +produced from images generously made available by National +Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).) + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +http://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. Of course, we hope that you will support the Project +Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by +freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of +this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with +the work. You can easily comply with the terms of this agreement by +keeping this work in the same format with its attached full Project +Gutenberg-tm License when you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in +a constant state of change. If you are outside the United States, check +the laws of your country in addition to the terms of this agreement +before downloading, copying, displaying, performing, distributing or +creating derivative works based on this work or any other Project +Gutenberg-tm work. The Foundation makes no representations concerning +the copyright status of any work in any country outside the United +States. + +1.E. Unless you have removed all references to Project Gutenberg: + +1.E.1. The following sentence, with active links to, or other immediate +access to, the full Project Gutenberg-tm License must appear prominently +whenever any copy of a Project Gutenberg-tm work (any work on which the +phrase "Project Gutenberg" appears, or with which the phrase "Project +Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed, +copied or distributed: + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + +1.E.2. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. However, if you provide access to or +distribute copies of a Project Gutenberg-tm work in a format other than +"Plain Vanilla ASCII" or other format used in the official version +posted on the official Project Gutenberg-tm web site (www.gutenberg.org), +you must, at no additional cost, fee or expense to the user, provide a +copy, a means of exporting a copy, or a means of obtaining a copy upon +request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other +form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm +License as specified in paragraph 1.E.1. + +1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying, +performing, copying or distributing any Project Gutenberg-tm works +unless you comply with paragraph 1.E.8 or 1.E.9. + +1.E.8. You may charge a reasonable fee for copies of or providing +access to or distributing Project Gutenberg-tm electronic works provided +that + +- You pay a royalty fee of 20% of the gross profits you derive from + the use of Project Gutenberg-tm works calculated using the method + you already use to calculate your applicable taxes. The fee is + owed to the owner of the Project Gutenberg-tm trademark, but he + has agreed to donate royalties under this paragraph to the + Project Gutenberg Literary Archive Foundation. Royalty payments + must be paid within 60 days following each date on which you + prepare (or are legally required to prepare) your periodic tax + returns. Royalty payments should be clearly marked as such and + sent to the Project Gutenberg Literary Archive Foundation at the + address specified in Section 4, "Information about donations to + the Project Gutenberg Literary Archive Foundation." + +- You provide a full refund of any money paid by a user who notifies + you in writing (or by e-mail) within 30 days of receipt that s/he + does not agree to the terms of the full Project Gutenberg-tm + License. You must require such a user to return or + destroy all copies of the works possessed in a physical medium + and discontinue all use of and all access to other copies of + Project Gutenberg-tm works. + +- You provide, in accordance with paragraph 1.F.3, a full refund of any + money paid for a work or a replacement copy, if a defect in the + electronic work is discovered and reported to you within 90 days + of receipt of the work. + +- You comply with all other terms of this agreement for free + distribution of Project Gutenberg-tm works. + +1.E.9. If you wish to charge a fee or distribute a Project Gutenberg-tm +electronic work or group of works on different terms than are set +forth in this agreement, you must obtain permission in writing from +both the Project Gutenberg Literary Archive Foundation and Michael +Hart, the owner of the Project Gutenberg-tm trademark. Contact the +Foundation as set forth in Section 3 below. + +1.F. + +1.F.1. Project Gutenberg volunteers and employees expend considerable +effort to identify, do copyright research on, transcribe and proofread +public domain works in creating the Project Gutenberg-tm +collection. Despite these efforts, Project Gutenberg-tm electronic +works, and the medium on which they may be stored, may contain +"Defects," such as, but not limited to, incomplete, inaccurate or +corrupt data, transcription errors, a copyright or other intellectual +property infringement, a defective or damaged disk or other medium, a +computer virus, or computer codes that damage or cannot be read by +your equipment. + +1.F.2. LIMITED WARRANTY, DISCLAIMER OF DAMAGES - Except for the "Right +of Replacement or Refund" described in paragraph 1.F.3, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation, the owner of the Project +Gutenberg-tm trademark, and any other party distributing a Project +Gutenberg-tm electronic work under this agreement, disclaim all +liability to you for damages, costs and expenses, including legal +fees. YOU AGREE THAT YOU HAVE NO REMEDIES FOR NEGLIGENCE, STRICT +LIABILITY, BREACH OF WARRANTY OR BREACH OF CONTRACT EXCEPT THOSE +PROVIDED IN PARAGRAPH F3. YOU AGREE THAT THE FOUNDATION, THE +TRADEMARK OWNER, AND ANY DISTRIBUTOR UNDER THIS AGREEMENT WILL NOT BE +LIABLE TO YOU FOR ACTUAL, DIRECT, INDIRECT, CONSEQUENTIAL, PUNITIVE OR +INCIDENTAL DAMAGES EVEN IF YOU GIVE NOTICE OF THE POSSIBILITY OF SUCH +DAMAGE. + +1.F.3. LIMITED RIGHT OF REPLACEMENT OR REFUND - If you discover a +defect in this electronic work within 90 days of receiving it, you can +receive a refund of the money (if any) you paid for it by sending a +written explanation to the person you received the work from. If you +received the work on a physical medium, you must return the medium with +your written explanation. The person or entity that provided you with +the defective work may elect to provide a replacement copy in lieu of a +refund. If you received the work electronically, the person or entity +providing it to you may choose to give you a second opportunity to +receive the work electronically in lieu of a refund. If the second copy +is also defective, you may demand a refund in writing without further +opportunities to fix the problem. + +1.F.4. Except for the limited right of replacement or refund set forth +in paragraph 1.F.3, this work is provided to you 'AS-IS', WITH NO OTHER +WARRANTIES OF ANY KIND, EXPRESS OR IMPLIED, INCLUDING BUT NOT LIMITED TO +WARRANTIES OF MERCHANTIBILITY OR FITNESS FOR ANY PURPOSE. + +1.F.5. Some states do not allow disclaimers of certain implied +warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages. +If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the +law of the state applicable to this agreement, the agreement shall be +interpreted to make the maximum disclaimer or limitation permitted by +the applicable state law. The invalidity or unenforceability of any +provision of this agreement shall not void the remaining provisions. + +1.F.6. INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at http://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at http://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit http://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: http://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + http://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + +*** END: FULL LICENSE *** + diff --git a/17639-8.zip b/17639-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..0da2906 --- /dev/null +++ b/17639-8.zip diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize +this eBook outside of the United States should confirm copyright +status under the laws that apply to them. diff --git a/README.md b/README.md new file mode 100644 index 0000000..392c171 --- /dev/null +++ b/README.md @@ -0,0 +1,2 @@ +Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for +eBook #17639 (https://www.gutenberg.org/ebooks/17639) |
