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+The Project Gutenberg EBook of A Alma Nova, by Guilherme d'Azevedo
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: A Alma Nova
+
+Author: Guilherme d'Azevedo
+
+Release Date: January 30, 2006 [EBook #17639]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A ALMA NOVA ***
+
+
+
+
+Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
+Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
+produced from images generously made available by National
+Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)
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+GUILHERME D'AZEVEDO
+
+A ALMA NOVA
+
+
+LISBOA
+
+TYPOGRAPHIA SOUSA & FILHO
+
+Rua do Norte, 145
+
+1874
+
+
+
+
+A ANTHERO DE QUENTAL
+
+
+
+
+A ANTHERO DE QUENTAL
+
+_Meu amigo.
+
+
+Este livro parece-me um pouco do nosso tempo. Sorrindo ou combatendo,
+fala da Humanidade e da Justiça, inspirando-se no mundo que nos rodeia.
+
+E porque julgo que elle segue na direcção nova dos espiritos, offereço-o
+a um obreiro honesto do pensamento: a uma alma lucida, moderna e
+generosa_.
+
+Dezembro de 1873.
+
+Guilherme d'Azevedo.
+
+
+
+
+I
+
+
+Eu poucas vezes canto os casos melancolicos,
+Os lethargos gentis, os extasis bucolicos
+E as desditas crueis do proprio coração;
+Mas não celebro o vicio e odeio o desalinho
+Da muza sem pudor que mostra no caminho
+A liga á multidão.
+
+A sagrada poesia, a peregrina eterna,
+Ouvi dizer que soffre uma affecção moderna,
+Uns fastios sem nome, uns tedios ideaes;
+Que ensaia, presumida, o gesto romanesco
+E, vaidosa de si, no collo eburneo e fresco,
+Põe crémes triviaes!
+
+Oh, pensam mal de ti, da tua castidade!
+Deslumbra-os o fulgor dos astros da cidade,
+Os falsos ouropeis das cortezãs gentis,
+E julgam já tocar-te as roçagantes vestes
+Ó deusa virginal das coleras celestes,
+Das graças juvenis!
+
+Retine a cançoneta alegre das bachantes,
+Saudadas nos wagons, nos caes, nos restaurantes,
+Visões d'olhar travesso e provocantes pés,
+E julgam já escutar a voz do paraiso,
+Amando o que ha de falso e torpe no sorriso
+Das musas dos cafés!
+
+Oh, tu não és, de certo, a virgem quebradiça
+Estiolada e gentil, que vem depois da missa
+Mostrar pela cidade o seu fino desdem,
+Nem a fada que sente um vaporoso tedio
+Emquanto vae sonhando um noivo rico e nédio
+Que a possa pagar bem!
+
+Nem posso mesmo crêr, archanjo, que tu sejas
+A menina gentil que ás portas das egrejas
+Emquanto a multidão galante adora a cruz,
+A bem do pobre enfermo á turba pede esmola
+Nas pompas ideaes da moda, que a consola
+Das magoas do Jesus!
+
+E nas horas de luta emquanto os povos choram
+E a guerra tudo mata e os reis tudo devoram,
+Não posso dizer bem se acaso tu serás
+A senhora que espalha os languidos fastios
+Nos pomposos salões, sorrindo a fazer fios
+Á viva luz do gaz!
+
+Tu és a apparição gentil, meia selvagem,
+D'olhar profundo e bom, de candida roupagem,
+De fronte immaculada e seios virginaes,
+Que desenha no espaço o limpido contorno
+E cinge na cabeça o virginal adorno
+De folhas naturaes.
+
+Tens a linha ideal das candidas figuras;
+As curvas divinaes; as tintas sãs e puras
+Da austera virgindade; as bellas correcções;
+E segues magestosa em teu longo caminho
+Deixando fluctuar a tunica de linho
+Ás frescas virações!
+
+Quando trava batalha a tua irmã Justiça
+Acodes ao combate e apontas sobre a liça
+Uma espada de luz ao Mal dominador:
+E pensas na belleza harmonica das cousas
+Sentindo que se move um mundo sob as louzas
+No germen d'uma flôr!
+
+N'um sorriso cruel, pungente d'ironia,
+Tambem sabes vibrar, serena, altiva e fria,
+O latego febril das grandes punições;
+E vendo-te sorrir, a geração doente,
+Sentir cuida, talvez, a nota decadente,
+Das morbidas canções!
+
+Oh, vôa sem cessar traçando nos teus hombros
+O manto constellado, ó deusa dos assombros,
+Até chegar um dia ás regiões de luz,
+Aonde, na poeira aurifera dos astros,
+Contricto, Satanaz enxugará de rastos,
+As chagas de Jesus!
+
+Logar á minha fada ó languidas senhoras!
+E vós que amaes do circo as noites tentadoras,
+Os fluctuantes véos, os gestos divinaes,
+Podeis vel-a passar n'um turbilhão fantastico,
+Voando no corcel febril, nervoso, elastico,
+Dos novos ideaes!
+
+
+
+
+II
+
+
+Eu vi passar, além, vogando sobre os mares
+O cadaver d'Ophelia: a espuma da voragem
+E as algas naturaes, serviam de roupagem
+Á triste apparição das noites seculares!
+
+Seguia tristemente ás regiões polares
+Nos limos das marés; e a rija cartilagem
+Sustinha-lhe tremendo aos halitos da aragem,
+No peito carcomido, uns grandes nenuphares!
+
+Oh! lembro-me que tu, minha alma, em certos dias
+Sorriste já, tambem, nas vagas harmonias
+Das cousas ideaes! mas hoje á luz mortiça
+
+Dos astros, caminhando; apenas as ruinas
+Das tuas creações fantasticas, divinas,
+De pasto vão servindo aos lyrios da justiça!
+
+
+
+
+III
+
+VELHA FARÇA
+
+
+Rufa ao longe um tambor. Dir-se-ia ser o arranco
+D'um mundo que desaba; ahi vae tudo em tropel!
+Vão ver passar na rua um velho saltimbanco
+E uma féra que dansa atada a um cordel.
+
+Ó funambulos vis, comediantes rotos,
+O vosso riso alvar agrada á multidão!
+E quando vós passaes o archanjo dos esgotos
+Atira-vos a flôr que mais encontra á mão!
+
+Lá vae tudo a correr: são as grotescas dansas
+D'uns velhos animaes que já foram crueis
+E agora vão soffrendo os risos das creanças
+E os apupos da turba a troco de dez réis.
+
+Conta um velho histrião, descabellado e pallido,
+Da féra sanguinaria o instincto vil e mau,
+E vae chicoteando um urso meio invalido
+Que lambe as mãos ao povo e faz jogo de páu.
+
+Depois inclina a face e obriga a que lh'a beije
+A fera legendaria olhada com pavor:
+E uma deosa gentil, vestida de bareje,
+Annuncia o prodigio a rufo de tambor!
+
+E as mães erguem ao collo uns filhos enfezados
+Que nunca tinham visto a luz dos ouropeis:
+E accresce á multidão a turba dos soldados,
+--Ao ilota da cidade o escravo dos quarteis.
+
+E o funambulo grita; impõe qual evangelho
+Á turba extasiada a grande narração.
+E sobre um cão enfermo um ourangotango velho
+Passeia nobremente os gestos de truão.
+
+Correi de toda a parte, aligeirae o passo,
+Deixae a grande lida e vinde á rua vêr
+As prendas d'uma fera, as galas d'um palhaço,
+E um archanjo que sua e pede de beber!
+
+A tua imagem tens ó povo legendario
+No comico festim que mal podes pagar,
+Pois tu ainda és no mundo o velho dromedario
+Que a vara do histrião nas praças faz dansar.
+
+
+
+
+IV
+
+GRAÇA POSTHUMA
+
+
+Depois da tua morte eu heide ver se arranco,
+N'uma noite serena, ao teu berço final,
+Um producto mimoso;--um grande lyrio branco
+Da alvura do teu collo eburneo e divinal!
+
+Aquella flôr suave, ó minha visão estherica,
+Debruçada gentil, na taça em que a puzer,
+Fazer-me-ha lembrar a graça cadaverica
+Do teu corpo franzino e ethereo de mulher!
+
+E mesmo conterá, de certo, alguma cousa
+Do que me traz submisso e prezo ao teu olhar:
+--Teu corpo a pouco e pouco irá fugindo á louza
+Depois tornado em lyrio á terra hade voltar!--
+
+E em longas noites, n'elle, eu beberei sosinho,
+Sonhando as convulsões d'uns lindos braços nús,
+A fragrancia que exhala a candidez do linho
+Em que hoje ondeias leve e onde os meus labios puz,
+
+--Saudando a boa mãe que faz com que eu te gose
+Depois do verme vil teu seio polluir,
+Mais pura no frescor de tal metamorphose
+Do que eras a scismar, do que eras a sorrir!
+
+Ó minha doce Ophelia! Os rapidos momentos
+Da vida, são crueis mas passam como um som!
+Um dia quando em fim dos velhos sedimentos
+Teu corpo renascer n'um lyrio immenso e bom,
+
+Talvez que eu durma já tambem sob os matizes
+Das flôres, ao sorrir das mil germinações,
+Dando um pasto fecundo ás tuas sãas raizes
+Depois de te sagrar as ultimas canções!
+
+
+
+
+V
+
+HISTORIA SIMPLES
+
+
+Havia um rapaz são, robusto, bom, valente,
+De espadua larga e rija; um ceifador gentil.
+Cavava todo o dia, andou sempre contente
+E a feria dava á mãe sem falta d'um ceitil.
+
+Elle amava a campina e os ceus largos, serenos.
+Aos domingos a mãe deixava-lhe uns dez reis.
+Deitava-se ao luar, dormindo sobre os fênos,
+Na fragrancia do trêvo, ao pé dos cães fieis.
+
+A mãe tinha de seu duas vaquitas mansas:
+N'um cerro agreste e vil alguns palmos de chão.
+E tinha ainda mais não sei quantas creanças
+Que andavam nuas sempre e sempre a pedir pão.
+
+O pae mal se sustinha ás vezes sobre as pernas:
+Era bebado e mau, batia na mulher;
+E á noite, ao scintillar dos vinhos nas tavernas,
+Cantava canções vis de a gente ensurdecer.
+
+Um dia uma senhora honesta da cidade,
+Esplendida, gentil, sabendo-se sorrir,
+Reparou no rapaz; achou-lhe propria a idade
+E fez-lhe um certo gesto:--o moço não quiz ir.
+
+Teve um assomo de raiva, então, sua excellencia.
+Ordenou-lhe que fosse: o moço disse,--irei!
+Despediu-se dos seus: devia obediencia
+Á senhora gentil que se chamava... a Lei!
+
+Pegou no velho alforge e no bordão nodozo
+E metteu-se a caminho. Os pobres dos irmãos
+Choravam á partida:--um quadro doloroso!
+A mãe louca de dôr torcia as magras mãos!
+
+Chegando no outro dia ao ponto onde o chamaram
+Primeiro foi medido e todos a final,
+Depois de bem revisto, á uma, concordaram
+Que ao serviço do rei convinha este animal!
+
+Aquell'outra senhora, astuta, grave, terna,
+--A ordem--jubilava em doces pulsações!
+Contava mais um servo, um filho, na cazerna,
+Gastando pouco mais:--uns cobres e uns feijões!...
+
+Agora quando passa o batalhão luzente
+Na rua, podeis ver o pobre cavador
+Com modos imbecis, marchar pesadamente
+--Heroe por conta alheia--ao rufo do tambor!
+
+Não sabe onde caminha entre as guerreiras hostes!
+Perguntem-lhe o que é patria e liberdade e lei!
+Caminha simplesmente ás ordens dos prebostes
+Que trazem no chicote a salvação do rei.
+
+E na pobre cabana ainda se conserva
+O mesmo quadro triste:--a lacrimosa mãe;
+Alguns pequenos nús rolando sobre a herva,
+E um ebrio que pragueja e não pensa em ninguem!--
+
+Mulher não chores mais: a quadra é pura e bella:
+Emquanto na campina alouram os trigaes,
+Teu filho guarda o mundo e a Deus faz sentinella:
+Receiam que Deus faça andar o mundo mais.
+
+Em breve elle virá de jubilo e d'assombro
+Encher tua alma, em fim, quando ámanhã voltar
+Com seu velho canudo, a trouxa posta ao hombro,
+Trazendo novamente a luz ao pobre lar.
+
+E tu perguntarás: o que é meu filho, é ouro!!
+A quantas guerras foste? ó ceus, como tu vens!
+--Mãe tome essa lata! esconda o meu thesouro
+E deixe-me ir dormir no fêno ao pé dos cães!
+
+
+
+
+VI
+
+
+Á meza do festim, cercada de formosas,
+O canto dos cristaes e o scintillar dos vinhos
+Saudavam juntamente os bellos desalinhos
+Das galantes vizões das ceias luminozas!
+
+Molhavam-se em champagne as pétalas das rozas!
+E em baixo, a nossos pés, em leves murmurinhos
+A gaze sobreposta á candidez dos linhos
+Erguia-se n'um mar de vagas caprichosas!
+
+Ali tudo era paz! Nem odios vis nem zelos!
+Os labios pois limpando ás rendas e aos cabellos
+Da menos trivial das fadas tentadoras,
+
+Eu brindo aos mortos!--disse: á legião sagrada
+Que foi á solidão, á eternidade, ao nada!
+--Ás almas e ao pudor d'estas gentis senhoras.
+
+
+
+
+VII
+
+OS SONHOS MORTOS
+
+
+Embora triste a noite, a vagabunda lua
+Mais branca do que nunca erguia-se nos ceus,
+Igual a uma donzella ingenua e toda nua
+No leito ajoelhada erguendo a fronte a Deus!
+
+O mar tinha talvez scintillações funestas.
+A praia estava fria, as vagas davam ais;
+Semelhavam, ao longe, as extensas florestas
+Fantasmas ao galope em monstros colossaes.
+
+E eu vi n'um campo immenso, agreste e desolado,
+Immerso no fulgor diaphano da luz,
+Juncando tristemente o solo ensanguentado
+Sinistra multidão de corpos semi-nus!
+
+Tinha a morte cruel, em sua orgia louca,
+Deposto em cada fronte um osculo brutal;
+E um ironico rizo ainda em muita boca
+Se abria, como a flôr fantastica do mal!
+
+E eu vi corpos gentis de virgens delicadas
+Beijando a fria terra, as mãos hirtas no ar,
+Em sagrada nudez!... Cabeças decepadas!...
+Em muito peito ainda o sangue a borbulhar!...
+
+E sobre a corrupção das brancas epidermes
+Luzentes de luar e d'esplendor dos ceus,
+Orgulhosos passando os triumphantes vermes,
+Da santa formosura os ultimos Romeus!
+
+Se tu minha alma livre ainda hoje conservas
+Memoria das vizões que amaste com fervor
+Ahi as tens agora alimentando as ervas
+De novo dando á terra o que ella deu á flôr!
+
+São ellas! as vizões dos meus dias felizes,
+Meus sonhos virginaes, as minhas illusões,
+Que a seiva dão agora aos vermes e ás raizes,
+Que em pasto dão seu corpo a novos corações!
+
+São as sombras que amei, divinas, castas, bellas;
+As chymeras gentis, os vagos ideaes,
+Que de rozas cingi, que illuminei d'estrellas,
+E que não podem já da terra erguer-se mais!
+
+
+
+
+VIII
+
+FALA A ORDEM
+
+
+Pequeno, d'onde vens cantando a Marselhesa;
+Da barricada infame, ou d'outra vil torpeza?
+
+Que esplendido porvir! Do nada apenas sahes
+Começas a morder as purpuras reaes
+Ó filho trivial da livida canalha!...
+E, vamos, deixa ver, guardaste uma navalha,?!
+Não tremas que eu bem vi! que trazes tu na mão?
+Intentas já limar as grades da prizão,
+
+Fazendo scintillar um ferro contra o solio
+Archanjo que adejaes nos fumos do petroleo?!...
+Mas, vamos abre a mão: não queiras que eu te dê.
+
+Bandido eu bem dizia!--a carta do A B C!...
+
+
+
+
+IX
+
+
+Ó lirios da cidade, ó corações doentes
+Das vagas affecções modernas e galantes;
+Eu sei que vós morreis aos sons agonisantes
+Das orchestras febris,--nos sonhos dissolventes!
+
+Sois os fructos gentis que balançaes pendentes
+Nas arvores da vida; e os pobres viajantes
+Famintos d'ideal, sorriem triumphantes
+Julgando-vos colher nas seivas innocentes!
+
+E tragam com fervor o pomo apetecido
+Que deve ter um mel oculto no tecido,
+--Um raio bom do sol que nos sorri tão alto;
+
+Mas vós que sois da moda um luminozo aborto,
+Como os fructos crueis das margens do mar morto
+Apenas conteis dentro uma porção d'asphalto!
+
+
+
+
+X
+
+MISERIA SANTA
+
+
+Entrando esta manhã n'um templo da cidade
+Aberto á multidão mas triste e quasi só,
+O ver ao desamparo a velha magestade
+N'um throno a desabar, meteu-me certo dó.
+
+Restavam tão somente alguns dourados velhos
+Do passado esplendor, e foi-me facil ver
+Que uma nuvem de pó cobria os evangelhos
+Como cousa esquecida e impropria de se ler!
+
+A virgem, sobretudo; a mãe predestinada
+Que o Golgotha lavou nas lagrimas de fel
+Que sempre hade chorar toda a mulher amada,
+Ou seja a mãe de Christo, ou seja a de Rossel;
+
+Achei-a desolada e triste lá n'um canto,
+Sem pompas e sem luz, coberta d'ouropeis
+Tão velhos como o roto e desbotado manto
+Que ha muito, já, deveu á crença dos fieis!
+
+Dizer-me póde alguem d'affectos bons e puros
+Que eu posso ainda encontrar as bellas cathedraes
+Aonde o simples Christo e os martyres obscuros
+Campeiam no fulgor de pompas theatraes.
+
+Bem sei; mas como disse, o acaso ou o quer que fosse
+Levou-me a um templo pobre e foi n'elle que vi
+Que ha mendigos do céo, d'olhar sereno e doce,
+Proletarios do altar a quem ninguem sorri!
+
+E ao ver esta humildade,--eu tenho d'isto ás vezes,--
+Pensei, não sei porque, nas morbidas vizões
+Que não passam de ser as filhas dos burguezes
+Mas de rendas de França enfeitam seus roupões!
+
+
+
+
+XI
+
+ASTRO DA RUA
+
+
+Fazia hontem já tarde um nevoeiro espesso.
+--Que insonia em mim produz este humido vapor!--
+Eu vinha enfastiado, ou turvo, emfim confesso,
+Dos fumos do café, da luz e do rumor.
+
+Um fantastico véo cobria as longas praças;
+E o gaz ria atravez da grande cerração
+Que em lagrimas descia ao longo das vidraças
+E em flocos d'alva neve humedecia o chão.
+
+Eu mesmo achava em tudo um tom maravilhoso.
+Dispuz-me a crer no ceu a amar este ideal:
+Do subito eis que passa um astro radioso
+Luzindo-me atravez do magico cendal!
+
+Que vaga exhalaçao ó cousas vis que adoro!
+Que bello olhar de Deus, deixae-me assim dizer!
+Pelo sulco de luz julguei um meteóro,
+Pelo aroma subtil sonhei uma mulher!
+
+Passou porém, fugiu: no fim eis em resumo
+A sua breve historia! o sonho é sempre assim!
+Ha cousas que ao passar ainda deixam fumo:
+Aquella só deixava um vacuo dentro em mim.
+
+Archanjos caminhae, que eu espero o grande dia
+Da nossa atroz vingança, ó despotas do ceu!
+Nossa alma anda algemada á vossa tirannia
+Mas hade erguer-se a escrava...--Assim dizia eu
+
+E a mesma aparição de novo a deslumbrar-me!
+De novo a mesma aurora o espaço a illuminar!
+Agora pude vêl-a e posso recordar-me
+Dos abysmos de luz que havia em seu olhar.
+
+O astro vinha envolto em nuvens d'escumilha:
+De resto era uma fada, eu mais não sei dizer.
+Deixava atraz de si um aroma de baunilha
+D'um louco se abysmar d'um pobre enlouquecer!
+
+Quem quer que sejas tu, que sejam sempre bellos
+Teus ceus sem vendaval, teus dias sem revez!
+Feliz de quem poder beijar os teus cabellos
+E aos labios aquentar os teus pequenos pés!
+
+--Dizendo caminheí. Porém novo prodigio!
+Ainda a perseguir-me a mesma aparição
+E eu ainda sentia o lucido vestigio
+Que ha pouco em mim deixára a outra exhalação!
+
+Mas agora reparo, attento em sua chama!
+Que olhar tão insolente, o ceu não luz assim!
+Na gaze que ella arrasta ha um debrum de lama,
+Na face macerada uns traços de carmim!
+
+Oh! astro! emfim conheço a orbita que traça
+O teu curso veloz! bem sei onde tu vaes!
+Prosegue no teu giro em volta d'essa praça
+E Deus te dê mais luz e menos lamaçaes.
+
+
+
+
+XII
+
+
+Quando Martha morrer, depois do extremo arranco,
+Não tratem d'orações;
+Desprendam-lhe o cabello o vistam-a de branco
+Á moda das visões.
+
+Desejo vel-a então passar d'esta maneira
+Depois de tal revêz,
+Por entre a chama azul e tenue da poncheira
+No fumo dos cafés.
+
+Áquelle bom paiz das pallidas chymeras,
+Monotonia azul;
+Não temam que ella vá no fogo das espheras
+Queimar o véu de tulle.
+
+Assusta-a muito o frio, a chuva, o sol dos tropicos
+A nuvem triste e vã,
+E pódem-lhe prender os pés tão microscopicos
+As nevoas da manhãa!
+
+De noite ella virá com seus trajes singellos,
+Archanjo d'outros ceus,
+Nos suspiros febris dos meigos violoncellos
+Dizer-nos mal de Deus.
+
+Contar-nos por que foge á doce transparencia
+Que o ceu formoso tem,
+Meiga filha gentil da mesma decadencia
+Que é nossa boa mãe.
+
+Se as lagrimas de luz que chora o firmamento
+Em noites de luar,
+Ao seu pescoço nú podessem, n'um momento,
+Cingir-se n'um collar;
+
+De certo ella daria ao pallido comêta
+E á estrella trivial,
+A mesma adoração que dava á cançoneta
+Que amou até final!
+
+E á saida do circo, ao astro romanesco,
+Á noite iria, então,
+Contar, ainda a sorrir, o ardor funambulesco
+Do livido truão!
+
+Assim, não quer ouvir aos córos invisiveis
+Um hymno d'enfadar,
+Cantado por milhões d'archanjos insensiveis
+Sem um que a possa amar!
+
+E não lhe esquecem nunca os rapidos instantes
+Do que ella amava mais:
+--A vida illuminada á luz dos restaurantes
+N'um sonho de cristaes!
+
+
+
+
+XIII
+
+AS VICTIMAS
+
+
+Eu vejo muita vez e raro já me assombro
+--Minha alma tanto afiz ás tristes commoções!--
+Na rua, junto a mim, passar hombro com hombro
+No transito penozo as longas procissões,
+
+De victimas da sorte e victimas do mundo!
+Umas boas, gentis, outras feias, crueis,
+Envoltas n'um sudario ou n'um burel immundo;
+Nas pompas theatraes, nas galas dos bordeis,
+
+Não são filhas do sonho ou creaçoes chymericas
+Da mente allucinada, ou vagos ideaes;
+São magros peitos nús, são faces cadavericas,
+São as tristes, as vís desolações carnaes.
+
+São pequenos sem pão que vão pedindo esmola
+Nas lamas encharcando os regelados pés:
+Que dormem nos portaes, que nunca vão á escóla
+--Flôres que enfeitarão a noite das galés!
+
+São aquellas gentis e pobres costureiras
+De peito comprimido; anemica expressão;
+Que passam a tossir, cansadas, com olheiras,
+Ganhando em todo o dia apenas um tostão,
+
+Curvadas a cozer o languido velludo,
+O irritante setim dos grandes enxovaes,
+Das princezas do Banco, herdeiras d'isto tudo;
+Depois indo morrer nos tristes hospitaes!
+
+São os pobres heroes que os seus irmãos combatem;
+Que morrem sob o pezo enorme dos canhões,
+E o cortejo de mães pedindo aos reis que as matem
+E os reis fazendo rir das suas maldições!
+
+São da lugubre noite umas flôres sem nome
+Batidas muito já dos grandes vendavaes,
+Que, por que sentem frio ou por que sentem fome,
+Derramam pelo seio aromas triviaes
+
+E fingem depois ser apparições divinas,
+Erguendo um pouco a saia, a fimbria sensual,
+Abrindo um vil leilão de beijos, nas esquinas,
+Aos apetites vís da multidão brutal!
+
+São mineiros sem luz; são velhos britadores,
+Que o contacto da pedra um dia endureceu,
+Queimados pelo sol, gelados nos horrores
+Do tumulo cruel que em vida os recebeu!
+
+São aquelles heroes, em fim, dos grandes sonhos,
+Que sentiram na terra as vastas corrupções
+E ás turbas apontando uns mundos mais risonhos
+Tentaram espedaçar os ultimos grilhões
+
+E que passam tambem um tanto contristados,
+Talvez cheios de tedio, ao verem que hoje, nós,
+Os deixamos seguir ainda apedrejados
+Não raro desprezando a sua augusta voz!
+
+E a grande multidão de martyres sublimes,
+De tristes semi-nús, constante a caminhar,
+Aos ceus erguendo as mãos, queixando-se dos crimes
+Dos despotas que aos pés não cessam de os calcar!
+
+A fila tenebroza, a procissão de victimas,
+Augmenta mais e mais; não deixa de crescer!
+E do estygma cruel das penas mais legitimas
+Em muita fronte bella um traço podeis ver!
+
+Caminhe muito embora: a sorte é sempre varia
+E a turba soffredora, ó grandes bem sabeis,
+Podia dividir a tunica cezarea
+Lançando aos que estão nús a purpura dos reis!
+
+
+
+
+XIV
+
+EVOCAÇÃO
+
+
+Levanta-te Romeu do tumulo em que dormes
+E vem sorrir de novo á boa, á eterna luz!
+De noite, ouço dizer que ha sombras desconformes
+E as noites do passado, oh, devem ser enormes
+Na atonia fatal das larvas e da cruz!
+
+Conchega gentilmente ao peito carcomido
+Os restos do teu manto:--assim, que bem que estás!
+
+Na terra hão de julgar-te um grande Aborrecido
+Que busca desdenhoso o centro do ruido
+Nas horas vis do tedio e das insonias más.
+
+O mundo transformou-se; aquelle fundo abysmo
+Do antigo amor fatal, fechou-se d'uma vez,
+E tu filho gentil do velho romantismo,
+Tu vens achar dormindo o rude prozaismo
+No berço onde sonhava a doce candidez!
+
+No entanto pódes crer; faz muito menos frio
+Á luz do novo sol; do gaz provocador;
+E o seculo apezar de gasto e doentio,
+Não pode já escutar o cantico sombrio
+Que fala de edeaes e cousas sem valor!
+
+Em paz deixa dormir a terna Julieta
+Que aos ceos ainda por ti levanta as brancas mãos;
+E em quanto por mim corre a tetrica ampulheta,
+Da muza alegre e vil da torpe cançoneta
+Saudemos a nudez a par dos bons pagãos!
+
+Nas praças, tu bem vês; a turba prazenteira
+Innunda-se na luz de mil constellacões!
+E os archanjos da rua assomam na poeira
+Que exhala o macadam, trazendo em cada olheira
+O astro creador das grandes sensações!
+
+E quando a cotovia á estrella matutina
+Mandar a saudação, lá fora, em pleno céo,
+Romeu tu beijarás, que é tua eterna sina,
+A trança da belleza anemica e franzina
+Que entre os fumos da festa, a amar, adormeceu!
+
+
+
+
+XV
+
+
+Boas noites coveiro: a tua enxada
+Não cessa ha tanto tempo de cavar?!
+Cavalleiro da morte, ó fronte desolada
+Não sentes a mão tremula e cançada
+De tanto trabalhar!
+
+Tu esperas hoje as legiões sombrias
+De mortos, que eu supponho ao longe ver?
+Os felizes caídos nas orgias
+E os tristes que além todos os dias
+O gelo vem colher?!
+
+Que immensa valla aberta! são medonhos
+Os risos d'essa boca infame, alvar!...
+Descansa dos teus dias enfadonhos!
+--Eu cavo a sepultura dos teus sonhos
+Não posso descançar!
+
+
+
+
+XVI
+
+FLOR DA MODA
+
+
+Alice, o turbilhão das salas elegantes,
+Começa a entristecer; ninguem sabe por quê!
+Aquella flôr doente amava muito d'antes
+As festas, o ruido, as cousas deslumbrantes,
+Agora é desolada e penso que descrê.
+
+Que tedio se abrigou na vaga transparencia
+D'um todo tão subtil, aerio, divinal.
+--Moderna creação da santa decadencia,
+Que alia gentilmente ás pompas da regencia
+Os indecisos tons d'um ar sentimental?!
+
+Archanjo por quem és! desvenda esse mysterio
+Das vagas oppressões da tua insomnia má,
+E diz-me o teu sonhar visão do baixo imperio,
+Vestal que amas o gaz e tens o fogo ethereo
+Na conta d'uma cousa um tanto usada já!
+
+No idylio pastoril das noites venturosas
+Não sonhas tu de certo, e raro o hão de sonhar
+N'um mundo todo nosso, as bellas desditosas
+Que em trinta annos de fogo as suas velhas rozas
+Nos grandes vendavaes sentiram desbotar!
+
+E quando a augusta voz do mar ou das florestas
+Abala o coração dos justos e dos bons,
+Bem sei que tu não vaes, fugindo ás grandes festas,
+
+No amor das castelãs scismar entre as giestas
+Com medo que te acorde a bulha dos wagons!
+
+Eu sei talvez teu mal! A febre que hoje sentes
+Abraza a geração de lyrios ideaes
+Que passam, como tu, galantes e doentes,
+D'um amor desordenado ás cousas dissolventes,
+Ás vozes da guitarra e aos cantos sensuaes!...
+
+E tem de os consumir a grande nostalgia
+D'um mundo mais á moda e menos trivial,
+Onde haja um grande caso, ao menos, cada dia
+E se possa esquecer a vil monotonia
+De tudo que nos cerca:--Alice eis o teu mal mal!
+
+No entanto eu sei que és boa: apenas das insomnias
+A febre, mãe cruel d'estranhas sensações,
+Na fria placidez do gaz e das bigonias
+Construe na tua mente as grandes babylonias
+D'um mundo extraordinario e monstro de visões!
+
+Tocou-te um mal galante: és tenue e caprichosa:
+És boa e fazes gala em que te julguem má.
+E sentes sobre tudo uns tedios côr de rosa
+E os extasis crueis d'uma mulher nervosa:
+--Se existe a mulher-flôr, tu és a flôr de chá!
+
+E chame-te o bom Deus ao foco aonde brilha
+Aquella eterna luz, amor dos immortaes,
+Que tu amortalhada em rendas e escumilha
+Achar deves, talvez, da moda, ó terna filha,
+O céo modesto um pouco e os anjos triviaes!
+
+
+
+
+XII
+
+
+Ó machinas febris! eu sinto a cada passo,
+Nos silvos que soltaes, aquelle canto immenso,
+Que a nova geração nos labios traz suspenso
+Como a estancia viril d'uma epopea d'aço!
+
+Emquanto o velho mundo arfando de cansaço
+Prostrado cae na luta; em fumo negro e denso
+Levanta-se a espiral d'esse moderno incenso
+Que offusca os deuses vãos, anuviando o espaço!
+
+Vós sois as creações fulgentes, fabulosas,
+Que, vibrantes, crueis, de lavas sequiosas,
+Mordeis o pedestal da velha Magestade!
+
+E as grandes combustões que sempre vos consomem
+Começam, n'um cadinho, a refundir o homem
+Fazendo resurgir mais larga a Humanidade!
+
+
+
+
+XVIII
+
+A CHRISTO
+
+
+Precisamos Jesus, se não te sentes velho,
+Que cinjas novamente o resplendor de luz
+E venhas explicar a letra do evangelho
+A muitos que hoje vês prostrados ante a cruz!
+
+Ainda não cessou, de todo, essa contenda
+Que um dia, ha muito já, tentaste debellar:
+E aquelles que são bons e adoram tua lenda
+Desejavam tambem ouvir-te hoje falar.
+
+Apenas resoasse o teu verbo indignado,
+O latego febril das grandes corrupções,
+Iria atraz de ti um mundo revoltado
+Que sente na consciencia a luz das redempções.
+
+E embora não houvesse, aqui, outra alma gemea
+Da tua, e tão ungida em balsamos dos céos,
+Havias d'encontrar essa alma de bohemia
+Que sonha uma justiça e sente em si um Deus!
+
+Mas não, não voltes cá: teu corpo combalido
+Não póde supportar os gelos da manhã.
+Precisavas de pão, d'abrigo e de vestido
+E a vida aqui é cara e longo o macadam!
+
+Terias d'encontrar, de certo, mil estorvos
+No mundo revolvido, e escuta-me Jesus:
+Se não fosses, em fim, comido pelos corvos
+Talvez te fuzilasse um cura Santa-Cruz!
+
+Serias apontado a dêdo, muitas vezes,
+Como um simples bandido, um agitador feroz,
+E haviam de esconder seus ouros os burguezes
+Apenas resoasse, ao longe, a tua voz!
+
+Depois vinhas achar a par do proletario,
+Ao pé do que se innunda em bagas de suor,
+Aquelle velho Pedro, agora millionario,
+E triste por pensar que já esteve melhor!
+
+E perto do ocio vil á sombra do qual medra
+O egoismo feroz que extingue o coração,
+Lutando todo o dia o britador de pedra
+A quem á noite espera, em casa, um negro pão;
+
+E uns pequenos sem côr; talvez cheios de fome,
+Com pouca luz no olhar; atrophiados, nús;
+Abrindo os olhos muito á codea que elle come
+E indo-se deitar sem roupas e sem luz!
+
+Assim deixa-te estar. O teu cadaver triste
+Recende uma fragrancia etherea e divinal,
+Emquanto o mundo segue e vae de lança em riste
+Sem treguas combatendo as legiões do Mal!
+
+Tu foste o paladino, o trovador sagrado,
+Que falaste do amor, da paz e do perdão,
+E o ferro que varou teu corpo lado a lado
+Comtudo inda reluz altivo em muita mão!
+
+Nós, hoje, quando em luta erguemos sobre a liça
+O gladio vingador das oppressões crueis,
+Soltamos, n'um sorriso, o nome da Justiça,
+E ha quem saiba morrer sem bençãos nem laureis!
+
+Descansa pois Jesus! Bem basta que tu sintas,
+N'esse velho sepulchro, o immenso vozear
+Dos mineiros sem luz, das legiões famintas,
+Que nunca, um dia só, deixaram de lutar,
+
+Mas que hão de em fim vencer, porque a suprema essencia
+A jorros cae do céo nas mãos dos Prometheus,
+E tanto vae subindo a vaga da consciencia
+Que um dia ha de abismar-se em nós o proprio Deus
+
+
+
+
+XIX
+
+
+Eu tive um sonho estranho: ouvi que vou dizel-o.
+Era em praia dezerta, em frente a um longo mar:
+Nos céos havia a nevoa, a mãe do Pezadêlo,
+E o vago, o incerto, o informe em tudo a oscillar!
+
+De subito surgiu, na praia, uma criança
+D'olhar profundo e bom, d'angelica expressão,
+E o mar contemplou com tanta confiança
+Que nem que visse n'elle o berço d'um irmão!
+
+Mas a vaga subindo, em cada extremo arranco
+Levando ia comsigo aquella flôr dos céos!
+E em breve só boiava um tenue vulto branco
+No mar onde fluctua o espirito de Deus!
+
+Mais tarde á beira-mar chegava a pura imagem
+Da mais casta mulher que em vida pude ver.
+Detinha-se distante:--a espuma da voragem
+Só meia extenuada aos pés lhe ia morrer!--
+
+O immenso mar, porém, crescia a cada instante
+Mais turvo e mais veloz! depois... Não quiz vêr mais.
+Ergui-me e caminhei de val em val errante
+Pensando tristemente em coisas ideaes!--
+
+Ao longe, muito além, na serra desviada
+De subito encontrei--ó estranha apparição--!
+Uma pobre velhita enferma e desolada
+Trazendo já no olhar a grande cerração!
+
+Que idéa me assaltou não sei dizel-o agora.
+Aonde iria o espectro, aquella sombra vãa?
+Iria aonde vae o que hontem foi aurora
+E aonde irão tambem as rosas d'ámanhãa?...
+
+Dos meus instantes bons, ó lucida chimera,
+Bem vês que os sonhos maus são faceis d'esquecer!
+Que importa a grande noite em plena primavera,
+Que importa o que tu foste, o que és, e o que has de ser!!
+
+
+
+
+XX
+
+O GRANDE TEMPLO
+
+
+Eu não trajo o burel do magro cenobita
+Nem me posso infligir crueis macerações;
+Mas não rio d'alguem que busca a paz bemdita
+No seio casto e bom das grandes solidões.
+
+Bem sei que ha na montanha aromas penetrantes
+E certas vibrações que podem fazer mal;
+Mas se é preciso Deus, direi que é melhor antes
+Amal-o com fervor no templo universal!
+
+Em quanto sobre o altar das serras azuladas
+Mil lampadas do céo derramam toda a luz,
+Nas velhas cathedraes, já meio arruinadas,
+O Tempo,--o grande verme!--até devora a cruz!
+
+Depois é facil vêr, por entre os arabescos
+Que a arte sensual traçou com tanto amor,
+Ás vezes, o sorrir dos Satyros grotescos
+Pungindo cruelmente a face do Senhor.
+
+Ou mais; podemos nós voar todos captivos
+Do sereno ideal, d'aquelle summo bem,
+Ao vermos tanta vez os Faunos mais lascivos
+Olhando de revez a virgem nossa mãe?!
+
+E ainda mil traições: as musicas, as flôres
+Os lindos seraphins voando todos nús;
+Da sêda que se arrasta os languidos rumores
+Do incenso as espiraes; os turbilhões de luz!
+
+Oh! visto haver de tudo; aromas e decotes,
+O vinho scintillante, a viva luz do gaz;
+Que a vossa rouca voz, pomposos sacerdotes,
+Não cante apenas Deus; que solte alguns _hurrahs_!
+
+O fumo d'essa festa, a mim, pouco me assusta.
+Se eu quero alguma vez fugir do pó, voar,
+Eu tenho o val profundo ou a floresta augusta,
+As montanhas, os céos, e o bello, o vasto mar!
+
+Da casta natureza ó templo gigantesco,
+Tu és mais amplo, sim; mais livre, muito mais!
+O meigo e doce olhar do Christo romanesco
+A multidão gentil não chama aos teus umbraes.
+
+
+
+
+XXI
+
+A UM CERTO HOMEM
+
+
+Agora és todo nosso: a rude voz da historia
+Já póde hoje falar
+E dar-te um balancete ás nodoas e á gloria
+Rei-sol de _boulevard_.
+
+Que dias d'esplendor! Porém como começa
+A noite e a podridão!
+Foi Deus que te mandou tambem para a Lambessa
+Da eterna punição!
+
+Enfarda a tua gloria e leva-a que é vergonha
+Que vejam ámanhã,
+Que até lhe depennou as aguias de Bolonha
+O abutre de Sedan!
+
+E visto que em redor nenhuma estrella brilha
+E a noite é longa e má,
+No caminho do opprobrio acende a cigarrilha
+E, cezar, ouve lá:
+
+Que altiva e bella a França! aquella Gallia ardente
+Que de Valmy levou,
+Descalça, quasi núa; a Marselheza em frente;
+Nossa alma até Moscow!
+
+Seus filhos teem a fouce: envergam rudes clamydes
+Depois, caminham sós;
+E em quanto ceifam reis acordam nas Pyramides
+A alma dos Pharaós!
+
+E vão cheios de fé, bandeira solta ao vento,
+Na gleba das nações,
+Convictos semeando o novo pensamento
+No sulco dos canhões!
+
+Mas tu chegas um dia: afogas-lhe a grandeza
+E quando a tens aos pés,
+Celebras a victoria aos hymnos de Thereza,
+A musa dos cafés!
+
+Banquetes dás ao crime; e os teus heroes d'esquína
+Ainda a afrontam mais,
+Tornando a _Marselheza_ em torpe Messalina
+D'um circo de chacaes!
+
+E sobre alguns montões de mortos ainda quentes,
+Emfim campeias, tu,
+Que déste á sagração das cousas dissolventes
+Um Petroneo-Sardou!
+
+Porém, quando ao colher ainda um beijo á Fama
+Um dia avanças mais,
+Teu carro triumphal trambolha-te na lama
+E então como tu saes!...
+
+Revolves-te no horror das vis, infectas ondas
+De lodo e podridão,
+E vaes de manto roto e vestes hediondas
+Buscar a escuridão!
+
+Em vez de reclinar a fronte ao sol ardente
+Da luta que sorri,
+Do fumo dos canhões fugiste, e de repente...
+Matou-te um bistori!...
+
+Que entrada a tua, então, na funebre morada,
+Pizando, incerto, o pó,
+Á luz d'uma _lanterna_, ao vir da encruzilhada,
+Sinistro, sujo e só!
+
+Das cinzas levantou-se um brado entre os jazigos
+Dos bons e dos leaes,
+Apenas descobriste a marca dos _castigos_
+Nas faces triviaes!
+
+E quando te assustava o olhar altivo d'Hoche
+E o gesto de Danton,
+Sorria-te na sombra o amor da Rigolboche
+Meu cezar-Benoiton!
+
+73--Janeiro.
+
+
+
+
+XXII
+
+Á HORA DO SILENCIO
+
+
+Eu quiz hontem sonhar, sentir como um romantico
+A doce embriaguez do pallido luar,
+Ouvindo em pleno azul passar o immenso cantico
+Dos astros no seu giro e em sua luta o mar!
+
+A cidade dormia o somno dos devassos;
+Aquelle somno turvo, infecto e sensual:
+E a lua, antiga fada, erguia nos espaços
+Tranquilla e sempre ingenua a fronte de vestal!
+
+E sobre a quietação das coisas vis e exoticas
+Sentiam-se as febrís, crueis respirações,
+Dos tristes hospitaes e das virgens clorothicas,
+Dos amantes fataes da febre e das paixões!
+
+A noite era em silencio, a athmosphera doce
+E ria a natureza aos beijos d'um bom Deus.
+De subito escutei, ao longe, o quer que fosse
+D'um canto que suppuz então baixar dos céos!
+
+Attento ao vago som, porém, a pouco e pouco
+Senti que era uma voz disforme e sensual,
+Soltando uma canção n'aquelle accento rouco
+Da triste inspiração alcoolica e brutal!...
+
+Ó terna vagabunda, enamorada lua!
+Emquanto ias assim, diaphana e sem véo,
+Uma triste mulher passava, então, na rua
+Cuspindo uma porção d'infamias para o céo!
+
+
+
+
+XXIII
+
+
+Eu quizera depois das lutas acabadas,
+Na paz dos vegetaes adormecer um dia
+E nunca mais volver da santa lethargia,
+Meu corpo dando em pasto ás plantas delicadas!
+
+Seria bello ouvir nas moutas perfumadas,
+Emquanto a mesma seiva em mim tambem corria,
+As sãas vegetações, em intima harmonia,
+Aos troncos enlaçando as lividas ossadas!
+
+Ó belleza fatal que ha tanto tempo gabo:
+Se eu volvesse depois feito em jasmins do Cabo,
+--Gentil metamorphose em que n'esta hora penso;--
+
+Tu, felina mulher com garras de veludo
+Havias de trazer meu espirito, comtudo,
+Envolto muita vez nas dobras do teu lenço!
+
+
+
+
+XXIV
+
+O VELHO CÃO
+
+
+Soltava hontem já tarde um velho cão felpudo
+Uns doloridos ais,
+Em frente d'um palacio altivo, bello e mudo,
+Cerrado aos vendavaes.
+
+Fazia pena ouvil-o, o misero mollosso
+Em seu triste chorar!
+Era quasi uma sombra: apenas pelle e osso
+E um vago, um doce olhar!...
+
+Eis a sorte cruel do pobre que não come,
+Dos miseros sem pão!
+Em paga ainda em cima os vae tragando a Fome,
+A negra apparição!
+
+Latia o cão faminto. O frio era mordente,
+Feroz, quasi voraz!
+E o pobre não sabia, em fim, que ha muita gente
+Que adora a santa paz.
+
+Ora perto vivia uma galante rosa,
+Etherea, virginal,
+Que tinha um lindo collo, amava, era nervosa
+E a quem fazia mal,
+
+Aquelle uivar sinistro; a ponto de em desmaios
+Pender a fronte ao chão!
+Saíram pois á rua impavidos lacaios
+E foram dar no cão.
+
+--Ha no mundo um rafeiro, um velho cão esfaimado,
+--O povo soffredor,
+Que ás vezes vae ganir, com fome, o seu bocado
+Ás portas d'um senhor.
+
+O resto é velha historia: ocioso é já dizer-vos
+O fim que ella ha de ter.
+A Ordem, só d'ouvil-o, alteram-se-lhe os nervos
+E manda-lhe bater!
+
+
+
+
+XXV
+
+AS VELHITAS
+
+
+Eu não professo muito o culto das ruinas.
+Prefiro uma officina ás velhas barbacãs;
+Das velhinhas, porém, mirradas, pequeninas,
+No entanto nunca insulto as prateadas cãns.
+
+Deixal-as caminhar, curvadas, vagarosas,
+Com seu bento rozario, os seus fofos beitões,
+A rirem-se de nós, crueis, maliciosas,
+Sagazes comentando as nossas illusões!
+
+Ah, velhitas sem côr! cabeças regeladas,
+Vulcões de que só resta a cinza e nada mais:
+Já fostes as visões; talvez as brancas fadas;
+Prendestes vossos pés nos humidos rosaes;
+
+Tivestes já no olhar os bons reflexos magicos
+Dos lagos ideaes cubertos de luar;
+As curvas sensuaes, os bellos dedos tragicos;
+As rosas más do inferno, os lyrios bons do altar!
+
+Pendestes já scismando as frontes melancolicas
+Nas varandas á noite, amantes dos Titães
+Do bello amor antigo! ó Marcias das bucolicas!
+E agora apenas sois as mães de nossas mães!
+
+Segui vosso caminho: as graciosas fadas,
+As bellas da cidade, anémicas, gentis,
+Sorriem-se, talvez, das fitas desbotadas,
+Dos provectos chapéos, das gallas que vestis!
+
+Oh! mostrando os trophéos das vossas velhas rosas,
+Dizei-lhes, a sorrir das futeis illusões,
+Que fostes já, tambem, galantes e nervosas
+Mas destes isso tudo a varios corações!
+
+Agora tendes pouco: apenas uns lamentos
+Sentidos contra nós; queixumes sem valor
+E ao mundo importam muito os vossos testamentos
+E importa muito pouco a vossa immensa dôr!
+
+Batei á grande porta: os bellos dias vossos
+Velhitas, bem sabeis, não podem voltar mais!
+Á terra ide levar, em fim, n'uns tristes ossos
+O residuo fatal das cousas virginaes!
+
+
+
+
+XXVI
+
+ÁS VISÕES
+
+
+Pois que visões! não cessa a rapida corrida
+E seja noite ou dia,
+Volteadoras crueis! vós sempre a toda a brida
+Na minha phantasia!
+
+Parti chymeras vãs! archanjos ou _madonnas_,
+Parti, que o mando eu,
+Como um bando fatal de velhas amasonas
+Que o circo aborreceu!
+
+Levae tudo comvosco: as settas mais a aljava;
+O angelico sorriso;
+E as azas d'escumilha em que eu voava
+Á noite, ao paraiso!
+
+Eu quero, em fim, dormir; passar as noites gratas
+Sentindo-me feliz,
+No somno machinal dos velhos acrobatas
+Depois das farças vis!
+
+Mais tarde hei de sorrir, ou escarnecer-me quasi,
+Lembrando-me--ó verdade!--
+Que onde eu suppunha aurora havia apenas gaze
+E uns traços d'alvaiade.
+
+Perdão se vos insulto! oh, não, vós sois do empyreo,
+D'aquelle meigo azul,
+Que a todos tem sorrido: a Christo no martyrio,
+Na dôr, ao rei de Thule;
+
+E quando vos apraz, nas azas transparentes,
+Mais alto ides por certo,
+Do que as deusas gentis, aerias, insolentes,
+Que vemos voar tão perto!
+
+No entanto podeis crer ó lucidos fantasmas
+Que o seculo, afinal,
+Occulta no esplendor não sei que vis miasmas
+Que fazem muito mal!
+
+E quando vós passaes, nas horas do mysterio
+D'estrellas revestidas,
+Bebemos nós, talvez, o aroma deleterio
+Das rosas corrompidas!
+
+Oh sim! parti depressa; erguei-vos d'este abysmo
+Archanjos ideaes,
+Deixando-nos colher a flôr do realismo
+Nas coisas triviaes!
+
+
+
+
+XXVII
+
+
+Melancolias do outono! Eu quando além descubro,
+Nas tristezas do campo, as filas mugidoras
+Dos vagarosos bois que voltam das lavouras,
+Compungem-me as crueis desolações d'outubro!
+
+Das orlas do poente, afogueado, rubro,
+Ó moribundo sol! com que poesia douras,
+As formas triviaes das cabecitas louras,
+Que, ás portas dos casaes, de bençãos tambem cubro!...
+
+Solta o canto final a orchestra da folhagem:
+São horas de partir; apresta-se a viagem,
+E as noites dos saraus hão de voltar mais bellas!
+
+Mas as vistas lançando ás regiões saudosas,
+Nos esforços crueis das tosses dolorosas,
+Em bandos vão partindo as tisicas donzellas!
+
+
+
+
+XXVIII
+
+O VELHO MUNDO
+
+
+Eu vejo em toda a terra um vasto cemiterio,
+A necrópole immensa, a campa dos colossos,
+Aonde em paz descansa o velho megatherio,
+Por entre a fauna morta, os carcomidos ossos!
+
+E os grandes leviathaãs dos primitivos mares;
+Os tremendos reptis, crueis, descommunaes,
+Celebram no silencio as nupcias singulares
+Dos seus residuos vis, com ricos mineraes!
+
+E os esqueletos nús dos lividos gigantes
+Abraçam-se melhor; conchegam-se na cova,
+Deixando um logar vago aos velhos elephantes
+Que vão fugindo á luz da natureza nova!
+
+Tambem no mundo interno as almas vão seguindo.
+Na corrente da vida, em mil circulações;
+E da consciencia humana o largo abysmo infindo
+Occulta, ha muito já, disformes creações!
+
+Ellas dormem na sombra immensa do passado
+Aonde em breve hão de ir nos trances doloridos,
+A velha Realeza e o trémulo Papado
+Sem forças descançar os corpos corrompidos.
+
+Depois virão mais tarde as gerações futuras
+E os dois espectros vãos da sombra hão de evocar,
+Bem como a nossa voz, as grandes creaturas
+Do mundo primitivo, obriga a despertar.
+
+E as crianças terão seus nomes de memoria,
+Como exemplo, na vida, a todos os momentos;
+E vel-os-eis de pé, nas paginas da historia,
+Grotescos, machinaes, pezados, somnolentos;
+
+Fazendo-nos pensar; d'espanto enchendo tudo;
+Soffrendo o riso alvar do ingenuo e do plebeu,
+Eguaes ao masthodonte armado para estudo
+E exposto ás irrisões nas salas d'um museu!
+
+
+
+
+XXIX
+
+
+Eis a velha cidade! a cortesã devassa,
+A velha imperatriz da inercia e da cubiça,
+Que da torpeza acorda e á pressa corre á missa!
+Baixando o olhar incerto em frente de quem passa!
+
+Ella estreita no seio a velha populaça,
+Nas vis dissoluções da lama e da preguiça,
+E nunca o santo impulso, o grito da Justiça,
+Lhe fez estremecer a fibra inerte e lassa!
+
+E póde receber o beijo e a bofetada
+Sem que sinta o rubor da colera sagrada
+Acender-lhe na face as duas rosas bellas!
+
+Sómente d'um sorriso alvar e deshonesto,
+Ás vezes, acompanha o provocante gesto
+Quando sôa a guitarra, á noite, nas viellas!
+
+
+
+
+XXX
+
+Á NOITE
+
+
+Eu gosto de velar a percorrer os mundos
+Ó noite dos bons canticos,
+Aos lividos clarões dos astros vagabundos
+Nos extasis romanticos,
+
+Emquanto a vil cidade, a cortesã devassa
+Dos falsos ouropeis,
+Com seus famintos cães, a sua lua baça
+E os seus negros bordeis,
+
+Resona torpemente aos beijos deleterios
+D'alguns velhos amantes;
+--Os longos hospitaes e os tristes cemiterios
+Que a afagam delirantes!
+
+Comtudo eu tambem sei que existe muito instante
+De gelos, em que tu,
+Feroz, cravas o dente agudo e penetrante
+No pobre seio nú!
+
+Que ha horas em que vens, nas humidas cidades,
+Nas choças, nos esgotos,
+Cuspir cynicamente as frias tempestades
+No seio vil dos rotos,
+
+Sem ter pena, sequer, da pobre mãe que passa
+Um dia sem ter pão,
+Nem d'essa esfarrapada e velha populaça
+Que rosna como um cão!...
+
+Mas em breve deixando as tenebrosas vestes,
+O manto dos horrores,
+E o gladio vingador das coleras celestes
+Ó noite dos amores,
+
+Retomas o tom puro e santo do mysterio
+Da pallida mulher
+Que vae colher, scismando, um lyrio ao cemiterio
+E ao campo um malmequer!
+
+Em horas de tormenta és a mulher colerica!
+Até cospes na cruz!
+E formam-te espiraes na coma athmospherica
+As viboras de luz!
+
+Porém no teu regaço, altivo, casto, enorme,
+Em doce e plena paz,
+É que a virtude sonha e que a desgraça dorme
+Depois das horas más,
+
+E em lucidos cristaes, ha scintillantes vinhos;
+Os casos mais galantes;
+As languidas canções; os bellos desalinhos
+E os gestos provocantes!...
+
+Ó filha do silencio! Aos puros alabastros
+Dos hombros ideaes,
+Se Deus arremessasse a quantidade d'astros
+Que em ti brilham a mais,
+
+As pallidas visões que passam doloridas,
+E um tanto contristadas,
+Haviam de surgir d'estrellas revestidas
+Em trajos d'alvoradas!
+
+Em ti cuida escutar uns sons inexprimiveis
+De languidas canções,
+O pobre sonhador de coisas impossiveis
+Que adora as solidões!
+
+E quando o resplendor de mundos luminosos
+Na tua fronte cinges,
+Os gatos sensuaes, electricos, nervosos
+Repouzam como esphinges;
+
+Emquanto as combustões dos lividos comêtas,
+Errantes e fataes,
+Comsomem lentamente as grandes borboletas
+Dos nossos ideaes!
+
+
+
+
+XXXI
+
+A VALLA
+
+
+Trazei mortos á valla; a hydra está com fome
+E deve ser-lhe longa a hora em que não come!
+Olhae como ella mostra aquelles que a vão ver,
+Inerte, sem pudor, de fauce escancarada,
+A amargura cruel da bocca desdentada
+Que pede de comer!
+
+Lançae ao monstro informe algum repasto novo!
+Trazei-lhe carne humana; arremeçae-lhe o povo.
+Tranzido pelo frio ou morto pelo sol!
+E visto haver na fera abysmos insondaveis
+Mandae-lhe as legiões dos grandes miseraveis
+Que morrem sem lençol!
+
+Eu quero vel-a farta, a lugubre panthera,
+Que, na sombra agachada, olhando em roda, espera
+A preza que lhe inveja a gula dos chacaes.
+Começa a ouvir-se ao longe a marcha vagarosa
+Da triste procissão cruel e dolorosa
+Que vem dos hospitaes.
+
+Um velho esquife chega: em duas taboas toscas
+Um pobre semi-nú coberto já de moscas,
+N'um riso deixa ver não sei que tons crueis!
+Emquanto nos sorria a luz das noites bellas,
+Talvez que elle varresse a lama das viellas
+E o lixo dos bordeis!...
+
+E poude, em fim, dormir no seio bom da morte!
+Apoz, como se fôra a livida consorte
+D'aquelle vil despojo, ás mesmas horas vem,
+Trazendo por sudario os seus vestidos rotos,
+Uma triste mulher caída nos esgotos
+Sem bençãos de ninguem!
+
+Devora-os ambos fera! Engole-os juntamente:
+Reune-os em consorcio e dá-os de presente
+Á larva que partilha as ancias do teu ser!
+Aguça o teu desejo!--A garra infecta lança
+Ao corpo tenro e nú d'uma gentil criança
+Que a mãe te vem trazer!
+
+Redobra d'appetite! Alonga-se a teu lado
+A fila tenebrosa! O espectro do soldado
+A par do que vergou cançado de cavar:
+E o mineiro sem luz, o martyr legendario;
+E amparando-se a custo ao velho proletario
+A flôr do lupanar!
+
+Mastiga a turba vil e alonga essa guela!
+Bem vês que vem chegando um corpo de donzella
+Que pela candidez recorda uma vestal!
+Voou-lhe, n'um sorriso, o derradeiro arranco
+E traz viçoso ainda um grande lyrio branco
+No seio virginal!
+
+Ó monstro sensual na sombra tripudia!
+Celebra no silencio a tenebrosa orgia,
+Que as Deusas vem chegando ao lubrico festim!
+N'um beijo os labios colla á frigida epiderme
+E o D. Juan da morte, o cavalheiro Verme,
+Que viva e gose emfim!
+
+Eu quero ver-te farta, em halitos profundos,
+Dormindo o somno vil dos animaes imundos,
+De ventre para o ar; serpente infecta e má!
+E ámanhã, na estação dos candidos amores,
+Veremos rebentar n'um tapete de flôres
+O lixo que em ti ha!
+
+E a santa mocidade; as languidas mulheres;
+Virão depois colher os gratos malmequeres,
+Pizando-te sem medo e cheias de desdem,
+Em danças sensuaes; o fato em desalinho;
+Compondo-te canções; regando-te de vinho;
+Sem pena de ninguem!
+
+E tu que és monstruosa, infame, vil, medonha;
+Que não mostras pudor; que não sentes vergonha;
+Que és a campa-monturo e não pódes ser mais;
+Cingida em fim, tambem, de rosas orvalhadas,
+Terás dado um perfume ás almas namoradas,
+E pasto aos animaes!
+
+
+
+
+XXXII
+
+
+Ó vultos ideaes, fantasticos e bellos,
+Que ás vezes revoaes nas salas deslumbrantes,
+N'um grande mar de tulle, ethereas, fluctuantes.
+Aos suspiros fataes dos meigos violoncellos;
+
+Que bom que era sonhar nos pallidos castellos,
+Á noite, á beira mar, nas solidões distantes,
+Nos tempos em que a flôr dos timidos amantes
+Á lua confiava os intimos anhelos!...
+
+Agora sois gentis, despepticas, vistosas;
+Pagaes por alto preço as exquisitas rosas;
+Nos rapidos wagons correis o mundo em roda;
+
+Mas prostradas do baile, amarrotando a luva,
+Emquanto cae na rua a somnolenta chuva,
+Scismaes no Deus-Milhão,--no Creador da moda!
+
+
+
+
+XXXIII
+
+
+Eu vejo em tua bocca as pétalas vermelhas
+D'uma rosa de fogo aonde vão libar,
+O mel das illusões, quaes timidas abelhas,
+Uns velhos ideaes que em vão tento expulsar.
+
+Dizer-me pódes tu de que ovulo espontaneo,
+Tocado pelo sol, em mim poude nascer
+Este bando cruel que dentro do meu craneo
+Não faz ha muito já senão roer, roer?!
+
+Ás vezes vôa ao largo; ás serras, ás campinas;
+Remonta aos astros bons; torna a descer dos céos;
+E volta a demolir as trémulas ruinas
+Do templo onde crepita a luz dos dias meus!
+
+Ó grande flôr suave! e n'isto se resume
+A constante batalha, o sempiterno afan!
+Aspira a minha essencia ao teu grato perfume;
+Sossobra o dia d'hoje ao dia d'ámanhã!
+
+Oh, volvamos á terra; aos placidos logares,
+Aonde os hymeneus fecundos e reaes,
+Produzem, dia a dia, os fetos singulares
+E as sãs vegetações dos candidos rozaes!
+
+E o que ha d'ethereo em nós, que siga as breves phases
+D'um fluido transitorio, erguendo-se nos céos,
+Nas grandes expansões dos fugitivos gazes
+Onde em linguas de fogo ás vezes fala Deus.
+
+Forçoso é separar os dois rivaes antigos,
+Na batalha cruel que em nós se reproduz.
+Sorria o que é da terra aos vegetaes amigos;
+Rebrilhe o que é do céo nas refracções da luz!
+
+
+
+
+XXXIV
+
+NOS CAMPOS
+
+
+A fragrancia do trevo o das flôres selvagens
+Da noite embalsamava as tepidas bafagens:
+Ao longe os astros bons olhavam-nos dos céos.
+O mundo era um altar; as serras grandes aras;
+E os canticos da paz corriam nas searas
+Em honra do bom Deus.
+
+No solemne silencio immersa ia minha alma
+Em tranquilla mudez; n'aquella doce calma
+Que sente germinar os frescos vegetaes.
+De subito uma voz deixou-me um pouco extatico:
+Detive-me um momento; olhei:--era o viatico!
+De noite a horas taes,
+
+Que andava Deus fazendo, assim, pela campina,
+Trazido pela mão d'um padre sem batina
+Roubado ás sensações d'um longo resonar?
+Fui seguindo o cortejo até que n'uma choça
+O Rei dos reis entrava: o padre, com voz grossa,
+Movia-se a rezar.
+
+Nos restos d'uma enxerga, ali, no vil cazebre,
+Um pobre cavador, mordido pela febre,
+Torcia as grossas mãos nas ancias do estertor;
+E os filhos semi-nus sentindo a pena ignota
+Tentavam-se esconder na velha saia rota
+Da mãe louca de dôr!
+
+A voz do sacerdote a custo resoava.
+A palavra d'amor que ali se precisava,
+Não posso dizer bem se acaso elle a soltou.
+Falava o Deus severo e forte dos castigos,
+Ou esse bom Jesus que aos pés d'alguns mendigos
+Um dia ajoelhou?
+
+Do padre tinham medo os tremulos pequenos.
+Os magros cães fieis erguendo-se dos fênos
+Latiam tristemente em volta do cazal:
+E o levita lançava áquella noite escura
+A benção derradeira, erguendo a mão segura,
+N'um gesto machinal!
+
+Depois transpondo, á pressa, a porta da cabana,
+Sahia sem deixar da sãa verdade humana
+O balsamo suave, o dom consolador!
+Oh, de certo o Jesus de que nos fallam tanto
+Não era o que deixava ali, n'aquelle canto
+Sósinha a mesma dôr!
+
+Sorria Deus, no entanto, em toda a natureza!
+Nas florestas, no val, nas serras, na deveza,
+Nas moitas dos rozaes, no movediço mar!
+O constellado azul dir-se-ía um sanctuario!
+Havia aquelle albergue apenas solitario,
+E frio o pobre lar!
+
+E o rude agonisante, o triste moribundo
+Que em breve ía partir; abandonar o mundo;
+Os seus deixando sós, na terra, sem ninguem,
+Talvez ao presentir o fim da insana lida
+Soltasse maldicções, ainda, contra a vida
+E contra nós tambem!
+
+E eu lembrei-me então d'aquelles bons valentes
+Que lutam todo o dia e vão morrer contentes
+Á noite, ao pé dos seus, depondo os vãos laureis;
+E d'aquelles, tambem, de frontes requeimadas
+Que pela causa santa, em pé, nas barricadas,
+Se batem contra os reis!
+
+Lembraram-me os heroes, serenos, bons, austeros,
+Que sagram toda a vida aos ideaes severos
+Da justiça e do bem; caíndo com valor,
+Sem que a dextra cruel dos despotas os dome
+Nas batalhas da idéa; oppressos pela fome,
+Varados pela dor!
+
+Ó pobres multidões! as grandes noites frias
+Não cessam de morder, famintas e sombrias,
+N'um banquete nefando os vossos corpos nus!
+E o lyrio da justiça; a grande flôr sagrada,
+Nem sempre mostra, em vós, aberta e desdobrada,
+As petalas de luz!
+
+Eu quando porem lanço as vistas ao futuro
+E vejo dia a dia a despontar mais puro
+O grande sol da idéa, em rubidos clarões,
+Recordo-me que sois a productiva leiva
+Aonde já circula uma opulenta seiva,
+De grandes creações!
+
+
+
+
+XXXV
+
+O ULTIMO D. JUAN
+
+
+D'aquelle de quem falo, as socegadas lousas
+Podiam-vos contar as violações brutaes!
+A gula com que morde as mais sagradas cousas
+D'horror faz recuar os trémulos chacaes.
+
+Não descanta á viola, á noite, os seus enleios:
+Elle vive na sombra e eu sei também que vós,
+Gentis bellezas d'hoje, ó astros dos Passeios,
+Lhe não lançaes, a furto, a escada de retroz.
+
+Mas sede muito embora as virgens sem desejos,
+As monjas virginaes, uns pudicos dragões;
+Fechae o niveo collo aos vendavaes dos beijos,
+E ás noites de luar os vossos corações;
+
+Um dia hade chegar em que elle, informe, tosco,
+Sem garbo, sem pudor, grotesco, infame, vil;
+Nas grandes solidões irá dormir comvosco,
+Mordendo em cada seio o lyrio mais gentil!
+
+E o que elle adora muito ó virgens romanescas
+Não é o que abrigaes d'ethereo e virginal:
+Adora os corpos nus; as bellas carnes frescas;
+Deixando o resto a vós damnados do ideal!
+
+Não vive como nós de candidas mentiras:
+Não communga do amor esse illuzorio pão:
+Devora com fervor as pallidas Elviras
+E em muitos seios bons dá pasto ao coração!
+
+Tem palacios na sombra e fazem-lhe um thesouro
+Maior do que o dos reis; adora as solidões:
+Não uza d'espadim; não traz esporas d'ouro;
+Mas vive como os reis das grandes corrupções!
+
+Flôres sentimentaes! tremei do paladino,
+Do velho D. Juan, feroz conquistador,
+A quem da vossa bocca um halito divino,
+Em vida, faz fugir talvez cheio d'horror;
+
+Mas que um dia virá, na candida epiderme,
+Na sagrada nudez dos collos virginaes,
+Em hymnos de triumpho--o grande Cezar-Verme!--
+Colher o que ficou de tantos ideaes!
+
+
+
+
+XXXVI
+
+
+Formosuras do inverno! Ao sol das duas horas
+A aérea multidão de fadas quebradiças,
+Gentis apparições dos bailes e das missas,
+Desliza no fulgor das pompas seductoras.
+
+No arfar da cazimira ha frases tentadoras
+E maciezas taes nas languidas pelliças,
+Que as tristes commoções, decrepitas, mortiças,
+Resurgem do lethargo ó pallidas senhoras!
+
+E muitos hão de ter uns extasis divinos
+Ouvindo soluçar, á noite, aos violinos,
+A vaga introducção d'uma balada aerea;
+
+Em quanto, do futuro, ao toque da alvorada,
+Se escuta, a martellar na sua barricada,
+Sinistra rota e fria, a livida Miseria.
+
+
+
+
+XXXVII
+
+ANTIGO THEMA
+
+
+Passae larvas gentis na rua da cidade
+Aonde se atropella a turba folgazã;
+A noite é um tanto agreste e cheia d'humidade
+Mas o tedio mortal precisa a claridade
+Que em vosso olhar trazeis, vizões do macadam!
+
+Estatuas sem calor! vós sois das grandes vazas
+D'um corrompido mar as Deusas menos vis!
+Se á noite abandonaes, voando, as pobres casas,
+E vindes pela rua enlamear as azas,
+Quem sabe a fome occulta, as sedes que sentis!
+
+A pallida Miseria em seu triste cortejo
+Precisa as contracções de muitos hombros nús:
+E vós ides sorrindo ao lubrico desejo,
+Do carro da desgraça arremessando um beijo
+Que apenas é de lama em vez de ser de luz!
+
+Embora! caminhae deixando um grande rasto
+D'estranhas emoções, d'aromas sensuaes:
+E ao pobre que mendiga a pallidez d'um astro;
+Ao que sonha vizões e archanjos d'alabastro
+Fazei por despenhar nos longos tremedaes!
+
+Do velho idyllio, a muza, ha muito já que dorme,
+E o arroio em vão suspira e chora a nossos pés!
+A grande multidão,--a vaga, a onda enorme,
+Que oscilla sem cessar, e gira multiforme
+Ás corridas, ao circo, ao templo e aos cafés,
+
+Talvez ao presentir que tudo, emfim, declina,
+Adore a immensa luz, em vós, constellações,
+Que não baixaes do céo; que vindes d'uma esquina,
+Vagando no rumor da aérea musselina,
+Em plena bacchanal fingindo de vizões?
+
+Oh, sois do nosso tempo! A languida existencia
+De tedios se consome e sente febres más!
+Aspira ao que é bizarro: a uma exquisita essencia
+Que exhala aquella flôr que vem na decadencia
+E quando a toda a luz succede a luz do gaz!
+
+Do seculo a voz rude apenas diz--trabalha!--
+Ao poste vil amarra o lubrico ideal
+Que expira, emfim, talhando a funebre mortalha
+Na vossa trança gasta, ó muzas da canalha
+Que apenas revoaes do olimpo ao hospital!
+
+
+
+
+XXXVIII
+
+A MÃE
+
+
+Eu canto-vos, mulher, por que vos tenho visto
+Na palpebra vermelha a lagrima d'amôr,
+Que vem d'Eva a Maria--a doce mãe de Christo--
+Formando a stalactite immensa d'uma dôr!
+
+Oh, quantas vezes já n'aldeia miseravel
+Nas tristezas do campo, ás portas dos casaes,
+Vos tenho surprehendido, em extasi adoravel,
+Em quanto os filhos nús ao peito conchegaes!
+
+A fria noite chega. Os maus, de bocca cheia,
+Rebolam-se na terra: ainda pedem pão!
+Com elles repartis a vossa parca ceia;
+E vendo-os a dormir podeis sorrir então.
+
+D'inverno quasi sempre as noites são mordentes.
+Uivam lobos na serra: o vento uiva tambem:
+Mas elles vão dormindo os longos somnos quentes,
+Em quanto a vil insomnia opprime a pobre mãe!
+
+Tendes sustos crueis. Temendo que lhes caia
+A roupa que os abafa, aos pobres acudis;
+E aninhando-os melhor nas vossas velhas saias
+Podeis então dormir um tanto mais feliz.
+
+Mulher quanto é suave e longo esse poema
+Quanto é preciso ó mãe, no transito cruel,
+Que vossa alma estremeça e o vosso peito gema
+A fim de que em vós brilhe o mais alto laurel!
+
+Quem é que nunca viu, na rua, a cada passo,
+A pallida mulher que rompe a multidão,
+Trazendo agasalhado, um filho no regaço,
+E aos tombos, muita vez, um outro pela mão?!
+
+Nos frios do lagedo, ás vezes, pede esmola
+Ás portas dos cafés: ninguem a quer ouvir:
+E a ella qualquer codea a farta e a consola
+Comtanto que sem fome os filhos vão dormir!
+
+E em quanto á luz do gaz a turba prazenteira
+No fumo dos festins revoa em turbilhão,
+Quantos dramas crueis nas humidas trapeiras;
+Nos campos quantas mães sem roupas e sem pão?!
+
+E sempre a mesma lenda, a mesma historia antiga:
+Do palacio á cabana o vosso doce olhar,
+Nas insomnias crueis, na fome ou na fadiga,
+D'um raio creador o berço a illuminar!
+
+No entanto á doce mãe, se aquelle amor sem termo,
+Da moda traja agora os novos ouropeis,
+E o vosso coração já gasto e um pouco enfermo,
+Soffrendo se dilue nos ideaes crueis;
+
+Nas vagas pulsações d'umas recentes ancias,
+Se aquella santa flôr das grandes commoções,
+Apenas tem logar nas vossas elegancias.
+Como um enfeite de mimo amado nos salões;
+
+Na corrente fatal que ao longe arrasta os povos,
+Se o vosso grande affecto intenta erguer-se mais,
+Sonhando a sagração dos heroismos novos,
+Resplendente de luz; vistosa de metaes:
+
+Aos reflexos do gaz, ó mãe, abri passagem
+Por entre a saudação das alas cortezãs,
+Levando as seducções da vossa doce imagem
+Aos delirios da noite, ás ceias das manhãs!
+
+Surgi do canto obscuro aonde o casto seio
+Palpita ingenuo e bom na paz da solidão,
+E o vosso amor levae á opera e ao passeio
+A fim de que elle arranque um bravo á multidão!
+
+E eu heide rir ao ver que o peito onde um thesouro
+Maior do que nenhum podemos encontrar,
+Intenta seduzir pela medalha d'ouro
+Que aos pequenos heroes os reis costumam dar!
+
+
+
+
+XXXIX
+
+
+Archanjo vae-te embora: é tarde: em nossas casas
+Talvez alguem se afflija; é tão deserta a rua!...
+Tu deves sentir frio! Embuça-te nas asas;
+Dá saudades á lua.
+
+Um beijo em cada estrella!... Espera que eu sou louco!
+Sonhei devo pagar: perdão anjo dos céos!
+Agora tem cuidado; o céo escorrega um pouco:
+Boas noites adeus!
+
+
+
+
+XL
+
+SANTA SIMPLICIDADE
+
+
+Na serena missão de paz que tu cumpriste
+Ó suave Jesus, ó doce galileu,
+Que santa singeleza e que perfume triste
+Do teu casto perfil no mundo rescendeu!
+
+Havia no teu verbo aquella unção divina
+Que a velha harpa de Job soltou nas solidões,
+E o bello, o puro sol da antiga Palestina
+Suave contornou, de luz, tuas feições!
+
+Compunham-te o cortejo uns pobres pescadores
+Almas rectas e sãs; marchavas por teu pé,
+E sorrias falando aos rudes e aos pastores,
+Sentado nos portaes da pobre Nazareth.
+
+Da tua Galiléa os valles percorrias
+Levando um bom quinhão d'affecto a cada lar,
+E o grande olhar suave e terno das judias
+Turbaste muita vez, de certo, sem pensar!
+
+E mais simples na morte, apenas a tua alma
+Transpunha as regiões purissimas do sol,
+Tu que havias colhido a immorredoura palma
+Não tinhas para o corpo as gallas d'um lençol!
+
+Consola-te ó Jesus! Tu deves já ter visto
+Que sobre a terra, agora, ao teu nome fieis,
+Os que se dizem ser apostolos de Christo
+Não precisam trajar os infimos bureis.
+
+Não maceram seus pés! não vão pobres e rotos
+Envoltos na estamenha, apedrejados, sós,
+Nos desertos viver de mel e gafanhotos,
+Convertendo o gentio ao som da sua voz.
+
+Ante elles, ao contrario, alargam-se os batentes
+Dos palacios reaes, nas grandes recepções,
+E formam-lhes cortejo os coches reluzentes
+Atraz dos quaes se bate um trote d'esquadrões!
+
+Cobrindo-lhes, depois, d'insignias as roupetas,
+Afim d'honrar melhor a primitiva fé,
+Redobram-se ainda mais as velhas etiquetas;
+Polvilham-se melhor os homens da libré!
+
+E dão-se-lhes festins onde ha grandes baixellas,
+Fataes scintillações de vinhos e rubins,
+Gargantas ideaes, grandes espaduas bellas,
+Lampejos de cristaes, insidias de setins!
+
+Oh! temo bem Jesus que tantas pedrarias
+Façam peso de mais na barca do Senhor,
+Quando é certo que as mãos de Pedro um pouco frias
+Mal podem segurar o leme salvador!
+
+Por isso quando avisto o espaço que negreja
+E o mar que se encapella, eu temo que ámanhã
+Do fendido baixel da tua velha Egreja
+Apenas reste, á prôa, uma ficção pagã!
+
+
+
+
+XLI
+
+
+O velho Olimpo dorme o bom somno comprido
+Que prostra o lutador no fim d'uma batalha,
+E os Deuses d'outro tempo, em livida mortalha,
+Descançam no torpor d'um mundo corrompido.
+
+No puro céo christão, de estrellas revestido,
+No entanto ha muito já que chora e que trabalha,
+Por nós, o Christo bom sem que seu Pae lhe valha,
+A fim de ver, de todo, o mundo redimido!
+
+Justiça, traça o manto alvissimo e estrellado
+E senta-te, mulher, no throno abandonado
+Pelos vultos gentis de tantos Deuses velhos!
+
+Depois inda maior, mais pura e mais serena,
+No sangue de Jesus molhando a tua penna
+Explica a nova lei no fim dos evangelhos!
+
+
+
+
+XLII
+
+OS PALHAÇOS
+
+
+Heroes da gargalhada, ó nobres saltimbancos,
+Eu gosto do vossês,
+Por que amo as expansões dos grandes rizos francos
+E os gestos d'entremez,
+
+E prezo, sobretudo, as grandes ironias
+Das farças joviaes,
+Que em visagens crueis, imperturbaveis, frias,
+Á turba arremeçaes!
+
+Alegres histriões dos circos e das praças,
+Oh, sim, gosto de os ver
+Nas grandes contorsões, a rir, a dizer graças
+Do povo enlouquecer,
+
+Ungidos para a luta heroica, descambada,
+De giz e de carmim,
+Nas mimicas sem par, heroes da bofetada,
+Titães do trampolim!
+
+Correi, subi, voae n'um turbilhão fantastico
+Por entre as saudações
+Da turba que festeja o semi-deos elastico
+Nas grandes ascenções,
+
+E no curso veloz, vertiginoso, aerio,
+Fazei por disparar
+Na face trivial do mundo egoista e serio
+A gargalhada alvar!
+
+Depois mais perto ainda, a voltear no espaço,
+Pregae-lhe, se podeis,
+Um pontapé furtivo, ó lividos palhaços
+Lusentes como reis!
+
+Eu rio sempre ao ver aquella magestade,
+Os tragicos desdens,
+Com que nos divertis, cobertos d'alvaiade,
+A troco d'uns vintens!
+
+Mas rio ainda mais dos histriões burguezes
+Cobertos d'ouropeis
+Que tomam, n'este mundo, em longos entremezes,
+A serio os seus papeis.
+
+São elles, almas vãs, consciencias rebocadas,
+Que, em fim, merecem mais
+O comentario atroz das rijas gargalhadas
+Que ás vezes disparaes!
+
+Portanto é rir, é rir, hirsutos, grandes, lestos,
+Nas comicas funcções,
+Até fazer morrer, em desmanchados gestos,
+De riso as multidões!
+
+E eu que amo as expansões dos grandes risos francos
+E os gestos d'entremez,
+Deixae-me dizer isto ó nobres saltimbancos,
+Eu gosto de vossês!
+
+
+
+
+XLIII
+
+A HYDRA
+
+
+Ha muito que desceu das orientaes montanhas
+A hydra singular que espalha nas ardencias
+D'uma luta febril scintillações estranhas!
+
+Ella galga, rugindo, ás grandes eminencias,
+E emquanto vae soltando o silvo pelo espaço
+Engrossa á luz do sol na seiva das consciencias.
+
+Tem rijezas sem par, como de roscas d'aço
+E corre descrevendo em giros caprichosos
+Na leiva popular um indefinido traço.
+
+Prefere aos antros vis os focos luminosos
+E em mil voltas crueis aperta dia a dia,
+N'uma longa espiral, os thronos carunchosos.
+
+Passou pelo paiz da candida Utopia:
+Nos mythicos rosaes viveu d'um vago aroma
+Ao pallido fulgor da aurora que rompia.
+
+Mas hoje com valor em toda a parte assoma,
+E sem temer sequer a lugubre vizeira
+Ha muito que transpoz os porticos de Roma.
+
+E os Papas mais os Reis sentindo-a na carreira
+Do seu longo triumpho, um tanto apavorados,
+Trataram d'acender a livida fogueira.
+
+E ao galope lançando os esquadrões cerrados
+Começaram depois, na terra, a perseguil-a,
+A cumplice fatal dos lividos Pecados!
+
+Mas ella sem temor, nos cerberos tranquilla,
+Derrama cada vez mais bellos e fecundos
+Os intensos clarões da lucida pupilla,
+
+E emquanto a imprecação de tantos moribundos,
+Os despotas crueis, acolhem com desdem,
+A hydra immensa--a Idéa--a farejar nos mundos
+Ainda a garra adunca afia contra alguem!
+
+
+
+
+XLIV
+
+OS NOVOS LEVIATHÃS
+
+
+Dos antigos Titães, o mar,--fera indomavel,
+Agora verga o dorso ao peso colossal
+Dos novos leviathãs que em bando formidavel,
+Nas grandes explosões da colera insondavel,
+Já levam de vencida o abysmo e o vendaval!
+
+Elles seguem no mar, altivos no seu rumo,
+Em halitos de fogo, á nossa voz fieis,
+E como o combatente erguendo a lança a prumo,
+Era turbilhões rompendo, as flamulas de fumo
+Ostentam sem cessar correndo entre os parceis!
+
+Que sopro creador, que força omnipotente
+Os fez surgir do nada, os monstros colossaes?
+Ó novos leviathãs provindes tão somente
+Do fecundo hymeneu, d'este connubio ardente
+Do Genio e do Trabalho, amantes immortaes!
+
+Correis de mar em mar, altivos, triumphantes,
+Levando a toda a parte a vida, a nova luz,
+E as sereias gentis não fazem como d'antes,
+Ao som da sua voz, perder os navegantes;
+O dorso dos delfins, no mar, já não reluz!
+
+Ó alma antiga dorme inerte no regaço
+Dos velhos Deuses vãos, que o homem creador
+Agora ri de ti, prostrada de cansaço,
+Emquanto vae soprando em mil gigantes d'aço
+Outra alma inda mais larga,--o novo Deus-Vapor!
+
+
+
+
+XLV
+
+
+Sua alteza real o pequenino infante
+Matou, d'um tiro só, dois gamos na carreira:
+Um hymno mais ao céo, pois era a vez primeira
+Que sua alteza vinha á diversão galante!
+
+Ó vergontea gentil! quando um tropel distante
+De subito acordar os echos da clareira
+E uma preza cansada, em rolos de poeira,
+Varada, a vossos pés, caír agonisante,
+
+Acercai-vos então da pobre fera exangue
+Que estrebuxa de dôr n'um mar de lama e sangue
+Sem que um grito de dó nos corações acorde!
+
+No entanto não fiqueis na doce gloria absorto:
+O velho javali parece ás vezes morto
+Mas surge da agonia e os seus algozes morde!
+
+
+
+
+XLVI
+
+VERSOS A *
+
+
+Eu sou, mulher suave, aquelle antigo louco,
+O triste sonhador que o teu olhar cantou,
+E que hoje vae sentindo, o sonho, a pouco e pouco,
+Fugir como o luar d'um astro que expirou!
+
+Que morra, porque, emfim, bem longo elle tem sido
+E tempo é já, talvez, da Morte desposar
+O sonho que em minha alma entrou como um bandido
+E só da vida sae depois de me roubar!
+
+Eu devera amarral-o á braga do forçado,
+Como a Justiça faz aos despreziveis réos,
+E lançal-o depois á valla do passado
+Aonde o fulminasse a colera dos céos.
+
+Mas não; quero embalar-lhe os ultimos momentos
+Ao som d'uma canção das quadras juvenis,
+E amortalhar depois--em doces pensamentos--
+No manto da saudade, os seus restos gentis.
+
+E quando elle seguir ás regiões saudosas,
+Aonde todos nós iremos repousar,
+Ao esquife hei de atirar-lhe as derradeiras rosas
+Que dentro de minha alma houver por desfolhar!
+
+Ninguem profanará seus restos adorados,
+Que em paz irão dormir n'um fundo mausoleo;
+E quando alguma vez já hirtos, regelados,
+Acordem, por ventura, á luz que vem do céo;
+
+Em vão tu baterás, ó sonho, á fria porta
+Que em breve has de sentir fechada sobre ti,
+Porque a tua Memoria, emfim, já estará morta,
+E não te escutarei... porque também morri!
+
+
+
+
+XLVII
+
+
+Ó pobres versos meus, lançae-vos pela estrada
+Agreste e pedregosa, aonde os companheiros
+Da luta, encontrareis, meus infimos guerreiros,
+Formando os batalhões da bellica avançada!
+
+E o trajo em desalinho, a face illuminada,
+Transponde, sem demora, os fossos derradeiros
+Que separam de nós os braços justiceiros
+Da serena Verdade, a Deusa idolatrada.
+
+Vencidos no combate, ou pouco ou nada importa.
+Ao chão vergae sem pena a faço semi-morta,
+Mordendo, inda a lutar, o pó da enorme liça:
+
+E tudo, emfim, esquecendo; os odios e os desprezos;
+Que d'entre vós alguns, ao menos, fiquem prezos
+Como fios de luz, ao manto da Justiça!
+
+FIM.
+
+
+
+
+APPENDICE
+
+
+Nas paginas que em seguida se leem acha-se tão bem determinada, com
+tanta eloquencia e tão profunda observação, a missão da poesia
+contemporanea, que não podemos resistir ao desejo de as trazer das
+folhas passageiras do jornal, aonde pela primeira vez viram a luz, para
+as paginas d'este livro, por ventura um pouco menos ephemeras.
+
+O autor das _Radiações da Noite_, intenta sobretudo mostrar que o seu
+espirito, correspondendo ás indicações da critica, procura inspirar-se,
+tanto quanto lhe é possivel, no mundo que o cerca, nos factos e nas
+acções do nosso tempo. Das _Radiações da Noite_ á _Alma Nova_
+poder-se-ha talvez notar um certo caminho andado na direcção em que vae
+seguindo a arte contemporanea.
+
+Do escripto como primitivamente foi publicado, entendemos, como o leitor
+tambem de certo comprehenderá, suprimir, hoje, a parte final em que o
+talentoso critico se referia, d'um modo demasiadamente lisongeiro, á
+individualidade litteraria do autor das _Radiações_.
+
+Guilherme d'Azevedo
+
+
+
+
+TENDENCIAS NOVAS DA POESIA CONTEMPORANEA
+
+a preposito das
+
+RADIAÇÕES DA NOITE
+
+do sr.
+
+Guilherme d'Azevedo
+
+
+
+
+O seculo XIX, cujos primeiros annos enflorou uma corôa poetica de
+esplendor incomparavel, tem mentido cruelmente ás esperanças da sua
+aurora. Envelhecendo, perdeu o dom do canto, ou, pelo menos, o
+sentimento que faz os cantores verdadeiros. Os Goethe, os Byron, os
+Lamartine, os Miczkawicz, os Hugo, os OEhlenschlaeger, não deixaram
+descendencia digna d'aquella poderosa geração. O romantismo foi um
+meteoro. O grande canto do seculo esvaeceu-se gradualmente n'um
+murmurio. A poesia contemporanea não tem unidade, e não tem sobre tudo o
+largo folego de inspiração, que caracterisa as verdadeiras épocas
+poeticas. O interesse do tempo dirige-se evidentemente para outro lado.
+No meio das preoccupações da actualidade, a poesia é como a canção de um
+conviva distraído que se affasta da sala do festim, e cuja voz se perde
+pouco a pouco no silencio da distancia e da noute.
+
+Depois do apparecimento do romantismo, a sua queda é o maior facto
+litterario, do seculo. Porém essa queda, que como facto todos
+reconhecem, mas cuja phenomenalidade poucos tentam explicar, será uma
+justa sentença lavrada pela razão publica, ou será uma condemnaçao
+arbitraria que deshonra o tribunal que a firma? Indicará para o espirito
+do nosso tempo um progresso ou uma decadencia? uma gloria ou um
+deslustre aos olhos da historia?
+
+Não hesito em responder. O romantismo foi justamente condemnado. O
+seculo, com um sentimento lucido da sua verdadeira missão, affastou-se
+d'aquelles que lhe fallavam uma linguagem, cujo brilho, cuja eloquencia,
+cuja sinceridade, por maiores que fossem, não podiam encobrir o falso do
+principio, que a inspirava. Essa missão é essencialmente positiva,
+social e racional, e o romantismo era essencialmente apaixonado,
+individual e subjectivo. Por mais que se virasse para o futuro, a sua
+alma pertencia ao passado; emquanto que o seculo, ainda nos momentos em
+que parece invocar o passado, é sempre para o futuro que caminha. No
+fundo, uma sociedade saída da revolução, e uma poesia que se inspirava
+das tradições da edade-media, contradiziam-se, negavam-se radicalmente.
+Um equivoco historico pôde por um momento estabelecer aquelle infundado
+accordo: no dia, porém, em que se conheceram, separaram-se.
+
+Ainda ha muita gente que _sente_, _chora_, _crê_, e _aspira_, á maneira
+dos grandes, melancolicos e apaixonados de 1820. Mas já nos não commovem
+como então, já não influem poderosamente no mundo que os rodeia. São
+vozes sem ecco. É quanto basta para que nada signifiquem,
+historicamente: tanto mais que aquellas vozes frouxas não teem já o
+timbre ardente de indomavel paixão, que nas outras nos commovia. A
+paixão d'estas é mais estudada na escola, do que saída do coração. Não é
+já como então, um convencimento violento dos direitos da propria
+loucura, que os inspira: são apenas os livros dos mestres: ora, não é
+nos bancos apertados da escola, mas no seio da livre natureza, que se
+criam os verdadeiros poetas.
+
+Os poetas da geração actual vêem-se pois, rasgado aquelle veo
+phantastico da _sentimentalidade_ d'outr'ora, em face d'uma sociedade,
+que elles não comprehendem, porque ella mesma a si se não comprehende
+bem, mas que os não quer escutar senão com a condição de lhe falarem
+d'aquillo que a interessa e a preoccupa, de se inspirarem da sua vida
+real e das suas verdadeiras aspirações. É d'esta situação anormal que
+resulta a incerteza, a anarchia, a fraqueza da poesia contemporanea. A
+idéa poetica acha-se confusa, embaraçada no meio de factos sociaes, que
+se não definem claramente: as fontes da inspiração correm escassas ou
+turvas. A antiga nascente, tão querida e conhecida, está quasi secca: a
+nova, já por ser nova, e depois por que só deixa rebentar, em cachões,
+uma agua turbida, cheia de elementos estranhos, assusta os que a ella se
+chegam pela primeira vez; os mais ousados inclinam-se um momento, tomam
+a medo um golle da bebida suspeita, e retiram-se furtivamente como se
+acabassem de fazer uma acção má.
+
+E todavia, é alli que é necessario beber, porque é alli, n'aquellas
+aguas rumorosas e confusas, que se conteem os elementos da inspiração
+real, os principios vitaes de que se nutre a sociedade, e de que tem por
+conseguinte de se alimentar tambem a poesia, sob pena de se tornar uma
+abstracção, um phantasma, uma puerilidade. O problema da evolução
+poetica na actualidade encerra-se todo n'isto.
+
+Mas aqui apresenta-se uma questão, que nos detem. Terá a sociedade
+contemporanea (essa sociedade, ao que dizem, positiva até ao mais
+desolador utilitarismo) na sua atmosphera suffocadora de industria, de
+lutas sociaes e de sciencia friamente analytica, condições de vida e
+desenvolvimento normal para a constituição delicada das castas musas,
+das musas melindrosas e scismativas? Não será uma sociedade
+essencialmente anti-poetica, esta nossa, um mundo rebelde a toda a
+idealidade? Por outras palavras; poderá haver poesia racional, positiva
+e social? Será um ser _poetico_ o homem do nosso tempo?
+
+Intendo que póde haver tal poesia; que a alma moderna, na sua titanica
+aspiração de verdade e justiça, é poetica, poetica essencialmente,
+d'aquella poesia forte e audaciosa dos mythos de Prometeu e Ajax; que ha
+uma fonte abundante de inspiração n'esta luta historica de nações, de
+classes e de idéas, que é a epopea e a tragedia viva do nosso seculo;
+que, finalmente, á maneira que os factos confusos da nossa epoca se
+forem desembrulhando, mais lucida e evidente se irá mostrando a
+idealidade sublime que n'esse chaos apparente se contém.
+
+E a idéa d'essa poesia nova não só existe, mas deve ser superior á idéa
+poetica das eras anteriores, porque corresponde a um periodo mais
+adiantado da consciencia humana, penetra com maior intensidade a
+natureza e o espirito, extrae o bello da propria realidade universal,
+não das visões de um subjectivismo inexperiente, e dá por base ao
+sentimento, em vez de sonhos e intuições quasi instinctivas, os factos
+luminosos da rasão.
+
+Os caracteres essenciaes d'essa poesia já hoje se podem indicar, e todos
+elles se consubstanciam n'uma palavra, que resume tambem as tendencias
+da nossa civilisação: o Humanismo. A inspiração social e naturalista vem
+substituir a sentimentalidade toda subjectiva e pessoal, ou o
+transcendentalismo contemplativo de outras idades poeticas. A poesia
+deixa de duvidar e scismar, para affirmar e combater; mostra-nos o
+interesse profundo e o valor ideal dos factos de cada dia; dá ás acções,
+que parecem triviaes, da vida ordinaria, um caracter, e significação
+universaes; e surrindo maternalmente para as creanças, as mulheres, os
+simples, caminha todavia armada no meio das lutas dos homens.
+
+Uma tal missão ninguem dirá que é mesquinha ou vulgar: ha n'isto com que
+tentar os mais altos engenhos, captivar os corações mais generosos. E,
+sobretudo, deve seduzir os espiritos verdadeiramente poeticos acharem-se
+em communicação directa e constante com o seu tempo, com as aspirações,
+os interesses, as crenças da sociedade que os rodêa, e de cuja vida
+vivem, como meio historico a que fatalmente pertencem.
+
+Certamente que essa evolução nova da poesia tem de ser lenta, como lenta
+é a evolução do edeal social, que a deve inspirar. Ha um certo receio, e
+uma certa incerteza. O novo assusta: o indistincto faz hesitar, mas
+insensivelmente, e fatalmente tambem, caminha-se n'aquella direcção. Os
+symptomas d'este movimento tornam-se cada dia mais accentuados. Em
+França e Allemanha, sobre tudo, paizes aonde as idéas e tendencias novas
+se pronunciam n'uma agitação crescente, podem já indicar-se exemplos bem
+significativos; em Allemanha ainda mais do que em França. Alli a poesia
+inspira-se resolutamente das lutas sociaes e religiosas do tempo, e
+abalança-se já, ainda que com incerta fortuna, ás grandes composições
+epicas, aonde se desenha uma sociedade, consubstanciada nos seus typos e
+paixões mais caracteristicas. Entre nós, ha apenas indicios tenues e
+raros, mas que, porisso mesmo, devemos recolher tanto mais
+cuidadosamente, quanto parecem provar que nem tudo está inteiramente
+morto no espirito portuguez, e nos animam a esperar com alguma confiança
+n'um melhor futuro.
+
+Anthero de Quental.
+
+
+
+
+NOTA
+
+
+Na revisão d'este livro escapou uma ou outra incorrecção que não
+mencionamos, e de que o leitor benevolo nos absolverá. A paginas 63,
+devemos porém notar, em especial, o 3.^o verso, que insidiosamente
+apparece mascarado em alexandrino puro, feição que de certo lhe não
+compete. Aos entendidos concedemos plena autorisacão para demolir o
+verso referido, reconstruindo-o depois como julgarem mais proprio.
+
+
+
+
+INDICE
+
+
+
+
+INDICE
+
+
+I--Eu poucas vezes canto os casos melancolicos
+II--Eu vi passar além vogando sobre os mares
+III--Velha farça
+IV--Graça posthuma
+V--Historia simples
+VI--A meza do festim cercada de formosas
+VII--Os sonhos mortos
+VIII--Falta a ordem
+IX--Ó lyrios da cidade, ó corações doentes
+X--Miseria santa
+XI--Astro da rua
+XII--Quando Martha morrer, depois do extremo arranco
+XIII--As victimas
+XIV--Evocacas
+XV--Boas noites, coveiro, a tua enxada
+XVI--Flor da moda
+XVII--Ó machinas febris, eu sinto a cada passo
+XVIII--A Christo
+XIX--Eu tive um sonho estranho: ouvi que vou dizel-o
+XX--O grande templo
+XXI--A um certo homem
+XXII--Á hora do silencio
+XXIII--Eu quizera depois das lutas acabadas
+XXIV--O velho cão
+XXV--As velhitas
+XXVI--As vizões
+XXVII--Melancolias d'outono! eu quando além descubro
+XXVIII--O velho mundo
+XXIX--Eis a velha cidade, a cortezã devassa
+XXX--Á noite
+XXXI--A valla
+XXXII--Ó vultos ideaes, fantasticos e bellos
+XXXIII--Eu vejo em tua boca as petalas vermelhas
+XXXIV--Nos campos
+XXXV--O ultimo D. Juan
+XXXVI--Formosuras do inverno! Ao sol das duas horas
+XXXVII--Antigo thema
+XXXVIII--A mãe
+XXXIX--Arcanjo vae-te embora, é tarde em nossas casas
+XL--Santa simplicidade
+XLI--O velho Olimpo dorme o bom somno profundo
+XLII--Os palhaços
+XLIII--A hydra
+XLIV--Os novos leviathãs
+XLV--Sua alteza real o pequenino infante
+XLVI--Versos a *
+XLVII--O pobres versos meus, lançae-vos pela estrada
+Appendice
+
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of A Alma Nova, by Guilherme d'Azevedo
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK A ALMA NOVA ***
+
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+Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of
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+including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists
+because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from
+people in all walks of life.
+
+Volunteers and financial support to provide volunteers with the
+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
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+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at http://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+http://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at http://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit http://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: http://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart is the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ http://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
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