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Explicações--Historia de uns pés--Modos de morrer. Os +Lovelaces do sepulchro. Os descamisados da cova--Epistola aos catholicos +do Porto. A associação catholica, seus fins, seus meios, sua +organisação, seu programma. O catholicismo. A egreja refugio da +liberdade. As propagandas catholicas em França e na Italia. Manzoni, +Rosmini, Balbo, Chateaubriand, Lamartine, o sr. conde de Samodães. Os +padres portuguezes. O liberal, o reaccionario, o indifferente. O +confissionario. As academias da rua da Picaria. A mulher christã. O +partido liberal portuense e a infallibilidade do papa. O protestantismo +do sr. Bismark. O seculo XVI. Theoria do scepticismo. A duvida na +politica, na sciencia, na religião. A tolerancia--Festa veneziana nas +aguas de Caparica--O aio de sua alteza. O que é o aio? O perfil do sr. +Martens Ferrão. A corte, a mocidade, a aventura, os tações encarnados, +as espadas dos paladinos. Semiramis, Cleopatra, Penelope e outras. A +regencia. O beijo de Maria Laczinska. A bengala de Constancia de +Arbes--As senhoras hispanholas e os faqueiros--O santo padre, o +imperador Guilherme, o martyrio e as pastilhas de Voltaire. O conde de +Chambord e o constitucionalismo. Saul, Pepino, Henrique IV. Historia +philosophica dos pontapés nas monarchias modernas--Perfil do sr. D. +Miguel de Bragança e influencia politica d'este rei, o seu typo +physionomico, o seu temperamento, a sua popularidade. De como se +fabricou o partido liberal portuguez. O João Sedvem, o José da Policia, +o Telles Jordão e a idéa nova. De como o actual principe D. Miguel é +anemico--O jornalismo, as idéas, os aguadeiros da opinião publica--O +drama do Mexilhoeiro--A falta do elemento feminino nos banquetes +patrioticos. + +Leitor querido--Depois de uma longa abstenção de tres mezes--os mezes do +verão--_As Farpas_ voltam a apparecer no teu banquete ao mesmo tempo a +que recomeçam a servir-se tambem as ostras. + +Á similhança dos mariscos, qu não é bom comerem-se nos mezes que não +teem r, estas paginas condimentosas e estimulantes, se abusasses d'ellas +no tempo quente, amigo, far-te-hian, talvez, furunculos. + + * * * * * + +Além de que, o verão tem influencias de expansibilidade que +desconcentram a vida da esphera das suas condições normaes. É a epoca +das viagens, dos banhos, das estações do campo. Abandona cada um o +interior da sua casa, os seus habitos, as suas occupações, a sua +hygiene, o seu trabalho. Fórma-se uma existencia interina, transitoria, +supplementar. Está-se em uma casa alugada por dois mezes como hospede de +uma noite n'uma estalagem. Não se reside; pernoita-se apenas, e +passam-se os dias. Com a supensão do trabalho esterilisam-se tambem as +idéas, porque todo o trabalho é uma fecundação da intelligencia. Assim +todo o ser humano temporariamente transplantado da parte de solo, de +atmosphera moral, em que ordinariamente exerce a sua actividade, +emurchece. O portuguez, que sempre lê pouco, no verão então não lê nada. +Achei-me por muitas vezes durante a estação finda a bordo dos pequenos +vapores que fazem o transporte dos banhistas entre Lisboa e as praias. +Os setenta minutos d'estas breves viagens eram o tempo consagrado por +cada um para, por meio da leitura, pôr as suas idéas em relação com os +interesses intellectuaes e moraes do resto do mundo. Fóra do convez dos +vapores de Belem ninguem nas praias lê, ninguem tem comsigo um livro. +Isto não é uma simples hypothese, é uma observação positiva. Em +Pedroiços, por exemplo, a vida--toda de porta da rua--é transparente: +vê-se o que cada um faz, quasi que tambem se vê todo quanto cada um +sente e quanto cada um pensa. Pois bem, nas viagens dos vapores de +Belem, unico lapso de tempo destinado pelos banhistas ao estudo, +observámos durante o periodo de tres mezes consecutivos que ninguem lia +senão almanachs, collecções de cantigas ou de charadas, e os periodicos +de noticias. Que elementos para, a educação intellectual de alguns +milhares de cabeças: darem mergulhos no Tejo, aprenderem nos livros que +nasceu o dente do sizo ao sr. Alexandre Herculano, e saberem pelos +jornaes que o sr. commendador Santos foi á Outra Banda em partida da +recreio, com os seus amigos, comer um safio! + + * * * * * + +Não foram essas porém as rasões porque _As Farpas_ se callaram durante a +estação calmosa. Os nossos motivos são inteiramente pessoaes. Nós +adoecemos ... Perdôa, leitor benevolo, estas perigosas tendencias de um +convalescente para a autobiographia. Não, não foi um dente novo que nos +esteve crescendo. Nós não temos, como o immortal historiador a que acima +nos referimos, a honra de abrir estas linhas offerecendo á patria e á +sr.ª D. Guiomar Torrezão mais um novo instrumento gloriosamente +recemnascido para a trincadeira nacional. + +O nosso mal, foi simplesmente uma affecção na larynge. Apanhámos isto +no Chiado. Tivemos na mucose da garganta as mesmas granulações que +padecem os beduinos na mucose das palpebras por effeito do pó nas +peregrinações do deserto. O Chiado pagou-nos o pessimo gosto burguez, +especieiro, indigno, abominavel, de o frequentar, dando-nos esta doença +climaterica e local. Os hospitaes de S. José e do Desterro dão as +desyntherias e as gangrenas; os tanques do Passeio do Rocio dão as +febres paludosas e intermittentes; o Limoeiro e a Casa de detenção das +Monicas dão as viciações do sangue e as escrophulas; o Chiado e o +deserto da Arabia dão as affecções granulosas da larynge e dos olhos. +Cada um dá o que tem. + +A poeira do Chiado é uma especialidade curiosa, interessante, tão +romanesca como a sombra da mancenilha. Esta poeira é fina, miuda, subtil +como a _veloutine_ de Lubin. Ligeiramente tocada pela aza morna do vento +leste, ensinua-se, entranha-se, penetra docemente, consoladoramente, +profundamente--como a calumnia. Depois, uma vez inoculada, produz as +ophtalmias e as esquinencias--as duas maiores enfermidades de Lisboa. +Não é simplesmente formada pelas triturações da terra esta poeira. Não, +porque o solo em Lisboa não é de terra. Aqui a terra tem sido de tal +maneira misturada, falsificada, fingida, que, hoje, aquillo que +primitivamente era a terra já não tem terra nenhuma. O solo de Lisboa é +formado de sobreposições de estercos, de amalgamas de lixo, de restos +pulverisados de fructas podres, de cães mortos e de papeis sujos. + +De todas estas misturas requeimadas pelo verão, carbonisadas pelo sol +canicular, moidas sob as rodas dos trens e sob os pés pressurosos do sr. +conselheiro Arrobas, resulta o pó envenenado da capital. Os papeis +velhos de Lisboa, dejecções burocraticas ou litterarias dos bancos, dos +cartorios, dos tribunaes, dos escriptorios dos negociantes, dos +jornalistas, dos advogados, dos tabelliães e do sr. Melicio, são de tal +maneira abundantes que todos os esgotos da cidade não bastam para os +engulir. A brisa espalha esses papeis dilacerados pelas povoações +suburbanas. A praia de Belem é uberrima de papeis sujos, e Pedrouços, a +mansão burgueza das villegiaturas officiaes, parece-se no aspecto +especial das suas immundicies com um corredor da secretaria das Obras +Publicas destinado a projecto de nitreira modelo pelos disvellos +agronomicos do sr. Rodrigo de Moraes Soares. + +De modo que a antiga expressão «_terra da patria_», com referencia a +Lisboa e seus suburbios, é figura de rhetorica em demasia arrojada. A +patria do lisboeta não tem terra, tem os agglomerados residuos das +podridões e dos papeis velhos. O nauta vigilante, que do alto mar +descobre no azul o ponto escuro e indeciso d'estas praias, procederá com +louvavel exactidão e amor da verdade se em vez do grito poetico de +«_terra! terra!_» começar a exclamar á vista de Lisboa: «Supedaneo de +Melicio!»--ou--«Nitreira de Soares!» + +Victima nós mesmo em todo o nosso apparelho respiratorio d'essas +influencias deleterias da geologia e da civilisação lisbonense, achamos +prudente substituir--como fizemos--a convivencia do publico pela do +gargarejo. + + * * * * * + +No theatro de D. Maria, o drama--_Idiota_. + +Suppoz-se pelos annuncios que _Idiota_ seria uma peça sem nome do +auctor. Equivoco. Era um nome do auctor sem peça. + +No theatro de S. Carlos exhibição extraordinaria dos pés do sr. +Barberat. A primeira vez que este cantor appareceu em scena os +violinistas da orchestra suppozeram que elle se lhes tinha calçado--nas +caixas das rebecas. + +Quando no dia da chegada elle poz á porta as suas botinas para engraxar, +os creados do hotel cuidaram que elle rescindira a escriptura e se +retirava, por se lhes figurar que o sr. Barberat tinha já no corredor as +malas. + +Em algumas alfandegas os guardas do fisco, desconfiados d'elle, teem-lhe +pedido as chaves dos pés! + +Nunca até hoje poderam dormir juntos os pés e elle. Emquanto elle está +deitado de costas, os seus pés estão erguidos, ao fundo do leito, +embuçados em capas, contemplando-o, firmes e silenciosos. Pela manhã os +pés estão mortos de somno e de fadiga, e para que elles se deitem um +momento, elle então, compadecido--levanta-se. + +Ou por que elle os não queira desasocegar de dia, lembrando-se de que +teem de estar a pé de noite, ou porque elles mesmos se recusem +obstinadamente a uma evolução a que debalde os teem querido algumas +vezes violentar, o artista desistiu absolutamente de vestir as calças +pelos pés e começou a vestil-as, como a camisa,--pela cabeça. Antes de +chegar a esta prudente solução, o cantor, para conseguir vestir-se, era +obrigado todas as manhãs ou a descoser as calças, ou a desmanchar os +pés. + +Uma das coisas que mais vivamente picou a curiosidade do publico nas +primeiras vezes em que este artista se mostrou em S. Carlos foi saber +como elle poderia cantar n'um theatro pequeno para que podesse estar +mais alguma coisa em scena além d'elle com os pés. O empresario acaba de +confiar-nos a explicação d'esse segredo, que elle nos permitte enviar +d'aqui como uma dadiva sua á justa anciedade das platéas. Mesmo porque o +empresario attribue, com bastantes probabilidades de acerto, a esta +preocupação do publico perante os pés phenomenaes do baixo a frieza +desdenhosa com que nas primeiras noites se escutou o canto tão vivamente +sentido, tão profundo e tão genial da Galetti. + +Pois bem, meus senhores, não pensem mais n'isso. Querem saber como elle +cantava nos pequenos palcos?... + +Do mesmo modo que cantam os gallos--n'um pé só. + + * * * * * + +Á praia da Torre em Belem foi hontem arrojado pela maré o cadaver de um +homem afogado Era ainda novo, robusto e forte. Estava vestido de panno +azul. A jaqueta e o collete que vestia tinham botões de metal doirado +com uma ancora em relevo. Na manga estava presa uma corôa tambem de +metal. Tinha na algibeira um relogio e algumas moedas de prata +portuguezas e brazileiras. As auctoridades da policia e da saude vieram +á praia e olharam para o cadaver, como a lei manda. Depois do que, +officialmente averiguado que estava ali effectivamente o cadaver de um +afogado, pegaram nelle, atiraram-o ao fundo de uma cova aberta á pressa +na praia, e cobriram-o com alguns metros de areia. + +Bem feita coisa! + + * * * * * + +Nem toda a gente vae para a sepultura com esta simplicidade de +apparatos, a que podemos chamar o _enterro incivil_. Mas todos os cães +se enterram por este modo, e não é por isso menos repousado o seu eterno +somno. Além de que, é preciso que cada um se apresente na eternidade em +condições que não desdigam da gerarchia em que viveu e do conceito em +que o teve a sociedade e a opinião publica. Pretender o contrario é +querer lograr a divina justiça sujeitando-a a illudir-se com o aspecto +exterior dos mortos e a acolher com os mesmos cumprimentos na côrte do +ceu o primeiro aguadeiro que chegue assim como o mais digno e +respeitavel ministro de estado ou general de divisão que se +apresente,--o que seria certamente para Deus um desgosto profundo. Logo: +que cada qual morra como o que é e vá para o outro mundo como o que foi, +para não pôr em equívocos a celestial etiqueta! + + * * * * * + +É um senhor conselheiro a pessoa que morre, na sua cama, victima da sua +gotta? Vestem-se-lhe as suas calças de presilhas e galão de oiro, e a +sua farda bordada; prega-se-lhe no peito a constellação das suas placas +de diamantes, faz-se-lhe a barba, retinge-se-lhe o cabello, põe-se-lhe +ao lado o espadim e as luvas brancas, o chapeu armado sobre o ventre e +um pouco de carmim nas faces. E eil-o ahi está em toda a plenitude e em +toda a magestade dos seus meios physicos e da sua importancia social. As +pallidas Julietas dos sepulchros e as immodestas Rigolboches da tabida +podridão e dos gulosos vermes do _chic_, que se acautelem d'esse maganão +de bom gosto! + +Elle é poderoso: deixou na terra muitos necrologios e muitas missas, e +vae optimamente recommendado pelo alto clero á especial protecção do +Padre Eterno. + + * * * * * + +O que morre é pelo contrario um destes infimos e asquerosos animaes, de +jaqueta de panno azul com botões de ancora, que andam a bordo dos navios +sobre a agua do mar? Uma onda envolve-o no tombadilho e arroja-o ao +abysmo inclemente? Suspende-se então por dois ou tres minutos a marcha +da embarcação--um sólido paquete talvez, luxuoso, commodo, de uma forte +companhia, em que tudo está seguro para os riscos da navegação, tudo +menos a gente,--lança-se uma boia de salvação, arreia-se uma lancha com +quatro homens, e alguns _gentlemen_ que sobem á tolda, tiram dos estojos +de couro de Varsovia que trazem ao tiracollo os seus binoculos e +assestam-os sobre o elemento. Apesar porém d'estas delicadas attenções, +o bruto desagradecido desapparece. Dois ou tres dias depois, a maré, com +nojo, cospe-o á praia da Torre juntamente com outras immundicies. + +Que queres tu d'aqui, meu estupido? Isto não é nenhuma selvagem ilha +deserta e encantada, querida dos luares transcendentes de que fallam á +phantasia as musicas de Bethowen e os versos do Ileine, e em que se +figuram, sob uma luz de esmeralda, os bailados da opera. + +Aqui não ha os profundos paraizos aquaticos habitados pelas ondinas e +pelas sereias de beijos deliciosos e gelados. Não ha os duendes das +phantasticas florestas que te suspendam, sob o luar impregnado de +calidos aromas e de nocturnas harmonias, nos berços aereos das magnolias +e dos lilazes em flor, nem beneficas deidades transparentes que te +cinjam nos seus doces braços e te levem n'uma festa nupcial para os seus +leitos de algas, de coral e de perolas, no fundo dos dormentes lagos, +sob as folhas dos nenufares. + +Não, isto aqui é uma praia decente e grave onde os senhores oficiaes de +secretaria o os senhores desembargadores veem durante a villegiatura +sentar-se pela fresquidão das tardes, com suas mulheres, contemplando +austeros e recolhidos as babugens da vasante e o fronteiro panorama, tão +magestoso e solemne, da Fonte da Pipa. É d'esta praia que o senhor +commendador Santos e o senhor commendador Firmo e o senhor commendador +Eloy teem partido em fina companhia de virtuosas damas, com honestas +guitarras e casto peixe frito, a bordejar no Tejo. É aqui que a illustre +e veneravel burguesia de Lisboa faz as suas estações balneatorias. É +n'estas aguas que ella annualmente refresca e desemporcalha a sua gorda +carne. É aqui que o mesmo poder moderador tem vindo, por vezes, com sua +augusta e elegante consorte demolhar no argento o excelso e inviolavel +systema nervoso da monarchia e da constituição. + +Portanto, ó immundo, tu que morreste afogado no oceano e te deixaste +rolar para a praia da Torre, impertinente como o esqueleto de um goso +morto de fome na Trafaria, tu, imbecil, se querias mais alguma +consideração, mais algum respeito com os teus restos, fosses cahir a +outra parte. + +Trazias algum dinheiro na algibeira, o sufficiente para te pagares o +luxo de um padre e de uma cova, mas, realmente tu não tinhas aspecto de +mereceres a pena de que alguem se occupasse por um minuto comtigo. + +Animal! se querias ser enterrado com respeito e commoção, se querias ter +artigos nos jornaes e padres a cantarem-te o _De profundis_, porque foi +que em vez de te afogares de jaqueta, te não afogaste com uma farda de +almirante, ou de casaca preta e grã cruz dentro de um _coupé_ da +companhia?! + +Deixaste por acaso na terra uma velha mãe desamparada, uma esposa +lacrimosa, uma filha orphã, uma familia, a que seria doce ajoelhar sobre +a tua sepultara ou plantar algumas flores sobre a terra que te cobrisse? +Querias permittir-lhes essa extrema consolação? Deixasses-te ficar no +Chiado ou no Terreiro do Paço, tornasses-te um dos elementos +constituitivos da civilisação lisbonense, fizesses-te moço de recados, +agiota ou empregado publico. Vive-se assim na corrupção, na usura, na +humilhação ou na miseria, mas enfim morre-se bem, barato--e muito! + + * * * * * + +O _Jornal da Noite_ publica uma conta de despeza feita pelo presidente +da republica dos Estados Unidos, Abrahão Lincoln, em um hotel de Albany. +O illustre democrata e as pessoas do seu sequito pagaram a somma de um +conto e alguns mil réis por uma hospedagem de menos de vinte e quatro +horas. + +Este facto argumenta vivamente contra a opinião dos que acham as +republicas mais baratas para os povos do que as monarchias. + +Effectivamente vemos que, ao passo que o presidente da republica da +America do Norte faz um conto de réis de despeza em algumas horas em +Albany e paga essa despeza, sua magestade o imperador da America do Sul +dispende no Porto mil libras em quatro dias, e não as paga. + +É indubitavel pois que as monarchias são incomparavelmente mais baratas +do que as republicas. + +Deve-se porém observar que, sob este ponto de vista, o descredito das +democracias prodigas procede principalmente das estalagens exigentes. +Porque está provado que sempre que um republicano em viagem pretende +gastar tão pouco como um rei economico, os estalajadeiros fazem ao +republicano o seguinte: sequestram-lhe a bagagem. + + * * * * * + +Parece-nos arriscado estabelecer entre os principes e os povos esta +perigosa competencia de quem ha de pagar menos em viagem. Pois que, +realmente, desde que as testas coroadas chegaram ao ideal de se +apoderarem das contas e não pagarem nada, os povos só poderão desbancar +os reis se, não pagando egualmente nada, começarem a estabelecer este +uso: depois de se apoderarem das contas, apoderarem-se egualmente--das +pratas. + + * * * * * + +_Primeira aos membros da Associação Catholica no Porto_ + +Meus senhores e minhas senhoras.--Em nome da Nosso Senhor Jesus Christo +e da Santa Madre Egreja Catholica Apostolica Romana, eu vos saúdo e vos +desejo a divina graça. Como tenho obrigação de vos suppôr--taes como o +dizeis--sinceros e dedicados servos de Deus, devotados a cumprir a sua +lei e a divulgar a sua doutrina, mais vos desejo que nunca vos persigam +os bens e as riquezas temporaes de que certamente vos despojastes para +seguir a Jesus. Eu sei que o divino mestre, antes de mandar aos +apostolos que o acompanhassem, lhes ordenou que deixassem as redes, +fazendo-nos sentir por esta fórma que ninguem póde estar com Deus +estando ao mesmo tempo com o mundo, e que para ter os bens do céo é a +condição essencial--abandonar os da terra. Primeiro: _deixae as redes_; +depois: _vinde commigo_. + +Amados irmãos, presumindo-vos pobres, desvalidos, tendo previamente dado +o vosso pão aos que tinham fome e os vossos vestidos aos que tinham +frio, eu desejo ainda sobre a vossa nudez a mortificação da vossa carne, +a santa mortificação que raspa a vaidade e o orgulho e limpa o +entendimento e a alma das lepras mundanaes. + +Que a graça de Nosso Senhor vos assista e que nada mais do que é +temporal se vos pegue, porque n'este mundo tudo é esterco: _Omnia ut +stercora_, como muito bem disse S. Paulo! + +Se vos não poderdes furtar aos contactos impuros do seculo, permitta o +ceo que em todas as vossas relações com a sociedade todas as invectivas +e todas as malquerenças pharisaicas vos punjam e vos espicassem o +coração, assim como os chacaes famintos furam e rasgam no deserto as +tendas dos piedosos peregrinos. Porque--bem o sabeis--só com as +inimisades do mundo podereis merecer e lograr a amisade de +Deus:_amicitia hujus mundi inimica est Dei_. + +Finalmente, meus senhores e minhas senhoras, resumindo os meus votos +pelo molde mais consentaneo com as vossas aspirações, que o Senhor vos +veja eternamente no ceu e vos aplane o caminho da promissão, tendo-vos +tanto de sua mão que nunca sobre vós deixem de chover as dores e as +ruinas, por isso que, como diz o psalmista, será pela somma das vossas +penas contingentes, transitorias e mundanaes, que serão medidas as +vossas alegrías celestiaes e eternas!--_Secundum multitudinem dolorum +meorum in corde meo, consolationes tuae laectificaverunt animam meam._ + + * * * * * + +Permittí-me agora que, antes de entrar em algumas breves considerações +que a natureza do vosso instituto me suggere, eu me detenha um momento +na simples contemplação do nome que lhe puzestes. + +Que razões poderiam levar-vos, beatissimos senhores, a denominardes +_catholica_ a associação que fundastes, ahi no Porto, em certa casa da +rua da Picaria? Que significa uma associação chamada _catholica_ no meio +de uma sociedade egualmente catholica? Quem é que não é _catholico_ em +Portugal? Não temos nós todos a mesma religião, que não é uma religião +especial da rua da Picaria, mas sim a bem conhecida religião do paiz, a +religião do estado, a religião famosa da carta? Ignoraes por acaso que +nenhuma associação póde ser em Portugal senão isso--_catholica_? +Ignoraes que não temos a liberdade dos cultos, a divergencia de +religiões?... + +Ora, não havendo o mosaismo aqui no Chiado, não existindo o pantheismo +no Rocio, nem o lutheranismo no Terreiro do Paço, nem o fetichismo no +Arco do Bandeira, o que vem a ser um catholicismo da rua da Picaria na +cidade do Porto? Terá cahido o Porto porventura no paganismo idolatra? +Estará elle sacrificando a Jupiter a sua rica vacca cosida? Tel-o-hiam +levado os seus representantes, os seus philosophos, os srs. Faria +Guimarães e Pinto Bessa, ás vertiginosas regiões do livre exame, onde o +espirito humano, abatido, fatigado, morde na solidão o fructo amargo da +sciencia?... + +Não. Eu visitei o Porto ha pouco tempo. Cheguei ahi no dia 24 de junho. +A cidade tinha o aspecto mais jubiloso e festival. Erguiam-se arcos +triumphaes nas embocaduras das ruas, palpitavam á viração matutina +bandeiras desfraldadas nas janellas das casas. Na rua de S. João os +habitantes, de camisa lavada e barba feita, passavam com bandejas cheias +de lanternas para luminarias, outros espetavam no chão mastros +embandeirados; iam, vinham, fallavam alto, tinham gestos abundantes e +felizes. As egrejas por onde passei estavam cheias até á porta de fieis +que ouviam as primeiras missas. Os sinos repicavam em todas as torres, e +os foguetes furavam o limpido azul da manhã. + +O Porto, onde n'esse dia devia celebrar-se um grande _meeting_ liberal, +começava no emtanto--por festejar o S. João! + +Portanto, meus senhores, se vós vos denominaes catholicos, não é porque +supponhaes que os outros o não são; é porque vos parece que o sabeis ser +melhor do que os outros, e pretendeis que vos considerem como unicos +catholicos perfeitos, catholicos affiançados, catholicos garantidos. + +Se é isto o que quereis dizer-nos com o titulo escolhido para a +vossa associação, e não podeis querer dizer outra coisa, +então--meditae-o--achaes-vos em peccado mortal de soberba, de jactancia, +de presumpção de merecimentos. + +Localisando por esse modo a religião na rua da Picaria, vós lançaes +tacitamente a suspeita de impiedade nas demais ruas da cidade da Virgem. + +Pois bem, que a Picaria o saiba: a viella do Ferraz tambem vae á missa, +e Deus sabe se jejua ou não, ás sextas-feiras, a Ferraria de Cima! + + * * * * * + +Advirtamos agora como a associação catholica tem correspondido pela +importancia dos seus actos á audaciosa escolha do seu titulo. + +Até o momento em que vós vos apoderastes do catholicismo para vos +fechardes com elle na rua da Picaria, cabia ao catholicismo a gloria de +ter inspirado as maiores obras produzidas pelo espirito humano. + +Foi esse pobre catholicismo, ainda então desprotegido do valioso +patrocinio que n'este seculo lhe devia conceder a vossa associação, meus +illustres senhores e minhas preclaras senhoras, foi elle, ainda +desalbergado da rua da Picaria, o que na edade media fez brotar da +imaginação dos povos o que ha mais bello nas artes, os maravilhosos +poemas, as ternas legendas melancolicas, as portentosas cathedraes. Foi +elle que levou Pedro Eremita e Godofredo de Bulhões a descerem o valle +do Danubio e a seguirem o caminho de Attila. Foi elle que inspirou Tasso +e Dante. Foi elle que produziu S. Thomaz, o _boi mudo de Sicilia_, o +Aristoteles do christianismo--como lhe chamou Michelet--, o mais +poderoso cerebro da egreja. Foi elle que creou em Hispanha desde o +seculo XVI até o seculo XVII no meio da maior escravidão e do maior +fanatismo, o mais brilhante grupo de artistas que tem visto o mundo: +Velasquez, Murillo, Herrera, Zurbaran, Lope de Vega, Calderon, +Cervantes, Tirso de Molina, Luiz de Leon. O profundo mysticismo de +«Quixote» é um reflexo do poder da fé em todos esses espiritos. Calderon +era official do santo officio e Lope de Vega desmaiava em extase ao +dizer missa. O catholicismo inaugurou ainda a sociedade mais popular, +mais accessivel, mais equalitaria. No meio da barreira levantada diante +da plebe pelos privilegios do sangue, a egreja era o portico de todos +os grandes talentos e de todas as elevadas ambições: o papa Urbano IV, +filho de um sapateiro, edificava a egreja de Santo Urbano e expunha +n'ella, bordado em uma rica tapessaria, o retrato de seu pae fazendo +sapatos. + +Por outro lado o catholicismo deu-nos ainda a Saint-Barthelemy, a +carnificina nacional dos christãos novos, a Inquisição, a guerra dos +trinta annos, os monges bretões que envenenaram o calix de Abeilard e os +dominicanos de Buon Convento que assassinaram Henrique VII, fazendo-lhe +commungar o veneno na hostia consagrada. + +Protegido por vós, meus senhores, tutelado pela vossa sociedade +propagandista da rua da Picaria, o catholicismo portuense tem-nos dado +apenas:--como carnificina, quatro pranchadas nas espaduas de quatro +patriotas á porta da Sé; como arte, a _Palavra_, um pobre jornal piegas, +lacrimoso e beato, com pouca elevação, com pouco enthusiasmo, com pouca +fé, e com alguns erros de grammatica. + +Ora realmente, meus senhores, para resultados tão mediocres não valia a +pena de vos dardes o apparato de quem funda uma agencia para a +Bemaventurança e nos fecha o ceu--n'um armazem de commissões. + +Em 1849 havia na Italia uma propaganda catholica, cujos membros todavia +não chegaram nunca a aggremiar-se e a constituir-se em sociedade como os +cavalheiros e as damas da rua da Picaria. + +O chefe da propaganda italiana era um dos espiritos mais rectos e mais +benignos, era o doce e pacifico poeta Manzoni, recentemente fallecido. + +_I promessi Sposi_, o celebre romance tão conhecido, foi como o _Genio +do Christianismo_, de Chateaubriand e como as odes religiosas de +Lamartine, inspirado por essa reacção catholico-litteraria com que os +romanticos de 1830 bateram as idéas philosophicas do seculo XVIII. + +Manzoni porém, servindo a causa catholica como propagandista, e abrindo +um exemplo que se tornou escola de muitos escriptores e poetas +italianos, Manzoni, em primeiro logar, escrevia para esse fim livros +adoraveis,--e que vós, meus queridos senhores não resolvestes ainda +começar a fazer na vossa officina religiosa da rua da Picaria. Em +segundo logar Manzoni considerava a idéa religiosa como um elemento de +emancipação e de regeneração para a Italia então opprimida e +escravisada. Finalmente Manzoni não tinha por fim especial glorificar os +padres, arregimental-os, armal-os, pôl-os em pé de guerra, como o está +fazendo a associação catholica portuense. Pelo contrario, Manzoni sabia +que os padres italianos do seu tempo eram, como Cantú os descreve tomado +do mais santo horror: «glutões, avaros, estupidos e bandidos». O perfil +ideal do padre Borromeu nos _Promessi Sposi_ não tinha pois a intenção +de um retrato, era o estabelecimento de um novo nivel para a opinião, +era um exemplo, era uma lição dada pelo modo delicado e brando com que o +desgosto profundo inspirára a alma candida e honesta do piedoso +escriptor. + +Feita assim, n'estas circumstancias, n'estas condições, por estes meios, +eu comprehendo a propaganda catholica, e inclino-me respeitosamente +diante dos que a servirem e a promoverem. Não me parece todavia que seja +esse o caso da Associação catholica portuense, nem no que diz respeito +aos fins que ella se propõe, nem no que toca aos meios que emprega para +conseguir o seu fim. + + * * * * * + +Que pretende a associação catholica? + +Libertar a patria, chamal-a á independencia, fortificando com o +sentimento religioso a fé patriotica, como fizeram Manzoni, Rosmini, +Gioberti, Balbo e outros na Italia invadida pela dominação? Não, porque +Portugal, é por emquanto independente e livre. + +Estabelecer a cathechese? Diffundir a moral? Regenerar os costumes? Não, +porque, não sendo publicas as sessões da associação e não tomando parte +n'ellas senão os mesmos associados, pessoas cujos costumes e cujas +crenças religiosas foram d'antemão affiançados, estes acham-se +satisfatoriamente moralisados e instruidos. + +Educar o clero, aprestando-o para uma influencia mais directa e mais +proficua nos interesses da cidade ou nos interesses do ceu? Tambem não, +pelas razões seguintes: + +Os padres portuguezes acham-se todos incluidos em uma d'estas tres +classes:--os indifferentes, os liberaes e os reaccionarios. + +O padre indifferente vive obscuro e tranquillo no fundo de uma aldeia +entre a sua lavoira e o seu campanario. Baptisa as creanças, confessa +os adultos e absolve os que morrem. Se não forem todos para o ceu, a +culpa não é d'elle. Cartilha e bons conselhos propina-lh'os todos os +domingos depois da missa conventual; se os não tomarem para seu bem, lá +se avirão com o demonio no outro mundo e cá na terra com o regedor. De +resto elle cava a sua horta, é grande madrugador, deita-se com as +gallinhas, diz a missa ao romper d'alva, caça a perdiz no inverno e +pesca os barbos no verão. Além de um bocado de breviario, não lê senão +um repertorio para estar ao facto das luas e saber quando convém +alporcar as pereiras e semear os pepinos. Bom homem, rijo, satisfeito, +sanguineo, infatigavel companheiro na caça e na mesa, se tentardes +esgrimir com elle algumas idéas politicas ou religiosas, algumas +subtilezas de critica, de controversia, terá tonturas, arregalará os +olhos, ouvír-se-lhe-hão rugidos interiores e não sentirá senão um +desejo: o de vos açular ás pernas os seus cães e cascar-vos pela cabeça +com o seu grosso marmeleiro argolado. + +O padre liberal habita as cidades, lê os periodicos, intervém em +eleições, frequenta os botequins e as casas de jogo, fuma cigarros, e +protesta vigorosamente contra a reacção e contra o jesuitismo, trazendo +os dedos amarellos e tomando medicamentos secretos. + +O padre reaccionario anda quasi sempre de loba; tem os olhos baixos, o +passo miudo e commedido, o sorriso contrafeito como uma coisa azeda +misturada com assucar; gordura fria e pallida, um tanto sinistra; mãos +brancas, suadas, viscosas; pés moles, de pato, arrastando. O +confissionario é para elle uma vocação, um destino, um prazer: é a sua +arte. Algumas vezes mobila-o com certo luxo, introduz-lhe um sophá e +abastece-o de viveres: uma lata de pão de ló e copos com geléa. É ahi +que elle escuta, de olhos meio cerrados e mãos crusadas no peito, as +confidencias secretas das mulheres, os casos encobertos ás mães e aos +maridos, os inveterados vicios escondidos e os grandes crimes occultos, +as obras e os pensamentos, os alvoroços da carne no meio da penitencia e +da oração, as tentações do inimigo, os ardentes desejos diabolicos, os +pungentes escrupulos de alcova, a grande tragedia intima dos mysticos e +dos solitarios. Elle escuta, manda repetir, inquire, investiga, indaga, +minucia por minucia, as circumstancias que aggravam e as circumstancias +que attenuam; disseca o peccado, desfibra-o musculo por musculo, nervo +por nervo, arteria por arteria; depois reconstitue-o, recompõe-o, +inteira-o, evoca-o, fal-o resurgir nos olhos da penitente--para a +moralisar com a enormidade do erro. A culpa, assim rediviva pelos +retoques finos, dialecticos, incisivos do stylo theologico e casuistico +dos commentadores do Decalogo, a culpa repintada com essa arte mais +sabia, mais poderosamente minuciosa que a de todos os modernos +romancistas psychologos dos vicios torpes e vergonhosos, cinge outra vez +a peccadora, collêa-se estreitamente com ella como a serpente do Eden, +envolve-a nas suas espiraes, penetra-a da sua essencia magnetica, +communica-lhe a electricidade dos seus filtros. É então, n'esse momento +terrivel de crise, nevralgico, histerico, allucinado, que elle critica +friamente, com uma analyse perpendicular, dominadora, arbitra da +commoção; e consola, aconselha, admoesta, subjuga, domina, e absolve ou +condemna, elle, elle em nome do Creador, a fragil creatura desmaiada aos +seus pés. O padre reaccionario faz parte da grande centralisação +catholica, é uma das rodas do grande machinismo, vive no systema de +partido como na obediencia e na regra de um instituto. Não pensa nem +discute. O seu rumo está tomado; segue-o apezar de tudo, atravez de +tudo, como um boi abre um rego, com os olhos tapados. Tem heranças de +velhas devotas, avultadas esmolas de missa, frequentes presentes de +confessadas. Vende agua de Nossa Senhora de Lourdes ou de La Salette. +Cobra os dinheiros de S. Pedro e remette-os para Roma, assigna a +_Nação_, e quasi sempre é rico. + +Dos padres d'estas tres categorias quaes são aquelles que a associação +Catholica influe, aconselha ou dirige? + +O padre obscuro nem mesmo sabe que tal associação existe. O padre +liberal é seu inimigo e adversario intransigente. Resta-lhe o padre +ultramontano. + +Ora este ultimo padre é o ôvo de que a associação Catholica é a ave. +Ella não o modifica, não o educa, não o adverte, não o illustra. Faz-lhe +simplesmente isto: choca-o. Depois, quebrada a casca do sr. padre Couto, +o sr. conde de Samodães apparece. + + * * * * * + +A associação Catholica celebra periodicamente reuniões, a que chama +academias. Que se faz n'estas reuniões frequentadas por muitas senhoras +da primeira sociedade portuense, o que ha de mais digno, de mais +inviolavel e de mais sagrado? + +Relevem-nos este ponto de interrogação, que não tem de nenhum modo a +impertinencia de uma pergunta e deve apenas ser considerado da nossa +parte como um simples ponto de perturbação e de pasmo. + +Se os homens estivessem sós comprehendemos que as reuniões da associação +Catholica fossem para elles um meio do repousarem suavemente das fadigas +temporaes, dos enganos do mundo, das illusões e das vaidades do seculo. +Concebemos perfeitamente que depois de terminados os seus negocios, +assignada a sua correspondencia, pagas as suas lettras, despachadas as +suas mercadorias, fechada a sua caixa, comido amplamente o seu jantar, +saboreado o seu café e o seu _kumel_, elles encerrassem o seu dia +juntando-se todos fradescamente, sem etiqueta, sem cerimonias de +elegancia nem de _toilette_, e que, em seguida, descalçassem as botas e +dissessem: «Ora dissertemos lá um bocado sobre a immortalidade da alma!» + + +Mas, com senhoras, com senhoras elegantes e bellas, que hão de apear-se +das suas carruagens, depôr os seus burnous no _vestiaire_ e penetrar no +salão, sob o gaz, n'uma onda scintillante de setim e de renda, que farão +os homens? + +Hão de se ter espalhado na athmosphera os perfumes da _toilette_, os +murmurios dos vestidos, os reflexos das joias e as confusas palavras +finas, magneticas, que susurram sob a palpitação dos leques. Suppomos +que não ha orchestra nem piano, de modo que as pessoas devotas não +poderão dirigir-se immediatamente ao sr. padre Couto para que as faça +valsar; não estarão patentes os ultimos telegrammas dos successos de +Hispanha; não haverá um serviço de gelados trazido em bandejas de prata +por criados de calção curto: não se terá á mão um numero da +_Illustração_ nem um album que se folheie ... + +Estranha perplexidade! + +Tem um simples associado de abotoar as suas luvas, de adiantar um +_fauteuil_, de se aproximar de um grupo e de lançar um assumpto pela +seguinte fórmula: «Minha senhora, será vossencia assaz boa para querer +fazer-me a honra de me dizer se já tem interlocutor para uma breve +dissertação sobre os novissimos do homem?» + +Ou talvez que haja uma organisação parlamentar para a distribuição dos +assumptos e para a ordem das discussões. E n'esse caso, reunido o +claustro pleno, será o sr. conde de Samodães quem abrirá as sessões, +persignando-se, tocando a sua campainha e dizendo: + +--«Dou a palavra ao relator da commissão encarregada de dar o seu +parecer ácerca das Divinas Pessoas da Santissima Trindade. Meus senhores +e minhas senhoras, está em discussão o Espirito Santo.» + + * * * * * + +Porque emfim, meus senhores, celebrando como catholicos as vossas +academias religiosas, das duas coisas uma: ou vós estabeleceis a +controversia e discutis os canones e os dogmas, ou não a estabeleceis e +não os discutis. + +No primeiro caso usurpaes os poderes que só competem aos concilios, +entregaes aos debates da razão as materias de obediencia e de fé e cahis +no racionalismo heretico. + +No segundo caso, reunidos em nome de Deus, vós não tendes o direito de +fazer senão uma coisa: elevar humildemente ao ceu os vossos espiritos e +prostrar-vos na penitencia e na oração. + +Mas para os exercicios da oração e da penitencia vós tendes a egreja +para rezar e a solidão no interior das vossas casas para meditar o +arrependimento. Para similhantes effeitos congregar os fieis nos salões +da rua da Picaria é desviar dos templos a corrente natural da devoção e +arrancar do interior da familia o saudavel recolhimento dos propositos +bons. + +Eu creio profundamente que entre vós existem homens dignos, honrados, de +uma piedade limpida, com as mais rectas intenções de espirito e de +consciencia. Acredito mesmo que essas almas, timoratas mas boas, +constituem a grossa maioria dos vossos consocios. Por isso vos consagro, +passando, esta palavra séria: + +Nada mais funesto para os costumes do que ensinar ás mulheres que ha +instituições especiaes para o serviço de Deus, para a conquista do ceu, +para a remissão da culpa. O posto digno da mulher christã é em sua casa +ao pé dos seus filhos. Os exercicios espirituaes e as contemplações +mysticas escurecem a alegria domestica, alvoroçam a virtude, perturbam a +consciencia. Na sociedade actual a mulher pertence, integralmente, com +toda a responsabilidade do seu destino, á missão sublime da regeneração +do homem pela attracção do lar. Desviar sob qualquer pretexto que seja +a attenção da mulher dos interesses da familia é commetter para com a +moral um sacrilegio. A casa conjugal tambem é um templo, e a maternidade +é uma religião. + + * * * * * + +Meus senhores, tenho procurado tanto quanto me tem sido possivel ser +amavel comvosco, tomando para vos observar todos os pontos de vista. +Olho-vos como christão, olho-vos como catholico romano, olho-vos como +cidadão, olho-vos como simples espectador, como _dilettante_. De todos +os modos vós me pareceis ou incongruentes, ou ridiculos, ou absurdos. + +Todavia, meus senhores, depois de tão exactas observações, eu não +concluo que dissolvaes o vosso synodo e que vos retireis para vossas +casas. Os senhores liberaes, que vos combatem, são egualmente +incongruentes, egualmente absurdos e um pouco mais comicos do que vós, e +os senhores liberaes tambem se não retiram. + +Elles dão morras ao papa, chefe supremo da religião catholica e todavia +continuam a dizer-se catholicos. Odeiam e guerreiam os padres e no +emtanto continuam a entregar as suas mulheres aos confissionarios e as +suas filhas á cathechese. Insultam a theologia do vosso jornal a +_Palavra_ mas não acceitam com elle a controversia porque não sabem +theologia. Não lhes importa o irem para o inferno, mas não querem ir +para o Carmo. O seu atheismo leva-os a quererem «esmagar o infame» como +elles mesmos dizem, mas com a clausula de não molestarem com essa +operação os calos do sr. Bento de Freitas, governador civil, ou do sr. +Pinto Bessa, presidente da camara. Ultimamente vós festejaveis com um +_Te Deum_ na egreja da Sé o anniversario de Pio IX: estaveis +inteiramente no vosso direito e na logica dos vossos principios. Elles, +em vez de combaterem com uma affirmação de sciencia a vossa protestação +de fé, esperaram-vos á porta da egreja, deram vivas á liberdade, a +Victor Manuel e a Garibaldi e alguns morras ao Papa infallivel. Foi com +esta elevação de critica que analysaram o Concilio do Vaticano, consti. +4.ª cap. IV _De infallibilitate romani pontificis magni_, a qual +constituição nunca leram. A policia interveio, espancou varias pessoas, +prendeu varias outras, e eis em resumo o que os periodicos liberaes +chamam os conflictos da liberdade e da reacção religiosa na cidade do +Porto! + +Profundas graças ao Altissimo, que não são inteiramente estas as +circumstancias que determinaram as antigas crises do poder entre os +burguezes do senado do Porto e os poderosos barões feudaes da Sé +portuense ou do balio de Leça! Os srs. padre Rademaker e padre Couto não +afivelaram os arnezes de aço dos antigos bispos e dos freires +hospitalarios, não reuniram os seus sergentes e homens d'armas, não +mandaram erguer as levadiças dos seus paços acastellados nem +desembainharam as suas espadas famosas ... Não, elles apenas entoaram a +ladainha de todos os santos, e prometteram, não excursões armadas sobre +os rebeldes dos seus feudos, mas sim jubileus e bençãos telegraphicas +aos seus adeptos. + +Ora não vemos realmente em que estas coisas possam atterrar a liberdade +e sobresaltar o paiz. + +É singular esta coincidencia: + +O clero catholico tem hoje em toda a Europa o papel sympathico. Os +unicos paizes do mundo em que ainda se gosa a liberdade religiosa são os +paizes catholicos. Na Russia, na Allemanha, temos o despotismo e a +perseguição protestante. O sr. de Bismark prende, processa e desterra +os sacerdotes catholicos. No novo imperio do rei Guilherme, o +patriotismo reforça-se na religião do estado; a recente legislação +allemã submette todos os casos de disciplina ecclesiastica e todas as +deliberações episcopaes ao poder civil, e prohibe o clero sob as mais +severas penas de cumprir preceitos que dimanem de qualquer auctoridade +ecclesiastica estranha á nacionalidade allemã. + +Ferida violentamente na sua liberdade, perseguida pela força, a egreja +catholica--quem o diria!--appella para as garantias espirituaes e quer a +distincção dos poderes como salvaguarda da liberdade. Na Allemanha os +ultramontanos mais ardentes fortificam-se nos seus ultimos +entrincheiramentos pedindo como Cavour a egreja livre no estado livre. A +tal estado chegou desprestigiado e abatido o antigo poder clerical!... +Elle já não quer exercer a sua velha tyrannia, contenta-se em não +supportar a perseguição; e, como todos os martyres, pede a liberdade +como o extremo refugio das consciencias apavoradas. + +Violentamente ferida no coração, perseguida pela força, a egreja +apresenta esse symptoma infallivel da sua suprema dôr--o grito das +garantias espirituaes, o appello em ultima instancia para a distincção +dos poderes. + +Pio IX, fortificado no Vaticano, como n'uma cidadella gloriosa, +desmoronada e vencida, posto que respeitada, soffre as ultimas +consequencias fataes da sua politica, e, indomavelmente pertinaz e +corajoso, esse velho batalhador veneravel, despojado da sua corôa +temporal, arroja aos vencedores o derradeiro desafio do seu despreso, +arvorando impavidamente o dogma e metralhando com as excommunhões a +opinião liberal em ultimo sacrificio a uma causa perdida. + +É curioso até o ponto de se tornar ligeiramente comico que seja este o +momento escolhido pela burguezia portuense para começar a apontar-nos a +egreja catholica como um perigo para a liberdade! + +No Porto os livres pensadores da calçada dos Clerigos principiam agora a +receiar que os catholicos da rua da Picaria assoberbem e esmaguem sob a +desmaiada e quasi esvahida legenda pontificia o poderoso mundo +scientifico moderno. + +Pela sua parte vós, catholicos da Picaria, reunis as vossas mulheres e +as vossas filhas, entoaes ladainhas e procuraes com preces e com +penitencias desaggravar a divindade offendida com as invectivas dos +periodicos liberaes--no que nos parece que confundis tambem um pouco a +religião com a sacristia, e tomaes frequentemente o sr. padre Couto pelo +Padre Eterno. É o vosso erro. No entanto ficae no vosso posto. A +civilisação precisa de vós, não como elemento reconstituinte, mas como +producto lachante. A sciencia estima-vos ... como droga. O velho mundo +invoca a vossa assistencia para o ajudar a morrer, para o enterrar. Para +mim, que acabo de vos discutir como fazendo eu mesmo parte do meio +burguez em que existis, vós sois certamente um absurdo. Perante a +philosophia vós sois porém uma necessidade historica. Nos annaes do +progresso transcendente do espirito humano o vosso nome ha de ficar como +o curioso epitaphio de uma geração que se extinguiu ha tresentos annos. +Porque a verdade é que vós representaes as idéas do seculo XVI. + +A associação catholica do Porto instituiu-se para quê? Vós mesmos o +estaes dizendo todos os dias: Para salvaguardar a fé religiosa da +corrente invasora do scepticismo moderno. + +Pois bem, meus senhores, foi esse mesmo scepticismo, cuja corrente vós +pretendeis hoje reprimir ou recuar, o que produziu a grande revolução +scientifica do seculo XVII e toda a civilisação subsequente até os +nossos dias. + +O scepticismo é o estado de espirito que medeia entre a superstição e a +tolerancia. Ha mais de um seculo que nenhum pensador grave se intromette +na vossa controversia theologica. Ninguem vos combate, ninguem mesmo vos +discute. O mundo novo está já na tolerancia, quando vós combateis ainda +o scepticismo de que a tolerancia é o fructo! + +Duvidar, meus bons amigos, é exercer uma das mais poderosas e mais +fecundas faculdades da razão humana. Para chegar á verdade não ha senão +esse caminho: a duvida. Para chegar a Deus, que não é outra coisa senão +a expressão theologica da verdade, o unico meio é tambem esse: a duvida. +Primeiro que tudo duvida-se, depois aprende-se, por fim descobre-se. Tal +é a marcha invariavel dos espiritos na sua grande ascensão do imperfeito +para o absoluto. + +O mesmo christianismo não poderia nunca ter principiado a existir se não +o tivesse precedido a duvida nas consciencias da antiguidade pagã. +Antes de acreditar em Jesus Nazareno o homem teve que duvidar de Jupiter +Capitolino. A tradicção christã é uma conquista do scepticismo antigo. A +duvida foi a primeira e a mais augusta expressão da revelação divina. + +A duvida tem sido em todos os tempos a luz immortal e a guia suprema do +entendimento humano. Foi a duvida quem levou Colombo ao novo mundo, +Copernico e Newton á astronomia, Boyle e Pascal á hydrostatica, Galyleu +á mecanica e Lavoisier á chimica. + +Se nas profundidades da nossa alma o scepticismo não tivesse existido +sempre como uma indomavel força inextinguivel de perfectibilidade +indefinida, a sciencia astronomica não viria occupar o logar da +astrologia, a physica e a chimica não substituiriam a alchimia, e a +imagem de Christo crucificado não succederia nos altares do Vaticano ás +estatuas dos dois mil deuses da Roma antiga. + +Quereis a definição precisamente scientifica do scepticismo? Ouvi +Buckle, o historiador da civilisação: scepticismo é a difficuldade de +crer; de sorte que o scepticismo que se augmenta é a percepção +augmentada da difficuldade de provar asserções, ou, n'outros termos, é +a applicação augmentada e a diffusão augmentada das regras do raciocinio +e das leis da evidencia. Esse sentimento de hesitação é em todo o campo +do pensamento o preliminar invariavel de todas as revoluções +intellectuaes por que tem passado o espirito humano; sem o scepticismo, +progresso, mudança, civilisação, tudo seria impossivel. Na physica é +elle o precursor necessario da sciencia; na politica o precursor da +liberdade; na religião o precursor da tolerancia. + +Ora defendendo a integridade da fé, vós fazeis á philosophia este +serviço relevante: suggeris a duvida, procuraes accordar a razão +individual, a qual nunca em nenhum outro meio social se desenvolveu tão +larga e tão arrojadamente, como no seio da egreja christã, a qual apezar +de todos os seus erros e dos seus mesmos crimes, tem sido sempre o mais +forte nucleo da vida moral e o mais alto objecto de todos os grandes +desenvolvimentos da intelligencia e da vontade. + +De resto entendo que o Porto, esse feliz e arrojado industrial, vos deve +ser especialmente grato e reconhecido, porque vós o dotastes com um +estabelecimento que Lisboa ainda não possue--A associação catholica da +rua da Picaria,--a qual, á similhança dos antigos moinhos do Tibet e das +cabaças rotatorias dos Kalmuks, assegura á commodidade dos habitantes um +systema permanente, uma especie de moagem mechanica, com motuo continuo, +de adorações e de preces. + + * * * * * + +Algumas das familias que durante a estação finda se achavam a banhos de +mar em Pedrouços, resolveram de uma vez fazer uma festa nocturna, +mysteriosa, venesiana. Tomaram um vapor da carreira de Belem, +illuminaram-o com balões de papel como as gondolas do canal da Zueca que +deslisam em frente dos terrassos do palacio Barbarigo no primeiro acto +da _Lucrecia_. Para que a commoção de todas as pessoas que tomaram parte +n'esta scena fosse profunda e illimitada, os homens tinham-se +apresentado todos vestidos como os tenores nas scenas de _barcarola_. O +jubilo era indescriptivel. + +Reunida a bordo toda a sociedade, o vapor levantou ferro, e penetrou na +treva, vibrante de aventura, saturado de drama, na direcção de +Caparica. + +O Tejo porém estava grosso e picado, de modo que começou a dar ao vapor +uns balanços intermittentes para um lado e para o outro como de quem +escabacea com somno. Com isto principiaram a manifestar-se com uma +insistencia progressiva os symptomas spasmodicos nos esophagos da +assembléa. Os Mazaniellos, verdes como azebre, tristes como condemnados +á morte, procurando sorrir á catastrophe com sorrisos dilacerados como +os que apresentam os cotovellos rotos, enrolavam-se nas suas capas e +prostravam-se como trôchos inuteis nos bancos da tolda. As senhoras +punham os seus lenços na bocca, corriam a mão pela testa, cuspiam +desconsoladamente no mar, e tinham ligeiros movimentos extaticos e +doloridos como de quem está escutando no ar o rumor de uma angustia que +chega. + +Então o sr. Mathias Ferrari, segundo lemos no _Diario de Noticias,_ «fez +correr um abundante serviço de neve». Todos se serviram. + +Os effeitos foram taes que quando os criados repassaram com a segunda +roda de sorvetes, todos os convivas, com as boccas ainda abertas, +estremeceram de horror, porque cuidaram que esses segundos gelados eram +outra vez--os primeiros. + +Então um homem forte, que tinha ido para bordo armado de um violão, +tentando arrancar a companhia a uma consternação abatida e geral, +começou, a dedilhar o instrumento e a entoar uma chacara. Mas, de +repente, suspende-se, torce-se, arripiam-se-lhe os cabellos, +encurva-se-lhe a espinha dorsal, cae-lhe o violão desfallecido nos +braços das senhoras, e o resto da chacara destinada aos eccos nocturnos +do oceano e recolhida pelos circumstantes n'uma bacia. + +Era immenso a bordo o desalento. + +Mathias Ferrari, descorçoado, abatido, já «não fazia correr os +serviços.» Este grande confeiteiro, dominando inteiramente a situação +com a profundidade da sua critica, comprehendera--e muito bem!--que a +questão ali já não era de _fazer correr_, mas de _fazer parar_. + +Era alta noite quando o vapor abicou outra vez á praia de Belem, +recolhendo-se todos perfeitissimamente satisfeitos pelo modo como se +passara tão bello tempo. Apenas, para que desembarcassem, houve o +pequeno trabalho de virar os que tinham assistido a esta festa, a mais +brilhante talvez que se tem dado no Tejo, por que os convivas em virtude +dos reiterados exforços que tinham feito no mar para puxar para fora o +interior, succedera-lhes terem-o effectivamente conseguido, e haverem +chegado todos a terra--pelo avesso. + + * * * * * + +Com a mais extranha commoção lemos ultimamente que fôra nomeado aio de +sua alteza o principe real sua ex.ª o sr. Martens Ferrão, abalisado +jurisconsulto e procurador geral da corôa. + + * * * * * + +É talvez uma bem perigosa temeridade da parte de prosaicos e obscuros +burgueses como nós somos o atrevermo-nos a meditar um momento no que +possam ser perante a educação e perante a sciencia as attribuições +especiaes de um aio junto de um principe. Todavia--debalde procurariamos +escondel-o--em presença de similhante assumpto, profunda e illimitada é +a confusão do nosso espirito. Por isso que, por mais assignaladas que se +nos representem as differenças que devem distinguir o alto e poderoso +filho de um monarcha do mero filho de um fabricante de velas de cebo, +nunca, por maiores que sejam na direcção do infinito os arrojos da nossa +phantasia curiosa, nunca podemos chegar a alcançar, nem pelas +presumpções mais vagas nem pelas mais remotas suspeitas nem pelas mais +affastadas conjecturas, qual o emprego pratico e effectivo que possa dar +um principe aos prestimos de um aio. Para satisfação de que +necessidades, de que conveniencias ou de que simples formalidades, em +que condições, em que circumstancias, em que especial momento da +preciosa e augusta vida do real infante vae sua excellencia o aio á +presença de sua alteza o principe?!... Nós o ignoramos. + +Porque, quando as ordens de sua alteza procedam das necessidades do seu +espirito, das curiosidades da sua intelligencia, dos interesses da sua +instrucção, sua alteza pedirá naturalmente algum dos seus mestres ou +algum dos seus livros, e a sua alteza será então applicado um professor +de linguas, um compendio do sr. João Felix ou um numero do _Diario de +Noticias_. Quando os desejos manifestados por sua alteza dimanem das +urgencias physicas da sua naturesa, das fatalidades animaes do seu +organismo ou do seu temperamento, sua alteza pedirá o seu banho, o seu +jantar, as suas pastilhas ou o seu escarrador; e então os camaristas de +sua alteza, as suas aias e os seus escudeiros cumprirão os desejos de +sua alteza. + +E não vemos, nem na ordem physica, nem na ordem moral, nem na ordem +inlellectual das relações de sua alteza com o mundo externo, a +necessidade, a conveniencia ou a plausibilidade da intervenção do aio. + +A não ser que a concorrencia d'esta legendaria entidade methaphysica se +deva considerar nos reaes paços como um acepipe _hors d'oeuvre_ ou como +um objecto supplementar de recreio, porque então comprehendemos de certo +modo que ao serviço particular de sua alteza um camareiro exclame: + +«Está o _lunch_ na mesa: ha _galantine_, rabanetes e o sr. Martens +Ferrão com salsa picada e manteiga fresca.» ou então: «Eis os brinquedos +de sua alteza: aqui está a bola de guttapercha e a caixa com o sr. +Martens Ferrão de engonsos.» + + * * * * * + +Se porém--e perdoe-se-nos esta hypothesese, sob a senhoreal e demievica +palavra «aio», devemos entender a idéa perfeitamente logica, sensata, +popular, de um preceptor pratico, de um mestre experimental, de um +amigo, de um companheiro, n'esse caso notaremos com o mais profundo +respeito a Sua Magestade a Rainha, dedicada mãe e primeira educadora do +joven principe, que foi singularmente illudida a sua perspicacia +elegendo o sr. Martens Ferrão como conselheiro official e privado de seu +filho, como guia experimentado da candida existencia inexperiente do +innocente alumno. E isto por uma razão que de nenhuma maneira desabona +os altos merecimentos de sua excellencia o actual senhor procurador +geral da corôa, antes pelo contrario os confirma e corrobora. Esta razão +é que: o sr. Martens Ferrão, pela sua natureza, pela sua organisação, +pelo seu temperamento, pelo seu caracter, pela sua biologia, é tão +inexperiente, tão candido, tão ingenuo, tão innocente e tão puro como o +proprio alumno que elle é chamado a aconselhar e a dirigir na difficil e +complicada navegação da vida. + +Passando em tenros annos do regaço d'aquella que lhe deu o ser para os +braços da austera jurisprudencia, que tinha de amamental-o para a +sciencia e para a gloria, o sr. Martens Ferrão tem até hoje passado a +sua vida _en nourrice_ em casa do Direito Publico. + +Os seus dias teem decorrido transcendentemente fora das condições +historicas do tempo e do espaço. A sua existencia tem sido +exclusivamente mystica e symbolica. Quando tem os seus impetos mais +ferozes de extravagancia, de anarchia, de deboche, elle sae a passear +pelas viçosas campinas da philosophia do direito e faz patuscadas +orgiacas e escandalosas com as origens celticas do direito e com as +liberdades municipaes do imperio romano. Depois o remorso apodera-se +d'elle. No dia seguinte acorda pallido, abatido, com a lingua grossa: o +espectro pavoroso e formidavel do sr. Batbie appareceu-lhe em sonhos, e +elle ouviu vozes vingadoras que lhe bradavam das profundidades da noite +e do arrependimento: «João Baptista, para onde deixaste o direito de +punir? que fizeste do direito administrativo, João? que é do direito +internacional, Baptista?!» Taes são os seus dias de mais desdem, de mais +anormalidade, de mais sexo, de mais jogo e de mais champagne! tal é o +seu despertar contricto para a legalidade, para a descentralisação +districtal e para as reformas de administração! Tal, resumidamente, é +elle! E quando dizemos _elle_, commettemos uma incerteza de +concordancia, porque tão pura, tão transcendental, tão scientifica é a +personalidade do sr. Martens Ferrão, que nada obsta a que a historia +referindo-se a sua excellencia, em vez de dizer _elle_, diga--_ella_. +Pela nossa parte, aguardando ácerca da resolução d'esse ponto as +ulteriores disposições definitivas da posteridade, diremos por emquanto +simplesmente _el_, sem a desinencia de genero, sob a respeitosa formula +neutra. + +Como diziamos, pois, tal é--el. + + * * * * * + +Analysando, timidamente como o temos feito, a nomeação do sr. Martens +Ferrão para aio do principe real--note-se bem isto--não é a sorte de sua +alteza o que nos inspira receios sob a guarda de um tal guia ... Ah! não! +É pelo contrario o destino de sua excellencia o que nos inquieta sob a +influencia de um tal companheiro. Por _elle_ podemos estar perfeitamente +socegados. Mas _el_? o que será d'_el, el_ tão puro ou pura, tão +candido ou candida, sob os impulsos da nova existencia que +repentinamente vae no seu temeroso vertice arrebatal-o ou arrebatal-a?! + +Na vida da côrte, fina, scintillante, irritavel, cheia de factos, de +commoções, de rasgos de espirito e de valor, de emboscadas, de +surpresas, de malicias, de tentações, quantos perigos, quantos laços, +quantas ratoeiras para a innocencia virginal, para a candida pureza +inexperiente e inerme d'_el!_ ... + +Os principes por effeito da sua vida reclusa, claustral, vigiada, +monotona, amam naturalmente a escapada, o mysterio, a aventura, a +innocente anormalidade. Apraz-lhes a sortida arriscada, a partida +carnavalesca, o ruido dos festins secretos, a mascara inescrutavel, a +longa capa dramatica e a espada ligeira e subtil dos paladinos;--o que +se lhes deve relevar, porque é esse o unico despique dos principes para +a secca official dos intrigantes, dos bajuladores, dos ambiciosos, dos +sensaborões e dos hypocritas que ordinariamente os rodeiam. Estes porém +não são ainda para _el_ os unicos perigos. Não é licito esconder que ha +outros mais e muito mais temerosos. Pensemos nas influencias +tempestuosas d'esse elemento, terrivel para a mocidade, que se chama--a +mulher. Sentimos magoar com este promenor a pudicicia do sr. procurador +geral da corôa, mas esta é a verdade que não devemos occultar aos olhos +de sua excellencia. Diz Michelet, o casto, o austero Michelet, que em +todo o tempo a mulher attrahiu o homem, assim como a vinha da Italia +chamou os gaulezes, e a laranja da Sicilia chamou os normandos. Ellas +chamam-nos, ó srs. procuradores geraes da corôa, ellas chamam-nos! +Lembremo-nos da bella Helena, sr. Martens Ferrão, lembre-mo-nos de +Semiramis, de Cleopatra, da casta Penelope, das Sabinas! + +Os principes não estão mais isemptos que os outros homens d'esta lei +geral da humanidade, e os que vivem com elles--ponderemol-o bem--ficam +sujeitos ás mesmas influencias que envolvem os reis. + +Guilherme VII, cuja fé religiosa era tão ardente que elle foi á Terra +Santa com cem mil homens, o proprio Guilherme VII levou tambem na viagem +do Santo Sepulchro a galante legião das suas amantes, e diz d'elle uma +velha chronica que, bom trovador e bom cavalleiro d'armas, por muito +tempo correra o mundo _para enganar as damas_. Tal é a raça de que elles +sáem, ás vezes, quando não sáem peores que o mystico e piedoso +Guilherme! Que a actual procuradoria geral da corôa emquanto é tempo o +medite! + +De Francisco I, um dos mais sabios e dos mais uteis reis que tem tido o +mundo, diz-se que ás bellas milanezas se deve a mais importante parte na +perseverança com que elle combateu pela conquista da Italia. + +Sem fallarmos na cohorte das peccadoras, tão gentis como funestas, dos +_boudoirs_ de Luiz XIV e da Regencia, recordemos ainda as dissolutas e +ferozes mulheres da côrte de Carlos IX, Catharina de Medicis, Maria +Touchet, e as grosseiras amantes torpes de Luiz XI, a Gigogne e a +Passefilou ... Oh! pudor! oh decoro! oh reforma administrativa! + +Suppondes que a educação, os exemplos salutares e os conselhos sabios +possam preservar os principes dos perigos das suas ligações +clandestinas? Mas quando assim pudesse ser, quantos outros riscos na +propria convivencia legal das mulheres legitimas! + +Um dia Maria Laczinska, legitima mulher de Luiz XV, recusou um beijo ao +rei com o fundamento de que este cheirava a vinho. Luiz, segundo a +expressão pittoresca de um chronista das galanterias escandalosas do +seculo passado, começava então _a tomar o gosto ao champagne_. O rei +resolveu n'esse dia nefasto separar-se para sempre da rainha, e são +sabidos os desgostos e as desgraças que o rompimento d'essas relações +custou á felicidade da França e á moral da Europa. Que remorso para o +aio de Luiz XV! Foi d'elle a culpa d'esse desastre. Se o aio do joven +rei, em vez de começar _a tomar o gosto ao champagne_ juntamente com o +seu alumno, fosse, como pelo contrario devia ser, um experimentado e +antigo _soupeur_, conhecedor esperto de todas as ciladas armadas ao +homem pela bebida e pelo amor, elle teria evitado o divorcio do rei. + +Tel-o-hia evitado, porque teria ensinado ao seu alumno, com a +auctoridade da experiencia, que a intemperança nas ceias e o abuso no +champagne produzem as hepatites, as predisposições para a apoplexia e +para a gotta e a manifestação das areias no rim. Se o principe não +obedecesse a estes conselhos e persistisse em ceiar, n'esse caso o seu +aio lhe faria comprehender que depois de ter bebido champagne nenhum +homem vae conversar com senhoras sem ter concluido a sua digestão e sem +haver previamente lavado a bocca com um elixir dentifrico. Um pequeno +passeio ao ar livre, uma gota de laudano ou uma pastilha, qualquer +d'estas tres coisas ministrada opportunamente por um aio intelligente e +dedicado, teria obstado ao rompimento das relações de Luiz XV com sua +mulher e a todas as consequencias que d'ahi se seguiram. + +Algumas vezes succede ainda que, além de todos estes desgostos, d'estas +decepções e d'estes remorsos, os aios, os validos, os intimos dos +principes levam ainda por cima pancada das princezas. N'este ponto as +chronicas são prodigas de eloquentes e salutares avisos. Constancia de +Arles, por exemplo, mulher de Roberto Pio, tinha taes accessos furiosos +de mau genio que um dia vasou um olho do seu proprio confessor +batendo-lhe com uma bengala que tinha no castão um bico de passaro. Esta +mesma bengala nem sempre se conteve perante a pessoa inviolavel e +sagrada da real magestade, e por muitas vezes se ergueu sobre as cabeças +dos amigos mais particulares do rei para nem sempre deixar inteiros +esses craneos dedicados e fieis. Foi a mesma sobredita princeza a que de +uma vez mandou matar por occasião de um passeio, aos proprios olhos do +soberano, o ministro De Beauvais, que lhe desagradava, e que, de outra +vez impoz para o outro mundo um cortezão antipathico, estafando-o com +uma corrida que o obrigou a dar n'uma caçada. + + * * * * * + +Ora se a corôa tem por um lado a obrigação de escudar a infancia e a +innocencia dos principes, não deve por outro lado sacrificar a +inexperiencia inerme das instituições pondo os srs. procuradores geraes +como barreira entre as tentações e as culpas, lançando emfim a alta +magistratura ao pego tenebroso, ao Mexilhoeiro insondavel em que ha o +espumar dos vinhos capitosos, o sussurrar das sedas, o arfar dos leques, +os sorrisos tentadores e as bengalas de castão de bico. + + * * * * * + +Algumas das pessoas que tiveram a honra de serem admittidas a jantar com +as senhoras hispanholas que ultimamente se acharam em uso de banhos de +mar, e de emigração, em Lisboa pedem-nos a nossa intervenção para +dirigirem áquellas senhoras, aliás tão distinctas e tão interessantes, +uma pequena observação que os seus amigos mais dedicados se não atrevem +a fazer-lhes directamente. + +Suas excellencias teem á mesa o terrivel habito de comerem o peixe com a +faca, o que os admiradores mais enthusiastas do fino sal de espirito de +suas excellencias e do seu poderoso encanto de maneiras, não podem +abster-se de considerar como uma concorrencia temeraria feita por suas +excellencias aos acrobatas dos jogos malabares, unicos entes que +insistem em accumular os seus meritos pessoaes com o talento +supplementar de metterem as facas pela bocca. + +... Sendo certo ainda assim que os malabares que temos visto +entregarem-se a este exercicio, servem-se o seu rodovalho á parte, e +comem as facas--sem peixe! + +Submettemos estas simples reflexões a suas excellencias, as quaes em +seu delicado criterio decidirão se, attentos os graves cuidados que nos +inspiram, devem ou não continuar a manter--na lista dos seus acepipes +predilectos--os faqueiros. + + * * * * * + +Durante este mez, tão inquieto, tão palpitante de commoções, em toda a +Europa, os principes com mão nervosa e febril cultivaram a epistola. + +O Santo Padre escreveu ao imperador da Alemanha, o imperador da Alemanha +escreveu ao Santo Padre, o conde de Chambord escreveu ao deputado +Rodez-Benavent, o sr.D. Miguel de Bragança escreveu ao sr. conde da +Redinha, e a historia em geral e os redactores da _Nação_ espeialmente, +escutaram com ardor o fremito d'essas pennas riscando a face do universo +com letras um pouco menos correctas que as de Cicero, de Plinio o moço e +de madame de Sevigné. + + * * * * * + +O Santo Padre pede ao imperador Guilherme que obste a que o governo da +Alemanha persista na perseguição do clero catholico. O imperador +Guilherme roga a Sua Santidade que impeça o clero catholico de proseguir +na rebelião contra o governo da Alemanha. + +D'este modo o Papa deseja que se retire da scena o martyrio, a grande e +bella apotheose da egreja triumphante, e lembra ao verdugo que sirva aos +martyres o antigo fel das legendas gloriosas com o moderno assucar dos +confortos policiaes. + +O imperador opina que amargo de mais é o proprio calix que o obrigam a +tragar, e tirando da cabeça o seu ponderoso capacete bellico de ponta de +pára-raios, e humilhando-se dentro das suas botas de couraceiro, +elle--abatido, beato, lacrimoso--pede egualmente para as suas +tribulações de christão as correspondentes e proporcionaes doçuras. + +E taes são os dois maximos guardas da fé, os dois summos representantes +na Europa moderna dos dois grandes ramos em que se acha dividida a +christandade! + +Oh! Voltaire compungir-se-hia, e, franzindo n'um sorriso bom os feixes +malignos das suas sarcasticas rugas, elle, o caustico philosopho, o +livre espirito, tirando benevolo dos bolsos da sua houppelande de +veludo e martas a caixa das suas pastilhas, offereceria ás potestades +chorosas os bombons sacrilegos dos salões de Mesdames du Deffant e de de +Lambert. + + * * * * * + +A carta do conde de Chambord é o velho golpe astuto de Jarnac jogado ao +constitucionalismo monarchico. + +O principe a quem a França offerecera a corôa burgueza de Luiz Filippe, +pergunta-lhe o que exige d'elle a França, que papel lhe destina, para +que missão o invoca. + +Vós, que estaes na liberdade, na democracia, na republica, cedeis ao +invencivel appetite de acclamar um rei. Comprehendestes que é superior +aos vossos meios repressivos e reorganisadores a perturbação corrompida +da sociedade em que viveis. Duvidaes da vontade, da intelligencia, da +força do vosso accordo collectivo. Quereis uma iniciativa individual, +culminante, prestigiosa, predestinada para o mando, para o triumpho, +para a gloria; quereis o monarcha eleito como Saul «para livrar o seu +povo das mãos dos seus inimigos», segundo a formula primitiva do +propheta Samuel. + +N'esse caso armae a vossa cathedral de Reims, convidae os vossos +principes do seculo e da egreja, trazei a corôa real, a espada, as +esporas, a dalmatica azul, as botinas de seda estrellada de lizes de +oiro, entregae-nos o sceptro de Carlos Magno, e dae-nos as sete uncções +de Pepino o Breve. Depois do que, nós haveremos por bem deliberar por +quaes secretos caminhos nos apraz mandar-vos, segundo as vossas +gerarchias, para a victoria, para a bemaventurança ou para a força. +Emquanto vós, tranquillos, repousados, deixareis definitivamente de +occupar-vos da coisa publica, e, sem ambições, sem principios, sem +idéas, tereis a felicidade absoluta da besta no seu aprisco; _hoc erit +jus regis qui vobis imperaturus est_. + +Se, em vez d'isto porém, o que desejaes ter é, não uma força omnipotente +que vos governe, mas sim um instrumento politico que manejeis; se para +me outorgardes a corôa, precisaes de me tirar a iniciativa, a +personalidade, a dignidade de homem; se para que me julgueis inoffensivo +é preciso que eu vos mostre ser pôdre; se as garantias que me pedis para +que vos não domine são uma fraqueza, uma corrupção, uma inepcia que vos +assegurem a facilidade de me dominardes a mim, então não: não vos +convenho eu, o derradeiro dos Bourbons fundadores da monarchia absoluta +nascida dos terrores da Liga e da Saint-Barthelemy, descendente e +herdeiro de Henrique IV, o que teve a dupla coragem da força e da +miseria, o que na tomada de Cahors se bateu nas ruas durante cinco dias +consecutivos, ôlho a ôlho, dente a dente, braço a braço, o que de Dieppe +escrevia alegremente a Sully que tinha todas as camisas despedaçadas e +um gibão roto nos cotovellos! + +Camille Desmoulins conta que em 1790 o poder monarchico era representado +em Londres por meio de um bailado expressivo como uma parabola. N'este +baile a primeira figura era um rei que terminava a execução de um +_entrechat_ cheio de garbo e de pompa alongando um pontapé ao fundo das +costas do seu primeiro ministro; este transmittia o pontapé real ao +segundo ministro, o qual o traspassava ao terceiro, seguindo-se a mais +viva e espirituosa corrente de pontapés que se tem visto n'uma côrte, +até que o personagem que apanhava em cheio no seu volumoso e amplo +hemispherio posterior o ultimo pontapé era o paiz--que ficava com elle. + + +Nas monarchias constitucionaes imaginou-se reconstituir, por meio da +carta, essa graciosa dança, alterando porém a collocação do soberano ou +a ordem dos pontapés, de maneira que ou o principe está em baixo e os +pontapés vem de cima, ou o tyranno está em cima e os pontapés vão de +baixo. + +Os povos monarchicos julgam-se felizes tendo cada pessoa ao lado de si +alguem a quem transmittir o pontapé em giro atravez das instituições e +da politica. A carta do conde de Chambord não é em resumo senão o +testemunho de uma divergencia com a assembléa nacional sobre este ponto +importante do bailado em ensaios: quem é que recebe o pontapé? + +A um paiz corrompido e a uma assembléa senil não occorre esta +consideração tão simples: que quando se trata de um stygma de servilismo +e de baixeza a questão não é poder transmittil-o, é não dever +acceital-o. Organisar pela monarchia a responsabilidade dos que se +corrompem é abdicar a faculdade de demittir a corrupção. Os reis quando +não enodoam os povos, tambem não lhes tiram as nodoas que elles tenham. +N'esses casos o que limpa um paiz não é a realesa. Quereis saber o que +é? Pois bem! É a benzina! + + * * * * * + +A carta do sr. D. Miguel de Bragança ao sr. conde da Redinha é ao mesmo +tempo o tocante documento da estima inviolavel de um amigo ausente, e o +authentico manifesto politico de um principe proscripto. + +Sua alteza declara ao _seu paiz_ que quer ser o protector e o amigo de +todos os portuguezes e que considera como sua mais elevada ambição e sua +maior gloria--restaurar o throno pontificio. N'este simples traço +encarna sua alteza a expressão politica da sua indole,--o que nos parece +de uma moderação de intuitos demasiadamente modesta. + +Diriamos que sua alteza folga em confundir-se na obscura legião invalida +dos tyranos burguezes, dos cezares bonacheirões, Neros de barrete de +dormir, Caligulas dyspepticos, Eliogabalos em uso do pronto alivio e da +revalenta arabica. A politica affirmada por sua alteza accusa uma +visivel pobresa de sangue. Sua alteza é um anemico. Tal é o infortunio +da nossa raça! Que degeneração! + +O pae do joven principe D. Miguel era sanguineo, esse. A sua +extraordinaria força muscular era a admiração respeitosa, a maravilha +profundamente inclinada do _sport_ lusitano de 1827. Nas redondezas do +paço de Queluz, nas terras do Infantado, via-se ás vezes atravessar os +campos, a pé, caçando acompanhado do seu falcoeiro, um homem de mais de +meia estatura, de solidos hombros, faces morenas, barba rapada, mãos +enormes, beiços sensuaes, grandes olhos negros, rasgados, peninsulares; +vestia um casaco de baetão verde, calção preto, botas altas, de cava, +com tações de prateleira e esporas de prata; usava um bonet azul, do +prato largo, com vizeira. Este homem, que amava a convivencia dos +plebeus, a quem dava largas esmolas de dinheiro e de conversação, +comprazia-se em ensinar a lavrar os moços do campo: tomava na mão +esquerda a rabiça de um arado, azorragava com a direita uma parelha de +mulas, e abria no solo mais empedrado e mais endurecido, sob a poderosa +pressão do seu pulso, um rego profundo, extenso de um kilometro, e recto +como um risco passado a regoa por um tira-linhas. Suffocava um forte +cavallo de Alter puchando-lhe a ponta da cilha com os dentes. Segurava +pela bocca, que juntava e cerrava no punho, um sacco de sete alqueires +do trigo, e lançava-o ao hombro, com uma só mão, erguendo o braço por +cima da cabeça e conservando o corpo immovel, erecto e firme. Quando +vinha de Queluz a Lisboa, galopando á desfilada, com uma vara debaixo da +perna, entre os seus companheiros mais assiduos, João Sedvem, o picador, +o José Verissimo, o da policia, a força de soldados de cavallaria que o +acompanhava, ficava aos poucos pela estrada destroçada pela fadiga: elle +nunca chegou senão só. No dia em que recebeu ao pé da mata, na Quinta +Velha, onde estava caçando ao falção, por volta das duas horas da tarde, +a noticia de ter entrado a barra de Lisboa a flotilha que apresou e +levou para França todos os nossos vasos de guerra surtos no Tejo, elle +veiu de Queluz a Belem, em menos de tres quartos de hora. Esse homem que +tinha a grande popularidade que trazem comsigo as legendas da força e da +destreza physica, era sua magestade el-rei o sr. D. Miguel I. + +O soberano tinha os defeitos do homem e as qualidades dos seus defeitos. +A sua politica era apopletica simplesmente porque elle era plethorico. + +Esse principe, com o seu temperamento, o qual constituia, politicamente +assim como physiologicamente, toda a sua personalidade, fez á liberdade +e ás idéas modernas o mais relevante serviço: foi elle o que fabricou o +partido liberal portuguez. + +Os constitucionaes foram uma invenção da policia do sr.D. Miguel. Elles +não combatiam o direito divino, nem os privilegios da nobreza e do +clero, nem o regime absoluto, nem a servidão popular; o que elles +combatiam principalmente era o José Verissimo. Affirmavam-se os direitos +do homem porque se tinha percebido que esses direitos prejudicavam os do +João Sedvem. Os revolucionarios portuguezes não vieram da sciencia, não +vieram do amor da justiça, das impaciencias da liberdade, dos contagios +da Convenção, da revolta da dignidade humana. Não. Elles vieram +simplesmente dos carceres, dos carceres em que o regime despotico +recalcou de mais a força viva da nação. Os principios eram o pretexto +sob o qual se vingavam as offensas feitas não ás idéas vigentes, mas aos +interesses estabelecidos. As denuncias partiam dos lesados. A idéa +exposta na organisação da Companhia dos vinhos preoccupava mais os +espiritos em Portugal do que o principio representado em França pela +existencia da Bastilha. Havia martyres da liberdade que nunca tinham +amado a liberdade com devoção mais intensa que a do Sedvem e que não +teriam posto duvidas irremissiveis em continuar a «dobrar a cerviz, ao +jugo da tyrannia» como se dizia no stylo do tempo; sómente o que elles +tinham recusado era emprestar algumas moedas ao José da Policia. Para a +maior parte da gente a victoria da idéa liberal foi simplesmente a morte +do Telles Jordão. Finalmente o sr. D. Miguel de Bragança, _primeiro_, +foi o principe cuja força fez na monarchia portugueza o rombo por onde a +liberdade appareceu. O sr.D. Miguel de Bragança, _segundo_, +figura-se-nos pela sua expressiva carta ao sr. conde da Redinha, uma +pessoa extremamente debilitada. Ser o protector e o amigo de todos os +portugueses é enfraquecer-se diffundindo-se. Os antigos fortes +concentravam-se. + +Pobres de nós! Como somos diversos de nossos paes! Os plethoricos, +sangrados, legaram á geração que lhes succedeu a impotente anemia! + + * * * * * + +Acabamos de lêr um livro que foi publicado era Lisboa ha cerca de tres +mezes e a respeito do qual ainda não ouvimos á critica uma palavra de +menção. Foi abafado pelo silencio. Se lhe não dessem esse destino teria +sido um livro escandaloso porque foi inteiramente concebido fóra da +rotina, fóra da convenção, fóra do compadrio, por um espirito +justo, esclarecido, honrado, fatalmente inclinado ao bem. +Intitula-se--_Portugal e o socialismo_, e é escripto pelo sr. Oliveira +Martins. + +A litteratura portugueza actual apresenta este notavel caracter:--o +bysantinismo. Ella não é um documento historico, nem um documento moral +do tempo em que vivemos. Não tem importancia na direcção dos espiritos, +não tem influencia na formação dos caracteres, não tem validade no +estabelecimento dos principios. Não dá nenhuma theoria á razão, não dá +nenhuma lei á consciencia, não dá nenhuma norma á dignidade. + +A imitação, a convenção, o servilismo, o estreito espirito de seita, de +partido, de escola, a ignorancia, a indolencia, a bajulação, a +orthodoxia official puzeram a pouco e pouco as lettras portuguezas +inteiramente fóra do seu objecto--a simples e pura verdade humana. + +O que actualmente se escreve não é absolutamente nada o que actualmente +se pensa. Todas as grandes questões capitaes que preoccupam a sociedade, +a litteratura ou as evita ou as falsea. Ou as evita porque as não sabe +tratar, ou as falsea porque as trata com um espirito particular de +interesse, hostil á sciencia e rebelde á arte. + +Entre tantos escriptores portuguezes que quotidianamente enegrecem em +Portugal o innocente papel sobre o qual se orça a medida das nossas +faculdades, onde está o homem cuja obra represente o precurso das idéas +predominantes d'este seculo atravez d'esta sociedade? Onde está o +artista, onde está o philosopho, onde está o poeta que tenha atacado de +frente a solução desinteressada, independente, firme, clara, nitida, dos +multiplos problemas que agitam o espirito, a consciencia, o coração do +homem moderno no meio do sentimento, do temperamento, da religião e da +politica da sociedade moderna? + +Será tal escriptor o sr. Alexandre Herculano, philosopho collaborador da +sr.ª D. Guiomar Torresão no _Almanack das Senhoras_? + +Será o poeta sr. Nunes, deputado conservador, o mais arrojado dos vates +que conhecemos dentro dos limites da carta constitucional e do systema +representativo? + +Não nos parece. + +O sr. Oliveira Martins faz parte de um pequeno grupo de alguns +trabalhadores obscuros, inteiramente penetrados da corrente scientifica +do tempo actual, que teem procurado introduzir na litteratura as idéas +correspondentes ás preoccupações, ás necessidades e aos interesses mais +altos, mais legitimos e mais vitaes da sociedade em que vivem, fixando +assim scientificamente algumas das bases do programma geral da revolução +por meio da qual se vae transformando o mundo europeu. + +Esses humildes obreiros, aos quaes cabe a gloria de terem iniciado em +Portugal quasi todos os grandes principios das civilisações modernas, +não teem encontrado, como galardão dos seus estudos, da sua +independencia e da sua andácia de pensadores, senão a surda guerra das +maledicências, das calumnias e dos desdens, evantada pelo obscurantismo, +pelo fanatismo, pela ignorancia. Accusam-os de attentarem contra a +moral, contra a religião, contra a ordem, contra o patriotismo, e +expulsaram-os vilmente e infamemente do respeito publico e da +consideração social como jacobinos, como communistas, como incendiarios. + + * * * * * + +É do livro acima citado que extrahimos a seguinte pagina tão sensata, +tão viva, tão humana: + +«Portugal não tem pauperismo. É por isso que entre nós se não levantaram +ainda, nem se levantarão já, Nelsons ou Sydney Smiths para dizerem como +em Inglaterra: «A pobreza é infame.» É por isso que a definição ingleza +da fabrica--_manufactura de algodão e de pobres_--não pode servir-nos. O +não attingirmos porém um termo tão elevado de preversão social não quer +dizer que as classes trabalhadoras de todas as industrias vivas do paiz, +extractivas e transformadoras, encontrem para cá das nossas fronteiras +um modo de vida essencialmente differente. Não, a nossa organisação +politica, semi-monarchica, semi-liberal, dá em resultado ser duplamente +absurda, immoral, pauperisadora. Porque, como liberal, permitte a livre +concorrencia do capital e do trabalho, aliena as funcções e +propriedades collectivas, e, para corrigir as consequencias de +distribuição viciosa que d'ahi resultam, mantem uma protecção +anachronica, com as alfandegas, com a divida e com o imposto, protecção +que recaindo afinal toda no consumo, vem ainda aggravar as condições do +trabalhador pela elevação no preço das coisas. Acima da preversão +economica devemos pôr a preversão moral. No pequeno mundo industrial de +Lisboa, não contaste nunca, leitor, aos sabados o numero de ebrios que +povôa as vielas escuras e nauseabundas, onde á crapula vem juntar-se a +orgia das mulheres perdidas? Onde o prostibulo está em frente da +taberna, ao lado o bilhar, e entre o bilhar, o prostibulo e a taberna, +se funde a feria? + +A desordem e a immoralidade são contra a natureza. Se esses homens não +fossem pobres seriam melhores. Se não tivessem de trabalhar doze horas +para comer saberiam ler. Se tivessem pão e liberdade seriam paes de +familia. Olhae as mulheres e as creanças. Termo medio a familia tem +quatro pessoas; termo medio o salario é de 400 réis. O trabalhador +recorre ao celibato, á prostituição, ás relações illicitas, d'onde +resultam os infantecidios (tão frequentes em Portugal como na China) e a +roda dos expostos. Quando um homem foi agarrado por esta engrenagem +d'aço morreu. Ha muitos a quem uma certa energia de caracter ou uma +constituição artistica e sentimental levaram ao casamento e á familia: é +então que se encontram quatro pessoas com quatro tostões por dia. A +industria offerece uma tentação diabolica: augmentar o salario +destruindo a familia. N'esse momento a esposa e os filhos entram na +_fabrica_ ...» + + * * * * * + +A fabrica é para as mulheres e para as creanças o sepulchro do pudor, da +honestidade e da saude. Emquanto as instituições sociaes não assegurarem +á mulher o seu legitimo logar na familia é absolutamente preciso que, +pelo menos a protejam na miseria fatal da fabrica. Porque nas fabricas +portuguezas o que succede com a mulher é que, pela sua fraqueza e pela +sua ignorancia, ella é no trabalho o escravo do homem. Ninguem entre nós +tem lançado os olhos a esses desgraçados destinos obscuros. + + * * * * * + +Acostura que ainda ha pouco era o grande refugio das raparigas pobres +desappareceu com a machina de cozer. A mulher não póde sustentar essa +concorrencia, porque ella não póde, por maiores que sejam os esforços +dar por suas mãos mais de 30 pontos por minuto: a machina dá 643 pontos +no mesmo espaço de tempo. Para se empregar n'outros serviços precisaria +de uma educação preparatoria pratica, para a qual são indispensaveis as +escolas profissionaes que não existem em Portugal. Em França, na +Inglaterra, na Allemanha e principalmente na Suecia, as mulheres +habilitadas em cursos especiaes teem já muitos empregos uteis na +industria e no commercio. Em 1871 havia na Suecia 4:055 mulheres +empregadas no commercio e na industria. D'estas 2:675 dirigiam os seus +proprios negocios. Quinhentas e quatro mulheres eram proprietarias de +fabricas e de officinas. Além d'isto muitas outras se achavam empregadas +nos bancos, nas caixas de soccorros, nas companhias de seguros, etc. com +emolumentos annuaes variando de 800 a 5:000 rixdalers. No serviço dos +correios, dos caminhos de ferro, dos telegraphos, a mulher alarga de dia +para dia os seus dominios. A America, a Suecia, o Wurtemberg, +offerecem-lhe sob esse ponto de vista as maiores facilidades. + +Em Darmstadt muitas mulheres se acham empregadas nas repartições de +estatistica com optimos resultados para o serviço publico. Os cuidados +aos doentes são um bello emprego para o trabalho das mulheres. Na +Hollanda muitas teem sido auctorisadas a tirar diplomas de +pharmaceuticos. A profissão medica tem-lhes sido permittida em diversos +paizes. Na America, em S. Petersburgo, em Zurich, em Upsel e em varias +outras universidades ha um consideravel numero de alumnos do sexo +feminino estudando a medicina. Na Suecia estabeleceu-se pelo estado um +fundo permanente de soccorros para as mulheres que seguem a carreira +medica. + +A ultima exposição de Vienna veiu provar ainda quanto as mulheres se +teem ultimamente occupado nas artes industriaes e nas bellas artes. Na +exposição sueca vê-se no pavilhão dos productos da industria o perfeito +exito com que as mulheres teem cultivado n'aquelle paiz a pintura, a +gravura em madeira, a xylographia, a lythographia, a gravura em cobre, a +photographia, a cartographia, a pintura em porcelana, a modelagem. Na +Suecia concedeu-se-lhes accesso, como aos demais empregados, nos +serviços dos telegraphos, dos correios e dos caminhos de ferro. +Admittem-as como gravadoras na casa da moeda; muitas são empregadas nas +academias, nas imprensas e n'outros estabelecimentos como xylographas, +impressoras, compositoras, directoras de officina, etc. + +Na Suecia ha hoje immensas escolas sustentadas pelo governo, pelas +communas e por associações particulares onde ensinam ás raparigas pobres +todos os trabalhos femininos do «ménage». Ha escolas especiaes +destinadas a formar creadas. Em Stockolmo ha escolas de remendagem onde +as raparigas aprendem a concertar os seus fatos e a sua roupa branca com +um acceio e uma arte inexcedivel. As meninas burguezas teem á sua +disposição a escola industrial de Stockolmo, as escolas normaes reaes, o +instituto central de gymnastica onde se formam mestras de gymnastica, a +academia real de musica, a academia das bellas artes os estabelecimentos +de instrucção das parteiras e a mesma universidade, onde se ministram +subsidios a tres raparigas que estudam por conta do estado. Depois da +Suecia devem-se citar os Paizes Baixos e a Austria. Em Vienna a +municipalidade fundou em alguns bairros escolas industriaes nocturnas. +Sociedades de senhoras estabeleceram escolas profissionaes de +differentes especies. Ha uma sociedade especial encarregada de obter ás +mulheres meios de subsistência (Frauenerwerb-Verein). Além das escolas +preparatorias para a instrucção geral elementar e para a instrucção +superior, estabeleceu a referida sociedade uma escola de costura, uma +escola superior de trabalho com um curso de estudos que dura tres annos, +uma escola de desenho industrial, uma escola de commercio, uma escola de +linguas, um curso especial para as empregadas na telegraphia. Na +Hollanda é na escola industrial de Amsterdam que se instrue a mocidade +feminina não só nos trabalhos manuaes, taes como o bordado, costura á +mão e á machina trabalhos de cartonagem e obras de palha, escripturação +commercial, legislação commercial e pharmacia. Na Alemanha do norte e na +Alemanha central ha egualmente muitas escolas industriaes fundadas por +sociedades especiaes e por outras corporações para a educação das +raparigas e das mulheres. Um fabricante de Munich fundou uma excellente +escola de ensino commercial para as raparigas da classe burgueza e da +classe operaria. As mulheres que sáem d'esta escola encontram +immediatamente emprego nos bancos, ou nas casas de commercio. + +A Russia resolveu ultimamente facultar a matricula na escola de medicina +de S. Petrsburgo ás mulheres habilitadas com determinados titulos de +capacidade. Logo depois da promulgação d'esta lei, quatrocentas mulheres +se apresentaram como candidatos á frequencia da alludida faculdade. + + * * * * * + +Sabem dizer-nos o que é que, sob este ponto de vista, se tem feito em +Portugal? Esperamos que suas excellencias os senhores conservadores se +dignarão responder-nos. + + * * * * * + +O sr. marquez de Vallada mandou correr este mez os reposteiros +brasonados dos seus salões para inaugurar as soirées elegantes do +presente inverno com um jantar _prié_. + +Assistiram todos os membros do gabinete e varios outros personagens +illustres na politica e na burocracia. Sentia-se apenas uma falta n'essa +reunião selecta: a ausência absoluta de senhoras no palacio do nobre +fidalgo. Bem sabemos que um jantar não é precisamente como uma valsa +para a qual a gente não ha de ir convidar a lagosta, nem dançar com o +perú. Mas mesmo para o que é comer não basta apenas a comida. O sr. +marquez sabe a este respeito a opinião de Savarin: o bruto pasta, o +homem come, só o homem de espirito é que sabe comer. Ora uma duzia de +barbatolas postos a mascar trufas uns diante dos outros em volta de uma +mesa não nos parece que deem o espectaculo da espiritualidade mais fina. +É preciso que concorram tambem as senhoras, com a _toilette_, com a fina +pelle, com os perfumes, com as rendas, com as perolas, com as frescas +risadas cristalinas, com os agudos ditos penetrantes, com a elevação +finalmente, com a idealidade, com o espirito. + + * * * * * + +Atravessar a gente por entre duas filas de criados gordos e graves como +embaixadores, indo por baixo dos lustres, pizando um tapete espesso, +dando o braço a alguem, ou seguindo mesmo, atraz, sosinho, na turba dos +obscuros, com a claque debaixo do braço; entrar na sala de jantar, +tepida, fulgurante de luz; contemplar a mesa de um aspecto tropical pela +natureza das fructas e pela fórma das flôres trasvasadas do plateau, +procurarmos o nosso nome nos bilhetes que estão em cima dos guardanapos; +sentarmo-nos ao dôce murmurio dos vestidos que se enfôfam ao nosso lado +e dos talheres que telintam; desdobrar nos joelhos um amplo guardanapo, +frio, lustroso e pesado, de linho de Irlanda; aconchegarmo-nos, unirmos +os cotovellos ao corpo e inclinarmo-nos sobre o prato; metter na bocca a +primeira colher do sopa, sentir estalar e derreter-se no dente o +primeiro rabiolo, escorrendo no paladar o acre succo dos espinafres, em +quanto a nossa visinha da esquerda mette a sua luva enrolada no copo do +Madeira, e a nossa visinha da direita morde atrevidamente no pão +deixando-nos vêr de lado todos os seus pequeninos dentes mais lindos que +as suas perolas ... isto é realmente acharmo-nos n'um dos momentos mais +augustos que a civilisação e a elegencia concedem ao homem em paga dos +sacrificios que elle lhes tem feito nos esmeros da educação e na alta +cultura do espirito. É então que as mulheres, sómente as mulheres--ellas +que vivem na graça e no mimo como os solitarios vivem no egoismo e no +tedio--desenvolvem o talento especial de fazer romper os alados +assumptos ligeiros e subtis, em torno dos quaes adejam as conversações, +as phantasias, as replicas, os repentes, como doiradas abelhas famintas +sobre um ramo de rosas. + +Se n'esses momentos os homens se acham sós, ou caem na bestialidade +indolente e calada dos deuses de Epicuro, ou discutem, questionam, +fallam alto, gritam, põem os cotovellos na mesa, fazem gestos, fazem +bolas de pão, dão estalos com a lingua, limpam as unhas, e quebram +palitos nos dedos--o que ha mais implicativo dos nervos e mais offensivo +do gosto. + + * * * * * + +Consta-nos que pelas razões referidas o jantar do sr. marquez tocou um +pouco no tetrico. O silencio era a principio tão solemne que apenas se +ouvia confusamente o ruido da maioria parlamentar engolindo pelo +esophago do ministerio e a ordem e a guarda municipal mastigando pela +bocca do sr. barão do Zezere. Tinha-se ar de se estar n'uma sessão +deliberativa e não n'uma festa; parece até que o sr. marquez de Avila, o +illustre parlamentar, dirigindo-se a um criado, se mostrára gravemente +preoccupado ao ponto de que, sendo a sua intenção pedir-lhe Sauterne, +lhe pedira a palavra. + +Por fim parece que o dono da casa usara da fala para expôr o objecto +d'aquella reunião, o qual, segundo referem os jornaes, foi: + +_Affirmar a adhesão do sr. marques de Vallada á monarchia_. + + * * * * * + +Achamos extremamente louvavel e digno de ser imitado por todos os +fidalgos portuguezes o exemplo dado pelo sr. marquez de se sacrificarem +pelo throno ao ponto de não hesitarem um momento, para o salvar, em +irem ... para a mesa! + +Os vossos avós, quando queriam dedicar-se ao esplendor da corôa iam +bater-se em Arzilla, em Ormuz, em Ceuta, em Tanger, descobriam terras, +venciam batalhas, conquistavam reinos. + +Quereis provar-nos que ainda guardaes nos vossos archivos as antigas +cartas do roteiro dos mares? Que ainda tendes nas vossas panoplias as +duras armaduras e as famosas lanças dos vossos maiores? Muito bem! Visto +que não podeis refazer o que está já feito por elles, começae pelo menos +a realisar o que elles tantas vezes omittiram: jantae! + +E a corôa verá, pela maneira como vos mostrardes aptos para comer, +quanto sois capazes de amar. + +Assim como o Castro forte dizia que por cada pedra da fortaleza de Diu +elle daria um filho, mostrae vós que por cada perna de perú trufado +sereis capazes de dar um avô. E o soberano, jubiloso e grato, +contemplando por cima da gloriosa terrina da historia contemporanea, os +feitos valorosos dos vossos garfos invenciveis, apreciará os vossos +titulos de immortalidade, discriminando, no ardor e na confusão das +refregas, os que se lhe dedicam até ao pato com arroz, os que o +estremecem até ao frango com hervilhas, os que o idolatram até ás +salchichas com couve lombarda! + + * * * * * + +Mas por Deus, meus senhores, consenti que vol-o repitamos: Não excluaes +dos agapes patrioticos com que preparaes a entranha para a communhão +monarchica, o doce elemento feminino, o melhor encanto do triumpho, o +mais alto premio do heroismo, o mais precioso complemento da gloria! Se +a prosmicuidade dos sexos insuperavelmente vos repugna, que alguns de +vós pelo menos se sacrifiquem ás conveniencias da arte, ás prescripções +do bello, e salvem sequer as apparencias--vestindo-se de mulheres! + +Animo, senhores commandantes dos corpos! animo, senhores officiaes +maiores! animo, senhores ministros de estado! É por ellas, que vos +pedimos isto, pelas que tiveram sempre o seu logar nas nossas gloriosas +tradicções dymnasticas! Lembrae-vos d'ellas, e ide lançar-vos aos pés da +Aline! Lembrae-vos d'ellas, e consenti em decotardes os vossos hombros! +Elanguescei, meus senhores, reclinae meigamente as frontes, cerrae +levemente as palpebras, agitae um pouco os vossos leques, dae suspiros, +ponde tações de setim escarlate, vinde de cuia! e, sobretudo--não o +esqueçaes--trazei _tournure_ ... Que vos custa trazer _tournure_? Uma +coisa tão facil, que se traz como as patronas! + +É pelo throno, pelo mesmo throno de que vos declaraes adeptos, que vos +supplicamos isto! é pelas vossas excelsas e augustas soberanas, não +representadas no vosso banquete ... Em nome de Mecia Lopes, meus +senhores! Em nome de D. Urraca! + + * * * * * + +A imprensa de Lisboa não tem opinião. Aquelles dos seus membros que por +excepção presentem as idéas proprias, vivas, originaes zumbindo-lhes +importunamente no cerebro, enxotam-as como vespas venenosas. É que a +missão do jornalismo portuguez não é ter idéas suas, é transmittir as +idéas dos outros. Por tal razão em Lisboa o homem que pensa não é nunca +o homem que escreve. O jornalista nunca se concentra, nunca se recolhe +com o seu problema para o meditar, para o estudar, para o resolver. +Nunca procura a verdade. Procura apenas a solução achada pelo publico, +pelo publico d'elle, pelo seu partido politico, pelos consocios do seu +club, pelos seus amigos, pelos seus protectores, pelos seus assignantes. +Portanto trabalha na rua, debaixo da arcada do Terreiro do Paço, nos +corredores ou nas tribunas de S. Bento, no Chiado, no Martinho, no +Gremio. Como trabalha? Trabalha d'este modo: _informando-se_;--é o termo +technico. Uma vez informado, o jornalista considera-se instruido. Desde +que tem a informação recebida tem o jornal feito. O que elle vos escreve +hoje--notae-o bem--é o que vós lhes dissestes hontem. O jornal não é uma +fonte de critica, de analyse, de investigação. O jornal é o barril de +transporte das idéas em circulação, das soluções previamente recebidas e +approvadas pelo consenso publico. O jornalista é o aguadeiro submisso e +fiel da opinião. Não a dirige, não a corrige, não a modifica, não a +tempera. O unico serviço que lhe faz é este: transporta-a dos centros +publicos aos domicilios particulares. O publico é a nascente, é o veio, +é o manancial; a imprensa periodica é simplesmente--o cano. + + * * * * * + +Essa é a lei geral da conducta da publicidade em Portugal. Toda a +transgressão d'essa lei é um eminente perigo para o que a commette. O +leitor portuguez não quer que o seu livro ou o seu periodico o obriguem +ás fadigas da discussão e da controversia com o seu proprio espirito. A +conquista desinteressada e pura da verdade não tem attractivo algum para +as suas faculdades. As curiosidades e os interesses especiaes da alma +portugueza repastam-se no sentimento: a reflexão molesta-a. Entre tantos +escriptores nacionaes nunca houve um pensador. Descartes, Spinosa, Kant +seriam inteiramente impossiveis no seio d'esta sociedade, a que falta a +respiração logo que a tirem da rotina. Não se lhes dá, aos leitores +portuguezes, de verem a verdade, mas querem a verdade atravez da +opinião. Ninguem pensa fóra das materias da ordem do dia. «Que ha de +novo?» é a nossa pergunta de todas as manhãs. Esta phrase profundamente +caracteristica quer dizer: «Dêem-me a senha e a contrasenha; digam-me em +que pensam para eu saber o que hei do pensar.» O meu jornal vem bom ou +vem mau segundo é ou não é em cada dia a expressão das minhas convicções +baseadas em idéas preconcebidas na convivencia do publico. O criterio é +substituido pelo _mot d'ordre_. + +Se n'um tal meio intellectual apparece um miseravel solitario, que não +tem um partido, que não tem um centro, que não tem um _club_, que não +tem sequer um botequim, mas que, não obstante, segue os successos do seu +tempo e exprime a respeito d'elles uma opinião absolutamente individual, +isto é--livre, sobre esse homem cáem todas as suspeitas, todas as +presumpções malevolas que acompanham atravez de uma multidão apalavrada +um intruso mysterioso e sinistro. Tal é a especie de acolhimento que por +differentes vezes nos tem sido feito e que mais particularmente nos foi +manifestado depois da publicação do nosso ultimo numero a proposito de +dois artigos, um consagrado ao sr. Alexandre Herculano, outro destinado +á casa de correcção installada no convento das Monicas. + + * * * * * + +Lemos alguns dos artigos que nos foram consagrados, e achamo-nos +inteiramente edificados ácerca do nosso desacato ás instituições +publicas e da nossa irreverencia com as glorias nacionaes. + +Sómente, meus senhores, uma coisa nos parece ter-vos esquecido, e é: +demonstrar-nos que a reverencia das instituições e o respeito das +celebridades gloriosas seja um instrumento de critica ou um meio de +analyse. Porque nós--talvez o não tenhaes comprehendido bem--nós não +somos propriamente os mestres de ceremonias da geração a que +pertencemos. Não estamos aqui a leccionar mesuras nem a praticar +experiencias sobre a variedade das curvas mais ou menos inclinadas a que +se nos presta o espinhaço. Nós somos apenas uns simples chronistas do +tempo que vamos atravessando. Somos os contribuintes especiaes do mez +para a historia geral do seculo. Ora não será pondo-nos humildemente de +cocoras no chão que nós veremos de mais alto as coisas e os homens. No +exame e na apreciação dos factos o minimo vislumbre do respeito é um +perigo da verdade. Michelet, demolindo no seu ultimo livro a legenda +napoleonica filha da reverencia da historia pelo falso heroismo de +Bonaparte, mostra-nos que a fascinação grosseira produzida pelo «heroe +de Marengo e de Austerlitz» teria cahido perante o bom senso e perante a +gargalhada, se a França não tivesse perdido, depois do Terror, o riso, a +sua grande arma contra os tyrannos. + +O primeiro dever da critica diante dos grandes acontecimentos e dos +grandes personagens é simplesmente o despreso ou a zombaria ... Michelet +diz mesmo «o sacrilegio» como instrumento da verdade! e aconselha-nos +que imitemos como historiadores o exemplo de Renaud de Montauband +pegando n'um tição para barbear Carlos Magno. + + * * * * * + +De resto, meus senhores, para que se mantenham na decencia do culto as +tradições patrioticas, parece-nos inutil que nós nos occupemos d'isso. +Lá estaes vós, diligentes e sollitos, para espanardes as teias da aranha +aos velhos principios, para varrerdes as instituições veneraveis, e para +conservardes em bom estado os heroes e os sabios, limpando-lhes as golas +das sobrecasacas, engraxando-lhes os sapatos e pondo-lhes rapé novo no +nariz. + + * * * * * + +Chegámos tarde para fallar da grande tragedia monumentosa do +Mexilhoeiro. O paiz inteiro se pronunciou já sobre este caso, o maior da +historia contemporanea. O facto tem sido largamente tratado em artigos +de jornaes, em folhetins, em trechos de romance, em pias legendas, em +dramas, em _te-deuns_ cantados em todas as cathedraes, em polkas +expressivas, em missas rezadas em todas as egrejas, em felicitações de +todos os municipios, em sentimentaes mazurkas. + +Uma só coisa nos parece que falta, e é a que propomos: um monumento que +eternise tão alto successo, levando ás gerações vindouras esta lapide: + +AOS MOLHADOS +POR UMA FRIA TARDE +NO PEGO DO MEXILHOEIRO +A GLORIA +RECONHECE N'ESTE MONUMENTO +OS IRREFRAGAVEIS DIREITOS +DE TÃO ILLUSTRES VICTIMAS +Á +CONSTIPAÇÃO + +INDEX + +_Dos volumes d'esta chronica_ + +PUBLICADOS ATÉ HOJE + + + I--Maio................... 1871 + + II--Junho.................. » + + III--Julho.................. » + + IV--Agosto................. » + + V--Setembro............... » + + VI--Outubro................ » + + VII--Novembro............... » + + VIII--Dezembro............... » + + IX--Janeiro................ 1872 + + X--Fevereiro.............. » + + XI--Março.................. » + + XII--Abril.................. » + + XIII--Junho a julho.......... » + + XIV--Julho a agosto......... » + + XV--Setembro a outubro..... » + + XVI--Novembro............... » + + XVII--Dezembro............... » + +XVIII--Janeiro a fevereiro.... 1873 + + XIX--Março a abril.......... » + + XX--Outubro a novembro..... » + + +Nota. D'hora ávante cada um dos volumes d'esta publicação será marcado +com o correspondente numero. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas: Chronica Mensal da +Politica, das Letras e dos Costumes, by Ramalho Ortigão and Eça de Queiroz + +*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 14622 *** diff --git a/14622-h/14622-h.htm b/14622-h/14622-h.htm new file mode 100644 index 0000000..80d3d74 --- /dev/null +++ b/14622-h/14622-h.htm @@ -0,0 +1,2185 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" + "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=UTF-8" /> + <meta content="pg2html (binary v0.16)" name="generator" /> + <meta name="author" content="Ramalho Ortigão and José Maria Eça de Queiroz" /> + <title>The Project Gutenberg eBook of As Farpas, Outubro a Novembro de 1873 by + Ramalho Ortigão and Eça De Queiroz.</title> +<style type="text/css"> +/*<![CDATA[*/ + <!-- + body { margin-left: 10%; margin-right: 10%; } + h1,h2,h3,h4,h5,h6 { text-align: center; } + hr.major { width: 30%;} + hr.minor { width: 10%;} + .centered {text-align: center} + .poem { margin-left: 10%; margin-right: 10%; margin-bottom: 1em; text-align: left; } + .poem .stanza { margin: 1em 0em 1em 0em; } + .poem p { margin: 0; padding-left: 3em; text-indent: -3em; } + .poem p.i2 { margin-left: 1em; } + .poem p.i4 { margin-left: 2em; } + .poem p.i6 { margin-left: 3em; } + .poem p.i8 { margin-left: 4em; } + .poem p.i10 { margin-left: 5em; } +/*]]>*/ + // --> +</style> +</head> +<!--====================================================--> +<body> +<div>*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 14622 ***</div> + +<div class="centered"> + <img src="images/devil73.png" width="500" height="750" + alt="As Farpas—R. Ortigão—Eça de Queiroz" /> + <!--IMAGE END--> +</div> +<hr class="major" /> +<h1> + AS FARPAS +</h1> +<div class="centered"> + <p>RAMALHO ORTIGÃO—EÇA DE QUEIROZ</p> + <p>CRONICA MENSAL DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES</p> + <p>3.º ANNO</p> + <p>Outubro a Novembro de 1873</p> + <p>VOLUME XX</p> +</div> +<hr class="major" /><!--===================--> +<blockquote> +<p> + Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder, + da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das + sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da + politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande + universo, e da adoração de mim mesmo. +</p> +</blockquote> +<p class="centered"> + P.J. PROUDHON +</p> +<hr class="major" /><!--===================--> + +<p class="centered"> + <b>SUMMARIO</b> +</p> +<p> + Regresso. Explicações—Historia de uns pés—Modos de morrer. Os + Lovelaces do sepulchro. Os descamisados da cova—Epistola aos +<a href="#catholicosdoporto">catholicos do Porto</a>. + A associação catholica, seus fins, seus meios, sua + organisação, seu programma. O catholicismo. A egreja refugio da + liberdade. As propagandas catholicas em França e na Italia. Manzoni, + Rosmini, Balbo, Chateaubriand, Lamartine, o sr. conde de Samodães. Os + padres portuguezes. O liberal, o reaccionario, o indifferente. O + confissionario. As academias da +<a href="#picaria">rua da Picaria</a>. A mulher christã. O + partido liberal portuense e a infallibilidade do papa. O protestantismo + do sr. +<a href="#bismark">Bismark</a>. + O seculo XVI. Theoria do scepticismo. A duvida na + politica, na sciencia, na religião. A +<a href="#tolerancia">tolerancia</a>—Festa veneziana nas + aguas de +<a href="#caparica">Caparica</a>—O + aio de sua alteza. O que é o aio? O perfil do sr. +<a href="#ferrao">Martens Ferrão</a>. + A corte, a mocidade, a aventura, os tações encarnados, + as espadas dos paladinos. Semiramis, Cleopatra, Penelope e outras. A + regencia. O beijo de +<a href="#laczinska">Maria Laczinska</a>. + A bengala de +<a href="#constancia">Constancia de Arbes</a>—As + senhoras hispanholas e os faqueiros—O santo padre, o + imperador Guilherme, o martyrio e as pastilhas de Voltaire. O +<a href="#chambord">conde de Chambord</a> + e o constitucionalismo. Saul, Pepino, Henrique IV. Historia + philosophica dos pontapés nas monarchias modernas—Perfil do sr. D. + Miguel de Bragança e influencia politica d'este rei, o seu typo + physionomico, o seu temperamento, a sua popularidade. De como se + fabricou o partido liberal portuguez. + O João Sedvem, o José da Policia, o Telles Jordão e a idéa nova. De como + o actual principe D. Miguel é anemico—O jornalismo, as idéas, os + aguadeiros da opinião publica—O +<a href="#mexil">drama do Mexilhoeiro</a>—A falta do +<a href="#elementofeminino">elemento feminino</a> + nos banquetes patrioticos. +</p> +<hr /> +<p> + Leitor querido—Depois de uma longa abstenção de tres mezes—os mezes do + verão—<i>As Farpas</i> voltam a apparecer no teu banquete ao mesmo tempo a + que recomeçam a servir-se tambem as ostras. +</p> +<p> + Á similhança dos mariscos, qu não é bom comerem-se nos mezes que não + teem r, estas paginas condimentosas e estimulantes, se abusasses d'ellas + no tempo quente, amigo, far-te-hian, talvez, furunculos. +</p> +<hr /> +<p> + Além de que, o verão tem influencias de expansibilidade que + desconcentram a vida da esphera das suas condições normaes. É a epoca + das viagens, dos banhos, das estações do campo. Abandona cada um o + interior da sua casa, os seus habitos, as suas occupações, a sua + hygiene, o seu trabalho. Fórma-se uma existencia interina, transitoria, + supplementar. Está-se em uma casa alugada por dois mezes como hospede de + uma noite n'uma estalagem. Não se reside; pernoita-se apenas, e + passam-se os dias. Com a supensão do trabalho esterilisam-se tambem as + idéas, porque todo o trabalho é uma fecundação da intelligencia. Assim + todo o ser humano temporariamente transplantado da parte de solo, de + atmosphera moral, em que ordinariamente exerce a sua actividade, + emurchece. O portuguez, que sempre lê pouco, no verão então não lê nada. + Achei-me por muitas vezes durante a estação finda a bordo dos pequenos + vapores que fazem o transporte dos banhistas entre Lisboa e as praias. + Os setenta minutos d'estas breves viagens eram o tempo consagrado por + cada um para, por meio da leitura, pôr as suas idéas em relação com os + interesses intellectuaes e moraes do resto do mundo. Fóra do convez dos + vapores de Belem ninguem nas praias lê, ninguem tem comsigo um livro. + Isto não é uma simples hypothese, é uma observação positiva. Em + Pedroiços, por exemplo, a vida—toda de porta da rua—é transparente: + vê-se o que cada um faz, quasi que tambem se vê todo quanto cada um + sente e quanto cada um pensa. Pois bem, nas viagens dos vapores de + Belem, unico lapso de tempo destinado pelos banhistas ao estudo, + observámos durante o periodo de tres mezes consecutivos que ninguem lia + senão almanachs, collecções de cantigas ou de charadas, e os periodicos + de noticias. Que elementos para, a educação intellectual de alguns + milhares de cabeças: darem mergulhos no Tejo, aprenderem nos livros que + nasceu o dente do sizo ao sr. Alexandre Herculano, e saberem pelos + jornaes que o sr. commendador Santos foi á Outra Banda em partida da + recreio, com os seus amigos, comer um safio! +</p> +<hr /> +<p> + Não foram essas porém as rasões porque <i>As Farpas</i> se callaram durante a + estação calmosa. Os nossos motivos são inteiramente pessoaes. Nós + adoecemos ... Perdôa, leitor benevolo, estas perigosas tendencias de um + convalescente para a autobiographia. Não, não foi um dente novo que nos + esteve crescendo. Nós não temos, como o immortal historiador a que acima + nos referimos, a honra de abrir estas linhas offerecendo á patria e á + sr.ª D. Guiomar Torrezão mais um novo instrumento gloriosamente + recemnascido para a trincadeira nacional. +</p> +<p> + O nosso mal, foi simplesmente uma affecção na larynge. Apanhámos isto + no Chiado. Tivemos na mucose da garganta as mesmas granulações que + padecem os beduinos na mucose das palpebras por effeito do pó nas + peregrinações do deserto. O Chiado pagou-nos o pessimo gosto burguez, + especieiro, indigno, abominavel, de o frequentar, dando-nos esta doença + climaterica e local. Os hospitaes de S. José e do Desterro dão as + desyntherias e as gangrenas; os tanques do Passeio do Rocio dão as + febres paludosas e intermittentes; o Limoeiro e a Casa de detenção das + Monicas dão as viciações do sangue e as escrophulas; o Chiado e o + deserto da Arabia dão as affecções granulosas da larynge e dos olhos. + Cada um dá o que tem. +</p> +<p> + A poeira do Chiado é uma especialidade curiosa, interessante, tão + romanesca como a sombra da mancenilha. Esta poeira é fina, miuda, subtil + como a <i>veloutine</i> de Lubin. Ligeiramente tocada pela aza morna do vento + leste, ensinua-se, entranha-se, penetra docemente, consoladoramente, + profundamente—como a calumnia. Depois, uma vez inoculada, produz as + ophtalmias e as esquinencias—as duas maiores enfermidades de Lisboa. + Não é simplesmente formada pelas triturações da terra esta poeira. Não, + porque o solo em Lisboa não é de terra. Aqui a terra tem sido de tal + maneira misturada, falsificada, fingida, que, hoje, aquillo que + primitivamente era a terra já não tem terra nenhuma. O solo de Lisboa é + formado de sobreposições de estercos, de amalgamas de lixo, de restos + pulverisados de fructas podres, de cães mortos e de papeis sujos. +</p> +<p> + De todas estas misturas requeimadas pelo verão, carbonisadas pelo sol + canicular, moidas sob as rodas dos trens e sob os pés pressurosos do sr. + conselheiro Arrobas, resulta o pó envenenado da capital. Os papeis + velhos de Lisboa, dejecções burocraticas ou litterarias dos bancos, dos + cartorios, dos tribunaes, dos escriptorios dos negociantes, dos + jornalistas, dos advogados, dos tabelliães e do sr. Melicio, são de tal + maneira abundantes que todos os esgotos da cidade não bastam para os + engulir. A brisa espalha esses papeis dilacerados pelas povoações + suburbanas. A praia de Belem é uberrima de papeis sujos, e Pedrouços, a + mansão burgueza das villegiaturas officiaes, parece-se no aspecto + especial das suas immundicies com um corredor da secretaria das Obras + Publicas destinado a projecto de nitreira modelo pelos disvellos + agronomicos do sr. Rodrigo de Moraes Soares. +</p> +<p> + De modo que a antiga expressão «<i>terra da patria</i>», com referencia a + Lisboa e seus suburbios, é figura de rhetorica em demasia arrojada. A + patria do lisboeta não tem terra, tem os agglomerados residuos das + podridões e dos papeis velhos. O nauta vigilante, que do alto mar + descobre no azul o ponto escuro e indeciso d'estas praias, procederá com + louvavel exactidão e amor da verdade se em vez do grito poetico de + «<i>terra! terra!</i>» começar a exclamar á vista de Lisboa: «Supedaneo de + Melicio!»—ou—«Nitreira de Soares!» +</p> +<p> + Victima nós mesmo em todo o nosso apparelho respiratorio d'essas + influencias deleterias da geologia e da civilisação lisbonense, achamos + prudente substituir—como fizemos—a convivencia do publico pela do + gargarejo. +</p> +<hr /> +<p> + No theatro de D. Maria, o drama—<i>Idiota</i>. +</p> +<p> + Suppoz-se pelos annuncios que <i>Idiota</i> seria uma peça sem nome do + auctor. Equivoco. Era um nome do auctor sem peça. +</p> +<p> + No theatro de S. Carlos exhibição extraordinaria dos pés do sr. + Barberat. A primeira vez que este cantor appareceu em scena os + violinistas da orchestra suppozeram que elle se lhes tinha calçado—nas + caixas das rebecas. +</p> +<p> + Quando no dia da chegada elle poz á porta as suas botinas para engraxar, + os creados do hotel cuidaram que elle rescindira a escriptura e se + retirava, por se lhes figurar que o sr. Barberat tinha já no corredor as + malas. +</p> +<p> + Em algumas alfandegas os guardas do fisco, desconfiados d'elle, teem-lhe + pedido as chaves dos pés! +</p> +<p> + Nunca até hoje poderam dormir juntos os pés e elle. Emquanto elle está + deitado de costas, os seus pés estão erguidos, ao fundo do leito, + embuçados em capas, contemplando-o, firmes e silenciosos. Pela manhã os + pés estão mortos de somno e de fadiga, e para que elles se deitem um + momento, elle então, compadecido—levanta-se. +</p> +<p> + Ou por que elle os não queira desasocegar de dia, lembrando-se de que + teem de estar a pé de noite, ou porque elles mesmos se recusem + obstinadamente a uma evolução a que debalde os teem querido algumas + vezes violentar, o artista desistiu absolutamente de vestir as calças + pelos pés e começou a vestil-as, como a camisa,—pela cabeça. Antes de + chegar a esta prudente solução, o cantor, para conseguir vestir-se, era + obrigado todas as manhãs ou a descoser as calças, ou a desmanchar os + pés. +</p> +<p> + Uma das coisas que mais vivamente picou a curiosidade do publico nas + primeiras vezes em que este artista se mostrou em S. Carlos foi saber + como elle poderia cantar n'um theatro pequeno para que podesse estar + mais alguma coisa em scena além d'elle com os pés. O empresario acaba de + confiar-nos a explicação d'esse segredo, que elle nos permitte enviar + d'aqui como uma dadiva sua á justa anciedade das platéas. Mesmo porque o + empresario attribue, com bastantes probabilidades de acerto, a esta + preocupação do publico perante os pés phenomenaes do baixo a frieza + desdenhosa com que nas primeiras noites se escutou o canto tão vivamente + sentido, tão profundo e tão genial da Galetti. +</p> +<p> + Pois bem, meus senhores, não pensem mais n'isso. Querem saber como elle + cantava nos pequenos palcos?... +</p> +<p> + Do mesmo modo que cantam os gallos—n'um pé só. +</p> +<hr /> +<p> + Á praia da Torre em Belem foi hontem arrojado pela maré o cadaver de um + homem afogado Era ainda novo, robusto e forte. Estava vestido de panno + azul. A jaqueta e o collete que vestia tinham botões de metal doirado + com uma ancora em relevo. Na manga estava presa uma corôa tambem de + metal. Tinha na algibeira um relogio e algumas moedas de prata + portuguezas e brazileiras. As auctoridades da policia e da saude vieram + á praia e olharam para o cadaver, como a lei manda. Depois do que, + officialmente averiguado que estava ali effectivamente o cadaver de um + afogado, pegaram nelle, atiraram-o ao fundo de uma cova aberta á pressa + na praia, e cobriram-o com alguns metros de areia. +</p> +<p> + Bem feita coisa! +</p> +<hr /> +<p> + Nem toda a gente vae para a sepultura com esta simplicidade de + apparatos, a que podemos chamar o <i>enterro incivil</i>. Mas todos os cães + se enterram por este modo, e não é por isso menos repousado o seu eterno + somno. Além de que, é preciso que cada um se apresente na eternidade em + condições que não desdigam da gerarchia em que viveu e do conceito em + que o teve a sociedade e a opinião publica. Pretender o contrario é + querer lograr a divina justiça sujeitando-a a illudir-se com o aspecto + exterior dos mortos e a acolher com os mesmos cumprimentos na côrte do + ceu o primeiro aguadeiro que chegue assim como o mais digno e + respeitavel ministro de estado ou general de divisão que se + apresente,—o que seria certamente para Deus um desgosto profundo. Logo: + que cada qual morra como o que é e vá para o outro mundo como o que foi, + para não pôr em equívocos a celestial etiqueta! +</p> +<hr /> +<p> + É um senhor conselheiro a pessoa que morre, na sua cama, victima da sua + gotta? Vestem-se-lhe as suas calças de presilhas e galão de oiro, e a + sua farda bordada; prega-se-lhe no peito a constellação das suas placas + de diamantes, faz-se-lhe a barba, retinge-se-lhe o cabello, põe-se-lhe + ao lado o espadim e as luvas brancas, o chapeu armado sobre o ventre e + um pouco de carmim nas faces. E eil-o ahi está em toda a plenitude e em + toda a magestade dos seus meios physicos e da sua importancia social. As + pallidas Julietas dos sepulchros e as immodestas Rigolboches da tabida + podridão e dos gulosos vermes do <i>chic</i>, que se acautelem d'esse maganão + de bom gosto! +</p> +<p> + Elle é poderoso: deixou na terra muitos necrologios e muitas missas, e + vae optimamente recommendado pelo alto clero á especial protecção do + Padre Eterno. +</p> +<hr /> +<p> + O que morre é pelo contrario um destes infimos e asquerosos animaes, de + jaqueta de panno azul com botões de ancora, que andam a bordo dos navios + sobre a agua do mar? Uma onda envolve-o no tombadilho e arroja-o ao + abysmo inclemente? Suspende-se então por dois ou tres minutos a marcha + da embarcação—um sólido paquete talvez, luxuoso, commodo, de uma forte + companhia, em que tudo está seguro para os riscos da navegação, tudo + menos a gente,—lança-se uma boia de salvação, arreia-se uma lancha com + quatro homens, e alguns <i>gentlemen</i> que sobem á tolda, tiram dos estojos + de couro de Varsovia que trazem ao tiracollo os seus binoculos e + assestam-os sobre o elemento. Apesar porém d'estas delicadas attenções, + o bruto desagradecido desapparece. Dois ou tres dias depois, a maré, com + nojo, cospe-o á praia da Torre juntamente com outras immundicies. +</p> +<p> + Que queres tu d'aqui, meu estupido? Isto não é nenhuma selvagem ilha + deserta e encantada, querida dos luares transcendentes de que fallam á + phantasia as musicas de Bethowen e os versos do Ileine, e em que se + figuram, sob uma luz de esmeralda, os bailados da opera. +</p> +<p> + Aqui não ha os profundos paraizos aquaticos habitados pelas ondinas e + pelas sereias de beijos deliciosos e gelados. Não ha os duendes das + phantasticas florestas que te suspendam, sob o luar impregnado de + calidos aromas e de nocturnas harmonias, nos berços aereos das magnolias + e dos lilazes em flor, nem beneficas deidades transparentes que te + cinjam nos seus doces braços e te levem n'uma festa nupcial para os seus + leitos de algas, de coral e de perolas, no fundo dos dormentes lagos, + sob as folhas dos nenufares. +</p> +<p> + Não, isto aqui é uma praia decente e grave onde os senhores oficiaes de + secretaria o os senhores desembargadores veem durante a villegiatura + sentar-se pela fresquidão das tardes, com suas mulheres, contemplando + austeros e recolhidos as babugens da vasante e o fronteiro panorama, tão + magestoso e solemne, da Fonte da Pipa. É d'esta praia que o senhor + commendador Santos e o senhor commendador Firmo e o senhor commendador + Eloy teem partido em fina companhia de virtuosas damas, com honestas + guitarras e casto peixe frito, a bordejar no Tejo. É aqui que a illustre + e veneravel burguesia de Lisboa faz as suas estações balneatorias. É + n'estas aguas que ella annualmente refresca e desemporcalha a sua gorda + carne. É aqui que o mesmo poder moderador tem vindo, por vezes, com sua + augusta e elegante consorte demolhar no argento o excelso e inviolavel + systema nervoso da monarchia e da constituição. +</p> +<p> + Portanto, ó immundo, tu que morreste afogado no oceano e te deixaste + rolar para a praia da Torre, impertinente como o esqueleto de um goso + morto de fome na Trafaria, tu, imbecil, se querias mais alguma + consideração, mais algum respeito com os teus restos, fosses cahir a + outra parte. +</p> +<p> + Trazias algum dinheiro na algibeira, o sufficiente para te pagares o + luxo de um padre e de uma cova, mas, realmente tu não tinhas aspecto de + mereceres a pena de que alguem se occupasse por um minuto comtigo. +</p> +<p> + Animal! se querias ser enterrado com respeito e commoção, se querias ter + artigos nos jornaes e padres a cantarem-te o <i>De profundis</i>, porque foi + que em vez de te afogares de jaqueta, te não afogaste com uma farda de + almirante, ou de casaca preta e grã cruz dentro de um <i>coupé</i> da + companhia?! +</p> +<p> + Deixaste por acaso na terra uma velha mãe desamparada, uma esposa + lacrimosa, uma filha orphã, uma familia, a que seria doce ajoelhar sobre + a tua sepultara ou plantar algumas flores sobre a terra que te cobrisse? + Querias permittir-lhes essa extrema consolação? Deixasses-te ficar no + Chiado ou no Terreiro do Paço, tornasses-te um dos elementos + constituitivos da civilisação lisbonense, fizesses-te moço de recados, + agiota ou empregado publico. Vive-se assim na corrupção, na usura, na + humilhação ou na miseria, mas enfim morre-se bem, barato—e muito! +</p> +<hr /> +<p> + O <i>Jornal da Noite</i> publica uma conta de despeza feita pelo presidente + da republica dos Estados Unidos, Abrahão Lincoln, em um hotel de Albany. + O illustre democrata e as pessoas do seu sequito pagaram a somma de um + conto e alguns mil réis por uma hospedagem de menos de vinte e quatro + horas. +</p> +<p> + Este facto argumenta vivamente contra a opinião dos que acham as + republicas mais baratas para os povos do que as monarchias. +</p> +<p> + Effectivamente vemos que, ao passo que o presidente da republica da + America do Norte faz um conto de réis de despeza em algumas horas em + Albany e paga essa despeza, sua magestade o imperador da America do Sul + dispende no Porto mil libras em quatro dias, e não as paga. +</p> +<p> + É indubitavel pois que as monarchias são incomparavelmente mais baratas + do que as republicas. +</p> +<p> + Deve-se porém observar que, sob este ponto de vista, o descredito das + democracias prodigas procede principalmente das estalagens exigentes. + Porque está provado que sempre que um republicano em viagem pretende + gastar tão pouco como um rei economico, os estalajadeiros fazem ao + republicano o seguinte: sequestram-lhe a bagagem. +</p> +<hr /> +<p> + Parece-nos arriscado estabelecer entre os principes e os povos esta + perigosa competencia de quem ha de pagar menos em viagem. Pois que, + realmente, desde que as testas coroadas chegaram ao ideal de se + apoderarem das contas e não pagarem nada, os povos só poderão desbancar + os reis se, não pagando egualmente nada, começarem a estabelecer este + uso: depois de se apoderarem das contas, apoderarem-se egualmente—das + pratas. +</p> +<hr id="catholicosdoporto" /> +<p> + <b>Primeira aos membros da Associação Catholica no Porto</b> +</p> +<p> + Meus senhores e minhas senhoras.—Em nome da Nosso Senhor Jesus Christo + e da Santa Madre Egreja Catholica Apostolica Romana, eu vos saúdo e vos + desejo a divina graça. Como tenho obrigação de vos suppôr—taes como o + dizeis—sinceros e dedicados servos de Deus, devotados a cumprir a sua + lei e a divulgar a sua doutrina, mais vos desejo que nunca vos persigam + os bens e as riquezas temporaes de que certamente vos despojastes para + seguir a Jesus. Eu sei que o divino mestre, antes de mandar aos + apostolos que o acompanhassem, lhes ordenou que deixassem as redes, + fazendo-nos sentir por esta fórma que ninguem póde estar com Deus + estando ao mesmo tempo com o mundo, e que para ter os bens do céo é a + condição essencial—abandonar os da terra. Primeiro: <i>deixae as redes</i>; + depois: <i>vinde commigo</i>. +</p> +<p> + Amados irmãos, presumindo-vos pobres, desvalidos, tendo previamente dado + o vosso pão aos que tinham fome e os vossos vestidos aos que tinham + frio, eu desejo ainda sobre a vossa nudez a mortificação da vossa carne, + a santa mortificação que raspa a vaidade e o orgulho e limpa o + entendimento e a alma das lepras mundanaes. +</p> +<p> + Que a graça de Nosso Senhor vos assista e que nada mais do que é + temporal se vos pegue, porque n'este mundo tudo é esterco: <i>Omnia ut + stercora</i>, como muito bem disse S. Paulo! +</p> +<p> + Se vos não poderdes furtar aos contactos impuros do seculo, permitta o + ceo que em todas as vossas relações com a sociedade todas as invectivas + e todas as malquerenças pharisaicas vos punjam e vos espicassem o + coração, assim como os chacaes famintos furam e rasgam no deserto as + tendas dos piedosos peregrinos. Porque—bem o sabeis—só com as + inimisades do mundo podereis merecer e lograr a amisade de + Deus:<i>amicitia hujus mundi inimica est Dei</i>. +</p> +<p> + Finalmente, meus senhores e minhas senhoras, resumindo os meus votos + pelo molde mais consentaneo com as vossas aspirações, que o Senhor vos + veja eternamente no ceu e vos aplane o caminho da promissão, tendo-vos + tanto de sua mão que nunca sobre vós deixem de chover as dores e as + ruinas, por isso que, como diz o psalmista, será pela somma das vossas + penas contingentes, transitorias e mundanaes, que serão medidas as + vossas alegrías celestiaes e eternas!—<i>Secundum multitudinem dolorum + meorum in corde meo, consolationes tuae laectificaverunt animam meam.</i> +</p> +<hr id="picaria" /> +<p> + Permittí-me agora que, antes de entrar em algumas breves considerações + que a natureza do vosso instituto me suggere, eu me detenha um momento + na simples contemplação do nome que lhe puzestes. +</p> +<p> + Que razões poderiam levar-vos, beatissimos senhores, a denominardes + <i>catholica</i> a associação que fundastes, ahi no Porto, em certa casa da + rua da Picaria? Que significa uma associação chamada <i>catholica</i> no meio + de uma sociedade egualmente catholica? Quem é que não é <i>catholico</i> em + Portugal? Não temos nós todos a mesma religião, que não é uma religião + especial da rua da Picaria, mas sim a bem conhecida religião do paiz, a + religião do estado, a religião famosa da carta? Ignoraes por acaso que + nenhuma associação póde ser em Portugal senão isso—<i>catholica</i>? + Ignoraes que não temos a liberdade dos cultos, a divergencia de + religiões?... +</p> +<p> + Ora, não havendo o mosaismo aqui no Chiado, não existindo o pantheismo + no Rocio, nem o lutheranismo no Terreiro do Paço, nem o fetichismo no + Arco do Bandeira, o que vem a ser um catholicismo da rua da Picaria na + cidade do Porto? Terá cahido o Porto porventura no paganismo idolatra? + Estará elle sacrificando a Jupiter a sua rica vacca cosida? Tel-o-hiam + levado os seus representantes, os seus philosophos, os srs. Faria + Guimarães e Pinto Bessa, ás vertiginosas regiões do livre exame, onde o + espirito humano, abatido, fatigado, morde na solidão o fructo amargo da + sciencia?... +</p> +<p> + Não. Eu visitei o Porto ha pouco tempo. Cheguei ahi no dia 24 de junho. + A cidade tinha o aspecto mais jubiloso e festival. Erguiam-se arcos + triumphaes nas embocaduras das ruas, palpitavam á viração matutina + bandeiras desfraldadas nas janellas das casas. Na rua de S. João os + habitantes, de camisa lavada e barba feita, passavam com bandejas cheias + de lanternas para luminarias, outros espetavam no chão mastros + embandeirados; iam, vinham, fallavam alto, tinham gestos abundantes e + felizes. As egrejas por onde passei estavam cheias até á porta de fieis + que ouviam as primeiras missas. Os sinos repicavam em todas as torres, e + os foguetes furavam o limpido azul da manhã. +</p> +<p> + O Porto, onde n'esse dia devia celebrar-se um grande <i>meeting</i> liberal, + começava no emtanto—por festejar o S. João! +</p> +<p> + Portanto, meus senhores, se vós vos denominaes catholicos, não é porque + supponhaes que os outros o não são; é porque vos parece que o sabeis ser + melhor do que os outros, e pretendeis que vos considerem como unicos + catholicos perfeitos, catholicos affiançados, catholicos garantidos. +</p> +<p> + Se é isto o que quereis dizer-nos com o titulo escolhido para a + vossa associação, e não podeis querer dizer outra coisa, + então—meditae-o—achaes-vos em peccado mortal de soberba, de jactancia, + de presumpção de merecimentos. +</p> +<p> + Localisando por esse modo a religião na rua da Picaria, vós lançaes + tacitamente a suspeita de impiedade nas demais ruas da cidade da Virgem. +</p> +<p> + Pois bem, que a Picaria o saiba: a viella do Ferraz tambem vae á missa, + e Deus sabe se jejua ou não, ás sextas-feiras, a Ferraria de Cima! +</p> +<hr /> +<p> + Advirtamos agora como a associação catholica tem correspondido pela + importancia dos seus actos á audaciosa escolha do seu titulo. +</p> +<p> + Até o momento em que vós vos apoderastes do catholicismo para vos + fechardes com elle na rua da Picaria, cabia ao catholicismo a gloria de + ter inspirado as maiores obras produzidas pelo espirito humano. +</p> +<p> + Foi esse pobre catholicismo, ainda então desprotegido do valioso + patrocinio que n'este seculo lhe devia conceder a vossa associação, meus + illustres senhores e minhas preclaras senhoras, foi elle, ainda + desalbergado da rua da Picaria, o que na edade media fez brotar da + imaginação dos povos o que ha mais bello nas artes, os maravilhosos + poemas, as ternas legendas melancolicas, as portentosas cathedraes. Foi + elle que levou Pedro Eremita e Godofredo de Bulhões a descerem o valle + do Danubio e a seguirem o caminho de Attila. Foi elle que inspirou Tasso + e Dante. Foi elle que produziu S. Thomaz, o <i>boi mudo de Sicilia</i>, o + Aristoteles do christianismo—como lhe chamou Michelet—, o mais + poderoso cerebro da egreja. Foi elle que creou em Hispanha desde o + seculo XVI até o seculo XVII no meio da maior escravidão e do maior + fanatismo, o mais brilhante grupo de artistas que tem visto o mundo: + Velasquez, Murillo, Herrera, Zurbaran, Lope de Vega, Calderon, + Cervantes, Tirso de Molina, Luiz de Leon. O profundo mysticismo de + «Quixote» é um reflexo do poder da fé em todos esses espiritos. Calderon + era official do santo officio e Lope de Vega desmaiava em extase ao + dizer missa. O catholicismo inaugurou ainda a sociedade mais popular, + mais accessivel, mais equalitaria. No meio da barreira levantada diante + da plebe pelos privilegios do sangue, a egreja era o portico de todos + os grandes talentos e de todas as elevadas ambições: o papa Urbano IV, + filho de um sapateiro, edificava a egreja de Santo Urbano e expunha + n'ella, bordado em uma rica tapessaria, o retrato de seu pae fazendo + sapatos. +</p> +<p> + Por outro lado o catholicismo deu-nos ainda a Saint-Barthelemy, a + carnificina nacional dos christãos novos, a Inquisição, a guerra dos + trinta annos, os monges bretões que envenenaram o calix de Abeilard e os + dominicanos de Buon Convento que assassinaram Henrique VII, fazendo-lhe + commungar o veneno na hostia consagrada. +</p> +<p> + Protegido por vós, meus senhores, tutelado pela vossa sociedade + propagandista da rua da Picaria, o catholicismo portuense tem-nos dado + apenas:—como carnificina, quatro pranchadas nas espaduas de quatro + patriotas á porta da Sé; como arte, a <i>Palavra</i>, um pobre jornal piegas, + lacrimoso e beato, com pouca elevação, com pouco enthusiasmo, com pouca + fé, e com alguns erros de grammatica. +</p> +<p> + Ora realmente, meus senhores, para resultados tão mediocres não valia a + pena de vos dardes o apparato de quem funda uma agencia para a + Bemaventurança e nos fecha o ceu—n'um armazem de commissões. +</p> +<p> + Em 1849 havia na Italia uma propaganda catholica, cujos membros todavia + não chegaram nunca a aggremiar-se e a constituir-se em sociedade como os + cavalheiros e as damas da rua da Picaria. +</p> +<p> + O chefe da propaganda italiana era um dos espiritos mais rectos e mais + benignos, era o doce e pacifico poeta Manzoni, recentemente fallecido. +</p> +<p> + <i>I promessi Sposi</i>, o celebre romance tão conhecido, foi como o <i>Genio + do Christianismo</i>, de Chateaubriand e como as odes religiosas de + Lamartine, inspirado por essa reacção catholico-litteraria com que os + romanticos de 1830 bateram as idéas philosophicas do seculo XVIII. +</p> +<p> + Manzoni porém, servindo a causa catholica como propagandista, e abrindo + um exemplo que se tornou escola de muitos escriptores e poetas + italianos, Manzoni, em primeiro logar, escrevia para esse fim livros + adoraveis,—e que vós, meus queridos senhores não resolvestes ainda + começar a fazer na vossa officina religiosa da rua da Picaria. Em + segundo logar Manzoni considerava a idéa religiosa como um elemento de + emancipação e de regeneração para a Italia então opprimida e + escravisada. Finalmente Manzoni não tinha por fim especial glorificar os + padres, arregimental-os, armal-os, pôl-os em pé de guerra, como o está + fazendo a associação catholica portuense. Pelo contrario, Manzoni sabia + que os padres italianos do seu tempo eram, como Cantú os descreve tomado + do mais santo horror: «glutões, avaros, estupidos e bandidos». O perfil + ideal do padre Borromeu nos <i>Promessi Sposi</i> não tinha pois a intenção + de um retrato, era o estabelecimento de um novo nivel para a opinião, + era um exemplo, era uma lição dada pelo modo delicado e brando com que o + desgosto profundo inspirára a alma candida e honesta do piedoso + escriptor. +</p> +<p> + Feita assim, n'estas circumstancias, n'estas condições, por estes meios, + eu comprehendo a propaganda catholica, e inclino-me respeitosamente + diante dos que a servirem e a promoverem. Não me parece todavia que seja + esse o caso da Associação catholica portuense, nem no que diz respeito + aos fins que ella se propõe, nem no que toca aos meios que emprega para + conseguir o seu fim. +</p> +<hr /> +<p> + Que pretende a associação catholica? +</p> +<p> + Libertar a patria, chamal-a á independencia, fortificando com o + sentimento religioso a fé patriotica, como fizeram Manzoni, Rosmini, + Gioberti, Balbo e outros na Italia invadida pela dominação? Não, porque + Portugal, é por emquanto independente e livre. +</p> +<p> + Estabelecer a cathechese? Diffundir a moral? Regenerar os costumes? Não, + porque, não sendo publicas as sessões da associação e não tomando parte + n'ellas senão os mesmos associados, pessoas cujos costumes e cujas + crenças religiosas foram d'antemão affiançados, estes acham-se + satisfatoriamente moralisados e instruidos. +</p> +<p> + Educar o clero, aprestando-o para uma influencia mais directa e mais + proficua nos interesses da cidade ou nos interesses do ceu? Tambem não, + pelas razões seguintes: +</p> +<p> + Os padres portuguezes acham-se todos incluidos em uma d'estas tres + classes:—os indifferentes, os liberaes e os reaccionarios. +</p> +<p> + O padre indifferente vive obscuro e tranquillo no fundo de uma aldeia + entre a sua lavoira e o seu campanario. Baptisa as creanças, confessa + os adultos e absolve os que morrem. Se não forem todos para o ceu, a + culpa não é d'elle. Cartilha e bons conselhos propina-lh'os todos os + domingos depois da missa conventual; se os não tomarem para seu bem, lá + se avirão com o demonio no outro mundo e cá na terra com o regedor. De + resto elle cava a sua horta, é grande madrugador, deita-se com as + gallinhas, diz a missa ao romper d'alva, caça a perdiz no inverno e + pesca os barbos no verão. Além de um bocado de breviario, não lê senão + um repertorio para estar ao facto das luas e saber quando convém + alporcar as pereiras e semear os pepinos. Bom homem, rijo, satisfeito, + sanguineo, infatigavel companheiro na caça e na mesa, se tentardes + esgrimir com elle algumas idéas politicas ou religiosas, algumas + subtilezas de critica, de controversia, terá tonturas, arregalará os + olhos, ouvír-se-lhe-hão rugidos interiores e não sentirá senão um + desejo: o de vos açular ás pernas os seus cães e cascar-vos pela cabeça + com o seu grosso marmeleiro argolado. +</p> +<p> + O padre liberal habita as cidades, lê os periodicos, intervém em + eleições, frequenta os botequins e as casas de jogo, fuma cigarros, e + protesta vigorosamente contra a reacção e contra o jesuitismo, trazendo + os dedos amarellos e tomando medicamentos secretos. +</p> +<p> + O padre reaccionario anda quasi sempre de loba; tem os olhos baixos, o + passo miudo e commedido, o sorriso contrafeito como uma coisa azeda + misturada com assucar; gordura fria e pallida, um tanto sinistra; mãos + brancas, suadas, viscosas; pés moles, de pato, arrastando. O + confissionario é para elle uma vocação, um destino, um prazer: é a sua + arte. Algumas vezes mobila-o com certo luxo, introduz-lhe um sophá e + abastece-o de viveres: uma lata de pão de ló e copos com geléa. É ahi + que elle escuta, de olhos meio cerrados e mãos crusadas no peito, as + confidencias secretas das mulheres, os casos encobertos ás mães e aos + maridos, os inveterados vicios escondidos e os grandes crimes occultos, + as obras e os pensamentos, os alvoroços da carne no meio da penitencia e + da oração, as tentações do inimigo, os ardentes desejos diabolicos, os + pungentes escrupulos de alcova, a grande tragedia intima dos mysticos e + dos solitarios. Elle escuta, manda repetir, inquire, investiga, indaga, + minucia por minucia, as circumstancias que aggravam e as circumstancias + que attenuam; disseca o peccado, desfibra-o musculo por musculo, nervo + por nervo, arteria por arteria; depois reconstitue-o, recompõe-o, + inteira-o, evoca-o, fal-o resurgir nos olhos da penitente—para a + moralisar com a enormidade do erro. A culpa, assim rediviva pelos + retoques finos, dialecticos, incisivos do stylo theologico e casuistico + dos commentadores do Decalogo, a culpa repintada com essa arte mais + sabia, mais poderosamente minuciosa que a de todos os modernos + romancistas psychologos dos vicios torpes e vergonhosos, cinge outra vez + a peccadora, collêa-se estreitamente com ella como a serpente do Eden, + envolve-a nas suas espiraes, penetra-a da sua essencia magnetica, + communica-lhe a electricidade dos seus filtros. É então, n'esse momento + terrivel de crise, nevralgico, histerico, allucinado, que elle critica + friamente, com uma analyse perpendicular, dominadora, arbitra da + commoção; e consola, aconselha, admoesta, subjuga, domina, e absolve ou + condemna, elle, elle em nome do Creador, a fragil creatura desmaiada aos + seus pés. O padre reaccionario faz parte da grande centralisação + catholica, é uma das rodas do grande machinismo, vive no systema de + partido como na obediencia e na regra de um instituto. Não pensa nem + discute. O seu rumo está tomado; segue-o apezar de tudo, atravez de + tudo, como um boi abre um rego, com os olhos tapados. Tem heranças de + velhas devotas, avultadas esmolas de missa, frequentes presentes de + confessadas. Vende agua de Nossa Senhora de Lourdes ou de La Salette. + Cobra os dinheiros de S. Pedro e remette-os para Roma, assigna a + <i>Nação</i>, e quasi sempre é rico. +</p> +<p> + Dos padres d'estas tres categorias quaes são aquelles que a associação + Catholica influe, aconselha ou dirige? +</p> +<p> + O padre obscuro nem mesmo sabe que tal associação existe. O padre + liberal é seu inimigo e adversario intransigente. Resta-lhe o padre + ultramontano. +</p> +<p> + Ora este ultimo padre é o ôvo de que a associação Catholica é a ave. + Ella não o modifica, não o educa, não o adverte, não o illustra. Faz-lhe + simplesmente isto: choca-o. Depois, quebrada a casca do sr. padre Couto, + o sr. conde de Samodães apparece. +</p> +<hr /> +<p> + A associação Catholica celebra periodicamente reuniões, a que chama + academias. Que se faz n'estas reuniões frequentadas por muitas senhoras + da primeira sociedade portuense, o que ha de mais digno, de mais + inviolavel e de mais sagrado? +</p> +<p> + Relevem-nos este ponto de interrogação, que não tem de nenhum modo a + impertinencia de uma pergunta e deve apenas ser considerado da nossa + parte como um simples ponto de perturbação e de pasmo. +</p> +<p> + Se os homens estivessem sós comprehendemos que as reuniões da associação + Catholica fossem para elles um meio do repousarem suavemente das fadigas + temporaes, dos enganos do mundo, das illusões e das vaidades do seculo. + Concebemos perfeitamente que depois de terminados os seus negocios, + assignada a sua correspondencia, pagas as suas lettras, despachadas as + suas mercadorias, fechada a sua caixa, comido amplamente o seu jantar, + saboreado o seu café e o seu <i>kumel</i>, elles encerrassem o seu dia + juntando-se todos fradescamente, sem etiqueta, sem cerimonias de + elegancia nem de <i>toilette</i>, e que, em seguida, descalçassem as botas e + dissessem: «Ora dissertemos lá um bocado sobre a immortalidade da alma!» +</p> +<p> + Mas, com senhoras, com senhoras elegantes e bellas, que hão de apear-se + das suas carruagens, depôr os seus burnous no <i>vestiaire</i> e penetrar no + salão, sob o gaz, n'uma onda scintillante de setim e de renda, que farão + os homens? +</p> +<p> + Hão de se ter espalhado na athmosphera os perfumes da <i>toilette</i>, os + murmurios dos vestidos, os reflexos das joias e as confusas palavras + finas, magneticas, que susurram sob a palpitação dos leques. Suppomos + que não ha orchestra nem piano, de modo que as pessoas devotas não + poderão dirigir-se immediatamente ao sr. padre Couto para que as faça + valsar; não estarão patentes os ultimos telegrammas dos successos de + Hispanha; não haverá um serviço de gelados trazido em bandejas de prata + por criados de calção curto: não se terá á mão um numero da + <i>Illustração</i> nem um album que se folheie ... +</p> +<p> + Estranha perplexidade! +</p> +<p> + Tem um simples associado de abotoar as suas luvas, de adiantar um + <i>fauteuil</i>, de se aproximar de um grupo e de lançar um assumpto pela + seguinte fórmula: «Minha senhora, será vossencia assaz boa para querer + fazer-me a honra de me dizer se já tem interlocutor para uma breve + dissertação sobre os novissimos do homem?» +</p> +<p> + Ou talvez que haja uma organisação parlamentar para a distribuição dos + assumptos e para a ordem das discussões. E n'esse caso, reunido o + claustro pleno, será o sr. conde de Samodães quem abrirá as sessões, + persignando-se, tocando a sua campainha e dizendo: +</p> +<p> + —«Dou a palavra ao relator da commissão encarregada de dar o seu + parecer ácerca das Divinas Pessoas da Santissima Trindade. Meus senhores + e minhas senhoras, está em discussão o Espirito Santo.» +</p> +<hr /> +<p> + Porque emfim, meus senhores, celebrando como catholicos as vossas + academias religiosas, das duas coisas uma: ou vós estabeleceis a + controversia e discutis os canones e os dogmas, ou não a estabeleceis e + não os discutis. +</p> +<p> + No primeiro caso usurpaes os poderes que só competem aos concilios, + entregaes aos debates da razão as materias de obediencia e de fé e cahis + no racionalismo heretico. +</p> +<p> + No segundo caso, reunidos em nome de Deus, vós não tendes o direito de + fazer senão uma coisa: elevar humildemente ao ceu os vossos espiritos e + prostrar-vos na penitencia e na oração. +</p> +<p> + Mas para os exercicios da oração e da penitencia vós tendes a egreja + para rezar e a solidão no interior das vossas casas para meditar o + arrependimento. Para similhantes effeitos congregar os fieis nos salões + da rua da Picaria é desviar dos templos a corrente natural da devoção e + arrancar do interior da familia o saudavel recolhimento dos propositos + bons. +</p> +<p> + Eu creio profundamente que entre vós existem homens dignos, honrados, de + uma piedade limpida, com as mais rectas intenções de espirito e de + consciencia. Acredito mesmo que essas almas, timoratas mas boas, + constituem a grossa maioria dos vossos consocios. Por isso vos consagro, + passando, esta palavra séria: +</p> +<p> + Nada mais funesto para os costumes do que ensinar ás mulheres que ha + instituições especiaes para o serviço de Deus, para a conquista do ceu, + para a remissão da culpa. O posto digno da mulher christã é em sua casa + ao pé dos seus filhos. Os exercicios espirituaes e as contemplações + mysticas escurecem a alegria domestica, alvoroçam a virtude, perturbam a + consciencia. Na sociedade actual a mulher pertence, integralmente, com + toda a responsabilidade do seu destino, á missão sublime da regeneração + do homem pela attracção do lar. Desviar sob qualquer pretexto que seja + a attenção da mulher dos interesses da familia é commetter para com a + moral um sacrilegio. A casa conjugal tambem é um templo, e a maternidade + é uma religião. +</p> +<hr /> +<p> + Meus senhores, tenho procurado tanto quanto me tem sido possivel ser + amavel comvosco, tomando para vos observar todos os pontos de vista. + Olho-vos como christão, olho-vos como catholico romano, olho-vos como + cidadão, olho-vos como simples espectador, como <i>dilettante</i>. De todos + os modos vós me pareceis ou incongruentes, ou ridiculos, ou absurdos. +</p> +<p> + Todavia, meus senhores, depois de tão exactas observações, eu não + concluo que dissolvaes o vosso synodo e que vos retireis para vossas + casas. Os senhores liberaes, que vos combatem, são egualmente + incongruentes, egualmente absurdos e um pouco mais comicos do que vós, e + os senhores liberaes tambem se não retiram. +</p> +<p> + Elles dão morras ao papa, chefe supremo da religião catholica e todavia + continuam a dizer-se catholicos. Odeiam e guerreiam os padres e no + emtanto continuam a entregar as suas mulheres aos confissionarios e as + suas filhas á cathechese. Insultam a theologia do vosso jornal a + <i>Palavra</i> mas não acceitam com elle a controversia porque não sabem + theologia. Não lhes importa o irem para o inferno, mas não querem ir + para o Carmo. O seu atheismo leva-os a quererem «esmagar o infame» como + elles mesmos dizem, mas com a clausula de não molestarem com essa + operação os calos do sr. Bento de Freitas, governador civil, ou do sr. + Pinto Bessa, presidente da camara. Ultimamente vós festejaveis com um + <i>Te Deum</i> na egreja da Sé o anniversario de Pio IX: estaveis + inteiramente no vosso direito e na logica dos vossos principios. Elles, + em vez de combaterem com uma affirmação de sciencia a vossa protestação + de fé, esperaram-vos á porta da egreja, deram vivas á liberdade, a + Victor Manuel e a Garibaldi e alguns morras ao Papa infallivel. Foi com + esta elevação de critica que analysaram o Concilio do Vaticano, consti. + 4.ª cap. IV <i>De infallibilitate romani pontificis magni</i>, a qual + constituição nunca leram. A policia interveio, espancou varias pessoas, + prendeu varias outras, e eis em resumo o que os periodicos liberaes + chamam os conflictos da liberdade e da reacção religiosa na cidade do + Porto! +</p> +<p> + Profundas graças ao Altissimo, que não são inteiramente estas as + circumstancias que determinaram as antigas crises do poder entre os + burguezes do senado do Porto e os poderosos barões feudaes da Sé + portuense ou do balio de Leça! Os srs. padre Rademaker e padre Couto não + afivelaram os arnezes de aço dos antigos bispos e dos freires + hospitalarios, não reuniram os seus sergentes e homens d'armas, não + mandaram erguer as levadiças dos seus paços acastellados nem + desembainharam as suas espadas famosas ... Não, elles apenas entoaram a + ladainha de todos os santos, e prometteram, não excursões armadas sobre + os rebeldes dos seus feudos, mas sim jubileus e bençãos telegraphicas + aos seus adeptos. +</p> +<p> + Ora não vemos realmente em que estas coisas possam atterrar a liberdade + e sobresaltar o paiz. +</p> +<p> + É singular esta coincidencia: +</p> +<p id="bismark"> + O clero catholico tem hoje em toda a Europa o papel sympathico. Os + unicos paizes do mundo em que ainda se gosa a liberdade religiosa são os + paizes catholicos. Na Russia, na Allemanha, temos o despotismo e a + perseguição protestante. O sr. de Bismark prende, processa e desterra + os sacerdotes catholicos. No novo imperio do rei Guilherme, o + patriotismo reforça-se na religião do estado; a recente legislação + allemã submette todos os casos de disciplina ecclesiastica e todas as + deliberações episcopaes ao poder civil, e prohibe o clero sob as mais + severas penas de cumprir preceitos que dimanem de qualquer auctoridade + ecclesiastica estranha á nacionalidade allemã. +</p> +<p> + Ferida violentamente na sua liberdade, perseguida pela força, a egreja + catholica—quem o diria!—appella para as garantias espirituaes e quer a + distincção dos poderes como salvaguarda da liberdade. Na Allemanha os + ultramontanos mais ardentes fortificam-se nos seus ultimos + entrincheiramentos pedindo como Cavour a egreja livre no estado livre. A + tal estado chegou desprestigiado e abatido o antigo poder clerical!... + Elle já não quer exercer a sua velha tyrannia, contenta-se em não + supportar a perseguição; e, como todos os martyres, pede a liberdade + como o extremo refugio das consciencias apavoradas. +</p> +<p> + Violentamente ferida no coração, perseguida pela força, a egreja + apresenta esse symptoma infallivel da sua suprema dôr—o grito das + garantias espirituaes, o appello em ultima instancia para a distincção + dos poderes. +</p> +<p> + Pio IX, fortificado no Vaticano, como n'uma cidadella gloriosa, + desmoronada e vencida, posto que respeitada, soffre as ultimas + consequencias fataes da sua politica, e, indomavelmente pertinaz e + corajoso, esse velho batalhador veneravel, despojado da sua corôa + temporal, arroja aos vencedores o derradeiro desafio do seu despreso, + arvorando impavidamente o dogma e metralhando com as excommunhões a + opinião liberal em ultimo sacrificio a uma causa perdida. +</p> +<p> + É curioso até o ponto de se tornar ligeiramente comico que seja este o + momento escolhido pela burguezia portuense para começar a apontar-nos a + egreja catholica como um perigo para a liberdade! +</p> +<p> + No Porto os livres pensadores da calçada dos Clerigos principiam agora a + receiar que os catholicos da rua da Picaria assoberbem e esmaguem sob a + desmaiada e quasi esvahida legenda pontificia o poderoso mundo + scientifico moderno. +</p> +<p> + Pela sua parte vós, catholicos da Picaria, reunis as vossas mulheres e + as vossas filhas, entoaes ladainhas e procuraes com preces e com + penitencias desaggravar a divindade offendida com as invectivas dos + periodicos liberaes—no que nos parece que confundis tambem um pouco a + religião com a sacristia, e tomaes frequentemente o sr. padre Couto pelo + Padre Eterno. É o vosso erro. No entanto ficae no vosso posto. A + civilisação precisa de vós, não como elemento reconstituinte, mas como + producto lachante. A sciencia estima-vos ... como droga. O velho mundo + invoca a vossa assistencia para o ajudar a morrer, para o enterrar. Para + mim, que acabo de vos discutir como fazendo eu mesmo parte do meio + burguez em que existis, vós sois certamente um absurdo. Perante a + philosophia vós sois porém uma necessidade historica. Nos annaes do + progresso transcendente do espirito humano o vosso nome ha de ficar como + o curioso epitaphio de uma geração que se extinguiu ha tresentos annos. + Porque a verdade é que vós representaes as idéas do seculo XVI. +</p> +<p> + A associação catholica do Porto instituiu-se para quê? Vós mesmos o + estaes dizendo todos os dias: Para salvaguardar a fé religiosa da + corrente invasora do scepticismo moderno. +</p> +<p> + Pois bem, meus senhores, foi esse mesmo scepticismo, cuja corrente vós + pretendeis hoje reprimir ou recuar, o que produziu a grande revolução + scientifica do seculo XVII e toda a civilisação subsequente até os + nossos dias. +</p> +<p id="tolerancia"> + O scepticismo é o estado de espirito que medeia entre a superstição e a + tolerancia. Ha mais de um seculo que nenhum pensador grave se intromette + na vossa controversia theologica. Ninguem vos combate, ninguem mesmo vos + discute. O mundo novo está já na tolerancia, quando vós combateis ainda + o scepticismo de que a tolerancia é o fructo! +</p> +<p> + Duvidar, meus bons amigos, é exercer uma das mais poderosas e mais + fecundas faculdades da razão humana. Para chegar á verdade não ha senão + esse caminho: a duvida. Para chegar a Deus, que não é outra coisa senão + a expressão theologica da verdade, o unico meio é tambem esse: a duvida. + Primeiro que tudo duvida-se, depois aprende-se, por fim descobre-se. Tal + é a marcha invariavel dos espiritos na sua grande ascensão do imperfeito + para o absoluto. +</p> +<p> + O mesmo christianismo não poderia nunca ter principiado a existir se não + o tivesse precedido a duvida nas consciencias da antiguidade pagã. + Antes de acreditar em Jesus Nazareno o homem teve que duvidar de Jupiter + Capitolino. A tradicção christã é uma conquista do scepticismo antigo. A + duvida foi a primeira e a mais augusta expressão da revelação divina. +</p> +<p> + A duvida tem sido em todos os tempos a luz immortal e a guia suprema do + entendimento humano. Foi a duvida quem levou Colombo ao novo mundo, + Copernico e Newton á astronomia, Boyle e Pascal á hydrostatica, Galyleu + á mecanica e Lavoisier á chimica. +</p> +<p> + Se nas profundidades da nossa alma o scepticismo não tivesse existido + sempre como uma indomavel força inextinguivel de perfectibilidade + indefinida, a sciencia astronomica não viria occupar o logar da + astrologia, a physica e a chimica não substituiriam a alchimia, e a + imagem de Christo crucificado não succederia nos altares do Vaticano ás + estatuas dos dois mil deuses da Roma antiga. +</p> +<p> + Quereis a definição precisamente scientifica do scepticismo? Ouvi + Buckle, o historiador da civilisação: scepticismo é a difficuldade de + crer; de sorte que o scepticismo que se augmenta é a percepção + augmentada da difficuldade de provar asserções, ou, n'outros termos, é + a applicação augmentada e a diffusão augmentada das regras do raciocinio + e das leis da evidencia. Esse sentimento de hesitação é em todo o campo + do pensamento o preliminar invariavel de todas as revoluções + intellectuaes por que tem passado o espirito humano; sem o scepticismo, + progresso, mudança, civilisação, tudo seria impossivel. Na physica é + elle o precursor necessario da sciencia; na politica o precursor da + liberdade; na religião o precursor da tolerancia. +</p> +<p> + Ora defendendo a integridade da fé, vós fazeis á philosophia este + serviço relevante: suggeris a duvida, procuraes accordar a razão + individual, a qual nunca em nenhum outro meio social se desenvolveu tão + larga e tão arrojadamente, como no seio da egreja christã, a qual apezar + de todos os seus erros e dos seus mesmos crimes, tem sido sempre o mais + forte nucleo da vida moral e o mais alto objecto de todos os grandes + desenvolvimentos da intelligencia e da vontade. +</p> +<p> + De resto entendo que o Porto, esse feliz e arrojado industrial, vos deve + ser especialmente grato e reconhecido, porque vós o dotastes com um + estabelecimento que Lisboa ainda não possue—A associação catholica da + rua da Picaria,—a qual, á similhança dos antigos moinhos do Tibet e das + cabaças rotatorias dos Kalmuks, assegura á commodidade dos habitantes um + systema permanente, uma especie de moagem mechanica, com motuo continuo, + de adorações e de preces. +</p> +<hr /> +<p> + Algumas das familias que durante a estação finda se achavam a banhos de + mar em Pedrouços, resolveram de uma vez fazer uma festa nocturna, + mysteriosa, venesiana. Tomaram um vapor da carreira de Belem, + illuminaram-o com balões de papel como as gondolas do canal da Zueca que + deslisam em frente dos terrassos do palacio Barbarigo no primeiro acto + da <i>Lucrecia</i>. Para que a commoção de todas as pessoas que tomaram parte + n'esta scena fosse profunda e illimitada, os homens tinham-se + apresentado todos vestidos como os tenores nas scenas de <i>barcarola</i>. O + jubilo era indescriptivel. +</p> +<p id="caparica"> + Reunida a bordo toda a sociedade, o vapor levantou ferro, e penetrou na + treva, vibrante de aventura, saturado de drama, na direcção de + Caparica. +</p> +<p> + O Tejo porém estava grosso e picado, de modo que começou a dar ao vapor + uns balanços intermittentes para um lado e para o outro como de quem + escabacea com somno. Com isto principiaram a manifestar-se com uma + insistencia progressiva os symptomas spasmodicos nos esophagos da + assembléa. Os Mazaniellos, verdes como azebre, tristes como condemnados + á morte, procurando sorrir á catastrophe com sorrisos dilacerados como + os que apresentam os cotovellos rotos, enrolavam-se nas suas capas e + prostravam-se como trôchos inuteis nos bancos da tolda. As senhoras + punham os seus lenços na bocca, corriam a mão pela testa, cuspiam + desconsoladamente no mar, e tinham ligeiros movimentos extaticos e + doloridos como de quem está escutando no ar o rumor de uma angustia que + chega. +</p> +<p> + Então o sr. Mathias Ferrari, segundo lemos no <i>Diario de Noticias,</i> «fez + correr um abundante serviço de neve». Todos se serviram. +</p> +<p> + Os effeitos foram taes que quando os criados repassaram com a segunda + roda de sorvetes, todos os convivas, com as boccas ainda abertas, + estremeceram de horror, porque cuidaram que esses segundos gelados eram + outra vez—os primeiros. +</p> +<p> + Então um homem forte, que tinha ido para bordo armado de um violão, + tentando arrancar a companhia a uma consternação abatida e geral, + começou, a dedilhar o instrumento e a entoar uma chacara. Mas, de + repente, suspende-se, torce-se, arripiam-se-lhe os cabellos, + encurva-se-lhe a espinha dorsal, cae-lhe o violão desfallecido nos + braços das senhoras, e o resto da chacara destinada aos eccos nocturnos + do oceano e recolhida pelos circumstantes n'uma bacia. +</p> +<p> + Era immenso a bordo o desalento. +</p> +<p> + Mathias Ferrari, descorçoado, abatido, já «não fazia correr os + serviços.» Este grande confeiteiro, dominando inteiramente a situação + com a profundidade da sua critica, comprehendera—e muito bem!—que a + questão ali já não era de <i>fazer correr</i>, mas de <i>fazer parar</i>. +</p> +<p> + Era alta noite quando o vapor abicou outra vez á praia de Belem, + recolhendo-se todos perfeitissimamente satisfeitos pelo modo como se + passara tão bello tempo. Apenas, para que desembarcassem, houve o + pequeno trabalho de virar os que tinham assistido a esta festa, a mais + brilhante talvez que se tem dado no Tejo, por que os convivas em virtude + dos reiterados exforços que tinham feito no mar para puxar para fora o + interior, succedera-lhes terem-o effectivamente conseguido, e haverem + chegado todos a terra—pelo avesso. +</p> +<hr /> +<p id="ferrao"> + Com a mais extranha commoção lemos ultimamente que fôra nomeado aio de + sua alteza o principe real sua ex.ª o sr. Martens Ferrão, abalisado + jurisconsulto e procurador geral da corôa. +</p> +<hr /> +<p> + É talvez uma bem perigosa temeridade da parte de prosaicos e obscuros + burgueses como nós somos o atrevermo-nos a meditar um momento no que + possam ser perante a educação e perante a sciencia as attribuições + especiaes de um aio junto de um principe. Todavia—debalde procurariamos + escondel-o—em presença de similhante assumpto, profunda e illimitada é + a confusão do nosso espirito. Por isso que, por mais assignaladas que se + nos representem as differenças que devem distinguir o alto e poderoso + filho de um monarcha do mero filho de um fabricante de velas de cebo, + nunca, por maiores que sejam na direcção do infinito os arrojos da nossa + phantasia curiosa, nunca podemos chegar a alcançar, nem pelas + presumpções mais vagas nem pelas mais remotas suspeitas nem pelas mais + affastadas conjecturas, qual o emprego pratico e effectivo que possa dar + um principe aos prestimos de um aio. Para satisfação de que + necessidades, de que conveniencias ou de que simples formalidades, em + que condições, em que circumstancias, em que especial momento da + preciosa e augusta vida do real infante vae sua excellencia o aio á + presença de sua alteza o principe?!... Nós o ignoramos. +</p> +<p> + Porque, quando as ordens de sua alteza procedam das necessidades do seu + espirito, das curiosidades da sua intelligencia, dos interesses da sua + instrucção, sua alteza pedirá naturalmente algum dos seus mestres ou + algum dos seus livros, e a sua alteza será então applicado um professor + de linguas, um compendio do sr. João Felix ou um numero do <i>Diario de + Noticias</i>. Quando os desejos manifestados por sua alteza dimanem das + urgencias physicas da sua naturesa, das fatalidades animaes do seu + organismo ou do seu temperamento, sua alteza pedirá o seu banho, o seu + jantar, as suas pastilhas ou o seu escarrador; e então os camaristas de + sua alteza, as suas aias e os seus escudeiros cumprirão os desejos de + sua alteza. +</p> +<p> + E não vemos, nem na ordem physica, nem na ordem moral, nem na ordem + inlellectual das relações de sua alteza com o mundo externo, a + necessidade, a conveniencia ou a plausibilidade da intervenção do aio. +</p> +<p> + A não ser que a concorrencia d'esta legendaria entidade methaphysica se + deva considerar nos reaes paços como um acepipe <i>hors d'oeuvre</i> ou como + um objecto supplementar de recreio, porque então comprehendemos de certo + modo que ao serviço particular de sua alteza um camareiro exclame: +</p> +<p> + «Está o <i>lunch</i> na mesa: ha <i>galantine</i>, rabanetes e o sr. Martens + Ferrão com salsa picada e manteiga fresca.» ou então: «Eis os brinquedos + de sua alteza: aqui está a bola de guttapercha e a caixa com o sr. + Martens Ferrão de engonsos.» +</p> +<hr /> +<p> + Se porém—e perdoe-se-nos esta hypothesese, sob a senhoreal e demievica + palavra «aio», devemos entender a idéa perfeitamente logica, sensata, + popular, de um preceptor pratico, de um mestre experimental, de um + amigo, de um companheiro, n'esse caso notaremos com o mais profundo + respeito a Sua Magestade a Rainha, dedicada mãe e primeira educadora do + joven principe, que foi singularmente illudida a sua perspicacia + elegendo o sr. Martens Ferrão como conselheiro official e privado de seu + filho, como guia experimentado da candida existencia inexperiente do + innocente alumno. E isto por uma razão que de nenhuma maneira desabona + os altos merecimentos de sua excellencia o actual senhor procurador + geral da corôa, antes pelo contrario os confirma e corrobora. Esta razão + é que: o sr. Martens Ferrão, pela sua natureza, pela sua organisação, + pelo seu temperamento, pelo seu caracter, pela sua biologia, é tão + inexperiente, tão candido, tão ingenuo, tão innocente e tão puro como o + proprio alumno que elle é chamado a aconselhar e a dirigir na difficil e + complicada navegação da vida. +</p> +<p> + Passando em tenros annos do regaço d'aquella que lhe deu o ser para os + braços da austera jurisprudencia, que tinha de amamental-o para a + sciencia e para a gloria, o sr. Martens Ferrão tem até hoje passado a + sua vida <i>en nourrice</i> em casa do Direito Publico. +</p> +<p> + Os seus dias teem decorrido transcendentemente fora das condições + historicas do tempo e do espaço. A sua existencia tem sido + exclusivamente mystica e symbolica. Quando tem os seus impetos mais + ferozes de extravagancia, de anarchia, de deboche, elle sae a passear + pelas viçosas campinas da philosophia do direito e faz patuscadas + orgiacas e escandalosas com as origens celticas do direito e com as + liberdades municipaes do imperio romano. Depois o remorso apodera-se + d'elle. No dia seguinte acorda pallido, abatido, com a lingua grossa: o + espectro pavoroso e formidavel do sr. Batbie appareceu-lhe em sonhos, e + elle ouviu vozes vingadoras que lhe bradavam das profundidades da noite + e do arrependimento: «João Baptista, para onde deixaste o direito de + punir? que fizeste do direito administrativo, João? que é do direito + internacional, Baptista?!» Taes são os seus dias de mais desdem, de mais + anormalidade, de mais sexo, de mais jogo e de mais champagne! tal é o + seu despertar contricto para a legalidade, para a descentralisação + districtal e para as reformas de administração! Tal, resumidamente, é + elle! E quando dizemos <i>elle</i>, commettemos uma incerteza de + concordancia, porque tão pura, tão transcendental, tão scientifica é a + personalidade do sr. Martens Ferrão, que nada obsta a que a historia + referindo-se a sua excellencia, em vez de dizer <i>elle</i>, diga—<i>ella</i>. + Pela nossa parte, aguardando ácerca da resolução d'esse ponto as + ulteriores disposições definitivas da posteridade, diremos por emquanto + simplesmente <i>el</i>, sem a desinencia de genero, sob a respeitosa formula + neutra. +</p> +<p> + Como diziamos, pois, tal é—el. +</p> +<hr /> +<p> + Analysando, timidamente como o temos feito, a nomeação do sr. Martens + Ferrão para aio do principe real—note-se bem isto—não é a sorte de sua + alteza o que nos inspira receios sob a guarda de um tal guia ... Ah! não! + É pelo contrario o destino de sua excellencia o que nos inquieta sob a + influencia de um tal companheiro. Por <i>elle</i> podemos estar perfeitamente + socegados. Mas <i>el</i>? o que será d'<i>el, el</i> tão puro ou pura, tão + candido ou candida, sob os impulsos da nova existencia que + repentinamente vae no seu temeroso vertice arrebatal-o ou arrebatal-a?! +</p> +<p> + Na vida da côrte, fina, scintillante, irritavel, cheia de factos, de + commoções, de rasgos de espirito e de valor, de emboscadas, de + surpresas, de malicias, de tentações, quantos perigos, quantos laços, + quantas ratoeiras para a innocencia virginal, para a candida pureza + inexperiente e inerme d'<i>el!</i> ... +</p> +<p> + Os principes por effeito da sua vida reclusa, claustral, vigiada, + monotona, amam naturalmente a escapada, o mysterio, a aventura, a + innocente anormalidade. Apraz-lhes a sortida arriscada, a partida + carnavalesca, o ruido dos festins secretos, a mascara inescrutavel, a + longa capa dramatica e a espada ligeira e subtil dos paladinos;—o que + se lhes deve relevar, porque é esse o unico despique dos principes para + a secca official dos intrigantes, dos bajuladores, dos ambiciosos, dos + sensaborões e dos hypocritas que ordinariamente os rodeiam. Estes porém + não são ainda para <i>el</i> os unicos perigos. Não é licito esconder que ha + outros mais e muito mais temerosos. Pensemos nas influencias + tempestuosas d'esse elemento, terrivel para a mocidade, que se chama—a + mulher. Sentimos magoar com este promenor a pudicicia do sr. procurador + geral da corôa, mas esta é a verdade que não devemos occultar aos olhos + de sua excellencia. Diz Michelet, o casto, o austero Michelet, que em + todo o tempo a mulher attrahiu o homem, assim como a vinha da Italia + chamou os gaulezes, e a laranja da Sicilia chamou os normandos. Ellas + chamam-nos, ó srs. procuradores geraes da corôa, ellas chamam-nos! + Lembremo-nos da bella Helena, sr. Martens Ferrão, lembre-mo-nos de + Semiramis, de Cleopatra, da casta Penelope, das Sabinas! +</p> +<p> + Os principes não estão mais isemptos que os outros homens d'esta lei + geral da humanidade, e os que vivem com elles—ponderemol-o bem—ficam + sujeitos ás mesmas influencias que envolvem os reis. +</p> +<p> + Guilherme VII, cuja fé religiosa era tão ardente que elle foi á Terra + Santa com cem mil homens, o proprio Guilherme VII levou tambem na viagem + do Santo Sepulchro a galante legião das suas amantes, e diz d'elle uma + velha chronica que, bom trovador e bom cavalleiro d'armas, por muito + tempo correra o mundo <i>para enganar as damas</i>. Tal é a raça de que elles + sáem, ás vezes, quando não sáem peores que o mystico e piedoso + Guilherme! Que a actual procuradoria geral da corôa emquanto é tempo o + medite! +</p> +<p> + De Francisco I, um dos mais sabios e dos mais uteis reis que tem tido o + mundo, diz-se que ás bellas milanezas se deve a mais importante parte na + perseverança com que elle combateu pela conquista da Italia. +</p> +<p> + Sem fallarmos na cohorte das peccadoras, tão gentis como funestas, dos + <i>boudoirs</i> de Luiz XIV e da Regencia, recordemos ainda as dissolutas e + ferozes mulheres da côrte de Carlos IX, Catharina de Medicis, Maria + Touchet, e as grosseiras amantes torpes de Luiz XI, a Gigogne e a + Passefilou ... Oh! pudor! oh decoro! oh reforma administrativa! +</p> +<p> + Suppondes que a educação, os exemplos salutares e os conselhos sabios + possam preservar os principes dos perigos das suas ligações + clandestinas? Mas quando assim pudesse ser, quantos outros riscos na + propria convivencia legal das mulheres legitimas! +</p> +<p id="laczinska"> + Um dia Maria Laczinska, legitima mulher de Luiz XV, recusou um beijo ao + rei com o fundamento de que este cheirava a vinho. Luiz, segundo a + expressão pittoresca de um chronista das galanterias escandalosas do + seculo passado, começava então <i>a tomar o gosto ao champagne</i>. O rei + resolveu n'esse dia nefasto separar-se para sempre da rainha, e são + sabidos os desgostos e as desgraças que o rompimento d'essas relações + custou á felicidade da França e á moral da Europa. Que remorso para o + aio de Luiz XV! Foi d'elle a culpa d'esse desastre. Se o aio do joven + rei, em vez de começar <i>a tomar o gosto ao champagne</i> juntamente com o + seu alumno, fosse, como pelo contrario devia ser, um experimentado e + antigo <i>soupeur</i>, conhecedor esperto de todas as ciladas armadas ao + homem pela bebida e pelo amor, elle teria evitado o divorcio do rei. +</p> +<p> + Tel-o-hia evitado, porque teria ensinado ao seu alumno, com a + auctoridade da experiencia, que a intemperança nas ceias e o abuso no + champagne produzem as hepatites, as predisposições para a apoplexia e + para a gotta e a manifestação das areias no rim. Se o principe não + obedecesse a estes conselhos e persistisse em ceiar, n'esse caso o seu + aio lhe faria comprehender que depois de ter bebido champagne nenhum + homem vae conversar com senhoras sem ter concluido a sua digestão e sem + haver previamente lavado a bocca com um elixir dentifrico. Um pequeno + passeio ao ar livre, uma gota de laudano ou uma pastilha, qualquer + d'estas tres coisas ministrada opportunamente por um aio intelligente e + dedicado, teria obstado ao rompimento das relações de Luiz XV com sua + mulher e a todas as consequencias que d'ahi se seguiram. +</p> +<p id="constancia"> + Algumas vezes succede ainda que, além de todos estes desgostos, d'estas + decepções e d'estes remorsos, os aios, os validos, os intimos dos + principes levam ainda por cima pancada das princezas. N'este ponto as + chronicas são prodigas de eloquentes e salutares avisos. Constancia de + Arles, por exemplo, mulher de Roberto Pio, tinha taes accessos furiosos + de mau genio que um dia vasou um olho do seu proprio confessor + batendo-lhe com uma bengala que tinha no castão um bico de passaro. Esta + mesma bengala nem sempre se conteve perante a pessoa inviolavel e + sagrada da real magestade, e por muitas vezes se ergueu sobre as cabeças + dos amigos mais particulares do rei para nem sempre deixar inteiros + esses craneos dedicados e fieis. Foi a mesma sobredita princeza a que de + uma vez mandou matar por occasião de um passeio, aos proprios olhos do + soberano, o ministro De Beauvais, que lhe desagradava, e que, de outra + vez impoz para o outro mundo um cortezão antipathico, estafando-o com + uma corrida que o obrigou a dar n'uma caçada. +</p> +<hr /> +<p> + Ora se a corôa tem por um lado a obrigação de escudar a infancia e a + innocencia dos principes, não deve por outro lado sacrificar a + inexperiencia inerme das instituições pondo os srs. procuradores geraes + como barreira entre as tentações e as culpas, lançando emfim a alta + magistratura ao pego tenebroso, ao Mexilhoeiro insondavel em que ha o + espumar dos vinhos capitosos, o sussurrar das sedas, o arfar dos leques, + os sorrisos tentadores e as bengalas de castão de bico. +</p> +<hr /> +<p> + Algumas das pessoas que tiveram a honra de serem admittidas a jantar com + as senhoras hispanholas que ultimamente se acharam em uso de banhos de + mar, e de emigração, em Lisboa pedem-nos a nossa intervenção para + dirigirem áquellas senhoras, aliás tão distinctas e tão interessantes, + uma pequena observação que os seus amigos mais dedicados se não atrevem + a fazer-lhes directamente. +</p> +<p> + Suas excellencias teem á mesa o terrivel habito de comerem o peixe com a + faca, o que os admiradores mais enthusiastas do fino sal de espirito de + suas excellencias e do seu poderoso encanto de maneiras, não podem + abster-se de considerar como uma concorrencia temeraria feita por suas + excellencias aos acrobatas dos jogos malabares, unicos entes que + insistem em accumular os seus meritos pessoaes com o talento + supplementar de metterem as facas pela bocca. +</p> +<p> + ... Sendo certo ainda assim que os malabares que temos visto + entregarem-se a este exercicio, servem-se o seu rodovalho á parte, e + comem as facas—sem peixe! +</p> +<p> + Submettemos estas simples reflexões a suas excellencias, as quaes em + seu delicado criterio decidirão se, attentos os graves cuidados que nos + inspiram, devem ou não continuar a manter—na lista dos seus acepipes + predilectos—os faqueiros. +</p> +<hr id="chambord" /> +<p> + Durante este mez, tão inquieto, tão palpitante de commoções, em toda a + Europa, os principes com mão nervosa e febril cultivaram a epistola. +</p> +<p> + O Santo Padre escreveu ao imperador da Alemanha, o imperador da Alemanha + escreveu ao Santo Padre, o conde de Chambord escreveu ao deputado + Rodez-Benavent, o sr.D. Miguel de Bragança escreveu ao sr. conde da + Redinha, e a historia em geral e os redactores da <i>Nação</i> espeialmente, + escutaram com ardor o fremito d'essas pennas riscando a face do universo + com letras um pouco menos correctas que as de Cicero, de Plinio o moço e + de madame de Sevigné. +</p> +<hr /> +<p> + O Santo Padre pede ao imperador Guilherme que obste a que o governo da + Alemanha persista na perseguição do clero catholico. O imperador + Guilherme roga a Sua Santidade que impeça o clero catholico de proseguir + na rebelião contra o governo da Alemanha. +</p> +<p> + D'este modo o Papa deseja que se retire da scena o martyrio, a grande e + bella apotheose da egreja triumphante, e lembra ao verdugo que sirva aos + martyres o antigo fel das legendas gloriosas com o moderno assucar dos + confortos policiaes. +</p> +<p> + O imperador opina que amargo de mais é o proprio calix que o obrigam a + tragar, e tirando da cabeça o seu ponderoso capacete bellico de ponta de + pára-raios, e humilhando-se dentro das suas botas de couraceiro, + elle—abatido, beato, lacrimoso—pede egualmente para as suas + tribulações de christão as correspondentes e proporcionaes doçuras. +</p> +<p> + E taes são os dois maximos guardas da fé, os dois summos representantes + na Europa moderna dos dois grandes ramos em que se acha dividida a + christandade! +</p> +<p> + Oh! Voltaire compungir-se-hia, e, franzindo n'um sorriso bom os feixes + malignos das suas sarcasticas rugas, elle, o caustico philosopho, o + livre espirito, tirando benevolo dos bolsos da sua houppelande de + veludo e martas a caixa das suas pastilhas, offereceria ás potestades + chorosas os bombons sacrilegos dos salões de Mesdames du Deffant e de de + Lambert. +</p> +<hr /> +<p> + A carta do conde de Chambord é o velho golpe astuto de Jarnac jogado ao + constitucionalismo monarchico. +</p> +<p> + O principe a quem a França offerecera a corôa burgueza de Luiz Filippe, + pergunta-lhe o que exige d'elle a França, que papel lhe destina, para + que missão o invoca. +</p> +<p> + Vós, que estaes na liberdade, na democracia, na republica, cedeis ao + invencivel appetite de acclamar um rei. Comprehendestes que é superior + aos vossos meios repressivos e reorganisadores a perturbação corrompida + da sociedade em que viveis. Duvidaes da vontade, da intelligencia, da + força do vosso accordo collectivo. Quereis uma iniciativa individual, + culminante, prestigiosa, predestinada para o mando, para o triumpho, + para a gloria; quereis o monarcha eleito como Saul «para livrar o seu + povo das mãos dos seus inimigos», segundo a formula primitiva do + propheta Samuel. +</p> +<p> + N'esse caso armae a vossa cathedral de Reims, convidae os vossos + principes do seculo e da egreja, trazei a corôa real, a espada, as + esporas, a dalmatica azul, as botinas de seda estrellada de lizes de + oiro, entregae-nos o sceptro de Carlos Magno, e dae-nos as sete uncções + de Pepino o Breve. Depois do que, nós haveremos por bem deliberar por + quaes secretos caminhos nos apraz mandar-vos, segundo as vossas + gerarchias, para a victoria, para a bemaventurança ou para a força. + Emquanto vós, tranquillos, repousados, deixareis definitivamente de + occupar-vos da coisa publica, e, sem ambições, sem principios, sem + idéas, tereis a felicidade absoluta da besta no seu aprisco; <i>hoc erit + jus regis qui vobis imperaturus est</i>. +</p> +<p> + Se, em vez d'isto porém, o que desejaes ter é, não uma força omnipotente + que vos governe, mas sim um instrumento politico que manejeis; se para + me outorgardes a corôa, precisaes de me tirar a iniciativa, a + personalidade, a dignidade de homem; se para que me julgueis inoffensivo + é preciso que eu vos mostre ser pôdre; se as garantias que me pedis para + que vos não domine são uma fraqueza, uma corrupção, uma inepcia que vos + assegurem a facilidade de me dominardes a mim, então não: não vos + convenho eu, o derradeiro dos Bourbons fundadores da monarchia absoluta + nascida dos terrores da Liga e da Saint-Barthelemy, descendente e + herdeiro de Henrique IV, o que teve a dupla coragem da força e da + miseria, o que na tomada de Cahors se bateu nas ruas durante cinco dias + consecutivos, ôlho a ôlho, dente a dente, braço a braço, o que de Dieppe + escrevia alegremente a Sully que tinha todas as camisas despedaçadas e + um gibão roto nos cotovellos! +</p> +<p> + Camille Desmoulins conta que em 1790 o poder monarchico era representado + em Londres por meio de um bailado expressivo como uma parabola. N'este + baile a primeira figura era um rei que terminava a execução de um + <i>entrechat</i> cheio de garbo e de pompa alongando um pontapé ao fundo das + costas do seu primeiro ministro; este transmittia o pontapé real ao + segundo ministro, o qual o traspassava ao terceiro, seguindo-se a mais + viva e espirituosa corrente de pontapés que se tem visto n'uma côrte, + até que o personagem que apanhava em cheio no seu volumoso e amplo + hemispherio posterior o ultimo pontapé era o paiz—que ficava com elle. +</p> +<p> + Nas monarchias constitucionaes imaginou-se reconstituir, por meio da + carta, essa graciosa dança, alterando porém a collocação do soberano ou + a ordem dos pontapés, de maneira que ou o principe está em baixo e os + pontapés vem de cima, ou o tyranno está em cima e os pontapés vão de + baixo. +</p> +<p> + Os povos monarchicos julgam-se felizes tendo cada pessoa ao lado de si + alguem a quem transmittir o pontapé em giro atravez das instituições e + da politica. A carta do conde de Chambord não é em resumo senão o + testemunho de uma divergencia com a assembléa nacional sobre este ponto + importante do bailado em ensaios: quem é que recebe o pontapé? +</p> +<p> + A um paiz corrompido e a uma assembléa senil não occorre esta + consideração tão simples: que quando se trata de um stygma de servilismo + e de baixeza a questão não é poder transmittil-o, é não dever + acceital-o. Organisar pela monarchia a responsabilidade dos que se + corrompem é abdicar a faculdade de demittir a corrupção. Os reis quando + não enodoam os povos, tambem não lhes tiram as nodoas que elles tenham. + N'esses casos o que limpa um paiz não é a realesa. Quereis saber o que + é? Pois bem! É a benzina! +</p> +<hr /> +<p> + A carta do sr. D. Miguel de Bragança ao sr. conde da Redinha é ao mesmo + tempo o tocante documento da estima inviolavel de um amigo ausente, e o + authentico manifesto politico de um principe proscripto. +</p> +<p> + Sua alteza declara ao <i>seu paiz</i> que quer ser o protector e o amigo de + todos os portuguezes e que considera como sua mais elevada ambição e sua + maior gloria—restaurar o throno pontificio. N'este simples traço + encarna sua alteza a expressão politica da sua indole,—o que nos parece + de uma moderação de intuitos demasiadamente modesta. +</p> +<p> + Diriamos que sua alteza folga em confundir-se na obscura legião invalida + dos tyranos burguezes, dos cezares bonacheirões, Neros de barrete de + dormir, Caligulas dyspepticos, Eliogabalos em uso do pronto alivio e da + revalenta arabica. A politica affirmada por sua alteza accusa uma + visivel pobresa de sangue. Sua alteza é um anemico. Tal é o infortunio + da nossa raça! Que degeneração! +</p> +<p> + O pae do joven principe D. Miguel era sanguineo, esse. A sua + extraordinaria força muscular era a admiração respeitosa, a maravilha + profundamente inclinada do <i>sport</i> lusitano de 1827. Nas redondezas do + paço de Queluz, nas terras do Infantado, via-se ás vezes atravessar os + campos, a pé, caçando acompanhado do seu falcoeiro, um homem de mais de + meia estatura, de solidos hombros, faces morenas, barba rapada, mãos + enormes, beiços sensuaes, grandes olhos negros, rasgados, peninsulares; + vestia um casaco de baetão verde, calção preto, botas altas, de cava, + com tações de prateleira e esporas de prata; usava um bonet azul, do + prato largo, com vizeira. Este homem, que amava a convivencia dos + plebeus, a quem dava largas esmolas de dinheiro e de conversação, + comprazia-se em ensinar a lavrar os moços do campo: tomava na mão + esquerda a rabiça de um arado, azorragava com a direita uma parelha de + mulas, e abria no solo mais empedrado e mais endurecido, sob a poderosa + pressão do seu pulso, um rego profundo, extenso de um kilometro, e recto + como um risco passado a regoa por um tira-linhas. Suffocava um forte + cavallo de Alter puchando-lhe a ponta da cilha com os dentes. Segurava + pela bocca, que juntava e cerrava no punho, um sacco de sete alqueires + do trigo, e lançava-o ao hombro, com uma só mão, erguendo o braço por + cima da cabeça e conservando o corpo immovel, erecto e firme. Quando + vinha de Queluz a Lisboa, galopando á desfilada, com uma vara debaixo da + perna, entre os seus companheiros mais assiduos, João Sedvem, o picador, + o José Verissimo, o da policia, a força de soldados de cavallaria que o + acompanhava, ficava aos poucos pela estrada destroçada pela fadiga: elle + nunca chegou senão só. No dia em que recebeu ao pé da mata, na Quinta + Velha, onde estava caçando ao falção, por volta das duas horas da tarde, + a noticia de ter entrado a barra de Lisboa a flotilha que apresou e + levou para França todos os nossos vasos de guerra surtos no Tejo, elle + veiu de Queluz a Belem, em menos de tres quartos de hora. Esse homem que + tinha a grande popularidade que trazem comsigo as legendas da força e da + destreza physica, era sua magestade el-rei o sr. D. Miguel I. +</p> +<p> + O soberano tinha os defeitos do homem e as qualidades dos seus defeitos. + A sua politica era apopletica simplesmente porque elle era plethorico. +</p> +<p> + Esse principe, com o seu temperamento, o qual constituia, politicamente + assim como physiologicamente, toda a sua personalidade, fez á liberdade + e ás idéas modernas o mais relevante serviço: foi elle o que fabricou o + partido liberal portuguez. +</p> +<p> + Os constitucionaes foram uma invenção da policia do sr. D. Miguel. Elles + não combatiam o direito divino, nem os privilegios da nobreza e do + clero, nem o regime absoluto, nem a servidão popular; o que elles + combatiam principalmente era o José Verissimo. Affirmavam-se os direitos + do homem porque se tinha percebido que esses direitos prejudicavam os do + João Sedvem. Os revolucionarios portuguezes não vieram da sciencia, não + vieram do amor da justiça, das impaciencias da liberdade, dos contagios + da Convenção, da revolta da dignidade humana. Não. Elles vieram + simplesmente dos carceres, dos carceres em que o regime despotico + recalcou de mais a força viva da nação. Os principios eram o pretexto + sob o qual se vingavam as offensas feitas não ás idéas vigentes, mas aos + interesses estabelecidos. As denuncias partiam dos lesados. A idéa + exposta na organisação da Companhia dos vinhos preoccupava mais os + espiritos em Portugal do que o principio representado em França pela + existencia da Bastilha. Havia martyres da liberdade que nunca tinham + amado a liberdade com devoção mais intensa que a do Sedvem e que não + teriam posto duvidas irremissiveis em continuar a «dobrar a cerviz, ao + jugo da tyrannia» como se dizia no stylo do tempo; sómente o que elles + tinham recusado era emprestar algumas moedas ao José da Policia. Para a + maior parte da gente a victoria da idéa liberal foi simplesmente a morte + do Telles Jordão. Finalmente o sr. D. Miguel de Bragança, <i>primeiro</i>, + foi o principe cuja força fez na monarchia portugueza o rombo por onde a + liberdade appareceu. O sr.D. Miguel de Bragança, <i>segundo</i>, + figura-se-nos pela sua expressiva carta ao sr. conde da Redinha, uma + pessoa extremamente debilitada. Ser o protector e o amigo de todos os + portugueses é enfraquecer-se diffundindo-se. Os antigos fortes + concentravam-se. +</p> +<p> + Pobres de nós! Como somos diversos de nossos paes! Os plethoricos, + sangrados, legaram á geração que lhes succedeu a impotente anemia! +</p> +<hr /> +<p> + Acabamos de lêr um livro que foi publicado era Lisboa ha cerca de tres + mezes e a respeito do qual ainda não ouvimos á critica uma palavra de + menção. Foi abafado pelo silencio. Se lhe não dessem esse destino teria + sido um livro escandaloso porque foi inteiramente concebido fóra da + rotina, fóra da convenção, fóra do compadrio, por um espirito + justo, esclarecido, honrado, fatalmente inclinado ao bem. + Intitula-se—<i>Portugal e o socialismo</i>, e é escripto pelo sr. Oliveira + Martins. +</p> +<p> + A litteratura portugueza actual apresenta este notavel caracter:—o + bysantinismo. Ella não é um documento historico, nem um documento moral + do tempo em que vivemos. Não tem importancia na direcção dos espiritos, + não tem influencia na formação dos caracteres, não tem validade no + estabelecimento dos principios. Não dá nenhuma theoria á razão, não dá + nenhuma lei á consciencia, não dá nenhuma norma á dignidade. +</p> +<p> + A imitação, a convenção, o servilismo, o estreito espirito de seita, de + partido, de escola, a ignorancia, a indolencia, a bajulação, a + orthodoxia official puzeram a pouco e pouco as lettras portuguezas + inteiramente fóra do seu objecto—a simples e pura verdade humana. +</p> +<p> + O que actualmente se escreve não é absolutamente nada o que actualmente + se pensa. Todas as grandes questões capitaes que preoccupam a sociedade, + a litteratura ou as evita ou as falsea. Ou as evita porque as não sabe + tratar, ou as falsea porque as trata com um espirito particular de + interesse, hostil á sciencia e rebelde á arte. +</p> +<p> + Entre tantos escriptores portuguezes que quotidianamente enegrecem em + Portugal o innocente papel sobre o qual se orça a medida das nossas + faculdades, onde está o homem cuja obra represente o precurso das idéas + predominantes d'este seculo atravez d'esta sociedade? Onde está o + artista, onde está o philosopho, onde está o poeta que tenha atacado de + frente a solução desinteressada, independente, firme, clara, nitida, dos + multiplos problemas que agitam o espirito, a consciencia, o coração do + homem moderno no meio do sentimento, do temperamento, da religião e da + politica da sociedade moderna? +</p> +<p> + Será tal escriptor o sr. Alexandre Herculano, philosopho collaborador da + sr.ª D. Guiomar Torresão no <i>Almanack das Senhoras</i>? +</p> +<p> + Será o poeta sr. Nunes, deputado conservador, o mais arrojado dos vates + que conhecemos dentro dos limites da carta constitucional e do systema + representativo? +</p> +<p> + Não nos parece. +</p> +<p> + O sr. Oliveira Martins faz parte de um pequeno grupo de alguns + trabalhadores obscuros, inteiramente penetrados da corrente scientifica + do tempo actual, que teem procurado introduzir na litteratura as idéas + correspondentes ás preoccupações, ás necessidades e aos interesses mais + altos, mais legitimos e mais vitaes da sociedade em que vivem, fixando + assim scientificamente algumas das bases do programma geral da revolução + por meio da qual se vae transformando o mundo europeu. +</p> +<p> + Esses humildes obreiros, aos quaes cabe a gloria de terem iniciado em + Portugal quasi todos os grandes principios das civilisações modernas, + não teem encontrado, como galardão dos seus estudos, da sua + independencia e da sua andácia de pensadores, senão a surda guerra das + maledicências, das calumnias e dos desdens, evantada pelo obscurantismo, + pelo fanatismo, pela ignorancia. Accusam-os de attentarem contra a + moral, contra a religião, contra a ordem, contra o patriotismo, e + expulsaram-os vilmente e infamemente do respeito publico e da + consideração social como jacobinos, como communistas, como incendiarios. +</p> +<hr /> +<p> + É do livro acima citado que extrahimos a seguinte pagina tão sensata, + tão viva, tão humana: +</p> +<p> + «Portugal não tem pauperismo. É por isso que entre nós se não levantaram + ainda, nem se levantarão já, Nelsons ou Sydney Smiths para dizerem como + em Inglaterra: «A pobreza é infame.» É por isso que a definição ingleza + da fabrica—<i>manufactura de algodão e de pobres</i>—não pode servir-nos. O + não attingirmos porém um termo tão elevado de preversão social não quer + dizer que as classes trabalhadoras de todas as industrias vivas do paiz, + extractivas e transformadoras, encontrem para cá das nossas fronteiras + um modo de vida essencialmente differente. Não, a nossa organisação + politica, semi-monarchica, semi-liberal, dá em resultado ser duplamente + absurda, immoral, pauperisadora. Porque, como liberal, permitte a livre + concorrencia do capital e do trabalho, aliena as funcções e + propriedades collectivas, e, para corrigir as consequencias de + distribuição viciosa que d'ahi resultam, mantem uma protecção + anachronica, com as alfandegas, com a divida e com o imposto, protecção + que recaindo afinal toda no consumo, vem ainda aggravar as condições do + trabalhador pela elevação no preço das coisas. Acima da preversão + economica devemos pôr a preversão moral. No pequeno mundo industrial de + Lisboa, não contaste nunca, leitor, aos sabados o numero de ebrios que + povôa as vielas escuras e nauseabundas, onde á crapula vem juntar-se a + orgia das mulheres perdidas? Onde o prostibulo está em frente da + taberna, ao lado o bilhar, e entre o bilhar, o prostibulo e a taberna, + se funde a feria? +</p> +<p> + A desordem e a immoralidade são contra a natureza. Se esses homens não + fossem pobres seriam melhores. Se não tivessem de trabalhar doze horas + para comer saberiam ler. Se tivessem pão e liberdade seriam paes de + familia. Olhae as mulheres e as creanças. Termo medio a familia tem + quatro pessoas; termo medio o salario é de 400 réis. O trabalhador + recorre ao celibato, á prostituição, ás relações illicitas, d'onde + resultam os infantecidios (tão frequentes em Portugal como na China) e a + roda dos expostos. Quando um homem foi agarrado por esta engrenagem + d'aço morreu. Ha muitos a quem uma certa energia de caracter ou uma + constituição artistica e sentimental levaram ao casamento e á familia: é + então que se encontram quatro pessoas com quatro tostões por dia. A + industria offerece uma tentação diabolica: augmentar o salario + destruindo a familia. N'esse momento a esposa e os filhos entram na + <i>fabrica</i> ...» +</p> +<hr /> +<p> + A fabrica é para as mulheres e para as creanças o sepulchro do pudor, da + honestidade e da saude. Emquanto as instituições sociaes não assegurarem + á mulher o seu legitimo logar na familia é absolutamente preciso que, + pelo menos a protejam na miseria fatal da fabrica. Porque nas fabricas + portuguezas o que succede com a mulher é que, pela sua fraqueza e pela + sua ignorancia, ella é no trabalho o escravo do homem. Ninguem entre nós + tem lançado os olhos a esses desgraçados destinos obscuros. +</p> +<hr /> +<p> + Acostura que ainda ha pouco era o grande refugio das raparigas pobres + desappareceu com a machina de cozer. A mulher não póde sustentar essa + concorrencia, porque ella não póde, por maiores que sejam os esforços + dar por suas mãos mais de 30 pontos por minuto: a machina dá 643 pontos + no mesmo espaço de tempo. Para se empregar n'outros serviços precisaria + de uma educação preparatoria pratica, para a qual são indispensaveis as + escolas profissionaes que não existem em Portugal. Em França, na + Inglaterra, na Allemanha e principalmente na Suecia, as mulheres + habilitadas em cursos especiaes teem já muitos empregos uteis na + industria e no commercio. Em 1871 havia na Suecia 4:055 mulheres + empregadas no commercio e na industria. D'estas 2:675 dirigiam os seus + proprios negocios. Quinhentas e quatro mulheres eram proprietarias de + fabricas e de officinas. Além d'isto muitas outras se achavam empregadas + nos bancos, nas caixas de soccorros, nas companhias de seguros, etc. com + emolumentos annuaes variando de 800 a 5:000 rixdalers. No serviço dos + correios, dos caminhos de ferro, dos telegraphos, a mulher alarga de dia + para dia os seus dominios. A America, a Suecia, o Wurtemberg, + offerecem-lhe sob esse ponto de vista as maiores facilidades. +</p> +<p> + Em Darmstadt muitas mulheres se acham empregadas nas repartições de + estatistica com optimos resultados para o serviço publico. Os cuidados + aos doentes são um bello emprego para o trabalho das mulheres. Na + Hollanda muitas teem sido auctorisadas a tirar diplomas de + pharmaceuticos. A profissão medica tem-lhes sido permittida em diversos + paizes. Na America, em S. Petersburgo, em Zurich, em Upsel e em varias + outras universidades ha um consideravel numero de alumnos do sexo + feminino estudando a medicina. Na Suecia estabeleceu-se pelo estado um + fundo permanente de soccorros para as mulheres que seguem a carreira + medica. +</p> +<p> + A ultima exposição de Vienna veiu provar ainda quanto as mulheres se + teem ultimamente occupado nas artes industriaes e nas bellas artes. Na + exposição sueca vê-se no pavilhão dos productos da industria o perfeito + exito com que as mulheres teem cultivado n'aquelle paiz a pintura, a + gravura em madeira, a xylographia, a lythographia, a gravura em cobre, a + photographia, a cartographia, a pintura em porcelana, a modelagem. Na + Suecia concedeu-se-lhes accesso, como aos demais empregados, nos + serviços dos telegraphos, dos correios e dos caminhos de ferro. + Admittem-as como gravadoras na casa da moeda; muitas são empregadas nas + academias, nas imprensas e n'outros estabelecimentos como xylographas, + impressoras, compositoras, directoras de officina, etc. +</p> +<p> + Na Suecia ha hoje immensas escolas sustentadas pelo governo, pelas + communas e por associações particulares onde ensinam ás raparigas pobres + todos os trabalhos femininos do «ménage». Ha escolas especiaes + destinadas a formar creadas. Em Stockolmo ha escolas de remendagem onde + as raparigas aprendem a concertar os seus fatos e a sua roupa branca com + um acceio e uma arte inexcedivel. As meninas burguezas teem á sua + disposição a escola industrial de Stockolmo, as escolas normaes reaes, o + instituto central de gymnastica onde se formam mestras de gymnastica, a + academia real de musica, a academia das bellas artes os estabelecimentos + de instrucção das parteiras e a mesma universidade, onde se ministram + subsidios a tres raparigas que estudam por conta do estado. Depois da + Suecia devem-se citar os Paizes Baixos e a Austria. Em Vienna a + municipalidade fundou em alguns bairros escolas industriaes nocturnas. + Sociedades de senhoras estabeleceram escolas profissionaes de + differentes especies. Ha uma sociedade especial encarregada de obter ás + mulheres meios de subsistência (Frauenerwerb-Verein). Além das escolas + preparatorias para a instrucção geral elementar e para a instrucção + superior, estabeleceu a referida sociedade uma escola de costura, uma + escola superior de trabalho com um curso de estudos que dura tres annos, + uma escola de desenho industrial, uma escola de commercio, uma escola de + linguas, um curso especial para as empregadas na telegraphia. Na + Hollanda é na escola industrial de Amsterdam que se instrue a mocidade + feminina não só nos trabalhos manuaes, taes como o bordado, costura á + mão e á machina trabalhos de cartonagem e obras de palha, escripturação + commercial, legislação commercial e pharmacia. Na Alemanha do norte e na + Alemanha central ha egualmente muitas escolas industriaes fundadas por + sociedades especiaes e por outras corporações para a educação das + raparigas e das mulheres. Um fabricante de Munich fundou uma excellente + escola de ensino commercial para as raparigas da classe burgueza e da + classe operaria. As mulheres que sáem d'esta escola encontram + immediatamente emprego nos bancos, ou nas casas de commercio. +</p> +<p> + A Russia resolveu ultimamente facultar a matricula na escola de medicina + de S. Petrsburgo ás mulheres habilitadas com determinados titulos de + capacidade. Logo depois da promulgação d'esta lei, quatrocentas mulheres + se apresentaram como candidatos á frequencia da alludida faculdade. +</p> +<hr /> +<p> + Sabem dizer-nos o que é que, sob este ponto de vista, se tem feito em + Portugal? Esperamos que suas excellencias os senhores conservadores se + dignarão responder-nos. +</p> +<hr /> +<p> + O sr. marquez de Vallada mandou correr este mez os reposteiros + brasonados dos seus salões para inaugurar as soirées elegantes do + presente inverno com um jantar <i>prié</i>. +</p> +<p> + Assistiram todos os membros do gabinete e varios outros personagens + illustres na politica e na burocracia. Sentia-se apenas uma falta n'essa + reunião selecta: a ausência absoluta de senhoras no palacio do nobre + fidalgo. Bem sabemos que um jantar não é precisamente como uma valsa + para a qual a gente não ha de ir convidar a lagosta, nem dançar com o + perú. Mas mesmo para o que é comer não basta apenas a comida. O sr. + marquez sabe a este respeito a opinião de Savarin: o bruto pasta, o + homem come, só o homem de espirito é que sabe comer. Ora uma duzia de + barbatolas postos a mascar trufas uns diante dos outros em volta de uma + mesa não nos parece que deem o espectaculo da espiritualidade mais fina. + É preciso que concorram tambem as senhoras, com a <i>toilette</i>, com a fina + pelle, com os perfumes, com as rendas, com as perolas, com as frescas + risadas cristalinas, com os agudos ditos penetrantes, com a elevação + finalmente, com a idealidade, com o espirito. +</p> +<hr /> +<p> + Atravessar a gente por entre duas filas de criados gordos e graves como + embaixadores, indo por baixo dos lustres, pizando um tapete espesso, + dando o braço a alguem, ou seguindo mesmo, atraz, sosinho, na turba dos + obscuros, com a claque debaixo do braço; entrar na sala de jantar, + tepida, fulgurante de luz; contemplar a mesa de um aspecto tropical pela + natureza das fructas e pela fórma das flôres trasvasadas do plateau, + procurarmos o nosso nome nos bilhetes que estão em cima dos guardanapos; + sentarmo-nos ao dôce murmurio dos vestidos que se enfôfam ao nosso lado + e dos talheres que telintam; desdobrar nos joelhos um amplo guardanapo, + frio, lustroso e pesado, de linho de Irlanda; aconchegarmo-nos, unirmos + os cotovellos ao corpo e inclinarmo-nos sobre o prato; metter na bocca a + primeira colher do sopa, sentir estalar e derreter-se no dente o + primeiro rabiolo, escorrendo no paladar o acre succo dos espinafres, em + quanto a nossa visinha da esquerda mette a sua luva enrolada no copo do + Madeira, e a nossa visinha da direita morde atrevidamente no pão + deixando-nos vêr de lado todos os seus pequeninos dentes mais lindos que + as suas perolas ... isto é realmente acharmo-nos n'um dos momentos mais + augustos que a civilisação e a elegencia concedem ao homem em paga dos + sacrificios que elle lhes tem feito nos esmeros da educação e na alta + cultura do espirito. É então que as mulheres, sómente as mulheres—ellas + que vivem na graça e no mimo como os solitarios vivem no egoismo e no + tedio—desenvolvem o talento especial de fazer romper os alados + assumptos ligeiros e subtis, em torno dos quaes adejam as conversações, + as phantasias, as replicas, os repentes, como doiradas abelhas famintas + sobre um ramo de rosas. +</p> +<p> + Se n'esses momentos os homens se acham sós, ou caem na bestialidade + indolente e calada dos deuses de Epicuro, ou discutem, questionam, + fallam alto, gritam, põem os cotovellos na mesa, fazem gestos, fazem + bolas de pão, dão estalos com a lingua, limpam as unhas, e quebram + palitos nos dedos—o que ha mais implicativo dos nervos e mais offensivo + do gosto. +</p> +<hr /> +<p> + Consta-nos que pelas razões referidas o jantar do sr. marquez tocou um + pouco no tetrico. O silencio era a principio tão solemne que apenas se + ouvia confusamente o ruido da maioria parlamentar engolindo pelo + esophago do ministerio e a ordem e a guarda municipal mastigando pela + bocca do sr. barão do Zezere. Tinha-se ar de se estar n'uma sessão + deliberativa e não n'uma festa; parece até que o sr. marquez de Avila, o + illustre parlamentar, dirigindo-se a um criado, se mostrára gravemente + preoccupado ao ponto de que, sendo a sua intenção pedir-lhe Sauterne, + lhe pedira a palavra. +</p> +<p> + Por fim parece que o dono da casa usara da fala para expôr o objecto + d'aquella reunião, o qual, segundo referem os jornaes, foi: +</p> +<p> + <i>Affirmar a adhesão do sr. marques de Vallada á monarchia</i>. +</p> +<hr /> +<p> + Achamos extremamente louvavel e digno de ser imitado por todos os + fidalgos portuguezes o exemplo dado pelo sr. marquez de se sacrificarem + pelo throno ao ponto de não hesitarem um momento, para o salvar, em + irem ... para a mesa! +</p> +<p> + Os vossos avós, quando queriam dedicar-se ao esplendor da corôa iam + bater-se em Arzilla, em Ormuz, em Ceuta, em Tanger, descobriam terras, + venciam batalhas, conquistavam reinos. +</p> +<p> + Quereis provar-nos que ainda guardaes nos vossos archivos as antigas + cartas do roteiro dos mares? Que ainda tendes nas vossas panoplias as + duras armaduras e as famosas lanças dos vossos maiores? Muito bem! Visto + que não podeis refazer o que está já feito por elles, começae pelo menos + a realisar o que elles tantas vezes omittiram: jantae! +</p> +<p> + E a corôa verá, pela maneira como vos mostrardes aptos para comer, + quanto sois capazes de amar. +</p> +<p> + Assim como o Castro forte dizia que por cada pedra da fortaleza de Diu + elle daria um filho, mostrae vós que por cada perna de perú trufado + sereis capazes de dar um avô. E o soberano, jubiloso e grato, + contemplando por cima da gloriosa terrina da historia contemporanea, os + feitos valorosos dos vossos garfos invenciveis, apreciará os vossos + titulos de immortalidade, discriminando, no ardor e na confusão das + refregas, os que se lhe dedicam até ao pato com arroz, os que o + estremecem até ao frango com hervilhas, os que o idolatram até ás + salchichas com couve lombarda! +</p> +<hr id="elementofeminino" /> +<p> + Mas por Deus, meus senhores, consenti que vol-o repitamos: Não excluaes + dos agapes patrioticos com que preparaes a entranha para a communhão + monarchica, o doce elemento feminino, o melhor encanto do triumpho, o + mais alto premio do heroismo, o mais precioso complemento da gloria! Se + a prosmicuidade dos sexos insuperavelmente vos repugna, que alguns de + vós pelo menos se sacrifiquem ás conveniencias da arte, ás prescripções + do bello, e salvem sequer as apparencias—vestindo-se de mulheres! +</p> +<p> + Animo, senhores commandantes dos corpos! animo, senhores officiaes + maiores! animo, senhores ministros de estado! É por ellas, que vos + pedimos isto, pelas que tiveram sempre o seu logar nas nossas gloriosas + tradicções dymnasticas! Lembrae-vos d'ellas, e ide lançar-vos aos pés da + Aline! Lembrae-vos d'ellas, e consenti em decotardes os vossos hombros! + Elanguescei, meus senhores, reclinae meigamente as frontes, cerrae + levemente as palpebras, agitae um pouco os vossos leques, dae suspiros, + ponde tações de setim escarlate, vinde de cuia! e, sobretudo—não o + esqueçaes—trazei <i>tournure</i> ... Que vos custa trazer <i>tournure</i>? Uma + coisa tão facil, que se traz como as patronas! +</p> +<p> + É pelo throno, pelo mesmo throno de que vos declaraes adeptos, que vos + supplicamos isto! é pelas vossas excelsas e augustas soberanas, não + representadas no vosso banquete ... Em nome de Mecia Lopes, meus + senhores! Em nome de D. Urraca! +</p> +<hr /> +<p> + A imprensa de Lisboa não tem opinião. Aquelles dos seus membros que por + excepção presentem as idéas proprias, vivas, originaes zumbindo-lhes + importunamente no cerebro, enxotam-as como vespas venenosas. É que a + missão do jornalismo portuguez não é ter idéas suas, é transmittir as + idéas dos outros. Por tal razão em Lisboa o homem que pensa não é nunca + o homem que escreve. O jornalista nunca se concentra, nunca se recolhe + com o seu problema para o meditar, para o estudar, para o resolver. + Nunca procura a verdade. Procura apenas a solução achada pelo publico, + pelo publico d'elle, pelo seu partido politico, pelos consocios do seu + club, pelos seus amigos, pelos seus protectores, pelos seus assignantes. + Portanto trabalha na rua, debaixo da arcada do Terreiro do Paço, nos + corredores ou nas tribunas de S. Bento, no Chiado, no Martinho, no + Gremio. Como trabalha? Trabalha d'este modo: <i>informando-se</i>;—é o termo + technico. Uma vez informado, o jornalista considera-se instruido. Desde + que tem a informação recebida tem o jornal feito. O que elle vos escreve + hoje—notae-o bem—é o que vós lhes dissestes hontem. O jornal não é uma + fonte de critica, de analyse, de investigação. O jornal é o barril de + transporte das idéas em circulação, das soluções previamente recebidas e + approvadas pelo consenso publico. O jornalista é o aguadeiro submisso e + fiel da opinião. Não a dirige, não a corrige, não a modifica, não a + tempera. O unico serviço que lhe faz é este: transporta-a dos centros + publicos aos domicilios particulares. O publico é a nascente, é o veio, + é o manancial; a imprensa periodica é simplesmente—o cano. +</p> +<hr /> +<p> + Essa é a lei geral da conducta da publicidade em Portugal. Toda a + transgressão d'essa lei é um eminente perigo para o que a commette. O + leitor portuguez não quer que o seu livro ou o seu periodico o obriguem + ás fadigas da discussão e da controversia com o seu proprio espirito. A + conquista desinteressada e pura da verdade não tem attractivo algum para + as suas faculdades. As curiosidades e os interesses especiaes da alma + portugueza repastam-se no sentimento: a reflexão molesta-a. Entre tantos + escriptores nacionaes nunca houve um pensador. Descartes, Spinosa, Kant + seriam inteiramente impossiveis no seio d'esta sociedade, a que falta a + respiração logo que a tirem da rotina. Não se lhes dá, aos leitores + portuguezes, de verem a verdade, mas querem a verdade atravez da + opinião. Ninguem pensa fóra das materias da ordem do dia. «Que ha de + novo?» é a nossa pergunta de todas as manhãs. Esta phrase profundamente + caracteristica quer dizer: «Dêem-me a senha e a contrasenha; digam-me em + que pensam para eu saber o que hei do pensar.» O meu jornal vem bom ou + vem mau segundo é ou não é em cada dia a expressão das minhas convicções + baseadas em ideas preconcebidas na convivencia do publico. O criterio é + substituido pelo <i>mot d'ordre</i>. +</p> +<p> + Se n'um tal meio intellectual apparece um miseravel solitario, que não + tem um partido, que não tem um centro, que não tem um <i>club</i>, que não + tem sequer um botequim, mas que, não obstante, segue os successos do seu + tempo e exprime a respeito d'elles uma opinião absolutamente individual, + isto é—livre, sobre esse homem cáem todas as suspeitas, todas as + presumpções malevolas que acompanham atravez de uma multidão apalavrada + um intruso mysterioso e sinistro. Tal é a especie de acolhimento que por + differentes vezes nos tem sido feito e que mais particularmente nos foi + manifestado depois da publicação do nosso ultimo numero a proposito de + dois artigos, um consagrado ao sr. Alexandre Herculano, outro destinado + á casa de correcção installada no convento das Monicas. +</p> +<hr /> +<p> + Lemos alguns dos artigos que nos foram consagrados, e achamo-nos + inteiramente edificados ácerca do nosso desacato ás instituições + publicas e da nossa irreverencia com as glorias nacionaes. +</p> +<p> + Sómente, meus senhores, uma coisa nos parece ter-vos esquecido, e é: + demonstrar-nos que a reverencia das instituições e o respeito das + celebridades gloriosas seja um instrumento de critica ou um meio de + analyse. Porque nós—talvez o não tenhaes comprehendido bem—nós não + somos propriamente os mestres de ceremonias da geração a que + pertencemos. Não estamos aqui a leccionar mesuras nem a praticar + experiencias sobre a variedade das curvas mais ou menos inclinadas a que + se nos presta o espinhaço. Nós somos apenas uns simples chronistas do + tempo que vamos atravessando. Somos os contribuintes especiaes do mez + para a historia geral do seculo. Ora não será pondo-nos humildemente de + cocoras no chão que nós veremos de mais alto as coisas e os homens. No + exame e na apreciação dos factos o minimo vislumbre do respeito é um + perigo da verdade. Michelet, demolindo no seu ultimo livro a legenda + napoleonica filha da reverencia da historia pelo falso heroismo de + Bonaparte, mostra-nos que a fascinação grosseira produzida pelo «heroe + de Marengo e de Austerlitz» teria cahido perante o bom senso e perante a + gargalhada, se a França não tivesse perdido, depois do Terror, o riso, a + sua grande arma contra os tyrannos. +</p> +<p> + O primeiro dever da critica diante dos grandes acontecimentos e dos + grandes personagens é simplesmente o despreso ou a zombaria ... Michelet + diz mesmo «o sacrilegio» como instrumento da verdade! e aconselha-nos + que imitemos como historiadores o exemplo de Renaud de Montauband + pegando n'um tição para barbear Carlos Magno. +</p> +<hr /> +<p> + De resto, meus senhores, para que se mantenham na decencia do culto as + tradições patrioticas, parece-nos inutil que nós nos occupemos d'isso. + Lá estaes vós, diligentes e sollitos, para espanardes as teias da aranha + aos velhos principios, para varrerdes as instituições veneraveis, e para + conservardes em bom estado os heroes e os sabios, limpando-lhes as golas + das sobrecasacas, engraxando-lhes os sapatos e pondo-lhes rapé novo no + nariz. +</p> +<hr id="mexil"/> +<p> + Chegámos tarde para fallar da grande tragedia monumentosa do + Mexilhoeiro. O paiz inteiro se pronunciou já sobre este caso, o maior da + historia contemporanea. O facto tem sido largamente tratado em artigos + de jornaes, em folhetins, em trechos de romance, em pias legendas, em + dramas, em <i>te-deuns</i> cantados em todas as cathedraes, em polkas + expressivas, em missas rezadas em todas as egrejas, em felicitações de + todos os municipios, em sentimentaes mazurkas. +</p> +<p> + Uma só coisa nos parece que falta, e é a que propomos: um monumento que + eternise tão alto successo, levando ás gerações vindouras esta lapide: +</p> +<div class="centered"> +<p>AOS MOLHADOS</p> +<p>POR UMA FRIA TARDE</p> +<p>NO PEGO DO MEXILHOEIRO</p> +<p>A GLORIA</p> +<p>RECONHECE N'ESTE MONUMENTO</p> +<p>OS IRREFRAGAVEIS DIREITOS</p> +<p>DE TÃO ILLUSTRES VICTIMAS</p> +<p>Á</p> +<p>CONSTIPAÇÃO</p> +</div> +<hr /> +<h2> + INDEX +</h2> +<div class="centered"> +<p><b>Dos volumes d'esta chronica</b></p> +<p>PUBLICADOS ATÉ HOJE</p> +</div> +<pre> + I—Maio................... 1871 + + II—Junho.................. » + + III—Julho.................. » + + IV—Agosto................. » + + V—Setembro............... » + + VI—Outubro................ » + + VII—Novembro............... » + + VIII—Dezembro............... » + + IX—Janeiro................ 1872 + + X—Fevereiro.............. » + + XI—Março.................. » + + XII—Abril.................. » + + XIII—Junho a julho.......... » + + XIV—Julho a agosto......... » + + XV—Setembro a outubro..... » + + XVI—Novembro............... » + + XVII—Dezembro............... » + +XVIII—Janeiro a fevereiro.... 1873 + + XIX—Março a abril.......... » + + XX—Outubro a novembro..... » +</pre> + +<p> +<b>Nota.</b> D'hora ávante cada um dos volumes d'esta publicação será marcado +com o correspondente numero. +</p> + +<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 14622 ***</div> +</body> +</html> diff --git a/14622-h/images/devil73.png b/14622-h/images/devil73.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..1cbe70b --- /dev/null +++ b/14622-h/images/devil73.png diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize +this eBook outside of the United States should confirm copyright +status under the laws that apply to them. diff --git a/README.md b/README.md new file mode 100644 index 0000000..f09f8ad --- /dev/null +++ b/README.md @@ -0,0 +1,2 @@ +Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for +eBook #14622 (https://www.gutenberg.org/ebooks/14622) diff --git a/old/14622-8.txt b/old/14622-8.txt new file mode 100644 index 0000000..a20bf6d --- /dev/null +++ b/old/14622-8.txt @@ -0,0 +1,2354 @@ +The Project Gutenberg EBook of As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das +Letras e dos Costumes, by Ramalho Ortigo and Ea de Queiroz + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes + Outubro a Novembro de 1873 + +Author: Ramalho Ortigo and Ea de Queiroz + +Release Date: January 6, 2005 [EBook #14622] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS *** + + + + +Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed +Proofreading Team. This file was produced from images generously +made available by the Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal. + + + + + +[Illustration: AS FARPAS. R. ORTIGO. EA DE QUEIROZ] + +RAMALHO ORTIGO--EA DE QUEIROZ + +AS FARPAS + +CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES + +3. ANNO + +Outubro a Novembro de 1873 + +VOLUME XX + + + + +Ironia, verdadeira liberdade! s tu que me livras da ambio do poder, +da escravido dos partidos, da venerao da rotina, do pedantismo das +sciencias, da admirao das grandes personagens, das mystificaes da +politica, do fanatismo dos reformadores, da superstio d'este grande +universo, e da adorao de mim mesmo. + +P.J. Proudhon. + + + + +SUMMARIO + +Regresso. Explicaes--Historia de uns ps--Modos de morrer. Os +Lovelaces do sepulchro. Os descamisados da cova--Epistola aos catholicos +do Porto. A associao catholica, seus fins, seus meios, sua +organisao, seu programma. O catholicismo. A egreja refugio da +liberdade. As propagandas catholicas em Frana e na Italia. Manzoni, +Rosmini, Balbo, Chateaubriand, Lamartine, o sr. conde de Samodes. Os +padres portuguezes. O liberal, o reaccionario, o indifferente. O +confissionario. As academias da rua da Picaria. A mulher christ. O +partido liberal portuense e a infallibilidade do papa. O protestantismo +do sr. Bismark. O seculo XVI. Theoria do scepticismo. A duvida na +politica, na sciencia, na religio. A tolerancia--Festa veneziana nas +aguas de Caparica--O aio de sua alteza. O que o aio? O perfil do sr. +Martens Ferro. A corte, a mocidade, a aventura, os taes encarnados, +as espadas dos paladinos. Semiramis, Cleopatra, Penelope e outras. A +regencia. O beijo de Maria Laczinska. A bengala de Constancia de +Arbes--As senhoras hispanholas e os faqueiros--O santo padre, o +imperador Guilherme, o martyrio e as pastilhas de Voltaire. O conde de +Chambord e o constitucionalismo. Saul, Pepino, Henrique IV. Historia +philosophica dos pontaps nas monarchias modernas--Perfil do sr. D. +Miguel de Bragana e influencia politica d'este rei, o seu typo +physionomico, o seu temperamento, a sua popularidade. De como se +fabricou o partido liberal portuguez. O Joo Sedvem, o Jos da Policia, +o Telles Jordo e a ida nova. De como o actual principe D. Miguel +anemico--O jornalismo, as idas, os aguadeiros da opinio publica--O +drama do Mexilhoeiro--A falta do elemento feminino nos banquetes +patrioticos. + +Leitor querido--Depois de uma longa absteno de tres mezes--os mezes do +vero--_As Farpas_ voltam a apparecer no teu banquete ao mesmo tempo a +que recomeam a servir-se tambem as ostras. + + similhana dos mariscos, qu no bom comerem-se nos mezes que no +teem r, estas paginas condimentosas e estimulantes, se abusasses d'ellas +no tempo quente, amigo, far-te-hian, talvez, furunculos. + + * * * * * + +Alm de que, o vero tem influencias de expansibilidade que +desconcentram a vida da esphera das suas condies normaes. a epoca +das viagens, dos banhos, das estaes do campo. Abandona cada um o +interior da sua casa, os seus habitos, as suas occupaes, a sua +hygiene, o seu trabalho. Frma-se uma existencia interina, transitoria, +supplementar. Est-se em uma casa alugada por dois mezes como hospede de +uma noite n'uma estalagem. No se reside; pernoita-se apenas, e +passam-se os dias. Com a supenso do trabalho esterilisam-se tambem as +idas, porque todo o trabalho uma fecundao da intelligencia. Assim +todo o ser humano temporariamente transplantado da parte de solo, de +atmosphera moral, em que ordinariamente exerce a sua actividade, +emurchece. O portuguez, que sempre l pouco, no vero ento no l nada. +Achei-me por muitas vezes durante a estao finda a bordo dos pequenos +vapores que fazem o transporte dos banhistas entre Lisboa e as praias. +Os setenta minutos d'estas breves viagens eram o tempo consagrado por +cada um para, por meio da leitura, pr as suas idas em relao com os +interesses intellectuaes e moraes do resto do mundo. Fra do convez dos +vapores de Belem ninguem nas praias l, ninguem tem comsigo um livro. +Isto no uma simples hypothese, uma observao positiva. Em +Pedroios, por exemplo, a vida--toda de porta da rua-- transparente: +v-se o que cada um faz, quasi que tambem se v todo quanto cada um +sente e quanto cada um pensa. Pois bem, nas viagens dos vapores de +Belem, unico lapso de tempo destinado pelos banhistas ao estudo, +observmos durante o periodo de tres mezes consecutivos que ninguem lia +seno almanachs, colleces de cantigas ou de charadas, e os periodicos +de noticias. Que elementos para, a educao intellectual de alguns +milhares de cabeas: darem mergulhos no Tejo, aprenderem nos livros que +nasceu o dente do sizo ao sr. Alexandre Herculano, e saberem pelos +jornaes que o sr. commendador Santos foi Outra Banda em partida da +recreio, com os seus amigos, comer um safio! + + * * * * * + +No foram essas porm as rases porque _As Farpas_ se callaram durante a +estao calmosa. Os nossos motivos so inteiramente pessoaes. Ns +adoecemos ... Perda, leitor benevolo, estas perigosas tendencias de um +convalescente para a autobiographia. No, no foi um dente novo que nos +esteve crescendo. Ns no temos, como o immortal historiador a que acima +nos referimos, a honra de abrir estas linhas offerecendo patria e +sr. D. Guiomar Torrezo mais um novo instrumento gloriosamente +recemnascido para a trincadeira nacional. + +O nosso mal, foi simplesmente uma affeco na larynge. Apanhmos isto +no Chiado. Tivemos na mucose da garganta as mesmas granulaes que +padecem os beduinos na mucose das palpebras por effeito do p nas +peregrinaes do deserto. O Chiado pagou-nos o pessimo gosto burguez, +especieiro, indigno, abominavel, de o frequentar, dando-nos esta doena +climaterica e local. Os hospitaes de S. Jos e do Desterro do as +desyntherias e as gangrenas; os tanques do Passeio do Rocio do as +febres paludosas e intermittentes; o Limoeiro e a Casa de deteno das +Monicas do as viciaes do sangue e as escrophulas; o Chiado e o +deserto da Arabia do as affeces granulosas da larynge e dos olhos. +Cada um d o que tem. + +A poeira do Chiado uma especialidade curiosa, interessante, to +romanesca como a sombra da mancenilha. Esta poeira fina, miuda, subtil +como a _veloutine_ de Lubin. Ligeiramente tocada pela aza morna do vento +leste, ensinua-se, entranha-se, penetra docemente, consoladoramente, +profundamente--como a calumnia. Depois, uma vez inoculada, produz as +ophtalmias e as esquinencias--as duas maiores enfermidades de Lisboa. +No simplesmente formada pelas trituraes da terra esta poeira. No, +porque o solo em Lisboa no de terra. Aqui a terra tem sido de tal +maneira misturada, falsificada, fingida, que, hoje, aquillo que +primitivamente era a terra j no tem terra nenhuma. O solo de Lisboa +formado de sobreposies de estercos, de amalgamas de lixo, de restos +pulverisados de fructas podres, de ces mortos e de papeis sujos. + +De todas estas misturas requeimadas pelo vero, carbonisadas pelo sol +canicular, moidas sob as rodas dos trens e sob os ps pressurosos do sr. +conselheiro Arrobas, resulta o p envenenado da capital. Os papeis +velhos de Lisboa, dejeces burocraticas ou litterarias dos bancos, dos +cartorios, dos tribunaes, dos escriptorios dos negociantes, dos +jornalistas, dos advogados, dos tabellies e do sr. Melicio, so de tal +maneira abundantes que todos os esgotos da cidade no bastam para os +engulir. A brisa espalha esses papeis dilacerados pelas povoaes +suburbanas. A praia de Belem uberrima de papeis sujos, e Pedrouos, a +manso burgueza das villegiaturas officiaes, parece-se no aspecto +especial das suas immundicies com um corredor da secretaria das Obras +Publicas destinado a projecto de nitreira modelo pelos disvellos +agronomicos do sr. Rodrigo de Moraes Soares. + +De modo que a antiga expresso _terra da patria_, com referencia a +Lisboa e seus suburbios, figura de rhetorica em demasia arrojada. A +patria do lisboeta no tem terra, tem os agglomerados residuos das +podrides e dos papeis velhos. O nauta vigilante, que do alto mar +descobre no azul o ponto escuro e indeciso d'estas praias, proceder com +louvavel exactido e amor da verdade se em vez do grito poetico de +_terra! terra!_ comear a exclamar vista de Lisboa: Supedaneo de +Melicio!--ou--Nitreira de Soares! + +Victima ns mesmo em todo o nosso apparelho respiratorio d'essas +influencias deleterias da geologia e da civilisao lisbonense, achamos +prudente substituir--como fizemos--a convivencia do publico pela do +gargarejo. + + * * * * * + +No theatro de D. Maria, o drama--_Idiota_. + +Suppoz-se pelos annuncios que _Idiota_ seria uma pea sem nome do +auctor. Equivoco. Era um nome do auctor sem pea. + +No theatro de S. Carlos exhibio extraordinaria dos ps do sr. +Barberat. A primeira vez que este cantor appareceu em scena os +violinistas da orchestra suppozeram que elle se lhes tinha calado--nas +caixas das rebecas. + +Quando no dia da chegada elle poz porta as suas botinas para engraxar, +os creados do hotel cuidaram que elle rescindira a escriptura e se +retirava, por se lhes figurar que o sr. Barberat tinha j no corredor as +malas. + +Em algumas alfandegas os guardas do fisco, desconfiados d'elle, teem-lhe +pedido as chaves dos ps! + +Nunca at hoje poderam dormir juntos os ps e elle. Emquanto elle est +deitado de costas, os seus ps esto erguidos, ao fundo do leito, +embuados em capas, contemplando-o, firmes e silenciosos. Pela manh os +ps esto mortos de somno e de fadiga, e para que elles se deitem um +momento, elle ento, compadecido--levanta-se. + +Ou por que elle os no queira desasocegar de dia, lembrando-se de que +teem de estar a p de noite, ou porque elles mesmos se recusem +obstinadamente a uma evoluo a que debalde os teem querido algumas +vezes violentar, o artista desistiu absolutamente de vestir as calas +pelos ps e comeou a vestil-as, como a camisa,--pela cabea. Antes de +chegar a esta prudente soluo, o cantor, para conseguir vestir-se, era +obrigado todas as manhs ou a descoser as calas, ou a desmanchar os +ps. + +Uma das coisas que mais vivamente picou a curiosidade do publico nas +primeiras vezes em que este artista se mostrou em S. Carlos foi saber +como elle poderia cantar n'um theatro pequeno para que podesse estar +mais alguma coisa em scena alm d'elle com os ps. O empresario acaba de +confiar-nos a explicao d'esse segredo, que elle nos permitte enviar +d'aqui como uma dadiva sua justa anciedade das platas. Mesmo porque o +empresario attribue, com bastantes probabilidades de acerto, a esta +preocupao do publico perante os ps phenomenaes do baixo a frieza +desdenhosa com que nas primeiras noites se escutou o canto to vivamente +sentido, to profundo e to genial da Galetti. + +Pois bem, meus senhores, no pensem mais n'isso. Querem saber como elle +cantava nos pequenos palcos?... + +Do mesmo modo que cantam os gallos--n'um p s. + + * * * * * + + praia da Torre em Belem foi hontem arrojado pela mar o cadaver de um +homem afogado Era ainda novo, robusto e forte. Estava vestido de panno +azul. A jaqueta e o collete que vestia tinham botes de metal doirado +com uma ancora em relevo. Na manga estava presa uma cora tambem de +metal. Tinha na algibeira um relogio e algumas moedas de prata +portuguezas e brazileiras. As auctoridades da policia e da saude vieram + praia e olharam para o cadaver, como a lei manda. Depois do que, +officialmente averiguado que estava ali effectivamente o cadaver de um +afogado, pegaram nelle, atiraram-o ao fundo de uma cova aberta pressa +na praia, e cobriram-o com alguns metros de areia. + +Bem feita coisa! + + * * * * * + +Nem toda a gente vae para a sepultura com esta simplicidade de +apparatos, a que podemos chamar o _enterro incivil_. Mas todos os ces +se enterram por este modo, e no por isso menos repousado o seu eterno +somno. Alm de que, preciso que cada um se apresente na eternidade em +condies que no desdigam da gerarchia em que viveu e do conceito em +que o teve a sociedade e a opinio publica. Pretender o contrario +querer lograr a divina justia sujeitando-a a illudir-se com o aspecto +exterior dos mortos e a acolher com os mesmos cumprimentos na crte do +ceu o primeiro aguadeiro que chegue assim como o mais digno e +respeitavel ministro de estado ou general de diviso que se +apresente,--o que seria certamente para Deus um desgosto profundo. Logo: +que cada qual morra como o que e v para o outro mundo como o que foi, +para no pr em equvocos a celestial etiqueta! + + * * * * * + + um senhor conselheiro a pessoa que morre, na sua cama, victima da sua +gotta? Vestem-se-lhe as suas calas de presilhas e galo de oiro, e a +sua farda bordada; prega-se-lhe no peito a constellao das suas placas +de diamantes, faz-se-lhe a barba, retinge-se-lhe o cabello, pe-se-lhe +ao lado o espadim e as luvas brancas, o chapeu armado sobre o ventre e +um pouco de carmim nas faces. E eil-o ahi est em toda a plenitude e em +toda a magestade dos seus meios physicos e da sua importancia social. As +pallidas Julietas dos sepulchros e as immodestas Rigolboches da tabida +podrido e dos gulosos vermes do _chic_, que se acautelem d'esse magano +de bom gosto! + +Elle poderoso: deixou na terra muitos necrologios e muitas missas, e +vae optimamente recommendado pelo alto clero especial proteco do +Padre Eterno. + + * * * * * + +O que morre pelo contrario um destes infimos e asquerosos animaes, de +jaqueta de panno azul com botes de ancora, que andam a bordo dos navios +sobre a agua do mar? Uma onda envolve-o no tombadilho e arroja-o ao +abysmo inclemente? Suspende-se ento por dois ou tres minutos a marcha +da embarcao--um slido paquete talvez, luxuoso, commodo, de uma forte +companhia, em que tudo est seguro para os riscos da navegao, tudo +menos a gente,--lana-se uma boia de salvao, arreia-se uma lancha com +quatro homens, e alguns _gentlemen_ que sobem tolda, tiram dos estojos +de couro de Varsovia que trazem ao tiracollo os seus binoculos e +assestam-os sobre o elemento. Apesar porm d'estas delicadas attenes, +o bruto desagradecido desapparece. Dois ou tres dias depois, a mar, com +nojo, cospe-o praia da Torre juntamente com outras immundicies. + +Que queres tu d'aqui, meu estupido? Isto no nenhuma selvagem ilha +deserta e encantada, querida dos luares transcendentes de que fallam +phantasia as musicas de Bethowen e os versos do Ileine, e em que se +figuram, sob uma luz de esmeralda, os bailados da opera. + +Aqui no ha os profundos paraizos aquaticos habitados pelas ondinas e +pelas sereias de beijos deliciosos e gelados. No ha os duendes das +phantasticas florestas que te suspendam, sob o luar impregnado de +calidos aromas e de nocturnas harmonias, nos beros aereos das magnolias +e dos lilazes em flor, nem beneficas deidades transparentes que te +cinjam nos seus doces braos e te levem n'uma festa nupcial para os seus +leitos de algas, de coral e de perolas, no fundo dos dormentes lagos, +sob as folhas dos nenufares. + +No, isto aqui uma praia decente e grave onde os senhores oficiaes de +secretaria o os senhores desembargadores veem durante a villegiatura +sentar-se pela fresquido das tardes, com suas mulheres, contemplando +austeros e recolhidos as babugens da vasante e o fronteiro panorama, to +magestoso e solemne, da Fonte da Pipa. d'esta praia que o senhor +commendador Santos e o senhor commendador Firmo e o senhor commendador +Eloy teem partido em fina companhia de virtuosas damas, com honestas +guitarras e casto peixe frito, a bordejar no Tejo. aqui que a illustre +e veneravel burguesia de Lisboa faz as suas estaes balneatorias. +n'estas aguas que ella annualmente refresca e desemporcalha a sua gorda +carne. aqui que o mesmo poder moderador tem vindo, por vezes, com sua +augusta e elegante consorte demolhar no argento o excelso e inviolavel +systema nervoso da monarchia e da constituio. + +Portanto, immundo, tu que morreste afogado no oceano e te deixaste +rolar para a praia da Torre, impertinente como o esqueleto de um goso +morto de fome na Trafaria, tu, imbecil, se querias mais alguma +considerao, mais algum respeito com os teus restos, fosses cahir a +outra parte. + +Trazias algum dinheiro na algibeira, o sufficiente para te pagares o +luxo de um padre e de uma cova, mas, realmente tu no tinhas aspecto de +mereceres a pena de que alguem se occupasse por um minuto comtigo. + +Animal! se querias ser enterrado com respeito e commoo, se querias ter +artigos nos jornaes e padres a cantarem-te o _De profundis_, porque foi +que em vez de te afogares de jaqueta, te no afogaste com uma farda de +almirante, ou de casaca preta e gr cruz dentro de um _coup_ da +companhia?! + +Deixaste por acaso na terra uma velha me desamparada, uma esposa +lacrimosa, uma filha orph, uma familia, a que seria doce ajoelhar sobre +a tua sepultara ou plantar algumas flores sobre a terra que te cobrisse? +Querias permittir-lhes essa extrema consolao? Deixasses-te ficar no +Chiado ou no Terreiro do Pao, tornasses-te um dos elementos +constituitivos da civilisao lisbonense, fizesses-te moo de recados, +agiota ou empregado publico. Vive-se assim na corrupo, na usura, na +humilhao ou na miseria, mas enfim morre-se bem, barato--e muito! + + * * * * * + +O _Jornal da Noite_ publica uma conta de despeza feita pelo presidente +da republica dos Estados Unidos, Abraho Lincoln, em um hotel de Albany. +O illustre democrata e as pessoas do seu sequito pagaram a somma de um +conto e alguns mil ris por uma hospedagem de menos de vinte e quatro +horas. + +Este facto argumenta vivamente contra a opinio dos que acham as +republicas mais baratas para os povos do que as monarchias. + +Effectivamente vemos que, ao passo que o presidente da republica da +America do Norte faz um conto de ris de despeza em algumas horas em +Albany e paga essa despeza, sua magestade o imperador da America do Sul +dispende no Porto mil libras em quatro dias, e no as paga. + + indubitavel pois que as monarchias so incomparavelmente mais baratas +do que as republicas. + +Deve-se porm observar que, sob este ponto de vista, o descredito das +democracias prodigas procede principalmente das estalagens exigentes. +Porque est provado que sempre que um republicano em viagem pretende +gastar to pouco como um rei economico, os estalajadeiros fazem ao +republicano o seguinte: sequestram-lhe a bagagem. + + * * * * * + +Parece-nos arriscado estabelecer entre os principes e os povos esta +perigosa competencia de quem ha de pagar menos em viagem. Pois que, +realmente, desde que as testas coroadas chegaram ao ideal de se +apoderarem das contas e no pagarem nada, os povos s podero desbancar +os reis se, no pagando egualmente nada, comearem a estabelecer este +uso: depois de se apoderarem das contas, apoderarem-se egualmente--das +pratas. + + * * * * * + +_Primeira aos membros da Associao Catholica no Porto_ + +Meus senhores e minhas senhoras.--Em nome da Nosso Senhor Jesus Christo +e da Santa Madre Egreja Catholica Apostolica Romana, eu vos sado e vos +desejo a divina graa. Como tenho obrigao de vos suppr--taes como o +dizeis--sinceros e dedicados servos de Deus, devotados a cumprir a sua +lei e a divulgar a sua doutrina, mais vos desejo que nunca vos persigam +os bens e as riquezas temporaes de que certamente vos despojastes para +seguir a Jesus. Eu sei que o divino mestre, antes de mandar aos +apostolos que o acompanhassem, lhes ordenou que deixassem as redes, +fazendo-nos sentir por esta frma que ninguem pde estar com Deus +estando ao mesmo tempo com o mundo, e que para ter os bens do co a +condio essencial--abandonar os da terra. Primeiro: _deixae as redes_; +depois: _vinde commigo_. + +Amados irmos, presumindo-vos pobres, desvalidos, tendo previamente dado +o vosso po aos que tinham fome e os vossos vestidos aos que tinham +frio, eu desejo ainda sobre a vossa nudez a mortificao da vossa carne, +a santa mortificao que raspa a vaidade e o orgulho e limpa o +entendimento e a alma das lepras mundanaes. + +Que a graa de Nosso Senhor vos assista e que nada mais do que +temporal se vos pegue, porque n'este mundo tudo esterco: _Omnia ut +stercora_, como muito bem disse S. Paulo! + +Se vos no poderdes furtar aos contactos impuros do seculo, permitta o +ceo que em todas as vossas relaes com a sociedade todas as invectivas +e todas as malquerenas pharisaicas vos punjam e vos espicassem o +corao, assim como os chacaes famintos furam e rasgam no deserto as +tendas dos piedosos peregrinos. Porque--bem o sabeis--s com as +inimisades do mundo podereis merecer e lograr a amisade de +Deus:_amicitia hujus mundi inimica est Dei_. + +Finalmente, meus senhores e minhas senhoras, resumindo os meus votos +pelo molde mais consentaneo com as vossas aspiraes, que o Senhor vos +veja eternamente no ceu e vos aplane o caminho da promisso, tendo-vos +tanto de sua mo que nunca sobre vs deixem de chover as dores e as +ruinas, por isso que, como diz o psalmista, ser pela somma das vossas +penas contingentes, transitorias e mundanaes, que sero medidas as +vossas alegras celestiaes e eternas!--_Secundum multitudinem dolorum +meorum in corde meo, consolationes tuae laectificaverunt animam meam._ + + * * * * * + +Permitt-me agora que, antes de entrar em algumas breves consideraes +que a natureza do vosso instituto me suggere, eu me detenha um momento +na simples contemplao do nome que lhe puzestes. + +Que razes poderiam levar-vos, beatissimos senhores, a denominardes +_catholica_ a associao que fundastes, ahi no Porto, em certa casa da +rua da Picaria? Que significa uma associao chamada _catholica_ no meio +de uma sociedade egualmente catholica? Quem que no _catholico_ em +Portugal? No temos ns todos a mesma religio, que no uma religio +especial da rua da Picaria, mas sim a bem conhecida religio do paiz, a +religio do estado, a religio famosa da carta? Ignoraes por acaso que +nenhuma associao pde ser em Portugal seno isso--_catholica_? +Ignoraes que no temos a liberdade dos cultos, a divergencia de +religies?... + +Ora, no havendo o mosaismo aqui no Chiado, no existindo o pantheismo +no Rocio, nem o lutheranismo no Terreiro do Pao, nem o fetichismo no +Arco do Bandeira, o que vem a ser um catholicismo da rua da Picaria na +cidade do Porto? Ter cahido o Porto porventura no paganismo idolatra? +Estar elle sacrificando a Jupiter a sua rica vacca cosida? Tel-o-hiam +levado os seus representantes, os seus philosophos, os srs. Faria +Guimares e Pinto Bessa, s vertiginosas regies do livre exame, onde o +espirito humano, abatido, fatigado, morde na solido o fructo amargo da +sciencia?... + +No. Eu visitei o Porto ha pouco tempo. Cheguei ahi no dia 24 de junho. +A cidade tinha o aspecto mais jubiloso e festival. Erguiam-se arcos +triumphaes nas embocaduras das ruas, palpitavam virao matutina +bandeiras desfraldadas nas janellas das casas. Na rua de S. Joo os +habitantes, de camisa lavada e barba feita, passavam com bandejas cheias +de lanternas para luminarias, outros espetavam no cho mastros +embandeirados; iam, vinham, fallavam alto, tinham gestos abundantes e +felizes. As egrejas por onde passei estavam cheias at porta de fieis +que ouviam as primeiras missas. Os sinos repicavam em todas as torres, e +os foguetes furavam o limpido azul da manh. + +O Porto, onde n'esse dia devia celebrar-se um grande _meeting_ liberal, +comeava no emtanto--por festejar o S. Joo! + +Portanto, meus senhores, se vs vos denominaes catholicos, no porque +supponhaes que os outros o no so; porque vos parece que o sabeis ser +melhor do que os outros, e pretendeis que vos considerem como unicos +catholicos perfeitos, catholicos affianados, catholicos garantidos. + +Se isto o que quereis dizer-nos com o titulo escolhido para a +vossa associao, e no podeis querer dizer outra coisa, +ento--meditae-o--achaes-vos em peccado mortal de soberba, de jactancia, +de presumpo de merecimentos. + +Localisando por esse modo a religio na rua da Picaria, vs lanaes +tacitamente a suspeita de impiedade nas demais ruas da cidade da Virgem. + +Pois bem, que a Picaria o saiba: a viella do Ferraz tambem vae missa, +e Deus sabe se jejua ou no, s sextas-feiras, a Ferraria de Cima! + + * * * * * + +Advirtamos agora como a associao catholica tem correspondido pela +importancia dos seus actos audaciosa escolha do seu titulo. + +At o momento em que vs vos apoderastes do catholicismo para vos +fechardes com elle na rua da Picaria, cabia ao catholicismo a gloria de +ter inspirado as maiores obras produzidas pelo espirito humano. + +Foi esse pobre catholicismo, ainda ento desprotegido do valioso +patrocinio que n'este seculo lhe devia conceder a vossa associao, meus +illustres senhores e minhas preclaras senhoras, foi elle, ainda +desalbergado da rua da Picaria, o que na edade media fez brotar da +imaginao dos povos o que ha mais bello nas artes, os maravilhosos +poemas, as ternas legendas melancolicas, as portentosas cathedraes. Foi +elle que levou Pedro Eremita e Godofredo de Bulhes a descerem o valle +do Danubio e a seguirem o caminho de Attila. Foi elle que inspirou Tasso +e Dante. Foi elle que produziu S. Thomaz, o _boi mudo de Sicilia_, o +Aristoteles do christianismo--como lhe chamou Michelet--, o mais +poderoso cerebro da egreja. Foi elle que creou em Hispanha desde o +seculo XVI at o seculo XVII no meio da maior escravido e do maior +fanatismo, o mais brilhante grupo de artistas que tem visto o mundo: +Velasquez, Murillo, Herrera, Zurbaran, Lope de Vega, Calderon, +Cervantes, Tirso de Molina, Luiz de Leon. O profundo mysticismo de +Quixote um reflexo do poder da f em todos esses espiritos. Calderon +era official do santo officio e Lope de Vega desmaiava em extase ao +dizer missa. O catholicismo inaugurou ainda a sociedade mais popular, +mais accessivel, mais equalitaria. No meio da barreira levantada diante +da plebe pelos privilegios do sangue, a egreja era o portico de todos +os grandes talentos e de todas as elevadas ambies: o papa Urbano IV, +filho de um sapateiro, edificava a egreja de Santo Urbano e expunha +n'ella, bordado em uma rica tapessaria, o retrato de seu pae fazendo +sapatos. + +Por outro lado o catholicismo deu-nos ainda a Saint-Barthelemy, a +carnificina nacional dos christos novos, a Inquisio, a guerra dos +trinta annos, os monges bretes que envenenaram o calix de Abeilard e os +dominicanos de Buon Convento que assassinaram Henrique VII, fazendo-lhe +commungar o veneno na hostia consagrada. + +Protegido por vs, meus senhores, tutelado pela vossa sociedade +propagandista da rua da Picaria, o catholicismo portuense tem-nos dado +apenas:--como carnificina, quatro pranchadas nas espaduas de quatro +patriotas porta da S; como arte, a _Palavra_, um pobre jornal piegas, +lacrimoso e beato, com pouca elevao, com pouco enthusiasmo, com pouca +f, e com alguns erros de grammatica. + +Ora realmente, meus senhores, para resultados to mediocres no valia a +pena de vos dardes o apparato de quem funda uma agencia para a +Bemaventurana e nos fecha o ceu--n'um armazem de commisses. + +Em 1849 havia na Italia uma propaganda catholica, cujos membros todavia +no chegaram nunca a aggremiar-se e a constituir-se em sociedade como os +cavalheiros e as damas da rua da Picaria. + +O chefe da propaganda italiana era um dos espiritos mais rectos e mais +benignos, era o doce e pacifico poeta Manzoni, recentemente fallecido. + +_I promessi Sposi_, o celebre romance to conhecido, foi como o _Genio +do Christianismo_, de Chateaubriand e como as odes religiosas de +Lamartine, inspirado por essa reaco catholico-litteraria com que os +romanticos de 1830 bateram as idas philosophicas do seculo XVIII. + +Manzoni porm, servindo a causa catholica como propagandista, e abrindo +um exemplo que se tornou escola de muitos escriptores e poetas +italianos, Manzoni, em primeiro logar, escrevia para esse fim livros +adoraveis,--e que vs, meus queridos senhores no resolvestes ainda +comear a fazer na vossa officina religiosa da rua da Picaria. Em +segundo logar Manzoni considerava a ida religiosa como um elemento de +emancipao e de regenerao para a Italia ento opprimida e +escravisada. Finalmente Manzoni no tinha por fim especial glorificar os +padres, arregimental-os, armal-os, pl-os em p de guerra, como o est +fazendo a associao catholica portuense. Pelo contrario, Manzoni sabia +que os padres italianos do seu tempo eram, como Cant os descreve tomado +do mais santo horror: glutes, avaros, estupidos e bandidos. O perfil +ideal do padre Borromeu nos _Promessi Sposi_ no tinha pois a inteno +de um retrato, era o estabelecimento de um novo nivel para a opinio, +era um exemplo, era uma lio dada pelo modo delicado e brando com que o +desgosto profundo inspirra a alma candida e honesta do piedoso +escriptor. + +Feita assim, n'estas circumstancias, n'estas condies, por estes meios, +eu comprehendo a propaganda catholica, e inclino-me respeitosamente +diante dos que a servirem e a promoverem. No me parece todavia que seja +esse o caso da Associao catholica portuense, nem no que diz respeito +aos fins que ella se prope, nem no que toca aos meios que emprega para +conseguir o seu fim. + + * * * * * + +Que pretende a associao catholica? + +Libertar a patria, chamal-a independencia, fortificando com o +sentimento religioso a f patriotica, como fizeram Manzoni, Rosmini, +Gioberti, Balbo e outros na Italia invadida pela dominao? No, porque +Portugal, por emquanto independente e livre. + +Estabelecer a cathechese? Diffundir a moral? Regenerar os costumes? No, +porque, no sendo publicas as sesses da associao e no tomando parte +n'ellas seno os mesmos associados, pessoas cujos costumes e cujas +crenas religiosas foram d'antemo affianados, estes acham-se +satisfatoriamente moralisados e instruidos. + +Educar o clero, aprestando-o para uma influencia mais directa e mais +proficua nos interesses da cidade ou nos interesses do ceu? Tambem no, +pelas razes seguintes: + +Os padres portuguezes acham-se todos incluidos em uma d'estas tres +classes:--os indifferentes, os liberaes e os reaccionarios. + +O padre indifferente vive obscuro e tranquillo no fundo de uma aldeia +entre a sua lavoira e o seu campanario. Baptisa as creanas, confessa +os adultos e absolve os que morrem. Se no forem todos para o ceu, a +culpa no d'elle. Cartilha e bons conselhos propina-lh'os todos os +domingos depois da missa conventual; se os no tomarem para seu bem, l +se aviro com o demonio no outro mundo e c na terra com o regedor. De +resto elle cava a sua horta, grande madrugador, deita-se com as +gallinhas, diz a missa ao romper d'alva, caa a perdiz no inverno e +pesca os barbos no vero. Alm de um bocado de breviario, no l seno +um repertorio para estar ao facto das luas e saber quando convm +alporcar as pereiras e semear os pepinos. Bom homem, rijo, satisfeito, +sanguineo, infatigavel companheiro na caa e na mesa, se tentardes +esgrimir com elle algumas idas politicas ou religiosas, algumas +subtilezas de critica, de controversia, ter tonturas, arregalar os +olhos, ouvr-se-lhe-ho rugidos interiores e no sentir seno um +desejo: o de vos aular s pernas os seus ces e cascar-vos pela cabea +com o seu grosso marmeleiro argolado. + +O padre liberal habita as cidades, l os periodicos, intervm em +eleies, frequenta os botequins e as casas de jogo, fuma cigarros, e +protesta vigorosamente contra a reaco e contra o jesuitismo, trazendo +os dedos amarellos e tomando medicamentos secretos. + +O padre reaccionario anda quasi sempre de loba; tem os olhos baixos, o +passo miudo e commedido, o sorriso contrafeito como uma coisa azeda +misturada com assucar; gordura fria e pallida, um tanto sinistra; mos +brancas, suadas, viscosas; ps moles, de pato, arrastando. O +confissionario para elle uma vocao, um destino, um prazer: a sua +arte. Algumas vezes mobila-o com certo luxo, introduz-lhe um soph e +abastece-o de viveres: uma lata de po de l e copos com gela. ahi +que elle escuta, de olhos meio cerrados e mos crusadas no peito, as +confidencias secretas das mulheres, os casos encobertos s mes e aos +maridos, os inveterados vicios escondidos e os grandes crimes occultos, +as obras e os pensamentos, os alvoroos da carne no meio da penitencia e +da orao, as tentaes do inimigo, os ardentes desejos diabolicos, os +pungentes escrupulos de alcova, a grande tragedia intima dos mysticos e +dos solitarios. Elle escuta, manda repetir, inquire, investiga, indaga, +minucia por minucia, as circumstancias que aggravam e as circumstancias +que attenuam; disseca o peccado, desfibra-o musculo por musculo, nervo +por nervo, arteria por arteria; depois reconstitue-o, recompe-o, +inteira-o, evoca-o, fal-o resurgir nos olhos da penitente--para a +moralisar com a enormidade do erro. A culpa, assim rediviva pelos +retoques finos, dialecticos, incisivos do stylo theologico e casuistico +dos commentadores do Decalogo, a culpa repintada com essa arte mais +sabia, mais poderosamente minuciosa que a de todos os modernos +romancistas psychologos dos vicios torpes e vergonhosos, cinge outra vez +a peccadora, colla-se estreitamente com ella como a serpente do Eden, +envolve-a nas suas espiraes, penetra-a da sua essencia magnetica, +communica-lhe a electricidade dos seus filtros. ento, n'esse momento +terrivel de crise, nevralgico, histerico, allucinado, que elle critica +friamente, com uma analyse perpendicular, dominadora, arbitra da +commoo; e consola, aconselha, admoesta, subjuga, domina, e absolve ou +condemna, elle, elle em nome do Creador, a fragil creatura desmaiada aos +seus ps. O padre reaccionario faz parte da grande centralisao +catholica, uma das rodas do grande machinismo, vive no systema de +partido como na obediencia e na regra de um instituto. No pensa nem +discute. O seu rumo est tomado; segue-o apezar de tudo, atravez de +tudo, como um boi abre um rego, com os olhos tapados. Tem heranas de +velhas devotas, avultadas esmolas de missa, frequentes presentes de +confessadas. Vende agua de Nossa Senhora de Lourdes ou de La Salette. +Cobra os dinheiros de S. Pedro e remette-os para Roma, assigna a +_Nao_, e quasi sempre rico. + +Dos padres d'estas tres categorias quaes so aquelles que a associao +Catholica influe, aconselha ou dirige? + +O padre obscuro nem mesmo sabe que tal associao existe. O padre +liberal seu inimigo e adversario intransigente. Resta-lhe o padre +ultramontano. + +Ora este ultimo padre o vo de que a associao Catholica a ave. +Ella no o modifica, no o educa, no o adverte, no o illustra. Faz-lhe +simplesmente isto: choca-o. Depois, quebrada a casca do sr. padre Couto, +o sr. conde de Samodes apparece. + + * * * * * + +A associao Catholica celebra periodicamente reunies, a que chama +academias. Que se faz n'estas reunies frequentadas por muitas senhoras +da primeira sociedade portuense, o que ha de mais digno, de mais +inviolavel e de mais sagrado? + +Relevem-nos este ponto de interrogao, que no tem de nenhum modo a +impertinencia de uma pergunta e deve apenas ser considerado da nossa +parte como um simples ponto de perturbao e de pasmo. + +Se os homens estivessem ss comprehendemos que as reunies da associao +Catholica fossem para elles um meio do repousarem suavemente das fadigas +temporaes, dos enganos do mundo, das illuses e das vaidades do seculo. +Concebemos perfeitamente que depois de terminados os seus negocios, +assignada a sua correspondencia, pagas as suas lettras, despachadas as +suas mercadorias, fechada a sua caixa, comido amplamente o seu jantar, +saboreado o seu caf e o seu _kumel_, elles encerrassem o seu dia +juntando-se todos fradescamente, sem etiqueta, sem cerimonias de +elegancia nem de _toilette_, e que, em seguida, descalassem as botas e +dissessem: Ora dissertemos l um bocado sobre a immortalidade da alma! + + +Mas, com senhoras, com senhoras elegantes e bellas, que ho de apear-se +das suas carruagens, depr os seus burnous no _vestiaire_ e penetrar no +salo, sob o gaz, n'uma onda scintillante de setim e de renda, que faro +os homens? + +Ho de se ter espalhado na athmosphera os perfumes da _toilette_, os +murmurios dos vestidos, os reflexos das joias e as confusas palavras +finas, magneticas, que susurram sob a palpitao dos leques. Suppomos +que no ha orchestra nem piano, de modo que as pessoas devotas no +podero dirigir-se immediatamente ao sr. padre Couto para que as faa +valsar; no estaro patentes os ultimos telegrammas dos successos de +Hispanha; no haver um servio de gelados trazido em bandejas de prata +por criados de calo curto: no se ter mo um numero da +_Illustrao_ nem um album que se folheie ... + +Estranha perplexidade! + +Tem um simples associado de abotoar as suas luvas, de adiantar um +_fauteuil_, de se aproximar de um grupo e de lanar um assumpto pela +seguinte frmula: Minha senhora, ser vossencia assaz boa para querer +fazer-me a honra de me dizer se j tem interlocutor para uma breve +dissertao sobre os novissimos do homem? + +Ou talvez que haja uma organisao parlamentar para a distribuio dos +assumptos e para a ordem das discusses. E n'esse caso, reunido o +claustro pleno, ser o sr. conde de Samodes quem abrir as sesses, +persignando-se, tocando a sua campainha e dizendo: + +--Dou a palavra ao relator da commisso encarregada de dar o seu +parecer cerca das Divinas Pessoas da Santissima Trindade. Meus senhores +e minhas senhoras, est em discusso o Espirito Santo. + + * * * * * + +Porque emfim, meus senhores, celebrando como catholicos as vossas +academias religiosas, das duas coisas uma: ou vs estabeleceis a +controversia e discutis os canones e os dogmas, ou no a estabeleceis e +no os discutis. + +No primeiro caso usurpaes os poderes que s competem aos concilios, +entregaes aos debates da razo as materias de obediencia e de f e cahis +no racionalismo heretico. + +No segundo caso, reunidos em nome de Deus, vs no tendes o direito de +fazer seno uma coisa: elevar humildemente ao ceu os vossos espiritos e +prostrar-vos na penitencia e na orao. + +Mas para os exercicios da orao e da penitencia vs tendes a egreja +para rezar e a solido no interior das vossas casas para meditar o +arrependimento. Para similhantes effeitos congregar os fieis nos sales +da rua da Picaria desviar dos templos a corrente natural da devoo e +arrancar do interior da familia o saudavel recolhimento dos propositos +bons. + +Eu creio profundamente que entre vs existem homens dignos, honrados, de +uma piedade limpida, com as mais rectas intenes de espirito e de +consciencia. Acredito mesmo que essas almas, timoratas mas boas, +constituem a grossa maioria dos vossos consocios. Por isso vos consagro, +passando, esta palavra sria: + +Nada mais funesto para os costumes do que ensinar s mulheres que ha +instituies especiaes para o servio de Deus, para a conquista do ceu, +para a remisso da culpa. O posto digno da mulher christ em sua casa +ao p dos seus filhos. Os exercicios espirituaes e as contemplaes +mysticas escurecem a alegria domestica, alvoroam a virtude, perturbam a +consciencia. Na sociedade actual a mulher pertence, integralmente, com +toda a responsabilidade do seu destino, misso sublime da regenerao +do homem pela attraco do lar. Desviar sob qualquer pretexto que seja +a atteno da mulher dos interesses da familia commetter para com a +moral um sacrilegio. A casa conjugal tambem um templo, e a maternidade + uma religio. + + * * * * * + +Meus senhores, tenho procurado tanto quanto me tem sido possivel ser +amavel comvosco, tomando para vos observar todos os pontos de vista. +Olho-vos como christo, olho-vos como catholico romano, olho-vos como +cidado, olho-vos como simples espectador, como _dilettante_. De todos +os modos vs me pareceis ou incongruentes, ou ridiculos, ou absurdos. + +Todavia, meus senhores, depois de to exactas observaes, eu no +concluo que dissolvaes o vosso synodo e que vos retireis para vossas +casas. Os senhores liberaes, que vos combatem, so egualmente +incongruentes, egualmente absurdos e um pouco mais comicos do que vs, e +os senhores liberaes tambem se no retiram. + +Elles do morras ao papa, chefe supremo da religio catholica e todavia +continuam a dizer-se catholicos. Odeiam e guerreiam os padres e no +emtanto continuam a entregar as suas mulheres aos confissionarios e as +suas filhas cathechese. Insultam a theologia do vosso jornal a +_Palavra_ mas no acceitam com elle a controversia porque no sabem +theologia. No lhes importa o irem para o inferno, mas no querem ir +para o Carmo. O seu atheismo leva-os a quererem esmagar o infame como +elles mesmos dizem, mas com a clausula de no molestarem com essa +operao os calos do sr. Bento de Freitas, governador civil, ou do sr. +Pinto Bessa, presidente da camara. Ultimamente vs festejaveis com um +_Te Deum_ na egreja da S o anniversario de Pio IX: estaveis +inteiramente no vosso direito e na logica dos vossos principios. Elles, +em vez de combaterem com uma affirmao de sciencia a vossa protestao +de f, esperaram-vos porta da egreja, deram vivas liberdade, a +Victor Manuel e a Garibaldi e alguns morras ao Papa infallivel. Foi com +esta elevao de critica que analysaram o Concilio do Vaticano, consti. +4. cap. IV _De infallibilitate romani pontificis magni_, a qual +constituio nunca leram. A policia interveio, espancou varias pessoas, +prendeu varias outras, e eis em resumo o que os periodicos liberaes +chamam os conflictos da liberdade e da reaco religiosa na cidade do +Porto! + +Profundas graas ao Altissimo, que no so inteiramente estas as +circumstancias que determinaram as antigas crises do poder entre os +burguezes do senado do Porto e os poderosos bares feudaes da S +portuense ou do balio de Lea! Os srs. padre Rademaker e padre Couto no +afivelaram os arnezes de ao dos antigos bispos e dos freires +hospitalarios, no reuniram os seus sergentes e homens d'armas, no +mandaram erguer as levadias dos seus paos acastellados nem +desembainharam as suas espadas famosas ... No, elles apenas entoaram a +ladainha de todos os santos, e prometteram, no excurses armadas sobre +os rebeldes dos seus feudos, mas sim jubileus e benos telegraphicas +aos seus adeptos. + +Ora no vemos realmente em que estas coisas possam atterrar a liberdade +e sobresaltar o paiz. + + singular esta coincidencia: + +O clero catholico tem hoje em toda a Europa o papel sympathico. Os +unicos paizes do mundo em que ainda se gosa a liberdade religiosa so os +paizes catholicos. Na Russia, na Allemanha, temos o despotismo e a +perseguio protestante. O sr. de Bismark prende, processa e desterra +os sacerdotes catholicos. No novo imperio do rei Guilherme, o +patriotismo refora-se na religio do estado; a recente legislao +allem submette todos os casos de disciplina ecclesiastica e todas as +deliberaes episcopaes ao poder civil, e prohibe o clero sob as mais +severas penas de cumprir preceitos que dimanem de qualquer auctoridade +ecclesiastica estranha nacionalidade allem. + +Ferida violentamente na sua liberdade, perseguida pela fora, a egreja +catholica--quem o diria!--appella para as garantias espirituaes e quer a +distinco dos poderes como salvaguarda da liberdade. Na Allemanha os +ultramontanos mais ardentes fortificam-se nos seus ultimos +entrincheiramentos pedindo como Cavour a egreja livre no estado livre. A +tal estado chegou desprestigiado e abatido o antigo poder clerical!... +Elle j no quer exercer a sua velha tyrannia, contenta-se em no +supportar a perseguio; e, como todos os martyres, pede a liberdade +como o extremo refugio das consciencias apavoradas. + +Violentamente ferida no corao, perseguida pela fora, a egreja +apresenta esse symptoma infallivel da sua suprema dr--o grito das +garantias espirituaes, o appello em ultima instancia para a distinco +dos poderes. + +Pio IX, fortificado no Vaticano, como n'uma cidadella gloriosa, +desmoronada e vencida, posto que respeitada, soffre as ultimas +consequencias fataes da sua politica, e, indomavelmente pertinaz e +corajoso, esse velho batalhador veneravel, despojado da sua cora +temporal, arroja aos vencedores o derradeiro desafio do seu despreso, +arvorando impavidamente o dogma e metralhando com as excommunhes a +opinio liberal em ultimo sacrificio a uma causa perdida. + + curioso at o ponto de se tornar ligeiramente comico que seja este o +momento escolhido pela burguezia portuense para comear a apontar-nos a +egreja catholica como um perigo para a liberdade! + +No Porto os livres pensadores da calada dos Clerigos principiam agora a +receiar que os catholicos da rua da Picaria assoberbem e esmaguem sob a +desmaiada e quasi esvahida legenda pontificia o poderoso mundo +scientifico moderno. + +Pela sua parte vs, catholicos da Picaria, reunis as vossas mulheres e +as vossas filhas, entoaes ladainhas e procuraes com preces e com +penitencias desaggravar a divindade offendida com as invectivas dos +periodicos liberaes--no que nos parece que confundis tambem um pouco a +religio com a sacristia, e tomaes frequentemente o sr. padre Couto pelo +Padre Eterno. o vosso erro. No entanto ficae no vosso posto. A +civilisao precisa de vs, no como elemento reconstituinte, mas como +producto lachante. A sciencia estima-vos ... como droga. O velho mundo +invoca a vossa assistencia para o ajudar a morrer, para o enterrar. Para +mim, que acabo de vos discutir como fazendo eu mesmo parte do meio +burguez em que existis, vs sois certamente um absurdo. Perante a +philosophia vs sois porm uma necessidade historica. Nos annaes do +progresso transcendente do espirito humano o vosso nome ha de ficar como +o curioso epitaphio de uma gerao que se extinguiu ha tresentos annos. +Porque a verdade que vs representaes as idas do seculo XVI. + +A associao catholica do Porto instituiu-se para qu? Vs mesmos o +estaes dizendo todos os dias: Para salvaguardar a f religiosa da +corrente invasora do scepticismo moderno. + +Pois bem, meus senhores, foi esse mesmo scepticismo, cuja corrente vs +pretendeis hoje reprimir ou recuar, o que produziu a grande revoluo +scientifica do seculo XVII e toda a civilisao subsequente at os +nossos dias. + +O scepticismo o estado de espirito que medeia entre a superstio e a +tolerancia. Ha mais de um seculo que nenhum pensador grave se intromette +na vossa controversia theologica. Ninguem vos combate, ninguem mesmo vos +discute. O mundo novo est j na tolerancia, quando vs combateis ainda +o scepticismo de que a tolerancia o fructo! + +Duvidar, meus bons amigos, exercer uma das mais poderosas e mais +fecundas faculdades da razo humana. Para chegar verdade no ha seno +esse caminho: a duvida. Para chegar a Deus, que no outra coisa seno +a expresso theologica da verdade, o unico meio tambem esse: a duvida. +Primeiro que tudo duvida-se, depois aprende-se, por fim descobre-se. Tal + a marcha invariavel dos espiritos na sua grande ascenso do imperfeito +para o absoluto. + +O mesmo christianismo no poderia nunca ter principiado a existir se no +o tivesse precedido a duvida nas consciencias da antiguidade pag. +Antes de acreditar em Jesus Nazareno o homem teve que duvidar de Jupiter +Capitolino. A tradico christ uma conquista do scepticismo antigo. A +duvida foi a primeira e a mais augusta expresso da revelao divina. + +A duvida tem sido em todos os tempos a luz immortal e a guia suprema do +entendimento humano. Foi a duvida quem levou Colombo ao novo mundo, +Copernico e Newton astronomia, Boyle e Pascal hydrostatica, Galyleu + mecanica e Lavoisier chimica. + +Se nas profundidades da nossa alma o scepticismo no tivesse existido +sempre como uma indomavel fora inextinguivel de perfectibilidade +indefinida, a sciencia astronomica no viria occupar o logar da +astrologia, a physica e a chimica no substituiriam a alchimia, e a +imagem de Christo crucificado no succederia nos altares do Vaticano s +estatuas dos dois mil deuses da Roma antiga. + +Quereis a definio precisamente scientifica do scepticismo? Ouvi +Buckle, o historiador da civilisao: scepticismo a difficuldade de +crer; de sorte que o scepticismo que se augmenta a percepo +augmentada da difficuldade de provar asseres, ou, n'outros termos, +a applicao augmentada e a diffuso augmentada das regras do raciocinio +e das leis da evidencia. Esse sentimento de hesitao em todo o campo +do pensamento o preliminar invariavel de todas as revolues +intellectuaes por que tem passado o espirito humano; sem o scepticismo, +progresso, mudana, civilisao, tudo seria impossivel. Na physica +elle o precursor necessario da sciencia; na politica o precursor da +liberdade; na religio o precursor da tolerancia. + +Ora defendendo a integridade da f, vs fazeis philosophia este +servio relevante: suggeris a duvida, procuraes accordar a razo +individual, a qual nunca em nenhum outro meio social se desenvolveu to +larga e to arrojadamente, como no seio da egreja christ, a qual apezar +de todos os seus erros e dos seus mesmos crimes, tem sido sempre o mais +forte nucleo da vida moral e o mais alto objecto de todos os grandes +desenvolvimentos da intelligencia e da vontade. + +De resto entendo que o Porto, esse feliz e arrojado industrial, vos deve +ser especialmente grato e reconhecido, porque vs o dotastes com um +estabelecimento que Lisboa ainda no possue--A associao catholica da +rua da Picaria,--a qual, similhana dos antigos moinhos do Tibet e das +cabaas rotatorias dos Kalmuks, assegura commodidade dos habitantes um +systema permanente, uma especie de moagem mechanica, com motuo continuo, +de adoraes e de preces. + + * * * * * + +Algumas das familias que durante a estao finda se achavam a banhos de +mar em Pedrouos, resolveram de uma vez fazer uma festa nocturna, +mysteriosa, venesiana. Tomaram um vapor da carreira de Belem, +illuminaram-o com bales de papel como as gondolas do canal da Zueca que +deslisam em frente dos terrassos do palacio Barbarigo no primeiro acto +da _Lucrecia_. Para que a commoo de todas as pessoas que tomaram parte +n'esta scena fosse profunda e illimitada, os homens tinham-se +apresentado todos vestidos como os tenores nas scenas de _barcarola_. O +jubilo era indescriptivel. + +Reunida a bordo toda a sociedade, o vapor levantou ferro, e penetrou na +treva, vibrante de aventura, saturado de drama, na direco de +Caparica. + +O Tejo porm estava grosso e picado, de modo que comeou a dar ao vapor +uns balanos intermittentes para um lado e para o outro como de quem +escabacea com somno. Com isto principiaram a manifestar-se com uma +insistencia progressiva os symptomas spasmodicos nos esophagos da +assembla. Os Mazaniellos, verdes como azebre, tristes como condemnados + morte, procurando sorrir catastrophe com sorrisos dilacerados como +os que apresentam os cotovellos rotos, enrolavam-se nas suas capas e +prostravam-se como trchos inuteis nos bancos da tolda. As senhoras +punham os seus lenos na bocca, corriam a mo pela testa, cuspiam +desconsoladamente no mar, e tinham ligeiros movimentos extaticos e +doloridos como de quem est escutando no ar o rumor de uma angustia que +chega. + +Ento o sr. Mathias Ferrari, segundo lemos no _Diario de Noticias,_ fez +correr um abundante servio de neve. Todos se serviram. + +Os effeitos foram taes que quando os criados repassaram com a segunda +roda de sorvetes, todos os convivas, com as boccas ainda abertas, +estremeceram de horror, porque cuidaram que esses segundos gelados eram +outra vez--os primeiros. + +Ento um homem forte, que tinha ido para bordo armado de um violo, +tentando arrancar a companhia a uma consternao abatida e geral, +comeou, a dedilhar o instrumento e a entoar uma chacara. Mas, de +repente, suspende-se, torce-se, arripiam-se-lhe os cabellos, +encurva-se-lhe a espinha dorsal, cae-lhe o violo desfallecido nos +braos das senhoras, e o resto da chacara destinada aos eccos nocturnos +do oceano e recolhida pelos circumstantes n'uma bacia. + +Era immenso a bordo o desalento. + +Mathias Ferrari, descoroado, abatido, j no fazia correr os +servios. Este grande confeiteiro, dominando inteiramente a situao +com a profundidade da sua critica, comprehendera--e muito bem!--que a +questo ali j no era de _fazer correr_, mas de _fazer parar_. + +Era alta noite quando o vapor abicou outra vez praia de Belem, +recolhendo-se todos perfeitissimamente satisfeitos pelo modo como se +passara to bello tempo. Apenas, para que desembarcassem, houve o +pequeno trabalho de virar os que tinham assistido a esta festa, a mais +brilhante talvez que se tem dado no Tejo, por que os convivas em virtude +dos reiterados exforos que tinham feito no mar para puxar para fora o +interior, succedera-lhes terem-o effectivamente conseguido, e haverem +chegado todos a terra--pelo avesso. + + * * * * * + +Com a mais extranha commoo lemos ultimamente que fra nomeado aio de +sua alteza o principe real sua ex. o sr. Martens Ferro, abalisado +jurisconsulto e procurador geral da cora. + + * * * * * + + talvez uma bem perigosa temeridade da parte de prosaicos e obscuros +burgueses como ns somos o atrevermo-nos a meditar um momento no que +possam ser perante a educao e perante a sciencia as attribuies +especiaes de um aio junto de um principe. Todavia--debalde procurariamos +escondel-o--em presena de similhante assumpto, profunda e illimitada +a confuso do nosso espirito. Por isso que, por mais assignaladas que se +nos representem as differenas que devem distinguir o alto e poderoso +filho de um monarcha do mero filho de um fabricante de velas de cebo, +nunca, por maiores que sejam na direco do infinito os arrojos da nossa +phantasia curiosa, nunca podemos chegar a alcanar, nem pelas +presumpes mais vagas nem pelas mais remotas suspeitas nem pelas mais +affastadas conjecturas, qual o emprego pratico e effectivo que possa dar +um principe aos prestimos de um aio. Para satisfao de que +necessidades, de que conveniencias ou de que simples formalidades, em +que condies, em que circumstancias, em que especial momento da +preciosa e augusta vida do real infante vae sua excellencia o aio +presena de sua alteza o principe?!... Ns o ignoramos. + +Porque, quando as ordens de sua alteza procedam das necessidades do seu +espirito, das curiosidades da sua intelligencia, dos interesses da sua +instruco, sua alteza pedir naturalmente algum dos seus mestres ou +algum dos seus livros, e a sua alteza ser ento applicado um professor +de linguas, um compendio do sr. Joo Felix ou um numero do _Diario de +Noticias_. Quando os desejos manifestados por sua alteza dimanem das +urgencias physicas da sua naturesa, das fatalidades animaes do seu +organismo ou do seu temperamento, sua alteza pedir o seu banho, o seu +jantar, as suas pastilhas ou o seu escarrador; e ento os camaristas de +sua alteza, as suas aias e os seus escudeiros cumpriro os desejos de +sua alteza. + +E no vemos, nem na ordem physica, nem na ordem moral, nem na ordem +inlellectual das relaes de sua alteza com o mundo externo, a +necessidade, a conveniencia ou a plausibilidade da interveno do aio. + +A no ser que a concorrencia d'esta legendaria entidade methaphysica se +deva considerar nos reaes paos como um acepipe _hors d'oeuvre_ ou como +um objecto supplementar de recreio, porque ento comprehendemos de certo +modo que ao servio particular de sua alteza um camareiro exclame: + +Est o _lunch_ na mesa: ha _galantine_, rabanetes e o sr. Martens +Ferro com salsa picada e manteiga fresca. ou ento: Eis os brinquedos +de sua alteza: aqui est a bola de guttapercha e a caixa com o sr. +Martens Ferro de engonsos. + + * * * * * + +Se porm--e perdoe-se-nos esta hypothesese, sob a senhoreal e demievica +palavra aio, devemos entender a ida perfeitamente logica, sensata, +popular, de um preceptor pratico, de um mestre experimental, de um +amigo, de um companheiro, n'esse caso notaremos com o mais profundo +respeito a Sua Magestade a Rainha, dedicada me e primeira educadora do +joven principe, que foi singularmente illudida a sua perspicacia +elegendo o sr. Martens Ferro como conselheiro official e privado de seu +filho, como guia experimentado da candida existencia inexperiente do +innocente alumno. E isto por uma razo que de nenhuma maneira desabona +os altos merecimentos de sua excellencia o actual senhor procurador +geral da cora, antes pelo contrario os confirma e corrobora. Esta razo + que: o sr. Martens Ferro, pela sua natureza, pela sua organisao, +pelo seu temperamento, pelo seu caracter, pela sua biologia, to +inexperiente, to candido, to ingenuo, to innocente e to puro como o +proprio alumno que elle chamado a aconselhar e a dirigir na difficil e +complicada navegao da vida. + +Passando em tenros annos do regao d'aquella que lhe deu o ser para os +braos da austera jurisprudencia, que tinha de amamental-o para a +sciencia e para a gloria, o sr. Martens Ferro tem at hoje passado a +sua vida _en nourrice_ em casa do Direito Publico. + +Os seus dias teem decorrido transcendentemente fora das condies +historicas do tempo e do espao. A sua existencia tem sido +exclusivamente mystica e symbolica. Quando tem os seus impetos mais +ferozes de extravagancia, de anarchia, de deboche, elle sae a passear +pelas viosas campinas da philosophia do direito e faz patuscadas +orgiacas e escandalosas com as origens celticas do direito e com as +liberdades municipaes do imperio romano. Depois o remorso apodera-se +d'elle. No dia seguinte acorda pallido, abatido, com a lingua grossa: o +espectro pavoroso e formidavel do sr. Batbie appareceu-lhe em sonhos, e +elle ouviu vozes vingadoras que lhe bradavam das profundidades da noite +e do arrependimento: Joo Baptista, para onde deixaste o direito de +punir? que fizeste do direito administrativo, Joo? que do direito +internacional, Baptista?! Taes so os seus dias de mais desdem, de mais +anormalidade, de mais sexo, de mais jogo e de mais champagne! tal o +seu despertar contricto para a legalidade, para a descentralisao +districtal e para as reformas de administrao! Tal, resumidamente, +elle! E quando dizemos _elle_, commettemos uma incerteza de +concordancia, porque to pura, to transcendental, to scientifica a +personalidade do sr. Martens Ferro, que nada obsta a que a historia +referindo-se a sua excellencia, em vez de dizer _elle_, diga--_ella_. +Pela nossa parte, aguardando cerca da resoluo d'esse ponto as +ulteriores disposies definitivas da posteridade, diremos por emquanto +simplesmente _el_, sem a desinencia de genero, sob a respeitosa formula +neutra. + +Como diziamos, pois, tal --el. + + * * * * * + +Analysando, timidamente como o temos feito, a nomeao do sr. Martens +Ferro para aio do principe real--note-se bem isto--no a sorte de sua +alteza o que nos inspira receios sob a guarda de um tal guia ... Ah! no! + pelo contrario o destino de sua excellencia o que nos inquieta sob a +influencia de um tal companheiro. Por _elle_ podemos estar perfeitamente +socegados. Mas _el_? o que ser d'_el, el_ to puro ou pura, to +candido ou candida, sob os impulsos da nova existencia que +repentinamente vae no seu temeroso vertice arrebatal-o ou arrebatal-a?! + +Na vida da crte, fina, scintillante, irritavel, cheia de factos, de +commoes, de rasgos de espirito e de valor, de emboscadas, de +surpresas, de malicias, de tentaes, quantos perigos, quantos laos, +quantas ratoeiras para a innocencia virginal, para a candida pureza +inexperiente e inerme d'_el!_ ... + +Os principes por effeito da sua vida reclusa, claustral, vigiada, +monotona, amam naturalmente a escapada, o mysterio, a aventura, a +innocente anormalidade. Apraz-lhes a sortida arriscada, a partida +carnavalesca, o ruido dos festins secretos, a mascara inescrutavel, a +longa capa dramatica e a espada ligeira e subtil dos paladinos;--o que +se lhes deve relevar, porque esse o unico despique dos principes para +a secca official dos intrigantes, dos bajuladores, dos ambiciosos, dos +sensabores e dos hypocritas que ordinariamente os rodeiam. Estes porm +no so ainda para _el_ os unicos perigos. No licito esconder que ha +outros mais e muito mais temerosos. Pensemos nas influencias +tempestuosas d'esse elemento, terrivel para a mocidade, que se chama--a +mulher. Sentimos magoar com este promenor a pudicicia do sr. procurador +geral da cora, mas esta a verdade que no devemos occultar aos olhos +de sua excellencia. Diz Michelet, o casto, o austero Michelet, que em +todo o tempo a mulher attrahiu o homem, assim como a vinha da Italia +chamou os gaulezes, e a laranja da Sicilia chamou os normandos. Ellas +chamam-nos, srs. procuradores geraes da cora, ellas chamam-nos! +Lembremo-nos da bella Helena, sr. Martens Ferro, lembre-mo-nos de +Semiramis, de Cleopatra, da casta Penelope, das Sabinas! + +Os principes no esto mais isemptos que os outros homens d'esta lei +geral da humanidade, e os que vivem com elles--ponderemol-o bem--ficam +sujeitos s mesmas influencias que envolvem os reis. + +Guilherme VII, cuja f religiosa era to ardente que elle foi Terra +Santa com cem mil homens, o proprio Guilherme VII levou tambem na viagem +do Santo Sepulchro a galante legio das suas amantes, e diz d'elle uma +velha chronica que, bom trovador e bom cavalleiro d'armas, por muito +tempo correra o mundo _para enganar as damas_. Tal a raa de que elles +sem, s vezes, quando no sem peores que o mystico e piedoso +Guilherme! Que a actual procuradoria geral da cora emquanto tempo o +medite! + +De Francisco I, um dos mais sabios e dos mais uteis reis que tem tido o +mundo, diz-se que s bellas milanezas se deve a mais importante parte na +perseverana com que elle combateu pela conquista da Italia. + +Sem fallarmos na cohorte das peccadoras, to gentis como funestas, dos +_boudoirs_ de Luiz XIV e da Regencia, recordemos ainda as dissolutas e +ferozes mulheres da crte de Carlos IX, Catharina de Medicis, Maria +Touchet, e as grosseiras amantes torpes de Luiz XI, a Gigogne e a +Passefilou ... Oh! pudor! oh decoro! oh reforma administrativa! + +Suppondes que a educao, os exemplos salutares e os conselhos sabios +possam preservar os principes dos perigos das suas ligaes +clandestinas? Mas quando assim pudesse ser, quantos outros riscos na +propria convivencia legal das mulheres legitimas! + +Um dia Maria Laczinska, legitima mulher de Luiz XV, recusou um beijo ao +rei com o fundamento de que este cheirava a vinho. Luiz, segundo a +expresso pittoresca de um chronista das galanterias escandalosas do +seculo passado, comeava ento _a tomar o gosto ao champagne_. O rei +resolveu n'esse dia nefasto separar-se para sempre da rainha, e so +sabidos os desgostos e as desgraas que o rompimento d'essas relaes +custou felicidade da Frana e moral da Europa. Que remorso para o +aio de Luiz XV! Foi d'elle a culpa d'esse desastre. Se o aio do joven +rei, em vez de comear _a tomar o gosto ao champagne_ juntamente com o +seu alumno, fosse, como pelo contrario devia ser, um experimentado e +antigo _soupeur_, conhecedor esperto de todas as ciladas armadas ao +homem pela bebida e pelo amor, elle teria evitado o divorcio do rei. + +Tel-o-hia evitado, porque teria ensinado ao seu alumno, com a +auctoridade da experiencia, que a intemperana nas ceias e o abuso no +champagne produzem as hepatites, as predisposies para a apoplexia e +para a gotta e a manifestao das areias no rim. Se o principe no +obedecesse a estes conselhos e persistisse em ceiar, n'esse caso o seu +aio lhe faria comprehender que depois de ter bebido champagne nenhum +homem vae conversar com senhoras sem ter concluido a sua digesto e sem +haver previamente lavado a bocca com um elixir dentifrico. Um pequeno +passeio ao ar livre, uma gota de laudano ou uma pastilha, qualquer +d'estas tres coisas ministrada opportunamente por um aio intelligente e +dedicado, teria obstado ao rompimento das relaes de Luiz XV com sua +mulher e a todas as consequencias que d'ahi se seguiram. + +Algumas vezes succede ainda que, alm de todos estes desgostos, d'estas +decepes e d'estes remorsos, os aios, os validos, os intimos dos +principes levam ainda por cima pancada das princezas. N'este ponto as +chronicas so prodigas de eloquentes e salutares avisos. Constancia de +Arles, por exemplo, mulher de Roberto Pio, tinha taes accessos furiosos +de mau genio que um dia vasou um olho do seu proprio confessor +batendo-lhe com uma bengala que tinha no casto um bico de passaro. Esta +mesma bengala nem sempre se conteve perante a pessoa inviolavel e +sagrada da real magestade, e por muitas vezes se ergueu sobre as cabeas +dos amigos mais particulares do rei para nem sempre deixar inteiros +esses craneos dedicados e fieis. Foi a mesma sobredita princeza a que de +uma vez mandou matar por occasio de um passeio, aos proprios olhos do +soberano, o ministro De Beauvais, que lhe desagradava, e que, de outra +vez impoz para o outro mundo um cortezo antipathico, estafando-o com +uma corrida que o obrigou a dar n'uma caada. + + * * * * * + +Ora se a cora tem por um lado a obrigao de escudar a infancia e a +innocencia dos principes, no deve por outro lado sacrificar a +inexperiencia inerme das instituies pondo os srs. procuradores geraes +como barreira entre as tentaes e as culpas, lanando emfim a alta +magistratura ao pego tenebroso, ao Mexilhoeiro insondavel em que ha o +espumar dos vinhos capitosos, o sussurrar das sedas, o arfar dos leques, +os sorrisos tentadores e as bengalas de casto de bico. + + * * * * * + +Algumas das pessoas que tiveram a honra de serem admittidas a jantar com +as senhoras hispanholas que ultimamente se acharam em uso de banhos de +mar, e de emigrao, em Lisboa pedem-nos a nossa interveno para +dirigirem quellas senhoras, alis to distinctas e to interessantes, +uma pequena observao que os seus amigos mais dedicados se no atrevem +a fazer-lhes directamente. + +Suas excellencias teem mesa o terrivel habito de comerem o peixe com a +faca, o que os admiradores mais enthusiastas do fino sal de espirito de +suas excellencias e do seu poderoso encanto de maneiras, no podem +abster-se de considerar como uma concorrencia temeraria feita por suas +excellencias aos acrobatas dos jogos malabares, unicos entes que +insistem em accumular os seus meritos pessoaes com o talento +supplementar de metterem as facas pela bocca. + +... Sendo certo ainda assim que os malabares que temos visto +entregarem-se a este exercicio, servem-se o seu rodovalho parte, e +comem as facas--sem peixe! + +Submettemos estas simples reflexes a suas excellencias, as quaes em +seu delicado criterio decidiro se, attentos os graves cuidados que nos +inspiram, devem ou no continuar a manter--na lista dos seus acepipes +predilectos--os faqueiros. + + * * * * * + +Durante este mez, to inquieto, to palpitante de commoes, em toda a +Europa, os principes com mo nervosa e febril cultivaram a epistola. + +O Santo Padre escreveu ao imperador da Alemanha, o imperador da Alemanha +escreveu ao Santo Padre, o conde de Chambord escreveu ao deputado +Rodez-Benavent, o sr.D. Miguel de Bragana escreveu ao sr. conde da +Redinha, e a historia em geral e os redactores da _Nao_ espeialmente, +escutaram com ardor o fremito d'essas pennas riscando a face do universo +com letras um pouco menos correctas que as de Cicero, de Plinio o moo e +de madame de Sevign. + + * * * * * + +O Santo Padre pede ao imperador Guilherme que obste a que o governo da +Alemanha persista na perseguio do clero catholico. O imperador +Guilherme roga a Sua Santidade que impea o clero catholico de proseguir +na rebelio contra o governo da Alemanha. + +D'este modo o Papa deseja que se retire da scena o martyrio, a grande e +bella apotheose da egreja triumphante, e lembra ao verdugo que sirva aos +martyres o antigo fel das legendas gloriosas com o moderno assucar dos +confortos policiaes. + +O imperador opina que amargo de mais o proprio calix que o obrigam a +tragar, e tirando da cabea o seu ponderoso capacete bellico de ponta de +pra-raios, e humilhando-se dentro das suas botas de couraceiro, +elle--abatido, beato, lacrimoso--pede egualmente para as suas +tribulaes de christo as correspondentes e proporcionaes douras. + +E taes so os dois maximos guardas da f, os dois summos representantes +na Europa moderna dos dois grandes ramos em que se acha dividida a +christandade! + +Oh! Voltaire compungir-se-hia, e, franzindo n'um sorriso bom os feixes +malignos das suas sarcasticas rugas, elle, o caustico philosopho, o +livre espirito, tirando benevolo dos bolsos da sua houppelande de +veludo e martas a caixa das suas pastilhas, offereceria s potestades +chorosas os bombons sacrilegos dos sales de Mesdames du Deffant e de de +Lambert. + + * * * * * + +A carta do conde de Chambord o velho golpe astuto de Jarnac jogado ao +constitucionalismo monarchico. + +O principe a quem a Frana offerecera a cora burgueza de Luiz Filippe, +pergunta-lhe o que exige d'elle a Frana, que papel lhe destina, para +que misso o invoca. + +Vs, que estaes na liberdade, na democracia, na republica, cedeis ao +invencivel appetite de acclamar um rei. Comprehendestes que superior +aos vossos meios repressivos e reorganisadores a perturbao corrompida +da sociedade em que viveis. Duvidaes da vontade, da intelligencia, da +fora do vosso accordo collectivo. Quereis uma iniciativa individual, +culminante, prestigiosa, predestinada para o mando, para o triumpho, +para a gloria; quereis o monarcha eleito como Saul para livrar o seu +povo das mos dos seus inimigos, segundo a formula primitiva do +propheta Samuel. + +N'esse caso armae a vossa cathedral de Reims, convidae os vossos +principes do seculo e da egreja, trazei a cora real, a espada, as +esporas, a dalmatica azul, as botinas de seda estrellada de lizes de +oiro, entregae-nos o sceptro de Carlos Magno, e dae-nos as sete unces +de Pepino o Breve. Depois do que, ns haveremos por bem deliberar por +quaes secretos caminhos nos apraz mandar-vos, segundo as vossas +gerarchias, para a victoria, para a bemaventurana ou para a fora. +Emquanto vs, tranquillos, repousados, deixareis definitivamente de +occupar-vos da coisa publica, e, sem ambies, sem principios, sem +idas, tereis a felicidade absoluta da besta no seu aprisco; _hoc erit +jus regis qui vobis imperaturus est_. + +Se, em vez d'isto porm, o que desejaes ter , no uma fora omnipotente +que vos governe, mas sim um instrumento politico que manejeis; se para +me outorgardes a cora, precisaes de me tirar a iniciativa, a +personalidade, a dignidade de homem; se para que me julgueis inoffensivo + preciso que eu vos mostre ser pdre; se as garantias que me pedis para +que vos no domine so uma fraqueza, uma corrupo, uma inepcia que vos +assegurem a facilidade de me dominardes a mim, ento no: no vos +convenho eu, o derradeiro dos Bourbons fundadores da monarchia absoluta +nascida dos terrores da Liga e da Saint-Barthelemy, descendente e +herdeiro de Henrique IV, o que teve a dupla coragem da fora e da +miseria, o que na tomada de Cahors se bateu nas ruas durante cinco dias +consecutivos, lho a lho, dente a dente, brao a brao, o que de Dieppe +escrevia alegremente a Sully que tinha todas as camisas despedaadas e +um gibo roto nos cotovellos! + +Camille Desmoulins conta que em 1790 o poder monarchico era representado +em Londres por meio de um bailado expressivo como uma parabola. N'este +baile a primeira figura era um rei que terminava a execuo de um +_entrechat_ cheio de garbo e de pompa alongando um pontap ao fundo das +costas do seu primeiro ministro; este transmittia o pontap real ao +segundo ministro, o qual o traspassava ao terceiro, seguindo-se a mais +viva e espirituosa corrente de pontaps que se tem visto n'uma crte, +at que o personagem que apanhava em cheio no seu volumoso e amplo +hemispherio posterior o ultimo pontap era o paiz--que ficava com elle. + + +Nas monarchias constitucionaes imaginou-se reconstituir, por meio da +carta, essa graciosa dana, alterando porm a collocao do soberano ou +a ordem dos pontaps, de maneira que ou o principe est em baixo e os +pontaps vem de cima, ou o tyranno est em cima e os pontaps vo de +baixo. + +Os povos monarchicos julgam-se felizes tendo cada pessoa ao lado de si +alguem a quem transmittir o pontap em giro atravez das instituies e +da politica. A carta do conde de Chambord no em resumo seno o +testemunho de uma divergencia com a assembla nacional sobre este ponto +importante do bailado em ensaios: quem que recebe o pontap? + +A um paiz corrompido e a uma assembla senil no occorre esta +considerao to simples: que quando se trata de um stygma de servilismo +e de baixeza a questo no poder transmittil-o, no dever +acceital-o. Organisar pela monarchia a responsabilidade dos que se +corrompem abdicar a faculdade de demittir a corrupo. Os reis quando +no enodoam os povos, tambem no lhes tiram as nodoas que elles tenham. +N'esses casos o que limpa um paiz no a realesa. Quereis saber o que +? Pois bem! a benzina! + + * * * * * + +A carta do sr. D. Miguel de Bragana ao sr. conde da Redinha ao mesmo +tempo o tocante documento da estima inviolavel de um amigo ausente, e o +authentico manifesto politico de um principe proscripto. + +Sua alteza declara ao _seu paiz_ que quer ser o protector e o amigo de +todos os portuguezes e que considera como sua mais elevada ambio e sua +maior gloria--restaurar o throno pontificio. N'este simples trao +encarna sua alteza a expresso politica da sua indole,--o que nos parece +de uma moderao de intuitos demasiadamente modesta. + +Diriamos que sua alteza folga em confundir-se na obscura legio invalida +dos tyranos burguezes, dos cezares bonacheires, Neros de barrete de +dormir, Caligulas dyspepticos, Eliogabalos em uso do pronto alivio e da +revalenta arabica. A politica affirmada por sua alteza accusa uma +visivel pobresa de sangue. Sua alteza um anemico. Tal o infortunio +da nossa raa! Que degenerao! + +O pae do joven principe D. Miguel era sanguineo, esse. A sua +extraordinaria fora muscular era a admirao respeitosa, a maravilha +profundamente inclinada do _sport_ lusitano de 1827. Nas redondezas do +pao de Queluz, nas terras do Infantado, via-se s vezes atravessar os +campos, a p, caando acompanhado do seu falcoeiro, um homem de mais de +meia estatura, de solidos hombros, faces morenas, barba rapada, mos +enormes, beios sensuaes, grandes olhos negros, rasgados, peninsulares; +vestia um casaco de baeto verde, calo preto, botas altas, de cava, +com taes de prateleira e esporas de prata; usava um bonet azul, do +prato largo, com vizeira. Este homem, que amava a convivencia dos +plebeus, a quem dava largas esmolas de dinheiro e de conversao, +comprazia-se em ensinar a lavrar os moos do campo: tomava na mo +esquerda a rabia de um arado, azorragava com a direita uma parelha de +mulas, e abria no solo mais empedrado e mais endurecido, sob a poderosa +presso do seu pulso, um rego profundo, extenso de um kilometro, e recto +como um risco passado a regoa por um tira-linhas. Suffocava um forte +cavallo de Alter puchando-lhe a ponta da cilha com os dentes. Segurava +pela bocca, que juntava e cerrava no punho, um sacco de sete alqueires +do trigo, e lanava-o ao hombro, com uma s mo, erguendo o brao por +cima da cabea e conservando o corpo immovel, erecto e firme. Quando +vinha de Queluz a Lisboa, galopando desfilada, com uma vara debaixo da +perna, entre os seus companheiros mais assiduos, Joo Sedvem, o picador, +o Jos Verissimo, o da policia, a fora de soldados de cavallaria que o +acompanhava, ficava aos poucos pela estrada destroada pela fadiga: elle +nunca chegou seno s. No dia em que recebeu ao p da mata, na Quinta +Velha, onde estava caando ao falo, por volta das duas horas da tarde, +a noticia de ter entrado a barra de Lisboa a flotilha que apresou e +levou para Frana todos os nossos vasos de guerra surtos no Tejo, elle +veiu de Queluz a Belem, em menos de tres quartos de hora. Esse homem que +tinha a grande popularidade que trazem comsigo as legendas da fora e da +destreza physica, era sua magestade el-rei o sr. D. Miguel I. + +O soberano tinha os defeitos do homem e as qualidades dos seus defeitos. +A sua politica era apopletica simplesmente porque elle era plethorico. + +Esse principe, com o seu temperamento, o qual constituia, politicamente +assim como physiologicamente, toda a sua personalidade, fez liberdade +e s idas modernas o mais relevante servio: foi elle o que fabricou o +partido liberal portuguez. + +Os constitucionaes foram uma inveno da policia do sr.D. Miguel. Elles +no combatiam o direito divino, nem os privilegios da nobreza e do +clero, nem o regime absoluto, nem a servido popular; o que elles +combatiam principalmente era o Jos Verissimo. Affirmavam-se os direitos +do homem porque se tinha percebido que esses direitos prejudicavam os do +Joo Sedvem. Os revolucionarios portuguezes no vieram da sciencia, no +vieram do amor da justia, das impaciencias da liberdade, dos contagios +da Conveno, da revolta da dignidade humana. No. Elles vieram +simplesmente dos carceres, dos carceres em que o regime despotico +recalcou de mais a fora viva da nao. Os principios eram o pretexto +sob o qual se vingavam as offensas feitas no s idas vigentes, mas aos +interesses estabelecidos. As denuncias partiam dos lesados. A ida +exposta na organisao da Companhia dos vinhos preoccupava mais os +espiritos em Portugal do que o principio representado em Frana pela +existencia da Bastilha. Havia martyres da liberdade que nunca tinham +amado a liberdade com devoo mais intensa que a do Sedvem e que no +teriam posto duvidas irremissiveis em continuar a dobrar a cerviz, ao +jugo da tyrannia como se dizia no stylo do tempo; smente o que elles +tinham recusado era emprestar algumas moedas ao Jos da Policia. Para a +maior parte da gente a victoria da ida liberal foi simplesmente a morte +do Telles Jordo. Finalmente o sr. D. Miguel de Bragana, _primeiro_, +foi o principe cuja fora fez na monarchia portugueza o rombo por onde a +liberdade appareceu. O sr.D. Miguel de Bragana, _segundo_, +figura-se-nos pela sua expressiva carta ao sr. conde da Redinha, uma +pessoa extremamente debilitada. Ser o protector e o amigo de todos os +portugueses enfraquecer-se diffundindo-se. Os antigos fortes +concentravam-se. + +Pobres de ns! Como somos diversos de nossos paes! Os plethoricos, +sangrados, legaram gerao que lhes succedeu a impotente anemia! + + * * * * * + +Acabamos de lr um livro que foi publicado era Lisboa ha cerca de tres +mezes e a respeito do qual ainda no ouvimos critica uma palavra de +meno. Foi abafado pelo silencio. Se lhe no dessem esse destino teria +sido um livro escandaloso porque foi inteiramente concebido fra da +rotina, fra da conveno, fra do compadrio, por um espirito +justo, esclarecido, honrado, fatalmente inclinado ao bem. +Intitula-se--_Portugal e o socialismo_, e escripto pelo sr. Oliveira +Martins. + +A litteratura portugueza actual apresenta este notavel caracter:--o +bysantinismo. Ella no um documento historico, nem um documento moral +do tempo em que vivemos. No tem importancia na direco dos espiritos, +no tem influencia na formao dos caracteres, no tem validade no +estabelecimento dos principios. No d nenhuma theoria razo, no d +nenhuma lei consciencia, no d nenhuma norma dignidade. + +A imitao, a conveno, o servilismo, o estreito espirito de seita, de +partido, de escola, a ignorancia, a indolencia, a bajulao, a +orthodoxia official puzeram a pouco e pouco as lettras portuguezas +inteiramente fra do seu objecto--a simples e pura verdade humana. + +O que actualmente se escreve no absolutamente nada o que actualmente +se pensa. Todas as grandes questes capitaes que preoccupam a sociedade, +a litteratura ou as evita ou as falsea. Ou as evita porque as no sabe +tratar, ou as falsea porque as trata com um espirito particular de +interesse, hostil sciencia e rebelde arte. + +Entre tantos escriptores portuguezes que quotidianamente enegrecem em +Portugal o innocente papel sobre o qual se ora a medida das nossas +faculdades, onde est o homem cuja obra represente o precurso das idas +predominantes d'este seculo atravez d'esta sociedade? Onde est o +artista, onde est o philosopho, onde est o poeta que tenha atacado de +frente a soluo desinteressada, independente, firme, clara, nitida, dos +multiplos problemas que agitam o espirito, a consciencia, o corao do +homem moderno no meio do sentimento, do temperamento, da religio e da +politica da sociedade moderna? + +Ser tal escriptor o sr. Alexandre Herculano, philosopho collaborador da +sr. D. Guiomar Torreso no _Almanack das Senhoras_? + +Ser o poeta sr. Nunes, deputado conservador, o mais arrojado dos vates +que conhecemos dentro dos limites da carta constitucional e do systema +representativo? + +No nos parece. + +O sr. Oliveira Martins faz parte de um pequeno grupo de alguns +trabalhadores obscuros, inteiramente penetrados da corrente scientifica +do tempo actual, que teem procurado introduzir na litteratura as idas +correspondentes s preoccupaes, s necessidades e aos interesses mais +altos, mais legitimos e mais vitaes da sociedade em que vivem, fixando +assim scientificamente algumas das bases do programma geral da revoluo +por meio da qual se vae transformando o mundo europeu. + +Esses humildes obreiros, aos quaes cabe a gloria de terem iniciado em +Portugal quasi todos os grandes principios das civilisaes modernas, +no teem encontrado, como galardo dos seus estudos, da sua +independencia e da sua andcia de pensadores, seno a surda guerra das +maledicncias, das calumnias e dos desdens, evantada pelo obscurantismo, +pelo fanatismo, pela ignorancia. Accusam-os de attentarem contra a +moral, contra a religio, contra a ordem, contra o patriotismo, e +expulsaram-os vilmente e infamemente do respeito publico e da +considerao social como jacobinos, como communistas, como incendiarios. + + * * * * * + + do livro acima citado que extrahimos a seguinte pagina to sensata, +to viva, to humana: + +Portugal no tem pauperismo. por isso que entre ns se no levantaram +ainda, nem se levantaro j, Nelsons ou Sydney Smiths para dizerem como +em Inglaterra: A pobreza infame. por isso que a definio ingleza +da fabrica--_manufactura de algodo e de pobres_--no pode servir-nos. O +no attingirmos porm um termo to elevado de preverso social no quer +dizer que as classes trabalhadoras de todas as industrias vivas do paiz, +extractivas e transformadoras, encontrem para c das nossas fronteiras +um modo de vida essencialmente differente. No, a nossa organisao +politica, semi-monarchica, semi-liberal, d em resultado ser duplamente +absurda, immoral, pauperisadora. Porque, como liberal, permitte a livre +concorrencia do capital e do trabalho, aliena as funces e +propriedades collectivas, e, para corrigir as consequencias de +distribuio viciosa que d'ahi resultam, mantem uma proteco +anachronica, com as alfandegas, com a divida e com o imposto, proteco +que recaindo afinal toda no consumo, vem ainda aggravar as condies do +trabalhador pela elevao no preo das coisas. Acima da preverso +economica devemos pr a preverso moral. No pequeno mundo industrial de +Lisboa, no contaste nunca, leitor, aos sabados o numero de ebrios que +pova as vielas escuras e nauseabundas, onde crapula vem juntar-se a +orgia das mulheres perdidas? Onde o prostibulo est em frente da +taberna, ao lado o bilhar, e entre o bilhar, o prostibulo e a taberna, +se funde a feria? + +A desordem e a immoralidade so contra a natureza. Se esses homens no +fossem pobres seriam melhores. Se no tivessem de trabalhar doze horas +para comer saberiam ler. Se tivessem po e liberdade seriam paes de +familia. Olhae as mulheres e as creanas. Termo medio a familia tem +quatro pessoas; termo medio o salario de 400 ris. O trabalhador +recorre ao celibato, prostituio, s relaes illicitas, d'onde +resultam os infantecidios (to frequentes em Portugal como na China) e a +roda dos expostos. Quando um homem foi agarrado por esta engrenagem +d'ao morreu. Ha muitos a quem uma certa energia de caracter ou uma +constituio artistica e sentimental levaram ao casamento e familia: +ento que se encontram quatro pessoas com quatro tostes por dia. A +industria offerece uma tentao diabolica: augmentar o salario +destruindo a familia. N'esse momento a esposa e os filhos entram na +_fabrica_ ... + + * * * * * + +A fabrica para as mulheres e para as creanas o sepulchro do pudor, da +honestidade e da saude. Emquanto as instituies sociaes no assegurarem + mulher o seu legitimo logar na familia absolutamente preciso que, +pelo menos a protejam na miseria fatal da fabrica. Porque nas fabricas +portuguezas o que succede com a mulher que, pela sua fraqueza e pela +sua ignorancia, ella no trabalho o escravo do homem. Ninguem entre ns +tem lanado os olhos a esses desgraados destinos obscuros. + + * * * * * + +Acostura que ainda ha pouco era o grande refugio das raparigas pobres +desappareceu com a machina de cozer. A mulher no pde sustentar essa +concorrencia, porque ella no pde, por maiores que sejam os esforos +dar por suas mos mais de 30 pontos por minuto: a machina d 643 pontos +no mesmo espao de tempo. Para se empregar n'outros servios precisaria +de uma educao preparatoria pratica, para a qual so indispensaveis as +escolas profissionaes que no existem em Portugal. Em Frana, na +Inglaterra, na Allemanha e principalmente na Suecia, as mulheres +habilitadas em cursos especiaes teem j muitos empregos uteis na +industria e no commercio. Em 1871 havia na Suecia 4:055 mulheres +empregadas no commercio e na industria. D'estas 2:675 dirigiam os seus +proprios negocios. Quinhentas e quatro mulheres eram proprietarias de +fabricas e de officinas. Alm d'isto muitas outras se achavam empregadas +nos bancos, nas caixas de soccorros, nas companhias de seguros, etc. com +emolumentos annuaes variando de 800 a 5:000 rixdalers. No servio dos +correios, dos caminhos de ferro, dos telegraphos, a mulher alarga de dia +para dia os seus dominios. A America, a Suecia, o Wurtemberg, +offerecem-lhe sob esse ponto de vista as maiores facilidades. + +Em Darmstadt muitas mulheres se acham empregadas nas reparties de +estatistica com optimos resultados para o servio publico. Os cuidados +aos doentes so um bello emprego para o trabalho das mulheres. Na +Hollanda muitas teem sido auctorisadas a tirar diplomas de +pharmaceuticos. A profisso medica tem-lhes sido permittida em diversos +paizes. Na America, em S. Petersburgo, em Zurich, em Upsel e em varias +outras universidades ha um consideravel numero de alumnos do sexo +feminino estudando a medicina. Na Suecia estabeleceu-se pelo estado um +fundo permanente de soccorros para as mulheres que seguem a carreira +medica. + +A ultima exposio de Vienna veiu provar ainda quanto as mulheres se +teem ultimamente occupado nas artes industriaes e nas bellas artes. Na +exposio sueca v-se no pavilho dos productos da industria o perfeito +exito com que as mulheres teem cultivado n'aquelle paiz a pintura, a +gravura em madeira, a xylographia, a lythographia, a gravura em cobre, a +photographia, a cartographia, a pintura em porcelana, a modelagem. Na +Suecia concedeu-se-lhes accesso, como aos demais empregados, nos +servios dos telegraphos, dos correios e dos caminhos de ferro. +Admittem-as como gravadoras na casa da moeda; muitas so empregadas nas +academias, nas imprensas e n'outros estabelecimentos como xylographas, +impressoras, compositoras, directoras de officina, etc. + +Na Suecia ha hoje immensas escolas sustentadas pelo governo, pelas +communas e por associaes particulares onde ensinam s raparigas pobres +todos os trabalhos femininos do mnage. Ha escolas especiaes +destinadas a formar creadas. Em Stockolmo ha escolas de remendagem onde +as raparigas aprendem a concertar os seus fatos e a sua roupa branca com +um acceio e uma arte inexcedivel. As meninas burguezas teem sua +disposio a escola industrial de Stockolmo, as escolas normaes reaes, o +instituto central de gymnastica onde se formam mestras de gymnastica, a +academia real de musica, a academia das bellas artes os estabelecimentos +de instruco das parteiras e a mesma universidade, onde se ministram +subsidios a tres raparigas que estudam por conta do estado. Depois da +Suecia devem-se citar os Paizes Baixos e a Austria. Em Vienna a +municipalidade fundou em alguns bairros escolas industriaes nocturnas. +Sociedades de senhoras estabeleceram escolas profissionaes de +differentes especies. Ha uma sociedade especial encarregada de obter s +mulheres meios de subsistncia (Frauenerwerb-Verein). Alm das escolas +preparatorias para a instruco geral elementar e para a instruco +superior, estabeleceu a referida sociedade uma escola de costura, uma +escola superior de trabalho com um curso de estudos que dura tres annos, +uma escola de desenho industrial, uma escola de commercio, uma escola de +linguas, um curso especial para as empregadas na telegraphia. Na +Hollanda na escola industrial de Amsterdam que se instrue a mocidade +feminina no s nos trabalhos manuaes, taes como o bordado, costura +mo e machina trabalhos de cartonagem e obras de palha, escripturao +commercial, legislao commercial e pharmacia. Na Alemanha do norte e na +Alemanha central ha egualmente muitas escolas industriaes fundadas por +sociedades especiaes e por outras corporaes para a educao das +raparigas e das mulheres. Um fabricante de Munich fundou uma excellente +escola de ensino commercial para as raparigas da classe burgueza e da +classe operaria. As mulheres que sem d'esta escola encontram +immediatamente emprego nos bancos, ou nas casas de commercio. + +A Russia resolveu ultimamente facultar a matricula na escola de medicina +de S. Petrsburgo s mulheres habilitadas com determinados titulos de +capacidade. Logo depois da promulgao d'esta lei, quatrocentas mulheres +se apresentaram como candidatos frequencia da alludida faculdade. + + * * * * * + +Sabem dizer-nos o que que, sob este ponto de vista, se tem feito em +Portugal? Esperamos que suas excellencias os senhores conservadores se +dignaro responder-nos. + + * * * * * + +O sr. marquez de Vallada mandou correr este mez os reposteiros +brasonados dos seus sales para inaugurar as soires elegantes do +presente inverno com um jantar _pri_. + +Assistiram todos os membros do gabinete e varios outros personagens +illustres na politica e na burocracia. Sentia-se apenas uma falta n'essa +reunio selecta: a ausncia absoluta de senhoras no palacio do nobre +fidalgo. Bem sabemos que um jantar no precisamente como uma valsa +para a qual a gente no ha de ir convidar a lagosta, nem danar com o +per. Mas mesmo para o que comer no basta apenas a comida. O sr. +marquez sabe a este respeito a opinio de Savarin: o bruto pasta, o +homem come, s o homem de espirito que sabe comer. Ora uma duzia de +barbatolas postos a mascar trufas uns diante dos outros em volta de uma +mesa no nos parece que deem o espectaculo da espiritualidade mais fina. + preciso que concorram tambem as senhoras, com a _toilette_, com a fina +pelle, com os perfumes, com as rendas, com as perolas, com as frescas +risadas cristalinas, com os agudos ditos penetrantes, com a elevao +finalmente, com a idealidade, com o espirito. + + * * * * * + +Atravessar a gente por entre duas filas de criados gordos e graves como +embaixadores, indo por baixo dos lustres, pizando um tapete espesso, +dando o brao a alguem, ou seguindo mesmo, atraz, sosinho, na turba dos +obscuros, com a claque debaixo do brao; entrar na sala de jantar, +tepida, fulgurante de luz; contemplar a mesa de um aspecto tropical pela +natureza das fructas e pela frma das flres trasvasadas do plateau, +procurarmos o nosso nome nos bilhetes que esto em cima dos guardanapos; +sentarmo-nos ao dce murmurio dos vestidos que se enffam ao nosso lado +e dos talheres que telintam; desdobrar nos joelhos um amplo guardanapo, +frio, lustroso e pesado, de linho de Irlanda; aconchegarmo-nos, unirmos +os cotovellos ao corpo e inclinarmo-nos sobre o prato; metter na bocca a +primeira colher do sopa, sentir estalar e derreter-se no dente o +primeiro rabiolo, escorrendo no paladar o acre succo dos espinafres, em +quanto a nossa visinha da esquerda mette a sua luva enrolada no copo do +Madeira, e a nossa visinha da direita morde atrevidamente no po +deixando-nos vr de lado todos os seus pequeninos dentes mais lindos que +as suas perolas ... isto realmente acharmo-nos n'um dos momentos mais +augustos que a civilisao e a elegencia concedem ao homem em paga dos +sacrificios que elle lhes tem feito nos esmeros da educao e na alta +cultura do espirito. ento que as mulheres, smente as mulheres--ellas +que vivem na graa e no mimo como os solitarios vivem no egoismo e no +tedio--desenvolvem o talento especial de fazer romper os alados +assumptos ligeiros e subtis, em torno dos quaes adejam as conversaes, +as phantasias, as replicas, os repentes, como doiradas abelhas famintas +sobre um ramo de rosas. + +Se n'esses momentos os homens se acham ss, ou caem na bestialidade +indolente e calada dos deuses de Epicuro, ou discutem, questionam, +fallam alto, gritam, pem os cotovellos na mesa, fazem gestos, fazem +bolas de po, do estalos com a lingua, limpam as unhas, e quebram +palitos nos dedos--o que ha mais implicativo dos nervos e mais offensivo +do gosto. + + * * * * * + +Consta-nos que pelas razes referidas o jantar do sr. marquez tocou um +pouco no tetrico. O silencio era a principio to solemne que apenas se +ouvia confusamente o ruido da maioria parlamentar engolindo pelo +esophago do ministerio e a ordem e a guarda municipal mastigando pela +bocca do sr. baro do Zezere. Tinha-se ar de se estar n'uma sesso +deliberativa e no n'uma festa; parece at que o sr. marquez de Avila, o +illustre parlamentar, dirigindo-se a um criado, se mostrra gravemente +preoccupado ao ponto de que, sendo a sua inteno pedir-lhe Sauterne, +lhe pedira a palavra. + +Por fim parece que o dono da casa usara da fala para expr o objecto +d'aquella reunio, o qual, segundo referem os jornaes, foi: + +_Affirmar a adheso do sr. marques de Vallada monarchia_. + + * * * * * + +Achamos extremamente louvavel e digno de ser imitado por todos os +fidalgos portuguezes o exemplo dado pelo sr. marquez de se sacrificarem +pelo throno ao ponto de no hesitarem um momento, para o salvar, em +irem ... para a mesa! + +Os vossos avs, quando queriam dedicar-se ao esplendor da cora iam +bater-se em Arzilla, em Ormuz, em Ceuta, em Tanger, descobriam terras, +venciam batalhas, conquistavam reinos. + +Quereis provar-nos que ainda guardaes nos vossos archivos as antigas +cartas do roteiro dos mares? Que ainda tendes nas vossas panoplias as +duras armaduras e as famosas lanas dos vossos maiores? Muito bem! Visto +que no podeis refazer o que est j feito por elles, comeae pelo menos +a realisar o que elles tantas vezes omittiram: jantae! + +E a cora ver, pela maneira como vos mostrardes aptos para comer, +quanto sois capazes de amar. + +Assim como o Castro forte dizia que por cada pedra da fortaleza de Diu +elle daria um filho, mostrae vs que por cada perna de per trufado +sereis capazes de dar um av. E o soberano, jubiloso e grato, +contemplando por cima da gloriosa terrina da historia contemporanea, os +feitos valorosos dos vossos garfos invenciveis, apreciar os vossos +titulos de immortalidade, discriminando, no ardor e na confuso das +refregas, os que se lhe dedicam at ao pato com arroz, os que o +estremecem at ao frango com hervilhas, os que o idolatram at s +salchichas com couve lombarda! + + * * * * * + +Mas por Deus, meus senhores, consenti que vol-o repitamos: No excluaes +dos agapes patrioticos com que preparaes a entranha para a communho +monarchica, o doce elemento feminino, o melhor encanto do triumpho, o +mais alto premio do heroismo, o mais precioso complemento da gloria! Se +a prosmicuidade dos sexos insuperavelmente vos repugna, que alguns de +vs pelo menos se sacrifiquem s conveniencias da arte, s prescripes +do bello, e salvem sequer as apparencias--vestindo-se de mulheres! + +Animo, senhores commandantes dos corpos! animo, senhores officiaes +maiores! animo, senhores ministros de estado! por ellas, que vos +pedimos isto, pelas que tiveram sempre o seu logar nas nossas gloriosas +tradices dymnasticas! Lembrae-vos d'ellas, e ide lanar-vos aos ps da +Aline! Lembrae-vos d'ellas, e consenti em decotardes os vossos hombros! +Elanguescei, meus senhores, reclinae meigamente as frontes, cerrae +levemente as palpebras, agitae um pouco os vossos leques, dae suspiros, +ponde taes de setim escarlate, vinde de cuia! e, sobretudo--no o +esqueaes--trazei _tournure_ ... Que vos custa trazer _tournure_? Uma +coisa to facil, que se traz como as patronas! + + pelo throno, pelo mesmo throno de que vos declaraes adeptos, que vos +supplicamos isto! pelas vossas excelsas e augustas soberanas, no +representadas no vosso banquete ... Em nome de Mecia Lopes, meus +senhores! Em nome de D. Urraca! + + * * * * * + +A imprensa de Lisboa no tem opinio. Aquelles dos seus membros que por +excepo presentem as idas proprias, vivas, originaes zumbindo-lhes +importunamente no cerebro, enxotam-as como vespas venenosas. que a +misso do jornalismo portuguez no ter idas suas, transmittir as +idas dos outros. Por tal razo em Lisboa o homem que pensa no nunca +o homem que escreve. O jornalista nunca se concentra, nunca se recolhe +com o seu problema para o meditar, para o estudar, para o resolver. +Nunca procura a verdade. Procura apenas a soluo achada pelo publico, +pelo publico d'elle, pelo seu partido politico, pelos consocios do seu +club, pelos seus amigos, pelos seus protectores, pelos seus assignantes. +Portanto trabalha na rua, debaixo da arcada do Terreiro do Pao, nos +corredores ou nas tribunas de S. Bento, no Chiado, no Martinho, no +Gremio. Como trabalha? Trabalha d'este modo: _informando-se_;-- o termo +technico. Uma vez informado, o jornalista considera-se instruido. Desde +que tem a informao recebida tem o jornal feito. O que elle vos escreve +hoje--notae-o bem-- o que vs lhes dissestes hontem. O jornal no uma +fonte de critica, de analyse, de investigao. O jornal o barril de +transporte das idas em circulao, das solues previamente recebidas e +approvadas pelo consenso publico. O jornalista o aguadeiro submisso e +fiel da opinio. No a dirige, no a corrige, no a modifica, no a +tempera. O unico servio que lhe faz este: transporta-a dos centros +publicos aos domicilios particulares. O publico a nascente, o veio, + o manancial; a imprensa periodica simplesmente--o cano. + + * * * * * + +Essa a lei geral da conducta da publicidade em Portugal. Toda a +transgresso d'essa lei um eminente perigo para o que a commette. O +leitor portuguez no quer que o seu livro ou o seu periodico o obriguem +s fadigas da discusso e da controversia com o seu proprio espirito. A +conquista desinteressada e pura da verdade no tem attractivo algum para +as suas faculdades. As curiosidades e os interesses especiaes da alma +portugueza repastam-se no sentimento: a reflexo molesta-a. Entre tantos +escriptores nacionaes nunca houve um pensador. Descartes, Spinosa, Kant +seriam inteiramente impossiveis no seio d'esta sociedade, a que falta a +respirao logo que a tirem da rotina. No se lhes d, aos leitores +portuguezes, de verem a verdade, mas querem a verdade atravez da +opinio. Ninguem pensa fra das materias da ordem do dia. Que ha de +novo? a nossa pergunta de todas as manhs. Esta phrase profundamente +caracteristica quer dizer: Dem-me a senha e a contrasenha; digam-me em +que pensam para eu saber o que hei do pensar. O meu jornal vem bom ou +vem mau segundo ou no em cada dia a expresso das minhas convices +baseadas em idas preconcebidas na convivencia do publico. O criterio +substituido pelo _mot d'ordre_. + +Se n'um tal meio intellectual apparece um miseravel solitario, que no +tem um partido, que no tem um centro, que no tem um _club_, que no +tem sequer um botequim, mas que, no obstante, segue os successos do seu +tempo e exprime a respeito d'elles uma opinio absolutamente individual, +isto --livre, sobre esse homem cem todas as suspeitas, todas as +presumpes malevolas que acompanham atravez de uma multido apalavrada +um intruso mysterioso e sinistro. Tal a especie de acolhimento que por +differentes vezes nos tem sido feito e que mais particularmente nos foi +manifestado depois da publicao do nosso ultimo numero a proposito de +dois artigos, um consagrado ao sr. Alexandre Herculano, outro destinado + casa de correco installada no convento das Monicas. + + * * * * * + +Lemos alguns dos artigos que nos foram consagrados, e achamo-nos +inteiramente edificados cerca do nosso desacato s instituies +publicas e da nossa irreverencia com as glorias nacionaes. + +Smente, meus senhores, uma coisa nos parece ter-vos esquecido, e : +demonstrar-nos que a reverencia das instituies e o respeito das +celebridades gloriosas seja um instrumento de critica ou um meio de +analyse. Porque ns--talvez o no tenhaes comprehendido bem--ns no +somos propriamente os mestres de ceremonias da gerao a que +pertencemos. No estamos aqui a leccionar mesuras nem a praticar +experiencias sobre a variedade das curvas mais ou menos inclinadas a que +se nos presta o espinhao. Ns somos apenas uns simples chronistas do +tempo que vamos atravessando. Somos os contribuintes especiaes do mez +para a historia geral do seculo. Ora no ser pondo-nos humildemente de +cocoras no cho que ns veremos de mais alto as coisas e os homens. No +exame e na apreciao dos factos o minimo vislumbre do respeito um +perigo da verdade. Michelet, demolindo no seu ultimo livro a legenda +napoleonica filha da reverencia da historia pelo falso heroismo de +Bonaparte, mostra-nos que a fascinao grosseira produzida pelo heroe +de Marengo e de Austerlitz teria cahido perante o bom senso e perante a +gargalhada, se a Frana no tivesse perdido, depois do Terror, o riso, a +sua grande arma contra os tyrannos. + +O primeiro dever da critica diante dos grandes acontecimentos e dos +grandes personagens simplesmente o despreso ou a zombaria ... Michelet +diz mesmo o sacrilegio como instrumento da verdade! e aconselha-nos +que imitemos como historiadores o exemplo de Renaud de Montauband +pegando n'um tio para barbear Carlos Magno. + + * * * * * + +De resto, meus senhores, para que se mantenham na decencia do culto as +tradies patrioticas, parece-nos inutil que ns nos occupemos d'isso. +L estaes vs, diligentes e sollitos, para espanardes as teias da aranha +aos velhos principios, para varrerdes as instituies veneraveis, e para +conservardes em bom estado os heroes e os sabios, limpando-lhes as golas +das sobrecasacas, engraxando-lhes os sapatos e pondo-lhes rap novo no +nariz. + + * * * * * + +Chegmos tarde para fallar da grande tragedia monumentosa do +Mexilhoeiro. O paiz inteiro se pronunciou j sobre este caso, o maior da +historia contemporanea. O facto tem sido largamente tratado em artigos +de jornaes, em folhetins, em trechos de romance, em pias legendas, em +dramas, em _te-deuns_ cantados em todas as cathedraes, em polkas +expressivas, em missas rezadas em todas as egrejas, em felicitaes de +todos os municipios, em sentimentaes mazurkas. + +Uma s coisa nos parece que falta, e a que propomos: um monumento que +eternise to alto successo, levando s geraes vindouras esta lapide: + +AOS MOLHADOS +POR UMA FRIA TARDE +NO PEGO DO MEXILHOEIRO +A GLORIA +RECONHECE N'ESTE MONUMENTO +OS IRREFRAGAVEIS DIREITOS +DE TO ILLUSTRES VICTIMAS + +CONSTIPAO + +INDEX + +_Dos volumes d'esta chronica_ + +PUBLICADOS AT HOJE + + + I--Maio................... 1871 + + II--Junho.................. + + III--Julho.................. + + IV--Agosto................. + + V--Setembro............... + + VI--Outubro................ + + VII--Novembro............... + + VIII--Dezembro............... + + IX--Janeiro................ 1872 + + X--Fevereiro.............. + + XI--Maro.................. + + XII--Abril.................. + + XIII--Junho a julho.......... + + XIV--Julho a agosto......... + + XV--Setembro a outubro..... + + XVI--Novembro............... + + XVII--Dezembro............... + +XVIII--Janeiro a fevereiro.... 1873 + + XIX--Maro a abril.......... + + XX--Outubro a novembro..... + + +Nota. D'hora vante cada um dos volumes d'esta publicao ser marcado +com o correspondente numero. + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas: Chronica Mensal da +Politica, das Letras e dos Costumes, by Ramalho Ortigo and Ea de Queiroz + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS *** + +***** This file should be named 14622-8.txt or 14622-8.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/1/4/6/2/14622/ + +Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed +Proofreading Team. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. diff --git a/old/14622-8.zip b/old/14622-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..60b4410 --- /dev/null +++ b/old/14622-8.zip diff --git a/old/14622-h.zip b/old/14622-h.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..ac6f8ac --- /dev/null +++ b/old/14622-h.zip diff --git a/old/14622-h/14622-h.htm b/old/14622-h/14622-h.htm new file mode 100644 index 0000000..3da81bc --- /dev/null +++ b/old/14622-h/14622-h.htm @@ -0,0 +1,2604 @@ +<!DOCTYPE html PUBLIC "-//W3C//DTD XHTML 1.0 Strict//EN" + "http://www.w3.org/TR/xhtml1/DTD/xhtml1-strict.dtd"> +<html xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml"> +<head> + <meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=ISO-8859-1" /> + <meta content="pg2html (binary v0.16)" name="generator" /> + <meta name="author" content="Ramalho Ortigo and Jos Maria Ea de Queiroz" /> + <title>The Project Gutenberg eBook of As Farpas, Outubro a Novembro de 1873 by + Ramalho Ortigo and Ea De Queiroz.</title> +<style type="text/css"> +/*<![CDATA[*/ + <!-- + body { margin-left: 10%; margin-right: 10%; } + h1,h2,h3,h4,h5,h6 { text-align: center; } + hr.major { width: 30%;} + hr.minor { width: 10%;} + .centered {text-align: center} + .poem { margin-left: 10%; margin-right: 10%; margin-bottom: 1em; text-align: left; } + .poem .stanza { margin: 1em 0em 1em 0em; } + .poem p { margin: 0; padding-left: 3em; text-indent: -3em; } + .poem p.i2 { margin-left: 1em; } + .poem p.i4 { margin-left: 2em; } + .poem p.i6 { margin-left: 3em; } + .poem p.i8 { margin-left: 4em; } + .poem p.i10 { margin-left: 5em; } +/*]]>*/ + // --> +</style> +</head> +<!--====================================================--> +<body> + + +<pre> + +The Project Gutenberg EBook of As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das +Letras e dos Costumes, by Ramalho Ortigo and Ea de Queiroz + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + +Title: As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes + Outubro a Novembro de 1873 + +Author: Ramalho Ortigo and Ea de Queiroz + +Release Date: January 6, 2005 [EBook #14622] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + +*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS *** + + + + +Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed +Proofreading Team. This file was produced from images generously +made available by the Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal. + + + + + + +</pre> + +<div class="centered"> + <img src="images/devil73.png" width="500" height="750" + alt="As Farpas—R. Ortigo—Ea de Queiroz" /> + <!--IMAGE END--> +</div> +<hr class="major" /> +<h1> + AS FARPAS +</h1> +<div class="centered"> + <p>RAMALHO ORTIGO—EA DE QUEIROZ</p> + <p>CRONICA MENSAL DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES</p> + <p>3. ANNO</p> + <p>Outubro a Novembro de 1873</p> + <p>VOLUME XX</p> +</div> +<hr class="major" /><!--===================--> +<blockquote> +<p> + Ironia, verdadeira liberdade! s tu que me livras da ambio do poder, + da escravido dos partidos, da venerao da rotina, do pedantismo das + sciencias, da admirao das grandes personagens, das mystificaes da + politica, do fanatismo dos reformadores, da superstio d'este grande + universo, e da adorao de mim mesmo. +</p> +</blockquote> +<p class="centered"> + P.J. PROUDHON +</p> +<hr class="major" /><!--===================--> + +<p class="centered"> + <b>SUMMARIO</b> +</p> +<p> + Regresso. Explicaes—Historia de uns ps—Modos de morrer. Os + Lovelaces do sepulchro. Os descamisados da cova—Epistola aos +<a href="#catholicosdoporto">catholicos do Porto</a>. + A associao catholica, seus fins, seus meios, sua + organisao, seu programma. O catholicismo. A egreja refugio da + liberdade. As propagandas catholicas em Frana e na Italia. Manzoni, + Rosmini, Balbo, Chateaubriand, Lamartine, o sr. conde de Samodes. Os + padres portuguezes. O liberal, o reaccionario, o indifferente. O + confissionario. As academias da +<a href="#picaria">rua da Picaria</a>. A mulher christ. O + partido liberal portuense e a infallibilidade do papa. O protestantismo + do sr. +<a href="#bismark">Bismark</a>. + O seculo XVI. Theoria do scepticismo. A duvida na + politica, na sciencia, na religio. A +<a href="#tolerancia">tolerancia</a>—Festa veneziana nas + aguas de +<a href="#caparica">Caparica</a>—O + aio de sua alteza. O que o aio? O perfil do sr. +<a href="#ferrao">Martens Ferro</a>. + A corte, a mocidade, a aventura, os taes encarnados, + as espadas dos paladinos. Semiramis, Cleopatra, Penelope e outras. A + regencia. O beijo de +<a href="#laczinska">Maria Laczinska</a>. + A bengala de +<a href="#constancia">Constancia de Arbes</a>—As + senhoras hispanholas e os faqueiros—O santo padre, o + imperador Guilherme, o martyrio e as pastilhas de Voltaire. O +<a href="#chambord">conde de Chambord</a> + e o constitucionalismo. Saul, Pepino, Henrique IV. Historia + philosophica dos pontaps nas monarchias modernas—Perfil do sr. D. + Miguel de Bragana e influencia politica d'este rei, o seu typo + physionomico, o seu temperamento, a sua popularidade. De como se + fabricou o partido liberal portuguez. + O Joo Sedvem, o Jos da Policia, o Telles Jordo e a ida nova. De como + o actual principe D. Miguel anemico—O jornalismo, as idas, os + aguadeiros da opinio publica—O +<a href="#mexil">drama do Mexilhoeiro</a>—A falta do +<a href="#elementofeminino">elemento feminino</a> + nos banquetes patrioticos. +</p> +<hr /> +<p> + Leitor querido—Depois de uma longa absteno de tres mezes—os mezes do + vero—<i>As Farpas</i> voltam a apparecer no teu banquete ao mesmo tempo a + que recomeam a servir-se tambem as ostras. +</p> +<p> + similhana dos mariscos, qu no bom comerem-se nos mezes que no + teem r, estas paginas condimentosas e estimulantes, se abusasses d'ellas + no tempo quente, amigo, far-te-hian, talvez, furunculos. +</p> +<hr /> +<p> + Alm de que, o vero tem influencias de expansibilidade que + desconcentram a vida da esphera das suas condies normaes. a epoca + das viagens, dos banhos, das estaes do campo. Abandona cada um o + interior da sua casa, os seus habitos, as suas occupaes, a sua + hygiene, o seu trabalho. Frma-se uma existencia interina, transitoria, + supplementar. Est-se em uma casa alugada por dois mezes como hospede de + uma noite n'uma estalagem. No se reside; pernoita-se apenas, e + passam-se os dias. Com a supenso do trabalho esterilisam-se tambem as + idas, porque todo o trabalho uma fecundao da intelligencia. Assim + todo o ser humano temporariamente transplantado da parte de solo, de + atmosphera moral, em que ordinariamente exerce a sua actividade, + emurchece. O portuguez, que sempre l pouco, no vero ento no l nada. + Achei-me por muitas vezes durante a estao finda a bordo dos pequenos + vapores que fazem o transporte dos banhistas entre Lisboa e as praias. + Os setenta minutos d'estas breves viagens eram o tempo consagrado por + cada um para, por meio da leitura, pr as suas idas em relao com os + interesses intellectuaes e moraes do resto do mundo. Fra do convez dos + vapores de Belem ninguem nas praias l, ninguem tem comsigo um livro. + Isto no uma simples hypothese, uma observao positiva. Em + Pedroios, por exemplo, a vida—toda de porta da rua— transparente: + v-se o que cada um faz, quasi que tambem se v todo quanto cada um + sente e quanto cada um pensa. Pois bem, nas viagens dos vapores de + Belem, unico lapso de tempo destinado pelos banhistas ao estudo, + observmos durante o periodo de tres mezes consecutivos que ninguem lia + seno almanachs, colleces de cantigas ou de charadas, e os periodicos + de noticias. Que elementos para, a educao intellectual de alguns + milhares de cabeas: darem mergulhos no Tejo, aprenderem nos livros que + nasceu o dente do sizo ao sr. Alexandre Herculano, e saberem pelos + jornaes que o sr. commendador Santos foi Outra Banda em partida da + recreio, com os seus amigos, comer um safio! +</p> +<hr /> +<p> + No foram essas porm as rases porque <i>As Farpas</i> se callaram durante a + estao calmosa. Os nossos motivos so inteiramente pessoaes. Ns + adoecemos ... Perda, leitor benevolo, estas perigosas tendencias de um + convalescente para a autobiographia. No, no foi um dente novo que nos + esteve crescendo. Ns no temos, como o immortal historiador a que acima + nos referimos, a honra de abrir estas linhas offerecendo patria e + sr. D. Guiomar Torrezo mais um novo instrumento gloriosamente + recemnascido para a trincadeira nacional. +</p> +<p> + O nosso mal, foi simplesmente uma affeco na larynge. Apanhmos isto + no Chiado. Tivemos na mucose da garganta as mesmas granulaes que + padecem os beduinos na mucose das palpebras por effeito do p nas + peregrinaes do deserto. O Chiado pagou-nos o pessimo gosto burguez, + especieiro, indigno, abominavel, de o frequentar, dando-nos esta doena + climaterica e local. Os hospitaes de S. Jos e do Desterro do as + desyntherias e as gangrenas; os tanques do Passeio do Rocio do as + febres paludosas e intermittentes; o Limoeiro e a Casa de deteno das + Monicas do as viciaes do sangue e as escrophulas; o Chiado e o + deserto da Arabia do as affeces granulosas da larynge e dos olhos. + Cada um d o que tem. +</p> +<p> + A poeira do Chiado uma especialidade curiosa, interessante, to + romanesca como a sombra da mancenilha. Esta poeira fina, miuda, subtil + como a <i>veloutine</i> de Lubin. Ligeiramente tocada pela aza morna do vento + leste, ensinua-se, entranha-se, penetra docemente, consoladoramente, + profundamente—como a calumnia. Depois, uma vez inoculada, produz as + ophtalmias e as esquinencias—as duas maiores enfermidades de Lisboa. + No simplesmente formada pelas trituraes da terra esta poeira. No, + porque o solo em Lisboa no de terra. Aqui a terra tem sido de tal + maneira misturada, falsificada, fingida, que, hoje, aquillo que + primitivamente era a terra j no tem terra nenhuma. O solo de Lisboa + formado de sobreposies de estercos, de amalgamas de lixo, de restos + pulverisados de fructas podres, de ces mortos e de papeis sujos. +</p> +<p> + De todas estas misturas requeimadas pelo vero, carbonisadas pelo sol + canicular, moidas sob as rodas dos trens e sob os ps pressurosos do sr. + conselheiro Arrobas, resulta o p envenenado da capital. Os papeis + velhos de Lisboa, dejeces burocraticas ou litterarias dos bancos, dos + cartorios, dos tribunaes, dos escriptorios dos negociantes, dos + jornalistas, dos advogados, dos tabellies e do sr. Melicio, so de tal + maneira abundantes que todos os esgotos da cidade no bastam para os + engulir. A brisa espalha esses papeis dilacerados pelas povoaes + suburbanas. A praia de Belem uberrima de papeis sujos, e Pedrouos, a + manso burgueza das villegiaturas officiaes, parece-se no aspecto + especial das suas immundicies com um corredor da secretaria das Obras + Publicas destinado a projecto de nitreira modelo pelos disvellos + agronomicos do sr. Rodrigo de Moraes Soares. +</p> +<p> + De modo que a antiga expresso <i>terra da patria</i>, com referencia a + Lisboa e seus suburbios, figura de rhetorica em demasia arrojada. A + patria do lisboeta no tem terra, tem os agglomerados residuos das + podrides e dos papeis velhos. O nauta vigilante, que do alto mar + descobre no azul o ponto escuro e indeciso d'estas praias, proceder com + louvavel exactido e amor da verdade se em vez do grito poetico de + <i>terra! terra!</i> comear a exclamar vista de Lisboa: Supedaneo de + Melicio!—ou—Nitreira de Soares! +</p> +<p> + Victima ns mesmo em todo o nosso apparelho respiratorio d'essas + influencias deleterias da geologia e da civilisao lisbonense, achamos + prudente substituir—como fizemos—a convivencia do publico pela do + gargarejo. +</p> +<hr /> +<p> + No theatro de D. Maria, o drama—<i>Idiota</i>. +</p> +<p> + Suppoz-se pelos annuncios que <i>Idiota</i> seria uma pea sem nome do + auctor. Equivoco. Era um nome do auctor sem pea. +</p> +<p> + No theatro de S. Carlos exhibio extraordinaria dos ps do sr. + Barberat. A primeira vez que este cantor appareceu em scena os + violinistas da orchestra suppozeram que elle se lhes tinha calado—nas + caixas das rebecas. +</p> +<p> + Quando no dia da chegada elle poz porta as suas botinas para engraxar, + os creados do hotel cuidaram que elle rescindira a escriptura e se + retirava, por se lhes figurar que o sr. Barberat tinha j no corredor as + malas. +</p> +<p> + Em algumas alfandegas os guardas do fisco, desconfiados d'elle, teem-lhe + pedido as chaves dos ps! +</p> +<p> + Nunca at hoje poderam dormir juntos os ps e elle. Emquanto elle est + deitado de costas, os seus ps esto erguidos, ao fundo do leito, + embuados em capas, contemplando-o, firmes e silenciosos. Pela manh os + ps esto mortos de somno e de fadiga, e para que elles se deitem um + momento, elle ento, compadecido—levanta-se. +</p> +<p> + Ou por que elle os no queira desasocegar de dia, lembrando-se de que + teem de estar a p de noite, ou porque elles mesmos se recusem + obstinadamente a uma evoluo a que debalde os teem querido algumas + vezes violentar, o artista desistiu absolutamente de vestir as calas + pelos ps e comeou a vestil-as, como a camisa,—pela cabea. Antes de + chegar a esta prudente soluo, o cantor, para conseguir vestir-se, era + obrigado todas as manhs ou a descoser as calas, ou a desmanchar os + ps. +</p> +<p> + Uma das coisas que mais vivamente picou a curiosidade do publico nas + primeiras vezes em que este artista se mostrou em S. Carlos foi saber + como elle poderia cantar n'um theatro pequeno para que podesse estar + mais alguma coisa em scena alm d'elle com os ps. O empresario acaba de + confiar-nos a explicao d'esse segredo, que elle nos permitte enviar + d'aqui como uma dadiva sua justa anciedade das platas. Mesmo porque o + empresario attribue, com bastantes probabilidades de acerto, a esta + preocupao do publico perante os ps phenomenaes do baixo a frieza + desdenhosa com que nas primeiras noites se escutou o canto to vivamente + sentido, to profundo e to genial da Galetti. +</p> +<p> + Pois bem, meus senhores, no pensem mais n'isso. Querem saber como elle + cantava nos pequenos palcos?... +</p> +<p> + Do mesmo modo que cantam os gallos—n'um p s. +</p> +<hr /> +<p> + praia da Torre em Belem foi hontem arrojado pela mar o cadaver de um + homem afogado Era ainda novo, robusto e forte. Estava vestido de panno + azul. A jaqueta e o collete que vestia tinham botes de metal doirado + com uma ancora em relevo. Na manga estava presa uma cora tambem de + metal. Tinha na algibeira um relogio e algumas moedas de prata + portuguezas e brazileiras. As auctoridades da policia e da saude vieram + praia e olharam para o cadaver, como a lei manda. Depois do que, + officialmente averiguado que estava ali effectivamente o cadaver de um + afogado, pegaram nelle, atiraram-o ao fundo de uma cova aberta pressa + na praia, e cobriram-o com alguns metros de areia. +</p> +<p> + Bem feita coisa! +</p> +<hr /> +<p> + Nem toda a gente vae para a sepultura com esta simplicidade de + apparatos, a que podemos chamar o <i>enterro incivil</i>. Mas todos os ces + se enterram por este modo, e no por isso menos repousado o seu eterno + somno. Alm de que, preciso que cada um se apresente na eternidade em + condies que no desdigam da gerarchia em que viveu e do conceito em + que o teve a sociedade e a opinio publica. Pretender o contrario + querer lograr a divina justia sujeitando-a a illudir-se com o aspecto + exterior dos mortos e a acolher com os mesmos cumprimentos na crte do + ceu o primeiro aguadeiro que chegue assim como o mais digno e + respeitavel ministro de estado ou general de diviso que se + apresente,—o que seria certamente para Deus um desgosto profundo. Logo: + que cada qual morra como o que e v para o outro mundo como o que foi, + para no pr em equvocos a celestial etiqueta! +</p> +<hr /> +<p> + um senhor conselheiro a pessoa que morre, na sua cama, victima da sua + gotta? Vestem-se-lhe as suas calas de presilhas e galo de oiro, e a + sua farda bordada; prega-se-lhe no peito a constellao das suas placas + de diamantes, faz-se-lhe a barba, retinge-se-lhe o cabello, pe-se-lhe + ao lado o espadim e as luvas brancas, o chapeu armado sobre o ventre e + um pouco de carmim nas faces. E eil-o ahi est em toda a plenitude e em + toda a magestade dos seus meios physicos e da sua importancia social. As + pallidas Julietas dos sepulchros e as immodestas Rigolboches da tabida + podrido e dos gulosos vermes do <i>chic</i>, que se acautelem d'esse magano + de bom gosto! +</p> +<p> + Elle poderoso: deixou na terra muitos necrologios e muitas missas, e + vae optimamente recommendado pelo alto clero especial proteco do + Padre Eterno. +</p> +<hr /> +<p> + O que morre pelo contrario um destes infimos e asquerosos animaes, de + jaqueta de panno azul com botes de ancora, que andam a bordo dos navios + sobre a agua do mar? Uma onda envolve-o no tombadilho e arroja-o ao + abysmo inclemente? Suspende-se ento por dois ou tres minutos a marcha + da embarcao—um slido paquete talvez, luxuoso, commodo, de uma forte + companhia, em que tudo est seguro para os riscos da navegao, tudo + menos a gente,—lana-se uma boia de salvao, arreia-se uma lancha com + quatro homens, e alguns <i>gentlemen</i> que sobem tolda, tiram dos estojos + de couro de Varsovia que trazem ao tiracollo os seus binoculos e + assestam-os sobre o elemento. Apesar porm d'estas delicadas attenes, + o bruto desagradecido desapparece. Dois ou tres dias depois, a mar, com + nojo, cospe-o praia da Torre juntamente com outras immundicies. +</p> +<p> + Que queres tu d'aqui, meu estupido? Isto no nenhuma selvagem ilha + deserta e encantada, querida dos luares transcendentes de que fallam + phantasia as musicas de Bethowen e os versos do Ileine, e em que se + figuram, sob uma luz de esmeralda, os bailados da opera. +</p> +<p> + Aqui no ha os profundos paraizos aquaticos habitados pelas ondinas e + pelas sereias de beijos deliciosos e gelados. No ha os duendes das + phantasticas florestas que te suspendam, sob o luar impregnado de + calidos aromas e de nocturnas harmonias, nos beros aereos das magnolias + e dos lilazes em flor, nem beneficas deidades transparentes que te + cinjam nos seus doces braos e te levem n'uma festa nupcial para os seus + leitos de algas, de coral e de perolas, no fundo dos dormentes lagos, + sob as folhas dos nenufares. +</p> +<p> + No, isto aqui uma praia decente e grave onde os senhores oficiaes de + secretaria o os senhores desembargadores veem durante a villegiatura + sentar-se pela fresquido das tardes, com suas mulheres, contemplando + austeros e recolhidos as babugens da vasante e o fronteiro panorama, to + magestoso e solemne, da Fonte da Pipa. d'esta praia que o senhor + commendador Santos e o senhor commendador Firmo e o senhor commendador + Eloy teem partido em fina companhia de virtuosas damas, com honestas + guitarras e casto peixe frito, a bordejar no Tejo. aqui que a illustre + e veneravel burguesia de Lisboa faz as suas estaes balneatorias. + n'estas aguas que ella annualmente refresca e desemporcalha a sua gorda + carne. aqui que o mesmo poder moderador tem vindo, por vezes, com sua + augusta e elegante consorte demolhar no argento o excelso e inviolavel + systema nervoso da monarchia e da constituio. +</p> +<p> + Portanto, immundo, tu que morreste afogado no oceano e te deixaste + rolar para a praia da Torre, impertinente como o esqueleto de um goso + morto de fome na Trafaria, tu, imbecil, se querias mais alguma + considerao, mais algum respeito com os teus restos, fosses cahir a + outra parte. +</p> +<p> + Trazias algum dinheiro na algibeira, o sufficiente para te pagares o + luxo de um padre e de uma cova, mas, realmente tu no tinhas aspecto de + mereceres a pena de que alguem se occupasse por um minuto comtigo. +</p> +<p> + Animal! se querias ser enterrado com respeito e commoo, se querias ter + artigos nos jornaes e padres a cantarem-te o <i>De profundis</i>, porque foi + que em vez de te afogares de jaqueta, te no afogaste com uma farda de + almirante, ou de casaca preta e gr cruz dentro de um <i>coup</i> da + companhia?! +</p> +<p> + Deixaste por acaso na terra uma velha me desamparada, uma esposa + lacrimosa, uma filha orph, uma familia, a que seria doce ajoelhar sobre + a tua sepultara ou plantar algumas flores sobre a terra que te cobrisse? + Querias permittir-lhes essa extrema consolao? Deixasses-te ficar no + Chiado ou no Terreiro do Pao, tornasses-te um dos elementos + constituitivos da civilisao lisbonense, fizesses-te moo de recados, + agiota ou empregado publico. Vive-se assim na corrupo, na usura, na + humilhao ou na miseria, mas enfim morre-se bem, barato—e muito! +</p> +<hr /> +<p> + O <i>Jornal da Noite</i> publica uma conta de despeza feita pelo presidente + da republica dos Estados Unidos, Abraho Lincoln, em um hotel de Albany. + O illustre democrata e as pessoas do seu sequito pagaram a somma de um + conto e alguns mil ris por uma hospedagem de menos de vinte e quatro + horas. +</p> +<p> + Este facto argumenta vivamente contra a opinio dos que acham as + republicas mais baratas para os povos do que as monarchias. +</p> +<p> + Effectivamente vemos que, ao passo que o presidente da republica da + America do Norte faz um conto de ris de despeza em algumas horas em + Albany e paga essa despeza, sua magestade o imperador da America do Sul + dispende no Porto mil libras em quatro dias, e no as paga. +</p> +<p> + indubitavel pois que as monarchias so incomparavelmente mais baratas + do que as republicas. +</p> +<p> + Deve-se porm observar que, sob este ponto de vista, o descredito das + democracias prodigas procede principalmente das estalagens exigentes. + Porque est provado que sempre que um republicano em viagem pretende + gastar to pouco como um rei economico, os estalajadeiros fazem ao + republicano o seguinte: sequestram-lhe a bagagem. +</p> +<hr /> +<p> + Parece-nos arriscado estabelecer entre os principes e os povos esta + perigosa competencia de quem ha de pagar menos em viagem. Pois que, + realmente, desde que as testas coroadas chegaram ao ideal de se + apoderarem das contas e no pagarem nada, os povos s podero desbancar + os reis se, no pagando egualmente nada, comearem a estabelecer este + uso: depois de se apoderarem das contas, apoderarem-se egualmente—das + pratas. +</p> +<hr id="catholicosdoporto" /> +<p> + <b>Primeira aos membros da Associao Catholica no Porto</b> +</p> +<p> + Meus senhores e minhas senhoras.—Em nome da Nosso Senhor Jesus Christo + e da Santa Madre Egreja Catholica Apostolica Romana, eu vos sado e vos + desejo a divina graa. Como tenho obrigao de vos suppr—taes como o + dizeis—sinceros e dedicados servos de Deus, devotados a cumprir a sua + lei e a divulgar a sua doutrina, mais vos desejo que nunca vos persigam + os bens e as riquezas temporaes de que certamente vos despojastes para + seguir a Jesus. Eu sei que o divino mestre, antes de mandar aos + apostolos que o acompanhassem, lhes ordenou que deixassem as redes, + fazendo-nos sentir por esta frma que ninguem pde estar com Deus + estando ao mesmo tempo com o mundo, e que para ter os bens do co a + condio essencial—abandonar os da terra. Primeiro: <i>deixae as redes</i>; + depois: <i>vinde commigo</i>. +</p> +<p> + Amados irmos, presumindo-vos pobres, desvalidos, tendo previamente dado + o vosso po aos que tinham fome e os vossos vestidos aos que tinham + frio, eu desejo ainda sobre a vossa nudez a mortificao da vossa carne, + a santa mortificao que raspa a vaidade e o orgulho e limpa o + entendimento e a alma das lepras mundanaes. +</p> +<p> + Que a graa de Nosso Senhor vos assista e que nada mais do que + temporal se vos pegue, porque n'este mundo tudo esterco: <i>Omnia ut + stercora</i>, como muito bem disse S. Paulo! +</p> +<p> + Se vos no poderdes furtar aos contactos impuros do seculo, permitta o + ceo que em todas as vossas relaes com a sociedade todas as invectivas + e todas as malquerenas pharisaicas vos punjam e vos espicassem o + corao, assim como os chacaes famintos furam e rasgam no deserto as + tendas dos piedosos peregrinos. Porque—bem o sabeis—s com as + inimisades do mundo podereis merecer e lograr a amisade de + Deus:<i>amicitia hujus mundi inimica est Dei</i>. +</p> +<p> + Finalmente, meus senhores e minhas senhoras, resumindo os meus votos + pelo molde mais consentaneo com as vossas aspiraes, que o Senhor vos + veja eternamente no ceu e vos aplane o caminho da promisso, tendo-vos + tanto de sua mo que nunca sobre vs deixem de chover as dores e as + ruinas, por isso que, como diz o psalmista, ser pela somma das vossas + penas contingentes, transitorias e mundanaes, que sero medidas as + vossas alegras celestiaes e eternas!—<i>Secundum multitudinem dolorum + meorum in corde meo, consolationes tuae laectificaverunt animam meam.</i> +</p> +<hr id="picaria" /> +<p> + Permitt-me agora que, antes de entrar em algumas breves consideraes + que a natureza do vosso instituto me suggere, eu me detenha um momento + na simples contemplao do nome que lhe puzestes. +</p> +<p> + Que razes poderiam levar-vos, beatissimos senhores, a denominardes + <i>catholica</i> a associao que fundastes, ahi no Porto, em certa casa da + rua da Picaria? Que significa uma associao chamada <i>catholica</i> no meio + de uma sociedade egualmente catholica? Quem que no <i>catholico</i> em + Portugal? No temos ns todos a mesma religio, que no uma religio + especial da rua da Picaria, mas sim a bem conhecida religio do paiz, a + religio do estado, a religio famosa da carta? Ignoraes por acaso que + nenhuma associao pde ser em Portugal seno isso—<i>catholica</i>? + Ignoraes que no temos a liberdade dos cultos, a divergencia de + religies?... +</p> +<p> + Ora, no havendo o mosaismo aqui no Chiado, no existindo o pantheismo + no Rocio, nem o lutheranismo no Terreiro do Pao, nem o fetichismo no + Arco do Bandeira, o que vem a ser um catholicismo da rua da Picaria na + cidade do Porto? Ter cahido o Porto porventura no paganismo idolatra? + Estar elle sacrificando a Jupiter a sua rica vacca cosida? Tel-o-hiam + levado os seus representantes, os seus philosophos, os srs. Faria + Guimares e Pinto Bessa, s vertiginosas regies do livre exame, onde o + espirito humano, abatido, fatigado, morde na solido o fructo amargo da + sciencia?... +</p> +<p> + No. Eu visitei o Porto ha pouco tempo. Cheguei ahi no dia 24 de junho. + A cidade tinha o aspecto mais jubiloso e festival. Erguiam-se arcos + triumphaes nas embocaduras das ruas, palpitavam virao matutina + bandeiras desfraldadas nas janellas das casas. Na rua de S. Joo os + habitantes, de camisa lavada e barba feita, passavam com bandejas cheias + de lanternas para luminarias, outros espetavam no cho mastros + embandeirados; iam, vinham, fallavam alto, tinham gestos abundantes e + felizes. As egrejas por onde passei estavam cheias at porta de fieis + que ouviam as primeiras missas. Os sinos repicavam em todas as torres, e + os foguetes furavam o limpido azul da manh. +</p> +<p> + O Porto, onde n'esse dia devia celebrar-se um grande <i>meeting</i> liberal, + comeava no emtanto—por festejar o S. Joo! +</p> +<p> + Portanto, meus senhores, se vs vos denominaes catholicos, no porque + supponhaes que os outros o no so; porque vos parece que o sabeis ser + melhor do que os outros, e pretendeis que vos considerem como unicos + catholicos perfeitos, catholicos affianados, catholicos garantidos. +</p> +<p> + Se isto o que quereis dizer-nos com o titulo escolhido para a + vossa associao, e no podeis querer dizer outra coisa, + ento—meditae-o—achaes-vos em peccado mortal de soberba, de jactancia, + de presumpo de merecimentos. +</p> +<p> + Localisando por esse modo a religio na rua da Picaria, vs lanaes + tacitamente a suspeita de impiedade nas demais ruas da cidade da Virgem. +</p> +<p> + Pois bem, que a Picaria o saiba: a viella do Ferraz tambem vae missa, + e Deus sabe se jejua ou no, s sextas-feiras, a Ferraria de Cima! +</p> +<hr /> +<p> + Advirtamos agora como a associao catholica tem correspondido pela + importancia dos seus actos audaciosa escolha do seu titulo. +</p> +<p> + At o momento em que vs vos apoderastes do catholicismo para vos + fechardes com elle na rua da Picaria, cabia ao catholicismo a gloria de + ter inspirado as maiores obras produzidas pelo espirito humano. +</p> +<p> + Foi esse pobre catholicismo, ainda ento desprotegido do valioso + patrocinio que n'este seculo lhe devia conceder a vossa associao, meus + illustres senhores e minhas preclaras senhoras, foi elle, ainda + desalbergado da rua da Picaria, o que na edade media fez brotar da + imaginao dos povos o que ha mais bello nas artes, os maravilhosos + poemas, as ternas legendas melancolicas, as portentosas cathedraes. Foi + elle que levou Pedro Eremita e Godofredo de Bulhes a descerem o valle + do Danubio e a seguirem o caminho de Attila. Foi elle que inspirou Tasso + e Dante. Foi elle que produziu S. Thomaz, o <i>boi mudo de Sicilia</i>, o + Aristoteles do christianismo—como lhe chamou Michelet—, o mais + poderoso cerebro da egreja. Foi elle que creou em Hispanha desde o + seculo XVI at o seculo XVII no meio da maior escravido e do maior + fanatismo, o mais brilhante grupo de artistas que tem visto o mundo: + Velasquez, Murillo, Herrera, Zurbaran, Lope de Vega, Calderon, + Cervantes, Tirso de Molina, Luiz de Leon. O profundo mysticismo de + Quixote um reflexo do poder da f em todos esses espiritos. Calderon + era official do santo officio e Lope de Vega desmaiava em extase ao + dizer missa. O catholicismo inaugurou ainda a sociedade mais popular, + mais accessivel, mais equalitaria. No meio da barreira levantada diante + da plebe pelos privilegios do sangue, a egreja era o portico de todos + os grandes talentos e de todas as elevadas ambies: o papa Urbano IV, + filho de um sapateiro, edificava a egreja de Santo Urbano e expunha + n'ella, bordado em uma rica tapessaria, o retrato de seu pae fazendo + sapatos. +</p> +<p> + Por outro lado o catholicismo deu-nos ainda a Saint-Barthelemy, a + carnificina nacional dos christos novos, a Inquisio, a guerra dos + trinta annos, os monges bretes que envenenaram o calix de Abeilard e os + dominicanos de Buon Convento que assassinaram Henrique VII, fazendo-lhe + commungar o veneno na hostia consagrada. +</p> +<p> + Protegido por vs, meus senhores, tutelado pela vossa sociedade + propagandista da rua da Picaria, o catholicismo portuense tem-nos dado + apenas:—como carnificina, quatro pranchadas nas espaduas de quatro + patriotas porta da S; como arte, a <i>Palavra</i>, um pobre jornal piegas, + lacrimoso e beato, com pouca elevao, com pouco enthusiasmo, com pouca + f, e com alguns erros de grammatica. +</p> +<p> + Ora realmente, meus senhores, para resultados to mediocres no valia a + pena de vos dardes o apparato de quem funda uma agencia para a + Bemaventurana e nos fecha o ceu—n'um armazem de commisses. +</p> +<p> + Em 1849 havia na Italia uma propaganda catholica, cujos membros todavia + no chegaram nunca a aggremiar-se e a constituir-se em sociedade como os + cavalheiros e as damas da rua da Picaria. +</p> +<p> + O chefe da propaganda italiana era um dos espiritos mais rectos e mais + benignos, era o doce e pacifico poeta Manzoni, recentemente fallecido. +</p> +<p> + <i>I promessi Sposi</i>, o celebre romance to conhecido, foi como o <i>Genio + do Christianismo</i>, de Chateaubriand e como as odes religiosas de + Lamartine, inspirado por essa reaco catholico-litteraria com que os + romanticos de 1830 bateram as idas philosophicas do seculo XVIII. +</p> +<p> + Manzoni porm, servindo a causa catholica como propagandista, e abrindo + um exemplo que se tornou escola de muitos escriptores e poetas + italianos, Manzoni, em primeiro logar, escrevia para esse fim livros + adoraveis,—e que vs, meus queridos senhores no resolvestes ainda + comear a fazer na vossa officina religiosa da rua da Picaria. Em + segundo logar Manzoni considerava a ida religiosa como um elemento de + emancipao e de regenerao para a Italia ento opprimida e + escravisada. Finalmente Manzoni no tinha por fim especial glorificar os + padres, arregimental-os, armal-os, pl-os em p de guerra, como o est + fazendo a associao catholica portuense. Pelo contrario, Manzoni sabia + que os padres italianos do seu tempo eram, como Cant os descreve tomado + do mais santo horror: glutes, avaros, estupidos e bandidos. O perfil + ideal do padre Borromeu nos <i>Promessi Sposi</i> no tinha pois a inteno + de um retrato, era o estabelecimento de um novo nivel para a opinio, + era um exemplo, era uma lio dada pelo modo delicado e brando com que o + desgosto profundo inspirra a alma candida e honesta do piedoso + escriptor. +</p> +<p> + Feita assim, n'estas circumstancias, n'estas condies, por estes meios, + eu comprehendo a propaganda catholica, e inclino-me respeitosamente + diante dos que a servirem e a promoverem. No me parece todavia que seja + esse o caso da Associao catholica portuense, nem no que diz respeito + aos fins que ella se prope, nem no que toca aos meios que emprega para + conseguir o seu fim. +</p> +<hr /> +<p> + Que pretende a associao catholica? +</p> +<p> + Libertar a patria, chamal-a independencia, fortificando com o + sentimento religioso a f patriotica, como fizeram Manzoni, Rosmini, + Gioberti, Balbo e outros na Italia invadida pela dominao? No, porque + Portugal, por emquanto independente e livre. +</p> +<p> + Estabelecer a cathechese? Diffundir a moral? Regenerar os costumes? No, + porque, no sendo publicas as sesses da associao e no tomando parte + n'ellas seno os mesmos associados, pessoas cujos costumes e cujas + crenas religiosas foram d'antemo affianados, estes acham-se + satisfatoriamente moralisados e instruidos. +</p> +<p> + Educar o clero, aprestando-o para uma influencia mais directa e mais + proficua nos interesses da cidade ou nos interesses do ceu? Tambem no, + pelas razes seguintes: +</p> +<p> + Os padres portuguezes acham-se todos incluidos em uma d'estas tres + classes:—os indifferentes, os liberaes e os reaccionarios. +</p> +<p> + O padre indifferente vive obscuro e tranquillo no fundo de uma aldeia + entre a sua lavoira e o seu campanario. Baptisa as creanas, confessa + os adultos e absolve os que morrem. Se no forem todos para o ceu, a + culpa no d'elle. Cartilha e bons conselhos propina-lh'os todos os + domingos depois da missa conventual; se os no tomarem para seu bem, l + se aviro com o demonio no outro mundo e c na terra com o regedor. De + resto elle cava a sua horta, grande madrugador, deita-se com as + gallinhas, diz a missa ao romper d'alva, caa a perdiz no inverno e + pesca os barbos no vero. Alm de um bocado de breviario, no l seno + um repertorio para estar ao facto das luas e saber quando convm + alporcar as pereiras e semear os pepinos. Bom homem, rijo, satisfeito, + sanguineo, infatigavel companheiro na caa e na mesa, se tentardes + esgrimir com elle algumas idas politicas ou religiosas, algumas + subtilezas de critica, de controversia, ter tonturas, arregalar os + olhos, ouvr-se-lhe-ho rugidos interiores e no sentir seno um + desejo: o de vos aular s pernas os seus ces e cascar-vos pela cabea + com o seu grosso marmeleiro argolado. +</p> +<p> + O padre liberal habita as cidades, l os periodicos, intervm em + eleies, frequenta os botequins e as casas de jogo, fuma cigarros, e + protesta vigorosamente contra a reaco e contra o jesuitismo, trazendo + os dedos amarellos e tomando medicamentos secretos. +</p> +<p> + O padre reaccionario anda quasi sempre de loba; tem os olhos baixos, o + passo miudo e commedido, o sorriso contrafeito como uma coisa azeda + misturada com assucar; gordura fria e pallida, um tanto sinistra; mos + brancas, suadas, viscosas; ps moles, de pato, arrastando. O + confissionario para elle uma vocao, um destino, um prazer: a sua + arte. Algumas vezes mobila-o com certo luxo, introduz-lhe um soph e + abastece-o de viveres: uma lata de po de l e copos com gela. ahi + que elle escuta, de olhos meio cerrados e mos crusadas no peito, as + confidencias secretas das mulheres, os casos encobertos s mes e aos + maridos, os inveterados vicios escondidos e os grandes crimes occultos, + as obras e os pensamentos, os alvoroos da carne no meio da penitencia e + da orao, as tentaes do inimigo, os ardentes desejos diabolicos, os + pungentes escrupulos de alcova, a grande tragedia intima dos mysticos e + dos solitarios. Elle escuta, manda repetir, inquire, investiga, indaga, + minucia por minucia, as circumstancias que aggravam e as circumstancias + que attenuam; disseca o peccado, desfibra-o musculo por musculo, nervo + por nervo, arteria por arteria; depois reconstitue-o, recompe-o, + inteira-o, evoca-o, fal-o resurgir nos olhos da penitente—para a + moralisar com a enormidade do erro. A culpa, assim rediviva pelos + retoques finos, dialecticos, incisivos do stylo theologico e casuistico + dos commentadores do Decalogo, a culpa repintada com essa arte mais + sabia, mais poderosamente minuciosa que a de todos os modernos + romancistas psychologos dos vicios torpes e vergonhosos, cinge outra vez + a peccadora, colla-se estreitamente com ella como a serpente do Eden, + envolve-a nas suas espiraes, penetra-a da sua essencia magnetica, + communica-lhe a electricidade dos seus filtros. ento, n'esse momento + terrivel de crise, nevralgico, histerico, allucinado, que elle critica + friamente, com uma analyse perpendicular, dominadora, arbitra da + commoo; e consola, aconselha, admoesta, subjuga, domina, e absolve ou + condemna, elle, elle em nome do Creador, a fragil creatura desmaiada aos + seus ps. O padre reaccionario faz parte da grande centralisao + catholica, uma das rodas do grande machinismo, vive no systema de + partido como na obediencia e na regra de um instituto. No pensa nem + discute. O seu rumo est tomado; segue-o apezar de tudo, atravez de + tudo, como um boi abre um rego, com os olhos tapados. Tem heranas de + velhas devotas, avultadas esmolas de missa, frequentes presentes de + confessadas. Vende agua de Nossa Senhora de Lourdes ou de La Salette. + Cobra os dinheiros de S. Pedro e remette-os para Roma, assigna a + <i>Nao</i>, e quasi sempre rico. +</p> +<p> + Dos padres d'estas tres categorias quaes so aquelles que a associao + Catholica influe, aconselha ou dirige? +</p> +<p> + O padre obscuro nem mesmo sabe que tal associao existe. O padre + liberal seu inimigo e adversario intransigente. Resta-lhe o padre + ultramontano. +</p> +<p> + Ora este ultimo padre o vo de que a associao Catholica a ave. + Ella no o modifica, no o educa, no o adverte, no o illustra. Faz-lhe + simplesmente isto: choca-o. Depois, quebrada a casca do sr. padre Couto, + o sr. conde de Samodes apparece. +</p> +<hr /> +<p> + A associao Catholica celebra periodicamente reunies, a que chama + academias. Que se faz n'estas reunies frequentadas por muitas senhoras + da primeira sociedade portuense, o que ha de mais digno, de mais + inviolavel e de mais sagrado? +</p> +<p> + Relevem-nos este ponto de interrogao, que no tem de nenhum modo a + impertinencia de uma pergunta e deve apenas ser considerado da nossa + parte como um simples ponto de perturbao e de pasmo. +</p> +<p> + Se os homens estivessem ss comprehendemos que as reunies da associao + Catholica fossem para elles um meio do repousarem suavemente das fadigas + temporaes, dos enganos do mundo, das illuses e das vaidades do seculo. + Concebemos perfeitamente que depois de terminados os seus negocios, + assignada a sua correspondencia, pagas as suas lettras, despachadas as + suas mercadorias, fechada a sua caixa, comido amplamente o seu jantar, + saboreado o seu caf e o seu <i>kumel</i>, elles encerrassem o seu dia + juntando-se todos fradescamente, sem etiqueta, sem cerimonias de + elegancia nem de <i>toilette</i>, e que, em seguida, descalassem as botas e + dissessem: Ora dissertemos l um bocado sobre a immortalidade da alma! +</p> +<p> + Mas, com senhoras, com senhoras elegantes e bellas, que ho de apear-se + das suas carruagens, depr os seus burnous no <i>vestiaire</i> e penetrar no + salo, sob o gaz, n'uma onda scintillante de setim e de renda, que faro + os homens? +</p> +<p> + Ho de se ter espalhado na athmosphera os perfumes da <i>toilette</i>, os + murmurios dos vestidos, os reflexos das joias e as confusas palavras + finas, magneticas, que susurram sob a palpitao dos leques. Suppomos + que no ha orchestra nem piano, de modo que as pessoas devotas no + podero dirigir-se immediatamente ao sr. padre Couto para que as faa + valsar; no estaro patentes os ultimos telegrammas dos successos de + Hispanha; no haver um servio de gelados trazido em bandejas de prata + por criados de calo curto: no se ter mo um numero da + <i>Illustrao</i> nem um album que se folheie ... +</p> +<p> + Estranha perplexidade! +</p> +<p> + Tem um simples associado de abotoar as suas luvas, de adiantar um + <i>fauteuil</i>, de se aproximar de um grupo e de lanar um assumpto pela + seguinte frmula: Minha senhora, ser vossencia assaz boa para querer + fazer-me a honra de me dizer se j tem interlocutor para uma breve + dissertao sobre os novissimos do homem? +</p> +<p> + Ou talvez que haja uma organisao parlamentar para a distribuio dos + assumptos e para a ordem das discusses. E n'esse caso, reunido o + claustro pleno, ser o sr. conde de Samodes quem abrir as sesses, + persignando-se, tocando a sua campainha e dizendo: +</p> +<p> + —Dou a palavra ao relator da commisso encarregada de dar o seu + parecer cerca das Divinas Pessoas da Santissima Trindade. Meus senhores + e minhas senhoras, est em discusso o Espirito Santo. +</p> +<hr /> +<p> + Porque emfim, meus senhores, celebrando como catholicos as vossas + academias religiosas, das duas coisas uma: ou vs estabeleceis a + controversia e discutis os canones e os dogmas, ou no a estabeleceis e + no os discutis. +</p> +<p> + No primeiro caso usurpaes os poderes que s competem aos concilios, + entregaes aos debates da razo as materias de obediencia e de f e cahis + no racionalismo heretico. +</p> +<p> + No segundo caso, reunidos em nome de Deus, vs no tendes o direito de + fazer seno uma coisa: elevar humildemente ao ceu os vossos espiritos e + prostrar-vos na penitencia e na orao. +</p> +<p> + Mas para os exercicios da orao e da penitencia vs tendes a egreja + para rezar e a solido no interior das vossas casas para meditar o + arrependimento. Para similhantes effeitos congregar os fieis nos sales + da rua da Picaria desviar dos templos a corrente natural da devoo e + arrancar do interior da familia o saudavel recolhimento dos propositos + bons. +</p> +<p> + Eu creio profundamente que entre vs existem homens dignos, honrados, de + uma piedade limpida, com as mais rectas intenes de espirito e de + consciencia. Acredito mesmo que essas almas, timoratas mas boas, + constituem a grossa maioria dos vossos consocios. Por isso vos consagro, + passando, esta palavra sria: +</p> +<p> + Nada mais funesto para os costumes do que ensinar s mulheres que ha + instituies especiaes para o servio de Deus, para a conquista do ceu, + para a remisso da culpa. O posto digno da mulher christ em sua casa + ao p dos seus filhos. Os exercicios espirituaes e as contemplaes + mysticas escurecem a alegria domestica, alvoroam a virtude, perturbam a + consciencia. Na sociedade actual a mulher pertence, integralmente, com + toda a responsabilidade do seu destino, misso sublime da regenerao + do homem pela attraco do lar. Desviar sob qualquer pretexto que seja + a atteno da mulher dos interesses da familia commetter para com a + moral um sacrilegio. A casa conjugal tambem um templo, e a maternidade + uma religio. +</p> +<hr /> +<p> + Meus senhores, tenho procurado tanto quanto me tem sido possivel ser + amavel comvosco, tomando para vos observar todos os pontos de vista. + Olho-vos como christo, olho-vos como catholico romano, olho-vos como + cidado, olho-vos como simples espectador, como <i>dilettante</i>. De todos + os modos vs me pareceis ou incongruentes, ou ridiculos, ou absurdos. +</p> +<p> + Todavia, meus senhores, depois de to exactas observaes, eu no + concluo que dissolvaes o vosso synodo e que vos retireis para vossas + casas. Os senhores liberaes, que vos combatem, so egualmente + incongruentes, egualmente absurdos e um pouco mais comicos do que vs, e + os senhores liberaes tambem se no retiram. +</p> +<p> + Elles do morras ao papa, chefe supremo da religio catholica e todavia + continuam a dizer-se catholicos. Odeiam e guerreiam os padres e no + emtanto continuam a entregar as suas mulheres aos confissionarios e as + suas filhas cathechese. Insultam a theologia do vosso jornal a + <i>Palavra</i> mas no acceitam com elle a controversia porque no sabem + theologia. No lhes importa o irem para o inferno, mas no querem ir + para o Carmo. O seu atheismo leva-os a quererem esmagar o infame como + elles mesmos dizem, mas com a clausula de no molestarem com essa + operao os calos do sr. Bento de Freitas, governador civil, ou do sr. + Pinto Bessa, presidente da camara. Ultimamente vs festejaveis com um + <i>Te Deum</i> na egreja da S o anniversario de Pio IX: estaveis + inteiramente no vosso direito e na logica dos vossos principios. Elles, + em vez de combaterem com uma affirmao de sciencia a vossa protestao + de f, esperaram-vos porta da egreja, deram vivas liberdade, a + Victor Manuel e a Garibaldi e alguns morras ao Papa infallivel. Foi com + esta elevao de critica que analysaram o Concilio do Vaticano, consti. + 4. cap. IV <i>De infallibilitate romani pontificis magni</i>, a qual + constituio nunca leram. A policia interveio, espancou varias pessoas, + prendeu varias outras, e eis em resumo o que os periodicos liberaes + chamam os conflictos da liberdade e da reaco religiosa na cidade do + Porto! +</p> +<p> + Profundas graas ao Altissimo, que no so inteiramente estas as + circumstancias que determinaram as antigas crises do poder entre os + burguezes do senado do Porto e os poderosos bares feudaes da S + portuense ou do balio de Lea! Os srs. padre Rademaker e padre Couto no + afivelaram os arnezes de ao dos antigos bispos e dos freires + hospitalarios, no reuniram os seus sergentes e homens d'armas, no + mandaram erguer as levadias dos seus paos acastellados nem + desembainharam as suas espadas famosas ... No, elles apenas entoaram a + ladainha de todos os santos, e prometteram, no excurses armadas sobre + os rebeldes dos seus feudos, mas sim jubileus e benos telegraphicas + aos seus adeptos. +</p> +<p> + Ora no vemos realmente em que estas coisas possam atterrar a liberdade + e sobresaltar o paiz. +</p> +<p> + singular esta coincidencia: +</p> +<p id="bismark"> + O clero catholico tem hoje em toda a Europa o papel sympathico. Os + unicos paizes do mundo em que ainda se gosa a liberdade religiosa so os + paizes catholicos. Na Russia, na Allemanha, temos o despotismo e a + perseguio protestante. O sr. de Bismark prende, processa e desterra + os sacerdotes catholicos. No novo imperio do rei Guilherme, o + patriotismo refora-se na religio do estado; a recente legislao + allem submette todos os casos de disciplina ecclesiastica e todas as + deliberaes episcopaes ao poder civil, e prohibe o clero sob as mais + severas penas de cumprir preceitos que dimanem de qualquer auctoridade + ecclesiastica estranha nacionalidade allem. +</p> +<p> + Ferida violentamente na sua liberdade, perseguida pela fora, a egreja + catholica—quem o diria!—appella para as garantias espirituaes e quer a + distinco dos poderes como salvaguarda da liberdade. Na Allemanha os + ultramontanos mais ardentes fortificam-se nos seus ultimos + entrincheiramentos pedindo como Cavour a egreja livre no estado livre. A + tal estado chegou desprestigiado e abatido o antigo poder clerical!... + Elle j no quer exercer a sua velha tyrannia, contenta-se em no + supportar a perseguio; e, como todos os martyres, pede a liberdade + como o extremo refugio das consciencias apavoradas. +</p> +<p> + Violentamente ferida no corao, perseguida pela fora, a egreja + apresenta esse symptoma infallivel da sua suprema dr—o grito das + garantias espirituaes, o appello em ultima instancia para a distinco + dos poderes. +</p> +<p> + Pio IX, fortificado no Vaticano, como n'uma cidadella gloriosa, + desmoronada e vencida, posto que respeitada, soffre as ultimas + consequencias fataes da sua politica, e, indomavelmente pertinaz e + corajoso, esse velho batalhador veneravel, despojado da sua cora + temporal, arroja aos vencedores o derradeiro desafio do seu despreso, + arvorando impavidamente o dogma e metralhando com as excommunhes a + opinio liberal em ultimo sacrificio a uma causa perdida. +</p> +<p> + curioso at o ponto de se tornar ligeiramente comico que seja este o + momento escolhido pela burguezia portuense para comear a apontar-nos a + egreja catholica como um perigo para a liberdade! +</p> +<p> + No Porto os livres pensadores da calada dos Clerigos principiam agora a + receiar que os catholicos da rua da Picaria assoberbem e esmaguem sob a + desmaiada e quasi esvahida legenda pontificia o poderoso mundo + scientifico moderno. +</p> +<p> + Pela sua parte vs, catholicos da Picaria, reunis as vossas mulheres e + as vossas filhas, entoaes ladainhas e procuraes com preces e com + penitencias desaggravar a divindade offendida com as invectivas dos + periodicos liberaes—no que nos parece que confundis tambem um pouco a + religio com a sacristia, e tomaes frequentemente o sr. padre Couto pelo + Padre Eterno. o vosso erro. No entanto ficae no vosso posto. A + civilisao precisa de vs, no como elemento reconstituinte, mas como + producto lachante. A sciencia estima-vos ... como droga. O velho mundo + invoca a vossa assistencia para o ajudar a morrer, para o enterrar. Para + mim, que acabo de vos discutir como fazendo eu mesmo parte do meio + burguez em que existis, vs sois certamente um absurdo. Perante a + philosophia vs sois porm uma necessidade historica. Nos annaes do + progresso transcendente do espirito humano o vosso nome ha de ficar como + o curioso epitaphio de uma gerao que se extinguiu ha tresentos annos. + Porque a verdade que vs representaes as idas do seculo XVI. +</p> +<p> + A associao catholica do Porto instituiu-se para qu? Vs mesmos o + estaes dizendo todos os dias: Para salvaguardar a f religiosa da + corrente invasora do scepticismo moderno. +</p> +<p> + Pois bem, meus senhores, foi esse mesmo scepticismo, cuja corrente vs + pretendeis hoje reprimir ou recuar, o que produziu a grande revoluo + scientifica do seculo XVII e toda a civilisao subsequente at os + nossos dias. +</p> +<p id="tolerancia"> + O scepticismo o estado de espirito que medeia entre a superstio e a + tolerancia. Ha mais de um seculo que nenhum pensador grave se intromette + na vossa controversia theologica. Ninguem vos combate, ninguem mesmo vos + discute. O mundo novo est j na tolerancia, quando vs combateis ainda + o scepticismo de que a tolerancia o fructo! +</p> +<p> + Duvidar, meus bons amigos, exercer uma das mais poderosas e mais + fecundas faculdades da razo humana. Para chegar verdade no ha seno + esse caminho: a duvida. Para chegar a Deus, que no outra coisa seno + a expresso theologica da verdade, o unico meio tambem esse: a duvida. + Primeiro que tudo duvida-se, depois aprende-se, por fim descobre-se. Tal + a marcha invariavel dos espiritos na sua grande ascenso do imperfeito + para o absoluto. +</p> +<p> + O mesmo christianismo no poderia nunca ter principiado a existir se no + o tivesse precedido a duvida nas consciencias da antiguidade pag. + Antes de acreditar em Jesus Nazareno o homem teve que duvidar de Jupiter + Capitolino. A tradico christ uma conquista do scepticismo antigo. A + duvida foi a primeira e a mais augusta expresso da revelao divina. +</p> +<p> + A duvida tem sido em todos os tempos a luz immortal e a guia suprema do + entendimento humano. Foi a duvida quem levou Colombo ao novo mundo, + Copernico e Newton astronomia, Boyle e Pascal hydrostatica, Galyleu + mecanica e Lavoisier chimica. +</p> +<p> + Se nas profundidades da nossa alma o scepticismo no tivesse existido + sempre como uma indomavel fora inextinguivel de perfectibilidade + indefinida, a sciencia astronomica no viria occupar o logar da + astrologia, a physica e a chimica no substituiriam a alchimia, e a + imagem de Christo crucificado no succederia nos altares do Vaticano s + estatuas dos dois mil deuses da Roma antiga. +</p> +<p> + Quereis a definio precisamente scientifica do scepticismo? Ouvi + Buckle, o historiador da civilisao: scepticismo a difficuldade de + crer; de sorte que o scepticismo que se augmenta a percepo + augmentada da difficuldade de provar asseres, ou, n'outros termos, + a applicao augmentada e a diffuso augmentada das regras do raciocinio + e das leis da evidencia. Esse sentimento de hesitao em todo o campo + do pensamento o preliminar invariavel de todas as revolues + intellectuaes por que tem passado o espirito humano; sem o scepticismo, + progresso, mudana, civilisao, tudo seria impossivel. Na physica + elle o precursor necessario da sciencia; na politica o precursor da + liberdade; na religio o precursor da tolerancia. +</p> +<p> + Ora defendendo a integridade da f, vs fazeis philosophia este + servio relevante: suggeris a duvida, procuraes accordar a razo + individual, a qual nunca em nenhum outro meio social se desenvolveu to + larga e to arrojadamente, como no seio da egreja christ, a qual apezar + de todos os seus erros e dos seus mesmos crimes, tem sido sempre o mais + forte nucleo da vida moral e o mais alto objecto de todos os grandes + desenvolvimentos da intelligencia e da vontade. +</p> +<p> + De resto entendo que o Porto, esse feliz e arrojado industrial, vos deve + ser especialmente grato e reconhecido, porque vs o dotastes com um + estabelecimento que Lisboa ainda no possue—A associao catholica da + rua da Picaria,—a qual, similhana dos antigos moinhos do Tibet e das + cabaas rotatorias dos Kalmuks, assegura commodidade dos habitantes um + systema permanente, uma especie de moagem mechanica, com motuo continuo, + de adoraes e de preces. +</p> +<hr /> +<p> + Algumas das familias que durante a estao finda se achavam a banhos de + mar em Pedrouos, resolveram de uma vez fazer uma festa nocturna, + mysteriosa, venesiana. Tomaram um vapor da carreira de Belem, + illuminaram-o com bales de papel como as gondolas do canal da Zueca que + deslisam em frente dos terrassos do palacio Barbarigo no primeiro acto + da <i>Lucrecia</i>. Para que a commoo de todas as pessoas que tomaram parte + n'esta scena fosse profunda e illimitada, os homens tinham-se + apresentado todos vestidos como os tenores nas scenas de <i>barcarola</i>. O + jubilo era indescriptivel. +</p> +<p id="caparica"> + Reunida a bordo toda a sociedade, o vapor levantou ferro, e penetrou na + treva, vibrante de aventura, saturado de drama, na direco de + Caparica. +</p> +<p> + O Tejo porm estava grosso e picado, de modo que comeou a dar ao vapor + uns balanos intermittentes para um lado e para o outro como de quem + escabacea com somno. Com isto principiaram a manifestar-se com uma + insistencia progressiva os symptomas spasmodicos nos esophagos da + assembla. Os Mazaniellos, verdes como azebre, tristes como condemnados + morte, procurando sorrir catastrophe com sorrisos dilacerados como + os que apresentam os cotovellos rotos, enrolavam-se nas suas capas e + prostravam-se como trchos inuteis nos bancos da tolda. As senhoras + punham os seus lenos na bocca, corriam a mo pela testa, cuspiam + desconsoladamente no mar, e tinham ligeiros movimentos extaticos e + doloridos como de quem est escutando no ar o rumor de uma angustia que + chega. +</p> +<p> + Ento o sr. Mathias Ferrari, segundo lemos no <i>Diario de Noticias,</i> fez + correr um abundante servio de neve. Todos se serviram. +</p> +<p> + Os effeitos foram taes que quando os criados repassaram com a segunda + roda de sorvetes, todos os convivas, com as boccas ainda abertas, + estremeceram de horror, porque cuidaram que esses segundos gelados eram + outra vez—os primeiros. +</p> +<p> + Ento um homem forte, que tinha ido para bordo armado de um violo, + tentando arrancar a companhia a uma consternao abatida e geral, + comeou, a dedilhar o instrumento e a entoar uma chacara. Mas, de + repente, suspende-se, torce-se, arripiam-se-lhe os cabellos, + encurva-se-lhe a espinha dorsal, cae-lhe o violo desfallecido nos + braos das senhoras, e o resto da chacara destinada aos eccos nocturnos + do oceano e recolhida pelos circumstantes n'uma bacia. +</p> +<p> + Era immenso a bordo o desalento. +</p> +<p> + Mathias Ferrari, descoroado, abatido, j no fazia correr os + servios. Este grande confeiteiro, dominando inteiramente a situao + com a profundidade da sua critica, comprehendera—e muito bem!—que a + questo ali j no era de <i>fazer correr</i>, mas de <i>fazer parar</i>. +</p> +<p> + Era alta noite quando o vapor abicou outra vez praia de Belem, + recolhendo-se todos perfeitissimamente satisfeitos pelo modo como se + passara to bello tempo. Apenas, para que desembarcassem, houve o + pequeno trabalho de virar os que tinham assistido a esta festa, a mais + brilhante talvez que se tem dado no Tejo, por que os convivas em virtude + dos reiterados exforos que tinham feito no mar para puxar para fora o + interior, succedera-lhes terem-o effectivamente conseguido, e haverem + chegado todos a terra—pelo avesso. +</p> +<hr /> +<p id="ferrao"> + Com a mais extranha commoo lemos ultimamente que fra nomeado aio de + sua alteza o principe real sua ex. o sr. Martens Ferro, abalisado + jurisconsulto e procurador geral da cora. +</p> +<hr /> +<p> + talvez uma bem perigosa temeridade da parte de prosaicos e obscuros + burgueses como ns somos o atrevermo-nos a meditar um momento no que + possam ser perante a educao e perante a sciencia as attribuies + especiaes de um aio junto de um principe. Todavia—debalde procurariamos + escondel-o—em presena de similhante assumpto, profunda e illimitada + a confuso do nosso espirito. Por isso que, por mais assignaladas que se + nos representem as differenas que devem distinguir o alto e poderoso + filho de um monarcha do mero filho de um fabricante de velas de cebo, + nunca, por maiores que sejam na direco do infinito os arrojos da nossa + phantasia curiosa, nunca podemos chegar a alcanar, nem pelas + presumpes mais vagas nem pelas mais remotas suspeitas nem pelas mais + affastadas conjecturas, qual o emprego pratico e effectivo que possa dar + um principe aos prestimos de um aio. Para satisfao de que + necessidades, de que conveniencias ou de que simples formalidades, em + que condies, em que circumstancias, em que especial momento da + preciosa e augusta vida do real infante vae sua excellencia o aio + presena de sua alteza o principe?!... Ns o ignoramos. +</p> +<p> + Porque, quando as ordens de sua alteza procedam das necessidades do seu + espirito, das curiosidades da sua intelligencia, dos interesses da sua + instruco, sua alteza pedir naturalmente algum dos seus mestres ou + algum dos seus livros, e a sua alteza ser ento applicado um professor + de linguas, um compendio do sr. Joo Felix ou um numero do <i>Diario de + Noticias</i>. Quando os desejos manifestados por sua alteza dimanem das + urgencias physicas da sua naturesa, das fatalidades animaes do seu + organismo ou do seu temperamento, sua alteza pedir o seu banho, o seu + jantar, as suas pastilhas ou o seu escarrador; e ento os camaristas de + sua alteza, as suas aias e os seus escudeiros cumpriro os desejos de + sua alteza. +</p> +<p> + E no vemos, nem na ordem physica, nem na ordem moral, nem na ordem + inlellectual das relaes de sua alteza com o mundo externo, a + necessidade, a conveniencia ou a plausibilidade da interveno do aio. +</p> +<p> + A no ser que a concorrencia d'esta legendaria entidade methaphysica se + deva considerar nos reaes paos como um acepipe <i>hors d'oeuvre</i> ou como + um objecto supplementar de recreio, porque ento comprehendemos de certo + modo que ao servio particular de sua alteza um camareiro exclame: +</p> +<p> + Est o <i>lunch</i> na mesa: ha <i>galantine</i>, rabanetes e o sr. Martens + Ferro com salsa picada e manteiga fresca. ou ento: Eis os brinquedos + de sua alteza: aqui est a bola de guttapercha e a caixa com o sr. + Martens Ferro de engonsos. +</p> +<hr /> +<p> + Se porm—e perdoe-se-nos esta hypothesese, sob a senhoreal e demievica + palavra aio, devemos entender a ida perfeitamente logica, sensata, + popular, de um preceptor pratico, de um mestre experimental, de um + amigo, de um companheiro, n'esse caso notaremos com o mais profundo + respeito a Sua Magestade a Rainha, dedicada me e primeira educadora do + joven principe, que foi singularmente illudida a sua perspicacia + elegendo o sr. Martens Ferro como conselheiro official e privado de seu + filho, como guia experimentado da candida existencia inexperiente do + innocente alumno. E isto por uma razo que de nenhuma maneira desabona + os altos merecimentos de sua excellencia o actual senhor procurador + geral da cora, antes pelo contrario os confirma e corrobora. Esta razo + que: o sr. Martens Ferro, pela sua natureza, pela sua organisao, + pelo seu temperamento, pelo seu caracter, pela sua biologia, to + inexperiente, to candido, to ingenuo, to innocente e to puro como o + proprio alumno que elle chamado a aconselhar e a dirigir na difficil e + complicada navegao da vida. +</p> +<p> + Passando em tenros annos do regao d'aquella que lhe deu o ser para os + braos da austera jurisprudencia, que tinha de amamental-o para a + sciencia e para a gloria, o sr. Martens Ferro tem at hoje passado a + sua vida <i>en nourrice</i> em casa do Direito Publico. +</p> +<p> + Os seus dias teem decorrido transcendentemente fora das condies + historicas do tempo e do espao. A sua existencia tem sido + exclusivamente mystica e symbolica. Quando tem os seus impetos mais + ferozes de extravagancia, de anarchia, de deboche, elle sae a passear + pelas viosas campinas da philosophia do direito e faz patuscadas + orgiacas e escandalosas com as origens celticas do direito e com as + liberdades municipaes do imperio romano. Depois o remorso apodera-se + d'elle. No dia seguinte acorda pallido, abatido, com a lingua grossa: o + espectro pavoroso e formidavel do sr. Batbie appareceu-lhe em sonhos, e + elle ouviu vozes vingadoras que lhe bradavam das profundidades da noite + e do arrependimento: Joo Baptista, para onde deixaste o direito de + punir? que fizeste do direito administrativo, Joo? que do direito + internacional, Baptista?! Taes so os seus dias de mais desdem, de mais + anormalidade, de mais sexo, de mais jogo e de mais champagne! tal o + seu despertar contricto para a legalidade, para a descentralisao + districtal e para as reformas de administrao! Tal, resumidamente, + elle! E quando dizemos <i>elle</i>, commettemos uma incerteza de + concordancia, porque to pura, to transcendental, to scientifica a + personalidade do sr. Martens Ferro, que nada obsta a que a historia + referindo-se a sua excellencia, em vez de dizer <i>elle</i>, diga—<i>ella</i>. + Pela nossa parte, aguardando cerca da resoluo d'esse ponto as + ulteriores disposies definitivas da posteridade, diremos por emquanto + simplesmente <i>el</i>, sem a desinencia de genero, sob a respeitosa formula + neutra. +</p> +<p> + Como diziamos, pois, tal —el. +</p> +<hr /> +<p> + Analysando, timidamente como o temos feito, a nomeao do sr. Martens + Ferro para aio do principe real—note-se bem isto—no a sorte de sua + alteza o que nos inspira receios sob a guarda de um tal guia ... Ah! no! + pelo contrario o destino de sua excellencia o que nos inquieta sob a + influencia de um tal companheiro. Por <i>elle</i> podemos estar perfeitamente + socegados. Mas <i>el</i>? o que ser d'<i>el, el</i> to puro ou pura, to + candido ou candida, sob os impulsos da nova existencia que + repentinamente vae no seu temeroso vertice arrebatal-o ou arrebatal-a?! +</p> +<p> + Na vida da crte, fina, scintillante, irritavel, cheia de factos, de + commoes, de rasgos de espirito e de valor, de emboscadas, de + surpresas, de malicias, de tentaes, quantos perigos, quantos laos, + quantas ratoeiras para a innocencia virginal, para a candida pureza + inexperiente e inerme d'<i>el!</i> ... +</p> +<p> + Os principes por effeito da sua vida reclusa, claustral, vigiada, + monotona, amam naturalmente a escapada, o mysterio, a aventura, a + innocente anormalidade. Apraz-lhes a sortida arriscada, a partida + carnavalesca, o ruido dos festins secretos, a mascara inescrutavel, a + longa capa dramatica e a espada ligeira e subtil dos paladinos;—o que + se lhes deve relevar, porque esse o unico despique dos principes para + a secca official dos intrigantes, dos bajuladores, dos ambiciosos, dos + sensabores e dos hypocritas que ordinariamente os rodeiam. Estes porm + no so ainda para <i>el</i> os unicos perigos. No licito esconder que ha + outros mais e muito mais temerosos. Pensemos nas influencias + tempestuosas d'esse elemento, terrivel para a mocidade, que se chama—a + mulher. Sentimos magoar com este promenor a pudicicia do sr. procurador + geral da cora, mas esta a verdade que no devemos occultar aos olhos + de sua excellencia. Diz Michelet, o casto, o austero Michelet, que em + todo o tempo a mulher attrahiu o homem, assim como a vinha da Italia + chamou os gaulezes, e a laranja da Sicilia chamou os normandos. Ellas + chamam-nos, srs. procuradores geraes da cora, ellas chamam-nos! + Lembremo-nos da bella Helena, sr. Martens Ferro, lembre-mo-nos de + Semiramis, de Cleopatra, da casta Penelope, das Sabinas! +</p> +<p> + Os principes no esto mais isemptos que os outros homens d'esta lei + geral da humanidade, e os que vivem com elles—ponderemol-o bem—ficam + sujeitos s mesmas influencias que envolvem os reis. +</p> +<p> + Guilherme VII, cuja f religiosa era to ardente que elle foi Terra + Santa com cem mil homens, o proprio Guilherme VII levou tambem na viagem + do Santo Sepulchro a galante legio das suas amantes, e diz d'elle uma + velha chronica que, bom trovador e bom cavalleiro d'armas, por muito + tempo correra o mundo <i>para enganar as damas</i>. Tal a raa de que elles + sem, s vezes, quando no sem peores que o mystico e piedoso + Guilherme! Que a actual procuradoria geral da cora emquanto tempo o + medite! +</p> +<p> + De Francisco I, um dos mais sabios e dos mais uteis reis que tem tido o + mundo, diz-se que s bellas milanezas se deve a mais importante parte na + perseverana com que elle combateu pela conquista da Italia. +</p> +<p> + Sem fallarmos na cohorte das peccadoras, to gentis como funestas, dos + <i>boudoirs</i> de Luiz XIV e da Regencia, recordemos ainda as dissolutas e + ferozes mulheres da crte de Carlos IX, Catharina de Medicis, Maria + Touchet, e as grosseiras amantes torpes de Luiz XI, a Gigogne e a + Passefilou ... Oh! pudor! oh decoro! oh reforma administrativa! +</p> +<p> + Suppondes que a educao, os exemplos salutares e os conselhos sabios + possam preservar os principes dos perigos das suas ligaes + clandestinas? Mas quando assim pudesse ser, quantos outros riscos na + propria convivencia legal das mulheres legitimas! +</p> +<p id="laczinska"> + Um dia Maria Laczinska, legitima mulher de Luiz XV, recusou um beijo ao + rei com o fundamento de que este cheirava a vinho. Luiz, segundo a + expresso pittoresca de um chronista das galanterias escandalosas do + seculo passado, comeava ento <i>a tomar o gosto ao champagne</i>. O rei + resolveu n'esse dia nefasto separar-se para sempre da rainha, e so + sabidos os desgostos e as desgraas que o rompimento d'essas relaes + custou felicidade da Frana e moral da Europa. Que remorso para o + aio de Luiz XV! Foi d'elle a culpa d'esse desastre. Se o aio do joven + rei, em vez de comear <i>a tomar o gosto ao champagne</i> juntamente com o + seu alumno, fosse, como pelo contrario devia ser, um experimentado e + antigo <i>soupeur</i>, conhecedor esperto de todas as ciladas armadas ao + homem pela bebida e pelo amor, elle teria evitado o divorcio do rei. +</p> +<p> + Tel-o-hia evitado, porque teria ensinado ao seu alumno, com a + auctoridade da experiencia, que a intemperana nas ceias e o abuso no + champagne produzem as hepatites, as predisposies para a apoplexia e + para a gotta e a manifestao das areias no rim. Se o principe no + obedecesse a estes conselhos e persistisse em ceiar, n'esse caso o seu + aio lhe faria comprehender que depois de ter bebido champagne nenhum + homem vae conversar com senhoras sem ter concluido a sua digesto e sem + haver previamente lavado a bocca com um elixir dentifrico. Um pequeno + passeio ao ar livre, uma gota de laudano ou uma pastilha, qualquer + d'estas tres coisas ministrada opportunamente por um aio intelligente e + dedicado, teria obstado ao rompimento das relaes de Luiz XV com sua + mulher e a todas as consequencias que d'ahi se seguiram. +</p> +<p id="constancia"> + Algumas vezes succede ainda que, alm de todos estes desgostos, d'estas + decepes e d'estes remorsos, os aios, os validos, os intimos dos + principes levam ainda por cima pancada das princezas. N'este ponto as + chronicas so prodigas de eloquentes e salutares avisos. Constancia de + Arles, por exemplo, mulher de Roberto Pio, tinha taes accessos furiosos + de mau genio que um dia vasou um olho do seu proprio confessor + batendo-lhe com uma bengala que tinha no casto um bico de passaro. Esta + mesma bengala nem sempre se conteve perante a pessoa inviolavel e + sagrada da real magestade, e por muitas vezes se ergueu sobre as cabeas + dos amigos mais particulares do rei para nem sempre deixar inteiros + esses craneos dedicados e fieis. Foi a mesma sobredita princeza a que de + uma vez mandou matar por occasio de um passeio, aos proprios olhos do + soberano, o ministro De Beauvais, que lhe desagradava, e que, de outra + vez impoz para o outro mundo um cortezo antipathico, estafando-o com + uma corrida que o obrigou a dar n'uma caada. +</p> +<hr /> +<p> + Ora se a cora tem por um lado a obrigao de escudar a infancia e a + innocencia dos principes, no deve por outro lado sacrificar a + inexperiencia inerme das instituies pondo os srs. procuradores geraes + como barreira entre as tentaes e as culpas, lanando emfim a alta + magistratura ao pego tenebroso, ao Mexilhoeiro insondavel em que ha o + espumar dos vinhos capitosos, o sussurrar das sedas, o arfar dos leques, + os sorrisos tentadores e as bengalas de casto de bico. +</p> +<hr /> +<p> + Algumas das pessoas que tiveram a honra de serem admittidas a jantar com + as senhoras hispanholas que ultimamente se acharam em uso de banhos de + mar, e de emigrao, em Lisboa pedem-nos a nossa interveno para + dirigirem quellas senhoras, alis to distinctas e to interessantes, + uma pequena observao que os seus amigos mais dedicados se no atrevem + a fazer-lhes directamente. +</p> +<p> + Suas excellencias teem mesa o terrivel habito de comerem o peixe com a + faca, o que os admiradores mais enthusiastas do fino sal de espirito de + suas excellencias e do seu poderoso encanto de maneiras, no podem + abster-se de considerar como uma concorrencia temeraria feita por suas + excellencias aos acrobatas dos jogos malabares, unicos entes que + insistem em accumular os seus meritos pessoaes com o talento + supplementar de metterem as facas pela bocca. +</p> +<p> + ... Sendo certo ainda assim que os malabares que temos visto + entregarem-se a este exercicio, servem-se o seu rodovalho parte, e + comem as facas—sem peixe! +</p> +<p> + Submettemos estas simples reflexes a suas excellencias, as quaes em + seu delicado criterio decidiro se, attentos os graves cuidados que nos + inspiram, devem ou no continuar a manter—na lista dos seus acepipes + predilectos—os faqueiros. +</p> +<hr id="chambord" /> +<p> + Durante este mez, to inquieto, to palpitante de commoes, em toda a + Europa, os principes com mo nervosa e febril cultivaram a epistola. +</p> +<p> + O Santo Padre escreveu ao imperador da Alemanha, o imperador da Alemanha + escreveu ao Santo Padre, o conde de Chambord escreveu ao deputado + Rodez-Benavent, o sr.D. Miguel de Bragana escreveu ao sr. conde da + Redinha, e a historia em geral e os redactores da <i>Nao</i> espeialmente, + escutaram com ardor o fremito d'essas pennas riscando a face do universo + com letras um pouco menos correctas que as de Cicero, de Plinio o moo e + de madame de Sevign. +</p> +<hr /> +<p> + O Santo Padre pede ao imperador Guilherme que obste a que o governo da + Alemanha persista na perseguio do clero catholico. O imperador + Guilherme roga a Sua Santidade que impea o clero catholico de proseguir + na rebelio contra o governo da Alemanha. +</p> +<p> + D'este modo o Papa deseja que se retire da scena o martyrio, a grande e + bella apotheose da egreja triumphante, e lembra ao verdugo que sirva aos + martyres o antigo fel das legendas gloriosas com o moderno assucar dos + confortos policiaes. +</p> +<p> + O imperador opina que amargo de mais o proprio calix que o obrigam a + tragar, e tirando da cabea o seu ponderoso capacete bellico de ponta de + pra-raios, e humilhando-se dentro das suas botas de couraceiro, + elle—abatido, beato, lacrimoso—pede egualmente para as suas + tribulaes de christo as correspondentes e proporcionaes douras. +</p> +<p> + E taes so os dois maximos guardas da f, os dois summos representantes + na Europa moderna dos dois grandes ramos em que se acha dividida a + christandade! +</p> +<p> + Oh! Voltaire compungir-se-hia, e, franzindo n'um sorriso bom os feixes + malignos das suas sarcasticas rugas, elle, o caustico philosopho, o + livre espirito, tirando benevolo dos bolsos da sua houppelande de + veludo e martas a caixa das suas pastilhas, offereceria s potestades + chorosas os bombons sacrilegos dos sales de Mesdames du Deffant e de de + Lambert. +</p> +<hr /> +<p> + A carta do conde de Chambord o velho golpe astuto de Jarnac jogado ao + constitucionalismo monarchico. +</p> +<p> + O principe a quem a Frana offerecera a cora burgueza de Luiz Filippe, + pergunta-lhe o que exige d'elle a Frana, que papel lhe destina, para + que misso o invoca. +</p> +<p> + Vs, que estaes na liberdade, na democracia, na republica, cedeis ao + invencivel appetite de acclamar um rei. Comprehendestes que superior + aos vossos meios repressivos e reorganisadores a perturbao corrompida + da sociedade em que viveis. Duvidaes da vontade, da intelligencia, da + fora do vosso accordo collectivo. Quereis uma iniciativa individual, + culminante, prestigiosa, predestinada para o mando, para o triumpho, + para a gloria; quereis o monarcha eleito como Saul para livrar o seu + povo das mos dos seus inimigos, segundo a formula primitiva do + propheta Samuel. +</p> +<p> + N'esse caso armae a vossa cathedral de Reims, convidae os vossos + principes do seculo e da egreja, trazei a cora real, a espada, as + esporas, a dalmatica azul, as botinas de seda estrellada de lizes de + oiro, entregae-nos o sceptro de Carlos Magno, e dae-nos as sete unces + de Pepino o Breve. Depois do que, ns haveremos por bem deliberar por + quaes secretos caminhos nos apraz mandar-vos, segundo as vossas + gerarchias, para a victoria, para a bemaventurana ou para a fora. + Emquanto vs, tranquillos, repousados, deixareis definitivamente de + occupar-vos da coisa publica, e, sem ambies, sem principios, sem + idas, tereis a felicidade absoluta da besta no seu aprisco; <i>hoc erit + jus regis qui vobis imperaturus est</i>. +</p> +<p> + Se, em vez d'isto porm, o que desejaes ter , no uma fora omnipotente + que vos governe, mas sim um instrumento politico que manejeis; se para + me outorgardes a cora, precisaes de me tirar a iniciativa, a + personalidade, a dignidade de homem; se para que me julgueis inoffensivo + preciso que eu vos mostre ser pdre; se as garantias que me pedis para + que vos no domine so uma fraqueza, uma corrupo, uma inepcia que vos + assegurem a facilidade de me dominardes a mim, ento no: no vos + convenho eu, o derradeiro dos Bourbons fundadores da monarchia absoluta + nascida dos terrores da Liga e da Saint-Barthelemy, descendente e + herdeiro de Henrique IV, o que teve a dupla coragem da fora e da + miseria, o que na tomada de Cahors se bateu nas ruas durante cinco dias + consecutivos, lho a lho, dente a dente, brao a brao, o que de Dieppe + escrevia alegremente a Sully que tinha todas as camisas despedaadas e + um gibo roto nos cotovellos! +</p> +<p> + Camille Desmoulins conta que em 1790 o poder monarchico era representado + em Londres por meio de um bailado expressivo como uma parabola. N'este + baile a primeira figura era um rei que terminava a execuo de um + <i>entrechat</i> cheio de garbo e de pompa alongando um pontap ao fundo das + costas do seu primeiro ministro; este transmittia o pontap real ao + segundo ministro, o qual o traspassava ao terceiro, seguindo-se a mais + viva e espirituosa corrente de pontaps que se tem visto n'uma crte, + at que o personagem que apanhava em cheio no seu volumoso e amplo + hemispherio posterior o ultimo pontap era o paiz—que ficava com elle. +</p> +<p> + Nas monarchias constitucionaes imaginou-se reconstituir, por meio da + carta, essa graciosa dana, alterando porm a collocao do soberano ou + a ordem dos pontaps, de maneira que ou o principe est em baixo e os + pontaps vem de cima, ou o tyranno est em cima e os pontaps vo de + baixo. +</p> +<p> + Os povos monarchicos julgam-se felizes tendo cada pessoa ao lado de si + alguem a quem transmittir o pontap em giro atravez das instituies e + da politica. A carta do conde de Chambord no em resumo seno o + testemunho de uma divergencia com a assembla nacional sobre este ponto + importante do bailado em ensaios: quem que recebe o pontap? +</p> +<p> + A um paiz corrompido e a uma assembla senil no occorre esta + considerao to simples: que quando se trata de um stygma de servilismo + e de baixeza a questo no poder transmittil-o, no dever + acceital-o. Organisar pela monarchia a responsabilidade dos que se + corrompem abdicar a faculdade de demittir a corrupo. Os reis quando + no enodoam os povos, tambem no lhes tiram as nodoas que elles tenham. + N'esses casos o que limpa um paiz no a realesa. Quereis saber o que + ? Pois bem! a benzina! +</p> +<hr /> +<p> + A carta do sr. D. Miguel de Bragana ao sr. conde da Redinha ao mesmo + tempo o tocante documento da estima inviolavel de um amigo ausente, e o + authentico manifesto politico de um principe proscripto. +</p> +<p> + Sua alteza declara ao <i>seu paiz</i> que quer ser o protector e o amigo de + todos os portuguezes e que considera como sua mais elevada ambio e sua + maior gloria—restaurar o throno pontificio. N'este simples trao + encarna sua alteza a expresso politica da sua indole,—o que nos parece + de uma moderao de intuitos demasiadamente modesta. +</p> +<p> + Diriamos que sua alteza folga em confundir-se na obscura legio invalida + dos tyranos burguezes, dos cezares bonacheires, Neros de barrete de + dormir, Caligulas dyspepticos, Eliogabalos em uso do pronto alivio e da + revalenta arabica. A politica affirmada por sua alteza accusa uma + visivel pobresa de sangue. Sua alteza um anemico. Tal o infortunio + da nossa raa! Que degenerao! +</p> +<p> + O pae do joven principe D. Miguel era sanguineo, esse. A sua + extraordinaria fora muscular era a admirao respeitosa, a maravilha + profundamente inclinada do <i>sport</i> lusitano de 1827. Nas redondezas do + pao de Queluz, nas terras do Infantado, via-se s vezes atravessar os + campos, a p, caando acompanhado do seu falcoeiro, um homem de mais de + meia estatura, de solidos hombros, faces morenas, barba rapada, mos + enormes, beios sensuaes, grandes olhos negros, rasgados, peninsulares; + vestia um casaco de baeto verde, calo preto, botas altas, de cava, + com taes de prateleira e esporas de prata; usava um bonet azul, do + prato largo, com vizeira. Este homem, que amava a convivencia dos + plebeus, a quem dava largas esmolas de dinheiro e de conversao, + comprazia-se em ensinar a lavrar os moos do campo: tomava na mo + esquerda a rabia de um arado, azorragava com a direita uma parelha de + mulas, e abria no solo mais empedrado e mais endurecido, sob a poderosa + presso do seu pulso, um rego profundo, extenso de um kilometro, e recto + como um risco passado a regoa por um tira-linhas. Suffocava um forte + cavallo de Alter puchando-lhe a ponta da cilha com os dentes. Segurava + pela bocca, que juntava e cerrava no punho, um sacco de sete alqueires + do trigo, e lanava-o ao hombro, com uma s mo, erguendo o brao por + cima da cabea e conservando o corpo immovel, erecto e firme. Quando + vinha de Queluz a Lisboa, galopando desfilada, com uma vara debaixo da + perna, entre os seus companheiros mais assiduos, Joo Sedvem, o picador, + o Jos Verissimo, o da policia, a fora de soldados de cavallaria que o + acompanhava, ficava aos poucos pela estrada destroada pela fadiga: elle + nunca chegou seno s. No dia em que recebeu ao p da mata, na Quinta + Velha, onde estava caando ao falo, por volta das duas horas da tarde, + a noticia de ter entrado a barra de Lisboa a flotilha que apresou e + levou para Frana todos os nossos vasos de guerra surtos no Tejo, elle + veiu de Queluz a Belem, em menos de tres quartos de hora. Esse homem que + tinha a grande popularidade que trazem comsigo as legendas da fora e da + destreza physica, era sua magestade el-rei o sr. D. Miguel I. +</p> +<p> + O soberano tinha os defeitos do homem e as qualidades dos seus defeitos. + A sua politica era apopletica simplesmente porque elle era plethorico. +</p> +<p> + Esse principe, com o seu temperamento, o qual constituia, politicamente + assim como physiologicamente, toda a sua personalidade, fez liberdade + e s idas modernas o mais relevante servio: foi elle o que fabricou o + partido liberal portuguez. +</p> +<p> + Os constitucionaes foram uma inveno da policia do sr. D. Miguel. Elles + no combatiam o direito divino, nem os privilegios da nobreza e do + clero, nem o regime absoluto, nem a servido popular; o que elles + combatiam principalmente era o Jos Verissimo. Affirmavam-se os direitos + do homem porque se tinha percebido que esses direitos prejudicavam os do + Joo Sedvem. Os revolucionarios portuguezes no vieram da sciencia, no + vieram do amor da justia, das impaciencias da liberdade, dos contagios + da Conveno, da revolta da dignidade humana. No. Elles vieram + simplesmente dos carceres, dos carceres em que o regime despotico + recalcou de mais a fora viva da nao. Os principios eram o pretexto + sob o qual se vingavam as offensas feitas no s idas vigentes, mas aos + interesses estabelecidos. As denuncias partiam dos lesados. A ida + exposta na organisao da Companhia dos vinhos preoccupava mais os + espiritos em Portugal do que o principio representado em Frana pela + existencia da Bastilha. Havia martyres da liberdade que nunca tinham + amado a liberdade com devoo mais intensa que a do Sedvem e que no + teriam posto duvidas irremissiveis em continuar a dobrar a cerviz, ao + jugo da tyrannia como se dizia no stylo do tempo; smente o que elles + tinham recusado era emprestar algumas moedas ao Jos da Policia. Para a + maior parte da gente a victoria da ida liberal foi simplesmente a morte + do Telles Jordo. Finalmente o sr. D. Miguel de Bragana, <i>primeiro</i>, + foi o principe cuja fora fez na monarchia portugueza o rombo por onde a + liberdade appareceu. O sr.D. Miguel de Bragana, <i>segundo</i>, + figura-se-nos pela sua expressiva carta ao sr. conde da Redinha, uma + pessoa extremamente debilitada. Ser o protector e o amigo de todos os + portugueses enfraquecer-se diffundindo-se. Os antigos fortes + concentravam-se. +</p> +<p> + Pobres de ns! Como somos diversos de nossos paes! Os plethoricos, + sangrados, legaram gerao que lhes succedeu a impotente anemia! +</p> +<hr /> +<p> + Acabamos de lr um livro que foi publicado era Lisboa ha cerca de tres + mezes e a respeito do qual ainda no ouvimos critica uma palavra de + meno. Foi abafado pelo silencio. Se lhe no dessem esse destino teria + sido um livro escandaloso porque foi inteiramente concebido fra da + rotina, fra da conveno, fra do compadrio, por um espirito + justo, esclarecido, honrado, fatalmente inclinado ao bem. + Intitula-se—<i>Portugal e o socialismo</i>, e escripto pelo sr. Oliveira + Martins. +</p> +<p> + A litteratura portugueza actual apresenta este notavel caracter:—o + bysantinismo. Ella no um documento historico, nem um documento moral + do tempo em que vivemos. No tem importancia na direco dos espiritos, + no tem influencia na formao dos caracteres, no tem validade no + estabelecimento dos principios. No d nenhuma theoria razo, no d + nenhuma lei consciencia, no d nenhuma norma dignidade. +</p> +<p> + A imitao, a conveno, o servilismo, o estreito espirito de seita, de + partido, de escola, a ignorancia, a indolencia, a bajulao, a + orthodoxia official puzeram a pouco e pouco as lettras portuguezas + inteiramente fra do seu objecto—a simples e pura verdade humana. +</p> +<p> + O que actualmente se escreve no absolutamente nada o que actualmente + se pensa. Todas as grandes questes capitaes que preoccupam a sociedade, + a litteratura ou as evita ou as falsea. Ou as evita porque as no sabe + tratar, ou as falsea porque as trata com um espirito particular de + interesse, hostil sciencia e rebelde arte. +</p> +<p> + Entre tantos escriptores portuguezes que quotidianamente enegrecem em + Portugal o innocente papel sobre o qual se ora a medida das nossas + faculdades, onde est o homem cuja obra represente o precurso das idas + predominantes d'este seculo atravez d'esta sociedade? Onde est o + artista, onde est o philosopho, onde est o poeta que tenha atacado de + frente a soluo desinteressada, independente, firme, clara, nitida, dos + multiplos problemas que agitam o espirito, a consciencia, o corao do + homem moderno no meio do sentimento, do temperamento, da religio e da + politica da sociedade moderna? +</p> +<p> + Ser tal escriptor o sr. Alexandre Herculano, philosopho collaborador da + sr. D. Guiomar Torreso no <i>Almanack das Senhoras</i>? +</p> +<p> + Ser o poeta sr. Nunes, deputado conservador, o mais arrojado dos vates + que conhecemos dentro dos limites da carta constitucional e do systema + representativo? +</p> +<p> + No nos parece. +</p> +<p> + O sr. Oliveira Martins faz parte de um pequeno grupo de alguns + trabalhadores obscuros, inteiramente penetrados da corrente scientifica + do tempo actual, que teem procurado introduzir na litteratura as idas + correspondentes s preoccupaes, s necessidades e aos interesses mais + altos, mais legitimos e mais vitaes da sociedade em que vivem, fixando + assim scientificamente algumas das bases do programma geral da revoluo + por meio da qual se vae transformando o mundo europeu. +</p> +<p> + Esses humildes obreiros, aos quaes cabe a gloria de terem iniciado em + Portugal quasi todos os grandes principios das civilisaes modernas, + no teem encontrado, como galardo dos seus estudos, da sua + independencia e da sua andcia de pensadores, seno a surda guerra das + maledicncias, das calumnias e dos desdens, evantada pelo obscurantismo, + pelo fanatismo, pela ignorancia. Accusam-os de attentarem contra a + moral, contra a religio, contra a ordem, contra o patriotismo, e + expulsaram-os vilmente e infamemente do respeito publico e da + considerao social como jacobinos, como communistas, como incendiarios. +</p> +<hr /> +<p> + do livro acima citado que extrahimos a seguinte pagina to sensata, + to viva, to humana: +</p> +<p> + Portugal no tem pauperismo. por isso que entre ns se no levantaram + ainda, nem se levantaro j, Nelsons ou Sydney Smiths para dizerem como + em Inglaterra: A pobreza infame. por isso que a definio ingleza + da fabrica—<i>manufactura de algodo e de pobres</i>—no pode servir-nos. O + no attingirmos porm um termo to elevado de preverso social no quer + dizer que as classes trabalhadoras de todas as industrias vivas do paiz, + extractivas e transformadoras, encontrem para c das nossas fronteiras + um modo de vida essencialmente differente. No, a nossa organisao + politica, semi-monarchica, semi-liberal, d em resultado ser duplamente + absurda, immoral, pauperisadora. Porque, como liberal, permitte a livre + concorrencia do capital e do trabalho, aliena as funces e + propriedades collectivas, e, para corrigir as consequencias de + distribuio viciosa que d'ahi resultam, mantem uma proteco + anachronica, com as alfandegas, com a divida e com o imposto, proteco + que recaindo afinal toda no consumo, vem ainda aggravar as condies do + trabalhador pela elevao no preo das coisas. Acima da preverso + economica devemos pr a preverso moral. No pequeno mundo industrial de + Lisboa, no contaste nunca, leitor, aos sabados o numero de ebrios que + pova as vielas escuras e nauseabundas, onde crapula vem juntar-se a + orgia das mulheres perdidas? Onde o prostibulo est em frente da + taberna, ao lado o bilhar, e entre o bilhar, o prostibulo e a taberna, + se funde a feria? +</p> +<p> + A desordem e a immoralidade so contra a natureza. Se esses homens no + fossem pobres seriam melhores. Se no tivessem de trabalhar doze horas + para comer saberiam ler. Se tivessem po e liberdade seriam paes de + familia. Olhae as mulheres e as creanas. Termo medio a familia tem + quatro pessoas; termo medio o salario de 400 ris. O trabalhador + recorre ao celibato, prostituio, s relaes illicitas, d'onde + resultam os infantecidios (to frequentes em Portugal como na China) e a + roda dos expostos. Quando um homem foi agarrado por esta engrenagem + d'ao morreu. Ha muitos a quem uma certa energia de caracter ou uma + constituio artistica e sentimental levaram ao casamento e familia: + ento que se encontram quatro pessoas com quatro tostes por dia. A + industria offerece uma tentao diabolica: augmentar o salario + destruindo a familia. N'esse momento a esposa e os filhos entram na + <i>fabrica</i> ... +</p> +<hr /> +<p> + A fabrica para as mulheres e para as creanas o sepulchro do pudor, da + honestidade e da saude. Emquanto as instituies sociaes no assegurarem + mulher o seu legitimo logar na familia absolutamente preciso que, + pelo menos a protejam na miseria fatal da fabrica. Porque nas fabricas + portuguezas o que succede com a mulher que, pela sua fraqueza e pela + sua ignorancia, ella no trabalho o escravo do homem. Ninguem entre ns + tem lanado os olhos a esses desgraados destinos obscuros. +</p> +<hr /> +<p> + Acostura que ainda ha pouco era o grande refugio das raparigas pobres + desappareceu com a machina de cozer. A mulher no pde sustentar essa + concorrencia, porque ella no pde, por maiores que sejam os esforos + dar por suas mos mais de 30 pontos por minuto: a machina d 643 pontos + no mesmo espao de tempo. Para se empregar n'outros servios precisaria + de uma educao preparatoria pratica, para a qual so indispensaveis as + escolas profissionaes que no existem em Portugal. Em Frana, na + Inglaterra, na Allemanha e principalmente na Suecia, as mulheres + habilitadas em cursos especiaes teem j muitos empregos uteis na + industria e no commercio. Em 1871 havia na Suecia 4:055 mulheres + empregadas no commercio e na industria. D'estas 2:675 dirigiam os seus + proprios negocios. Quinhentas e quatro mulheres eram proprietarias de + fabricas e de officinas. Alm d'isto muitas outras se achavam empregadas + nos bancos, nas caixas de soccorros, nas companhias de seguros, etc. com + emolumentos annuaes variando de 800 a 5:000 rixdalers. No servio dos + correios, dos caminhos de ferro, dos telegraphos, a mulher alarga de dia + para dia os seus dominios. A America, a Suecia, o Wurtemberg, + offerecem-lhe sob esse ponto de vista as maiores facilidades. +</p> +<p> + Em Darmstadt muitas mulheres se acham empregadas nas reparties de + estatistica com optimos resultados para o servio publico. Os cuidados + aos doentes so um bello emprego para o trabalho das mulheres. Na + Hollanda muitas teem sido auctorisadas a tirar diplomas de + pharmaceuticos. A profisso medica tem-lhes sido permittida em diversos + paizes. Na America, em S. Petersburgo, em Zurich, em Upsel e em varias + outras universidades ha um consideravel numero de alumnos do sexo + feminino estudando a medicina. Na Suecia estabeleceu-se pelo estado um + fundo permanente de soccorros para as mulheres que seguem a carreira + medica. +</p> +<p> + A ultima exposio de Vienna veiu provar ainda quanto as mulheres se + teem ultimamente occupado nas artes industriaes e nas bellas artes. Na + exposio sueca v-se no pavilho dos productos da industria o perfeito + exito com que as mulheres teem cultivado n'aquelle paiz a pintura, a + gravura em madeira, a xylographia, a lythographia, a gravura em cobre, a + photographia, a cartographia, a pintura em porcelana, a modelagem. Na + Suecia concedeu-se-lhes accesso, como aos demais empregados, nos + servios dos telegraphos, dos correios e dos caminhos de ferro. + Admittem-as como gravadoras na casa da moeda; muitas so empregadas nas + academias, nas imprensas e n'outros estabelecimentos como xylographas, + impressoras, compositoras, directoras de officina, etc. +</p> +<p> + Na Suecia ha hoje immensas escolas sustentadas pelo governo, pelas + communas e por associaes particulares onde ensinam s raparigas pobres + todos os trabalhos femininos do mnage. Ha escolas especiaes + destinadas a formar creadas. Em Stockolmo ha escolas de remendagem onde + as raparigas aprendem a concertar os seus fatos e a sua roupa branca com + um acceio e uma arte inexcedivel. As meninas burguezas teem sua + disposio a escola industrial de Stockolmo, as escolas normaes reaes, o + instituto central de gymnastica onde se formam mestras de gymnastica, a + academia real de musica, a academia das bellas artes os estabelecimentos + de instruco das parteiras e a mesma universidade, onde se ministram + subsidios a tres raparigas que estudam por conta do estado. Depois da + Suecia devem-se citar os Paizes Baixos e a Austria. Em Vienna a + municipalidade fundou em alguns bairros escolas industriaes nocturnas. + Sociedades de senhoras estabeleceram escolas profissionaes de + differentes especies. Ha uma sociedade especial encarregada de obter s + mulheres meios de subsistncia (Frauenerwerb-Verein). Alm das escolas + preparatorias para a instruco geral elementar e para a instruco + superior, estabeleceu a referida sociedade uma escola de costura, uma + escola superior de trabalho com um curso de estudos que dura tres annos, + uma escola de desenho industrial, uma escola de commercio, uma escola de + linguas, um curso especial para as empregadas na telegraphia. Na + Hollanda na escola industrial de Amsterdam que se instrue a mocidade + feminina no s nos trabalhos manuaes, taes como o bordado, costura + mo e machina trabalhos de cartonagem e obras de palha, escripturao + commercial, legislao commercial e pharmacia. Na Alemanha do norte e na + Alemanha central ha egualmente muitas escolas industriaes fundadas por + sociedades especiaes e por outras corporaes para a educao das + raparigas e das mulheres. Um fabricante de Munich fundou uma excellente + escola de ensino commercial para as raparigas da classe burgueza e da + classe operaria. As mulheres que sem d'esta escola encontram + immediatamente emprego nos bancos, ou nas casas de commercio. +</p> +<p> + A Russia resolveu ultimamente facultar a matricula na escola de medicina + de S. Petrsburgo s mulheres habilitadas com determinados titulos de + capacidade. Logo depois da promulgao d'esta lei, quatrocentas mulheres + se apresentaram como candidatos frequencia da alludida faculdade. +</p> +<hr /> +<p> + Sabem dizer-nos o que que, sob este ponto de vista, se tem feito em + Portugal? Esperamos que suas excellencias os senhores conservadores se + dignaro responder-nos. +</p> +<hr /> +<p> + O sr. marquez de Vallada mandou correr este mez os reposteiros + brasonados dos seus sales para inaugurar as soires elegantes do + presente inverno com um jantar <i>pri</i>. +</p> +<p> + Assistiram todos os membros do gabinete e varios outros personagens + illustres na politica e na burocracia. Sentia-se apenas uma falta n'essa + reunio selecta: a ausncia absoluta de senhoras no palacio do nobre + fidalgo. Bem sabemos que um jantar no precisamente como uma valsa + para a qual a gente no ha de ir convidar a lagosta, nem danar com o + per. Mas mesmo para o que comer no basta apenas a comida. O sr. + marquez sabe a este respeito a opinio de Savarin: o bruto pasta, o + homem come, s o homem de espirito que sabe comer. Ora uma duzia de + barbatolas postos a mascar trufas uns diante dos outros em volta de uma + mesa no nos parece que deem o espectaculo da espiritualidade mais fina. + preciso que concorram tambem as senhoras, com a <i>toilette</i>, com a fina + pelle, com os perfumes, com as rendas, com as perolas, com as frescas + risadas cristalinas, com os agudos ditos penetrantes, com a elevao + finalmente, com a idealidade, com o espirito. +</p> +<hr /> +<p> + Atravessar a gente por entre duas filas de criados gordos e graves como + embaixadores, indo por baixo dos lustres, pizando um tapete espesso, + dando o brao a alguem, ou seguindo mesmo, atraz, sosinho, na turba dos + obscuros, com a claque debaixo do brao; entrar na sala de jantar, + tepida, fulgurante de luz; contemplar a mesa de um aspecto tropical pela + natureza das fructas e pela frma das flres trasvasadas do plateau, + procurarmos o nosso nome nos bilhetes que esto em cima dos guardanapos; + sentarmo-nos ao dce murmurio dos vestidos que se enffam ao nosso lado + e dos talheres que telintam; desdobrar nos joelhos um amplo guardanapo, + frio, lustroso e pesado, de linho de Irlanda; aconchegarmo-nos, unirmos + os cotovellos ao corpo e inclinarmo-nos sobre o prato; metter na bocca a + primeira colher do sopa, sentir estalar e derreter-se no dente o + primeiro rabiolo, escorrendo no paladar o acre succo dos espinafres, em + quanto a nossa visinha da esquerda mette a sua luva enrolada no copo do + Madeira, e a nossa visinha da direita morde atrevidamente no po + deixando-nos vr de lado todos os seus pequeninos dentes mais lindos que + as suas perolas ... isto realmente acharmo-nos n'um dos momentos mais + augustos que a civilisao e a elegencia concedem ao homem em paga dos + sacrificios que elle lhes tem feito nos esmeros da educao e na alta + cultura do espirito. ento que as mulheres, smente as mulheres—ellas + que vivem na graa e no mimo como os solitarios vivem no egoismo e no + tedio—desenvolvem o talento especial de fazer romper os alados + assumptos ligeiros e subtis, em torno dos quaes adejam as conversaes, + as phantasias, as replicas, os repentes, como doiradas abelhas famintas + sobre um ramo de rosas. +</p> +<p> + Se n'esses momentos os homens se acham ss, ou caem na bestialidade + indolente e calada dos deuses de Epicuro, ou discutem, questionam, + fallam alto, gritam, pem os cotovellos na mesa, fazem gestos, fazem + bolas de po, do estalos com a lingua, limpam as unhas, e quebram + palitos nos dedos—o que ha mais implicativo dos nervos e mais offensivo + do gosto. +</p> +<hr /> +<p> + Consta-nos que pelas razes referidas o jantar do sr. marquez tocou um + pouco no tetrico. O silencio era a principio to solemne que apenas se + ouvia confusamente o ruido da maioria parlamentar engolindo pelo + esophago do ministerio e a ordem e a guarda municipal mastigando pela + bocca do sr. baro do Zezere. Tinha-se ar de se estar n'uma sesso + deliberativa e no n'uma festa; parece at que o sr. marquez de Avila, o + illustre parlamentar, dirigindo-se a um criado, se mostrra gravemente + preoccupado ao ponto de que, sendo a sua inteno pedir-lhe Sauterne, + lhe pedira a palavra. +</p> +<p> + Por fim parece que o dono da casa usara da fala para expr o objecto + d'aquella reunio, o qual, segundo referem os jornaes, foi: +</p> +<p> + <i>Affirmar a adheso do sr. marques de Vallada monarchia</i>. +</p> +<hr /> +<p> + Achamos extremamente louvavel e digno de ser imitado por todos os + fidalgos portuguezes o exemplo dado pelo sr. marquez de se sacrificarem + pelo throno ao ponto de no hesitarem um momento, para o salvar, em + irem ... para a mesa! +</p> +<p> + Os vossos avs, quando queriam dedicar-se ao esplendor da cora iam + bater-se em Arzilla, em Ormuz, em Ceuta, em Tanger, descobriam terras, + venciam batalhas, conquistavam reinos. +</p> +<p> + Quereis provar-nos que ainda guardaes nos vossos archivos as antigas + cartas do roteiro dos mares? Que ainda tendes nas vossas panoplias as + duras armaduras e as famosas lanas dos vossos maiores? Muito bem! Visto + que no podeis refazer o que est j feito por elles, comeae pelo menos + a realisar o que elles tantas vezes omittiram: jantae! +</p> +<p> + E a cora ver, pela maneira como vos mostrardes aptos para comer, + quanto sois capazes de amar. +</p> +<p> + Assim como o Castro forte dizia que por cada pedra da fortaleza de Diu + elle daria um filho, mostrae vs que por cada perna de per trufado + sereis capazes de dar um av. E o soberano, jubiloso e grato, + contemplando por cima da gloriosa terrina da historia contemporanea, os + feitos valorosos dos vossos garfos invenciveis, apreciar os vossos + titulos de immortalidade, discriminando, no ardor e na confuso das + refregas, os que se lhe dedicam at ao pato com arroz, os que o + estremecem at ao frango com hervilhas, os que o idolatram at s + salchichas com couve lombarda! +</p> +<hr id="elementofeminino" /> +<p> + Mas por Deus, meus senhores, consenti que vol-o repitamos: No excluaes + dos agapes patrioticos com que preparaes a entranha para a communho + monarchica, o doce elemento feminino, o melhor encanto do triumpho, o + mais alto premio do heroismo, o mais precioso complemento da gloria! Se + a prosmicuidade dos sexos insuperavelmente vos repugna, que alguns de + vs pelo menos se sacrifiquem s conveniencias da arte, s prescripes + do bello, e salvem sequer as apparencias—vestindo-se de mulheres! +</p> +<p> + Animo, senhores commandantes dos corpos! animo, senhores officiaes + maiores! animo, senhores ministros de estado! por ellas, que vos + pedimos isto, pelas que tiveram sempre o seu logar nas nossas gloriosas + tradices dymnasticas! Lembrae-vos d'ellas, e ide lanar-vos aos ps da + Aline! Lembrae-vos d'ellas, e consenti em decotardes os vossos hombros! + Elanguescei, meus senhores, reclinae meigamente as frontes, cerrae + levemente as palpebras, agitae um pouco os vossos leques, dae suspiros, + ponde taes de setim escarlate, vinde de cuia! e, sobretudo—no o + esqueaes—trazei <i>tournure</i> ... Que vos custa trazer <i>tournure</i>? Uma + coisa to facil, que se traz como as patronas! +</p> +<p> + pelo throno, pelo mesmo throno de que vos declaraes adeptos, que vos + supplicamos isto! pelas vossas excelsas e augustas soberanas, no + representadas no vosso banquete ... Em nome de Mecia Lopes, meus + senhores! Em nome de D. Urraca! +</p> +<hr /> +<p> + A imprensa de Lisboa no tem opinio. Aquelles dos seus membros que por + excepo presentem as idas proprias, vivas, originaes zumbindo-lhes + importunamente no cerebro, enxotam-as como vespas venenosas. que a + misso do jornalismo portuguez no ter idas suas, transmittir as + idas dos outros. Por tal razo em Lisboa o homem que pensa no nunca + o homem que escreve. O jornalista nunca se concentra, nunca se recolhe + com o seu problema para o meditar, para o estudar, para o resolver. + Nunca procura a verdade. Procura apenas a soluo achada pelo publico, + pelo publico d'elle, pelo seu partido politico, pelos consocios do seu + club, pelos seus amigos, pelos seus protectores, pelos seus assignantes. + Portanto trabalha na rua, debaixo da arcada do Terreiro do Pao, nos + corredores ou nas tribunas de S. Bento, no Chiado, no Martinho, no + Gremio. Como trabalha? Trabalha d'este modo: <i>informando-se</i>;— o termo + technico. Uma vez informado, o jornalista considera-se instruido. Desde + que tem a informao recebida tem o jornal feito. O que elle vos escreve + hoje—notae-o bem— o que vs lhes dissestes hontem. O jornal no uma + fonte de critica, de analyse, de investigao. O jornal o barril de + transporte das idas em circulao, das solues previamente recebidas e + approvadas pelo consenso publico. O jornalista o aguadeiro submisso e + fiel da opinio. No a dirige, no a corrige, no a modifica, no a + tempera. O unico servio que lhe faz este: transporta-a dos centros + publicos aos domicilios particulares. O publico a nascente, o veio, + o manancial; a imprensa periodica simplesmente—o cano. +</p> +<hr /> +<p> + Essa a lei geral da conducta da publicidade em Portugal. Toda a + transgresso d'essa lei um eminente perigo para o que a commette. O + leitor portuguez no quer que o seu livro ou o seu periodico o obriguem + s fadigas da discusso e da controversia com o seu proprio espirito. A + conquista desinteressada e pura da verdade no tem attractivo algum para + as suas faculdades. As curiosidades e os interesses especiaes da alma + portugueza repastam-se no sentimento: a reflexo molesta-a. Entre tantos + escriptores nacionaes nunca houve um pensador. Descartes, Spinosa, Kant + seriam inteiramente impossiveis no seio d'esta sociedade, a que falta a + respirao logo que a tirem da rotina. No se lhes d, aos leitores + portuguezes, de verem a verdade, mas querem a verdade atravez da + opinio. Ninguem pensa fra das materias da ordem do dia. Que ha de + novo? a nossa pergunta de todas as manhs. Esta phrase profundamente + caracteristica quer dizer: Dem-me a senha e a contrasenha; digam-me em + que pensam para eu saber o que hei do pensar. O meu jornal vem bom ou + vem mau segundo ou no em cada dia a expresso das minhas convices + baseadas em ideas preconcebidas na convivencia do publico. O criterio + substituido pelo <i>mot d'ordre</i>. +</p> +<p> + Se n'um tal meio intellectual apparece um miseravel solitario, que no + tem um partido, que no tem um centro, que no tem um <i>club</i>, que no + tem sequer um botequim, mas que, no obstante, segue os successos do seu + tempo e exprime a respeito d'elles uma opinio absolutamente individual, + isto —livre, sobre esse homem cem todas as suspeitas, todas as + presumpes malevolas que acompanham atravez de uma multido apalavrada + um intruso mysterioso e sinistro. Tal a especie de acolhimento que por + differentes vezes nos tem sido feito e que mais particularmente nos foi + manifestado depois da publicao do nosso ultimo numero a proposito de + dois artigos, um consagrado ao sr. Alexandre Herculano, outro destinado + casa de correco installada no convento das Monicas. +</p> +<hr /> +<p> + Lemos alguns dos artigos que nos foram consagrados, e achamo-nos + inteiramente edificados cerca do nosso desacato s instituies + publicas e da nossa irreverencia com as glorias nacionaes. +</p> +<p> + Smente, meus senhores, uma coisa nos parece ter-vos esquecido, e : + demonstrar-nos que a reverencia das instituies e o respeito das + celebridades gloriosas seja um instrumento de critica ou um meio de + analyse. Porque ns—talvez o no tenhaes comprehendido bem—ns no + somos propriamente os mestres de ceremonias da gerao a que + pertencemos. No estamos aqui a leccionar mesuras nem a praticar + experiencias sobre a variedade das curvas mais ou menos inclinadas a que + se nos presta o espinhao. Ns somos apenas uns simples chronistas do + tempo que vamos atravessando. Somos os contribuintes especiaes do mez + para a historia geral do seculo. Ora no ser pondo-nos humildemente de + cocoras no cho que ns veremos de mais alto as coisas e os homens. No + exame e na apreciao dos factos o minimo vislumbre do respeito um + perigo da verdade. Michelet, demolindo no seu ultimo livro a legenda + napoleonica filha da reverencia da historia pelo falso heroismo de + Bonaparte, mostra-nos que a fascinao grosseira produzida pelo heroe + de Marengo e de Austerlitz teria cahido perante o bom senso e perante a + gargalhada, se a Frana no tivesse perdido, depois do Terror, o riso, a + sua grande arma contra os tyrannos. +</p> +<p> + O primeiro dever da critica diante dos grandes acontecimentos e dos + grandes personagens simplesmente o despreso ou a zombaria ... Michelet + diz mesmo o sacrilegio como instrumento da verdade! e aconselha-nos + que imitemos como historiadores o exemplo de Renaud de Montauband + pegando n'um tio para barbear Carlos Magno. +</p> +<hr /> +<p> + De resto, meus senhores, para que se mantenham na decencia do culto as + tradies patrioticas, parece-nos inutil que ns nos occupemos d'isso. + L estaes vs, diligentes e sollitos, para espanardes as teias da aranha + aos velhos principios, para varrerdes as instituies veneraveis, e para + conservardes em bom estado os heroes e os sabios, limpando-lhes as golas + das sobrecasacas, engraxando-lhes os sapatos e pondo-lhes rap novo no + nariz. +</p> +<hr id="mexil"/> +<p> + Chegmos tarde para fallar da grande tragedia monumentosa do + Mexilhoeiro. O paiz inteiro se pronunciou j sobre este caso, o maior da + historia contemporanea. O facto tem sido largamente tratado em artigos + de jornaes, em folhetins, em trechos de romance, em pias legendas, em + dramas, em <i>te-deuns</i> cantados em todas as cathedraes, em polkas + expressivas, em missas rezadas em todas as egrejas, em felicitaes de + todos os municipios, em sentimentaes mazurkas. +</p> +<p> + Uma s coisa nos parece que falta, e a que propomos: um monumento que + eternise to alto successo, levando s geraes vindouras esta lapide: +</p> +<div class="centered"> +<p>AOS MOLHADOS</p> +<p>POR UMA FRIA TARDE</p> +<p>NO PEGO DO MEXILHOEIRO</p> +<p>A GLORIA</p> +<p>RECONHECE N'ESTE MONUMENTO</p> +<p>OS IRREFRAGAVEIS DIREITOS</p> +<p>DE TO ILLUSTRES VICTIMAS</p> +<p></p> +<p>CONSTIPAO</p> +</div> +<hr /> +<h2> + INDEX +</h2> +<div class="centered"> +<p><b>Dos volumes d'esta chronica</b></p> +<p>PUBLICADOS AT HOJE</p> +</div> +<pre> + I—Maio................... 1871 + + II—Junho.................. + + III—Julho.................. + + IV—Agosto................. + + V—Setembro............... + + VI—Outubro................ + + VII—Novembro............... + + VIII—Dezembro............... + + IX—Janeiro................ 1872 + + X—Fevereiro.............. + + XI—Maro.................. + + XII—Abril.................. + + XIII—Junho a julho.......... + + XIV—Julho a agosto......... + + XV—Setembro a outubro..... + + XVI—Novembro............... + + XVII—Dezembro............... + +XVIII—Janeiro a fevereiro.... 1873 + + XIX—Maro a abril.......... + + XX—Outubro a novembro..... +</pre> + +<p> +<b>Nota.</b> D'hora vante cada um dos volumes d'esta publicao ser marcado +com o correspondente numero. +</p> + + + + + + + + +<pre> + + + + + +End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas: Chronica Mensal da +Politica, das Letras e dos Costumes, by Ramalho Ortigo and Ea de Queiroz + +*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS *** + +***** This file should be named 14622-h.htm or 14622-h.zip ***** +This and all associated files of various formats will be found in: + https://www.gutenberg.org/1/4/6/2/14622/ + +Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed +Proofreading Team. 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Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. 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Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + + https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + + +</pre> + +</body> +</html> diff --git a/old/14622-h/images/devil73.png b/old/14622-h/images/devil73.png Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..1cbe70b --- /dev/null +++ b/old/14622-h/images/devil73.png |
