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+*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 14622 ***
+
+[Illustration: AS FARPAS. R. ORTIGÃO. EÇA DE QUEIROZ]
+
+RAMALHO ORTIGÃO--EÇA DE QUEIROZ
+
+AS FARPAS
+
+CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
+
+3.º ANNO
+
+Outubro a Novembro de 1873
+
+VOLUME XX
+
+
+
+
+Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
+da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
+sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
+politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
+universo, e da adoração de mim mesmo.
+
+P.J. Proudhon.
+
+
+
+
+SUMMARIO
+
+Regresso. Explicações--Historia de uns pés--Modos de morrer. Os
+Lovelaces do sepulchro. Os descamisados da cova--Epistola aos catholicos
+do Porto. A associação catholica, seus fins, seus meios, sua
+organisação, seu programma. O catholicismo. A egreja refugio da
+liberdade. As propagandas catholicas em França e na Italia. Manzoni,
+Rosmini, Balbo, Chateaubriand, Lamartine, o sr. conde de Samodães. Os
+padres portuguezes. O liberal, o reaccionario, o indifferente. O
+confissionario. As academias da rua da Picaria. A mulher christã. O
+partido liberal portuense e a infallibilidade do papa. O protestantismo
+do sr. Bismark. O seculo XVI. Theoria do scepticismo. A duvida na
+politica, na sciencia, na religião. A tolerancia--Festa veneziana nas
+aguas de Caparica--O aio de sua alteza. O que é o aio? O perfil do sr.
+Martens Ferrão. A corte, a mocidade, a aventura, os tações encarnados,
+as espadas dos paladinos. Semiramis, Cleopatra, Penelope e outras. A
+regencia. O beijo de Maria Laczinska. A bengala de Constancia de
+Arbes--As senhoras hispanholas e os faqueiros--O santo padre, o
+imperador Guilherme, o martyrio e as pastilhas de Voltaire. O conde de
+Chambord e o constitucionalismo. Saul, Pepino, Henrique IV. Historia
+philosophica dos pontapés nas monarchias modernas--Perfil do sr. D.
+Miguel de Bragança e influencia politica d'este rei, o seu typo
+physionomico, o seu temperamento, a sua popularidade. De como se
+fabricou o partido liberal portuguez. O João Sedvem, o José da Policia,
+o Telles Jordão e a idéa nova. De como o actual principe D. Miguel é
+anemico--O jornalismo, as idéas, os aguadeiros da opinião publica--O
+drama do Mexilhoeiro--A falta do elemento feminino nos banquetes
+patrioticos.
+
+Leitor querido--Depois de uma longa abstenção de tres mezes--os mezes do
+verão--_As Farpas_ voltam a apparecer no teu banquete ao mesmo tempo a
+que recomeçam a servir-se tambem as ostras.
+
+Á similhança dos mariscos, qu não é bom comerem-se nos mezes que não
+teem r, estas paginas condimentosas e estimulantes, se abusasses d'ellas
+no tempo quente, amigo, far-te-hian, talvez, furunculos.
+
+ * * * * *
+
+Além de que, o verão tem influencias de expansibilidade que
+desconcentram a vida da esphera das suas condições normaes. É a epoca
+das viagens, dos banhos, das estações do campo. Abandona cada um o
+interior da sua casa, os seus habitos, as suas occupações, a sua
+hygiene, o seu trabalho. Fórma-se uma existencia interina, transitoria,
+supplementar. Está-se em uma casa alugada por dois mezes como hospede de
+uma noite n'uma estalagem. Não se reside; pernoita-se apenas, e
+passam-se os dias. Com a supensão do trabalho esterilisam-se tambem as
+idéas, porque todo o trabalho é uma fecundação da intelligencia. Assim
+todo o ser humano temporariamente transplantado da parte de solo, de
+atmosphera moral, em que ordinariamente exerce a sua actividade,
+emurchece. O portuguez, que sempre lê pouco, no verão então não lê nada.
+Achei-me por muitas vezes durante a estação finda a bordo dos pequenos
+vapores que fazem o transporte dos banhistas entre Lisboa e as praias.
+Os setenta minutos d'estas breves viagens eram o tempo consagrado por
+cada um para, por meio da leitura, pôr as suas idéas em relação com os
+interesses intellectuaes e moraes do resto do mundo. Fóra do convez dos
+vapores de Belem ninguem nas praias lê, ninguem tem comsigo um livro.
+Isto não é uma simples hypothese, é uma observação positiva. Em
+Pedroiços, por exemplo, a vida--toda de porta da rua--é transparente:
+vê-se o que cada um faz, quasi que tambem se vê todo quanto cada um
+sente e quanto cada um pensa. Pois bem, nas viagens dos vapores de
+Belem, unico lapso de tempo destinado pelos banhistas ao estudo,
+observámos durante o periodo de tres mezes consecutivos que ninguem lia
+senão almanachs, collecções de cantigas ou de charadas, e os periodicos
+de noticias. Que elementos para, a educação intellectual de alguns
+milhares de cabeças: darem mergulhos no Tejo, aprenderem nos livros que
+nasceu o dente do sizo ao sr. Alexandre Herculano, e saberem pelos
+jornaes que o sr. commendador Santos foi á Outra Banda em partida da
+recreio, com os seus amigos, comer um safio!
+
+ * * * * *
+
+Não foram essas porém as rasões porque _As Farpas_ se callaram durante a
+estação calmosa. Os nossos motivos são inteiramente pessoaes. Nós
+adoecemos ... Perdôa, leitor benevolo, estas perigosas tendencias de um
+convalescente para a autobiographia. Não, não foi um dente novo que nos
+esteve crescendo. Nós não temos, como o immortal historiador a que acima
+nos referimos, a honra de abrir estas linhas offerecendo á patria e á
+sr.ª D. Guiomar Torrezão mais um novo instrumento gloriosamente
+recemnascido para a trincadeira nacional.
+
+O nosso mal, foi simplesmente uma affecção na larynge. Apanhámos isto
+no Chiado. Tivemos na mucose da garganta as mesmas granulações que
+padecem os beduinos na mucose das palpebras por effeito do pó nas
+peregrinações do deserto. O Chiado pagou-nos o pessimo gosto burguez,
+especieiro, indigno, abominavel, de o frequentar, dando-nos esta doença
+climaterica e local. Os hospitaes de S. José e do Desterro dão as
+desyntherias e as gangrenas; os tanques do Passeio do Rocio dão as
+febres paludosas e intermittentes; o Limoeiro e a Casa de detenção das
+Monicas dão as viciações do sangue e as escrophulas; o Chiado e o
+deserto da Arabia dão as affecções granulosas da larynge e dos olhos.
+Cada um dá o que tem.
+
+A poeira do Chiado é uma especialidade curiosa, interessante, tão
+romanesca como a sombra da mancenilha. Esta poeira é fina, miuda, subtil
+como a _veloutine_ de Lubin. Ligeiramente tocada pela aza morna do vento
+leste, ensinua-se, entranha-se, penetra docemente, consoladoramente,
+profundamente--como a calumnia. Depois, uma vez inoculada, produz as
+ophtalmias e as esquinencias--as duas maiores enfermidades de Lisboa.
+Não é simplesmente formada pelas triturações da terra esta poeira. Não,
+porque o solo em Lisboa não é de terra. Aqui a terra tem sido de tal
+maneira misturada, falsificada, fingida, que, hoje, aquillo que
+primitivamente era a terra já não tem terra nenhuma. O solo de Lisboa é
+formado de sobreposições de estercos, de amalgamas de lixo, de restos
+pulverisados de fructas podres, de cães mortos e de papeis sujos.
+
+De todas estas misturas requeimadas pelo verão, carbonisadas pelo sol
+canicular, moidas sob as rodas dos trens e sob os pés pressurosos do sr.
+conselheiro Arrobas, resulta o pó envenenado da capital. Os papeis
+velhos de Lisboa, dejecções burocraticas ou litterarias dos bancos, dos
+cartorios, dos tribunaes, dos escriptorios dos negociantes, dos
+jornalistas, dos advogados, dos tabelliães e do sr. Melicio, são de tal
+maneira abundantes que todos os esgotos da cidade não bastam para os
+engulir. A brisa espalha esses papeis dilacerados pelas povoações
+suburbanas. A praia de Belem é uberrima de papeis sujos, e Pedrouços, a
+mansão burgueza das villegiaturas officiaes, parece-se no aspecto
+especial das suas immundicies com um corredor da secretaria das Obras
+Publicas destinado a projecto de nitreira modelo pelos disvellos
+agronomicos do sr. Rodrigo de Moraes Soares.
+
+De modo que a antiga expressão «_terra da patria_», com referencia a
+Lisboa e seus suburbios, é figura de rhetorica em demasia arrojada. A
+patria do lisboeta não tem terra, tem os agglomerados residuos das
+podridões e dos papeis velhos. O nauta vigilante, que do alto mar
+descobre no azul o ponto escuro e indeciso d'estas praias, procederá com
+louvavel exactidão e amor da verdade se em vez do grito poetico de
+«_terra! terra!_» começar a exclamar á vista de Lisboa: «Supedaneo de
+Melicio!»--ou--«Nitreira de Soares!»
+
+Victima nós mesmo em todo o nosso apparelho respiratorio d'essas
+influencias deleterias da geologia e da civilisação lisbonense, achamos
+prudente substituir--como fizemos--a convivencia do publico pela do
+gargarejo.
+
+ * * * * *
+
+No theatro de D. Maria, o drama--_Idiota_.
+
+Suppoz-se pelos annuncios que _Idiota_ seria uma peça sem nome do
+auctor. Equivoco. Era um nome do auctor sem peça.
+
+No theatro de S. Carlos exhibição extraordinaria dos pés do sr.
+Barberat. A primeira vez que este cantor appareceu em scena os
+violinistas da orchestra suppozeram que elle se lhes tinha calçado--nas
+caixas das rebecas.
+
+Quando no dia da chegada elle poz á porta as suas botinas para engraxar,
+os creados do hotel cuidaram que elle rescindira a escriptura e se
+retirava, por se lhes figurar que o sr. Barberat tinha já no corredor as
+malas.
+
+Em algumas alfandegas os guardas do fisco, desconfiados d'elle, teem-lhe
+pedido as chaves dos pés!
+
+Nunca até hoje poderam dormir juntos os pés e elle. Emquanto elle está
+deitado de costas, os seus pés estão erguidos, ao fundo do leito,
+embuçados em capas, contemplando-o, firmes e silenciosos. Pela manhã os
+pés estão mortos de somno e de fadiga, e para que elles se deitem um
+momento, elle então, compadecido--levanta-se.
+
+Ou por que elle os não queira desasocegar de dia, lembrando-se de que
+teem de estar a pé de noite, ou porque elles mesmos se recusem
+obstinadamente a uma evolução a que debalde os teem querido algumas
+vezes violentar, o artista desistiu absolutamente de vestir as calças
+pelos pés e começou a vestil-as, como a camisa,--pela cabeça. Antes de
+chegar a esta prudente solução, o cantor, para conseguir vestir-se, era
+obrigado todas as manhãs ou a descoser as calças, ou a desmanchar os
+pés.
+
+Uma das coisas que mais vivamente picou a curiosidade do publico nas
+primeiras vezes em que este artista se mostrou em S. Carlos foi saber
+como elle poderia cantar n'um theatro pequeno para que podesse estar
+mais alguma coisa em scena além d'elle com os pés. O empresario acaba de
+confiar-nos a explicação d'esse segredo, que elle nos permitte enviar
+d'aqui como uma dadiva sua á justa anciedade das platéas. Mesmo porque o
+empresario attribue, com bastantes probabilidades de acerto, a esta
+preocupação do publico perante os pés phenomenaes do baixo a frieza
+desdenhosa com que nas primeiras noites se escutou o canto tão vivamente
+sentido, tão profundo e tão genial da Galetti.
+
+Pois bem, meus senhores, não pensem mais n'isso. Querem saber como elle
+cantava nos pequenos palcos?...
+
+Do mesmo modo que cantam os gallos--n'um pé só.
+
+ * * * * *
+
+Á praia da Torre em Belem foi hontem arrojado pela maré o cadaver de um
+homem afogado Era ainda novo, robusto e forte. Estava vestido de panno
+azul. A jaqueta e o collete que vestia tinham botões de metal doirado
+com uma ancora em relevo. Na manga estava presa uma corôa tambem de
+metal. Tinha na algibeira um relogio e algumas moedas de prata
+portuguezas e brazileiras. As auctoridades da policia e da saude vieram
+á praia e olharam para o cadaver, como a lei manda. Depois do que,
+officialmente averiguado que estava ali effectivamente o cadaver de um
+afogado, pegaram nelle, atiraram-o ao fundo de uma cova aberta á pressa
+na praia, e cobriram-o com alguns metros de areia.
+
+Bem feita coisa!
+
+ * * * * *
+
+Nem toda a gente vae para a sepultura com esta simplicidade de
+apparatos, a que podemos chamar o _enterro incivil_. Mas todos os cães
+se enterram por este modo, e não é por isso menos repousado o seu eterno
+somno. Além de que, é preciso que cada um se apresente na eternidade em
+condições que não desdigam da gerarchia em que viveu e do conceito em
+que o teve a sociedade e a opinião publica. Pretender o contrario é
+querer lograr a divina justiça sujeitando-a a illudir-se com o aspecto
+exterior dos mortos e a acolher com os mesmos cumprimentos na côrte do
+ceu o primeiro aguadeiro que chegue assim como o mais digno e
+respeitavel ministro de estado ou general de divisão que se
+apresente,--o que seria certamente para Deus um desgosto profundo. Logo:
+que cada qual morra como o que é e vá para o outro mundo como o que foi,
+para não pôr em equívocos a celestial etiqueta!
+
+ * * * * *
+
+É um senhor conselheiro a pessoa que morre, na sua cama, victima da sua
+gotta? Vestem-se-lhe as suas calças de presilhas e galão de oiro, e a
+sua farda bordada; prega-se-lhe no peito a constellação das suas placas
+de diamantes, faz-se-lhe a barba, retinge-se-lhe o cabello, põe-se-lhe
+ao lado o espadim e as luvas brancas, o chapeu armado sobre o ventre e
+um pouco de carmim nas faces. E eil-o ahi está em toda a plenitude e em
+toda a magestade dos seus meios physicos e da sua importancia social. As
+pallidas Julietas dos sepulchros e as immodestas Rigolboches da tabida
+podridão e dos gulosos vermes do _chic_, que se acautelem d'esse maganão
+de bom gosto!
+
+Elle é poderoso: deixou na terra muitos necrologios e muitas missas, e
+vae optimamente recommendado pelo alto clero á especial protecção do
+Padre Eterno.
+
+ * * * * *
+
+O que morre é pelo contrario um destes infimos e asquerosos animaes, de
+jaqueta de panno azul com botões de ancora, que andam a bordo dos navios
+sobre a agua do mar? Uma onda envolve-o no tombadilho e arroja-o ao
+abysmo inclemente? Suspende-se então por dois ou tres minutos a marcha
+da embarcação--um sólido paquete talvez, luxuoso, commodo, de uma forte
+companhia, em que tudo está seguro para os riscos da navegação, tudo
+menos a gente,--lança-se uma boia de salvação, arreia-se uma lancha com
+quatro homens, e alguns _gentlemen_ que sobem á tolda, tiram dos estojos
+de couro de Varsovia que trazem ao tiracollo os seus binoculos e
+assestam-os sobre o elemento. Apesar porém d'estas delicadas attenções,
+o bruto desagradecido desapparece. Dois ou tres dias depois, a maré, com
+nojo, cospe-o á praia da Torre juntamente com outras immundicies.
+
+Que queres tu d'aqui, meu estupido? Isto não é nenhuma selvagem ilha
+deserta e encantada, querida dos luares transcendentes de que fallam á
+phantasia as musicas de Bethowen e os versos do Ileine, e em que se
+figuram, sob uma luz de esmeralda, os bailados da opera.
+
+Aqui não ha os profundos paraizos aquaticos habitados pelas ondinas e
+pelas sereias de beijos deliciosos e gelados. Não ha os duendes das
+phantasticas florestas que te suspendam, sob o luar impregnado de
+calidos aromas e de nocturnas harmonias, nos berços aereos das magnolias
+e dos lilazes em flor, nem beneficas deidades transparentes que te
+cinjam nos seus doces braços e te levem n'uma festa nupcial para os seus
+leitos de algas, de coral e de perolas, no fundo dos dormentes lagos,
+sob as folhas dos nenufares.
+
+Não, isto aqui é uma praia decente e grave onde os senhores oficiaes de
+secretaria o os senhores desembargadores veem durante a villegiatura
+sentar-se pela fresquidão das tardes, com suas mulheres, contemplando
+austeros e recolhidos as babugens da vasante e o fronteiro panorama, tão
+magestoso e solemne, da Fonte da Pipa. É d'esta praia que o senhor
+commendador Santos e o senhor commendador Firmo e o senhor commendador
+Eloy teem partido em fina companhia de virtuosas damas, com honestas
+guitarras e casto peixe frito, a bordejar no Tejo. É aqui que a illustre
+e veneravel burguesia de Lisboa faz as suas estações balneatorias. É
+n'estas aguas que ella annualmente refresca e desemporcalha a sua gorda
+carne. É aqui que o mesmo poder moderador tem vindo, por vezes, com sua
+augusta e elegante consorte demolhar no argento o excelso e inviolavel
+systema nervoso da monarchia e da constituição.
+
+Portanto, ó immundo, tu que morreste afogado no oceano e te deixaste
+rolar para a praia da Torre, impertinente como o esqueleto de um goso
+morto de fome na Trafaria, tu, imbecil, se querias mais alguma
+consideração, mais algum respeito com os teus restos, fosses cahir a
+outra parte.
+
+Trazias algum dinheiro na algibeira, o sufficiente para te pagares o
+luxo de um padre e de uma cova, mas, realmente tu não tinhas aspecto de
+mereceres a pena de que alguem se occupasse por um minuto comtigo.
+
+Animal! se querias ser enterrado com respeito e commoção, se querias ter
+artigos nos jornaes e padres a cantarem-te o _De profundis_, porque foi
+que em vez de te afogares de jaqueta, te não afogaste com uma farda de
+almirante, ou de casaca preta e grã cruz dentro de um _coupé_ da
+companhia?!
+
+Deixaste por acaso na terra uma velha mãe desamparada, uma esposa
+lacrimosa, uma filha orphã, uma familia, a que seria doce ajoelhar sobre
+a tua sepultara ou plantar algumas flores sobre a terra que te cobrisse?
+Querias permittir-lhes essa extrema consolação? Deixasses-te ficar no
+Chiado ou no Terreiro do Paço, tornasses-te um dos elementos
+constituitivos da civilisação lisbonense, fizesses-te moço de recados,
+agiota ou empregado publico. Vive-se assim na corrupção, na usura, na
+humilhação ou na miseria, mas enfim morre-se bem, barato--e muito!
+
+ * * * * *
+
+O _Jornal da Noite_ publica uma conta de despeza feita pelo presidente
+da republica dos Estados Unidos, Abrahão Lincoln, em um hotel de Albany.
+O illustre democrata e as pessoas do seu sequito pagaram a somma de um
+conto e alguns mil réis por uma hospedagem de menos de vinte e quatro
+horas.
+
+Este facto argumenta vivamente contra a opinião dos que acham as
+republicas mais baratas para os povos do que as monarchias.
+
+Effectivamente vemos que, ao passo que o presidente da republica da
+America do Norte faz um conto de réis de despeza em algumas horas em
+Albany e paga essa despeza, sua magestade o imperador da America do Sul
+dispende no Porto mil libras em quatro dias, e não as paga.
+
+É indubitavel pois que as monarchias são incomparavelmente mais baratas
+do que as republicas.
+
+Deve-se porém observar que, sob este ponto de vista, o descredito das
+democracias prodigas procede principalmente das estalagens exigentes.
+Porque está provado que sempre que um republicano em viagem pretende
+gastar tão pouco como um rei economico, os estalajadeiros fazem ao
+republicano o seguinte: sequestram-lhe a bagagem.
+
+ * * * * *
+
+Parece-nos arriscado estabelecer entre os principes e os povos esta
+perigosa competencia de quem ha de pagar menos em viagem. Pois que,
+realmente, desde que as testas coroadas chegaram ao ideal de se
+apoderarem das contas e não pagarem nada, os povos só poderão desbancar
+os reis se, não pagando egualmente nada, começarem a estabelecer este
+uso: depois de se apoderarem das contas, apoderarem-se egualmente--das
+pratas.
+
+ * * * * *
+
+_Primeira aos membros da Associação Catholica no Porto_
+
+Meus senhores e minhas senhoras.--Em nome da Nosso Senhor Jesus Christo
+e da Santa Madre Egreja Catholica Apostolica Romana, eu vos saúdo e vos
+desejo a divina graça. Como tenho obrigação de vos suppôr--taes como o
+dizeis--sinceros e dedicados servos de Deus, devotados a cumprir a sua
+lei e a divulgar a sua doutrina, mais vos desejo que nunca vos persigam
+os bens e as riquezas temporaes de que certamente vos despojastes para
+seguir a Jesus. Eu sei que o divino mestre, antes de mandar aos
+apostolos que o acompanhassem, lhes ordenou que deixassem as redes,
+fazendo-nos sentir por esta fórma que ninguem póde estar com Deus
+estando ao mesmo tempo com o mundo, e que para ter os bens do céo é a
+condição essencial--abandonar os da terra. Primeiro: _deixae as redes_;
+depois: _vinde commigo_.
+
+Amados irmãos, presumindo-vos pobres, desvalidos, tendo previamente dado
+o vosso pão aos que tinham fome e os vossos vestidos aos que tinham
+frio, eu desejo ainda sobre a vossa nudez a mortificação da vossa carne,
+a santa mortificação que raspa a vaidade e o orgulho e limpa o
+entendimento e a alma das lepras mundanaes.
+
+Que a graça de Nosso Senhor vos assista e que nada mais do que é
+temporal se vos pegue, porque n'este mundo tudo é esterco: _Omnia ut
+stercora_, como muito bem disse S. Paulo!
+
+Se vos não poderdes furtar aos contactos impuros do seculo, permitta o
+ceo que em todas as vossas relações com a sociedade todas as invectivas
+e todas as malquerenças pharisaicas vos punjam e vos espicassem o
+coração, assim como os chacaes famintos furam e rasgam no deserto as
+tendas dos piedosos peregrinos. Porque--bem o sabeis--só com as
+inimisades do mundo podereis merecer e lograr a amisade de
+Deus:_amicitia hujus mundi inimica est Dei_.
+
+Finalmente, meus senhores e minhas senhoras, resumindo os meus votos
+pelo molde mais consentaneo com as vossas aspirações, que o Senhor vos
+veja eternamente no ceu e vos aplane o caminho da promissão, tendo-vos
+tanto de sua mão que nunca sobre vós deixem de chover as dores e as
+ruinas, por isso que, como diz o psalmista, será pela somma das vossas
+penas contingentes, transitorias e mundanaes, que serão medidas as
+vossas alegrías celestiaes e eternas!--_Secundum multitudinem dolorum
+meorum in corde meo, consolationes tuae laectificaverunt animam meam._
+
+ * * * * *
+
+Permittí-me agora que, antes de entrar em algumas breves considerações
+que a natureza do vosso instituto me suggere, eu me detenha um momento
+na simples contemplação do nome que lhe puzestes.
+
+Que razões poderiam levar-vos, beatissimos senhores, a denominardes
+_catholica_ a associação que fundastes, ahi no Porto, em certa casa da
+rua da Picaria? Que significa uma associação chamada _catholica_ no meio
+de uma sociedade egualmente catholica? Quem é que não é _catholico_ em
+Portugal? Não temos nós todos a mesma religião, que não é uma religião
+especial da rua da Picaria, mas sim a bem conhecida religião do paiz, a
+religião do estado, a religião famosa da carta? Ignoraes por acaso que
+nenhuma associação póde ser em Portugal senão isso--_catholica_?
+Ignoraes que não temos a liberdade dos cultos, a divergencia de
+religiões?...
+
+Ora, não havendo o mosaismo aqui no Chiado, não existindo o pantheismo
+no Rocio, nem o lutheranismo no Terreiro do Paço, nem o fetichismo no
+Arco do Bandeira, o que vem a ser um catholicismo da rua da Picaria na
+cidade do Porto? Terá cahido o Porto porventura no paganismo idolatra?
+Estará elle sacrificando a Jupiter a sua rica vacca cosida? Tel-o-hiam
+levado os seus representantes, os seus philosophos, os srs. Faria
+Guimarães e Pinto Bessa, ás vertiginosas regiões do livre exame, onde o
+espirito humano, abatido, fatigado, morde na solidão o fructo amargo da
+sciencia?...
+
+Não. Eu visitei o Porto ha pouco tempo. Cheguei ahi no dia 24 de junho.
+A cidade tinha o aspecto mais jubiloso e festival. Erguiam-se arcos
+triumphaes nas embocaduras das ruas, palpitavam á viração matutina
+bandeiras desfraldadas nas janellas das casas. Na rua de S. João os
+habitantes, de camisa lavada e barba feita, passavam com bandejas cheias
+de lanternas para luminarias, outros espetavam no chão mastros
+embandeirados; iam, vinham, fallavam alto, tinham gestos abundantes e
+felizes. As egrejas por onde passei estavam cheias até á porta de fieis
+que ouviam as primeiras missas. Os sinos repicavam em todas as torres, e
+os foguetes furavam o limpido azul da manhã.
+
+O Porto, onde n'esse dia devia celebrar-se um grande _meeting_ liberal,
+começava no emtanto--por festejar o S. João!
+
+Portanto, meus senhores, se vós vos denominaes catholicos, não é porque
+supponhaes que os outros o não são; é porque vos parece que o sabeis ser
+melhor do que os outros, e pretendeis que vos considerem como unicos
+catholicos perfeitos, catholicos affiançados, catholicos garantidos.
+
+Se é isto o que quereis dizer-nos com o titulo escolhido para a
+vossa associação, e não podeis querer dizer outra coisa,
+então--meditae-o--achaes-vos em peccado mortal de soberba, de jactancia,
+de presumpção de merecimentos.
+
+Localisando por esse modo a religião na rua da Picaria, vós lançaes
+tacitamente a suspeita de impiedade nas demais ruas da cidade da Virgem.
+
+Pois bem, que a Picaria o saiba: a viella do Ferraz tambem vae á missa,
+e Deus sabe se jejua ou não, ás sextas-feiras, a Ferraria de Cima!
+
+ * * * * *
+
+Advirtamos agora como a associação catholica tem correspondido pela
+importancia dos seus actos á audaciosa escolha do seu titulo.
+
+Até o momento em que vós vos apoderastes do catholicismo para vos
+fechardes com elle na rua da Picaria, cabia ao catholicismo a gloria de
+ter inspirado as maiores obras produzidas pelo espirito humano.
+
+Foi esse pobre catholicismo, ainda então desprotegido do valioso
+patrocinio que n'este seculo lhe devia conceder a vossa associação, meus
+illustres senhores e minhas preclaras senhoras, foi elle, ainda
+desalbergado da rua da Picaria, o que na edade media fez brotar da
+imaginação dos povos o que ha mais bello nas artes, os maravilhosos
+poemas, as ternas legendas melancolicas, as portentosas cathedraes. Foi
+elle que levou Pedro Eremita e Godofredo de Bulhões a descerem o valle
+do Danubio e a seguirem o caminho de Attila. Foi elle que inspirou Tasso
+e Dante. Foi elle que produziu S. Thomaz, o _boi mudo de Sicilia_, o
+Aristoteles do christianismo--como lhe chamou Michelet--, o mais
+poderoso cerebro da egreja. Foi elle que creou em Hispanha desde o
+seculo XVI até o seculo XVII no meio da maior escravidão e do maior
+fanatismo, o mais brilhante grupo de artistas que tem visto o mundo:
+Velasquez, Murillo, Herrera, Zurbaran, Lope de Vega, Calderon,
+Cervantes, Tirso de Molina, Luiz de Leon. O profundo mysticismo de
+«Quixote» é um reflexo do poder da fé em todos esses espiritos. Calderon
+era official do santo officio e Lope de Vega desmaiava em extase ao
+dizer missa. O catholicismo inaugurou ainda a sociedade mais popular,
+mais accessivel, mais equalitaria. No meio da barreira levantada diante
+da plebe pelos privilegios do sangue, a egreja era o portico de todos
+os grandes talentos e de todas as elevadas ambições: o papa Urbano IV,
+filho de um sapateiro, edificava a egreja de Santo Urbano e expunha
+n'ella, bordado em uma rica tapessaria, o retrato de seu pae fazendo
+sapatos.
+
+Por outro lado o catholicismo deu-nos ainda a Saint-Barthelemy, a
+carnificina nacional dos christãos novos, a Inquisição, a guerra dos
+trinta annos, os monges bretões que envenenaram o calix de Abeilard e os
+dominicanos de Buon Convento que assassinaram Henrique VII, fazendo-lhe
+commungar o veneno na hostia consagrada.
+
+Protegido por vós, meus senhores, tutelado pela vossa sociedade
+propagandista da rua da Picaria, o catholicismo portuense tem-nos dado
+apenas:--como carnificina, quatro pranchadas nas espaduas de quatro
+patriotas á porta da Sé; como arte, a _Palavra_, um pobre jornal piegas,
+lacrimoso e beato, com pouca elevação, com pouco enthusiasmo, com pouca
+fé, e com alguns erros de grammatica.
+
+Ora realmente, meus senhores, para resultados tão mediocres não valia a
+pena de vos dardes o apparato de quem funda uma agencia para a
+Bemaventurança e nos fecha o ceu--n'um armazem de commissões.
+
+Em 1849 havia na Italia uma propaganda catholica, cujos membros todavia
+não chegaram nunca a aggremiar-se e a constituir-se em sociedade como os
+cavalheiros e as damas da rua da Picaria.
+
+O chefe da propaganda italiana era um dos espiritos mais rectos e mais
+benignos, era o doce e pacifico poeta Manzoni, recentemente fallecido.
+
+_I promessi Sposi_, o celebre romance tão conhecido, foi como o _Genio
+do Christianismo_, de Chateaubriand e como as odes religiosas de
+Lamartine, inspirado por essa reacção catholico-litteraria com que os
+romanticos de 1830 bateram as idéas philosophicas do seculo XVIII.
+
+Manzoni porém, servindo a causa catholica como propagandista, e abrindo
+um exemplo que se tornou escola de muitos escriptores e poetas
+italianos, Manzoni, em primeiro logar, escrevia para esse fim livros
+adoraveis,--e que vós, meus queridos senhores não resolvestes ainda
+começar a fazer na vossa officina religiosa da rua da Picaria. Em
+segundo logar Manzoni considerava a idéa religiosa como um elemento de
+emancipação e de regeneração para a Italia então opprimida e
+escravisada. Finalmente Manzoni não tinha por fim especial glorificar os
+padres, arregimental-os, armal-os, pôl-os em pé de guerra, como o está
+fazendo a associação catholica portuense. Pelo contrario, Manzoni sabia
+que os padres italianos do seu tempo eram, como Cantú os descreve tomado
+do mais santo horror: «glutões, avaros, estupidos e bandidos». O perfil
+ideal do padre Borromeu nos _Promessi Sposi_ não tinha pois a intenção
+de um retrato, era o estabelecimento de um novo nivel para a opinião,
+era um exemplo, era uma lição dada pelo modo delicado e brando com que o
+desgosto profundo inspirára a alma candida e honesta do piedoso
+escriptor.
+
+Feita assim, n'estas circumstancias, n'estas condições, por estes meios,
+eu comprehendo a propaganda catholica, e inclino-me respeitosamente
+diante dos que a servirem e a promoverem. Não me parece todavia que seja
+esse o caso da Associação catholica portuense, nem no que diz respeito
+aos fins que ella se propõe, nem no que toca aos meios que emprega para
+conseguir o seu fim.
+
+ * * * * *
+
+Que pretende a associação catholica?
+
+Libertar a patria, chamal-a á independencia, fortificando com o
+sentimento religioso a fé patriotica, como fizeram Manzoni, Rosmini,
+Gioberti, Balbo e outros na Italia invadida pela dominação? Não, porque
+Portugal, é por emquanto independente e livre.
+
+Estabelecer a cathechese? Diffundir a moral? Regenerar os costumes? Não,
+porque, não sendo publicas as sessões da associação e não tomando parte
+n'ellas senão os mesmos associados, pessoas cujos costumes e cujas
+crenças religiosas foram d'antemão affiançados, estes acham-se
+satisfatoriamente moralisados e instruidos.
+
+Educar o clero, aprestando-o para uma influencia mais directa e mais
+proficua nos interesses da cidade ou nos interesses do ceu? Tambem não,
+pelas razões seguintes:
+
+Os padres portuguezes acham-se todos incluidos em uma d'estas tres
+classes:--os indifferentes, os liberaes e os reaccionarios.
+
+O padre indifferente vive obscuro e tranquillo no fundo de uma aldeia
+entre a sua lavoira e o seu campanario. Baptisa as creanças, confessa
+os adultos e absolve os que morrem. Se não forem todos para o ceu, a
+culpa não é d'elle. Cartilha e bons conselhos propina-lh'os todos os
+domingos depois da missa conventual; se os não tomarem para seu bem, lá
+se avirão com o demonio no outro mundo e cá na terra com o regedor. De
+resto elle cava a sua horta, é grande madrugador, deita-se com as
+gallinhas, diz a missa ao romper d'alva, caça a perdiz no inverno e
+pesca os barbos no verão. Além de um bocado de breviario, não lê senão
+um repertorio para estar ao facto das luas e saber quando convém
+alporcar as pereiras e semear os pepinos. Bom homem, rijo, satisfeito,
+sanguineo, infatigavel companheiro na caça e na mesa, se tentardes
+esgrimir com elle algumas idéas politicas ou religiosas, algumas
+subtilezas de critica, de controversia, terá tonturas, arregalará os
+olhos, ouvír-se-lhe-hão rugidos interiores e não sentirá senão um
+desejo: o de vos açular ás pernas os seus cães e cascar-vos pela cabeça
+com o seu grosso marmeleiro argolado.
+
+O padre liberal habita as cidades, lê os periodicos, intervém em
+eleições, frequenta os botequins e as casas de jogo, fuma cigarros, e
+protesta vigorosamente contra a reacção e contra o jesuitismo, trazendo
+os dedos amarellos e tomando medicamentos secretos.
+
+O padre reaccionario anda quasi sempre de loba; tem os olhos baixos, o
+passo miudo e commedido, o sorriso contrafeito como uma coisa azeda
+misturada com assucar; gordura fria e pallida, um tanto sinistra; mãos
+brancas, suadas, viscosas; pés moles, de pato, arrastando. O
+confissionario é para elle uma vocação, um destino, um prazer: é a sua
+arte. Algumas vezes mobila-o com certo luxo, introduz-lhe um sophá e
+abastece-o de viveres: uma lata de pão de ló e copos com geléa. É ahi
+que elle escuta, de olhos meio cerrados e mãos crusadas no peito, as
+confidencias secretas das mulheres, os casos encobertos ás mães e aos
+maridos, os inveterados vicios escondidos e os grandes crimes occultos,
+as obras e os pensamentos, os alvoroços da carne no meio da penitencia e
+da oração, as tentações do inimigo, os ardentes desejos diabolicos, os
+pungentes escrupulos de alcova, a grande tragedia intima dos mysticos e
+dos solitarios. Elle escuta, manda repetir, inquire, investiga, indaga,
+minucia por minucia, as circumstancias que aggravam e as circumstancias
+que attenuam; disseca o peccado, desfibra-o musculo por musculo, nervo
+por nervo, arteria por arteria; depois reconstitue-o, recompõe-o,
+inteira-o, evoca-o, fal-o resurgir nos olhos da penitente--para a
+moralisar com a enormidade do erro. A culpa, assim rediviva pelos
+retoques finos, dialecticos, incisivos do stylo theologico e casuistico
+dos commentadores do Decalogo, a culpa repintada com essa arte mais
+sabia, mais poderosamente minuciosa que a de todos os modernos
+romancistas psychologos dos vicios torpes e vergonhosos, cinge outra vez
+a peccadora, collêa-se estreitamente com ella como a serpente do Eden,
+envolve-a nas suas espiraes, penetra-a da sua essencia magnetica,
+communica-lhe a electricidade dos seus filtros. É então, n'esse momento
+terrivel de crise, nevralgico, histerico, allucinado, que elle critica
+friamente, com uma analyse perpendicular, dominadora, arbitra da
+commoção; e consola, aconselha, admoesta, subjuga, domina, e absolve ou
+condemna, elle, elle em nome do Creador, a fragil creatura desmaiada aos
+seus pés. O padre reaccionario faz parte da grande centralisação
+catholica, é uma das rodas do grande machinismo, vive no systema de
+partido como na obediencia e na regra de um instituto. Não pensa nem
+discute. O seu rumo está tomado; segue-o apezar de tudo, atravez de
+tudo, como um boi abre um rego, com os olhos tapados. Tem heranças de
+velhas devotas, avultadas esmolas de missa, frequentes presentes de
+confessadas. Vende agua de Nossa Senhora de Lourdes ou de La Salette.
+Cobra os dinheiros de S. Pedro e remette-os para Roma, assigna a
+_Nação_, e quasi sempre é rico.
+
+Dos padres d'estas tres categorias quaes são aquelles que a associação
+Catholica influe, aconselha ou dirige?
+
+O padre obscuro nem mesmo sabe que tal associação existe. O padre
+liberal é seu inimigo e adversario intransigente. Resta-lhe o padre
+ultramontano.
+
+Ora este ultimo padre é o ôvo de que a associação Catholica é a ave.
+Ella não o modifica, não o educa, não o adverte, não o illustra. Faz-lhe
+simplesmente isto: choca-o. Depois, quebrada a casca do sr. padre Couto,
+o sr. conde de Samodães apparece.
+
+ * * * * *
+
+A associação Catholica celebra periodicamente reuniões, a que chama
+academias. Que se faz n'estas reuniões frequentadas por muitas senhoras
+da primeira sociedade portuense, o que ha de mais digno, de mais
+inviolavel e de mais sagrado?
+
+Relevem-nos este ponto de interrogação, que não tem de nenhum modo a
+impertinencia de uma pergunta e deve apenas ser considerado da nossa
+parte como um simples ponto de perturbação e de pasmo.
+
+Se os homens estivessem sós comprehendemos que as reuniões da associação
+Catholica fossem para elles um meio do repousarem suavemente das fadigas
+temporaes, dos enganos do mundo, das illusões e das vaidades do seculo.
+Concebemos perfeitamente que depois de terminados os seus negocios,
+assignada a sua correspondencia, pagas as suas lettras, despachadas as
+suas mercadorias, fechada a sua caixa, comido amplamente o seu jantar,
+saboreado o seu café e o seu _kumel_, elles encerrassem o seu dia
+juntando-se todos fradescamente, sem etiqueta, sem cerimonias de
+elegancia nem de _toilette_, e que, em seguida, descalçassem as botas e
+dissessem: «Ora dissertemos lá um bocado sobre a immortalidade da alma!»
+
+
+Mas, com senhoras, com senhoras elegantes e bellas, que hão de apear-se
+das suas carruagens, depôr os seus burnous no _vestiaire_ e penetrar no
+salão, sob o gaz, n'uma onda scintillante de setim e de renda, que farão
+os homens?
+
+Hão de se ter espalhado na athmosphera os perfumes da _toilette_, os
+murmurios dos vestidos, os reflexos das joias e as confusas palavras
+finas, magneticas, que susurram sob a palpitação dos leques. Suppomos
+que não ha orchestra nem piano, de modo que as pessoas devotas não
+poderão dirigir-se immediatamente ao sr. padre Couto para que as faça
+valsar; não estarão patentes os ultimos telegrammas dos successos de
+Hispanha; não haverá um serviço de gelados trazido em bandejas de prata
+por criados de calção curto: não se terá á mão um numero da
+_Illustração_ nem um album que se folheie ...
+
+Estranha perplexidade!
+
+Tem um simples associado de abotoar as suas luvas, de adiantar um
+_fauteuil_, de se aproximar de um grupo e de lançar um assumpto pela
+seguinte fórmula: «Minha senhora, será vossencia assaz boa para querer
+fazer-me a honra de me dizer se já tem interlocutor para uma breve
+dissertação sobre os novissimos do homem?»
+
+Ou talvez que haja uma organisação parlamentar para a distribuição dos
+assumptos e para a ordem das discussões. E n'esse caso, reunido o
+claustro pleno, será o sr. conde de Samodães quem abrirá as sessões,
+persignando-se, tocando a sua campainha e dizendo:
+
+--«Dou a palavra ao relator da commissão encarregada de dar o seu
+parecer ácerca das Divinas Pessoas da Santissima Trindade. Meus senhores
+e minhas senhoras, está em discussão o Espirito Santo.»
+
+ * * * * *
+
+Porque emfim, meus senhores, celebrando como catholicos as vossas
+academias religiosas, das duas coisas uma: ou vós estabeleceis a
+controversia e discutis os canones e os dogmas, ou não a estabeleceis e
+não os discutis.
+
+No primeiro caso usurpaes os poderes que só competem aos concilios,
+entregaes aos debates da razão as materias de obediencia e de fé e cahis
+no racionalismo heretico.
+
+No segundo caso, reunidos em nome de Deus, vós não tendes o direito de
+fazer senão uma coisa: elevar humildemente ao ceu os vossos espiritos e
+prostrar-vos na penitencia e na oração.
+
+Mas para os exercicios da oração e da penitencia vós tendes a egreja
+para rezar e a solidão no interior das vossas casas para meditar o
+arrependimento. Para similhantes effeitos congregar os fieis nos salões
+da rua da Picaria é desviar dos templos a corrente natural da devoção e
+arrancar do interior da familia o saudavel recolhimento dos propositos
+bons.
+
+Eu creio profundamente que entre vós existem homens dignos, honrados, de
+uma piedade limpida, com as mais rectas intenções de espirito e de
+consciencia. Acredito mesmo que essas almas, timoratas mas boas,
+constituem a grossa maioria dos vossos consocios. Por isso vos consagro,
+passando, esta palavra séria:
+
+Nada mais funesto para os costumes do que ensinar ás mulheres que ha
+instituições especiaes para o serviço de Deus, para a conquista do ceu,
+para a remissão da culpa. O posto digno da mulher christã é em sua casa
+ao pé dos seus filhos. Os exercicios espirituaes e as contemplações
+mysticas escurecem a alegria domestica, alvoroçam a virtude, perturbam a
+consciencia. Na sociedade actual a mulher pertence, integralmente, com
+toda a responsabilidade do seu destino, á missão sublime da regeneração
+do homem pela attracção do lar. Desviar sob qualquer pretexto que seja
+a attenção da mulher dos interesses da familia é commetter para com a
+moral um sacrilegio. A casa conjugal tambem é um templo, e a maternidade
+é uma religião.
+
+ * * * * *
+
+Meus senhores, tenho procurado tanto quanto me tem sido possivel ser
+amavel comvosco, tomando para vos observar todos os pontos de vista.
+Olho-vos como christão, olho-vos como catholico romano, olho-vos como
+cidadão, olho-vos como simples espectador, como _dilettante_. De todos
+os modos vós me pareceis ou incongruentes, ou ridiculos, ou absurdos.
+
+Todavia, meus senhores, depois de tão exactas observações, eu não
+concluo que dissolvaes o vosso synodo e que vos retireis para vossas
+casas. Os senhores liberaes, que vos combatem, são egualmente
+incongruentes, egualmente absurdos e um pouco mais comicos do que vós, e
+os senhores liberaes tambem se não retiram.
+
+Elles dão morras ao papa, chefe supremo da religião catholica e todavia
+continuam a dizer-se catholicos. Odeiam e guerreiam os padres e no
+emtanto continuam a entregar as suas mulheres aos confissionarios e as
+suas filhas á cathechese. Insultam a theologia do vosso jornal a
+_Palavra_ mas não acceitam com elle a controversia porque não sabem
+theologia. Não lhes importa o irem para o inferno, mas não querem ir
+para o Carmo. O seu atheismo leva-os a quererem «esmagar o infame» como
+elles mesmos dizem, mas com a clausula de não molestarem com essa
+operação os calos do sr. Bento de Freitas, governador civil, ou do sr.
+Pinto Bessa, presidente da camara. Ultimamente vós festejaveis com um
+_Te Deum_ na egreja da Sé o anniversario de Pio IX: estaveis
+inteiramente no vosso direito e na logica dos vossos principios. Elles,
+em vez de combaterem com uma affirmação de sciencia a vossa protestação
+de fé, esperaram-vos á porta da egreja, deram vivas á liberdade, a
+Victor Manuel e a Garibaldi e alguns morras ao Papa infallivel. Foi com
+esta elevação de critica que analysaram o Concilio do Vaticano, consti.
+4.ª cap. IV _De infallibilitate romani pontificis magni_, a qual
+constituição nunca leram. A policia interveio, espancou varias pessoas,
+prendeu varias outras, e eis em resumo o que os periodicos liberaes
+chamam os conflictos da liberdade e da reacção religiosa na cidade do
+Porto!
+
+Profundas graças ao Altissimo, que não são inteiramente estas as
+circumstancias que determinaram as antigas crises do poder entre os
+burguezes do senado do Porto e os poderosos barões feudaes da Sé
+portuense ou do balio de Leça! Os srs. padre Rademaker e padre Couto não
+afivelaram os arnezes de aço dos antigos bispos e dos freires
+hospitalarios, não reuniram os seus sergentes e homens d'armas, não
+mandaram erguer as levadiças dos seus paços acastellados nem
+desembainharam as suas espadas famosas ... Não, elles apenas entoaram a
+ladainha de todos os santos, e prometteram, não excursões armadas sobre
+os rebeldes dos seus feudos, mas sim jubileus e bençãos telegraphicas
+aos seus adeptos.
+
+Ora não vemos realmente em que estas coisas possam atterrar a liberdade
+e sobresaltar o paiz.
+
+É singular esta coincidencia:
+
+O clero catholico tem hoje em toda a Europa o papel sympathico. Os
+unicos paizes do mundo em que ainda se gosa a liberdade religiosa são os
+paizes catholicos. Na Russia, na Allemanha, temos o despotismo e a
+perseguição protestante. O sr. de Bismark prende, processa e desterra
+os sacerdotes catholicos. No novo imperio do rei Guilherme, o
+patriotismo reforça-se na religião do estado; a recente legislação
+allemã submette todos os casos de disciplina ecclesiastica e todas as
+deliberações episcopaes ao poder civil, e prohibe o clero sob as mais
+severas penas de cumprir preceitos que dimanem de qualquer auctoridade
+ecclesiastica estranha á nacionalidade allemã.
+
+Ferida violentamente na sua liberdade, perseguida pela força, a egreja
+catholica--quem o diria!--appella para as garantias espirituaes e quer a
+distincção dos poderes como salvaguarda da liberdade. Na Allemanha os
+ultramontanos mais ardentes fortificam-se nos seus ultimos
+entrincheiramentos pedindo como Cavour a egreja livre no estado livre. A
+tal estado chegou desprestigiado e abatido o antigo poder clerical!...
+Elle já não quer exercer a sua velha tyrannia, contenta-se em não
+supportar a perseguição; e, como todos os martyres, pede a liberdade
+como o extremo refugio das consciencias apavoradas.
+
+Violentamente ferida no coração, perseguida pela força, a egreja
+apresenta esse symptoma infallivel da sua suprema dôr--o grito das
+garantias espirituaes, o appello em ultima instancia para a distincção
+dos poderes.
+
+Pio IX, fortificado no Vaticano, como n'uma cidadella gloriosa,
+desmoronada e vencida, posto que respeitada, soffre as ultimas
+consequencias fataes da sua politica, e, indomavelmente pertinaz e
+corajoso, esse velho batalhador veneravel, despojado da sua corôa
+temporal, arroja aos vencedores o derradeiro desafio do seu despreso,
+arvorando impavidamente o dogma e metralhando com as excommunhões a
+opinião liberal em ultimo sacrificio a uma causa perdida.
+
+É curioso até o ponto de se tornar ligeiramente comico que seja este o
+momento escolhido pela burguezia portuense para começar a apontar-nos a
+egreja catholica como um perigo para a liberdade!
+
+No Porto os livres pensadores da calçada dos Clerigos principiam agora a
+receiar que os catholicos da rua da Picaria assoberbem e esmaguem sob a
+desmaiada e quasi esvahida legenda pontificia o poderoso mundo
+scientifico moderno.
+
+Pela sua parte vós, catholicos da Picaria, reunis as vossas mulheres e
+as vossas filhas, entoaes ladainhas e procuraes com preces e com
+penitencias desaggravar a divindade offendida com as invectivas dos
+periodicos liberaes--no que nos parece que confundis tambem um pouco a
+religião com a sacristia, e tomaes frequentemente o sr. padre Couto pelo
+Padre Eterno. É o vosso erro. No entanto ficae no vosso posto. A
+civilisação precisa de vós, não como elemento reconstituinte, mas como
+producto lachante. A sciencia estima-vos ... como droga. O velho mundo
+invoca a vossa assistencia para o ajudar a morrer, para o enterrar. Para
+mim, que acabo de vos discutir como fazendo eu mesmo parte do meio
+burguez em que existis, vós sois certamente um absurdo. Perante a
+philosophia vós sois porém uma necessidade historica. Nos annaes do
+progresso transcendente do espirito humano o vosso nome ha de ficar como
+o curioso epitaphio de uma geração que se extinguiu ha tresentos annos.
+Porque a verdade é que vós representaes as idéas do seculo XVI.
+
+A associação catholica do Porto instituiu-se para quê? Vós mesmos o
+estaes dizendo todos os dias: Para salvaguardar a fé religiosa da
+corrente invasora do scepticismo moderno.
+
+Pois bem, meus senhores, foi esse mesmo scepticismo, cuja corrente vós
+pretendeis hoje reprimir ou recuar, o que produziu a grande revolução
+scientifica do seculo XVII e toda a civilisação subsequente até os
+nossos dias.
+
+O scepticismo é o estado de espirito que medeia entre a superstição e a
+tolerancia. Ha mais de um seculo que nenhum pensador grave se intromette
+na vossa controversia theologica. Ninguem vos combate, ninguem mesmo vos
+discute. O mundo novo está já na tolerancia, quando vós combateis ainda
+o scepticismo de que a tolerancia é o fructo!
+
+Duvidar, meus bons amigos, é exercer uma das mais poderosas e mais
+fecundas faculdades da razão humana. Para chegar á verdade não ha senão
+esse caminho: a duvida. Para chegar a Deus, que não é outra coisa senão
+a expressão theologica da verdade, o unico meio é tambem esse: a duvida.
+Primeiro que tudo duvida-se, depois aprende-se, por fim descobre-se. Tal
+é a marcha invariavel dos espiritos na sua grande ascensão do imperfeito
+para o absoluto.
+
+O mesmo christianismo não poderia nunca ter principiado a existir se não
+o tivesse precedido a duvida nas consciencias da antiguidade pagã.
+Antes de acreditar em Jesus Nazareno o homem teve que duvidar de Jupiter
+Capitolino. A tradicção christã é uma conquista do scepticismo antigo. A
+duvida foi a primeira e a mais augusta expressão da revelação divina.
+
+A duvida tem sido em todos os tempos a luz immortal e a guia suprema do
+entendimento humano. Foi a duvida quem levou Colombo ao novo mundo,
+Copernico e Newton á astronomia, Boyle e Pascal á hydrostatica, Galyleu
+á mecanica e Lavoisier á chimica.
+
+Se nas profundidades da nossa alma o scepticismo não tivesse existido
+sempre como uma indomavel força inextinguivel de perfectibilidade
+indefinida, a sciencia astronomica não viria occupar o logar da
+astrologia, a physica e a chimica não substituiriam a alchimia, e a
+imagem de Christo crucificado não succederia nos altares do Vaticano ás
+estatuas dos dois mil deuses da Roma antiga.
+
+Quereis a definição precisamente scientifica do scepticismo? Ouvi
+Buckle, o historiador da civilisação: scepticismo é a difficuldade de
+crer; de sorte que o scepticismo que se augmenta é a percepção
+augmentada da difficuldade de provar asserções, ou, n'outros termos, é
+a applicação augmentada e a diffusão augmentada das regras do raciocinio
+e das leis da evidencia. Esse sentimento de hesitação é em todo o campo
+do pensamento o preliminar invariavel de todas as revoluções
+intellectuaes por que tem passado o espirito humano; sem o scepticismo,
+progresso, mudança, civilisação, tudo seria impossivel. Na physica é
+elle o precursor necessario da sciencia; na politica o precursor da
+liberdade; na religião o precursor da tolerancia.
+
+Ora defendendo a integridade da fé, vós fazeis á philosophia este
+serviço relevante: suggeris a duvida, procuraes accordar a razão
+individual, a qual nunca em nenhum outro meio social se desenvolveu tão
+larga e tão arrojadamente, como no seio da egreja christã, a qual apezar
+de todos os seus erros e dos seus mesmos crimes, tem sido sempre o mais
+forte nucleo da vida moral e o mais alto objecto de todos os grandes
+desenvolvimentos da intelligencia e da vontade.
+
+De resto entendo que o Porto, esse feliz e arrojado industrial, vos deve
+ser especialmente grato e reconhecido, porque vós o dotastes com um
+estabelecimento que Lisboa ainda não possue--A associação catholica da
+rua da Picaria,--a qual, á similhança dos antigos moinhos do Tibet e das
+cabaças rotatorias dos Kalmuks, assegura á commodidade dos habitantes um
+systema permanente, uma especie de moagem mechanica, com motuo continuo,
+de adorações e de preces.
+
+ * * * * *
+
+Algumas das familias que durante a estação finda se achavam a banhos de
+mar em Pedrouços, resolveram de uma vez fazer uma festa nocturna,
+mysteriosa, venesiana. Tomaram um vapor da carreira de Belem,
+illuminaram-o com balões de papel como as gondolas do canal da Zueca que
+deslisam em frente dos terrassos do palacio Barbarigo no primeiro acto
+da _Lucrecia_. Para que a commoção de todas as pessoas que tomaram parte
+n'esta scena fosse profunda e illimitada, os homens tinham-se
+apresentado todos vestidos como os tenores nas scenas de _barcarola_. O
+jubilo era indescriptivel.
+
+Reunida a bordo toda a sociedade, o vapor levantou ferro, e penetrou na
+treva, vibrante de aventura, saturado de drama, na direcção de
+Caparica.
+
+O Tejo porém estava grosso e picado, de modo que começou a dar ao vapor
+uns balanços intermittentes para um lado e para o outro como de quem
+escabacea com somno. Com isto principiaram a manifestar-se com uma
+insistencia progressiva os symptomas spasmodicos nos esophagos da
+assembléa. Os Mazaniellos, verdes como azebre, tristes como condemnados
+á morte, procurando sorrir á catastrophe com sorrisos dilacerados como
+os que apresentam os cotovellos rotos, enrolavam-se nas suas capas e
+prostravam-se como trôchos inuteis nos bancos da tolda. As senhoras
+punham os seus lenços na bocca, corriam a mão pela testa, cuspiam
+desconsoladamente no mar, e tinham ligeiros movimentos extaticos e
+doloridos como de quem está escutando no ar o rumor de uma angustia que
+chega.
+
+Então o sr. Mathias Ferrari, segundo lemos no _Diario de Noticias,_ «fez
+correr um abundante serviço de neve». Todos se serviram.
+
+Os effeitos foram taes que quando os criados repassaram com a segunda
+roda de sorvetes, todos os convivas, com as boccas ainda abertas,
+estremeceram de horror, porque cuidaram que esses segundos gelados eram
+outra vez--os primeiros.
+
+Então um homem forte, que tinha ido para bordo armado de um violão,
+tentando arrancar a companhia a uma consternação abatida e geral,
+começou, a dedilhar o instrumento e a entoar uma chacara. Mas, de
+repente, suspende-se, torce-se, arripiam-se-lhe os cabellos,
+encurva-se-lhe a espinha dorsal, cae-lhe o violão desfallecido nos
+braços das senhoras, e o resto da chacara destinada aos eccos nocturnos
+do oceano e recolhida pelos circumstantes n'uma bacia.
+
+Era immenso a bordo o desalento.
+
+Mathias Ferrari, descorçoado, abatido, já «não fazia correr os
+serviços.» Este grande confeiteiro, dominando inteiramente a situação
+com a profundidade da sua critica, comprehendera--e muito bem!--que a
+questão ali já não era de _fazer correr_, mas de _fazer parar_.
+
+Era alta noite quando o vapor abicou outra vez á praia de Belem,
+recolhendo-se todos perfeitissimamente satisfeitos pelo modo como se
+passara tão bello tempo. Apenas, para que desembarcassem, houve o
+pequeno trabalho de virar os que tinham assistido a esta festa, a mais
+brilhante talvez que se tem dado no Tejo, por que os convivas em virtude
+dos reiterados exforços que tinham feito no mar para puxar para fora o
+interior, succedera-lhes terem-o effectivamente conseguido, e haverem
+chegado todos a terra--pelo avesso.
+
+ * * * * *
+
+Com a mais extranha commoção lemos ultimamente que fôra nomeado aio de
+sua alteza o principe real sua ex.ª o sr. Martens Ferrão, abalisado
+jurisconsulto e procurador geral da corôa.
+
+ * * * * *
+
+É talvez uma bem perigosa temeridade da parte de prosaicos e obscuros
+burgueses como nós somos o atrevermo-nos a meditar um momento no que
+possam ser perante a educação e perante a sciencia as attribuições
+especiaes de um aio junto de um principe. Todavia--debalde procurariamos
+escondel-o--em presença de similhante assumpto, profunda e illimitada é
+a confusão do nosso espirito. Por isso que, por mais assignaladas que se
+nos representem as differenças que devem distinguir o alto e poderoso
+filho de um monarcha do mero filho de um fabricante de velas de cebo,
+nunca, por maiores que sejam na direcção do infinito os arrojos da nossa
+phantasia curiosa, nunca podemos chegar a alcançar, nem pelas
+presumpções mais vagas nem pelas mais remotas suspeitas nem pelas mais
+affastadas conjecturas, qual o emprego pratico e effectivo que possa dar
+um principe aos prestimos de um aio. Para satisfação de que
+necessidades, de que conveniencias ou de que simples formalidades, em
+que condições, em que circumstancias, em que especial momento da
+preciosa e augusta vida do real infante vae sua excellencia o aio á
+presença de sua alteza o principe?!... Nós o ignoramos.
+
+Porque, quando as ordens de sua alteza procedam das necessidades do seu
+espirito, das curiosidades da sua intelligencia, dos interesses da sua
+instrucção, sua alteza pedirá naturalmente algum dos seus mestres ou
+algum dos seus livros, e a sua alteza será então applicado um professor
+de linguas, um compendio do sr. João Felix ou um numero do _Diario de
+Noticias_. Quando os desejos manifestados por sua alteza dimanem das
+urgencias physicas da sua naturesa, das fatalidades animaes do seu
+organismo ou do seu temperamento, sua alteza pedirá o seu banho, o seu
+jantar, as suas pastilhas ou o seu escarrador; e então os camaristas de
+sua alteza, as suas aias e os seus escudeiros cumprirão os desejos de
+sua alteza.
+
+E não vemos, nem na ordem physica, nem na ordem moral, nem na ordem
+inlellectual das relações de sua alteza com o mundo externo, a
+necessidade, a conveniencia ou a plausibilidade da intervenção do aio.
+
+A não ser que a concorrencia d'esta legendaria entidade methaphysica se
+deva considerar nos reaes paços como um acepipe _hors d'oeuvre_ ou como
+um objecto supplementar de recreio, porque então comprehendemos de certo
+modo que ao serviço particular de sua alteza um camareiro exclame:
+
+«Está o _lunch_ na mesa: ha _galantine_, rabanetes e o sr. Martens
+Ferrão com salsa picada e manteiga fresca.» ou então: «Eis os brinquedos
+de sua alteza: aqui está a bola de guttapercha e a caixa com o sr.
+Martens Ferrão de engonsos.»
+
+ * * * * *
+
+Se porém--e perdoe-se-nos esta hypothesese, sob a senhoreal e demievica
+palavra «aio», devemos entender a idéa perfeitamente logica, sensata,
+popular, de um preceptor pratico, de um mestre experimental, de um
+amigo, de um companheiro, n'esse caso notaremos com o mais profundo
+respeito a Sua Magestade a Rainha, dedicada mãe e primeira educadora do
+joven principe, que foi singularmente illudida a sua perspicacia
+elegendo o sr. Martens Ferrão como conselheiro official e privado de seu
+filho, como guia experimentado da candida existencia inexperiente do
+innocente alumno. E isto por uma razão que de nenhuma maneira desabona
+os altos merecimentos de sua excellencia o actual senhor procurador
+geral da corôa, antes pelo contrario os confirma e corrobora. Esta razão
+é que: o sr. Martens Ferrão, pela sua natureza, pela sua organisação,
+pelo seu temperamento, pelo seu caracter, pela sua biologia, é tão
+inexperiente, tão candido, tão ingenuo, tão innocente e tão puro como o
+proprio alumno que elle é chamado a aconselhar e a dirigir na difficil e
+complicada navegação da vida.
+
+Passando em tenros annos do regaço d'aquella que lhe deu o ser para os
+braços da austera jurisprudencia, que tinha de amamental-o para a
+sciencia e para a gloria, o sr. Martens Ferrão tem até hoje passado a
+sua vida _en nourrice_ em casa do Direito Publico.
+
+Os seus dias teem decorrido transcendentemente fora das condições
+historicas do tempo e do espaço. A sua existencia tem sido
+exclusivamente mystica e symbolica. Quando tem os seus impetos mais
+ferozes de extravagancia, de anarchia, de deboche, elle sae a passear
+pelas viçosas campinas da philosophia do direito e faz patuscadas
+orgiacas e escandalosas com as origens celticas do direito e com as
+liberdades municipaes do imperio romano. Depois o remorso apodera-se
+d'elle. No dia seguinte acorda pallido, abatido, com a lingua grossa: o
+espectro pavoroso e formidavel do sr. Batbie appareceu-lhe em sonhos, e
+elle ouviu vozes vingadoras que lhe bradavam das profundidades da noite
+e do arrependimento: «João Baptista, para onde deixaste o direito de
+punir? que fizeste do direito administrativo, João? que é do direito
+internacional, Baptista?!» Taes são os seus dias de mais desdem, de mais
+anormalidade, de mais sexo, de mais jogo e de mais champagne! tal é o
+seu despertar contricto para a legalidade, para a descentralisação
+districtal e para as reformas de administração! Tal, resumidamente, é
+elle! E quando dizemos _elle_, commettemos uma incerteza de
+concordancia, porque tão pura, tão transcendental, tão scientifica é a
+personalidade do sr. Martens Ferrão, que nada obsta a que a historia
+referindo-se a sua excellencia, em vez de dizer _elle_, diga--_ella_.
+Pela nossa parte, aguardando ácerca da resolução d'esse ponto as
+ulteriores disposições definitivas da posteridade, diremos por emquanto
+simplesmente _el_, sem a desinencia de genero, sob a respeitosa formula
+neutra.
+
+Como diziamos, pois, tal é--el.
+
+ * * * * *
+
+Analysando, timidamente como o temos feito, a nomeação do sr. Martens
+Ferrão para aio do principe real--note-se bem isto--não é a sorte de sua
+alteza o que nos inspira receios sob a guarda de um tal guia ... Ah! não!
+É pelo contrario o destino de sua excellencia o que nos inquieta sob a
+influencia de um tal companheiro. Por _elle_ podemos estar perfeitamente
+socegados. Mas _el_? o que será d'_el, el_ tão puro ou pura, tão
+candido ou candida, sob os impulsos da nova existencia que
+repentinamente vae no seu temeroso vertice arrebatal-o ou arrebatal-a?!
+
+Na vida da côrte, fina, scintillante, irritavel, cheia de factos, de
+commoções, de rasgos de espirito e de valor, de emboscadas, de
+surpresas, de malicias, de tentações, quantos perigos, quantos laços,
+quantas ratoeiras para a innocencia virginal, para a candida pureza
+inexperiente e inerme d'_el!_ ...
+
+Os principes por effeito da sua vida reclusa, claustral, vigiada,
+monotona, amam naturalmente a escapada, o mysterio, a aventura, a
+innocente anormalidade. Apraz-lhes a sortida arriscada, a partida
+carnavalesca, o ruido dos festins secretos, a mascara inescrutavel, a
+longa capa dramatica e a espada ligeira e subtil dos paladinos;--o que
+se lhes deve relevar, porque é esse o unico despique dos principes para
+a secca official dos intrigantes, dos bajuladores, dos ambiciosos, dos
+sensaborões e dos hypocritas que ordinariamente os rodeiam. Estes porém
+não são ainda para _el_ os unicos perigos. Não é licito esconder que ha
+outros mais e muito mais temerosos. Pensemos nas influencias
+tempestuosas d'esse elemento, terrivel para a mocidade, que se chama--a
+mulher. Sentimos magoar com este promenor a pudicicia do sr. procurador
+geral da corôa, mas esta é a verdade que não devemos occultar aos olhos
+de sua excellencia. Diz Michelet, o casto, o austero Michelet, que em
+todo o tempo a mulher attrahiu o homem, assim como a vinha da Italia
+chamou os gaulezes, e a laranja da Sicilia chamou os normandos. Ellas
+chamam-nos, ó srs. procuradores geraes da corôa, ellas chamam-nos!
+Lembremo-nos da bella Helena, sr. Martens Ferrão, lembre-mo-nos de
+Semiramis, de Cleopatra, da casta Penelope, das Sabinas!
+
+Os principes não estão mais isemptos que os outros homens d'esta lei
+geral da humanidade, e os que vivem com elles--ponderemol-o bem--ficam
+sujeitos ás mesmas influencias que envolvem os reis.
+
+Guilherme VII, cuja fé religiosa era tão ardente que elle foi á Terra
+Santa com cem mil homens, o proprio Guilherme VII levou tambem na viagem
+do Santo Sepulchro a galante legião das suas amantes, e diz d'elle uma
+velha chronica que, bom trovador e bom cavalleiro d'armas, por muito
+tempo correra o mundo _para enganar as damas_. Tal é a raça de que elles
+sáem, ás vezes, quando não sáem peores que o mystico e piedoso
+Guilherme! Que a actual procuradoria geral da corôa emquanto é tempo o
+medite!
+
+De Francisco I, um dos mais sabios e dos mais uteis reis que tem tido o
+mundo, diz-se que ás bellas milanezas se deve a mais importante parte na
+perseverança com que elle combateu pela conquista da Italia.
+
+Sem fallarmos na cohorte das peccadoras, tão gentis como funestas, dos
+_boudoirs_ de Luiz XIV e da Regencia, recordemos ainda as dissolutas e
+ferozes mulheres da côrte de Carlos IX, Catharina de Medicis, Maria
+Touchet, e as grosseiras amantes torpes de Luiz XI, a Gigogne e a
+Passefilou ... Oh! pudor! oh decoro! oh reforma administrativa!
+
+Suppondes que a educação, os exemplos salutares e os conselhos sabios
+possam preservar os principes dos perigos das suas ligações
+clandestinas? Mas quando assim pudesse ser, quantos outros riscos na
+propria convivencia legal das mulheres legitimas!
+
+Um dia Maria Laczinska, legitima mulher de Luiz XV, recusou um beijo ao
+rei com o fundamento de que este cheirava a vinho. Luiz, segundo a
+expressão pittoresca de um chronista das galanterias escandalosas do
+seculo passado, começava então _a tomar o gosto ao champagne_. O rei
+resolveu n'esse dia nefasto separar-se para sempre da rainha, e são
+sabidos os desgostos e as desgraças que o rompimento d'essas relações
+custou á felicidade da França e á moral da Europa. Que remorso para o
+aio de Luiz XV! Foi d'elle a culpa d'esse desastre. Se o aio do joven
+rei, em vez de começar _a tomar o gosto ao champagne_ juntamente com o
+seu alumno, fosse, como pelo contrario devia ser, um experimentado e
+antigo _soupeur_, conhecedor esperto de todas as ciladas armadas ao
+homem pela bebida e pelo amor, elle teria evitado o divorcio do rei.
+
+Tel-o-hia evitado, porque teria ensinado ao seu alumno, com a
+auctoridade da experiencia, que a intemperança nas ceias e o abuso no
+champagne produzem as hepatites, as predisposições para a apoplexia e
+para a gotta e a manifestação das areias no rim. Se o principe não
+obedecesse a estes conselhos e persistisse em ceiar, n'esse caso o seu
+aio lhe faria comprehender que depois de ter bebido champagne nenhum
+homem vae conversar com senhoras sem ter concluido a sua digestão e sem
+haver previamente lavado a bocca com um elixir dentifrico. Um pequeno
+passeio ao ar livre, uma gota de laudano ou uma pastilha, qualquer
+d'estas tres coisas ministrada opportunamente por um aio intelligente e
+dedicado, teria obstado ao rompimento das relações de Luiz XV com sua
+mulher e a todas as consequencias que d'ahi se seguiram.
+
+Algumas vezes succede ainda que, além de todos estes desgostos, d'estas
+decepções e d'estes remorsos, os aios, os validos, os intimos dos
+principes levam ainda por cima pancada das princezas. N'este ponto as
+chronicas são prodigas de eloquentes e salutares avisos. Constancia de
+Arles, por exemplo, mulher de Roberto Pio, tinha taes accessos furiosos
+de mau genio que um dia vasou um olho do seu proprio confessor
+batendo-lhe com uma bengala que tinha no castão um bico de passaro. Esta
+mesma bengala nem sempre se conteve perante a pessoa inviolavel e
+sagrada da real magestade, e por muitas vezes se ergueu sobre as cabeças
+dos amigos mais particulares do rei para nem sempre deixar inteiros
+esses craneos dedicados e fieis. Foi a mesma sobredita princeza a que de
+uma vez mandou matar por occasião de um passeio, aos proprios olhos do
+soberano, o ministro De Beauvais, que lhe desagradava, e que, de outra
+vez impoz para o outro mundo um cortezão antipathico, estafando-o com
+uma corrida que o obrigou a dar n'uma caçada.
+
+ * * * * *
+
+Ora se a corôa tem por um lado a obrigação de escudar a infancia e a
+innocencia dos principes, não deve por outro lado sacrificar a
+inexperiencia inerme das instituições pondo os srs. procuradores geraes
+como barreira entre as tentações e as culpas, lançando emfim a alta
+magistratura ao pego tenebroso, ao Mexilhoeiro insondavel em que ha o
+espumar dos vinhos capitosos, o sussurrar das sedas, o arfar dos leques,
+os sorrisos tentadores e as bengalas de castão de bico.
+
+ * * * * *
+
+Algumas das pessoas que tiveram a honra de serem admittidas a jantar com
+as senhoras hispanholas que ultimamente se acharam em uso de banhos de
+mar, e de emigração, em Lisboa pedem-nos a nossa intervenção para
+dirigirem áquellas senhoras, aliás tão distinctas e tão interessantes,
+uma pequena observação que os seus amigos mais dedicados se não atrevem
+a fazer-lhes directamente.
+
+Suas excellencias teem á mesa o terrivel habito de comerem o peixe com a
+faca, o que os admiradores mais enthusiastas do fino sal de espirito de
+suas excellencias e do seu poderoso encanto de maneiras, não podem
+abster-se de considerar como uma concorrencia temeraria feita por suas
+excellencias aos acrobatas dos jogos malabares, unicos entes que
+insistem em accumular os seus meritos pessoaes com o talento
+supplementar de metterem as facas pela bocca.
+
+... Sendo certo ainda assim que os malabares que temos visto
+entregarem-se a este exercicio, servem-se o seu rodovalho á parte, e
+comem as facas--sem peixe!
+
+Submettemos estas simples reflexões a suas excellencias, as quaes em
+seu delicado criterio decidirão se, attentos os graves cuidados que nos
+inspiram, devem ou não continuar a manter--na lista dos seus acepipes
+predilectos--os faqueiros.
+
+ * * * * *
+
+Durante este mez, tão inquieto, tão palpitante de commoções, em toda a
+Europa, os principes com mão nervosa e febril cultivaram a epistola.
+
+O Santo Padre escreveu ao imperador da Alemanha, o imperador da Alemanha
+escreveu ao Santo Padre, o conde de Chambord escreveu ao deputado
+Rodez-Benavent, o sr.D. Miguel de Bragança escreveu ao sr. conde da
+Redinha, e a historia em geral e os redactores da _Nação_ espeialmente,
+escutaram com ardor o fremito d'essas pennas riscando a face do universo
+com letras um pouco menos correctas que as de Cicero, de Plinio o moço e
+de madame de Sevigné.
+
+ * * * * *
+
+O Santo Padre pede ao imperador Guilherme que obste a que o governo da
+Alemanha persista na perseguição do clero catholico. O imperador
+Guilherme roga a Sua Santidade que impeça o clero catholico de proseguir
+na rebelião contra o governo da Alemanha.
+
+D'este modo o Papa deseja que se retire da scena o martyrio, a grande e
+bella apotheose da egreja triumphante, e lembra ao verdugo que sirva aos
+martyres o antigo fel das legendas gloriosas com o moderno assucar dos
+confortos policiaes.
+
+O imperador opina que amargo de mais é o proprio calix que o obrigam a
+tragar, e tirando da cabeça o seu ponderoso capacete bellico de ponta de
+pára-raios, e humilhando-se dentro das suas botas de couraceiro,
+elle--abatido, beato, lacrimoso--pede egualmente para as suas
+tribulações de christão as correspondentes e proporcionaes doçuras.
+
+E taes são os dois maximos guardas da fé, os dois summos representantes
+na Europa moderna dos dois grandes ramos em que se acha dividida a
+christandade!
+
+Oh! Voltaire compungir-se-hia, e, franzindo n'um sorriso bom os feixes
+malignos das suas sarcasticas rugas, elle, o caustico philosopho, o
+livre espirito, tirando benevolo dos bolsos da sua houppelande de
+veludo e martas a caixa das suas pastilhas, offereceria ás potestades
+chorosas os bombons sacrilegos dos salões de Mesdames du Deffant e de de
+Lambert.
+
+ * * * * *
+
+A carta do conde de Chambord é o velho golpe astuto de Jarnac jogado ao
+constitucionalismo monarchico.
+
+O principe a quem a França offerecera a corôa burgueza de Luiz Filippe,
+pergunta-lhe o que exige d'elle a França, que papel lhe destina, para
+que missão o invoca.
+
+Vós, que estaes na liberdade, na democracia, na republica, cedeis ao
+invencivel appetite de acclamar um rei. Comprehendestes que é superior
+aos vossos meios repressivos e reorganisadores a perturbação corrompida
+da sociedade em que viveis. Duvidaes da vontade, da intelligencia, da
+força do vosso accordo collectivo. Quereis uma iniciativa individual,
+culminante, prestigiosa, predestinada para o mando, para o triumpho,
+para a gloria; quereis o monarcha eleito como Saul «para livrar o seu
+povo das mãos dos seus inimigos», segundo a formula primitiva do
+propheta Samuel.
+
+N'esse caso armae a vossa cathedral de Reims, convidae os vossos
+principes do seculo e da egreja, trazei a corôa real, a espada, as
+esporas, a dalmatica azul, as botinas de seda estrellada de lizes de
+oiro, entregae-nos o sceptro de Carlos Magno, e dae-nos as sete uncções
+de Pepino o Breve. Depois do que, nós haveremos por bem deliberar por
+quaes secretos caminhos nos apraz mandar-vos, segundo as vossas
+gerarchias, para a victoria, para a bemaventurança ou para a força.
+Emquanto vós, tranquillos, repousados, deixareis definitivamente de
+occupar-vos da coisa publica, e, sem ambições, sem principios, sem
+idéas, tereis a felicidade absoluta da besta no seu aprisco; _hoc erit
+jus regis qui vobis imperaturus est_.
+
+Se, em vez d'isto porém, o que desejaes ter é, não uma força omnipotente
+que vos governe, mas sim um instrumento politico que manejeis; se para
+me outorgardes a corôa, precisaes de me tirar a iniciativa, a
+personalidade, a dignidade de homem; se para que me julgueis inoffensivo
+é preciso que eu vos mostre ser pôdre; se as garantias que me pedis para
+que vos não domine são uma fraqueza, uma corrupção, uma inepcia que vos
+assegurem a facilidade de me dominardes a mim, então não: não vos
+convenho eu, o derradeiro dos Bourbons fundadores da monarchia absoluta
+nascida dos terrores da Liga e da Saint-Barthelemy, descendente e
+herdeiro de Henrique IV, o que teve a dupla coragem da força e da
+miseria, o que na tomada de Cahors se bateu nas ruas durante cinco dias
+consecutivos, ôlho a ôlho, dente a dente, braço a braço, o que de Dieppe
+escrevia alegremente a Sully que tinha todas as camisas despedaçadas e
+um gibão roto nos cotovellos!
+
+Camille Desmoulins conta que em 1790 o poder monarchico era representado
+em Londres por meio de um bailado expressivo como uma parabola. N'este
+baile a primeira figura era um rei que terminava a execução de um
+_entrechat_ cheio de garbo e de pompa alongando um pontapé ao fundo das
+costas do seu primeiro ministro; este transmittia o pontapé real ao
+segundo ministro, o qual o traspassava ao terceiro, seguindo-se a mais
+viva e espirituosa corrente de pontapés que se tem visto n'uma côrte,
+até que o personagem que apanhava em cheio no seu volumoso e amplo
+hemispherio posterior o ultimo pontapé era o paiz--que ficava com elle.
+
+
+Nas monarchias constitucionaes imaginou-se reconstituir, por meio da
+carta, essa graciosa dança, alterando porém a collocação do soberano ou
+a ordem dos pontapés, de maneira que ou o principe está em baixo e os
+pontapés vem de cima, ou o tyranno está em cima e os pontapés vão de
+baixo.
+
+Os povos monarchicos julgam-se felizes tendo cada pessoa ao lado de si
+alguem a quem transmittir o pontapé em giro atravez das instituições e
+da politica. A carta do conde de Chambord não é em resumo senão o
+testemunho de uma divergencia com a assembléa nacional sobre este ponto
+importante do bailado em ensaios: quem é que recebe o pontapé?
+
+A um paiz corrompido e a uma assembléa senil não occorre esta
+consideração tão simples: que quando se trata de um stygma de servilismo
+e de baixeza a questão não é poder transmittil-o, é não dever
+acceital-o. Organisar pela monarchia a responsabilidade dos que se
+corrompem é abdicar a faculdade de demittir a corrupção. Os reis quando
+não enodoam os povos, tambem não lhes tiram as nodoas que elles tenham.
+N'esses casos o que limpa um paiz não é a realesa. Quereis saber o que
+é? Pois bem! É a benzina!
+
+ * * * * *
+
+A carta do sr. D. Miguel de Bragança ao sr. conde da Redinha é ao mesmo
+tempo o tocante documento da estima inviolavel de um amigo ausente, e o
+authentico manifesto politico de um principe proscripto.
+
+Sua alteza declara ao _seu paiz_ que quer ser o protector e o amigo de
+todos os portuguezes e que considera como sua mais elevada ambição e sua
+maior gloria--restaurar o throno pontificio. N'este simples traço
+encarna sua alteza a expressão politica da sua indole,--o que nos parece
+de uma moderação de intuitos demasiadamente modesta.
+
+Diriamos que sua alteza folga em confundir-se na obscura legião invalida
+dos tyranos burguezes, dos cezares bonacheirões, Neros de barrete de
+dormir, Caligulas dyspepticos, Eliogabalos em uso do pronto alivio e da
+revalenta arabica. A politica affirmada por sua alteza accusa uma
+visivel pobresa de sangue. Sua alteza é um anemico. Tal é o infortunio
+da nossa raça! Que degeneração!
+
+O pae do joven principe D. Miguel era sanguineo, esse. A sua
+extraordinaria força muscular era a admiração respeitosa, a maravilha
+profundamente inclinada do _sport_ lusitano de 1827. Nas redondezas do
+paço de Queluz, nas terras do Infantado, via-se ás vezes atravessar os
+campos, a pé, caçando acompanhado do seu falcoeiro, um homem de mais de
+meia estatura, de solidos hombros, faces morenas, barba rapada, mãos
+enormes, beiços sensuaes, grandes olhos negros, rasgados, peninsulares;
+vestia um casaco de baetão verde, calção preto, botas altas, de cava,
+com tações de prateleira e esporas de prata; usava um bonet azul, do
+prato largo, com vizeira. Este homem, que amava a convivencia dos
+plebeus, a quem dava largas esmolas de dinheiro e de conversação,
+comprazia-se em ensinar a lavrar os moços do campo: tomava na mão
+esquerda a rabiça de um arado, azorragava com a direita uma parelha de
+mulas, e abria no solo mais empedrado e mais endurecido, sob a poderosa
+pressão do seu pulso, um rego profundo, extenso de um kilometro, e recto
+como um risco passado a regoa por um tira-linhas. Suffocava um forte
+cavallo de Alter puchando-lhe a ponta da cilha com os dentes. Segurava
+pela bocca, que juntava e cerrava no punho, um sacco de sete alqueires
+do trigo, e lançava-o ao hombro, com uma só mão, erguendo o braço por
+cima da cabeça e conservando o corpo immovel, erecto e firme. Quando
+vinha de Queluz a Lisboa, galopando á desfilada, com uma vara debaixo da
+perna, entre os seus companheiros mais assiduos, João Sedvem, o picador,
+o José Verissimo, o da policia, a força de soldados de cavallaria que o
+acompanhava, ficava aos poucos pela estrada destroçada pela fadiga: elle
+nunca chegou senão só. No dia em que recebeu ao pé da mata, na Quinta
+Velha, onde estava caçando ao falção, por volta das duas horas da tarde,
+a noticia de ter entrado a barra de Lisboa a flotilha que apresou e
+levou para França todos os nossos vasos de guerra surtos no Tejo, elle
+veiu de Queluz a Belem, em menos de tres quartos de hora. Esse homem que
+tinha a grande popularidade que trazem comsigo as legendas da força e da
+destreza physica, era sua magestade el-rei o sr. D. Miguel I.
+
+O soberano tinha os defeitos do homem e as qualidades dos seus defeitos.
+A sua politica era apopletica simplesmente porque elle era plethorico.
+
+Esse principe, com o seu temperamento, o qual constituia, politicamente
+assim como physiologicamente, toda a sua personalidade, fez á liberdade
+e ás idéas modernas o mais relevante serviço: foi elle o que fabricou o
+partido liberal portuguez.
+
+Os constitucionaes foram uma invenção da policia do sr.D. Miguel. Elles
+não combatiam o direito divino, nem os privilegios da nobreza e do
+clero, nem o regime absoluto, nem a servidão popular; o que elles
+combatiam principalmente era o José Verissimo. Affirmavam-se os direitos
+do homem porque se tinha percebido que esses direitos prejudicavam os do
+João Sedvem. Os revolucionarios portuguezes não vieram da sciencia, não
+vieram do amor da justiça, das impaciencias da liberdade, dos contagios
+da Convenção, da revolta da dignidade humana. Não. Elles vieram
+simplesmente dos carceres, dos carceres em que o regime despotico
+recalcou de mais a força viva da nação. Os principios eram o pretexto
+sob o qual se vingavam as offensas feitas não ás idéas vigentes, mas aos
+interesses estabelecidos. As denuncias partiam dos lesados. A idéa
+exposta na organisação da Companhia dos vinhos preoccupava mais os
+espiritos em Portugal do que o principio representado em França pela
+existencia da Bastilha. Havia martyres da liberdade que nunca tinham
+amado a liberdade com devoção mais intensa que a do Sedvem e que não
+teriam posto duvidas irremissiveis em continuar a «dobrar a cerviz, ao
+jugo da tyrannia» como se dizia no stylo do tempo; sómente o que elles
+tinham recusado era emprestar algumas moedas ao José da Policia. Para a
+maior parte da gente a victoria da idéa liberal foi simplesmente a morte
+do Telles Jordão. Finalmente o sr. D. Miguel de Bragança, _primeiro_,
+foi o principe cuja força fez na monarchia portugueza o rombo por onde a
+liberdade appareceu. O sr.D. Miguel de Bragança, _segundo_,
+figura-se-nos pela sua expressiva carta ao sr. conde da Redinha, uma
+pessoa extremamente debilitada. Ser o protector e o amigo de todos os
+portugueses é enfraquecer-se diffundindo-se. Os antigos fortes
+concentravam-se.
+
+Pobres de nós! Como somos diversos de nossos paes! Os plethoricos,
+sangrados, legaram á geração que lhes succedeu a impotente anemia!
+
+ * * * * *
+
+Acabamos de lêr um livro que foi publicado era Lisboa ha cerca de tres
+mezes e a respeito do qual ainda não ouvimos á critica uma palavra de
+menção. Foi abafado pelo silencio. Se lhe não dessem esse destino teria
+sido um livro escandaloso porque foi inteiramente concebido fóra da
+rotina, fóra da convenção, fóra do compadrio, por um espirito
+justo, esclarecido, honrado, fatalmente inclinado ao bem.
+Intitula-se--_Portugal e o socialismo_, e é escripto pelo sr. Oliveira
+Martins.
+
+A litteratura portugueza actual apresenta este notavel caracter:--o
+bysantinismo. Ella não é um documento historico, nem um documento moral
+do tempo em que vivemos. Não tem importancia na direcção dos espiritos,
+não tem influencia na formação dos caracteres, não tem validade no
+estabelecimento dos principios. Não dá nenhuma theoria á razão, não dá
+nenhuma lei á consciencia, não dá nenhuma norma á dignidade.
+
+A imitação, a convenção, o servilismo, o estreito espirito de seita, de
+partido, de escola, a ignorancia, a indolencia, a bajulação, a
+orthodoxia official puzeram a pouco e pouco as lettras portuguezas
+inteiramente fóra do seu objecto--a simples e pura verdade humana.
+
+O que actualmente se escreve não é absolutamente nada o que actualmente
+se pensa. Todas as grandes questões capitaes que preoccupam a sociedade,
+a litteratura ou as evita ou as falsea. Ou as evita porque as não sabe
+tratar, ou as falsea porque as trata com um espirito particular de
+interesse, hostil á sciencia e rebelde á arte.
+
+Entre tantos escriptores portuguezes que quotidianamente enegrecem em
+Portugal o innocente papel sobre o qual se orça a medida das nossas
+faculdades, onde está o homem cuja obra represente o precurso das idéas
+predominantes d'este seculo atravez d'esta sociedade? Onde está o
+artista, onde está o philosopho, onde está o poeta que tenha atacado de
+frente a solução desinteressada, independente, firme, clara, nitida, dos
+multiplos problemas que agitam o espirito, a consciencia, o coração do
+homem moderno no meio do sentimento, do temperamento, da religião e da
+politica da sociedade moderna?
+
+Será tal escriptor o sr. Alexandre Herculano, philosopho collaborador da
+sr.ª D. Guiomar Torresão no _Almanack das Senhoras_?
+
+Será o poeta sr. Nunes, deputado conservador, o mais arrojado dos vates
+que conhecemos dentro dos limites da carta constitucional e do systema
+representativo?
+
+Não nos parece.
+
+O sr. Oliveira Martins faz parte de um pequeno grupo de alguns
+trabalhadores obscuros, inteiramente penetrados da corrente scientifica
+do tempo actual, que teem procurado introduzir na litteratura as idéas
+correspondentes ás preoccupações, ás necessidades e aos interesses mais
+altos, mais legitimos e mais vitaes da sociedade em que vivem, fixando
+assim scientificamente algumas das bases do programma geral da revolução
+por meio da qual se vae transformando o mundo europeu.
+
+Esses humildes obreiros, aos quaes cabe a gloria de terem iniciado em
+Portugal quasi todos os grandes principios das civilisações modernas,
+não teem encontrado, como galardão dos seus estudos, da sua
+independencia e da sua andácia de pensadores, senão a surda guerra das
+maledicências, das calumnias e dos desdens, evantada pelo obscurantismo,
+pelo fanatismo, pela ignorancia. Accusam-os de attentarem contra a
+moral, contra a religião, contra a ordem, contra o patriotismo, e
+expulsaram-os vilmente e infamemente do respeito publico e da
+consideração social como jacobinos, como communistas, como incendiarios.
+
+ * * * * *
+
+É do livro acima citado que extrahimos a seguinte pagina tão sensata,
+tão viva, tão humana:
+
+«Portugal não tem pauperismo. É por isso que entre nós se não levantaram
+ainda, nem se levantarão já, Nelsons ou Sydney Smiths para dizerem como
+em Inglaterra: «A pobreza é infame.» É por isso que a definição ingleza
+da fabrica--_manufactura de algodão e de pobres_--não pode servir-nos. O
+não attingirmos porém um termo tão elevado de preversão social não quer
+dizer que as classes trabalhadoras de todas as industrias vivas do paiz,
+extractivas e transformadoras, encontrem para cá das nossas fronteiras
+um modo de vida essencialmente differente. Não, a nossa organisação
+politica, semi-monarchica, semi-liberal, dá em resultado ser duplamente
+absurda, immoral, pauperisadora. Porque, como liberal, permitte a livre
+concorrencia do capital e do trabalho, aliena as funcções e
+propriedades collectivas, e, para corrigir as consequencias de
+distribuição viciosa que d'ahi resultam, mantem uma protecção
+anachronica, com as alfandegas, com a divida e com o imposto, protecção
+que recaindo afinal toda no consumo, vem ainda aggravar as condições do
+trabalhador pela elevação no preço das coisas. Acima da preversão
+economica devemos pôr a preversão moral. No pequeno mundo industrial de
+Lisboa, não contaste nunca, leitor, aos sabados o numero de ebrios que
+povôa as vielas escuras e nauseabundas, onde á crapula vem juntar-se a
+orgia das mulheres perdidas? Onde o prostibulo está em frente da
+taberna, ao lado o bilhar, e entre o bilhar, o prostibulo e a taberna,
+se funde a feria?
+
+A desordem e a immoralidade são contra a natureza. Se esses homens não
+fossem pobres seriam melhores. Se não tivessem de trabalhar doze horas
+para comer saberiam ler. Se tivessem pão e liberdade seriam paes de
+familia. Olhae as mulheres e as creanças. Termo medio a familia tem
+quatro pessoas; termo medio o salario é de 400 réis. O trabalhador
+recorre ao celibato, á prostituição, ás relações illicitas, d'onde
+resultam os infantecidios (tão frequentes em Portugal como na China) e a
+roda dos expostos. Quando um homem foi agarrado por esta engrenagem
+d'aço morreu. Ha muitos a quem uma certa energia de caracter ou uma
+constituição artistica e sentimental levaram ao casamento e á familia: é
+então que se encontram quatro pessoas com quatro tostões por dia. A
+industria offerece uma tentação diabolica: augmentar o salario
+destruindo a familia. N'esse momento a esposa e os filhos entram na
+_fabrica_ ...»
+
+ * * * * *
+
+A fabrica é para as mulheres e para as creanças o sepulchro do pudor, da
+honestidade e da saude. Emquanto as instituições sociaes não assegurarem
+á mulher o seu legitimo logar na familia é absolutamente preciso que,
+pelo menos a protejam na miseria fatal da fabrica. Porque nas fabricas
+portuguezas o que succede com a mulher é que, pela sua fraqueza e pela
+sua ignorancia, ella é no trabalho o escravo do homem. Ninguem entre nós
+tem lançado os olhos a esses desgraçados destinos obscuros.
+
+ * * * * *
+
+Acostura que ainda ha pouco era o grande refugio das raparigas pobres
+desappareceu com a machina de cozer. A mulher não póde sustentar essa
+concorrencia, porque ella não póde, por maiores que sejam os esforços
+dar por suas mãos mais de 30 pontos por minuto: a machina dá 643 pontos
+no mesmo espaço de tempo. Para se empregar n'outros serviços precisaria
+de uma educação preparatoria pratica, para a qual são indispensaveis as
+escolas profissionaes que não existem em Portugal. Em França, na
+Inglaterra, na Allemanha e principalmente na Suecia, as mulheres
+habilitadas em cursos especiaes teem já muitos empregos uteis na
+industria e no commercio. Em 1871 havia na Suecia 4:055 mulheres
+empregadas no commercio e na industria. D'estas 2:675 dirigiam os seus
+proprios negocios. Quinhentas e quatro mulheres eram proprietarias de
+fabricas e de officinas. Além d'isto muitas outras se achavam empregadas
+nos bancos, nas caixas de soccorros, nas companhias de seguros, etc. com
+emolumentos annuaes variando de 800 a 5:000 rixdalers. No serviço dos
+correios, dos caminhos de ferro, dos telegraphos, a mulher alarga de dia
+para dia os seus dominios. A America, a Suecia, o Wurtemberg,
+offerecem-lhe sob esse ponto de vista as maiores facilidades.
+
+Em Darmstadt muitas mulheres se acham empregadas nas repartições de
+estatistica com optimos resultados para o serviço publico. Os cuidados
+aos doentes são um bello emprego para o trabalho das mulheres. Na
+Hollanda muitas teem sido auctorisadas a tirar diplomas de
+pharmaceuticos. A profissão medica tem-lhes sido permittida em diversos
+paizes. Na America, em S. Petersburgo, em Zurich, em Upsel e em varias
+outras universidades ha um consideravel numero de alumnos do sexo
+feminino estudando a medicina. Na Suecia estabeleceu-se pelo estado um
+fundo permanente de soccorros para as mulheres que seguem a carreira
+medica.
+
+A ultima exposição de Vienna veiu provar ainda quanto as mulheres se
+teem ultimamente occupado nas artes industriaes e nas bellas artes. Na
+exposição sueca vê-se no pavilhão dos productos da industria o perfeito
+exito com que as mulheres teem cultivado n'aquelle paiz a pintura, a
+gravura em madeira, a xylographia, a lythographia, a gravura em cobre, a
+photographia, a cartographia, a pintura em porcelana, a modelagem. Na
+Suecia concedeu-se-lhes accesso, como aos demais empregados, nos
+serviços dos telegraphos, dos correios e dos caminhos de ferro.
+Admittem-as como gravadoras na casa da moeda; muitas são empregadas nas
+academias, nas imprensas e n'outros estabelecimentos como xylographas,
+impressoras, compositoras, directoras de officina, etc.
+
+Na Suecia ha hoje immensas escolas sustentadas pelo governo, pelas
+communas e por associações particulares onde ensinam ás raparigas pobres
+todos os trabalhos femininos do «ménage». Ha escolas especiaes
+destinadas a formar creadas. Em Stockolmo ha escolas de remendagem onde
+as raparigas aprendem a concertar os seus fatos e a sua roupa branca com
+um acceio e uma arte inexcedivel. As meninas burguezas teem á sua
+disposição a escola industrial de Stockolmo, as escolas normaes reaes, o
+instituto central de gymnastica onde se formam mestras de gymnastica, a
+academia real de musica, a academia das bellas artes os estabelecimentos
+de instrucção das parteiras e a mesma universidade, onde se ministram
+subsidios a tres raparigas que estudam por conta do estado. Depois da
+Suecia devem-se citar os Paizes Baixos e a Austria. Em Vienna a
+municipalidade fundou em alguns bairros escolas industriaes nocturnas.
+Sociedades de senhoras estabeleceram escolas profissionaes de
+differentes especies. Ha uma sociedade especial encarregada de obter ás
+mulheres meios de subsistência (Frauenerwerb-Verein). Além das escolas
+preparatorias para a instrucção geral elementar e para a instrucção
+superior, estabeleceu a referida sociedade uma escola de costura, uma
+escola superior de trabalho com um curso de estudos que dura tres annos,
+uma escola de desenho industrial, uma escola de commercio, uma escola de
+linguas, um curso especial para as empregadas na telegraphia. Na
+Hollanda é na escola industrial de Amsterdam que se instrue a mocidade
+feminina não só nos trabalhos manuaes, taes como o bordado, costura á
+mão e á machina trabalhos de cartonagem e obras de palha, escripturação
+commercial, legislação commercial e pharmacia. Na Alemanha do norte e na
+Alemanha central ha egualmente muitas escolas industriaes fundadas por
+sociedades especiaes e por outras corporações para a educação das
+raparigas e das mulheres. Um fabricante de Munich fundou uma excellente
+escola de ensino commercial para as raparigas da classe burgueza e da
+classe operaria. As mulheres que sáem d'esta escola encontram
+immediatamente emprego nos bancos, ou nas casas de commercio.
+
+A Russia resolveu ultimamente facultar a matricula na escola de medicina
+de S. Petrsburgo ás mulheres habilitadas com determinados titulos de
+capacidade. Logo depois da promulgação d'esta lei, quatrocentas mulheres
+se apresentaram como candidatos á frequencia da alludida faculdade.
+
+ * * * * *
+
+Sabem dizer-nos o que é que, sob este ponto de vista, se tem feito em
+Portugal? Esperamos que suas excellencias os senhores conservadores se
+dignarão responder-nos.
+
+ * * * * *
+
+O sr. marquez de Vallada mandou correr este mez os reposteiros
+brasonados dos seus salões para inaugurar as soirées elegantes do
+presente inverno com um jantar _prié_.
+
+Assistiram todos os membros do gabinete e varios outros personagens
+illustres na politica e na burocracia. Sentia-se apenas uma falta n'essa
+reunião selecta: a ausência absoluta de senhoras no palacio do nobre
+fidalgo. Bem sabemos que um jantar não é precisamente como uma valsa
+para a qual a gente não ha de ir convidar a lagosta, nem dançar com o
+perú. Mas mesmo para o que é comer não basta apenas a comida. O sr.
+marquez sabe a este respeito a opinião de Savarin: o bruto pasta, o
+homem come, só o homem de espirito é que sabe comer. Ora uma duzia de
+barbatolas postos a mascar trufas uns diante dos outros em volta de uma
+mesa não nos parece que deem o espectaculo da espiritualidade mais fina.
+É preciso que concorram tambem as senhoras, com a _toilette_, com a fina
+pelle, com os perfumes, com as rendas, com as perolas, com as frescas
+risadas cristalinas, com os agudos ditos penetrantes, com a elevação
+finalmente, com a idealidade, com o espirito.
+
+ * * * * *
+
+Atravessar a gente por entre duas filas de criados gordos e graves como
+embaixadores, indo por baixo dos lustres, pizando um tapete espesso,
+dando o braço a alguem, ou seguindo mesmo, atraz, sosinho, na turba dos
+obscuros, com a claque debaixo do braço; entrar na sala de jantar,
+tepida, fulgurante de luz; contemplar a mesa de um aspecto tropical pela
+natureza das fructas e pela fórma das flôres trasvasadas do plateau,
+procurarmos o nosso nome nos bilhetes que estão em cima dos guardanapos;
+sentarmo-nos ao dôce murmurio dos vestidos que se enfôfam ao nosso lado
+e dos talheres que telintam; desdobrar nos joelhos um amplo guardanapo,
+frio, lustroso e pesado, de linho de Irlanda; aconchegarmo-nos, unirmos
+os cotovellos ao corpo e inclinarmo-nos sobre o prato; metter na bocca a
+primeira colher do sopa, sentir estalar e derreter-se no dente o
+primeiro rabiolo, escorrendo no paladar o acre succo dos espinafres, em
+quanto a nossa visinha da esquerda mette a sua luva enrolada no copo do
+Madeira, e a nossa visinha da direita morde atrevidamente no pão
+deixando-nos vêr de lado todos os seus pequeninos dentes mais lindos que
+as suas perolas ... isto é realmente acharmo-nos n'um dos momentos mais
+augustos que a civilisação e a elegencia concedem ao homem em paga dos
+sacrificios que elle lhes tem feito nos esmeros da educação e na alta
+cultura do espirito. É então que as mulheres, sómente as mulheres--ellas
+que vivem na graça e no mimo como os solitarios vivem no egoismo e no
+tedio--desenvolvem o talento especial de fazer romper os alados
+assumptos ligeiros e subtis, em torno dos quaes adejam as conversações,
+as phantasias, as replicas, os repentes, como doiradas abelhas famintas
+sobre um ramo de rosas.
+
+Se n'esses momentos os homens se acham sós, ou caem na bestialidade
+indolente e calada dos deuses de Epicuro, ou discutem, questionam,
+fallam alto, gritam, põem os cotovellos na mesa, fazem gestos, fazem
+bolas de pão, dão estalos com a lingua, limpam as unhas, e quebram
+palitos nos dedos--o que ha mais implicativo dos nervos e mais offensivo
+do gosto.
+
+ * * * * *
+
+Consta-nos que pelas razões referidas o jantar do sr. marquez tocou um
+pouco no tetrico. O silencio era a principio tão solemne que apenas se
+ouvia confusamente o ruido da maioria parlamentar engolindo pelo
+esophago do ministerio e a ordem e a guarda municipal mastigando pela
+bocca do sr. barão do Zezere. Tinha-se ar de se estar n'uma sessão
+deliberativa e não n'uma festa; parece até que o sr. marquez de Avila, o
+illustre parlamentar, dirigindo-se a um criado, se mostrára gravemente
+preoccupado ao ponto de que, sendo a sua intenção pedir-lhe Sauterne,
+lhe pedira a palavra.
+
+Por fim parece que o dono da casa usara da fala para expôr o objecto
+d'aquella reunião, o qual, segundo referem os jornaes, foi:
+
+_Affirmar a adhesão do sr. marques de Vallada á monarchia_.
+
+ * * * * *
+
+Achamos extremamente louvavel e digno de ser imitado por todos os
+fidalgos portuguezes o exemplo dado pelo sr. marquez de se sacrificarem
+pelo throno ao ponto de não hesitarem um momento, para o salvar, em
+irem ... para a mesa!
+
+Os vossos avós, quando queriam dedicar-se ao esplendor da corôa iam
+bater-se em Arzilla, em Ormuz, em Ceuta, em Tanger, descobriam terras,
+venciam batalhas, conquistavam reinos.
+
+Quereis provar-nos que ainda guardaes nos vossos archivos as antigas
+cartas do roteiro dos mares? Que ainda tendes nas vossas panoplias as
+duras armaduras e as famosas lanças dos vossos maiores? Muito bem! Visto
+que não podeis refazer o que está já feito por elles, começae pelo menos
+a realisar o que elles tantas vezes omittiram: jantae!
+
+E a corôa verá, pela maneira como vos mostrardes aptos para comer,
+quanto sois capazes de amar.
+
+Assim como o Castro forte dizia que por cada pedra da fortaleza de Diu
+elle daria um filho, mostrae vós que por cada perna de perú trufado
+sereis capazes de dar um avô. E o soberano, jubiloso e grato,
+contemplando por cima da gloriosa terrina da historia contemporanea, os
+feitos valorosos dos vossos garfos invenciveis, apreciará os vossos
+titulos de immortalidade, discriminando, no ardor e na confusão das
+refregas, os que se lhe dedicam até ao pato com arroz, os que o
+estremecem até ao frango com hervilhas, os que o idolatram até ás
+salchichas com couve lombarda!
+
+ * * * * *
+
+Mas por Deus, meus senhores, consenti que vol-o repitamos: Não excluaes
+dos agapes patrioticos com que preparaes a entranha para a communhão
+monarchica, o doce elemento feminino, o melhor encanto do triumpho, o
+mais alto premio do heroismo, o mais precioso complemento da gloria! Se
+a prosmicuidade dos sexos insuperavelmente vos repugna, que alguns de
+vós pelo menos se sacrifiquem ás conveniencias da arte, ás prescripções
+do bello, e salvem sequer as apparencias--vestindo-se de mulheres!
+
+Animo, senhores commandantes dos corpos! animo, senhores officiaes
+maiores! animo, senhores ministros de estado! É por ellas, que vos
+pedimos isto, pelas que tiveram sempre o seu logar nas nossas gloriosas
+tradicções dymnasticas! Lembrae-vos d'ellas, e ide lançar-vos aos pés da
+Aline! Lembrae-vos d'ellas, e consenti em decotardes os vossos hombros!
+Elanguescei, meus senhores, reclinae meigamente as frontes, cerrae
+levemente as palpebras, agitae um pouco os vossos leques, dae suspiros,
+ponde tações de setim escarlate, vinde de cuia! e, sobretudo--não o
+esqueçaes--trazei _tournure_ ... Que vos custa trazer _tournure_? Uma
+coisa tão facil, que se traz como as patronas!
+
+É pelo throno, pelo mesmo throno de que vos declaraes adeptos, que vos
+supplicamos isto! é pelas vossas excelsas e augustas soberanas, não
+representadas no vosso banquete ... Em nome de Mecia Lopes, meus
+senhores! Em nome de D. Urraca!
+
+ * * * * *
+
+A imprensa de Lisboa não tem opinião. Aquelles dos seus membros que por
+excepção presentem as idéas proprias, vivas, originaes zumbindo-lhes
+importunamente no cerebro, enxotam-as como vespas venenosas. É que a
+missão do jornalismo portuguez não é ter idéas suas, é transmittir as
+idéas dos outros. Por tal razão em Lisboa o homem que pensa não é nunca
+o homem que escreve. O jornalista nunca se concentra, nunca se recolhe
+com o seu problema para o meditar, para o estudar, para o resolver.
+Nunca procura a verdade. Procura apenas a solução achada pelo publico,
+pelo publico d'elle, pelo seu partido politico, pelos consocios do seu
+club, pelos seus amigos, pelos seus protectores, pelos seus assignantes.
+Portanto trabalha na rua, debaixo da arcada do Terreiro do Paço, nos
+corredores ou nas tribunas de S. Bento, no Chiado, no Martinho, no
+Gremio. Como trabalha? Trabalha d'este modo: _informando-se_;--é o termo
+technico. Uma vez informado, o jornalista considera-se instruido. Desde
+que tem a informação recebida tem o jornal feito. O que elle vos escreve
+hoje--notae-o bem--é o que vós lhes dissestes hontem. O jornal não é uma
+fonte de critica, de analyse, de investigação. O jornal é o barril de
+transporte das idéas em circulação, das soluções previamente recebidas e
+approvadas pelo consenso publico. O jornalista é o aguadeiro submisso e
+fiel da opinião. Não a dirige, não a corrige, não a modifica, não a
+tempera. O unico serviço que lhe faz é este: transporta-a dos centros
+publicos aos domicilios particulares. O publico é a nascente, é o veio,
+é o manancial; a imprensa periodica é simplesmente--o cano.
+
+ * * * * *
+
+Essa é a lei geral da conducta da publicidade em Portugal. Toda a
+transgressão d'essa lei é um eminente perigo para o que a commette. O
+leitor portuguez não quer que o seu livro ou o seu periodico o obriguem
+ás fadigas da discussão e da controversia com o seu proprio espirito. A
+conquista desinteressada e pura da verdade não tem attractivo algum para
+as suas faculdades. As curiosidades e os interesses especiaes da alma
+portugueza repastam-se no sentimento: a reflexão molesta-a. Entre tantos
+escriptores nacionaes nunca houve um pensador. Descartes, Spinosa, Kant
+seriam inteiramente impossiveis no seio d'esta sociedade, a que falta a
+respiração logo que a tirem da rotina. Não se lhes dá, aos leitores
+portuguezes, de verem a verdade, mas querem a verdade atravez da
+opinião. Ninguem pensa fóra das materias da ordem do dia. «Que ha de
+novo?» é a nossa pergunta de todas as manhãs. Esta phrase profundamente
+caracteristica quer dizer: «Dêem-me a senha e a contrasenha; digam-me em
+que pensam para eu saber o que hei do pensar.» O meu jornal vem bom ou
+vem mau segundo é ou não é em cada dia a expressão das minhas convicções
+baseadas em idéas preconcebidas na convivencia do publico. O criterio é
+substituido pelo _mot d'ordre_.
+
+Se n'um tal meio intellectual apparece um miseravel solitario, que não
+tem um partido, que não tem um centro, que não tem um _club_, que não
+tem sequer um botequim, mas que, não obstante, segue os successos do seu
+tempo e exprime a respeito d'elles uma opinião absolutamente individual,
+isto é--livre, sobre esse homem cáem todas as suspeitas, todas as
+presumpções malevolas que acompanham atravez de uma multidão apalavrada
+um intruso mysterioso e sinistro. Tal é a especie de acolhimento que por
+differentes vezes nos tem sido feito e que mais particularmente nos foi
+manifestado depois da publicação do nosso ultimo numero a proposito de
+dois artigos, um consagrado ao sr. Alexandre Herculano, outro destinado
+á casa de correcção installada no convento das Monicas.
+
+ * * * * *
+
+Lemos alguns dos artigos que nos foram consagrados, e achamo-nos
+inteiramente edificados ácerca do nosso desacato ás instituições
+publicas e da nossa irreverencia com as glorias nacionaes.
+
+Sómente, meus senhores, uma coisa nos parece ter-vos esquecido, e é:
+demonstrar-nos que a reverencia das instituições e o respeito das
+celebridades gloriosas seja um instrumento de critica ou um meio de
+analyse. Porque nós--talvez o não tenhaes comprehendido bem--nós não
+somos propriamente os mestres de ceremonias da geração a que
+pertencemos. Não estamos aqui a leccionar mesuras nem a praticar
+experiencias sobre a variedade das curvas mais ou menos inclinadas a que
+se nos presta o espinhaço. Nós somos apenas uns simples chronistas do
+tempo que vamos atravessando. Somos os contribuintes especiaes do mez
+para a historia geral do seculo. Ora não será pondo-nos humildemente de
+cocoras no chão que nós veremos de mais alto as coisas e os homens. No
+exame e na apreciação dos factos o minimo vislumbre do respeito é um
+perigo da verdade. Michelet, demolindo no seu ultimo livro a legenda
+napoleonica filha da reverencia da historia pelo falso heroismo de
+Bonaparte, mostra-nos que a fascinação grosseira produzida pelo «heroe
+de Marengo e de Austerlitz» teria cahido perante o bom senso e perante a
+gargalhada, se a França não tivesse perdido, depois do Terror, o riso, a
+sua grande arma contra os tyrannos.
+
+O primeiro dever da critica diante dos grandes acontecimentos e dos
+grandes personagens é simplesmente o despreso ou a zombaria ... Michelet
+diz mesmo «o sacrilegio» como instrumento da verdade! e aconselha-nos
+que imitemos como historiadores o exemplo de Renaud de Montauband
+pegando n'um tição para barbear Carlos Magno.
+
+ * * * * *
+
+De resto, meus senhores, para que se mantenham na decencia do culto as
+tradições patrioticas, parece-nos inutil que nós nos occupemos d'isso.
+Lá estaes vós, diligentes e sollitos, para espanardes as teias da aranha
+aos velhos principios, para varrerdes as instituições veneraveis, e para
+conservardes em bom estado os heroes e os sabios, limpando-lhes as golas
+das sobrecasacas, engraxando-lhes os sapatos e pondo-lhes rapé novo no
+nariz.
+
+ * * * * *
+
+Chegámos tarde para fallar da grande tragedia monumentosa do
+Mexilhoeiro. O paiz inteiro se pronunciou já sobre este caso, o maior da
+historia contemporanea. O facto tem sido largamente tratado em artigos
+de jornaes, em folhetins, em trechos de romance, em pias legendas, em
+dramas, em _te-deuns_ cantados em todas as cathedraes, em polkas
+expressivas, em missas rezadas em todas as egrejas, em felicitações de
+todos os municipios, em sentimentaes mazurkas.
+
+Uma só coisa nos parece que falta, e é a que propomos: um monumento que
+eternise tão alto successo, levando ás gerações vindouras esta lapide:
+
+AOS MOLHADOS
+POR UMA FRIA TARDE
+NO PEGO DO MEXILHOEIRO
+A GLORIA
+RECONHECE N'ESTE MONUMENTO
+OS IRREFRAGAVEIS DIREITOS
+DE TÃO ILLUSTRES VICTIMAS
+CONSTIPAÇÃO
+
+INDEX
+
+_Dos volumes d'esta chronica_
+
+PUBLICADOS ATÉ HOJE
+
+
+ I--Maio................... 1871
+
+ II--Junho.................. »
+
+ III--Julho.................. »
+
+ IV--Agosto................. »
+
+ V--Setembro............... »
+
+ VI--Outubro................ »
+
+ VII--Novembro............... »
+
+ VIII--Dezembro............... »
+
+ IX--Janeiro................ 1872
+
+ X--Fevereiro.............. »
+
+ XI--Março.................. »
+
+ XII--Abril.................. »
+
+ XIII--Junho a julho.......... »
+
+ XIV--Julho a agosto......... »
+
+ XV--Setembro a outubro..... »
+
+ XVI--Novembro............... »
+
+ XVII--Dezembro............... »
+
+XVIII--Janeiro a fevereiro.... 1873
+
+ XIX--Março a abril.......... »
+
+ XX--Outubro a novembro..... »
+
+
+Nota. D'hora ávante cada um dos volumes d'esta publicação será marcado
+com o correspondente numero.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas: Chronica Mensal da
+Politica, das Letras e dos Costumes, by Ramalho Ortigão and Eça de Queiroz
+
+*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 14622 ***
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+ <title>The Project Gutenberg eBook of As Farpas, Outubro a Novembro de 1873 by
+ Ramalho Ortigão and Eça De Queiroz.</title>
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+<hr class="major" />
+<h1>
+ AS FARPAS
+</h1>
+<div class="centered">
+ <p>RAMALHO ORTIGÃO&mdash;EÇA DE QUEIROZ</p>
+ <p>CRONICA MENSAL DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES</p>
+ <p>3.º ANNO</p>
+ <p>Outubro a Novembro de 1873</p>
+ <p>VOLUME XX</p>
+</div>
+<hr class="major" /><!--===================-->
+<blockquote>
+<p>
+ Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
+ da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
+ sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
+ politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
+ universo, e da adoração de mim mesmo.
+</p>
+</blockquote>
+<p class="centered">
+ P.J. PROUDHON
+</p>
+<hr class="major" /><!--===================-->
+
+<p class="centered">
+ <b>SUMMARIO</b>
+</p>
+<p>
+ Regresso. Explicações&mdash;Historia de uns pés&mdash;Modos de morrer. Os
+ Lovelaces do sepulchro. Os descamisados da cova&mdash;Epistola aos
+<a href="#catholicosdoporto">catholicos do Porto</a>.
+ A associação catholica, seus fins, seus meios, sua
+ organisação, seu programma. O catholicismo. A egreja refugio da
+ liberdade. As propagandas catholicas em França e na Italia. Manzoni,
+ Rosmini, Balbo, Chateaubriand, Lamartine, o sr. conde de Samodães. Os
+ padres portuguezes. O liberal, o reaccionario, o indifferente. O
+ confissionario. As academias da
+<a href="#picaria">rua da Picaria</a>. A mulher christã. O
+ partido liberal portuense e a infallibilidade do papa. O protestantismo
+ do sr.
+<a href="#bismark">Bismark</a>.
+ O seculo XVI. Theoria do scepticismo. A duvida na
+ politica, na sciencia, na religião. A
+<a href="#tolerancia">tolerancia</a>&mdash;Festa veneziana nas
+ aguas de
+<a href="#caparica">Caparica</a>&mdash;O
+ aio de sua alteza. O que é o aio? O perfil do sr.
+<a href="#ferrao">Martens Ferrão</a>.
+ A corte, a mocidade, a aventura, os tações encarnados,
+ as espadas dos paladinos. Semiramis, Cleopatra, Penelope e outras. A
+ regencia. O beijo de
+<a href="#laczinska">Maria Laczinska</a>.
+ A bengala de
+<a href="#constancia">Constancia de Arbes</a>&mdash;As
+ senhoras hispanholas e os faqueiros&mdash;O santo padre, o
+ imperador Guilherme, o martyrio e as pastilhas de Voltaire. O
+<a href="#chambord">conde de Chambord</a>
+ e o constitucionalismo. Saul, Pepino, Henrique IV. Historia
+ philosophica dos pontapés nas monarchias modernas&mdash;Perfil do sr. D.
+ Miguel de Bragança e influencia politica d'este rei, o seu typo
+ physionomico, o seu temperamento, a sua popularidade. De como se
+ fabricou o partido liberal portuguez.
+ O João Sedvem, o José da Policia, o Telles Jordão e a idéa nova. De como
+ o actual principe D. Miguel é anemico&mdash;O jornalismo, as idéas, os
+ aguadeiros da opinião publica&mdash;O
+<a href="#mexil">drama do Mexilhoeiro</a>&mdash;A falta do
+<a href="#elementofeminino">elemento feminino</a>
+ nos banquetes patrioticos.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Leitor querido&mdash;Depois de uma longa abstenção de tres mezes&mdash;os mezes do
+ verão&mdash;<i>As Farpas</i> voltam a apparecer no teu banquete ao mesmo tempo a
+ que recomeçam a servir-se tambem as ostras.
+</p>
+<p>
+ Á similhança dos mariscos, qu não é bom comerem-se nos mezes que não
+ teem r, estas paginas condimentosas e estimulantes, se abusasses d'ellas
+ no tempo quente, amigo, far-te-hian, talvez, furunculos.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Além de que, o verão tem influencias de expansibilidade que
+ desconcentram a vida da esphera das suas condições normaes. É a epoca
+ das viagens, dos banhos, das estações do campo. Abandona cada um o
+ interior da sua casa, os seus habitos, as suas occupações, a sua
+ hygiene, o seu trabalho. Fórma-se uma existencia interina, transitoria,
+ supplementar. Está-se em uma casa alugada por dois mezes como hospede de
+ uma noite n'uma estalagem. Não se reside; pernoita-se apenas, e
+ passam-se os dias. Com a supensão do trabalho esterilisam-se tambem as
+ idéas, porque todo o trabalho é uma fecundação da intelligencia. Assim
+ todo o ser humano temporariamente transplantado da parte de solo, de
+ atmosphera moral, em que ordinariamente exerce a sua actividade,
+ emurchece. O portuguez, que sempre lê pouco, no verão então não lê nada.
+ Achei-me por muitas vezes durante a estação finda a bordo dos pequenos
+ vapores que fazem o transporte dos banhistas entre Lisboa e as praias.
+ Os setenta minutos d'estas breves viagens eram o tempo consagrado por
+ cada um para, por meio da leitura, pôr as suas idéas em relação com os
+ interesses intellectuaes e moraes do resto do mundo. Fóra do convez dos
+ vapores de Belem ninguem nas praias lê, ninguem tem comsigo um livro.
+ Isto não é uma simples hypothese, é uma observação positiva. Em
+ Pedroiços, por exemplo, a vida&mdash;toda de porta da rua&mdash;é transparente:
+ vê-se o que cada um faz, quasi que tambem se vê todo quanto cada um
+ sente e quanto cada um pensa. Pois bem, nas viagens dos vapores de
+ Belem, unico lapso de tempo destinado pelos banhistas ao estudo,
+ observámos durante o periodo de tres mezes consecutivos que ninguem lia
+ senão almanachs, collecções de cantigas ou de charadas, e os periodicos
+ de noticias. Que elementos para, a educação intellectual de alguns
+ milhares de cabeças: darem mergulhos no Tejo, aprenderem nos livros que
+ nasceu o dente do sizo ao sr. Alexandre Herculano, e saberem pelos
+ jornaes que o sr. commendador Santos foi á Outra Banda em partida da
+ recreio, com os seus amigos, comer um safio!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Não foram essas porém as rasões porque <i>As Farpas</i> se callaram durante a
+ estação calmosa. Os nossos motivos são inteiramente pessoaes. Nós
+ adoecemos ... Perdôa, leitor benevolo, estas perigosas tendencias de um
+ convalescente para a autobiographia. Não, não foi um dente novo que nos
+ esteve crescendo. Nós não temos, como o immortal historiador a que acima
+ nos referimos, a honra de abrir estas linhas offerecendo á patria e á
+ sr.ª D. Guiomar Torrezão mais um novo instrumento gloriosamente
+ recemnascido para a trincadeira nacional.
+</p>
+<p>
+ O nosso mal, foi simplesmente uma affecção na larynge. Apanhámos isto
+ no Chiado. Tivemos na mucose da garganta as mesmas granulações que
+ padecem os beduinos na mucose das palpebras por effeito do pó nas
+ peregrinações do deserto. O Chiado pagou-nos o pessimo gosto burguez,
+ especieiro, indigno, abominavel, de o frequentar, dando-nos esta doença
+ climaterica e local. Os hospitaes de S. José e do Desterro dão as
+ desyntherias e as gangrenas; os tanques do Passeio do Rocio dão as
+ febres paludosas e intermittentes; o Limoeiro e a Casa de detenção das
+ Monicas dão as viciações do sangue e as escrophulas; o Chiado e o
+ deserto da Arabia dão as affecções granulosas da larynge e dos olhos.
+ Cada um dá o que tem.
+</p>
+<p>
+ A poeira do Chiado é uma especialidade curiosa, interessante, tão
+ romanesca como a sombra da mancenilha. Esta poeira é fina, miuda, subtil
+ como a <i>veloutine</i> de Lubin. Ligeiramente tocada pela aza morna do vento
+ leste, ensinua-se, entranha-se, penetra docemente, consoladoramente,
+ profundamente&mdash;como a calumnia. Depois, uma vez inoculada, produz as
+ ophtalmias e as esquinencias&mdash;as duas maiores enfermidades de Lisboa.
+ Não é simplesmente formada pelas triturações da terra esta poeira. Não,
+ porque o solo em Lisboa não é de terra. Aqui a terra tem sido de tal
+ maneira misturada, falsificada, fingida, que, hoje, aquillo que
+ primitivamente era a terra já não tem terra nenhuma. O solo de Lisboa é
+ formado de sobreposições de estercos, de amalgamas de lixo, de restos
+ pulverisados de fructas podres, de cães mortos e de papeis sujos.
+</p>
+<p>
+ De todas estas misturas requeimadas pelo verão, carbonisadas pelo sol
+ canicular, moidas sob as rodas dos trens e sob os pés pressurosos do sr.
+ conselheiro Arrobas, resulta o pó envenenado da capital. Os papeis
+ velhos de Lisboa, dejecções burocraticas ou litterarias dos bancos, dos
+ cartorios, dos tribunaes, dos escriptorios dos negociantes, dos
+ jornalistas, dos advogados, dos tabelliães e do sr. Melicio, são de tal
+ maneira abundantes que todos os esgotos da cidade não bastam para os
+ engulir. A brisa espalha esses papeis dilacerados pelas povoações
+ suburbanas. A praia de Belem é uberrima de papeis sujos, e Pedrouços, a
+ mansão burgueza das villegiaturas officiaes, parece-se no aspecto
+ especial das suas immundicies com um corredor da secretaria das Obras
+ Publicas destinado a projecto de nitreira modelo pelos disvellos
+ agronomicos do sr. Rodrigo de Moraes Soares.
+</p>
+<p>
+ De modo que a antiga expressão «<i>terra da patria</i>», com referencia a
+ Lisboa e seus suburbios, é figura de rhetorica em demasia arrojada. A
+ patria do lisboeta não tem terra, tem os agglomerados residuos das
+ podridões e dos papeis velhos. O nauta vigilante, que do alto mar
+ descobre no azul o ponto escuro e indeciso d'estas praias, procederá com
+ louvavel exactidão e amor da verdade se em vez do grito poetico de
+ «<i>terra! terra!</i>» começar a exclamar á vista de Lisboa: «Supedaneo de
+ Melicio!»&mdash;ou&mdash;«Nitreira de Soares!»
+</p>
+<p>
+ Victima nós mesmo em todo o nosso apparelho respiratorio d'essas
+ influencias deleterias da geologia e da civilisação lisbonense, achamos
+ prudente substituir&mdash;como fizemos&mdash;a convivencia do publico pela do
+ gargarejo.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ No theatro de D. Maria, o drama&mdash;<i>Idiota</i>.
+</p>
+<p>
+ Suppoz-se pelos annuncios que <i>Idiota</i> seria uma peça sem nome do
+ auctor. Equivoco. Era um nome do auctor sem peça.
+</p>
+<p>
+ No theatro de S. Carlos exhibição extraordinaria dos pés do sr.
+ Barberat. A primeira vez que este cantor appareceu em scena os
+ violinistas da orchestra suppozeram que elle se lhes tinha calçado&mdash;nas
+ caixas das rebecas.
+</p>
+<p>
+ Quando no dia da chegada elle poz á porta as suas botinas para engraxar,
+ os creados do hotel cuidaram que elle rescindira a escriptura e se
+ retirava, por se lhes figurar que o sr. Barberat tinha já no corredor as
+ malas.
+</p>
+<p>
+ Em algumas alfandegas os guardas do fisco, desconfiados d'elle, teem-lhe
+ pedido as chaves dos pés!
+</p>
+<p>
+ Nunca até hoje poderam dormir juntos os pés e elle. Emquanto elle está
+ deitado de costas, os seus pés estão erguidos, ao fundo do leito,
+ embuçados em capas, contemplando-o, firmes e silenciosos. Pela manhã os
+ pés estão mortos de somno e de fadiga, e para que elles se deitem um
+ momento, elle então, compadecido&mdash;levanta-se.
+</p>
+<p>
+ Ou por que elle os não queira desasocegar de dia, lembrando-se de que
+ teem de estar a pé de noite, ou porque elles mesmos se recusem
+ obstinadamente a uma evolução a que debalde os teem querido algumas
+ vezes violentar, o artista desistiu absolutamente de vestir as calças
+ pelos pés e começou a vestil-as, como a camisa,&mdash;pela cabeça. Antes de
+ chegar a esta prudente solução, o cantor, para conseguir vestir-se, era
+ obrigado todas as manhãs ou a descoser as calças, ou a desmanchar os
+ pés.
+</p>
+<p>
+ Uma das coisas que mais vivamente picou a curiosidade do publico nas
+ primeiras vezes em que este artista se mostrou em S. Carlos foi saber
+ como elle poderia cantar n'um theatro pequeno para que podesse estar
+ mais alguma coisa em scena além d'elle com os pés. O empresario acaba de
+ confiar-nos a explicação d'esse segredo, que elle nos permitte enviar
+ d'aqui como uma dadiva sua á justa anciedade das platéas. Mesmo porque o
+ empresario attribue, com bastantes probabilidades de acerto, a esta
+ preocupação do publico perante os pés phenomenaes do baixo a frieza
+ desdenhosa com que nas primeiras noites se escutou o canto tão vivamente
+ sentido, tão profundo e tão genial da Galetti.
+</p>
+<p>
+ Pois bem, meus senhores, não pensem mais n'isso. Querem saber como elle
+ cantava nos pequenos palcos?...
+</p>
+<p>
+ Do mesmo modo que cantam os gallos&mdash;n'um pé só.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Á praia da Torre em Belem foi hontem arrojado pela maré o cadaver de um
+ homem afogado Era ainda novo, robusto e forte. Estava vestido de panno
+ azul. A jaqueta e o collete que vestia tinham botões de metal doirado
+ com uma ancora em relevo. Na manga estava presa uma corôa tambem de
+ metal. Tinha na algibeira um relogio e algumas moedas de prata
+ portuguezas e brazileiras. As auctoridades da policia e da saude vieram
+ á praia e olharam para o cadaver, como a lei manda. Depois do que,
+ officialmente averiguado que estava ali effectivamente o cadaver de um
+ afogado, pegaram nelle, atiraram-o ao fundo de uma cova aberta á pressa
+ na praia, e cobriram-o com alguns metros de areia.
+</p>
+<p>
+ Bem feita coisa!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Nem toda a gente vae para a sepultura com esta simplicidade de
+ apparatos, a que podemos chamar o <i>enterro incivil</i>. Mas todos os cães
+ se enterram por este modo, e não é por isso menos repousado o seu eterno
+ somno. Além de que, é preciso que cada um se apresente na eternidade em
+ condições que não desdigam da gerarchia em que viveu e do conceito em
+ que o teve a sociedade e a opinião publica. Pretender o contrario é
+ querer lograr a divina justiça sujeitando-a a illudir-se com o aspecto
+ exterior dos mortos e a acolher com os mesmos cumprimentos na côrte do
+ ceu o primeiro aguadeiro que chegue assim como o mais digno e
+ respeitavel ministro de estado ou general de divisão que se
+ apresente,&mdash;o que seria certamente para Deus um desgosto profundo. Logo:
+ que cada qual morra como o que é e vá para o outro mundo como o que foi,
+ para não pôr em equívocos a celestial etiqueta!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ É um senhor conselheiro a pessoa que morre, na sua cama, victima da sua
+ gotta? Vestem-se-lhe as suas calças de presilhas e galão de oiro, e a
+ sua farda bordada; prega-se-lhe no peito a constellação das suas placas
+ de diamantes, faz-se-lhe a barba, retinge-se-lhe o cabello, põe-se-lhe
+ ao lado o espadim e as luvas brancas, o chapeu armado sobre o ventre e
+ um pouco de carmim nas faces. E eil-o ahi está em toda a plenitude e em
+ toda a magestade dos seus meios physicos e da sua importancia social. As
+ pallidas Julietas dos sepulchros e as immodestas Rigolboches da tabida
+ podridão e dos gulosos vermes do <i>chic</i>, que se acautelem d'esse maganão
+ de bom gosto!
+</p>
+<p>
+ Elle é poderoso: deixou na terra muitos necrologios e muitas missas, e
+ vae optimamente recommendado pelo alto clero á especial protecção do
+ Padre Eterno.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ O que morre é pelo contrario um destes infimos e asquerosos animaes, de
+ jaqueta de panno azul com botões de ancora, que andam a bordo dos navios
+ sobre a agua do mar? Uma onda envolve-o no tombadilho e arroja-o ao
+ abysmo inclemente? Suspende-se então por dois ou tres minutos a marcha
+ da embarcação&mdash;um sólido paquete talvez, luxuoso, commodo, de uma forte
+ companhia, em que tudo está seguro para os riscos da navegação, tudo
+ menos a gente,&mdash;lança-se uma boia de salvação, arreia-se uma lancha com
+ quatro homens, e alguns <i>gentlemen</i> que sobem á tolda, tiram dos estojos
+ de couro de Varsovia que trazem ao tiracollo os seus binoculos e
+ assestam-os sobre o elemento. Apesar porém d'estas delicadas attenções,
+ o bruto desagradecido desapparece. Dois ou tres dias depois, a maré, com
+ nojo, cospe-o á praia da Torre juntamente com outras immundicies.
+</p>
+<p>
+ Que queres tu d'aqui, meu estupido? Isto não é nenhuma selvagem ilha
+ deserta e encantada, querida dos luares transcendentes de que fallam á
+ phantasia as musicas de Bethowen e os versos do Ileine, e em que se
+ figuram, sob uma luz de esmeralda, os bailados da opera.
+</p>
+<p>
+ Aqui não ha os profundos paraizos aquaticos habitados pelas ondinas e
+ pelas sereias de beijos deliciosos e gelados. Não ha os duendes das
+ phantasticas florestas que te suspendam, sob o luar impregnado de
+ calidos aromas e de nocturnas harmonias, nos berços aereos das magnolias
+ e dos lilazes em flor, nem beneficas deidades transparentes que te
+ cinjam nos seus doces braços e te levem n'uma festa nupcial para os seus
+ leitos de algas, de coral e de perolas, no fundo dos dormentes lagos,
+ sob as folhas dos nenufares.
+</p>
+<p>
+ Não, isto aqui é uma praia decente e grave onde os senhores oficiaes de
+ secretaria o os senhores desembargadores veem durante a villegiatura
+ sentar-se pela fresquidão das tardes, com suas mulheres, contemplando
+ austeros e recolhidos as babugens da vasante e o fronteiro panorama, tão
+ magestoso e solemne, da Fonte da Pipa. É d'esta praia que o senhor
+ commendador Santos e o senhor commendador Firmo e o senhor commendador
+ Eloy teem partido em fina companhia de virtuosas damas, com honestas
+ guitarras e casto peixe frito, a bordejar no Tejo. É aqui que a illustre
+ e veneravel burguesia de Lisboa faz as suas estações balneatorias. É
+ n'estas aguas que ella annualmente refresca e desemporcalha a sua gorda
+ carne. É aqui que o mesmo poder moderador tem vindo, por vezes, com sua
+ augusta e elegante consorte demolhar no argento o excelso e inviolavel
+ systema nervoso da monarchia e da constituição.
+</p>
+<p>
+ Portanto, ó immundo, tu que morreste afogado no oceano e te deixaste
+ rolar para a praia da Torre, impertinente como o esqueleto de um goso
+ morto de fome na Trafaria, tu, imbecil, se querias mais alguma
+ consideração, mais algum respeito com os teus restos, fosses cahir a
+ outra parte.
+</p>
+<p>
+ Trazias algum dinheiro na algibeira, o sufficiente para te pagares o
+ luxo de um padre e de uma cova, mas, realmente tu não tinhas aspecto de
+ mereceres a pena de que alguem se occupasse por um minuto comtigo.
+</p>
+<p>
+ Animal! se querias ser enterrado com respeito e commoção, se querias ter
+ artigos nos jornaes e padres a cantarem-te o <i>De profundis</i>, porque foi
+ que em vez de te afogares de jaqueta, te não afogaste com uma farda de
+ almirante, ou de casaca preta e grã cruz dentro de um <i>coupé</i> da
+ companhia?!
+</p>
+<p>
+ Deixaste por acaso na terra uma velha mãe desamparada, uma esposa
+ lacrimosa, uma filha orphã, uma familia, a que seria doce ajoelhar sobre
+ a tua sepultara ou plantar algumas flores sobre a terra que te cobrisse?
+ Querias permittir-lhes essa extrema consolação? Deixasses-te ficar no
+ Chiado ou no Terreiro do Paço, tornasses-te um dos elementos
+ constituitivos da civilisação lisbonense, fizesses-te moço de recados,
+ agiota ou empregado publico. Vive-se assim na corrupção, na usura, na
+ humilhação ou na miseria, mas enfim morre-se bem, barato&mdash;e muito!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ O <i>Jornal da Noite</i> publica uma conta de despeza feita pelo presidente
+ da republica dos Estados Unidos, Abrahão Lincoln, em um hotel de Albany.
+ O illustre democrata e as pessoas do seu sequito pagaram a somma de um
+ conto e alguns mil réis por uma hospedagem de menos de vinte e quatro
+ horas.
+</p>
+<p>
+ Este facto argumenta vivamente contra a opinião dos que acham as
+ republicas mais baratas para os povos do que as monarchias.
+</p>
+<p>
+ Effectivamente vemos que, ao passo que o presidente da republica da
+ America do Norte faz um conto de réis de despeza em algumas horas em
+ Albany e paga essa despeza, sua magestade o imperador da America do Sul
+ dispende no Porto mil libras em quatro dias, e não as paga.
+</p>
+<p>
+ É indubitavel pois que as monarchias são incomparavelmente mais baratas
+ do que as republicas.
+</p>
+<p>
+ Deve-se porém observar que, sob este ponto de vista, o descredito das
+ democracias prodigas procede principalmente das estalagens exigentes.
+ Porque está provado que sempre que um republicano em viagem pretende
+ gastar tão pouco como um rei economico, os estalajadeiros fazem ao
+ republicano o seguinte: sequestram-lhe a bagagem.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Parece-nos arriscado estabelecer entre os principes e os povos esta
+ perigosa competencia de quem ha de pagar menos em viagem. Pois que,
+ realmente, desde que as testas coroadas chegaram ao ideal de se
+ apoderarem das contas e não pagarem nada, os povos só poderão desbancar
+ os reis se, não pagando egualmente nada, começarem a estabelecer este
+ uso: depois de se apoderarem das contas, apoderarem-se egualmente&mdash;das
+ pratas.
+</p>
+<hr id="catholicosdoporto" />
+<p>
+ <b>Primeira aos membros da Associação Catholica no Porto</b>
+</p>
+<p>
+ Meus senhores e minhas senhoras.&mdash;Em nome da Nosso Senhor Jesus Christo
+ e da Santa Madre Egreja Catholica Apostolica Romana, eu vos saúdo e vos
+ desejo a divina graça. Como tenho obrigação de vos suppôr&mdash;taes como o
+ dizeis&mdash;sinceros e dedicados servos de Deus, devotados a cumprir a sua
+ lei e a divulgar a sua doutrina, mais vos desejo que nunca vos persigam
+ os bens e as riquezas temporaes de que certamente vos despojastes para
+ seguir a Jesus. Eu sei que o divino mestre, antes de mandar aos
+ apostolos que o acompanhassem, lhes ordenou que deixassem as redes,
+ fazendo-nos sentir por esta fórma que ninguem póde estar com Deus
+ estando ao mesmo tempo com o mundo, e que para ter os bens do céo é a
+ condição essencial&mdash;abandonar os da terra. Primeiro: <i>deixae as redes</i>;
+ depois: <i>vinde commigo</i>.
+</p>
+<p>
+ Amados irmãos, presumindo-vos pobres, desvalidos, tendo previamente dado
+ o vosso pão aos que tinham fome e os vossos vestidos aos que tinham
+ frio, eu desejo ainda sobre a vossa nudez a mortificação da vossa carne,
+ a santa mortificação que raspa a vaidade e o orgulho e limpa o
+ entendimento e a alma das lepras mundanaes.
+</p>
+<p>
+ Que a graça de Nosso Senhor vos assista e que nada mais do que é
+ temporal se vos pegue, porque n'este mundo tudo é esterco: <i>Omnia ut
+ stercora</i>, como muito bem disse S. Paulo!
+</p>
+<p>
+ Se vos não poderdes furtar aos contactos impuros do seculo, permitta o
+ ceo que em todas as vossas relações com a sociedade todas as invectivas
+ e todas as malquerenças pharisaicas vos punjam e vos espicassem o
+ coração, assim como os chacaes famintos furam e rasgam no deserto as
+ tendas dos piedosos peregrinos. Porque&mdash;bem o sabeis&mdash;só com as
+ inimisades do mundo podereis merecer e lograr a amisade de
+ Deus:<i>amicitia hujus mundi inimica est Dei</i>.
+</p>
+<p>
+ Finalmente, meus senhores e minhas senhoras, resumindo os meus votos
+ pelo molde mais consentaneo com as vossas aspirações, que o Senhor vos
+ veja eternamente no ceu e vos aplane o caminho da promissão, tendo-vos
+ tanto de sua mão que nunca sobre vós deixem de chover as dores e as
+ ruinas, por isso que, como diz o psalmista, será pela somma das vossas
+ penas contingentes, transitorias e mundanaes, que serão medidas as
+ vossas alegrías celestiaes e eternas!&mdash;<i>Secundum multitudinem dolorum
+ meorum in corde meo, consolationes tuae laectificaverunt animam meam.</i>
+</p>
+<hr id="picaria" />
+<p>
+ Permittí-me agora que, antes de entrar em algumas breves considerações
+ que a natureza do vosso instituto me suggere, eu me detenha um momento
+ na simples contemplação do nome que lhe puzestes.
+</p>
+<p>
+ Que razões poderiam levar-vos, beatissimos senhores, a denominardes
+ <i>catholica</i> a associação que fundastes, ahi no Porto, em certa casa da
+ rua da Picaria? Que significa uma associação chamada <i>catholica</i> no meio
+ de uma sociedade egualmente catholica? Quem é que não é <i>catholico</i> em
+ Portugal? Não temos nós todos a mesma religião, que não é uma religião
+ especial da rua da Picaria, mas sim a bem conhecida religião do paiz, a
+ religião do estado, a religião famosa da carta? Ignoraes por acaso que
+ nenhuma associação póde ser em Portugal senão isso&mdash;<i>catholica</i>?
+ Ignoraes que não temos a liberdade dos cultos, a divergencia de
+ religiões?...
+</p>
+<p>
+ Ora, não havendo o mosaismo aqui no Chiado, não existindo o pantheismo
+ no Rocio, nem o lutheranismo no Terreiro do Paço, nem o fetichismo no
+ Arco do Bandeira, o que vem a ser um catholicismo da rua da Picaria na
+ cidade do Porto? Terá cahido o Porto porventura no paganismo idolatra?
+ Estará elle sacrificando a Jupiter a sua rica vacca cosida? Tel-o-hiam
+ levado os seus representantes, os seus philosophos, os srs. Faria
+ Guimarães e Pinto Bessa, ás vertiginosas regiões do livre exame, onde o
+ espirito humano, abatido, fatigado, morde na solidão o fructo amargo da
+ sciencia?...
+</p>
+<p>
+ Não. Eu visitei o Porto ha pouco tempo. Cheguei ahi no dia 24 de junho.
+ A cidade tinha o aspecto mais jubiloso e festival. Erguiam-se arcos
+ triumphaes nas embocaduras das ruas, palpitavam á viração matutina
+ bandeiras desfraldadas nas janellas das casas. Na rua de S. João os
+ habitantes, de camisa lavada e barba feita, passavam com bandejas cheias
+ de lanternas para luminarias, outros espetavam no chão mastros
+ embandeirados; iam, vinham, fallavam alto, tinham gestos abundantes e
+ felizes. As egrejas por onde passei estavam cheias até á porta de fieis
+ que ouviam as primeiras missas. Os sinos repicavam em todas as torres, e
+ os foguetes furavam o limpido azul da manhã.
+</p>
+<p>
+ O Porto, onde n'esse dia devia celebrar-se um grande <i>meeting</i> liberal,
+ começava no emtanto&mdash;por festejar o S. João!
+</p>
+<p>
+ Portanto, meus senhores, se vós vos denominaes catholicos, não é porque
+ supponhaes que os outros o não são; é porque vos parece que o sabeis ser
+ melhor do que os outros, e pretendeis que vos considerem como unicos
+ catholicos perfeitos, catholicos affiançados, catholicos garantidos.
+</p>
+<p>
+ Se é isto o que quereis dizer-nos com o titulo escolhido para a
+ vossa associação, e não podeis querer dizer outra coisa,
+ então&mdash;meditae-o&mdash;achaes-vos em peccado mortal de soberba, de jactancia,
+ de presumpção de merecimentos.
+</p>
+<p>
+ Localisando por esse modo a religião na rua da Picaria, vós lançaes
+ tacitamente a suspeita de impiedade nas demais ruas da cidade da Virgem.
+</p>
+<p>
+ Pois bem, que a Picaria o saiba: a viella do Ferraz tambem vae á missa,
+ e Deus sabe se jejua ou não, ás sextas-feiras, a Ferraria de Cima!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Advirtamos agora como a associação catholica tem correspondido pela
+ importancia dos seus actos á audaciosa escolha do seu titulo.
+</p>
+<p>
+ Até o momento em que vós vos apoderastes do catholicismo para vos
+ fechardes com elle na rua da Picaria, cabia ao catholicismo a gloria de
+ ter inspirado as maiores obras produzidas pelo espirito humano.
+</p>
+<p>
+ Foi esse pobre catholicismo, ainda então desprotegido do valioso
+ patrocinio que n'este seculo lhe devia conceder a vossa associação, meus
+ illustres senhores e minhas preclaras senhoras, foi elle, ainda
+ desalbergado da rua da Picaria, o que na edade media fez brotar da
+ imaginação dos povos o que ha mais bello nas artes, os maravilhosos
+ poemas, as ternas legendas melancolicas, as portentosas cathedraes. Foi
+ elle que levou Pedro Eremita e Godofredo de Bulhões a descerem o valle
+ do Danubio e a seguirem o caminho de Attila. Foi elle que inspirou Tasso
+ e Dante. Foi elle que produziu S. Thomaz, o <i>boi mudo de Sicilia</i>, o
+ Aristoteles do christianismo&mdash;como lhe chamou Michelet&mdash;, o mais
+ poderoso cerebro da egreja. Foi elle que creou em Hispanha desde o
+ seculo XVI até o seculo XVII no meio da maior escravidão e do maior
+ fanatismo, o mais brilhante grupo de artistas que tem visto o mundo:
+ Velasquez, Murillo, Herrera, Zurbaran, Lope de Vega, Calderon,
+ Cervantes, Tirso de Molina, Luiz de Leon. O profundo mysticismo de
+ «Quixote» é um reflexo do poder da fé em todos esses espiritos. Calderon
+ era official do santo officio e Lope de Vega desmaiava em extase ao
+ dizer missa. O catholicismo inaugurou ainda a sociedade mais popular,
+ mais accessivel, mais equalitaria. No meio da barreira levantada diante
+ da plebe pelos privilegios do sangue, a egreja era o portico de todos
+ os grandes talentos e de todas as elevadas ambições: o papa Urbano IV,
+ filho de um sapateiro, edificava a egreja de Santo Urbano e expunha
+ n'ella, bordado em uma rica tapessaria, o retrato de seu pae fazendo
+ sapatos.
+</p>
+<p>
+ Por outro lado o catholicismo deu-nos ainda a Saint-Barthelemy, a
+ carnificina nacional dos christãos novos, a Inquisição, a guerra dos
+ trinta annos, os monges bretões que envenenaram o calix de Abeilard e os
+ dominicanos de Buon Convento que assassinaram Henrique VII, fazendo-lhe
+ commungar o veneno na hostia consagrada.
+</p>
+<p>
+ Protegido por vós, meus senhores, tutelado pela vossa sociedade
+ propagandista da rua da Picaria, o catholicismo portuense tem-nos dado
+ apenas:&mdash;como carnificina, quatro pranchadas nas espaduas de quatro
+ patriotas á porta da Sé; como arte, a <i>Palavra</i>, um pobre jornal piegas,
+ lacrimoso e beato, com pouca elevação, com pouco enthusiasmo, com pouca
+ fé, e com alguns erros de grammatica.
+</p>
+<p>
+ Ora realmente, meus senhores, para resultados tão mediocres não valia a
+ pena de vos dardes o apparato de quem funda uma agencia para a
+ Bemaventurança e nos fecha o ceu&mdash;n'um armazem de commissões.
+</p>
+<p>
+ Em 1849 havia na Italia uma propaganda catholica, cujos membros todavia
+ não chegaram nunca a aggremiar-se e a constituir-se em sociedade como os
+ cavalheiros e as damas da rua da Picaria.
+</p>
+<p>
+ O chefe da propaganda italiana era um dos espiritos mais rectos e mais
+ benignos, era o doce e pacifico poeta Manzoni, recentemente fallecido.
+</p>
+<p>
+ <i>I promessi Sposi</i>, o celebre romance tão conhecido, foi como o <i>Genio
+ do Christianismo</i>, de Chateaubriand e como as odes religiosas de
+ Lamartine, inspirado por essa reacção catholico-litteraria com que os
+ romanticos de 1830 bateram as idéas philosophicas do seculo XVIII.
+</p>
+<p>
+ Manzoni porém, servindo a causa catholica como propagandista, e abrindo
+ um exemplo que se tornou escola de muitos escriptores e poetas
+ italianos, Manzoni, em primeiro logar, escrevia para esse fim livros
+ adoraveis,&mdash;e que vós, meus queridos senhores não resolvestes ainda
+ começar a fazer na vossa officina religiosa da rua da Picaria. Em
+ segundo logar Manzoni considerava a idéa religiosa como um elemento de
+ emancipação e de regeneração para a Italia então opprimida e
+ escravisada. Finalmente Manzoni não tinha por fim especial glorificar os
+ padres, arregimental-os, armal-os, pôl-os em pé de guerra, como o está
+ fazendo a associação catholica portuense. Pelo contrario, Manzoni sabia
+ que os padres italianos do seu tempo eram, como Cantú os descreve tomado
+ do mais santo horror: «glutões, avaros, estupidos e bandidos». O perfil
+ ideal do padre Borromeu nos <i>Promessi Sposi</i> não tinha pois a intenção
+ de um retrato, era o estabelecimento de um novo nivel para a opinião,
+ era um exemplo, era uma lição dada pelo modo delicado e brando com que o
+ desgosto profundo inspirára a alma candida e honesta do piedoso
+ escriptor.
+</p>
+<p>
+ Feita assim, n'estas circumstancias, n'estas condições, por estes meios,
+ eu comprehendo a propaganda catholica, e inclino-me respeitosamente
+ diante dos que a servirem e a promoverem. Não me parece todavia que seja
+ esse o caso da Associação catholica portuense, nem no que diz respeito
+ aos fins que ella se propõe, nem no que toca aos meios que emprega para
+ conseguir o seu fim.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Que pretende a associação catholica?
+</p>
+<p>
+ Libertar a patria, chamal-a á independencia, fortificando com o
+ sentimento religioso a fé patriotica, como fizeram Manzoni, Rosmini,
+ Gioberti, Balbo e outros na Italia invadida pela dominação? Não, porque
+ Portugal, é por emquanto independente e livre.
+</p>
+<p>
+ Estabelecer a cathechese? Diffundir a moral? Regenerar os costumes? Não,
+ porque, não sendo publicas as sessões da associação e não tomando parte
+ n'ellas senão os mesmos associados, pessoas cujos costumes e cujas
+ crenças religiosas foram d'antemão affiançados, estes acham-se
+ satisfatoriamente moralisados e instruidos.
+</p>
+<p>
+ Educar o clero, aprestando-o para uma influencia mais directa e mais
+ proficua nos interesses da cidade ou nos interesses do ceu? Tambem não,
+ pelas razões seguintes:
+</p>
+<p>
+ Os padres portuguezes acham-se todos incluidos em uma d'estas tres
+ classes:&mdash;os indifferentes, os liberaes e os reaccionarios.
+</p>
+<p>
+ O padre indifferente vive obscuro e tranquillo no fundo de uma aldeia
+ entre a sua lavoira e o seu campanario. Baptisa as creanças, confessa
+ os adultos e absolve os que morrem. Se não forem todos para o ceu, a
+ culpa não é d'elle. Cartilha e bons conselhos propina-lh'os todos os
+ domingos depois da missa conventual; se os não tomarem para seu bem, lá
+ se avirão com o demonio no outro mundo e cá na terra com o regedor. De
+ resto elle cava a sua horta, é grande madrugador, deita-se com as
+ gallinhas, diz a missa ao romper d'alva, caça a perdiz no inverno e
+ pesca os barbos no verão. Além de um bocado de breviario, não lê senão
+ um repertorio para estar ao facto das luas e saber quando convém
+ alporcar as pereiras e semear os pepinos. Bom homem, rijo, satisfeito,
+ sanguineo, infatigavel companheiro na caça e na mesa, se tentardes
+ esgrimir com elle algumas idéas politicas ou religiosas, algumas
+ subtilezas de critica, de controversia, terá tonturas, arregalará os
+ olhos, ouvír-se-lhe-hão rugidos interiores e não sentirá senão um
+ desejo: o de vos açular ás pernas os seus cães e cascar-vos pela cabeça
+ com o seu grosso marmeleiro argolado.
+</p>
+<p>
+ O padre liberal habita as cidades, lê os periodicos, intervém em
+ eleições, frequenta os botequins e as casas de jogo, fuma cigarros, e
+ protesta vigorosamente contra a reacção e contra o jesuitismo, trazendo
+ os dedos amarellos e tomando medicamentos secretos.
+</p>
+<p>
+ O padre reaccionario anda quasi sempre de loba; tem os olhos baixos, o
+ passo miudo e commedido, o sorriso contrafeito como uma coisa azeda
+ misturada com assucar; gordura fria e pallida, um tanto sinistra; mãos
+ brancas, suadas, viscosas; pés moles, de pato, arrastando. O
+ confissionario é para elle uma vocação, um destino, um prazer: é a sua
+ arte. Algumas vezes mobila-o com certo luxo, introduz-lhe um sophá e
+ abastece-o de viveres: uma lata de pão de ló e copos com geléa. É ahi
+ que elle escuta, de olhos meio cerrados e mãos crusadas no peito, as
+ confidencias secretas das mulheres, os casos encobertos ás mães e aos
+ maridos, os inveterados vicios escondidos e os grandes crimes occultos,
+ as obras e os pensamentos, os alvoroços da carne no meio da penitencia e
+ da oração, as tentações do inimigo, os ardentes desejos diabolicos, os
+ pungentes escrupulos de alcova, a grande tragedia intima dos mysticos e
+ dos solitarios. Elle escuta, manda repetir, inquire, investiga, indaga,
+ minucia por minucia, as circumstancias que aggravam e as circumstancias
+ que attenuam; disseca o peccado, desfibra-o musculo por musculo, nervo
+ por nervo, arteria por arteria; depois reconstitue-o, recompõe-o,
+ inteira-o, evoca-o, fal-o resurgir nos olhos da penitente&mdash;para a
+ moralisar com a enormidade do erro. A culpa, assim rediviva pelos
+ retoques finos, dialecticos, incisivos do stylo theologico e casuistico
+ dos commentadores do Decalogo, a culpa repintada com essa arte mais
+ sabia, mais poderosamente minuciosa que a de todos os modernos
+ romancistas psychologos dos vicios torpes e vergonhosos, cinge outra vez
+ a peccadora, collêa-se estreitamente com ella como a serpente do Eden,
+ envolve-a nas suas espiraes, penetra-a da sua essencia magnetica,
+ communica-lhe a electricidade dos seus filtros. É então, n'esse momento
+ terrivel de crise, nevralgico, histerico, allucinado, que elle critica
+ friamente, com uma analyse perpendicular, dominadora, arbitra da
+ commoção; e consola, aconselha, admoesta, subjuga, domina, e absolve ou
+ condemna, elle, elle em nome do Creador, a fragil creatura desmaiada aos
+ seus pés. O padre reaccionario faz parte da grande centralisação
+ catholica, é uma das rodas do grande machinismo, vive no systema de
+ partido como na obediencia e na regra de um instituto. Não pensa nem
+ discute. O seu rumo está tomado; segue-o apezar de tudo, atravez de
+ tudo, como um boi abre um rego, com os olhos tapados. Tem heranças de
+ velhas devotas, avultadas esmolas de missa, frequentes presentes de
+ confessadas. Vende agua de Nossa Senhora de Lourdes ou de La Salette.
+ Cobra os dinheiros de S. Pedro e remette-os para Roma, assigna a
+ <i>Nação</i>, e quasi sempre é rico.
+</p>
+<p>
+ Dos padres d'estas tres categorias quaes são aquelles que a associação
+ Catholica influe, aconselha ou dirige?
+</p>
+<p>
+ O padre obscuro nem mesmo sabe que tal associação existe. O padre
+ liberal é seu inimigo e adversario intransigente. Resta-lhe o padre
+ ultramontano.
+</p>
+<p>
+ Ora este ultimo padre é o ôvo de que a associação Catholica é a ave.
+ Ella não o modifica, não o educa, não o adverte, não o illustra. Faz-lhe
+ simplesmente isto: choca-o. Depois, quebrada a casca do sr. padre Couto,
+ o sr. conde de Samodães apparece.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ A associação Catholica celebra periodicamente reuniões, a que chama
+ academias. Que se faz n'estas reuniões frequentadas por muitas senhoras
+ da primeira sociedade portuense, o que ha de mais digno, de mais
+ inviolavel e de mais sagrado?
+</p>
+<p>
+ Relevem-nos este ponto de interrogação, que não tem de nenhum modo a
+ impertinencia de uma pergunta e deve apenas ser considerado da nossa
+ parte como um simples ponto de perturbação e de pasmo.
+</p>
+<p>
+ Se os homens estivessem sós comprehendemos que as reuniões da associação
+ Catholica fossem para elles um meio do repousarem suavemente das fadigas
+ temporaes, dos enganos do mundo, das illusões e das vaidades do seculo.
+ Concebemos perfeitamente que depois de terminados os seus negocios,
+ assignada a sua correspondencia, pagas as suas lettras, despachadas as
+ suas mercadorias, fechada a sua caixa, comido amplamente o seu jantar,
+ saboreado o seu café e o seu <i>kumel</i>, elles encerrassem o seu dia
+ juntando-se todos fradescamente, sem etiqueta, sem cerimonias de
+ elegancia nem de <i>toilette</i>, e que, em seguida, descalçassem as botas e
+ dissessem: «Ora dissertemos lá um bocado sobre a immortalidade da alma!»
+</p>
+<p>
+ Mas, com senhoras, com senhoras elegantes e bellas, que hão de apear-se
+ das suas carruagens, depôr os seus burnous no <i>vestiaire</i> e penetrar no
+ salão, sob o gaz, n'uma onda scintillante de setim e de renda, que farão
+ os homens?
+</p>
+<p>
+ Hão de se ter espalhado na athmosphera os perfumes da <i>toilette</i>, os
+ murmurios dos vestidos, os reflexos das joias e as confusas palavras
+ finas, magneticas, que susurram sob a palpitação dos leques. Suppomos
+ que não ha orchestra nem piano, de modo que as pessoas devotas não
+ poderão dirigir-se immediatamente ao sr. padre Couto para que as faça
+ valsar; não estarão patentes os ultimos telegrammas dos successos de
+ Hispanha; não haverá um serviço de gelados trazido em bandejas de prata
+ por criados de calção curto: não se terá á mão um numero da
+ <i>Illustração</i> nem um album que se folheie ...
+</p>
+<p>
+ Estranha perplexidade!
+</p>
+<p>
+ Tem um simples associado de abotoar as suas luvas, de adiantar um
+ <i>fauteuil</i>, de se aproximar de um grupo e de lançar um assumpto pela
+ seguinte fórmula: «Minha senhora, será vossencia assaz boa para querer
+ fazer-me a honra de me dizer se já tem interlocutor para uma breve
+ dissertação sobre os novissimos do homem?»
+</p>
+<p>
+ Ou talvez que haja uma organisação parlamentar para a distribuição dos
+ assumptos e para a ordem das discussões. E n'esse caso, reunido o
+ claustro pleno, será o sr. conde de Samodães quem abrirá as sessões,
+ persignando-se, tocando a sua campainha e dizendo:
+</p>
+<p>
+ &mdash;«Dou a palavra ao relator da commissão encarregada de dar o seu
+ parecer ácerca das Divinas Pessoas da Santissima Trindade. Meus senhores
+ e minhas senhoras, está em discussão o Espirito Santo.»
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Porque emfim, meus senhores, celebrando como catholicos as vossas
+ academias religiosas, das duas coisas uma: ou vós estabeleceis a
+ controversia e discutis os canones e os dogmas, ou não a estabeleceis e
+ não os discutis.
+</p>
+<p>
+ No primeiro caso usurpaes os poderes que só competem aos concilios,
+ entregaes aos debates da razão as materias de obediencia e de fé e cahis
+ no racionalismo heretico.
+</p>
+<p>
+ No segundo caso, reunidos em nome de Deus, vós não tendes o direito de
+ fazer senão uma coisa: elevar humildemente ao ceu os vossos espiritos e
+ prostrar-vos na penitencia e na oração.
+</p>
+<p>
+ Mas para os exercicios da oração e da penitencia vós tendes a egreja
+ para rezar e a solidão no interior das vossas casas para meditar o
+ arrependimento. Para similhantes effeitos congregar os fieis nos salões
+ da rua da Picaria é desviar dos templos a corrente natural da devoção e
+ arrancar do interior da familia o saudavel recolhimento dos propositos
+ bons.
+</p>
+<p>
+ Eu creio profundamente que entre vós existem homens dignos, honrados, de
+ uma piedade limpida, com as mais rectas intenções de espirito e de
+ consciencia. Acredito mesmo que essas almas, timoratas mas boas,
+ constituem a grossa maioria dos vossos consocios. Por isso vos consagro,
+ passando, esta palavra séria:
+</p>
+<p>
+ Nada mais funesto para os costumes do que ensinar ás mulheres que ha
+ instituições especiaes para o serviço de Deus, para a conquista do ceu,
+ para a remissão da culpa. O posto digno da mulher christã é em sua casa
+ ao pé dos seus filhos. Os exercicios espirituaes e as contemplações
+ mysticas escurecem a alegria domestica, alvoroçam a virtude, perturbam a
+ consciencia. Na sociedade actual a mulher pertence, integralmente, com
+ toda a responsabilidade do seu destino, á missão sublime da regeneração
+ do homem pela attracção do lar. Desviar sob qualquer pretexto que seja
+ a attenção da mulher dos interesses da familia é commetter para com a
+ moral um sacrilegio. A casa conjugal tambem é um templo, e a maternidade
+ é uma religião.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Meus senhores, tenho procurado tanto quanto me tem sido possivel ser
+ amavel comvosco, tomando para vos observar todos os pontos de vista.
+ Olho-vos como christão, olho-vos como catholico romano, olho-vos como
+ cidadão, olho-vos como simples espectador, como <i>dilettante</i>. De todos
+ os modos vós me pareceis ou incongruentes, ou ridiculos, ou absurdos.
+</p>
+<p>
+ Todavia, meus senhores, depois de tão exactas observações, eu não
+ concluo que dissolvaes o vosso synodo e que vos retireis para vossas
+ casas. Os senhores liberaes, que vos combatem, são egualmente
+ incongruentes, egualmente absurdos e um pouco mais comicos do que vós, e
+ os senhores liberaes tambem se não retiram.
+</p>
+<p>
+ Elles dão morras ao papa, chefe supremo da religião catholica e todavia
+ continuam a dizer-se catholicos. Odeiam e guerreiam os padres e no
+ emtanto continuam a entregar as suas mulheres aos confissionarios e as
+ suas filhas á cathechese. Insultam a theologia do vosso jornal a
+ <i>Palavra</i> mas não acceitam com elle a controversia porque não sabem
+ theologia. Não lhes importa o irem para o inferno, mas não querem ir
+ para o Carmo. O seu atheismo leva-os a quererem «esmagar o infame» como
+ elles mesmos dizem, mas com a clausula de não molestarem com essa
+ operação os calos do sr. Bento de Freitas, governador civil, ou do sr.
+ Pinto Bessa, presidente da camara. Ultimamente vós festejaveis com um
+ <i>Te Deum</i> na egreja da Sé o anniversario de Pio IX: estaveis
+ inteiramente no vosso direito e na logica dos vossos principios. Elles,
+ em vez de combaterem com uma affirmação de sciencia a vossa protestação
+ de fé, esperaram-vos á porta da egreja, deram vivas á liberdade, a
+ Victor Manuel e a Garibaldi e alguns morras ao Papa infallivel. Foi com
+ esta elevação de critica que analysaram o Concilio do Vaticano, consti.
+ 4.ª cap. IV <i>De infallibilitate romani pontificis magni</i>, a qual
+ constituição nunca leram. A policia interveio, espancou varias pessoas,
+ prendeu varias outras, e eis em resumo o que os periodicos liberaes
+ chamam os conflictos da liberdade e da reacção religiosa na cidade do
+ Porto!
+</p>
+<p>
+ Profundas graças ao Altissimo, que não são inteiramente estas as
+ circumstancias que determinaram as antigas crises do poder entre os
+ burguezes do senado do Porto e os poderosos barões feudaes da Sé
+ portuense ou do balio de Leça! Os srs. padre Rademaker e padre Couto não
+ afivelaram os arnezes de aço dos antigos bispos e dos freires
+ hospitalarios, não reuniram os seus sergentes e homens d'armas, não
+ mandaram erguer as levadiças dos seus paços acastellados nem
+ desembainharam as suas espadas famosas ... Não, elles apenas entoaram a
+ ladainha de todos os santos, e prometteram, não excursões armadas sobre
+ os rebeldes dos seus feudos, mas sim jubileus e bençãos telegraphicas
+ aos seus adeptos.
+</p>
+<p>
+ Ora não vemos realmente em que estas coisas possam atterrar a liberdade
+ e sobresaltar o paiz.
+</p>
+<p>
+ É singular esta coincidencia:
+</p>
+<p id="bismark">
+ O clero catholico tem hoje em toda a Europa o papel sympathico. Os
+ unicos paizes do mundo em que ainda se gosa a liberdade religiosa são os
+ paizes catholicos. Na Russia, na Allemanha, temos o despotismo e a
+ perseguição protestante. O sr. de Bismark prende, processa e desterra
+ os sacerdotes catholicos. No novo imperio do rei Guilherme, o
+ patriotismo reforça-se na religião do estado; a recente legislação
+ allemã submette todos os casos de disciplina ecclesiastica e todas as
+ deliberações episcopaes ao poder civil, e prohibe o clero sob as mais
+ severas penas de cumprir preceitos que dimanem de qualquer auctoridade
+ ecclesiastica estranha á nacionalidade allemã.
+</p>
+<p>
+ Ferida violentamente na sua liberdade, perseguida pela força, a egreja
+ catholica&mdash;quem o diria!&mdash;appella para as garantias espirituaes e quer a
+ distincção dos poderes como salvaguarda da liberdade. Na Allemanha os
+ ultramontanos mais ardentes fortificam-se nos seus ultimos
+ entrincheiramentos pedindo como Cavour a egreja livre no estado livre. A
+ tal estado chegou desprestigiado e abatido o antigo poder clerical!...
+ Elle já não quer exercer a sua velha tyrannia, contenta-se em não
+ supportar a perseguição; e, como todos os martyres, pede a liberdade
+ como o extremo refugio das consciencias apavoradas.
+</p>
+<p>
+ Violentamente ferida no coração, perseguida pela força, a egreja
+ apresenta esse symptoma infallivel da sua suprema dôr&mdash;o grito das
+ garantias espirituaes, o appello em ultima instancia para a distincção
+ dos poderes.
+</p>
+<p>
+ Pio IX, fortificado no Vaticano, como n'uma cidadella gloriosa,
+ desmoronada e vencida, posto que respeitada, soffre as ultimas
+ consequencias fataes da sua politica, e, indomavelmente pertinaz e
+ corajoso, esse velho batalhador veneravel, despojado da sua corôa
+ temporal, arroja aos vencedores o derradeiro desafio do seu despreso,
+ arvorando impavidamente o dogma e metralhando com as excommunhões a
+ opinião liberal em ultimo sacrificio a uma causa perdida.
+</p>
+<p>
+ É curioso até o ponto de se tornar ligeiramente comico que seja este o
+ momento escolhido pela burguezia portuense para começar a apontar-nos a
+ egreja catholica como um perigo para a liberdade!
+</p>
+<p>
+ No Porto os livres pensadores da calçada dos Clerigos principiam agora a
+ receiar que os catholicos da rua da Picaria assoberbem e esmaguem sob a
+ desmaiada e quasi esvahida legenda pontificia o poderoso mundo
+ scientifico moderno.
+</p>
+<p>
+ Pela sua parte vós, catholicos da Picaria, reunis as vossas mulheres e
+ as vossas filhas, entoaes ladainhas e procuraes com preces e com
+ penitencias desaggravar a divindade offendida com as invectivas dos
+ periodicos liberaes&mdash;no que nos parece que confundis tambem um pouco a
+ religião com a sacristia, e tomaes frequentemente o sr. padre Couto pelo
+ Padre Eterno. É o vosso erro. No entanto ficae no vosso posto. A
+ civilisação precisa de vós, não como elemento reconstituinte, mas como
+ producto lachante. A sciencia estima-vos ... como droga. O velho mundo
+ invoca a vossa assistencia para o ajudar a morrer, para o enterrar. Para
+ mim, que acabo de vos discutir como fazendo eu mesmo parte do meio
+ burguez em que existis, vós sois certamente um absurdo. Perante a
+ philosophia vós sois porém uma necessidade historica. Nos annaes do
+ progresso transcendente do espirito humano o vosso nome ha de ficar como
+ o curioso epitaphio de uma geração que se extinguiu ha tresentos annos.
+ Porque a verdade é que vós representaes as idéas do seculo XVI.
+</p>
+<p>
+ A associação catholica do Porto instituiu-se para quê? Vós mesmos o
+ estaes dizendo todos os dias: Para salvaguardar a fé religiosa da
+ corrente invasora do scepticismo moderno.
+</p>
+<p>
+ Pois bem, meus senhores, foi esse mesmo scepticismo, cuja corrente vós
+ pretendeis hoje reprimir ou recuar, o que produziu a grande revolução
+ scientifica do seculo XVII e toda a civilisação subsequente até os
+ nossos dias.
+</p>
+<p id="tolerancia">
+ O scepticismo é o estado de espirito que medeia entre a superstição e a
+ tolerancia. Ha mais de um seculo que nenhum pensador grave se intromette
+ na vossa controversia theologica. Ninguem vos combate, ninguem mesmo vos
+ discute. O mundo novo está já na tolerancia, quando vós combateis ainda
+ o scepticismo de que a tolerancia é o fructo!
+</p>
+<p>
+ Duvidar, meus bons amigos, é exercer uma das mais poderosas e mais
+ fecundas faculdades da razão humana. Para chegar á verdade não ha senão
+ esse caminho: a duvida. Para chegar a Deus, que não é outra coisa senão
+ a expressão theologica da verdade, o unico meio é tambem esse: a duvida.
+ Primeiro que tudo duvida-se, depois aprende-se, por fim descobre-se. Tal
+ é a marcha invariavel dos espiritos na sua grande ascensão do imperfeito
+ para o absoluto.
+</p>
+<p>
+ O mesmo christianismo não poderia nunca ter principiado a existir se não
+ o tivesse precedido a duvida nas consciencias da antiguidade pagã.
+ Antes de acreditar em Jesus Nazareno o homem teve que duvidar de Jupiter
+ Capitolino. A tradicção christã é uma conquista do scepticismo antigo. A
+ duvida foi a primeira e a mais augusta expressão da revelação divina.
+</p>
+<p>
+ A duvida tem sido em todos os tempos a luz immortal e a guia suprema do
+ entendimento humano. Foi a duvida quem levou Colombo ao novo mundo,
+ Copernico e Newton á astronomia, Boyle e Pascal á hydrostatica, Galyleu
+ á mecanica e Lavoisier á chimica.
+</p>
+<p>
+ Se nas profundidades da nossa alma o scepticismo não tivesse existido
+ sempre como uma indomavel força inextinguivel de perfectibilidade
+ indefinida, a sciencia astronomica não viria occupar o logar da
+ astrologia, a physica e a chimica não substituiriam a alchimia, e a
+ imagem de Christo crucificado não succederia nos altares do Vaticano ás
+ estatuas dos dois mil deuses da Roma antiga.
+</p>
+<p>
+ Quereis a definição precisamente scientifica do scepticismo? Ouvi
+ Buckle, o historiador da civilisação: scepticismo é a difficuldade de
+ crer; de sorte que o scepticismo que se augmenta é a percepção
+ augmentada da difficuldade de provar asserções, ou, n'outros termos, é
+ a applicação augmentada e a diffusão augmentada das regras do raciocinio
+ e das leis da evidencia. Esse sentimento de hesitação é em todo o campo
+ do pensamento o preliminar invariavel de todas as revoluções
+ intellectuaes por que tem passado o espirito humano; sem o scepticismo,
+ progresso, mudança, civilisação, tudo seria impossivel. Na physica é
+ elle o precursor necessario da sciencia; na politica o precursor da
+ liberdade; na religião o precursor da tolerancia.
+</p>
+<p>
+ Ora defendendo a integridade da fé, vós fazeis á philosophia este
+ serviço relevante: suggeris a duvida, procuraes accordar a razão
+ individual, a qual nunca em nenhum outro meio social se desenvolveu tão
+ larga e tão arrojadamente, como no seio da egreja christã, a qual apezar
+ de todos os seus erros e dos seus mesmos crimes, tem sido sempre o mais
+ forte nucleo da vida moral e o mais alto objecto de todos os grandes
+ desenvolvimentos da intelligencia e da vontade.
+</p>
+<p>
+ De resto entendo que o Porto, esse feliz e arrojado industrial, vos deve
+ ser especialmente grato e reconhecido, porque vós o dotastes com um
+ estabelecimento que Lisboa ainda não possue&mdash;A associação catholica da
+ rua da Picaria,&mdash;a qual, á similhança dos antigos moinhos do Tibet e das
+ cabaças rotatorias dos Kalmuks, assegura á commodidade dos habitantes um
+ systema permanente, uma especie de moagem mechanica, com motuo continuo,
+ de adorações e de preces.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Algumas das familias que durante a estação finda se achavam a banhos de
+ mar em Pedrouços, resolveram de uma vez fazer uma festa nocturna,
+ mysteriosa, venesiana. Tomaram um vapor da carreira de Belem,
+ illuminaram-o com balões de papel como as gondolas do canal da Zueca que
+ deslisam em frente dos terrassos do palacio Barbarigo no primeiro acto
+ da <i>Lucrecia</i>. Para que a commoção de todas as pessoas que tomaram parte
+ n'esta scena fosse profunda e illimitada, os homens tinham-se
+ apresentado todos vestidos como os tenores nas scenas de <i>barcarola</i>. O
+ jubilo era indescriptivel.
+</p>
+<p id="caparica">
+ Reunida a bordo toda a sociedade, o vapor levantou ferro, e penetrou na
+ treva, vibrante de aventura, saturado de drama, na direcção de
+ Caparica.
+</p>
+<p>
+ O Tejo porém estava grosso e picado, de modo que começou a dar ao vapor
+ uns balanços intermittentes para um lado e para o outro como de quem
+ escabacea com somno. Com isto principiaram a manifestar-se com uma
+ insistencia progressiva os symptomas spasmodicos nos esophagos da
+ assembléa. Os Mazaniellos, verdes como azebre, tristes como condemnados
+ á morte, procurando sorrir á catastrophe com sorrisos dilacerados como
+ os que apresentam os cotovellos rotos, enrolavam-se nas suas capas e
+ prostravam-se como trôchos inuteis nos bancos da tolda. As senhoras
+ punham os seus lenços na bocca, corriam a mão pela testa, cuspiam
+ desconsoladamente no mar, e tinham ligeiros movimentos extaticos e
+ doloridos como de quem está escutando no ar o rumor de uma angustia que
+ chega.
+</p>
+<p>
+ Então o sr. Mathias Ferrari, segundo lemos no <i>Diario de Noticias,</i> «fez
+ correr um abundante serviço de neve». Todos se serviram.
+</p>
+<p>
+ Os effeitos foram taes que quando os criados repassaram com a segunda
+ roda de sorvetes, todos os convivas, com as boccas ainda abertas,
+ estremeceram de horror, porque cuidaram que esses segundos gelados eram
+ outra vez&mdash;os primeiros.
+</p>
+<p>
+ Então um homem forte, que tinha ido para bordo armado de um violão,
+ tentando arrancar a companhia a uma consternação abatida e geral,
+ começou, a dedilhar o instrumento e a entoar uma chacara. Mas, de
+ repente, suspende-se, torce-se, arripiam-se-lhe os cabellos,
+ encurva-se-lhe a espinha dorsal, cae-lhe o violão desfallecido nos
+ braços das senhoras, e o resto da chacara destinada aos eccos nocturnos
+ do oceano e recolhida pelos circumstantes n'uma bacia.
+</p>
+<p>
+ Era immenso a bordo o desalento.
+</p>
+<p>
+ Mathias Ferrari, descorçoado, abatido, já «não fazia correr os
+ serviços.» Este grande confeiteiro, dominando inteiramente a situação
+ com a profundidade da sua critica, comprehendera&mdash;e muito bem!&mdash;que a
+ questão ali já não era de <i>fazer correr</i>, mas de <i>fazer parar</i>.
+</p>
+<p>
+ Era alta noite quando o vapor abicou outra vez á praia de Belem,
+ recolhendo-se todos perfeitissimamente satisfeitos pelo modo como se
+ passara tão bello tempo. Apenas, para que desembarcassem, houve o
+ pequeno trabalho de virar os que tinham assistido a esta festa, a mais
+ brilhante talvez que se tem dado no Tejo, por que os convivas em virtude
+ dos reiterados exforços que tinham feito no mar para puxar para fora o
+ interior, succedera-lhes terem-o effectivamente conseguido, e haverem
+ chegado todos a terra&mdash;pelo avesso.
+</p>
+<hr />
+<p id="ferrao">
+ Com a mais extranha commoção lemos ultimamente que fôra nomeado aio de
+ sua alteza o principe real sua ex.ª o sr. Martens Ferrão, abalisado
+ jurisconsulto e procurador geral da corôa.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ É talvez uma bem perigosa temeridade da parte de prosaicos e obscuros
+ burgueses como nós somos o atrevermo-nos a meditar um momento no que
+ possam ser perante a educação e perante a sciencia as attribuições
+ especiaes de um aio junto de um principe. Todavia&mdash;debalde procurariamos
+ escondel-o&mdash;em presença de similhante assumpto, profunda e illimitada é
+ a confusão do nosso espirito. Por isso que, por mais assignaladas que se
+ nos representem as differenças que devem distinguir o alto e poderoso
+ filho de um monarcha do mero filho de um fabricante de velas de cebo,
+ nunca, por maiores que sejam na direcção do infinito os arrojos da nossa
+ phantasia curiosa, nunca podemos chegar a alcançar, nem pelas
+ presumpções mais vagas nem pelas mais remotas suspeitas nem pelas mais
+ affastadas conjecturas, qual o emprego pratico e effectivo que possa dar
+ um principe aos prestimos de um aio. Para satisfação de que
+ necessidades, de que conveniencias ou de que simples formalidades, em
+ que condições, em que circumstancias, em que especial momento da
+ preciosa e augusta vida do real infante vae sua excellencia o aio á
+ presença de sua alteza o principe?!... Nós o ignoramos.
+</p>
+<p>
+ Porque, quando as ordens de sua alteza procedam das necessidades do seu
+ espirito, das curiosidades da sua intelligencia, dos interesses da sua
+ instrucção, sua alteza pedirá naturalmente algum dos seus mestres ou
+ algum dos seus livros, e a sua alteza será então applicado um professor
+ de linguas, um compendio do sr. João Felix ou um numero do <i>Diario de
+ Noticias</i>. Quando os desejos manifestados por sua alteza dimanem das
+ urgencias physicas da sua naturesa, das fatalidades animaes do seu
+ organismo ou do seu temperamento, sua alteza pedirá o seu banho, o seu
+ jantar, as suas pastilhas ou o seu escarrador; e então os camaristas de
+ sua alteza, as suas aias e os seus escudeiros cumprirão os desejos de
+ sua alteza.
+</p>
+<p>
+ E não vemos, nem na ordem physica, nem na ordem moral, nem na ordem
+ inlellectual das relações de sua alteza com o mundo externo, a
+ necessidade, a conveniencia ou a plausibilidade da intervenção do aio.
+</p>
+<p>
+ A não ser que a concorrencia d'esta legendaria entidade methaphysica se
+ deva considerar nos reaes paços como um acepipe <i>hors d'oeuvre</i> ou como
+ um objecto supplementar de recreio, porque então comprehendemos de certo
+ modo que ao serviço particular de sua alteza um camareiro exclame:
+</p>
+<p>
+ «Está o <i>lunch</i> na mesa: ha <i>galantine</i>, rabanetes e o sr. Martens
+ Ferrão com salsa picada e manteiga fresca.» ou então: «Eis os brinquedos
+ de sua alteza: aqui está a bola de guttapercha e a caixa com o sr.
+ Martens Ferrão de engonsos.»
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Se porém&mdash;e perdoe-se-nos esta hypothesese, sob a senhoreal e demievica
+ palavra «aio», devemos entender a idéa perfeitamente logica, sensata,
+ popular, de um preceptor pratico, de um mestre experimental, de um
+ amigo, de um companheiro, n'esse caso notaremos com o mais profundo
+ respeito a Sua Magestade a Rainha, dedicada mãe e primeira educadora do
+ joven principe, que foi singularmente illudida a sua perspicacia
+ elegendo o sr. Martens Ferrão como conselheiro official e privado de seu
+ filho, como guia experimentado da candida existencia inexperiente do
+ innocente alumno. E isto por uma razão que de nenhuma maneira desabona
+ os altos merecimentos de sua excellencia o actual senhor procurador
+ geral da corôa, antes pelo contrario os confirma e corrobora. Esta razão
+ é que: o sr. Martens Ferrão, pela sua natureza, pela sua organisação,
+ pelo seu temperamento, pelo seu caracter, pela sua biologia, é tão
+ inexperiente, tão candido, tão ingenuo, tão innocente e tão puro como o
+ proprio alumno que elle é chamado a aconselhar e a dirigir na difficil e
+ complicada navegação da vida.
+</p>
+<p>
+ Passando em tenros annos do regaço d'aquella que lhe deu o ser para os
+ braços da austera jurisprudencia, que tinha de amamental-o para a
+ sciencia e para a gloria, o sr. Martens Ferrão tem até hoje passado a
+ sua vida <i>en nourrice</i> em casa do Direito Publico.
+</p>
+<p>
+ Os seus dias teem decorrido transcendentemente fora das condições
+ historicas do tempo e do espaço. A sua existencia tem sido
+ exclusivamente mystica e symbolica. Quando tem os seus impetos mais
+ ferozes de extravagancia, de anarchia, de deboche, elle sae a passear
+ pelas viçosas campinas da philosophia do direito e faz patuscadas
+ orgiacas e escandalosas com as origens celticas do direito e com as
+ liberdades municipaes do imperio romano. Depois o remorso apodera-se
+ d'elle. No dia seguinte acorda pallido, abatido, com a lingua grossa: o
+ espectro pavoroso e formidavel do sr. Batbie appareceu-lhe em sonhos, e
+ elle ouviu vozes vingadoras que lhe bradavam das profundidades da noite
+ e do arrependimento: «João Baptista, para onde deixaste o direito de
+ punir? que fizeste do direito administrativo, João? que é do direito
+ internacional, Baptista?!» Taes são os seus dias de mais desdem, de mais
+ anormalidade, de mais sexo, de mais jogo e de mais champagne! tal é o
+ seu despertar contricto para a legalidade, para a descentralisação
+ districtal e para as reformas de administração! Tal, resumidamente, é
+ elle! E quando dizemos <i>elle</i>, commettemos uma incerteza de
+ concordancia, porque tão pura, tão transcendental, tão scientifica é a
+ personalidade do sr. Martens Ferrão, que nada obsta a que a historia
+ referindo-se a sua excellencia, em vez de dizer <i>elle</i>, diga&mdash;<i>ella</i>.
+ Pela nossa parte, aguardando ácerca da resolução d'esse ponto as
+ ulteriores disposições definitivas da posteridade, diremos por emquanto
+ simplesmente <i>el</i>, sem a desinencia de genero, sob a respeitosa formula
+ neutra.
+</p>
+<p>
+ Como diziamos, pois, tal é&mdash;el.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Analysando, timidamente como o temos feito, a nomeação do sr. Martens
+ Ferrão para aio do principe real&mdash;note-se bem isto&mdash;não é a sorte de sua
+ alteza o que nos inspira receios sob a guarda de um tal guia ... Ah! não!
+ É pelo contrario o destino de sua excellencia o que nos inquieta sob a
+ influencia de um tal companheiro. Por <i>elle</i> podemos estar perfeitamente
+ socegados. Mas <i>el</i>? o que será d'<i>el, el</i> tão puro ou pura, tão
+ candido ou candida, sob os impulsos da nova existencia que
+ repentinamente vae no seu temeroso vertice arrebatal-o ou arrebatal-a?!
+</p>
+<p>
+ Na vida da côrte, fina, scintillante, irritavel, cheia de factos, de
+ commoções, de rasgos de espirito e de valor, de emboscadas, de
+ surpresas, de malicias, de tentações, quantos perigos, quantos laços,
+ quantas ratoeiras para a innocencia virginal, para a candida pureza
+ inexperiente e inerme d'<i>el!</i> ...
+</p>
+<p>
+ Os principes por effeito da sua vida reclusa, claustral, vigiada,
+ monotona, amam naturalmente a escapada, o mysterio, a aventura, a
+ innocente anormalidade. Apraz-lhes a sortida arriscada, a partida
+ carnavalesca, o ruido dos festins secretos, a mascara inescrutavel, a
+ longa capa dramatica e a espada ligeira e subtil dos paladinos;&mdash;o que
+ se lhes deve relevar, porque é esse o unico despique dos principes para
+ a secca official dos intrigantes, dos bajuladores, dos ambiciosos, dos
+ sensaborões e dos hypocritas que ordinariamente os rodeiam. Estes porém
+ não são ainda para <i>el</i> os unicos perigos. Não é licito esconder que ha
+ outros mais e muito mais temerosos. Pensemos nas influencias
+ tempestuosas d'esse elemento, terrivel para a mocidade, que se chama&mdash;a
+ mulher. Sentimos magoar com este promenor a pudicicia do sr. procurador
+ geral da corôa, mas esta é a verdade que não devemos occultar aos olhos
+ de sua excellencia. Diz Michelet, o casto, o austero Michelet, que em
+ todo o tempo a mulher attrahiu o homem, assim como a vinha da Italia
+ chamou os gaulezes, e a laranja da Sicilia chamou os normandos. Ellas
+ chamam-nos, ó srs. procuradores geraes da corôa, ellas chamam-nos!
+ Lembremo-nos da bella Helena, sr. Martens Ferrão, lembre-mo-nos de
+ Semiramis, de Cleopatra, da casta Penelope, das Sabinas!
+</p>
+<p>
+ Os principes não estão mais isemptos que os outros homens d'esta lei
+ geral da humanidade, e os que vivem com elles&mdash;ponderemol-o bem&mdash;ficam
+ sujeitos ás mesmas influencias que envolvem os reis.
+</p>
+<p>
+ Guilherme VII, cuja fé religiosa era tão ardente que elle foi á Terra
+ Santa com cem mil homens, o proprio Guilherme VII levou tambem na viagem
+ do Santo Sepulchro a galante legião das suas amantes, e diz d'elle uma
+ velha chronica que, bom trovador e bom cavalleiro d'armas, por muito
+ tempo correra o mundo <i>para enganar as damas</i>. Tal é a raça de que elles
+ sáem, ás vezes, quando não sáem peores que o mystico e piedoso
+ Guilherme! Que a actual procuradoria geral da corôa emquanto é tempo o
+ medite!
+</p>
+<p>
+ De Francisco I, um dos mais sabios e dos mais uteis reis que tem tido o
+ mundo, diz-se que ás bellas milanezas se deve a mais importante parte na
+ perseverança com que elle combateu pela conquista da Italia.
+</p>
+<p>
+ Sem fallarmos na cohorte das peccadoras, tão gentis como funestas, dos
+ <i>boudoirs</i> de Luiz XIV e da Regencia, recordemos ainda as dissolutas e
+ ferozes mulheres da côrte de Carlos IX, Catharina de Medicis, Maria
+ Touchet, e as grosseiras amantes torpes de Luiz XI, a Gigogne e a
+ Passefilou ... Oh! pudor! oh decoro! oh reforma administrativa!
+</p>
+<p>
+ Suppondes que a educação, os exemplos salutares e os conselhos sabios
+ possam preservar os principes dos perigos das suas ligações
+ clandestinas? Mas quando assim pudesse ser, quantos outros riscos na
+ propria convivencia legal das mulheres legitimas!
+</p>
+<p id="laczinska">
+ Um dia Maria Laczinska, legitima mulher de Luiz XV, recusou um beijo ao
+ rei com o fundamento de que este cheirava a vinho. Luiz, segundo a
+ expressão pittoresca de um chronista das galanterias escandalosas do
+ seculo passado, começava então <i>a tomar o gosto ao champagne</i>. O rei
+ resolveu n'esse dia nefasto separar-se para sempre da rainha, e são
+ sabidos os desgostos e as desgraças que o rompimento d'essas relações
+ custou á felicidade da França e á moral da Europa. Que remorso para o
+ aio de Luiz XV! Foi d'elle a culpa d'esse desastre. Se o aio do joven
+ rei, em vez de começar <i>a tomar o gosto ao champagne</i> juntamente com o
+ seu alumno, fosse, como pelo contrario devia ser, um experimentado e
+ antigo <i>soupeur</i>, conhecedor esperto de todas as ciladas armadas ao
+ homem pela bebida e pelo amor, elle teria evitado o divorcio do rei.
+</p>
+<p>
+ Tel-o-hia evitado, porque teria ensinado ao seu alumno, com a
+ auctoridade da experiencia, que a intemperança nas ceias e o abuso no
+ champagne produzem as hepatites, as predisposições para a apoplexia e
+ para a gotta e a manifestação das areias no rim. Se o principe não
+ obedecesse a estes conselhos e persistisse em ceiar, n'esse caso o seu
+ aio lhe faria comprehender que depois de ter bebido champagne nenhum
+ homem vae conversar com senhoras sem ter concluido a sua digestão e sem
+ haver previamente lavado a bocca com um elixir dentifrico. Um pequeno
+ passeio ao ar livre, uma gota de laudano ou uma pastilha, qualquer
+ d'estas tres coisas ministrada opportunamente por um aio intelligente e
+ dedicado, teria obstado ao rompimento das relações de Luiz XV com sua
+ mulher e a todas as consequencias que d'ahi se seguiram.
+</p>
+<p id="constancia">
+ Algumas vezes succede ainda que, além de todos estes desgostos, d'estas
+ decepções e d'estes remorsos, os aios, os validos, os intimos dos
+ principes levam ainda por cima pancada das princezas. N'este ponto as
+ chronicas são prodigas de eloquentes e salutares avisos. Constancia de
+ Arles, por exemplo, mulher de Roberto Pio, tinha taes accessos furiosos
+ de mau genio que um dia vasou um olho do seu proprio confessor
+ batendo-lhe com uma bengala que tinha no castão um bico de passaro. Esta
+ mesma bengala nem sempre se conteve perante a pessoa inviolavel e
+ sagrada da real magestade, e por muitas vezes se ergueu sobre as cabeças
+ dos amigos mais particulares do rei para nem sempre deixar inteiros
+ esses craneos dedicados e fieis. Foi a mesma sobredita princeza a que de
+ uma vez mandou matar por occasião de um passeio, aos proprios olhos do
+ soberano, o ministro De Beauvais, que lhe desagradava, e que, de outra
+ vez impoz para o outro mundo um cortezão antipathico, estafando-o com
+ uma corrida que o obrigou a dar n'uma caçada.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Ora se a corôa tem por um lado a obrigação de escudar a infancia e a
+ innocencia dos principes, não deve por outro lado sacrificar a
+ inexperiencia inerme das instituições pondo os srs. procuradores geraes
+ como barreira entre as tentações e as culpas, lançando emfim a alta
+ magistratura ao pego tenebroso, ao Mexilhoeiro insondavel em que ha o
+ espumar dos vinhos capitosos, o sussurrar das sedas, o arfar dos leques,
+ os sorrisos tentadores e as bengalas de castão de bico.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Algumas das pessoas que tiveram a honra de serem admittidas a jantar com
+ as senhoras hispanholas que ultimamente se acharam em uso de banhos de
+ mar, e de emigração, em Lisboa pedem-nos a nossa intervenção para
+ dirigirem áquellas senhoras, aliás tão distinctas e tão interessantes,
+ uma pequena observação que os seus amigos mais dedicados se não atrevem
+ a fazer-lhes directamente.
+</p>
+<p>
+ Suas excellencias teem á mesa o terrivel habito de comerem o peixe com a
+ faca, o que os admiradores mais enthusiastas do fino sal de espirito de
+ suas excellencias e do seu poderoso encanto de maneiras, não podem
+ abster-se de considerar como uma concorrencia temeraria feita por suas
+ excellencias aos acrobatas dos jogos malabares, unicos entes que
+ insistem em accumular os seus meritos pessoaes com o talento
+ supplementar de metterem as facas pela bocca.
+</p>
+<p>
+ ... Sendo certo ainda assim que os malabares que temos visto
+ entregarem-se a este exercicio, servem-se o seu rodovalho á parte, e
+ comem as facas&mdash;sem peixe!
+</p>
+<p>
+ Submettemos estas simples reflexões a suas excellencias, as quaes em
+ seu delicado criterio decidirão se, attentos os graves cuidados que nos
+ inspiram, devem ou não continuar a manter&mdash;na lista dos seus acepipes
+ predilectos&mdash;os faqueiros.
+</p>
+<hr id="chambord" />
+<p>
+ Durante este mez, tão inquieto, tão palpitante de commoções, em toda a
+ Europa, os principes com mão nervosa e febril cultivaram a epistola.
+</p>
+<p>
+ O Santo Padre escreveu ao imperador da Alemanha, o imperador da Alemanha
+ escreveu ao Santo Padre, o conde de Chambord escreveu ao deputado
+ Rodez-Benavent, o sr.D. Miguel de Bragança escreveu ao sr. conde da
+ Redinha, e a historia em geral e os redactores da <i>Nação</i> espeialmente,
+ escutaram com ardor o fremito d'essas pennas riscando a face do universo
+ com letras um pouco menos correctas que as de Cicero, de Plinio o moço e
+ de madame de Sevigné.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ O Santo Padre pede ao imperador Guilherme que obste a que o governo da
+ Alemanha persista na perseguição do clero catholico. O imperador
+ Guilherme roga a Sua Santidade que impeça o clero catholico de proseguir
+ na rebelião contra o governo da Alemanha.
+</p>
+<p>
+ D'este modo o Papa deseja que se retire da scena o martyrio, a grande e
+ bella apotheose da egreja triumphante, e lembra ao verdugo que sirva aos
+ martyres o antigo fel das legendas gloriosas com o moderno assucar dos
+ confortos policiaes.
+</p>
+<p>
+ O imperador opina que amargo de mais é o proprio calix que o obrigam a
+ tragar, e tirando da cabeça o seu ponderoso capacete bellico de ponta de
+ pára-raios, e humilhando-se dentro das suas botas de couraceiro,
+ elle&mdash;abatido, beato, lacrimoso&mdash;pede egualmente para as suas
+ tribulações de christão as correspondentes e proporcionaes doçuras.
+</p>
+<p>
+ E taes são os dois maximos guardas da fé, os dois summos representantes
+ na Europa moderna dos dois grandes ramos em que se acha dividida a
+ christandade!
+</p>
+<p>
+ Oh! Voltaire compungir-se-hia, e, franzindo n'um sorriso bom os feixes
+ malignos das suas sarcasticas rugas, elle, o caustico philosopho, o
+ livre espirito, tirando benevolo dos bolsos da sua houppelande de
+ veludo e martas a caixa das suas pastilhas, offereceria ás potestades
+ chorosas os bombons sacrilegos dos salões de Mesdames du Deffant e de de
+ Lambert.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ A carta do conde de Chambord é o velho golpe astuto de Jarnac jogado ao
+ constitucionalismo monarchico.
+</p>
+<p>
+ O principe a quem a França offerecera a corôa burgueza de Luiz Filippe,
+ pergunta-lhe o que exige d'elle a França, que papel lhe destina, para
+ que missão o invoca.
+</p>
+<p>
+ Vós, que estaes na liberdade, na democracia, na republica, cedeis ao
+ invencivel appetite de acclamar um rei. Comprehendestes que é superior
+ aos vossos meios repressivos e reorganisadores a perturbação corrompida
+ da sociedade em que viveis. Duvidaes da vontade, da intelligencia, da
+ força do vosso accordo collectivo. Quereis uma iniciativa individual,
+ culminante, prestigiosa, predestinada para o mando, para o triumpho,
+ para a gloria; quereis o monarcha eleito como Saul «para livrar o seu
+ povo das mãos dos seus inimigos», segundo a formula primitiva do
+ propheta Samuel.
+</p>
+<p>
+ N'esse caso armae a vossa cathedral de Reims, convidae os vossos
+ principes do seculo e da egreja, trazei a corôa real, a espada, as
+ esporas, a dalmatica azul, as botinas de seda estrellada de lizes de
+ oiro, entregae-nos o sceptro de Carlos Magno, e dae-nos as sete uncções
+ de Pepino o Breve. Depois do que, nós haveremos por bem deliberar por
+ quaes secretos caminhos nos apraz mandar-vos, segundo as vossas
+ gerarchias, para a victoria, para a bemaventurança ou para a força.
+ Emquanto vós, tranquillos, repousados, deixareis definitivamente de
+ occupar-vos da coisa publica, e, sem ambições, sem principios, sem
+ idéas, tereis a felicidade absoluta da besta no seu aprisco; <i>hoc erit
+ jus regis qui vobis imperaturus est</i>.
+</p>
+<p>
+ Se, em vez d'isto porém, o que desejaes ter é, não uma força omnipotente
+ que vos governe, mas sim um instrumento politico que manejeis; se para
+ me outorgardes a corôa, precisaes de me tirar a iniciativa, a
+ personalidade, a dignidade de homem; se para que me julgueis inoffensivo
+ é preciso que eu vos mostre ser pôdre; se as garantias que me pedis para
+ que vos não domine são uma fraqueza, uma corrupção, uma inepcia que vos
+ assegurem a facilidade de me dominardes a mim, então não: não vos
+ convenho eu, o derradeiro dos Bourbons fundadores da monarchia absoluta
+ nascida dos terrores da Liga e da Saint-Barthelemy, descendente e
+ herdeiro de Henrique IV, o que teve a dupla coragem da força e da
+ miseria, o que na tomada de Cahors se bateu nas ruas durante cinco dias
+ consecutivos, ôlho a ôlho, dente a dente, braço a braço, o que de Dieppe
+ escrevia alegremente a Sully que tinha todas as camisas despedaçadas e
+ um gibão roto nos cotovellos!
+</p>
+<p>
+ Camille Desmoulins conta que em 1790 o poder monarchico era representado
+ em Londres por meio de um bailado expressivo como uma parabola. N'este
+ baile a primeira figura era um rei que terminava a execução de um
+ <i>entrechat</i> cheio de garbo e de pompa alongando um pontapé ao fundo das
+ costas do seu primeiro ministro; este transmittia o pontapé real ao
+ segundo ministro, o qual o traspassava ao terceiro, seguindo-se a mais
+ viva e espirituosa corrente de pontapés que se tem visto n'uma côrte,
+ até que o personagem que apanhava em cheio no seu volumoso e amplo
+ hemispherio posterior o ultimo pontapé era o paiz&mdash;que ficava com elle.
+</p>
+<p>
+ Nas monarchias constitucionaes imaginou-se reconstituir, por meio da
+ carta, essa graciosa dança, alterando porém a collocação do soberano ou
+ a ordem dos pontapés, de maneira que ou o principe está em baixo e os
+ pontapés vem de cima, ou o tyranno está em cima e os pontapés vão de
+ baixo.
+</p>
+<p>
+ Os povos monarchicos julgam-se felizes tendo cada pessoa ao lado de si
+ alguem a quem transmittir o pontapé em giro atravez das instituições e
+ da politica. A carta do conde de Chambord não é em resumo senão o
+ testemunho de uma divergencia com a assembléa nacional sobre este ponto
+ importante do bailado em ensaios: quem é que recebe o pontapé?
+</p>
+<p>
+ A um paiz corrompido e a uma assembléa senil não occorre esta
+ consideração tão simples: que quando se trata de um stygma de servilismo
+ e de baixeza a questão não é poder transmittil-o, é não dever
+ acceital-o. Organisar pela monarchia a responsabilidade dos que se
+ corrompem é abdicar a faculdade de demittir a corrupção. Os reis quando
+ não enodoam os povos, tambem não lhes tiram as nodoas que elles tenham.
+ N'esses casos o que limpa um paiz não é a realesa. Quereis saber o que
+ é? Pois bem! É a benzina!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ A carta do sr. D. Miguel de Bragança ao sr. conde da Redinha é ao mesmo
+ tempo o tocante documento da estima inviolavel de um amigo ausente, e o
+ authentico manifesto politico de um principe proscripto.
+</p>
+<p>
+ Sua alteza declara ao <i>seu paiz</i> que quer ser o protector e o amigo de
+ todos os portuguezes e que considera como sua mais elevada ambição e sua
+ maior gloria&mdash;restaurar o throno pontificio. N'este simples traço
+ encarna sua alteza a expressão politica da sua indole,&mdash;o que nos parece
+ de uma moderação de intuitos demasiadamente modesta.
+</p>
+<p>
+ Diriamos que sua alteza folga em confundir-se na obscura legião invalida
+ dos tyranos burguezes, dos cezares bonacheirões, Neros de barrete de
+ dormir, Caligulas dyspepticos, Eliogabalos em uso do pronto alivio e da
+ revalenta arabica. A politica affirmada por sua alteza accusa uma
+ visivel pobresa de sangue. Sua alteza é um anemico. Tal é o infortunio
+ da nossa raça! Que degeneração!
+</p>
+<p>
+ O pae do joven principe D. Miguel era sanguineo, esse. A sua
+ extraordinaria força muscular era a admiração respeitosa, a maravilha
+ profundamente inclinada do <i>sport</i> lusitano de 1827. Nas redondezas do
+ paço de Queluz, nas terras do Infantado, via-se ás vezes atravessar os
+ campos, a pé, caçando acompanhado do seu falcoeiro, um homem de mais de
+ meia estatura, de solidos hombros, faces morenas, barba rapada, mãos
+ enormes, beiços sensuaes, grandes olhos negros, rasgados, peninsulares;
+ vestia um casaco de baetão verde, calção preto, botas altas, de cava,
+ com tações de prateleira e esporas de prata; usava um bonet azul, do
+ prato largo, com vizeira. Este homem, que amava a convivencia dos
+ plebeus, a quem dava largas esmolas de dinheiro e de conversação,
+ comprazia-se em ensinar a lavrar os moços do campo: tomava na mão
+ esquerda a rabiça de um arado, azorragava com a direita uma parelha de
+ mulas, e abria no solo mais empedrado e mais endurecido, sob a poderosa
+ pressão do seu pulso, um rego profundo, extenso de um kilometro, e recto
+ como um risco passado a regoa por um tira-linhas. Suffocava um forte
+ cavallo de Alter puchando-lhe a ponta da cilha com os dentes. Segurava
+ pela bocca, que juntava e cerrava no punho, um sacco de sete alqueires
+ do trigo, e lançava-o ao hombro, com uma só mão, erguendo o braço por
+ cima da cabeça e conservando o corpo immovel, erecto e firme. Quando
+ vinha de Queluz a Lisboa, galopando á desfilada, com uma vara debaixo da
+ perna, entre os seus companheiros mais assiduos, João Sedvem, o picador,
+ o José Verissimo, o da policia, a força de soldados de cavallaria que o
+ acompanhava, ficava aos poucos pela estrada destroçada pela fadiga: elle
+ nunca chegou senão só. No dia em que recebeu ao pé da mata, na Quinta
+ Velha, onde estava caçando ao falção, por volta das duas horas da tarde,
+ a noticia de ter entrado a barra de Lisboa a flotilha que apresou e
+ levou para França todos os nossos vasos de guerra surtos no Tejo, elle
+ veiu de Queluz a Belem, em menos de tres quartos de hora. Esse homem que
+ tinha a grande popularidade que trazem comsigo as legendas da força e da
+ destreza physica, era sua magestade el-rei o sr. D. Miguel I.
+</p>
+<p>
+ O soberano tinha os defeitos do homem e as qualidades dos seus defeitos.
+ A sua politica era apopletica simplesmente porque elle era plethorico.
+</p>
+<p>
+ Esse principe, com o seu temperamento, o qual constituia, politicamente
+ assim como physiologicamente, toda a sua personalidade, fez á liberdade
+ e ás idéas modernas o mais relevante serviço: foi elle o que fabricou o
+ partido liberal portuguez.
+</p>
+<p>
+ Os constitucionaes foram uma invenção da policia do sr. D. Miguel. Elles
+ não combatiam o direito divino, nem os privilegios da nobreza e do
+ clero, nem o regime absoluto, nem a servidão popular; o que elles
+ combatiam principalmente era o José Verissimo. Affirmavam-se os direitos
+ do homem porque se tinha percebido que esses direitos prejudicavam os do
+ João Sedvem. Os revolucionarios portuguezes não vieram da sciencia, não
+ vieram do amor da justiça, das impaciencias da liberdade, dos contagios
+ da Convenção, da revolta da dignidade humana. Não. Elles vieram
+ simplesmente dos carceres, dos carceres em que o regime despotico
+ recalcou de mais a força viva da nação. Os principios eram o pretexto
+ sob o qual se vingavam as offensas feitas não ás idéas vigentes, mas aos
+ interesses estabelecidos. As denuncias partiam dos lesados. A idéa
+ exposta na organisação da Companhia dos vinhos preoccupava mais os
+ espiritos em Portugal do que o principio representado em França pela
+ existencia da Bastilha. Havia martyres da liberdade que nunca tinham
+ amado a liberdade com devoção mais intensa que a do Sedvem e que não
+ teriam posto duvidas irremissiveis em continuar a «dobrar a cerviz, ao
+ jugo da tyrannia» como se dizia no stylo do tempo; sómente o que elles
+ tinham recusado era emprestar algumas moedas ao José da Policia. Para a
+ maior parte da gente a victoria da idéa liberal foi simplesmente a morte
+ do Telles Jordão. Finalmente o sr. D. Miguel de Bragança, <i>primeiro</i>,
+ foi o principe cuja força fez na monarchia portugueza o rombo por onde a
+ liberdade appareceu. O sr.D. Miguel de Bragança, <i>segundo</i>,
+ figura-se-nos pela sua expressiva carta ao sr. conde da Redinha, uma
+ pessoa extremamente debilitada. Ser o protector e o amigo de todos os
+ portugueses é enfraquecer-se diffundindo-se. Os antigos fortes
+ concentravam-se.
+</p>
+<p>
+ Pobres de nós! Como somos diversos de nossos paes! Os plethoricos,
+ sangrados, legaram á geração que lhes succedeu a impotente anemia!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Acabamos de lêr um livro que foi publicado era Lisboa ha cerca de tres
+ mezes e a respeito do qual ainda não ouvimos á critica uma palavra de
+ menção. Foi abafado pelo silencio. Se lhe não dessem esse destino teria
+ sido um livro escandaloso porque foi inteiramente concebido fóra da
+ rotina, fóra da convenção, fóra do compadrio, por um espirito
+ justo, esclarecido, honrado, fatalmente inclinado ao bem.
+ Intitula-se&mdash;<i>Portugal e o socialismo</i>, e é escripto pelo sr. Oliveira
+ Martins.
+</p>
+<p>
+ A litteratura portugueza actual apresenta este notavel caracter:&mdash;o
+ bysantinismo. Ella não é um documento historico, nem um documento moral
+ do tempo em que vivemos. Não tem importancia na direcção dos espiritos,
+ não tem influencia na formação dos caracteres, não tem validade no
+ estabelecimento dos principios. Não dá nenhuma theoria á razão, não dá
+ nenhuma lei á consciencia, não dá nenhuma norma á dignidade.
+</p>
+<p>
+ A imitação, a convenção, o servilismo, o estreito espirito de seita, de
+ partido, de escola, a ignorancia, a indolencia, a bajulação, a
+ orthodoxia official puzeram a pouco e pouco as lettras portuguezas
+ inteiramente fóra do seu objecto&mdash;a simples e pura verdade humana.
+</p>
+<p>
+ O que actualmente se escreve não é absolutamente nada o que actualmente
+ se pensa. Todas as grandes questões capitaes que preoccupam a sociedade,
+ a litteratura ou as evita ou as falsea. Ou as evita porque as não sabe
+ tratar, ou as falsea porque as trata com um espirito particular de
+ interesse, hostil á sciencia e rebelde á arte.
+</p>
+<p>
+ Entre tantos escriptores portuguezes que quotidianamente enegrecem em
+ Portugal o innocente papel sobre o qual se orça a medida das nossas
+ faculdades, onde está o homem cuja obra represente o precurso das idéas
+ predominantes d'este seculo atravez d'esta sociedade? Onde está o
+ artista, onde está o philosopho, onde está o poeta que tenha atacado de
+ frente a solução desinteressada, independente, firme, clara, nitida, dos
+ multiplos problemas que agitam o espirito, a consciencia, o coração do
+ homem moderno no meio do sentimento, do temperamento, da religião e da
+ politica da sociedade moderna?
+</p>
+<p>
+ Será tal escriptor o sr. Alexandre Herculano, philosopho collaborador da
+ sr.ª D. Guiomar Torresão no <i>Almanack das Senhoras</i>?
+</p>
+<p>
+ Será o poeta sr. Nunes, deputado conservador, o mais arrojado dos vates
+ que conhecemos dentro dos limites da carta constitucional e do systema
+ representativo?
+</p>
+<p>
+ Não nos parece.
+</p>
+<p>
+ O sr. Oliveira Martins faz parte de um pequeno grupo de alguns
+ trabalhadores obscuros, inteiramente penetrados da corrente scientifica
+ do tempo actual, que teem procurado introduzir na litteratura as idéas
+ correspondentes ás preoccupações, ás necessidades e aos interesses mais
+ altos, mais legitimos e mais vitaes da sociedade em que vivem, fixando
+ assim scientificamente algumas das bases do programma geral da revolução
+ por meio da qual se vae transformando o mundo europeu.
+</p>
+<p>
+ Esses humildes obreiros, aos quaes cabe a gloria de terem iniciado em
+ Portugal quasi todos os grandes principios das civilisações modernas,
+ não teem encontrado, como galardão dos seus estudos, da sua
+ independencia e da sua andácia de pensadores, senão a surda guerra das
+ maledicências, das calumnias e dos desdens, evantada pelo obscurantismo,
+ pelo fanatismo, pela ignorancia. Accusam-os de attentarem contra a
+ moral, contra a religião, contra a ordem, contra o patriotismo, e
+ expulsaram-os vilmente e infamemente do respeito publico e da
+ consideração social como jacobinos, como communistas, como incendiarios.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ É do livro acima citado que extrahimos a seguinte pagina tão sensata,
+ tão viva, tão humana:
+</p>
+<p>
+ «Portugal não tem pauperismo. É por isso que entre nós se não levantaram
+ ainda, nem se levantarão já, Nelsons ou Sydney Smiths para dizerem como
+ em Inglaterra: «A pobreza é infame.» É por isso que a definição ingleza
+ da fabrica&mdash;<i>manufactura de algodão e de pobres</i>&mdash;não pode servir-nos. O
+ não attingirmos porém um termo tão elevado de preversão social não quer
+ dizer que as classes trabalhadoras de todas as industrias vivas do paiz,
+ extractivas e transformadoras, encontrem para cá das nossas fronteiras
+ um modo de vida essencialmente differente. Não, a nossa organisação
+ politica, semi-monarchica, semi-liberal, dá em resultado ser duplamente
+ absurda, immoral, pauperisadora. Porque, como liberal, permitte a livre
+ concorrencia do capital e do trabalho, aliena as funcções e
+ propriedades collectivas, e, para corrigir as consequencias de
+ distribuição viciosa que d'ahi resultam, mantem uma protecção
+ anachronica, com as alfandegas, com a divida e com o imposto, protecção
+ que recaindo afinal toda no consumo, vem ainda aggravar as condições do
+ trabalhador pela elevação no preço das coisas. Acima da preversão
+ economica devemos pôr a preversão moral. No pequeno mundo industrial de
+ Lisboa, não contaste nunca, leitor, aos sabados o numero de ebrios que
+ povôa as vielas escuras e nauseabundas, onde á crapula vem juntar-se a
+ orgia das mulheres perdidas? Onde o prostibulo está em frente da
+ taberna, ao lado o bilhar, e entre o bilhar, o prostibulo e a taberna,
+ se funde a feria?
+</p>
+<p>
+ A desordem e a immoralidade são contra a natureza. Se esses homens não
+ fossem pobres seriam melhores. Se não tivessem de trabalhar doze horas
+ para comer saberiam ler. Se tivessem pão e liberdade seriam paes de
+ familia. Olhae as mulheres e as creanças. Termo medio a familia tem
+ quatro pessoas; termo medio o salario é de 400 réis. O trabalhador
+ recorre ao celibato, á prostituição, ás relações illicitas, d'onde
+ resultam os infantecidios (tão frequentes em Portugal como na China) e a
+ roda dos expostos. Quando um homem foi agarrado por esta engrenagem
+ d'aço morreu. Ha muitos a quem uma certa energia de caracter ou uma
+ constituição artistica e sentimental levaram ao casamento e á familia: é
+ então que se encontram quatro pessoas com quatro tostões por dia. A
+ industria offerece uma tentação diabolica: augmentar o salario
+ destruindo a familia. N'esse momento a esposa e os filhos entram na
+ <i>fabrica</i> ...»
+</p>
+<hr />
+<p>
+ A fabrica é para as mulheres e para as creanças o sepulchro do pudor, da
+ honestidade e da saude. Emquanto as instituições sociaes não assegurarem
+ á mulher o seu legitimo logar na familia é absolutamente preciso que,
+ pelo menos a protejam na miseria fatal da fabrica. Porque nas fabricas
+ portuguezas o que succede com a mulher é que, pela sua fraqueza e pela
+ sua ignorancia, ella é no trabalho o escravo do homem. Ninguem entre nós
+ tem lançado os olhos a esses desgraçados destinos obscuros.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Acostura que ainda ha pouco era o grande refugio das raparigas pobres
+ desappareceu com a machina de cozer. A mulher não póde sustentar essa
+ concorrencia, porque ella não póde, por maiores que sejam os esforços
+ dar por suas mãos mais de 30 pontos por minuto: a machina dá 643 pontos
+ no mesmo espaço de tempo. Para se empregar n'outros serviços precisaria
+ de uma educação preparatoria pratica, para a qual são indispensaveis as
+ escolas profissionaes que não existem em Portugal. Em França, na
+ Inglaterra, na Allemanha e principalmente na Suecia, as mulheres
+ habilitadas em cursos especiaes teem já muitos empregos uteis na
+ industria e no commercio. Em 1871 havia na Suecia 4:055 mulheres
+ empregadas no commercio e na industria. D'estas 2:675 dirigiam os seus
+ proprios negocios. Quinhentas e quatro mulheres eram proprietarias de
+ fabricas e de officinas. Além d'isto muitas outras se achavam empregadas
+ nos bancos, nas caixas de soccorros, nas companhias de seguros, etc. com
+ emolumentos annuaes variando de 800 a 5:000 rixdalers. No serviço dos
+ correios, dos caminhos de ferro, dos telegraphos, a mulher alarga de dia
+ para dia os seus dominios. A America, a Suecia, o Wurtemberg,
+ offerecem-lhe sob esse ponto de vista as maiores facilidades.
+</p>
+<p>
+ Em Darmstadt muitas mulheres se acham empregadas nas repartições de
+ estatistica com optimos resultados para o serviço publico. Os cuidados
+ aos doentes são um bello emprego para o trabalho das mulheres. Na
+ Hollanda muitas teem sido auctorisadas a tirar diplomas de
+ pharmaceuticos. A profissão medica tem-lhes sido permittida em diversos
+ paizes. Na America, em S. Petersburgo, em Zurich, em Upsel e em varias
+ outras universidades ha um consideravel numero de alumnos do sexo
+ feminino estudando a medicina. Na Suecia estabeleceu-se pelo estado um
+ fundo permanente de soccorros para as mulheres que seguem a carreira
+ medica.
+</p>
+<p>
+ A ultima exposição de Vienna veiu provar ainda quanto as mulheres se
+ teem ultimamente occupado nas artes industriaes e nas bellas artes. Na
+ exposição sueca vê-se no pavilhão dos productos da industria o perfeito
+ exito com que as mulheres teem cultivado n'aquelle paiz a pintura, a
+ gravura em madeira, a xylographia, a lythographia, a gravura em cobre, a
+ photographia, a cartographia, a pintura em porcelana, a modelagem. Na
+ Suecia concedeu-se-lhes accesso, como aos demais empregados, nos
+ serviços dos telegraphos, dos correios e dos caminhos de ferro.
+ Admittem-as como gravadoras na casa da moeda; muitas são empregadas nas
+ academias, nas imprensas e n'outros estabelecimentos como xylographas,
+ impressoras, compositoras, directoras de officina, etc.
+</p>
+<p>
+ Na Suecia ha hoje immensas escolas sustentadas pelo governo, pelas
+ communas e por associações particulares onde ensinam ás raparigas pobres
+ todos os trabalhos femininos do «ménage». Ha escolas especiaes
+ destinadas a formar creadas. Em Stockolmo ha escolas de remendagem onde
+ as raparigas aprendem a concertar os seus fatos e a sua roupa branca com
+ um acceio e uma arte inexcedivel. As meninas burguezas teem á sua
+ disposição a escola industrial de Stockolmo, as escolas normaes reaes, o
+ instituto central de gymnastica onde se formam mestras de gymnastica, a
+ academia real de musica, a academia das bellas artes os estabelecimentos
+ de instrucção das parteiras e a mesma universidade, onde se ministram
+ subsidios a tres raparigas que estudam por conta do estado. Depois da
+ Suecia devem-se citar os Paizes Baixos e a Austria. Em Vienna a
+ municipalidade fundou em alguns bairros escolas industriaes nocturnas.
+ Sociedades de senhoras estabeleceram escolas profissionaes de
+ differentes especies. Ha uma sociedade especial encarregada de obter ás
+ mulheres meios de subsistência (Frauenerwerb-Verein). Além das escolas
+ preparatorias para a instrucção geral elementar e para a instrucção
+ superior, estabeleceu a referida sociedade uma escola de costura, uma
+ escola superior de trabalho com um curso de estudos que dura tres annos,
+ uma escola de desenho industrial, uma escola de commercio, uma escola de
+ linguas, um curso especial para as empregadas na telegraphia. Na
+ Hollanda é na escola industrial de Amsterdam que se instrue a mocidade
+ feminina não só nos trabalhos manuaes, taes como o bordado, costura á
+ mão e á machina trabalhos de cartonagem e obras de palha, escripturação
+ commercial, legislação commercial e pharmacia. Na Alemanha do norte e na
+ Alemanha central ha egualmente muitas escolas industriaes fundadas por
+ sociedades especiaes e por outras corporações para a educação das
+ raparigas e das mulheres. Um fabricante de Munich fundou uma excellente
+ escola de ensino commercial para as raparigas da classe burgueza e da
+ classe operaria. As mulheres que sáem d'esta escola encontram
+ immediatamente emprego nos bancos, ou nas casas de commercio.
+</p>
+<p>
+ A Russia resolveu ultimamente facultar a matricula na escola de medicina
+ de S. Petrsburgo ás mulheres habilitadas com determinados titulos de
+ capacidade. Logo depois da promulgação d'esta lei, quatrocentas mulheres
+ se apresentaram como candidatos á frequencia da alludida faculdade.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Sabem dizer-nos o que é que, sob este ponto de vista, se tem feito em
+ Portugal? Esperamos que suas excellencias os senhores conservadores se
+ dignarão responder-nos.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ O sr. marquez de Vallada mandou correr este mez os reposteiros
+ brasonados dos seus salões para inaugurar as soirées elegantes do
+ presente inverno com um jantar <i>prié</i>.
+</p>
+<p>
+ Assistiram todos os membros do gabinete e varios outros personagens
+ illustres na politica e na burocracia. Sentia-se apenas uma falta n'essa
+ reunião selecta: a ausência absoluta de senhoras no palacio do nobre
+ fidalgo. Bem sabemos que um jantar não é precisamente como uma valsa
+ para a qual a gente não ha de ir convidar a lagosta, nem dançar com o
+ perú. Mas mesmo para o que é comer não basta apenas a comida. O sr.
+ marquez sabe a este respeito a opinião de Savarin: o bruto pasta, o
+ homem come, só o homem de espirito é que sabe comer. Ora uma duzia de
+ barbatolas postos a mascar trufas uns diante dos outros em volta de uma
+ mesa não nos parece que deem o espectaculo da espiritualidade mais fina.
+ É preciso que concorram tambem as senhoras, com a <i>toilette</i>, com a fina
+ pelle, com os perfumes, com as rendas, com as perolas, com as frescas
+ risadas cristalinas, com os agudos ditos penetrantes, com a elevação
+ finalmente, com a idealidade, com o espirito.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Atravessar a gente por entre duas filas de criados gordos e graves como
+ embaixadores, indo por baixo dos lustres, pizando um tapete espesso,
+ dando o braço a alguem, ou seguindo mesmo, atraz, sosinho, na turba dos
+ obscuros, com a claque debaixo do braço; entrar na sala de jantar,
+ tepida, fulgurante de luz; contemplar a mesa de um aspecto tropical pela
+ natureza das fructas e pela fórma das flôres trasvasadas do plateau,
+ procurarmos o nosso nome nos bilhetes que estão em cima dos guardanapos;
+ sentarmo-nos ao dôce murmurio dos vestidos que se enfôfam ao nosso lado
+ e dos talheres que telintam; desdobrar nos joelhos um amplo guardanapo,
+ frio, lustroso e pesado, de linho de Irlanda; aconchegarmo-nos, unirmos
+ os cotovellos ao corpo e inclinarmo-nos sobre o prato; metter na bocca a
+ primeira colher do sopa, sentir estalar e derreter-se no dente o
+ primeiro rabiolo, escorrendo no paladar o acre succo dos espinafres, em
+ quanto a nossa visinha da esquerda mette a sua luva enrolada no copo do
+ Madeira, e a nossa visinha da direita morde atrevidamente no pão
+ deixando-nos vêr de lado todos os seus pequeninos dentes mais lindos que
+ as suas perolas ... isto é realmente acharmo-nos n'um dos momentos mais
+ augustos que a civilisação e a elegencia concedem ao homem em paga dos
+ sacrificios que elle lhes tem feito nos esmeros da educação e na alta
+ cultura do espirito. É então que as mulheres, sómente as mulheres&mdash;ellas
+ que vivem na graça e no mimo como os solitarios vivem no egoismo e no
+ tedio&mdash;desenvolvem o talento especial de fazer romper os alados
+ assumptos ligeiros e subtis, em torno dos quaes adejam as conversações,
+ as phantasias, as replicas, os repentes, como doiradas abelhas famintas
+ sobre um ramo de rosas.
+</p>
+<p>
+ Se n'esses momentos os homens se acham sós, ou caem na bestialidade
+ indolente e calada dos deuses de Epicuro, ou discutem, questionam,
+ fallam alto, gritam, põem os cotovellos na mesa, fazem gestos, fazem
+ bolas de pão, dão estalos com a lingua, limpam as unhas, e quebram
+ palitos nos dedos&mdash;o que ha mais implicativo dos nervos e mais offensivo
+ do gosto.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Consta-nos que pelas razões referidas o jantar do sr. marquez tocou um
+ pouco no tetrico. O silencio era a principio tão solemne que apenas se
+ ouvia confusamente o ruido da maioria parlamentar engolindo pelo
+ esophago do ministerio e a ordem e a guarda municipal mastigando pela
+ bocca do sr. barão do Zezere. Tinha-se ar de se estar n'uma sessão
+ deliberativa e não n'uma festa; parece até que o sr. marquez de Avila, o
+ illustre parlamentar, dirigindo-se a um criado, se mostrára gravemente
+ preoccupado ao ponto de que, sendo a sua intenção pedir-lhe Sauterne,
+ lhe pedira a palavra.
+</p>
+<p>
+ Por fim parece que o dono da casa usara da fala para expôr o objecto
+ d'aquella reunião, o qual, segundo referem os jornaes, foi:
+</p>
+<p>
+ <i>Affirmar a adhesão do sr. marques de Vallada á monarchia</i>.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Achamos extremamente louvavel e digno de ser imitado por todos os
+ fidalgos portuguezes o exemplo dado pelo sr. marquez de se sacrificarem
+ pelo throno ao ponto de não hesitarem um momento, para o salvar, em
+ irem ... para a mesa!
+</p>
+<p>
+ Os vossos avós, quando queriam dedicar-se ao esplendor da corôa iam
+ bater-se em Arzilla, em Ormuz, em Ceuta, em Tanger, descobriam terras,
+ venciam batalhas, conquistavam reinos.
+</p>
+<p>
+ Quereis provar-nos que ainda guardaes nos vossos archivos as antigas
+ cartas do roteiro dos mares? Que ainda tendes nas vossas panoplias as
+ duras armaduras e as famosas lanças dos vossos maiores? Muito bem! Visto
+ que não podeis refazer o que está já feito por elles, começae pelo menos
+ a realisar o que elles tantas vezes omittiram: jantae!
+</p>
+<p>
+ E a corôa verá, pela maneira como vos mostrardes aptos para comer,
+ quanto sois capazes de amar.
+</p>
+<p>
+ Assim como o Castro forte dizia que por cada pedra da fortaleza de Diu
+ elle daria um filho, mostrae vós que por cada perna de perú trufado
+ sereis capazes de dar um avô. E o soberano, jubiloso e grato,
+ contemplando por cima da gloriosa terrina da historia contemporanea, os
+ feitos valorosos dos vossos garfos invenciveis, apreciará os vossos
+ titulos de immortalidade, discriminando, no ardor e na confusão das
+ refregas, os que se lhe dedicam até ao pato com arroz, os que o
+ estremecem até ao frango com hervilhas, os que o idolatram até ás
+ salchichas com couve lombarda!
+</p>
+<hr id="elementofeminino" />
+<p>
+ Mas por Deus, meus senhores, consenti que vol-o repitamos: Não excluaes
+ dos agapes patrioticos com que preparaes a entranha para a communhão
+ monarchica, o doce elemento feminino, o melhor encanto do triumpho, o
+ mais alto premio do heroismo, o mais precioso complemento da gloria! Se
+ a prosmicuidade dos sexos insuperavelmente vos repugna, que alguns de
+ vós pelo menos se sacrifiquem ás conveniencias da arte, ás prescripções
+ do bello, e salvem sequer as apparencias&mdash;vestindo-se de mulheres!
+</p>
+<p>
+ Animo, senhores commandantes dos corpos! animo, senhores officiaes
+ maiores! animo, senhores ministros de estado! É por ellas, que vos
+ pedimos isto, pelas que tiveram sempre o seu logar nas nossas gloriosas
+ tradicções dymnasticas! Lembrae-vos d'ellas, e ide lançar-vos aos pés da
+ Aline! Lembrae-vos d'ellas, e consenti em decotardes os vossos hombros!
+ Elanguescei, meus senhores, reclinae meigamente as frontes, cerrae
+ levemente as palpebras, agitae um pouco os vossos leques, dae suspiros,
+ ponde tações de setim escarlate, vinde de cuia! e, sobretudo&mdash;não o
+ esqueçaes&mdash;trazei <i>tournure</i> ... Que vos custa trazer <i>tournure</i>? Uma
+ coisa tão facil, que se traz como as patronas!
+</p>
+<p>
+ É pelo throno, pelo mesmo throno de que vos declaraes adeptos, que vos
+ supplicamos isto! é pelas vossas excelsas e augustas soberanas, não
+ representadas no vosso banquete ... Em nome de Mecia Lopes, meus
+ senhores! Em nome de D. Urraca!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ A imprensa de Lisboa não tem opinião. Aquelles dos seus membros que por
+ excepção presentem as idéas proprias, vivas, originaes zumbindo-lhes
+ importunamente no cerebro, enxotam-as como vespas venenosas. É que a
+ missão do jornalismo portuguez não é ter idéas suas, é transmittir as
+ idéas dos outros. Por tal razão em Lisboa o homem que pensa não é nunca
+ o homem que escreve. O jornalista nunca se concentra, nunca se recolhe
+ com o seu problema para o meditar, para o estudar, para o resolver.
+ Nunca procura a verdade. Procura apenas a solução achada pelo publico,
+ pelo publico d'elle, pelo seu partido politico, pelos consocios do seu
+ club, pelos seus amigos, pelos seus protectores, pelos seus assignantes.
+ Portanto trabalha na rua, debaixo da arcada do Terreiro do Paço, nos
+ corredores ou nas tribunas de S. Bento, no Chiado, no Martinho, no
+ Gremio. Como trabalha? Trabalha d'este modo: <i>informando-se</i>;&mdash;é o termo
+ technico. Uma vez informado, o jornalista considera-se instruido. Desde
+ que tem a informação recebida tem o jornal feito. O que elle vos escreve
+ hoje&mdash;notae-o bem&mdash;é o que vós lhes dissestes hontem. O jornal não é uma
+ fonte de critica, de analyse, de investigação. O jornal é o barril de
+ transporte das idéas em circulação, das soluções previamente recebidas e
+ approvadas pelo consenso publico. O jornalista é o aguadeiro submisso e
+ fiel da opinião. Não a dirige, não a corrige, não a modifica, não a
+ tempera. O unico serviço que lhe faz é este: transporta-a dos centros
+ publicos aos domicilios particulares. O publico é a nascente, é o veio,
+ é o manancial; a imprensa periodica é simplesmente&mdash;o cano.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Essa é a lei geral da conducta da publicidade em Portugal. Toda a
+ transgressão d'essa lei é um eminente perigo para o que a commette. O
+ leitor portuguez não quer que o seu livro ou o seu periodico o obriguem
+ ás fadigas da discussão e da controversia com o seu proprio espirito. A
+ conquista desinteressada e pura da verdade não tem attractivo algum para
+ as suas faculdades. As curiosidades e os interesses especiaes da alma
+ portugueza repastam-se no sentimento: a reflexão molesta-a. Entre tantos
+ escriptores nacionaes nunca houve um pensador. Descartes, Spinosa, Kant
+ seriam inteiramente impossiveis no seio d'esta sociedade, a que falta a
+ respiração logo que a tirem da rotina. Não se lhes dá, aos leitores
+ portuguezes, de verem a verdade, mas querem a verdade atravez da
+ opinião. Ninguem pensa fóra das materias da ordem do dia. «Que ha de
+ novo?» é a nossa pergunta de todas as manhãs. Esta phrase profundamente
+ caracteristica quer dizer: «Dêem-me a senha e a contrasenha; digam-me em
+ que pensam para eu saber o que hei do pensar.» O meu jornal vem bom ou
+ vem mau segundo é ou não é em cada dia a expressão das minhas convicções
+ baseadas em ideas preconcebidas na convivencia do publico. O criterio é
+ substituido pelo <i>mot d'ordre</i>.
+</p>
+<p>
+ Se n'um tal meio intellectual apparece um miseravel solitario, que não
+ tem um partido, que não tem um centro, que não tem um <i>club</i>, que não
+ tem sequer um botequim, mas que, não obstante, segue os successos do seu
+ tempo e exprime a respeito d'elles uma opinião absolutamente individual,
+ isto é&mdash;livre, sobre esse homem cáem todas as suspeitas, todas as
+ presumpções malevolas que acompanham atravez de uma multidão apalavrada
+ um intruso mysterioso e sinistro. Tal é a especie de acolhimento que por
+ differentes vezes nos tem sido feito e que mais particularmente nos foi
+ manifestado depois da publicação do nosso ultimo numero a proposito de
+ dois artigos, um consagrado ao sr. Alexandre Herculano, outro destinado
+ á casa de correcção installada no convento das Monicas.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Lemos alguns dos artigos que nos foram consagrados, e achamo-nos
+ inteiramente edificados ácerca do nosso desacato ás instituições
+ publicas e da nossa irreverencia com as glorias nacionaes.
+</p>
+<p>
+ Sómente, meus senhores, uma coisa nos parece ter-vos esquecido, e é:
+ demonstrar-nos que a reverencia das instituições e o respeito das
+ celebridades gloriosas seja um instrumento de critica ou um meio de
+ analyse. Porque nós&mdash;talvez o não tenhaes comprehendido bem&mdash;nós não
+ somos propriamente os mestres de ceremonias da geração a que
+ pertencemos. Não estamos aqui a leccionar mesuras nem a praticar
+ experiencias sobre a variedade das curvas mais ou menos inclinadas a que
+ se nos presta o espinhaço. Nós somos apenas uns simples chronistas do
+ tempo que vamos atravessando. Somos os contribuintes especiaes do mez
+ para a historia geral do seculo. Ora não será pondo-nos humildemente de
+ cocoras no chão que nós veremos de mais alto as coisas e os homens. No
+ exame e na apreciação dos factos o minimo vislumbre do respeito é um
+ perigo da verdade. Michelet, demolindo no seu ultimo livro a legenda
+ napoleonica filha da reverencia da historia pelo falso heroismo de
+ Bonaparte, mostra-nos que a fascinação grosseira produzida pelo «heroe
+ de Marengo e de Austerlitz» teria cahido perante o bom senso e perante a
+ gargalhada, se a França não tivesse perdido, depois do Terror, o riso, a
+ sua grande arma contra os tyrannos.
+</p>
+<p>
+ O primeiro dever da critica diante dos grandes acontecimentos e dos
+ grandes personagens é simplesmente o despreso ou a zombaria ... Michelet
+ diz mesmo «o sacrilegio» como instrumento da verdade! e aconselha-nos
+ que imitemos como historiadores o exemplo de Renaud de Montauband
+ pegando n'um tição para barbear Carlos Magno.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ De resto, meus senhores, para que se mantenham na decencia do culto as
+ tradições patrioticas, parece-nos inutil que nós nos occupemos d'isso.
+ Lá estaes vós, diligentes e sollitos, para espanardes as teias da aranha
+ aos velhos principios, para varrerdes as instituições veneraveis, e para
+ conservardes em bom estado os heroes e os sabios, limpando-lhes as golas
+ das sobrecasacas, engraxando-lhes os sapatos e pondo-lhes rapé novo no
+ nariz.
+</p>
+<hr id="mexil"/>
+<p>
+ Chegámos tarde para fallar da grande tragedia monumentosa do
+ Mexilhoeiro. O paiz inteiro se pronunciou já sobre este caso, o maior da
+ historia contemporanea. O facto tem sido largamente tratado em artigos
+ de jornaes, em folhetins, em trechos de romance, em pias legendas, em
+ dramas, em <i>te-deuns</i> cantados em todas as cathedraes, em polkas
+ expressivas, em missas rezadas em todas as egrejas, em felicitações de
+ todos os municipios, em sentimentaes mazurkas.
+</p>
+<p>
+ Uma só coisa nos parece que falta, e é a que propomos: um monumento que
+ eternise tão alto successo, levando ás gerações vindouras esta lapide:
+</p>
+<div class="centered">
+<p>AOS MOLHADOS</p>
+<p>POR UMA FRIA TARDE</p>
+<p>NO PEGO DO MEXILHOEIRO</p>
+<p>A GLORIA</p>
+<p>RECONHECE N'ESTE MONUMENTO</p>
+<p>OS IRREFRAGAVEIS DIREITOS</p>
+<p>DE TÃO ILLUSTRES VICTIMAS</p>
+<p>Á</p>
+<p>CONSTIPAÇÃO</p>
+</div>
+<hr />
+<h2>
+ INDEX
+</h2>
+<div class="centered">
+<p><b>Dos volumes d'esta chronica</b></p>
+<p>PUBLICADOS ATÉ HOJE</p>
+</div>
+<pre>
+ I&mdash;Maio................... 1871
+
+ II&mdash;Junho.................. »
+
+ III&mdash;Julho.................. »
+
+ IV&mdash;Agosto................. »
+
+ V&mdash;Setembro............... »
+
+ VI&mdash;Outubro................ »
+
+ VII&mdash;Novembro............... »
+
+ VIII&mdash;Dezembro............... »
+
+ IX&mdash;Janeiro................ 1872
+
+ X&mdash;Fevereiro.............. »
+
+ XI&mdash;Março.................. »
+
+ XII&mdash;Abril.................. »
+
+ XIII&mdash;Junho a julho.......... »
+
+ XIV&mdash;Julho a agosto......... »
+
+ XV&mdash;Setembro a outubro..... »
+
+ XVI&mdash;Novembro............... »
+
+ XVII&mdash;Dezembro............... »
+
+XVIII&mdash;Janeiro a fevereiro.... 1873
+
+ XIX&mdash;Março a abril.......... »
+
+ XX&mdash;Outubro a novembro..... »
+</pre>
+
+<p>
+<b>Nota.</b> D'hora ávante cada um dos volumes d'esta publicação será marcado
+com o correspondente numero.
+</p>
+
+<div>*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 14622 ***</div>
+</body>
+</html>
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+metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be
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+the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org.
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+The Project Gutenberg EBook of As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das
+Letras e dos Costumes, by Ramalho Ortigo and Ea de Queiroz
+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
+
+
+Title: As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes
+ Outubro a Novembro de 1873
+
+Author: Ramalho Ortigo and Ea de Queiroz
+
+Release Date: January 6, 2005 [EBook #14622]
+
+Language: Portuguese
+
+Character set encoding: ISO-8859-1
+
+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS ***
+
+
+
+
+Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed
+Proofreading Team. This file was produced from images generously
+made available by the Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal.
+
+
+
+
+
+[Illustration: AS FARPAS. R. ORTIGO. EA DE QUEIROZ]
+
+RAMALHO ORTIGO--EA DE QUEIROZ
+
+AS FARPAS
+
+CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES
+
+3. ANNO
+
+Outubro a Novembro de 1873
+
+VOLUME XX
+
+
+
+
+Ironia, verdadeira liberdade! s tu que me livras da ambio do poder,
+da escravido dos partidos, da venerao da rotina, do pedantismo das
+sciencias, da admirao das grandes personagens, das mystificaes da
+politica, do fanatismo dos reformadores, da superstio d'este grande
+universo, e da adorao de mim mesmo.
+
+P.J. Proudhon.
+
+
+
+
+SUMMARIO
+
+Regresso. Explicaes--Historia de uns ps--Modos de morrer. Os
+Lovelaces do sepulchro. Os descamisados da cova--Epistola aos catholicos
+do Porto. A associao catholica, seus fins, seus meios, sua
+organisao, seu programma. O catholicismo. A egreja refugio da
+liberdade. As propagandas catholicas em Frana e na Italia. Manzoni,
+Rosmini, Balbo, Chateaubriand, Lamartine, o sr. conde de Samodes. Os
+padres portuguezes. O liberal, o reaccionario, o indifferente. O
+confissionario. As academias da rua da Picaria. A mulher christ. O
+partido liberal portuense e a infallibilidade do papa. O protestantismo
+do sr. Bismark. O seculo XVI. Theoria do scepticismo. A duvida na
+politica, na sciencia, na religio. A tolerancia--Festa veneziana nas
+aguas de Caparica--O aio de sua alteza. O que o aio? O perfil do sr.
+Martens Ferro. A corte, a mocidade, a aventura, os taes encarnados,
+as espadas dos paladinos. Semiramis, Cleopatra, Penelope e outras. A
+regencia. O beijo de Maria Laczinska. A bengala de Constancia de
+Arbes--As senhoras hispanholas e os faqueiros--O santo padre, o
+imperador Guilherme, o martyrio e as pastilhas de Voltaire. O conde de
+Chambord e o constitucionalismo. Saul, Pepino, Henrique IV. Historia
+philosophica dos pontaps nas monarchias modernas--Perfil do sr. D.
+Miguel de Bragana e influencia politica d'este rei, o seu typo
+physionomico, o seu temperamento, a sua popularidade. De como se
+fabricou o partido liberal portuguez. O Joo Sedvem, o Jos da Policia,
+o Telles Jordo e a ida nova. De como o actual principe D. Miguel
+anemico--O jornalismo, as idas, os aguadeiros da opinio publica--O
+drama do Mexilhoeiro--A falta do elemento feminino nos banquetes
+patrioticos.
+
+Leitor querido--Depois de uma longa absteno de tres mezes--os mezes do
+vero--_As Farpas_ voltam a apparecer no teu banquete ao mesmo tempo a
+que recomeam a servir-se tambem as ostras.
+
+ similhana dos mariscos, qu no bom comerem-se nos mezes que no
+teem r, estas paginas condimentosas e estimulantes, se abusasses d'ellas
+no tempo quente, amigo, far-te-hian, talvez, furunculos.
+
+ * * * * *
+
+Alm de que, o vero tem influencias de expansibilidade que
+desconcentram a vida da esphera das suas condies normaes. a epoca
+das viagens, dos banhos, das estaes do campo. Abandona cada um o
+interior da sua casa, os seus habitos, as suas occupaes, a sua
+hygiene, o seu trabalho. Frma-se uma existencia interina, transitoria,
+supplementar. Est-se em uma casa alugada por dois mezes como hospede de
+uma noite n'uma estalagem. No se reside; pernoita-se apenas, e
+passam-se os dias. Com a supenso do trabalho esterilisam-se tambem as
+idas, porque todo o trabalho uma fecundao da intelligencia. Assim
+todo o ser humano temporariamente transplantado da parte de solo, de
+atmosphera moral, em que ordinariamente exerce a sua actividade,
+emurchece. O portuguez, que sempre l pouco, no vero ento no l nada.
+Achei-me por muitas vezes durante a estao finda a bordo dos pequenos
+vapores que fazem o transporte dos banhistas entre Lisboa e as praias.
+Os setenta minutos d'estas breves viagens eram o tempo consagrado por
+cada um para, por meio da leitura, pr as suas idas em relao com os
+interesses intellectuaes e moraes do resto do mundo. Fra do convez dos
+vapores de Belem ninguem nas praias l, ninguem tem comsigo um livro.
+Isto no uma simples hypothese, uma observao positiva. Em
+Pedroios, por exemplo, a vida--toda de porta da rua-- transparente:
+v-se o que cada um faz, quasi que tambem se v todo quanto cada um
+sente e quanto cada um pensa. Pois bem, nas viagens dos vapores de
+Belem, unico lapso de tempo destinado pelos banhistas ao estudo,
+observmos durante o periodo de tres mezes consecutivos que ninguem lia
+seno almanachs, colleces de cantigas ou de charadas, e os periodicos
+de noticias. Que elementos para, a educao intellectual de alguns
+milhares de cabeas: darem mergulhos no Tejo, aprenderem nos livros que
+nasceu o dente do sizo ao sr. Alexandre Herculano, e saberem pelos
+jornaes que o sr. commendador Santos foi Outra Banda em partida da
+recreio, com os seus amigos, comer um safio!
+
+ * * * * *
+
+No foram essas porm as rases porque _As Farpas_ se callaram durante a
+estao calmosa. Os nossos motivos so inteiramente pessoaes. Ns
+adoecemos ... Perda, leitor benevolo, estas perigosas tendencias de um
+convalescente para a autobiographia. No, no foi um dente novo que nos
+esteve crescendo. Ns no temos, como o immortal historiador a que acima
+nos referimos, a honra de abrir estas linhas offerecendo patria e
+sr. D. Guiomar Torrezo mais um novo instrumento gloriosamente
+recemnascido para a trincadeira nacional.
+
+O nosso mal, foi simplesmente uma affeco na larynge. Apanhmos isto
+no Chiado. Tivemos na mucose da garganta as mesmas granulaes que
+padecem os beduinos na mucose das palpebras por effeito do p nas
+peregrinaes do deserto. O Chiado pagou-nos o pessimo gosto burguez,
+especieiro, indigno, abominavel, de o frequentar, dando-nos esta doena
+climaterica e local. Os hospitaes de S. Jos e do Desterro do as
+desyntherias e as gangrenas; os tanques do Passeio do Rocio do as
+febres paludosas e intermittentes; o Limoeiro e a Casa de deteno das
+Monicas do as viciaes do sangue e as escrophulas; o Chiado e o
+deserto da Arabia do as affeces granulosas da larynge e dos olhos.
+Cada um d o que tem.
+
+A poeira do Chiado uma especialidade curiosa, interessante, to
+romanesca como a sombra da mancenilha. Esta poeira fina, miuda, subtil
+como a _veloutine_ de Lubin. Ligeiramente tocada pela aza morna do vento
+leste, ensinua-se, entranha-se, penetra docemente, consoladoramente,
+profundamente--como a calumnia. Depois, uma vez inoculada, produz as
+ophtalmias e as esquinencias--as duas maiores enfermidades de Lisboa.
+No simplesmente formada pelas trituraes da terra esta poeira. No,
+porque o solo em Lisboa no de terra. Aqui a terra tem sido de tal
+maneira misturada, falsificada, fingida, que, hoje, aquillo que
+primitivamente era a terra j no tem terra nenhuma. O solo de Lisboa
+formado de sobreposies de estercos, de amalgamas de lixo, de restos
+pulverisados de fructas podres, de ces mortos e de papeis sujos.
+
+De todas estas misturas requeimadas pelo vero, carbonisadas pelo sol
+canicular, moidas sob as rodas dos trens e sob os ps pressurosos do sr.
+conselheiro Arrobas, resulta o p envenenado da capital. Os papeis
+velhos de Lisboa, dejeces burocraticas ou litterarias dos bancos, dos
+cartorios, dos tribunaes, dos escriptorios dos negociantes, dos
+jornalistas, dos advogados, dos tabellies e do sr. Melicio, so de tal
+maneira abundantes que todos os esgotos da cidade no bastam para os
+engulir. A brisa espalha esses papeis dilacerados pelas povoaes
+suburbanas. A praia de Belem uberrima de papeis sujos, e Pedrouos, a
+manso burgueza das villegiaturas officiaes, parece-se no aspecto
+especial das suas immundicies com um corredor da secretaria das Obras
+Publicas destinado a projecto de nitreira modelo pelos disvellos
+agronomicos do sr. Rodrigo de Moraes Soares.
+
+De modo que a antiga expresso _terra da patria_, com referencia a
+Lisboa e seus suburbios, figura de rhetorica em demasia arrojada. A
+patria do lisboeta no tem terra, tem os agglomerados residuos das
+podrides e dos papeis velhos. O nauta vigilante, que do alto mar
+descobre no azul o ponto escuro e indeciso d'estas praias, proceder com
+louvavel exactido e amor da verdade se em vez do grito poetico de
+_terra! terra!_ comear a exclamar vista de Lisboa: Supedaneo de
+Melicio!--ou--Nitreira de Soares!
+
+Victima ns mesmo em todo o nosso apparelho respiratorio d'essas
+influencias deleterias da geologia e da civilisao lisbonense, achamos
+prudente substituir--como fizemos--a convivencia do publico pela do
+gargarejo.
+
+ * * * * *
+
+No theatro de D. Maria, o drama--_Idiota_.
+
+Suppoz-se pelos annuncios que _Idiota_ seria uma pea sem nome do
+auctor. Equivoco. Era um nome do auctor sem pea.
+
+No theatro de S. Carlos exhibio extraordinaria dos ps do sr.
+Barberat. A primeira vez que este cantor appareceu em scena os
+violinistas da orchestra suppozeram que elle se lhes tinha calado--nas
+caixas das rebecas.
+
+Quando no dia da chegada elle poz porta as suas botinas para engraxar,
+os creados do hotel cuidaram que elle rescindira a escriptura e se
+retirava, por se lhes figurar que o sr. Barberat tinha j no corredor as
+malas.
+
+Em algumas alfandegas os guardas do fisco, desconfiados d'elle, teem-lhe
+pedido as chaves dos ps!
+
+Nunca at hoje poderam dormir juntos os ps e elle. Emquanto elle est
+deitado de costas, os seus ps esto erguidos, ao fundo do leito,
+embuados em capas, contemplando-o, firmes e silenciosos. Pela manh os
+ps esto mortos de somno e de fadiga, e para que elles se deitem um
+momento, elle ento, compadecido--levanta-se.
+
+Ou por que elle os no queira desasocegar de dia, lembrando-se de que
+teem de estar a p de noite, ou porque elles mesmos se recusem
+obstinadamente a uma evoluo a que debalde os teem querido algumas
+vezes violentar, o artista desistiu absolutamente de vestir as calas
+pelos ps e comeou a vestil-as, como a camisa,--pela cabea. Antes de
+chegar a esta prudente soluo, o cantor, para conseguir vestir-se, era
+obrigado todas as manhs ou a descoser as calas, ou a desmanchar os
+ps.
+
+Uma das coisas que mais vivamente picou a curiosidade do publico nas
+primeiras vezes em que este artista se mostrou em S. Carlos foi saber
+como elle poderia cantar n'um theatro pequeno para que podesse estar
+mais alguma coisa em scena alm d'elle com os ps. O empresario acaba de
+confiar-nos a explicao d'esse segredo, que elle nos permitte enviar
+d'aqui como uma dadiva sua justa anciedade das platas. Mesmo porque o
+empresario attribue, com bastantes probabilidades de acerto, a esta
+preocupao do publico perante os ps phenomenaes do baixo a frieza
+desdenhosa com que nas primeiras noites se escutou o canto to vivamente
+sentido, to profundo e to genial da Galetti.
+
+Pois bem, meus senhores, no pensem mais n'isso. Querem saber como elle
+cantava nos pequenos palcos?...
+
+Do mesmo modo que cantam os gallos--n'um p s.
+
+ * * * * *
+
+ praia da Torre em Belem foi hontem arrojado pela mar o cadaver de um
+homem afogado Era ainda novo, robusto e forte. Estava vestido de panno
+azul. A jaqueta e o collete que vestia tinham botes de metal doirado
+com uma ancora em relevo. Na manga estava presa uma cora tambem de
+metal. Tinha na algibeira um relogio e algumas moedas de prata
+portuguezas e brazileiras. As auctoridades da policia e da saude vieram
+ praia e olharam para o cadaver, como a lei manda. Depois do que,
+officialmente averiguado que estava ali effectivamente o cadaver de um
+afogado, pegaram nelle, atiraram-o ao fundo de uma cova aberta pressa
+na praia, e cobriram-o com alguns metros de areia.
+
+Bem feita coisa!
+
+ * * * * *
+
+Nem toda a gente vae para a sepultura com esta simplicidade de
+apparatos, a que podemos chamar o _enterro incivil_. Mas todos os ces
+se enterram por este modo, e no por isso menos repousado o seu eterno
+somno. Alm de que, preciso que cada um se apresente na eternidade em
+condies que no desdigam da gerarchia em que viveu e do conceito em
+que o teve a sociedade e a opinio publica. Pretender o contrario
+querer lograr a divina justia sujeitando-a a illudir-se com o aspecto
+exterior dos mortos e a acolher com os mesmos cumprimentos na crte do
+ceu o primeiro aguadeiro que chegue assim como o mais digno e
+respeitavel ministro de estado ou general de diviso que se
+apresente,--o que seria certamente para Deus um desgosto profundo. Logo:
+que cada qual morra como o que e v para o outro mundo como o que foi,
+para no pr em equvocos a celestial etiqueta!
+
+ * * * * *
+
+ um senhor conselheiro a pessoa que morre, na sua cama, victima da sua
+gotta? Vestem-se-lhe as suas calas de presilhas e galo de oiro, e a
+sua farda bordada; prega-se-lhe no peito a constellao das suas placas
+de diamantes, faz-se-lhe a barba, retinge-se-lhe o cabello, pe-se-lhe
+ao lado o espadim e as luvas brancas, o chapeu armado sobre o ventre e
+um pouco de carmim nas faces. E eil-o ahi est em toda a plenitude e em
+toda a magestade dos seus meios physicos e da sua importancia social. As
+pallidas Julietas dos sepulchros e as immodestas Rigolboches da tabida
+podrido e dos gulosos vermes do _chic_, que se acautelem d'esse magano
+de bom gosto!
+
+Elle poderoso: deixou na terra muitos necrologios e muitas missas, e
+vae optimamente recommendado pelo alto clero especial proteco do
+Padre Eterno.
+
+ * * * * *
+
+O que morre pelo contrario um destes infimos e asquerosos animaes, de
+jaqueta de panno azul com botes de ancora, que andam a bordo dos navios
+sobre a agua do mar? Uma onda envolve-o no tombadilho e arroja-o ao
+abysmo inclemente? Suspende-se ento por dois ou tres minutos a marcha
+da embarcao--um slido paquete talvez, luxuoso, commodo, de uma forte
+companhia, em que tudo est seguro para os riscos da navegao, tudo
+menos a gente,--lana-se uma boia de salvao, arreia-se uma lancha com
+quatro homens, e alguns _gentlemen_ que sobem tolda, tiram dos estojos
+de couro de Varsovia que trazem ao tiracollo os seus binoculos e
+assestam-os sobre o elemento. Apesar porm d'estas delicadas attenes,
+o bruto desagradecido desapparece. Dois ou tres dias depois, a mar, com
+nojo, cospe-o praia da Torre juntamente com outras immundicies.
+
+Que queres tu d'aqui, meu estupido? Isto no nenhuma selvagem ilha
+deserta e encantada, querida dos luares transcendentes de que fallam
+phantasia as musicas de Bethowen e os versos do Ileine, e em que se
+figuram, sob uma luz de esmeralda, os bailados da opera.
+
+Aqui no ha os profundos paraizos aquaticos habitados pelas ondinas e
+pelas sereias de beijos deliciosos e gelados. No ha os duendes das
+phantasticas florestas que te suspendam, sob o luar impregnado de
+calidos aromas e de nocturnas harmonias, nos beros aereos das magnolias
+e dos lilazes em flor, nem beneficas deidades transparentes que te
+cinjam nos seus doces braos e te levem n'uma festa nupcial para os seus
+leitos de algas, de coral e de perolas, no fundo dos dormentes lagos,
+sob as folhas dos nenufares.
+
+No, isto aqui uma praia decente e grave onde os senhores oficiaes de
+secretaria o os senhores desembargadores veem durante a villegiatura
+sentar-se pela fresquido das tardes, com suas mulheres, contemplando
+austeros e recolhidos as babugens da vasante e o fronteiro panorama, to
+magestoso e solemne, da Fonte da Pipa. d'esta praia que o senhor
+commendador Santos e o senhor commendador Firmo e o senhor commendador
+Eloy teem partido em fina companhia de virtuosas damas, com honestas
+guitarras e casto peixe frito, a bordejar no Tejo. aqui que a illustre
+e veneravel burguesia de Lisboa faz as suas estaes balneatorias.
+n'estas aguas que ella annualmente refresca e desemporcalha a sua gorda
+carne. aqui que o mesmo poder moderador tem vindo, por vezes, com sua
+augusta e elegante consorte demolhar no argento o excelso e inviolavel
+systema nervoso da monarchia e da constituio.
+
+Portanto, immundo, tu que morreste afogado no oceano e te deixaste
+rolar para a praia da Torre, impertinente como o esqueleto de um goso
+morto de fome na Trafaria, tu, imbecil, se querias mais alguma
+considerao, mais algum respeito com os teus restos, fosses cahir a
+outra parte.
+
+Trazias algum dinheiro na algibeira, o sufficiente para te pagares o
+luxo de um padre e de uma cova, mas, realmente tu no tinhas aspecto de
+mereceres a pena de que alguem se occupasse por um minuto comtigo.
+
+Animal! se querias ser enterrado com respeito e commoo, se querias ter
+artigos nos jornaes e padres a cantarem-te o _De profundis_, porque foi
+que em vez de te afogares de jaqueta, te no afogaste com uma farda de
+almirante, ou de casaca preta e gr cruz dentro de um _coup_ da
+companhia?!
+
+Deixaste por acaso na terra uma velha me desamparada, uma esposa
+lacrimosa, uma filha orph, uma familia, a que seria doce ajoelhar sobre
+a tua sepultara ou plantar algumas flores sobre a terra que te cobrisse?
+Querias permittir-lhes essa extrema consolao? Deixasses-te ficar no
+Chiado ou no Terreiro do Pao, tornasses-te um dos elementos
+constituitivos da civilisao lisbonense, fizesses-te moo de recados,
+agiota ou empregado publico. Vive-se assim na corrupo, na usura, na
+humilhao ou na miseria, mas enfim morre-se bem, barato--e muito!
+
+ * * * * *
+
+O _Jornal da Noite_ publica uma conta de despeza feita pelo presidente
+da republica dos Estados Unidos, Abraho Lincoln, em um hotel de Albany.
+O illustre democrata e as pessoas do seu sequito pagaram a somma de um
+conto e alguns mil ris por uma hospedagem de menos de vinte e quatro
+horas.
+
+Este facto argumenta vivamente contra a opinio dos que acham as
+republicas mais baratas para os povos do que as monarchias.
+
+Effectivamente vemos que, ao passo que o presidente da republica da
+America do Norte faz um conto de ris de despeza em algumas horas em
+Albany e paga essa despeza, sua magestade o imperador da America do Sul
+dispende no Porto mil libras em quatro dias, e no as paga.
+
+ indubitavel pois que as monarchias so incomparavelmente mais baratas
+do que as republicas.
+
+Deve-se porm observar que, sob este ponto de vista, o descredito das
+democracias prodigas procede principalmente das estalagens exigentes.
+Porque est provado que sempre que um republicano em viagem pretende
+gastar to pouco como um rei economico, os estalajadeiros fazem ao
+republicano o seguinte: sequestram-lhe a bagagem.
+
+ * * * * *
+
+Parece-nos arriscado estabelecer entre os principes e os povos esta
+perigosa competencia de quem ha de pagar menos em viagem. Pois que,
+realmente, desde que as testas coroadas chegaram ao ideal de se
+apoderarem das contas e no pagarem nada, os povos s podero desbancar
+os reis se, no pagando egualmente nada, comearem a estabelecer este
+uso: depois de se apoderarem das contas, apoderarem-se egualmente--das
+pratas.
+
+ * * * * *
+
+_Primeira aos membros da Associao Catholica no Porto_
+
+Meus senhores e minhas senhoras.--Em nome da Nosso Senhor Jesus Christo
+e da Santa Madre Egreja Catholica Apostolica Romana, eu vos sado e vos
+desejo a divina graa. Como tenho obrigao de vos suppr--taes como o
+dizeis--sinceros e dedicados servos de Deus, devotados a cumprir a sua
+lei e a divulgar a sua doutrina, mais vos desejo que nunca vos persigam
+os bens e as riquezas temporaes de que certamente vos despojastes para
+seguir a Jesus. Eu sei que o divino mestre, antes de mandar aos
+apostolos que o acompanhassem, lhes ordenou que deixassem as redes,
+fazendo-nos sentir por esta frma que ninguem pde estar com Deus
+estando ao mesmo tempo com o mundo, e que para ter os bens do co a
+condio essencial--abandonar os da terra. Primeiro: _deixae as redes_;
+depois: _vinde commigo_.
+
+Amados irmos, presumindo-vos pobres, desvalidos, tendo previamente dado
+o vosso po aos que tinham fome e os vossos vestidos aos que tinham
+frio, eu desejo ainda sobre a vossa nudez a mortificao da vossa carne,
+a santa mortificao que raspa a vaidade e o orgulho e limpa o
+entendimento e a alma das lepras mundanaes.
+
+Que a graa de Nosso Senhor vos assista e que nada mais do que
+temporal se vos pegue, porque n'este mundo tudo esterco: _Omnia ut
+stercora_, como muito bem disse S. Paulo!
+
+Se vos no poderdes furtar aos contactos impuros do seculo, permitta o
+ceo que em todas as vossas relaes com a sociedade todas as invectivas
+e todas as malquerenas pharisaicas vos punjam e vos espicassem o
+corao, assim como os chacaes famintos furam e rasgam no deserto as
+tendas dos piedosos peregrinos. Porque--bem o sabeis--s com as
+inimisades do mundo podereis merecer e lograr a amisade de
+Deus:_amicitia hujus mundi inimica est Dei_.
+
+Finalmente, meus senhores e minhas senhoras, resumindo os meus votos
+pelo molde mais consentaneo com as vossas aspiraes, que o Senhor vos
+veja eternamente no ceu e vos aplane o caminho da promisso, tendo-vos
+tanto de sua mo que nunca sobre vs deixem de chover as dores e as
+ruinas, por isso que, como diz o psalmista, ser pela somma das vossas
+penas contingentes, transitorias e mundanaes, que sero medidas as
+vossas alegras celestiaes e eternas!--_Secundum multitudinem dolorum
+meorum in corde meo, consolationes tuae laectificaverunt animam meam._
+
+ * * * * *
+
+Permitt-me agora que, antes de entrar em algumas breves consideraes
+que a natureza do vosso instituto me suggere, eu me detenha um momento
+na simples contemplao do nome que lhe puzestes.
+
+Que razes poderiam levar-vos, beatissimos senhores, a denominardes
+_catholica_ a associao que fundastes, ahi no Porto, em certa casa da
+rua da Picaria? Que significa uma associao chamada _catholica_ no meio
+de uma sociedade egualmente catholica? Quem que no _catholico_ em
+Portugal? No temos ns todos a mesma religio, que no uma religio
+especial da rua da Picaria, mas sim a bem conhecida religio do paiz, a
+religio do estado, a religio famosa da carta? Ignoraes por acaso que
+nenhuma associao pde ser em Portugal seno isso--_catholica_?
+Ignoraes que no temos a liberdade dos cultos, a divergencia de
+religies?...
+
+Ora, no havendo o mosaismo aqui no Chiado, no existindo o pantheismo
+no Rocio, nem o lutheranismo no Terreiro do Pao, nem o fetichismo no
+Arco do Bandeira, o que vem a ser um catholicismo da rua da Picaria na
+cidade do Porto? Ter cahido o Porto porventura no paganismo idolatra?
+Estar elle sacrificando a Jupiter a sua rica vacca cosida? Tel-o-hiam
+levado os seus representantes, os seus philosophos, os srs. Faria
+Guimares e Pinto Bessa, s vertiginosas regies do livre exame, onde o
+espirito humano, abatido, fatigado, morde na solido o fructo amargo da
+sciencia?...
+
+No. Eu visitei o Porto ha pouco tempo. Cheguei ahi no dia 24 de junho.
+A cidade tinha o aspecto mais jubiloso e festival. Erguiam-se arcos
+triumphaes nas embocaduras das ruas, palpitavam virao matutina
+bandeiras desfraldadas nas janellas das casas. Na rua de S. Joo os
+habitantes, de camisa lavada e barba feita, passavam com bandejas cheias
+de lanternas para luminarias, outros espetavam no cho mastros
+embandeirados; iam, vinham, fallavam alto, tinham gestos abundantes e
+felizes. As egrejas por onde passei estavam cheias at porta de fieis
+que ouviam as primeiras missas. Os sinos repicavam em todas as torres, e
+os foguetes furavam o limpido azul da manh.
+
+O Porto, onde n'esse dia devia celebrar-se um grande _meeting_ liberal,
+comeava no emtanto--por festejar o S. Joo!
+
+Portanto, meus senhores, se vs vos denominaes catholicos, no porque
+supponhaes que os outros o no so; porque vos parece que o sabeis ser
+melhor do que os outros, e pretendeis que vos considerem como unicos
+catholicos perfeitos, catholicos affianados, catholicos garantidos.
+
+Se isto o que quereis dizer-nos com o titulo escolhido para a
+vossa associao, e no podeis querer dizer outra coisa,
+ento--meditae-o--achaes-vos em peccado mortal de soberba, de jactancia,
+de presumpo de merecimentos.
+
+Localisando por esse modo a religio na rua da Picaria, vs lanaes
+tacitamente a suspeita de impiedade nas demais ruas da cidade da Virgem.
+
+Pois bem, que a Picaria o saiba: a viella do Ferraz tambem vae missa,
+e Deus sabe se jejua ou no, s sextas-feiras, a Ferraria de Cima!
+
+ * * * * *
+
+Advirtamos agora como a associao catholica tem correspondido pela
+importancia dos seus actos audaciosa escolha do seu titulo.
+
+At o momento em que vs vos apoderastes do catholicismo para vos
+fechardes com elle na rua da Picaria, cabia ao catholicismo a gloria de
+ter inspirado as maiores obras produzidas pelo espirito humano.
+
+Foi esse pobre catholicismo, ainda ento desprotegido do valioso
+patrocinio que n'este seculo lhe devia conceder a vossa associao, meus
+illustres senhores e minhas preclaras senhoras, foi elle, ainda
+desalbergado da rua da Picaria, o que na edade media fez brotar da
+imaginao dos povos o que ha mais bello nas artes, os maravilhosos
+poemas, as ternas legendas melancolicas, as portentosas cathedraes. Foi
+elle que levou Pedro Eremita e Godofredo de Bulhes a descerem o valle
+do Danubio e a seguirem o caminho de Attila. Foi elle que inspirou Tasso
+e Dante. Foi elle que produziu S. Thomaz, o _boi mudo de Sicilia_, o
+Aristoteles do christianismo--como lhe chamou Michelet--, o mais
+poderoso cerebro da egreja. Foi elle que creou em Hispanha desde o
+seculo XVI at o seculo XVII no meio da maior escravido e do maior
+fanatismo, o mais brilhante grupo de artistas que tem visto o mundo:
+Velasquez, Murillo, Herrera, Zurbaran, Lope de Vega, Calderon,
+Cervantes, Tirso de Molina, Luiz de Leon. O profundo mysticismo de
+Quixote um reflexo do poder da f em todos esses espiritos. Calderon
+era official do santo officio e Lope de Vega desmaiava em extase ao
+dizer missa. O catholicismo inaugurou ainda a sociedade mais popular,
+mais accessivel, mais equalitaria. No meio da barreira levantada diante
+da plebe pelos privilegios do sangue, a egreja era o portico de todos
+os grandes talentos e de todas as elevadas ambies: o papa Urbano IV,
+filho de um sapateiro, edificava a egreja de Santo Urbano e expunha
+n'ella, bordado em uma rica tapessaria, o retrato de seu pae fazendo
+sapatos.
+
+Por outro lado o catholicismo deu-nos ainda a Saint-Barthelemy, a
+carnificina nacional dos christos novos, a Inquisio, a guerra dos
+trinta annos, os monges bretes que envenenaram o calix de Abeilard e os
+dominicanos de Buon Convento que assassinaram Henrique VII, fazendo-lhe
+commungar o veneno na hostia consagrada.
+
+Protegido por vs, meus senhores, tutelado pela vossa sociedade
+propagandista da rua da Picaria, o catholicismo portuense tem-nos dado
+apenas:--como carnificina, quatro pranchadas nas espaduas de quatro
+patriotas porta da S; como arte, a _Palavra_, um pobre jornal piegas,
+lacrimoso e beato, com pouca elevao, com pouco enthusiasmo, com pouca
+f, e com alguns erros de grammatica.
+
+Ora realmente, meus senhores, para resultados to mediocres no valia a
+pena de vos dardes o apparato de quem funda uma agencia para a
+Bemaventurana e nos fecha o ceu--n'um armazem de commisses.
+
+Em 1849 havia na Italia uma propaganda catholica, cujos membros todavia
+no chegaram nunca a aggremiar-se e a constituir-se em sociedade como os
+cavalheiros e as damas da rua da Picaria.
+
+O chefe da propaganda italiana era um dos espiritos mais rectos e mais
+benignos, era o doce e pacifico poeta Manzoni, recentemente fallecido.
+
+_I promessi Sposi_, o celebre romance to conhecido, foi como o _Genio
+do Christianismo_, de Chateaubriand e como as odes religiosas de
+Lamartine, inspirado por essa reaco catholico-litteraria com que os
+romanticos de 1830 bateram as idas philosophicas do seculo XVIII.
+
+Manzoni porm, servindo a causa catholica como propagandista, e abrindo
+um exemplo que se tornou escola de muitos escriptores e poetas
+italianos, Manzoni, em primeiro logar, escrevia para esse fim livros
+adoraveis,--e que vs, meus queridos senhores no resolvestes ainda
+comear a fazer na vossa officina religiosa da rua da Picaria. Em
+segundo logar Manzoni considerava a ida religiosa como um elemento de
+emancipao e de regenerao para a Italia ento opprimida e
+escravisada. Finalmente Manzoni no tinha por fim especial glorificar os
+padres, arregimental-os, armal-os, pl-os em p de guerra, como o est
+fazendo a associao catholica portuense. Pelo contrario, Manzoni sabia
+que os padres italianos do seu tempo eram, como Cant os descreve tomado
+do mais santo horror: glutes, avaros, estupidos e bandidos. O perfil
+ideal do padre Borromeu nos _Promessi Sposi_ no tinha pois a inteno
+de um retrato, era o estabelecimento de um novo nivel para a opinio,
+era um exemplo, era uma lio dada pelo modo delicado e brando com que o
+desgosto profundo inspirra a alma candida e honesta do piedoso
+escriptor.
+
+Feita assim, n'estas circumstancias, n'estas condies, por estes meios,
+eu comprehendo a propaganda catholica, e inclino-me respeitosamente
+diante dos que a servirem e a promoverem. No me parece todavia que seja
+esse o caso da Associao catholica portuense, nem no que diz respeito
+aos fins que ella se prope, nem no que toca aos meios que emprega para
+conseguir o seu fim.
+
+ * * * * *
+
+Que pretende a associao catholica?
+
+Libertar a patria, chamal-a independencia, fortificando com o
+sentimento religioso a f patriotica, como fizeram Manzoni, Rosmini,
+Gioberti, Balbo e outros na Italia invadida pela dominao? No, porque
+Portugal, por emquanto independente e livre.
+
+Estabelecer a cathechese? Diffundir a moral? Regenerar os costumes? No,
+porque, no sendo publicas as sesses da associao e no tomando parte
+n'ellas seno os mesmos associados, pessoas cujos costumes e cujas
+crenas religiosas foram d'antemo affianados, estes acham-se
+satisfatoriamente moralisados e instruidos.
+
+Educar o clero, aprestando-o para uma influencia mais directa e mais
+proficua nos interesses da cidade ou nos interesses do ceu? Tambem no,
+pelas razes seguintes:
+
+Os padres portuguezes acham-se todos incluidos em uma d'estas tres
+classes:--os indifferentes, os liberaes e os reaccionarios.
+
+O padre indifferente vive obscuro e tranquillo no fundo de uma aldeia
+entre a sua lavoira e o seu campanario. Baptisa as creanas, confessa
+os adultos e absolve os que morrem. Se no forem todos para o ceu, a
+culpa no d'elle. Cartilha e bons conselhos propina-lh'os todos os
+domingos depois da missa conventual; se os no tomarem para seu bem, l
+se aviro com o demonio no outro mundo e c na terra com o regedor. De
+resto elle cava a sua horta, grande madrugador, deita-se com as
+gallinhas, diz a missa ao romper d'alva, caa a perdiz no inverno e
+pesca os barbos no vero. Alm de um bocado de breviario, no l seno
+um repertorio para estar ao facto das luas e saber quando convm
+alporcar as pereiras e semear os pepinos. Bom homem, rijo, satisfeito,
+sanguineo, infatigavel companheiro na caa e na mesa, se tentardes
+esgrimir com elle algumas idas politicas ou religiosas, algumas
+subtilezas de critica, de controversia, ter tonturas, arregalar os
+olhos, ouvr-se-lhe-ho rugidos interiores e no sentir seno um
+desejo: o de vos aular s pernas os seus ces e cascar-vos pela cabea
+com o seu grosso marmeleiro argolado.
+
+O padre liberal habita as cidades, l os periodicos, intervm em
+eleies, frequenta os botequins e as casas de jogo, fuma cigarros, e
+protesta vigorosamente contra a reaco e contra o jesuitismo, trazendo
+os dedos amarellos e tomando medicamentos secretos.
+
+O padre reaccionario anda quasi sempre de loba; tem os olhos baixos, o
+passo miudo e commedido, o sorriso contrafeito como uma coisa azeda
+misturada com assucar; gordura fria e pallida, um tanto sinistra; mos
+brancas, suadas, viscosas; ps moles, de pato, arrastando. O
+confissionario para elle uma vocao, um destino, um prazer: a sua
+arte. Algumas vezes mobila-o com certo luxo, introduz-lhe um soph e
+abastece-o de viveres: uma lata de po de l e copos com gela. ahi
+que elle escuta, de olhos meio cerrados e mos crusadas no peito, as
+confidencias secretas das mulheres, os casos encobertos s mes e aos
+maridos, os inveterados vicios escondidos e os grandes crimes occultos,
+as obras e os pensamentos, os alvoroos da carne no meio da penitencia e
+da orao, as tentaes do inimigo, os ardentes desejos diabolicos, os
+pungentes escrupulos de alcova, a grande tragedia intima dos mysticos e
+dos solitarios. Elle escuta, manda repetir, inquire, investiga, indaga,
+minucia por minucia, as circumstancias que aggravam e as circumstancias
+que attenuam; disseca o peccado, desfibra-o musculo por musculo, nervo
+por nervo, arteria por arteria; depois reconstitue-o, recompe-o,
+inteira-o, evoca-o, fal-o resurgir nos olhos da penitente--para a
+moralisar com a enormidade do erro. A culpa, assim rediviva pelos
+retoques finos, dialecticos, incisivos do stylo theologico e casuistico
+dos commentadores do Decalogo, a culpa repintada com essa arte mais
+sabia, mais poderosamente minuciosa que a de todos os modernos
+romancistas psychologos dos vicios torpes e vergonhosos, cinge outra vez
+a peccadora, colla-se estreitamente com ella como a serpente do Eden,
+envolve-a nas suas espiraes, penetra-a da sua essencia magnetica,
+communica-lhe a electricidade dos seus filtros. ento, n'esse momento
+terrivel de crise, nevralgico, histerico, allucinado, que elle critica
+friamente, com uma analyse perpendicular, dominadora, arbitra da
+commoo; e consola, aconselha, admoesta, subjuga, domina, e absolve ou
+condemna, elle, elle em nome do Creador, a fragil creatura desmaiada aos
+seus ps. O padre reaccionario faz parte da grande centralisao
+catholica, uma das rodas do grande machinismo, vive no systema de
+partido como na obediencia e na regra de um instituto. No pensa nem
+discute. O seu rumo est tomado; segue-o apezar de tudo, atravez de
+tudo, como um boi abre um rego, com os olhos tapados. Tem heranas de
+velhas devotas, avultadas esmolas de missa, frequentes presentes de
+confessadas. Vende agua de Nossa Senhora de Lourdes ou de La Salette.
+Cobra os dinheiros de S. Pedro e remette-os para Roma, assigna a
+_Nao_, e quasi sempre rico.
+
+Dos padres d'estas tres categorias quaes so aquelles que a associao
+Catholica influe, aconselha ou dirige?
+
+O padre obscuro nem mesmo sabe que tal associao existe. O padre
+liberal seu inimigo e adversario intransigente. Resta-lhe o padre
+ultramontano.
+
+Ora este ultimo padre o vo de que a associao Catholica a ave.
+Ella no o modifica, no o educa, no o adverte, no o illustra. Faz-lhe
+simplesmente isto: choca-o. Depois, quebrada a casca do sr. padre Couto,
+o sr. conde de Samodes apparece.
+
+ * * * * *
+
+A associao Catholica celebra periodicamente reunies, a que chama
+academias. Que se faz n'estas reunies frequentadas por muitas senhoras
+da primeira sociedade portuense, o que ha de mais digno, de mais
+inviolavel e de mais sagrado?
+
+Relevem-nos este ponto de interrogao, que no tem de nenhum modo a
+impertinencia de uma pergunta e deve apenas ser considerado da nossa
+parte como um simples ponto de perturbao e de pasmo.
+
+Se os homens estivessem ss comprehendemos que as reunies da associao
+Catholica fossem para elles um meio do repousarem suavemente das fadigas
+temporaes, dos enganos do mundo, das illuses e das vaidades do seculo.
+Concebemos perfeitamente que depois de terminados os seus negocios,
+assignada a sua correspondencia, pagas as suas lettras, despachadas as
+suas mercadorias, fechada a sua caixa, comido amplamente o seu jantar,
+saboreado o seu caf e o seu _kumel_, elles encerrassem o seu dia
+juntando-se todos fradescamente, sem etiqueta, sem cerimonias de
+elegancia nem de _toilette_, e que, em seguida, descalassem as botas e
+dissessem: Ora dissertemos l um bocado sobre a immortalidade da alma!
+
+
+Mas, com senhoras, com senhoras elegantes e bellas, que ho de apear-se
+das suas carruagens, depr os seus burnous no _vestiaire_ e penetrar no
+salo, sob o gaz, n'uma onda scintillante de setim e de renda, que faro
+os homens?
+
+Ho de se ter espalhado na athmosphera os perfumes da _toilette_, os
+murmurios dos vestidos, os reflexos das joias e as confusas palavras
+finas, magneticas, que susurram sob a palpitao dos leques. Suppomos
+que no ha orchestra nem piano, de modo que as pessoas devotas no
+podero dirigir-se immediatamente ao sr. padre Couto para que as faa
+valsar; no estaro patentes os ultimos telegrammas dos successos de
+Hispanha; no haver um servio de gelados trazido em bandejas de prata
+por criados de calo curto: no se ter mo um numero da
+_Illustrao_ nem um album que se folheie ...
+
+Estranha perplexidade!
+
+Tem um simples associado de abotoar as suas luvas, de adiantar um
+_fauteuil_, de se aproximar de um grupo e de lanar um assumpto pela
+seguinte frmula: Minha senhora, ser vossencia assaz boa para querer
+fazer-me a honra de me dizer se j tem interlocutor para uma breve
+dissertao sobre os novissimos do homem?
+
+Ou talvez que haja uma organisao parlamentar para a distribuio dos
+assumptos e para a ordem das discusses. E n'esse caso, reunido o
+claustro pleno, ser o sr. conde de Samodes quem abrir as sesses,
+persignando-se, tocando a sua campainha e dizendo:
+
+--Dou a palavra ao relator da commisso encarregada de dar o seu
+parecer cerca das Divinas Pessoas da Santissima Trindade. Meus senhores
+e minhas senhoras, est em discusso o Espirito Santo.
+
+ * * * * *
+
+Porque emfim, meus senhores, celebrando como catholicos as vossas
+academias religiosas, das duas coisas uma: ou vs estabeleceis a
+controversia e discutis os canones e os dogmas, ou no a estabeleceis e
+no os discutis.
+
+No primeiro caso usurpaes os poderes que s competem aos concilios,
+entregaes aos debates da razo as materias de obediencia e de f e cahis
+no racionalismo heretico.
+
+No segundo caso, reunidos em nome de Deus, vs no tendes o direito de
+fazer seno uma coisa: elevar humildemente ao ceu os vossos espiritos e
+prostrar-vos na penitencia e na orao.
+
+Mas para os exercicios da orao e da penitencia vs tendes a egreja
+para rezar e a solido no interior das vossas casas para meditar o
+arrependimento. Para similhantes effeitos congregar os fieis nos sales
+da rua da Picaria desviar dos templos a corrente natural da devoo e
+arrancar do interior da familia o saudavel recolhimento dos propositos
+bons.
+
+Eu creio profundamente que entre vs existem homens dignos, honrados, de
+uma piedade limpida, com as mais rectas intenes de espirito e de
+consciencia. Acredito mesmo que essas almas, timoratas mas boas,
+constituem a grossa maioria dos vossos consocios. Por isso vos consagro,
+passando, esta palavra sria:
+
+Nada mais funesto para os costumes do que ensinar s mulheres que ha
+instituies especiaes para o servio de Deus, para a conquista do ceu,
+para a remisso da culpa. O posto digno da mulher christ em sua casa
+ao p dos seus filhos. Os exercicios espirituaes e as contemplaes
+mysticas escurecem a alegria domestica, alvoroam a virtude, perturbam a
+consciencia. Na sociedade actual a mulher pertence, integralmente, com
+toda a responsabilidade do seu destino, misso sublime da regenerao
+do homem pela attraco do lar. Desviar sob qualquer pretexto que seja
+a atteno da mulher dos interesses da familia commetter para com a
+moral um sacrilegio. A casa conjugal tambem um templo, e a maternidade
+ uma religio.
+
+ * * * * *
+
+Meus senhores, tenho procurado tanto quanto me tem sido possivel ser
+amavel comvosco, tomando para vos observar todos os pontos de vista.
+Olho-vos como christo, olho-vos como catholico romano, olho-vos como
+cidado, olho-vos como simples espectador, como _dilettante_. De todos
+os modos vs me pareceis ou incongruentes, ou ridiculos, ou absurdos.
+
+Todavia, meus senhores, depois de to exactas observaes, eu no
+concluo que dissolvaes o vosso synodo e que vos retireis para vossas
+casas. Os senhores liberaes, que vos combatem, so egualmente
+incongruentes, egualmente absurdos e um pouco mais comicos do que vs, e
+os senhores liberaes tambem se no retiram.
+
+Elles do morras ao papa, chefe supremo da religio catholica e todavia
+continuam a dizer-se catholicos. Odeiam e guerreiam os padres e no
+emtanto continuam a entregar as suas mulheres aos confissionarios e as
+suas filhas cathechese. Insultam a theologia do vosso jornal a
+_Palavra_ mas no acceitam com elle a controversia porque no sabem
+theologia. No lhes importa o irem para o inferno, mas no querem ir
+para o Carmo. O seu atheismo leva-os a quererem esmagar o infame como
+elles mesmos dizem, mas com a clausula de no molestarem com essa
+operao os calos do sr. Bento de Freitas, governador civil, ou do sr.
+Pinto Bessa, presidente da camara. Ultimamente vs festejaveis com um
+_Te Deum_ na egreja da S o anniversario de Pio IX: estaveis
+inteiramente no vosso direito e na logica dos vossos principios. Elles,
+em vez de combaterem com uma affirmao de sciencia a vossa protestao
+de f, esperaram-vos porta da egreja, deram vivas liberdade, a
+Victor Manuel e a Garibaldi e alguns morras ao Papa infallivel. Foi com
+esta elevao de critica que analysaram o Concilio do Vaticano, consti.
+4. cap. IV _De infallibilitate romani pontificis magni_, a qual
+constituio nunca leram. A policia interveio, espancou varias pessoas,
+prendeu varias outras, e eis em resumo o que os periodicos liberaes
+chamam os conflictos da liberdade e da reaco religiosa na cidade do
+Porto!
+
+Profundas graas ao Altissimo, que no so inteiramente estas as
+circumstancias que determinaram as antigas crises do poder entre os
+burguezes do senado do Porto e os poderosos bares feudaes da S
+portuense ou do balio de Lea! Os srs. padre Rademaker e padre Couto no
+afivelaram os arnezes de ao dos antigos bispos e dos freires
+hospitalarios, no reuniram os seus sergentes e homens d'armas, no
+mandaram erguer as levadias dos seus paos acastellados nem
+desembainharam as suas espadas famosas ... No, elles apenas entoaram a
+ladainha de todos os santos, e prometteram, no excurses armadas sobre
+os rebeldes dos seus feudos, mas sim jubileus e benos telegraphicas
+aos seus adeptos.
+
+Ora no vemos realmente em que estas coisas possam atterrar a liberdade
+e sobresaltar o paiz.
+
+ singular esta coincidencia:
+
+O clero catholico tem hoje em toda a Europa o papel sympathico. Os
+unicos paizes do mundo em que ainda se gosa a liberdade religiosa so os
+paizes catholicos. Na Russia, na Allemanha, temos o despotismo e a
+perseguio protestante. O sr. de Bismark prende, processa e desterra
+os sacerdotes catholicos. No novo imperio do rei Guilherme, o
+patriotismo refora-se na religio do estado; a recente legislao
+allem submette todos os casos de disciplina ecclesiastica e todas as
+deliberaes episcopaes ao poder civil, e prohibe o clero sob as mais
+severas penas de cumprir preceitos que dimanem de qualquer auctoridade
+ecclesiastica estranha nacionalidade allem.
+
+Ferida violentamente na sua liberdade, perseguida pela fora, a egreja
+catholica--quem o diria!--appella para as garantias espirituaes e quer a
+distinco dos poderes como salvaguarda da liberdade. Na Allemanha os
+ultramontanos mais ardentes fortificam-se nos seus ultimos
+entrincheiramentos pedindo como Cavour a egreja livre no estado livre. A
+tal estado chegou desprestigiado e abatido o antigo poder clerical!...
+Elle j no quer exercer a sua velha tyrannia, contenta-se em no
+supportar a perseguio; e, como todos os martyres, pede a liberdade
+como o extremo refugio das consciencias apavoradas.
+
+Violentamente ferida no corao, perseguida pela fora, a egreja
+apresenta esse symptoma infallivel da sua suprema dr--o grito das
+garantias espirituaes, o appello em ultima instancia para a distinco
+dos poderes.
+
+Pio IX, fortificado no Vaticano, como n'uma cidadella gloriosa,
+desmoronada e vencida, posto que respeitada, soffre as ultimas
+consequencias fataes da sua politica, e, indomavelmente pertinaz e
+corajoso, esse velho batalhador veneravel, despojado da sua cora
+temporal, arroja aos vencedores o derradeiro desafio do seu despreso,
+arvorando impavidamente o dogma e metralhando com as excommunhes a
+opinio liberal em ultimo sacrificio a uma causa perdida.
+
+ curioso at o ponto de se tornar ligeiramente comico que seja este o
+momento escolhido pela burguezia portuense para comear a apontar-nos a
+egreja catholica como um perigo para a liberdade!
+
+No Porto os livres pensadores da calada dos Clerigos principiam agora a
+receiar que os catholicos da rua da Picaria assoberbem e esmaguem sob a
+desmaiada e quasi esvahida legenda pontificia o poderoso mundo
+scientifico moderno.
+
+Pela sua parte vs, catholicos da Picaria, reunis as vossas mulheres e
+as vossas filhas, entoaes ladainhas e procuraes com preces e com
+penitencias desaggravar a divindade offendida com as invectivas dos
+periodicos liberaes--no que nos parece que confundis tambem um pouco a
+religio com a sacristia, e tomaes frequentemente o sr. padre Couto pelo
+Padre Eterno. o vosso erro. No entanto ficae no vosso posto. A
+civilisao precisa de vs, no como elemento reconstituinte, mas como
+producto lachante. A sciencia estima-vos ... como droga. O velho mundo
+invoca a vossa assistencia para o ajudar a morrer, para o enterrar. Para
+mim, que acabo de vos discutir como fazendo eu mesmo parte do meio
+burguez em que existis, vs sois certamente um absurdo. Perante a
+philosophia vs sois porm uma necessidade historica. Nos annaes do
+progresso transcendente do espirito humano o vosso nome ha de ficar como
+o curioso epitaphio de uma gerao que se extinguiu ha tresentos annos.
+Porque a verdade que vs representaes as idas do seculo XVI.
+
+A associao catholica do Porto instituiu-se para qu? Vs mesmos o
+estaes dizendo todos os dias: Para salvaguardar a f religiosa da
+corrente invasora do scepticismo moderno.
+
+Pois bem, meus senhores, foi esse mesmo scepticismo, cuja corrente vs
+pretendeis hoje reprimir ou recuar, o que produziu a grande revoluo
+scientifica do seculo XVII e toda a civilisao subsequente at os
+nossos dias.
+
+O scepticismo o estado de espirito que medeia entre a superstio e a
+tolerancia. Ha mais de um seculo que nenhum pensador grave se intromette
+na vossa controversia theologica. Ninguem vos combate, ninguem mesmo vos
+discute. O mundo novo est j na tolerancia, quando vs combateis ainda
+o scepticismo de que a tolerancia o fructo!
+
+Duvidar, meus bons amigos, exercer uma das mais poderosas e mais
+fecundas faculdades da razo humana. Para chegar verdade no ha seno
+esse caminho: a duvida. Para chegar a Deus, que no outra coisa seno
+a expresso theologica da verdade, o unico meio tambem esse: a duvida.
+Primeiro que tudo duvida-se, depois aprende-se, por fim descobre-se. Tal
+ a marcha invariavel dos espiritos na sua grande ascenso do imperfeito
+para o absoluto.
+
+O mesmo christianismo no poderia nunca ter principiado a existir se no
+o tivesse precedido a duvida nas consciencias da antiguidade pag.
+Antes de acreditar em Jesus Nazareno o homem teve que duvidar de Jupiter
+Capitolino. A tradico christ uma conquista do scepticismo antigo. A
+duvida foi a primeira e a mais augusta expresso da revelao divina.
+
+A duvida tem sido em todos os tempos a luz immortal e a guia suprema do
+entendimento humano. Foi a duvida quem levou Colombo ao novo mundo,
+Copernico e Newton astronomia, Boyle e Pascal hydrostatica, Galyleu
+ mecanica e Lavoisier chimica.
+
+Se nas profundidades da nossa alma o scepticismo no tivesse existido
+sempre como uma indomavel fora inextinguivel de perfectibilidade
+indefinida, a sciencia astronomica no viria occupar o logar da
+astrologia, a physica e a chimica no substituiriam a alchimia, e a
+imagem de Christo crucificado no succederia nos altares do Vaticano s
+estatuas dos dois mil deuses da Roma antiga.
+
+Quereis a definio precisamente scientifica do scepticismo? Ouvi
+Buckle, o historiador da civilisao: scepticismo a difficuldade de
+crer; de sorte que o scepticismo que se augmenta a percepo
+augmentada da difficuldade de provar asseres, ou, n'outros termos,
+a applicao augmentada e a diffuso augmentada das regras do raciocinio
+e das leis da evidencia. Esse sentimento de hesitao em todo o campo
+do pensamento o preliminar invariavel de todas as revolues
+intellectuaes por que tem passado o espirito humano; sem o scepticismo,
+progresso, mudana, civilisao, tudo seria impossivel. Na physica
+elle o precursor necessario da sciencia; na politica o precursor da
+liberdade; na religio o precursor da tolerancia.
+
+Ora defendendo a integridade da f, vs fazeis philosophia este
+servio relevante: suggeris a duvida, procuraes accordar a razo
+individual, a qual nunca em nenhum outro meio social se desenvolveu to
+larga e to arrojadamente, como no seio da egreja christ, a qual apezar
+de todos os seus erros e dos seus mesmos crimes, tem sido sempre o mais
+forte nucleo da vida moral e o mais alto objecto de todos os grandes
+desenvolvimentos da intelligencia e da vontade.
+
+De resto entendo que o Porto, esse feliz e arrojado industrial, vos deve
+ser especialmente grato e reconhecido, porque vs o dotastes com um
+estabelecimento que Lisboa ainda no possue--A associao catholica da
+rua da Picaria,--a qual, similhana dos antigos moinhos do Tibet e das
+cabaas rotatorias dos Kalmuks, assegura commodidade dos habitantes um
+systema permanente, uma especie de moagem mechanica, com motuo continuo,
+de adoraes e de preces.
+
+ * * * * *
+
+Algumas das familias que durante a estao finda se achavam a banhos de
+mar em Pedrouos, resolveram de uma vez fazer uma festa nocturna,
+mysteriosa, venesiana. Tomaram um vapor da carreira de Belem,
+illuminaram-o com bales de papel como as gondolas do canal da Zueca que
+deslisam em frente dos terrassos do palacio Barbarigo no primeiro acto
+da _Lucrecia_. Para que a commoo de todas as pessoas que tomaram parte
+n'esta scena fosse profunda e illimitada, os homens tinham-se
+apresentado todos vestidos como os tenores nas scenas de _barcarola_. O
+jubilo era indescriptivel.
+
+Reunida a bordo toda a sociedade, o vapor levantou ferro, e penetrou na
+treva, vibrante de aventura, saturado de drama, na direco de
+Caparica.
+
+O Tejo porm estava grosso e picado, de modo que comeou a dar ao vapor
+uns balanos intermittentes para um lado e para o outro como de quem
+escabacea com somno. Com isto principiaram a manifestar-se com uma
+insistencia progressiva os symptomas spasmodicos nos esophagos da
+assembla. Os Mazaniellos, verdes como azebre, tristes como condemnados
+ morte, procurando sorrir catastrophe com sorrisos dilacerados como
+os que apresentam os cotovellos rotos, enrolavam-se nas suas capas e
+prostravam-se como trchos inuteis nos bancos da tolda. As senhoras
+punham os seus lenos na bocca, corriam a mo pela testa, cuspiam
+desconsoladamente no mar, e tinham ligeiros movimentos extaticos e
+doloridos como de quem est escutando no ar o rumor de uma angustia que
+chega.
+
+Ento o sr. Mathias Ferrari, segundo lemos no _Diario de Noticias,_ fez
+correr um abundante servio de neve. Todos se serviram.
+
+Os effeitos foram taes que quando os criados repassaram com a segunda
+roda de sorvetes, todos os convivas, com as boccas ainda abertas,
+estremeceram de horror, porque cuidaram que esses segundos gelados eram
+outra vez--os primeiros.
+
+Ento um homem forte, que tinha ido para bordo armado de um violo,
+tentando arrancar a companhia a uma consternao abatida e geral,
+comeou, a dedilhar o instrumento e a entoar uma chacara. Mas, de
+repente, suspende-se, torce-se, arripiam-se-lhe os cabellos,
+encurva-se-lhe a espinha dorsal, cae-lhe o violo desfallecido nos
+braos das senhoras, e o resto da chacara destinada aos eccos nocturnos
+do oceano e recolhida pelos circumstantes n'uma bacia.
+
+Era immenso a bordo o desalento.
+
+Mathias Ferrari, descoroado, abatido, j no fazia correr os
+servios. Este grande confeiteiro, dominando inteiramente a situao
+com a profundidade da sua critica, comprehendera--e muito bem!--que a
+questo ali j no era de _fazer correr_, mas de _fazer parar_.
+
+Era alta noite quando o vapor abicou outra vez praia de Belem,
+recolhendo-se todos perfeitissimamente satisfeitos pelo modo como se
+passara to bello tempo. Apenas, para que desembarcassem, houve o
+pequeno trabalho de virar os que tinham assistido a esta festa, a mais
+brilhante talvez que se tem dado no Tejo, por que os convivas em virtude
+dos reiterados exforos que tinham feito no mar para puxar para fora o
+interior, succedera-lhes terem-o effectivamente conseguido, e haverem
+chegado todos a terra--pelo avesso.
+
+ * * * * *
+
+Com a mais extranha commoo lemos ultimamente que fra nomeado aio de
+sua alteza o principe real sua ex. o sr. Martens Ferro, abalisado
+jurisconsulto e procurador geral da cora.
+
+ * * * * *
+
+ talvez uma bem perigosa temeridade da parte de prosaicos e obscuros
+burgueses como ns somos o atrevermo-nos a meditar um momento no que
+possam ser perante a educao e perante a sciencia as attribuies
+especiaes de um aio junto de um principe. Todavia--debalde procurariamos
+escondel-o--em presena de similhante assumpto, profunda e illimitada
+a confuso do nosso espirito. Por isso que, por mais assignaladas que se
+nos representem as differenas que devem distinguir o alto e poderoso
+filho de um monarcha do mero filho de um fabricante de velas de cebo,
+nunca, por maiores que sejam na direco do infinito os arrojos da nossa
+phantasia curiosa, nunca podemos chegar a alcanar, nem pelas
+presumpes mais vagas nem pelas mais remotas suspeitas nem pelas mais
+affastadas conjecturas, qual o emprego pratico e effectivo que possa dar
+um principe aos prestimos de um aio. Para satisfao de que
+necessidades, de que conveniencias ou de que simples formalidades, em
+que condies, em que circumstancias, em que especial momento da
+preciosa e augusta vida do real infante vae sua excellencia o aio
+presena de sua alteza o principe?!... Ns o ignoramos.
+
+Porque, quando as ordens de sua alteza procedam das necessidades do seu
+espirito, das curiosidades da sua intelligencia, dos interesses da sua
+instruco, sua alteza pedir naturalmente algum dos seus mestres ou
+algum dos seus livros, e a sua alteza ser ento applicado um professor
+de linguas, um compendio do sr. Joo Felix ou um numero do _Diario de
+Noticias_. Quando os desejos manifestados por sua alteza dimanem das
+urgencias physicas da sua naturesa, das fatalidades animaes do seu
+organismo ou do seu temperamento, sua alteza pedir o seu banho, o seu
+jantar, as suas pastilhas ou o seu escarrador; e ento os camaristas de
+sua alteza, as suas aias e os seus escudeiros cumpriro os desejos de
+sua alteza.
+
+E no vemos, nem na ordem physica, nem na ordem moral, nem na ordem
+inlellectual das relaes de sua alteza com o mundo externo, a
+necessidade, a conveniencia ou a plausibilidade da interveno do aio.
+
+A no ser que a concorrencia d'esta legendaria entidade methaphysica se
+deva considerar nos reaes paos como um acepipe _hors d'oeuvre_ ou como
+um objecto supplementar de recreio, porque ento comprehendemos de certo
+modo que ao servio particular de sua alteza um camareiro exclame:
+
+Est o _lunch_ na mesa: ha _galantine_, rabanetes e o sr. Martens
+Ferro com salsa picada e manteiga fresca. ou ento: Eis os brinquedos
+de sua alteza: aqui est a bola de guttapercha e a caixa com o sr.
+Martens Ferro de engonsos.
+
+ * * * * *
+
+Se porm--e perdoe-se-nos esta hypothesese, sob a senhoreal e demievica
+palavra aio, devemos entender a ida perfeitamente logica, sensata,
+popular, de um preceptor pratico, de um mestre experimental, de um
+amigo, de um companheiro, n'esse caso notaremos com o mais profundo
+respeito a Sua Magestade a Rainha, dedicada me e primeira educadora do
+joven principe, que foi singularmente illudida a sua perspicacia
+elegendo o sr. Martens Ferro como conselheiro official e privado de seu
+filho, como guia experimentado da candida existencia inexperiente do
+innocente alumno. E isto por uma razo que de nenhuma maneira desabona
+os altos merecimentos de sua excellencia o actual senhor procurador
+geral da cora, antes pelo contrario os confirma e corrobora. Esta razo
+ que: o sr. Martens Ferro, pela sua natureza, pela sua organisao,
+pelo seu temperamento, pelo seu caracter, pela sua biologia, to
+inexperiente, to candido, to ingenuo, to innocente e to puro como o
+proprio alumno que elle chamado a aconselhar e a dirigir na difficil e
+complicada navegao da vida.
+
+Passando em tenros annos do regao d'aquella que lhe deu o ser para os
+braos da austera jurisprudencia, que tinha de amamental-o para a
+sciencia e para a gloria, o sr. Martens Ferro tem at hoje passado a
+sua vida _en nourrice_ em casa do Direito Publico.
+
+Os seus dias teem decorrido transcendentemente fora das condies
+historicas do tempo e do espao. A sua existencia tem sido
+exclusivamente mystica e symbolica. Quando tem os seus impetos mais
+ferozes de extravagancia, de anarchia, de deboche, elle sae a passear
+pelas viosas campinas da philosophia do direito e faz patuscadas
+orgiacas e escandalosas com as origens celticas do direito e com as
+liberdades municipaes do imperio romano. Depois o remorso apodera-se
+d'elle. No dia seguinte acorda pallido, abatido, com a lingua grossa: o
+espectro pavoroso e formidavel do sr. Batbie appareceu-lhe em sonhos, e
+elle ouviu vozes vingadoras que lhe bradavam das profundidades da noite
+e do arrependimento: Joo Baptista, para onde deixaste o direito de
+punir? que fizeste do direito administrativo, Joo? que do direito
+internacional, Baptista?! Taes so os seus dias de mais desdem, de mais
+anormalidade, de mais sexo, de mais jogo e de mais champagne! tal o
+seu despertar contricto para a legalidade, para a descentralisao
+districtal e para as reformas de administrao! Tal, resumidamente,
+elle! E quando dizemos _elle_, commettemos uma incerteza de
+concordancia, porque to pura, to transcendental, to scientifica a
+personalidade do sr. Martens Ferro, que nada obsta a que a historia
+referindo-se a sua excellencia, em vez de dizer _elle_, diga--_ella_.
+Pela nossa parte, aguardando cerca da resoluo d'esse ponto as
+ulteriores disposies definitivas da posteridade, diremos por emquanto
+simplesmente _el_, sem a desinencia de genero, sob a respeitosa formula
+neutra.
+
+Como diziamos, pois, tal --el.
+
+ * * * * *
+
+Analysando, timidamente como o temos feito, a nomeao do sr. Martens
+Ferro para aio do principe real--note-se bem isto--no a sorte de sua
+alteza o que nos inspira receios sob a guarda de um tal guia ... Ah! no!
+ pelo contrario o destino de sua excellencia o que nos inquieta sob a
+influencia de um tal companheiro. Por _elle_ podemos estar perfeitamente
+socegados. Mas _el_? o que ser d'_el, el_ to puro ou pura, to
+candido ou candida, sob os impulsos da nova existencia que
+repentinamente vae no seu temeroso vertice arrebatal-o ou arrebatal-a?!
+
+Na vida da crte, fina, scintillante, irritavel, cheia de factos, de
+commoes, de rasgos de espirito e de valor, de emboscadas, de
+surpresas, de malicias, de tentaes, quantos perigos, quantos laos,
+quantas ratoeiras para a innocencia virginal, para a candida pureza
+inexperiente e inerme d'_el!_ ...
+
+Os principes por effeito da sua vida reclusa, claustral, vigiada,
+monotona, amam naturalmente a escapada, o mysterio, a aventura, a
+innocente anormalidade. Apraz-lhes a sortida arriscada, a partida
+carnavalesca, o ruido dos festins secretos, a mascara inescrutavel, a
+longa capa dramatica e a espada ligeira e subtil dos paladinos;--o que
+se lhes deve relevar, porque esse o unico despique dos principes para
+a secca official dos intrigantes, dos bajuladores, dos ambiciosos, dos
+sensabores e dos hypocritas que ordinariamente os rodeiam. Estes porm
+no so ainda para _el_ os unicos perigos. No licito esconder que ha
+outros mais e muito mais temerosos. Pensemos nas influencias
+tempestuosas d'esse elemento, terrivel para a mocidade, que se chama--a
+mulher. Sentimos magoar com este promenor a pudicicia do sr. procurador
+geral da cora, mas esta a verdade que no devemos occultar aos olhos
+de sua excellencia. Diz Michelet, o casto, o austero Michelet, que em
+todo o tempo a mulher attrahiu o homem, assim como a vinha da Italia
+chamou os gaulezes, e a laranja da Sicilia chamou os normandos. Ellas
+chamam-nos, srs. procuradores geraes da cora, ellas chamam-nos!
+Lembremo-nos da bella Helena, sr. Martens Ferro, lembre-mo-nos de
+Semiramis, de Cleopatra, da casta Penelope, das Sabinas!
+
+Os principes no esto mais isemptos que os outros homens d'esta lei
+geral da humanidade, e os que vivem com elles--ponderemol-o bem--ficam
+sujeitos s mesmas influencias que envolvem os reis.
+
+Guilherme VII, cuja f religiosa era to ardente que elle foi Terra
+Santa com cem mil homens, o proprio Guilherme VII levou tambem na viagem
+do Santo Sepulchro a galante legio das suas amantes, e diz d'elle uma
+velha chronica que, bom trovador e bom cavalleiro d'armas, por muito
+tempo correra o mundo _para enganar as damas_. Tal a raa de que elles
+sem, s vezes, quando no sem peores que o mystico e piedoso
+Guilherme! Que a actual procuradoria geral da cora emquanto tempo o
+medite!
+
+De Francisco I, um dos mais sabios e dos mais uteis reis que tem tido o
+mundo, diz-se que s bellas milanezas se deve a mais importante parte na
+perseverana com que elle combateu pela conquista da Italia.
+
+Sem fallarmos na cohorte das peccadoras, to gentis como funestas, dos
+_boudoirs_ de Luiz XIV e da Regencia, recordemos ainda as dissolutas e
+ferozes mulheres da crte de Carlos IX, Catharina de Medicis, Maria
+Touchet, e as grosseiras amantes torpes de Luiz XI, a Gigogne e a
+Passefilou ... Oh! pudor! oh decoro! oh reforma administrativa!
+
+Suppondes que a educao, os exemplos salutares e os conselhos sabios
+possam preservar os principes dos perigos das suas ligaes
+clandestinas? Mas quando assim pudesse ser, quantos outros riscos na
+propria convivencia legal das mulheres legitimas!
+
+Um dia Maria Laczinska, legitima mulher de Luiz XV, recusou um beijo ao
+rei com o fundamento de que este cheirava a vinho. Luiz, segundo a
+expresso pittoresca de um chronista das galanterias escandalosas do
+seculo passado, comeava ento _a tomar o gosto ao champagne_. O rei
+resolveu n'esse dia nefasto separar-se para sempre da rainha, e so
+sabidos os desgostos e as desgraas que o rompimento d'essas relaes
+custou felicidade da Frana e moral da Europa. Que remorso para o
+aio de Luiz XV! Foi d'elle a culpa d'esse desastre. Se o aio do joven
+rei, em vez de comear _a tomar o gosto ao champagne_ juntamente com o
+seu alumno, fosse, como pelo contrario devia ser, um experimentado e
+antigo _soupeur_, conhecedor esperto de todas as ciladas armadas ao
+homem pela bebida e pelo amor, elle teria evitado o divorcio do rei.
+
+Tel-o-hia evitado, porque teria ensinado ao seu alumno, com a
+auctoridade da experiencia, que a intemperana nas ceias e o abuso no
+champagne produzem as hepatites, as predisposies para a apoplexia e
+para a gotta e a manifestao das areias no rim. Se o principe no
+obedecesse a estes conselhos e persistisse em ceiar, n'esse caso o seu
+aio lhe faria comprehender que depois de ter bebido champagne nenhum
+homem vae conversar com senhoras sem ter concluido a sua digesto e sem
+haver previamente lavado a bocca com um elixir dentifrico. Um pequeno
+passeio ao ar livre, uma gota de laudano ou uma pastilha, qualquer
+d'estas tres coisas ministrada opportunamente por um aio intelligente e
+dedicado, teria obstado ao rompimento das relaes de Luiz XV com sua
+mulher e a todas as consequencias que d'ahi se seguiram.
+
+Algumas vezes succede ainda que, alm de todos estes desgostos, d'estas
+decepes e d'estes remorsos, os aios, os validos, os intimos dos
+principes levam ainda por cima pancada das princezas. N'este ponto as
+chronicas so prodigas de eloquentes e salutares avisos. Constancia de
+Arles, por exemplo, mulher de Roberto Pio, tinha taes accessos furiosos
+de mau genio que um dia vasou um olho do seu proprio confessor
+batendo-lhe com uma bengala que tinha no casto um bico de passaro. Esta
+mesma bengala nem sempre se conteve perante a pessoa inviolavel e
+sagrada da real magestade, e por muitas vezes se ergueu sobre as cabeas
+dos amigos mais particulares do rei para nem sempre deixar inteiros
+esses craneos dedicados e fieis. Foi a mesma sobredita princeza a que de
+uma vez mandou matar por occasio de um passeio, aos proprios olhos do
+soberano, o ministro De Beauvais, que lhe desagradava, e que, de outra
+vez impoz para o outro mundo um cortezo antipathico, estafando-o com
+uma corrida que o obrigou a dar n'uma caada.
+
+ * * * * *
+
+Ora se a cora tem por um lado a obrigao de escudar a infancia e a
+innocencia dos principes, no deve por outro lado sacrificar a
+inexperiencia inerme das instituies pondo os srs. procuradores geraes
+como barreira entre as tentaes e as culpas, lanando emfim a alta
+magistratura ao pego tenebroso, ao Mexilhoeiro insondavel em que ha o
+espumar dos vinhos capitosos, o sussurrar das sedas, o arfar dos leques,
+os sorrisos tentadores e as bengalas de casto de bico.
+
+ * * * * *
+
+Algumas das pessoas que tiveram a honra de serem admittidas a jantar com
+as senhoras hispanholas que ultimamente se acharam em uso de banhos de
+mar, e de emigrao, em Lisboa pedem-nos a nossa interveno para
+dirigirem quellas senhoras, alis to distinctas e to interessantes,
+uma pequena observao que os seus amigos mais dedicados se no atrevem
+a fazer-lhes directamente.
+
+Suas excellencias teem mesa o terrivel habito de comerem o peixe com a
+faca, o que os admiradores mais enthusiastas do fino sal de espirito de
+suas excellencias e do seu poderoso encanto de maneiras, no podem
+abster-se de considerar como uma concorrencia temeraria feita por suas
+excellencias aos acrobatas dos jogos malabares, unicos entes que
+insistem em accumular os seus meritos pessoaes com o talento
+supplementar de metterem as facas pela bocca.
+
+... Sendo certo ainda assim que os malabares que temos visto
+entregarem-se a este exercicio, servem-se o seu rodovalho parte, e
+comem as facas--sem peixe!
+
+Submettemos estas simples reflexes a suas excellencias, as quaes em
+seu delicado criterio decidiro se, attentos os graves cuidados que nos
+inspiram, devem ou no continuar a manter--na lista dos seus acepipes
+predilectos--os faqueiros.
+
+ * * * * *
+
+Durante este mez, to inquieto, to palpitante de commoes, em toda a
+Europa, os principes com mo nervosa e febril cultivaram a epistola.
+
+O Santo Padre escreveu ao imperador da Alemanha, o imperador da Alemanha
+escreveu ao Santo Padre, o conde de Chambord escreveu ao deputado
+Rodez-Benavent, o sr.D. Miguel de Bragana escreveu ao sr. conde da
+Redinha, e a historia em geral e os redactores da _Nao_ espeialmente,
+escutaram com ardor o fremito d'essas pennas riscando a face do universo
+com letras um pouco menos correctas que as de Cicero, de Plinio o moo e
+de madame de Sevign.
+
+ * * * * *
+
+O Santo Padre pede ao imperador Guilherme que obste a que o governo da
+Alemanha persista na perseguio do clero catholico. O imperador
+Guilherme roga a Sua Santidade que impea o clero catholico de proseguir
+na rebelio contra o governo da Alemanha.
+
+D'este modo o Papa deseja que se retire da scena o martyrio, a grande e
+bella apotheose da egreja triumphante, e lembra ao verdugo que sirva aos
+martyres o antigo fel das legendas gloriosas com o moderno assucar dos
+confortos policiaes.
+
+O imperador opina que amargo de mais o proprio calix que o obrigam a
+tragar, e tirando da cabea o seu ponderoso capacete bellico de ponta de
+pra-raios, e humilhando-se dentro das suas botas de couraceiro,
+elle--abatido, beato, lacrimoso--pede egualmente para as suas
+tribulaes de christo as correspondentes e proporcionaes douras.
+
+E taes so os dois maximos guardas da f, os dois summos representantes
+na Europa moderna dos dois grandes ramos em que se acha dividida a
+christandade!
+
+Oh! Voltaire compungir-se-hia, e, franzindo n'um sorriso bom os feixes
+malignos das suas sarcasticas rugas, elle, o caustico philosopho, o
+livre espirito, tirando benevolo dos bolsos da sua houppelande de
+veludo e martas a caixa das suas pastilhas, offereceria s potestades
+chorosas os bombons sacrilegos dos sales de Mesdames du Deffant e de de
+Lambert.
+
+ * * * * *
+
+A carta do conde de Chambord o velho golpe astuto de Jarnac jogado ao
+constitucionalismo monarchico.
+
+O principe a quem a Frana offerecera a cora burgueza de Luiz Filippe,
+pergunta-lhe o que exige d'elle a Frana, que papel lhe destina, para
+que misso o invoca.
+
+Vs, que estaes na liberdade, na democracia, na republica, cedeis ao
+invencivel appetite de acclamar um rei. Comprehendestes que superior
+aos vossos meios repressivos e reorganisadores a perturbao corrompida
+da sociedade em que viveis. Duvidaes da vontade, da intelligencia, da
+fora do vosso accordo collectivo. Quereis uma iniciativa individual,
+culminante, prestigiosa, predestinada para o mando, para o triumpho,
+para a gloria; quereis o monarcha eleito como Saul para livrar o seu
+povo das mos dos seus inimigos, segundo a formula primitiva do
+propheta Samuel.
+
+N'esse caso armae a vossa cathedral de Reims, convidae os vossos
+principes do seculo e da egreja, trazei a cora real, a espada, as
+esporas, a dalmatica azul, as botinas de seda estrellada de lizes de
+oiro, entregae-nos o sceptro de Carlos Magno, e dae-nos as sete unces
+de Pepino o Breve. Depois do que, ns haveremos por bem deliberar por
+quaes secretos caminhos nos apraz mandar-vos, segundo as vossas
+gerarchias, para a victoria, para a bemaventurana ou para a fora.
+Emquanto vs, tranquillos, repousados, deixareis definitivamente de
+occupar-vos da coisa publica, e, sem ambies, sem principios, sem
+idas, tereis a felicidade absoluta da besta no seu aprisco; _hoc erit
+jus regis qui vobis imperaturus est_.
+
+Se, em vez d'isto porm, o que desejaes ter , no uma fora omnipotente
+que vos governe, mas sim um instrumento politico que manejeis; se para
+me outorgardes a cora, precisaes de me tirar a iniciativa, a
+personalidade, a dignidade de homem; se para que me julgueis inoffensivo
+ preciso que eu vos mostre ser pdre; se as garantias que me pedis para
+que vos no domine so uma fraqueza, uma corrupo, uma inepcia que vos
+assegurem a facilidade de me dominardes a mim, ento no: no vos
+convenho eu, o derradeiro dos Bourbons fundadores da monarchia absoluta
+nascida dos terrores da Liga e da Saint-Barthelemy, descendente e
+herdeiro de Henrique IV, o que teve a dupla coragem da fora e da
+miseria, o que na tomada de Cahors se bateu nas ruas durante cinco dias
+consecutivos, lho a lho, dente a dente, brao a brao, o que de Dieppe
+escrevia alegremente a Sully que tinha todas as camisas despedaadas e
+um gibo roto nos cotovellos!
+
+Camille Desmoulins conta que em 1790 o poder monarchico era representado
+em Londres por meio de um bailado expressivo como uma parabola. N'este
+baile a primeira figura era um rei que terminava a execuo de um
+_entrechat_ cheio de garbo e de pompa alongando um pontap ao fundo das
+costas do seu primeiro ministro; este transmittia o pontap real ao
+segundo ministro, o qual o traspassava ao terceiro, seguindo-se a mais
+viva e espirituosa corrente de pontaps que se tem visto n'uma crte,
+at que o personagem que apanhava em cheio no seu volumoso e amplo
+hemispherio posterior o ultimo pontap era o paiz--que ficava com elle.
+
+
+Nas monarchias constitucionaes imaginou-se reconstituir, por meio da
+carta, essa graciosa dana, alterando porm a collocao do soberano ou
+a ordem dos pontaps, de maneira que ou o principe est em baixo e os
+pontaps vem de cima, ou o tyranno est em cima e os pontaps vo de
+baixo.
+
+Os povos monarchicos julgam-se felizes tendo cada pessoa ao lado de si
+alguem a quem transmittir o pontap em giro atravez das instituies e
+da politica. A carta do conde de Chambord no em resumo seno o
+testemunho de uma divergencia com a assembla nacional sobre este ponto
+importante do bailado em ensaios: quem que recebe o pontap?
+
+A um paiz corrompido e a uma assembla senil no occorre esta
+considerao to simples: que quando se trata de um stygma de servilismo
+e de baixeza a questo no poder transmittil-o, no dever
+acceital-o. Organisar pela monarchia a responsabilidade dos que se
+corrompem abdicar a faculdade de demittir a corrupo. Os reis quando
+no enodoam os povos, tambem no lhes tiram as nodoas que elles tenham.
+N'esses casos o que limpa um paiz no a realesa. Quereis saber o que
+? Pois bem! a benzina!
+
+ * * * * *
+
+A carta do sr. D. Miguel de Bragana ao sr. conde da Redinha ao mesmo
+tempo o tocante documento da estima inviolavel de um amigo ausente, e o
+authentico manifesto politico de um principe proscripto.
+
+Sua alteza declara ao _seu paiz_ que quer ser o protector e o amigo de
+todos os portuguezes e que considera como sua mais elevada ambio e sua
+maior gloria--restaurar o throno pontificio. N'este simples trao
+encarna sua alteza a expresso politica da sua indole,--o que nos parece
+de uma moderao de intuitos demasiadamente modesta.
+
+Diriamos que sua alteza folga em confundir-se na obscura legio invalida
+dos tyranos burguezes, dos cezares bonacheires, Neros de barrete de
+dormir, Caligulas dyspepticos, Eliogabalos em uso do pronto alivio e da
+revalenta arabica. A politica affirmada por sua alteza accusa uma
+visivel pobresa de sangue. Sua alteza um anemico. Tal o infortunio
+da nossa raa! Que degenerao!
+
+O pae do joven principe D. Miguel era sanguineo, esse. A sua
+extraordinaria fora muscular era a admirao respeitosa, a maravilha
+profundamente inclinada do _sport_ lusitano de 1827. Nas redondezas do
+pao de Queluz, nas terras do Infantado, via-se s vezes atravessar os
+campos, a p, caando acompanhado do seu falcoeiro, um homem de mais de
+meia estatura, de solidos hombros, faces morenas, barba rapada, mos
+enormes, beios sensuaes, grandes olhos negros, rasgados, peninsulares;
+vestia um casaco de baeto verde, calo preto, botas altas, de cava,
+com taes de prateleira e esporas de prata; usava um bonet azul, do
+prato largo, com vizeira. Este homem, que amava a convivencia dos
+plebeus, a quem dava largas esmolas de dinheiro e de conversao,
+comprazia-se em ensinar a lavrar os moos do campo: tomava na mo
+esquerda a rabia de um arado, azorragava com a direita uma parelha de
+mulas, e abria no solo mais empedrado e mais endurecido, sob a poderosa
+presso do seu pulso, um rego profundo, extenso de um kilometro, e recto
+como um risco passado a regoa por um tira-linhas. Suffocava um forte
+cavallo de Alter puchando-lhe a ponta da cilha com os dentes. Segurava
+pela bocca, que juntava e cerrava no punho, um sacco de sete alqueires
+do trigo, e lanava-o ao hombro, com uma s mo, erguendo o brao por
+cima da cabea e conservando o corpo immovel, erecto e firme. Quando
+vinha de Queluz a Lisboa, galopando desfilada, com uma vara debaixo da
+perna, entre os seus companheiros mais assiduos, Joo Sedvem, o picador,
+o Jos Verissimo, o da policia, a fora de soldados de cavallaria que o
+acompanhava, ficava aos poucos pela estrada destroada pela fadiga: elle
+nunca chegou seno s. No dia em que recebeu ao p da mata, na Quinta
+Velha, onde estava caando ao falo, por volta das duas horas da tarde,
+a noticia de ter entrado a barra de Lisboa a flotilha que apresou e
+levou para Frana todos os nossos vasos de guerra surtos no Tejo, elle
+veiu de Queluz a Belem, em menos de tres quartos de hora. Esse homem que
+tinha a grande popularidade que trazem comsigo as legendas da fora e da
+destreza physica, era sua magestade el-rei o sr. D. Miguel I.
+
+O soberano tinha os defeitos do homem e as qualidades dos seus defeitos.
+A sua politica era apopletica simplesmente porque elle era plethorico.
+
+Esse principe, com o seu temperamento, o qual constituia, politicamente
+assim como physiologicamente, toda a sua personalidade, fez liberdade
+e s idas modernas o mais relevante servio: foi elle o que fabricou o
+partido liberal portuguez.
+
+Os constitucionaes foram uma inveno da policia do sr.D. Miguel. Elles
+no combatiam o direito divino, nem os privilegios da nobreza e do
+clero, nem o regime absoluto, nem a servido popular; o que elles
+combatiam principalmente era o Jos Verissimo. Affirmavam-se os direitos
+do homem porque se tinha percebido que esses direitos prejudicavam os do
+Joo Sedvem. Os revolucionarios portuguezes no vieram da sciencia, no
+vieram do amor da justia, das impaciencias da liberdade, dos contagios
+da Conveno, da revolta da dignidade humana. No. Elles vieram
+simplesmente dos carceres, dos carceres em que o regime despotico
+recalcou de mais a fora viva da nao. Os principios eram o pretexto
+sob o qual se vingavam as offensas feitas no s idas vigentes, mas aos
+interesses estabelecidos. As denuncias partiam dos lesados. A ida
+exposta na organisao da Companhia dos vinhos preoccupava mais os
+espiritos em Portugal do que o principio representado em Frana pela
+existencia da Bastilha. Havia martyres da liberdade que nunca tinham
+amado a liberdade com devoo mais intensa que a do Sedvem e que no
+teriam posto duvidas irremissiveis em continuar a dobrar a cerviz, ao
+jugo da tyrannia como se dizia no stylo do tempo; smente o que elles
+tinham recusado era emprestar algumas moedas ao Jos da Policia. Para a
+maior parte da gente a victoria da ida liberal foi simplesmente a morte
+do Telles Jordo. Finalmente o sr. D. Miguel de Bragana, _primeiro_,
+foi o principe cuja fora fez na monarchia portugueza o rombo por onde a
+liberdade appareceu. O sr.D. Miguel de Bragana, _segundo_,
+figura-se-nos pela sua expressiva carta ao sr. conde da Redinha, uma
+pessoa extremamente debilitada. Ser o protector e o amigo de todos os
+portugueses enfraquecer-se diffundindo-se. Os antigos fortes
+concentravam-se.
+
+Pobres de ns! Como somos diversos de nossos paes! Os plethoricos,
+sangrados, legaram gerao que lhes succedeu a impotente anemia!
+
+ * * * * *
+
+Acabamos de lr um livro que foi publicado era Lisboa ha cerca de tres
+mezes e a respeito do qual ainda no ouvimos critica uma palavra de
+meno. Foi abafado pelo silencio. Se lhe no dessem esse destino teria
+sido um livro escandaloso porque foi inteiramente concebido fra da
+rotina, fra da conveno, fra do compadrio, por um espirito
+justo, esclarecido, honrado, fatalmente inclinado ao bem.
+Intitula-se--_Portugal e o socialismo_, e escripto pelo sr. Oliveira
+Martins.
+
+A litteratura portugueza actual apresenta este notavel caracter:--o
+bysantinismo. Ella no um documento historico, nem um documento moral
+do tempo em que vivemos. No tem importancia na direco dos espiritos,
+no tem influencia na formao dos caracteres, no tem validade no
+estabelecimento dos principios. No d nenhuma theoria razo, no d
+nenhuma lei consciencia, no d nenhuma norma dignidade.
+
+A imitao, a conveno, o servilismo, o estreito espirito de seita, de
+partido, de escola, a ignorancia, a indolencia, a bajulao, a
+orthodoxia official puzeram a pouco e pouco as lettras portuguezas
+inteiramente fra do seu objecto--a simples e pura verdade humana.
+
+O que actualmente se escreve no absolutamente nada o que actualmente
+se pensa. Todas as grandes questes capitaes que preoccupam a sociedade,
+a litteratura ou as evita ou as falsea. Ou as evita porque as no sabe
+tratar, ou as falsea porque as trata com um espirito particular de
+interesse, hostil sciencia e rebelde arte.
+
+Entre tantos escriptores portuguezes que quotidianamente enegrecem em
+Portugal o innocente papel sobre o qual se ora a medida das nossas
+faculdades, onde est o homem cuja obra represente o precurso das idas
+predominantes d'este seculo atravez d'esta sociedade? Onde est o
+artista, onde est o philosopho, onde est o poeta que tenha atacado de
+frente a soluo desinteressada, independente, firme, clara, nitida, dos
+multiplos problemas que agitam o espirito, a consciencia, o corao do
+homem moderno no meio do sentimento, do temperamento, da religio e da
+politica da sociedade moderna?
+
+Ser tal escriptor o sr. Alexandre Herculano, philosopho collaborador da
+sr. D. Guiomar Torreso no _Almanack das Senhoras_?
+
+Ser o poeta sr. Nunes, deputado conservador, o mais arrojado dos vates
+que conhecemos dentro dos limites da carta constitucional e do systema
+representativo?
+
+No nos parece.
+
+O sr. Oliveira Martins faz parte de um pequeno grupo de alguns
+trabalhadores obscuros, inteiramente penetrados da corrente scientifica
+do tempo actual, que teem procurado introduzir na litteratura as idas
+correspondentes s preoccupaes, s necessidades e aos interesses mais
+altos, mais legitimos e mais vitaes da sociedade em que vivem, fixando
+assim scientificamente algumas das bases do programma geral da revoluo
+por meio da qual se vae transformando o mundo europeu.
+
+Esses humildes obreiros, aos quaes cabe a gloria de terem iniciado em
+Portugal quasi todos os grandes principios das civilisaes modernas,
+no teem encontrado, como galardo dos seus estudos, da sua
+independencia e da sua andcia de pensadores, seno a surda guerra das
+maledicncias, das calumnias e dos desdens, evantada pelo obscurantismo,
+pelo fanatismo, pela ignorancia. Accusam-os de attentarem contra a
+moral, contra a religio, contra a ordem, contra o patriotismo, e
+expulsaram-os vilmente e infamemente do respeito publico e da
+considerao social como jacobinos, como communistas, como incendiarios.
+
+ * * * * *
+
+ do livro acima citado que extrahimos a seguinte pagina to sensata,
+to viva, to humana:
+
+Portugal no tem pauperismo. por isso que entre ns se no levantaram
+ainda, nem se levantaro j, Nelsons ou Sydney Smiths para dizerem como
+em Inglaterra: A pobreza infame. por isso que a definio ingleza
+da fabrica--_manufactura de algodo e de pobres_--no pode servir-nos. O
+no attingirmos porm um termo to elevado de preverso social no quer
+dizer que as classes trabalhadoras de todas as industrias vivas do paiz,
+extractivas e transformadoras, encontrem para c das nossas fronteiras
+um modo de vida essencialmente differente. No, a nossa organisao
+politica, semi-monarchica, semi-liberal, d em resultado ser duplamente
+absurda, immoral, pauperisadora. Porque, como liberal, permitte a livre
+concorrencia do capital e do trabalho, aliena as funces e
+propriedades collectivas, e, para corrigir as consequencias de
+distribuio viciosa que d'ahi resultam, mantem uma proteco
+anachronica, com as alfandegas, com a divida e com o imposto, proteco
+que recaindo afinal toda no consumo, vem ainda aggravar as condies do
+trabalhador pela elevao no preo das coisas. Acima da preverso
+economica devemos pr a preverso moral. No pequeno mundo industrial de
+Lisboa, no contaste nunca, leitor, aos sabados o numero de ebrios que
+pova as vielas escuras e nauseabundas, onde crapula vem juntar-se a
+orgia das mulheres perdidas? Onde o prostibulo est em frente da
+taberna, ao lado o bilhar, e entre o bilhar, o prostibulo e a taberna,
+se funde a feria?
+
+A desordem e a immoralidade so contra a natureza. Se esses homens no
+fossem pobres seriam melhores. Se no tivessem de trabalhar doze horas
+para comer saberiam ler. Se tivessem po e liberdade seriam paes de
+familia. Olhae as mulheres e as creanas. Termo medio a familia tem
+quatro pessoas; termo medio o salario de 400 ris. O trabalhador
+recorre ao celibato, prostituio, s relaes illicitas, d'onde
+resultam os infantecidios (to frequentes em Portugal como na China) e a
+roda dos expostos. Quando um homem foi agarrado por esta engrenagem
+d'ao morreu. Ha muitos a quem uma certa energia de caracter ou uma
+constituio artistica e sentimental levaram ao casamento e familia:
+ento que se encontram quatro pessoas com quatro tostes por dia. A
+industria offerece uma tentao diabolica: augmentar o salario
+destruindo a familia. N'esse momento a esposa e os filhos entram na
+_fabrica_ ...
+
+ * * * * *
+
+A fabrica para as mulheres e para as creanas o sepulchro do pudor, da
+honestidade e da saude. Emquanto as instituies sociaes no assegurarem
+ mulher o seu legitimo logar na familia absolutamente preciso que,
+pelo menos a protejam na miseria fatal da fabrica. Porque nas fabricas
+portuguezas o que succede com a mulher que, pela sua fraqueza e pela
+sua ignorancia, ella no trabalho o escravo do homem. Ninguem entre ns
+tem lanado os olhos a esses desgraados destinos obscuros.
+
+ * * * * *
+
+Acostura que ainda ha pouco era o grande refugio das raparigas pobres
+desappareceu com a machina de cozer. A mulher no pde sustentar essa
+concorrencia, porque ella no pde, por maiores que sejam os esforos
+dar por suas mos mais de 30 pontos por minuto: a machina d 643 pontos
+no mesmo espao de tempo. Para se empregar n'outros servios precisaria
+de uma educao preparatoria pratica, para a qual so indispensaveis as
+escolas profissionaes que no existem em Portugal. Em Frana, na
+Inglaterra, na Allemanha e principalmente na Suecia, as mulheres
+habilitadas em cursos especiaes teem j muitos empregos uteis na
+industria e no commercio. Em 1871 havia na Suecia 4:055 mulheres
+empregadas no commercio e na industria. D'estas 2:675 dirigiam os seus
+proprios negocios. Quinhentas e quatro mulheres eram proprietarias de
+fabricas e de officinas. Alm d'isto muitas outras se achavam empregadas
+nos bancos, nas caixas de soccorros, nas companhias de seguros, etc. com
+emolumentos annuaes variando de 800 a 5:000 rixdalers. No servio dos
+correios, dos caminhos de ferro, dos telegraphos, a mulher alarga de dia
+para dia os seus dominios. A America, a Suecia, o Wurtemberg,
+offerecem-lhe sob esse ponto de vista as maiores facilidades.
+
+Em Darmstadt muitas mulheres se acham empregadas nas reparties de
+estatistica com optimos resultados para o servio publico. Os cuidados
+aos doentes so um bello emprego para o trabalho das mulheres. Na
+Hollanda muitas teem sido auctorisadas a tirar diplomas de
+pharmaceuticos. A profisso medica tem-lhes sido permittida em diversos
+paizes. Na America, em S. Petersburgo, em Zurich, em Upsel e em varias
+outras universidades ha um consideravel numero de alumnos do sexo
+feminino estudando a medicina. Na Suecia estabeleceu-se pelo estado um
+fundo permanente de soccorros para as mulheres que seguem a carreira
+medica.
+
+A ultima exposio de Vienna veiu provar ainda quanto as mulheres se
+teem ultimamente occupado nas artes industriaes e nas bellas artes. Na
+exposio sueca v-se no pavilho dos productos da industria o perfeito
+exito com que as mulheres teem cultivado n'aquelle paiz a pintura, a
+gravura em madeira, a xylographia, a lythographia, a gravura em cobre, a
+photographia, a cartographia, a pintura em porcelana, a modelagem. Na
+Suecia concedeu-se-lhes accesso, como aos demais empregados, nos
+servios dos telegraphos, dos correios e dos caminhos de ferro.
+Admittem-as como gravadoras na casa da moeda; muitas so empregadas nas
+academias, nas imprensas e n'outros estabelecimentos como xylographas,
+impressoras, compositoras, directoras de officina, etc.
+
+Na Suecia ha hoje immensas escolas sustentadas pelo governo, pelas
+communas e por associaes particulares onde ensinam s raparigas pobres
+todos os trabalhos femininos do mnage. Ha escolas especiaes
+destinadas a formar creadas. Em Stockolmo ha escolas de remendagem onde
+as raparigas aprendem a concertar os seus fatos e a sua roupa branca com
+um acceio e uma arte inexcedivel. As meninas burguezas teem sua
+disposio a escola industrial de Stockolmo, as escolas normaes reaes, o
+instituto central de gymnastica onde se formam mestras de gymnastica, a
+academia real de musica, a academia das bellas artes os estabelecimentos
+de instruco das parteiras e a mesma universidade, onde se ministram
+subsidios a tres raparigas que estudam por conta do estado. Depois da
+Suecia devem-se citar os Paizes Baixos e a Austria. Em Vienna a
+municipalidade fundou em alguns bairros escolas industriaes nocturnas.
+Sociedades de senhoras estabeleceram escolas profissionaes de
+differentes especies. Ha uma sociedade especial encarregada de obter s
+mulheres meios de subsistncia (Frauenerwerb-Verein). Alm das escolas
+preparatorias para a instruco geral elementar e para a instruco
+superior, estabeleceu a referida sociedade uma escola de costura, uma
+escola superior de trabalho com um curso de estudos que dura tres annos,
+uma escola de desenho industrial, uma escola de commercio, uma escola de
+linguas, um curso especial para as empregadas na telegraphia. Na
+Hollanda na escola industrial de Amsterdam que se instrue a mocidade
+feminina no s nos trabalhos manuaes, taes como o bordado, costura
+mo e machina trabalhos de cartonagem e obras de palha, escripturao
+commercial, legislao commercial e pharmacia. Na Alemanha do norte e na
+Alemanha central ha egualmente muitas escolas industriaes fundadas por
+sociedades especiaes e por outras corporaes para a educao das
+raparigas e das mulheres. Um fabricante de Munich fundou uma excellente
+escola de ensino commercial para as raparigas da classe burgueza e da
+classe operaria. As mulheres que sem d'esta escola encontram
+immediatamente emprego nos bancos, ou nas casas de commercio.
+
+A Russia resolveu ultimamente facultar a matricula na escola de medicina
+de S. Petrsburgo s mulheres habilitadas com determinados titulos de
+capacidade. Logo depois da promulgao d'esta lei, quatrocentas mulheres
+se apresentaram como candidatos frequencia da alludida faculdade.
+
+ * * * * *
+
+Sabem dizer-nos o que que, sob este ponto de vista, se tem feito em
+Portugal? Esperamos que suas excellencias os senhores conservadores se
+dignaro responder-nos.
+
+ * * * * *
+
+O sr. marquez de Vallada mandou correr este mez os reposteiros
+brasonados dos seus sales para inaugurar as soires elegantes do
+presente inverno com um jantar _pri_.
+
+Assistiram todos os membros do gabinete e varios outros personagens
+illustres na politica e na burocracia. Sentia-se apenas uma falta n'essa
+reunio selecta: a ausncia absoluta de senhoras no palacio do nobre
+fidalgo. Bem sabemos que um jantar no precisamente como uma valsa
+para a qual a gente no ha de ir convidar a lagosta, nem danar com o
+per. Mas mesmo para o que comer no basta apenas a comida. O sr.
+marquez sabe a este respeito a opinio de Savarin: o bruto pasta, o
+homem come, s o homem de espirito que sabe comer. Ora uma duzia de
+barbatolas postos a mascar trufas uns diante dos outros em volta de uma
+mesa no nos parece que deem o espectaculo da espiritualidade mais fina.
+ preciso que concorram tambem as senhoras, com a _toilette_, com a fina
+pelle, com os perfumes, com as rendas, com as perolas, com as frescas
+risadas cristalinas, com os agudos ditos penetrantes, com a elevao
+finalmente, com a idealidade, com o espirito.
+
+ * * * * *
+
+Atravessar a gente por entre duas filas de criados gordos e graves como
+embaixadores, indo por baixo dos lustres, pizando um tapete espesso,
+dando o brao a alguem, ou seguindo mesmo, atraz, sosinho, na turba dos
+obscuros, com a claque debaixo do brao; entrar na sala de jantar,
+tepida, fulgurante de luz; contemplar a mesa de um aspecto tropical pela
+natureza das fructas e pela frma das flres trasvasadas do plateau,
+procurarmos o nosso nome nos bilhetes que esto em cima dos guardanapos;
+sentarmo-nos ao dce murmurio dos vestidos que se enffam ao nosso lado
+e dos talheres que telintam; desdobrar nos joelhos um amplo guardanapo,
+frio, lustroso e pesado, de linho de Irlanda; aconchegarmo-nos, unirmos
+os cotovellos ao corpo e inclinarmo-nos sobre o prato; metter na bocca a
+primeira colher do sopa, sentir estalar e derreter-se no dente o
+primeiro rabiolo, escorrendo no paladar o acre succo dos espinafres, em
+quanto a nossa visinha da esquerda mette a sua luva enrolada no copo do
+Madeira, e a nossa visinha da direita morde atrevidamente no po
+deixando-nos vr de lado todos os seus pequeninos dentes mais lindos que
+as suas perolas ... isto realmente acharmo-nos n'um dos momentos mais
+augustos que a civilisao e a elegencia concedem ao homem em paga dos
+sacrificios que elle lhes tem feito nos esmeros da educao e na alta
+cultura do espirito. ento que as mulheres, smente as mulheres--ellas
+que vivem na graa e no mimo como os solitarios vivem no egoismo e no
+tedio--desenvolvem o talento especial de fazer romper os alados
+assumptos ligeiros e subtis, em torno dos quaes adejam as conversaes,
+as phantasias, as replicas, os repentes, como doiradas abelhas famintas
+sobre um ramo de rosas.
+
+Se n'esses momentos os homens se acham ss, ou caem na bestialidade
+indolente e calada dos deuses de Epicuro, ou discutem, questionam,
+fallam alto, gritam, pem os cotovellos na mesa, fazem gestos, fazem
+bolas de po, do estalos com a lingua, limpam as unhas, e quebram
+palitos nos dedos--o que ha mais implicativo dos nervos e mais offensivo
+do gosto.
+
+ * * * * *
+
+Consta-nos que pelas razes referidas o jantar do sr. marquez tocou um
+pouco no tetrico. O silencio era a principio to solemne que apenas se
+ouvia confusamente o ruido da maioria parlamentar engolindo pelo
+esophago do ministerio e a ordem e a guarda municipal mastigando pela
+bocca do sr. baro do Zezere. Tinha-se ar de se estar n'uma sesso
+deliberativa e no n'uma festa; parece at que o sr. marquez de Avila, o
+illustre parlamentar, dirigindo-se a um criado, se mostrra gravemente
+preoccupado ao ponto de que, sendo a sua inteno pedir-lhe Sauterne,
+lhe pedira a palavra.
+
+Por fim parece que o dono da casa usara da fala para expr o objecto
+d'aquella reunio, o qual, segundo referem os jornaes, foi:
+
+_Affirmar a adheso do sr. marques de Vallada monarchia_.
+
+ * * * * *
+
+Achamos extremamente louvavel e digno de ser imitado por todos os
+fidalgos portuguezes o exemplo dado pelo sr. marquez de se sacrificarem
+pelo throno ao ponto de no hesitarem um momento, para o salvar, em
+irem ... para a mesa!
+
+Os vossos avs, quando queriam dedicar-se ao esplendor da cora iam
+bater-se em Arzilla, em Ormuz, em Ceuta, em Tanger, descobriam terras,
+venciam batalhas, conquistavam reinos.
+
+Quereis provar-nos que ainda guardaes nos vossos archivos as antigas
+cartas do roteiro dos mares? Que ainda tendes nas vossas panoplias as
+duras armaduras e as famosas lanas dos vossos maiores? Muito bem! Visto
+que no podeis refazer o que est j feito por elles, comeae pelo menos
+a realisar o que elles tantas vezes omittiram: jantae!
+
+E a cora ver, pela maneira como vos mostrardes aptos para comer,
+quanto sois capazes de amar.
+
+Assim como o Castro forte dizia que por cada pedra da fortaleza de Diu
+elle daria um filho, mostrae vs que por cada perna de per trufado
+sereis capazes de dar um av. E o soberano, jubiloso e grato,
+contemplando por cima da gloriosa terrina da historia contemporanea, os
+feitos valorosos dos vossos garfos invenciveis, apreciar os vossos
+titulos de immortalidade, discriminando, no ardor e na confuso das
+refregas, os que se lhe dedicam at ao pato com arroz, os que o
+estremecem at ao frango com hervilhas, os que o idolatram at s
+salchichas com couve lombarda!
+
+ * * * * *
+
+Mas por Deus, meus senhores, consenti que vol-o repitamos: No excluaes
+dos agapes patrioticos com que preparaes a entranha para a communho
+monarchica, o doce elemento feminino, o melhor encanto do triumpho, o
+mais alto premio do heroismo, o mais precioso complemento da gloria! Se
+a prosmicuidade dos sexos insuperavelmente vos repugna, que alguns de
+vs pelo menos se sacrifiquem s conveniencias da arte, s prescripes
+do bello, e salvem sequer as apparencias--vestindo-se de mulheres!
+
+Animo, senhores commandantes dos corpos! animo, senhores officiaes
+maiores! animo, senhores ministros de estado! por ellas, que vos
+pedimos isto, pelas que tiveram sempre o seu logar nas nossas gloriosas
+tradices dymnasticas! Lembrae-vos d'ellas, e ide lanar-vos aos ps da
+Aline! Lembrae-vos d'ellas, e consenti em decotardes os vossos hombros!
+Elanguescei, meus senhores, reclinae meigamente as frontes, cerrae
+levemente as palpebras, agitae um pouco os vossos leques, dae suspiros,
+ponde taes de setim escarlate, vinde de cuia! e, sobretudo--no o
+esqueaes--trazei _tournure_ ... Que vos custa trazer _tournure_? Uma
+coisa to facil, que se traz como as patronas!
+
+ pelo throno, pelo mesmo throno de que vos declaraes adeptos, que vos
+supplicamos isto! pelas vossas excelsas e augustas soberanas, no
+representadas no vosso banquete ... Em nome de Mecia Lopes, meus
+senhores! Em nome de D. Urraca!
+
+ * * * * *
+
+A imprensa de Lisboa no tem opinio. Aquelles dos seus membros que por
+excepo presentem as idas proprias, vivas, originaes zumbindo-lhes
+importunamente no cerebro, enxotam-as como vespas venenosas. que a
+misso do jornalismo portuguez no ter idas suas, transmittir as
+idas dos outros. Por tal razo em Lisboa o homem que pensa no nunca
+o homem que escreve. O jornalista nunca se concentra, nunca se recolhe
+com o seu problema para o meditar, para o estudar, para o resolver.
+Nunca procura a verdade. Procura apenas a soluo achada pelo publico,
+pelo publico d'elle, pelo seu partido politico, pelos consocios do seu
+club, pelos seus amigos, pelos seus protectores, pelos seus assignantes.
+Portanto trabalha na rua, debaixo da arcada do Terreiro do Pao, nos
+corredores ou nas tribunas de S. Bento, no Chiado, no Martinho, no
+Gremio. Como trabalha? Trabalha d'este modo: _informando-se_;-- o termo
+technico. Uma vez informado, o jornalista considera-se instruido. Desde
+que tem a informao recebida tem o jornal feito. O que elle vos escreve
+hoje--notae-o bem-- o que vs lhes dissestes hontem. O jornal no uma
+fonte de critica, de analyse, de investigao. O jornal o barril de
+transporte das idas em circulao, das solues previamente recebidas e
+approvadas pelo consenso publico. O jornalista o aguadeiro submisso e
+fiel da opinio. No a dirige, no a corrige, no a modifica, no a
+tempera. O unico servio que lhe faz este: transporta-a dos centros
+publicos aos domicilios particulares. O publico a nascente, o veio,
+ o manancial; a imprensa periodica simplesmente--o cano.
+
+ * * * * *
+
+Essa a lei geral da conducta da publicidade em Portugal. Toda a
+transgresso d'essa lei um eminente perigo para o que a commette. O
+leitor portuguez no quer que o seu livro ou o seu periodico o obriguem
+s fadigas da discusso e da controversia com o seu proprio espirito. A
+conquista desinteressada e pura da verdade no tem attractivo algum para
+as suas faculdades. As curiosidades e os interesses especiaes da alma
+portugueza repastam-se no sentimento: a reflexo molesta-a. Entre tantos
+escriptores nacionaes nunca houve um pensador. Descartes, Spinosa, Kant
+seriam inteiramente impossiveis no seio d'esta sociedade, a que falta a
+respirao logo que a tirem da rotina. No se lhes d, aos leitores
+portuguezes, de verem a verdade, mas querem a verdade atravez da
+opinio. Ninguem pensa fra das materias da ordem do dia. Que ha de
+novo? a nossa pergunta de todas as manhs. Esta phrase profundamente
+caracteristica quer dizer: Dem-me a senha e a contrasenha; digam-me em
+que pensam para eu saber o que hei do pensar. O meu jornal vem bom ou
+vem mau segundo ou no em cada dia a expresso das minhas convices
+baseadas em idas preconcebidas na convivencia do publico. O criterio
+substituido pelo _mot d'ordre_.
+
+Se n'um tal meio intellectual apparece um miseravel solitario, que no
+tem um partido, que no tem um centro, que no tem um _club_, que no
+tem sequer um botequim, mas que, no obstante, segue os successos do seu
+tempo e exprime a respeito d'elles uma opinio absolutamente individual,
+isto --livre, sobre esse homem cem todas as suspeitas, todas as
+presumpes malevolas que acompanham atravez de uma multido apalavrada
+um intruso mysterioso e sinistro. Tal a especie de acolhimento que por
+differentes vezes nos tem sido feito e que mais particularmente nos foi
+manifestado depois da publicao do nosso ultimo numero a proposito de
+dois artigos, um consagrado ao sr. Alexandre Herculano, outro destinado
+ casa de correco installada no convento das Monicas.
+
+ * * * * *
+
+Lemos alguns dos artigos que nos foram consagrados, e achamo-nos
+inteiramente edificados cerca do nosso desacato s instituies
+publicas e da nossa irreverencia com as glorias nacionaes.
+
+Smente, meus senhores, uma coisa nos parece ter-vos esquecido, e :
+demonstrar-nos que a reverencia das instituies e o respeito das
+celebridades gloriosas seja um instrumento de critica ou um meio de
+analyse. Porque ns--talvez o no tenhaes comprehendido bem--ns no
+somos propriamente os mestres de ceremonias da gerao a que
+pertencemos. No estamos aqui a leccionar mesuras nem a praticar
+experiencias sobre a variedade das curvas mais ou menos inclinadas a que
+se nos presta o espinhao. Ns somos apenas uns simples chronistas do
+tempo que vamos atravessando. Somos os contribuintes especiaes do mez
+para a historia geral do seculo. Ora no ser pondo-nos humildemente de
+cocoras no cho que ns veremos de mais alto as coisas e os homens. No
+exame e na apreciao dos factos o minimo vislumbre do respeito um
+perigo da verdade. Michelet, demolindo no seu ultimo livro a legenda
+napoleonica filha da reverencia da historia pelo falso heroismo de
+Bonaparte, mostra-nos que a fascinao grosseira produzida pelo heroe
+de Marengo e de Austerlitz teria cahido perante o bom senso e perante a
+gargalhada, se a Frana no tivesse perdido, depois do Terror, o riso, a
+sua grande arma contra os tyrannos.
+
+O primeiro dever da critica diante dos grandes acontecimentos e dos
+grandes personagens simplesmente o despreso ou a zombaria ... Michelet
+diz mesmo o sacrilegio como instrumento da verdade! e aconselha-nos
+que imitemos como historiadores o exemplo de Renaud de Montauband
+pegando n'um tio para barbear Carlos Magno.
+
+ * * * * *
+
+De resto, meus senhores, para que se mantenham na decencia do culto as
+tradies patrioticas, parece-nos inutil que ns nos occupemos d'isso.
+L estaes vs, diligentes e sollitos, para espanardes as teias da aranha
+aos velhos principios, para varrerdes as instituies veneraveis, e para
+conservardes em bom estado os heroes e os sabios, limpando-lhes as golas
+das sobrecasacas, engraxando-lhes os sapatos e pondo-lhes rap novo no
+nariz.
+
+ * * * * *
+
+Chegmos tarde para fallar da grande tragedia monumentosa do
+Mexilhoeiro. O paiz inteiro se pronunciou j sobre este caso, o maior da
+historia contemporanea. O facto tem sido largamente tratado em artigos
+de jornaes, em folhetins, em trechos de romance, em pias legendas, em
+dramas, em _te-deuns_ cantados em todas as cathedraes, em polkas
+expressivas, em missas rezadas em todas as egrejas, em felicitaes de
+todos os municipios, em sentimentaes mazurkas.
+
+Uma s coisa nos parece que falta, e a que propomos: um monumento que
+eternise to alto successo, levando s geraes vindouras esta lapide:
+
+AOS MOLHADOS
+POR UMA FRIA TARDE
+NO PEGO DO MEXILHOEIRO
+A GLORIA
+RECONHECE N'ESTE MONUMENTO
+OS IRREFRAGAVEIS DIREITOS
+DE TO ILLUSTRES VICTIMAS
+
+CONSTIPAO
+
+INDEX
+
+_Dos volumes d'esta chronica_
+
+PUBLICADOS AT HOJE
+
+
+ I--Maio................... 1871
+
+ II--Junho..................
+
+ III--Julho..................
+
+ IV--Agosto.................
+
+ V--Setembro...............
+
+ VI--Outubro................
+
+ VII--Novembro...............
+
+ VIII--Dezembro...............
+
+ IX--Janeiro................ 1872
+
+ X--Fevereiro..............
+
+ XI--Maro..................
+
+ XII--Abril..................
+
+ XIII--Junho a julho..........
+
+ XIV--Julho a agosto.........
+
+ XV--Setembro a outubro.....
+
+ XVI--Novembro...............
+
+ XVII--Dezembro...............
+
+XVIII--Janeiro a fevereiro.... 1873
+
+ XIX--Maro a abril..........
+
+ XX--Outubro a novembro.....
+
+
+Nota. D'hora vante cada um dos volumes d'esta publicao ser marcado
+com o correspondente numero.
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas: Chronica Mensal da
+Politica, das Letras e dos Costumes, by Ramalho Ortigo and Ea de Queiroz
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS ***
+
+***** This file should be named 14622-8.txt or 14622-8.zip *****
+This and all associated files of various formats will be found in:
+ https://www.gutenberg.org/1/4/6/2/14622/
+
+Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed
+Proofreading Team. This file was produced from images generously
+made available by the Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal.
+
+
+Updated editions will replace the previous one--the old editions
+will be renamed.
+
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+one owns a United States copyright in these works, so the Foundation
+(and you!) can copy and distribute it in the United States without
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+set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to
+copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to
+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
+charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you
+do not charge anything for copies of this eBook, complying with the
+rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose
+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
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+subject to the trademark license, especially commercial
+redistribution.
+
+
+
+*** START: FULL LICENSE ***
+
+THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE
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+
+Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm
+electronic works
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+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
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+Gutenberg" is associated) is accessed, displayed, performed, viewed,
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+through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the
+Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or
+1.E.9.
+
+1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted
+with the permission of the copyright holder, your use and distribution
+must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional
+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
+to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the
+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
+1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm
+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
+1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this
+electronic work, or any part of this electronic work, without
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+active links or immediate access to the full terms of the Project
+Gutenberg-tm License.
+
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+compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any
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+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
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+warranties or the exclusion or limitation of certain types of damages.
+If any disclaimer or limitation set forth in this agreement violates the
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+The Project Gutenberg EBook of As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das
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+
+This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
+almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
+re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
+with this eBook or online at www.gutenberg.org
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+Title: As Farpas: Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes
+ Outubro a Novembro de 1873
+
+Author: Ramalho Ortigo and Ea de Queiroz
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+Release Date: January 6, 2005 [EBook #14622]
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+Language: Portuguese
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+*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS ***
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+Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed
+Proofreading Team. This file was produced from images generously
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+<hr class="major" />
+<h1>
+ AS FARPAS
+</h1>
+<div class="centered">
+ <p>RAMALHO ORTIGO&mdash;EA DE QUEIROZ</p>
+ <p>CRONICA MENSAL DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES</p>
+ <p>3. ANNO</p>
+ <p>Outubro a Novembro de 1873</p>
+ <p>VOLUME XX</p>
+</div>
+<hr class="major" /><!--===================-->
+<blockquote>
+<p>
+ Ironia, verdadeira liberdade! s tu que me livras da ambio do poder,
+ da escravido dos partidos, da venerao da rotina, do pedantismo das
+ sciencias, da admirao das grandes personagens, das mystificaes da
+ politica, do fanatismo dos reformadores, da superstio d'este grande
+ universo, e da adorao de mim mesmo.
+</p>
+</blockquote>
+<p class="centered">
+ P.J. PROUDHON
+</p>
+<hr class="major" /><!--===================-->
+
+<p class="centered">
+ <b>SUMMARIO</b>
+</p>
+<p>
+ Regresso. Explicaes&mdash;Historia de uns ps&mdash;Modos de morrer. Os
+ Lovelaces do sepulchro. Os descamisados da cova&mdash;Epistola aos
+<a href="#catholicosdoporto">catholicos do Porto</a>.
+ A associao catholica, seus fins, seus meios, sua
+ organisao, seu programma. O catholicismo. A egreja refugio da
+ liberdade. As propagandas catholicas em Frana e na Italia. Manzoni,
+ Rosmini, Balbo, Chateaubriand, Lamartine, o sr. conde de Samodes. Os
+ padres portuguezes. O liberal, o reaccionario, o indifferente. O
+ confissionario. As academias da
+<a href="#picaria">rua da Picaria</a>. A mulher christ. O
+ partido liberal portuense e a infallibilidade do papa. O protestantismo
+ do sr.
+<a href="#bismark">Bismark</a>.
+ O seculo XVI. Theoria do scepticismo. A duvida na
+ politica, na sciencia, na religio. A
+<a href="#tolerancia">tolerancia</a>&mdash;Festa veneziana nas
+ aguas de
+<a href="#caparica">Caparica</a>&mdash;O
+ aio de sua alteza. O que o aio? O perfil do sr.
+<a href="#ferrao">Martens Ferro</a>.
+ A corte, a mocidade, a aventura, os taes encarnados,
+ as espadas dos paladinos. Semiramis, Cleopatra, Penelope e outras. A
+ regencia. O beijo de
+<a href="#laczinska">Maria Laczinska</a>.
+ A bengala de
+<a href="#constancia">Constancia de Arbes</a>&mdash;As
+ senhoras hispanholas e os faqueiros&mdash;O santo padre, o
+ imperador Guilherme, o martyrio e as pastilhas de Voltaire. O
+<a href="#chambord">conde de Chambord</a>
+ e o constitucionalismo. Saul, Pepino, Henrique IV. Historia
+ philosophica dos pontaps nas monarchias modernas&mdash;Perfil do sr. D.
+ Miguel de Bragana e influencia politica d'este rei, o seu typo
+ physionomico, o seu temperamento, a sua popularidade. De como se
+ fabricou o partido liberal portuguez.
+ O Joo Sedvem, o Jos da Policia, o Telles Jordo e a ida nova. De como
+ o actual principe D. Miguel anemico&mdash;O jornalismo, as idas, os
+ aguadeiros da opinio publica&mdash;O
+<a href="#mexil">drama do Mexilhoeiro</a>&mdash;A falta do
+<a href="#elementofeminino">elemento feminino</a>
+ nos banquetes patrioticos.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Leitor querido&mdash;Depois de uma longa absteno de tres mezes&mdash;os mezes do
+ vero&mdash;<i>As Farpas</i> voltam a apparecer no teu banquete ao mesmo tempo a
+ que recomeam a servir-se tambem as ostras.
+</p>
+<p>
+ similhana dos mariscos, qu no bom comerem-se nos mezes que no
+ teem r, estas paginas condimentosas e estimulantes, se abusasses d'ellas
+ no tempo quente, amigo, far-te-hian, talvez, furunculos.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Alm de que, o vero tem influencias de expansibilidade que
+ desconcentram a vida da esphera das suas condies normaes. a epoca
+ das viagens, dos banhos, das estaes do campo. Abandona cada um o
+ interior da sua casa, os seus habitos, as suas occupaes, a sua
+ hygiene, o seu trabalho. Frma-se uma existencia interina, transitoria,
+ supplementar. Est-se em uma casa alugada por dois mezes como hospede de
+ uma noite n'uma estalagem. No se reside; pernoita-se apenas, e
+ passam-se os dias. Com a supenso do trabalho esterilisam-se tambem as
+ idas, porque todo o trabalho uma fecundao da intelligencia. Assim
+ todo o ser humano temporariamente transplantado da parte de solo, de
+ atmosphera moral, em que ordinariamente exerce a sua actividade,
+ emurchece. O portuguez, que sempre l pouco, no vero ento no l nada.
+ Achei-me por muitas vezes durante a estao finda a bordo dos pequenos
+ vapores que fazem o transporte dos banhistas entre Lisboa e as praias.
+ Os setenta minutos d'estas breves viagens eram o tempo consagrado por
+ cada um para, por meio da leitura, pr as suas idas em relao com os
+ interesses intellectuaes e moraes do resto do mundo. Fra do convez dos
+ vapores de Belem ninguem nas praias l, ninguem tem comsigo um livro.
+ Isto no uma simples hypothese, uma observao positiva. Em
+ Pedroios, por exemplo, a vida&mdash;toda de porta da rua&mdash; transparente:
+ v-se o que cada um faz, quasi que tambem se v todo quanto cada um
+ sente e quanto cada um pensa. Pois bem, nas viagens dos vapores de
+ Belem, unico lapso de tempo destinado pelos banhistas ao estudo,
+ observmos durante o periodo de tres mezes consecutivos que ninguem lia
+ seno almanachs, colleces de cantigas ou de charadas, e os periodicos
+ de noticias. Que elementos para, a educao intellectual de alguns
+ milhares de cabeas: darem mergulhos no Tejo, aprenderem nos livros que
+ nasceu o dente do sizo ao sr. Alexandre Herculano, e saberem pelos
+ jornaes que o sr. commendador Santos foi Outra Banda em partida da
+ recreio, com os seus amigos, comer um safio!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ No foram essas porm as rases porque <i>As Farpas</i> se callaram durante a
+ estao calmosa. Os nossos motivos so inteiramente pessoaes. Ns
+ adoecemos ... Perda, leitor benevolo, estas perigosas tendencias de um
+ convalescente para a autobiographia. No, no foi um dente novo que nos
+ esteve crescendo. Ns no temos, como o immortal historiador a que acima
+ nos referimos, a honra de abrir estas linhas offerecendo patria e
+ sr. D. Guiomar Torrezo mais um novo instrumento gloriosamente
+ recemnascido para a trincadeira nacional.
+</p>
+<p>
+ O nosso mal, foi simplesmente uma affeco na larynge. Apanhmos isto
+ no Chiado. Tivemos na mucose da garganta as mesmas granulaes que
+ padecem os beduinos na mucose das palpebras por effeito do p nas
+ peregrinaes do deserto. O Chiado pagou-nos o pessimo gosto burguez,
+ especieiro, indigno, abominavel, de o frequentar, dando-nos esta doena
+ climaterica e local. Os hospitaes de S. Jos e do Desterro do as
+ desyntherias e as gangrenas; os tanques do Passeio do Rocio do as
+ febres paludosas e intermittentes; o Limoeiro e a Casa de deteno das
+ Monicas do as viciaes do sangue e as escrophulas; o Chiado e o
+ deserto da Arabia do as affeces granulosas da larynge e dos olhos.
+ Cada um d o que tem.
+</p>
+<p>
+ A poeira do Chiado uma especialidade curiosa, interessante, to
+ romanesca como a sombra da mancenilha. Esta poeira fina, miuda, subtil
+ como a <i>veloutine</i> de Lubin. Ligeiramente tocada pela aza morna do vento
+ leste, ensinua-se, entranha-se, penetra docemente, consoladoramente,
+ profundamente&mdash;como a calumnia. Depois, uma vez inoculada, produz as
+ ophtalmias e as esquinencias&mdash;as duas maiores enfermidades de Lisboa.
+ No simplesmente formada pelas trituraes da terra esta poeira. No,
+ porque o solo em Lisboa no de terra. Aqui a terra tem sido de tal
+ maneira misturada, falsificada, fingida, que, hoje, aquillo que
+ primitivamente era a terra j no tem terra nenhuma. O solo de Lisboa
+ formado de sobreposies de estercos, de amalgamas de lixo, de restos
+ pulverisados de fructas podres, de ces mortos e de papeis sujos.
+</p>
+<p>
+ De todas estas misturas requeimadas pelo vero, carbonisadas pelo sol
+ canicular, moidas sob as rodas dos trens e sob os ps pressurosos do sr.
+ conselheiro Arrobas, resulta o p envenenado da capital. Os papeis
+ velhos de Lisboa, dejeces burocraticas ou litterarias dos bancos, dos
+ cartorios, dos tribunaes, dos escriptorios dos negociantes, dos
+ jornalistas, dos advogados, dos tabellies e do sr. Melicio, so de tal
+ maneira abundantes que todos os esgotos da cidade no bastam para os
+ engulir. A brisa espalha esses papeis dilacerados pelas povoaes
+ suburbanas. A praia de Belem uberrima de papeis sujos, e Pedrouos, a
+ manso burgueza das villegiaturas officiaes, parece-se no aspecto
+ especial das suas immundicies com um corredor da secretaria das Obras
+ Publicas destinado a projecto de nitreira modelo pelos disvellos
+ agronomicos do sr. Rodrigo de Moraes Soares.
+</p>
+<p>
+ De modo que a antiga expresso <i>terra da patria</i>, com referencia a
+ Lisboa e seus suburbios, figura de rhetorica em demasia arrojada. A
+ patria do lisboeta no tem terra, tem os agglomerados residuos das
+ podrides e dos papeis velhos. O nauta vigilante, que do alto mar
+ descobre no azul o ponto escuro e indeciso d'estas praias, proceder com
+ louvavel exactido e amor da verdade se em vez do grito poetico de
+ <i>terra! terra!</i> comear a exclamar vista de Lisboa: Supedaneo de
+ Melicio!&mdash;ou&mdash;Nitreira de Soares!
+</p>
+<p>
+ Victima ns mesmo em todo o nosso apparelho respiratorio d'essas
+ influencias deleterias da geologia e da civilisao lisbonense, achamos
+ prudente substituir&mdash;como fizemos&mdash;a convivencia do publico pela do
+ gargarejo.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ No theatro de D. Maria, o drama&mdash;<i>Idiota</i>.
+</p>
+<p>
+ Suppoz-se pelos annuncios que <i>Idiota</i> seria uma pea sem nome do
+ auctor. Equivoco. Era um nome do auctor sem pea.
+</p>
+<p>
+ No theatro de S. Carlos exhibio extraordinaria dos ps do sr.
+ Barberat. A primeira vez que este cantor appareceu em scena os
+ violinistas da orchestra suppozeram que elle se lhes tinha calado&mdash;nas
+ caixas das rebecas.
+</p>
+<p>
+ Quando no dia da chegada elle poz porta as suas botinas para engraxar,
+ os creados do hotel cuidaram que elle rescindira a escriptura e se
+ retirava, por se lhes figurar que o sr. Barberat tinha j no corredor as
+ malas.
+</p>
+<p>
+ Em algumas alfandegas os guardas do fisco, desconfiados d'elle, teem-lhe
+ pedido as chaves dos ps!
+</p>
+<p>
+ Nunca at hoje poderam dormir juntos os ps e elle. Emquanto elle est
+ deitado de costas, os seus ps esto erguidos, ao fundo do leito,
+ embuados em capas, contemplando-o, firmes e silenciosos. Pela manh os
+ ps esto mortos de somno e de fadiga, e para que elles se deitem um
+ momento, elle ento, compadecido&mdash;levanta-se.
+</p>
+<p>
+ Ou por que elle os no queira desasocegar de dia, lembrando-se de que
+ teem de estar a p de noite, ou porque elles mesmos se recusem
+ obstinadamente a uma evoluo a que debalde os teem querido algumas
+ vezes violentar, o artista desistiu absolutamente de vestir as calas
+ pelos ps e comeou a vestil-as, como a camisa,&mdash;pela cabea. Antes de
+ chegar a esta prudente soluo, o cantor, para conseguir vestir-se, era
+ obrigado todas as manhs ou a descoser as calas, ou a desmanchar os
+ ps.
+</p>
+<p>
+ Uma das coisas que mais vivamente picou a curiosidade do publico nas
+ primeiras vezes em que este artista se mostrou em S. Carlos foi saber
+ como elle poderia cantar n'um theatro pequeno para que podesse estar
+ mais alguma coisa em scena alm d'elle com os ps. O empresario acaba de
+ confiar-nos a explicao d'esse segredo, que elle nos permitte enviar
+ d'aqui como uma dadiva sua justa anciedade das platas. Mesmo porque o
+ empresario attribue, com bastantes probabilidades de acerto, a esta
+ preocupao do publico perante os ps phenomenaes do baixo a frieza
+ desdenhosa com que nas primeiras noites se escutou o canto to vivamente
+ sentido, to profundo e to genial da Galetti.
+</p>
+<p>
+ Pois bem, meus senhores, no pensem mais n'isso. Querem saber como elle
+ cantava nos pequenos palcos?...
+</p>
+<p>
+ Do mesmo modo que cantam os gallos&mdash;n'um p s.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ praia da Torre em Belem foi hontem arrojado pela mar o cadaver de um
+ homem afogado Era ainda novo, robusto e forte. Estava vestido de panno
+ azul. A jaqueta e o collete que vestia tinham botes de metal doirado
+ com uma ancora em relevo. Na manga estava presa uma cora tambem de
+ metal. Tinha na algibeira um relogio e algumas moedas de prata
+ portuguezas e brazileiras. As auctoridades da policia e da saude vieram
+ praia e olharam para o cadaver, como a lei manda. Depois do que,
+ officialmente averiguado que estava ali effectivamente o cadaver de um
+ afogado, pegaram nelle, atiraram-o ao fundo de uma cova aberta pressa
+ na praia, e cobriram-o com alguns metros de areia.
+</p>
+<p>
+ Bem feita coisa!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Nem toda a gente vae para a sepultura com esta simplicidade de
+ apparatos, a que podemos chamar o <i>enterro incivil</i>. Mas todos os ces
+ se enterram por este modo, e no por isso menos repousado o seu eterno
+ somno. Alm de que, preciso que cada um se apresente na eternidade em
+ condies que no desdigam da gerarchia em que viveu e do conceito em
+ que o teve a sociedade e a opinio publica. Pretender o contrario
+ querer lograr a divina justia sujeitando-a a illudir-se com o aspecto
+ exterior dos mortos e a acolher com os mesmos cumprimentos na crte do
+ ceu o primeiro aguadeiro que chegue assim como o mais digno e
+ respeitavel ministro de estado ou general de diviso que se
+ apresente,&mdash;o que seria certamente para Deus um desgosto profundo. Logo:
+ que cada qual morra como o que e v para o outro mundo como o que foi,
+ para no pr em equvocos a celestial etiqueta!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ um senhor conselheiro a pessoa que morre, na sua cama, victima da sua
+ gotta? Vestem-se-lhe as suas calas de presilhas e galo de oiro, e a
+ sua farda bordada; prega-se-lhe no peito a constellao das suas placas
+ de diamantes, faz-se-lhe a barba, retinge-se-lhe o cabello, pe-se-lhe
+ ao lado o espadim e as luvas brancas, o chapeu armado sobre o ventre e
+ um pouco de carmim nas faces. E eil-o ahi est em toda a plenitude e em
+ toda a magestade dos seus meios physicos e da sua importancia social. As
+ pallidas Julietas dos sepulchros e as immodestas Rigolboches da tabida
+ podrido e dos gulosos vermes do <i>chic</i>, que se acautelem d'esse magano
+ de bom gosto!
+</p>
+<p>
+ Elle poderoso: deixou na terra muitos necrologios e muitas missas, e
+ vae optimamente recommendado pelo alto clero especial proteco do
+ Padre Eterno.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ O que morre pelo contrario um destes infimos e asquerosos animaes, de
+ jaqueta de panno azul com botes de ancora, que andam a bordo dos navios
+ sobre a agua do mar? Uma onda envolve-o no tombadilho e arroja-o ao
+ abysmo inclemente? Suspende-se ento por dois ou tres minutos a marcha
+ da embarcao&mdash;um slido paquete talvez, luxuoso, commodo, de uma forte
+ companhia, em que tudo est seguro para os riscos da navegao, tudo
+ menos a gente,&mdash;lana-se uma boia de salvao, arreia-se uma lancha com
+ quatro homens, e alguns <i>gentlemen</i> que sobem tolda, tiram dos estojos
+ de couro de Varsovia que trazem ao tiracollo os seus binoculos e
+ assestam-os sobre o elemento. Apesar porm d'estas delicadas attenes,
+ o bruto desagradecido desapparece. Dois ou tres dias depois, a mar, com
+ nojo, cospe-o praia da Torre juntamente com outras immundicies.
+</p>
+<p>
+ Que queres tu d'aqui, meu estupido? Isto no nenhuma selvagem ilha
+ deserta e encantada, querida dos luares transcendentes de que fallam
+ phantasia as musicas de Bethowen e os versos do Ileine, e em que se
+ figuram, sob uma luz de esmeralda, os bailados da opera.
+</p>
+<p>
+ Aqui no ha os profundos paraizos aquaticos habitados pelas ondinas e
+ pelas sereias de beijos deliciosos e gelados. No ha os duendes das
+ phantasticas florestas que te suspendam, sob o luar impregnado de
+ calidos aromas e de nocturnas harmonias, nos beros aereos das magnolias
+ e dos lilazes em flor, nem beneficas deidades transparentes que te
+ cinjam nos seus doces braos e te levem n'uma festa nupcial para os seus
+ leitos de algas, de coral e de perolas, no fundo dos dormentes lagos,
+ sob as folhas dos nenufares.
+</p>
+<p>
+ No, isto aqui uma praia decente e grave onde os senhores oficiaes de
+ secretaria o os senhores desembargadores veem durante a villegiatura
+ sentar-se pela fresquido das tardes, com suas mulheres, contemplando
+ austeros e recolhidos as babugens da vasante e o fronteiro panorama, to
+ magestoso e solemne, da Fonte da Pipa. d'esta praia que o senhor
+ commendador Santos e o senhor commendador Firmo e o senhor commendador
+ Eloy teem partido em fina companhia de virtuosas damas, com honestas
+ guitarras e casto peixe frito, a bordejar no Tejo. aqui que a illustre
+ e veneravel burguesia de Lisboa faz as suas estaes balneatorias.
+ n'estas aguas que ella annualmente refresca e desemporcalha a sua gorda
+ carne. aqui que o mesmo poder moderador tem vindo, por vezes, com sua
+ augusta e elegante consorte demolhar no argento o excelso e inviolavel
+ systema nervoso da monarchia e da constituio.
+</p>
+<p>
+ Portanto, immundo, tu que morreste afogado no oceano e te deixaste
+ rolar para a praia da Torre, impertinente como o esqueleto de um goso
+ morto de fome na Trafaria, tu, imbecil, se querias mais alguma
+ considerao, mais algum respeito com os teus restos, fosses cahir a
+ outra parte.
+</p>
+<p>
+ Trazias algum dinheiro na algibeira, o sufficiente para te pagares o
+ luxo de um padre e de uma cova, mas, realmente tu no tinhas aspecto de
+ mereceres a pena de que alguem se occupasse por um minuto comtigo.
+</p>
+<p>
+ Animal! se querias ser enterrado com respeito e commoo, se querias ter
+ artigos nos jornaes e padres a cantarem-te o <i>De profundis</i>, porque foi
+ que em vez de te afogares de jaqueta, te no afogaste com uma farda de
+ almirante, ou de casaca preta e gr cruz dentro de um <i>coup</i> da
+ companhia?!
+</p>
+<p>
+ Deixaste por acaso na terra uma velha me desamparada, uma esposa
+ lacrimosa, uma filha orph, uma familia, a que seria doce ajoelhar sobre
+ a tua sepultara ou plantar algumas flores sobre a terra que te cobrisse?
+ Querias permittir-lhes essa extrema consolao? Deixasses-te ficar no
+ Chiado ou no Terreiro do Pao, tornasses-te um dos elementos
+ constituitivos da civilisao lisbonense, fizesses-te moo de recados,
+ agiota ou empregado publico. Vive-se assim na corrupo, na usura, na
+ humilhao ou na miseria, mas enfim morre-se bem, barato&mdash;e muito!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ O <i>Jornal da Noite</i> publica uma conta de despeza feita pelo presidente
+ da republica dos Estados Unidos, Abraho Lincoln, em um hotel de Albany.
+ O illustre democrata e as pessoas do seu sequito pagaram a somma de um
+ conto e alguns mil ris por uma hospedagem de menos de vinte e quatro
+ horas.
+</p>
+<p>
+ Este facto argumenta vivamente contra a opinio dos que acham as
+ republicas mais baratas para os povos do que as monarchias.
+</p>
+<p>
+ Effectivamente vemos que, ao passo que o presidente da republica da
+ America do Norte faz um conto de ris de despeza em algumas horas em
+ Albany e paga essa despeza, sua magestade o imperador da America do Sul
+ dispende no Porto mil libras em quatro dias, e no as paga.
+</p>
+<p>
+ indubitavel pois que as monarchias so incomparavelmente mais baratas
+ do que as republicas.
+</p>
+<p>
+ Deve-se porm observar que, sob este ponto de vista, o descredito das
+ democracias prodigas procede principalmente das estalagens exigentes.
+ Porque est provado que sempre que um republicano em viagem pretende
+ gastar to pouco como um rei economico, os estalajadeiros fazem ao
+ republicano o seguinte: sequestram-lhe a bagagem.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Parece-nos arriscado estabelecer entre os principes e os povos esta
+ perigosa competencia de quem ha de pagar menos em viagem. Pois que,
+ realmente, desde que as testas coroadas chegaram ao ideal de se
+ apoderarem das contas e no pagarem nada, os povos s podero desbancar
+ os reis se, no pagando egualmente nada, comearem a estabelecer este
+ uso: depois de se apoderarem das contas, apoderarem-se egualmente&mdash;das
+ pratas.
+</p>
+<hr id="catholicosdoporto" />
+<p>
+ <b>Primeira aos membros da Associao Catholica no Porto</b>
+</p>
+<p>
+ Meus senhores e minhas senhoras.&mdash;Em nome da Nosso Senhor Jesus Christo
+ e da Santa Madre Egreja Catholica Apostolica Romana, eu vos sado e vos
+ desejo a divina graa. Como tenho obrigao de vos suppr&mdash;taes como o
+ dizeis&mdash;sinceros e dedicados servos de Deus, devotados a cumprir a sua
+ lei e a divulgar a sua doutrina, mais vos desejo que nunca vos persigam
+ os bens e as riquezas temporaes de que certamente vos despojastes para
+ seguir a Jesus. Eu sei que o divino mestre, antes de mandar aos
+ apostolos que o acompanhassem, lhes ordenou que deixassem as redes,
+ fazendo-nos sentir por esta frma que ninguem pde estar com Deus
+ estando ao mesmo tempo com o mundo, e que para ter os bens do co a
+ condio essencial&mdash;abandonar os da terra. Primeiro: <i>deixae as redes</i>;
+ depois: <i>vinde commigo</i>.
+</p>
+<p>
+ Amados irmos, presumindo-vos pobres, desvalidos, tendo previamente dado
+ o vosso po aos que tinham fome e os vossos vestidos aos que tinham
+ frio, eu desejo ainda sobre a vossa nudez a mortificao da vossa carne,
+ a santa mortificao que raspa a vaidade e o orgulho e limpa o
+ entendimento e a alma das lepras mundanaes.
+</p>
+<p>
+ Que a graa de Nosso Senhor vos assista e que nada mais do que
+ temporal se vos pegue, porque n'este mundo tudo esterco: <i>Omnia ut
+ stercora</i>, como muito bem disse S. Paulo!
+</p>
+<p>
+ Se vos no poderdes furtar aos contactos impuros do seculo, permitta o
+ ceo que em todas as vossas relaes com a sociedade todas as invectivas
+ e todas as malquerenas pharisaicas vos punjam e vos espicassem o
+ corao, assim como os chacaes famintos furam e rasgam no deserto as
+ tendas dos piedosos peregrinos. Porque&mdash;bem o sabeis&mdash;s com as
+ inimisades do mundo podereis merecer e lograr a amisade de
+ Deus:<i>amicitia hujus mundi inimica est Dei</i>.
+</p>
+<p>
+ Finalmente, meus senhores e minhas senhoras, resumindo os meus votos
+ pelo molde mais consentaneo com as vossas aspiraes, que o Senhor vos
+ veja eternamente no ceu e vos aplane o caminho da promisso, tendo-vos
+ tanto de sua mo que nunca sobre vs deixem de chover as dores e as
+ ruinas, por isso que, como diz o psalmista, ser pela somma das vossas
+ penas contingentes, transitorias e mundanaes, que sero medidas as
+ vossas alegras celestiaes e eternas!&mdash;<i>Secundum multitudinem dolorum
+ meorum in corde meo, consolationes tuae laectificaverunt animam meam.</i>
+</p>
+<hr id="picaria" />
+<p>
+ Permitt-me agora que, antes de entrar em algumas breves consideraes
+ que a natureza do vosso instituto me suggere, eu me detenha um momento
+ na simples contemplao do nome que lhe puzestes.
+</p>
+<p>
+ Que razes poderiam levar-vos, beatissimos senhores, a denominardes
+ <i>catholica</i> a associao que fundastes, ahi no Porto, em certa casa da
+ rua da Picaria? Que significa uma associao chamada <i>catholica</i> no meio
+ de uma sociedade egualmente catholica? Quem que no <i>catholico</i> em
+ Portugal? No temos ns todos a mesma religio, que no uma religio
+ especial da rua da Picaria, mas sim a bem conhecida religio do paiz, a
+ religio do estado, a religio famosa da carta? Ignoraes por acaso que
+ nenhuma associao pde ser em Portugal seno isso&mdash;<i>catholica</i>?
+ Ignoraes que no temos a liberdade dos cultos, a divergencia de
+ religies?...
+</p>
+<p>
+ Ora, no havendo o mosaismo aqui no Chiado, no existindo o pantheismo
+ no Rocio, nem o lutheranismo no Terreiro do Pao, nem o fetichismo no
+ Arco do Bandeira, o que vem a ser um catholicismo da rua da Picaria na
+ cidade do Porto? Ter cahido o Porto porventura no paganismo idolatra?
+ Estar elle sacrificando a Jupiter a sua rica vacca cosida? Tel-o-hiam
+ levado os seus representantes, os seus philosophos, os srs. Faria
+ Guimares e Pinto Bessa, s vertiginosas regies do livre exame, onde o
+ espirito humano, abatido, fatigado, morde na solido o fructo amargo da
+ sciencia?...
+</p>
+<p>
+ No. Eu visitei o Porto ha pouco tempo. Cheguei ahi no dia 24 de junho.
+ A cidade tinha o aspecto mais jubiloso e festival. Erguiam-se arcos
+ triumphaes nas embocaduras das ruas, palpitavam virao matutina
+ bandeiras desfraldadas nas janellas das casas. Na rua de S. Joo os
+ habitantes, de camisa lavada e barba feita, passavam com bandejas cheias
+ de lanternas para luminarias, outros espetavam no cho mastros
+ embandeirados; iam, vinham, fallavam alto, tinham gestos abundantes e
+ felizes. As egrejas por onde passei estavam cheias at porta de fieis
+ que ouviam as primeiras missas. Os sinos repicavam em todas as torres, e
+ os foguetes furavam o limpido azul da manh.
+</p>
+<p>
+ O Porto, onde n'esse dia devia celebrar-se um grande <i>meeting</i> liberal,
+ comeava no emtanto&mdash;por festejar o S. Joo!
+</p>
+<p>
+ Portanto, meus senhores, se vs vos denominaes catholicos, no porque
+ supponhaes que os outros o no so; porque vos parece que o sabeis ser
+ melhor do que os outros, e pretendeis que vos considerem como unicos
+ catholicos perfeitos, catholicos affianados, catholicos garantidos.
+</p>
+<p>
+ Se isto o que quereis dizer-nos com o titulo escolhido para a
+ vossa associao, e no podeis querer dizer outra coisa,
+ ento&mdash;meditae-o&mdash;achaes-vos em peccado mortal de soberba, de jactancia,
+ de presumpo de merecimentos.
+</p>
+<p>
+ Localisando por esse modo a religio na rua da Picaria, vs lanaes
+ tacitamente a suspeita de impiedade nas demais ruas da cidade da Virgem.
+</p>
+<p>
+ Pois bem, que a Picaria o saiba: a viella do Ferraz tambem vae missa,
+ e Deus sabe se jejua ou no, s sextas-feiras, a Ferraria de Cima!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Advirtamos agora como a associao catholica tem correspondido pela
+ importancia dos seus actos audaciosa escolha do seu titulo.
+</p>
+<p>
+ At o momento em que vs vos apoderastes do catholicismo para vos
+ fechardes com elle na rua da Picaria, cabia ao catholicismo a gloria de
+ ter inspirado as maiores obras produzidas pelo espirito humano.
+</p>
+<p>
+ Foi esse pobre catholicismo, ainda ento desprotegido do valioso
+ patrocinio que n'este seculo lhe devia conceder a vossa associao, meus
+ illustres senhores e minhas preclaras senhoras, foi elle, ainda
+ desalbergado da rua da Picaria, o que na edade media fez brotar da
+ imaginao dos povos o que ha mais bello nas artes, os maravilhosos
+ poemas, as ternas legendas melancolicas, as portentosas cathedraes. Foi
+ elle que levou Pedro Eremita e Godofredo de Bulhes a descerem o valle
+ do Danubio e a seguirem o caminho de Attila. Foi elle que inspirou Tasso
+ e Dante. Foi elle que produziu S. Thomaz, o <i>boi mudo de Sicilia</i>, o
+ Aristoteles do christianismo&mdash;como lhe chamou Michelet&mdash;, o mais
+ poderoso cerebro da egreja. Foi elle que creou em Hispanha desde o
+ seculo XVI at o seculo XVII no meio da maior escravido e do maior
+ fanatismo, o mais brilhante grupo de artistas que tem visto o mundo:
+ Velasquez, Murillo, Herrera, Zurbaran, Lope de Vega, Calderon,
+ Cervantes, Tirso de Molina, Luiz de Leon. O profundo mysticismo de
+ Quixote um reflexo do poder da f em todos esses espiritos. Calderon
+ era official do santo officio e Lope de Vega desmaiava em extase ao
+ dizer missa. O catholicismo inaugurou ainda a sociedade mais popular,
+ mais accessivel, mais equalitaria. No meio da barreira levantada diante
+ da plebe pelos privilegios do sangue, a egreja era o portico de todos
+ os grandes talentos e de todas as elevadas ambies: o papa Urbano IV,
+ filho de um sapateiro, edificava a egreja de Santo Urbano e expunha
+ n'ella, bordado em uma rica tapessaria, o retrato de seu pae fazendo
+ sapatos.
+</p>
+<p>
+ Por outro lado o catholicismo deu-nos ainda a Saint-Barthelemy, a
+ carnificina nacional dos christos novos, a Inquisio, a guerra dos
+ trinta annos, os monges bretes que envenenaram o calix de Abeilard e os
+ dominicanos de Buon Convento que assassinaram Henrique VII, fazendo-lhe
+ commungar o veneno na hostia consagrada.
+</p>
+<p>
+ Protegido por vs, meus senhores, tutelado pela vossa sociedade
+ propagandista da rua da Picaria, o catholicismo portuense tem-nos dado
+ apenas:&mdash;como carnificina, quatro pranchadas nas espaduas de quatro
+ patriotas porta da S; como arte, a <i>Palavra</i>, um pobre jornal piegas,
+ lacrimoso e beato, com pouca elevao, com pouco enthusiasmo, com pouca
+ f, e com alguns erros de grammatica.
+</p>
+<p>
+ Ora realmente, meus senhores, para resultados to mediocres no valia a
+ pena de vos dardes o apparato de quem funda uma agencia para a
+ Bemaventurana e nos fecha o ceu&mdash;n'um armazem de commisses.
+</p>
+<p>
+ Em 1849 havia na Italia uma propaganda catholica, cujos membros todavia
+ no chegaram nunca a aggremiar-se e a constituir-se em sociedade como os
+ cavalheiros e as damas da rua da Picaria.
+</p>
+<p>
+ O chefe da propaganda italiana era um dos espiritos mais rectos e mais
+ benignos, era o doce e pacifico poeta Manzoni, recentemente fallecido.
+</p>
+<p>
+ <i>I promessi Sposi</i>, o celebre romance to conhecido, foi como o <i>Genio
+ do Christianismo</i>, de Chateaubriand e como as odes religiosas de
+ Lamartine, inspirado por essa reaco catholico-litteraria com que os
+ romanticos de 1830 bateram as idas philosophicas do seculo XVIII.
+</p>
+<p>
+ Manzoni porm, servindo a causa catholica como propagandista, e abrindo
+ um exemplo que se tornou escola de muitos escriptores e poetas
+ italianos, Manzoni, em primeiro logar, escrevia para esse fim livros
+ adoraveis,&mdash;e que vs, meus queridos senhores no resolvestes ainda
+ comear a fazer na vossa officina religiosa da rua da Picaria. Em
+ segundo logar Manzoni considerava a ida religiosa como um elemento de
+ emancipao e de regenerao para a Italia ento opprimida e
+ escravisada. Finalmente Manzoni no tinha por fim especial glorificar os
+ padres, arregimental-os, armal-os, pl-os em p de guerra, como o est
+ fazendo a associao catholica portuense. Pelo contrario, Manzoni sabia
+ que os padres italianos do seu tempo eram, como Cant os descreve tomado
+ do mais santo horror: glutes, avaros, estupidos e bandidos. O perfil
+ ideal do padre Borromeu nos <i>Promessi Sposi</i> no tinha pois a inteno
+ de um retrato, era o estabelecimento de um novo nivel para a opinio,
+ era um exemplo, era uma lio dada pelo modo delicado e brando com que o
+ desgosto profundo inspirra a alma candida e honesta do piedoso
+ escriptor.
+</p>
+<p>
+ Feita assim, n'estas circumstancias, n'estas condies, por estes meios,
+ eu comprehendo a propaganda catholica, e inclino-me respeitosamente
+ diante dos que a servirem e a promoverem. No me parece todavia que seja
+ esse o caso da Associao catholica portuense, nem no que diz respeito
+ aos fins que ella se prope, nem no que toca aos meios que emprega para
+ conseguir o seu fim.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Que pretende a associao catholica?
+</p>
+<p>
+ Libertar a patria, chamal-a independencia, fortificando com o
+ sentimento religioso a f patriotica, como fizeram Manzoni, Rosmini,
+ Gioberti, Balbo e outros na Italia invadida pela dominao? No, porque
+ Portugal, por emquanto independente e livre.
+</p>
+<p>
+ Estabelecer a cathechese? Diffundir a moral? Regenerar os costumes? No,
+ porque, no sendo publicas as sesses da associao e no tomando parte
+ n'ellas seno os mesmos associados, pessoas cujos costumes e cujas
+ crenas religiosas foram d'antemo affianados, estes acham-se
+ satisfatoriamente moralisados e instruidos.
+</p>
+<p>
+ Educar o clero, aprestando-o para uma influencia mais directa e mais
+ proficua nos interesses da cidade ou nos interesses do ceu? Tambem no,
+ pelas razes seguintes:
+</p>
+<p>
+ Os padres portuguezes acham-se todos incluidos em uma d'estas tres
+ classes:&mdash;os indifferentes, os liberaes e os reaccionarios.
+</p>
+<p>
+ O padre indifferente vive obscuro e tranquillo no fundo de uma aldeia
+ entre a sua lavoira e o seu campanario. Baptisa as creanas, confessa
+ os adultos e absolve os que morrem. Se no forem todos para o ceu, a
+ culpa no d'elle. Cartilha e bons conselhos propina-lh'os todos os
+ domingos depois da missa conventual; se os no tomarem para seu bem, l
+ se aviro com o demonio no outro mundo e c na terra com o regedor. De
+ resto elle cava a sua horta, grande madrugador, deita-se com as
+ gallinhas, diz a missa ao romper d'alva, caa a perdiz no inverno e
+ pesca os barbos no vero. Alm de um bocado de breviario, no l seno
+ um repertorio para estar ao facto das luas e saber quando convm
+ alporcar as pereiras e semear os pepinos. Bom homem, rijo, satisfeito,
+ sanguineo, infatigavel companheiro na caa e na mesa, se tentardes
+ esgrimir com elle algumas idas politicas ou religiosas, algumas
+ subtilezas de critica, de controversia, ter tonturas, arregalar os
+ olhos, ouvr-se-lhe-ho rugidos interiores e no sentir seno um
+ desejo: o de vos aular s pernas os seus ces e cascar-vos pela cabea
+ com o seu grosso marmeleiro argolado.
+</p>
+<p>
+ O padre liberal habita as cidades, l os periodicos, intervm em
+ eleies, frequenta os botequins e as casas de jogo, fuma cigarros, e
+ protesta vigorosamente contra a reaco e contra o jesuitismo, trazendo
+ os dedos amarellos e tomando medicamentos secretos.
+</p>
+<p>
+ O padre reaccionario anda quasi sempre de loba; tem os olhos baixos, o
+ passo miudo e commedido, o sorriso contrafeito como uma coisa azeda
+ misturada com assucar; gordura fria e pallida, um tanto sinistra; mos
+ brancas, suadas, viscosas; ps moles, de pato, arrastando. O
+ confissionario para elle uma vocao, um destino, um prazer: a sua
+ arte. Algumas vezes mobila-o com certo luxo, introduz-lhe um soph e
+ abastece-o de viveres: uma lata de po de l e copos com gela. ahi
+ que elle escuta, de olhos meio cerrados e mos crusadas no peito, as
+ confidencias secretas das mulheres, os casos encobertos s mes e aos
+ maridos, os inveterados vicios escondidos e os grandes crimes occultos,
+ as obras e os pensamentos, os alvoroos da carne no meio da penitencia e
+ da orao, as tentaes do inimigo, os ardentes desejos diabolicos, os
+ pungentes escrupulos de alcova, a grande tragedia intima dos mysticos e
+ dos solitarios. Elle escuta, manda repetir, inquire, investiga, indaga,
+ minucia por minucia, as circumstancias que aggravam e as circumstancias
+ que attenuam; disseca o peccado, desfibra-o musculo por musculo, nervo
+ por nervo, arteria por arteria; depois reconstitue-o, recompe-o,
+ inteira-o, evoca-o, fal-o resurgir nos olhos da penitente&mdash;para a
+ moralisar com a enormidade do erro. A culpa, assim rediviva pelos
+ retoques finos, dialecticos, incisivos do stylo theologico e casuistico
+ dos commentadores do Decalogo, a culpa repintada com essa arte mais
+ sabia, mais poderosamente minuciosa que a de todos os modernos
+ romancistas psychologos dos vicios torpes e vergonhosos, cinge outra vez
+ a peccadora, colla-se estreitamente com ella como a serpente do Eden,
+ envolve-a nas suas espiraes, penetra-a da sua essencia magnetica,
+ communica-lhe a electricidade dos seus filtros. ento, n'esse momento
+ terrivel de crise, nevralgico, histerico, allucinado, que elle critica
+ friamente, com uma analyse perpendicular, dominadora, arbitra da
+ commoo; e consola, aconselha, admoesta, subjuga, domina, e absolve ou
+ condemna, elle, elle em nome do Creador, a fragil creatura desmaiada aos
+ seus ps. O padre reaccionario faz parte da grande centralisao
+ catholica, uma das rodas do grande machinismo, vive no systema de
+ partido como na obediencia e na regra de um instituto. No pensa nem
+ discute. O seu rumo est tomado; segue-o apezar de tudo, atravez de
+ tudo, como um boi abre um rego, com os olhos tapados. Tem heranas de
+ velhas devotas, avultadas esmolas de missa, frequentes presentes de
+ confessadas. Vende agua de Nossa Senhora de Lourdes ou de La Salette.
+ Cobra os dinheiros de S. Pedro e remette-os para Roma, assigna a
+ <i>Nao</i>, e quasi sempre rico.
+</p>
+<p>
+ Dos padres d'estas tres categorias quaes so aquelles que a associao
+ Catholica influe, aconselha ou dirige?
+</p>
+<p>
+ O padre obscuro nem mesmo sabe que tal associao existe. O padre
+ liberal seu inimigo e adversario intransigente. Resta-lhe o padre
+ ultramontano.
+</p>
+<p>
+ Ora este ultimo padre o vo de que a associao Catholica a ave.
+ Ella no o modifica, no o educa, no o adverte, no o illustra. Faz-lhe
+ simplesmente isto: choca-o. Depois, quebrada a casca do sr. padre Couto,
+ o sr. conde de Samodes apparece.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ A associao Catholica celebra periodicamente reunies, a que chama
+ academias. Que se faz n'estas reunies frequentadas por muitas senhoras
+ da primeira sociedade portuense, o que ha de mais digno, de mais
+ inviolavel e de mais sagrado?
+</p>
+<p>
+ Relevem-nos este ponto de interrogao, que no tem de nenhum modo a
+ impertinencia de uma pergunta e deve apenas ser considerado da nossa
+ parte como um simples ponto de perturbao e de pasmo.
+</p>
+<p>
+ Se os homens estivessem ss comprehendemos que as reunies da associao
+ Catholica fossem para elles um meio do repousarem suavemente das fadigas
+ temporaes, dos enganos do mundo, das illuses e das vaidades do seculo.
+ Concebemos perfeitamente que depois de terminados os seus negocios,
+ assignada a sua correspondencia, pagas as suas lettras, despachadas as
+ suas mercadorias, fechada a sua caixa, comido amplamente o seu jantar,
+ saboreado o seu caf e o seu <i>kumel</i>, elles encerrassem o seu dia
+ juntando-se todos fradescamente, sem etiqueta, sem cerimonias de
+ elegancia nem de <i>toilette</i>, e que, em seguida, descalassem as botas e
+ dissessem: Ora dissertemos l um bocado sobre a immortalidade da alma!
+</p>
+<p>
+ Mas, com senhoras, com senhoras elegantes e bellas, que ho de apear-se
+ das suas carruagens, depr os seus burnous no <i>vestiaire</i> e penetrar no
+ salo, sob o gaz, n'uma onda scintillante de setim e de renda, que faro
+ os homens?
+</p>
+<p>
+ Ho de se ter espalhado na athmosphera os perfumes da <i>toilette</i>, os
+ murmurios dos vestidos, os reflexos das joias e as confusas palavras
+ finas, magneticas, que susurram sob a palpitao dos leques. Suppomos
+ que no ha orchestra nem piano, de modo que as pessoas devotas no
+ podero dirigir-se immediatamente ao sr. padre Couto para que as faa
+ valsar; no estaro patentes os ultimos telegrammas dos successos de
+ Hispanha; no haver um servio de gelados trazido em bandejas de prata
+ por criados de calo curto: no se ter mo um numero da
+ <i>Illustrao</i> nem um album que se folheie ...
+</p>
+<p>
+ Estranha perplexidade!
+</p>
+<p>
+ Tem um simples associado de abotoar as suas luvas, de adiantar um
+ <i>fauteuil</i>, de se aproximar de um grupo e de lanar um assumpto pela
+ seguinte frmula: Minha senhora, ser vossencia assaz boa para querer
+ fazer-me a honra de me dizer se j tem interlocutor para uma breve
+ dissertao sobre os novissimos do homem?
+</p>
+<p>
+ Ou talvez que haja uma organisao parlamentar para a distribuio dos
+ assumptos e para a ordem das discusses. E n'esse caso, reunido o
+ claustro pleno, ser o sr. conde de Samodes quem abrir as sesses,
+ persignando-se, tocando a sua campainha e dizendo:
+</p>
+<p>
+ &mdash;Dou a palavra ao relator da commisso encarregada de dar o seu
+ parecer cerca das Divinas Pessoas da Santissima Trindade. Meus senhores
+ e minhas senhoras, est em discusso o Espirito Santo.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Porque emfim, meus senhores, celebrando como catholicos as vossas
+ academias religiosas, das duas coisas uma: ou vs estabeleceis a
+ controversia e discutis os canones e os dogmas, ou no a estabeleceis e
+ no os discutis.
+</p>
+<p>
+ No primeiro caso usurpaes os poderes que s competem aos concilios,
+ entregaes aos debates da razo as materias de obediencia e de f e cahis
+ no racionalismo heretico.
+</p>
+<p>
+ No segundo caso, reunidos em nome de Deus, vs no tendes o direito de
+ fazer seno uma coisa: elevar humildemente ao ceu os vossos espiritos e
+ prostrar-vos na penitencia e na orao.
+</p>
+<p>
+ Mas para os exercicios da orao e da penitencia vs tendes a egreja
+ para rezar e a solido no interior das vossas casas para meditar o
+ arrependimento. Para similhantes effeitos congregar os fieis nos sales
+ da rua da Picaria desviar dos templos a corrente natural da devoo e
+ arrancar do interior da familia o saudavel recolhimento dos propositos
+ bons.
+</p>
+<p>
+ Eu creio profundamente que entre vs existem homens dignos, honrados, de
+ uma piedade limpida, com as mais rectas intenes de espirito e de
+ consciencia. Acredito mesmo que essas almas, timoratas mas boas,
+ constituem a grossa maioria dos vossos consocios. Por isso vos consagro,
+ passando, esta palavra sria:
+</p>
+<p>
+ Nada mais funesto para os costumes do que ensinar s mulheres que ha
+ instituies especiaes para o servio de Deus, para a conquista do ceu,
+ para a remisso da culpa. O posto digno da mulher christ em sua casa
+ ao p dos seus filhos. Os exercicios espirituaes e as contemplaes
+ mysticas escurecem a alegria domestica, alvoroam a virtude, perturbam a
+ consciencia. Na sociedade actual a mulher pertence, integralmente, com
+ toda a responsabilidade do seu destino, misso sublime da regenerao
+ do homem pela attraco do lar. Desviar sob qualquer pretexto que seja
+ a atteno da mulher dos interesses da familia commetter para com a
+ moral um sacrilegio. A casa conjugal tambem um templo, e a maternidade
+ uma religio.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Meus senhores, tenho procurado tanto quanto me tem sido possivel ser
+ amavel comvosco, tomando para vos observar todos os pontos de vista.
+ Olho-vos como christo, olho-vos como catholico romano, olho-vos como
+ cidado, olho-vos como simples espectador, como <i>dilettante</i>. De todos
+ os modos vs me pareceis ou incongruentes, ou ridiculos, ou absurdos.
+</p>
+<p>
+ Todavia, meus senhores, depois de to exactas observaes, eu no
+ concluo que dissolvaes o vosso synodo e que vos retireis para vossas
+ casas. Os senhores liberaes, que vos combatem, so egualmente
+ incongruentes, egualmente absurdos e um pouco mais comicos do que vs, e
+ os senhores liberaes tambem se no retiram.
+</p>
+<p>
+ Elles do morras ao papa, chefe supremo da religio catholica e todavia
+ continuam a dizer-se catholicos. Odeiam e guerreiam os padres e no
+ emtanto continuam a entregar as suas mulheres aos confissionarios e as
+ suas filhas cathechese. Insultam a theologia do vosso jornal a
+ <i>Palavra</i> mas no acceitam com elle a controversia porque no sabem
+ theologia. No lhes importa o irem para o inferno, mas no querem ir
+ para o Carmo. O seu atheismo leva-os a quererem esmagar o infame como
+ elles mesmos dizem, mas com a clausula de no molestarem com essa
+ operao os calos do sr. Bento de Freitas, governador civil, ou do sr.
+ Pinto Bessa, presidente da camara. Ultimamente vs festejaveis com um
+ <i>Te Deum</i> na egreja da S o anniversario de Pio IX: estaveis
+ inteiramente no vosso direito e na logica dos vossos principios. Elles,
+ em vez de combaterem com uma affirmao de sciencia a vossa protestao
+ de f, esperaram-vos porta da egreja, deram vivas liberdade, a
+ Victor Manuel e a Garibaldi e alguns morras ao Papa infallivel. Foi com
+ esta elevao de critica que analysaram o Concilio do Vaticano, consti.
+ 4. cap. IV <i>De infallibilitate romani pontificis magni</i>, a qual
+ constituio nunca leram. A policia interveio, espancou varias pessoas,
+ prendeu varias outras, e eis em resumo o que os periodicos liberaes
+ chamam os conflictos da liberdade e da reaco religiosa na cidade do
+ Porto!
+</p>
+<p>
+ Profundas graas ao Altissimo, que no so inteiramente estas as
+ circumstancias que determinaram as antigas crises do poder entre os
+ burguezes do senado do Porto e os poderosos bares feudaes da S
+ portuense ou do balio de Lea! Os srs. padre Rademaker e padre Couto no
+ afivelaram os arnezes de ao dos antigos bispos e dos freires
+ hospitalarios, no reuniram os seus sergentes e homens d'armas, no
+ mandaram erguer as levadias dos seus paos acastellados nem
+ desembainharam as suas espadas famosas ... No, elles apenas entoaram a
+ ladainha de todos os santos, e prometteram, no excurses armadas sobre
+ os rebeldes dos seus feudos, mas sim jubileus e benos telegraphicas
+ aos seus adeptos.
+</p>
+<p>
+ Ora no vemos realmente em que estas coisas possam atterrar a liberdade
+ e sobresaltar o paiz.
+</p>
+<p>
+ singular esta coincidencia:
+</p>
+<p id="bismark">
+ O clero catholico tem hoje em toda a Europa o papel sympathico. Os
+ unicos paizes do mundo em que ainda se gosa a liberdade religiosa so os
+ paizes catholicos. Na Russia, na Allemanha, temos o despotismo e a
+ perseguio protestante. O sr. de Bismark prende, processa e desterra
+ os sacerdotes catholicos. No novo imperio do rei Guilherme, o
+ patriotismo refora-se na religio do estado; a recente legislao
+ allem submette todos os casos de disciplina ecclesiastica e todas as
+ deliberaes episcopaes ao poder civil, e prohibe o clero sob as mais
+ severas penas de cumprir preceitos que dimanem de qualquer auctoridade
+ ecclesiastica estranha nacionalidade allem.
+</p>
+<p>
+ Ferida violentamente na sua liberdade, perseguida pela fora, a egreja
+ catholica&mdash;quem o diria!&mdash;appella para as garantias espirituaes e quer a
+ distinco dos poderes como salvaguarda da liberdade. Na Allemanha os
+ ultramontanos mais ardentes fortificam-se nos seus ultimos
+ entrincheiramentos pedindo como Cavour a egreja livre no estado livre. A
+ tal estado chegou desprestigiado e abatido o antigo poder clerical!...
+ Elle j no quer exercer a sua velha tyrannia, contenta-se em no
+ supportar a perseguio; e, como todos os martyres, pede a liberdade
+ como o extremo refugio das consciencias apavoradas.
+</p>
+<p>
+ Violentamente ferida no corao, perseguida pela fora, a egreja
+ apresenta esse symptoma infallivel da sua suprema dr&mdash;o grito das
+ garantias espirituaes, o appello em ultima instancia para a distinco
+ dos poderes.
+</p>
+<p>
+ Pio IX, fortificado no Vaticano, como n'uma cidadella gloriosa,
+ desmoronada e vencida, posto que respeitada, soffre as ultimas
+ consequencias fataes da sua politica, e, indomavelmente pertinaz e
+ corajoso, esse velho batalhador veneravel, despojado da sua cora
+ temporal, arroja aos vencedores o derradeiro desafio do seu despreso,
+ arvorando impavidamente o dogma e metralhando com as excommunhes a
+ opinio liberal em ultimo sacrificio a uma causa perdida.
+</p>
+<p>
+ curioso at o ponto de se tornar ligeiramente comico que seja este o
+ momento escolhido pela burguezia portuense para comear a apontar-nos a
+ egreja catholica como um perigo para a liberdade!
+</p>
+<p>
+ No Porto os livres pensadores da calada dos Clerigos principiam agora a
+ receiar que os catholicos da rua da Picaria assoberbem e esmaguem sob a
+ desmaiada e quasi esvahida legenda pontificia o poderoso mundo
+ scientifico moderno.
+</p>
+<p>
+ Pela sua parte vs, catholicos da Picaria, reunis as vossas mulheres e
+ as vossas filhas, entoaes ladainhas e procuraes com preces e com
+ penitencias desaggravar a divindade offendida com as invectivas dos
+ periodicos liberaes&mdash;no que nos parece que confundis tambem um pouco a
+ religio com a sacristia, e tomaes frequentemente o sr. padre Couto pelo
+ Padre Eterno. o vosso erro. No entanto ficae no vosso posto. A
+ civilisao precisa de vs, no como elemento reconstituinte, mas como
+ producto lachante. A sciencia estima-vos ... como droga. O velho mundo
+ invoca a vossa assistencia para o ajudar a morrer, para o enterrar. Para
+ mim, que acabo de vos discutir como fazendo eu mesmo parte do meio
+ burguez em que existis, vs sois certamente um absurdo. Perante a
+ philosophia vs sois porm uma necessidade historica. Nos annaes do
+ progresso transcendente do espirito humano o vosso nome ha de ficar como
+ o curioso epitaphio de uma gerao que se extinguiu ha tresentos annos.
+ Porque a verdade que vs representaes as idas do seculo XVI.
+</p>
+<p>
+ A associao catholica do Porto instituiu-se para qu? Vs mesmos o
+ estaes dizendo todos os dias: Para salvaguardar a f religiosa da
+ corrente invasora do scepticismo moderno.
+</p>
+<p>
+ Pois bem, meus senhores, foi esse mesmo scepticismo, cuja corrente vs
+ pretendeis hoje reprimir ou recuar, o que produziu a grande revoluo
+ scientifica do seculo XVII e toda a civilisao subsequente at os
+ nossos dias.
+</p>
+<p id="tolerancia">
+ O scepticismo o estado de espirito que medeia entre a superstio e a
+ tolerancia. Ha mais de um seculo que nenhum pensador grave se intromette
+ na vossa controversia theologica. Ninguem vos combate, ninguem mesmo vos
+ discute. O mundo novo est j na tolerancia, quando vs combateis ainda
+ o scepticismo de que a tolerancia o fructo!
+</p>
+<p>
+ Duvidar, meus bons amigos, exercer uma das mais poderosas e mais
+ fecundas faculdades da razo humana. Para chegar verdade no ha seno
+ esse caminho: a duvida. Para chegar a Deus, que no outra coisa seno
+ a expresso theologica da verdade, o unico meio tambem esse: a duvida.
+ Primeiro que tudo duvida-se, depois aprende-se, por fim descobre-se. Tal
+ a marcha invariavel dos espiritos na sua grande ascenso do imperfeito
+ para o absoluto.
+</p>
+<p>
+ O mesmo christianismo no poderia nunca ter principiado a existir se no
+ o tivesse precedido a duvida nas consciencias da antiguidade pag.
+ Antes de acreditar em Jesus Nazareno o homem teve que duvidar de Jupiter
+ Capitolino. A tradico christ uma conquista do scepticismo antigo. A
+ duvida foi a primeira e a mais augusta expresso da revelao divina.
+</p>
+<p>
+ A duvida tem sido em todos os tempos a luz immortal e a guia suprema do
+ entendimento humano. Foi a duvida quem levou Colombo ao novo mundo,
+ Copernico e Newton astronomia, Boyle e Pascal hydrostatica, Galyleu
+ mecanica e Lavoisier chimica.
+</p>
+<p>
+ Se nas profundidades da nossa alma o scepticismo no tivesse existido
+ sempre como uma indomavel fora inextinguivel de perfectibilidade
+ indefinida, a sciencia astronomica no viria occupar o logar da
+ astrologia, a physica e a chimica no substituiriam a alchimia, e a
+ imagem de Christo crucificado no succederia nos altares do Vaticano s
+ estatuas dos dois mil deuses da Roma antiga.
+</p>
+<p>
+ Quereis a definio precisamente scientifica do scepticismo? Ouvi
+ Buckle, o historiador da civilisao: scepticismo a difficuldade de
+ crer; de sorte que o scepticismo que se augmenta a percepo
+ augmentada da difficuldade de provar asseres, ou, n'outros termos,
+ a applicao augmentada e a diffuso augmentada das regras do raciocinio
+ e das leis da evidencia. Esse sentimento de hesitao em todo o campo
+ do pensamento o preliminar invariavel de todas as revolues
+ intellectuaes por que tem passado o espirito humano; sem o scepticismo,
+ progresso, mudana, civilisao, tudo seria impossivel. Na physica
+ elle o precursor necessario da sciencia; na politica o precursor da
+ liberdade; na religio o precursor da tolerancia.
+</p>
+<p>
+ Ora defendendo a integridade da f, vs fazeis philosophia este
+ servio relevante: suggeris a duvida, procuraes accordar a razo
+ individual, a qual nunca em nenhum outro meio social se desenvolveu to
+ larga e to arrojadamente, como no seio da egreja christ, a qual apezar
+ de todos os seus erros e dos seus mesmos crimes, tem sido sempre o mais
+ forte nucleo da vida moral e o mais alto objecto de todos os grandes
+ desenvolvimentos da intelligencia e da vontade.
+</p>
+<p>
+ De resto entendo que o Porto, esse feliz e arrojado industrial, vos deve
+ ser especialmente grato e reconhecido, porque vs o dotastes com um
+ estabelecimento que Lisboa ainda no possue&mdash;A associao catholica da
+ rua da Picaria,&mdash;a qual, similhana dos antigos moinhos do Tibet e das
+ cabaas rotatorias dos Kalmuks, assegura commodidade dos habitantes um
+ systema permanente, uma especie de moagem mechanica, com motuo continuo,
+ de adoraes e de preces.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Algumas das familias que durante a estao finda se achavam a banhos de
+ mar em Pedrouos, resolveram de uma vez fazer uma festa nocturna,
+ mysteriosa, venesiana. Tomaram um vapor da carreira de Belem,
+ illuminaram-o com bales de papel como as gondolas do canal da Zueca que
+ deslisam em frente dos terrassos do palacio Barbarigo no primeiro acto
+ da <i>Lucrecia</i>. Para que a commoo de todas as pessoas que tomaram parte
+ n'esta scena fosse profunda e illimitada, os homens tinham-se
+ apresentado todos vestidos como os tenores nas scenas de <i>barcarola</i>. O
+ jubilo era indescriptivel.
+</p>
+<p id="caparica">
+ Reunida a bordo toda a sociedade, o vapor levantou ferro, e penetrou na
+ treva, vibrante de aventura, saturado de drama, na direco de
+ Caparica.
+</p>
+<p>
+ O Tejo porm estava grosso e picado, de modo que comeou a dar ao vapor
+ uns balanos intermittentes para um lado e para o outro como de quem
+ escabacea com somno. Com isto principiaram a manifestar-se com uma
+ insistencia progressiva os symptomas spasmodicos nos esophagos da
+ assembla. Os Mazaniellos, verdes como azebre, tristes como condemnados
+ morte, procurando sorrir catastrophe com sorrisos dilacerados como
+ os que apresentam os cotovellos rotos, enrolavam-se nas suas capas e
+ prostravam-se como trchos inuteis nos bancos da tolda. As senhoras
+ punham os seus lenos na bocca, corriam a mo pela testa, cuspiam
+ desconsoladamente no mar, e tinham ligeiros movimentos extaticos e
+ doloridos como de quem est escutando no ar o rumor de uma angustia que
+ chega.
+</p>
+<p>
+ Ento o sr. Mathias Ferrari, segundo lemos no <i>Diario de Noticias,</i> fez
+ correr um abundante servio de neve. Todos se serviram.
+</p>
+<p>
+ Os effeitos foram taes que quando os criados repassaram com a segunda
+ roda de sorvetes, todos os convivas, com as boccas ainda abertas,
+ estremeceram de horror, porque cuidaram que esses segundos gelados eram
+ outra vez&mdash;os primeiros.
+</p>
+<p>
+ Ento um homem forte, que tinha ido para bordo armado de um violo,
+ tentando arrancar a companhia a uma consternao abatida e geral,
+ comeou, a dedilhar o instrumento e a entoar uma chacara. Mas, de
+ repente, suspende-se, torce-se, arripiam-se-lhe os cabellos,
+ encurva-se-lhe a espinha dorsal, cae-lhe o violo desfallecido nos
+ braos das senhoras, e o resto da chacara destinada aos eccos nocturnos
+ do oceano e recolhida pelos circumstantes n'uma bacia.
+</p>
+<p>
+ Era immenso a bordo o desalento.
+</p>
+<p>
+ Mathias Ferrari, descoroado, abatido, j no fazia correr os
+ servios. Este grande confeiteiro, dominando inteiramente a situao
+ com a profundidade da sua critica, comprehendera&mdash;e muito bem!&mdash;que a
+ questo ali j no era de <i>fazer correr</i>, mas de <i>fazer parar</i>.
+</p>
+<p>
+ Era alta noite quando o vapor abicou outra vez praia de Belem,
+ recolhendo-se todos perfeitissimamente satisfeitos pelo modo como se
+ passara to bello tempo. Apenas, para que desembarcassem, houve o
+ pequeno trabalho de virar os que tinham assistido a esta festa, a mais
+ brilhante talvez que se tem dado no Tejo, por que os convivas em virtude
+ dos reiterados exforos que tinham feito no mar para puxar para fora o
+ interior, succedera-lhes terem-o effectivamente conseguido, e haverem
+ chegado todos a terra&mdash;pelo avesso.
+</p>
+<hr />
+<p id="ferrao">
+ Com a mais extranha commoo lemos ultimamente que fra nomeado aio de
+ sua alteza o principe real sua ex. o sr. Martens Ferro, abalisado
+ jurisconsulto e procurador geral da cora.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ talvez uma bem perigosa temeridade da parte de prosaicos e obscuros
+ burgueses como ns somos o atrevermo-nos a meditar um momento no que
+ possam ser perante a educao e perante a sciencia as attribuies
+ especiaes de um aio junto de um principe. Todavia&mdash;debalde procurariamos
+ escondel-o&mdash;em presena de similhante assumpto, profunda e illimitada
+ a confuso do nosso espirito. Por isso que, por mais assignaladas que se
+ nos representem as differenas que devem distinguir o alto e poderoso
+ filho de um monarcha do mero filho de um fabricante de velas de cebo,
+ nunca, por maiores que sejam na direco do infinito os arrojos da nossa
+ phantasia curiosa, nunca podemos chegar a alcanar, nem pelas
+ presumpes mais vagas nem pelas mais remotas suspeitas nem pelas mais
+ affastadas conjecturas, qual o emprego pratico e effectivo que possa dar
+ um principe aos prestimos de um aio. Para satisfao de que
+ necessidades, de que conveniencias ou de que simples formalidades, em
+ que condies, em que circumstancias, em que especial momento da
+ preciosa e augusta vida do real infante vae sua excellencia o aio
+ presena de sua alteza o principe?!... Ns o ignoramos.
+</p>
+<p>
+ Porque, quando as ordens de sua alteza procedam das necessidades do seu
+ espirito, das curiosidades da sua intelligencia, dos interesses da sua
+ instruco, sua alteza pedir naturalmente algum dos seus mestres ou
+ algum dos seus livros, e a sua alteza ser ento applicado um professor
+ de linguas, um compendio do sr. Joo Felix ou um numero do <i>Diario de
+ Noticias</i>. Quando os desejos manifestados por sua alteza dimanem das
+ urgencias physicas da sua naturesa, das fatalidades animaes do seu
+ organismo ou do seu temperamento, sua alteza pedir o seu banho, o seu
+ jantar, as suas pastilhas ou o seu escarrador; e ento os camaristas de
+ sua alteza, as suas aias e os seus escudeiros cumpriro os desejos de
+ sua alteza.
+</p>
+<p>
+ E no vemos, nem na ordem physica, nem na ordem moral, nem na ordem
+ inlellectual das relaes de sua alteza com o mundo externo, a
+ necessidade, a conveniencia ou a plausibilidade da interveno do aio.
+</p>
+<p>
+ A no ser que a concorrencia d'esta legendaria entidade methaphysica se
+ deva considerar nos reaes paos como um acepipe <i>hors d'oeuvre</i> ou como
+ um objecto supplementar de recreio, porque ento comprehendemos de certo
+ modo que ao servio particular de sua alteza um camareiro exclame:
+</p>
+<p>
+ Est o <i>lunch</i> na mesa: ha <i>galantine</i>, rabanetes e o sr. Martens
+ Ferro com salsa picada e manteiga fresca. ou ento: Eis os brinquedos
+ de sua alteza: aqui est a bola de guttapercha e a caixa com o sr.
+ Martens Ferro de engonsos.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Se porm&mdash;e perdoe-se-nos esta hypothesese, sob a senhoreal e demievica
+ palavra aio, devemos entender a ida perfeitamente logica, sensata,
+ popular, de um preceptor pratico, de um mestre experimental, de um
+ amigo, de um companheiro, n'esse caso notaremos com o mais profundo
+ respeito a Sua Magestade a Rainha, dedicada me e primeira educadora do
+ joven principe, que foi singularmente illudida a sua perspicacia
+ elegendo o sr. Martens Ferro como conselheiro official e privado de seu
+ filho, como guia experimentado da candida existencia inexperiente do
+ innocente alumno. E isto por uma razo que de nenhuma maneira desabona
+ os altos merecimentos de sua excellencia o actual senhor procurador
+ geral da cora, antes pelo contrario os confirma e corrobora. Esta razo
+ que: o sr. Martens Ferro, pela sua natureza, pela sua organisao,
+ pelo seu temperamento, pelo seu caracter, pela sua biologia, to
+ inexperiente, to candido, to ingenuo, to innocente e to puro como o
+ proprio alumno que elle chamado a aconselhar e a dirigir na difficil e
+ complicada navegao da vida.
+</p>
+<p>
+ Passando em tenros annos do regao d'aquella que lhe deu o ser para os
+ braos da austera jurisprudencia, que tinha de amamental-o para a
+ sciencia e para a gloria, o sr. Martens Ferro tem at hoje passado a
+ sua vida <i>en nourrice</i> em casa do Direito Publico.
+</p>
+<p>
+ Os seus dias teem decorrido transcendentemente fora das condies
+ historicas do tempo e do espao. A sua existencia tem sido
+ exclusivamente mystica e symbolica. Quando tem os seus impetos mais
+ ferozes de extravagancia, de anarchia, de deboche, elle sae a passear
+ pelas viosas campinas da philosophia do direito e faz patuscadas
+ orgiacas e escandalosas com as origens celticas do direito e com as
+ liberdades municipaes do imperio romano. Depois o remorso apodera-se
+ d'elle. No dia seguinte acorda pallido, abatido, com a lingua grossa: o
+ espectro pavoroso e formidavel do sr. Batbie appareceu-lhe em sonhos, e
+ elle ouviu vozes vingadoras que lhe bradavam das profundidades da noite
+ e do arrependimento: Joo Baptista, para onde deixaste o direito de
+ punir? que fizeste do direito administrativo, Joo? que do direito
+ internacional, Baptista?! Taes so os seus dias de mais desdem, de mais
+ anormalidade, de mais sexo, de mais jogo e de mais champagne! tal o
+ seu despertar contricto para a legalidade, para a descentralisao
+ districtal e para as reformas de administrao! Tal, resumidamente,
+ elle! E quando dizemos <i>elle</i>, commettemos uma incerteza de
+ concordancia, porque to pura, to transcendental, to scientifica a
+ personalidade do sr. Martens Ferro, que nada obsta a que a historia
+ referindo-se a sua excellencia, em vez de dizer <i>elle</i>, diga&mdash;<i>ella</i>.
+ Pela nossa parte, aguardando cerca da resoluo d'esse ponto as
+ ulteriores disposies definitivas da posteridade, diremos por emquanto
+ simplesmente <i>el</i>, sem a desinencia de genero, sob a respeitosa formula
+ neutra.
+</p>
+<p>
+ Como diziamos, pois, tal &mdash;el.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Analysando, timidamente como o temos feito, a nomeao do sr. Martens
+ Ferro para aio do principe real&mdash;note-se bem isto&mdash;no a sorte de sua
+ alteza o que nos inspira receios sob a guarda de um tal guia ... Ah! no!
+ pelo contrario o destino de sua excellencia o que nos inquieta sob a
+ influencia de um tal companheiro. Por <i>elle</i> podemos estar perfeitamente
+ socegados. Mas <i>el</i>? o que ser d'<i>el, el</i> to puro ou pura, to
+ candido ou candida, sob os impulsos da nova existencia que
+ repentinamente vae no seu temeroso vertice arrebatal-o ou arrebatal-a?!
+</p>
+<p>
+ Na vida da crte, fina, scintillante, irritavel, cheia de factos, de
+ commoes, de rasgos de espirito e de valor, de emboscadas, de
+ surpresas, de malicias, de tentaes, quantos perigos, quantos laos,
+ quantas ratoeiras para a innocencia virginal, para a candida pureza
+ inexperiente e inerme d'<i>el!</i> ...
+</p>
+<p>
+ Os principes por effeito da sua vida reclusa, claustral, vigiada,
+ monotona, amam naturalmente a escapada, o mysterio, a aventura, a
+ innocente anormalidade. Apraz-lhes a sortida arriscada, a partida
+ carnavalesca, o ruido dos festins secretos, a mascara inescrutavel, a
+ longa capa dramatica e a espada ligeira e subtil dos paladinos;&mdash;o que
+ se lhes deve relevar, porque esse o unico despique dos principes para
+ a secca official dos intrigantes, dos bajuladores, dos ambiciosos, dos
+ sensabores e dos hypocritas que ordinariamente os rodeiam. Estes porm
+ no so ainda para <i>el</i> os unicos perigos. No licito esconder que ha
+ outros mais e muito mais temerosos. Pensemos nas influencias
+ tempestuosas d'esse elemento, terrivel para a mocidade, que se chama&mdash;a
+ mulher. Sentimos magoar com este promenor a pudicicia do sr. procurador
+ geral da cora, mas esta a verdade que no devemos occultar aos olhos
+ de sua excellencia. Diz Michelet, o casto, o austero Michelet, que em
+ todo o tempo a mulher attrahiu o homem, assim como a vinha da Italia
+ chamou os gaulezes, e a laranja da Sicilia chamou os normandos. Ellas
+ chamam-nos, srs. procuradores geraes da cora, ellas chamam-nos!
+ Lembremo-nos da bella Helena, sr. Martens Ferro, lembre-mo-nos de
+ Semiramis, de Cleopatra, da casta Penelope, das Sabinas!
+</p>
+<p>
+ Os principes no esto mais isemptos que os outros homens d'esta lei
+ geral da humanidade, e os que vivem com elles&mdash;ponderemol-o bem&mdash;ficam
+ sujeitos s mesmas influencias que envolvem os reis.
+</p>
+<p>
+ Guilherme VII, cuja f religiosa era to ardente que elle foi Terra
+ Santa com cem mil homens, o proprio Guilherme VII levou tambem na viagem
+ do Santo Sepulchro a galante legio das suas amantes, e diz d'elle uma
+ velha chronica que, bom trovador e bom cavalleiro d'armas, por muito
+ tempo correra o mundo <i>para enganar as damas</i>. Tal a raa de que elles
+ sem, s vezes, quando no sem peores que o mystico e piedoso
+ Guilherme! Que a actual procuradoria geral da cora emquanto tempo o
+ medite!
+</p>
+<p>
+ De Francisco I, um dos mais sabios e dos mais uteis reis que tem tido o
+ mundo, diz-se que s bellas milanezas se deve a mais importante parte na
+ perseverana com que elle combateu pela conquista da Italia.
+</p>
+<p>
+ Sem fallarmos na cohorte das peccadoras, to gentis como funestas, dos
+ <i>boudoirs</i> de Luiz XIV e da Regencia, recordemos ainda as dissolutas e
+ ferozes mulheres da crte de Carlos IX, Catharina de Medicis, Maria
+ Touchet, e as grosseiras amantes torpes de Luiz XI, a Gigogne e a
+ Passefilou ... Oh! pudor! oh decoro! oh reforma administrativa!
+</p>
+<p>
+ Suppondes que a educao, os exemplos salutares e os conselhos sabios
+ possam preservar os principes dos perigos das suas ligaes
+ clandestinas? Mas quando assim pudesse ser, quantos outros riscos na
+ propria convivencia legal das mulheres legitimas!
+</p>
+<p id="laczinska">
+ Um dia Maria Laczinska, legitima mulher de Luiz XV, recusou um beijo ao
+ rei com o fundamento de que este cheirava a vinho. Luiz, segundo a
+ expresso pittoresca de um chronista das galanterias escandalosas do
+ seculo passado, comeava ento <i>a tomar o gosto ao champagne</i>. O rei
+ resolveu n'esse dia nefasto separar-se para sempre da rainha, e so
+ sabidos os desgostos e as desgraas que o rompimento d'essas relaes
+ custou felicidade da Frana e moral da Europa. Que remorso para o
+ aio de Luiz XV! Foi d'elle a culpa d'esse desastre. Se o aio do joven
+ rei, em vez de comear <i>a tomar o gosto ao champagne</i> juntamente com o
+ seu alumno, fosse, como pelo contrario devia ser, um experimentado e
+ antigo <i>soupeur</i>, conhecedor esperto de todas as ciladas armadas ao
+ homem pela bebida e pelo amor, elle teria evitado o divorcio do rei.
+</p>
+<p>
+ Tel-o-hia evitado, porque teria ensinado ao seu alumno, com a
+ auctoridade da experiencia, que a intemperana nas ceias e o abuso no
+ champagne produzem as hepatites, as predisposies para a apoplexia e
+ para a gotta e a manifestao das areias no rim. Se o principe no
+ obedecesse a estes conselhos e persistisse em ceiar, n'esse caso o seu
+ aio lhe faria comprehender que depois de ter bebido champagne nenhum
+ homem vae conversar com senhoras sem ter concluido a sua digesto e sem
+ haver previamente lavado a bocca com um elixir dentifrico. Um pequeno
+ passeio ao ar livre, uma gota de laudano ou uma pastilha, qualquer
+ d'estas tres coisas ministrada opportunamente por um aio intelligente e
+ dedicado, teria obstado ao rompimento das relaes de Luiz XV com sua
+ mulher e a todas as consequencias que d'ahi se seguiram.
+</p>
+<p id="constancia">
+ Algumas vezes succede ainda que, alm de todos estes desgostos, d'estas
+ decepes e d'estes remorsos, os aios, os validos, os intimos dos
+ principes levam ainda por cima pancada das princezas. N'este ponto as
+ chronicas so prodigas de eloquentes e salutares avisos. Constancia de
+ Arles, por exemplo, mulher de Roberto Pio, tinha taes accessos furiosos
+ de mau genio que um dia vasou um olho do seu proprio confessor
+ batendo-lhe com uma bengala que tinha no casto um bico de passaro. Esta
+ mesma bengala nem sempre se conteve perante a pessoa inviolavel e
+ sagrada da real magestade, e por muitas vezes se ergueu sobre as cabeas
+ dos amigos mais particulares do rei para nem sempre deixar inteiros
+ esses craneos dedicados e fieis. Foi a mesma sobredita princeza a que de
+ uma vez mandou matar por occasio de um passeio, aos proprios olhos do
+ soberano, o ministro De Beauvais, que lhe desagradava, e que, de outra
+ vez impoz para o outro mundo um cortezo antipathico, estafando-o com
+ uma corrida que o obrigou a dar n'uma caada.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Ora se a cora tem por um lado a obrigao de escudar a infancia e a
+ innocencia dos principes, no deve por outro lado sacrificar a
+ inexperiencia inerme das instituies pondo os srs. procuradores geraes
+ como barreira entre as tentaes e as culpas, lanando emfim a alta
+ magistratura ao pego tenebroso, ao Mexilhoeiro insondavel em que ha o
+ espumar dos vinhos capitosos, o sussurrar das sedas, o arfar dos leques,
+ os sorrisos tentadores e as bengalas de casto de bico.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Algumas das pessoas que tiveram a honra de serem admittidas a jantar com
+ as senhoras hispanholas que ultimamente se acharam em uso de banhos de
+ mar, e de emigrao, em Lisboa pedem-nos a nossa interveno para
+ dirigirem quellas senhoras, alis to distinctas e to interessantes,
+ uma pequena observao que os seus amigos mais dedicados se no atrevem
+ a fazer-lhes directamente.
+</p>
+<p>
+ Suas excellencias teem mesa o terrivel habito de comerem o peixe com a
+ faca, o que os admiradores mais enthusiastas do fino sal de espirito de
+ suas excellencias e do seu poderoso encanto de maneiras, no podem
+ abster-se de considerar como uma concorrencia temeraria feita por suas
+ excellencias aos acrobatas dos jogos malabares, unicos entes que
+ insistem em accumular os seus meritos pessoaes com o talento
+ supplementar de metterem as facas pela bocca.
+</p>
+<p>
+ ... Sendo certo ainda assim que os malabares que temos visto
+ entregarem-se a este exercicio, servem-se o seu rodovalho parte, e
+ comem as facas&mdash;sem peixe!
+</p>
+<p>
+ Submettemos estas simples reflexes a suas excellencias, as quaes em
+ seu delicado criterio decidiro se, attentos os graves cuidados que nos
+ inspiram, devem ou no continuar a manter&mdash;na lista dos seus acepipes
+ predilectos&mdash;os faqueiros.
+</p>
+<hr id="chambord" />
+<p>
+ Durante este mez, to inquieto, to palpitante de commoes, em toda a
+ Europa, os principes com mo nervosa e febril cultivaram a epistola.
+</p>
+<p>
+ O Santo Padre escreveu ao imperador da Alemanha, o imperador da Alemanha
+ escreveu ao Santo Padre, o conde de Chambord escreveu ao deputado
+ Rodez-Benavent, o sr.D. Miguel de Bragana escreveu ao sr. conde da
+ Redinha, e a historia em geral e os redactores da <i>Nao</i> espeialmente,
+ escutaram com ardor o fremito d'essas pennas riscando a face do universo
+ com letras um pouco menos correctas que as de Cicero, de Plinio o moo e
+ de madame de Sevign.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ O Santo Padre pede ao imperador Guilherme que obste a que o governo da
+ Alemanha persista na perseguio do clero catholico. O imperador
+ Guilherme roga a Sua Santidade que impea o clero catholico de proseguir
+ na rebelio contra o governo da Alemanha.
+</p>
+<p>
+ D'este modo o Papa deseja que se retire da scena o martyrio, a grande e
+ bella apotheose da egreja triumphante, e lembra ao verdugo que sirva aos
+ martyres o antigo fel das legendas gloriosas com o moderno assucar dos
+ confortos policiaes.
+</p>
+<p>
+ O imperador opina que amargo de mais o proprio calix que o obrigam a
+ tragar, e tirando da cabea o seu ponderoso capacete bellico de ponta de
+ pra-raios, e humilhando-se dentro das suas botas de couraceiro,
+ elle&mdash;abatido, beato, lacrimoso&mdash;pede egualmente para as suas
+ tribulaes de christo as correspondentes e proporcionaes douras.
+</p>
+<p>
+ E taes so os dois maximos guardas da f, os dois summos representantes
+ na Europa moderna dos dois grandes ramos em que se acha dividida a
+ christandade!
+</p>
+<p>
+ Oh! Voltaire compungir-se-hia, e, franzindo n'um sorriso bom os feixes
+ malignos das suas sarcasticas rugas, elle, o caustico philosopho, o
+ livre espirito, tirando benevolo dos bolsos da sua houppelande de
+ veludo e martas a caixa das suas pastilhas, offereceria s potestades
+ chorosas os bombons sacrilegos dos sales de Mesdames du Deffant e de de
+ Lambert.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ A carta do conde de Chambord o velho golpe astuto de Jarnac jogado ao
+ constitucionalismo monarchico.
+</p>
+<p>
+ O principe a quem a Frana offerecera a cora burgueza de Luiz Filippe,
+ pergunta-lhe o que exige d'elle a Frana, que papel lhe destina, para
+ que misso o invoca.
+</p>
+<p>
+ Vs, que estaes na liberdade, na democracia, na republica, cedeis ao
+ invencivel appetite de acclamar um rei. Comprehendestes que superior
+ aos vossos meios repressivos e reorganisadores a perturbao corrompida
+ da sociedade em que viveis. Duvidaes da vontade, da intelligencia, da
+ fora do vosso accordo collectivo. Quereis uma iniciativa individual,
+ culminante, prestigiosa, predestinada para o mando, para o triumpho,
+ para a gloria; quereis o monarcha eleito como Saul para livrar o seu
+ povo das mos dos seus inimigos, segundo a formula primitiva do
+ propheta Samuel.
+</p>
+<p>
+ N'esse caso armae a vossa cathedral de Reims, convidae os vossos
+ principes do seculo e da egreja, trazei a cora real, a espada, as
+ esporas, a dalmatica azul, as botinas de seda estrellada de lizes de
+ oiro, entregae-nos o sceptro de Carlos Magno, e dae-nos as sete unces
+ de Pepino o Breve. Depois do que, ns haveremos por bem deliberar por
+ quaes secretos caminhos nos apraz mandar-vos, segundo as vossas
+ gerarchias, para a victoria, para a bemaventurana ou para a fora.
+ Emquanto vs, tranquillos, repousados, deixareis definitivamente de
+ occupar-vos da coisa publica, e, sem ambies, sem principios, sem
+ idas, tereis a felicidade absoluta da besta no seu aprisco; <i>hoc erit
+ jus regis qui vobis imperaturus est</i>.
+</p>
+<p>
+ Se, em vez d'isto porm, o que desejaes ter , no uma fora omnipotente
+ que vos governe, mas sim um instrumento politico que manejeis; se para
+ me outorgardes a cora, precisaes de me tirar a iniciativa, a
+ personalidade, a dignidade de homem; se para que me julgueis inoffensivo
+ preciso que eu vos mostre ser pdre; se as garantias que me pedis para
+ que vos no domine so uma fraqueza, uma corrupo, uma inepcia que vos
+ assegurem a facilidade de me dominardes a mim, ento no: no vos
+ convenho eu, o derradeiro dos Bourbons fundadores da monarchia absoluta
+ nascida dos terrores da Liga e da Saint-Barthelemy, descendente e
+ herdeiro de Henrique IV, o que teve a dupla coragem da fora e da
+ miseria, o que na tomada de Cahors se bateu nas ruas durante cinco dias
+ consecutivos, lho a lho, dente a dente, brao a brao, o que de Dieppe
+ escrevia alegremente a Sully que tinha todas as camisas despedaadas e
+ um gibo roto nos cotovellos!
+</p>
+<p>
+ Camille Desmoulins conta que em 1790 o poder monarchico era representado
+ em Londres por meio de um bailado expressivo como uma parabola. N'este
+ baile a primeira figura era um rei que terminava a execuo de um
+ <i>entrechat</i> cheio de garbo e de pompa alongando um pontap ao fundo das
+ costas do seu primeiro ministro; este transmittia o pontap real ao
+ segundo ministro, o qual o traspassava ao terceiro, seguindo-se a mais
+ viva e espirituosa corrente de pontaps que se tem visto n'uma crte,
+ at que o personagem que apanhava em cheio no seu volumoso e amplo
+ hemispherio posterior o ultimo pontap era o paiz&mdash;que ficava com elle.
+</p>
+<p>
+ Nas monarchias constitucionaes imaginou-se reconstituir, por meio da
+ carta, essa graciosa dana, alterando porm a collocao do soberano ou
+ a ordem dos pontaps, de maneira que ou o principe est em baixo e os
+ pontaps vem de cima, ou o tyranno est em cima e os pontaps vo de
+ baixo.
+</p>
+<p>
+ Os povos monarchicos julgam-se felizes tendo cada pessoa ao lado de si
+ alguem a quem transmittir o pontap em giro atravez das instituies e
+ da politica. A carta do conde de Chambord no em resumo seno o
+ testemunho de uma divergencia com a assembla nacional sobre este ponto
+ importante do bailado em ensaios: quem que recebe o pontap?
+</p>
+<p>
+ A um paiz corrompido e a uma assembla senil no occorre esta
+ considerao to simples: que quando se trata de um stygma de servilismo
+ e de baixeza a questo no poder transmittil-o, no dever
+ acceital-o. Organisar pela monarchia a responsabilidade dos que se
+ corrompem abdicar a faculdade de demittir a corrupo. Os reis quando
+ no enodoam os povos, tambem no lhes tiram as nodoas que elles tenham.
+ N'esses casos o que limpa um paiz no a realesa. Quereis saber o que
+ ? Pois bem! a benzina!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ A carta do sr. D. Miguel de Bragana ao sr. conde da Redinha ao mesmo
+ tempo o tocante documento da estima inviolavel de um amigo ausente, e o
+ authentico manifesto politico de um principe proscripto.
+</p>
+<p>
+ Sua alteza declara ao <i>seu paiz</i> que quer ser o protector e o amigo de
+ todos os portuguezes e que considera como sua mais elevada ambio e sua
+ maior gloria&mdash;restaurar o throno pontificio. N'este simples trao
+ encarna sua alteza a expresso politica da sua indole,&mdash;o que nos parece
+ de uma moderao de intuitos demasiadamente modesta.
+</p>
+<p>
+ Diriamos que sua alteza folga em confundir-se na obscura legio invalida
+ dos tyranos burguezes, dos cezares bonacheires, Neros de barrete de
+ dormir, Caligulas dyspepticos, Eliogabalos em uso do pronto alivio e da
+ revalenta arabica. A politica affirmada por sua alteza accusa uma
+ visivel pobresa de sangue. Sua alteza um anemico. Tal o infortunio
+ da nossa raa! Que degenerao!
+</p>
+<p>
+ O pae do joven principe D. Miguel era sanguineo, esse. A sua
+ extraordinaria fora muscular era a admirao respeitosa, a maravilha
+ profundamente inclinada do <i>sport</i> lusitano de 1827. Nas redondezas do
+ pao de Queluz, nas terras do Infantado, via-se s vezes atravessar os
+ campos, a p, caando acompanhado do seu falcoeiro, um homem de mais de
+ meia estatura, de solidos hombros, faces morenas, barba rapada, mos
+ enormes, beios sensuaes, grandes olhos negros, rasgados, peninsulares;
+ vestia um casaco de baeto verde, calo preto, botas altas, de cava,
+ com taes de prateleira e esporas de prata; usava um bonet azul, do
+ prato largo, com vizeira. Este homem, que amava a convivencia dos
+ plebeus, a quem dava largas esmolas de dinheiro e de conversao,
+ comprazia-se em ensinar a lavrar os moos do campo: tomava na mo
+ esquerda a rabia de um arado, azorragava com a direita uma parelha de
+ mulas, e abria no solo mais empedrado e mais endurecido, sob a poderosa
+ presso do seu pulso, um rego profundo, extenso de um kilometro, e recto
+ como um risco passado a regoa por um tira-linhas. Suffocava um forte
+ cavallo de Alter puchando-lhe a ponta da cilha com os dentes. Segurava
+ pela bocca, que juntava e cerrava no punho, um sacco de sete alqueires
+ do trigo, e lanava-o ao hombro, com uma s mo, erguendo o brao por
+ cima da cabea e conservando o corpo immovel, erecto e firme. Quando
+ vinha de Queluz a Lisboa, galopando desfilada, com uma vara debaixo da
+ perna, entre os seus companheiros mais assiduos, Joo Sedvem, o picador,
+ o Jos Verissimo, o da policia, a fora de soldados de cavallaria que o
+ acompanhava, ficava aos poucos pela estrada destroada pela fadiga: elle
+ nunca chegou seno s. No dia em que recebeu ao p da mata, na Quinta
+ Velha, onde estava caando ao falo, por volta das duas horas da tarde,
+ a noticia de ter entrado a barra de Lisboa a flotilha que apresou e
+ levou para Frana todos os nossos vasos de guerra surtos no Tejo, elle
+ veiu de Queluz a Belem, em menos de tres quartos de hora. Esse homem que
+ tinha a grande popularidade que trazem comsigo as legendas da fora e da
+ destreza physica, era sua magestade el-rei o sr. D. Miguel I.
+</p>
+<p>
+ O soberano tinha os defeitos do homem e as qualidades dos seus defeitos.
+ A sua politica era apopletica simplesmente porque elle era plethorico.
+</p>
+<p>
+ Esse principe, com o seu temperamento, o qual constituia, politicamente
+ assim como physiologicamente, toda a sua personalidade, fez liberdade
+ e s idas modernas o mais relevante servio: foi elle o que fabricou o
+ partido liberal portuguez.
+</p>
+<p>
+ Os constitucionaes foram uma inveno da policia do sr. D. Miguel. Elles
+ no combatiam o direito divino, nem os privilegios da nobreza e do
+ clero, nem o regime absoluto, nem a servido popular; o que elles
+ combatiam principalmente era o Jos Verissimo. Affirmavam-se os direitos
+ do homem porque se tinha percebido que esses direitos prejudicavam os do
+ Joo Sedvem. Os revolucionarios portuguezes no vieram da sciencia, no
+ vieram do amor da justia, das impaciencias da liberdade, dos contagios
+ da Conveno, da revolta da dignidade humana. No. Elles vieram
+ simplesmente dos carceres, dos carceres em que o regime despotico
+ recalcou de mais a fora viva da nao. Os principios eram o pretexto
+ sob o qual se vingavam as offensas feitas no s idas vigentes, mas aos
+ interesses estabelecidos. As denuncias partiam dos lesados. A ida
+ exposta na organisao da Companhia dos vinhos preoccupava mais os
+ espiritos em Portugal do que o principio representado em Frana pela
+ existencia da Bastilha. Havia martyres da liberdade que nunca tinham
+ amado a liberdade com devoo mais intensa que a do Sedvem e que no
+ teriam posto duvidas irremissiveis em continuar a dobrar a cerviz, ao
+ jugo da tyrannia como se dizia no stylo do tempo; smente o que elles
+ tinham recusado era emprestar algumas moedas ao Jos da Policia. Para a
+ maior parte da gente a victoria da ida liberal foi simplesmente a morte
+ do Telles Jordo. Finalmente o sr. D. Miguel de Bragana, <i>primeiro</i>,
+ foi o principe cuja fora fez na monarchia portugueza o rombo por onde a
+ liberdade appareceu. O sr.D. Miguel de Bragana, <i>segundo</i>,
+ figura-se-nos pela sua expressiva carta ao sr. conde da Redinha, uma
+ pessoa extremamente debilitada. Ser o protector e o amigo de todos os
+ portugueses enfraquecer-se diffundindo-se. Os antigos fortes
+ concentravam-se.
+</p>
+<p>
+ Pobres de ns! Como somos diversos de nossos paes! Os plethoricos,
+ sangrados, legaram gerao que lhes succedeu a impotente anemia!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Acabamos de lr um livro que foi publicado era Lisboa ha cerca de tres
+ mezes e a respeito do qual ainda no ouvimos critica uma palavra de
+ meno. Foi abafado pelo silencio. Se lhe no dessem esse destino teria
+ sido um livro escandaloso porque foi inteiramente concebido fra da
+ rotina, fra da conveno, fra do compadrio, por um espirito
+ justo, esclarecido, honrado, fatalmente inclinado ao bem.
+ Intitula-se&mdash;<i>Portugal e o socialismo</i>, e escripto pelo sr. Oliveira
+ Martins.
+</p>
+<p>
+ A litteratura portugueza actual apresenta este notavel caracter:&mdash;o
+ bysantinismo. Ella no um documento historico, nem um documento moral
+ do tempo em que vivemos. No tem importancia na direco dos espiritos,
+ no tem influencia na formao dos caracteres, no tem validade no
+ estabelecimento dos principios. No d nenhuma theoria razo, no d
+ nenhuma lei consciencia, no d nenhuma norma dignidade.
+</p>
+<p>
+ A imitao, a conveno, o servilismo, o estreito espirito de seita, de
+ partido, de escola, a ignorancia, a indolencia, a bajulao, a
+ orthodoxia official puzeram a pouco e pouco as lettras portuguezas
+ inteiramente fra do seu objecto&mdash;a simples e pura verdade humana.
+</p>
+<p>
+ O que actualmente se escreve no absolutamente nada o que actualmente
+ se pensa. Todas as grandes questes capitaes que preoccupam a sociedade,
+ a litteratura ou as evita ou as falsea. Ou as evita porque as no sabe
+ tratar, ou as falsea porque as trata com um espirito particular de
+ interesse, hostil sciencia e rebelde arte.
+</p>
+<p>
+ Entre tantos escriptores portuguezes que quotidianamente enegrecem em
+ Portugal o innocente papel sobre o qual se ora a medida das nossas
+ faculdades, onde est o homem cuja obra represente o precurso das idas
+ predominantes d'este seculo atravez d'esta sociedade? Onde est o
+ artista, onde est o philosopho, onde est o poeta que tenha atacado de
+ frente a soluo desinteressada, independente, firme, clara, nitida, dos
+ multiplos problemas que agitam o espirito, a consciencia, o corao do
+ homem moderno no meio do sentimento, do temperamento, da religio e da
+ politica da sociedade moderna?
+</p>
+<p>
+ Ser tal escriptor o sr. Alexandre Herculano, philosopho collaborador da
+ sr. D. Guiomar Torreso no <i>Almanack das Senhoras</i>?
+</p>
+<p>
+ Ser o poeta sr. Nunes, deputado conservador, o mais arrojado dos vates
+ que conhecemos dentro dos limites da carta constitucional e do systema
+ representativo?
+</p>
+<p>
+ No nos parece.
+</p>
+<p>
+ O sr. Oliveira Martins faz parte de um pequeno grupo de alguns
+ trabalhadores obscuros, inteiramente penetrados da corrente scientifica
+ do tempo actual, que teem procurado introduzir na litteratura as idas
+ correspondentes s preoccupaes, s necessidades e aos interesses mais
+ altos, mais legitimos e mais vitaes da sociedade em que vivem, fixando
+ assim scientificamente algumas das bases do programma geral da revoluo
+ por meio da qual se vae transformando o mundo europeu.
+</p>
+<p>
+ Esses humildes obreiros, aos quaes cabe a gloria de terem iniciado em
+ Portugal quasi todos os grandes principios das civilisaes modernas,
+ no teem encontrado, como galardo dos seus estudos, da sua
+ independencia e da sua andcia de pensadores, seno a surda guerra das
+ maledicncias, das calumnias e dos desdens, evantada pelo obscurantismo,
+ pelo fanatismo, pela ignorancia. Accusam-os de attentarem contra a
+ moral, contra a religio, contra a ordem, contra o patriotismo, e
+ expulsaram-os vilmente e infamemente do respeito publico e da
+ considerao social como jacobinos, como communistas, como incendiarios.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ do livro acima citado que extrahimos a seguinte pagina to sensata,
+ to viva, to humana:
+</p>
+<p>
+ Portugal no tem pauperismo. por isso que entre ns se no levantaram
+ ainda, nem se levantaro j, Nelsons ou Sydney Smiths para dizerem como
+ em Inglaterra: A pobreza infame. por isso que a definio ingleza
+ da fabrica&mdash;<i>manufactura de algodo e de pobres</i>&mdash;no pode servir-nos. O
+ no attingirmos porm um termo to elevado de preverso social no quer
+ dizer que as classes trabalhadoras de todas as industrias vivas do paiz,
+ extractivas e transformadoras, encontrem para c das nossas fronteiras
+ um modo de vida essencialmente differente. No, a nossa organisao
+ politica, semi-monarchica, semi-liberal, d em resultado ser duplamente
+ absurda, immoral, pauperisadora. Porque, como liberal, permitte a livre
+ concorrencia do capital e do trabalho, aliena as funces e
+ propriedades collectivas, e, para corrigir as consequencias de
+ distribuio viciosa que d'ahi resultam, mantem uma proteco
+ anachronica, com as alfandegas, com a divida e com o imposto, proteco
+ que recaindo afinal toda no consumo, vem ainda aggravar as condies do
+ trabalhador pela elevao no preo das coisas. Acima da preverso
+ economica devemos pr a preverso moral. No pequeno mundo industrial de
+ Lisboa, no contaste nunca, leitor, aos sabados o numero de ebrios que
+ pova as vielas escuras e nauseabundas, onde crapula vem juntar-se a
+ orgia das mulheres perdidas? Onde o prostibulo est em frente da
+ taberna, ao lado o bilhar, e entre o bilhar, o prostibulo e a taberna,
+ se funde a feria?
+</p>
+<p>
+ A desordem e a immoralidade so contra a natureza. Se esses homens no
+ fossem pobres seriam melhores. Se no tivessem de trabalhar doze horas
+ para comer saberiam ler. Se tivessem po e liberdade seriam paes de
+ familia. Olhae as mulheres e as creanas. Termo medio a familia tem
+ quatro pessoas; termo medio o salario de 400 ris. O trabalhador
+ recorre ao celibato, prostituio, s relaes illicitas, d'onde
+ resultam os infantecidios (to frequentes em Portugal como na China) e a
+ roda dos expostos. Quando um homem foi agarrado por esta engrenagem
+ d'ao morreu. Ha muitos a quem uma certa energia de caracter ou uma
+ constituio artistica e sentimental levaram ao casamento e familia:
+ ento que se encontram quatro pessoas com quatro tostes por dia. A
+ industria offerece uma tentao diabolica: augmentar o salario
+ destruindo a familia. N'esse momento a esposa e os filhos entram na
+ <i>fabrica</i> ...
+</p>
+<hr />
+<p>
+ A fabrica para as mulheres e para as creanas o sepulchro do pudor, da
+ honestidade e da saude. Emquanto as instituies sociaes no assegurarem
+ mulher o seu legitimo logar na familia absolutamente preciso que,
+ pelo menos a protejam na miseria fatal da fabrica. Porque nas fabricas
+ portuguezas o que succede com a mulher que, pela sua fraqueza e pela
+ sua ignorancia, ella no trabalho o escravo do homem. Ninguem entre ns
+ tem lanado os olhos a esses desgraados destinos obscuros.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Acostura que ainda ha pouco era o grande refugio das raparigas pobres
+ desappareceu com a machina de cozer. A mulher no pde sustentar essa
+ concorrencia, porque ella no pde, por maiores que sejam os esforos
+ dar por suas mos mais de 30 pontos por minuto: a machina d 643 pontos
+ no mesmo espao de tempo. Para se empregar n'outros servios precisaria
+ de uma educao preparatoria pratica, para a qual so indispensaveis as
+ escolas profissionaes que no existem em Portugal. Em Frana, na
+ Inglaterra, na Allemanha e principalmente na Suecia, as mulheres
+ habilitadas em cursos especiaes teem j muitos empregos uteis na
+ industria e no commercio. Em 1871 havia na Suecia 4:055 mulheres
+ empregadas no commercio e na industria. D'estas 2:675 dirigiam os seus
+ proprios negocios. Quinhentas e quatro mulheres eram proprietarias de
+ fabricas e de officinas. Alm d'isto muitas outras se achavam empregadas
+ nos bancos, nas caixas de soccorros, nas companhias de seguros, etc. com
+ emolumentos annuaes variando de 800 a 5:000 rixdalers. No servio dos
+ correios, dos caminhos de ferro, dos telegraphos, a mulher alarga de dia
+ para dia os seus dominios. A America, a Suecia, o Wurtemberg,
+ offerecem-lhe sob esse ponto de vista as maiores facilidades.
+</p>
+<p>
+ Em Darmstadt muitas mulheres se acham empregadas nas reparties de
+ estatistica com optimos resultados para o servio publico. Os cuidados
+ aos doentes so um bello emprego para o trabalho das mulheres. Na
+ Hollanda muitas teem sido auctorisadas a tirar diplomas de
+ pharmaceuticos. A profisso medica tem-lhes sido permittida em diversos
+ paizes. Na America, em S. Petersburgo, em Zurich, em Upsel e em varias
+ outras universidades ha um consideravel numero de alumnos do sexo
+ feminino estudando a medicina. Na Suecia estabeleceu-se pelo estado um
+ fundo permanente de soccorros para as mulheres que seguem a carreira
+ medica.
+</p>
+<p>
+ A ultima exposio de Vienna veiu provar ainda quanto as mulheres se
+ teem ultimamente occupado nas artes industriaes e nas bellas artes. Na
+ exposio sueca v-se no pavilho dos productos da industria o perfeito
+ exito com que as mulheres teem cultivado n'aquelle paiz a pintura, a
+ gravura em madeira, a xylographia, a lythographia, a gravura em cobre, a
+ photographia, a cartographia, a pintura em porcelana, a modelagem. Na
+ Suecia concedeu-se-lhes accesso, como aos demais empregados, nos
+ servios dos telegraphos, dos correios e dos caminhos de ferro.
+ Admittem-as como gravadoras na casa da moeda; muitas so empregadas nas
+ academias, nas imprensas e n'outros estabelecimentos como xylographas,
+ impressoras, compositoras, directoras de officina, etc.
+</p>
+<p>
+ Na Suecia ha hoje immensas escolas sustentadas pelo governo, pelas
+ communas e por associaes particulares onde ensinam s raparigas pobres
+ todos os trabalhos femininos do mnage. Ha escolas especiaes
+ destinadas a formar creadas. Em Stockolmo ha escolas de remendagem onde
+ as raparigas aprendem a concertar os seus fatos e a sua roupa branca com
+ um acceio e uma arte inexcedivel. As meninas burguezas teem sua
+ disposio a escola industrial de Stockolmo, as escolas normaes reaes, o
+ instituto central de gymnastica onde se formam mestras de gymnastica, a
+ academia real de musica, a academia das bellas artes os estabelecimentos
+ de instruco das parteiras e a mesma universidade, onde se ministram
+ subsidios a tres raparigas que estudam por conta do estado. Depois da
+ Suecia devem-se citar os Paizes Baixos e a Austria. Em Vienna a
+ municipalidade fundou em alguns bairros escolas industriaes nocturnas.
+ Sociedades de senhoras estabeleceram escolas profissionaes de
+ differentes especies. Ha uma sociedade especial encarregada de obter s
+ mulheres meios de subsistncia (Frauenerwerb-Verein). Alm das escolas
+ preparatorias para a instruco geral elementar e para a instruco
+ superior, estabeleceu a referida sociedade uma escola de costura, uma
+ escola superior de trabalho com um curso de estudos que dura tres annos,
+ uma escola de desenho industrial, uma escola de commercio, uma escola de
+ linguas, um curso especial para as empregadas na telegraphia. Na
+ Hollanda na escola industrial de Amsterdam que se instrue a mocidade
+ feminina no s nos trabalhos manuaes, taes como o bordado, costura
+ mo e machina trabalhos de cartonagem e obras de palha, escripturao
+ commercial, legislao commercial e pharmacia. Na Alemanha do norte e na
+ Alemanha central ha egualmente muitas escolas industriaes fundadas por
+ sociedades especiaes e por outras corporaes para a educao das
+ raparigas e das mulheres. Um fabricante de Munich fundou uma excellente
+ escola de ensino commercial para as raparigas da classe burgueza e da
+ classe operaria. As mulheres que sem d'esta escola encontram
+ immediatamente emprego nos bancos, ou nas casas de commercio.
+</p>
+<p>
+ A Russia resolveu ultimamente facultar a matricula na escola de medicina
+ de S. Petrsburgo s mulheres habilitadas com determinados titulos de
+ capacidade. Logo depois da promulgao d'esta lei, quatrocentas mulheres
+ se apresentaram como candidatos frequencia da alludida faculdade.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Sabem dizer-nos o que que, sob este ponto de vista, se tem feito em
+ Portugal? Esperamos que suas excellencias os senhores conservadores se
+ dignaro responder-nos.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ O sr. marquez de Vallada mandou correr este mez os reposteiros
+ brasonados dos seus sales para inaugurar as soires elegantes do
+ presente inverno com um jantar <i>pri</i>.
+</p>
+<p>
+ Assistiram todos os membros do gabinete e varios outros personagens
+ illustres na politica e na burocracia. Sentia-se apenas uma falta n'essa
+ reunio selecta: a ausncia absoluta de senhoras no palacio do nobre
+ fidalgo. Bem sabemos que um jantar no precisamente como uma valsa
+ para a qual a gente no ha de ir convidar a lagosta, nem danar com o
+ per. Mas mesmo para o que comer no basta apenas a comida. O sr.
+ marquez sabe a este respeito a opinio de Savarin: o bruto pasta, o
+ homem come, s o homem de espirito que sabe comer. Ora uma duzia de
+ barbatolas postos a mascar trufas uns diante dos outros em volta de uma
+ mesa no nos parece que deem o espectaculo da espiritualidade mais fina.
+ preciso que concorram tambem as senhoras, com a <i>toilette</i>, com a fina
+ pelle, com os perfumes, com as rendas, com as perolas, com as frescas
+ risadas cristalinas, com os agudos ditos penetrantes, com a elevao
+ finalmente, com a idealidade, com o espirito.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Atravessar a gente por entre duas filas de criados gordos e graves como
+ embaixadores, indo por baixo dos lustres, pizando um tapete espesso,
+ dando o brao a alguem, ou seguindo mesmo, atraz, sosinho, na turba dos
+ obscuros, com a claque debaixo do brao; entrar na sala de jantar,
+ tepida, fulgurante de luz; contemplar a mesa de um aspecto tropical pela
+ natureza das fructas e pela frma das flres trasvasadas do plateau,
+ procurarmos o nosso nome nos bilhetes que esto em cima dos guardanapos;
+ sentarmo-nos ao dce murmurio dos vestidos que se enffam ao nosso lado
+ e dos talheres que telintam; desdobrar nos joelhos um amplo guardanapo,
+ frio, lustroso e pesado, de linho de Irlanda; aconchegarmo-nos, unirmos
+ os cotovellos ao corpo e inclinarmo-nos sobre o prato; metter na bocca a
+ primeira colher do sopa, sentir estalar e derreter-se no dente o
+ primeiro rabiolo, escorrendo no paladar o acre succo dos espinafres, em
+ quanto a nossa visinha da esquerda mette a sua luva enrolada no copo do
+ Madeira, e a nossa visinha da direita morde atrevidamente no po
+ deixando-nos vr de lado todos os seus pequeninos dentes mais lindos que
+ as suas perolas ... isto realmente acharmo-nos n'um dos momentos mais
+ augustos que a civilisao e a elegencia concedem ao homem em paga dos
+ sacrificios que elle lhes tem feito nos esmeros da educao e na alta
+ cultura do espirito. ento que as mulheres, smente as mulheres&mdash;ellas
+ que vivem na graa e no mimo como os solitarios vivem no egoismo e no
+ tedio&mdash;desenvolvem o talento especial de fazer romper os alados
+ assumptos ligeiros e subtis, em torno dos quaes adejam as conversaes,
+ as phantasias, as replicas, os repentes, como doiradas abelhas famintas
+ sobre um ramo de rosas.
+</p>
+<p>
+ Se n'esses momentos os homens se acham ss, ou caem na bestialidade
+ indolente e calada dos deuses de Epicuro, ou discutem, questionam,
+ fallam alto, gritam, pem os cotovellos na mesa, fazem gestos, fazem
+ bolas de po, do estalos com a lingua, limpam as unhas, e quebram
+ palitos nos dedos&mdash;o que ha mais implicativo dos nervos e mais offensivo
+ do gosto.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Consta-nos que pelas razes referidas o jantar do sr. marquez tocou um
+ pouco no tetrico. O silencio era a principio to solemne que apenas se
+ ouvia confusamente o ruido da maioria parlamentar engolindo pelo
+ esophago do ministerio e a ordem e a guarda municipal mastigando pela
+ bocca do sr. baro do Zezere. Tinha-se ar de se estar n'uma sesso
+ deliberativa e no n'uma festa; parece at que o sr. marquez de Avila, o
+ illustre parlamentar, dirigindo-se a um criado, se mostrra gravemente
+ preoccupado ao ponto de que, sendo a sua inteno pedir-lhe Sauterne,
+ lhe pedira a palavra.
+</p>
+<p>
+ Por fim parece que o dono da casa usara da fala para expr o objecto
+ d'aquella reunio, o qual, segundo referem os jornaes, foi:
+</p>
+<p>
+ <i>Affirmar a adheso do sr. marques de Vallada monarchia</i>.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Achamos extremamente louvavel e digno de ser imitado por todos os
+ fidalgos portuguezes o exemplo dado pelo sr. marquez de se sacrificarem
+ pelo throno ao ponto de no hesitarem um momento, para o salvar, em
+ irem ... para a mesa!
+</p>
+<p>
+ Os vossos avs, quando queriam dedicar-se ao esplendor da cora iam
+ bater-se em Arzilla, em Ormuz, em Ceuta, em Tanger, descobriam terras,
+ venciam batalhas, conquistavam reinos.
+</p>
+<p>
+ Quereis provar-nos que ainda guardaes nos vossos archivos as antigas
+ cartas do roteiro dos mares? Que ainda tendes nas vossas panoplias as
+ duras armaduras e as famosas lanas dos vossos maiores? Muito bem! Visto
+ que no podeis refazer o que est j feito por elles, comeae pelo menos
+ a realisar o que elles tantas vezes omittiram: jantae!
+</p>
+<p>
+ E a cora ver, pela maneira como vos mostrardes aptos para comer,
+ quanto sois capazes de amar.
+</p>
+<p>
+ Assim como o Castro forte dizia que por cada pedra da fortaleza de Diu
+ elle daria um filho, mostrae vs que por cada perna de per trufado
+ sereis capazes de dar um av. E o soberano, jubiloso e grato,
+ contemplando por cima da gloriosa terrina da historia contemporanea, os
+ feitos valorosos dos vossos garfos invenciveis, apreciar os vossos
+ titulos de immortalidade, discriminando, no ardor e na confuso das
+ refregas, os que se lhe dedicam at ao pato com arroz, os que o
+ estremecem at ao frango com hervilhas, os que o idolatram at s
+ salchichas com couve lombarda!
+</p>
+<hr id="elementofeminino" />
+<p>
+ Mas por Deus, meus senhores, consenti que vol-o repitamos: No excluaes
+ dos agapes patrioticos com que preparaes a entranha para a communho
+ monarchica, o doce elemento feminino, o melhor encanto do triumpho, o
+ mais alto premio do heroismo, o mais precioso complemento da gloria! Se
+ a prosmicuidade dos sexos insuperavelmente vos repugna, que alguns de
+ vs pelo menos se sacrifiquem s conveniencias da arte, s prescripes
+ do bello, e salvem sequer as apparencias&mdash;vestindo-se de mulheres!
+</p>
+<p>
+ Animo, senhores commandantes dos corpos! animo, senhores officiaes
+ maiores! animo, senhores ministros de estado! por ellas, que vos
+ pedimos isto, pelas que tiveram sempre o seu logar nas nossas gloriosas
+ tradices dymnasticas! Lembrae-vos d'ellas, e ide lanar-vos aos ps da
+ Aline! Lembrae-vos d'ellas, e consenti em decotardes os vossos hombros!
+ Elanguescei, meus senhores, reclinae meigamente as frontes, cerrae
+ levemente as palpebras, agitae um pouco os vossos leques, dae suspiros,
+ ponde taes de setim escarlate, vinde de cuia! e, sobretudo&mdash;no o
+ esqueaes&mdash;trazei <i>tournure</i> ... Que vos custa trazer <i>tournure</i>? Uma
+ coisa to facil, que se traz como as patronas!
+</p>
+<p>
+ pelo throno, pelo mesmo throno de que vos declaraes adeptos, que vos
+ supplicamos isto! pelas vossas excelsas e augustas soberanas, no
+ representadas no vosso banquete ... Em nome de Mecia Lopes, meus
+ senhores! Em nome de D. Urraca!
+</p>
+<hr />
+<p>
+ A imprensa de Lisboa no tem opinio. Aquelles dos seus membros que por
+ excepo presentem as idas proprias, vivas, originaes zumbindo-lhes
+ importunamente no cerebro, enxotam-as como vespas venenosas. que a
+ misso do jornalismo portuguez no ter idas suas, transmittir as
+ idas dos outros. Por tal razo em Lisboa o homem que pensa no nunca
+ o homem que escreve. O jornalista nunca se concentra, nunca se recolhe
+ com o seu problema para o meditar, para o estudar, para o resolver.
+ Nunca procura a verdade. Procura apenas a soluo achada pelo publico,
+ pelo publico d'elle, pelo seu partido politico, pelos consocios do seu
+ club, pelos seus amigos, pelos seus protectores, pelos seus assignantes.
+ Portanto trabalha na rua, debaixo da arcada do Terreiro do Pao, nos
+ corredores ou nas tribunas de S. Bento, no Chiado, no Martinho, no
+ Gremio. Como trabalha? Trabalha d'este modo: <i>informando-se</i>;&mdash; o termo
+ technico. Uma vez informado, o jornalista considera-se instruido. Desde
+ que tem a informao recebida tem o jornal feito. O que elle vos escreve
+ hoje&mdash;notae-o bem&mdash; o que vs lhes dissestes hontem. O jornal no uma
+ fonte de critica, de analyse, de investigao. O jornal o barril de
+ transporte das idas em circulao, das solues previamente recebidas e
+ approvadas pelo consenso publico. O jornalista o aguadeiro submisso e
+ fiel da opinio. No a dirige, no a corrige, no a modifica, no a
+ tempera. O unico servio que lhe faz este: transporta-a dos centros
+ publicos aos domicilios particulares. O publico a nascente, o veio,
+ o manancial; a imprensa periodica simplesmente&mdash;o cano.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Essa a lei geral da conducta da publicidade em Portugal. Toda a
+ transgresso d'essa lei um eminente perigo para o que a commette. O
+ leitor portuguez no quer que o seu livro ou o seu periodico o obriguem
+ s fadigas da discusso e da controversia com o seu proprio espirito. A
+ conquista desinteressada e pura da verdade no tem attractivo algum para
+ as suas faculdades. As curiosidades e os interesses especiaes da alma
+ portugueza repastam-se no sentimento: a reflexo molesta-a. Entre tantos
+ escriptores nacionaes nunca houve um pensador. Descartes, Spinosa, Kant
+ seriam inteiramente impossiveis no seio d'esta sociedade, a que falta a
+ respirao logo que a tirem da rotina. No se lhes d, aos leitores
+ portuguezes, de verem a verdade, mas querem a verdade atravez da
+ opinio. Ninguem pensa fra das materias da ordem do dia. Que ha de
+ novo? a nossa pergunta de todas as manhs. Esta phrase profundamente
+ caracteristica quer dizer: Dem-me a senha e a contrasenha; digam-me em
+ que pensam para eu saber o que hei do pensar. O meu jornal vem bom ou
+ vem mau segundo ou no em cada dia a expresso das minhas convices
+ baseadas em ideas preconcebidas na convivencia do publico. O criterio
+ substituido pelo <i>mot d'ordre</i>.
+</p>
+<p>
+ Se n'um tal meio intellectual apparece um miseravel solitario, que no
+ tem um partido, que no tem um centro, que no tem um <i>club</i>, que no
+ tem sequer um botequim, mas que, no obstante, segue os successos do seu
+ tempo e exprime a respeito d'elles uma opinio absolutamente individual,
+ isto &mdash;livre, sobre esse homem cem todas as suspeitas, todas as
+ presumpes malevolas que acompanham atravez de uma multido apalavrada
+ um intruso mysterioso e sinistro. Tal a especie de acolhimento que por
+ differentes vezes nos tem sido feito e que mais particularmente nos foi
+ manifestado depois da publicao do nosso ultimo numero a proposito de
+ dois artigos, um consagrado ao sr. Alexandre Herculano, outro destinado
+ casa de correco installada no convento das Monicas.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ Lemos alguns dos artigos que nos foram consagrados, e achamo-nos
+ inteiramente edificados cerca do nosso desacato s instituies
+ publicas e da nossa irreverencia com as glorias nacionaes.
+</p>
+<p>
+ Smente, meus senhores, uma coisa nos parece ter-vos esquecido, e :
+ demonstrar-nos que a reverencia das instituies e o respeito das
+ celebridades gloriosas seja um instrumento de critica ou um meio de
+ analyse. Porque ns&mdash;talvez o no tenhaes comprehendido bem&mdash;ns no
+ somos propriamente os mestres de ceremonias da gerao a que
+ pertencemos. No estamos aqui a leccionar mesuras nem a praticar
+ experiencias sobre a variedade das curvas mais ou menos inclinadas a que
+ se nos presta o espinhao. Ns somos apenas uns simples chronistas do
+ tempo que vamos atravessando. Somos os contribuintes especiaes do mez
+ para a historia geral do seculo. Ora no ser pondo-nos humildemente de
+ cocoras no cho que ns veremos de mais alto as coisas e os homens. No
+ exame e na apreciao dos factos o minimo vislumbre do respeito um
+ perigo da verdade. Michelet, demolindo no seu ultimo livro a legenda
+ napoleonica filha da reverencia da historia pelo falso heroismo de
+ Bonaparte, mostra-nos que a fascinao grosseira produzida pelo heroe
+ de Marengo e de Austerlitz teria cahido perante o bom senso e perante a
+ gargalhada, se a Frana no tivesse perdido, depois do Terror, o riso, a
+ sua grande arma contra os tyrannos.
+</p>
+<p>
+ O primeiro dever da critica diante dos grandes acontecimentos e dos
+ grandes personagens simplesmente o despreso ou a zombaria ... Michelet
+ diz mesmo o sacrilegio como instrumento da verdade! e aconselha-nos
+ que imitemos como historiadores o exemplo de Renaud de Montauband
+ pegando n'um tio para barbear Carlos Magno.
+</p>
+<hr />
+<p>
+ De resto, meus senhores, para que se mantenham na decencia do culto as
+ tradies patrioticas, parece-nos inutil que ns nos occupemos d'isso.
+ L estaes vs, diligentes e sollitos, para espanardes as teias da aranha
+ aos velhos principios, para varrerdes as instituies veneraveis, e para
+ conservardes em bom estado os heroes e os sabios, limpando-lhes as golas
+ das sobrecasacas, engraxando-lhes os sapatos e pondo-lhes rap novo no
+ nariz.
+</p>
+<hr id="mexil"/>
+<p>
+ Chegmos tarde para fallar da grande tragedia monumentosa do
+ Mexilhoeiro. O paiz inteiro se pronunciou j sobre este caso, o maior da
+ historia contemporanea. O facto tem sido largamente tratado em artigos
+ de jornaes, em folhetins, em trechos de romance, em pias legendas, em
+ dramas, em <i>te-deuns</i> cantados em todas as cathedraes, em polkas
+ expressivas, em missas rezadas em todas as egrejas, em felicitaes de
+ todos os municipios, em sentimentaes mazurkas.
+</p>
+<p>
+ Uma s coisa nos parece que falta, e a que propomos: um monumento que
+ eternise to alto successo, levando s geraes vindouras esta lapide:
+</p>
+<div class="centered">
+<p>AOS MOLHADOS</p>
+<p>POR UMA FRIA TARDE</p>
+<p>NO PEGO DO MEXILHOEIRO</p>
+<p>A GLORIA</p>
+<p>RECONHECE N'ESTE MONUMENTO</p>
+<p>OS IRREFRAGAVEIS DIREITOS</p>
+<p>DE TO ILLUSTRES VICTIMAS</p>
+<p></p>
+<p>CONSTIPAO</p>
+</div>
+<hr />
+<h2>
+ INDEX
+</h2>
+<div class="centered">
+<p><b>Dos volumes d'esta chronica</b></p>
+<p>PUBLICADOS AT HOJE</p>
+</div>
+<pre>
+ I&mdash;Maio................... 1871
+
+ II&mdash;Junho..................
+
+ III&mdash;Julho..................
+
+ IV&mdash;Agosto.................
+
+ V&mdash;Setembro...............
+
+ VI&mdash;Outubro................
+
+ VII&mdash;Novembro...............
+
+ VIII&mdash;Dezembro...............
+
+ IX&mdash;Janeiro................ 1872
+
+ X&mdash;Fevereiro..............
+
+ XI&mdash;Maro..................
+
+ XII&mdash;Abril..................
+
+ XIII&mdash;Junho a julho..........
+
+ XIV&mdash;Julho a agosto.........
+
+ XV&mdash;Setembro a outubro.....
+
+ XVI&mdash;Novembro...............
+
+ XVII&mdash;Dezembro...............
+
+XVIII&mdash;Janeiro a fevereiro.... 1873
+
+ XIX&mdash;Maro a abril..........
+
+ XX&mdash;Outubro a novembro.....
+</pre>
+
+<p>
+<b>Nota.</b> D'hora vante cada um dos volumes d'esta publicao ser marcado
+com o correspondente numero.
+</p>
+
+
+
+
+
+
+
+
+<pre>
+
+
+
+
+
+End of the Project Gutenberg EBook of As Farpas: Chronica Mensal da
+Politica, das Letras e dos Costumes, by Ramalho Ortigo and Ea de Queiroz
+
+*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK AS FARPAS ***
+
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+Produced by Cludia Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed
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+
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+protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project
+Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you
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+such as creation of derivative works, reports, performances and
+research. They may be modified and printed and given away--you may do
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+
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+
+1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be
+used on or associated in any way with an electronic work by people who
+agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few
+things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works
+even without complying with the full terms of this agreement. See
+paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project
+Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement
+and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic
+works. See paragraph 1.E below.
+
+1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation"
+or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project
+Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the
+collection are in the public domain in the United States. If an
+individual work is in the public domain in the United States and you are
+located in the United States, we do not claim a right to prevent you from
+copying, distributing, performing, displaying or creating derivative
+works based on the work as long as all references to Project Gutenberg
+are removed. Of course, we hope that you will support the Project
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+
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+1.E.9.
+
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+terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked
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+permission of the copyright holder found at the beginning of this work.
+
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+License terms from this work, or any files containing a part of this
+work or any other work associated with Project Gutenberg-tm.
+
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+electronic work, or any part of this electronic work, without
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+Gutenberg-tm License.
+
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+request, of the work in its original "Plain Vanilla ASCII" or other
+form. Any alternate format must include the full Project Gutenberg-tm
+License as specified in paragraph 1.E.1.
+
+1.E.7. Do not charge a fee for access to, viewing, displaying,
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+
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+assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's
+goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will
+remain freely available for generations to come. In 2001, the Project
+Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure
+and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations.
+To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation
+and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4
+and the Foundation web page at https://www.pglaf.org.
+
+
+Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive
+Foundation
+
+The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit
+501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the
+state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal
+Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification
+number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at
+https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent
+permitted by U.S. federal laws and your state's laws.
+
+The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S.
+Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered
+throughout numerous locations. Its business office is located at
+809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email
+business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact
+information can be found at the Foundation's web site and official
+page at https://pglaf.org
+
+For additional contact information:
+ Dr. Gregory B. Newby
+ Chief Executive and Director
+ gbnewby@pglaf.org
+
+
+Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg
+Literary Archive Foundation
+
+Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide
+spread public support and donations to carry out its mission of
+increasing the number of public domain and licensed works that can be
+freely distributed in machine readable form accessible by the widest
+array of equipment including outdated equipment. Many small donations
+($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt
+status with the IRS.
+
+The Foundation is committed to complying with the laws regulating
+charities and charitable donations in all 50 states of the United
+States. Compliance requirements are not uniform and it takes a
+considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up
+with these requirements. We do not solicit donations in locations
+where we have not received written confirmation of compliance. To
+SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any
+particular state visit https://pglaf.org
+
+While we cannot and do not solicit contributions from states where we
+have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition
+against accepting unsolicited donations from donors in such states who
+approach us with offers to donate.
+
+International donations are gratefully accepted, but we cannot make
+any statements concerning tax treatment of donations received from
+outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff.
+
+Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation
+methods and addresses. Donations are accepted in a number of other
+ways including including checks, online payments and credit card
+donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate
+
+
+Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic
+works.
+
+Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
+concept of a library of electronic works that could be freely shared
+with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project
+Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
+
+
+Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
+editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
+unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily
+keep eBooks in compliance with any particular paper edition.
+
+
+Most people start at our Web site which has the main PG search facility:
+
+ https://www.gutenberg.org
+
+This Web site includes information about Project Gutenberg-tm,
+including how to make donations to the Project Gutenberg Literary
+Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to
+subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks.
+
+
+</pre>
+
+</body>
+</html>
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Binary files differ