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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/14503-0.txt b/14503-0.txt new file mode 100644 index 0000000..cdad9ba --- /dev/null +++ b/14503-0.txt @@ -0,0 +1,5272 @@ +*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 14503 *** + +A PARANOIA + +Julio de Mattos + +ENSAIO PATHOGENICO SOBRE OS DELIRIOS SYSTEMATISADOS + + _...Ci iroviamo proprio faccia a faccia col nudo + querito della pura pazzia._ + +EUGENIO TANZI + +Lisboa +Livraria Editora +Tavares Cardoso & Irmão +5, Largo de Camões, 6 + +1898 + + + + + + + +A MEMORIA AMIGA DO PROFESSOR SOUSA MARTINS + + + + +PREFACIO + + +Ao passo que na sua maioria as doenças hoje estudadas pelos alienistas +pertencem no fundo á pathologia interna, e só pelo predominio, mais +apparente ás vezes do que real, dos seus symptomas psychicos se +apropriaram a designação de _mentaes_, os delirios systematisados, +esses, pela ausencia de caracteristicas lesões, pela falta de privativas +causas determinantes e pela carencia de symptomas funccionaes +objectivamente apreciaveis, constituem a verdadeira loucura, a psychose +por excellencia, n'uma palavra, o proprio e irreductivel dominio da +psychiatria. + +Isto é dizer que a observação clinica não póde, ella só, determinar a +génese d'estes delirios, pois que o confronto dos dados psychicos com os +somaticos e etiologicos é, no caso sujeito, impraticavel. + +Foi, todavia, pelo exclusivo exame do hypocondriaco, do perseguido, do +ambicioso, que os alienistas buscaram até ha pouco surprehender a +pathogenia dos delirios essenciaes. D'aqui o natural insuccesso dos seus +trabalhos, melhor do que nunca evidenciado nos ultimos debates das +sociedades psychiatricas de Paris e de Berlim, em que se não fez, por +confissão dos proprios oradores, mais do que obscurecer e confundir o +problema posto. + +Por outro caminho,--introduzindo no controvertido thema a criterio da +evolução, seguiram, felizmente, na Italia contemporanea eminentes +pshychiatras. + +Inquiridos clinicamente os delirios essenciaes nos seus symptomas e na +sua marcha, uma coisa resta ainda fazer para os interpretar: o estudo do +delirante, considerado, não em si mesmo, como individuo, ou nos seus +ascendentes immediatos, como membro de uma certa familia, mas +anthropologicamente na sua vasta ancestralidade, como representante de +uma especie em plena evolução. + +Na sua marcha normal não segue o Espirito ao acaso, mas +_progressivamente_ por linhas de ideação desde muito entrevistas, senão +inteiramente definidas; quem nos affirma que na sua marcha anormal elle +não segue _regressivamente_ pelas mesmas prefixas e inflexiveis linhas +ideativas? + +Se a dissolução da memoria se apagam primeiro os factos recentes e só +depois os remotos, primeiro os nomes e só por ultimo os adjectivos e os +verbos; se na dissociação da motricidade se perdem em primeiro logar os +actos conscientes e só por fim os habituaes e instinctivos; se na +desaggregação affectiva são os primeiros a fazer naufragio os +sentimentos altruistas e só em derradeiro logar se extinguem os +egoistas, é possivel e provavel mesmo que na esphera propriamente +conceptiva a marcha pathologica se realise, ao menos em certos casos, +n'um sentido tambem regressivo. Ora, segundo a escóla italiana, isto se +dá, com effeito, nos delirios systematisados essenciaes, manifestação. + + + + +PRIMEIRA PARTE + +Historia dos delirios systematisados + + + +I--PHASE INICIAL + +De Areteu a Esquirol--Confusão dos delirios systematisados com a +melancolia--A monomania intellectual e as suas fórmas depressiva e +expansiva. + + +Se conheceram os delirios systematisados, não deixaram d'isso documento +os escriptores que precederam a nossa era. É sómente a datar do primeiro +seculo, em Areteu e Celio Aureliano, que encontramos incontestaveis e +inequivocas referencias aos perseguidos. + +Occupando-se dos melancolicos, escrevia, com effeito, o primeiro d'estes +medicos: «Muitos receiam que lhes propinem venenos; os seus sentidos +adquirem um redobramento de finura e de penetração que os torna +suspeitosos e de uma habilidade extrema em verem por toda a parte +disposições hostis»[1]. Pelo seu lado, Celio Aureliano, fallando dos +mesmos doentes, affirmava que muitos «experimentam uma desconfiança +continua, um permanente receio de imaginarias armadilhas»[2]. + + [1] Areteu,_De Melancholia_, apud Trelat, _Recherches historiques sur la + folie,_ pag. 10 + + [2] Vid. Trelat, _Obr. cit._, pag. 38. + +A confusão que n'estas passagens se nota entre perseguidos e +melancolicos, subsistirá, como veremos, até muito perto de nós e merece +explicar-se desde já. + +Definindo a melancolia «animi angor in una cogitatione defixus», Areteu +caracterisava esta doença por duas ordens diversas de factos a que dava +igual valor: de um lado, o phenomeno emotivo, consistindo n'um estado de +angustia _animi angor_, do outro, o facto intellectual de uma concepção, +delirante absorvendo e fixando o espirito (_in una cogitatione +defixus_). Pouco a pouco, porém, a consideração de um delirio limitado +foi, talvez por mais apparente, predominando sobre a de um estado mental +depressivo na caracterisação da melancolia, como se vê nos auctores que +succederam a Areteu. Procurando, com effeito, differenciar a melancolia +da mania, elles não o faziam pondo em contraste os estados emotivos que +acompanham estas vesanias, mas proclamando que na primeira o delirio é +limitado, unico e absorvente, ao passo que na segunda elle é multiplo, +geral e dispersivo. + +Repetindo-se atravez dos tempos, esta doutrina que faz prevalecer o +elemento intellectual sobre o emotivo, conquista de tal modo as opiniões +que no seculo XVII melancolia e delirio parcial tornam-se termos +equivalentes. Assim Sennert a definia: «Uma concentração da alma sobre a +mesma idéa ou um delirio que se exerce sobre um pensamento, falso quasi +exclusivo».[1] + + [1] Vid. Morel,_Traité des maladies mentales_, pag. 54. + +Nenhuma idéa de emoção depressiva e dolorosa se encontra n'esta e +analogas definições, em que, pelo contrario, a unidade do delirio figura +como elemento exclusivo. O _angor animi_ de Areteu desapparecera, +restando apenas da antiga definição o conceito de um espirito absorvido +_in una cogitatione_. Logicamente, pois, incluiram os medicos do seculo +XVII o delirio de grandezas no quadro clinico da melancolia. Sob o seu +ponto de vista, com effeito, tanto valem os perseguidos como os +megalomanos, porque uns e outros são, no dizer de Sennert, doentes «cuja +razão se acha pouco alterada ou apenas alterada em relação a um +objecto», isto é, por definição, melancolicos. Entre estes collocava o +auctor que acabamos de citar, um doente julgando-se monarcha do Universo +e cuja razão, _só parcialmente lesada_, lhe permittia «dissertar +perfeitamente sobre as mais graves questões». Plater, ao lado dos +melancolicos sitiophobos «receiando envenenamentos e accusando de +hostilidade e perfidia os seus mais intimos amigos», collocava doentes +«possuidos das idéas de opulencia e de realeza». + +A unidade do delirio e não a natureza d'elle ou das emoções que o +acompanham, constituia no seculo XVII, como se vê, a caracteristica dos +estados melancolicos. De resto, Sennert explicitamente affirmava que «na +melancolia o delirio é muitas vezes alegre». + +Os medicos do seculo XVIII acceitaram unanimemente a doutrina que no +quadro clinico da melancolia fazia entrar a titulo de variedades os +delirios de perseguições e de grandezas. Para Sauvages, por exemplo, o +delirio exclusivo caracterisava a melancolia; mais explicito, Lorry +descreveu como fórma d'esta vesania «um delirio parcial exaltado com +paixão excitante». + +A primeira metade do nosso seculo não trouxe modificação sensivel a +estas idéas. Rusch descrevia em 1812 duas variedades melancolicas, uma +triste, _tristimania_, outra alegre, _aménomania_. Pinel admittia +igualmente duas fórmas de melancolia: uma depressiva e outra ambiciosa, +caracterisadas por um delirio parcial. «Nada mais inexplicavel, diz +elle, e, todavia, nada mais verificado que a existencia de duas fórmas +oppostas da melancolia. É algumas vezes uma explosão de orgulho e a +idéa chimerica de possuir immensas riquezas e um poder sem limites, +outras vezes o abatimento mais pusilanime, uma consternação profunda e +mesmo o desespero»[1]. + + [1] Pinel, _Traité médico-philosóphique sur l'aliénation mentale_, pag. + 165. + +Sob diversa nomenclatura, Esquirol propagou, sem as alterar no fundo, as +idéas dos seus antecessores. Designando pelo termo infeliz de +_monomania_ o grupo dos delirios parciaes, acceita duas variedades ou +especies: uma, depressiva, a _lypemania_, outra, expansiva, a _monomania +propriamente dita_. A _lypemania_, que não é senão a _tristimania_ de +Rusch ou a melancolia de fórma depressiva de Pinel, comprehende entre +outras variedades o delirio de perseguições, ainda então innominado; _a +monomania propriamente dita_, que equivale á _aménomania_ de Rusch e á +melancolia de fórma expansiva de Pinel, é por elle definida «um delirio +parcial ou monomania alegre», e comprehende os delirios de grandezas, +não só o idiopatico, mas, como se vê nos casos que aponta, o +symptomatico da paralysia geral, ao tempo ainda não descripta. + +Recebendo a influencia tradicional dos seus predecessores, Esquirol +transmittiu-a, reforçada pela sua grande auctoridade, aos alienistas que +lhe succederam na primeira metade d'este seculo. É documento d'isso o +extraordinario successo da doutrina das monomanias, aliás +psychologicamente erronea, clinicamente infecunda e juridicamente +perigosa. + +No seu _Tratado das Doenças Mentaes_ affirma Esquirol que o termo +_monomania_ adquiriu direitos de cidade pela, introducção no diccionario +da Academia Franceza, e felicita-se por isso. E, todavia, esse termo é +confuso, porque no proprio livro do mestre nos apparece com +significações diversas, ora designando, como vimos, delirios parciaes, +ora obsessões e impulsos, isto é, um conjuncto de factos heterogeneos e +de significação clinica diferente. Primitivamente creada para designar o +mesmo que a melancolia dos antigos--uma affecção parcial do +entendimento, acompanhada quer de tristeza, quer de expansão, a palavra +_monomania_ foi insensivelmente generalisada pelo proprio Esquirol no +sentido de exprimir uma doença, ou desvio parcial de qualquer faculdade: +ao lado de uma _monomania intellectual_, tem logar uma _monomania +affectiva_ e uma _monomania impulsiva_. Delirios systematisados, emoções +procedentes de idéas obsediantes, impulsos cegos e irresistiveis, tudo +entra no quadro da monomania--o mais amplo, diz Esquirol, de toda a +classificação. + +De sorte que, se os antigos, desviando a palavra _melancolia_ do +significado que Areteu lhe dera, chamaram a um só grupo delirios do +caracter diverso e lançaram assim na sciencia uma grande confusão, +Esquirol não fez senão augmental-a pela creação das monomanias. + +Como quer que seja, o immenso e, por innumeros titulos, justificado +prestigio d'este observador fez correr a palavra e a doutrina. Sem +duvida, objecções foram bem cedo erguidas contra ambas por Falret, +Delasiauve e outros, que negaram a existencia de delirios circumscriptos +a uma só idéa, affirmados na palavra, ou pozeram em relevo a +solidariedade das funcções mentaes, contradictada pela doutrina. «Todas +as faculdades, escrevia Falret em 1819, participam em maior ou menor +grau das desordens intellectuaes; de resto, sempre que uma idéa falsa +invade a intelligencia, o seu poder contagioso exerce-se sobre as +outras, de sorte que sob um delirio preponderante véem-se estabelecer +delirios secundarios e derivados que não tardam a invadir todo o +intendimento»[1]. Pelo seu lado, Delasiauve escrevia em 1829: «Póde +acaso limitar-se o circulo d'acção em que uma idéa dominante deve +exercer ou realmente exerce a sua influencia?» E mais tarde ainda: «O +delirio dos monomanos não é nunca tão circumscripto como se pretendeu; a +verdadeira monomania é rarissima!»[2] Todavia, a criticas d'esta ordem +redarguiam Esquirol e os seus discipulos que nem a palavra _monomania_ +significava unidade de delirio, nem a doutrina necessariamente implicava +que a lesão de uma faculdade não podesse fazer-se sentir sobre as +outras; para elles, a monomania designava uma lesão parcial e +preponderante, mas não unica e independente, das faculdades. + + [1] Falret, _Des maladies mentales_ + + [2] Delasiauve, _Les Pseudomonomanies_ + +«Tem-se negado, escrevia Esquirol, a existencia dos monomaniacos, +dizendo-se que os alienados não deliram nunca sobre um só objecto, mas +que sempre n'elles há perturbações da sensibilidade e da vontade. Mas, +se assim não fosse, os monomaniacos não seriam loucos.»[1] Pelo seu +lado, Marcé escrevia: «Nunca os que crêem na existencia das monomanias +pensaram em negar a solidariedade das faculdades intellectuaes no +monomaniaco. Reconhecendo que o delirio é raras vezes limitado a um só +ponto, crêem, no emtanto, dever conservar as monomanias a titulo de +grupo distincto.»[2] + + [1] Esquirol,_Des maladies mentales,_ tom. II, pag. 4. + + [2] Marcé, _Traité pratique des maladies mentales,_pag. 351. + +Voltemos, porém, ao nosso restricto assumpto. + +A _monomania intellectual_ de Esquirol, caracterisada por um delirio +limitado de natureza alegre ou triste, não é senão a _melancolia_ dos +antigos medicos. Para aquelle, como para estes, era a extensão dos +conceitos falsos o criterio para classificar as loucuras em que ha +compromisso da intelligencia: de um lado, a mania, manifestando-se por +um delirio geral e dispersivo, do outro, a monomania, symptomatisada por +um delirio parcial e fixo. + +Se a estas duas especies accrescentarmos a _idiotia_ e a _demencia,_ +entrevistas por Pinel, mas só definidas por Esquirol, a _estupidez_ +descripta por Georget, e a _paralysia geral,_ estudada por Calmeil, +encontramo-nos em face da classificação das psychoses que até ao meiado +do nosso seculo a França inteira adoptou. Ora, dentro d'esta +classificação, não teem logar distincto e proprio, como se vê, os +delirios systematisados: o de perseguições é descripto como uma +variedade lypemaniaca, e o de grandezas é confundido com as +manifestações symptomaticas de outras doenças mentaes. + + + +II--PHASE ANALYTICA + +De Lasègue a J Falret e de Griesinger a Snell e Sander--O delirio de +perseguições; a megalomania; o delirio dos perseguidores; a Verrücktheit +secundaria; a Verrücktheit originaria--Começo de interpretação +pathogenica. + + +Foi Lasègue em 1852 quem primeiro destacou do cahos da melancolia o +delirio de perseguições para eleval-o á dignidade de «especie +pathologica entre as alienações mentaes». + +No seu memoravel trabalho sobre este assumpto, o eminente alienista +começa por notar que as idéas de perseguição apparecem como episodio +symptomatico e a titulo de phenomeno incidente no _alcoolismo_, nas +_loucuras provocadas por certas substancias narcoticas_ e em muitos +_delirios parciaes_; na doença, porém, que elle descreve pela primeira +vez essas idéas não são um syndroma fortuito, mas um facto constante e +essencial, um phenomeno preponderante e fixo. A nova psychose tem, de +resto, como titulos á autonomia nosographica, symptomas especiaes e uma +evolução caracteristica. + +Estudando a marcha do delirio de perseguições, Lasègue reconhece-lhe +dois periodos: um, _de incubação,_ consistindo n'um mal-estar indefinido +e vago, mas absorvente e inquietante, em que o doente se suspeita +victima de hostilidades cuja origem não sabe ainda determinar; outro, +_de estado_, em que o delirio definitivamente se installa e systematisa. +Ao principio o doente não exprime a idéa de uma perseguição senão com +uma _certa reserva_, hesitantemente, tentando ainda provar a si mesmo +que ella é _absurda_; mais tarde, porém, a duvida esbate-se e o systema +delirante apparece definitivamente formado. A duração do primeiro +d'estes periodos é essencialmente variavel: tão rapida em alguns doentes +_que a custo se lhe surprehende o primeiro grau_, prolonga-se e +arrasta-se em outros, que só _muito gradualmente_ e por uma _progressão +bem sensivel_ e bem apreciavel attingem a construcção do seu romance +delirante. + +Do mal-estar caracteristico do primeiro periodo diz Lasègue que elle _se +não parece em nada com a inquietação ainda a mais viva do homem normal_; +é indefinivel, accrescenta, como _os symptomas que annunciam e fazem +presentir a invasão das doenças graves_. O periodo de estado, esse, é +como a _floração_ da psychose: o _romance systematico_ desenvolve-se +pelo reconhecimento dos perseguidores--a policia, o jesuitismo, os +magnetisadores, a maçonaria, os physicos, etc. + +Passando ao estudo dos symptomas, Lasègue põe em relevo o papel que +desempenham na doença as falsas sensações auditivas. «O orgão do +ouvido, escreve o eminente professor, fornece as primeiras sensações +sobre que se exerce a intelligencia pervertida. O doente ouve retalhos +de conversas que interpreta e se applica; os mesmos ruidos que +naturalmente se produzem,--a passagem de um trem, os passos de uma +pessoa que sobe ou desce uma escada, uma porta que se abre ou fecha, são +objecto dos seus commentarios».[1] Fallando, em seguida, das +allucinações auditivas, declara-as _as unicas compativeis com o delirio +de perseguições;_ e accrescenta: «Basta que um doente accuse visões para +que eu não hesite em affirmar que elle pertence a outra cathegoria de +delirantes»[2]. Na mesma ordem de idéas escreve ainda: «Qualquer que +seja a epocha em que ellas se declarem, as allucinações pertencem sempre +ao quadro das auditivas; não é demais a minha insistencia sobre este +caracter, que considero pathognomonico»[3]. Todavia as allucinações do +ouvido, tão importantes e de tão vasto papel, não são para Lasègue um +phenomeno constante na psychose que descreve: «A allucinação do ouvido, +diz elle, não é nem a consequencia obrigada, nem o antecedente +necessario do delirio de perseguições»[4]. Os perseguidos podem, segundo +elle, não experimentar nunca allucinações; limitando-se a _fundar +inducções delirantes sobre sensações anditivas reaes_, alguns ha que +percorrem _todos os periodos da doença_. + + [1] Lasègue, _Le délire des persécutions_ in _Ètudes médicales_, tom. + 1., pag. 554. + + [2] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 555. + + [3] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 555. + + [4] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 555. + +Lasègue não refere allucinações além das auditivas: «As outras sensações +de que os perseguidos se queixam, diz elle, reduzem-se a impressões +nervosas»[3]. De resto, estas mesmas impressões devem antes lançar-se á +conta do hysterismo que á do delirio de perseguições: «As mulheres, diz +elle, offerecem os exemplos mais frequentes--sopros internos, subitos +calores, entorpecimentos, dores atrozes e passageiras e os outros +accidentes tão moveis da hysteria»[4]. + + [3] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 556. + + [4] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 557. + +Como a symptomatologia e a marcha da doença, a pathogenia d'ella mereceu +tambem as attenções de Lasègue. Segundo elle, o delirio procederia +sempre da necessidade que o alienado sente de explicar as sensações +anormaes do periodo inicial, e resultaria, portanto, de uma consciente +elaboração logica. «A crença n'uma perseguição, diz elle, não é senão +secundaria; provoca-a a necessidade de dar uma explicação a impressões +morbidas provavelmente communs a todos os doentes e que todos referem á +mesma causa»[1]. Por um raciocinio, pois, passaria o perseguido do vago +mal-estar do periodo prodromico ao delirio systematisado e quasi +invariavel que caracterisa a doença em plena floração. O facto inicial +seria um phenomeno confuso da sensibilidade, uma perturbação emotiva, o +phenomeno intellectual, o delirio, seria ulterior e nascido do primeiro. +«É, diz Lasègue, depois de um certo tempo de preoccupação e de +resistencia que o alienado procura remontar á causa dos seus +soffrimentos, e passa assim do primeiro ao segundo periodo. A transição +faz-se então por este invariavel raciocinio: os males que soffro são +extraordinarios; tenho experimentado bem mais duros golpes, mas +concebia-os, descobria-lhes mais ou menos o motivo; agora encontro-me em +condições extranhas que não dependem nem da minha saude, nem da minha +posição, nem do meio em que vivo: é preciso que alguma coisa de +exterior, de independente de mim intervenha; ora eu soffro e sou +desgraçado: só inimigos podem ter interesse em me magoar; devo, pois, +crêr que intenções hostis são a causa das impressões que +experimento»[2]. + + [1] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 552. + + [2] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 552. + +Decorrido o periodo prodromico e attingida a systematisação delirante, +a doença deixaria, segundo Lasègue, de acompanhar-se de _grandes +perturbações de sentimentos_. Ha perseguidos que, _mudando +constantemente de casa, fatigando incessantemente magistrados e +auctoridades com interminaveis queixas, conservam_, todavia, _uma certa +egualdade de humor_ «Nunca vi nenhum, diz o auctor, cahir em melancolia +continua, reagir por odios violentos ou meditar vinganças»[3]. + + [3] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 551. + +Occupando-se da etiologia, Lasègue nota que o maximo de frequencia do +delirio de perseguições se realisa entre os 35 e os 50 annos e que esta +psychose ataca de preferencia as mulheres: segundo a sua estatistica, +25% das alienadas, comprehendidas as idiotas e imbecis, seriam +perseguidas. As causas proximas seriam, em regra, _de uma completa +insignificancia:_ uma insomnia, uma phrase inoffensiva, uma refeição de +sabôr desagradavel, etc. Emfim, estudando o delirio em relação ao +caracter anterior do doente, Lasègue nota que «os espiritos mais timidos +não são os mais predispostos»; no delirio de perseguições vê o eminente +clinico, não o exaggero de uma prévia tendencia natural, mas um +_elemento pathologico novo introduzido no organismo moral e sem +equivalente no estado de saude._ + +Procurando apenas «estabelecer um typo clinico e determinar os +caracteres que devem entrar na sua definição», o notavel alienista +declara abster-se de estudar «a marcha decrescente da doença e as suas +indicações therapeuticas». + +Tal é nos seus traços capitaes e na sua mesma essencia a extraordinaria +memoria de Lasègue. + +Sem nada accrescentar a este quadro clinico, Morel fez, todavia, desde +1853 umas importantes observações sobre a historia dos perseguidos, +affirmando que muitos d'elles principiam por ser hypocondriacos e acabam +por delirar n'um sentido ambicioso. + +Exposta pela primeira vez d'uma maneira dogmatica e n'um certo grau de +generalidade nos seus _Estudos Clinicos,_ a observação de Morel tinha, +contudo, precedentes na sciencia. Pinel, com effeito, illustrando o que +elle chamava a transição da _melancolia depressiva_ á _melancolia +ambiciosa_, expozera em 1809 alguns casos de doentes que, tendo-se +julgado por mais ou menos tempo victimas de hostilidades e de manejos +criminosos, acabaram por crêr-se grandes personagens; pelo seu lado, +Esquirol notára tambem desde 1838 que da hypocondria póde passar-se á +_lypemania_ e d'esta á _monomania da vaidade_, apresentando como +exemplos alguns interessantes vesanicos primeiro hypocondriacos, depois +perseguidos e por ultimo ambiciosos. Entre os casos de Pinel ha o de um +alienado que durante oito annos delirou como perseguido, crendo-se em +constante imminencia de morte por envenenamento, não ingerindo senão +alimentos que furtava na cosinha do asylo, e que acabou por crêr-se +igual ao Creador e soberano do mundo; entre as observações de Esquirol +figura a de um doente que, excessivamente inquieto sobre o seu estado de +saude durante mais de dois annos, entra em seguida no caminho das +perseguições, imaginando-se objecto de tentativas de envenenamento por +parte da familia, e termina, decorrido um anno, por crêr-se filho de +Luiz XVI. Mas, por valiosas e instructivas que sejam em si mesmas, estas +observações não desempenham nos livros de Pinel e de Esquirol mais que +um papel episodico e sem alcance. Morel foi indiscutivelmente o primeiro +a vêr n'uma tal successão de delirios, não apenas um curioso accidente, +mas uma verdadeira lei de evolução vesanica, segundo a qual a passagem +regular da hypocondria ao delirio de perseguições e d'este ao delirio +ambicioso seria um facto constante nos alienados hereditarios. D'aqui a +affirmar a existencia de uma psychose degenerativa de que os delirios +hypocondriaco, persecutorio e ambicioso, succedendo-se, não +constituiriam senão _étapes_ ou phases evolutivas, vae uma pequena +distancia que Morel percorreu, como veremos, desde a publicação dos +_Estudos Clinicos_ em 1853 até á do _Tratado das Doenças Mentaes_ em +1860. + +Outros auctores franceses, entre os quaes Renaudin, Broc e Dagonet, +notaram a successão de delirios diversos, nomeadamente de perseguições e +de grandezas, n'um mesmo alienado; todavia, por desconhecimento ou +incomprehensão do alcance dos trabalhos de Morel, nenhum d'elles se +preoccupou com a interpretação do phenomeno. Só em 1869 Foville, +retomando a questão na sua excellente memoria sobre a _Loucura com +predominio ao delirio de grandezas_, procurou interpretar, sobretudo, a +passagem--tão frequentemente observada agora que a attenção dos clinicos +incidia sobre ella--do delirio de perseguições ao de grandezas. + +Marcando na historia dos delirios systematisados um periodo importante, +o trabalho de Foville merece deter-nos um momento. + +Depois de ter mostrado que o delirio de grandezas póde apparecer a +titulo episodico na maioria das doenças mentaes e com mais ou menos +relevo constituir um syndroma de algum dos seus periodos evolutivos, +Foville estabelece que elle se torna preponderante e reveste +inconfundiveis caracteres semeioticos em dois casos: na loucura parcial +e na demencia paralytica. Pondo de parte, por alheio ao nosso estudo, +este ultimo caso, vejamos o que Foville pensava do primeiro. + +A loucura parcial, que importa não confundir com a monomania de +Esquirol, representaria, segundo Foville, as alienações caracterisadas +pelo conjuncto d'estes caracteres: presença de um delirio systematisado, +ausencia de um estado habitual depressivo ou expansivo, existencia de +perturbações sensoriaes, e chronicidade. + +O delirio de perseguições descripto por Lasègue é um dos representantes +d'este grupo; um outro seria, segundo Foville, a _megalomania_, que elle +define como um delirio de grandezas logicamente coordenado, +associando-se a allucinações chronicas e, no seu periodo de estado, a +idéas de perseguição. + +Em rigor, nem o termo é novo, porque antes o tinham empregado, entre +outros, Broc e Dogonet, nem a definição da doença absolutamente +original, porque desde Esquirol se havia reconhecido a existencia de um +delirio ambicioso idiopatico. O que de original e novo existe no +trabalho de Foville é a maneira de estudar a génese do delirio de +grandezas e as relações d'elle com a doença de Lasègue. + +Segundo Foville, na loucura parcial, de que são escólas o delirio de +perseguições e a megalomania, toda a symptomatologia essencial se reduz +a concepções delirantes e erros sensoriaes, podendo estas duas ordens de +factos manter entre si relações diversas, que importa muito considerar +para a comprehensão da pathogenia. Ou as concepções delirantes se +apresentam primeiro, apparecendo as illusões e allucinações como um +facto secundario da doença, ou, pelo contrario, a esphera sensorial é +primitivamente affectada e só depois irrompem as concepções chimericas. + +Ora, segundo Foville, não é de modo nenhum indifferente para a natureza +mesma da doença que a successão das duas ordens de symptomas se realise +n'um sentido ou n'outro, porque o allucinado-delirante é, em regra, um +perseguido que póde tornar-se megalomano, ao passo que o +delirante-allucinado é mais vezes um megalomano que póde vir a ter idéas +de perseguição. A razão d'isto, no dizer de Foville, vem de que na +loucura parcial as allucinações primitivas são, como estabelecera +Lasègue, preponderantemente, senão exclusivamente as do ouvido, de um +caracter, em regra, penoso ao principio e de molde, portanto, a gerarem +um delirio depressivo. Ora, sendo a hypothese do allucinado-delirante +mais frequente que a do delirante-allucinado, é tambem mais vulgar o +perseguido-megalomano que o megalomano-perseguido. + +Posto isto, que serve para mostrar que não é meramente accidental a +passagem de um delirio a outro, Foville, estreitando mais o assumpto, +deriva á explicação do modo intimo por que ella se realisa. + +A transição (mais frequente, como foi dito) do delirio de perseguição ao +de grandezas opera-se, ao vêr de Foville, por um processo logico. +«Depois, diz elle, de terem por mais ou menos tempo attribuido as +proprias allucinações a inimigos desconhecidos, contentando-se com +explical-as por uma palavra mais ou menos obscura e mysteriosa, certos +lypemaniacos allucinados dizem a si mesmos: Factos d'esta ordem não +podem passar-se, no estado social em que vivemos, sem a intervenção de +pessoas influentes e altamente collocadas; essas só, portanto, são as +instigadoras dos nossos tormentos. Outros, ao contrario, reconhecendo +que não succumbem nunca de um modo completo aos perigos de que se sentem +cercados; suppõem ter amigos occultos, mas de um grande poder, que os +protegem. Esta ordem de idéas imprime desde então o seu cunho ao +conjunto das concepções e allucinações: os doentes fallam de grandes +personagens que vêem por toda a parte, desconhecem a identidade real dos +individuos, que os cercam e crêem que imperadores, imperatrizes e +principes os visitam ou lhes enviam mensagens. No meio do delirio +melancolico as idéas de grandeza adquirem realmente uma importancia +preponderante. Mas as coisas podem ir mais longe ainda. Impressionados +pela desproporção entre a sua posição burgueza e o poder de que devem +dispôr os seus inimigos para os attingirem, a despeito de tudo; entre o +apagado papel que desempenham no mundo e os moveis imperiosos que podem +explicar o encarniçamento com que são perseguidos, alguns d'estes +doentes acabam por a si proprios perguntarem se realmente são tão pouco +importantes como parecem. Uma nova perspectiva se abre diante do seu +atormentado espirito: não é já a dos outros, mas a propria personalidade +que aos seus olhos se transforma. Para que os persigam d'este modo, +dizem elles, é preciso que um alto interesse se dê, e isso só se +comprehende porque elles façam sombra a gente rica e poderosa, porque +tenham, elles proprios, direito a uma fortuna e a uma posição de que +fraudulentamente os despojaram, porque pertençam a uma classe elevada de +que foram afastados por circumstancias mais ou menos mysteriosas, porque +não sejam seus verdadeiros paes os que como taes consideram, porque +pertençam, emfim, a uma alta estirpe, as mais das vezes real»[1]. + + [1] Foville, _La folie avec prédominence du délire des grandeurs_, pag. + 345. + +E accrescenta: «Estas idéas terão, sobretudo, tendencia a produzir-se +nos casos em que, já antes de doente, o individuo teve de soffrer no seu +orgulho ou nos seus interesses pelo facto da irregularidade ou do +mysterio do proprio nascimento. Assim, temos notado que esta fé n'uma +origem illustre, que esta crença n'uma imaginaria fortuna é +relativamente frequente nos _filhos naturaes_ que véem a cahir na +loucura. São elles principalmente os preparados para ás idéas de +perseguição juntarem um novo romance em que dominam as concepções de +grandeza, as substituições ao nascer, as confusões de pessoas»[1]. + + [1] Foville, _Loc. cit._, pag. 346. + +Como se vê, Foville não faz senão seguir a orientação psychologica de +Lasègue, que explicava pela intervenção de um raciocinio a passagem, no +delirio de perseguições, do periodo prodromico ao de estado. Um processo +logico, essencialmente deductivo e syllogistico preside tambem, segundo +Foville, á génese das idéas ambiciosas que derivam de um delirio +persecutorio. + +Mas não é este, reconhece-o Foville, o unico modo por que o delirio de +grandezas póde produzir-se; algumas vezes succede que as concepções +ambiciosas se installam primitivamente, dando-se então o caso de +surgirem depois idéas de perseguição, por _uma sorte de propagação +regressiva que, ao fim de um certo tempo, acaba por nivelar as +situações._ Qual é agora o mecanismo de transição? «É difficil, escreve +Foville, crêr-se um doente na posse de direitos á fortuna e ao mando, +figurar-se descendente de uma familia illustre, e não se sentir vexado +pela modestia da posição que occupa ou pela exiguidade dos recursos de +que dispõe. N'isto vê elle um signal de injustiça, que attribue á acção +de inimigos poderosos; crê-se, pois, victima de manobras hostis e +fabrica assim um systematico delirio de perseguições, secundario agora e +consequencia das idéas de grandezas»[1]. + + [1] Foville, _Loc. cit._, pag. 347. + +É ainda, como se vê, um processo logico o destinado; segundo Foville, a +explicar a passagem do delirio ambicioso ao de perseguições; toda a +vesania parcial, portanto, qualquer que tenha sido o seu ponto de +partida e qualquer que haja de ser o seu termo, se desenrola sob a +dependencia do raciocinio e dentro da esphera consciente da ideação. + +Os casos em que o delirio de grandezas succede immediatamente a +allucinações de caracter agradavel e lisongeiro, são extremamente raros; +a interpretação dos erros sensoriaes, isto é, um processo consciente e +reflectido, é ainda d'esta vez origem da doença. + +Referindo-se á doutrina de Morel, Foville declara não a acceitar, porque +o delirio hypocondriaco, ponto de partida necessario, segundo aquelle +auctor, dos delirios de perseguições e de grandezas, só excepcionalmente +o encontrou. + +De quanto vem de ser exposto a conclusão a tirar é esta: + +Existe um delirio systematisado de grandezas que, no seu periodo de +estado, se combina sempre com idéas de perseguição, que é +invariavelmente acompanhado de allucinações auditivas e que tanto póde +originar-se, por via deductiva, de um preexistente delirio +persecutorio, como nascer _d'emblèe_. Não sendo um episodio morbido, nem +mesmo a phase evolutiva de uma vesania anterior, porque póde ser e é +muitas vezes primitivo, esse delirio constitue uma doença com foros de +autonomia e direitos a uma designação privativa: a _megalomania_. + +Tal é, em resumo, a memoria de Foville na parte consagrada ao delirio +parcial de grandezas. + +Depois dos importantes trabalhos de Lasègue e Foville, a psychiatria +franceza não nos offerece, dentro d'este periodo de analyse, estudo que +tenha feito progredir pela interferencia de pontos de vista novos o +conhecimento dos delirios systematisados. O livro publicado por Legrand +du Saulle, sob o titulo de _Delirio de perseguições_, em 1871, valioso, +certamente, pela copia de observações e pelos detalhes de analyse +clinica, nada tem, no fundo, de original, embora tentem proclamar o +contrario estas ambiciosas palavras do prefacio: «A despeito da sua +extrema frequencia e dos seus tão claros caracteres distinctivos, o +delirio de perseguições achou-se confundido com a melancolia de Pinel, +com a lypemania de Esquirol, com a monomania depressiva de Baillarger; é +ahi que eu vou buscal-o para o estudar nas suas diferentes phases, para +o constituir _de toutes pièces_ e fazer d'elle uma _especie_ á +parte»[1]. Dezenove annos antes fizera Lasègue, como vimos, o que n'esta +passagem se annuncia. O trabalho de Legrand du Saulle, excepção feita +dos capitulos consagrados ao tratamento, á medicina legal e ao contagio +do delirio, que nada teem que vêr com a constituição scientifica da +doença, não é senão um desenvolvimento da memoria de Lasègue, cuja ordem +de exposição adopta e cujas expressões mesmo não raro se apropria. + + [1] Legrand du Saulle, _Le Délire des persécutions,_ pag. 11. + +Como Lasègue, Legrand du Saulle descreveu dois periodos no delirio de +perseguições: um, de começo, exteriorisado por uma _inquietação +indefinivel e de nenhum modo comparavel á do homem normal que tem um +grande interesse compromettido;_ outro, de estado, caracterisado pela +definitiva systematisação das idéas delirantes formando um _romance_ +invariavel para cada doente. + +Como Lasègue, Legrand du Saulle caracterisa a inquietação do primeiro +periodo comparando-a á _cephalalgia_ e ao _arrepio_ que são muitas vezes +os precursores de graves doenças communs, mas que em si mesmos nada teem +de preciso. + +Como Lasègue, Legrand du Saulle explica a transição do primeiro ao +segundo periodo por um acto de reflexão do perseguido, por um verdadeiro +raciocinio. «O doente, escreve Legrand du Saulle, diz a si proprio e aos +outros que não são naturaes as inquietações e angustias que experimenta, +que lhes não encontra causa no meio em que vive, no estado da propria +saude, no da propria fortuna. No seu passado experimento grandes +infortunios, mas sabia o motivo d'elles e não eram os mesmos os seus +soffrimentos, não tinham o caracter vago e indefinido dos actuaes. Este +mal-estar tão grande, estas impressões tão penosas e tão injustificadas +devem ter uma causa secreta. E é assim que o doente se sente +naturalmente levado a pensar que inimigos occultos, interessados em +perdel-o, se reunem e procuram fazel-o soffrer»[1]. + + [1] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 17. + +Como Lasègue, Legrand du Saulle dá na symptomatologia da doença um logar +preponderante ás allucinações auditivas, precedidas frequentemente de +illusões do mesmo sentido. «O doente, escreve o auctor, começa por dar +uma falsa significação aos ruidos reaes que escuta: uma porta que se +abre, pessoas que fallam na rua, uma palavra pronunciada ao pé d'elle, +os passos de alguem, tudo é materia do delirio. As verdadeiras +allucinações só começam, em geral, mais tarde e n'uma epocha +variavel»[2]. + + [2] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 43. + +Como Lasègue, Legrand du Saulle admitte um periodo de declinação na +doença, que, sendo, em regra, incuravel, póde terminar pela cura n'uma +quinta parte dos casos. Na etiologia, Legrand du Saulle constata, como +Lasègue, que a doença é mais frequente nas mulheres e se realisa +preferentemente na epocha por excellencia das grandes luctas da vida. +Algumas considerações que faz sobre a _hereditariedade_, o _onanismo_ e +as _perseguições infantis_ são de um caracter vago. Como se vê, em tudo +quanto póde servir para caracterisar como _especie_ o delirio de +perseguições--na symptomatologia, na marcha, na etiologia, Legrand du +Saulle não faz senão seguir a memoria de Lasègue. + +Vamos vêr que n'um ponto de maxima importancia, não tratado pelo +eminente professor da faculdade de Paris no seu trabalho de 1852, +Legrand du Saulle acompanha a memoria de Foville. Refiro-me á passagem +do delirio de perseguições ao de grandezas, explicada, como vimos, por +Legrand du Saulle acceita esta mesma pathogenia. «Depois, diz elle, de +ter soffrido tantas hostilidades da parte de implacaveis inimigos, +depois de ter sido victima de tantas intervenções devidas á magia ou ao +electro-magnetismo, o perseguido recolhe-se por vezes e pensa: Como +podem em pleno seculo XIX produzir-se factos d'esta natureza? É preciso +admittir no fundo de tudo isto uma energica vontade superior, a de um +alto personagem, a de um principe ou, talvez, de um rei! Deve ter sido +necessaria, com effeito, para explicar o meu caso uma auctoridade +verdadeira, que só póde existir nas mãos de millionarios, de ministros e +de imperadores: quem ordenou tudo é, pois, um grande senhor ou um +notavel personagem. Um outro perseguido pensará: Armam-me redes, mas eu +evito-as; expõem-me a coalisões formidaveis, mas eu saio-me bem d'ellas; +attentam contra a minha vida, mas eu resisto; alguem, pois, de um alto +poder vela por mim e me protege; esse alguem é o chefe do estado. Eis, a +partir d'aqui, toda uma ordem nova de idéas imprimindo uma outra +direcção ás concepções delirantes e ás allucinações. O perseguido não +cessa desde então de fallar em ministros, em familias reinantes, na +côrte pontifical, desconhecendo o caracter real das pesssoas que o +cercam e affirmando que Napoleão lhe envia mensagens, que Trochu o +chamou, que Thiers vae recebel-o, que tal ou tal princesa vem visital-o. +N'uma palavra, encontramo-nos em presença de idéas de grandeza +pathologicamente juxtapostas, porque as perseguições não cessaram, os +inimigos existem ainda»[1]. + + [1] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 84. + +«Acabamos de constatar, continua Legrand du Saulle, erros grosseiros +sobre a personalidade dos outros; pois vamos vêr que uma nova +transformação se opera agora e que erros mais grosseiros ainda vão +dar-se d'esta vez sobre a personalidade de perseguido. Sigamos um pouco +o raciocinio do doente: As operações dos meus inimigos, pensa elle, são +tão desleaes como persistentes e perigosas; os meus inimigos são +infatigaveis e poderosos; mas que interesse podem elles ter em me +mortificarem d'este modo, a mim, homem ignorado, obscuro ou collocado +n'uma situação modesta? O contraste entre os perseguidores e a victima é +dos mais notaveis. Quem sou eu com effeito? Talvez um ser menos apagado +do que se pensa, mais importante do que se imagina, mais temivel do que +se suppõe. E nem póde deixar de ser assim. Enchem-me de humilhações +odiosas, dirigem contra mim os mais tenebrosos attentados; ha, pois, um +interesse em fazel-o. Esse interesse parte de millionarios, duques, +principes ou imperadores, e é, portanto, dos mais consideraveis. Mas +então faço eu sombra a alguem e esse alguem roubou-me necessariamente o +meu nome, o meu titulo, a minha fortuna, o meu logar social, a minha +corôa. Eu não sou, portanto, o homem humilde sob cuja mascara vivi até +hoje: fui mysteriosamente posto de lado, iniquamente esbulhado; o nome +de que uso não é o meu, os que teem feito de meus paes não são da minha +familia; eu sou o neto de Luiz XVI ou o filho de Napoleão, sou o duque +de Orleans ou chamo-me D. Carlos»[2]. + + [2] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 85. + +Para não deixar de seguir passo a passo Foville, que, como vimos, notara +a relativa frequencia do delirio ambicioso nos perseguidos _filhos +naturaes_, Legrand du Saulle accrescenta: «Se o perseguido não tem um +acto de nascimento regular, se alguma vez soffreu pelo facto de uma +situação indecisa, de uma paternidade não confessada ou de uma educação +mysteriosa, se o seu orgulho foi torturado ou lesada a sua fortuna, com +que perniciosos elementos não crescerá o seu delirio, com que +apparencias de verosimilhanças não fallará elle a todos da sua +imaginaria fortuna, do seu nascimento illustre?!»[1] + + [1] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 86. + +Como Foville e Morel, Legrand du Saulle refere casos em que no delirio +de perseguições se observam concepções hypocondriacas; estas, porém, +como as de grandeza, não constituem para elle uma phase evolutiva, mas +apenas um _acompanhamento_ ou _complicação_ da doença de Lasègue. + +Uma parte nova e valiosa do trabalho de Legrand du Saulle é a que se +refere ao diagnostico differencial entre o delirio de perseguições +idiopathico e o que, como syndroma, apparece na demencia senil, na +paralysia geral, no alcoolismo subagudo e nas intoxicações pelo chumbo e +pelo sulfureto de carbone. + +Não terminaremos esta rapida analyse do livro de Legrand du Saulle sem +notar que elle soube pôr em relevo dois factos interessantes, +ulteriormente notados por quantos se teem occupado d'este assumpto: a +existencia em muitos perseguidos de allucinações auditivas bilateraes de +caracter differente--vozes benevolas d'um lado, vozes hostis do outro, e +a tendencia d'estes doentes á formação de _neologismos_ e de um +incomprehensivel vocabulario privativo de cada um. + + * * * * * + +Até aqui os trabalhos francezes. Vejamos agora, retrocedendo um pouco na +ordem dos tempos, de que maneira os psychiatras allemães comprehenderam +os delirios systematisados. + +Foi Griesinger o primeiro entre elles a occupar-se d'este assumpto no +seu _Tratado de Doenças Mentaes_ cuja apparição remonta a 1845, mas que +só vinte annos depois veio a ser conhecido em França pela traducção +Doumic. N'esse livro, por muitos titulos notavel, descreve o eminente +professor de Zurich, sob a denominação de _Verrücktheit_, os delirios +parciaes que alguns annos mais tarde Lasègue e Foville haviam de elevar, +dando-lhes nomes privativos, á cathegoria de especies em nosographia +mental. Se bem que abreviada e n'um ou outro ponto confusa, a descripção +de Griesinger abrange todos os pontos essenciaes da symptomatologia dos +perseguidos e megalomanos, como facilmente se ajuizará pelas +transcripções que seguem. + +Referindo se ás concepções que são o nucleo mesmo do delirio e o seu +mais apparente symptoma, Griesinger escreve: «São umas vezes idéas +activas, exaltadas, maniacas; o doente occupa uma posição elevadissima e +tem um grande poder: é Deus, as tres pessoas da Santissima Trindade, +reformador do Estado, rei, um grande sabio, um propheta, um enviado de +Deus ou descobriu o movimento perpetuo, é o dominador de toda a natureza +e conhece os elementos de todas as coisas, etc. Outras vezes são idéas +passivas: os doentes crêem-se lesados, dominados, submettidos ao poder +d'outrem; julgam-se perseguidos, victimas de tramas hostis; mysteriosos +inimigos atormentam-nos pela electricidade, os maçonicos fazem lhes mal, +são possessos do diabo, estão condemnados a supplicios eternos, e +roubados nos seus bens mais caros, etc.»[1] + + [1] Griesinger, _Traité des maladies mentales,_ trad. franceza, pag. +386. + +Occupando-se dos erros psycho-sensoriaes, escreve: «As illusões e +allucinações em nenhuma outra fórma de loucura são tão frequentes como +na _Verrücktheit;_ em grande numero de casos são ellas principalmente +que alimentam e entreteem o delirio. Muitas vezes os doentes conversam +com as vozes que escutam, ou discutem com ellas, entregando-se então a +accessos de colera»[1] + + [1] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388. + +Sobre o caracter absorvente d'estes delirios e sobre as transformações +de personalidade, diz Griesinger; «Involuntariamente o alienado refere +tudo ao seu delirio, e é d'este ponto de vista que julga todas as +coisas ... As concepções falsas relativas ao proprio Eu chegam a attingir +um elevadissimo grau, a partir do qual o doente não considera as coisas +do mundo externo senão de um modo inteiramente pervertido ... Alguns +d'estes doentes parecem crêr que a sua verdadeira personalidade anterior +deixou de existir»[2] + + [2] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 387. + +Sobre a necessidade do _neologismo_ nos delirios systematisados de uma +longa duração, escreve o eminente alienista: «Por vezes a linguagem +ordinaria não basta ao doente para exprimir o proprio pensamento, pelo +que construe, ao menos para traduzir as suas concepções delirantes, um +vocabulario especial, que elle crê ser a linguagem primitiva, a +linguagem dos ceus»[3]. Ainda a proposito da exteriorisação do delirio, +Griesinger nota que «por vezes o doente occulta cuidadosamente o seu +systema geral de absurdos»[4]. + + [3] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388. + + [4] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388. + +Sobre o estado affectivo d'estes delirantes exprime-se assim o professor +allemão: «Nunca estes doentes tomam parte, como outr'ora, nas coisas do +mundo externo, ou são capazes de amar e odiar como antes; podem +morrer-lhes os paes e os amigos, póde ser-lhes subtrahido o que mais +estimavam, póde o mais terrivel acontecimento incidir-lhes sobre a +familia sem que elles sintam mais que uma ligeira emoção, se alguma +sentem. Um só ponto ha em que podem ser ainda emocionados, que póde +abalar-lhes promptamente os sentimentos e provocar uma forte reacção da +vontade: procurem-se combater pelo raciocinio as suas idéas fixas e logo +elles se irritarão e entrarão em colera; acariciem-se, pelo contrario, +as suas concepções e elles mostrar-se-hão contentes»[1]. + + [1] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388. + +Crêmos que as citações precedentes bastam para demonstrar que Griesinger +conheceu intimamente os perseguidos e ambiciosos. A descripção que +d'elles faz, como quadro symptomatico _d'après nature_, é nas suas +linhas capitaes e até em alguns detalhes a mesma que alguns annos mais +tarde haviam de exhibir-nos os alienistas francezes que, não conhecendo +os trabalhos do professor allemão, tinham, comtudo, diante de si +analogos modelos. + +Mas se a descripção symptomatica é a mesma, a _interpretação +nosographica e pathogenica_ é profundamente diversa, porque, ao passo +que os francezes consideraram sempre os delirios parciaes como fórmas +primarias da loucura, Griesinger julga-os, como vamos vêr, fórmas +secundarias ou estados procedentes da mania e da melancolia. + +O que é, com effeito, a _Verrücktheit_ do psychiatra allemão? «Sob este +nome, diz elle, designamos os estados secundarios de loucura, nos quaes, +embora tenha diminuido consideravelmente ou mesmo desapparecido por +completo a situação afectiva que caracterizava a fórma mental no seu +começo, o doente não cura, e em que a alienação consiste n'um pequeno +numero de concepções delirantes fixas que elle acaricia de um modo +particular e constantemente repete»[2]. E accrescenta: «A _Verrücktheit_ +é _sempre_, pois, uma doença _secundaria_, consecutiva á melancolia ou á +mania»[3]. _Residuos de estados de exaltação ou depressão,_ diz ainda em +outro logar, constituem a _Verrücktheit_ que, por isso mesmo, elle +colloca no grupo dos _estados de enfraquecimento psychico_, ao lado da +demencia. + + [2] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 382. + + [3] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 382. + +Na direcção de Griesinger e pelo caminho que elle abriu seguiram longo +tempo os alienistas allemães. «O delirio parcial, escrevia Albers em +sobretudo uma fórma de terminação da loucura com excitação ou depressão +geraes; quando se encontra esta fórma, uma das duas existiu +anteriormente e acabou por _uma cura incompleta_»[1]. Fallando da +metamorphose do Eu que acompanha os delirios systematisados n'uma phase +de adiantada chronicidade, Spielmann escrevia no mesmo anno «que ella +suppõe a existencia anterior da melancolia ou da mania, sem uma das +quaes não póde _nunca_ produzir-se»[2]. Em 1859 Neuman considerava a +_Verrücktheit_ «uma cura com perda de substancia da intelligencia», isto +é, uma cura incompleta da mania ou da melancolia, um estado secundario +ou consecutivo, acompanhado de uma decadencia das faculdades. + + [1] Albers, _Memoranda der Psychiatrie_. + + [2] Spielmann, _Diagnostik der Geisteskrankheiten_. + +Crêmos inutil proseguir em citações. As precedentes bastam a dar-nos uma +clara idéa da doutrina pathogenica dos delirios, systematisados segundo +a psychiatria allemã d'esta epocha. Suspensas na sua evolução para a +demencia, a mania e a melancolia atardar-se-hiam nas fórmas expansivas +ou depressivas da _Verrücktheit,_ delirio de grandezas ou delirio de +perseguições. + +Em contraste, porém, com estas idéas, que durante vinte annos dominaram +absolutamente a psychiatria allemã, descreveu Snell em 1865, baseando-se +em dez casos de observação pessoal, uma nova fórma de loucura +essencialmente caracterisada pela apparição primitiva de estados +allucinatorios e conceitos delirantes de contheudo mixto, expansivo e +depressivo. + +Esta fórma, que Snell denomina _monomania_ ou _Wahnsinn_, é inteiramente +distincta da mania e da melancolia. N'ella podem as idéas de perseguição +e de grandeza ser contemporaneas ou successivas; quando as ideias +ambiciosas succedem ás de perseguição realisa-se uma metamorphose da +personalidade vesanica. A evolução d'esta fórma é essencialmente +chronica e o seu prognostico infausto. A adopção do termo francez +_monomania_ parece indicar a parcialidade do delirio que, segundo Snell, +não conduz nunca á demencia, como a do termo allemão (derivado de +_Vahn_: delirio, e _Sinn_: sentidos) põe em relevo a importancia das +allucinações. + +Acceitando este modo de vêr, Griesinger penitenceia-se em 1867 da +excessiva e precipitada generalisação das suas idéas pathogenicas e +acaba por admittir, ao lado da _Secundäre Verrücktheit,_ uma _Primäre +Verrücktheit_, analoga ao _Wahnsinn_ de Snell. Na lição de abertura do +seu curso n'esse anno exprimia-se assim o grande chefe da psychiatria +allemã: «Áctualmente não considero já como fórmas secundarias as +alterações peculiares, muito chronicas e mixtas do delirio persecutorio +e ambicioso; ao contrario, convenci-me da origem _protogenica_ d'estes +estados que denomino _Primäre Verrücktheit»._ + +Perfilhando as idéas de Griesinger sobre a _Primäre Verrücktheit,_ +descreveu Sander em 1868, baseado em quatro casos clinicos, uma +variedade congenita d'esta fórma sob a designação de _Originäre +Verrücktheit_. Os delirantes perseguidos ou ambiciosos d'este sub-grupo +são desde a infancia taciturnos, mysantropos, romanticos, excessivamente +phantasistas, faltos de energia, onanistas, n'uma palavra, +originariamente enfermos. É na puberdade que os delirios, de longa data +preparados, fazem explosão. Sander nota as tendencias remittentes da +_Originäre Verrücktheit_ e observa que a demencia está muito longe de +ser um dos seus modos de terminação. + +Como se vê, a primitividade ou protogénese dos delirios systematisados, +admittida desde todo o principio pelos alienistas francezes, é agora +acceite pela psychiatria allemã, cujo dogmatismo desde 1845 a 1865 +mandava admittir _quand méme_ uma preexistente psychose maniaca ou +melancolica em todos os delirios de perseguição e de grandeza. + +Não morreu, como veremos ainda, a _Secundäre Verrücktheit,_ a despeito +de Koch e de Pelman que lhe negaram a existencia; mas a sua esphera +clinica foi estreitecendo á medida que alargava a da _Primäre +Verrücktheit_. + + * * * * * + +Voltemos aos trabalhos francezes. + +Tendo tido a felicidade de sobreviver trinta e um annos á publicação da +sua memoria sobre o delirio de perseguições, Lasègue foi conduzido pela +ulterior observação clinica dos factos a modificar uma das affirmações +que n'esse trabalho fizera. Assim, tendo escripto em 1852 que os +perseguidos supportam resignadamente todos os seus martyrios--a ponto, +dizia então, de não ter visto um só reagir por um acto de vingança, +Lasègue constatou mais tarde a existencia de muitos que se apresentam +armados para a lucta, represaliando energicamente, como Sandon, como +Verger, como Teulot, as suppostas perseguições. Perito em mais de uma +ruidosa questão medico-legal determinada pelas violencias d'esta ordem +de doentes, o eminente professor foi ainda, elle proprio, victima das +aggressões brutaes de um d'elles, que o appellidava _chefe dos +alienistas alienisantes_. Modificando as suas primitivas idéas, o +celebre psychiatra achou que o delirio de perseguições comporta duas +variedades, correspondendo aos modos de reacção dos doentes: uma +_passiva_, a mais commum, representada pelos perseguidos que apenas se +defendem, fugindo ao convivio, mudando de logares, tomando nomes +suppostos, cosinhando os proprios alimentos, queixando-se ás +auctoridades, barricando-se dentro dos seus aposentos, suicidando-se +mesmo; outra _activa_, representada pelos que acceitam a lucta e +respondem ao mal com o mal, calumniando, ferindo, matando até. Aos +doentes d'esta ultima cathegoria deu Lasègue o nome, depois consagrado, +de perseguidos-perseguidores, consignando que a explicação do seu modo +especial de reagir deve ser pedida, não a condições privativas do +delirio, mas ao caracter moral preexistente á vesania. + +Pondo no estudo da variedade _activa_ do delirio de perseguições o mesmo +espirito de analyse que desenvolvera na creação da fórma _passiva_ ou +commum, Lasègue fez a proposito as seguintes indicações de uma justeza +clinica indiscutivel: que os perseguidos-perseguidores chegam á +personificação do seu delirio em virtude de circumstancias accidentaes +ou de factos sem importancia, mas exactos, que determinaram a sua +antipathia por um dado individuo; que taes circumstancias ou factos +reaes não são, em geral, recentes, mas antigos e evocados pela memoria, +incessantemente occupada na revivescencia do passado; emfim, que os +doentes, uma vez achado o seu perseguidor, não o esquecem mais, não o +abandonam, nem o substituem, quando mesmo factos ulteriores e de maior +valia justifiquem sentimentos de odio e de vingança contra outros +individuos. Na escolha do perseguidor evidenceiam os perseguidos activos +a mesma critica futil que os passivos demonstram na determinação dos +factos que apontam como provas de perseguição: uma pedra achada á porta, +um lençol esquecido na varanda de um visinho, a tosse de um sujeito que +passa. De resto, Lasègue observou que, excepção feita do modo de reacção +delirante, perseguidos activos e passivos se comportam identicamente, +offerecendo o mesmo quadro de symptomas e a mesma evolução pathogenica. + +Creando a variedade _activa_ do delirio de perseguições, o notavel +professor melhorou, pois, completando-a, a sua primitiva descripção +clinica d'esta psychose, sem, todavia, a alterar na essencia; de facto, +a unidade da doença persistiu, não tendo alcance nosologico, mas apenas +medico-legal, o reconhecimento das duas variedades. + +Ulteriores trabalhos, porém, vieram quebrar, dentro da propria França, +essa unidade do delirio de perseguições. + +Notou, com effeito, J. Falret em 1878 que ha entre os perseguidos +activos ou perseguidos-perseguidores duas cathegorias de doentes que +profundamente divergem; symptomas, evolução, etiologia--tudo n'elles é +differente. Uns, em verdade (e são esses os que Lasègue notou), apenas +no modo de reacção delirante se separam do typo classico dos perseguidos +passivos, sendo-lhes em tudo o mais similhantes: nos symptomas, porque, +como estes, offerecem idéas systematicas de perseguição alimentadas por +erros sensoriaes constantes, sobretudo por allucinações auditivas; na +marcha, porque, como os perseguidos communs, podem soffrer a alteração +de personalidade caracterisada clinicamente pela passagem do delirio de +perseguições, ao de grandezas; na etiologia, emfim, porque teem uma +historia ancestral e pregressa identica á dos perseguidos vulgares. Com +razão, portanto, fez Lasègue d'estes perseguidos activos os +representantes apenas de uma variedade clinica do delirio de +perseguições. Outros, porém, não offerecem do quadro d'esta psychose +senão as idéas systematisadas de perseguição, divergindo em tudo o mais: +na symptomatologia, porque as suas concepções morbidas não se apoiam em +erros sensoriaes; na marcha, porque nunca o seu delirio se transforma, +n'um sentido ambicioso; na etiologia, emfim, porque a sua historia +ancestral e anamnestica não é a dos outros perseguir, dos, activos ou +passivos, mas a dos degenerados hereditarios. + +A doença de Lasègue não comporta esta cathegoria de +perseguidos-perseguidores; forçoso é, pois, no dizer de Falret, +acceital-os como representantes de uma outra _especie_ nosographica. + +Pottier desenvolve no seu _Estudo sobre os alienados perseguidores_ as +idéas do eminente clinico de Salpêtrière, seu mestre, insistindo no +diagnostico differencial entre estes vesanicos e os outros perseguidos. +A proposito da etiologia escreve: «Estes doentes, em vez de apresentarem +desde a juventude um caracter desconfiado ou de passarem pela phase de +hypocondria que muitas vezes precede o delirio de perseguições +ordinario, teem quasi sempre manifestado na infancia, na adolescencia ou +na idade adulta alguns dos symptomas physicos e moraes attribuidos hoje +aos alienados hereditarios: alterações de caracter, desigual +desenvolvimento das funcções intellectuaes, faculdades eminentes ao lado +de enormes lacunas, accidentes nervosos ou perturbações mentaes +passageiras, na puberdade, existencia movimentada, irregular, vagabunda, +perversões genitaes e outras. O passado d'estes doentes é, n'uma +palavra, não o dos perseguidos classicos, mas o dos alienados +hereditarios»[1]. + + [1] Pottier, _Ètude sur les aliénés persécuteurs_, pag. 3 + +A proposito da ausencia de allucinações n'estes doentes, diz Pottier: +«Imaginou-se que as allucinações auditivas, escapando a uma observação +superficial, seriam encontradas n'estes doentes por um exame +escrupuloso. Não é assim, porém. Nós crêmos, ao contrario, que, na +direcção actual das idéas, se teem admittido allucinações não +demonstradas ou se teem tomado como allucinações simples phenomenos de +interpretação delirante, illusões ou mesmo impressões procedentes do +mundo exterior e realmente percebidas pelos doentes, cuja acuidade +sensorial se encontra muitas vezes exaggerada»[2]. + + [2] Pottier, _Obr. cit._, pag. 38. + +Sobre a evolução do delirio n'estes doentes, diz ainda Pottier: «Ha +periodos de remissão prolongada e de intensa exacerbação, mas nenhuma +evolução progressiva ... Estes alienados são, em regra, muito orgulhosos, +mas não chegam, como os outros perseguidos, á megalomania, ao delirio de +grandezas, emfim, a uma verdadeira transformação da personalidade»[1]. + + [1] Pottier, _Obr. cit._, pag. 39. + +A estas notas differenciaes junta Pottier uma outra: a existencia, nos +doentes de que nos occupamos, de accidentes cerebraes, congestivos ou +convulsivos, produzindo-se a largos intervallos. «Observem-se +attentamente, diz, o auctor, estes doentes durante o curso da sua vida, +estudem-se as observações já publicadas, e chegar-se-ha a verificar que, +nos perseguidores lucidos, accidentes cerebracs graves se dão de tempos +a tempos e que, as mais das vezes, elles morrem cerebralmente, quer por +um ataque, quer por influencia de lesões consecutivas»[2]. + + [2] Pottier, _Obr. cit._, pag. 41. + +Ainda no capitulo do diagnostico, o mais completo do trabalho que vimos +citando, observa Pottier a extrema facilidade com que os perseguidores +conseguem fazer perfilhar as suas idéas por um grande numero de pessoas, +chegando mesmo a interessar em sua defeza a propria imprensa. A +explicação d'este _contagio delirante_ procede sobretudo, segundo +Pottier, da convergencia d'estes dois factos: de um lado, a +intelligencia de ordinario muito viva d'estes doentes e a sua incansavel +actividade; de outro lado, o colorido verosimil do seu delirio, que não +é em si mesmo absurdo, que se não apoia em estados allucinatorios, mas +que tem por base factos reaes, embora morbidamente interpretados, e +circumstancias possiveis, cuja veracidade não é facil contestar ou mesmo +pôr em duvida. + +Os _litigantes_ ou _processomanos_ constituem a mais importante +cathegori d'estes doentes; uma outra é formada pelos _perseguidores +hypocondriacos_ que, attribuindo os seus imaginarios males ao tratamento +seguido, hostilisam o medico assistente. + +As idéas de J. Falret fizeram carreira em França, onde os +perseguidos-perseguidores são geralmente considerados como exemplares de +loucura lucida _(folie raisonnante)_, sub-grupo das degenerescencias +psychicas hereditarias. Nas suas _Lições clinicas sobre as doenças +mentaes_, Magnan presta um largo apoio á doutrina de Falret, fazendo +apenas reservas sobre dois pontos: as allucinações, que elle admitte a +titulo de excepção, e os accidentes cerebraes, que julga, em face da sua +experiencia pessoal, muito menos frequentes do que se tem pensado. + +De passagem faremos notar que na Allemanha o _delirio processivo_ tem +soffrido as mesmas vicissitudes theoricas que experimentou em França o +delirio dos perseguidos-perseguidores. Ao passo que a maioria dos +auctores, á maneira de Lasègue, consideram aquelle delirio uma simples +variedade da _Verrücktheit_, descrevendo-o, como faz Krafft-Ebing, ao +lado do delirio de perseguições, outros, como Arndt, Kraepelin e Schüle, +fazem d'elle um sub-grupo da _loucura moral._ + + + +III--PHASE SYNTHETICA + +De Morel a Magnan; de Westphal a Cramer; de Buccola a Tanzi e Riva--A +loucura hypocondriaca; o delirio chronico; a loucura parcial; a +Verrücktheit aguda e chronica; a Paranoia; a delusional +insanity--Determinação pathogenica. + + +Vimos precedentemente que Morel, quando ainda a psychiatria franceza se +esforçava por elevar á cathegoria de fórmas nosographicas autonomas os +delirios de perseguições e de grandezas, esboçara a doutrina segundo a +qual taes delirios não seriam senão manifestações de uma doença ou, mais +precisamente, transformações progressivas da loucura hypocondriaca. + +Da idéa inicial de um compromisso da saude, caracteristica da +hypocondria, passaria o doente, generalisando, á idéa de um compromisso +da vida, da honra, dos interesses intellectuaes e moraes, caracteristica +do delirio de perseguições. Este seria uma simples manifestação da +hypocondria anomala ou, como elle proprio escreve, sublinhando, _uma +hipocondria de uma natureza mais intellectual_. Em 1860 exprimia-se +assim no seu _Tratado_ o illustre psychiatra: «Fallando da hysteria, +disse eu que esta nevrose póde percorrer as suas phases mais +extraordinarias sem que a alteração das faculdades intellectuaes e +afectivas se torne uma consequencia forçada. A hysteria larvada, se +assim posso exprimir-me, offerece perigos muito maiores para o livre +exercicio das faculdades, como provei com numerosos exemplos. A mesma +reflexão póde applicar-se á hypocondria. Para d'isto nos convencermos, +basta examinar até que ponto o temperamento dos individuos com delirio +predominante de perseguições está sob a influencia d'este estado +nevropathico»[1]. E mais adiante: «Quando elles (os hypocondriacos) +chegam á supposição de que os seus alimentos teem venenos ou, pelo +menos, substancias que lhes produzem as sensações de que se queixam; +quando elles se imaginam expostos aos maleficios do que chamam potencias +occultas, como a electricidade e o magnetismo, e pensam que a propria +policia procura perdel-os, podemos estar certos de que vão entrar _na +phase d'este delirio especial_ que a designação de _delirio de +perseguições_ melhor do que todas exprime»[2]. + + [1] Morel, _Traité des maladies mentales_, pag. 706. + + [2] Morel, _Obr. cit._, pag. 707. + +Quanto ao _delirio ambicioso_ elle seria, segundo Morel, uma terminação +frequente do delirio de perseguições. Fallando dos megalomanos, +escrevia: «E quando mesmo os doentes chegaram a este estado de +contentamento e de vaidosa satisfação que é proprio das idéas +systematicas de grandeza, elles não lograram collocar-se de um modo fixo +e irremediavel sobre o pedestal da sua loucura senão com a condição de +passarem por todas as peripecias do delirio de perseguições, e de terem, +as mais das vezes, experimentado todos os soffrimentos dos +hypocondriacos»[3]. + + [3] Morel, _Obr. cit._, pag. 716. + +Para explicar a passagem do delirio de perseguições ao de grandezas, +Morel não invocava, á maneira de Foville, o _raciocinio_ e a _logica,_ +mas a _physiologia morbida:_ era, com effeito, ao echo psychico de uma +alteração no funccionalismo visceral dos hypocondriacos que elle ia +procurar a chave d'este phenomeno _tão frequente quanto assombroso para +os homens alheios á medicina e desconhecedores das leis dos organismos +doentes._ + +Esta doutrina, integrando os delirios de perseguições e de grandezas na +hypocondria, representava uma tentativa de synthese clinica, +naturalmente destinada a não encontrar seguidores entre os +contemporaneos de Morel, porque o tempo era de analyse, e a tendencia +geral a da multiplicação das fórmas nosographicas. O estudo minucioso +dos symptomas absorvia as attenções, relegando a um plano subalterno o +das causas e da evolução das doenças. Embora combatidas quasi desde a +sua introducção na sciencia, as _monomanias_ de Esquirol triumphavam +ainda então: o delirio de perseguições era uma monomania, o delirio de +grandezas, outra. O _Tratado_ de Marcé, o mais cotado dos livros +classicos da psychiatria franceza, consagrava esta doutrina em 1862; e a +memoria de Foville, que atraz citámos, tem a data de 1869, como tem a de +1871 a monographia de Legrand du Saulle, de que tambem démos idéa no +capitulo anterior. + +Isto é dizer que não foi comprehendida a maneira de vêr de Morel sobre +os delirios systematisados, como o não foram outros pontos de vista +d'este homem de genio, que Morselli justamente denomina o _Darwin da +psychiatria_. Fallava para o futuro o auctor das _Degenerescencias +Humanas_, cuja alta originalidade rompe na historia da medicina mental +franceza o parallelismo entre a ordem chronologica e a ordem logica das +idéas. + +É só em 1883, mais de vinte annos depois de publicado o _Tratado_ de +Morel, que as idéas d'este psychiatra a proposito dos delirios +systematisados são retornadas e postas em relevo n'um trabalho de +Gérente. + +Escripto sob a evidente inspiração de Magnan, esse trabalho destina-se a +provar com o apoio dos factos, que não existe _um_ delirio +hypocondriaco, _um_ delirio de perseguições e _um_ delirio de grandezas, +mas uma vesania, o _Delirio Chronico,_ de que aquelles não são senão +phases evolutivas. «Vamos, diz o auctor, estudar clinicamente todos os +delirios da vesania; seguiremos n'uma observação attenta a génese e a +evolução d'estes delirios; e, por conclusão d'este trabalho, esperamos +que em vez d'essas _monomanias_, tão artificiaes e tão confusas, de +certos auctores, appareça claramente, emfim, _uma só e mesma especie +morbida_ que chamaremos o _Delirio Chronico_»[1]. + + [1] Gérente, _Le délire chronique_, pag. 10. + +O que é, verdadeiramente, este _Delirio Chronico_? Segundo Gérente, uma +doença que, germinando sempre n'um terreno hypocondriaco, se denuncía +nos seus casos typicos e eschematicos pela successão regular de tres +periodos: um de concentração dolorosa do espirito; um de expansão; e um +mixto ou de transição entre os dois. Se a doença se prolonga +sufficientemente, a demencia é o seu termo natural. + +O terreno hypocondriaco em que, segundo Gérente, o _Delirio Chronico_ +mergulha as suas raizes para constituir-se e crescer, é caracterisado +essencialmente por uma impressionabilidade anormal, de origem quasi +sempre hereditaria, por uma perversão dolorosa da sensibilidade mental, +n'uma palavra, por uma _hyperalgesia psychica_; uma autoobservação +permanente, uma sorte de habitual _ruminação_ interior de estados +physicos ou de estados moraes define a mentalidade prediposta, da qual, +sob a mais ligeira causa determinante, ha de surgir a vesania. É, pois, +um hypocondriaco o candidato ao _Delirio Chronico_; mas não é um +alienado, emquanto sobre si mesmo poder exercer uma acção de _contrôle_. +Sel-o-ha no dia em que esse exercicio se torne impossivel, no dia em que +a preoccupação dos seus estados physicos e moraes venha a ser absorvente +e o desligue das relações normaes com a sociedade. A hypocondria simples +torna-se então loucura hypocondriaca. E é d'ela que vae sahir o periodo +inicial ou depressivo do _Delirio Chronico_. + +Este periodo é caracterisado por uma concentração dolorosa do Eu, de que +procedem idéas delirantes de natureza depressiva e de um contheudo que +varía com a intelligencia, a educação e o meio do doente. As falsas +concepções hypocondriacas subsistem ainda; mas, ao lado d'ellas, outras +germinam: a crença n'uma hostilidade dos homens (delirio de +perseguições) ou de maleficos poderes sobrenaturaes (demonomania). +Perturbações da sensibilidade geral e especial, sobretudo allucinações +auditivas, dominam esta phase do _Delirio Chronico_, de uma duração que +póde ser muito longa. + +Mas, pouco a pouco, a dôr moral esbate-se; e na personalidade vesanica, +enfraquecida pelo delirio depressivo, uma sorte de reacção se dá em +sentido contrario. Então, no espirito enfermo, trabalhado por infinitas +angustias, uma pouca de felicidade rompe, como n'um ceu enevoado uma +restea de sol: entre as idéas depressivas surgem idéas de grandeza, +ainda vagas, mas a que o futuro reserva uma preponderancia definitiva. +Esta confusão de elementos apparentemente contradictorios, de idéas e +sentimentos depressivos com estados expansivos, caracterisa o segundo +periodo, chamado, por isso, mixto ou de transição. + +Como a dôr moral e as idéas depressivas definem o primeiro periodo, a +plena beatitude de espirito e as idéas ambiciosas definem o terceiro. +Lentamente, as emoções e as concepções expansivas do periodo mixto vão +tomando crescente logar no espirito vesanico á custa de uma reducção na +intensidade e numero das emoções e idéas depressivas, que acabam por +desapparecer. Então, um delirio de grandezas de colorido mystico ou +humano, versando sobre a graça, sobre dotes pessoaes, sobre riquezas, +sobre posição social, se estabelece definitivamente, caracterisando na +sua exclusividade o terceiro periodo do _Delirio Chronico_. + +Esta lenta evolução da vesania--tão lenta que póde cobrir dezenas de +annos, não se faz sem que a mentalidade soffra nas suas forças vivas e +productoras. E assim, o seu termo natural é a demencia, quer simples e +apathica, se o delirio cessou absolutamente, quer agitada, se restam +perturbações da sensibilidade e falsas concepções desconnexas e +dissociadas. + +Tal é, summariamente, a marcha typica do _Delirio Chronico,_ segundo +Gérente, + +Nem sempre, porém, faz observar o auctor, as coisas se passam d'este +modo regular e eschematico; não raro apparecem casos em que a evolução +descripta não tem logar: póde, por exemplo, o periodo depressivo, +representado por um delirio de perseguições, extender-se por toda a vida +do doente que não chega a fazer um delirio de grandezas, caracteristico +do terceiro periodo; póde do periodo mixto passar um outro doente á +demencia, sem que o periodo expansivo se tenha realisado em toda a sua +pureza; póde acontecer que a doença suspenda a sua evolução n'um delirio +hypocondriaco inicial, que se perpetua, systematisando-se e +estereotypando-se; emfim, póde mesmo dar-se uma regressão, voltando o +doente do delirio ambicioso ao de perseguições. Como todas as doenças, +comporta o _Delirio Chronico_ anomalias evolutivas, que compete á +clinica registrar; esses casos, porém, não invalidam o _typo_ descripto +sobre exemplares completos. + +Como se vê, n'esta synthese clinica retoma Gérente as idéas fundamentaes +de Morel sobre os delirios systematisados, reduzindo-os a expressões +symptomaticas e momentos evolutivos de uma vesania caracterisada pela +successão de duas phases apparentemente oppostas: uma, inicial, +angustiosa e depressiva; outra, final, expansiva e de beatitude, Toda a +differença, entre os dois psychiatras, está em que Morel chamava +_Loucura hypocondriaca_ ao que Gérente denomina _Delirio Chronico_, + +Vejamos agora a pathogenia da doença, tal como a comprehende este +psychiatra. + +De um lado, importa considerar o fundamento hereditario, commum a todas +as psychoses funccionaes: «Não é vesanico, diz elle, quem quer: é +precisa uma longa incubação; são precisas, pelo menos, duas gerações que +preparem o terreno»[1]. Não, é claro, duas gerações de delirantes +chronicos, mas de nevro e psychopatas. «São umas vezes, explica, +nevroses, outras vezes intoxicações chronicas, outras ainda anomalias da +intelligencia, do sentimento ou da vontade a que se não prestaria, +talvez, attenção, mas que nem por isso deixaram de imprimir o seu cunho +sobre o individuo e os seus descendentes»[2]. A tara hereditaria cria a +predisposição; para determinar a doença qualquer abalo moral é bastante. + + [1] Gérente,_Obr. cit._, pag. 8. + + [2] Gérente,_Obr. cit._, pag. 9. + +Mas, por outro lado, importa em relação ao _Delirio Chronico_ attender á +natureza especial do terreno predisposto. O que atraz dissemos, +dispensa-nos de insistir sobre este ponto: é sabido que para Gérente, +como para Morel, essa feição peculiar consiste na hypocondria. + +Emfim, conhecidas as causas e o terreno morbido, importa conhecer a +_lesão,_ no sentido psychologico do termo. + +Ora, segundo Gérente, nenhuma duvida póde existir a este proposito. «É +sempre, diz elle, uma alteração do senso emotivo, é a alteração do +sentimento, agora penosa, logo expansiva, que imprime tal ou tal +direcção ás perturbações da sensibilidade e ás idéas delirantes; esta +alteração é, pois, a _lesão essencial e caracteristica ao delirio +chronico_»[3]. + + [3] Gérente,_Obr. cit._, pag. 24. + +Cremos ter dado uma idéa sufficiente da doutrina exposta por Gérente. +Uma psychose, de origem hereditaria, de evolução de ordinario regular e +tendo por lesão primitiva uma perturbação do sentimento, integraria como +syndromas os delirios systematisados, hypocondriaco, de perseguições e +ambicioso, descriptos na antiga psychiatria como doenças autonomas, sob +a designação de monomanias; _Delirio Chronico_ é o nome d'essa psychose. + +Dissemos que Gérente se inspirou nas idéas de Magnan; e talvez +podessemos mesmo affirmar que aquelle não fez senão expôr no seu +trabalho, que é uma these de doutoramento, os pontos de vista do mestre. +De facto, não só a designação de _Delirio Chronico_ tomada por Gérente +para titulo do seu livro, foi creada por Magnan, que a vulgarisara nas +suas lições oraes, mas foram colhidas no serviço e sob a direcção +d'este, no asylo de Sant'Anna, as observações clinicas da these. +Entretanto, nos debates que em 1887 se abriram sobre o assumpto na +Sociedade Medico-Psychologica de Paris, Magnan apparece-nos, como mais +tarde nas suas _Lições Clinicas_, publicadas em 1893, expondo uma +doutrina do _Delirio Chronico_ notavelmente diversa da proclamada por +Gérente. Admittiremos que o insigne clinico de Sant'Anna concedesse ao +seu discipulo uma absoluta liberdade de opinião? É isso possivel; mas +não é provavel que Gérente abusasse de tal liberdade até ao ponto de +cobrir com a designação consagrada pelo mestre uma doutrina propria e em +mais de um ponto contraria á d'este. O que nos parece mais acceitavel é +que o conceito de _Delirio Chronico_ tenha soffrido no espirito de +Magnan uma evolução durante o periodo que vem da these de Gérente á +discussão da Sociedade Medico-Psychologica. + +Como quer que seja, as duas doutrinas, a de 1883 e a de 1887, differem +muito. É o que vamos vêr. + +Ao passo que Gérente, como foi dito, fazia derivar o _Delirio Chronico_ +de uma predisposição quasi sempre hereditaria e preparada atravez de +gerações, Magnan affirma que um tal facto é excepcional e que, de +ordinario, a psychose affecta individuos isentos de qualquer tara +nervosa e absolutamente correctos no ponto de vista mental. «O _Delirio +Chronico_, diz Magnan, fere em geral na idade adulta individuos sãos de +espirito, não tendo até então apresentado perturbação alguma +intellectual, moral ou affectiva. Insisto sobre este importante ponto, +porque tal particularidade basta para separar immediatamente os +delirantes chronicos dos degenerados hereditarios que offerecem desde a +infancia perturbações que os fazem reconhecer»[1]. + + [1] Magnan, _Leçons cliniques sur les maladies mentales_, pag. 236. + +Ao passo que Gérente, seguindo a tradição de Morel, admittiu como +constante uma phase inicial hypocondriaca na constituição do _Delirio +Chronico_, Magnan não a acceita senão a titulo excepcional. «Para Morel, +escreve o medico de Sant'Anna, é preciso que elles (os perseguidos que +se tornam ambiciosos) tenham sido hypocondriacos primeiro; ora, sendo a +hypocondria, como se sabe, as mais das vezes uma manifestação +dos hereditarios degenerados, não parece provavel que o +_hypocondriaco-perseguido-ambicioso_ possa apresentar caracteres +bastante fixos para entrar no quadro do _Delirio Chronico_»[2]. + + [2] Magnan, _Obr. cit._, pag 221. + +Emfim, emquanto Gérente concedia irregularidades de marcha ao _Delirio +Chronico_, admittindo a existencia de casos frustres em que a evolução +se suspendia ou mesmo por algum tempo retrogradava, Magnan exclue do +_Delirio Chronico_ todos os casos d'esta natureza. Depois, com effeito, +de ter admittido na evolução do _Delirio Chronico_ quatro periodos +nitidamente desenhados--o _de incubação_, o _de perseguições_, o +_ambicioso_ e o _demente_, Magnan escreve: «Estes periodos succedem-se +irrevogavelmente da mesma maneira, de sorte que podemos sem receio pôr +fóra do _Delirio Chronico_ todo o doente que _d'emblèe_ se torna +perseguido ou ambicioso, ou que, primeiro ambicioso, se torna depois +perseguido»[3]. + + [3] Magnan, _Obr. cit._, pag 237. + +São estes tres os pontos em que as syntheses clinicas do _Delirio +Chronico_, a de 1883 e a actual, differem. Quanto ao nome, julgou +Magnan, depois dos reparos de alguns criticos, dever amplial-o para o +tornar mais explicativo: _Delirio Chronico de evolução systematica_ é a +designação adoptada por este psychiatra nas suas _Lições Clinicas_. + +Naturalmente occorre perguntar para que nova cathegoria são relegados os +casos, tão numerosos, de delirios systematisados de evolução irregular +que Gérente considerava como exemplares frustres de _Delirio Chronico_ e +que Magnan resolutamente aparta do quadro clinico d'esta psychose. A +resposta vae o leitor encontral-a no resumo que em seguida fazemos dos +debates a que deu logar na Sociedade Medico-Psychologica de Paris a +doutrina do _Delirio Chronico_. + +Digamol-o desde já: vigorosamente sustentada por Garnier e Briand, a +synthese clinica de Magnan foi tambem rudemente combatida. + +Ninguem contestou a existencia de alienados que, primeiro inquietos, +suspeitosos, interpretando illusoriamente e n'um sentido pejorativo +todos os actos e palavras d'outrem (_periodo de incubação_), se tornam +depois allucinados, sobretudo do ouvido, e se lançam n'um delirio +systematisado de hostilidades (_periodo de perseguições_), fabricam mais +tarde ainda idéas de grandeza (_periodo ambicioso_), e, por fim, cahem +n'um estado de enfraquecimento cerebral em que as concepções falsas se +esbatem e dissociam (_periodo de demencia_). Ninguem contestou, +repetimos, a existencia d'estes casos; contestou-se, porém, desde todo o +principio, que elles fossem _regra_. A fatalidade do terceiro periodo do +_Delirio Chronico_ foi, por exemplo, negada. Assim, J. Falret sustentou +que _o delirio de grandezas só n'um terço dos casos succede ao delirio +de perseguições_. Facilmente se comprehende o alcance d'esta affirmação +que varios alienistas--Christian entre outros--apoiaram: ao passo que +para Magnan o delirio ambicioso é um periodo inevitavel do _Delirio +Chronico_, para Falret elle não constitue senão um episodio fallivel da +evolução vesanica, um delirio que apenas accidentalmente vem +juxta-por-se ao de perseguições. Se todo o alienado que entrou, não +_d'emblèe_, mas após uma phase mais ou menos longa de incubação, no +delirio de perseguições, houvesse fatalmente de tornar-se ambicioso, +Magnan teria, talvez, razão, affirmando a existencia de uma _Psychose_ +na qual o delirio de grandezas representaria, segundo a sua phrase, um +papel evolutivamente similhante ao da _suppuração n'nuna erupção +variolica;_ mas se, como pretende Falret, esse alienado póde +perpetuar-se no delirio de perseguições sem jámais esboçar uma idéa +ambiciosa, tal _Psychose_ não existe: a synthese clinica legitima não é +o _Delirio Chronico de evolução systematica,_ mas o _Delirio de +Perseguições,_ que póde ou não, _sem mudar de natureza_, complicar-se de +um delirio ambicioso. Baseada em factos e apoiada na auctoridade de +alienistas illustres, a objecção de Falret parece decisiva contra a +doutrina actualmente professada por Magnan. + +Notemos de passagem que o argumento de Falret não attingiria a doutrina +de Gérente, segundo a qual o _Delirio Chronico,_ á maneira d'outras +doenças, comportaria casos de evolução irregular, anomala, entre os +quaes estariam esses a que se reporta o sabio medico da Salpêtrière. + +J. Falret contestou ainda a Magnan que a demencia constitua o termo +irrevogavel de uma vesania que passou pelas phases dos delirios de +perseguições e de grandezas: muitos perseguidos e ambiciosos ha, segundo +elle, que, ao fim de trinta, de quarenta e mais annos de delirio, morrem +sem ter attingido a demencia. É mister dizer-se, para avaliar este +argumento, que Magnan não toma a palavra _demencia_ no restricto sentido +de abolição das faculdades, mas na accepção mais larga de +enfraquecimento e falta de iniciativa mental. Desde que o delirio se +_estereotypa_ (o que é de regra na phase ambiciosa e muitas vezes se dá +mesmo na phase persecutoria da vesania), o enfraquecimento cerebral é +já, segundo Magnan, um facto, que a diuturnidade da doença não faz senão +aggravar; chamar-lhe, pois, _demencia_, quando elle attinge um grau em +que os conceitos delirantes, desde ha muito invariaveis, se dissociam, +não deverá parecer senão legitimo. Em todo o caso, é n'este sentido que +o medico de Sant'Anna toma a _demencia_ quando faz d'ella a phase +terminal da sua Psychose. + +Manifestando uma grande incomprehensão das idéas do medico de Sant'Anna, +alguns membros da Sociedade tentaram atacar a doutrina do _Delirio +Chronico_, affirmando que muitos vesanicos são ambiciosos antes de serem +perseguidos; que outros surgem com um delirio de perseguições sem terem +passado por uma phase de incubação; que alguns, emfim, só +intermittentememe deliram n'um sentido persecutorio ou ambicioso. Todos +estes casos são conhecidos e de observação diaria; mas, desde que Magnan +os colloca, pela irregularidade mesma da sua marcha, fóra do quadro do +_Delirio Chronico_, é evidentemente absurdo invocal-os contra a +legitimidade d'esta psychose. + +Para Magnan, ao lado do _Delirio Chronico de evolução systematica_, ha +os delirios que elle chama _polymorphos_ ou _d'emblèe_. E as distincções +entre aquelle e estes são, segundo o eminente alienista, tão profundas +quanto possivel, porque derivam da marcha, da etiologia e do +prognostico. Ao passo que o _Delirio Chronico_ se caracterisa +evolutivamente pela successão regular e irrevogavel de certos periodos, +sendo o primeiro de incubação, os delirios polymorphos teem uma evolução +irregular, imprevista, e rompem subitamente, sem preparação. Emquanto, +sob o ponto de vista da etiologia, o _Delirio Chronico_ prescinde para +constituir-se de uma pesada tara ancestral, podendo installar-se em +individuos psychicamente correctos, os delirios polymorphos são +eminentemente hereditarios e só podem realisar-se em degenerados, quer +dizer em individuos tendo antes offerecido signaes de um desequilibrio +mental. Emfim, emquanto o _Delirio_, _Chronico_, na sua qualidade de +psychose progressiva e cyclica, é absolutamente incuravel, os delirios +polymorphos, de marcha remittente ou intermittente, curam muitas vezes. + +É evidente, em face d'esta doutrina, exposta sem reticencias no seio da +Sociedade Medico-Psychologica de Paris, que os casos, invocados por +Dagonet e outros, de doentes que entram em delirio de grandezas para +ulteriormente se tornarem perseguidos, de doentes que abruptamente, de +um dia para o outro, apparecem allucinados do ouvido e se crêem victimas +de injustificadas hostilidades, de doentes que após semanas de um +delirio qualquer ambicioso ou de perseguições, surgem curados para +recidivarem mais tarde, ou cahem rapidamente em demencia,--é evidente, +diziamos que esses casos nada provam, em si mesmos, contra a existencia +do _Delirio Chronico_, por isso que, segundo Magnan, elles pertencem a +uma cathegoria diversa e não são senão episodios mais ou menos longos e +interessantes da vida dos degenerados hereditarios. + +A doutrina do medico de Sant'Anna não póde ser combatida senão pela +demonstração de que as differenciações por elle feitas entre os +delirantes chronicos e os delirantes degenerados, são infundadas. Mas +como, sob o ponto de vista da marcha, a differenciação é, _ao menos +n'um certo numero de casos_, indiscutivelmente exacta; como por consenso +de todos os alienistas e por testemunho irrecusavel da experiencia, ao +lado de doentes que incubam um delirio de perseguições e d'este passam +para o ambicioso, cahindo por fim n'um estado de fraqueza mental +(_Delirio Chronico_ de Magnan), ha doentes que fazem bruscos, +irregulares e mais ou menos ephemeros delirios multiplos, de que por +vezes curam, embora para recidivarem mais tarde (_delirios +degenerativos_ de Magnan), o ataque á synthese clinica do medico de +Sant'Anna só póde ser feito de um ponto de vista mais alto, +demonstrando-se que as duas ordens de delirios, a despeito das suas +_allure_ diversas, procedem de uma causa commum e assentam sobre um +mesmo fundo. + +Séglas viu isto--e só elle parece tel-o visto--quando na Sociedade +Medico-Psychologica affirmou que alguns delirantes chronicos de Magnan +apresentam os estygmas physicos e mentaes dos degenerados hereditarios. + +Demonstrar esta proposição seria evidentemente destruir á doutrina de +Magnan o seu mais solido fundamento: o etiologico. Se os degenerados +hereditarios podem delirar tanto de um modo remittente e anomalo como de +um modo regular e progressivo, caminhando tanto para a cura como para a +demencia, toda a differença entre o _Delirio Chronico_ e os _delirios +polymorphos_ se reduz a accidentes de marcha e a possiveis variações de +prognose, o que não é bastante para estabelecer _especies_ morbidas +distinctas. + +Nos longos debates da Sociedade Medico-Psychologica sobre os delirios +systematisados, tomaram parte os mais eminentes psychiatras francezes; +cremos, porém, que só Falret e Séglas produziram contra a legitimidade +clinica do _Delirio Chronico_ argumentos de valor. + +Mas não insistiremos sobre elles; por agora fazemos apenas historia. + +Para completarmos o que na psychiatria franceza tem direito a menção +especial em materia de delirios systematisados, resta-nos expôr a +maneira de vêr de Régis. + +Retomando uma doutrina exposta por Baillarger em 1853, o auctor do +_Manual pratico de Medicina Mental_ sustenta que uma natural distincção +existe entre as _loucuras generalisadas_ e a _Loucura parcial_: ao passo +que as primeiras se caracterisam pela presença constante e essencial de +um elemento affectivo, _excitação_ na mania e _depressão_ na melancolia, +a segunda manifesta-se por simples perturbações intellectuaes e moraes +sem participação, a não ser accidental e episodica, da emotividade. A +excitação e a depressão, affirma Régis, são tanto a fundamental +caracteristica das loucuras generalisadas que muitas vezes só ellas +existem n'estas doenças: tal é o caso das manias e melancolias sem +delirio, nas quaes, como se sabe, ha exaltação ou diminuição do _tonus +emotivo_, sem compromisso grave da intelligencia e do senso moral. O +contrario d'isto se dá na _Loucura parcial_: um delirio mais ou menos +extenso caracterisa n'este caso a alienação, que só por momentos póde +acompanhar-se de crises ephemeras de excitação ou depressão, analogas ás +dos espiritos normaes em conflicto com causas externas. A mania e a +melancolia, accrescenta Régis, sendo muitas vezes idiopathicas, são, não +raro, meros symptomas d'outras doenças mentaes, como a hysteria, a +epilepsia, a demencia paralytica; ao contrario, a _Loucura parcial_ é +sempre idiopathica, essencial. + +Ora, é n'esta _verdadeira loucura_ que os delirios systematisados se +integram, segundo Régis, a titulo de manifestações e de estadios +evolutivos. + +No seu curso regular e typico, a _Loucura parcial_ offereceria tres +periodos: um, de _analyse subjectiva_, caracterisado pelo _delirio +hypocondriaco_; outro de _interpretação_, revellado pelo _delirio de +perseguições_ ou pelo _delirio mystico_, segundo o doente attribue a +pessoas ou a divindades os seus males; um terceiro, emfim, de +_transformação pessoal_, exteriorisado pelo _delirio ambicioso_. As +allucinações, sobretudo auditivas, são o symptoma dominante da _Loucura +parcial_. + +Quanto á etiologia, sustenta Régis que a doença é constitucional, faz +parte do individuo e surge n'um dado momento sob a influencia de +quaesquer circumstancias; isto é dizer que _Loucura parcial_ é +eminentemente hereditaria. Segundo este auctor, «ella attinge de +preferencia os individuos sombrios, desconfiados, com tendencias á +mysantropia e ao orgulho»[1] + + [1] E. Régis, _Manuel pratique de médecine mentale_, 2º ed., pag. 228. + +Como se vê, a _Loucura parcial_ de Régis mantem relações profundas de +similhança com a _Loucura Hypocondriaca_ de Morel e o _Delirio Chronico_ +de Gérente. Um mesmo pensamento etiologico-evolutivo preside ás tres +syntheses clinicas. + + * * * * * + +Expostos os trabalhos francezes sobre os delirios systematisados na sua +phase de synthese clinica e de interpretação pathogenica, vejamos, +retrocedendo na ordem dos tempos, o que se passou na Allemanha desde +que, com Snell, Griesinger e Sander, a psychiatria d'este paiz assentou +na existencia de delirios _primitivos_ de perseguições e de grandezas. + +Antes, porém, seja-nos licito dar uma explicação sobre a marcha a +seguir. + +Delimitar um assumpto é a primeira das condições a preencher para +tratal-o scientificamente; a segunda, é possuir uma nomenclatura +definida e precisa. Ora, não satisfazendo a uma só d'estas duas +condições os trabalhos allemães sobre os delirios systematisados, a +impressão que recebe quem d'elles procura tomar conhecimento, é, sem +exaggero, a de ter penetrado n'um labyrintho. Não o dizemos nós: por +esta ou analogas expressões disseram-no em 1887 Séglas e recentemente +Kéraval, os alienistas francezes que com maior auctoridade se occuparam +do assumpto; disse-o tambem, mais insuspeitamente, Pelman ao formular ha +vinte annos esta queixa: «Acabaremos por nem mesmo entre nós, +psychiatras, nos entendermos»; repetirara-n'o, emfim, em 1894 quasi +todos os alienistas allemães que tomaram parte na discussão aberta sobre +a Paranoia na Sociedade Psychiatrica de Berlim. + +De facto, a extensão do assumpto varia de auctor para auctor; restricta +para uns que, como Krafft-Ebing, lhe estabelecem os mesmos limites que +os alienistas francezes, ella é tão vasta para outros, para Cramer, por +exemplo, que parece estar contida lá dentro a psychiatria inteira. Por +outro lado ainda, a nomenclatura é vaga e é confusa: vaga, pela +multiplicidade de termos com que um dado auctor exprime um mesmo facto; +confusa, pela variedade de significações de cada termo para cada auctor. +_Wahnsinn, Verrücktheit_ e _Paranoia_ são as palavras com que na +litteratura allemã apparecem designados os delirios systematicos +descriptos pelos franceses; estes termos, porém, ora figuram como +synonimos, ora como vocabulos de significados distinctos, succedendo +ainda que o ultimo é pelo mesmo auctor tomado umas vezes n'um sentido +restricto, outras vezes n'um sentido geral, infinitamente mais amplo. + +N'estas deploraveis condições de maxima obscuridade, fazer n'uma ordem +rigorosamente chronologica e sob a respectiva terminologia a exposição +das doutrinas allemãs ácerca dos delirios systematisados, seria, +evidentemente, deixar o leitor em conflicto com obstaculos e +difficuldades que indeclinavelmente nos cumpre remover-lhe. E eis +porque, abandonando este invio caminho, procuraremos, antes de fazer +historia, fixar os limites do assumpto e o valor dos termos. + +A expressão _delirio systematisado_, empregada por opposição á de +_delirio dissociado_ ou _incoherente,_ significa apenas que certas idéas +morbidas habitualmente adherem e se conjugam em grupos associativos; +assim comprehendida, esta expressão não allude, nem mesmo remotamente, +quer á _origem_ d'essas idéas, quer á _natureza_ e _grau_ da affinidade +que as liga, quer, emfim, á sua _evolução_. N'este sentido, tão +systematisados são os delirios protogenicos como aquelles que succedem a +estados affectivos, tanto os que constituem doenças como os que apenas +representam syndromas, tanto aquelles em que as associações morbidas são +activas e fortes como aquelles em que ellas são examines, passivas e +frouxas, tanto os que marcham para a extincção pela demencia como +aquelles que se perpetuam, tanto os continuos como os que procedem por +accessos. + +N'este sentido geral ha, pois, delirios systematisados _primitivos_ e +_secundarios_, _idiopaticos_ e _symptomaticos_, _continuos_ e +_intermittentes, agudos_ e _chronicos_. E assim, a não ser nos casos +extremos de mania, de demencia, de confusão mental e de idiotia, todos +os delirios serão mais ou menos systematisados, até os que se geram na +imbecilidade, até os que, uma ou outra vez, se desenvolvem nos periodos +iniciaes da paralysia geral, o que não fará espanto, se nos lembrarmos +de que a systematisação associativa é o fundamento mesmo de toda a +actividade mental. _Verrücktheit_ é o termo empregado pela maioria dos +auctores allemães para, exprimirem este sentido geral dos delirios +systematisados; e se estes, como é de regra, se associam a illusões e +allucinações, o termo _Wahnsinn_ é synonimamente empregado, se bem que +com menor frequencia. + +Mas ao lado d'este sentido geral e vago, ha um outro limitado e +restricto,--precisamente o que nas paginas precedentes vimos +implicitamente adoptado pelos psychtatras francezes. Este novo sentido +exclue os delirios _secundarios,_ os _symptomaticos_ e os _agudos_ para +comprehender apenas os _primitivos_, os _idiopaticos_ e os _chronicos_. +Na accepção restricta do termo, só são systematisados os delirios que +não teem uma base affectiva em estados expansivos ou depressivos (mania +ou melancolia), e que na sua evolução progressiva ou remittente, mas +sempre continua e chronica, não offerecem tendencias para a demencia. +Tal o delirio de perseguições, typo-Lasègue; tal o delirio ambicioso, +typo-Foville; tal o delirio dos perseguidos-perseguidores, typo-Falret. + +Este sentido restricto parece ser tambem o proprio, se attendermos +a que o termo _systema_, pedido á technologia das sciencias +physico-mathematicas, implica a idéa de uma força _activa_ e +_persistente_ de attracção ou de affinidade (_systemas planetarios, +systemas de crystalisação_); por analogia, na esphera psychologica o +_systema delirante_ deveria resultar de uma força _viva_ e _permanente_ +de associação das idéas, tal como se dá sómente nos delirios primitivos, +idiopaticos e chronicos,--delirios movimentados, activos, tenazes. +_Paranoia_ é o termo com que de preferencia exprimem os auctores +allemães contemporaneos este sentido restricto dos delirios +systematisados, quer isolados, quer succedendo-se, quer coexistindo no +mesmo doente; e assim corresponde inteiramente á _loucura systematizada_ +dos francezes, na qual estão comprehendidas as syntheses de Morel, de +Gérente e de Régis. + +Entretanto, mesmo os auctores para quem o termo _Paranoia_ tem esta +accepção restricta e determinada, o desviam d'ella não raras vezes (o +que é uma causa de confusão) para tomal-o no sentido geral e como +synonimo de _Verrücktheit_ ou _Wahnsinn_; é o que faz, por exemplo, +Krafft-Ebing que, não admittindo na sua theoria da Paranoia (_psychose +degenerativa_) senão a fórma primaria, idiopatica e chronica, não duvida +empregar as expressões de _Paranoia epileptica_, de _paranoia +masturbatoria_ (_delirios syntptomaticos_), como não deixa de occupar-se +em detalhe de uma _Paranoia Secundaria (estado terminal das +psychoneuroses_). Note-se, porém,--e isto fará cessar toda a +confusão--que o termo Paranoia, quando empregado n'um sentido geral +pelos auctores a que me refiro, vem sempre seguido de um adjectivo que o +determina; quando tomado no seu sentido restricto, ou vem só ou, quando +muito, acompanhado de um termo que faz allusão a accidentes evolutivos +de chronicidade ou ao contheudo das idéas delirantes, como nas +expressões _Paranoia originaria, Paranoia adquirida_, ou ainda _Paranoia +persecutoria, Paranoia ambiciosa_. No primeiro caso, sendo a _Paranoia_ +uma _Verrücktheit_, um _Wahnsinn_, um delirio systematisado, importa +determinar-lhe a _especie_; no segundo, sendo uma _Primäre +Verrücktheit_, um _Cronicher Wahnsinn_, um delirio systematisado +primitivo e chronico, a sua especie está definida, o seu logar marcado +na classificação, importando apenas, quando importe, designar-lhe a +_variedade_. + +Posto isto, diremos que é sobre a _Paranoia_ como synthese clinica e +doutrina equivalente em extensão á _loucura systematisada_ dos francezes +que primeiro vae recahir a nossa attenção. Claro está que este modo de +limitar o assumpto e de fixar-lhe a terminologia, de modo nenhum nos +inhibe de dar na historia das doutrinas um logar áquellas em que o +assumpto se toma n'uma extensão maior; esse logar, porém, deve ser o +ultimo, não só porque assim o exige a clareza da exposição, mas porque +só depois de passados em revista os delirios systematisados primitivos e +chronicos, ácerca dos quaes ha na Allemanha uma doutrina mais ou menos +definida, poderemos com vantagem occupar-nos dos secundarios e agudos, +cuja controvertida existencia é um thema de infinitas e obscuras +divagações. + +Quanto á terminologia por nós adoptada n'esta exposição, diremos que, +podendo empregar indifferentemente as palavras Paranoia, Primäre +chroniche Verrücktheit ou Chronicher Wahnsinn, faremos uso exclusivo da +primeira, não só por um motivo de simplicidade, senão pelas razões que +os italianos invocam para dar-lhe tambem preferencia: a sua origem +grega, que a assemelha aos outros nomes da psychiatria; a sua +expansibilidade internacional, que lhe vem d'essa mesma procedencia; +emfim, a facilidade com que d'ella se fazem necessarias palavras +derivadas, adjectivos e adverbios. + +Depois dos trabalhos de Snell[1], de Griesinger[2] e de Sander[3], a +doutrina da Paranoia foi retomada em 1878 por Westphal[4], que a +desenvolveu e aprofundou. + + [1] _Über Monomanie_, 1863. + + [2] _Arch. f. Psych._, 1867. + + [3] _Über eine specielle Form der primäre Verrücktheit_, 1868-69. + + [4] _Zeitschr. f. Psych._, 1878. + +Como os seus antecessores, elle insistiu na origem protogenica da +Paranoia: a perturbação ideativa é o facto inicial, independente de +estados affectivos preexistentes; os sentimentos depressivos ou +expansivos que no curso d'esta psychose se observam, não são senão +secundarios e determinados pelo contheudo das idéas hypocondriacas, de +perseguição ou de grandezas. Ainda como os seus predecessores, Westphal +insistiu na falta de tendencias da Paranoia para a demencia; a +debilidade mental que por vezes se nota nos paranoicos, é prévia e não +consecutiva, e não póde, por isso, servir para caracterisar a psychose, +mas o terreno em que ella germina. Reconhecendo a frequencia das +allucinações na Paranoia, Westphal notou, todavia, que ellas podem +algumas vezes faltar; para elle a caracteristica fundamental da Paranoia +reside na perturbação ideativa, na anomalia conceptual que, por si só e +independentemente dos erros sensoriaes, gera as idéas delirantes +destinadas a dominarem de um modo completo e absoluto o Eu vesanico. As +idéas de perseguição e de grandeza podem, segundo Westphal, succeder, +como notara Morel, á hypocondria, mas podem tambem nascer e organisar-se +_d'emblèe_. De resto, segundo Westphal, o desvio paranoico está no modo +de formar as idéas, não de as associar, o que explica a persistencia do +raciocinio e a coherencia entre os actos e os pensamentos do doente. + +Alargando a area extensiva da Paranoia, Westphal integrou no quadro +clinico d'esta psychose as _obsessões_, que, não offerecendo a marcha e +evolução das idéas delirantes dos paranoicos, teem, comtudo, como ellas, +uma origem primitiva e espontanea; d'aqui a creação de uma variedade, +_Paranoia abortiva_ ou rudimentar ou frustre, para designar a loucura +obsessiva ou das idéas fixas. + +Até aqui, como se vê, a doutrina de Westphal não differe essencialmente +das estudadas syntheses clinicas dos psychiatras francezes. Todavia na +sua classificação da Paranoia produziu o eminente professor de Vienna +uma idéa que o separa dos seus predecessores francezes e allemães: de +facto, ao lado da fórma _hypocondriaca_, já conhecida desde Morel, da +fórma _originaria_ ou congenita, descripta antes por Sander, e da fórma +_chronica_, de marcha progressiva ou remittente, em que _d'emblèe_ se +produzem idéas de perseguição e de grandeza, admittiu Westphal uma +fórmia _aguda_, caracterisada pela subita eclosão de allucinações +principalmente auditivas e muitas vezes aterradoras, acompanhando-se de +idéas de perseguição e levando o doente ora á incoherencia e confusão +mental (_Verwirrtheit_) com impulsões, ora ao stupor, á prostração e aos +estados catatonicos de Kahlbaum. + +A creação d'esta fórma _aguda_, que está fóra dos limites por nós +traçados ha pouco á Paranoia, foi o ponto de partida, entre os allemães, +das mais numerosas e mais graves dissidencias doutrinarias sobre este +capitulo da psychiatria. Comquanto não tenhamos de occupar-nos agora +d'este ponto, entendemos dever fazer-lhe desde já uma referencia, não só +para não deixarmos incompleta a exposição das idéas de Westphal, mas +para marcarmos a origem historica de uma corrente de idéas que teremos +de estudar e precisar mais tarde. + +Notaremos, por fim, que Westphal só á fórma _originaria_ reconhece um +fundo degenerativo. + +Fritsch[1] em 1878 insistiu nas relações entre as idéas delirantes e os +estados affectivos, comparando o que se passa na Paranoia com o que tem +logar na mania e na melancolia. + + [1] _Psychiatr. Centralblatt_, 1878. + +Ao passo que n'estas psychoses o delirio surge secundariamente, e as +idéas falsas podem, com Griesinger, considerar-se _tentativas de +interpretação_ das emoções iniciaes depressivas ou expansivas, na +Paranoia, ao inverso, as idéas delirantes são primitivas e os estados +emocionaes secundarios,--meras reacções do sentimento sob o contheudo +das idéas. Adiante voltaremos a citar este auctor, que não acceita a +fórma _aguda_ da Paranoia. + +Em 1879, Schaefer[1] continuou as idéas de Westphal, pondo, comtudo, +n'um relevo maior o papel das allucinações e illusões. + + [1] _Alig. Zeitschr. f. Psych._, 1879. + +Se a Paranoia essencialmente consiste no facto de que as idéas +delirantes são acceites pelo doente como realidades e n'este sentido +constituem o alimento habitual e ordinario de toda a sua actividade +psychica, não deve esquecer-se que os erros sensoriaes, mais frequentes +n'esta psychose do que em todas as outras, activam o delirio, dão-lhe +uma base, um ponto de apoio constante, e pela sua diuturnidade criam +para o doente um mundo phantastico, falseam-lhe o juizo e acabam por +n'elle abolir o _senso critico_. + +Digamos de passagem que Schaefer acceita todas as fórmas da Paranoia +descriptas por Westphal, incluindo a _aguda_, que teria por ponto de +partida as allucinações. + +No mesmo anno, Merklin[2] descreveu pela primeira vez o delirio +processivo (_Quaerulantenwahnn_) como variedade ou sub-grupo da +Paranoia, encontrando-se assim no terreno da theoria com Lasègue, para +quem, como foi dito, o delirio dos perseguidores seria uma variedade +(_fórma activa_) do delirio de perseguições. + + [2] _Studien über primäre Verrücktheit_, 1879. + +No seu _Tratado_, cuja primeira edição remonta a 1879, fez Krafft-Ebing +da Paranoia um estudo completo, de uma rara e attrahente lucidez. +Paranoia e loucura systematisada são termos e noções equivalentes; +assim, separando-se de Westphal, regeita a fórma aguda da Paranoia e +desintegra d'esta psychose a loucura obsessiva, no que procede á maneira +dos auctores francezes. Mas o ponto original da sua doutrina está em dar +á Paranoia um logar entre as degenerescencias psychicas. Duas ordens de +considerações conduzem Krafft-Ebing a este modo de vêr; a génese e a +evolução da doença, por um lado, os antecedentes psychopaticos dos +doentes, por outro. Nem o modo de apparição, nem a marcha permittem +considerar a Paranoia uma doença accidental, como o são as +psychonevroses; pelo contrario, tudo a inculca uma psychose +constitucional, uma doença de um cerebro tocado quer pela +hereditariedade, quer por graves affecções capazes de irreparavelmente o +enfraquecerem. De facto, sem obnubilação de consciencia, sem alteração +fundamental de affectos, no goso habitual de um humor nem deprimido, nem +exaltado, e a despeito da integridade das fórmas do raciocinio, o +paranoico vê o mundo erradamente e é incapaz de corrigir quer as suas +idéas, quer as suas falsas percepções. As idéas delirantes, não +procedendo do exterior, nem resultando de emoções preexistentes pelo +mecanismo psychologico da reflexão, vêem do inconsciente e impõem-se ao +paranoico, do mesmo modo que se lhe impõem os erros sensoriaes: um +excesso de subjectivismo e uma radical ausencia de senso critico, são, +pois, as caracteristicas fundamentaes da Paranoia, cuja evolução, sem +tendencias para a demencia ou para a cura, é essencialmente chronica. De +resto, a banalidade das causas determinantes (que muitas vezes não são +senão as phases physiologicas da vida: a puberdade, a menopause, etc.) +implica uma forte predisposição congenita ou adquirida. Por outro lado, +a historia de todos os paranoicos (e não só, como pretendia Westphal, a +dos originarios de Sander) é a dos desequilibrados, dos candidatos á +loucura, dos degenerados, n'uma palavra; de sorte que a doença +representa apenas o exaggero ou _hyperthrophia_ de um caracter +preexistente, não podendo entre ella e o estado normal traçar-se, como +nas psychonevroses, uma nitida linha divisoria. + +Krafft-Ebing classificou a Paranoia pelo contheudo das idéas delirantes, +descrevendo uma fórma _persecutoria_ com o seu sub-grupo _processivo_, e +uma fórma _ambiciosa_ com as suas variedades _religiosa_ e _erotica_; e +notou o sabio professor de Graz que estas fórmas podem observar-se +isoladas e podem ora coexistir, ora succeder-se no mesmo doente. Na +descripção da Paranoia persecutoria insistiu na passagem gradual e +progressiva das idéas hypocondriacas ás de perseguição e d'estas ás de +grandeza. Segundo a pratica do grande alienista, esta ultima evolução +dar-se-hia n'um terço dos casos da doença. É de notar que Krafft-Ebing, +ao inverso da maioria dos auctores francezes, não concedeu ao raciocinio +o minimo papel na transformação pessoal, que se realisa pela passagem do +delirio de perseguições ao de grandezas; o inconsciente domina, segundo +o eminente professor, toda a evolução da doença. + +Póde seguramente affirmar-se que, com Krafft-Ebing, a doutrina da +Paranoia, tomada como equivalente de loucura systematisada, recebeu na +Allemanha os seus derradeiros desenvolvimentos. De facto, n'esta ordem +de idéas, os psychiatras allemães que lhe succedem, nada accrescentam a +esta construcção synthetica, ao mesmo tempo simples, elegante e +profunda. + +Ulteriormente veremos que logar assignala o eminente professor aos casos +que Westphal, Schaefer e outros incluiam na fórma aguda da Paranoia. + +Em 1880, Scholz[1] insistiu lucidamente nas idéas de Krafft-Ebing sobre +o papel do inconsciente na génese dos delirios paranoicos. Os factos +morbidos obedecem, no fundo, ás leis reguladoras dos factos normaes; +ora, no estado physiologico, é da esphera inconsciente que procedem os +factos psychicos destinados a tornarem-se conscientes; nos delirios +primitivos é tambem d'essa esphera que naturalmente emergem as idéas e +conceitos falsos. As idéas delirantes, como as idéas justas, não são, +definitivamente, senão resultados finaes, complexos e conscientes de +actividades elementares e inconscientes do cerebro; toda a differença +está em que nas idéas delirantes a actividade molecular das cellulas +corticaes se encontra pervertida. D'aqui resulta que, a não existirem, +como não existem na Paranoia, modificações anatomicas profundas, os +processos logicos do pensamento podem subsistir, e o doente não fará +senão raciocinar _justo_ sobre premissas _falsas_; a apparente lucidez +dos paranoicos não é senão isto. Mas não são susceptiveis d'esta +explicação os casos em que o delirio tem por base as allucinações e +illusões; o inconsciente não representa aqui um papel. Para dar conta +d'estes casos, é necessario admittir no cerebro um estado de +enfraquecimento, que o predispõe á falsa interpretação das percepções ou +das excitações sensoriaes; n'esta ordem de idéas, Scholz dá aos delirios +de base allucinatoria um caracter eminentemente asthenico, notando que +elles se desenvolvem frequentes vezes na convalescença das doenças +febris. + + [1] _Über primäre Verrücktheit_, 1880. + +Em 1882, Jung[1] reeditou as idéas de Westphal e de Fritsch sobre a +diversidade genetica dos delirios na Paranoia e nas psychoses depressiva +ou expansiva. Notando a frequencia crescente da Paranoia, Jung attribuiu +o facto á extensão que todos os dias toma a degenerescencia physica e +mental da nossa especie. Isto denuncía um accordo entre este auctor e +Krafft-Ebing sobre a pathogenia intima da doença. + + [1] _Zeitsch. f. Psych_, 1882. + +Kraepelin[1] em 1883, retomando no seu _Compendio de Psychiatria_ as +idéas de Krafft-Ebing sobre a Paranoia, definiu-a «uma profunda e +duradoura transformação do Eu, essencialmente evidenciada por uma +anomala comprehensão e elaboração das impressões internas e externas». +Sem obnubilação da consciencia e sem vivas emoções que lhe perturbem o +curso dos processos intellectuaes, o paranoico acceita as idéas +delirantes, que se lhe impõem e que elle é incapaz de corrigir; esta +_invalidade psyquica_--umas vezes congenita, adquirida outras--é, pois, +a base e o terreno de evolução da Paranoia, que, porisso mesmo, não +representa um mero accidente na vida de um homem são, mas uma doença +_constituicional_, atacando nos seus mesmos fundamentos a personalidade +psychica. Todas as relações do Eu com o exterior se encontram +radicalmente pervertidas no paranoico; e isto não tanto pela +interferencia das allucinações, que são apenas symptomas, como pela +caracteristica tendencia do doente á _comprehensão egocentrica do +mundo_. E não só as relações do Eu com o meio ambiente, mas as que elle +mantem com o corpo, se encontram alteradas. Pelo que, ás fórmas +_persecutoria_ e _ambiciosa_ de Krafft-Ebing, Kraepelin accrescenta, +descrevendo-a minuciosamente, a fórma _hypocondriaca_, + + [1] _Comp. der Psych._, 1883 + +Devemos notar que Kraepelin separa da Paranoia o _delirio processivo_, +que considera uma fórma de _loucura moral_. Baseia-se para essa +separação em dois factos: de um lado, a ausencia de allucinações nos +alienados litigantes; do outro, a radical incapacidade destes enfermos +para se elevarem á noção de direito, como facto objectivo, o que +denuncía uma suspensão de desenvolvimento psychico nos dominios ethicos, +tal como se dá nos criminosos. + +Em 1883, Tuczek[2], fazendo o estudo da hypocondria, apeia-a do pedestal +de fórma nosographica e considera-a um syndroma, ora da melancolia, ora +da Paranoia, ora loucura obsessiva. A presença ou ausencia habitual de +uma depressão primitiva indicará se a hypocondria symptomatisa um estado +melancolico ou representa, pelo contrario, simples e primitivo desvio +ideogenico. Este modo de vêr projecta uma luz intensa no assumpto, +fazendo ás idéas hypocondriacas na Paranoia a parte que de todos os +tempos vinha sendo feita ás idéas de perseguição e de grandeza, que não +são, aliás, privativas da loucura systematisada. Um delirio de +perseguições póde episodicamente symptomatisar um accesso de melancolia +ou secundariamente estabelecer-se após elle, como um delirio de +grandezas póde ser a expressão de um accesso maniaco; mas, ao lado +d'estes delirios, ha uma Paranoia persecutoria e uma Paranoia ambiciosa. +O que distingue estes casos é a lesão primitiva: da sensibilidade nos +primeiros, da ideação nos segundos, com o delirio hypocondriaco, ora +expressão de uma hyperesthesia dolorosa, essencial e primitiva, ora +manifestação de um desvio ideogenico permittindo ao vesanico a habitual +serenidade e igualdade de humor que caracterisa o paranoico. N'este +ultimo caso a hypocondria, como justamente observara Kraepelin, não +seria senão uma perturbação das relações do Eu com o corpo ou com as +impressões internas, analoga á perturbação das relações d'elle com o +mundo externo ou com as impressões sensoriaes. E assim se comprehende +como, ao lado das fórmas _persecutoria_ e _ambiciosa_, deva dar-se no +quadro da Paranoia um logar á fórma _hypocondriaca_, a despeito de uma +errada tradicção que espirito faz surgir como inseparaveis as idéas de +hypocondria e de melancolia. + + [2] _Alig. Zeitschr. f. Psych._, 1883 + +Meynert expôz, em 1890, nas suas _Lições Clinicas_ uma interessante +doutrina da Paranoia, diversa das perfilhadas pelos seus predecessores +allemães. Para o sabio professor de Vienna esta psychose não +representaria um especial desvio ideogenico de um cerebro invalido, mas +a perturbação de um cerebro normal sob a influencia de impulsos morbidos +que, como nos maniacos e melancolicos, dirigem as idéas. «Os affectos +originarios, escreve, são os de defeza e de conquista. Os primeiros +estão em relação com o sentimento de uma influencia externa; os segundos +com o sentimento de uma força que actua sobre o exterior. São processos +physiologicos ou, antes, indispensaveis funcções biologicas do +organismo. Um ser animal incapaz de experimentar affectos conducentes a +movimentos de defeza, apossar-se-hia da natureza para as suas +necessidades, mas succumbiria sem resistencia ás nocivas acções d'essa +mesma natureza; um ser sem movimentos de conquista, como resultados de +affectos relativos, poderia subtrahir-se aos males da natureza, mas, por +defeito de apropriação, morreria á falta de satisfação das proprias +necessidades. Na illimitação das idéas de defeza da creança inexperiente +e timida encontra-se esboçado physiologicamente o delirio de +perseguições, como o de grandezas se encontra na mesma creança, quando +tenta soprar á lua para apagal-a como se fôra uma vela. O delirio de +perseguição inclue em si a angustia; na Paranoia, como na mania e na +melancolia, isto póde representar uma relação restabelecida entre este +sentimento e as circumstancias exteriores. Do sentimento de angustia +conclue-se para a perseguição. Eu vou, porém, mais longe: o que +immediatamente se associa ao sentimento de angustia, é o perigo. Perigo, +antes de tudo, de uma doença illusoria, na hypocondria simples; perigos, +nas idéas de violencia, em connexão com a chamada angustia +neurasthenica; perigos, nas coisas da natureza morta--infecções, +venenos; perigos, creados por nós proprios, como quando receiamos, por +impulso d'outrem, cahir de uma altura. Este é o delirio de perigo. O +delirio de perseguição refere-se, porém, a uma influencia procedente +d'outrem, sendo certo que na Paranoia a angustia causada pelos homens +excede a que determinam as coisas. O sentimento de defeza é n'este caso +_anthropomorphisado_: como as suas aggressões procedem de um impulso +humano, as que o doente receia, teem para elle analoga origem nos +sentimentos dos homens, na vontade d'elles. Este modo de pensar não é +especial de um estado de doença; o delirio que se lhe refere é popular, +diffuso, quanto póde sel-o, por exemplo, a crença na religião natural. +Todos os phenomenos favoraveis ou perniciosos, o ceu, o sol, as nuvens, +o oceano, o fogo são assim comprehendidos n'um termo de analogia; e, +como o homem explica as suas aggressões ou conquistas sobre o natureza +como resultados de disposições que o estimulam, pensa elle que tambem as +vantajosas ou maleficas influencias naturaes procedem de affectos de +seres mais perfeitos. Com razão disse um dos mais profundos pensadores +da época da encyclopedia que o _homem creou os deuses à sua imagem_»[1]. + + [1] Meynert, _Lezioni cliniche di Psychiatria_, trad. it., pag. 128. + +Como do sentimento de defeza fez surgir o delirio de perseguição, +Meynert faz derivar o delirio de grandezas do sentimento de conquista; e +como as duas ordens de sentimentos physiologicos, longe de se +hostilisarem, coexistem no mesmo individuo e mais ou menos se implicam +n'um fim geral de conservação, as duas ordens de delirios, persecutorio +e ambicioso, se agregam e formam corpo no mesmo doente. + +D'onde vem ao paranoico o exaggero d'esses fundamentaes sentimentos de +defeza e de conquista? Meynert não hesita em responder que elle procede +de uma sorte da hypertrophia do sentimento pessoal, determinada por +_sensações hypocondriacas_ ou _estimulos subcorticaes bulbares_. O +doente sentiria mais fortemente o seu Eu; e esta emoção intensa, +associando-se a todas as percepções, crearia um estado particular de +consciencia no qual tudo seria interpretado egocentricamente. Uma +_hyperesthesia psychica_ seria, pois, para Meynert, como vimos que o era +para Gérente, o fundamento da Paranoia. + +Ao contrario de Krafft-Ebing, Meynert não liga uma grande importancia á +hereditariedade como causa da Paranoia; e junto d'elle a noção +psychiatrica da degenerescencia não tem senão um frio e reservado +acolhimento. Para Meynert a etiologia não fornece, nem fornecerá nunca a +base de uma classificação natural das psychoses; essa base tem de ser +procurada na anatomia pathologica, na lesão do cerebro. Na Paranoia essa +lesão seria um processo atrophico do manto cerebral. + +O conceito da degenerescencia psychica não encontra em Mendel[1] melhor +acolhimento do que em Meynert. Occupando-se em 1883 da Paranoia, n'um +extenso trabalho a que teremos de alludir ainda, Mendel apenas concedeu +fóros de degenerativa á fórma originaria de Sander. + + [1] _Die Paranoia_, 1883. + +Pelo seu lado, Schüle[2], em 1886, só considerou francamente +degenerativas as fórmas _originaria_ e _processiva_, por elle descriptas +no seu _Tratado Clinico_ dentro do grupo das psychoses hereditarias, +entre a loucura obsessiva e a loucura moral. + + [2] _Klinische Psychiatrie_, 1886. + +Mendel, distinguindo a obsessão da idéa delirante, separa da Paranoia a +fórma _abortiva_ de Westphal. Ao contrario, Salgo[3] vê na loucura +obsessiva uma fórma frustre ou incompleta da Paranoia, porque para elle +a obsessão e a idéa paranoica teem a mesma génese: uma e outra surgem +primitiva e espontaneamente n'um cerebro fraco. Para este auctor, com +effeito, a _debilidade de espirito_, no sentido do que outros chamam +_invalidade psychica_ e _ausencia de senso critico_, representa na +Paranoia um papel fundamental. Poderiamos inscrever, ao lado dos nomes +até aqui citados, os de Koch, Arndt, Weiss, Pelman, Samt, outros ainda, +tão vasta é na Allemanha a bibliographia do assumpto que nos occupa; não +accrescentariamos, porém, com isso o quadro doutrinario da Paranoia como +conceito equivalente ao de Loucura Systematisada dos auctores francezes. +Passemos, pois, á exposição dos trabalhos em que um tal conceito se +altera pela integração de uma fórma _aguda_, sem precedentes quer em +França, quer na Allemanha, antes de 1878. + + [3] _Compend. der Psychiatrie_, 1887. + +Foi Westphal, como dissemos, quem primeiro admittiu a existencia de uma +variedade da Paranoia procedendo de estados allucinatorios primitivos e +apresentando na sua marcha ora a confusão mental da mania, ora a +depressão stuporosa da melancolia. Tal era a Paranoia aguda do professor +de Vienna, desde logo perfilhada por Schaefer e tambem desde logo +rudemente combatida por Fritsch e outros. + +Sem extemporaneos intuitos de critica, mas n'um unico fim de ordenar +idéas, accentuemos, antes de tudo, as differenças que separam as fórmas +aguda e chronica da Paranoia. + +Segundo as doutrinas recebidas de Snell, de Griesinger, de Sander, do +proprio Westphal, dois factos caracterisam principalmente a fórma +chronica: de um lado, a primitividade das idéas delirantes, que ao +espirito se impõem á maneira de obsessões; do outro, a integridade da +associação logica dos pensamentos, explicando a resistencia dos doentes +á demencia. + +Na fórma aguda, o contrario teria logar: as allucinações seriam o facto +primordial, e a associação das idéas achar-se-hia fundamentalmente +compromettida quer por um exaggero até á fuga, quer por um affrouxamento +até á suspensão. Na fórma chronica, as allucinações, constituindo um +symptoma secundario e mesmo fallivel, são tributarias das idéas +delirantes a cujo contheudo se subordinam (depressivas e hostis no +delirio persecutorio, expansivas e benevolas no ambicioso); na fórma +aguda, pelo contrario, sendo um facto primitivo e essencial, as +allucinações teriam sob a sua dependencia os conceitos delirantes (de +perseguição sob vozes hostis, de grandeza sob audições lisongeiras). +Quanto á associação das idéas, não ha na fórma chronica mais do que um +desvio inicial de orientação, sem compromisso da consciencia e sem perda +de lucidez; pelo contrario, na fórma aguda a precipitação das idéas +poderia levar o doente á incoherencia e á dissociação da mania, como o +affrouxamento do seu curso o poderia conduzir á fixidez melancolica ou +mesmo, sob a acção inhibitoria de allucinações terrorisantes, a estados +de catatonia. Estas differenças de marcha implicam naturalmente a de +prognostico: a fórma chronica não cura e não conduz por si mesma á +demencia; pelo contrario, a fórma aguda terminaria umas vezes pela cura, +outras pela abolição das faculdades. + +Assim, tanto a subordinação dos symptomas como a terminação separam as +duas fórmas. O que as une então? O contheudo das idéas delirantes, que +são sempre, n'uma e n'outra, reductiveis ás tres conhecidas cathegorias: +hyponcondriacas, persecutorias e ambiciosas, sobretudo ás duas ultimas. + +É este, com effeito, para todos os que admittem uma Paranoia aguda, o +traço clinico de ligação entre esta fórma e a outra. Que exista uma +perturbação de consciencia ou até mesmo uma inconsciencia mais ou menos +duradoura; que o delirio se acompanhe de allucinações em massa de todos +os sentidos; que haja manifesta incoherencia, pouco importa, desde que, +como diz Mendel, se possam reconhecer os dois typos de ideação: +persecutorio e ambicioso. Muitas vezes, como o mesmo Mendel o confessa, +o diagnostico differencial entre a Paranoia aguda e a mania com +predominio de allucinações seria difficil de estabelecer. D'esta sorte, +no quadro da Paranoia entram não só os delirios systematisados, mas até +os dissociados e incoherentes, uma vez que as idéas de perseguição ou de +grandeza n'elles predominem ou mesmo _tendam_ a predominar, como alguns +escrevem. + +É necessario, entretanto, reconhecer que Schüle, achando, talvez, +demasiadamente frouxo, como unico laço de união entre fórmas por muitos +symptomas diversas e até antinomicas, o contheudo das idéas delirantes, +tenta a approximação das duas Paranoias sobre um terreno de evolução, +notando que dos casos agudos aos chronicos e d'estes áquelles a +transição se póde fazer sem violencia, antes insensivelmente. Depois, +com effeito, de ter accentuado (como acabamos de fazel-o) todos os +symptomas que separam as fórmas chronica e aguda, Schüle escreve: «Estas +differenças, porém, caracterisam apenas os casos extremos do delirio +systematisado chronico e agudo; ha casos intermedios em que +manifestamente se revella o parentesco d'estas duas fórmas. De modo que +o importante grupo da fórma aguda não é senão a repetição da fórma +chronica: é um delirio de perseguição, uma interpretação delirante com +erros sensoriaes e raciocinio falso que abre a scena, sendo ainda +possiveis ao principio as percepções exactas. Ao mesmo tempo que a +consciencia se torna mais obscura, produz-se um delirio expansivo de +fórma mystica ou erotica; o Eu conserva-se, sem poder distinguir as +percepções exactas das allucinações que se unem e entre si se prendem +systematicamente. Este estado representa o delirio systematisado agudo +por excellencia. Por vezes este aspecto clinico mantem-se, mas póde +tambem mudar, como acontece nos casos de affeções agudas e febris: as +allucinações tornam-se predominantes, variaveis, e trata-se então de um +d'esses casos extremos de que fallamos. Por outro lado, a fórma chronica +apresenta muitas vezes exacerbações que não são, pela fórma e pelo +fundo, senão o delirio systematisado com allucinações; o começo, +sobretudo, da doença offerece este aspecto. O delirio systematisado +agudo, quando não cura, torna-se uma fórma chronica com allucinações e +systematisação parcial. Todas estas transições demonstram que as +differenças notadas não são essenciaes e que estas fórmas, apesar de +variadas, são visinhas»[1]. + + [1] Schüle, _Traité clinique des maladies mentales_, trad. fr., pag. +122. + +A citação que acabamos de fazer, synthetisando as idéas de quantos +acceitam hoje na Allemanha a Paranoia aguda, dispensa-nos de toda uma +erudita, mas inutil _étalage_ de nomes proprios; por ella se fica +sabendo o que pensam do parentesco das duas fórmas os que, desde +Westphal, as admittem ambas. Entretanto, não será ocioso fixar idéas +sobre este ponto por uma nova e caracteristica citação de Schüle: «Uma +analyse minuciosa, escreve este psychiatra, revella differenças entre +todos os casos que entram n'este grupo tão consideravel de psychoses, +direi mesmo, d'este grupo que é de todos o maior. Assim, devem +distinguir-se casos intermediarios n'este vastissimo grupo dos delirios +systematisados. Os casos chronicos approximam-se tanto, no ponto de +vista dos symptomas, do delirio systematisado dos degenerados, de que +muitas vezes offerecem a physionomia clinica, quanto os casos agudos se +approximam das psychonevroses (melancolia e certas fórmas de stupor com +allucinações). Estas relações devem ser cuidadosamente notadas. Assim, +distingue-se, em regra, nitidamente o delirio systematisado agudo, da +melancolia, pela mediocre importancia da perturbação primitiva do humor, +que é n'esta, pelo contrario, um elemento psychico duravel, que produz e +domina toda a doença; entretanto, o delirio systematisado agudo contém +tambem um grupo demonomaniaco, o qual não só apresenta um sentimento +depressivo intenso (panophobia), mas succede a um estado de verdadeira +depressão, de caracteristica diminuição do sentimento da personalidade, +de illusões e de allucinações de caracter triste. O mesmo acontece com o +stupor. Em regra, o stupor typico (_atonito_) póde nitidamente +distinguir-se do delirio systematisado agudo, que não apresenta as +caracteristicas ausencia de percepção e falta absoluta de vontade; mas o +stupor com allucinações (_pseudo-stupor_) está evidentemente ligado á +variedade do delirio systematisado agudo em que a intelligencia +obscurecida tem phases passageiras de semi-lucidez. Poderiamos chamar a +este estado a fórma estupida do delirio systematisado agudo tanto como o +stupor com allucinações; a génese e a marcha da doença permittiriam uma +e outra coisa. Assim, póde definir-se e conceber-se todo este grupo do +delirio systematisado agudo como sendo, em summa, a repetição de certas +psychonevroses melancolicas, maniacas e estupidas em que a consciencia +se acharia _completamente perturbada pelo delirio_ (estado do +sonho)»[1]. + + [1] Schüle, _Obr. cit._, pag. 123. + +Estas palavras de Schüle, pondo em relevo a immensuravel extensão da +Paranoia no conceito de alguns psychiatras allemães, permittem-nos +interpretar expressões, aliás frequentes, que parecem meros jogos de +termos, que um accidente de composição typographica juntou: tal, por +exemplo, a da _Paranoia dissociativa_, de Ziehen. Só quem tiver em +vista que a fórma aguda integra situações mentaes que vão desde a +obnubilação até á fuga das idéas, desde a somniação até á catatonia, +póde comprehender que um termo creado para exprimir a idéa de +_systematisação_ se adjective por uma palavra synonima de +_incoherencia_. + +Como já dissemos, a idéa de uma Paranoia aguda, primeiro enunciada por +Westphal e logo acceite por um grande numero de alienistas allemães, foi +vivamente combatida desde todo o principio por muitos outros. Defensores +e adversarios d'essa idéa constituem hoje duas escólas nitidamente +separadas, como temos tentado mostrar nas paginas precedentes. O nosso +estudo d'este assumpto seria, comtudo, incompleto, se não dissessemos de +que maneira os adversarios da Paranoia aguda interpretam os casos +clinicos expostos como pertencendo a esta fórma. Que pathogenia teem e +que logar occupam na classificação das psychoses, uma vez eliminada a +Paranoia aguda, os delirios, tão numerosos, em que idéas de perseguição +e de grandeza surgem sem systematisação completa, sem coherencia até, +acompanhadas de vivos estados allucinatorios, seguindo uma evolução +irregular e marchando tantas vezes para a cura? + +A resposta a esta questão, já formulada, talvez, no espirito do leitor, +vae permittir-nos completar a differenciação das duas escólas, pondo em +mais alto relevo o caracteristico espirito das doutrinas de cada uma. + +Dizer que esses delirios persecutorio e ambicioso de marcha aguda estão +fóra da Paranoia, porque são diversos d'ella pelo começo, pela +terminação, pela hierarchia mesmo dos symptomas, não basta, porque +precisamente se discute se a Paranoia deve ter a limitada extensão que +uma tal doutrina lhe assignala ou, pelo contrario, alargar-se para +abranger novos grupos de factos clinicos. Schüle, Mendel e Cramer (para +não citarmos senão os principaes e mais modernos defensores da Paranoia +aguda), acceitando como perfeitamente distinctos e até apparentemente +contrarios os casos _extremos_ das duas fórmas, sustentam, comtudo, que +a fusão d'ellas se estabelece pelo exame dos casos _de transição_, em +que os motivos differenciaes se esbatem. + +Ora, sabendo-se que em sciencias naturaes, desde que n'ellas penetrou o +criterio evolutivo, deixaram de existir grupos definitivos e fechados, +importa considerar este argumento. E é por isso que não podemos +prescindir de saber como interpretam os pretendidos casos de Paranoia +aguda aquelles que apenas admittem uma Paranoia chronica. + +Fritsch, um dos primeiros a combater a noção da Paranoia aguda, designou +esses casos sob o nome _Verwirrtheit_ ou confusão mental, fazendo-os +depender de uma fraqueza irritavel ou esgotamento nervoso dos +hemispherios cerebraes, que póde observar-se como syndroma ou como +complicação da maior parte das psychoses e, portanto, da Paranoia. +Decerto, a _Verwirrtheit_ offerece, como a Paranoia, idéas delirantes e +allucinações; estes symptomas communs, porém, não são da natureza, +segundo Fritsch, a permittir a confusão entre uma _doença_, de marcha +gradual, em que se dá uma transformação da personalidade, e um simples +_estado_ transitorio, um mero _syndroma_ de innumeras psychoses +funccionaes e organicas. + +Pelo seu lado, Krafft-Ebing, que á Paranoia dá um logar entre as +degenerescencias psychicas ou psychoses constitucionaes, relega os +pretendidos casos de Paranoia aguda para o delirio sensorial, +_Hallucinatorischer Wahnsinn_, que elle colloca entre as psychonevroses +ou psychoses accidentaes, ao lado da mania e da melancolia. + +Como Fritsch, Krafft-Ebing faz esses casos tributarios de uma asthenia +cerebral. De facto, segundo elle, o _Hallucinatorischer Wahnsinn_ +reconhece por causas as doenças febris, infecciosas, neurasthenisantes; +a sua caracteristica é um enfraquecimento cerebral _d'emblèe_, ou +passageiro e curavel ou rapidamente demencial, impedindo todo o trabalho +de systematisação delirante. A passagem do _Hallucinatorischer Wahnsinn_ +á Paranoia é, pois, impossivel. + +Para Kraepelin os pretendidos casos de Paranoia aguda entrariam quer na +_Hallucinatorische Verwirrtheit_, quer no _Hallucinatorischer Wahnsinn_. +A primeira d'estas psychoses é uma confusão mental devida a um +esgotamento agudo do cerebro; a segunda é um delirio pouco coherente, da +marcha rapida e terminação favoravel, em que as allucinações representam +o principal papel, subordinando a si o estado emotivo e as idéas falsas. +A distincção entre estas duas doenças não parece muito nitida; como quer +que seja, ambas se distinguem profundamente, segundo Kraepelin, da +Paranoia, que consiste n'uma lenta e intima transformação da +personalidade, sem obnubilação da consciencia e sem perturbações +fundamentaes do humor. + +Mayser[1] considera os mesmos casos de Paranoia aguda como exemplares de +_Delirio asthenico_, analogos aos produzidos pelas intoxicações +medicamentosas ou outras; a obnubilação da consciencia e a confusão +mental, devidas a um esgotamento do cerebro, seriam as caracteristicas +d'este delirio. + + [1] _Zur sogennanter hallucinatorischer Wahnsinn_. + +Meynert[2] pertence ao numero dos que contestam a existencia de uma +Paranoia aguda. Os casos expostos como taes, são por elle estudados sob +o nome da _Amencia_, especie de confusão mental, ora idiopathica, ora +symptomatica, tributaria de uma fraqueza irritavel, de um exhaurimento +do cerebro e podendo manifestar-se tanto por symptomas de stupor, como +por excitação acompanhada de vivos e multiplos estados allucinatorios. O +predominio de phenomenos neurasthenicos sobre os irritativos explicaria +os casos que difficilmente se distinguem da melancolia, como, +inversamente, o predominio de phenomenos irritativos sobre os +depressivos explicaria os casos que a custo se distinguem dos delirios +maniacos, agudos e sobreagudos. + + [2] _Obr. cit._, pag. 27 e seg. + +As causas da _Amencia_ seriam todos os accidentes capazes de produzir +mais ou menos rapidamente o esgotamento cerebral: choques moraes +intensos n'um individuo debilitado, onanismo abusivo, doenças febris, +puerperio, intoxicações, traumatismos, molestias infecciosas, outros +ainda. A hereditariedade não exerceria senão um papel subalterno. A +marcha da _Amencia_ seria sempre aguda e a terminação far-se-hia pela +morte, pela demencia ou pela cura ao fim de um tempo variavel entre +algumas semanas e alguns mezes. As recidivas seriam para receiar. De +resto, a Amencia póde complicar grande numero de psychoses, não sendo +raro que surja como um episodio na marcha da Paranoia. Meynert insiste, +porém, sobre o diagnostico differencial entre a Amencia e a Paranoia +que, mesmo coincidindo temporariamente, conservam a sua physionomia +propria. Da Amencia não póde passar-se a outra psychose que não seja à +demencia, termo natural das psychopatias que não curam. + +Tal é, pela voz dos seus mais illustres representantes, a theoria que +rejeita a existencia de uma Paranoia aguda. Esta designação +representaria um mal-intendido, pois que os casos clinicos por ella +cobertos não seriam senão expressões de uma asthenia cerebral, quer +idiopatica e primitiva, quer symptomatica e secundaria, profundamente +diversa, não só pelos _symptomas_ e pela _marcha_, mas ainda pelas +_causas_, da Paranoia. Que essa, asthenia com todo o seu cortejo de +phenomenos ora stuporosos, ora maniacos, venha intercalar-se na marcha +da Paranoia em algum dos periodos d'esta, é incontestavel; que devamos +confundir as duas entidades morbidas é, porém, insustentavel, porque, +desde os symptomas até ás causas, desde a marcha até á terminação, tudo +se conspira para as separar. + +Os casos de delirio agudo em que retalhos de conceitos persecutorios e +ambiciosos apparecem de mistura com erros sensoriaes, não seriam, pois, +exemplares da Paranoia; seriam casos de _Verwirrtheit_, de +_Hallucinatorischer Wahnsinn_, de _Hallucinatorische Verwirrtheit_, de +_Amencia_, n'uma palavra, de _confusão mental_ asthenica. E a mistura +possivel dos symptomas agudos d'essa confusão com os symptomas chronicos +da Paranoia, não significam, como pretende Schüle, a passagem ou +_transição_ entre duas fórmas de uma mesma doença, mas a _coexistencia_ +de duas psychoses distinctas n'um unico doente. + +Duas palavras ainda sobre a Paranoia secundaria antes de fecharmos a +historia dos trabalhos germanicos. + +Vimos quanto esta noção dominante nos inicios da psychiatria allemã, foi +perdendo terreno á medida que se elevava a de Paranoia primitiva. O nome +não chegou nunca a desapparecer, graças á tradição; mas o conceito de +Paranoia secundaria foi posto em contraste como o de Paranoia primitiva. +Esta seria uma doença; aquella, um _estado terminal_, apenas, da +melancolia ou da mania, uma _étape_ d'estas psychoses na sua marcha para +a extincção definitiva. Tal em Krafft-Ebing, por exemplo, nos apparece a +Paranoia secundaria: um prefacio da demencia vesanica, uma situação +mental pouco definida e transitoria, correspondendo ao que os +psychiatras francezes denominaram em todos os tempos a _demencia +incompleta_. + +E assim devia ser. Entre o formidavel processo da Paranoia primitiva, +tão movimentado, tão independente, tão cheio de cambiantes evolutivas, e +o estado predemencial, tão pallido que os seus symptomas não são já +senão residuos de psychoses moribundas--pedras de um edificio em ruinas, +taboas de um navio em naufragio--nenhuma approximação pathogenica ou +nosologica era, com effeito, possivel. + +Mas comprehende o leitor que esta situação tenha variado a partir do +momento em que o conceito da Paranoia primitiva foi remanuseado e os +seus severos moldes partidos pelos iconoclastas, introductores da fórma +aguda. Desde que não repugna admittir que da confusão mental se passe á +Paranoia, menos repugnará crêr que a ella se trasite da mania e da +melancolia. E, de facto, os auctores que admittem a fórma aguda da +Paranoia, acceitam igualmente a secundaria. + + * * * * * + +Datam apenas de 1882 os trabalhos da psychiatria italiana sobre os +delirios systematisados; são elles, porém, de um tão grande valor +intrinseco e de uma tão alta originalidade, algumas vezes, que o seu +logar na historia contemporanea está definitivamente marcado. + +A primeira memoria a citar sobre o assumpto é a de Buccola: _Sui delirii +sistematisati_. Não tanto pela novidade das proprias idéas como pela +clareza com que expõe e commenta as doutrinas germanicas, ainda então +quasi desconhecidas fóra do paiz originario, é notavel este trabalho do +mallogrado escriptor italiano. + +Na debatida questão da génese do delirio, Buccola hesita em affirmar com +Krafft-Ebing a constante prioridade das idéas sobre as allucinações, do +desvio conceptual sobre os erros sensoriaes. «A génese do delirio, +escreve, não é em todos os casos nitidamente delimitada e não sabemos +definitivamente se as allucinações precedem ou succedem sempre o +desenvolvimento das idéas delirantes e se estes devem considerar-se +tentativas de interpretação ou antes, á maneira de Samt, productos da +vida psychica inconsciente»[1]. Quanto ao especial terreno sobre que +assentam os delirios systematisados, é Buccola decisivo, affirmando com +Weiss que elles traduzem uma invalidade mental; e este modo de vêr, +apoia-o Buccola sobre o criterio etiologico, vista a preponderancia da +hereditariedade na loucura systematisada, e ainda no prognostico, porque +a doença é, maioria dos casos, estereotypada e insusceptivel de cura, +comquanto capaz de remissões. + + [1] Buccola, _Sui delirii sistematisati_, in _Rivista di Freniatria_, +vol. VII. + +O estudo de Buccola, que fizera na Allemanha o seu noviciado +psychiatrico, foi para a sciencia italiana, adormecida sobre os +conceitos francezes, a denuncía de um mundo novo a explorar. E desde +logo, com effeito, um fecundo movimento de inquerito aos delirios +systematisados surgiu e se affirmou por estudos de uma profundidade e +originalidade imprevistas. + +Pondo de parte todos os trabalhos (e são numerosos) que se limitam, como +o de Buccola, a expôr ou a commentar as idéas germanicas, faltaremos +sómente dos que, pela novidade dos seus pontos de vista, implicam +modificações evolutivas no conceito da Paranoia. N'esta ordem de idéas +são a mencionar, sobretudo, as memorias de Tanzi e Riva e de Tonnini. + +O trabalho dos dois primeiros escriptores é dos mais importantes e, como +vae vêr-se, dos mais originaes. + +Para estes auctores Paranoia e delirio systematisado são conceitos +diferentes, noções que importa não confundir: o delirio systematisado é +um syndroma clinico, um _grupo symptomatico_ apenas, ao passo que a +Paranoia representa uma _constituição morbida_, que o atavismo explica. +Exteriorisando-se as mais das vezes por um delirio systematisado, a +Paranoia póde, todavia, existir sem elle; d'aqui a variedade que os +auctores denominam _Paranoia indifferente_, isto é, desacompanhada de +delirio. + +O que é então a Paranoia, segundo Tanzi e Riva? De dois modos a definem +e fazem comprehender estes auctores: descriptivamente, pela menção dos +seus symptomas, da sua etiologia e da sua marcha; pathogenicamente, pelo +exame das suas origens. + +Descriptivamente definida, a Paranoia é para Tanzi e Riva «uma psychose +funccional de fundo degenerativo, caracterisada por um particular desvio +das mais elementares operações intellectuaes, não implicando nem uma +gravissima decadencia nem uma desordem geral; que se acompanha quasi +sempre de allucinações e idéas delirantes permanentes mais ou menos +coordenadas em systema, mas independentes de qualquer causa occasional +constatavel ou de qualquer condição morbida emotiva; que tem uma +evolução nem sempre uniforme ou continua, mas essencialmente chronica; e +que, em geral, não tende por si mesma para a demencia»[1]. + + [1] Tanzi e Riva, _La Paranoia,_ in _Rivista di Freniatria_, vol. x, + pag. 293. + +A analyse d'esta definição, que a pathogenia tem de completar, permitte +reconhecer, antes de tudo, a posição dos auctores em face das diversas +doutrinas allemãs. Declarando a Paranoia uma psychose _degenerativa_, de +marcha essencialmente _chronica e sem precedentes de emotividade +morbida_, Tanzi e Riva excluem resolutamente do quadro da doença os +delirios systematisados _secundarios_, que succedem á mania e á +melancolia, e bem assim os _agudos_, admittidos pela escóla de Westphal. +Constatando, além disso, a ausencia, na génese da psychose, quer de +causas occasionaes apreciaveis, quer de perturbações morbidas de +sentimento, os auctores affirmam a origem _inconsciente_ do desvio +intellectual, que não póde tomar-se, porque é primitivo, á conta de +interpretação de estados emotivos. Emfim, declarando que a Paranoia não +implica uma desordem geral, mas ideativa, não tendendo por si mesmo para +a demencia, Tanzi e Riva accentuam que ella consiste n'uma +_degenerescencia intellectual_. + +Como se vê, é ao lado de Krafft-Ebing e em opposição a Schüle e a Mendel +que os escriptores italianos se collocam. Mas no que elles se desviam de +todos os psychiatras, assim franceses como allemães, é na affirmação da +não essencialidade das idéas systematisadas na Paranoia; esta é a parte +original e absolutamente imprevista da definição. Contrariamente ás +idéas recebidas, o desvio ideativo que caracterisa a Paranoia não é +sempre, segundo Tanzi e Riva, embora o seja na maioria dos casos, um +delirio systematisado. É uma coisa diversa, em que pensaram Lombroso, +creando a designação de _mattoide_, Maudsley, fallando de um +_temperamento vesanico_, Moreau, traçando a zona indisdincta das +_fronteiras da loucura_. O que é, pois? Um excesso de subjectivismo +alterando fundamentalmente as relações do individuo com o mundo +exterior, comprehendido o social, e tomando, n'este assumpto, +radicalmente impossivel toda a justeza da critica. Lucido bastante para +interpretar as coisas e os homens nas suas relações objectivas, o +paranoico, uma vez em jogo a sua personalidade, vê tudo erradamente, +como por interposta lente deformante. O Eu, medida de todas as coisas, é +no paranoico um instrumento infiel e falso, porque vicia aquellas que o +interessam, as que com elle directamente se relacionam; a +_egocentricidade_ é, pois, o essencial _desvio_ e o incorrigivel _erro_ +do Eu paranoico. Accentuando-se de ordinario n'um delirio systematisado +persecutorio, ambicioso ou erotico, elle póde ficar áquem, no dominio +das idéas falsas, mas não absurdas, chimericas, mas não ainda +inverosimeis ou repugnantes; d'aqui a Paranoia indifferente, que os +auctores illustram de uma maneira magistral. + +D'onde procede esse desvio que nenhuma causa occasional explica? Se +pensarmos que a evolução intellectual da humanidade se faz no sentido de +um subjectivismo decrescente, isto é, de uma subordinação cada vez maior +do Eu ao mundo exterior, de que somos apenas uma parcella, o excesso de +subjectivismo apparecer-nos-ha como um retrocesso, uma regressão, e o +paranoico, portanto, como um documento de atavismo. + +Tal é, na sua essencia, a doutrina de Tanzi e Riva a que cremos dever +applicar a designação de _anthropologica_, porisso que, segundo ella, o +paranoico é muito menos um _doente_, no sentido commum d'este termo, do +que a revivescencia intellectual de velhos typos ancestraes da especie. + + +«Não é em si mesma, escrevem Tanzi e Riva, mas em relação ao tempo em +que se produz, que uma idéa póde considerar-se morbida; a pathologia do +conceito delirante reside sobretudo no _anachronismo_» [1]. E, de facto, +idéas e opiniões que hoje são delirantes, foram modos de vêr correntes +em épocas mais ou menos afastadas. Mas não se conclua d'aqui que é +paranoico todo o homem que n'um dado assumpto pensa como o fizeram +remotos antepassados. + + [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, pag. 305. + +Que um negro, uma creança ou um inculto camponez tenham do Universo uma +grosseira concepção anthropomorphica, nada mais natural; que a tenha, +porém, um branco de maior idade e scientificamente educado, eis o que +denuncía um desvio paranoico da ideação. Que um rude marinheiro +analphabeto responsabilise o seu santo de um naufragio ou lhe agradeça +com offerendas uma viagem feliz, não é caso para espanto; que faça o +mesmo um almirante, eis o que revellaria uma ideação paranoica. As +raças, as idades e as classes (que são raças sociaes) teem cada uma a +sua psychologia; e é dentro d'ella e pelos principios d'ella que os +conceitos teem de ser afferidos. Um homem tendo as crenças dos da sua +raça, do seu paiz, da sua idade, da sua classe e do seu nivel cultural, +não é um paranoico, por falsas que essas crenças sejam; para que possa +fallar-se da Paranoia é preciso que uma _regressão_ ideativa se realise. + +Na parte critica do nosso trabalho insistiremos sobre este e outros +pontos. Por agora resta-nos sómente resumir a documentação do atavismo +paranoico, tal como a apresentam os dois illustres psychiatras. + +Tanzi e Riva fazem notar em primeira linha a crença profunda e +inabalavel dos paranoicos nas suas concepções delirantes, mau grado +todos os raciocinios que as demonstram falsas, mau grado a evidencia +dos factos, que as contradicta, e a realidade das coisas, que as choca; +essa crença, inaccessivel a argumentos, superior a controversias, +resistente ás suggestões do mundo objectivo, é verdadeiramente uma +_fé_--tão integral e tão pura como a das velhas almas religiosas em face +dos dogmas e das doutrinas revelladas. De uma intensidade inversamente +proporcional ao seu fundamento logico, a fé paranoica não encontra hoje +equivalente a não ser nos povos barbaros ou nos simples de espirito. + +Um novo documento da natureza degenerativa e atavica da Paranoia +encontra-se no proprio contheudo do delirio, sobretudo nas idéas de +perseguição, que representam uma phase de _lucta_ incompativel com os +tempos actuaes e apenas possivel e necessaria em épocas anteriores á +constituição do direito e ao reconhecimento das garantias individuaes. + +Como importante caracter degenerativo e prova de que o paranoico +representa um producto inferior, referem os auctores o conjuncto de +anomalias _psycho-sexuaes_ que só nos imbecis se encontram com a mesma +frequencia e fórma. Indo do onanismo ao _horror feminae_ por innumeras +cambiantes, essas anomalias, se não produzem o effeito da impotencia +material, tornam o paranoico inadequado ao amor e ao matrimonio. «A +extracção forçada de esperma por machinas electricas, a copula +imaginaria com pessoas reaes, os mysticos commercios carnaes com entes +nebulosos e imaginarios representam outros tantos aspectos, escrevem os +auctores, das condições de inferioridade sob o ponto de vista da +existencia da especie, em que se despenha o paranoico muitas mais vezes +do que qualquer outro alienado»[1]. + + [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, pag. 307. + +Emfim, ha na symptomatologia da Paranoia um grupo particular de factos +de procedencia atavica evidente: taes são os que se designam pelas +expressões syntheticas de _symbolismo_ e _allegorismo_. «Os complicados +arabescos, as figuras allegoricas, os gestos e altitudes cabalisticas, +as interpretações phantasticas de factos naturaes, os jogos de palavras, +os neologismos, e o _argot_ individual que na Paranoia pullulam, dão ao +delirio uma côr tão viva e tão grotesca, dizem os escriptores italianos, +que o fazem reviver nas mais remotas phases da evolução historica da +cultura. Lembram a escripta cuneifórme e hyerogliphica exprimindo +material e figuradamente os conceitos abstractos, a conservação dos +amuletos symbolisando as almas dos santos, a vivificação dos phenomenos +naturaes, as evocações d'alemtumulo, os themas da alchimia medieval e da +magia arabe, as cerimonias hyeraticas de velhos tempos, importadas do +mysticismo oriental. Cada uma d'estas duas séries de factos, +encontrando-se, de um lado, nos paranoicos, do outro, nos povos +primitivos, exprime uma condição psychica commum»[1]. + + [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, pag. 307. + +Tem a data de 1884 o trabalho eminentemente original que acabamos de +resumir. + +A idéa de uma constituição paranoica, essencialmente degenerativa, +recebe n'elle a consagração pathogenica. A Verrücktheit de Krafft-Ebing +e da sua escóla é ainda um delirio systematisado, cuja primitividade, +estabelecida pela clinica, não encontra uma clara interpretação; a +Paranoia de Tanzi e Riva é pura e simplesmente uma degenerescencia +intellectual, que a doutrina da evolução permitte comprehender. A +Verrücktheit era com os allemães um conceito _medico_; a Paranoia, que +d'elle deriva por natural desdobramento historico, tornou-se com os +italianos, uma doutrina _anthropologica_. + +Mas não se esgotou com a memoria de Tanzi e Riva, a cujas idéas, seja +dito de passagem, deram a sua adhesão Amadei, Tamburini, Morselli e +outros, a fecundidade original da psychiatria italiana n'estes dominios. +Tres annos depois, em 1887, surge o estudo de Tonnini sobre a _Paranoia +secundaria_--um velho thema visto a uma nova luz. De facto, não é a +primitiva concepção de Griesinger que Tonnini reedita: a Paranoia +secundaria do auctor italiano não é Secundäre Verrücktheit do allemão, +uma psychonevrose prefaciando uma demencia, um delirio systematisado +feito dos residuos ideativos da mania e da melancolia; é antes uma fórma +hybrida, participando ao mesmo tempo dos caracteres da psychonevrose e +da degenerescencia. + +Demos, porém, a palavra ao escriptor italiano: «A Paranoia secundaria +diz elle, é uma psychopatia que se affirna por delirio e caracter +paranoico mais ou menos accentuados sobre um fundo de debilidade mental +invasora, como terminação de uma psychonevrose que, desarranjando o +equilibrio de um cerebro já de si invalido, reforça processo +degenerativo, abreviando-lhe a evolução e concentrando n'um mesmo +individuo os caracteres de um série pathologica»[1]. + + [1] Tonnini, _La Paranoia Secundaria_ in _Rivista di Freniatria_, vol. + XIII, pag. 61. + +Como d'esta definição se vê, a Paranoia secundaria implica uma inicial +degenerescencia, uma invalidade mental primitiva, que a psychonevrose; +mania ou melancolia, não faz senão aggravar e tornar manifestas. Sem a +intervenção accidental da psychonevrose, a degenerescencia, menos +avançada que na Paranoia primaria, não se accentuaria n'um delirio +systematisado; dado, porém, o abalo maniaco ou melancolico, pronuncia-se +o estado degenerativo por um complexo symptomatico especial em que ha +concepções delirantes e tendencias para a demencia. + +«Estabelecido, diz Tonnini, que uma psychonevrose por recessivas +evoluções morbidas produz a degenerescencia (Paranoia primaria) n'um ou +mais individuos da especie, póde admittir-se que a Paranoia secundaria +representa n'um só individuo o que faz a psychonevrose na especie. A +Paranoia secundaria seria o resultado tardio (Paranoia tardia) de uma +disposição precedente, apressado por uma doença mental qualquer, as mais +das vezes de base affectiva. Segundo este conceito, a Paranoia +secundaria não seria, como se pretende, uma psychonevrose que, +caminhando para a demencia, deixa observar systematisadas as idéas +falsas da mania ou da melancolia cessantes; ao contrario, a Paranoia +secundaria offereceria um terreno degenerativo, naturalmente ligeiro em +si mesmo, não chegado ainda ao de dar por maturidade propria o producto +da Paranoia genuina; sobre este terreno, em si mesmo degenerado, a +apparição de uma psychonevrose traria um profundo desequilibrio a um +espirito já invalido, occasionando a manifestação de um processo com +apparencias degenerativas, que por si só talvez se não accentuasse. +Aconteceria, n'uma palavra, como nas fórmas de Paranoia illustradas por +Leidesdorf, que se originam em graves doenças da infancia, em +traumatismos, etc., e nas quaes, todavia, é necessario admittir uma +predisposição, porque, na grande maioria dos casos, nem os traumatismos, +nem as doenças infantis ou outras determinam ulteriormente a apparição +da Paranoia. Por maioria de razão, uma doença mental como a mania ou a +melancolia poderá determinar o apparecimento de uma doença affim, +baixando os poderes de critica, introduzindo o elemento allucinatorio e +guiando á demencia, que terá sempre o caracter paranoico. O exhaurimento +cerebral psychonevrotico (demencia) n'um terreno mais ou menos +degenerado produz o fructo hybrido da Paranoia secundaria, que não é a +verdadeira demencia, mas tem alguma coisa da demencia e da Paranoia»[1]. + + [1] Tonnini, _Loc. cit._, pag. 60. + +Tal é a doutrina da Paranoia secundaria, segundo Tonnini,--profundamente +diversa, repetimol-o, da theorisação de Griesinger. + +Vejamos agora como o alienista italiano documenta a sua tão original +concepção. + +Fazendo da Paranoia secundaria uma fórma hybrida, Tonnini procura +demonstrar que ella não é uma psychonevrose genuina e que não é tambem +uma degenerescencia pura e simples, mas participa dos caracteres de uma +e de outra. + +Que não é uma psychonevrose genuina, demonstram-no segundo o escriptor +italiano, tres ordens de razões: a primeira, não faltar nunca ao delirio +o ar extranho da Paranoia e os neologismos, que são seus habituaes +companheiros; a segunda, ser ás vezes o delirio muito menos a +continuação do que se gerou durante a mania ou a melancolia precedentes, +do que um delirio novo procedente de disposições paranoicas, como se vê +n'um caso, que o auctor publica, de delirio exaltado succedendo á +melancolia; terceira, emfim, a impossibilidade muhas vezes constatada de +fazer-se um diagnostico differencial entre a Paranoia secundaria e a +Paranoia primaria, a não ser pela consulta dos anamnesticos. + +Que a Paranoia secundaria não é uma degenerescencia pura e simples, +resulta das seguintes considerações: a primeira é a presença do elemento +affectivo, de expansão ou depressão, que falta na Paranoia primaria, +evidentemente degenerativa; a segunda é a marcha e terminação, que são +diversas das observadas na Paranoia primaria; a terceira, emfim, +refere-se á hereditariedade que é sempre menos pesada na Paranoia +secundaria que na primaria. + +Â conclusão geral do trabalho de Tonnini é esta: «Não sendo uma +psychonevrose genuina, nem uma pura degenerescencia, a Paranoia +secundaria compendia e resume n'um mesmo individuo os elementos d'estes +dois processos, Constitue um traço de união entre elles e demonstra que +os estados morbidos, como todos os factos naturaes, se não sujeitam a +uma rígida classificação, mas teem entre si relações variaveis, que +podem verificar-se associadas n'um mesmo typo pathologico»[1]. + + [1] Tonnini, _Loc. cit._, pag. 67. + + * * * * * + +Poderiamos, sem grave inconveniente, suspender n'este ponto a parte +historica do nosso estudo, por isso que só a França, a Allemanha e a +Italia teem no assumpto que nos occupa litteraturas psychiatricas +originaes; completal-a-hemos, todavia, por uma ligeira noticia dos +trabalhos inglezes, norte-americanos e russos. + +A psychiatria ingleza, orientada n'um sentido eminentemente analytico e, +sobretudo, caracterisada pela investigação minuciosa dos symptomas e das +causas, tem-se conservado quasi sempre alheia aos problemas de +pathogenia que tão apaixonadamente sollicitam os paizes continentaes. + +A noção de _monomania_, com a significação que lhe davam Esquirol e os +seus discipulos, foi propagada na Inglaterra por Prichard, que a definia +nos seguintes termos: «A monomania ou loucura parcial é caracterisada +por uma illusão particular ou erronea convicção do intendimento, +determinando uma aberração do juizo; o monomaniaco é incapaz de pensar +correctamente sobre objectos relacionados com a sua illusão especial, +embora sobre outros assumptos não manifeste apreciaveis desordens do +espirito»[1]. + + [1] Prichard, _Treatise on Insanity_, 1833. + +Mercê dos escriptos classicos de Hack Tuke e Bucknill, o termo +_monomania_, começou em 1858 a ser substituido pela expressão +_delusional insanity_, hoje correntemente empregada para indicar os +delirios systematisados. Mas a designação nova não implica uma +pathogenia definida, porque o termo _delusion_ significa apenas +_concepção falsa_ ou _idéa delirante_, sem referencia a origem. Segundo +Tuke e Bucknill, a _delusional insanity_ poderia ser secundaria, como +algum tempo pretendeu Griesinger. É o que manifestamente exprimem estas +palavras: «A concepção falsa (_delusion_) é muitas vezes o ultimo +symptoma na morbida successão dos phenomenos mentaes; ella póde ser, com +effeito, o reflexo de uma emoção, e, embora estrictamente signifique +desordem intellectual, póde ser o resultado e o mero symptoma de uma +desordem de sentimentos. Na verdade, a loucura affectiva (_emocional +insanity_) não raro termina por uma perturbação conceptual (_delusional +disorder_)»[1]. Explanando esta passagem, que tem a data de 1879, os +auctores apresentam como exemplos de _delusional insanity_ casos que +poderiam entrar no grupo germanico da Paranoia secundaria. + + [1] H. Tuke and Bucknill, _A Manual of Psychological medicine_, 4.º ed., + pag. 204. + +Sob o ponto de vista pathogenico, Maudsley conservou-se fiel á tradicção +dos seus predecessores inglezes, como o demonstram estas palavras da +_Pathologia do Espirito_: «Comquanto a monomania intellectual succeda +muitas vezes á mania aguda, nem sempre isto acontece; por vezes este +desarranjo do espirito desenvolve-se primitivamente e de um modo +progressivo, como exaggero de um defeito fundamental do caracter»[2]. + + [2] Maudsley, _Pathologie de l'Ésprit_, trad. fr., pag. 441 (1883). + +O que em Maudsley se encontra de verdadeiramente notavel com relação ao +assumpto que aqui versamos, é a descripção que elle faz, sob o nome de +_nevrose vesanica_, da Paranoia sem delirio de Tanzi e Riva. Os +portadores d'esta nevrose ou _temperamento louco_, de origem sempre +hereditaria, são seres _originaes_ e _excentricos_, de um grande +_egoismo_, de uma excessiva _vaidade_, seres _desequilibrados_, que, +não delirando, constituem, todavia, alguma coisa de extranho no meio +social a que se não subordinam, antes constantemente chocam. + +Em Clouston, cujas interessantes _Lições_ remontam a 1883 e tiveram nova +edição em 1887, a _delusional insanity_ apparece como synonimo de +_monomania_ ou _monopsychose_. Buscando as origens da doença, Clouston +encontra-lhe quatro: a predisposição individual, a mania aguda, as +intoxicações e traumatismos, e, por ultimo, as sensações falsas. Como se +vê, a _delusional insanity_ é tanto um delirio systematisado primitivo +como secundario, tanto essencial, como apenas symptomatico. + +O que em Clouston merece attenção é a sua maneira de definir a +_delusion_ ou conceito delirante á maneira dos italianos, isto é, +fazendo intervir o criterio evolutivo. «A educação, a idade, a classe e +mesmo a raça, até um certo ponto, determinam se uma crença errada é ou +não um conceito delirante»[1]. Assim, a noção morbida, a idéa +pathologicamente falsa (_insane delusion_) deve definir-se «uma crença +n'aquillo que seria inacreditavel para gente da mesma classe, educação e +raça da pessoa que a expressa»[2]. + + [1] Clouston, _Clinical lectures on mental diseases_, 2º ed., pag. 243. + + [2] Clouston, _Obr. cit._, pag. 244. + +Na America do Norte, Spitzka[3], servindo-se do termo _monomania_, expõe +em 1883 a doutrina da Paranoia, tal como a comprehendem alguns +alienistas allemães, assignalando-lhe uma origem primitiva e fazendo-a +assentar sobre um fundo de fraqueza mental. Na classificação dos +delirios, que divide em expansivos e depressivos, reconhece as +variedades descriptas por Krafft-Ebing, excepto a processo-maniaca. + + [3] Spitzka, _A Manual of Insanity_, 1883. + +No mesmo anno, Hammond[4] occupa-se dos delirios systematisados, sem, +todavia, se pronunciar sobre a sua pathogenia. + + [4] Hammond, _A Treatise on Insanity_, 1883. + +Não conhecemos, senão por ligeiras noticias de Tanzi e de Séglas, a +litteratura russa da Paranoia. A julgar por essas noticias, não é ella +nem mais abundante, nem mais original que a ingleza e a norte-americana. + +Parece que os mais importantes trabalhos são os de Rosenbach, em 1884, e +de Greidenberg, em 1885. + +O primeiro d'estes auctores sustenta, como a maioria dos allemães, a +génese expontanea dos delirios paranoicos, que teem por base a +debilidade mental. As illusões e allucinações seriam secundarias e não +primitivas na evolução d'estes delirios. As idéas de grandeza não +derivariam, por um processo logico, das idéas de perseguição, mas seriam +contemporaneas destas; de resto, o exaggero da personalidade, que as +idéas ambiciosas põem em relevo, está já indicado nas idéas de +perseguição. + +O segundo dos auctores citados reconhece uma Paranoia allucinatoria +aguda, em que distingue duas variedades: uma hereditaria, e outra +adquirida, asthenica. Esta seria a mais frequente, e terminar-se-hia +quer pela cura, quer pela demencia, quer por um certo grau de +enfraquecimento cerebral. + + + + +SEGUNDA PARTE + + +EXAME CRITICO DO CONCEITO DE PARANOIA + +METHODO A SEGUIR + +Dados resultantes do estudo historico dos delirios systematisados--Exame +critico dos conceitos clinicos de Delirio Chronico e de Verrücktheit +aguda e secundaria--Determinação final do conceito anthropologico de +Paranoia. + + +Todo o extenso caminho ascensional até agora andado nos apparece, da +altura attingida, como uma linha de ideação que, partindo do exame dos +delirios systematisados, se dirige para o conhecimento da constituição +intellectual dos delirantes. + +Nas phases iniciaes da sciencia e quando ainda um exclusivo criterio +symptomatico a orienta, é cada delirio uma doença--que se chama +melancolia, monomania intellectual, lypemania, delirio de perseguições +ou megalomania, segundo as modalidades clinicas de _fixidez_, de +_extensão_, de _contheudo_ ou de _marcha_ das idéas delirantes. Mais +tarde, a preponderancia do criterio etiologico, imposto á psychiatria +pelo genio incomparavel de Morel, modifica e alarga a visão do assumpto, +fazendo pensar no terreno especial de que as concepções falsas emergem; +não ha então tantas doenças distinctas quantos os delirios, mas, formada +pela convergencia da noção symptomatica de delirio e do conceito causal +de predisposição, uma só doença de variaveis aspectos clinicos, +successivamente denominada loucura hypocondriaca, delirio chronico, +loucura parcial, delusional insanity e Verrücktheit. Emfim, a tentativa +de explicar pela doutrina geral da evolução psychica a natureza da +predisposição delirante origina o conceito de Paranoia como expressão de +um desvio regressivo, de uma constituição atavica da intelligencia. + +Analyse, synthese e interpretação pathogenica--taes foram, pois, na +marcha historica do assumpto que nos occupa, as _étapes_ seguidas pelo +espirito scientifico. + +Mas esta linha evolutiva, que abstractamente nos apparece rectilinea, +foi na realidade irregular e ondulante. Conhecidos, á maneira de dois +pontos, o primeiro e o ultimo termo das séries de doutrinas, traçamos +entre elles a mais curta distancia, como se a filiação das idéas se +houvesse dado n'um mesmo cerebro; na verdade, porém, as theorias +nasceram, como vimos, em litteraturas diversas, independentes por vezes +e accusando cada qual o genio particular e as tendencias especiaes da +respectiva nacionalidade. Assim, por exemplo, quando ainda o pratico +espirito francez se occupava em fazer pelas pennas de Lasègue e de +Foville a minuciosa descripção clinica dos delirios systematisados de +perseguição e de grandezas, já o cerebro allemão, que os tinha +entrevisto, prematuramente lhes assignalava pela voz de Griesinger urna +hypothetica pathogenia. Por outro lado, dentro do mesmo pais, potentes +organisações intellectuaes quebraram por bruscos saltos de genio o +parallelismo entre as evoluções logica e chronologica das idéas, +misturando assim n'um dado momento, como vimos succeder em França com +Morel, o espirito de analyse e a tendencia synthetisadora. Emfim, o +inevitavel desejo de explicar, coevo da humanidade, indisciplinada e +temerariamente semeou de fragmentarias notas pathogenicas o proprio +periodo analytico do nosso thema, como se viu em Lasègue e em Foville, +tentando filiar n'uma autoobservação consciente as idéas delirantes. + +É, pois, por um artificio do espirito que figuramos como perfeitamente +definidas e succedendo-se rectilineamente as phases evolutivas da +questão que nos occupa. Mas esse mesmo artificio, aliás necessario e +legitimo, está indicando que a historia, não sendo aqui, como as +sciencias exactas, uma simples exposição chronologica dos erros e +illusões que precedem a conquista definitiva da verdade, mas uma +complicada e suggestiva revista de opiniões, carece de ser completada +pela critica. Já no que apenas parece uma núa e secca exhibição de +doutrinas, o espirito critico intervem, procurando no labyrintho de +contradictorias affirmações a filiação das idéas; é preciso, comtudo, +que elle se affirme ainda mais larga e mais activamente, julgando as +theorias e os pontos de vista individuaes ou de escóla em face dos +factos clinicos e dos principios de psychologia normal e pathologica. + +Eis o que explica a necessidade d'esta segunda parte do nosso trabalho. + +Acceitando nos seus traços fundamentaes a doutrina anthropologica da +Paranoia--inevitavel corollario da theoria geral da evolução +psychica--tentaremos demonstrar, aqui, que ella explica todos os factos +e synthetisa todas as verdades incompletas das doutrinas que a +precederam; n'este sentido reforçaremos e ampliaremos com novos dados e +novos pontos de vista a argumentação dos psychiatras italianos. + +Antes, porém, uma tarefa se nos impõe: a de examinar as questões do +Delirio Chronico e das variedades aguda e secundaria da Verrücktheit, +sobre as quaes são ainda hoje em França e na Allemanha tão vivos e +accesos os debates como antes dos trabalhos italianos que, uma vez +comprehendidos, deveriam tel-os, a meu vêr, definitivamente encerrado. + + + +I--O DELIRIO CHRONICO + +A etiologia; a marcha; o prognostico--Confronto com os delirios +polymorphos--A passagem do periodo persecutorio ao ambicioso não e +vulgar; a passagem á demencia é excepcional--O delirante chronico é um +degenerado; importante observação pessoal--A prognose dos delirios +polymorphos é muitas vezes a do Delirio Chronico--Dois conceitos de +Delirio Chronico no espirito de Magnan; génese do segundo. + + +O delirio chronico de evolução systematica, tal como nas paginas, +anteriores o descrevemos, não é no espirito de Magnan uma formula +eschematica ou uma abstracta construcção destinada a fazer comprehender +um certo grupo de factos, mas uma doutrina concreta que a observação não +faria senão confirmar. + +Recordemos que duas circumstancias--uma d'ordem etiologica, outra de +natureza symptomatico-evolutiva, caracterisam a psychose: a primeira +consiste em que ella ataca na idade média da vida individuos até então +perfeitamente normaes, embora predispostos; a segunda, era que ella +segue na sua marcha quatro periodos distinctos, succedendo-se n'uma +ordem invariavel--o de incubação, o de perseguições, o megalomano e o +demencial. + +Pelo que respeita á primeira d'estas caracteristicas, diz Magnan: «O +delirio chronico fere em geral na idade adulta individuos sãos de +espirito, não tendo até então apresentado nenhuma perturbação +intellectual, moral ou affectiva. Insisto sobre este facto que tem sua +importancia, por isso que por esta particularidade os delirantes +chronicos se separam immediatamente dos hereditarios degenerados, que +desde a infancia apresentam perturbações que os fazem reconhecer»[1]. Em +relação á marcha dos symptomas não é menos explicito o medico de +Sant'Anna: «Estes periodos (incubação, delirio de perseguições, +megalomania e demencia) succedem-se, diz elle, irrevogavelmente do mesmo +modo, de sorte que póde excluir-se do delirio chronico todo o doente que +_d'emblèe_ se torna perseguido ou megalomano, ou que, primeiro +ambicioso, vem a ser depois perseguido»[2]. + + [1] Magnan, _Obr. cit._, pag. 236. + + [2] Magnan, _Obr. cit._, pag. 237. + +Os delirios systematisados que pela etiologia ou pela marcha se desviam +dos severos moldes traçados, ou são meros symptomas de uma affecção +mental definida ou, se essenciaes, traduzem e denunciam a +degenerescencia psychica, merecendo n'este ultimo caso os nomes de +_polymorphos_ ou _multiplos_, em attenção ao seu contheudo, de _delirios +d'emblèe_, em vista da sua brusca apparição, ou ainda de _delirios +degenerativos_, olhando á etiologia. Derivada d'estas, mas de uma alta +importancia pratica, existe ainda, segundo Magnan, uma nova +caracteristica differencial entre os delirios polymorphos e o Delirio +Chronico: emquanto este é absolutamente incuravel, comportariam +aquelles, na maioria dos casos, um prognostico discretamente favoravel, +pois que, expressões de um desequilibrio mental, podem desapparecer, +embora possam tambem recidivar. + +Estamos, como se vê, em face de uma doutrina clara, precisa, de +contornos bem definidos e de uma estructura mathematicamente regular. +Isto nos facilita a critica. + +É indiscutivel a existencia de doentes que, durante algum tempo +inquietos, preoccupados e irritaveis, cahem a seguir no delirio de +perseguições, de que passam, decorridos annos, para o de grandezas, +acabando pela demencia. Até ao segundo d'estes quatro periodos da +evolução morbida, não differem taes doentes dos perseguidos de Lasègue e +de J. Falret, que tambem passam, antes de constituido e systematisado o +delirio, por uma phase preparatoria de concentração e de inquietude +mental; o que os separa d'estes é a ulterior passagem ao delirio +ambicioso, já observada por Foville, e, por fim, á demencia. Ora, se +esta passagem é, como pretende Magnan, fatal e necessaria, só o Delirio +Chronico é nosographicamente legitimo: se, ao contrario, ella é fortuita +e precaria, a legitimidade nosographica pertence ao Delirio de +perseguições. + +O que diz a observação clinica? Vamos vêr que o seu depoimento está +longe de ser favoravel a Magnan. + +Pelo que respeita á passagem do delirio de perseguições ao de grandezas, +affirmou J. Falret que ella não só hão é constante, mas está longe de +ser vulgar, pois apenas se realisa n'um terço dos casos; pelo seu lado, +Krafft-Ebing assegura tambem que uma tal transição se observa sómente +n'um terço dos casos de Verrücktheit, isto é, do conjuncto dos delirios +systematisados de evolução chronica; e Christian pretende mesmo que +nunca attingem a megalomania os perseguidos cujo delirio se alimenta +exclusivamente de perturbações da sensibilidade genital. A longa +experiencia d'estes alienistas garante a realidade das suas affirmações; +de resto, são conhecidos em todos os velhos manicomios alguns casos de +delirio de perseguição durando vinte, trinta e mais annos e terminando +pela morte do doente, sem que em tão largo periodo tenham surgido idéas +ambiciosas. + +Mas, se nos perseguidos a passagem ao delirio de grandezas está longe de +ser constante, nos perseguidos-megalomanos a queda na demencia é um +facto excepcional. Feriu, com effeito, em todos os tempos a attenção dos +alienistas francezes a extrema resistencia dos delirantes systematicos á +dissolução mental que é o termo vulgar das outras vesanias; e os +observadores allemães e italianos consideram mesmo tão caracteristico +este facto do não abaixamento de nivel intellectual na Verrücktheit e na +Paranoia que, como vimos, o fazem intervir na propria definição da +psychose. Por nossa parte, alguns casos conhecemos de paranoicos, +perseguidos e perseguidos-megalomanos, tendo mais de vinte annos de +delirio e mais de cincoenta de idade, em que nenhuma decadencia mental +se observa. Um d'esses casos é um official reformado do exercito que +conhecemos em delirio ha, pelo menos, vinte e dois annos, e que ha +quatorze se encontra no manicomio do Conde de Ferreira; são tão +inexcediveis as subtilezas da sua dialectica quanto cheias de finura e +de ironia as suas criticas sobre os acontecimentos politicos, que elle +segue e interpreta sob um criterio de perseguido-ambicioso. Muitos annos +de delirio systematisado são impotentes, no dizer de grande numero de +observadores, para provocar a demencia; e, se esta excepcionalmente +apparece, é antes aos progressos da idade ou a uma psychonevrose +intercorrente que deve attribuir-se. + +Resumindo: não é fatal, nem mesmo vulgar a passagem ao delirio ambicioso +nos perseguidos que, aliás, incubaram o seu delirio; é excepcional a +terminação pela demencia, quer dos perseguidos, quer dos megalomanos, +quer, emfim, dos systematisados que passaram n'uma longa evolução +vesanica pelas successivas phases persecutoria e ambiciosa. + +O perseguido-megalomano-demente é, pois, menos commum que o perseguido, +tal como vem sendo descripto desde Lasègue e J. Falret; pelo que, fazer +do Delirio Chronico um typo destinado a conter o Delirio de perseguição, +seria inverter abusivamente as noções recebidas em nosologia, tornando +_especie_ o que é apenas _variedade_. + +Examinada a questão do lado da marcha dos symptomas, encaremol-a do +ponto de vista da etiologia. + +Como foi dito, o delirante chronico não é, no dizer de Magnan, um +degenerado: póde ser um predisposto, mas não é um candidato á loucura; +póde ter antecedentes hereditarios, pois que a hereditariedade radia +sobre todas as doenças mentaes, mas não apresenta até á invasão do +delirio o desequilibrio caracteristico dos degenerados. O delirio +d'estes é sempre polymorpho, _d'emblèe_, frouxamente systematisado, não +tendo a longa duração do delirio chronico, nem o seu córte regular em +periodos de irrevogavel successão. + +Esta maneira de vêr, em radical opposição com as affirmações dos +psychiatras allemães e italianos sobre a Verrücktheit e a Paranoia (em +que o delirio chronico de Magnan, como todos os delirios systematisados, +se acha contido) merece ser examinada. + +É evidente que uma critica profunda d'este novo aspecto da questão só +póde fazer-se discutindo a noção da degenerescencia, que não é identica +para todos os psychiatras, que não tem o mesmo alcance em todos os +livros e que representa para o medico de Sant'Anna um grupo de factos +muito diverso do que representa para Krafft-Ebing ou para Tanzi e Riva, +por exemplo. Ulteriormente examinaremos este assumpto. Notemos, porém, +desde já que J. Séglas combateu vivamente, em nome da observação +clinica, a etiologia de Magnan, referindo casos de Delirio Chronico em +doentes portadores de estygmas physicos da degenerescencia; que Legrain, +discipulo de Magnan, admitte a possibilidade da evolução caracteristica +do delirio chronico nos degenerados hereditarios; que Respaut, outro +discipulo de Magnan, descreve um caso de delirio chronico n'um +epileptico impulsivo; que Dericq considera aptos a realisarem o delirio +chronico os proprios fracos de espirito (_degenerados inferiores_, na +technologia da escóla de Sant'Anna); emfim, que Marandon de Montyel, +acceitando a doutrina de Magnan emquanto á evolução do Delirio Chronico, +se afasta resolutamente do mestre emquanto á etiologia, affirmando que +grande numero de delirantes chronicos se fazem notar desde a infancia ou +desde a juventude por anomalias de caracter, que Magnan reputa indicios +seguros da degenerescencia e que não desdizem da pesada herança que +muitas vezes incide sobre estes doentes. + +Por nossa parte, cremos dever apontar um caso clinico de observação +pessoal que póde juntar-se aos de Séglas. + +Trata-se de um antigo empregado commercial, celibatario, tendo +actualmente 45 annos de idade, e a quem já em outra publicação nos +referimos. O periodo de incubação delirante, a que accidentalmeme +assistimos, mercê das relações que então mantinhamos com um irmão, +remonta a 1878; no anno immediato o delirio de perseguições achava-se +installado, fazendo-se acompanhar de allucinações auditivas e provocando +da parte do doente reacções violentas: chamavam-lhe, na rua e nos cafés, +_pederasta, onanista, devasso_, ao que elle respondia aggredindo os +suppostos insultadores. Refugiando-se successivamente em casas de +amigos, em pequenos hoteis e em hospitaes particulares, o doente veiu, +por fim, a dar entrada no manicomio do Conde de Ferreira, em abril de +1883, apresentando então, de mistura com o delirio de perseguições, +idéas ambiciosas que apenas exhibia em cartas e só um anno depois +começou a exteriorisar oralmente: tinha descoberto um novo systema do +mundo, pretendia reformar toda a sciencia astronomica e todo o systema +social; as perseguições soffridas e a sequestração, _o mais infame de +todos os crimes até hoje praticados_, vinham-lhe do Papa, que assim +defendia os dogmas christãos, e do Rei, que defendia a ordem social +existente. Lentamente, as idéas ambiciosas foram dominando o delirio de +perseguições, que hoje se alimenta exclusivamente no prolongamento da +sequestração; livre, este doente seria o typo perfeito do megalomano. + +Eis aqui um caso a que nada parece faltar do que Magnan exige para o +diagnostico do Delirio Chronico: iniciada aos 30 annos n'um individuo +apparentemente são, que era um bom guarda-livros, que sustentava a mãe, +que mantinha regulares relações sociaes, que se governava +financeiramente bem, a psychose atravessou, na successão assignalada por +Magnan, os periodos de incubação, de perseguições e de megalomania, sem +a presença episodica de idéas hypocondriacas, eroticas ou outras que +podessem fazer pensar n'um delirio polymorpho. Pois bem; este doente é +um degenerado incontestavel, ainda para os que acceitam a mais estreita +noção da degenerescencia. A hereditariedade é n'elle convergente e das +mais pesadas: o _pae_, prematuramente morto, foi um louco moral; a +_mãe_, de uma fealdade pathologica, morreu em estado de demencia senil +aos 70 annos; um _tio materno_ é disforme; um outro _tio_ materno, mal +dotado de sentimentos de probidade, passa por ter feito uma fallencia +fraudulenta; um _irmão_, prematuramente morto de tuberculose, foi um +louco moral, dipsomano, bulimico e de uma vaidade exaggerada; emfim, uma +_irmã_, louca moral e impulsiva, prostituiu-se. Na historia pregressa do +nosso doente figura uma febre typhoide grave na puberdade. +Apparentemente ponderado, elle foi sempre, no dizer dos seus intimos, de +uma susceptibilidade excessiva, de um grande orgulho; entregava-se a +leituras para que não tinha preparação e evitava o commercio das +mulheres. Como estygmas physicos, apresenta o nosso doente _hypospadias_ +e uma notavel _asymetria facial_. + +Este caso, que em nossa propria experiencia é o mais nitido, senão é +mesmo o unico de um delirio paranoico offerecendo a evolução precisa e +irrevogavel da entidade de Magnan, longe de confirmar as idéas d'este +psychiatra em materia de pathogenia, infirma-as eloquentemente. + +Encaremos agora a duração e prognose comparadas do Delirio Chronico e +dos delirios polymorphos. + +Como foi dito, na doutrina de Magnan a demencia faz parte do Delirio +Chronico a titulo de phase terminal da sua evolução; é dizer que a +psychose se installa definitivamente e o seu prognostico é sempre +infausto. Ao contrario, os delirios polymorphos teriam por habituaes +sahidas a _cura_ e, menos vezes, a _demencia precoce_, seriam de uma +duração limitada e comportariam, portanto, um prognostico discretamente +benigno. Será isto absolutamente exacto? Responde negativamente a +clinica. De facto, se muitas vezes se obtem a cura dos delirios +multiformes e se, algumas outras, uma demencia vem precocemente fechar a +sua evolução, não é menos verdade que ha, ao lado dos que assim +terminam, um formidavel numero de casos de uma duração perpetua, +tendendo, se tendem, para a demencia tão lentamente como o Delirio +Chronico. Os proprios discipulos de Magnan o reconhecem; e Legrain não +hesita em descrever delirios polymorphos ou degenerativos _de marcha +essencialmente chronica_. É, de resto, o que a experiencia nos ensina: +ou se fixem n'um pequeno numero de idéas ou percorram toda a gamma dos +conceitos morbidos, ha degenerados que deliram perpetuamente. Como +distinguil-os prognosticamente dos delirantes chronicos? O invariavel e +tranquillisador _ça guérira_ de Magnan e dos seus discipulos em face dos +delirios _d'emblèe_, reserva-nos por vezes decepções crueis; muitos +casos conheço, por minha parte, em que _ça n'a jámais guéri_. De resto, +as pretendidas curas dos delirios systematisados não são, as mais das +vezes, senão apparentes, quer porque o doente esconde as suas concepções +para obter a liberdade, o que não é excessivamente raro nos manicomios, +quer porque, desapparecendo realmente as idéas morbidas, subsiste a +disposição a creal-as de novo, isto é, subsiste a mentalidade +paranoica--a verdadeira doença, no fundo. + +Que Magnan tenha podido descriminar nos delirios systematisados +evoluções diversas e justificativas de sub-grupos clinicos do que em +França se chama a Loucura Parcial e na Allemanha a Verrücktheit, é +perfeitamente incontestavel; que elle tenha proseguido com rara +sagacidade analytica estudos anteriores sobre a successão dos delirios +n'um mesmo alienado, é tambem indiscutivel; mas que o Delirio Chronico, +tal como nos ultimos annos o descreve, seja uma especie morbida e um +grupo nosologico bastantemente differenciado--pela evolução, pela +pathogenia e pelo prognostico--dos delirios systematicos dos +degenerados, eis o que não póde acceitar-se. + +Fechariamos aqui a nossa analyse da pretendida psychose de Magnan, se +não crêssemos dever insistir n'um ponto, só ao de leve tocado na parte +historica d'esta monographia: que anteriormente á concepção actual do +Delirio Chronico existiu no espirito de Magnan uma outra, a exposta por +Gérente, mais conforme com a realidade clinica e mais proxima da +Verrücktheit de Krafft-Ebing. + +É certo que, quando na Sociedade Medico-Psychologica Séglas punha em +evidencia as contradições entre as duas doutrinas, citando trabalhos dos +discipulos de Magnan, este se defendeu declinando a responsabilidade de +taes trabalhos e cathegoricamente affirmando que aos respectivos +auctores concedera sempre a mais inteira independencia. Ora, sem de modo +algum pretendermos que o medico de Sant'Anna imponha os proprios pontos +de vista aos seus discipulos, é licito acreditar que estes os acceitam +e propagam nos seus escriptos. Não é só Gérente que n'uma these de 1883, +escripta no serviço da admissão e feita de casos clinicos ahi colhidos, +expõe, sob a designação de _Delirio Chronico_, uma doutrina que em +pontos capitaes se oppõe á que Magnan apresentou em 1887 á Sociedade +Medico-Psychologica e reeditou em 1893 no seu livro de _Lições +Clinicas_. N'um trabalho publicado em 1884, Boucher procede como +Gérente, chamando aos delirantes chronicos _predispostos mal +equilibrados_, declarando que _toda a etiologia do Delirio Chronico +reside na hereditariedade_, e constatando n'um caso de Delirio Chronico, +diagnosticado pelo proprio mestre, anomalias de caracter degenerativo na +evolução da infancia; e, n'um artigo publicado já em 1889, o meu collega +Magalhães Lemos, que aliás viveu perto de dois annos na intimidade +scientifica de Magnan, descreve como exemplar clinico _frustre_ de +Delirio Chronico um caso que se iniciou por idéas ambiciosas de colorido +erotico. E nenhum dos escriptores que acabamos de citar se declara em +opposição com o mestre, antes crê cada um interpretal-o; nem descobrindo +signaes de degenerescencia nos portadores do Delirio Chronico, nem +achando possivel a inversão evolutiva das phases habituaes d'esta +psychose, pensa qualquer d'elles afastar-se da mais pura orthodoxia +d'escóla. Tendo seguido o ensino de Sant'Anna e conhecendo as idéas de +Magnan, Bajenoff escrevia tambem em 1885 que o Delirio Chronico é o +equivalente da Verrücktheit e da Paranoia. + +A inevitavel conclusão a tirar d'estes factos é que realmente no +espirito de Magnan o conceito de Delirio Chronico se modificou a ponto +de apparecer-nos duplo á distancia de alguns annos. Infelizmente, o +actual não vale o antigo. + +Mas, porque passou Magnan da larga concepção de 1883 para a de hoje, tão +estreita, tão geometrica e tão rígida que os factos se lhe não +acommodam? Tornando a degenerescencia como synonimo de desequilibrio, o +medico de Sant'Anna estabeleceu como dogma fundamental que o degenerado +só póde delirar de um modo conforme a esse desequilibrio: o seu delirio +tem de ser, quanto á génese, improvisado; quanto á marcha, irregular e +descontinuo, ora remittente, ora intermittente; quanto ao contheudo, +caleidoscopico e multiforme; quanto á duração, ephemero ou pelo menos +curto, porque a mesma persistencia seria um equilibrio; emfim, quanto á +associação das idéas, de uma frouxa systematisação, porque esta, quando +completa, representa uma demorada concentração d'espirito, incompativel +com a ideação salturaria do degenerado. Pertencem, pois, á +degenerescencia os delirios _d'emblèe_, os _polymorphos_, os _agudos_ e +_sub-agudos_ e, por fim, os que não revellam senão uma _fraca tendencia +á systematisação_. Os não-degenerados só podem delirar de um modo +diametralmente opposto: o seu delirio tem de ser preparado, incubado; de +marchar por _étapes_ de irrevogavel successão; de durar a vida do +doente; de circumscrever-se a um numero limitado de idéas; de ser, +emfim, contínuo e francamente systematisado. O _Delirio Chronico_ é a +antithese completa e integral do delirio dos degenerados e só n'estas +condições póde subsistir em face da doutrina; o conceito de 1883 +dissociou-se, pois, não em vista dos factos, mas da theoria, passando o +que n'elle havia de eschematico a beneficio do _Delirio Chronico_ +actual, e os casos _frustres,_--a grande, a formidavel massa dos casos +clinicos, ao lote dos delirios dos degenerados. + +Mas, por outro lado, não sendo o desequilibrio mental senão a +consequencia de uma grave tara ancestral ou, como diz Magnan, de uma +_impregnação hereditaria_, o _Delirio Chronico_ só deve realisar-se em +individuos normaes e válidos para que, ainda no ponto de vista da +etiologia, elle realise o typo contrario ao dos delirios degenerativos. +«Delirio chronico e degenerescencia, diz Magnan, oppõem-se totalmente». + +Tal é, a meu vêr, a génese da actual noção de _Delirio Chronico_. +Tentando impôr-se em nome dos factos, como inducção clinica, ella +procede realmente, por via deductiva, de uma doutrina presupposta da +degenerescencia, que está longe, como adiante veremos, de poder +acceitar-se sem restricções. + + + +II--A VERRÜCKTHEIT AGUDA + +Dois grupos de psychoses sob a mesma designação: a confusão mental e os +delirios polymorphos--A Verrücktheit e os delirios incoherentes; critica +das opiniões de Schüle--A Verrücktheit e os delirios systematisados de +marcha aguda; critica das opiniões de Krafft-Ebing--Observação +pessoal--Dissociação dos conceitos de Paranoia e Verrücktheit. + + +Duas ordens de factos, a meu vêr inteiramente distinctos, se encontram +englobados na Verrücktheit aguda: de um lado, delirios systematisados +que sómente pela rapidez da sua marcha, pela curabilidade e, ás vezes, +pelo excessivo predominio de allucinações differem da Verrücktheit +chronica; do outro, delirios incoordenados, asystematicos e +eminentemente sensoriaes que, no dizer mesmo de Mendel, de Schüle e de +Cramer, não se descriminam bem, quer da mania, quer da melancolia +estuporosa. É isto o que resulta da leitura attenta dos auctores que +defendem a Verrücktheit aguda. + +Os primeiros d'estes delirios, não implicando nem uma obnubilação da +consciencia, nem permanentes estados emocionaes de expansão ou +depressão, separam-se nitidamente das psychonevroses; e, se bem que o +predominio do elemento sensorial lhes imprime um caracter caleidoscopico +e uma evolução irregular, é certo que elles manteem sempre aquella +activa coordenação logica das idéas que constitue o _systema delirante_. +Os segundos, pelo contrario, implicando a perda de lucidez e +acompanhando-se de alterações affectivas, impõem-se pela anormal +associação das idéas, que ora se precipitam e dissociam, como na mania, +ora convergem na determinação de estados catatonicos, segundo a +imprevista direcção das allucinações, sempre renovadas. + +Confundir estas duas cathegorias de delirios, sob pretexto de que é +identico o seu contheudo e de que em ambas se realisa uma intervenção +preponderante do elemento allucinatorio, é, ao que penso, cahir n'um +erro grosseiro, porque os invocados elementos de analogia são +infinitamente menos valiosos que os caracteres differenciaes. A +identidade das idéas morbidas não é razão para que confundamos, por +exemplo, os delirios de perseguição da melancolia e da Paranoia ou os +delirios ambiciosos da paralysia geral e da mania; tambem o predominio +de allucinações, ainda quando identicas, como as zoopsicas, não é razão +para que não distingamos, por exemplo, os delirios alcoolico e +hysterico. As idéas delirantes e as allucinações da Verrücktheit são as +de todas as psychoses; fazer, pois, d'esses elementos um criterio +diagnostico e nosographico seria regressar ao cahos de que a pathologia +mental só conseguiu sahir por successivos esforços de analyse. Não são +os symptomas, mas as suas origens pathogenicas, a sua coordenação e a +sua marcha que no actual momento orientam a diagnose psychiatrica. + +Assim, o rigor scientifico exige que estudemos em separado os dois +grupos de delirios, que alguns auctores allemães reunem sob a designação +de Verrücktheit aguda. + +Comecemos pelos delirios systematicos. + +A psychiatria allemã, creando os termos de Verrücktheit e Wahnsinn para +designar os delirios, teve sempre em vista accentuar differenças entre +os que se impõem pela coordenação dos conceitos morbidos e os que se +denunciam por um grau maior ou menor de incoherencia. Decerto, mudou cem +vezes o valor d'estes termos, que teem uma historia tão complicada e tão +longa como a da propria sciencia mental; decerto, a Verrücktheit d'hoje +não é o delirio estereotypado dos cerebros enfraquecidos, descripto por +Griesinger, como o Wahnsinn não é o delirio exaltado e optimista de que +o mesmo auctor traçou um quadro clinico inteiramente analogo ao da +monomania intellectual de Esquirol;--mas sempre, desde Griesinger até +Westphal, os dois termos conservaram, através de todas as vicissitudes, +um vestigio inapagavel dos primitivos significados. A confusão +principiou sómente quando o professor de Vienna, creando a variedade +aguda da Verrücktheit, integrou no quadro d'esta psychose delirios +systematicos e até dissociados em que as allucinações desempenham um +papel dominante. Será licito manter uma tal confusão? + +Já na parte historica d'este _Ensaio_ expozemos em detalhe não só os +argumentos com que os adversarios de Westphal rejeitam da Verrücktheit o +hallucinatorischer Wahnsinn, mas os motivos por que fazem d'este um +grupo das psychonevroses. Não reeditaremos essa vigorosa critica; +examinaremos, porém, os argumentos com que Schüle pretende justificar a +opinião contraria. + +Não contesta este eminente psychiatra que entre os casos typicos ou, +para me servir da sua propria linguagem, entre os casos extremos da +Verrücktheit e do Wahnsinn existam realmente as profundas notas +differenciaes apontadas por Fritsch e Krafft-Ebing, entre outros; +sustenta, porém, que ha casos de transição em que ellas se esbatem, +ficando então a descoberto a fundamental identidade dos dois processos. + +A confissão, por parte de Schüle, de que são justas as differenciações +notadas pelos adversarios da escóla de Vienna entre a Verrücktheit e o +Wahnsinn que n'ella se pretende incorporar a titulo de variedade aguda, +é um facto importante e que deve registar-se, porque essas +differenciações referem-se, como vimos, à coordenação dos symptomas, à +etiologia, à marcha, à pathogenia, n'uma palavra, a quanto serve para +definir uma entidade nosologica. A coordenação symptomatica, porque, +enquanto na Verrücktheit as idéas delirantes formam systema e as +allucinações occupam um logar secundario ou até nullo, no Wahnsinn o +delirio é incoherente e os erros sensoriaes teem o primeiro plano; á +etiologia, porque, emquanto a Verrücktheit se installa sem causa +exterior apparente, o Wahnsinn reconhece como determinantes todas as +causas capazes de provocarem uma asthenia profunda dos centros nervosos; +á marcha, porque, tendo a Verrücktheit uma evolução essencialmente +chronica, o Wahnsinn termina agudamente pela cura, pela demencia ou pela +morte; á pathogenia, porque, emquanto a Verrücktheit se interpreta como +um processo constitucional ou degenerativo, o Wahnsinn é uma doença +accidental ou psychonevrotica. A estes multiplos elementos differenciaes +outros se juntam ainda: ao passo que na Verrücktheit as allucinações, +predominantemente auditivas, são determinadas pelo curso do delirio, +dependendo o erethismo sensorial da absorvente fixidez das idéas, que +provocam a apparição das imagens, no Wahnsinn succede que é o +automatismo dos centros sensoriaes que determina as idéas delirantes, +por esse facto variaveis, movediças, dissociadas; tambem, ao passo que +na Verrücktheit o elemento affectivo não só é secundario, mas tende a +apagar-se com os progressos mesmos da doença, no Wahnsinn, embora +igualmente secundario pela génese, pois é determinado pelo contheudo das +idéas, esse elemento representa um papel importante, mercê das vivas +allucinações emergentes de todos os sentidos. + +Para diminuir o valor d'este quadro de differenciações nosologicas, ao +mesmo tempo numerosas e profundas, argumenta o medico de Bade affirmando +não só que na chronica evolução da Verrücktheit se observam phases +agudas de Wahnsinn, mas que d'este se póde passar áquella, o que, a seu +vêr, demonstra a identidade nosologica dos dois processos morbidos. + +Examinemos o valor d'estes argumentos. + +Quanto ao primeiro, sem de modo algum contestarmos a realidade clinica +dos factos invocados por Schüle, pois mais de uma vez temos observado +episodicos delirios asystematicos no curso da Paranoia, seja-nos +permittido notar, na excellente companhia de Krafft-Ebing, de Fritsch, +de Kraepelin e de Meynert, que esses factos comportam uma interpretação +muito diversa da que lhes dá o celebre medico de Bade. + +Qualquer que seja a physionomia que apresentem, depressiva, expansiva ou +mixta, esses delirios asystematicos podem conceber-se como não fazendo +parte integrante da evolução da Verrücktheit, mas coexistindo com ella a +titulo de complicações ou de intercorrencias psychonevroticas, tendo uma +etiologia e uma marcha autonomas. Porque não? «Nenhuma razão há, dizem +Tanzi e Riva, para crêr que o cerebro de um paranoico possa oppôr ás +causas das doenças intercorrentes uma immunidade de que muitas vezes o +individuo normal é incapaz, antes tudo conspira para nos fazer admittir +que elle apresenta a essas causas uma resistencia menor»[1]. Assim +pensamos tambem, recordando os casos de observação pessoal. + + [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, vol. XII, pag. 417. + +Um d'estes, notavel entre todos, é o de um paranoico-originario, que já +aos 17 annos se cria victima de tentativas de envenenamento e em quem +sempre uma exaggerada autophilia se notou. Mas, nem as idéas de +perseguição, nem a hyperbolica opinião dos seus meritos lhe embargaram o +passo no curso de direito, que concluiu. Ridiculo e profundamente +desequilibrado, de grande memoria e de pequena reflexão, desconfiado, +phantasista e discursador, foi fazendo o seu caminho até delegado de +procurador regio na India Portuguesa. Ahi, excessos de toda a ordem, +juntos a uma febre biliosa, aggravaram-lhe o mal; regressando, muito +fraco, á metropole, systematisava o seu delirio até ao ponto de viver só +e de passar habitualmente a ovos e a agua, que elle proprio ia colher de +noite ás fontes. Um dia, tendo chamado a casa um operario para lhe +encadernar uns livros, foi por este traiçoeiramente aggredido, recebendo +na cabeça um extenso e profundo traumatismo. A partir d'esse dia, +allucinações auditivas, que até então parecia não terem existido, +irromperam com extranha violencia; ao mesmo tempo apossou-se do doente +um sentimento intenso de terror e de anciedade que o levou, poucos dias +depois do traumatismo, a projectar-se de uma janella abaixo, fazendo uma +luxação. Simultaneamente, illusões visuaes, confusão constante de +pessoas, rejeição de alimentos e absoluta insomnia. Trazido ao hospital, +persistiu algum tempo n'esta situação; rapidamente, porém, idéas de +grandeza, se juntaram. O encadernador, tentando matal-o, foi apenas um +instrumento de quem, por inveja do seu alto genio incomparavel, buscava +desfazer-se d'elle. Tornou-se aggressivo então, fabricando uma nova +religião, crendo-se superior a Christo, e começou a manifestar idéas +eroticas e allucunações visuaes: masturbava-se, dizia obscenidades, +proclamava as excellencias da pederastia, dos amores lesbicos, e via +mulheres núas em attitudes lascivas. Mas, subitamente, derivou a idéas +hypocondriacas e d'estas a um delirio de humildade, rojando-se no chão, +beijando os pés dos companheiros, chorando, pedindo perdão a todos, +rejeitando os alimentos n'um intuito de penitencia. Pouco a pouco +resvallou no mutismo, a physionomia tornou-se-lhe parada, inexpressiva, +contrahiu habitos immundos, apresentou, n'uma palavra, o quadro da +demencia com accentuada desnutrição. Por mezes persistiu n'este estado, +indifferente a sollicitações naturaes, deitado sobre bancos ou no chão +da enfermaria, movendo-se como um automato, não respondendo a ninguem. +Julguei-o então perdido e cheguei a consignar com segurança esta +impressão clinica. Mas um dia, abruptamente, o doente dirige-se a mim, +cumprimenta-me polidamente e diz-me que se sente, emfim, restabelecido, +que deseja sahir, que quer escrever uma carta a um irmão para que venha +buscado. Do pseudo-demente nada restava; a datar d'esse dia ficou o +primitivo delirante, o perseguido-ambicioso quasi sem allucinações, que +podia viver fóra do hospital e que eu, com effeito, deixei sahir algum +tempo depois. Isto passou-se em 1884; de então até hoje fez o doente +duas novas entradas no hospital, reproduzindo quasi sem variantes o +quadro que vimos de esboçar. Conta-me um irmão que o aggravamento da +doença se manifesta sempre por uma subita explosão de allucinações, +succedendo a excessos venereos e alcoolicos. + +Como interpretar este caso? É evidente que os defensores da Verrücktheit +aguda veriam n'elle um excellente exemplar d'esta fórma clinica; os que +a combatem, porém, pensariam no hallucinatorischer Wahnsinn de +Krafft-Ebing, na Amencia de Meynert, na Verwirrtheit de Fritsch, no +Asteniche Delirium de Mayser, na confusão mental, emfim. + +Os primeiros invocariam, com Werner, o caracter egocentrico das +concepções delirantes do nosso paranoico; os segundos poriam em +evidencia o contraste entre um delirio de humildade e os delirios de +perseguições e de grandezas, notariam a phase de estupidez ou demencia +aguda que não pertence ao quadro da Verrücktheit, fariam valer o estado +de anciedade, salientariam o phenomeno somatico da desnutrição, +appellariam, emfim, para a etiologia asthenica do caso. + +Ora, emquanto no quadro clinico descripto tudo se reduz a uma acuidade +maior dos delirios persecutorio e ambicioso, que a insistencia das +allucinações explica de sobra, não seria difficil acceitar o diagnostico +de Verrücktheit, pois que nem a systematisação dos conceitos se perdeu, +nem o seu caracter egocentrico e autophilico deixou de fazer-se notar; e +a mesma anciedade poderia acceitar-se como secundario symptoma de +reacção em face dos erros sensoriaes. + +Mas é já muito difficil explicar n'esta ordem de idéas a phase de +espirito que conduz o nosso doente a rojar-se no chão, a abater-se +diante dos companheiros, a recusar os alimentos para se penitenciar e a +pedir perdão de imaginarias culpas. Por outro lado, pensando na +etiologia d'este caso, em que concorrem formidaveis elementos de +esgotamento e de asthenia, é mais facil explicar por ella do que pela +acuidade do delirio a demencia funccional que por mezes observei. +Segundo a minha pratica pessoal, o onanismo abusivo seria frequentemente +o responsavel de subitas invasões allucinatorias, acompanhadas de +reacções emotivas de uma viva feição depressiva e anciosa em paranoicos +averiguados. Assim, na interpretação do caso que citei, como de todos os +de igual physionomia, julgo mais consentaneo com os dados da sciencia +invocar uma complicação psychonevrotica (seja qual fôr o nome preferido +para exprimil-a) do que alargar o quadro da Verrücktheit pela creação de +uma obscura variedade aguda. + +Entretanto, comprehende-se que esta questão seja de certo modo +secundaria para nós que, como Tanzi e Riva, dissociamos os conceitos de +Paranoia e de Verrücktheit, vendo n'esta apenas uma habitual, mas não +necessaria expressão symptomatica d'aquella. + +Que os delirios do paranoico sejam agudos ou chronicos; que se +acompanhem ou não de allucinações; que conservem sempre ou percam por +algum tempo a sua costumada systematisação--eis o que nos não preoccupa +excessivamente, por isso que concebemos a Paranoia como uma constituição +mental anterior a todos os delirios, sobrevivendo-lhes e podendo até +existir independente d'elles. + +É tempo, porém, de examinarmos o segundo dos argumentos de Schüle em +defeza da Verrücktheit aguda. + +Notando, como Westphal, que ha casos em que de um hallucinatorischer +Wahnsinn se passa immediatamente e sem descontinuidade a um delirio +systematisado, conclue o insigne psychiatra que a Verrücktheit offerece +algumas vezes uma phase inicial aguda. + +Contesta Krafft-Ebing, como vimos em outro logar, os casos invocados por +Schüle, proclamando que a transição do hallucinatorischer Wahnsinn á +verdadeira Verrücktheit jámais se realisa. Por nossa parte nunca a +observamos tambem; mas de modo nenhum nos sentimos dispostos, por isso +só, a contestal-a. Em materia de facto, póde uma unica observação +positiva ter mais alta significação que toda uma longa experiencia +negativa; e é certo que não só muitos dos modernos alienistas affirmam +ter observado casos analogos aos de Schüle, mas já em Delasiauve +encontramos a affirmação clara de que a _confusão mental_ offerece na +sua symptomatologia idéas morbidas que podem tornar-se o nucleo de um +verdadeiro _delirio parcial_. + +Mas se nos não repugna acceitar a realidade dos casos em que Schüle +baseia o controvertido thema da Verrücktheit aguda, cremos que elles +podem interpretar-se de um outro modo. Porque não admittir, por exemplo, +na comprehensão d'esses casos que os delirios asystematico sensorial e +systematisado se succedem como factos morbidos distinctos, tendo cada +qual uma etiologia privativa e uma evolução especial--nascendo o +primeiro de causas asthenisantes e o segundo da maturidade degenerativa, +marchando o primeiro para a extincção, e o segundo para a chronicidade? +No cerebro eminentemente vulneravel do paranoico as causas depressivas e +esgotantes provocariam a apparição de um confuso delirio sensorial, como +outras determinariam a mania ou a melancolia; sómente, a psychonevrose, +abalando esse cerebro maximamente predisposto, em vez de liquidar pela +cura, apressaria a maturidade paranoica, isto é, o momento psychologico +da eclosão de um delirio systematisado. + +Mas, ainda uma vez: desde que Paranoia e Verrücktheit não são conceitos +equivalentes, a admissão de uma variedade aguda da segunda de modo +nenhum infirma a manifesta chronicidade da primeira. + +Posto isto, consideremos o grupo dos delirios que, embora tendo uma +evolução por vezes muito rapida, apparecendo sem preparação, +acompanhando-se de multiplas allucinações e terminando pela cura, +manteem constantemente um apreciavel grau de activa systematisação. + +Pertencem estes delirios ao quadro da Verrücktheit? Parece-nos que a +resposta affirmativa se impõe. Com effeito, se a sua marcha contrasta +frisantemente com a dos casos em que as concepções morbidas se +perpetuam, cobrindo dezenas de annos, é certo que lhes não falta um +unico dos caracteres essenciaes da Verrücktheit: nem a egocentricidade +das idéas delirantes, hypocondriacas, eroticas, persecutorias ou +ambiciosas, nem a coordenação d'ellas em systema, nem o predominio das +allucinações auditivas, nem a origem essencialmente hereditaria. É, +pois, a estes delirios, conhecidos em França pelos nomes de +_polymorphos_ ou _d'emblèe_ que exclusivamente conviria, a meu vêr, a +designação de Verrücktheit aguda. + +Os que, como Krafft-Ebing, não admittem esta fórma, são constrangidos, +todavia, a fallar na rara _curabilidade_ da Verrücktheit e na sua marcha +por vezes subaguda, o que, no fundo, é conceder aquillo que +ostensivamente se nega. Reconhecer a legitimidade clinica da +Verrücktheit aguda, no sentido em que acabamos de a definir, parece-nos, +portanto, inevitavel. + +Por nossa parte hesitamos tanto menos em fazel-o quanto é certo que na +Verrücktheit vemos apenas uma possivel manifestação da Paranoia. + +Quando entre os delirios systematisados (Verrücktheit) e a constituição +mental (Paranoia), que elles revellam nos dominios intellectuaes, se +estabelece uma perfeita equivalencia, o reconhecimento de uma variedade +aguda e curavel dos primeiros implica uma perigosa negação da doutrina +que faz da segunda uma doença de evolução essencialmente chronica e +incuravel, uma degenerescencia, em summa. Mas, precisamente se +encarregam os factos de pôr em relevo o lado fraco d'esta doutrina e a +exactidão da que sustentamos com Tanzi e Riva. Os delirios +systematisados podem revestir a fórma aguda e curar; o que é chronico, +porém, e não cura jámais é a anomala organisação psychica de que elles +não fazem senão traduzir a maxima intensidade ideativa. Póde ser aguda e +curar a Verrücktheit; o que é chronico e não cura é a Paranoia. + + + +III--A VERRÜCKTHEIT SECUNDARIA + +Os delirios systematisados que succedem ás psychonevroses; sua +interpretação pathogenica--A opinião de Tonnini; modificação +introduzida--Dissociação dos conceitos de Paranoia e Verrücktheit. + + +A extensão com que na parte historica d'este _Ensaio_ tratamos o velho +thema da Verrücktheit secundaria, tão caro aos allemães, permitte-nos +agora limitar muito as considerações de ordem critica a fazer sobre +elle. + +Disse alguem que, a partir dos trabalhos de Sander e Snell, a pergunta: +_Existirá uma Verrücktheit primaria?_ começou a ser substituida por esta +outra: _Existirá uma Verrücktheit secundaria?_ E nós vimos, com effeito, +que a extensão d'esta diminuiu sempre na medida em que augmentava a +d'aquella. Entendamo-nos, porém: se os delirios systematisados que +succedem á mania e á melancolia de longa duração, não merecem realmente +um logar no quadro clinico da Verrücktheit, que é uma doença +constitucional, mas no grupo das psychonevroses, de que são apenas +estados terminaes prefaciando a loucura e revellando já, pela sua mesma +inactiva e apagada coordenação, um enfraquecimento cerebral, é +indiscutivel que a observação clinica nos permitte uma ou outra vez +surprehender delirios persecutorios e ambiciosos vivamente +systematisados, activos e tenazes, succedendo, todavia, a psychoses de +manifestações maniacas, melancolicas e até mesmo apparentemente +demenciaes. Raros, estes ultimos delirios systematisados não o são +tanto, comtudo, que os não tenham observado psychiatras de todos os +paizes. Como interpretal-os? Onde achar-lhes logar dentro das modernas +classificações? + +A resposta parece-nos poder derivar-se da doutrina formulada por +Tonnini: Estes delirios são paranoicos; e a psychonevrose que os +precedeu, impotente em si mesma para os crear, provocou-os todavia, +estimulando a peculiar actividade ideativa de um cerebro degenerescente. +É possivel que, a não se realisar a incidencia perturbadora do elemento +emocional implicado na psychonevrose, esse cerebro tivesse feito a sua +evolução sem manifestações delirantes, comquanto houvessem de +caracterisal-o sempre um exaggerado subjectivismo e uma apreciavel +egocentricidade. Vulneravel, porém, elle não póde resistir ás causas que +nos espiritos sãos determinam as psychoses; uma d'estas installou-se, +portanto. O que deverá succeder a partir d'esse momento? Naturalmente, +alguma coisa diversa do que costuma passar-se nos cerebros normaes: em +vez de marchar para a cura ou para a demencia franca, a psychonevrose +apressará aquella _maturidade degenerativa_ de que fallam Tanzi e Riva +e que tem por expressão intellectual um delirio systematisado. Já em +manifesto desequilibrio e já cançado pela passagem tormentosa da +psychonevrose, o cerebro não poderá dar a este delirio secundario a +forte seiva de que se alimentam os primitivos; entretanto, dar-lhe-ha +ainda a força psychica precisa a uma evolução que póde ser longa e de +certo modo movimentada. É n'este especial sentido que, a meu vêr, a +Verrücktheit secundaria deve ser admittida. + +Note-se, porém, que dizemos Verrücktheit e não Paranoia, no que +divergimos de Tonnini. E esta divergencia não é só de fórma, mas de +fundo, não apenas de nomenclatura, mas até certo ponto de interpretação. +Com effeito, se bem comprehendemos todo o pensamento do escriptor +italiano, a psychonevrose sommar-se-hia com uma simples predisposição +vesanica para determinar a Paranoia, que os delirios systematisados +secundarios symptomatisam; ao contrario, eu penso que a Paranoia +preexiste á psychonevrose, embora tendo uma fórma mitigada e revestindo +até ao advento d'esta uma feição mal definida, um verdadeiro typo +indifferente. A psychonevrose que, na interpretação de Tonnini, +contribuiria essencialmente para a constituição da Paranoia, não faz, a +meu vêr, mais do que accentual-a, provocando a Verrücktheit, isto é, +imprimindo-lhe um definido typo delirante. Todas as degenerescencias +teem graus intensivos ou de gravidade: na ordem das paranoicas a mais +grave seria a que mais rapidamente chega á maturidade, a mais precoce, a +que desde a puberdade se revella por delirios systematisados, isto é, +pela _Verrücktheit originaria_; a menos grave seria a que só attinge a +maturidade por virtude de um abalo emocional, a mais tardia, a que se +manifesta pela _Verrücktheit secundaria_. Mas em qualquer dos dois +casos, como cm todos, a anomala constituição cerebral que na essencia +caracterisa a Paranoia, é congenita. E eis porque eu não hesito em +acceitar uma _Verrücktheit secundaria_, como não hesitei em admittir uma +_Verrücktheit aguda_, comquanto sustente a _primitividade_ e a +_chronicidade_ essenciaes da Paranoia. + + + +IV--O RACIOCINIO E OS DELIRIOS PARANOICOS + +Erros doutrinarios de Lasègue e Foville sobre a interpretação +pathogenica dos delirios systematisados; como se perpetuaram na +psychiatria franceza--A autoobservação e o raciocinio não representam um +papel na génese dos delirios paranoicos--Depoimento dos factos--A +primitividade dos delirios paranoicos, sua origem ideativa. + + +Entre os erros concebidos a proposito da origem, sempre anciosamente +procurada, dos delirios de perseguições e de grandezas, um ha que, +embora contradictado pela experiencia, se divulgou, sobretudo em França, +com manifesto prejuizo de uma sã pathogenia: refiro-me ao que faz +intervir na génese d'estes delirios a autoobservação e o raciocinio do +doente. Lasègue, affirmando que o perseguido, normal até ao momento da +invasão da doença, annunciada por um vago, mas profundo mal-estar, se +perscruta, se dobra sobre si mesmo, e acaba, não sem hesitações, por +encontrar na hostilidade dos homens a interpretação dos seus +soffrimentos, foi o creador d'esse erro funesto, que Foville generalisou +mais tarde, fazendo proceder a megalomania da necessidade que o +perseguido sente de explicar-se os motivos das acintosas miserias +soffridas. + +Repetida como uma sorte de _cliché_ por successivas gerações de +alienistas franceses, esta gratuita vista do espirito, que só Morel +repudiou, insinua-se ainda nos livros contemporaneos; e assim é que, +embora sem um só caso em apoio, Magnan, á maneira de Foville, enumera o +_raciocinio_ entre os fundamentos possiveis da transição, no Delirio +Chronico, da phase persecutoria á phase ambiciosa. + +Comecemos por examinar esta singular pathogenia em relação ao delirio de +perseguições a que primeiro se applicou. + +Segundo ella, o perseguido, como um homem são, abruptamente assediado de +obscuras emoções dolorosas, buscaria comprehendel-as, determinar-lhes as +causas, fazendo conjecturas e construindo hypotheses, entre as quaes +está a que, por successivas e mais ou menos demoradas exclusões, elle +acceita como a melhor e mais explicativa: a de uma perseguição. + +A apparente nitidez d'esta pathogenia seduziu os espiritos; e, comtudo, +ella é radicalmente falsa. + +Em primeiro logar, a observação clinica protesta contra, a normalidade +do perseguido anteriormente á invasão do delirio, proclamando-o não só +um predisposto, as mais das vezes hereditario, mas um verdadeiro +candidato á loucura, + +Antes de imaginar o seu Delirio Chronico anti-degenerativo, +releve-se-me a expressão, Magnan reclamava para os delirantes +systematisados uma ancestralidade vesanica de duas gerações, pelo menos; +e esta idéa, já antes emittida por Morel, é a que sempre dominou as +psychiatrias allemã e italiana, accordes em acceitar como +hereditariamente invalido o cerebro paranoico. Por outro lado, jámais se +estudou de perto a vida predelirante de um perseguido sem que n'ella se +encontrassem seguras manifestações de exaggerado subjectivismo, de +autophilia, de egocentricidade, tornando difficil, melindroso e ás vezes +chocante o commercio social d'este paranoico. E, como se tudo isto não +fosse bastante para condemnar a ingenua supposição da normalidade de um +espirito, que ámanhã fabricará, sem causas determinantes, um absurdo e +tenacissimo delirio, surge não raro no perseguido a estygmatisação +physica da degenerescencia. + +Em segundo logar, é absolutamente inexacto que o inicial symptoma da +doença seja no perseguido, como a theoria inculca, um phenomeno obscuro +de ordem sensivel, uma vaga e confusa emoção de que se encontre +excluido, como nos prodromos de outras affecções, um elemento ideativo. +A experiencia diz precisamente o contrario. + +Quando o perseguido começa, no periodo chamado de incubação do delirio, +a isolar-se da familia e dos amigos, a evitar o convivio, a alterar os +seus habitos de existencia, a irritar-se, se o censuram ou simplesmente +o interrogam, fal-o já por desconfiança do meio, que reputa hostil. É +certo que, a titulo de vaga, mas persistente emoção egocentrica, essa +desconfiança, mitigada e ainda compativel com a vida social, o +caracterisou sempre; agora, porém, ella tornou-se definido _sentimento_ +pela clara apparição no espirito de uma _idéa_ de hostilidade e de +perigo. A inquirição perscrutadora do doente a tudo quanto o cerca, a +procura minuciosa e subtil de provas palpaveis e evidentes da +mal-querença dos outros, a eclosão, emfim, das illusões sensoriaes, +tudo prova, irrecusavelmente, que a morbida sensibilidade do perseguido +se exerce sob o dominio de um pensamento definido, de uma _idéa_ que a +orienta, que lhe imprime uma direcção, que a conduz. A illusão auditiva, +phenomeno prodromico dos mais precoces e do qual a allucinação ha de +surgir, suppõe já um erethismo sensorial a que preside, consciente e +nitida, embora ainda susceptivel de ulteriores desdobramentos, a _idéa_ +de uma hostilidade exterior. E é mesmo, é justamente porque essa +idéa está presente no espirito e se lhe impõe que o perseguido +paralogisticamente exhibe, como provas de uma mal-querença, +interpretações aggressivas das palavras mais indifferentes, dos sons +mais insignificativos, dos gestos e dos successos mais incaracteristicos; +cahindo sinceramente n'uma petição de principio, o perseguido prova que +no seu cerebro existe uma idéa que o tyrannisa, que o empolga, e que, +tornada um centro de associações psychicas, lhe vicia o raciocinio. +Que essa idéa, como todas, proceda de preexistentes emoções, eis o que +não contestamos, porque tudo na ordem do pensamento directa ou +indirectamente reponta do humus da sensibilidade; mas só depois que +ella espontaneamente appareceu na consciencia é que o delirio se +iniciou. Não é, pois, emotiva, mas ideativa a origem directa e +immediata d'este. + +O que-se passa na melancolia esclarece, pelo contraste, a situação +paranoica. Ali, com effeito, o phenomeno inicial é d'ordem emotiva, pois +que se reduz a uma depressão consciente, que estados de cenesthesia +morbida provocam: a tonalidade psychica baixa, o doente sente-se diverso +do que fóra, a dôr moral invade-o, e é ao fim d'algum tempo d'esta +situação anormal que o delirio surge, quer como tentativa de +interpretação do novo modo de ser, quer como adequada expressão ideativa +de um sentimento geral de impotencia. As idéas de crime, de peccado, de +doença incuravel, de miseria, de incapacidade, de possessão, n'uma +palavra, todas as idéas que formam o contheudo do delirio melancolico, +são ulteriores á depressão dolorosa, que é o facto morbido primitivo. +Essas idéas não procedem do inconsciente, não irrompem de obscuras +emoções por ignorados e mysteriosos processos, mas succedem a um +consciente sentimento de dôr, que tem as suas raizes em phenomenos +somaticos apreciaveis. O melancolico sente-se mudado, o que é exacto, e +torna-se porisso autoobservador, primeiro, e delirante depois; o +perseguido, esse, sente mudado em relação a si o mundo exterior, o que é +falso, o que presuppõe uma ideação anormal e, portanto, um começo de +delirio, que a observação objectiva apenas ajudará a systematisar. +Emquanto o melancolico, abatido e humilhado por um sentimento real de +dôr, que é a expressão consciente de perturbações cenesthesicas, se +concentra e se interroga, fazendo um delirio _secundario_, o perseguido, +egocentrico e autophilico, partindo de uma idéa chimerica de +hostilidade, abre os sentidos e observa o mundo externo, delirando +_primitivamente_. + +A autoobservação e o raciocinio na génese do delirio de perseguições não +passam de miragens do espirito. No perseguido a attenção é dirigida em +sentido objectivo; e o raciocinio, longe de intervir na formação do +delirio, é por elle radicalmente falseado sempre que se trata das +relações entre o mundo exterior e o Eu. A verdade clinica é, pois, +precisamente o contrario do que affirma a doutrina de Lasègue; a verdade +é que o delirio surge á sua hora, como o fructo amadurece e o grão +germina: espontaneamente, fatalmente. + +Vejamos agora o que se dá com o delirio ambicioso que succede ao de +perseguições. + +Haverá n'este caso, como pretendia Foville e como á saciedade se tem +repetido, uma transformação consciente e raciocinada? + +O que acabamos de dizer sobre a direcção exclusivamente objectiva da +attenção do perseguido, faz desde já suppôr o contrario. A attitude +reflexiva, que seria necessaria para indagar as causas de uma +hostilidade do meio, não está nos habitos do perseguido; por outro lado +ainda, não é de modo nenhum natural que se procurem as origens de um +facto acreditado, como os dogmas, com a inabalavel fé, que dispensa +interpretações e as rejeita mesmo. + +Mas as provas directas da falsidade clinica da doutrina de Foville +abundam. Assim, a observação permitte affirmar que não só o perseguido +nunca formúla a pergunta: _Porque me perseguem?_ mas que, interrogado +n'este sentido, invariavelmente responde: _Não sei_. O absurdo de uma +perseguição sem causas, de uma hostilidade immotivada não choca esta +ordem de doentes; e é debalde que se tenta dirigir-lhes a attenção para +o exame de um assumpto que parece não os interessar. Absorvidos pelas +allucinações ou empenhados em conjurar os effeitos de uma aggressão +implacavel, os perseguidos não sentem a necessidade de inquirir as +razões d'ella; e todo o insistente convite n'este sentido serve apenas +para os impacientar, quando os não leva a entrevêr no solicito +observador um cumplice de imaginarios inimigos. + +Mas ha mais. Se o delirio ambicioso podesse installar-se a titulo de +explicação de precedentes perseguições, nada seria mais facil do que +provocal-o: bastaria suggerir ao perseguido os themas habituaes da +megalomania, deixando-lhe a escolha. Por outros termos: se o raciocinio +bastasse, como candidamente pretendia Foville, a operar a transformação +de uma personalidade,--para fazer-se de um perseguido um megalomano +seria necessario apenas dizer-lhe precocemente o que, segundo o auctor +francez, elle se dirá um dia, isto é, que, não podendo haver +perseguições sem causa, o encarniçamento dos seus inimigos deve +naturalmente explicar-se quer pela inveja dos altos meritos pessoaes do +doente, quer pelo interesse de supprimir um individuo destinado, como +elle o é, talvez, a reinar, a dirigir um partido, a instituir uma +religião, a reformar uma sociedade, a mudar a face de uma sciencia. Ora, +a verdade é que suggestões d'esta ordem não só não abalam os perseguidos +que, aliás, se tornarão mais tarde megalomanos, mas determinam n'elles +ora uma franca hilaridade, ora indignados protestos. Repeti muitas +vezes, no começo da minha carreira, experiencias d'esta natureza, +conseguindo apenas provocar dos doentes contestações como estas: que não +estão doidos para desconhecerem a sua situação; que não admittem +zombarias; que as historias phantasticas são boas para entreter creanças +e idiotas; que não é digno escarnecer de quem soffre. + +É, pois, radicalmente falso e absolutamente contrario aos dados da +observação que o delirio de grandezas appareça como tentativa feita para +explicar perseguições soffridas. A idéa ambiciosa, como a de +hostilidade, surge no espirito de um modo espontaneo e inconsciente; do +delirio de grandezas póde, pois, repetir-se o que foi dito do delirio de +perseguições: que elle irrompe á sua hora, como o fructo amadurece e o +grão germina. + +É só depois de installado por um processo a que são extranhos o +raciocinio e a vontade, que o delirio de grandezas servirá para explicar +o de perseguições, como este, por sua vez, servira ao doente para +interpretar os factos da sua vida anterior. É só a partir do momento em +que se crê excepcionalmente grande pelo genio, pelo nascimento ou pela +fortuna que o paranoico principia a explicar-se as miserias supportadas. + +Note-se, porém, este facto curioso e imprevisto em face da theoria que +criticamos: o delirio de grandezas, dando um solido ponto de apoio ás +idéas de perseguição, que esclarece e interpreta,--bem longe de as +radicar, tornando-as definitivamente preponderantes no espirito do +paranoico, tende, pelo contrario, a diminuil-as e a subalternisal-as em +proveito proprio. + +Tal é o irrecusavel depoimento da clinica, absolutamente incompativel, +como se vê, com a theoria que faz dos delirios paranoicos resultados de +um esforço da intelligencia para comprehender e interpretar vagos e +obscuros estados emotivos. Se essa theoria prevalecesse, a autonomia +nosographica do delirio systematisado de perseguições seria inteiramente +chimerica; e todo o esforço de Lasègue para o destacar da melancolia +delirante resultaria inane, pois que a pathogenia, a despeito de todas +as possiveis differenciações symptomaticas, identificaria +definitivamente as duas doenças. + +Tendo de voltar ainda a este assumpto, procuraremos então interpretar as +hesitações dos perseguidos e megalomanos na exhibição dos respectivos +delirios. + +Por mal comprehendido, esse facto contribuiu não pouco para acreditar a +phantastica doutrina da génese consciente e reflexiva dos delirios +systematisados. A hesitação, parecendo implicar a duvida, iria bem com a +opinião que faz d'esses delirios _conjecturas_ de um Eu que se observa, +_hypotheses_ de um espirito que se perscruta, buscando dar-se conta de +accidentaes perturbações emotivas. + +Veremos opportunamente que a interpretação do facto é muito outra; que +essas hesitações não são senão o resultado da lucta que se exerce entre +idéas nascidas do inconsciente e o systema de conceitos formados pela +educação e até um certo tempo impostos pelo meio social. + +De modo analogo explicaremos o facto, erroneamente interpretado pelos +psychiatras francezes, da inquietação dos perseguidos no periodo inicial +da doença. + + + +V--AS ALLUCINAÇÕES E OS DELIRIOS PARANOICOS + +Erro de Foville sobre as relações dos delirios systematisados com as +allucinações; como se perpetuou na psychiatria franceza--Uma antiga idéa +de Magnan, exposta por Legrain, sobre este assumpto; falsidade d'essa +idéa--Primitividade da concepção sobre a allucinação nos delirios +paranoicos--Uma rectificação de Magnan. + + +Dada a extrema frequencia dos erros sensoriaes, sobretudo das +allucinações auditivas, na loucura systematisada, tem-se perguntado se +as perturbações da sensibilidade especial precedem as idéas delirantes, +servindo-lhes de base e fornecendo-lhes o contheudo, ou se, pelo +contrario, apenas lhes succedem como uma sorte de confirmação. + +Lasègue, sustentando que as allucinações auditivas, unicas, segundo +elle, compativeis com o delirio de perseguições, não são nem o +antecedente necessario, nem o consequente inevitavel d'esta vesania, +estabeleceu claramente a independencia essencial dos erros conceptuaes e +perceptivos na mais commum das fórmas delirantes da Paranoia. + +Retomando, porém, annos depois a questão, Foville admittiu para ella +duas ordens de soluções, desigualmente frequentes: uma, relativamente +rara, em que o delirio é primitivo e as allucinações secundarias; outra, +muito commum e, no delirio de perseguições, constante, em que a relação +inversa se realisa. + +«O delirio, dizia elle, póde ou principiar _d'emblèe_ pelos conceitos ou +affectar primeiro as sensações e extender-se depois ás idéas de um modo +secundario»[1]. E, analysando cada um d'estes casos, commentava: «N'este +ultimo (primitividade das allucinações) as funcções puramente +intellectuaes não são, desde o começo, intrinsecamente lesadas, antes +continuam a executar-se segundo a logica. Como faz notar Delasiauve, a +faculdade syllogistica persiste intacta: emquanto se exerce sobre dados +exactos, o producto das suas operações é normal e sensato; quando, pelo +contrario, se exerce sobre dados falsos, isto é, sobre sensações +imaginarias ou mal interpretadas, sobre allucinações e illusões, o +producto encontra-se forçosamente em contradicção com a realidade. O +delirio das sensações tem por effeito engendrar o delirio dos conceitos, +sem que a intelligencia seja em si mesmo lesada e sem que ella deixe de +funccionar sãmente, quando não é induzida em erro. Tal é um dos modos de +producção e, não hesitamos em crêl-o, o _mais vulgarmente observado_ da +loucura parcial ... Mas esta ordem na successão dos phenomenos morbidos, +embora a _mais frequente_, não é constante. Acontece tambem _algumas +vezes_ gue a perturbação começa por concepções erroneas, que succedem a +uma idéa fixa na ausencia de qualquer allucinação. N'este caso ainda, +faz-se ordinariamente uma propagação analoga á que indicamos ha pouco, +mas em sentido inverso. Ao fim de certo tempo, as concepções delirantes +transformam-se em sensações falsas, o delirio extende-se ás percepções; +o doente torna-se allucinado, porque era já delirante, em vez de +tornar-se, como ha pouco, delirante, porque era allucinado»[2]. + + [1] Foville, _Obr. cit._, pag. 341. + + [2] Foville, _Obr. cit._, pag. 341. + +Ora, ao passo que o megalomano-perseguido seria as mais das vezes, +segundo Foville, um delirante-allucinado, o perseguido-megalomano, pelo +contrario, seria sempre um allucinado-delirante. + +Por muito singular que se nos affigure, este modo de vêr de Foville +sobre a primitividade das allucinações na Paranoia persecutoria teve um +exito só comparavel ao da sua theoria das origens reflexivas e +raciocinadas do delirio ambicioso. Repetido em milhares de tiragens +pelos alienistas francezes, este novo _cliché_ pathogenico perpetuou-se +como o primeiro. Magnan, por exemplo, acceitava-o ainda em 1886 e +dava-lhe curso nos trabalhos dos seus discipulos. Como Foville, o medico +de Sant'Anna admittia que nos delirios systematisados a allucinação póde +tanto ser um symptoma derivado da persistencia de conceitos falsos, como +um phenomeno primitivo sobre que assenta e de que procede a ideação +pathologica. O primeiro d'estes casos dar-se-hia nos _delirios +d'emblèe_; o segundo no _Delirio Chronico_. Os degenerados, unicos +capazes de fabricarem um delirio sem preparação, e de serem, portanto, +megalomanos-perseguidos, entrariam no grupo dos delirantes-allucinados; +os normaes, unicos a quem se consigna o Delirio Chronico e, portanto, +perseguidos-megalomanos, seriam allucinados-delirantes. + +Eis como, interpretando o pensamento do mestre sobre as relações da +allucinação com as idéas morbidas nos _delirios d'emblèe_ e no _Delirio +Chronico_, se exprimia Legrain: «O mecanismo segundo o qual se produzem +as allucinações, varia nos dois casos. No Delirio Chronico ellas são +essencialmente primitivas; todo o delirio é construido sobre ellas, e se +ellas não existissem, o delirio, que lhes é consecutivo, não existiria. +Nos degenerados delirantes, quando existem, as allucinações formam-se de +um outro modo. São symptomas contingentes da doença, não a sua base +immutavel, pois que numerosos delirios degenerativos evolucionam sem +allucinações. Quando estas complicam a scena morbida, é o proprio +delirio que as _provoca_, as mais das vezes, em virtude do seguinte +mecanismo: Todos os centros cerebraes se encontram em estado completo de +erethismo; o cerebro anterior elabora as idéas delirantes e evoca as +imagens nos centros posteriores; as imagens assim evocadas véem +representar-se nos centros anteriores com uma vivacidade tal que são +interpretadas como outras tantas realidades. Assim, a allucinação +encontra a sua causa directa n'uma série de idéas delirantes que a fazem +nascer, e produz-se como um verdadeiro reflexo. O caminho centripeto +parte dos centros anteriores, em que é elaborada a idéa delirante, ganha +as regiões posteriores do cortex, em que a imagem é evocada, depois +volta aos centros anteriores, trazendo a imagem, que vem misturar-se ao +delirio e se impõe como realidade ... Muito outra é a allucinação no +Delirio Chronico: nasce primitivamente, _sur place_, nas regiões +posteriores do cortex, sem ser provocada. Uma lesão local, lentamente +progressiva, a produz; ella é a expressão funccional de uma lesão +anatomica. Partindo d'esse ponto, ganha as regiões anteriores, que +surprehende realmente. O cerebro anterior, em plena posse do seu +equilibrio, da sua ponderação, interpreta-a como um facto real e deduz +d'ella conclusões logicas, que são as primeiras idéas delirantes. Vê-se +então evolucionar um delirio absolutamente sistematisado, lançando uma +perturbação na intelligencia intacta e ponderada, que reage com todas as +suas energias. No degenerado, a adhesão no delirio é plena e inteira +desde o começo; no delirante chronico ella não é senão lenta e +progressiva, fazendo-se a systematisação pouco a pouco, mercê de +persistentes allucinações»[1]. + + [1] Legrain, _Du délire chez les dégénérés_, pag. 141. + +Se n'esta passagem de Legrain substituirmos as expressões de _cerebro +anterior_ e _posterior_ pelas suas equivalentes antigas de +_intelligencia_ e _sensibilidade especial_, reapparece-nos a citação +precedente de Foville. Uma velha doutrina, pois, resurge sob roupagens +novas. + +Será necessario affirmar n'esta altura do nosso trabalho que a +primitividade das allucinações nos delirios paranoicos é ainda uma +ficção, que o exame despreoccupado dos factos annulla e apaga? + +É incontestavel que, encarando de um modo geral as relações possiveis +dos erros sensoriaes com os conceitos morbidos, são legitimos e a cada +passo se realisam os casos enumerados por Foville: se ha delirios que +provocam as allucinações, outros ha, que, ao contrario, as teem por base +e ponto de partida. Isto é de tal modo reconhecido que os ultimos +d'estes delirios teem na psychiatria contemporanea o nome consagrado de +_allucinatorios_ ou _sensoriaes_ (Wahnsinn), que allude a um fundamento +perceptivo, como os primeiros teem o de _systematisados_ (Verrücktheit), +que inculca uma coordenação ideativa. Sómente, a experiencia clinica +ensina que os deliros sensoriaes ou são absolutamente dissociados e +dispersivos ou apenas attingem uma frouxa coordenação, ao passo que os +delirios francamente systematisados podem, como o persecutorio na sua +variedade litigante, evolucionar sem a intervenção de estados +allucinatorios. + +De resto, o depoimento da clinica não seria difficil de prevêr. +Allucinações nascidas _sur place_, sem uma idéa que as provoque e lhes +forneça o contheudo, só podem ser, como aliás nota Legrain, autonomicos +effeitos de um erethismo dos centros sensoriaes, anatomica ou +funccionalmente compromettidos; mas, sendo assim, ou o cerebro anterior +as corrige e nenhum delirio é então possivel, ou, perdido o _contrôle_ +normal, elle as acceita e delira, não n'um sentido determinado, mas em +tantas direcções differentes quantas as allucinações, cujo contheudo +nenhuma razão ha para não suppôr variavel e proteiforme como nos +delirios sensoriaes das anemias, das febres, das intoxicações e das +nevroses. Sem a direcção superior de um conceito ou, para fallarmos a +linguagem de Magnan e Legrain, sem a intervenção provocadora do cerebro +anterior, os centros sensoriaes, autonomisados e procedendo por conta +propria e exclusiva, exportam, como nos sonhos, para as regiões +superiores do cortex, os mais caleidoscopicos elementos de ideação; se, +com materiaes d'esta natureza, um delirio tem de formar-se, elle não +poderá ser senão, como o _hallucinatorischer Wahnsinn_ de Krafft-Ebing, +alguma coisa de tormentoso e incoherente. + +Assim, nem _à posteriori_, isto é, tomando para base a clinica, nem _à +priori_, isto é, partindo da doutrina da percepção, é licito acceitar a +primitividade das allucinações nos deirios systematisados. + +Discutamos, entretanto, no terreno especial da Paranoia persecutoria a +affirmação de Foville, retomada pela escóla de Sant'Anna. + +Fallar, como Legrain, de uma lesão anatomica dos centros sensoriaes no +delirio de perseguições, é, evidentemente, fazer um abuso de linguagem, +pois que jámais uma autopsia denunciou em paranoicos qualquer coisa de +parecido com um desarranjo palpavel e visivel d'essas limitadas regiões +do cortex. Perturbações d'ordem dynamica, alterações funccionaes, +desequilibrios de movimento cellular, eis quanto o estado actual da +physiologia permitte admittir. N'este sentido, o termo de _erethismo_, +empregado por Legrain, parece-nos feliz. Mas provocado por que causa, +esse erethismo? + +Não o diz o escriptor citado, e é lamentavel. + +Excluidas, naturalmente, as intoxicações e as asthenias cerebraes, que +são as causas mais frequentes de estados allucinatorios, não vejo que +nos fiquem para explicar a sobreexcitação funccional dos centros +sensoriaes senão as idéas, delirantes; postas estas de parte, nada +resta, a invocar na interpretação do phenomeno,--tão importante, aliás, e +tão essencial, no dizer da escóla franceza, que n'elle repousa a doença +inteira. + +Passemos, porém, ao de leve, sobre esta deficiencia de analyse e +admittamos por um instante que uma causa, ainda não definida, vem +provocar e determinar nos centros corticaes da sensibilidade especial um +erethismo de que o cerebro anterior não partilha. O que nos diz a +theoria da percepção que deveria succeder n'esta hypothese? +Surprehendidas pelas extranhas sensações exportadas d'esses centros +hyperfunccionantes, as regiões superiores da intelligencia entrariam com +ellas em conflicto; e o resultado d'este, dada a integridade e +normalidade d'essas regiões, a que incumbe a funcção suprema do +_contrôle_ psychico, seria, indiscutivelmente, a correcção, a +rectificação definitiva dos erros sensoriaes. É isto, como se sabe, o +que acontece nos casos de illusões e allucinações em espiritos normaes. +Fallar da integridade de uma razão, que constroe um delirio sobre +percepções falsas, é um perfeito não-senso; admittir a normalidade de +uma região de _contrôle_, que centros subordinados perturbam e vencem, é +cahir n'uma grosseira contradicção. Por si sós, dil-o a experiencia +clinica e ensina-o a theoria da percepção, os erros sensoriaes não +falseiam os juizos, porque, para corrigir as illusões e allucinações, +dispõe o cerebro de recursos, que vão desde a elementar contraprova da +acção de um sentido pela dos outros até ao testemunho alheio e ao +confronto dos dados perceptivos com o preexistente systema de conceitos +e sentimentos, que é o fundo mesmo da personalidade sã. + +Se os erros sensoriaes não são corrigidos, mas acceites e elaborados +como realidades objectivas, é que uma d'estas duas hypotheses se dá: ou +o allucinado não empregou os recursos de rectificação e _contrôle_ da +percepção exterior, porque, delirante já, viu nas allucinações uma +confirmação dos seus conceitos; ou os empregou sem exito, porque o +insistente depoimento dos centros sensoriaes em erethismo, acabou por +vencer os argumentos da razão. + +Qual d'estas duas hypotheses se realisa no delirio de perseguições? +Segundo o antigo ensino da escóla de Sant'Anna, de que Legrain é um +interprete eminente, a primeira teria logar nos perseguidos _d'emblèe_, +que são degenerados, e a segunda nos delirantes chronicos, que são +normaes até á invasão da doença. + +É inutil repetir que não acceitamos esta distincção, e que a primeira +das hypotheses formuladas é para nós a que tem logar em todos os casos +não só de delerio de perseguições, mas dos outros delirios +systematisados. + +Analysemos, comtudo, as affirmações de Legrain em relação ao Delirio +Chronico. + +Estabelecendo com Magnan (como o fizera Lasègue para o perseguido) que o +delirante chronico é um ser normal até á invasão da doença, Legrain +compraz-se em vêr na incubação d'esta uma lucta da razão com os morbidos +elementos invasores. Ao passo que o degenerado supportaria, por assim +dizer, o seu delirio,--espontanea manifestação de um desequilibrio +preexistente, o normal _fabrical-o-hia_ lentamente, hesitantemente e +raciocinando sempre. É a velha doutrina. Mas como de um raciocinio só +podem surgir conclusões falsas quando as premissas o são tambem, +Legrain, á maneira de Delasiauve e de Foville, faz das illusões e +allucinações, nascidas _sur place_ nos centros sensoriaes, o elemento +morbido aggressivo e a premissa erronea de que o cerebro anterior +deduzirá, emfim, o delirio. + +Acabamos de vêr, e toda a insistencia n'este ponto seria impertinente, +que a incapacidade de corrigir percepções erradas implica deficiencia de +senso critico e, portanto, insanidade mental, anormalidade psychica. Nem +mesmo admittindo com Legrain que o cerebro reage contra a allucinação +invasora com todas as suas energias, poderia evitar-se a conclusão, pois +que a derrota denuncía a fraqueza e inferioridade d'essas energias. + +Mas será verdade, ao menos, que o perseguido reaja contra as illusões e +allucinações incessantemente originadas nos centros sensoriaes +sobreexcitados? De modo nenhum. Bem ao contrario do que Legrain +pretende, as illusões e allucinações são para os perseguidos, como para +todos os paranoicos, pontos de apoio e não de partida do delirio, +confirmações e não elementos formativos d'elle, eccos dos erros +conceptuaes e não o seu fundamento, n'uma palavra, precarios symptomas +derivados e não phenomenos essenciaes e primitivos. + +A demonstração d'esta verdade clinica não será difficil, nem longa. + +Uma só passagem de Magnan a fará. Fallando do que se passa no chamado +periodo de incubação do delirio persecutorio, escreve n'um dos seus +ultimos trabalhos o eminente observador: «Os doentes experimentam um +mal-estar, um descontentamento que não sabem explicar-se; tornam-se +apprehensivos, inquietos, _desconfiados, crendo notar certas mudanças_ +na maneira de ser da familia e mesmo dos extranhos. Dormem mal, teem +menos appetite, menos aptidão para o trabalho e para os negocios. N'esta +época poderiam ser tomados por hypocondriacos. Pouco a pouco +_parece-lhes que os observam_, que _os olham de travez_, que os +_desprezam_; duvidam, hesitam, permanecem fluctuantes entre idéas +variadas, acceites primeiro, repudiadas em seguida, admittidas pouco a +pouco e dando logar, emfim, a interpretações delirantes ... O doente +persiste assim perturbado, inquieto, por vezes excitado, todo entregue +ás _concepções penosas que principiam a assaltal-o_ e _indifferente a +tudo o que não parece prender-se com o seu delirio_. Os grandes +acontecimentos não o commovem, as perturbações politicas deixam-no +indifferente, as perdas de dinheiro e as luctas de familia não o +emocionam. Pelo contrario, factos insignificantes, mas que se relacionam +com as suas preoccupações penosas, que as justificam, adquirem uma +importancia extrema e provocam-lhe a colera. Se uma pessoa se esquece de +o saudar, vê n'isto uma injuria voluntaria; se alguem tosse ou escarra +ao pé d'elle, se diante d'elle uma janella ou uma porta se abrem, se-uma +cadeira se desloca, reconhece outros tantos testemunhos de despreso. As +provas de benevolencia e de afeição tornam-se zombarias, e o proprio +silencio é uma offensa. O vago apaga-se pouco a pouco; á hesitação +succede a certeza, e, fortificadas por todas estas provas, as suas +convicções tornam-se inabalaveis. N'estas condições, o doente, sempre em +guarda, espia, escuta, surprehende n'uma conversação uma phrase que se +attribue--eis a interpretação delirante; ou se crê aggravado por uma +palavra insignificante, mas cujo som apresenta alguma analogia com uma +injuria grosseira e que elle confunde com esta--eis a illusão. Depois, a +_idéa constante de uma perseguição_, a tensão incessante da +intelligencia acabam por _despertar o signal representativo da idéa_, a +imagem tonal; n'uma palavra, a allucinação auditiva produz-se»[1]. + + [1] Magnan, _Obr. cit._, pag. 237. + +Não é possivel estabelecer de um modo mais preciso e mais eloquente a +primitividade do delirio e a secundariedade da allucinação. Todo o +commentario seria pallido, todo o retoque prejudicial a este quadro +_d'après nature_. + +A questão de saber corno Magnan exprime em 1893 uma opinião +diametralmente opposta á de Legrain, que em 1886 se dava como interprete +da escóla de Sant'Anna, é secundaria para nós e sem interesse para a +sciencia. + +Cremos que n'este caso, como no de Gérente, Magnan se contradicta a si +proprio, fazendo do seu Delirio Chronico edições successivas e todas +differentes. + +Felizmente, e é isto o que nos importa notar, a correcção introduzida +ultimamente no capitulo das relações entre os erros perceptivos e +conceptuaes, é conforme á verdade clinica. + + + +VI--AS OBSESSÕES E OS DELIRIOS PARANOICOS. + +A inquietação dos perseguidos e as hesitações de certos paranoicos na +exhibição do delirio; como se explicam estes factos--A doutrina classica +das obsessões; sua inexactidão--Idéas do auctor; inesperada confirmação +d'ellas por J. Séglas--A obsessão é um delirio systematico abortado; +este é uma obsessão progressiva--Demonstração; analyse dos factos--Como +se fórma o Eu; estratificações systematisadas--A personalidade e as +subpersonalidades; o atavismo. + + +Se as idéas que formam o contheudo dos delirios paranoicos, não traduzem +um esforço de reflexão exercendo-se sobre estados emotivos, nem +reconhecem por causa os erros sensoriaes, como cremos ter provado, a +conclusão se impõe de que ellas surgem na consciencia á maneira de +obsessões. + +Comquanto sustentada por uma parte dos psychiatras allemães e italianos, +esta affirmação está de tal modo em desaccordo com as radicadas +tradicções da escóla franceza que não será sem vantagem discutil-a. +Antes, porém, seja-me licito notar que, acceite a origem obsessiva dos +delirios systematisados, dois factos, que os alienistas francezes não +lograram explicar senão phantasiosamente e em contradicção com os dados +mais positivos da observação clinica, recebem uma interpretação +simplicissima: refiro-me á inquietação dos perseguidos quando o seu +delirio aponta, e ás hesitações de grande numero de paranoicos na +exhibição dos seus conceitos falsos. + +O primeiro d'estes factos, abusivamente comparado pelos psychiatras +francezes ao vago mal-estar precursor das doenças graves, não é, em +realidade, mais do que a natural reacção emotiva do Eu, subitamente +empolgado por uma idéa penosa, que irrompe do inconsciente; longe de +constituir, como a anciedade melancolica, uma situação primitiva de que +surgirão os erros conceptuaes, é um estado secundario, um effeito mesmo +da presença inesperada de uma idéa depressiva no campo da consciencia. + +Em que consiste, de facto, essa inquietação? Definitivamente e no +fundo--em sentimentos e actos defensivos; ora, a organisação de uma +defeza suppõe a idéa de um ataque, de uma hostilidade, de um perigo. Sem +duvida, essa idéa só se terá transformado n'um conceito e recebido a sua +inteira systematisação, quando se houver feito o reconhecimento do +inimigo e das causas da aggressão; a partir, porém, do momento em que +obsessivamente ella irrompe e se impõe ao espirito, a inquietação +apparece como o grito de alarme da esphera emotiva do perseguido. + +Quanto ás hesitações, tantas vezes observadas, do paranoico na +exteriorisação do seu delirio, qualquer que elle seja, nada mais facil +que interpretal-as. Trata-se ainda, n'este caso, de um phenomeno +secundario, inseparavel do primeiro. Surprehendendo a consciencia pelo +contraste que faz com o systema de conceitos positivos recebidos da +educação, a idéa delirante é para o Eu alguma coisa de extranho e de +interposto que, tendo-lhe provocado uma forte reacção emotiva, irá ainda +remodelar toda a sua precedente orientação pensante, não sem +difficuldades e combates; a hesitação em affirmar o delirio é, pois, o +resultado da novidade e extranhesa das idéas que o formam. Longe de ser, +como se pretendeu, a duvida de um espirito que elabora conjecturas e +procura cotejal-as com os actos, essa hesitação traduz o esforço penoso +e vacillante de adaptação do Eu a uma nova ordem de idéas, que elle vê +surgir e cuja origem desconhece. O paranoico não duvida, porque não +critica. Como a victima de uma suggestão hypnotica activa não procura +evitar o acto ordenado e imposto, ainda quando elle choca, ás suas +habituaes inclinações, mas busca dar-lhe apparencias de espontaneo e +querido, o paranoico, longe de tentar a correcção da sua idéa falsa, +cuida em reforçal-a pela interpretação delirante dos factos. + +Mas ás vezes succede tambem que já o delirio se encontra systematisado e +ainda o paranoico o occulta ou apenas o confia do papel, n'uma sorte de +soliloquio. A razão d'este facto está em que o doente, reconhecendo, +pelo que, em si proprio se passou no periodo presystematico, a +extranheza do seu delirio e a formidavel antithese que elle faz com as +idéas correntes, procura evitar as inuteis e irritantes discussões que +provocaria, exhibindo-o. É o conhecido caso de alguns crentes que, em +vez de propagarem a sua fé, penosamente conquistada em repetidas luctas +interiores, se recolhem n'ella, evitando a controversia, sentindo uma +sorte de pudor em desdobrar diante de profanos irreverentes o inabalavel +systema das suas convicções religiosas. + +Mas eu prevejo uma objecção a esta doutrina. Como acceitar, dir-se-ha, a +origem obsessiva dos delirios systematisados, se um dos caracteres das +obsessões é justamente o de não serem integradas na consciencia, de +subsistirem no Eu em lucta aberta com as disposições preexistentes, +n'uma palavra, de não formarem systema? + +A resposta implica um exame de doutrinas a que vamos proceder. + +Westphal, definindo a obsessão _uma idéa que, sem precedencia de um +estado emotivo ou passional, se impõe á consciencia do doente contra a +sua vontade, impedindo o jogo normal do pensamento, em que se insinua, e +sendo sempre reconhecida como anomala e extranha ao Eu_, foi um dos +primeiros a proclamar a irreductivel systematisação da idéa obsessiva. + +Pelo seu lado, os auctores, que ulteriormente mais se occuparam das +obsessões, insistiram sempre no facto de que ellas constituem na +economia psychica uma sorte de _corpo extranho_, releve-se-me a +expressão, para eliminar o qual, inutil, mas consciente e penosamente se +esforça o Eu. Assim, Magnan, definindo a obsessão pathologica _um modo +de actividade cerebral em que uma palavra, uma idéa, uma imagem se +impõem ao espirito sem intervenção da vontade e com uma angustia +dolorosa que a torna irresistivel_, conta, como Westphal, entre os +caracteres pathognominicos d phenomeno (que para elle é sempre um +syndroma da degenerescenda psychica), a _consciencia completa_ de um +estado morbido. E.J. Falret, interpretando no Congresso Psychiatrico +Internacional de 1892 as mesmas idéas, affirmou não só que as obsessões +são _conscientes_ e _anciosas_, mas que se _não acompanham de +allucinações_ e se _não transformam nunca em outras doenças mentaes_, +embora algumas vezes e n'uma adiantada phase de evolução se possam +_complicar_ de um delirio melancolico ou persecutorio. O assentimento do +Congresso as conclusões do Relatorio de Falret foi como a consagração +official da doutrina que faz da idéa obsessiva um facto insusceptivel da +assimilação, um producto que o Eu considera sempre extranho, que a +consciencia jámais incorpora, que a vontade combate e contra o qual a +emotividade perpetuamente lança o seu grito de alarme. + +Será, porém, rigorosamente assim? + +Reconhecendo que a nossa experiencia é curta e a nossa auctoridade +nulla, atrevemo-nos, comtudo, desde 1892; tendo por base uma solida +convicção, a discutir alguns dos pontos essenciaes da doutrina classica. + +Assim, em conferencias publicas d'esse anno, a proposito de um caso +medico-legal de impulsividade criminosa, sustentamos que a idéa +obsessiva não póde ser, nem é na vida mental um elemento inerte, e que a +sua actividade, como a de todo o phenomeno psychico, se mede pelo maior +ou menor numero de factos da mesma ordem que ella evoca na consciencia, +o que equivale a dizer--pelas mais ou menos extensas _systematisações_ +que provoca. Como cada atomo de um aggregado material, diziamos então, +entra n'elle com uma certa affinidade, cada phenomeno psychico figura no +Eu com uma dóse propria de força systematisante. E a idéa obsessiva, +extranha á consciencia pelas suas origens confusas, não é essencialmente +diversa dos outros factos psychicos, nascidos tambem em grande parte da +cerebração inconsciente; surgindo, ella evoca, pois, pela sua mesma +affinidade com esses factos, pela sua mesma força systematisante (de que +as leis de associação não fazem senão constatar a existencia e denunciar +parcialmente as orientações), idéas, emoções, desejos, impulsos, novas +imagens mentaes, em summa. + +Longe de acompanhar-se, diziamos, de uma perfeita e _completa +consciencia,_ a obsessão, representando um começo de _dissociação +pessoal_, uma scisão do Eu por dois grupos antinomicos de +systematisações psychicas, a normal e a obsessiva, implica uma +_obnubilação da consciencia_ individual, pois que esta não póde +comprehender-se senão como synthese de estados psychicos harmonicos e +expressão da unidade do Eu. + +Este modo de vêr, seja dito de passagem, encontramol-o sustentado com +profusão de argumentos psychologicos e clinicos nas excellentes _Lições +sobre as doenças mentaes e nervosas_ de Séglas, publicadas em 1896. Este +imprevisto encontro do nosso espirito com o do eminente psychiatra, sob +ser-nos lisongeiro, depõe grandemente em favor da justeza das idéas que +defendemos. + +A _angustia_ que acompanha os estados psychicos, diziamos nas mesmas +conferencias, traduzindo a extranheza da consciencia em face da idéa +imposta, está longe de ser um thenomeno invariavel, pois que, no fundo, +elle depende da extensão maior ou menor que tomam as systematisações +pathologicas em face das normaes. Ha estados em que toda a reacção +emotiva se limita a uma passageira e leve inquietação de espirito; +outros, em que surgem phenomenos criticos de anciedade, pronunciados, +duradouros e graves. Procurando interpretar estes factos, Westphal +collocou-os principalmente sob a dependencia do contheudo das obsessões, +affirmando que, em igualdade de circumstancias, a idéa fixa de matar +repugnará muito mais que a de pronunciar uma palavra inconveniente. +Talvez seja assim; mas essa _igualdade de circumstancias_, reduzindo-se, +no fundo, a uma identidade absoluta de disposições affectivas e moraes, +não póde nunca affirmar-se com segurança em dois individuos ou n'um só +em periodos diversos. Dizer que uma idéa obsessiva repugna, pelo seu +contheudo, mais ou menos que uma outra, é dizer que as systematisações +provocadas por cada uma valem diferentemente para o Eu. Mas porque? Em +ultima analyse, porque as systematisações normaes com que ellas entram +em conflicto na consciencia são diversas ou desigualmente organisadas. Á +medida que a idéa obsessiva, quer por força propria, quer por frouxidão +das suas antagonistas, alarga a esphera da sua systematisação, a +dissociação do Eu progride, a extranheza da consciencia diminue e a +_angustia_ reduz-se proporcionalmente. E o limite d'esta reducção, que +theoricamente é zero, terá sido attingido, quando no campo da +consciencia não existam systematisações que directa ou indirectamente +não sejam provocadas pela idéa obsessiva. + +Mas, n'esta hypothese dois casos podem dar-se: ou as systematisações +normaes readquirem, decorrido um certo tempo, a sua supremacia, ou, mais +fracas, ellas se deixam vencer definitivamente pelas systematisações +pathologicas. No primeiro caso, a consciencia individual restabelece-se, +e da phase de derrota fica apenas a memoria confusa de uma sorte de +estado secundario e de sonho,--o que tem permittido comparar as +obsessões impulsivas a crises de epilepsia psychica; no segundo, um novo +Eu se fórma, tendo por substracto associações pathologicas, isto é, um +delirio systematisado. + +Tal foi, nos seus contornos, a doutrina que esboçamos em 1892 e +exposemos ainda em conferencias sobre a Paranoia no começo de 96, +contradictando os que pretendem achar contrastes irreductiveis entre +obsessão e delirio. Insubsistentes no terreno da psychologia abstracta, +esses contrastes não o são menos no campo da clinica, onde Tamburini, +Stephani, Séglas, Catzras e outros demonstraram, contrariamente á +cathegorica affirmação de J. Palret, que existem allucinações sensoriaes +e psychomotoras exclusivamente determinadas pela persistencia de idéas +obsessivas. Longe de serem antinomicos, a obsessão e o delirio +approximam-se pela communidade de origem: a obsessão seria, na ordem de +idéas que sustentamos, um começo de delirio systematisado, como este +seria uma obsessão progressiva, desenvolvendo-se á custa de successivas +associações. N'este sentido se interpreta sem esforço a expressão de +_paranoia rudimentar_ por que Arnadt, Morselli e outros designam a +obsessão. + +Mas, porque reputamos fundamentaes estas idéas, procuraremos dar-lhes +aqui todo o desenvolvimento que ellas comportam. + +O phenomeno pathologico da obsessão tem, como nota Dallemagne, um +representante physiologico no facto banal de uma idéa indifferente que, +sem sabermos como, nos surge na consciencia, interrompendo +disparatadamente o curso das nossas preoccupações e desapparecendo um +instante depois. Não ha aqui, em verdade, nem angustia, nem +irresistibilidade; ha, porém, o phenomeno da emergencia inexplicavel e +extranha de uma imagem, que o jogo consciente das idéas não provocou. A +systematisação não existe tambem: um momento presente na consciencia, a +idéa desappareceu sem deixar n'ella um vestigio. Imaginemos, porém, que +a idéa extranha pertence á cathegoria das impulsivas, e concedamos que o +acto n'ella representado seja de natureza cruel: atirar, por exemplo, á +linha férrea um companheiro de viagem. É evidente que o novo caso +differe muito do anterior. Em primeiro logar, a idéa tem desde logo um +começo de systematisação, por isso que mentalmente nos representamos uma +scena complicada e os seus possiveis effeitos: imagens motoras, imagens +sensoriaes, sentimentos, emoções, idéas de leis e principios moraes, +idéas de sanção penal, tudo entra em jogo, tudo se grupa, em torno da +idéa primitiva. A vontade lucta, como geralmente se diz, ou, como melhor +deveria dizer-se, as systematisações normaes, mais ou menos organisadas +e resistentes, repellem a systematisação anomala e intrusa. Esta, +todavia, não desapparece sem vestigios; impossibilitada de tomar as +reclamadas vias motoras externas, gastou-se na esphera emotiva, +dando-nos um instante de inquietação, um sobresalto, um começo de +angustia, traduzida, talvez, physicamente n'um subito pallor de face, +n'uma agitação momentanea do pulso. Mas figuremos que a idéa se reproduz +ainda, uma vez, duas, muitas vezes. A systematisação, que ella provocou +no inicial momento, repete-se, avigora-se, organisa-se; a lucta das +systematisações normaes antagonistas renova-se, e d'essa renovação +deriva o prolongar-se na consciencia a presença de uma systematisação +anomala, cada vez mais nitida e mais forte. As imagens motoras farão +nascer o impulso; e este, se as systematisações normaes o não conseguem +desviar n'um sentido diverso (a convulsão, o espasmo, o toque d'uma +campainha de alarme, o grito de aviso) acabará por ser satisfeito, +provocando uma _détente_, um allivio. + +Os caracteres da obsessão pathologica--origem invluntaria, angustia, +irrisistibilidade, satisfação consecutiva, estão realisados, O que +provocou a apparição d'estes caracteres? Em primeiro logar, as +systematisações determinadas pela idéa obsessiva, em segundo, a lucta +d'ellas com as systematisações normaes. Se a idéa obsessiva fosse +incapaz de provocar systematisações, se fosse indifferente, ter-se-hia +dissipado sem vestigios conscientes, como no caso que primeiro +figuramos; se, por outro lado, uma forte lucta se não tivesse realisado +entre antinomicos grupos ou systemas de factos psychicos, não existiria +angustia concomitante, nem satisfação consecutiva. A obsessão deu-se, +pois, á custa, de uma dissociação parcial e transitoria do Eu. Alarmada +e impotente, a consciencia assistiu ao desdobramento de um acto reflexo; +clara ao principio, ella obscureceu-se um instante--aquelle precisamente +em que todo o vasto e harmonico systema de idéas, de affectos e +impulsos, que constituem o Eu, se deixou vencer pelo systema antagonista +creado pela idéa imposta. + +Que esta seja impulsiva, emotiva ou meramente abstracta, pouco importa, +de resto; o quadro dos symptomas da obsessão é em todos os casos o +mesmo, desde que se estabelece lucta entre systematisações pathologicas +e normaes. É n'esta lucta que reside o caracter essencial da obsessão; +tudo o mais é secundario e derivado. + +Imaginemos, por exemplo, que a idéa de matar surge no espirito de um +criminoso-nato. Não encontrando em face d'ella, a offerecer-lhe +resistencia, a longa série de systematisações que se comprehendem na +designação synthetica de _senso moral_, essa-idéa exteriorisar-se-ha de +um modo puramente reflexo e automatico; fallaremos, então, de impulso +morbido, mas não será licito pronunciar o nome de obsessão. + +Figuremos ainda que uma idéa, embora não derivada do jogo normal e +logico do pensamento, é de natureza a lisongear os nossos gostos, as +nossas aspirações, os nossos desejos. Insubsistentes e chimericas, as +systematisações, ás vezes complicadas e extensas, que ella gera ao +irromper no nosso espirito, não provocam, todavia, uma lucta, é o estado +de espirito assim creado não póde chamar-se obsessão. Tal é o caso da +_réverie_, dos castellos no ar, de toda essa phantasiosa ideação em que, +a despeito do testemunho contradictorio da realidade, nos deixamos +apanhar involuntariamente. Quem, apenas remediado ou pobre, se não +sentiu uma vez tomado, sem saber como ou porque, da idéa de opulencia, e +não partiu d'ahi para o sonho dos palacios, das equipagens, da arte, da +phylantropia? Comquanto anomalo e inutil, este estado de espirito não é +obsessivo, porque não provoca urna _lucta_ de systematisações. + +Esta é, pois, repetimol-o, o signal, o seguro indicador da +obsessão:--aquillo em que ella essencialmente consiste. Mas não poderá +essa lucta, que de ordinario se renova, dando ás obsessões um caracter +_intermittente_, cessar pela victoria definitiva das systematisações +pathologicas, o que equivale a dizer--pela constituição de um delirio? +Cremos que sim; e para comprehendel-o basta admittir que a idéa +obsessiva é, na esphera inconsciente de que procede, um forte centro de +systematisações organisadas, capazes não só de vencerem a resistencia +das systematisações normaes, mas de as desviarem em proveito proprio. + +Já a victoria intermittente da obsessão sobre as systematisações +normaes denuncía a existencia de ignoradas estratificações psychicas, +tão extensas e importantes, comtudo, que podem por força propria ou por +fraqueza das suas antagonistas, provocar uma dissociação do Eu e n'um +dado instante occupar todo o campo da consciencia. Que se supponha maior +a sua força e menor ao mesmo tempo a das systematisações normaes +inhibitorias, e o triumpho será definitivo, porque toda a esphera +consciente não conterá mais do que associações pathologicas. Teremos o +delirio systematisado; e então, bem evidentemente, a dissociação do Eu, +que na obsessão é passageira, tornar-se-ha definitiva, substituindo-se á +personalidade normal vencida uma outra vencedora. + +Mas d'onde vem esta e como se formou? Eis o que a doutrina da evolução +permitte explicar. Na sua lenta e progressiva constituição, a +personalidade humana encontra-se successivamente representada por +systematisações psychicas de uma complexidade crescente, isto é, por +associações e inhibições cada vez mais extensas, traduzindo a acção do +mundo sobre o Eu e a reacção d'este sobre o mundo. Cada nova +systematisação formada, integrando elementos psychicos, é uma satisfação +dada ás naturaes affinidades d'estes; cada nova inhibição realisada, +dissociando elementos psychicos, provoca a formação de outras +systematisações em que ellas vão achar novamente logar e novamente +satisfazer uma affinidade propria. Assim se formam lentamente, mercê da +hereditariedade, que capitalisa as conquistas do espirito, successivas +estratificações systematicas de idéas, de emoções, de impulsos, n'uma +palavra, successivas _tendencias_, que representam em momentos dados um +espirito, um Eu, uma personalidade, emfim. + +As estratificações mais recentes são tambem as menos organisadas e as +mais instaveis; os systemas de que ellas se compõem, contrariando em +grande parte antigas e habituaes affinidades dos elementos psychicos, +subsistem n'um equilibrio que só o tempo tornará estavel. Mas o tempo, +quando se trata de evolução, não é a vida de um individuo, é a de +gerações seguidas; é, pois, necessario para que a estabilidade psychica +de uma personalidade se realise que a herança se faça sempre n'um mesmo +sentido, que a orientação ou finalidade do espirito não seja perturbada. +Se este facto se não dá, a estratificação mais antiga sobreleva a mais +recente e atravez d'ella rompe total ou parcialmente. Cada personalidade +é, pois, n'um dado momento a juxtaposição de subpersonalidades relegadas +para o inconsciente, mas tenazes, persistentes, susceptiveis de uma +integral ou parcial revivescencia. Por traz do _individuo_, que +representa as ultimas acquisições de uma civilisação, está a _especie_, +que representa todas as systematisações procedentes da acção lenta do +meio, capitalisada pela herança. + +N'esta ordem de idéas, as obsessões e os delirios systematisados +apparecem-nos _como resurreições parciaes e mais ou menos extensas de um +Eu ancestral_. É da lucta que se estabelece entre este e o Eu de +recente formação que derivam, de um lado, a _angustia_ que acompanha as +obsessões e o allivio que lhes succede quando a _détente_ se realisa, do +outro, a _inquietação_ dolorosa que faz cortejo aos delirios +systematisados na sua phase inicial e a tranquillidade relativa que +depois surge quando o paranoico definitivamente adquire uma convicção, +uma crença, quando, na phrase justa dos alienistas francezes, elle sabe, +emfim, _à quoi s'en tenir_. + +Mas como, repetimol-o, a lucta é tanto menos intensa quanto mais forte é +o Eu ancestral e mais instavel o de recente formação, a _angustia +obsessiva_ e a _inquietação paranoica_ podem reduzir-se a +insignificantes proporções: tal é o caso dos impulsos nos criminosos +habituaes e dos delirios _d'emblèe_ nos paranoicos originarios. + + + +VII--A PARANOIA E A DEGENERESCENCIA + +Extensão do conceito de degenerescencia; desaccordo dos auctores--Causas +de degenerescencia; opiniões diversas--A degenerescencia e a observação +clinica; modo de vêr de Magnan; opinião de Krafft-Ebing--Necessidade de +um ponto de vista geral; seu caracter anthropologico--A definição de +Morel; o seu defeito essencial--A noção do atavismo em psychiatria; as +idéas de Magnan e a sua falta de fundamento--Ponto de vista de Tanzi e +Riva; documentos justificativos--A Paranoia é uma degenerescencia. + + +Tem ainda hoje nos livros da especialidade um caracter eminentemente +obscuro e vago a noção da _degenerescencia_. Nada o prova melhor que o +conjuncto de contradictorias opiniões sobre a sua mesma extensão e sobre +as suas origens. + +Que psychopatas abrange a degenerescencia? + +Emquanto certos auctores, á maneira de Mendel, só consideram degenerados +aquelles que, pela presença de estygmas physicos de uma extrema +decadencia, profundamente se afastam do typo humano commum, outros ha +que seguindo a tradição de Morel, descobrem a degenerescencia onde quer +que surjam indicios de uma constitucional desharmonia de funcções +psychicas, de um originario desequilibrio mental, ainda quando +inteiramente compativel com a vida collectiva e mesmo com parciaes +superioridades de intendimento. + +O terreno que pizam os primeiros tem tanto de seguro e incontroverso +quanto de infecundo: reduzida a cobrir, o grupo dos idiotas, alguns +loucos moraes, physicamente disformes, e um ou outro delirante precoce, +somaticamente estygmatisado, a degenerescencia é um conceito inerte, sem +valor em clinica e sem applicações em nosologia psychiatrica. +Suggestivo, o ponto de vista dos segundos é, todavia, impreciso, como o +revella a comparação dos auctores, pois que, os mesmos loucos são, +segundo uns e deixam de ser, segundo outros, comprehendidos no grupo dos +degenerados. Assim, emquanto para Magnan não são degenerados uns certos +paranoicos, os delirantes chronicos, para Krafft-Ebing são-no todos, +como vimos; assim, os intermittentes, que a grande maioria dos auctores +allemães e italianos consideram como exemplares degenerativos, formam +para Magnan um grupo de transição entre os degenerados e os +psychonevroticos; assim, ainda, os obsessivos, que para o psychiatra +francez são sempre degenerados, não passam aigumas vezes para Morselli +de neurasthenicos vulgares. + +Este grave desaccordo sobre a extensão do conceito, repete-se desde que a +questão etiologica se aborda. + +Que origens reconhece a degenerescencia? + +Ao passo que uns, como J. Falret, exclusivamente incriminam a +hereditariedade na producção dos degenerados, outros responsabilisam, +como Cotard, as doenças infantis, como Boucherau, as doenças do feto, ou +ainda, como Christian, o estado mental dos paes no acto da procreação. +Pelo seu lado, Magnan reconhece todas estas causas, considerando, +todavia, preponderante e typica a hereditariedade, + +Ora, para se poder fallar da hereditariedade, como agente de psychoses +degenerativas, quando se sabe que ella é a causa por excellencia de +todas as doenças mentaes, seria necessario possuir-se um meio de +determinar _à priori_ o momento em que ella deixa de ser uma simples +_predisposição_ generica para tornar-se um factor especial de anomalias +psychicas; por outros termos, seria necessario precisar onde começa o +que Magnan denomina a _impregnação hereditaria_. + +Se isto fosse possivel, teriamos na etiologia um excellente criterio +para separar as loucuras degenerativas das que o não são: todas as +fórmas nosologicas exhibidas por loucos impregnados de herança +pertenceriam ao primeiro grupo, como pertenceriam ao segundo as +exteriorisadas por simples predispostos. A analyse clinica, +denunciando-nos depois a symptomatologia e a marcha das psychoses dos +dois grupos, dar-nos-hia meios de reconhecer as equivalencias +hereditarias, se ellas existem, como pretendem Boucherau, Cotard e +Christian. Nada mais simples: dado que uma psychose offerecesse os +caracteres peculiares das hereditarias, seria um degenerado o seu +portador; e, quando a herança morbida não podesse ser incriminada, +outras causas teriam de invocar-se de _igual valor pathogenico_. + +Mas, precisamente succede que ninguem ainda determinou, nem _à priori_ +parece determinavel a tara hereditaria em que a _predisposição_ acaba e +a _impregnação_ começa. + +Nem o _numero_ de psychoses ancestraes, nem a sua _convergencia_ nas +duas linhas de progenitores constituem motivo sufficiente para affirmar +a impregnação hereditaria e a degenerescencia de um louco, pois que a +pratica nos depara ás vezes alienados que, tendo, aliás, uma pesada +herança psychopatica n'uma das linhas directas ou mesmo uma herança +convergente, exhibem fórmas nosologicas insusceptiveis de se +distinguirem,--quer pelos symptomas, quer pela marcha, quer, emfim, pela +terminação, das psychonevroses puras, isto é, das loucuras accidentaes, +das loucuras dos simples predispostos. + +Em contraste com estes casos, outros apparecem de um caracter +univocamente admittido como degenerativo, em que, todavia, a analyse +clinica, até onde ella póde ser feita, não surprehende mais do que uma +psychose em qualquer das linhas directas ou collateraes; isto succede, +não raro, nos debeis e imbecis, procedentes de pae ou mãe alcoolicos. + +Dir-se-ha, talvez, que n'estas considerações abusivamente restringimos o +papel e alcance da hereditariedade, fallando apenas de psychoses +ancestraes, quando deveriamos com os auctores contemporaneos fallar +tambem, pelo menos, das nevropatias. + +Mas quem não vê que n'este novo terreno o problema se complica sem se +resolver? Que para a tara hereditaria de um louco contribuam sómente as +psychoses ancestraes ou tambem as nevropatias, ou ainda, generalisando, +as diatheses, é seguro que jámais se determinará _á priori_, onde a +_predisposição_ termina e a _impregnação_ principia. + +Tacita ou explicitamente é isto reconhecido pelos proprios auctores que, +á maneira de Magnan e de Krafft-Ebing, assignalam á degenerescencia uma +pluralidade de causas. Buscando na observação clinica dos symptomas e na +marcha das affecções mentaes os indicios da degenerescencia, é evidente +que elles abandonam o exclusivo criterio etiologico. + +Mas se, d'este modo, uma fonte de divergencias cessa, outra, como vamos +vêr, immediatamente surge. + +Que anomalias symptomaticas e evolutivas da mentalidade psychiatrica +deverão ser consideradas como indicios ou estygmas de degenerescencia? + +A este proposito um evidente desaccordo recomeça. Não sendo as doenças +mentaes em si mesmas senão anomalias do espirito, o problema posto é o +de procurar a anormalidade no anormal. Com que criterio? + +Magnan não hesita em adoptar _o estado mental_ do louco antes da invasão +da psychose. Ouçamos as suas proprias palavras: «O grande grupo dos +predispostos simples, faz-se notar por um caracter essencial, +invariavel, pathognomonico: até ao dia em que cahem na loucura, os +doentes que o formam são julgados _normaes_; comparados aos individuos +que nunca se tornam alienados, nenhuma differença apparente revellam. É +que n'elles a predisposição não adquiriu ainda um grau sufficiente para +se traduzir em caracteres especificos. Esta predisposição é latente e +não produziu senão um resultado: fazer do cerebro um logar de menor +resistencia e um terreno favoravel, crear uma situação em virtude da +qual as causas de desorganisação do equilibrio intellectual terão uma +influencia mais marcada do que em outros e uma acção mais duradoura e +mais energica. O factor _predisposição_ é evidentemente muito variavel +como importancia; o seu valor não póde apreciar-se, á falta de criterio +proprio, a não ser entre dois casos extremos. Como quer que seja, a +resistencia cerebral dos predispostos deve variar em razão inversa da +importancia do factor _predisposição_ ... N'uma outra grande divisão dos +predispostos, collocamos os doentes cuja personalidade intellectual e +moral é completamente transformada desde a base desde o nascimento pelo +facto da aggravação progressiva do factor _predisposição_. Este grupo +comprehende os predispostos com _degenerescencia_»[1]. + + [1] Magnan et Legrain, _Les dégénérés_, pag. 58. + +Nada, como se vê, apparentemente mais claro: emquanto o simples +predisposto é um ser _normal_ até á invasão da doença psychica, o +degenerado é _ab ovo_ um ser anormal. Resta sómente determinar em que +essa anormalidade consiste. Eis como Magnan se explica a este proposito: +«Nos degenerados, a predisposição, qualquer que seja a sua natureza +(hereditaria ou adquirida), produziu uma perturbação profunda das +funcções psychicas. Desde a origem, desde o nascimento, fazem-se elles +notar por anomalias quer do sentimento quer da intelligencia, dos +instinctos e das inclinações, quer de todas estas espheras ao mesmo +tempo. Adquiriram estygmas que os fazem reconhecer immediatamente e +agrupar á parte. Além d'isso a tara degenerativa, de que são portadores, +traduz-se muitas vezes por anomalias physicas, cuja significação vem +junctar-se á das anomalias psychicas concomitantes. Todos estes estygmas +são permanentes, nascem com o individuo e só com elle se extinguem. Em +caso algum, estes doentes pensam, sentem ou actuam como os individuos de +cerebro normal ou como os predispostos simples. Degenerados por +accumulação de taras hereditarias, na quasi totalidade dos casos, podem +sel-o, comtudo, algumas vezes pela intervenção de momentos etiologicos +potentes, cuja acção desorganisadora se exerce sobretudo nas épocas da +evolução cerebral, isto é, na primeira infancia: doenças agudas graves, +taes como a variola, a escarlatina e a febre typhoide, acompanham-se de +lesões cerebraes irreparaveis. Póde-se admittir ainda a acção +degenerativa das doenças fetaes, dos traumatismos, n'uma palavra, de +todas as causas sufficientemente fortes para lesar materialmente os +centros nervosos ou para impedir o seu desenvolvimento. Mas, qualquer +que seja a causa degenerativa, hereditaria ou adquirida, os productos +são identicos, e entre si comparaveis; são portadores de caracteres +clinicos proprios a fazel-os reconhecer em todos os casos, e +significativos da tara hereditaria. Comparados aos seus ascendentes +directos, differem d'elles totalmente no ponto de vista das aptidões +cerebraes: encontram-se visivelmente n'uma situação mental inferior; são +seres novos, anormaes, de mecanismo cerebral falseado. A sua situação +mental define-se n'uma palavra: o equilibrio entre todas as funcções +cerebraes acha-se destruido e não póde recuperar-se. Fóra mesmo dos +casos de verdadeira alienação, esta falta de equilibrio é flagrante. +Quando deliram, as suas concepções revestem caracteres pathognomonicos: +surgem ás menores causas occasionaes, indicio de extrema instabilidade +do equilibrio mental. Fóra das causas moraes, cuja influencia é aqui +preponderante em razão da extrema emotividade particular d'estes +individuos, os proprios momentos physiologicos--a puberdade, a +menopause, os menstruos, a prenhez, são causas de perturbação cerebral. +N'elles, as doenças geraes acompanham-se frequentemente de delirio; o +cerebro tornou-se o _locus minimae resistentiae_. Os accessos delirantes +não teem uma evolução propria: affectam todas as fórmas possiveis e +substituem-se com a maior facilidade. A systematisação e a cohesão das +concepções delirantes é muito fraca. Não existe nenhuma tendencia á +systematisação progressiva. Emfim, os degenerados de maior tara são +candidatos a uma demencia precoce, quer primitiva, quer +post-delirante»[1]. + + [1] Magnan et Legrain, _Obr. cit._, pag. 60 a 62. + +Como se infere d'estas passagens, que citamos _in extenso_, porque +resumem toda a doutrina da Escóla de Sant'Anna sobre o assumpto, não ha +verdadeiramente, como poderia parecer, um só criterio, _à posteriori_, o +estado mental predelirante, para determinar a presença da +degenerescencia, mas muitos. Ao lado, com effeito, de uma estygmatisação +psychica, essencialmente consistindo n'um original e irreparavel +desequilibrio de funcções cerebraes, apparece-nos a estygmatisação +somatica, a feição polymorpha e a marcha irregular do delirio, e, ainda, +a desproporção entre a causa occasional, que incide sobre o prediposto, +e o effeito que ella produz. + +Ora, não é inteiramente facil conjugar entre si todos estes criterios. + +Se o degenerado é, como Magnan proclama, um _predisposto maximo_, e se o +grau de predisposição é inversamente proporcional ao das causas +occasionaes, porque não é degenerado o delirante chronico, no qual uma +vesania irreparavel e perpetua surge as mais das vezes sem causa? +Responderá Magnan que o delirante chronico é normal até á invasão da +vesania. Mas quem não vê que, se o eminente alienista se não engana, +affirmando tal, os seus dois criterios brigam? Por outro lado, como já +vimos tambem, a estygmatisação physica apparece algumas vezes nos +delirantes chronicos. Como conciliar, n'estes casos, o criterio das +anomalias somaticas, indicando degenerescencia, com o da systematisação +progressiva do delirio, que a exclue? + +Por outro lado, ainda, se o desequilibrio psychico é a principal +caracteristica das degenerescencias, porque não considerar degenerados +os hystericos e os epilepticos, tão profundamente desharmonicos sempre +não manifestações da vida cerebral? + +O criterio clinico de Krafft-Ebing é mais extenso que o de Magnan. A +presença de um estado de desequilibrio mental antes da invasão da +doença, sendo para o psychiatra allemão de uma altissima importancia, +não constitue; comtudo, como para o francez, um caracter essencial e +imprescindivel do diagnostico da degenerescencia. Fazendo, com enfeito, +a distincção entre os predispostos simples e os degenerados, +Krafft-Ebing escreve: «Póde ser objecto de discussão saber se um +individuo normal até ao apparecimento da psychose, mas procedente de +geração psychopatica, deve collocar-se n'um ou n'outro grupo»[1]. O +valor maior ou menor da causa occasional póde servir para dissipar as +duvidas a este proposito, pois que um dos caracteres distinctivos das +psychoses dos degenerados reside precisamente no facto da sua eclosão +espontanea ou sob a influencia de minimos agentes provocadores. Este +criterio, sobrelevando, na doutrina de Krafft-Ebing, o da presença de um +desequilibrio mental anterior á psychose, alarga o ambito da +degenerescencia, introduzindo ahi doenças, que Magnan excluiria sob +pretexto da normalidade do individuo até á invasão d'ellas. Estão n'este +caso, por exemplo, alguns delirios systematisados post-menopausicos. + + [1] Krafft-Ebing, _Trattato clinico pratico delle malattie mentali_, + trad. It., vol. II, pag. 3. + +Krafft-Ebing separa-se ainda de Magnan, fazendo da periodicidade um dos +signaes das psychoses degenerativas, no que é seguido por consideravel +numero de psychiatras. + +Os confrontos e citações feitos bastam para mostrar como são numerosas +as dissidencias dos auctores sobre a constituição nosologica do grupo +dos degenerados. + +Concluiremos com Pierret que a _degenerescencia não é uma doutrina +medica_ e que _deve reputar-se um crime ensinal-a?_. A nosso vêr, tem +tanto de radical e temeraria, como de estreita, uma similhante opinião; +proclamal-a, equivale a desconhecer que a maior parte dos progressos +theoricos da psychiatria se devem precisamente á introducção d'esse +conceito, que, ainda vago e controvertido, póde, comtudo, precisar-se. +Porque, devemos notal-o, se as divergencias á hora actual são muitas, +não são poucos, nem de insignificante valor no terreno da nosologia, os +pontos sobre que se estabeleceu um definitivo accordo. O que a nós se +nos affigura é que todas as difficuldades e todos os debates n'este +assumpto procedem exclusivamente da falta de um ponto de vista geral e +superior. + +Quer considerem a degenerescencia nas suas causas, quer nas suas +manifestações clinicas, teem os alienistas contemporaneos tratado esta +noção como se ella houvesse nascido no terreno da psychiatria e d'elle +fosse tributaria, quando a verdade é que, referivel a todos os seres +vivos, ella pertence á biologia, onde tem um significado que não é +licito esquecer, e que, nos seus traços essenciaes, deverá subsistir, +quaesquer que sejam as suas applicações. + +Isto viu lucidamente Morel, quando, ao trazer para a pathologia mental +essa noção, subordinou o seu sentido psychiatrico ao anthropologico, e +este ao da biologia. Infelizmente, o preconceito religioso não permittiu +a este homem de genio fazer de um modo correcto essa subordinação, em si +mesma necessaria e eminentemente philosophica. + +O que é, na sua inicial accepção biologica, a degenerescencia? O desvio +pejorativo de um typo natural, a perda, no individuo, das qualidades +caracteristicas da especie. Anthropologicamente considerada, a +degenerescencia não póde, pois, significar senão a inferioridade do +individuo em relação ao typo natural humano. Mas qual é esse typo? Foi a +este proposito que na doutrina de Morel se insinuou o prejuizo +theologico: esse typo, conservado nas tradições sagradas, teria sido o +homem primitivo, paradisiaco depositario de todas as perfeições +especificas, mas condemnado, _pelo grande facto da queda original_, a +condições degradantes de lucta com a natureza. + +A conclusão a tirar d'este modo de vêr, seria que todos os homens são +degenerados; e se, com gravissima offensa da logica, Morel a evitou, não +foi senão introduzindo abusivamente a noção de _doença_ no conceito de +degenerescencia, que define como _desvio morbido de um typo primitivo_. +A que vem aqui o extranho qualificativo? Se existiu um typo humano +especificamente perfeito, que as condições, para elle novas, de +conflicto com o mundo começaram a degradar, é evidente que essas +condições, pezando sobre os seus descendentes e imprimindo-lhes +caracteres, que a hereditariedade transmitte, são causas para todos +elles de mais ou menos extensos desvios. E estes, ou são sempre morbidos +ou não o são nunca. + +Para escapar a esta conclusão, distinguiu Morel entre si essas causas +degradativas, affirmando que umas se limitam a provocar variedades ou +_raças_, emquanto outras conduzem a verdadeiras _monstruosidades_, de +existencia felizmente limitada por uma maravilhosa e providencial +esterilidade. D'estas duas ordens de desvios, só os ultimos +constituiriam degenerescencias, segundo Morel. + +Faz dó vêr um homem de genio a debater-se contra phantasmas; e mais +entristece reconhecer que os seus erros se transmittiram até nós, +reapparecendo em trabalhos contemporaneos, como os de Magnan. + +Quem não vê que os iniciaes desvios de typo normal, qualquer que elle +seja, podem, por condições imprevistas de cruzamento, progredir ou +attenuar-se? E, sendo assim, quem não vê tambem que uma anomalia de +ordem psychica ou moral póde tanto desvanecer-se nos descendentes como +transmittir-se e accentuar-se até á monstruosidade? O proprio Morel, +reconhecendo a tendencia da natureza á reconstituição do typo especifico +normal, admittiu a _regeneração_ ao lado da _degenerescencia_. A +monstruosidade não é, pois, a degenerescencia mesma, mas o seu termo, o +seu limite, aquillo para que no processo degradativo se caminha, dadas +infelizes condições geradoras. + +Mas, se o criterio de Morel foi falseado pela intervenção de um extranho +elemento religioso, é certo que a sua maneira de atacar o problema é a +unica legitima. + +É, com effeito, como um desvio do typo humano que a degenerescencia tem +de ser definida em anthropologia. Sómente, esse typo tem de ser +procurado, não nos dominios da tradição e para traz de nós, mas no +terreno da previsão scientifica e para diante. Não sendo o homem +primitivo da lenda, que a anthropologia reduziu ás humildes proporções +de um animal apenas differenciado dos mamiferos superiores, esse typo é +um ideal para que podemos suppôr que a humanidade caminha e de que, na +sua evolução, procura incessantemente approximar-se. + +Mas como determinar-lhe os attributos sem cair nas incertezas da +phantasia? Surprehendendo as linhas de evolução physica e psychica da +nossa especie a partir d'esse remoto representante selvagem até hoje. +Assim, para só fallarmos da evolução psychica, nota-se que, +intellectualmente, o homem partiu da ideação theologica para attingir a +scientifica, que, nos dominios do sentimento, derivou de um egoismo +feroz para chegar a affectos altruistas, emfim, que, no campo da acção, +procedeu de um automatismo impulsivo para conquistar a vontade. +Conhecida esta orientação, está achado o meio de approximadamente +constituir o typo, cujos regressivos desvios, sejam quaes forem as +causas que os provoquem, constituem degenerescencias no sentido +anthropologico do termo. + +Este sentido, porém, não é precisamente o da psychiatria. + +Anthropologicameme considerada, a loucura é sempre uma degenerescencia, +porque em todas as suas multiplas fórmas implica um desvio regressivo, +total ou parcial, extenso ou limitado, provisorio ou definitivo do typo +que definimos. + +Psychiatricamente, porém, não é assim. Se o desvio é reparavel dentro da +vida individual, se elle constitue um accidente ephemero, dependendo +muito menos de uma falta inicial e congenita de resistencia do que da +gravidade e continuidade das causas productoras, a loucura não se +considera degenerativa; é-o, pelo contrario, se constitue um estado +irreparavel, subsistente, espontaneo ou derivado de insignificantes +causas e accusando, portanto, uma inferioridade constitucional. + +Mas já nas loucuras não degenerativas, nas psychonevroses, o germe da +degenerescencia existe; cruzamentos infelizes o desenvolverão na +descendencia, mercê da hereditariedade; e eis porque, podendo ter as +mais variadas causas, as loucuras degenerativas teem sido chamadas +_hereditarias_. Por outro lado, nas fórmas degenerativas menos graves, a +regeneração é ainda possivel, mercê de cruzamentos felizes, pois que a +hereditariedade tanto capitalisa as boas como as mas tendencias. Isto é +dizer que a distincção psychiatrica das psychonevroses e das +degenerescencias não tem nada de absoluta, desde que, em vez de +considerarmos os casos extremos das duas escalas, fixamos os mais +proximos. + +Dizer com Magnan que o _atavismo_ não implica degenerescencia, porque um +typo regressivo seria _normal_, emquanto que um degenerado é um +_doente_, que o primeiro, entregue a si, caminharia para diante, como +fizeram os o contemporaneos da época por elle representada, ao passo que +o segundo marcharia para a extincção pela infecundidade, é commetter um +duplo erro: não comprehender que o atavismo humano é sempre parcial e +incompleto, consistindo na revivescencia _d'algumas_ qualidades +ancestraes, e não reconhecer que a regeneração aos degenerados +superiores se torna, em certas condições, possivel. Pois é acaso fatal +que a descendencia de um phobico ou de um impulsivo, que são para Magnan +incontestaveis degenerados, venha a liquidar pela idiotia esteril? + +E esse phobico e esse impulsivo não são, pelo facto mesmo do seu +_terror_ e do seu _automatismo_ indisciplinado, exemplares de atavismo +parcial? + +Comprehende-se que, a não fazermos um livro do que deve ser apenas um +final capitulo d'este _Ensaio_, nos cumpre suspender considerações, que +o assumpto comporta, mas que se não prendem immediatamente com o nosso +thema. O que acabamos de dizer sobre as degenerescencia em geral, +conjugando-se com o que foi dito sobre o atavismo intellectual dos +delirantes systematisados, justifica largamente a conclusão de que a +Paranoia é uma degenerescencia. + + + + +BIBLIOGRAPHIA + + +TRABALHOS FRANCEZES: + + +FOVILLE--_La folie avec prédominence du délire des grandeurs_; + +GARNIER--_Des idées de grandeur dans le délire de persécutions_; + +GÉRENTE--_Du délire chronique_; + +KÉRAVAL--_Des délires plus on moins coherents designés sons le nom de +Paranoia_ (Archives de Neurologie, vol. XXIX); + +LEGRAIN--_Du délire chez les dégénérés_; + +LASÈGUE--_Le délire de persécutions_; + +MAGNAN--_Le délire chronique à evolution systematique_; + +MAGNAN--_Leçons cliniques sur les maladies mentales_; + +MAGNAN ET LEGRAIN--_Les dégénérés_; + +RÉGIS--_Manuel pratique de médecine mentale_; + +SÉGLAS--_La Paranoia_ (Archives de Neurologie, vol. XIII). + + + +TRABALHOS ALLEMÃES: + + +CRAMER--_Abgrenzung und Differencial Diagnose der Paranoia_ (Allg. +Zeitschr. f. Psychiatrie, vol. II); + +FRITSCH--_Die Verwirrtheit_ (Jahbücher f. Psych., vol. II); + +KRAFFT-EBING--_Lehrbuch der Psychiatrie_; + +KRAEPELIN--_Compendium der Psychiatrie_; + +MEYNERT--_Klinische Vorlesüngen über die Psychiatrie_; + +MENDEL--_Paranoia_ (Real Encyclopedie); + +MERKLIN--_Studien über die primäre Verrücktheit_; + +SCHÜLE--_Klinische Psychiatrie_; + +SALGO--_Compendium der Psychiatrie_ + +WERNER--_Die Paranoia_. + + + +TRABALHOS ITALIANOS: + + + +AMADEI E TONNINI--_La Paranoia e la sue forme_ (Archivio italiano per le +malattie nervose, 83-84); + +BUCCOLA--_Sui delirii sistematisati_ (Rivista di Freniatria, vol. VIII); + +TANZI--_La Paranoia_ (Rivista di Freniatria, vol. x); + +TANZI E RIVA--_La Paranoia_ (Rivista di Freniatria, vol. X, XI e XII); + +TONNINI--_La Paranoia secundaria_ (Rivista di Freniatria, vol. XIII). + + + +TRABALHOS INGLEZES E NORTE-AMERICANOS: + + +CLOUSTON--_Clinical lectures on mental diseases_; + +HAMMOND--_A Treatise on insanity_; + +HAC TUKE AND BUCKNILL--_A Manual of Psychological medicine_; + +MAUDSLEY--_Pathlogy of Mind_; + +SPITZKA--_A Manual of Insanity_. + + + + +INDICE + +PREFACIO + + + +PRIMEIRA PARTE + +HISTORIA DOS DELIRIOS SYSTEMATISADOS + + +I--PHASE INICIAL + +De Areteo a Esquirol--Confusão dos delirios systematisados com a +melancolia--A monomania intellectual e as suas fórmas depressiva e +expansiva. + + +II--PHASE ANALYTICA + +De Lasègue a J. Falret e de Griesinger a Snell e Sander--O delirio de +perseguições; a megalomania; o delirio dos perseguidores; a Verrücktheit +secundaria; a Verrücktheit originaria--Começo de interpretação +pathogenica. + + +III--PHASE SYNTHETICA + +De Morel a Magnan; de Westphal a Cramer; de Buccola a Tanzi e Riva--A +loucura hypocondriaca; o delirio chronico; a loucura parcial; a +Verrücktheit aguda e chronica; a Paranoia; a delusional +insanity--Determinação pathogenica. + + + +SEGUNDA PARTE + +EXAME CRITICO DO CONCEITO DE PARANOIA + + +I--O DELIRIO CHRONICO + +A etiologia; a marcha; o prognostico--Confronto com os delirios +polymorphos--A passagem do periodo persecutorio ao ambicioso não é +vulgar; a passagem á demencia é excepcional--O delirante chronico é um +degenerado; importante observação pessoal--A prognose dos delirios +polymorphos é muitas vezes a do Delirio Chronico--Dois conceitos de +Delirio Chronico no espirito de Magnan; génese do segundo. + + +II--A VERRÜCKTHEIT AGUDA + +Dois grupos de psychoses sob a mesma designação; a confusão mental e os +delirios polymorphos--A Verrücktheit e os delirios incoherentes, critica +das opiniões de Schüle--A Verrücktheit e os delirios systematisados de +marcha aguda; a critica das opiniões de Krafft-Ebing--Observação +pessoal--Dissociação dos conceitos de Paranoia e Verrücktheit. + + +III--A VERRÜCKTHEIT SECUNDARIA + +Os delirios systematisados que succedem ás psychonevroses; sua +interpretação pathogenica--A opinião de Tonnini; modificação introduzida +--Dissociação dos conceitos de Paranoia e Verrücktheit. + + +IV--O RACIOCINIO E OS DELIRIOS PARANOICOS + +Erros doutrinarios de Lasègue e Foville sobre a interpretação +pathogenica dos delirios systematisados; como se perpetuaram na +psychiatria francesa--A autoobservação e o raciocinio não representam um +papel na génese dos delirios paranoicos--Depoimento dos factos--A +primitividade dos delirios paranoicos; sua origem ideativa. + + +V--AS ALLUCINAÇÕES E OS DELIRIOS PARANOICOS + +VI--AS OBSESSÕES E OS DELIRIOS PARANOICOS. + +VII--A PARANOIA E A DEGENERESCENCIA + +Extensão do conceito de degenerescencia; desaccordo dos auctores--Causas +de degenerescencia; opiniões diversas--A degenerescencia e a observação +clinica; modo de vêr de Magnan; opinião de Krafft-Ebing--Necessidade de +um ponto de vista geral; seu caracter anthropologico--A definição de +Morel; o seu defeito essencial--A noção do atavismo em psychiatria; as +idéas de Magnan e a sua falta de fundamento--Ponto de vista de Tanzi e +Riva; documentos justificativos--A Paranoia é uma degenerescencia. + + +BIBLIOGRAPHIA + +*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 14503 *** diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize +this eBook outside of the United States should confirm copyright +status under the laws that apply to them. diff --git a/README.md b/README.md new file mode 100644 index 0000000..ad58441 --- /dev/null +++ b/README.md @@ -0,0 +1,2 @@ +Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for +eBook #14503 (https://www.gutenberg.org/ebooks/14503) diff --git a/old/14503-8.txt b/old/14503-8.txt new file mode 100644 index 0000000..ea6aa1e --- /dev/null +++ b/old/14503-8.txt @@ -0,0 +1,5664 @@ +The Project Gutenberg eBook, A Paranoia, by Julio de Mattos + + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + + + + +Title: A Paranoia + +Author: Julio de Mattos + +Release Date: December 28, 2004 [eBook #14503] + +Language: Portugese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + + +***START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A PARANOIA*** + + +E-text prepared by Miranda van de Heijning, Larry Bergey, and the Project +Gutenberg Online Distributed Proofreading Team from images generously made +available by the Bibliothque nationale de France (BnF/Gallica) at +http://gallica.bnf.fr + + + +A PARANOIA + +Julio de Mattos + +ENSAIO PATHOGENICO SOBRE OS DELIRIOS SYSTEMATISADOS + + _...Ci iroviamo proprio faccia a faccia col nudo + querito della pura pazzia._ + +EUGENIO TANZI + +Lisboa +Livraria Editora +Tavares Cardoso & Irmo +5, Largo de Cames, 6 + +1898 + + + + + + + +A MEMORIA AMIGA DO PROFESSOR SOUSA MARTINS + + + + +PREFACIO + + +Ao passo que na sua maioria as doenas hoje estudadas pelos alienistas +pertencem no fundo pathologia interna, e s pelo predominio, mais +apparente s vezes do que real, dos seus symptomas psychicos se +apropriaram a designao de _mentaes_, os delirios systematisados, +esses, pela ausencia de caracteristicas leses, pela falta de privativas +causas determinantes e pela carencia de symptomas funccionaes +objectivamente apreciaveis, constituem a verdadeira loucura, a psychose +por excellencia, n'uma palavra, o proprio e irreductivel dominio da +psychiatria. + +Isto dizer que a observao clinica no pde, ella s, determinar a +gnese d'estes delirios, pois que o confronto dos dados psychicos com os +somaticos e etiologicos , no caso sujeito, impraticavel. + +Foi, todavia, pelo exclusivo exame do hypocondriaco, do perseguido, do +ambicioso, que os alienistas buscaram at ha pouco surprehender a +pathogenia dos delirios essenciaes. D'aqui o natural insuccesso dos seus +trabalhos, melhor do que nunca evidenciado nos ultimos debates das +sociedades psychiatricas de Paris e de Berlim, em que se no fez, por +confisso dos proprios oradores, mais do que obscurecer e confundir o +problema posto. + +Por outro caminho,--introduzindo no controvertido thema a criterio da +evoluo, seguiram, felizmente, na Italia contemporanea eminentes +pshychiatras. + +Inquiridos clinicamente os delirios essenciaes nos seus symptomas e na +sua marcha, uma coisa resta ainda fazer para os interpretar: o estudo do +delirante, considerado, no em si mesmo, como individuo, ou nos seus +ascendentes immediatos, como membro de uma certa familia, mas +anthropologicamente na sua vasta ancestralidade, como representante de +uma especie em plena evoluo. + +Na sua marcha normal no segue o Espirito ao acaso, mas +_progressivamente_ por linhas de ideao desde muito entrevistas, seno +inteiramente definidas; quem nos affirma que na sua marcha anormal elle +no segue _regressivamente_ pelas mesmas prefixas e inflexiveis linhas +ideativas? + +Se a dissoluo da memoria se apagam primeiro os factos recentes e s +depois os remotos, primeiro os nomes e s por ultimo os adjectivos e os +verbos; se na dissociao da motricidade se perdem em primeiro logar os +actos conscientes e s por fim os habituaes e instinctivos; se na +desaggregao affectiva so os primeiros a fazer naufragio os +sentimentos altruistas e s em derradeiro logar se extinguem os +egoistas, possivel e provavel mesmo que na esphera propriamente +conceptiva a marcha pathologica se realise, ao menos em certos casos, +n'um sentido tambem regressivo. Ora, segundo a escla italiana, isto se +d, com effeito, nos delirios systematisados essenciaes, manifestao. + + + + +PRIMEIRA PARTE + +Historia dos delirios systematisados + + + +I--PHASE INICIAL + +De Areteu a Esquirol--Confuso dos delirios systematisados com a +melancolia--A monomania intellectual e as suas frmas depressiva e +expansiva. + + +Se conheceram os delirios systematisados, no deixaram d'isso documento +os escriptores que precederam a nossa era. smente a datar do primeiro +seculo, em Areteu e Celio Aureliano, que encontramos incontestaveis e +inequivocas referencias aos perseguidos. + +Occupando-se dos melancolicos, escrevia, com effeito, o primeiro d'estes +medicos: Muitos receiam que lhes propinem venenos; os seus sentidos +adquirem um redobramento de finura e de penetrao que os torna +suspeitosos e de uma habilidade extrema em verem por toda a parte +disposies hostis[1]. Pelo seu lado, Celio Aureliano, fallando dos +mesmos doentes, affirmava que muitos experimentam uma desconfiana +continua, um permanente receio de imaginarias armadilhas[2]. + + [1] Areteu,_De Melancholia_, apud Trelat, _Recherches historiques sur la + folie,_ pag. 10 + + [2] Vid. Trelat, _Obr. cit._, pag. 38. + +A confuso que n'estas passagens se nota entre perseguidos e +melancolicos, subsistir, como veremos, at muito perto de ns e merece +explicar-se desde j. + +Definindo a melancolia animi angor in una cogitatione defixus, Areteu +caracterisava esta doena por duas ordens diversas de factos a que dava +igual valor: de um lado, o phenomeno emotivo, consistindo n'um estado de +angustia _animi angor_, do outro, o facto intellectual de uma concepo, +delirante absorvendo e fixando o espirito (_in una cogitatione +defixus_). Pouco a pouco, porm, a considerao de um delirio limitado +foi, talvez por mais apparente, predominando sobre a de um estado mental +depressivo na caracterisao da melancolia, como se v nos auctores que +succederam a Areteu. Procurando, com effeito, differenciar a melancolia +da mania, elles no o faziam pondo em contraste os estados emotivos que +acompanham estas vesanias, mas proclamando que na primeira o delirio +limitado, unico e absorvente, ao passo que na segunda elle multiplo, +geral e dispersivo. + +Repetindo-se atravez dos tempos, esta doutrina que faz prevalecer o +elemento intellectual sobre o emotivo, conquista de tal modo as opinies +que no seculo XVII melancolia e delirio parcial tornam-se termos +equivalentes. Assim Sennert a definia: Uma concentrao da alma sobre a +mesma ida ou um delirio que se exerce sobre um pensamento, falso quasi +exclusivo.[1] + + [1] Vid. Morel,_Trait des maladies mentales_, pag. 54. + +Nenhuma ida de emoo depressiva e dolorosa se encontra n'esta e +analogas definies, em que, pelo contrario, a unidade do delirio figura +como elemento exclusivo. O _angor animi_ de Areteu desapparecera, +restando apenas da antiga definio o conceito de um espirito absorvido +_in una cogitatione_. Logicamente, pois, incluiram os medicos do seculo +XVII o delirio de grandezas no quadro clinico da melancolia. Sob o seu +ponto de vista, com effeito, tanto valem os perseguidos como os +megalomanos, porque uns e outros so, no dizer de Sennert, doentes cuja +razo se acha pouco alterada ou apenas alterada em relao a um +objecto, isto , por definio, melancolicos. Entre estes collocava o +auctor que acabamos de citar, um doente julgando-se monarcha do Universo +e cuja razo, _s parcialmente lesada_, lhe permittia dissertar +perfeitamente sobre as mais graves questes. Plater, ao lado dos +melancolicos sitiophobos receiando envenenamentos e accusando de +hostilidade e perfidia os seus mais intimos amigos, collocava doentes +possuidos das idas de opulencia e de realeza. + +A unidade do delirio e no a natureza d'elle ou das emoes que o +acompanham, constituia no seculo XVII, como se v, a caracteristica dos +estados melancolicos. De resto, Sennert explicitamente affirmava que na +melancolia o delirio muitas vezes alegre. + +Os medicos do seculo XVIII acceitaram unanimemente a doutrina que no +quadro clinico da melancolia fazia entrar a titulo de variedades os +delirios de perseguies e de grandezas. Para Sauvages, por exemplo, o +delirio exclusivo caracterisava a melancolia; mais explicito, Lorry +descreveu como frma d'esta vesania um delirio parcial exaltado com +paixo excitante. + +A primeira metade do nosso seculo no trouxe modificao sensivel a +estas idas. Rusch descrevia em 1812 duas variedades melancolicas, uma +triste, _tristimania_, outra alegre, _amnomania_. Pinel admittia +igualmente duas frmas de melancolia: uma depressiva e outra ambiciosa, +caracterisadas por um delirio parcial. Nada mais inexplicavel, diz +elle, e, todavia, nada mais verificado que a existencia de duas frmas +oppostas da melancolia. algumas vezes uma exploso de orgulho e a +ida chimerica de possuir immensas riquezas e um poder sem limites, +outras vezes o abatimento mais pusilanime, uma consternao profunda e +mesmo o desespero[1]. + + [1] Pinel, _Trait mdico-philosphique sur l'alination mentale_, pag. + 165. + +Sob diversa nomenclatura, Esquirol propagou, sem as alterar no fundo, as +idas dos seus antecessores. Designando pelo termo infeliz de +_monomania_ o grupo dos delirios parciaes, acceita duas variedades ou +especies: uma, depressiva, a _lypemania_, outra, expansiva, a _monomania +propriamente dita_. A _lypemania_, que no seno a _tristimania_ de +Rusch ou a melancolia de frma depressiva de Pinel, comprehende entre +outras variedades o delirio de perseguies, ainda ento innominado; _a +monomania propriamente dita_, que equivale _amnomania_ de Rusch e +melancolia de frma expansiva de Pinel, por elle definida um delirio +parcial ou monomania alegre, e comprehende os delirios de grandezas, +no s o idiopatico, mas, como se v nos casos que aponta, o +symptomatico da paralysia geral, ao tempo ainda no descripta. + +Recebendo a influencia tradicional dos seus predecessores, Esquirol +transmittiu-a, reforada pela sua grande auctoridade, aos alienistas que +lhe succederam na primeira metade d'este seculo. documento d'isso o +extraordinario successo da doutrina das monomanias, alis +psychologicamente erronea, clinicamente infecunda e juridicamente +perigosa. + +No seu _Tratado das Doenas Mentaes_ affirma Esquirol que o termo +_monomania_ adquiriu direitos de cidade pela, introduco no diccionario +da Academia Franceza, e felicita-se por isso. E, todavia, esse termo +confuso, porque no proprio livro do mestre nos apparece com +significaes diversas, ora designando, como vimos, delirios parciaes, +ora obsesses e impulsos, isto , um conjuncto de factos heterogeneos e +de significao clinica diferente. Primitivamente creada para designar o +mesmo que a melancolia dos antigos--uma affeco parcial do +entendimento, acompanhada quer de tristeza, quer de expanso, a palavra +_monomania_ foi insensivelmente generalisada pelo proprio Esquirol no +sentido de exprimir uma doena, ou desvio parcial de qualquer faculdade: +ao lado de uma _monomania intellectual_, tem logar uma _monomania +affectiva_ e uma _monomania impulsiva_. Delirios systematisados, emoes +procedentes de idas obsediantes, impulsos cegos e irresistiveis, tudo +entra no quadro da monomania--o mais amplo, diz Esquirol, de toda a +classificao. + +De sorte que, se os antigos, desviando a palavra _melancolia_ do +significado que Areteu lhe dera, chamaram a um s grupo delirios do +caracter diverso e lanaram assim na sciencia uma grande confuso, +Esquirol no fez seno augmental-a pela creao das monomanias. + +Como quer que seja, o immenso e, por innumeros titulos, justificado +prestigio d'este observador fez correr a palavra e a doutrina. Sem +duvida, objeces foram bem cedo erguidas contra ambas por Falret, +Delasiauve e outros, que negaram a existencia de delirios circumscriptos +a uma s ida, affirmados na palavra, ou pozeram em relevo a +solidariedade das funces mentaes, contradictada pela doutrina. Todas +as faculdades, escrevia Falret em 1819, participam em maior ou menor +grau das desordens intellectuaes; de resto, sempre que uma ida falsa +invade a intelligencia, o seu poder contagioso exerce-se sobre as +outras, de sorte que sob um delirio preponderante vem-se estabelecer +delirios secundarios e derivados que no tardam a invadir todo o +intendimento[1]. Pelo seu lado, Delasiauve escrevia em 1829: Pde +acaso limitar-se o circulo d'aco em que uma ida dominante deve +exercer ou realmente exerce a sua influencia? E mais tarde ainda: O +delirio dos monomanos no nunca to circumscripto como se pretendeu; a +verdadeira monomania rarissima![2] Todavia, a criticas d'esta ordem +redarguiam Esquirol e os seus discipulos que nem a palavra _monomania_ +significava unidade de delirio, nem a doutrina necessariamente implicava +que a leso de uma faculdade no podesse fazer-se sentir sobre as +outras; para elles, a monomania designava uma leso parcial e +preponderante, mas no unica e independente, das faculdades. + + [1] Falret, _Des maladies mentales_ + + [2] Delasiauve, _Les Pseudomonomanies_ + +Tem-se negado, escrevia Esquirol, a existencia dos monomaniacos, +dizendo-se que os alienados no deliram nunca sobre um s objecto, mas +que sempre n'elles h perturbaes da sensibilidade e da vontade. Mas, +se assim no fosse, os monomaniacos no seriam loucos.[1] Pelo seu +lado, Marc escrevia: Nunca os que crem na existencia das monomanias +pensaram em negar a solidariedade das faculdades intellectuaes no +monomaniaco. Reconhecendo que o delirio raras vezes limitado a um s +ponto, crem, no emtanto, dever conservar as monomanias a titulo de +grupo distincto.[2] + + [1] Esquirol,_Des maladies mentales,_ tom. II, pag. 4. + + [2] Marc, _Trait pratique des maladies mentales,_pag. 351. + +Voltemos, porm, ao nosso restricto assumpto. + +A _monomania intellectual_ de Esquirol, caracterisada por um delirio +limitado de natureza alegre ou triste, no seno a _melancolia_ dos +antigos medicos. Para aquelle, como para estes, era a extenso dos +conceitos falsos o criterio para classificar as loucuras em que ha +compromisso da intelligencia: de um lado, a mania, manifestando-se por +um delirio geral e dispersivo, do outro, a monomania, symptomatisada por +um delirio parcial e fixo. + +Se a estas duas especies accrescentarmos a _idiotia_ e a _demencia,_ +entrevistas por Pinel, mas s definidas por Esquirol, a _estupidez_ +descripta por Georget, e a _paralysia geral,_ estudada por Calmeil, +encontramo-nos em face da classificao das psychoses que at ao meiado +do nosso seculo a Frana inteira adoptou. Ora, dentro d'esta +classificao, no teem logar distincto e proprio, como se v, os +delirios systematisados: o de perseguies descripto como uma +variedade lypemaniaca, e o de grandezas confundido com as +manifestaes symptomaticas de outras doenas mentaes. + + + +II--PHASE ANALYTICA + +De Lasgue a J Falret e de Griesinger a Snell e Sander--O delirio de +perseguies; a megalomania; o delirio dos perseguidores; a Verrcktheit +secundaria; a Verrcktheit originaria--Comeo de interpretao +pathogenica. + + +Foi Lasgue em 1852 quem primeiro destacou do cahos da melancolia o +delirio de perseguies para eleval-o dignidade de especie +pathologica entre as alienaes mentaes. + +No seu memoravel trabalho sobre este assumpto, o eminente alienista +comea por notar que as idas de perseguio apparecem como episodio +symptomatico e a titulo de phenomeno incidente no _alcoolismo_, nas +_loucuras provocadas por certas substancias narcoticas_ e em muitos +_delirios parciaes_; na doena, porm, que elle descreve pela primeira +vez essas idas no so um syndroma fortuito, mas um facto constante e +essencial, um phenomeno preponderante e fixo. A nova psychose tem, de +resto, como titulos autonomia nosographica, symptomas especiaes e uma +evoluo caracteristica. + +Estudando a marcha do delirio de perseguies, Lasgue reconhece-lhe +dois periodos: um, _de incubao,_ consistindo n'um mal-estar indefinido +e vago, mas absorvente e inquietante, em que o doente se suspeita +victima de hostilidades cuja origem no sabe ainda determinar; outro, +_de estado_, em que o delirio definitivamente se installa e systematisa. +Ao principio o doente no exprime a ida de uma perseguio seno com +uma _certa reserva_, hesitantemente, tentando ainda provar a si mesmo +que ella _absurda_; mais tarde, porm, a duvida esbate-se e o systema +delirante apparece definitivamente formado. A durao do primeiro +d'estes periodos essencialmente variavel: to rapida em alguns doentes +_que a custo se lhe surprehende o primeiro grau_, prolonga-se e +arrasta-se em outros, que s _muito gradualmente_ e por uma _progresso +bem sensivel_ e bem apreciavel attingem a construco do seu romance +delirante. + +Do mal-estar caracteristico do primeiro periodo diz Lasgue que elle _se +no parece em nada com a inquietao ainda a mais viva do homem normal_; + indefinivel, accrescenta, como _os symptomas que annunciam e fazem +presentir a invaso das doenas graves_. O periodo de estado, esse, +como a _florao_ da psychose: o _romance systematico_ desenvolve-se +pelo reconhecimento dos perseguidores--a policia, o jesuitismo, os +magnetisadores, a maonaria, os physicos, etc. + +Passando ao estudo dos symptomas, Lasgue pe em relevo o papel que +desempenham na doena as falsas sensaes auditivas. O orgo do +ouvido, escreve o eminente professor, fornece as primeiras sensaes +sobre que se exerce a intelligencia pervertida. O doente ouve retalhos +de conversas que interpreta e se applica; os mesmos ruidos que +naturalmente se produzem,--a passagem de um trem, os passos de uma +pessoa que sobe ou desce uma escada, uma porta que se abre ou fecha, so +objecto dos seus commentarios.[1] Fallando, em seguida, das +allucinaes auditivas, declara-as _as unicas compativeis com o delirio +de perseguies;_ e accrescenta: Basta que um doente accuse vises para +que eu no hesite em affirmar que elle pertence a outra cathegoria de +delirantes[2]. Na mesma ordem de idas escreve ainda: Qualquer que +seja a epocha em que ellas se declarem, as allucinaes pertencem sempre +ao quadro das auditivas; no demais a minha insistencia sobre este +caracter, que considero pathognomonico[3]. Todavia as allucinaes do +ouvido, to importantes e de to vasto papel, no so para Lasgue um +phenomeno constante na psychose que descreve: A allucinao do ouvido, +diz elle, no nem a consequencia obrigada, nem o antecedente +necessario do delirio de perseguies[4]. Os perseguidos podem, segundo +elle, no experimentar nunca allucinaes; limitando-se a _fundar +induces delirantes sobre sensaes anditivas reaes_, alguns ha que +percorrem _todos os periodos da doena_. + + [1] Lasgue, _Le dlire des perscutions_ in _tudes mdicales_, tom. + 1., pag. 554. + + [2] Lasgue, _Loc. cit._, pag. 555. + + [3] Lasgue, _Loc. cit._, pag. 555. + + [4] Lasgue, _Loc. cit._, pag. 555. + +Lasgue no refere allucinaes alm das auditivas: As outras sensaes +de que os perseguidos se queixam, diz elle, reduzem-se a impresses +nervosas[3]. De resto, estas mesmas impresses devem antes lanar-se +conta do hysterismo que do delirio de perseguies: As mulheres, diz +elle, offerecem os exemplos mais frequentes--sopros internos, subitos +calores, entorpecimentos, dores atrozes e passageiras e os outros +accidentes to moveis da hysteria[4]. + + [3] Lasgue, _Loc. cit._, pag. 556. + + [4] Lasgue, _Loc. cit._, pag. 557. + +Como a symptomatologia e a marcha da doena, a pathogenia d'ella mereceu +tambem as attenes de Lasgue. Segundo elle, o delirio procederia +sempre da necessidade que o alienado sente de explicar as sensaes +anormaes do periodo inicial, e resultaria, portanto, de uma consciente +elaborao logica. A crena n'uma perseguio, diz elle, no seno +secundaria; provoca-a a necessidade de dar uma explicao a impresses +morbidas provavelmente communs a todos os doentes e que todos referem +mesma causa[1]. Por um raciocinio, pois, passaria o perseguido do vago +mal-estar do periodo prodromico ao delirio systematisado e quasi +invariavel que caracterisa a doena em plena florao. O facto inicial +seria um phenomeno confuso da sensibilidade, uma perturbao emotiva, o +phenomeno intellectual, o delirio, seria ulterior e nascido do primeiro. +, diz Lasgue, depois de um certo tempo de preoccupao e de +resistencia que o alienado procura remontar causa dos seus +soffrimentos, e passa assim do primeiro ao segundo periodo. A transio +faz-se ento por este invariavel raciocinio: os males que soffro so +extraordinarios; tenho experimentado bem mais duros golpes, mas +concebia-os, descobria-lhes mais ou menos o motivo; agora encontro-me em +condies extranhas que no dependem nem da minha saude, nem da minha +posio, nem do meio em que vivo: preciso que alguma coisa de +exterior, de independente de mim intervenha; ora eu soffro e sou +desgraado: s inimigos podem ter interesse em me magoar; devo, pois, +crr que intenes hostis so a causa das impresses que +experimento[2]. + + [1] Lasgue, _Loc. cit._, pag. 552. + + [2] Lasgue, _Loc. cit._, pag. 552. + +Decorrido o periodo prodromico e attingida a systematisao delirante, +a doena deixaria, segundo Lasgue, de acompanhar-se de _grandes +perturbaes de sentimentos_. Ha perseguidos que, _mudando +constantemente de casa, fatigando incessantemente magistrados e +auctoridades com interminaveis queixas, conservam_, todavia, _uma certa +egualdade de humor_ Nunca vi nenhum, diz o auctor, cahir em melancolia +continua, reagir por odios violentos ou meditar vinganas[3]. + + [3] Lasgue, _Loc. cit._, pag. 551. + +Occupando-se da etiologia, Lasgue nota que o maximo de frequencia do +delirio de perseguies se realisa entre os 35 e os 50 annos e que esta +psychose ataca de preferencia as mulheres: segundo a sua estatistica, +25% das alienadas, comprehendidas as idiotas e imbecis, seriam +perseguidas. As causas proximas seriam, em regra, _de uma completa +insignificancia:_ uma insomnia, uma phrase inoffensiva, uma refeio de +sabr desagradavel, etc. Emfim, estudando o delirio em relao ao +caracter anterior do doente, Lasgue nota que os espiritos mais timidos +no so os mais predispostos; no delirio de perseguies v o eminente +clinico, no o exaggero de uma prvia tendencia natural, mas um +_elemento pathologico novo introduzido no organismo moral e sem +equivalente no estado de saude._ + +Procurando apenas estabelecer um typo clinico e determinar os +caracteres que devem entrar na sua definio, o notavel alienista +declara abster-se de estudar a marcha decrescente da doena e as suas +indicaes therapeuticas. + +Tal nos seus traos capitaes e na sua mesma essencia a extraordinaria +memoria de Lasgue. + +Sem nada accrescentar a este quadro clinico, Morel fez, todavia, desde +1853 umas importantes observaes sobre a historia dos perseguidos, +affirmando que muitos d'elles principiam por ser hypocondriacos e acabam +por delirar n'um sentido ambicioso. + +Exposta pela primeira vez d'uma maneira dogmatica e n'um certo grau de +generalidade nos seus _Estudos Clinicos,_ a observao de Morel tinha, +contudo, precedentes na sciencia. Pinel, com effeito, illustrando o que +elle chamava a transio da _melancolia depressiva_ _melancolia +ambiciosa_, expozera em 1809 alguns casos de doentes que, tendo-se +julgado por mais ou menos tempo victimas de hostilidades e de manejos +criminosos, acabaram por crr-se grandes personagens; pelo seu lado, +Esquirol notra tambem desde 1838 que da hypocondria pde passar-se +_lypemania_ e d'esta _monomania da vaidade_, apresentando como +exemplos alguns interessantes vesanicos primeiro hypocondriacos, depois +perseguidos e por ultimo ambiciosos. Entre os casos de Pinel ha o de um +alienado que durante oito annos delirou como perseguido, crendo-se em +constante imminencia de morte por envenenamento, no ingerindo seno +alimentos que furtava na cosinha do asylo, e que acabou por crr-se +igual ao Creador e soberano do mundo; entre as observaes de Esquirol +figura a de um doente que, excessivamente inquieto sobre o seu estado de +saude durante mais de dois annos, entra em seguida no caminho das +perseguies, imaginando-se objecto de tentativas de envenenamento por +parte da familia, e termina, decorrido um anno, por crr-se filho de +Luiz XVI. Mas, por valiosas e instructivas que sejam em si mesmas, estas +observaes no desempenham nos livros de Pinel e de Esquirol mais que +um papel episodico e sem alcance. Morel foi indiscutivelmente o primeiro +a vr n'uma tal successo de delirios, no apenas um curioso accidente, +mas uma verdadeira lei de evoluo vesanica, segundo a qual a passagem +regular da hypocondria ao delirio de perseguies e d'este ao delirio +ambicioso seria um facto constante nos alienados hereditarios. D'aqui a +affirmar a existencia de uma psychose degenerativa de que os delirios +hypocondriaco, persecutorio e ambicioso, succedendo-se, no +constituiriam seno _tapes_ ou phases evolutivas, vae uma pequena +distancia que Morel percorreu, como veremos, desde a publicao dos +_Estudos Clinicos_ em 1853 at do _Tratado das Doenas Mentaes_ em +1860. + +Outros auctores franceses, entre os quaes Renaudin, Broc e Dagonet, +notaram a successo de delirios diversos, nomeadamente de perseguies e +de grandezas, n'um mesmo alienado; todavia, por desconhecimento ou +incomprehenso do alcance dos trabalhos de Morel, nenhum d'elles se +preoccupou com a interpretao do phenomeno. S em 1869 Foville, +retomando a questo na sua excellente memoria sobre a _Loucura com +predominio ao delirio de grandezas_, procurou interpretar, sobretudo, a +passagem--to frequentemente observada agora que a atteno dos clinicos +incidia sobre ella--do delirio de perseguies ao de grandezas. + +Marcando na historia dos delirios systematisados um periodo importante, +o trabalho de Foville merece deter-nos um momento. + +Depois de ter mostrado que o delirio de grandezas pde apparecer a +titulo episodico na maioria das doenas mentaes e com mais ou menos +relevo constituir um syndroma de algum dos seus periodos evolutivos, +Foville estabelece que elle se torna preponderante e reveste +inconfundiveis caracteres semeioticos em dois casos: na loucura parcial +e na demencia paralytica. Pondo de parte, por alheio ao nosso estudo, +este ultimo caso, vejamos o que Foville pensava do primeiro. + +A loucura parcial, que importa no confundir com a monomania de +Esquirol, representaria, segundo Foville, as alienaes caracterisadas +pelo conjuncto d'estes caracteres: presena de um delirio systematisado, +ausencia de um estado habitual depressivo ou expansivo, existencia de +perturbaes sensoriaes, e chronicidade. + +O delirio de perseguies descripto por Lasgue um dos representantes +d'este grupo; um outro seria, segundo Foville, a _megalomania_, que elle +define como um delirio de grandezas logicamente coordenado, +associando-se a allucinaes chronicas e, no seu periodo de estado, a +idas de perseguio. + +Em rigor, nem o termo novo, porque antes o tinham empregado, entre +outros, Broc e Dogonet, nem a definio da doena absolutamente +original, porque desde Esquirol se havia reconhecido a existencia de um +delirio ambicioso idiopatico. O que de original e novo existe no +trabalho de Foville a maneira de estudar a gnese do delirio de +grandezas e as relaes d'elle com a doena de Lasgue. + +Segundo Foville, na loucura parcial, de que so esclas o delirio de +perseguies e a megalomania, toda a symptomatologia essencial se reduz +a concepes delirantes e erros sensoriaes, podendo estas duas ordens de +factos manter entre si relaes diversas, que importa muito considerar +para a comprehenso da pathogenia. Ou as concepes delirantes se +apresentam primeiro, apparecendo as illuses e allucinaes como um +facto secundario da doena, ou, pelo contrario, a esphera sensorial +primitivamente affectada e s depois irrompem as concepes chimericas. + +Ora, segundo Foville, no de modo nenhum indifferente para a natureza +mesma da doena que a successo das duas ordens de symptomas se realise +n'um sentido ou n'outro, porque o allucinado-delirante , em regra, um +perseguido que pde tornar-se megalomano, ao passo que o +delirante-allucinado mais vezes um megalomano que pde vir a ter idas +de perseguio. A razo d'isto, no dizer de Foville, vem de que na +loucura parcial as allucinaes primitivas so, como estabelecera +Lasgue, preponderantemente, seno exclusivamente as do ouvido, de um +caracter, em regra, penoso ao principio e de molde, portanto, a gerarem +um delirio depressivo. Ora, sendo a hypothese do allucinado-delirante +mais frequente que a do delirante-allucinado, tambem mais vulgar o +perseguido-megalomano que o megalomano-perseguido. + +Posto isto, que serve para mostrar que no meramente accidental a +passagem de um delirio a outro, Foville, estreitando mais o assumpto, +deriva explicao do modo intimo por que ella se realisa. + +A transio (mais frequente, como foi dito) do delirio de perseguio ao +de grandezas opera-se, ao vr de Foville, por um processo logico. +Depois, diz elle, de terem por mais ou menos tempo attribuido as +proprias allucinaes a inimigos desconhecidos, contentando-se com +explical-as por uma palavra mais ou menos obscura e mysteriosa, certos +lypemaniacos allucinados dizem a si mesmos: Factos d'esta ordem no +podem passar-se, no estado social em que vivemos, sem a interveno de +pessoas influentes e altamente collocadas; essas s, portanto, so as +instigadoras dos nossos tormentos. Outros, ao contrario, reconhecendo +que no succumbem nunca de um modo completo aos perigos de que se sentem +cercados; suppem ter amigos occultos, mas de um grande poder, que os +protegem. Esta ordem de idas imprime desde ento o seu cunho ao +conjunto das concepes e allucinaes: os doentes fallam de grandes +personagens que vem por toda a parte, desconhecem a identidade real dos +individuos, que os cercam e crem que imperadores, imperatrizes e +principes os visitam ou lhes enviam mensagens. No meio do delirio +melancolico as idas de grandeza adquirem realmente uma importancia +preponderante. Mas as coisas podem ir mais longe ainda. Impressionados +pela desproporo entre a sua posio burgueza e o poder de que devem +dispr os seus inimigos para os attingirem, a despeito de tudo; entre o +apagado papel que desempenham no mundo e os moveis imperiosos que podem +explicar o encarniamento com que so perseguidos, alguns d'estes +doentes acabam por a si proprios perguntarem se realmente so to pouco +importantes como parecem. Uma nova perspectiva se abre diante do seu +atormentado espirito: no j a dos outros, mas a propria personalidade +que aos seus olhos se transforma. Para que os persigam d'este modo, +dizem elles, preciso que um alto interesse se d, e isso s se +comprehende porque elles faam sombra a gente rica e poderosa, porque +tenham, elles proprios, direito a uma fortuna e a uma posio de que +fraudulentamente os despojaram, porque pertenam a uma classe elevada de +que foram afastados por circumstancias mais ou menos mysteriosas, porque +no sejam seus verdadeiros paes os que como taes consideram, porque +pertenam, emfim, a uma alta estirpe, as mais das vezes real[1]. + + [1] Foville, _La folie avec prdominence du dlire des grandeurs_, pag. + 345. + +E accrescenta: Estas idas tero, sobretudo, tendencia a produzir-se +nos casos em que, j antes de doente, o individuo teve de soffrer no seu +orgulho ou nos seus interesses pelo facto da irregularidade ou do +mysterio do proprio nascimento. Assim, temos notado que esta f n'uma +origem illustre, que esta crena n'uma imaginaria fortuna +relativamente frequente nos _filhos naturaes_ que vem a cahir na +loucura. So elles principalmente os preparados para s idas de +perseguio juntarem um novo romance em que dominam as concepes de +grandeza, as substituies ao nascer, as confuses de pessoas[1]. + + [1] Foville, _Loc. cit._, pag. 346. + +Como se v, Foville no faz seno seguir a orientao psychologica de +Lasgue, que explicava pela interveno de um raciocinio a passagem, no +delirio de perseguies, do periodo prodromico ao de estado. Um processo +logico, essencialmente deductivo e syllogistico preside tambem, segundo +Foville, gnese das idas ambiciosas que derivam de um delirio +persecutorio. + +Mas no este, reconhece-o Foville, o unico modo por que o delirio de +grandezas pde produzir-se; algumas vezes succede que as concepes +ambiciosas se installam primitivamente, dando-se ento o caso de +surgirem depois idas de perseguio, por _uma sorte de propagao +regressiva que, ao fim de um certo tempo, acaba por nivelar as +situaes._ Qual agora o mecanismo de transio? difficil, escreve +Foville, crr-se um doente na posse de direitos fortuna e ao mando, +figurar-se descendente de uma familia illustre, e no se sentir vexado +pela modestia da posio que occupa ou pela exiguidade dos recursos de +que dispe. N'isto v elle um signal de injustia, que attribue aco +de inimigos poderosos; cr-se, pois, victima de manobras hostis e +fabrica assim um systematico delirio de perseguies, secundario agora e +consequencia das idas de grandezas[1]. + + [1] Foville, _Loc. cit._, pag. 347. + + ainda, como se v, um processo logico o destinado; segundo Foville, a +explicar a passagem do delirio ambicioso ao de perseguies; toda a +vesania parcial, portanto, qualquer que tenha sido o seu ponto de +partida e qualquer que haja de ser o seu termo, se desenrola sob a +dependencia do raciocinio e dentro da esphera consciente da ideao. + +Os casos em que o delirio de grandezas succede immediatamente a +allucinaes de caracter agradavel e lisongeiro, so extremamente raros; +a interpretao dos erros sensoriaes, isto , um processo consciente e +reflectido, ainda d'esta vez origem da doena. + +Referindo-se doutrina de Morel, Foville declara no a acceitar, porque +o delirio hypocondriaco, ponto de partida necessario, segundo aquelle +auctor, dos delirios de perseguies e de grandezas, s excepcionalmente +o encontrou. + +De quanto vem de ser exposto a concluso a tirar esta: + +Existe um delirio systematisado de grandezas que, no seu periodo de +estado, se combina sempre com idas de perseguio, que +invariavelmente acompanhado de allucinaes auditivas e que tanto pde +originar-se, por via deductiva, de um preexistente delirio +persecutorio, como nascer _d'emble_. No sendo um episodio morbido, nem +mesmo a phase evolutiva de uma vesania anterior, porque pde ser e +muitas vezes primitivo, esse delirio constitue uma doena com foros de +autonomia e direitos a uma designao privativa: a _megalomania_. + +Tal , em resumo, a memoria de Foville na parte consagrada ao delirio +parcial de grandezas. + +Depois dos importantes trabalhos de Lasgue e Foville, a psychiatria +franceza no nos offerece, dentro d'este periodo de analyse, estudo que +tenha feito progredir pela interferencia de pontos de vista novos o +conhecimento dos delirios systematisados. O livro publicado por Legrand +du Saulle, sob o titulo de _Delirio de perseguies_, em 1871, valioso, +certamente, pela copia de observaes e pelos detalhes de analyse +clinica, nada tem, no fundo, de original, embora tentem proclamar o +contrario estas ambiciosas palavras do prefacio: A despeito da sua +extrema frequencia e dos seus to claros caracteres distinctivos, o +delirio de perseguies achou-se confundido com a melancolia de Pinel, +com a lypemania de Esquirol, com a monomania depressiva de Baillarger; +ahi que eu vou buscal-o para o estudar nas suas diferentes phases, para +o constituir _de toutes pices_ e fazer d'elle uma _especie_ +parte[1]. Dezenove annos antes fizera Lasgue, como vimos, o que n'esta +passagem se annuncia. O trabalho de Legrand du Saulle, excepo feita +dos capitulos consagrados ao tratamento, medicina legal e ao contagio +do delirio, que nada teem que vr com a constituio scientifica da +doena, no seno um desenvolvimento da memoria de Lasgue, cuja ordem +de exposio adopta e cujas expresses mesmo no raro se apropria. + + [1] Legrand du Saulle, _Le Dlire des perscutions,_ pag. 11. + +Como Lasgue, Legrand du Saulle descreveu dois periodos no delirio de +perseguies: um, de comeo, exteriorisado por uma _inquietao +indefinivel e de nenhum modo comparavel do homem normal que tem um +grande interesse compromettido;_ outro, de estado, caracterisado pela +definitiva systematisao das idas delirantes formando um _romance_ +invariavel para cada doente. + +Como Lasgue, Legrand du Saulle caracterisa a inquietao do primeiro +periodo comparando-a _cephalalgia_ e ao _arrepio_ que so muitas vezes +os precursores de graves doenas communs, mas que em si mesmos nada teem +de preciso. + +Como Lasgue, Legrand du Saulle explica a transio do primeiro ao +segundo periodo por um acto de reflexo do perseguido, por um verdadeiro +raciocinio. O doente, escreve Legrand du Saulle, diz a si proprio e aos +outros que no so naturaes as inquietaes e angustias que experimenta, +que lhes no encontra causa no meio em que vive, no estado da propria +saude, no da propria fortuna. No seu passado experimento grandes +infortunios, mas sabia o motivo d'elles e no eram os mesmos os seus +soffrimentos, no tinham o caracter vago e indefinido dos actuaes. Este +mal-estar to grande, estas impresses to penosas e to injustificadas +devem ter uma causa secreta. E assim que o doente se sente +naturalmente levado a pensar que inimigos occultos, interessados em +perdel-o, se reunem e procuram fazel-o soffrer[1]. + + [1] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 17. + +Como Lasgue, Legrand du Saulle d na symptomatologia da doena um logar +preponderante s allucinaes auditivas, precedidas frequentemente de +illuses do mesmo sentido. O doente, escreve o auctor, comea por dar +uma falsa significao aos ruidos reaes que escuta: uma porta que se +abre, pessoas que fallam na rua, uma palavra pronunciada ao p d'elle, +os passos de alguem, tudo materia do delirio. As verdadeiras +allucinaes s comeam, em geral, mais tarde e n'uma epocha +variavel[2]. + + [2] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 43. + +Como Lasgue, Legrand du Saulle admitte um periodo de declinao na +doena, que, sendo, em regra, incuravel, pde terminar pela cura n'uma +quinta parte dos casos. Na etiologia, Legrand du Saulle constata, como +Lasgue, que a doena mais frequente nas mulheres e se realisa +preferentemente na epocha por excellencia das grandes luctas da vida. +Algumas consideraes que faz sobre a _hereditariedade_, o _onanismo_ e +as _perseguies infantis_ so de um caracter vago. Como se v, em tudo +quanto pde servir para caracterisar como _especie_ o delirio de +perseguies--na symptomatologia, na marcha, na etiologia, Legrand du +Saulle no faz seno seguir a memoria de Lasgue. + +Vamos vr que n'um ponto de maxima importancia, no tratado pelo +eminente professor da faculdade de Paris no seu trabalho de 1852, +Legrand du Saulle acompanha a memoria de Foville. Refiro-me passagem +do delirio de perseguies ao de grandezas, explicada, como vimos, por +Legrand du Saulle acceita esta mesma pathogenia. Depois, diz elle, de +ter soffrido tantas hostilidades da parte de implacaveis inimigos, +depois de ter sido victima de tantas intervenes devidas magia ou ao +electro-magnetismo, o perseguido recolhe-se por vezes e pensa: Como +podem em pleno seculo XIX produzir-se factos d'esta natureza? preciso +admittir no fundo de tudo isto uma energica vontade superior, a de um +alto personagem, a de um principe ou, talvez, de um rei! Deve ter sido +necessaria, com effeito, para explicar o meu caso uma auctoridade +verdadeira, que s pde existir nas mos de millionarios, de ministros e +de imperadores: quem ordenou tudo , pois, um grande senhor ou um +notavel personagem. Um outro perseguido pensar: Armam-me redes, mas eu +evito-as; expem-me a coalises formidaveis, mas eu saio-me bem d'ellas; +attentam contra a minha vida, mas eu resisto; alguem, pois, de um alto +poder vela por mim e me protege; esse alguem o chefe do estado. Eis, a +partir d'aqui, toda uma ordem nova de idas imprimindo uma outra +direco s concepes delirantes e s allucinaes. O perseguido no +cessa desde ento de fallar em ministros, em familias reinantes, na +crte pontifical, desconhecendo o caracter real das pesssoas que o +cercam e affirmando que Napoleo lhe envia mensagens, que Trochu o +chamou, que Thiers vae recebel-o, que tal ou tal princesa vem visital-o. +N'uma palavra, encontramo-nos em presena de idas de grandeza +pathologicamente juxtapostas, porque as perseguies no cessaram, os +inimigos existem ainda[1]. + + [1] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 84. + +Acabamos de constatar, continua Legrand du Saulle, erros grosseiros +sobre a personalidade dos outros; pois vamos vr que uma nova +transformao se opera agora e que erros mais grosseiros ainda vo +dar-se d'esta vez sobre a personalidade de perseguido. Sigamos um pouco +o raciocinio do doente: As operaes dos meus inimigos, pensa elle, so +to desleaes como persistentes e perigosas; os meus inimigos so +infatigaveis e poderosos; mas que interesse podem elles ter em me +mortificarem d'este modo, a mim, homem ignorado, obscuro ou collocado +n'uma situao modesta? O contraste entre os perseguidores e a victima +dos mais notaveis. Quem sou eu com effeito? Talvez um ser menos apagado +do que se pensa, mais importante do que se imagina, mais temivel do que +se suppe. E nem pde deixar de ser assim. Enchem-me de humilhaes +odiosas, dirigem contra mim os mais tenebrosos attentados; ha, pois, um +interesse em fazel-o. Esse interesse parte de millionarios, duques, +principes ou imperadores, e , portanto, dos mais consideraveis. Mas +ento fao eu sombra a alguem e esse alguem roubou-me necessariamente o +meu nome, o meu titulo, a minha fortuna, o meu logar social, a minha +cora. Eu no sou, portanto, o homem humilde sob cuja mascara vivi at +hoje: fui mysteriosamente posto de lado, iniquamente esbulhado; o nome +de que uso no o meu, os que teem feito de meus paes no so da minha +familia; eu sou o neto de Luiz XVI ou o filho de Napoleo, sou o duque +de Orleans ou chamo-me D. Carlos[2]. + + [2] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 85. + +Para no deixar de seguir passo a passo Foville, que, como vimos, notara +a relativa frequencia do delirio ambicioso nos perseguidos _filhos +naturaes_, Legrand du Saulle accrescenta: Se o perseguido no tem um +acto de nascimento regular, se alguma vez soffreu pelo facto de uma +situao indecisa, de uma paternidade no confessada ou de uma educao +mysteriosa, se o seu orgulho foi torturado ou lesada a sua fortuna, com +que perniciosos elementos no crescer o seu delirio, com que +apparencias de verosimilhanas no fallar elle a todos da sua +imaginaria fortuna, do seu nascimento illustre?![1] + + [1] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 86. + +Como Foville e Morel, Legrand du Saulle refere casos em que no delirio +de perseguies se observam concepes hypocondriacas; estas, porm, +como as de grandeza, no constituem para elle uma phase evolutiva, mas +apenas um _acompanhamento_ ou _complicao_ da doena de Lasgue. + +Uma parte nova e valiosa do trabalho de Legrand du Saulle a que se +refere ao diagnostico differencial entre o delirio de perseguies +idiopathico e o que, como syndroma, apparece na demencia senil, na +paralysia geral, no alcoolismo subagudo e nas intoxicaes pelo chumbo e +pelo sulfureto de carbone. + +No terminaremos esta rapida analyse do livro de Legrand du Saulle sem +notar que elle soube pr em relevo dois factos interessantes, +ulteriormente notados por quantos se teem occupado d'este assumpto: a +existencia em muitos perseguidos de allucinaes auditivas bilateraes de +caracter differente--vozes benevolas d'um lado, vozes hostis do outro, e +a tendencia d'estes doentes formao de _neologismos_ e de um +incomprehensivel vocabulario privativo de cada um. + + * * * * * + +At aqui os trabalhos francezes. Vejamos agora, retrocedendo um pouco na +ordem dos tempos, de que maneira os psychiatras allemes comprehenderam +os delirios systematisados. + +Foi Griesinger o primeiro entre elles a occupar-se d'este assumpto no +seu _Tratado de Doenas Mentaes_ cuja appario remonta a 1845, mas que +s vinte annos depois veio a ser conhecido em Frana pela traduco +Doumic. N'esse livro, por muitos titulos notavel, descreve o eminente +professor de Zurich, sob a denominao de _Verrcktheit_, os delirios +parciaes que alguns annos mais tarde Lasgue e Foville haviam de elevar, +dando-lhes nomes privativos, cathegoria de especies em nosographia +mental. Se bem que abreviada e n'um ou outro ponto confusa, a descripo +de Griesinger abrange todos os pontos essenciaes da symptomatologia dos +perseguidos e megalomanos, como facilmente se ajuizar pelas +transcripes que seguem. + +Referindo se s concepes que so o nucleo mesmo do delirio e o seu +mais apparente symptoma, Griesinger escreve: So umas vezes idas +activas, exaltadas, maniacas; o doente occupa uma posio elevadissima e +tem um grande poder: Deus, as tres pessoas da Santissima Trindade, +reformador do Estado, rei, um grande sabio, um propheta, um enviado de +Deus ou descobriu o movimento perpetuo, o dominador de toda a natureza +e conhece os elementos de todas as coisas, etc. Outras vezes so idas +passivas: os doentes crem-se lesados, dominados, submettidos ao poder +d'outrem; julgam-se perseguidos, victimas de tramas hostis; mysteriosos +inimigos atormentam-nos pela electricidade, os maonicos fazem lhes mal, +so possessos do diabo, esto condemnados a supplicios eternos, e +roubados nos seus bens mais caros, etc.[1] + + [1] Griesinger, _Trait des maladies mentales,_ trad. franceza, pag. +386. + +Occupando-se dos erros psycho-sensoriaes, escreve: As illuses e +allucinaes em nenhuma outra frma de loucura so to frequentes como +na _Verrcktheit;_ em grande numero de casos so ellas principalmente +que alimentam e entreteem o delirio. Muitas vezes os doentes conversam +com as vozes que escutam, ou discutem com ellas, entregando-se ento a +accessos de colera[1] + + [1] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388. + +Sobre o caracter absorvente d'estes delirios e sobre as transformaes +de personalidade, diz Griesinger; Involuntariamente o alienado refere +tudo ao seu delirio, e d'este ponto de vista que julga todas as +coisas ... As concepes falsas relativas ao proprio Eu chegam a attingir +um elevadissimo grau, a partir do qual o doente no considera as coisas +do mundo externo seno de um modo inteiramente pervertido ... Alguns +d'estes doentes parecem crr que a sua verdadeira personalidade anterior +deixou de existir[2] + + [2] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 387. + +Sobre a necessidade do _neologismo_ nos delirios systematisados de uma +longa durao, escreve o eminente alienista: Por vezes a linguagem +ordinaria no basta ao doente para exprimir o proprio pensamento, pelo +que construe, ao menos para traduzir as suas concepes delirantes, um +vocabulario especial, que elle cr ser a linguagem primitiva, a +linguagem dos ceus[3]. Ainda a proposito da exteriorisao do delirio, +Griesinger nota que por vezes o doente occulta cuidadosamente o seu +systema geral de absurdos[4]. + + [3] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388. + + [4] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388. + +Sobre o estado affectivo d'estes delirantes exprime-se assim o professor +allemo: Nunca estes doentes tomam parte, como outr'ora, nas coisas do +mundo externo, ou so capazes de amar e odiar como antes; podem +morrer-lhes os paes e os amigos, pde ser-lhes subtrahido o que mais +estimavam, pde o mais terrivel acontecimento incidir-lhes sobre a +familia sem que elles sintam mais que uma ligeira emoo, se alguma +sentem. Um s ponto ha em que podem ser ainda emocionados, que pde +abalar-lhes promptamente os sentimentos e provocar uma forte reaco da +vontade: procurem-se combater pelo raciocinio as suas idas fixas e logo +elles se irritaro e entraro em colera; acariciem-se, pelo contrario, +as suas concepes e elles mostrar-se-ho contentes[1]. + + [1] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388. + +Crmos que as citaes precedentes bastam para demonstrar que Griesinger +conheceu intimamente os perseguidos e ambiciosos. A descripo que +d'elles faz, como quadro symptomatico _d'aprs nature_, nas suas +linhas capitaes e at em alguns detalhes a mesma que alguns annos mais +tarde haviam de exhibir-nos os alienistas francezes que, no conhecendo +os trabalhos do professor allemo, tinham, comtudo, diante de si +analogos modelos. + +Mas se a descripo symptomatica a mesma, a _interpretao +nosographica e pathogenica_ profundamente diversa, porque, ao passo +que os francezes consideraram sempre os delirios parciaes como frmas +primarias da loucura, Griesinger julga-os, como vamos vr, frmas +secundarias ou estados procedentes da mania e da melancolia. + +O que , com effeito, a _Verrcktheit_ do psychiatra allemo? Sob este +nome, diz elle, designamos os estados secundarios de loucura, nos quaes, +embora tenha diminuido consideravelmente ou mesmo desapparecido por +completo a situao afectiva que caracterizava a frma mental no seu +comeo, o doente no cura, e em que a alienao consiste n'um pequeno +numero de concepes delirantes fixas que elle acaricia de um modo +particular e constantemente repete[2]. E accrescenta: A _Verrcktheit_ + _sempre_, pois, uma doena _secundaria_, consecutiva melancolia ou +mania[3]. _Residuos de estados de exaltao ou depresso,_ diz ainda em +outro logar, constituem a _Verrcktheit_ que, por isso mesmo, elle +colloca no grupo dos _estados de enfraquecimento psychico_, ao lado da +demencia. + + [2] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 382. + + [3] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 382. + +Na direco de Griesinger e pelo caminho que elle abriu seguiram longo +tempo os alienistas allemes. O delirio parcial, escrevia Albers em +sobretudo uma frma de terminao da loucura com excitao ou depresso +geraes; quando se encontra esta frma, uma das duas existiu +anteriormente e acabou por _uma cura incompleta_[1]. Fallando da +metamorphose do Eu que acompanha os delirios systematisados n'uma phase +de adiantada chronicidade, Spielmann escrevia no mesmo anno que ella +suppe a existencia anterior da melancolia ou da mania, sem uma das +quaes no pde _nunca_ produzir-se[2]. Em 1859 Neuman considerava a +_Verrcktheit_ uma cura com perda de substancia da intelligencia, isto +, uma cura incompleta da mania ou da melancolia, um estado secundario +ou consecutivo, acompanhado de uma decadencia das faculdades. + + [1] Albers, _Memoranda der Psychiatrie_. + + [2] Spielmann, _Diagnostik der Geisteskrankheiten_. + +Crmos inutil proseguir em citaes. As precedentes bastam a dar-nos uma +clara ida da doutrina pathogenica dos delirios, systematisados segundo +a psychiatria allem d'esta epocha. Suspensas na sua evoluo para a +demencia, a mania e a melancolia atardar-se-hiam nas frmas expansivas +ou depressivas da _Verrcktheit,_ delirio de grandezas ou delirio de +perseguies. + +Em contraste, porm, com estas idas, que durante vinte annos dominaram +absolutamente a psychiatria allem, descreveu Snell em 1865, baseando-se +em dez casos de observao pessoal, uma nova frma de loucura +essencialmente caracterisada pela appario primitiva de estados +allucinatorios e conceitos delirantes de contheudo mixto, expansivo e +depressivo. + +Esta frma, que Snell denomina _monomania_ ou _Wahnsinn_, inteiramente +distincta da mania e da melancolia. N'ella podem as idas de perseguio +e de grandeza ser contemporaneas ou successivas; quando as ideias +ambiciosas succedem s de perseguio realisa-se uma metamorphose da +personalidade vesanica. A evoluo d'esta frma essencialmente +chronica e o seu prognostico infausto. A adopo do termo francez +_monomania_ parece indicar a parcialidade do delirio que, segundo Snell, +no conduz nunca demencia, como a do termo allemo (derivado de +_Vahn_: delirio, e _Sinn_: sentidos) pe em relevo a importancia das +allucinaes. + +Acceitando este modo de vr, Griesinger penitenceia-se em 1867 da +excessiva e precipitada generalisao das suas idas pathogenicas e +acaba por admittir, ao lado da _Secundre Verrcktheit,_ uma _Primre +Verrcktheit_, analoga ao _Wahnsinn_ de Snell. Na lio de abertura do +seu curso n'esse anno exprimia-se assim o grande chefe da psychiatria +allem: ctualmente no considero j como frmas secundarias as +alteraes peculiares, muito chronicas e mixtas do delirio persecutorio +e ambicioso; ao contrario, convenci-me da origem _protogenica_ d'estes +estados que denomino _Primre Verrcktheit._ + +Perfilhando as idas de Griesinger sobre a _Primre Verrcktheit,_ +descreveu Sander em 1868, baseado em quatro casos clinicos, uma +variedade congenita d'esta frma sob a designao de _Originre +Verrcktheit_. Os delirantes perseguidos ou ambiciosos d'este sub-grupo +so desde a infancia taciturnos, mysantropos, romanticos, excessivamente +phantasistas, faltos de energia, onanistas, n'uma palavra, +originariamente enfermos. na puberdade que os delirios, de longa data +preparados, fazem exploso. Sander nota as tendencias remittentes da +_Originre Verrcktheit_ e observa que a demencia est muito longe de +ser um dos seus modos de terminao. + +Como se v, a primitividade ou protognese dos delirios systematisados, +admittida desde todo o principio pelos alienistas francezes, agora +acceite pela psychiatria allem, cujo dogmatismo desde 1845 a 1865 +mandava admittir _quand mme_ uma preexistente psychose maniaca ou +melancolica em todos os delirios de perseguio e de grandeza. + +No morreu, como veremos ainda, a _Secundre Verrcktheit,_ a despeito +de Koch e de Pelman que lhe negaram a existencia; mas a sua esphera +clinica foi estreitecendo medida que alargava a da _Primre +Verrcktheit_. + + * * * * * + +Voltemos aos trabalhos francezes. + +Tendo tido a felicidade de sobreviver trinta e um annos publicao da +sua memoria sobre o delirio de perseguies, Lasgue foi conduzido pela +ulterior observao clinica dos factos a modificar uma das affirmaes +que n'esse trabalho fizera. Assim, tendo escripto em 1852 que os +perseguidos supportam resignadamente todos os seus martyrios--a ponto, +dizia ento, de no ter visto um s reagir por um acto de vingana, +Lasgue constatou mais tarde a existencia de muitos que se apresentam +armados para a lucta, represaliando energicamente, como Sandon, como +Verger, como Teulot, as suppostas perseguies. Perito em mais de uma +ruidosa questo medico-legal determinada pelas violencias d'esta ordem +de doentes, o eminente professor foi ainda, elle proprio, victima das +aggresses brutaes de um d'elles, que o appellidava _chefe dos +alienistas alienisantes_. Modificando as suas primitivas idas, o +celebre psychiatra achou que o delirio de perseguies comporta duas +variedades, correspondendo aos modos de reaco dos doentes: uma +_passiva_, a mais commum, representada pelos perseguidos que apenas se +defendem, fugindo ao convivio, mudando de logares, tomando nomes +suppostos, cosinhando os proprios alimentos, queixando-se s +auctoridades, barricando-se dentro dos seus aposentos, suicidando-se +mesmo; outra _activa_, representada pelos que acceitam a lucta e +respondem ao mal com o mal, calumniando, ferindo, matando at. Aos +doentes d'esta ultima cathegoria deu Lasgue o nome, depois consagrado, +de perseguidos-perseguidores, consignando que a explicao do seu modo +especial de reagir deve ser pedida, no a condies privativas do +delirio, mas ao caracter moral preexistente vesania. + +Pondo no estudo da variedade _activa_ do delirio de perseguies o mesmo +espirito de analyse que desenvolvera na creao da frma _passiva_ ou +commum, Lasgue fez a proposito as seguintes indicaes de uma justeza +clinica indiscutivel: que os perseguidos-perseguidores chegam +personificao do seu delirio em virtude de circumstancias accidentaes +ou de factos sem importancia, mas exactos, que determinaram a sua +antipathia por um dado individuo; que taes circumstancias ou factos +reaes no so, em geral, recentes, mas antigos e evocados pela memoria, +incessantemente occupada na revivescencia do passado; emfim, que os +doentes, uma vez achado o seu perseguidor, no o esquecem mais, no o +abandonam, nem o substituem, quando mesmo factos ulteriores e de maior +valia justifiquem sentimentos de odio e de vingana contra outros +individuos. Na escolha do perseguidor evidenceiam os perseguidos activos +a mesma critica futil que os passivos demonstram na determinao dos +factos que apontam como provas de perseguio: uma pedra achada porta, +um lenol esquecido na varanda de um visinho, a tosse de um sujeito que +passa. De resto, Lasgue observou que, excepo feita do modo de reaco +delirante, perseguidos activos e passivos se comportam identicamente, +offerecendo o mesmo quadro de symptomas e a mesma evoluo pathogenica. + +Creando a variedade _activa_ do delirio de perseguies, o notavel +professor melhorou, pois, completando-a, a sua primitiva descripo +clinica d'esta psychose, sem, todavia, a alterar na essencia; de facto, +a unidade da doena persistiu, no tendo alcance nosologico, mas apenas +medico-legal, o reconhecimento das duas variedades. + +Ulteriores trabalhos, porm, vieram quebrar, dentro da propria Frana, +essa unidade do delirio de perseguies. + +Notou, com effeito, J. Falret em 1878 que ha entre os perseguidos +activos ou perseguidos-perseguidores duas cathegorias de doentes que +profundamente divergem; symptomas, evoluo, etiologia--tudo n'elles +differente. Uns, em verdade (e so esses os que Lasgue notou), apenas +no modo de reaco delirante se separam do typo classico dos perseguidos +passivos, sendo-lhes em tudo o mais similhantes: nos symptomas, porque, +como estes, offerecem idas systematicas de perseguio alimentadas por +erros sensoriaes constantes, sobretudo por allucinaes auditivas; na +marcha, porque, como os perseguidos communs, podem soffrer a alterao +de personalidade caracterisada clinicamente pela passagem do delirio de +perseguies, ao de grandezas; na etiologia, emfim, porque teem uma +historia ancestral e pregressa identica dos perseguidos vulgares. Com +razo, portanto, fez Lasgue d'estes perseguidos activos os +representantes apenas de uma variedade clinica do delirio de +perseguies. Outros, porm, no offerecem do quadro d'esta psychose +seno as idas systematisadas de perseguio, divergindo em tudo o mais: +na symptomatologia, porque as suas concepes morbidas no se apoiam em +erros sensoriaes; na marcha, porque nunca o seu delirio se transforma, +n'um sentido ambicioso; na etiologia, emfim, porque a sua historia +ancestral e anamnestica no a dos outros perseguir, dos, activos ou +passivos, mas a dos degenerados hereditarios. + +A doena de Lasgue no comporta esta cathegoria de +perseguidos-perseguidores; foroso , pois, no dizer de Falret, +acceital-os como representantes de uma outra _especie_ nosographica. + +Pottier desenvolve no seu _Estudo sobre os alienados perseguidores_ as +idas do eminente clinico de Salptrire, seu mestre, insistindo no +diagnostico differencial entre estes vesanicos e os outros perseguidos. +A proposito da etiologia escreve: Estes doentes, em vez de apresentarem +desde a juventude um caracter desconfiado ou de passarem pela phase de +hypocondria que muitas vezes precede o delirio de perseguies +ordinario, teem quasi sempre manifestado na infancia, na adolescencia ou +na idade adulta alguns dos symptomas physicos e moraes attribuidos hoje +aos alienados hereditarios: alteraes de caracter, desigual +desenvolvimento das funces intellectuaes, faculdades eminentes ao lado +de enormes lacunas, accidentes nervosos ou perturbaes mentaes +passageiras, na puberdade, existencia movimentada, irregular, vagabunda, +perverses genitaes e outras. O passado d'estes doentes , n'uma +palavra, no o dos perseguidos classicos, mas o dos alienados +hereditarios[1]. + + [1] Pottier, _tude sur les alins perscuteurs_, pag. 3 + +A proposito da ausencia de allucinaes n'estes doentes, diz Pottier: +Imaginou-se que as allucinaes auditivas, escapando a uma observao +superficial, seriam encontradas n'estes doentes por um exame +escrupuloso. No assim, porm. Ns crmos, ao contrario, que, na +direco actual das idas, se teem admittido allucinaes no +demonstradas ou se teem tomado como allucinaes simples phenomenos de +interpretao delirante, illuses ou mesmo impresses procedentes do +mundo exterior e realmente percebidas pelos doentes, cuja acuidade +sensorial se encontra muitas vezes exaggerada[2]. + + [2] Pottier, _Obr. cit._, pag. 38. + +Sobre a evoluo do delirio n'estes doentes, diz ainda Pottier: Ha +periodos de remisso prolongada e de intensa exacerbao, mas nenhuma +evoluo progressiva ... Estes alienados so, em regra, muito orgulhosos, +mas no chegam, como os outros perseguidos, megalomania, ao delirio de +grandezas, emfim, a uma verdadeira transformao da personalidade[1]. + + [1] Pottier, _Obr. cit._, pag. 39. + +A estas notas differenciaes junta Pottier uma outra: a existencia, nos +doentes de que nos occupamos, de accidentes cerebraes, congestivos ou +convulsivos, produzindo-se a largos intervallos. Observem-se +attentamente, diz, o auctor, estes doentes durante o curso da sua vida, +estudem-se as observaes j publicadas, e chegar-se-ha a verificar que, +nos perseguidores lucidos, accidentes cerebracs graves se do de tempos +a tempos e que, as mais das vezes, elles morrem cerebralmente, quer por +um ataque, quer por influencia de leses consecutivas[2]. + + [2] Pottier, _Obr. cit._, pag. 41. + +Ainda no capitulo do diagnostico, o mais completo do trabalho que vimos +citando, observa Pottier a extrema facilidade com que os perseguidores +conseguem fazer perfilhar as suas idas por um grande numero de pessoas, +chegando mesmo a interessar em sua defeza a propria imprensa. A +explicao d'este _contagio delirante_ procede sobretudo, segundo +Pottier, da convergencia d'estes dois factos: de um lado, a +intelligencia de ordinario muito viva d'estes doentes e a sua incansavel +actividade; de outro lado, o colorido verosimil do seu delirio, que no + em si mesmo absurdo, que se no apoia em estados allucinatorios, mas +que tem por base factos reaes, embora morbidamente interpretados, e +circumstancias possiveis, cuja veracidade no facil contestar ou mesmo +pr em duvida. + +Os _litigantes_ ou _processomanos_ constituem a mais importante +cathegori d'estes doentes; uma outra formada pelos _perseguidores +hypocondriacos_ que, attribuindo os seus imaginarios males ao tratamento +seguido, hostilisam o medico assistente. + +As idas de J. Falret fizeram carreira em Frana, onde os +perseguidos-perseguidores so geralmente considerados como exemplares de +loucura lucida _(folie raisonnante)_, sub-grupo das degenerescencias +psychicas hereditarias. Nas suas _Lies clinicas sobre as doenas +mentaes_, Magnan presta um largo apoio doutrina de Falret, fazendo +apenas reservas sobre dois pontos: as allucinaes, que elle admitte a +titulo de excepo, e os accidentes cerebraes, que julga, em face da sua +experiencia pessoal, muito menos frequentes do que se tem pensado. + +De passagem faremos notar que na Allemanha o _delirio processivo_ tem +soffrido as mesmas vicissitudes theoricas que experimentou em Frana o +delirio dos perseguidos-perseguidores. Ao passo que a maioria dos +auctores, maneira de Lasgue, consideram aquelle delirio uma simples +variedade da _Verrcktheit_, descrevendo-o, como faz Krafft-Ebing, ao +lado do delirio de perseguies, outros, como Arndt, Kraepelin e Schle, +fazem d'elle um sub-grupo da _loucura moral._ + + + +III--PHASE SYNTHETICA + +De Morel a Magnan; de Westphal a Cramer; de Buccola a Tanzi e Riva--A +loucura hypocondriaca; o delirio chronico; a loucura parcial; a +Verrcktheit aguda e chronica; a Paranoia; a delusional +insanity--Determinao pathogenica. + + +Vimos precedentemente que Morel, quando ainda a psychiatria franceza se +esforava por elevar cathegoria de frmas nosographicas autonomas os +delirios de perseguies e de grandezas, esboara a doutrina segundo a +qual taes delirios no seriam seno manifestaes de uma doena ou, mais +precisamente, transformaes progressivas da loucura hypocondriaca. + +Da ida inicial de um compromisso da saude, caracteristica da +hypocondria, passaria o doente, generalisando, ida de um compromisso +da vida, da honra, dos interesses intellectuaes e moraes, caracteristica +do delirio de perseguies. Este seria uma simples manifestao da +hypocondria anomala ou, como elle proprio escreve, sublinhando, _uma +hipocondria de uma natureza mais intellectual_. Em 1860 exprimia-se +assim no seu _Tratado_ o illustre psychiatra: Fallando da hysteria, +disse eu que esta nevrose pde percorrer as suas phases mais +extraordinarias sem que a alterao das faculdades intellectuaes e +afectivas se torne uma consequencia forada. A hysteria larvada, se +assim posso exprimir-me, offerece perigos muito maiores para o livre +exercicio das faculdades, como provei com numerosos exemplos. A mesma +reflexo pde applicar-se hypocondria. Para d'isto nos convencermos, +basta examinar at que ponto o temperamento dos individuos com delirio +predominante de perseguies est sob a influencia d'este estado +nevropathico[1]. E mais adiante: Quando elles (os hypocondriacos) +chegam supposio de que os seus alimentos teem venenos ou, pelo +menos, substancias que lhes produzem as sensaes de que se queixam; +quando elles se imaginam expostos aos maleficios do que chamam potencias +occultas, como a electricidade e o magnetismo, e pensam que a propria +policia procura perdel-os, podemos estar certos de que vo entrar _na +phase d'este delirio especial_ que a designao de _delirio de +perseguies_ melhor do que todas exprime[2]. + + [1] Morel, _Trait des maladies mentales_, pag. 706. + + [2] Morel, _Obr. cit._, pag. 707. + +Quanto ao _delirio ambicioso_ elle seria, segundo Morel, uma terminao +frequente do delirio de perseguies. Fallando dos megalomanos, +escrevia: E quando mesmo os doentes chegaram a este estado de +contentamento e de vaidosa satisfao que proprio das idas +systematicas de grandeza, elles no lograram collocar-se de um modo fixo +e irremediavel sobre o pedestal da sua loucura seno com a condio de +passarem por todas as peripecias do delirio de perseguies, e de terem, +as mais das vezes, experimentado todos os soffrimentos dos +hypocondriacos[3]. + + [3] Morel, _Obr. cit._, pag. 716. + +Para explicar a passagem do delirio de perseguies ao de grandezas, +Morel no invocava, maneira de Foville, o _raciocinio_ e a _logica,_ +mas a _physiologia morbida:_ era, com effeito, ao echo psychico de uma +alterao no funccionalismo visceral dos hypocondriacos que elle ia +procurar a chave d'este phenomeno _to frequente quanto assombroso para +os homens alheios medicina e desconhecedores das leis dos organismos +doentes._ + +Esta doutrina, integrando os delirios de perseguies e de grandezas na +hypocondria, representava uma tentativa de synthese clinica, +naturalmente destinada a no encontrar seguidores entre os +contemporaneos de Morel, porque o tempo era de analyse, e a tendencia +geral a da multiplicao das frmas nosographicas. O estudo minucioso +dos symptomas absorvia as attenes, relegando a um plano subalterno o +das causas e da evoluo das doenas. Embora combatidas quasi desde a +sua introduco na sciencia, as _monomanias_ de Esquirol triumphavam +ainda ento: o delirio de perseguies era uma monomania, o delirio de +grandezas, outra. O _Tratado_ de Marc, o mais cotado dos livros +classicos da psychiatria franceza, consagrava esta doutrina em 1862; e a +memoria de Foville, que atraz citmos, tem a data de 1869, como tem a de +1871 a monographia de Legrand du Saulle, de que tambem dmos ida no +capitulo anterior. + +Isto dizer que no foi comprehendida a maneira de vr de Morel sobre +os delirios systematisados, como o no foram outros pontos de vista +d'este homem de genio, que Morselli justamente denomina o _Darwin da +psychiatria_. Fallava para o futuro o auctor das _Degenerescencias +Humanas_, cuja alta originalidade rompe na historia da medicina mental +franceza o parallelismo entre a ordem chronologica e a ordem logica das +idas. + + s em 1883, mais de vinte annos depois de publicado o _Tratado_ de +Morel, que as idas d'este psychiatra a proposito dos delirios +systematisados so retornadas e postas em relevo n'um trabalho de +Grente. + +Escripto sob a evidente inspirao de Magnan, esse trabalho destina-se a +provar com o apoio dos factos, que no existe _um_ delirio +hypocondriaco, _um_ delirio de perseguies e _um_ delirio de grandezas, +mas uma vesania, o _Delirio Chronico,_ de que aquelles no so seno +phases evolutivas. Vamos, diz o auctor, estudar clinicamente todos os +delirios da vesania; seguiremos n'uma observao attenta a gnese e a +evoluo d'estes delirios; e, por concluso d'este trabalho, esperamos +que em vez d'essas _monomanias_, to artificiaes e to confusas, de +certos auctores, apparea claramente, emfim, _uma s e mesma especie +morbida_ que chamaremos o _Delirio Chronico_[1]. + + [1] Grente, _Le dlire chronique_, pag. 10. + +O que , verdadeiramente, este _Delirio Chronico_? Segundo Grente, uma +doena que, germinando sempre n'um terreno hypocondriaco, se denunca +nos seus casos typicos e eschematicos pela successo regular de tres +periodos: um de concentrao dolorosa do espirito; um de expanso; e um +mixto ou de transio entre os dois. Se a doena se prolonga +sufficientemente, a demencia o seu termo natural. + +O terreno hypocondriaco em que, segundo Grente, o _Delirio Chronico_ +mergulha as suas raizes para constituir-se e crescer, caracterisado +essencialmente por uma impressionabilidade anormal, de origem quasi +sempre hereditaria, por uma perverso dolorosa da sensibilidade mental, +n'uma palavra, por uma _hyperalgesia psychica_; uma autoobservao +permanente, uma sorte de habitual _ruminao_ interior de estados +physicos ou de estados moraes define a mentalidade prediposta, da qual, +sob a mais ligeira causa determinante, ha de surgir a vesania. , pois, +um hypocondriaco o candidato ao _Delirio Chronico_; mas no um +alienado, emquanto sobre si mesmo poder exercer uma aco de _contrle_. +Sel-o-ha no dia em que esse exercicio se torne impossivel, no dia em que +a preoccupao dos seus estados physicos e moraes venha a ser absorvente +e o desligue das relaes normaes com a sociedade. A hypocondria simples +torna-se ento loucura hypocondriaca. E d'ela que vae sahir o periodo +inicial ou depressivo do _Delirio Chronico_. + +Este periodo caracterisado por uma concentrao dolorosa do Eu, de que +procedem idas delirantes de natureza depressiva e de um contheudo que +vara com a intelligencia, a educao e o meio do doente. As falsas +concepes hypocondriacas subsistem ainda; mas, ao lado d'ellas, outras +germinam: a crena n'uma hostilidade dos homens (delirio de +perseguies) ou de maleficos poderes sobrenaturaes (demonomania). +Perturbaes da sensibilidade geral e especial, sobretudo allucinaes +auditivas, dominam esta phase do _Delirio Chronico_, de uma durao que +pde ser muito longa. + +Mas, pouco a pouco, a dr moral esbate-se; e na personalidade vesanica, +enfraquecida pelo delirio depressivo, uma sorte de reaco se d em +sentido contrario. Ento, no espirito enfermo, trabalhado por infinitas +angustias, uma pouca de felicidade rompe, como n'um ceu enevoado uma +restea de sol: entre as idas depressivas surgem idas de grandeza, +ainda vagas, mas a que o futuro reserva uma preponderancia definitiva. +Esta confuso de elementos apparentemente contradictorios, de idas e +sentimentos depressivos com estados expansivos, caracterisa o segundo +periodo, chamado, por isso, mixto ou de transio. + +Como a dr moral e as idas depressivas definem o primeiro periodo, a +plena beatitude de espirito e as idas ambiciosas definem o terceiro. +Lentamente, as emoes e as concepes expansivas do periodo mixto vo +tomando crescente logar no espirito vesanico custa de uma reduco na +intensidade e numero das emoes e idas depressivas, que acabam por +desapparecer. Ento, um delirio de grandezas de colorido mystico ou +humano, versando sobre a graa, sobre dotes pessoaes, sobre riquezas, +sobre posio social, se estabelece definitivamente, caracterisando na +sua exclusividade o terceiro periodo do _Delirio Chronico_. + +Esta lenta evoluo da vesania--to lenta que pde cobrir dezenas de +annos, no se faz sem que a mentalidade soffra nas suas foras vivas e +productoras. E assim, o seu termo natural a demencia, quer simples e +apathica, se o delirio cessou absolutamente, quer agitada, se restam +perturbaes da sensibilidade e falsas concepes desconnexas e +dissociadas. + +Tal , summariamente, a marcha typica do _Delirio Chronico,_ segundo +Grente, + +Nem sempre, porm, faz observar o auctor, as coisas se passam d'este +modo regular e eschematico; no raro apparecem casos em que a evoluo +descripta no tem logar: pde, por exemplo, o periodo depressivo, +representado por um delirio de perseguies, extender-se por toda a vida +do doente que no chega a fazer um delirio de grandezas, caracteristico +do terceiro periodo; pde do periodo mixto passar um outro doente +demencia, sem que o periodo expansivo se tenha realisado em toda a sua +pureza; pde acontecer que a doena suspenda a sua evoluo n'um delirio +hypocondriaco inicial, que se perpetua, systematisando-se e +estereotypando-se; emfim, pde mesmo dar-se uma regresso, voltando o +doente do delirio ambicioso ao de perseguies. Como todas as doenas, +comporta o _Delirio Chronico_ anomalias evolutivas, que compete +clinica registrar; esses casos, porm, no invalidam o _typo_ descripto +sobre exemplares completos. + +Como se v, n'esta synthese clinica retoma Grente as idas fundamentaes +de Morel sobre os delirios systematisados, reduzindo-os a expresses +symptomaticas e momentos evolutivos de uma vesania caracterisada pela +successo de duas phases apparentemente oppostas: uma, inicial, +angustiosa e depressiva; outra, final, expansiva e de beatitude, Toda a +differena, entre os dois psychiatras, est em que Morel chamava +_Loucura hypocondriaca_ ao que Grente denomina _Delirio Chronico_, + +Vejamos agora a pathogenia da doena, tal como a comprehende este +psychiatra. + +De um lado, importa considerar o fundamento hereditario, commum a todas +as psychoses funccionaes: No vesanico, diz elle, quem quer: +precisa uma longa incubao; so precisas, pelo menos, duas geraes que +preparem o terreno[1]. No, claro, duas geraes de delirantes +chronicos, mas de nevro e psychopatas. So umas vezes, explica, +nevroses, outras vezes intoxicaes chronicas, outras ainda anomalias da +intelligencia, do sentimento ou da vontade a que se no prestaria, +talvez, atteno, mas que nem por isso deixaram de imprimir o seu cunho +sobre o individuo e os seus descendentes[2]. A tara hereditaria cria a +predisposio; para determinar a doena qualquer abalo moral bastante. + + [1] Grente,_Obr. cit._, pag. 8. + + [2] Grente,_Obr. cit._, pag. 9. + +Mas, por outro lado, importa em relao ao _Delirio Chronico_ attender +natureza especial do terreno predisposto. O que atraz dissemos, +dispensa-nos de insistir sobre este ponto: sabido que para Grente, +como para Morel, essa feio peculiar consiste na hypocondria. + +Emfim, conhecidas as causas e o terreno morbido, importa conhecer a +_leso,_ no sentido psychologico do termo. + +Ora, segundo Grente, nenhuma duvida pde existir a este proposito. +sempre, diz elle, uma alterao do senso emotivo, a alterao do +sentimento, agora penosa, logo expansiva, que imprime tal ou tal +direco s perturbaes da sensibilidade e s idas delirantes; esta +alterao , pois, a _leso essencial e caracteristica ao delirio +chronico_[3]. + + [3] Grente,_Obr. cit._, pag. 24. + +Cremos ter dado uma ida sufficiente da doutrina exposta por Grente. +Uma psychose, de origem hereditaria, de evoluo de ordinario regular e +tendo por leso primitiva uma perturbao do sentimento, integraria como +syndromas os delirios systematisados, hypocondriaco, de perseguies e +ambicioso, descriptos na antiga psychiatria como doenas autonomas, sob +a designao de monomanias; _Delirio Chronico_ o nome d'essa psychose. + +Dissemos que Grente se inspirou nas idas de Magnan; e talvez +podessemos mesmo affirmar que aquelle no fez seno expr no seu +trabalho, que uma these de doutoramento, os pontos de vista do mestre. +De facto, no s a designao de _Delirio Chronico_ tomada por Grente +para titulo do seu livro, foi creada por Magnan, que a vulgarisara nas +suas lies oraes, mas foram colhidas no servio e sob a direco +d'este, no asylo de Sant'Anna, as observaes clinicas da these. +Entretanto, nos debates que em 1887 se abriram sobre o assumpto na +Sociedade Medico-Psychologica de Paris, Magnan apparece-nos, como mais +tarde nas suas _Lies Clinicas_, publicadas em 1893, expondo uma +doutrina do _Delirio Chronico_ notavelmente diversa da proclamada por +Grente. Admittiremos que o insigne clinico de Sant'Anna concedesse ao +seu discipulo uma absoluta liberdade de opinio? isso possivel; mas +no provavel que Grente abusasse de tal liberdade at ao ponto de +cobrir com a designao consagrada pelo mestre uma doutrina propria e em +mais de um ponto contraria d'este. O que nos parece mais acceitavel +que o conceito de _Delirio Chronico_ tenha soffrido no espirito de +Magnan uma evoluo durante o periodo que vem da these de Grente +discusso da Sociedade Medico-Psychologica. + +Como quer que seja, as duas doutrinas, a de 1883 e a de 1887, differem +muito. o que vamos vr. + +Ao passo que Grente, como foi dito, fazia derivar o _Delirio Chronico_ +de uma predisposio quasi sempre hereditaria e preparada atravez de +geraes, Magnan affirma que um tal facto excepcional e que, de +ordinario, a psychose affecta individuos isentos de qualquer tara +nervosa e absolutamente correctos no ponto de vista mental. O _Delirio +Chronico_, diz Magnan, fere em geral na idade adulta individuos sos de +espirito, no tendo at ento apresentado perturbao alguma +intellectual, moral ou affectiva. Insisto sobre este importante ponto, +porque tal particularidade basta para separar immediatamente os +delirantes chronicos dos degenerados hereditarios que offerecem desde a +infancia perturbaes que os fazem reconhecer[1]. + + [1] Magnan, _Leons cliniques sur les maladies mentales_, pag. 236. + +Ao passo que Grente, seguindo a tradio de Morel, admittiu como +constante uma phase inicial hypocondriaca na constituio do _Delirio +Chronico_, Magnan no a acceita seno a titulo excepcional. Para Morel, +escreve o medico de Sant'Anna, preciso que elles (os perseguidos que +se tornam ambiciosos) tenham sido hypocondriacos primeiro; ora, sendo a +hypocondria, como se sabe, as mais das vezes uma manifestao +dos hereditarios degenerados, no parece provavel que o +_hypocondriaco-perseguido-ambicioso_ possa apresentar caracteres +bastante fixos para entrar no quadro do _Delirio Chronico_[2]. + + [2] Magnan, _Obr. cit._, pag 221. + +Emfim, emquanto Grente concedia irregularidades de marcha ao _Delirio +Chronico_, admittindo a existencia de casos frustres em que a evoluo +se suspendia ou mesmo por algum tempo retrogradava, Magnan exclue do +_Delirio Chronico_ todos os casos d'esta natureza. Depois, com effeito, +de ter admittido na evoluo do _Delirio Chronico_ quatro periodos +nitidamente desenhados--o _de incubao_, o _de perseguies_, o +_ambicioso_ e o _demente_, Magnan escreve: Estes periodos succedem-se +irrevogavelmente da mesma maneira, de sorte que podemos sem receio pr +fra do _Delirio Chronico_ todo o doente que _d'emble_ se torna +perseguido ou ambicioso, ou que, primeiro ambicioso, se torna depois +perseguido[3]. + + [3] Magnan, _Obr. cit._, pag 237. + +So estes tres os pontos em que as syntheses clinicas do _Delirio +Chronico_, a de 1883 e a actual, differem. Quanto ao nome, julgou +Magnan, depois dos reparos de alguns criticos, dever amplial-o para o +tornar mais explicativo: _Delirio Chronico de evoluo systematica_ a +designao adoptada por este psychiatra nas suas _Lies Clinicas_. + +Naturalmente occorre perguntar para que nova cathegoria so relegados os +casos, to numerosos, de delirios systematisados de evoluo irregular +que Grente considerava como exemplares frustres de _Delirio Chronico_ e +que Magnan resolutamente aparta do quadro clinico d'esta psychose. A +resposta vae o leitor encontral-a no resumo que em seguida fazemos dos +debates a que deu logar na Sociedade Medico-Psychologica de Paris a +doutrina do _Delirio Chronico_. + +Digamol-o desde j: vigorosamente sustentada por Garnier e Briand, a +synthese clinica de Magnan foi tambem rudemente combatida. + +Ninguem contestou a existencia de alienados que, primeiro inquietos, +suspeitosos, interpretando illusoriamente e n'um sentido pejorativo +todos os actos e palavras d'outrem (_periodo de incubao_), se tornam +depois allucinados, sobretudo do ouvido, e se lanam n'um delirio +systematisado de hostilidades (_periodo de perseguies_), fabricam mais +tarde ainda idas de grandeza (_periodo ambicioso_), e, por fim, cahem +n'um estado de enfraquecimento cerebral em que as concepes falsas se +esbatem e dissociam (_periodo de demencia_). Ninguem contestou, +repetimos, a existencia d'estes casos; contestou-se, porm, desde todo o +principio, que elles fossem _regra_. A fatalidade do terceiro periodo do +_Delirio Chronico_ foi, por exemplo, negada. Assim, J. Falret sustentou +que _o delirio de grandezas s n'um tero dos casos succede ao delirio +de perseguies_. Facilmente se comprehende o alcance d'esta affirmao +que varios alienistas--Christian entre outros--apoiaram: ao passo que +para Magnan o delirio ambicioso um periodo inevitavel do _Delirio +Chronico_, para Falret elle no constitue seno um episodio fallivel da +evoluo vesanica, um delirio que apenas accidentalmente vem +juxta-por-se ao de perseguies. Se todo o alienado que entrou, no +_d'emble_, mas aps uma phase mais ou menos longa de incubao, no +delirio de perseguies, houvesse fatalmente de tornar-se ambicioso, +Magnan teria, talvez, razo, affirmando a existencia de uma _Psychose_ +na qual o delirio de grandezas representaria, segundo a sua phrase, um +papel evolutivamente similhante ao da _suppurao n'nuna erupo +variolica;_ mas se, como pretende Falret, esse alienado pde +perpetuar-se no delirio de perseguies sem jmais esboar uma ida +ambiciosa, tal _Psychose_ no existe: a synthese clinica legitima no +o _Delirio Chronico de evoluo systematica,_ mas o _Delirio de +Perseguies,_ que pde ou no, _sem mudar de natureza_, complicar-se de +um delirio ambicioso. Baseada em factos e apoiada na auctoridade de +alienistas illustres, a objeco de Falret parece decisiva contra a +doutrina actualmente professada por Magnan. + +Notemos de passagem que o argumento de Falret no attingiria a doutrina +de Grente, segundo a qual o _Delirio Chronico,_ maneira d'outras +doenas, comportaria casos de evoluo irregular, anomala, entre os +quaes estariam esses a que se reporta o sabio medico da Salptrire. + +J. Falret contestou ainda a Magnan que a demencia constitua o termo +irrevogavel de uma vesania que passou pelas phases dos delirios de +perseguies e de grandezas: muitos perseguidos e ambiciosos ha, segundo +elle, que, ao fim de trinta, de quarenta e mais annos de delirio, morrem +sem ter attingido a demencia. mister dizer-se, para avaliar este +argumento, que Magnan no toma a palavra _demencia_ no restricto sentido +de abolio das faculdades, mas na accepo mais larga de +enfraquecimento e falta de iniciativa mental. Desde que o delirio se +_estereotypa_ (o que de regra na phase ambiciosa e muitas vezes se d +mesmo na phase persecutoria da vesania), o enfraquecimento cerebral +j, segundo Magnan, um facto, que a diuturnidade da doena no faz seno +aggravar; chamar-lhe, pois, _demencia_, quando elle attinge um grau em +que os conceitos delirantes, desde ha muito invariaveis, se dissociam, +no dever parecer seno legitimo. Em todo o caso, n'este sentido que +o medico de Sant'Anna toma a _demencia_ quando faz d'ella a phase +terminal da sua Psychose. + +Manifestando uma grande incomprehenso das idas do medico de Sant'Anna, +alguns membros da Sociedade tentaram atacar a doutrina do _Delirio +Chronico_, affirmando que muitos vesanicos so ambiciosos antes de serem +perseguidos; que outros surgem com um delirio de perseguies sem terem +passado por uma phase de incubao; que alguns, emfim, s +intermittentememe deliram n'um sentido persecutorio ou ambicioso. Todos +estes casos so conhecidos e de observao diaria; mas, desde que Magnan +os colloca, pela irregularidade mesma da sua marcha, fra do quadro do +_Delirio Chronico_, evidentemente absurdo invocal-os contra a +legitimidade d'esta psychose. + +Para Magnan, ao lado do _Delirio Chronico de evoluo systematica_, ha +os delirios que elle chama _polymorphos_ ou _d'emble_. E as distinces +entre aquelle e estes so, segundo o eminente alienista, to profundas +quanto possivel, porque derivam da marcha, da etiologia e do +prognostico. Ao passo que o _Delirio Chronico_ se caracterisa +evolutivamente pela successo regular e irrevogavel de certos periodos, +sendo o primeiro de incubao, os delirios polymorphos teem uma evoluo +irregular, imprevista, e rompem subitamente, sem preparao. Emquanto, +sob o ponto de vista da etiologia, o _Delirio Chronico_ prescinde para +constituir-se de uma pesada tara ancestral, podendo installar-se em +individuos psychicamente correctos, os delirios polymorphos so +eminentemente hereditarios e s podem realisar-se em degenerados, quer +dizer em individuos tendo antes offerecido signaes de um desequilibrio +mental. Emfim, emquanto o _Delirio_, _Chronico_, na sua qualidade de +psychose progressiva e cyclica, absolutamente incuravel, os delirios +polymorphos, de marcha remittente ou intermittente, curam muitas vezes. + + evidente, em face d'esta doutrina, exposta sem reticencias no seio da +Sociedade Medico-Psychologica de Paris, que os casos, invocados por +Dagonet e outros, de doentes que entram em delirio de grandezas para +ulteriormente se tornarem perseguidos, de doentes que abruptamente, de +um dia para o outro, apparecem allucinados do ouvido e se crem victimas +de injustificadas hostilidades, de doentes que aps semanas de um +delirio qualquer ambicioso ou de perseguies, surgem curados para +recidivarem mais tarde, ou cahem rapidamente em demencia,-- evidente, +diziamos que esses casos nada provam, em si mesmos, contra a existencia +do _Delirio Chronico_, por isso que, segundo Magnan, elles pertencem a +uma cathegoria diversa e no so seno episodios mais ou menos longos e +interessantes da vida dos degenerados hereditarios. + +A doutrina do medico de Sant'Anna no pde ser combatida seno pela +demonstrao de que as differenciaes por elle feitas entre os +delirantes chronicos e os delirantes degenerados, so infundadas. Mas +como, sob o ponto de vista da marcha, a differenciao , _ao menos +n'um certo numero de casos_, indiscutivelmente exacta; como por consenso +de todos os alienistas e por testemunho irrecusavel da experiencia, ao +lado de doentes que incubam um delirio de perseguies e d'este passam +para o ambicioso, cahindo por fim n'um estado de fraqueza mental +(_Delirio Chronico_ de Magnan), ha doentes que fazem bruscos, +irregulares e mais ou menos ephemeros delirios multiplos, de que por +vezes curam, embora para recidivarem mais tarde (_delirios +degenerativos_ de Magnan), o ataque synthese clinica do medico de +Sant'Anna s pde ser feito de um ponto de vista mais alto, +demonstrando-se que as duas ordens de delirios, a despeito das suas +_allure_ diversas, procedem de uma causa commum e assentam sobre um +mesmo fundo. + +Sglas viu isto--e s elle parece tel-o visto--quando na Sociedade +Medico-Psychologica affirmou que alguns delirantes chronicos de Magnan +apresentam os estygmas physicos e mentaes dos degenerados hereditarios. + +Demonstrar esta proposio seria evidentemente destruir doutrina de +Magnan o seu mais solido fundamento: o etiologico. Se os degenerados +hereditarios podem delirar tanto de um modo remittente e anomalo como de +um modo regular e progressivo, caminhando tanto para a cura como para a +demencia, toda a differena entre o _Delirio Chronico_ e os _delirios +polymorphos_ se reduz a accidentes de marcha e a possiveis variaes de +prognose, o que no bastante para estabelecer _especies_ morbidas +distinctas. + +Nos longos debates da Sociedade Medico-Psychologica sobre os delirios +systematisados, tomaram parte os mais eminentes psychiatras francezes; +cremos, porm, que s Falret e Sglas produziram contra a legitimidade +clinica do _Delirio Chronico_ argumentos de valor. + +Mas no insistiremos sobre elles; por agora fazemos apenas historia. + +Para completarmos o que na psychiatria franceza tem direito a meno +especial em materia de delirios systematisados, resta-nos expr a +maneira de vr de Rgis. + +Retomando uma doutrina exposta por Baillarger em 1853, o auctor do +_Manual pratico de Medicina Mental_ sustenta que uma natural distinco +existe entre as _loucuras generalisadas_ e a _Loucura parcial_: ao passo +que as primeiras se caracterisam pela presena constante e essencial de +um elemento affectivo, _excitao_ na mania e _depresso_ na melancolia, +a segunda manifesta-se por simples perturbaes intellectuaes e moraes +sem participao, a no ser accidental e episodica, da emotividade. A +excitao e a depresso, affirma Rgis, so tanto a fundamental +caracteristica das loucuras generalisadas que muitas vezes s ellas +existem n'estas doenas: tal o caso das manias e melancolias sem +delirio, nas quaes, como se sabe, ha exaltao ou diminuio do _tonus +emotivo_, sem compromisso grave da intelligencia e do senso moral. O +contrario d'isto se d na _Loucura parcial_: um delirio mais ou menos +extenso caracterisa n'este caso a alienao, que s por momentos pde +acompanhar-se de crises ephemeras de excitao ou depresso, analogas s +dos espiritos normaes em conflicto com causas externas. A mania e a +melancolia, accrescenta Rgis, sendo muitas vezes idiopathicas, so, no +raro, meros symptomas d'outras doenas mentaes, como a hysteria, a +epilepsia, a demencia paralytica; ao contrario, a _Loucura parcial_ +sempre idiopathica, essencial. + +Ora, n'esta _verdadeira loucura_ que os delirios systematisados se +integram, segundo Rgis, a titulo de manifestaes e de estadios +evolutivos. + +No seu curso regular e typico, a _Loucura parcial_ offereceria tres +periodos: um, de _analyse subjectiva_, caracterisado pelo _delirio +hypocondriaco_; outro de _interpretao_, revellado pelo _delirio de +perseguies_ ou pelo _delirio mystico_, segundo o doente attribue a +pessoas ou a divindades os seus males; um terceiro, emfim, de +_transformao pessoal_, exteriorisado pelo _delirio ambicioso_. As +allucinaes, sobretudo auditivas, so o symptoma dominante da _Loucura +parcial_. + +Quanto etiologia, sustenta Rgis que a doena constitucional, faz +parte do individuo e surge n'um dado momento sob a influencia de +quaesquer circumstancias; isto dizer que _Loucura parcial_ +eminentemente hereditaria. Segundo este auctor, ella attinge de +preferencia os individuos sombrios, desconfiados, com tendencias +mysantropia e ao orgulho[1] + + [1] E. Rgis, _Manuel pratique de mdecine mentale_, 2 ed., pag. 228. + +Como se v, a _Loucura parcial_ de Rgis mantem relaes profundas de +similhana com a _Loucura Hypocondriaca_ de Morel e o _Delirio Chronico_ +de Grente. Um mesmo pensamento etiologico-evolutivo preside s tres +syntheses clinicas. + + * * * * * + +Expostos os trabalhos francezes sobre os delirios systematisados na sua +phase de synthese clinica e de interpretao pathogenica, vejamos, +retrocedendo na ordem dos tempos, o que se passou na Allemanha desde +que, com Snell, Griesinger e Sander, a psychiatria d'este paiz assentou +na existencia de delirios _primitivos_ de perseguies e de grandezas. + +Antes, porm, seja-nos licito dar uma explicao sobre a marcha a +seguir. + +Delimitar um assumpto a primeira das condies a preencher para +tratal-o scientificamente; a segunda, possuir uma nomenclatura +definida e precisa. Ora, no satisfazendo a uma s d'estas duas +condies os trabalhos allemes sobre os delirios systematisados, a +impresso que recebe quem d'elles procura tomar conhecimento, , sem +exaggero, a de ter penetrado n'um labyrintho. No o dizemos ns: por +esta ou analogas expresses disseram-no em 1887 Sglas e recentemente +Kraval, os alienistas francezes que com maior auctoridade se occuparam +do assumpto; disse-o tambem, mais insuspeitamente, Pelman ao formular ha +vinte annos esta queixa: Acabaremos por nem mesmo entre ns, +psychiatras, nos entendermos; repetirara-n'o, emfim, em 1894 quasi +todos os alienistas allemes que tomaram parte na discusso aberta sobre +a Paranoia na Sociedade Psychiatrica de Berlim. + +De facto, a extenso do assumpto varia de auctor para auctor; restricta +para uns que, como Krafft-Ebing, lhe estabelecem os mesmos limites que +os alienistas francezes, ella to vasta para outros, para Cramer, por +exemplo, que parece estar contida l dentro a psychiatria inteira. Por +outro lado ainda, a nomenclatura vaga e confusa: vaga, pela +multiplicidade de termos com que um dado auctor exprime um mesmo facto; +confusa, pela variedade de significaes de cada termo para cada auctor. +_Wahnsinn, Verrcktheit_ e _Paranoia_ so as palavras com que na +litteratura allem apparecem designados os delirios systematicos +descriptos pelos franceses; estes termos, porm, ora figuram como +synonimos, ora como vocabulos de significados distinctos, succedendo +ainda que o ultimo pelo mesmo auctor tomado umas vezes n'um sentido +restricto, outras vezes n'um sentido geral, infinitamente mais amplo. + +N'estas deploraveis condies de maxima obscuridade, fazer n'uma ordem +rigorosamente chronologica e sob a respectiva terminologia a exposio +das doutrinas allems cerca dos delirios systematisados, seria, +evidentemente, deixar o leitor em conflicto com obstaculos e +difficuldades que indeclinavelmente nos cumpre remover-lhe. E eis +porque, abandonando este invio caminho, procuraremos, antes de fazer +historia, fixar os limites do assumpto e o valor dos termos. + +A expresso _delirio systematisado_, empregada por opposio de +_delirio dissociado_ ou _incoherente,_ significa apenas que certas idas +morbidas habitualmente adherem e se conjugam em grupos associativos; +assim comprehendida, esta expresso no allude, nem mesmo remotamente, +quer _origem_ d'essas idas, quer _natureza_ e _grau_ da affinidade +que as liga, quer, emfim, sua _evoluo_. N'este sentido, to +systematisados so os delirios protogenicos como aquelles que succedem a +estados affectivos, tanto os que constituem doenas como os que apenas +representam syndromas, tanto aquelles em que as associaes morbidas so +activas e fortes como aquelles em que ellas so examines, passivas e +frouxas, tanto os que marcham para a extinco pela demencia como +aquelles que se perpetuam, tanto os continuos como os que procedem por +accessos. + +N'este sentido geral ha, pois, delirios systematisados _primitivos_ e +_secundarios_, _idiopaticos_ e _symptomaticos_, _continuos_ e +_intermittentes, agudos_ e _chronicos_. E assim, a no ser nos casos +extremos de mania, de demencia, de confuso mental e de idiotia, todos +os delirios sero mais ou menos systematisados, at os que se geram na +imbecilidade, at os que, uma ou outra vez, se desenvolvem nos periodos +iniciaes da paralysia geral, o que no far espanto, se nos lembrarmos +de que a systematisao associativa o fundamento mesmo de toda a +actividade mental. _Verrcktheit_ o termo empregado pela maioria dos +auctores allemes para, exprimirem este sentido geral dos delirios +systematisados; e se estes, como de regra, se associam a illuses e +allucinaes, o termo _Wahnsinn_ synonimamente empregado, se bem que +com menor frequencia. + +Mas ao lado d'este sentido geral e vago, ha um outro limitado e +restricto,--precisamente o que nas paginas precedentes vimos +implicitamente adoptado pelos psychtatras francezes. Este novo sentido +exclue os delirios _secundarios,_ os _symptomaticos_ e os _agudos_ para +comprehender apenas os _primitivos_, os _idiopaticos_ e os _chronicos_. +Na accepo restricta do termo, s so systematisados os delirios que +no teem uma base affectiva em estados expansivos ou depressivos (mania +ou melancolia), e que na sua evoluo progressiva ou remittente, mas +sempre continua e chronica, no offerecem tendencias para a demencia. +Tal o delirio de perseguies, typo-Lasgue; tal o delirio ambicioso, +typo-Foville; tal o delirio dos perseguidos-perseguidores, typo-Falret. + +Este sentido restricto parece ser tambem o proprio, se attendermos +a que o termo _systema_, pedido technologia das sciencias +physico-mathematicas, implica a ida de uma fora _activa_ e +_persistente_ de attraco ou de affinidade (_systemas planetarios, +systemas de crystalisao_); por analogia, na esphera psychologica o +_systema delirante_ deveria resultar de uma fora _viva_ e _permanente_ +de associao das idas, tal como se d smente nos delirios primitivos, +idiopaticos e chronicos,--delirios movimentados, activos, tenazes. +_Paranoia_ o termo com que de preferencia exprimem os auctores +allemes contemporaneos este sentido restricto dos delirios +systematisados, quer isolados, quer succedendo-se, quer coexistindo no +mesmo doente; e assim corresponde inteiramente _loucura systematizada_ +dos francezes, na qual esto comprehendidas as syntheses de Morel, de +Grente e de Rgis. + +Entretanto, mesmo os auctores para quem o termo _Paranoia_ tem esta +accepo restricta e determinada, o desviam d'ella no raras vezes (o +que uma causa de confuso) para tomal-o no sentido geral e como +synonimo de _Verrcktheit_ ou _Wahnsinn_; o que faz, por exemplo, +Krafft-Ebing que, no admittindo na sua theoria da Paranoia (_psychose +degenerativa_) seno a frma primaria, idiopatica e chronica, no duvida +empregar as expresses de _Paranoia epileptica_, de _paranoia +masturbatoria_ (_delirios syntptomaticos_), como no deixa de occupar-se +em detalhe de uma _Paranoia Secundaria (estado terminal das +psychoneuroses_). Note-se, porm,--e isto far cessar toda a +confuso--que o termo Paranoia, quando empregado n'um sentido geral +pelos auctores a que me refiro, vem sempre seguido de um adjectivo que o +determina; quando tomado no seu sentido restricto, ou vem s ou, quando +muito, acompanhado de um termo que faz alluso a accidentes evolutivos +de chronicidade ou ao contheudo das idas delirantes, como nas +expresses _Paranoia originaria, Paranoia adquirida_, ou ainda _Paranoia +persecutoria, Paranoia ambiciosa_. No primeiro caso, sendo a _Paranoia_ +uma _Verrcktheit_, um _Wahnsinn_, um delirio systematisado, importa +determinar-lhe a _especie_; no segundo, sendo uma _Primre +Verrcktheit_, um _Cronicher Wahnsinn_, um delirio systematisado +primitivo e chronico, a sua especie est definida, o seu logar marcado +na classificao, importando apenas, quando importe, designar-lhe a +_variedade_. + +Posto isto, diremos que sobre a _Paranoia_ como synthese clinica e +doutrina equivalente em extenso _loucura systematisada_ dos francezes +que primeiro vae recahir a nossa atteno. Claro est que este modo de +limitar o assumpto e de fixar-lhe a terminologia, de modo nenhum nos +inhibe de dar na historia das doutrinas um logar quellas em que o +assumpto se toma n'uma extenso maior; esse logar, porm, deve ser o +ultimo, no s porque assim o exige a clareza da exposio, mas porque +s depois de passados em revista os delirios systematisados primitivos e +chronicos, cerca dos quaes ha na Allemanha uma doutrina mais ou menos +definida, poderemos com vantagem occupar-nos dos secundarios e agudos, +cuja controvertida existencia um thema de infinitas e obscuras +divagaes. + +Quanto terminologia por ns adoptada n'esta exposio, diremos que, +podendo empregar indifferentemente as palavras Paranoia, Primre +chroniche Verrcktheit ou Chronicher Wahnsinn, faremos uso exclusivo da +primeira, no s por um motivo de simplicidade, seno pelas razes que +os italianos invocam para dar-lhe tambem preferencia: a sua origem +grega, que a assemelha aos outros nomes da psychiatria; a sua +expansibilidade internacional, que lhe vem d'essa mesma procedencia; +emfim, a facilidade com que d'ella se fazem necessarias palavras +derivadas, adjectivos e adverbios. + +Depois dos trabalhos de Snell[1], de Griesinger[2] e de Sander[3], a +doutrina da Paranoia foi retomada em 1878 por Westphal[4], que a +desenvolveu e aprofundou. + + [1] _ber Monomanie_, 1863. + + [2] _Arch. f. Psych._, 1867. + + [3] _ber eine specielle Form der primre Verrcktheit_, 1868-69. + + [4] _Zeitschr. f. Psych._, 1878. + +Como os seus antecessores, elle insistiu na origem protogenica da +Paranoia: a perturbao ideativa o facto inicial, independente de +estados affectivos preexistentes; os sentimentos depressivos ou +expansivos que no curso d'esta psychose se observam, no so seno +secundarios e determinados pelo contheudo das idas hypocondriacas, de +perseguio ou de grandezas. Ainda como os seus predecessores, Westphal +insistiu na falta de tendencias da Paranoia para a demencia; a +debilidade mental que por vezes se nota nos paranoicos, prvia e no +consecutiva, e no pde, por isso, servir para caracterisar a psychose, +mas o terreno em que ella germina. Reconhecendo a frequencia das +allucinaes na Paranoia, Westphal notou, todavia, que ellas podem +algumas vezes faltar; para elle a caracteristica fundamental da Paranoia +reside na perturbao ideativa, na anomalia conceptual que, por si s e +independentemente dos erros sensoriaes, gera as idas delirantes +destinadas a dominarem de um modo completo e absoluto o Eu vesanico. As +idas de perseguio e de grandeza podem, segundo Westphal, succeder, +como notara Morel, hypocondria, mas podem tambem nascer e organisar-se +_d'emble_. De resto, segundo Westphal, o desvio paranoico est no modo +de formar as idas, no de as associar, o que explica a persistencia do +raciocinio e a coherencia entre os actos e os pensamentos do doente. + +Alargando a area extensiva da Paranoia, Westphal integrou no quadro +clinico d'esta psychose as _obsesses_, que, no offerecendo a marcha e +evoluo das idas delirantes dos paranoicos, teem, comtudo, como ellas, +uma origem primitiva e espontanea; d'aqui a creao de uma variedade, +_Paranoia abortiva_ ou rudimentar ou frustre, para designar a loucura +obsessiva ou das idas fixas. + +At aqui, como se v, a doutrina de Westphal no differe essencialmente +das estudadas syntheses clinicas dos psychiatras francezes. Todavia na +sua classificao da Paranoia produziu o eminente professor de Vienna +uma ida que o separa dos seus predecessores francezes e allemes: de +facto, ao lado da frma _hypocondriaca_, j conhecida desde Morel, da +frma _originaria_ ou congenita, descripta antes por Sander, e da frma +_chronica_, de marcha progressiva ou remittente, em que _d'emble_ se +produzem idas de perseguio e de grandeza, admittiu Westphal uma +frmia _aguda_, caracterisada pela subita ecloso de allucinaes +principalmente auditivas e muitas vezes aterradoras, acompanhando-se de +idas de perseguio e levando o doente ora incoherencia e confuso +mental (_Verwirrtheit_) com impulses, ora ao stupor, prostrao e aos +estados catatonicos de Kahlbaum. + +A creao d'esta frma _aguda_, que est fra dos limites por ns +traados ha pouco Paranoia, foi o ponto de partida, entre os allemes, +das mais numerosas e mais graves dissidencias doutrinarias sobre este +capitulo da psychiatria. Comquanto no tenhamos de occupar-nos agora +d'este ponto, entendemos dever fazer-lhe desde j uma referencia, no s +para no deixarmos incompleta a exposio das idas de Westphal, mas +para marcarmos a origem historica de uma corrente de idas que teremos +de estudar e precisar mais tarde. + +Notaremos, por fim, que Westphal s frma _originaria_ reconhece um +fundo degenerativo. + +Fritsch[1] em 1878 insistiu nas relaes entre as idas delirantes e os +estados affectivos, comparando o que se passa na Paranoia com o que tem +logar na mania e na melancolia. + + [1] _Psychiatr. Centralblatt_, 1878. + +Ao passo que n'estas psychoses o delirio surge secundariamente, e as +idas falsas podem, com Griesinger, considerar-se _tentativas de +interpretao_ das emoes iniciaes depressivas ou expansivas, na +Paranoia, ao inverso, as idas delirantes so primitivas e os estados +emocionaes secundarios,--meras reaces do sentimento sob o contheudo +das idas. Adiante voltaremos a citar este auctor, que no acceita a +frma _aguda_ da Paranoia. + +Em 1879, Schaefer[1] continuou as idas de Westphal, pondo, comtudo, +n'um relevo maior o papel das allucinaes e illuses. + + [1] _Alig. Zeitschr. f. Psych._, 1879. + +Se a Paranoia essencialmente consiste no facto de que as idas +delirantes so acceites pelo doente como realidades e n'este sentido +constituem o alimento habitual e ordinario de toda a sua actividade +psychica, no deve esquecer-se que os erros sensoriaes, mais frequentes +n'esta psychose do que em todas as outras, activam o delirio, do-lhe +uma base, um ponto de apoio constante, e pela sua diuturnidade criam +para o doente um mundo phantastico, falseam-lhe o juizo e acabam por +n'elle abolir o _senso critico_. + +Digamos de passagem que Schaefer acceita todas as frmas da Paranoia +descriptas por Westphal, incluindo a _aguda_, que teria por ponto de +partida as allucinaes. + +No mesmo anno, Merklin[2] descreveu pela primeira vez o delirio +processivo (_Quaerulantenwahnn_) como variedade ou sub-grupo da +Paranoia, encontrando-se assim no terreno da theoria com Lasgue, para +quem, como foi dito, o delirio dos perseguidores seria uma variedade +(_frma activa_) do delirio de perseguies. + + [2] _Studien ber primre Verrcktheit_, 1879. + +No seu _Tratado_, cuja primeira edio remonta a 1879, fez Krafft-Ebing +da Paranoia um estudo completo, de uma rara e attrahente lucidez. +Paranoia e loucura systematisada so termos e noes equivalentes; +assim, separando-se de Westphal, regeita a frma aguda da Paranoia e +desintegra d'esta psychose a loucura obsessiva, no que procede maneira +dos auctores francezes. Mas o ponto original da sua doutrina est em dar + Paranoia um logar entre as degenerescencias psychicas. Duas ordens de +consideraes conduzem Krafft-Ebing a este modo de vr; a gnese e a +evoluo da doena, por um lado, os antecedentes psychopaticos dos +doentes, por outro. Nem o modo de appario, nem a marcha permittem +considerar a Paranoia uma doena accidental, como o so as +psychonevroses; pelo contrario, tudo a inculca uma psychose +constitucional, uma doena de um cerebro tocado quer pela +hereditariedade, quer por graves affeces capazes de irreparavelmente o +enfraquecerem. De facto, sem obnubilao de consciencia, sem alterao +fundamental de affectos, no goso habitual de um humor nem deprimido, nem +exaltado, e a despeito da integridade das frmas do raciocinio, o +paranoico v o mundo erradamente e incapaz de corrigir quer as suas +idas, quer as suas falsas percepes. As idas delirantes, no +procedendo do exterior, nem resultando de emoes preexistentes pelo +mecanismo psychologico da reflexo, vem do inconsciente e impem-se ao +paranoico, do mesmo modo que se lhe impem os erros sensoriaes: um +excesso de subjectivismo e uma radical ausencia de senso critico, so, +pois, as caracteristicas fundamentaes da Paranoia, cuja evoluo, sem +tendencias para a demencia ou para a cura, essencialmente chronica. De +resto, a banalidade das causas determinantes (que muitas vezes no so +seno as phases physiologicas da vida: a puberdade, a menopause, etc.) +implica uma forte predisposio congenita ou adquirida. Por outro lado, +a historia de todos os paranoicos (e no s, como pretendia Westphal, a +dos originarios de Sander) a dos desequilibrados, dos candidatos +loucura, dos degenerados, n'uma palavra; de sorte que a doena +representa apenas o exaggero ou _hyperthrophia_ de um caracter +preexistente, no podendo entre ella e o estado normal traar-se, como +nas psychonevroses, uma nitida linha divisoria. + +Krafft-Ebing classificou a Paranoia pelo contheudo das idas delirantes, +descrevendo uma frma _persecutoria_ com o seu sub-grupo _processivo_, e +uma frma _ambiciosa_ com as suas variedades _religiosa_ e _erotica_; e +notou o sabio professor de Graz que estas frmas podem observar-se +isoladas e podem ora coexistir, ora succeder-se no mesmo doente. Na +descripo da Paranoia persecutoria insistiu na passagem gradual e +progressiva das idas hypocondriacas s de perseguio e d'estas s de +grandeza. Segundo a pratica do grande alienista, esta ultima evoluo +dar-se-hia n'um tero dos casos da doena. de notar que Krafft-Ebing, +ao inverso da maioria dos auctores francezes, no concedeu ao raciocinio +o minimo papel na transformao pessoal, que se realisa pela passagem do +delirio de perseguies ao de grandezas; o inconsciente domina, segundo +o eminente professor, toda a evoluo da doena. + +Pde seguramente affirmar-se que, com Krafft-Ebing, a doutrina da +Paranoia, tomada como equivalente de loucura systematisada, recebeu na +Allemanha os seus derradeiros desenvolvimentos. De facto, n'esta ordem +de idas, os psychiatras allemes que lhe succedem, nada accrescentam a +esta construco synthetica, ao mesmo tempo simples, elegante e +profunda. + +Ulteriormente veremos que logar assignala o eminente professor aos casos +que Westphal, Schaefer e outros incluiam na frma aguda da Paranoia. + +Em 1880, Scholz[1] insistiu lucidamente nas idas de Krafft-Ebing sobre +o papel do inconsciente na gnese dos delirios paranoicos. Os factos +morbidos obedecem, no fundo, s leis reguladoras dos factos normaes; +ora, no estado physiologico, da esphera inconsciente que procedem os +factos psychicos destinados a tornarem-se conscientes; nos delirios +primitivos tambem d'essa esphera que naturalmente emergem as idas e +conceitos falsos. As idas delirantes, como as idas justas, no so, +definitivamente, seno resultados finaes, complexos e conscientes de +actividades elementares e inconscientes do cerebro; toda a differena +est em que nas idas delirantes a actividade molecular das cellulas +corticaes se encontra pervertida. D'aqui resulta que, a no existirem, +como no existem na Paranoia, modificaes anatomicas profundas, os +processos logicos do pensamento podem subsistir, e o doente no far +seno raciocinar _justo_ sobre premissas _falsas_; a apparente lucidez +dos paranoicos no seno isto. Mas no so susceptiveis d'esta +explicao os casos em que o delirio tem por base as allucinaes e +illuses; o inconsciente no representa aqui um papel. Para dar conta +d'estes casos, necessario admittir no cerebro um estado de +enfraquecimento, que o predispe falsa interpretao das percepes ou +das excitaes sensoriaes; n'esta ordem de idas, Scholz d aos delirios +de base allucinatoria um caracter eminentemente asthenico, notando que +elles se desenvolvem frequentes vezes na convalescena das doenas +febris. + + [1] _ber primre Verrcktheit_, 1880. + +Em 1882, Jung[1] reeditou as idas de Westphal e de Fritsch sobre a +diversidade genetica dos delirios na Paranoia e nas psychoses depressiva +ou expansiva. Notando a frequencia crescente da Paranoia, Jung attribuiu +o facto extenso que todos os dias toma a degenerescencia physica e +mental da nossa especie. Isto denunca um accordo entre este auctor e +Krafft-Ebing sobre a pathogenia intima da doena. + + [1] _Zeitsch. f. Psych_, 1882. + +Kraepelin[1] em 1883, retomando no seu _Compendio de Psychiatria_ as +idas de Krafft-Ebing sobre a Paranoia, definiu-a uma profunda e +duradoura transformao do Eu, essencialmente evidenciada por uma +anomala comprehenso e elaborao das impresses internas e externas. +Sem obnubilao da consciencia e sem vivas emoes que lhe perturbem o +curso dos processos intellectuaes, o paranoico acceita as idas +delirantes, que se lhe impem e que elle incapaz de corrigir; esta +_invalidade psyquica_--umas vezes congenita, adquirida outras--, pois, +a base e o terreno de evoluo da Paranoia, que, porisso mesmo, no +representa um mero accidente na vida de um homem so, mas uma doena +_constituicional_, atacando nos seus mesmos fundamentos a personalidade +psychica. Todas as relaes do Eu com o exterior se encontram +radicalmente pervertidas no paranoico; e isto no tanto pela +interferencia das allucinaes, que so apenas symptomas, como pela +caracteristica tendencia do doente _comprehenso egocentrica do +mundo_. E no s as relaes do Eu com o meio ambiente, mas as que elle +mantem com o corpo, se encontram alteradas. Pelo que, s frmas +_persecutoria_ e _ambiciosa_ de Krafft-Ebing, Kraepelin accrescenta, +descrevendo-a minuciosamente, a frma _hypocondriaca_, + + [1] _Comp. der Psych._, 1883 + +Devemos notar que Kraepelin separa da Paranoia o _delirio processivo_, +que considera uma frma de _loucura moral_. Baseia-se para essa +separao em dois factos: de um lado, a ausencia de allucinaes nos +alienados litigantes; do outro, a radical incapacidade destes enfermos +para se elevarem noo de direito, como facto objectivo, o que +denunca uma suspenso de desenvolvimento psychico nos dominios ethicos, +tal como se d nos criminosos. + +Em 1883, Tuczek[2], fazendo o estudo da hypocondria, apeia-a do pedestal +de frma nosographica e considera-a um syndroma, ora da melancolia, ora +da Paranoia, ora loucura obsessiva. A presena ou ausencia habitual de +uma depresso primitiva indicar se a hypocondria symptomatisa um estado +melancolico ou representa, pelo contrario, simples e primitivo desvio +ideogenico. Este modo de vr projecta uma luz intensa no assumpto, +fazendo s idas hypocondriacas na Paranoia a parte que de todos os +tempos vinha sendo feita s idas de perseguio e de grandeza, que no +so, alis, privativas da loucura systematisada. Um delirio de +perseguies pde episodicamente symptomatisar um accesso de melancolia +ou secundariamente estabelecer-se aps elle, como um delirio de +grandezas pde ser a expresso de um accesso maniaco; mas, ao lado +d'estes delirios, ha uma Paranoia persecutoria e uma Paranoia ambiciosa. +O que distingue estes casos a leso primitiva: da sensibilidade nos +primeiros, da ideao nos segundos, com o delirio hypocondriaco, ora +expresso de uma hyperesthesia dolorosa, essencial e primitiva, ora +manifestao de um desvio ideogenico permittindo ao vesanico a habitual +serenidade e igualdade de humor que caracterisa o paranoico. N'este +ultimo caso a hypocondria, como justamente observara Kraepelin, no +seria seno uma perturbao das relaes do Eu com o corpo ou com as +impresses internas, analoga perturbao das relaes d'elle com o +mundo externo ou com as impresses sensoriaes. E assim se comprehende +como, ao lado das frmas _persecutoria_ e _ambiciosa_, deva dar-se no +quadro da Paranoia um logar frma _hypocondriaca_, a despeito de uma +errada tradico que espirito faz surgir como inseparaveis as idas de +hypocondria e de melancolia. + + [2] _Alig. Zeitschr. f. Psych._, 1883 + +Meynert expz, em 1890, nas suas _Lies Clinicas_ uma interessante +doutrina da Paranoia, diversa das perfilhadas pelos seus predecessores +allemes. Para o sabio professor de Vienna esta psychose no +representaria um especial desvio ideogenico de um cerebro invalido, mas +a perturbao de um cerebro normal sob a influencia de impulsos morbidos +que, como nos maniacos e melancolicos, dirigem as idas. Os affectos +originarios, escreve, so os de defeza e de conquista. Os primeiros +esto em relao com o sentimento de uma influencia externa; os segundos +com o sentimento de uma fora que actua sobre o exterior. So processos +physiologicos ou, antes, indispensaveis funces biologicas do +organismo. Um ser animal incapaz de experimentar affectos conducentes a +movimentos de defeza, apossar-se-hia da natureza para as suas +necessidades, mas succumbiria sem resistencia s nocivas aces d'essa +mesma natureza; um ser sem movimentos de conquista, como resultados de +affectos relativos, poderia subtrahir-se aos males da natureza, mas, por +defeito de apropriao, morreria falta de satisfao das proprias +necessidades. Na illimitao das idas de defeza da creana inexperiente +e timida encontra-se esboado physiologicamente o delirio de +perseguies, como o de grandezas se encontra na mesma creana, quando +tenta soprar lua para apagal-a como se fra uma vela. O delirio de +perseguio inclue em si a angustia; na Paranoia, como na mania e na +melancolia, isto pde representar uma relao restabelecida entre este +sentimento e as circumstancias exteriores. Do sentimento de angustia +conclue-se para a perseguio. Eu vou, porm, mais longe: o que +immediatamente se associa ao sentimento de angustia, o perigo. Perigo, +antes de tudo, de uma doena illusoria, na hypocondria simples; perigos, +nas idas de violencia, em connexo com a chamada angustia +neurasthenica; perigos, nas coisas da natureza morta--infeces, +venenos; perigos, creados por ns proprios, como quando receiamos, por +impulso d'outrem, cahir de uma altura. Este o delirio de perigo. O +delirio de perseguio refere-se, porm, a uma influencia procedente +d'outrem, sendo certo que na Paranoia a angustia causada pelos homens +excede a que determinam as coisas. O sentimento de defeza n'este caso +_anthropomorphisado_: como as suas aggresses procedem de um impulso +humano, as que o doente receia, teem para elle analoga origem nos +sentimentos dos homens, na vontade d'elles. Este modo de pensar no +especial de um estado de doena; o delirio que se lhe refere popular, +diffuso, quanto pde sel-o, por exemplo, a crena na religio natural. +Todos os phenomenos favoraveis ou perniciosos, o ceu, o sol, as nuvens, +o oceano, o fogo so assim comprehendidos n'um termo de analogia; e, +como o homem explica as suas aggresses ou conquistas sobre o natureza +como resultados de disposies que o estimulam, pensa elle que tambem as +vantajosas ou maleficas influencias naturaes procedem de affectos de +seres mais perfeitos. Com razo disse um dos mais profundos pensadores +da poca da encyclopedia que o _homem creou os deuses sua imagem_[1]. + + [1] Meynert, _Lezioni cliniche di Psychiatria_, trad. it., pag. 128. + +Como do sentimento de defeza fez surgir o delirio de perseguio, +Meynert faz derivar o delirio de grandezas do sentimento de conquista; e +como as duas ordens de sentimentos physiologicos, longe de se +hostilisarem, coexistem no mesmo individuo e mais ou menos se implicam +n'um fim geral de conservao, as duas ordens de delirios, persecutorio +e ambicioso, se agregam e formam corpo no mesmo doente. + +D'onde vem ao paranoico o exaggero d'esses fundamentaes sentimentos de +defeza e de conquista? Meynert no hesita em responder que elle procede +de uma sorte da hypertrophia do sentimento pessoal, determinada por +_sensaes hypocondriacas_ ou _estimulos subcorticaes bulbares_. O +doente sentiria mais fortemente o seu Eu; e esta emoo intensa, +associando-se a todas as percepes, crearia um estado particular de +consciencia no qual tudo seria interpretado egocentricamente. Uma +_hyperesthesia psychica_ seria, pois, para Meynert, como vimos que o era +para Grente, o fundamento da Paranoia. + +Ao contrario de Krafft-Ebing, Meynert no liga uma grande importancia +hereditariedade como causa da Paranoia; e junto d'elle a noo +psychiatrica da degenerescencia no tem seno um frio e reservado +acolhimento. Para Meynert a etiologia no fornece, nem fornecer nunca a +base de uma classificao natural das psychoses; essa base tem de ser +procurada na anatomia pathologica, na leso do cerebro. Na Paranoia essa +leso seria um processo atrophico do manto cerebral. + +O conceito da degenerescencia psychica no encontra em Mendel[1] melhor +acolhimento do que em Meynert. Occupando-se em 1883 da Paranoia, n'um +extenso trabalho a que teremos de alludir ainda, Mendel apenas concedeu +fros de degenerativa frma originaria de Sander. + + [1] _Die Paranoia_, 1883. + +Pelo seu lado, Schle[2], em 1886, s considerou francamente +degenerativas as frmas _originaria_ e _processiva_, por elle descriptas +no seu _Tratado Clinico_ dentro do grupo das psychoses hereditarias, +entre a loucura obsessiva e a loucura moral. + + [2] _Klinische Psychiatrie_, 1886. + +Mendel, distinguindo a obsesso da ida delirante, separa da Paranoia a +frma _abortiva_ de Westphal. Ao contrario, Salgo[3] v na loucura +obsessiva uma frma frustre ou incompleta da Paranoia, porque para elle +a obsesso e a ida paranoica teem a mesma gnese: uma e outra surgem +primitiva e espontaneamente n'um cerebro fraco. Para este auctor, com +effeito, a _debilidade de espirito_, no sentido do que outros chamam +_invalidade psychica_ e _ausencia de senso critico_, representa na +Paranoia um papel fundamental. Poderiamos inscrever, ao lado dos nomes +at aqui citados, os de Koch, Arndt, Weiss, Pelman, Samt, outros ainda, +to vasta na Allemanha a bibliographia do assumpto que nos occupa; no +accrescentariamos, porm, com isso o quadro doutrinario da Paranoia como +conceito equivalente ao de Loucura Systematisada dos auctores francezes. +Passemos, pois, exposio dos trabalhos em que um tal conceito se +altera pela integrao de uma frma _aguda_, sem precedentes quer em +Frana, quer na Allemanha, antes de 1878. + + [3] _Compend. der Psychiatrie_, 1887. + +Foi Westphal, como dissemos, quem primeiro admittiu a existencia de uma +variedade da Paranoia procedendo de estados allucinatorios primitivos e +apresentando na sua marcha ora a confuso mental da mania, ora a +depresso stuporosa da melancolia. Tal era a Paranoia aguda do professor +de Vienna, desde logo perfilhada por Schaefer e tambem desde logo +rudemente combatida por Fritsch e outros. + +Sem extemporaneos intuitos de critica, mas n'um unico fim de ordenar +idas, accentuemos, antes de tudo, as differenas que separam as frmas +aguda e chronica da Paranoia. + +Segundo as doutrinas recebidas de Snell, de Griesinger, de Sander, do +proprio Westphal, dois factos caracterisam principalmente a frma +chronica: de um lado, a primitividade das idas delirantes, que ao +espirito se impem maneira de obsesses; do outro, a integridade da +associao logica dos pensamentos, explicando a resistencia dos doentes + demencia. + +Na frma aguda, o contrario teria logar: as allucinaes seriam o facto +primordial, e a associao das idas achar-se-hia fundamentalmente +compromettida quer por um exaggero at fuga, quer por um affrouxamento +at suspenso. Na frma chronica, as allucinaes, constituindo um +symptoma secundario e mesmo fallivel, so tributarias das idas +delirantes a cujo contheudo se subordinam (depressivas e hostis no +delirio persecutorio, expansivas e benevolas no ambicioso); na frma +aguda, pelo contrario, sendo um facto primitivo e essencial, as +allucinaes teriam sob a sua dependencia os conceitos delirantes (de +perseguio sob vozes hostis, de grandeza sob audies lisongeiras). +Quanto associao das idas, no ha na frma chronica mais do que um +desvio inicial de orientao, sem compromisso da consciencia e sem perda +de lucidez; pelo contrario, na frma aguda a precipitao das idas +poderia levar o doente incoherencia e dissociao da mania, como o +affrouxamento do seu curso o poderia conduzir fixidez melancolica ou +mesmo, sob a aco inhibitoria de allucinaes terrorisantes, a estados +de catatonia. Estas differenas de marcha implicam naturalmente a de +prognostico: a frma chronica no cura e no conduz por si mesma +demencia; pelo contrario, a frma aguda terminaria umas vezes pela cura, +outras pela abolio das faculdades. + +Assim, tanto a subordinao dos symptomas como a terminao separam as +duas frmas. O que as une ento? O contheudo das idas delirantes, que +so sempre, n'uma e n'outra, reductiveis s tres conhecidas cathegorias: +hyponcondriacas, persecutorias e ambiciosas, sobretudo s duas ultimas. + + este, com effeito, para todos os que admittem uma Paranoia aguda, o +trao clinico de ligao entre esta frma e a outra. Que exista uma +perturbao de consciencia ou at mesmo uma inconsciencia mais ou menos +duradoura; que o delirio se acompanhe de allucinaes em massa de todos +os sentidos; que haja manifesta incoherencia, pouco importa, desde que, +como diz Mendel, se possam reconhecer os dois typos de ideao: +persecutorio e ambicioso. Muitas vezes, como o mesmo Mendel o confessa, +o diagnostico differencial entre a Paranoia aguda e a mania com +predominio de allucinaes seria difficil de estabelecer. D'esta sorte, +no quadro da Paranoia entram no s os delirios systematisados, mas at +os dissociados e incoherentes, uma vez que as idas de perseguio ou de +grandeza n'elles predominem ou mesmo _tendam_ a predominar, como alguns +escrevem. + + necessario, entretanto, reconhecer que Schle, achando, talvez, +demasiadamente frouxo, como unico lao de unio entre frmas por muitos +symptomas diversas e at antinomicas, o contheudo das idas delirantes, +tenta a approximao das duas Paranoias sobre um terreno de evoluo, +notando que dos casos agudos aos chronicos e d'estes quelles a +transio se pde fazer sem violencia, antes insensivelmente. Depois, +com effeito, de ter accentuado (como acabamos de fazel-o) todos os +symptomas que separam as frmas chronica e aguda, Schle escreve: Estas +differenas, porm, caracterisam apenas os casos extremos do delirio +systematisado chronico e agudo; ha casos intermedios em que +manifestamente se revella o parentesco d'estas duas frmas. De modo que +o importante grupo da frma aguda no seno a repetio da frma +chronica: um delirio de perseguio, uma interpretao delirante com +erros sensoriaes e raciocinio falso que abre a scena, sendo ainda +possiveis ao principio as percepes exactas. Ao mesmo tempo que a +consciencia se torna mais obscura, produz-se um delirio expansivo de +frma mystica ou erotica; o Eu conserva-se, sem poder distinguir as +percepes exactas das allucinaes que se unem e entre si se prendem +systematicamente. Este estado representa o delirio systematisado agudo +por excellencia. Por vezes este aspecto clinico mantem-se, mas pde +tambem mudar, como acontece nos casos de affees agudas e febris: as +allucinaes tornam-se predominantes, variaveis, e trata-se ento de um +d'esses casos extremos de que fallamos. Por outro lado, a frma chronica +apresenta muitas vezes exacerbaes que no so, pela frma e pelo +fundo, seno o delirio systematisado com allucinaes; o comeo, +sobretudo, da doena offerece este aspecto. O delirio systematisado +agudo, quando no cura, torna-se uma frma chronica com allucinaes e +systematisao parcial. Todas estas transies demonstram que as +differenas notadas no so essenciaes e que estas frmas, apesar de +variadas, so visinhas[1]. + + [1] Schle, _Trait clinique des maladies mentales_, trad. fr., pag. +122. + +A citao que acabamos de fazer, synthetisando as idas de quantos +acceitam hoje na Allemanha a Paranoia aguda, dispensa-nos de toda uma +erudita, mas inutil _talage_ de nomes proprios; por ella se fica +sabendo o que pensam do parentesco das duas frmas os que, desde +Westphal, as admittem ambas. Entretanto, no ser ocioso fixar idas +sobre este ponto por uma nova e caracteristica citao de Schle: Uma +analyse minuciosa, escreve este psychiatra, revella differenas entre +todos os casos que entram n'este grupo to consideravel de psychoses, +direi mesmo, d'este grupo que de todos o maior. Assim, devem +distinguir-se casos intermediarios n'este vastissimo grupo dos delirios +systematisados. Os casos chronicos approximam-se tanto, no ponto de +vista dos symptomas, do delirio systematisado dos degenerados, de que +muitas vezes offerecem a physionomia clinica, quanto os casos agudos se +approximam das psychonevroses (melancolia e certas frmas de stupor com +allucinaes). Estas relaes devem ser cuidadosamente notadas. Assim, +distingue-se, em regra, nitidamente o delirio systematisado agudo, da +melancolia, pela mediocre importancia da perturbao primitiva do humor, +que n'esta, pelo contrario, um elemento psychico duravel, que produz e +domina toda a doena; entretanto, o delirio systematisado agudo contm +tambem um grupo demonomaniaco, o qual no s apresenta um sentimento +depressivo intenso (panophobia), mas succede a um estado de verdadeira +depresso, de caracteristica diminuio do sentimento da personalidade, +de illuses e de allucinaes de caracter triste. O mesmo acontece com o +stupor. Em regra, o stupor typico (_atonito_) pde nitidamente +distinguir-se do delirio systematisado agudo, que no apresenta as +caracteristicas ausencia de percepo e falta absoluta de vontade; mas o +stupor com allucinaes (_pseudo-stupor_) est evidentemente ligado +variedade do delirio systematisado agudo em que a intelligencia +obscurecida tem phases passageiras de semi-lucidez. Poderiamos chamar a +este estado a frma estupida do delirio systematisado agudo tanto como o +stupor com allucinaes; a gnese e a marcha da doena permittiriam uma +e outra coisa. Assim, pde definir-se e conceber-se todo este grupo do +delirio systematisado agudo como sendo, em summa, a repetio de certas +psychonevroses melancolicas, maniacas e estupidas em que a consciencia +se acharia _completamente perturbada pelo delirio_ (estado do +sonho)[1]. + + [1] Schle, _Obr. cit._, pag. 123. + +Estas palavras de Schle, pondo em relevo a immensuravel extenso da +Paranoia no conceito de alguns psychiatras allemes, permittem-nos +interpretar expresses, alis frequentes, que parecem meros jogos de +termos, que um accidente de composio typographica juntou: tal, por +exemplo, a da _Paranoia dissociativa_, de Ziehen. S quem tiver em +vista que a frma aguda integra situaes mentaes que vo desde a +obnubilao at fuga das idas, desde a somniao at catatonia, +pde comprehender que um termo creado para exprimir a ida de +_systematisao_ se adjective por uma palavra synonima de +_incoherencia_. + +Como j dissemos, a ida de uma Paranoia aguda, primeiro enunciada por +Westphal e logo acceite por um grande numero de alienistas allemes, foi +vivamente combatida desde todo o principio por muitos outros. Defensores +e adversarios d'essa ida constituem hoje duas esclas nitidamente +separadas, como temos tentado mostrar nas paginas precedentes. O nosso +estudo d'este assumpto seria, comtudo, incompleto, se no dissessemos de +que maneira os adversarios da Paranoia aguda interpretam os casos +clinicos expostos como pertencendo a esta frma. Que pathogenia teem e +que logar occupam na classificao das psychoses, uma vez eliminada a +Paranoia aguda, os delirios, to numerosos, em que idas de perseguio +e de grandeza surgem sem systematisao completa, sem coherencia at, +acompanhadas de vivos estados allucinatorios, seguindo uma evoluo +irregular e marchando tantas vezes para a cura? + +A resposta a esta questo, j formulada, talvez, no espirito do leitor, +vae permittir-nos completar a differenciao das duas esclas, pondo em +mais alto relevo o caracteristico espirito das doutrinas de cada uma. + +Dizer que esses delirios persecutorio e ambicioso de marcha aguda esto +fra da Paranoia, porque so diversos d'ella pelo comeo, pela +terminao, pela hierarchia mesmo dos symptomas, no basta, porque +precisamente se discute se a Paranoia deve ter a limitada extenso que +uma tal doutrina lhe assignala ou, pelo contrario, alargar-se para +abranger novos grupos de factos clinicos. Schle, Mendel e Cramer (para +no citarmos seno os principaes e mais modernos defensores da Paranoia +aguda), acceitando como perfeitamente distinctos e at apparentemente +contrarios os casos _extremos_ das duas frmas, sustentam, comtudo, que +a fuso d'ellas se estabelece pelo exame dos casos _de transio_, em +que os motivos differenciaes se esbatem. + +Ora, sabendo-se que em sciencias naturaes, desde que n'ellas penetrou o +criterio evolutivo, deixaram de existir grupos definitivos e fechados, +importa considerar este argumento. E por isso que no podemos +prescindir de saber como interpretam os pretendidos casos de Paranoia +aguda aquelles que apenas admittem uma Paranoia chronica. + +Fritsch, um dos primeiros a combater a noo da Paranoia aguda, designou +esses casos sob o nome _Verwirrtheit_ ou confuso mental, fazendo-os +depender de uma fraqueza irritavel ou esgotamento nervoso dos +hemispherios cerebraes, que pde observar-se como syndroma ou como +complicao da maior parte das psychoses e, portanto, da Paranoia. +Decerto, a _Verwirrtheit_ offerece, como a Paranoia, idas delirantes e +allucinaes; estes symptomas communs, porm, no so da natureza, +segundo Fritsch, a permittir a confuso entre uma _doena_, de marcha +gradual, em que se d uma transformao da personalidade, e um simples +_estado_ transitorio, um mero _syndroma_ de innumeras psychoses +funccionaes e organicas. + +Pelo seu lado, Krafft-Ebing, que Paranoia d um logar entre as +degenerescencias psychicas ou psychoses constitucionaes, relega os +pretendidos casos de Paranoia aguda para o delirio sensorial, +_Hallucinatorischer Wahnsinn_, que elle colloca entre as psychonevroses +ou psychoses accidentaes, ao lado da mania e da melancolia. + +Como Fritsch, Krafft-Ebing faz esses casos tributarios de uma asthenia +cerebral. De facto, segundo elle, o _Hallucinatorischer Wahnsinn_ +reconhece por causas as doenas febris, infecciosas, neurasthenisantes; +a sua caracteristica um enfraquecimento cerebral _d'emble_, ou +passageiro e curavel ou rapidamente demencial, impedindo todo o trabalho +de systematisao delirante. A passagem do _Hallucinatorischer Wahnsinn_ + Paranoia , pois, impossivel. + +Para Kraepelin os pretendidos casos de Paranoia aguda entrariam quer na +_Hallucinatorische Verwirrtheit_, quer no _Hallucinatorischer Wahnsinn_. +A primeira d'estas psychoses uma confuso mental devida a um +esgotamento agudo do cerebro; a segunda um delirio pouco coherente, da +marcha rapida e terminao favoravel, em que as allucinaes representam +o principal papel, subordinando a si o estado emotivo e as idas falsas. +A distinco entre estas duas doenas no parece muito nitida; como quer +que seja, ambas se distinguem profundamente, segundo Kraepelin, da +Paranoia, que consiste n'uma lenta e intima transformao da +personalidade, sem obnubilao da consciencia e sem perturbaes +fundamentaes do humor. + +Mayser[1] considera os mesmos casos de Paranoia aguda como exemplares de +_Delirio asthenico_, analogos aos produzidos pelas intoxicaes +medicamentosas ou outras; a obnubilao da consciencia e a confuso +mental, devidas a um esgotamento do cerebro, seriam as caracteristicas +d'este delirio. + + [1] _Zur sogennanter hallucinatorischer Wahnsinn_. + +Meynert[2] pertence ao numero dos que contestam a existencia de uma +Paranoia aguda. Os casos expostos como taes, so por elle estudados sob +o nome da _Amencia_, especie de confuso mental, ora idiopathica, ora +symptomatica, tributaria de uma fraqueza irritavel, de um exhaurimento +do cerebro e podendo manifestar-se tanto por symptomas de stupor, como +por excitao acompanhada de vivos e multiplos estados allucinatorios. O +predominio de phenomenos neurasthenicos sobre os irritativos explicaria +os casos que difficilmente se distinguem da melancolia, como, +inversamente, o predominio de phenomenos irritativos sobre os +depressivos explicaria os casos que a custo se distinguem dos delirios +maniacos, agudos e sobreagudos. + + [2] _Obr. cit._, pag. 27 e seg. + +As causas da _Amencia_ seriam todos os accidentes capazes de produzir +mais ou menos rapidamente o esgotamento cerebral: choques moraes +intensos n'um individuo debilitado, onanismo abusivo, doenas febris, +puerperio, intoxicaes, traumatismos, molestias infecciosas, outros +ainda. A hereditariedade no exerceria seno um papel subalterno. A +marcha da _Amencia_ seria sempre aguda e a terminao far-se-hia pela +morte, pela demencia ou pela cura ao fim de um tempo variavel entre +algumas semanas e alguns mezes. As recidivas seriam para receiar. De +resto, a Amencia pde complicar grande numero de psychoses, no sendo +raro que surja como um episodio na marcha da Paranoia. Meynert insiste, +porm, sobre o diagnostico differencial entre a Amencia e a Paranoia +que, mesmo coincidindo temporariamente, conservam a sua physionomia +propria. Da Amencia no pde passar-se a outra psychose que no seja +demencia, termo natural das psychopatias que no curam. + +Tal , pela voz dos seus mais illustres representantes, a theoria que +rejeita a existencia de uma Paranoia aguda. Esta designao +representaria um mal-intendido, pois que os casos clinicos por ella +cobertos no seriam seno expresses de uma asthenia cerebral, quer +idiopatica e primitiva, quer symptomatica e secundaria, profundamente +diversa, no s pelos _symptomas_ e pela _marcha_, mas ainda pelas +_causas_, da Paranoia. Que essa, asthenia com todo o seu cortejo de +phenomenos ora stuporosos, ora maniacos, venha intercalar-se na marcha +da Paranoia em algum dos periodos d'esta, incontestavel; que devamos +confundir as duas entidades morbidas , porm, insustentavel, porque, +desde os symptomas at s causas, desde a marcha at terminao, tudo +se conspira para as separar. + +Os casos de delirio agudo em que retalhos de conceitos persecutorios e +ambiciosos apparecem de mistura com erros sensoriaes, no seriam, pois, +exemplares da Paranoia; seriam casos de _Verwirrtheit_, de +_Hallucinatorischer Wahnsinn_, de _Hallucinatorische Verwirrtheit_, de +_Amencia_, n'uma palavra, de _confuso mental_ asthenica. E a mistura +possivel dos symptomas agudos d'essa confuso com os symptomas chronicos +da Paranoia, no significam, como pretende Schle, a passagem ou +_transio_ entre duas frmas de uma mesma doena, mas a _coexistencia_ +de duas psychoses distinctas n'um unico doente. + +Duas palavras ainda sobre a Paranoia secundaria antes de fecharmos a +historia dos trabalhos germanicos. + +Vimos quanto esta noo dominante nos inicios da psychiatria allem, foi +perdendo terreno medida que se elevava a de Paranoia primitiva. O nome +no chegou nunca a desapparecer, graas tradio; mas o conceito de +Paranoia secundaria foi posto em contraste como o de Paranoia primitiva. +Esta seria uma doena; aquella, um _estado terminal_, apenas, da +melancolia ou da mania, uma _tape_ d'estas psychoses na sua marcha para +a extinco definitiva. Tal em Krafft-Ebing, por exemplo, nos apparece a +Paranoia secundaria: um prefacio da demencia vesanica, uma situao +mental pouco definida e transitoria, correspondendo ao que os +psychiatras francezes denominaram em todos os tempos a _demencia +incompleta_. + +E assim devia ser. Entre o formidavel processo da Paranoia primitiva, +to movimentado, to independente, to cheio de cambiantes evolutivas, e +o estado predemencial, to pallido que os seus symptomas no so j +seno residuos de psychoses moribundas--pedras de um edificio em ruinas, +taboas de um navio em naufragio--nenhuma approximao pathogenica ou +nosologica era, com effeito, possivel. + +Mas comprehende o leitor que esta situao tenha variado a partir do +momento em que o conceito da Paranoia primitiva foi remanuseado e os +seus severos moldes partidos pelos iconoclastas, introductores da frma +aguda. Desde que no repugna admittir que da confuso mental se passe +Paranoia, menos repugnar crr que a ella se trasite da mania e da +melancolia. E, de facto, os auctores que admittem a frma aguda da +Paranoia, acceitam igualmente a secundaria. + + * * * * * + +Datam apenas de 1882 os trabalhos da psychiatria italiana sobre os +delirios systematisados; so elles, porm, de um to grande valor +intrinseco e de uma to alta originalidade, algumas vezes, que o seu +logar na historia contemporanea est definitivamente marcado. + +A primeira memoria a citar sobre o assumpto a de Buccola: _Sui delirii +sistematisati_. No tanto pela novidade das proprias idas como pela +clareza com que expe e commenta as doutrinas germanicas, ainda ento +quasi desconhecidas fra do paiz originario, notavel este trabalho do +mallogrado escriptor italiano. + +Na debatida questo da gnese do delirio, Buccola hesita em affirmar com +Krafft-Ebing a constante prioridade das idas sobre as allucinaes, do +desvio conceptual sobre os erros sensoriaes. A gnese do delirio, +escreve, no em todos os casos nitidamente delimitada e no sabemos +definitivamente se as allucinaes precedem ou succedem sempre o +desenvolvimento das idas delirantes e se estes devem considerar-se +tentativas de interpretao ou antes, maneira de Samt, productos da +vida psychica inconsciente[1]. Quanto ao especial terreno sobre que +assentam os delirios systematisados, Buccola decisivo, affirmando com +Weiss que elles traduzem uma invalidade mental; e este modo de vr, +apoia-o Buccola sobre o criterio etiologico, vista a preponderancia da +hereditariedade na loucura systematisada, e ainda no prognostico, porque +a doena , maioria dos casos, estereotypada e insusceptivel de cura, +comquanto capaz de remisses. + + [1] Buccola, _Sui delirii sistematisati_, in _Rivista di Freniatria_, +vol. VII. + +O estudo de Buccola, que fizera na Allemanha o seu noviciado +psychiatrico, foi para a sciencia italiana, adormecida sobre os +conceitos francezes, a denunca de um mundo novo a explorar. E desde +logo, com effeito, um fecundo movimento de inquerito aos delirios +systematisados surgiu e se affirmou por estudos de uma profundidade e +originalidade imprevistas. + +Pondo de parte todos os trabalhos (e so numerosos) que se limitam, como +o de Buccola, a expr ou a commentar as idas germanicas, faltaremos +smente dos que, pela novidade dos seus pontos de vista, implicam +modificaes evolutivas no conceito da Paranoia. N'esta ordem de idas +so a mencionar, sobretudo, as memorias de Tanzi e Riva e de Tonnini. + +O trabalho dos dois primeiros escriptores dos mais importantes e, como +vae vr-se, dos mais originaes. + +Para estes auctores Paranoia e delirio systematisado so conceitos +diferentes, noes que importa no confundir: o delirio systematisado +um syndroma clinico, um _grupo symptomatico_ apenas, ao passo que a +Paranoia representa uma _constituio morbida_, que o atavismo explica. +Exteriorisando-se as mais das vezes por um delirio systematisado, a +Paranoia pde, todavia, existir sem elle; d'aqui a variedade que os +auctores denominam _Paranoia indifferente_, isto , desacompanhada de +delirio. + +O que ento a Paranoia, segundo Tanzi e Riva? De dois modos a definem +e fazem comprehender estes auctores: descriptivamente, pela meno dos +seus symptomas, da sua etiologia e da sua marcha; pathogenicamente, pelo +exame das suas origens. + +Descriptivamente definida, a Paranoia para Tanzi e Riva uma psychose +funccional de fundo degenerativo, caracterisada por um particular desvio +das mais elementares operaes intellectuaes, no implicando nem uma +gravissima decadencia nem uma desordem geral; que se acompanha quasi +sempre de allucinaes e idas delirantes permanentes mais ou menos +coordenadas em systema, mas independentes de qualquer causa occasional +constatavel ou de qualquer condio morbida emotiva; que tem uma +evoluo nem sempre uniforme ou continua, mas essencialmente chronica; e +que, em geral, no tende por si mesma para a demencia[1]. + + [1] Tanzi e Riva, _La Paranoia,_ in _Rivista di Freniatria_, vol. x, + pag. 293. + +A analyse d'esta definio, que a pathogenia tem de completar, permitte +reconhecer, antes de tudo, a posio dos auctores em face das diversas +doutrinas allems. Declarando a Paranoia uma psychose _degenerativa_, de +marcha essencialmente _chronica e sem precedentes de emotividade +morbida_, Tanzi e Riva excluem resolutamente do quadro da doena os +delirios systematisados _secundarios_, que succedem mania e +melancolia, e bem assim os _agudos_, admittidos pela escla de Westphal. +Constatando, alm disso, a ausencia, na gnese da psychose, quer de +causas occasionaes apreciaveis, quer de perturbaes morbidas de +sentimento, os auctores affirmam a origem _inconsciente_ do desvio +intellectual, que no pde tomar-se, porque primitivo, conta de +interpretao de estados emotivos. Emfim, declarando que a Paranoia no +implica uma desordem geral, mas ideativa, no tendendo por si mesmo para +a demencia, Tanzi e Riva accentuam que ella consiste n'uma +_degenerescencia intellectual_. + +Como se v, ao lado de Krafft-Ebing e em opposio a Schle e a Mendel +que os escriptores italianos se collocam. Mas no que elles se desviam de +todos os psychiatras, assim franceses como allemes, na affirmao da +no essencialidade das idas systematisadas na Paranoia; esta a parte +original e absolutamente imprevista da definio. Contrariamente s +idas recebidas, o desvio ideativo que caracterisa a Paranoia no +sempre, segundo Tanzi e Riva, embora o seja na maioria dos casos, um +delirio systematisado. uma coisa diversa, em que pensaram Lombroso, +creando a designao de _mattoide_, Maudsley, fallando de um +_temperamento vesanico_, Moreau, traando a zona indisdincta das +_fronteiras da loucura_. O que , pois? Um excesso de subjectivismo +alterando fundamentalmente as relaes do individuo com o mundo +exterior, comprehendido o social, e tomando, n'este assumpto, +radicalmente impossivel toda a justeza da critica. Lucido bastante para +interpretar as coisas e os homens nas suas relaes objectivas, o +paranoico, uma vez em jogo a sua personalidade, v tudo erradamente, +como por interposta lente deformante. O Eu, medida de todas as coisas, +no paranoico um instrumento infiel e falso, porque vicia aquellas que o +interessam, as que com elle directamente se relacionam; a +_egocentricidade_ , pois, o essencial _desvio_ e o incorrigivel _erro_ +do Eu paranoico. Accentuando-se de ordinario n'um delirio systematisado +persecutorio, ambicioso ou erotico, elle pde ficar quem, no dominio +das idas falsas, mas no absurdas, chimericas, mas no ainda +inverosimeis ou repugnantes; d'aqui a Paranoia indifferente, que os +auctores illustram de uma maneira magistral. + +D'onde procede esse desvio que nenhuma causa occasional explica? Se +pensarmos que a evoluo intellectual da humanidade se faz no sentido de +um subjectivismo decrescente, isto , de uma subordinao cada vez maior +do Eu ao mundo exterior, de que somos apenas uma parcella, o excesso de +subjectivismo apparecer-nos-ha como um retrocesso, uma regresso, e o +paranoico, portanto, como um documento de atavismo. + +Tal , na sua essencia, a doutrina de Tanzi e Riva a que cremos dever +applicar a designao de _anthropologica_, porisso que, segundo ella, o +paranoico muito menos um _doente_, no sentido commum d'este termo, do +que a revivescencia intellectual de velhos typos ancestraes da especie. + + +No em si mesma, escrevem Tanzi e Riva, mas em relao ao tempo em +que se produz, que uma ida pde considerar-se morbida; a pathologia do +conceito delirante reside sobretudo no _anachronismo_ [1]. E, de facto, +idas e opinies que hoje so delirantes, foram modos de vr correntes +em pocas mais ou menos afastadas. Mas no se conclua d'aqui que +paranoico todo o homem que n'um dado assumpto pensa como o fizeram +remotos antepassados. + + [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, pag. 305. + +Que um negro, uma creana ou um inculto camponez tenham do Universo uma +grosseira concepo anthropomorphica, nada mais natural; que a tenha, +porm, um branco de maior idade e scientificamente educado, eis o que +denunca um desvio paranoico da ideao. Que um rude marinheiro +analphabeto responsabilise o seu santo de um naufragio ou lhe agradea +com offerendas uma viagem feliz, no caso para espanto; que faa o +mesmo um almirante, eis o que revellaria uma ideao paranoica. As +raas, as idades e as classes (que so raas sociaes) teem cada uma a +sua psychologia; e dentro d'ella e pelos principios d'ella que os +conceitos teem de ser afferidos. Um homem tendo as crenas dos da sua +raa, do seu paiz, da sua idade, da sua classe e do seu nivel cultural, +no um paranoico, por falsas que essas crenas sejam; para que possa +fallar-se da Paranoia preciso que uma _regresso_ ideativa se realise. + +Na parte critica do nosso trabalho insistiremos sobre este e outros +pontos. Por agora resta-nos smente resumir a documentao do atavismo +paranoico, tal como a apresentam os dois illustres psychiatras. + +Tanzi e Riva fazem notar em primeira linha a crena profunda e +inabalavel dos paranoicos nas suas concepes delirantes, mau grado +todos os raciocinios que as demonstram falsas, mau grado a evidencia +dos factos, que as contradicta, e a realidade das coisas, que as choca; +essa crena, inaccessivel a argumentos, superior a controversias, +resistente s suggestes do mundo objectivo, verdadeiramente uma +_f_--to integral e to pura como a das velhas almas religiosas em face +dos dogmas e das doutrinas revelladas. De uma intensidade inversamente +proporcional ao seu fundamento logico, a f paranoica no encontra hoje +equivalente a no ser nos povos barbaros ou nos simples de espirito. + +Um novo documento da natureza degenerativa e atavica da Paranoia +encontra-se no proprio contheudo do delirio, sobretudo nas idas de +perseguio, que representam uma phase de _lucta_ incompativel com os +tempos actuaes e apenas possivel e necessaria em pocas anteriores +constituio do direito e ao reconhecimento das garantias individuaes. + +Como importante caracter degenerativo e prova de que o paranoico +representa um producto inferior, referem os auctores o conjuncto de +anomalias _psycho-sexuaes_ que s nos imbecis se encontram com a mesma +frequencia e frma. Indo do onanismo ao _horror feminae_ por innumeras +cambiantes, essas anomalias, se no produzem o effeito da impotencia +material, tornam o paranoico inadequado ao amor e ao matrimonio. A +extraco forada de esperma por machinas electricas, a copula +imaginaria com pessoas reaes, os mysticos commercios carnaes com entes +nebulosos e imaginarios representam outros tantos aspectos, escrevem os +auctores, das condies de inferioridade sob o ponto de vista da +existencia da especie, em que se despenha o paranoico muitas mais vezes +do que qualquer outro alienado[1]. + + [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, pag. 307. + +Emfim, ha na symptomatologia da Paranoia um grupo particular de factos +de procedencia atavica evidente: taes so os que se designam pelas +expresses syntheticas de _symbolismo_ e _allegorismo_. Os complicados +arabescos, as figuras allegoricas, os gestos e altitudes cabalisticas, +as interpretaes phantasticas de factos naturaes, os jogos de palavras, +os neologismos, e o _argot_ individual que na Paranoia pullulam, do ao +delirio uma cr to viva e to grotesca, dizem os escriptores italianos, +que o fazem reviver nas mais remotas phases da evoluo historica da +cultura. Lembram a escripta cuneifrme e hyerogliphica exprimindo +material e figuradamente os conceitos abstractos, a conservao dos +amuletos symbolisando as almas dos santos, a vivificao dos phenomenos +naturaes, as evocaes d'alemtumulo, os themas da alchimia medieval e da +magia arabe, as cerimonias hyeraticas de velhos tempos, importadas do +mysticismo oriental. Cada uma d'estas duas sries de factos, +encontrando-se, de um lado, nos paranoicos, do outro, nos povos +primitivos, exprime uma condio psychica commum[1]. + + [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, pag. 307. + +Tem a data de 1884 o trabalho eminentemente original que acabamos de +resumir. + +A ida de uma constituio paranoica, essencialmente degenerativa, +recebe n'elle a consagrao pathogenica. A Verrcktheit de Krafft-Ebing +e da sua escla ainda um delirio systematisado, cuja primitividade, +estabelecida pela clinica, no encontra uma clara interpretao; a +Paranoia de Tanzi e Riva pura e simplesmente uma degenerescencia +intellectual, que a doutrina da evoluo permitte comprehender. A +Verrcktheit era com os allemes um conceito _medico_; a Paranoia, que +d'elle deriva por natural desdobramento historico, tornou-se com os +italianos, uma doutrina _anthropologica_. + +Mas no se esgotou com a memoria de Tanzi e Riva, a cujas idas, seja +dito de passagem, deram a sua adheso Amadei, Tamburini, Morselli e +outros, a fecundidade original da psychiatria italiana n'estes dominios. +Tres annos depois, em 1887, surge o estudo de Tonnini sobre a _Paranoia +secundaria_--um velho thema visto a uma nova luz. De facto, no a +primitiva concepo de Griesinger que Tonnini reedita: a Paranoia +secundaria do auctor italiano no Secundre Verrcktheit do allemo, +uma psychonevrose prefaciando uma demencia, um delirio systematisado +feito dos residuos ideativos da mania e da melancolia; antes uma frma +hybrida, participando ao mesmo tempo dos caracteres da psychonevrose e +da degenerescencia. + +Demos, porm, a palavra ao escriptor italiano: A Paranoia secundaria +diz elle, uma psychopatia que se affirna por delirio e caracter +paranoico mais ou menos accentuados sobre um fundo de debilidade mental +invasora, como terminao de uma psychonevrose que, desarranjando o +equilibrio de um cerebro j de si invalido, refora processo +degenerativo, abreviando-lhe a evoluo e concentrando n'um mesmo +individuo os caracteres de um srie pathologica[1]. + + [1] Tonnini, _La Paranoia Secundaria_ in _Rivista di Freniatria_, vol. + XIII, pag. 61. + +Como d'esta definio se v, a Paranoia secundaria implica uma inicial +degenerescencia, uma invalidade mental primitiva, que a psychonevrose; +mania ou melancolia, no faz seno aggravar e tornar manifestas. Sem a +interveno accidental da psychonevrose, a degenerescencia, menos +avanada que na Paranoia primaria, no se accentuaria n'um delirio +systematisado; dado, porm, o abalo maniaco ou melancolico, pronuncia-se +o estado degenerativo por um complexo symptomatico especial em que ha +concepes delirantes e tendencias para a demencia. + +Estabelecido, diz Tonnini, que uma psychonevrose por recessivas +evolues morbidas produz a degenerescencia (Paranoia primaria) n'um ou +mais individuos da especie, pde admittir-se que a Paranoia secundaria +representa n'um s individuo o que faz a psychonevrose na especie. A +Paranoia secundaria seria o resultado tardio (Paranoia tardia) de uma +disposio precedente, apressado por uma doena mental qualquer, as mais +das vezes de base affectiva. Segundo este conceito, a Paranoia +secundaria no seria, como se pretende, uma psychonevrose que, +caminhando para a demencia, deixa observar systematisadas as idas +falsas da mania ou da melancolia cessantes; ao contrario, a Paranoia +secundaria offereceria um terreno degenerativo, naturalmente ligeiro em +si mesmo, no chegado ainda ao de dar por maturidade propria o producto +da Paranoia genuina; sobre este terreno, em si mesmo degenerado, a +appario de uma psychonevrose traria um profundo desequilibrio a um +espirito j invalido, occasionando a manifestao de um processo com +apparencias degenerativas, que por si s talvez se no accentuasse. +Aconteceria, n'uma palavra, como nas frmas de Paranoia illustradas por +Leidesdorf, que se originam em graves doenas da infancia, em +traumatismos, etc., e nas quaes, todavia, necessario admittir uma +predisposio, porque, na grande maioria dos casos, nem os traumatismos, +nem as doenas infantis ou outras determinam ulteriormente a appario +da Paranoia. Por maioria de razo, uma doena mental como a mania ou a +melancolia poder determinar o apparecimento de uma doena affim, +baixando os poderes de critica, introduzindo o elemento allucinatorio e +guiando demencia, que ter sempre o caracter paranoico. O exhaurimento +cerebral psychonevrotico (demencia) n'um terreno mais ou menos +degenerado produz o fructo hybrido da Paranoia secundaria, que no a +verdadeira demencia, mas tem alguma coisa da demencia e da Paranoia[1]. + + [1] Tonnini, _Loc. cit._, pag. 60. + +Tal a doutrina da Paranoia secundaria, segundo Tonnini,--profundamente +diversa, repetimol-o, da theorisao de Griesinger. + +Vejamos agora como o alienista italiano documenta a sua to original +concepo. + +Fazendo da Paranoia secundaria uma frma hybrida, Tonnini procura +demonstrar que ella no uma psychonevrose genuina e que no tambem +uma degenerescencia pura e simples, mas participa dos caracteres de uma +e de outra. + +Que no uma psychonevrose genuina, demonstram-no segundo o escriptor +italiano, tres ordens de razes: a primeira, no faltar nunca ao delirio +o ar extranho da Paranoia e os neologismos, que so seus habituaes +companheiros; a segunda, ser s vezes o delirio muito menos a +continuao do que se gerou durante a mania ou a melancolia precedentes, +do que um delirio novo procedente de disposies paranoicas, como se v +n'um caso, que o auctor publica, de delirio exaltado succedendo +melancolia; terceira, emfim, a impossibilidade muhas vezes constatada de +fazer-se um diagnostico differencial entre a Paranoia secundaria e a +Paranoia primaria, a no ser pela consulta dos anamnesticos. + +Que a Paranoia secundaria no uma degenerescencia pura e simples, +resulta das seguintes consideraes: a primeira a presena do elemento +affectivo, de expanso ou depresso, que falta na Paranoia primaria, +evidentemente degenerativa; a segunda a marcha e terminao, que so +diversas das observadas na Paranoia primaria; a terceira, emfim, +refere-se hereditariedade que sempre menos pesada na Paranoia +secundaria que na primaria. + + concluso geral do trabalho de Tonnini esta: No sendo uma +psychonevrose genuina, nem uma pura degenerescencia, a Paranoia +secundaria compendia e resume n'um mesmo individuo os elementos d'estes +dois processos, Constitue um trao de unio entre elles e demonstra que +os estados morbidos, como todos os factos naturaes, se no sujeitam a +uma rgida classificao, mas teem entre si relaes variaveis, que +podem verificar-se associadas n'um mesmo typo pathologico[1]. + + [1] Tonnini, _Loc. cit._, pag. 67. + + * * * * * + +Poderiamos, sem grave inconveniente, suspender n'este ponto a parte +historica do nosso estudo, por isso que s a Frana, a Allemanha e a +Italia teem no assumpto que nos occupa litteraturas psychiatricas +originaes; completal-a-hemos, todavia, por uma ligeira noticia dos +trabalhos inglezes, norte-americanos e russos. + +A psychiatria ingleza, orientada n'um sentido eminentemente analytico e, +sobretudo, caracterisada pela investigao minuciosa dos symptomas e das +causas, tem-se conservado quasi sempre alheia aos problemas de +pathogenia que to apaixonadamente sollicitam os paizes continentaes. + +A noo de _monomania_, com a significao que lhe davam Esquirol e os +seus discipulos, foi propagada na Inglaterra por Prichard, que a definia +nos seguintes termos: A monomania ou loucura parcial caracterisada +por uma illuso particular ou erronea convico do intendimento, +determinando uma aberrao do juizo; o monomaniaco incapaz de pensar +correctamente sobre objectos relacionados com a sua illuso especial, +embora sobre outros assumptos no manifeste apreciaveis desordens do +espirito[1]. + + [1] Prichard, _Treatise on Insanity_, 1833. + +Merc dos escriptos classicos de Hack Tuke e Bucknill, o termo +_monomania_, comeou em 1858 a ser substituido pela expresso +_delusional insanity_, hoje correntemente empregada para indicar os +delirios systematisados. Mas a designao nova no implica uma +pathogenia definida, porque o termo _delusion_ significa apenas +_concepo falsa_ ou _ida delirante_, sem referencia a origem. Segundo +Tuke e Bucknill, a _delusional insanity_ poderia ser secundaria, como +algum tempo pretendeu Griesinger. o que manifestamente exprimem estas +palavras: A concepo falsa (_delusion_) muitas vezes o ultimo +symptoma na morbida successo dos phenomenos mentaes; ella pde ser, com +effeito, o reflexo de uma emoo, e, embora estrictamente signifique +desordem intellectual, pde ser o resultado e o mero symptoma de uma +desordem de sentimentos. Na verdade, a loucura affectiva (_emocional +insanity_) no raro termina por uma perturbao conceptual (_delusional +disorder_)[1]. Explanando esta passagem, que tem a data de 1879, os +auctores apresentam como exemplos de _delusional insanity_ casos que +poderiam entrar no grupo germanico da Paranoia secundaria. + + [1] H. Tuke and Bucknill, _A Manual of Psychological medicine_, 4. ed., + pag. 204. + +Sob o ponto de vista pathogenico, Maudsley conservou-se fiel tradico +dos seus predecessores inglezes, como o demonstram estas palavras da +_Pathologia do Espirito_: Comquanto a monomania intellectual succeda +muitas vezes mania aguda, nem sempre isto acontece; por vezes este +desarranjo do espirito desenvolve-se primitivamente e de um modo +progressivo, como exaggero de um defeito fundamental do caracter[2]. + + [2] Maudsley, _Pathologie de l'sprit_, trad. fr., pag. 441 (1883). + +O que em Maudsley se encontra de verdadeiramente notavel com relao ao +assumpto que aqui versamos, a descripo que elle faz, sob o nome de +_nevrose vesanica_, da Paranoia sem delirio de Tanzi e Riva. Os +portadores d'esta nevrose ou _temperamento louco_, de origem sempre +hereditaria, so seres _originaes_ e _excentricos_, de um grande +_egoismo_, de uma excessiva _vaidade_, seres _desequilibrados_, que, +no delirando, constituem, todavia, alguma coisa de extranho no meio +social a que se no subordinam, antes constantemente chocam. + +Em Clouston, cujas interessantes _Lies_ remontam a 1883 e tiveram nova +edio em 1887, a _delusional insanity_ apparece como synonimo de +_monomania_ ou _monopsychose_. Buscando as origens da doena, Clouston +encontra-lhe quatro: a predisposio individual, a mania aguda, as +intoxicaes e traumatismos, e, por ultimo, as sensaes falsas. Como se +v, a _delusional insanity_ tanto um delirio systematisado primitivo +como secundario, tanto essencial, como apenas symptomatico. + +O que em Clouston merece atteno a sua maneira de definir a +_delusion_ ou conceito delirante maneira dos italianos, isto , +fazendo intervir o criterio evolutivo. A educao, a idade, a classe e +mesmo a raa, at um certo ponto, determinam se uma crena errada ou +no um conceito delirante[1]. Assim, a noo morbida, a ida +pathologicamente falsa (_insane delusion_) deve definir-se uma crena +n'aquillo que seria inacreditavel para gente da mesma classe, educao e +raa da pessoa que a expressa[2]. + + [1] Clouston, _Clinical lectures on mental diseases_, 2 ed., pag. 243. + + [2] Clouston, _Obr. cit._, pag. 244. + +Na America do Norte, Spitzka[3], servindo-se do termo _monomania_, expe +em 1883 a doutrina da Paranoia, tal como a comprehendem alguns +alienistas allemes, assignalando-lhe uma origem primitiva e fazendo-a +assentar sobre um fundo de fraqueza mental. Na classificao dos +delirios, que divide em expansivos e depressivos, reconhece as +variedades descriptas por Krafft-Ebing, excepto a processo-maniaca. + + [3] Spitzka, _A Manual of Insanity_, 1883. + +No mesmo anno, Hammond[4] occupa-se dos delirios systematisados, sem, +todavia, se pronunciar sobre a sua pathogenia. + + [4] Hammond, _A Treatise on Insanity_, 1883. + +No conhecemos, seno por ligeiras noticias de Tanzi e de Sglas, a +litteratura russa da Paranoia. A julgar por essas noticias, no ella +nem mais abundante, nem mais original que a ingleza e a norte-americana. + +Parece que os mais importantes trabalhos so os de Rosenbach, em 1884, e +de Greidenberg, em 1885. + +O primeiro d'estes auctores sustenta, como a maioria dos allemes, a +gnese expontanea dos delirios paranoicos, que teem por base a +debilidade mental. As illuses e allucinaes seriam secundarias e no +primitivas na evoluo d'estes delirios. As idas de grandeza no +derivariam, por um processo logico, das idas de perseguio, mas seriam +contemporaneas destas; de resto, o exaggero da personalidade, que as +idas ambiciosas pem em relevo, est j indicado nas idas de +perseguio. + +O segundo dos auctores citados reconhece uma Paranoia allucinatoria +aguda, em que distingue duas variedades: uma hereditaria, e outra +adquirida, asthenica. Esta seria a mais frequente, e terminar-se-hia +quer pela cura, quer pela demencia, quer por um certo grau de +enfraquecimento cerebral. + + + + +SEGUNDA PARTE + + +EXAME CRITICO DO CONCEITO DE PARANOIA + +METHODO A SEGUIR + +Dados resultantes do estudo historico dos delirios systematisados--Exame +critico dos conceitos clinicos de Delirio Chronico e de Verrcktheit +aguda e secundaria--Determinao final do conceito anthropologico de +Paranoia. + + +Todo o extenso caminho ascensional at agora andado nos apparece, da +altura attingida, como uma linha de ideao que, partindo do exame dos +delirios systematisados, se dirige para o conhecimento da constituio +intellectual dos delirantes. + +Nas phases iniciaes da sciencia e quando ainda um exclusivo criterio +symptomatico a orienta, cada delirio uma doena--que se chama +melancolia, monomania intellectual, lypemania, delirio de perseguies +ou megalomania, segundo as modalidades clinicas de _fixidez_, de +_extenso_, de _contheudo_ ou de _marcha_ das idas delirantes. Mais +tarde, a preponderancia do criterio etiologico, imposto psychiatria +pelo genio incomparavel de Morel, modifica e alarga a viso do assumpto, +fazendo pensar no terreno especial de que as concepes falsas emergem; +no ha ento tantas doenas distinctas quantos os delirios, mas, formada +pela convergencia da noo symptomatica de delirio e do conceito causal +de predisposio, uma s doena de variaveis aspectos clinicos, +successivamente denominada loucura hypocondriaca, delirio chronico, +loucura parcial, delusional insanity e Verrcktheit. Emfim, a tentativa +de explicar pela doutrina geral da evoluo psychica a natureza da +predisposio delirante origina o conceito de Paranoia como expresso de +um desvio regressivo, de uma constituio atavica da intelligencia. + +Analyse, synthese e interpretao pathogenica--taes foram, pois, na +marcha historica do assumpto que nos occupa, as _tapes_ seguidas pelo +espirito scientifico. + +Mas esta linha evolutiva, que abstractamente nos apparece rectilinea, +foi na realidade irregular e ondulante. Conhecidos, maneira de dois +pontos, o primeiro e o ultimo termo das sries de doutrinas, traamos +entre elles a mais curta distancia, como se a filiao das idas se +houvesse dado n'um mesmo cerebro; na verdade, porm, as theorias +nasceram, como vimos, em litteraturas diversas, independentes por vezes +e accusando cada qual o genio particular e as tendencias especiaes da +respectiva nacionalidade. Assim, por exemplo, quando ainda o pratico +espirito francez se occupava em fazer pelas pennas de Lasgue e de +Foville a minuciosa descripo clinica dos delirios systematisados de +perseguio e de grandezas, j o cerebro allemo, que os tinha +entrevisto, prematuramente lhes assignalava pela voz de Griesinger urna +hypothetica pathogenia. Por outro lado, dentro do mesmo pais, potentes +organisaes intellectuaes quebraram por bruscos saltos de genio o +parallelismo entre as evolues logica e chronologica das idas, +misturando assim n'um dado momento, como vimos succeder em Frana com +Morel, o espirito de analyse e a tendencia synthetisadora. Emfim, o +inevitavel desejo de explicar, coevo da humanidade, indisciplinada e +temerariamente semeou de fragmentarias notas pathogenicas o proprio +periodo analytico do nosso thema, como se viu em Lasgue e em Foville, +tentando filiar n'uma autoobservao consciente as idas delirantes. + +, pois, por um artificio do espirito que figuramos como perfeitamente +definidas e succedendo-se rectilineamente as phases evolutivas da +questo que nos occupa. Mas esse mesmo artificio, alis necessario e +legitimo, est indicando que a historia, no sendo aqui, como as +sciencias exactas, uma simples exposio chronologica dos erros e +illuses que precedem a conquista definitiva da verdade, mas uma +complicada e suggestiva revista de opinies, carece de ser completada +pela critica. J no que apenas parece uma na e secca exhibio de +doutrinas, o espirito critico intervem, procurando no labyrintho de +contradictorias affirmaes a filiao das idas; preciso, comtudo, +que elle se affirme ainda mais larga e mais activamente, julgando as +theorias e os pontos de vista individuaes ou de escla em face dos +factos clinicos e dos principios de psychologia normal e pathologica. + +Eis o que explica a necessidade d'esta segunda parte do nosso trabalho. + +Acceitando nos seus traos fundamentaes a doutrina anthropologica da +Paranoia--inevitavel corollario da theoria geral da evoluo +psychica--tentaremos demonstrar, aqui, que ella explica todos os factos +e synthetisa todas as verdades incompletas das doutrinas que a +precederam; n'este sentido reforaremos e ampliaremos com novos dados e +novos pontos de vista a argumentao dos psychiatras italianos. + +Antes, porm, uma tarefa se nos impe: a de examinar as questes do +Delirio Chronico e das variedades aguda e secundaria da Verrcktheit, +sobre as quaes so ainda hoje em Frana e na Allemanha to vivos e +accesos os debates como antes dos trabalhos italianos que, uma vez +comprehendidos, deveriam tel-os, a meu vr, definitivamente encerrado. + + + +I--O DELIRIO CHRONICO + +A etiologia; a marcha; o prognostico--Confronto com os delirios +polymorphos--A passagem do periodo persecutorio ao ambicioso no e +vulgar; a passagem demencia excepcional--O delirante chronico um +degenerado; importante observao pessoal--A prognose dos delirios +polymorphos muitas vezes a do Delirio Chronico--Dois conceitos de +Delirio Chronico no espirito de Magnan; gnese do segundo. + + +O delirio chronico de evoluo systematica, tal como nas paginas, +anteriores o descrevemos, no no espirito de Magnan uma formula +eschematica ou uma abstracta construco destinada a fazer comprehender +um certo grupo de factos, mas uma doutrina concreta que a observao no +faria seno confirmar. + +Recordemos que duas circumstancias--uma d'ordem etiologica, outra de +natureza symptomatico-evolutiva, caracterisam a psychose: a primeira +consiste em que ella ataca na idade mdia da vida individuos at ento +perfeitamente normaes, embora predispostos; a segunda, era que ella +segue na sua marcha quatro periodos distinctos, succedendo-se n'uma +ordem invariavel--o de incubao, o de perseguies, o megalomano e o +demencial. + +Pelo que respeita primeira d'estas caracteristicas, diz Magnan: O +delirio chronico fere em geral na idade adulta individuos sos de +espirito, no tendo at ento apresentado nenhuma perturbao +intellectual, moral ou affectiva. Insisto sobre este facto que tem sua +importancia, por isso que por esta particularidade os delirantes +chronicos se separam immediatamente dos hereditarios degenerados, que +desde a infancia apresentam perturbaes que os fazem reconhecer[1]. Em +relao marcha dos symptomas no menos explicito o medico de +Sant'Anna: Estes periodos (incubao, delirio de perseguies, +megalomania e demencia) succedem-se, diz elle, irrevogavelmente do mesmo +modo, de sorte que pde excluir-se do delirio chronico todo o doente que +_d'emble_ se torna perseguido ou megalomano, ou que, primeiro +ambicioso, vem a ser depois perseguido[2]. + + [1] Magnan, _Obr. cit._, pag. 236. + + [2] Magnan, _Obr. cit._, pag. 237. + +Os delirios systematisados que pela etiologia ou pela marcha se desviam +dos severos moldes traados, ou so meros symptomas de uma affeco +mental definida ou, se essenciaes, traduzem e denunciam a +degenerescencia psychica, merecendo n'este ultimo caso os nomes de +_polymorphos_ ou _multiplos_, em atteno ao seu contheudo, de _delirios +d'emble_, em vista da sua brusca appario, ou ainda de _delirios +degenerativos_, olhando etiologia. Derivada d'estas, mas de uma alta +importancia pratica, existe ainda, segundo Magnan, uma nova +caracteristica differencial entre os delirios polymorphos e o Delirio +Chronico: emquanto este absolutamente incuravel, comportariam +aquelles, na maioria dos casos, um prognostico discretamente favoravel, +pois que, expresses de um desequilibrio mental, podem desapparecer, +embora possam tambem recidivar. + +Estamos, como se v, em face de uma doutrina clara, precisa, de +contornos bem definidos e de uma estructura mathematicamente regular. +Isto nos facilita a critica. + + indiscutivel a existencia de doentes que, durante algum tempo +inquietos, preoccupados e irritaveis, cahem a seguir no delirio de +perseguies, de que passam, decorridos annos, para o de grandezas, +acabando pela demencia. At ao segundo d'estes quatro periodos da +evoluo morbida, no differem taes doentes dos perseguidos de Lasgue e +de J. Falret, que tambem passam, antes de constituido e systematisado o +delirio, por uma phase preparatoria de concentrao e de inquietude +mental; o que os separa d'estes a ulterior passagem ao delirio +ambicioso, j observada por Foville, e, por fim, demencia. Ora, se +esta passagem , como pretende Magnan, fatal e necessaria, s o Delirio +Chronico nosographicamente legitimo: se, ao contrario, ella fortuita +e precaria, a legitimidade nosographica pertence ao Delirio de +perseguies. + +O que diz a observao clinica? Vamos vr que o seu depoimento est +longe de ser favoravel a Magnan. + +Pelo que respeita passagem do delirio de perseguies ao de grandezas, +affirmou J. Falret que ella no s ho constante, mas est longe de +ser vulgar, pois apenas se realisa n'um tero dos casos; pelo seu lado, +Krafft-Ebing assegura tambem que uma tal transio se observa smente +n'um tero dos casos de Verrcktheit, isto , do conjuncto dos delirios +systematisados de evoluo chronica; e Christian pretende mesmo que +nunca attingem a megalomania os perseguidos cujo delirio se alimenta +exclusivamente de perturbaes da sensibilidade genital. A longa +experiencia d'estes alienistas garante a realidade das suas affirmaes; +de resto, so conhecidos em todos os velhos manicomios alguns casos de +delirio de perseguio durando vinte, trinta e mais annos e terminando +pela morte do doente, sem que em to largo periodo tenham surgido idas +ambiciosas. + +Mas, se nos perseguidos a passagem ao delirio de grandezas est longe de +ser constante, nos perseguidos-megalomanos a queda na demencia um +facto excepcional. Feriu, com effeito, em todos os tempos a atteno dos +alienistas francezes a extrema resistencia dos delirantes systematicos +dissoluo mental que o termo vulgar das outras vesanias; e os +observadores allemes e italianos consideram mesmo to caracteristico +este facto do no abaixamento de nivel intellectual na Verrcktheit e na +Paranoia que, como vimos, o fazem intervir na propria definio da +psychose. Por nossa parte, alguns casos conhecemos de paranoicos, +perseguidos e perseguidos-megalomanos, tendo mais de vinte annos de +delirio e mais de cincoenta de idade, em que nenhuma decadencia mental +se observa. Um d'esses casos um official reformado do exercito que +conhecemos em delirio ha, pelo menos, vinte e dois annos, e que ha +quatorze se encontra no manicomio do Conde de Ferreira; so to +inexcediveis as subtilezas da sua dialectica quanto cheias de finura e +de ironia as suas criticas sobre os acontecimentos politicos, que elle +segue e interpreta sob um criterio de perseguido-ambicioso. Muitos annos +de delirio systematisado so impotentes, no dizer de grande numero de +observadores, para provocar a demencia; e, se esta excepcionalmente +apparece, antes aos progressos da idade ou a uma psychonevrose +intercorrente que deve attribuir-se. + +Resumindo: no fatal, nem mesmo vulgar a passagem ao delirio ambicioso +nos perseguidos que, alis, incubaram o seu delirio; excepcional a +terminao pela demencia, quer dos perseguidos, quer dos megalomanos, +quer, emfim, dos systematisados que passaram n'uma longa evoluo +vesanica pelas successivas phases persecutoria e ambiciosa. + +O perseguido-megalomano-demente , pois, menos commum que o perseguido, +tal como vem sendo descripto desde Lasgue e J. Falret; pelo que, fazer +do Delirio Chronico um typo destinado a conter o Delirio de perseguio, +seria inverter abusivamente as noes recebidas em nosologia, tornando +_especie_ o que apenas _variedade_. + +Examinada a questo do lado da marcha dos symptomas, encaremol-a do +ponto de vista da etiologia. + +Como foi dito, o delirante chronico no , no dizer de Magnan, um +degenerado: pde ser um predisposto, mas no um candidato loucura; +pde ter antecedentes hereditarios, pois que a hereditariedade radia +sobre todas as doenas mentaes, mas no apresenta at invaso do +delirio o desequilibrio caracteristico dos degenerados. O delirio +d'estes sempre polymorpho, _d'emble_, frouxamente systematisado, no +tendo a longa durao do delirio chronico, nem o seu crte regular em +periodos de irrevogavel successo. + +Esta maneira de vr, em radical opposio com as affirmaes dos +psychiatras allemes e italianos sobre a Verrcktheit e a Paranoia (em +que o delirio chronico de Magnan, como todos os delirios systematisados, +se acha contido) merece ser examinada. + + evidente que uma critica profunda d'este novo aspecto da questo s +pde fazer-se discutindo a noo da degenerescencia, que no identica +para todos os psychiatras, que no tem o mesmo alcance em todos os +livros e que representa para o medico de Sant'Anna um grupo de factos +muito diverso do que representa para Krafft-Ebing ou para Tanzi e Riva, +por exemplo. Ulteriormente examinaremos este assumpto. Notemos, porm, +desde j que J. Sglas combateu vivamente, em nome da observao +clinica, a etiologia de Magnan, referindo casos de Delirio Chronico em +doentes portadores de estygmas physicos da degenerescencia; que Legrain, +discipulo de Magnan, admitte a possibilidade da evoluo caracteristica +do delirio chronico nos degenerados hereditarios; que Respaut, outro +discipulo de Magnan, descreve um caso de delirio chronico n'um +epileptico impulsivo; que Dericq considera aptos a realisarem o delirio +chronico os proprios fracos de espirito (_degenerados inferiores_, na +technologia da escla de Sant'Anna); emfim, que Marandon de Montyel, +acceitando a doutrina de Magnan emquanto evoluo do Delirio Chronico, +se afasta resolutamente do mestre emquanto etiologia, affirmando que +grande numero de delirantes chronicos se fazem notar desde a infancia ou +desde a juventude por anomalias de caracter, que Magnan reputa indicios +seguros da degenerescencia e que no desdizem da pesada herana que +muitas vezes incide sobre estes doentes. + +Por nossa parte, cremos dever apontar um caso clinico de observao +pessoal que pde juntar-se aos de Sglas. + +Trata-se de um antigo empregado commercial, celibatario, tendo +actualmente 45 annos de idade, e a quem j em outra publicao nos +referimos. O periodo de incubao delirante, a que accidentalmeme +assistimos, merc das relaes que ento mantinhamos com um irmo, +remonta a 1878; no anno immediato o delirio de perseguies achava-se +installado, fazendo-se acompanhar de allucinaes auditivas e provocando +da parte do doente reaces violentas: chamavam-lhe, na rua e nos cafs, +_pederasta, onanista, devasso_, ao que elle respondia aggredindo os +suppostos insultadores. Refugiando-se successivamente em casas de +amigos, em pequenos hoteis e em hospitaes particulares, o doente veiu, +por fim, a dar entrada no manicomio do Conde de Ferreira, em abril de +1883, apresentando ento, de mistura com o delirio de perseguies, +idas ambiciosas que apenas exhibia em cartas e s um anno depois +comeou a exteriorisar oralmente: tinha descoberto um novo systema do +mundo, pretendia reformar toda a sciencia astronomica e todo o systema +social; as perseguies soffridas e a sequestrao, _o mais infame de +todos os crimes at hoje praticados_, vinham-lhe do Papa, que assim +defendia os dogmas christos, e do Rei, que defendia a ordem social +existente. Lentamente, as idas ambiciosas foram dominando o delirio de +perseguies, que hoje se alimenta exclusivamente no prolongamento da +sequestrao; livre, este doente seria o typo perfeito do megalomano. + +Eis aqui um caso a que nada parece faltar do que Magnan exige para o +diagnostico do Delirio Chronico: iniciada aos 30 annos n'um individuo +apparentemente so, que era um bom guarda-livros, que sustentava a me, +que mantinha regulares relaes sociaes, que se governava +financeiramente bem, a psychose atravessou, na successo assignalada por +Magnan, os periodos de incubao, de perseguies e de megalomania, sem +a presena episodica de idas hypocondriacas, eroticas ou outras que +podessem fazer pensar n'um delirio polymorpho. Pois bem; este doente +um degenerado incontestavel, ainda para os que acceitam a mais estreita +noo da degenerescencia. A hereditariedade n'elle convergente e das +mais pesadas: o _pae_, prematuramente morto, foi um louco moral; a +_me_, de uma fealdade pathologica, morreu em estado de demencia senil +aos 70 annos; um _tio materno_ disforme; um outro _tio_ materno, mal +dotado de sentimentos de probidade, passa por ter feito uma fallencia +fraudulenta; um _irmo_, prematuramente morto de tuberculose, foi um +louco moral, dipsomano, bulimico e de uma vaidade exaggerada; emfim, uma +_irm_, louca moral e impulsiva, prostituiu-se. Na historia pregressa do +nosso doente figura uma febre typhoide grave na puberdade. +Apparentemente ponderado, elle foi sempre, no dizer dos seus intimos, de +uma susceptibilidade excessiva, de um grande orgulho; entregava-se a +leituras para que no tinha preparao e evitava o commercio das +mulheres. Como estygmas physicos, apresenta o nosso doente _hypospadias_ +e uma notavel _asymetria facial_. + +Este caso, que em nossa propria experiencia o mais nitido, seno +mesmo o unico de um delirio paranoico offerecendo a evoluo precisa e +irrevogavel da entidade de Magnan, longe de confirmar as idas d'este +psychiatra em materia de pathogenia, infirma-as eloquentemente. + +Encaremos agora a durao e prognose comparadas do Delirio Chronico e +dos delirios polymorphos. + +Como foi dito, na doutrina de Magnan a demencia faz parte do Delirio +Chronico a titulo de phase terminal da sua evoluo; dizer que a +psychose se installa definitivamente e o seu prognostico sempre +infausto. Ao contrario, os delirios polymorphos teriam por habituaes +sahidas a _cura_ e, menos vezes, a _demencia precoce_, seriam de uma +durao limitada e comportariam, portanto, um prognostico discretamente +benigno. Ser isto absolutamente exacto? Responde negativamente a +clinica. De facto, se muitas vezes se obtem a cura dos delirios +multiformes e se, algumas outras, uma demencia vem precocemente fechar a +sua evoluo, no menos verdade que ha, ao lado dos que assim +terminam, um formidavel numero de casos de uma durao perpetua, +tendendo, se tendem, para a demencia to lentamente como o Delirio +Chronico. Os proprios discipulos de Magnan o reconhecem; e Legrain no +hesita em descrever delirios polymorphos ou degenerativos _de marcha +essencialmente chronica_. , de resto, o que a experiencia nos ensina: +ou se fixem n'um pequeno numero de idas ou percorram toda a gamma dos +conceitos morbidos, ha degenerados que deliram perpetuamente. Como +distinguil-os prognosticamente dos delirantes chronicos? O invariavel e +tranquillisador _a gurira_ de Magnan e dos seus discipulos em face dos +delirios _d'emble_, reserva-nos por vezes decepes crueis; muitos +casos conheo, por minha parte, em que _a n'a jmais guri_. De resto, +as pretendidas curas dos delirios systematisados no so, as mais das +vezes, seno apparentes, quer porque o doente esconde as suas concepes +para obter a liberdade, o que no excessivamente raro nos manicomios, +quer porque, desapparecendo realmente as idas morbidas, subsiste a +disposio a creal-as de novo, isto , subsiste a mentalidade +paranoica--a verdadeira doena, no fundo. + +Que Magnan tenha podido descriminar nos delirios systematisados +evolues diversas e justificativas de sub-grupos clinicos do que em +Frana se chama a Loucura Parcial e na Allemanha a Verrcktheit, +perfeitamente incontestavel; que elle tenha proseguido com rara +sagacidade analytica estudos anteriores sobre a successo dos delirios +n'um mesmo alienado, tambem indiscutivel; mas que o Delirio Chronico, +tal como nos ultimos annos o descreve, seja uma especie morbida e um +grupo nosologico bastantemente differenciado--pela evoluo, pela +pathogenia e pelo prognostico--dos delirios systematicos dos +degenerados, eis o que no pde acceitar-se. + +Fechariamos aqui a nossa analyse da pretendida psychose de Magnan, se +no crssemos dever insistir n'um ponto, s ao de leve tocado na parte +historica d'esta monographia: que anteriormente concepo actual do +Delirio Chronico existiu no espirito de Magnan uma outra, a exposta por +Grente, mais conforme com a realidade clinica e mais proxima da +Verrcktheit de Krafft-Ebing. + + certo que, quando na Sociedade Medico-Psychologica Sglas punha em +evidencia as contradies entre as duas doutrinas, citando trabalhos dos +discipulos de Magnan, este se defendeu declinando a responsabilidade de +taes trabalhos e cathegoricamente affirmando que aos respectivos +auctores concedera sempre a mais inteira independencia. Ora, sem de modo +algum pretendermos que o medico de Sant'Anna imponha os proprios pontos +de vista aos seus discipulos, licito acreditar que estes os acceitam +e propagam nos seus escriptos. No s Grente que n'uma these de 1883, +escripta no servio da admisso e feita de casos clinicos ahi colhidos, +expe, sob a designao de _Delirio Chronico_, uma doutrina que em +pontos capitaes se oppe que Magnan apresentou em 1887 Sociedade +Medico-Psychologica e reeditou em 1893 no seu livro de _Lies +Clinicas_. N'um trabalho publicado em 1884, Boucher procede como +Grente, chamando aos delirantes chronicos _predispostos mal +equilibrados_, declarando que _toda a etiologia do Delirio Chronico +reside na hereditariedade_, e constatando n'um caso de Delirio Chronico, +diagnosticado pelo proprio mestre, anomalias de caracter degenerativo na +evoluo da infancia; e, n'um artigo publicado j em 1889, o meu collega +Magalhes Lemos, que alis viveu perto de dois annos na intimidade +scientifica de Magnan, descreve como exemplar clinico _frustre_ de +Delirio Chronico um caso que se iniciou por idas ambiciosas de colorido +erotico. E nenhum dos escriptores que acabamos de citar se declara em +opposio com o mestre, antes cr cada um interpretal-o; nem descobrindo +signaes de degenerescencia nos portadores do Delirio Chronico, nem +achando possivel a inverso evolutiva das phases habituaes d'esta +psychose, pensa qualquer d'elles afastar-se da mais pura orthodoxia +d'escla. Tendo seguido o ensino de Sant'Anna e conhecendo as idas de +Magnan, Bajenoff escrevia tambem em 1885 que o Delirio Chronico o +equivalente da Verrcktheit e da Paranoia. + +A inevitavel concluso a tirar d'estes factos que realmente no +espirito de Magnan o conceito de Delirio Chronico se modificou a ponto +de apparecer-nos duplo distancia de alguns annos. Infelizmente, o +actual no vale o antigo. + +Mas, porque passou Magnan da larga concepo de 1883 para a de hoje, to +estreita, to geometrica e to rgida que os factos se lhe no +acommodam? Tornando a degenerescencia como synonimo de desequilibrio, o +medico de Sant'Anna estabeleceu como dogma fundamental que o degenerado +s pde delirar de um modo conforme a esse desequilibrio: o seu delirio +tem de ser, quanto gnese, improvisado; quanto marcha, irregular e +descontinuo, ora remittente, ora intermittente; quanto ao contheudo, +caleidoscopico e multiforme; quanto durao, ephemero ou pelo menos +curto, porque a mesma persistencia seria um equilibrio; emfim, quanto +associao das idas, de uma frouxa systematisao, porque esta, quando +completa, representa uma demorada concentrao d'espirito, incompativel +com a ideao salturaria do degenerado. Pertencem, pois, +degenerescencia os delirios _d'emble_, os _polymorphos_, os _agudos_ e +_sub-agudos_ e, por fim, os que no revellam seno uma _fraca tendencia + systematisao_. Os no-degenerados s podem delirar de um modo +diametralmente opposto: o seu delirio tem de ser preparado, incubado; de +marchar por _tapes_ de irrevogavel successo; de durar a vida do +doente; de circumscrever-se a um numero limitado de idas; de ser, +emfim, contnuo e francamente systematisado. O _Delirio Chronico_ a +antithese completa e integral do delirio dos degenerados e s n'estas +condies pde subsistir em face da doutrina; o conceito de 1883 +dissociou-se, pois, no em vista dos factos, mas da theoria, passando o +que n'elle havia de eschematico a beneficio do _Delirio Chronico_ +actual, e os casos _frustres,_--a grande, a formidavel massa dos casos +clinicos, ao lote dos delirios dos degenerados. + +Mas, por outro lado, no sendo o desequilibrio mental seno a +consequencia de uma grave tara ancestral ou, como diz Magnan, de uma +_impregnao hereditaria_, o _Delirio Chronico_ s deve realisar-se em +individuos normaes e vlidos para que, ainda no ponto de vista da +etiologia, elle realise o typo contrario ao dos delirios degenerativos. +Delirio chronico e degenerescencia, diz Magnan, oppem-se totalmente. + +Tal , a meu vr, a gnese da actual noo de _Delirio Chronico_. +Tentando impr-se em nome dos factos, como induco clinica, ella +procede realmente, por via deductiva, de uma doutrina presupposta da +degenerescencia, que est longe, como adiante veremos, de poder +acceitar-se sem restrices. + + + +II--A VERRCKTHEIT AGUDA + +Dois grupos de psychoses sob a mesma designao: a confuso mental e os +delirios polymorphos--A Verrcktheit e os delirios incoherentes; critica +das opinies de Schle--A Verrcktheit e os delirios systematisados de +marcha aguda; critica das opinies de Krafft-Ebing--Observao +pessoal--Dissociao dos conceitos de Paranoia e Verrcktheit. + + +Duas ordens de factos, a meu vr inteiramente distinctos, se encontram +englobados na Verrcktheit aguda: de um lado, delirios systematisados +que smente pela rapidez da sua marcha, pela curabilidade e, s vezes, +pelo excessivo predominio de allucinaes differem da Verrcktheit +chronica; do outro, delirios incoordenados, asystematicos e +eminentemente sensoriaes que, no dizer mesmo de Mendel, de Schle e de +Cramer, no se descriminam bem, quer da mania, quer da melancolia +estuporosa. isto o que resulta da leitura attenta dos auctores que +defendem a Verrcktheit aguda. + +Os primeiros d'estes delirios, no implicando nem uma obnubilao da +consciencia, nem permanentes estados emocionaes de expanso ou +depresso, separam-se nitidamente das psychonevroses; e, se bem que o +predominio do elemento sensorial lhes imprime um caracter caleidoscopico +e uma evoluo irregular, certo que elles manteem sempre aquella +activa coordenao logica das idas que constitue o _systema delirante_. +Os segundos, pelo contrario, implicando a perda de lucidez e +acompanhando-se de alteraes affectivas, impem-se pela anormal +associao das idas, que ora se precipitam e dissociam, como na mania, +ora convergem na determinao de estados catatonicos, segundo a +imprevista direco das allucinaes, sempre renovadas. + +Confundir estas duas cathegorias de delirios, sob pretexto de que +identico o seu contheudo e de que em ambas se realisa uma interveno +preponderante do elemento allucinatorio, , ao que penso, cahir n'um +erro grosseiro, porque os invocados elementos de analogia so +infinitamente menos valiosos que os caracteres differenciaes. A +identidade das idas morbidas no razo para que confundamos, por +exemplo, os delirios de perseguio da melancolia e da Paranoia ou os +delirios ambiciosos da paralysia geral e da mania; tambem o predominio +de allucinaes, ainda quando identicas, como as zoopsicas, no razo +para que no distingamos, por exemplo, os delirios alcoolico e +hysterico. As idas delirantes e as allucinaes da Verrcktheit so as +de todas as psychoses; fazer, pois, d'esses elementos um criterio +diagnostico e nosographico seria regressar ao cahos de que a pathologia +mental s conseguiu sahir por successivos esforos de analyse. No so +os symptomas, mas as suas origens pathogenicas, a sua coordenao e a +sua marcha que no actual momento orientam a diagnose psychiatrica. + +Assim, o rigor scientifico exige que estudemos em separado os dois +grupos de delirios, que alguns auctores allemes reunem sob a designao +de Verrcktheit aguda. + +Comecemos pelos delirios systematicos. + +A psychiatria allem, creando os termos de Verrcktheit e Wahnsinn para +designar os delirios, teve sempre em vista accentuar differenas entre +os que se impem pela coordenao dos conceitos morbidos e os que se +denunciam por um grau maior ou menor de incoherencia. Decerto, mudou cem +vezes o valor d'estes termos, que teem uma historia to complicada e to +longa como a da propria sciencia mental; decerto, a Verrcktheit d'hoje +no o delirio estereotypado dos cerebros enfraquecidos, descripto por +Griesinger, como o Wahnsinn no o delirio exaltado e optimista de que +o mesmo auctor traou um quadro clinico inteiramente analogo ao da +monomania intellectual de Esquirol;--mas sempre, desde Griesinger at +Westphal, os dois termos conservaram, atravs de todas as vicissitudes, +um vestigio inapagavel dos primitivos significados. A confuso +principiou smente quando o professor de Vienna, creando a variedade +aguda da Verrcktheit, integrou no quadro d'esta psychose delirios +systematicos e at dissociados em que as allucinaes desempenham um +papel dominante. Ser licito manter uma tal confuso? + +J na parte historica d'este _Ensaio_ expozemos em detalhe no s os +argumentos com que os adversarios de Westphal rejeitam da Verrcktheit o +hallucinatorischer Wahnsinn, mas os motivos por que fazem d'este um +grupo das psychonevroses. No reeditaremos essa vigorosa critica; +examinaremos, porm, os argumentos com que Schle pretende justificar a +opinio contraria. + +No contesta este eminente psychiatra que entre os casos typicos ou, +para me servir da sua propria linguagem, entre os casos extremos da +Verrcktheit e do Wahnsinn existam realmente as profundas notas +differenciaes apontadas por Fritsch e Krafft-Ebing, entre outros; +sustenta, porm, que ha casos de transio em que ellas se esbatem, +ficando ento a descoberto a fundamental identidade dos dois processos. + +A confisso, por parte de Schle, de que so justas as differenciaes +notadas pelos adversarios da escla de Vienna entre a Verrcktheit e o +Wahnsinn que n'ella se pretende incorporar a titulo de variedade aguda, + um facto importante e que deve registar-se, porque essas +differenciaes referem-se, como vimos, coordenao dos symptomas, +etiologia, marcha, pathogenia, n'uma palavra, a quanto serve para +definir uma entidade nosologica. A coordenao symptomatica, porque, +enquanto na Verrcktheit as idas delirantes formam systema e as +allucinaes occupam um logar secundario ou at nullo, no Wahnsinn o +delirio incoherente e os erros sensoriaes teem o primeiro plano; +etiologia, porque, emquanto a Verrcktheit se installa sem causa +exterior apparente, o Wahnsinn reconhece como determinantes todas as +causas capazes de provocarem uma asthenia profunda dos centros nervosos; + marcha, porque, tendo a Verrcktheit uma evoluo essencialmente +chronica, o Wahnsinn termina agudamente pela cura, pela demencia ou pela +morte; pathogenia, porque, emquanto a Verrcktheit se interpreta como +um processo constitucional ou degenerativo, o Wahnsinn uma doena +accidental ou psychonevrotica. A estes multiplos elementos differenciaes +outros se juntam ainda: ao passo que na Verrcktheit as allucinaes, +predominantemente auditivas, so determinadas pelo curso do delirio, +dependendo o erethismo sensorial da absorvente fixidez das idas, que +provocam a appario das imagens, no Wahnsinn succede que o +automatismo dos centros sensoriaes que determina as idas delirantes, +por esse facto variaveis, movedias, dissociadas; tambem, ao passo que +na Verrcktheit o elemento affectivo no s secundario, mas tende a +apagar-se com os progressos mesmos da doena, no Wahnsinn, embora +igualmente secundario pela gnese, pois determinado pelo contheudo das +idas, esse elemento representa um papel importante, merc das vivas +allucinaes emergentes de todos os sentidos. + +Para diminuir o valor d'este quadro de differenciaes nosologicas, ao +mesmo tempo numerosas e profundas, argumenta o medico de Bade affirmando +no s que na chronica evoluo da Verrcktheit se observam phases +agudas de Wahnsinn, mas que d'este se pde passar quella, o que, a seu +vr, demonstra a identidade nosologica dos dois processos morbidos. + +Examinemos o valor d'estes argumentos. + +Quanto ao primeiro, sem de modo algum contestarmos a realidade clinica +dos factos invocados por Schle, pois mais de uma vez temos observado +episodicos delirios asystematicos no curso da Paranoia, seja-nos +permittido notar, na excellente companhia de Krafft-Ebing, de Fritsch, +de Kraepelin e de Meynert, que esses factos comportam uma interpretao +muito diversa da que lhes d o celebre medico de Bade. + +Qualquer que seja a physionomia que apresentem, depressiva, expansiva ou +mixta, esses delirios asystematicos podem conceber-se como no fazendo +parte integrante da evoluo da Verrcktheit, mas coexistindo com ella a +titulo de complicaes ou de intercorrencias psychonevroticas, tendo uma +etiologia e uma marcha autonomas. Porque no? Nenhuma razo h, dizem +Tanzi e Riva, para crr que o cerebro de um paranoico possa oppr s +causas das doenas intercorrentes uma immunidade de que muitas vezes o +individuo normal incapaz, antes tudo conspira para nos fazer admittir +que elle apresenta a essas causas uma resistencia menor[1]. Assim +pensamos tambem, recordando os casos de observao pessoal. + + [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, vol. XII, pag. 417. + +Um d'estes, notavel entre todos, o de um paranoico-originario, que j +aos 17 annos se cria victima de tentativas de envenenamento e em quem +sempre uma exaggerada autophilia se notou. Mas, nem as idas de +perseguio, nem a hyperbolica opinio dos seus meritos lhe embargaram o +passo no curso de direito, que concluiu. Ridiculo e profundamente +desequilibrado, de grande memoria e de pequena reflexo, desconfiado, +phantasista e discursador, foi fazendo o seu caminho at delegado de +procurador regio na India Portuguesa. Ahi, excessos de toda a ordem, +juntos a uma febre biliosa, aggravaram-lhe o mal; regressando, muito +fraco, metropole, systematisava o seu delirio at ao ponto de viver s +e de passar habitualmente a ovos e a agua, que elle proprio ia colher de +noite s fontes. Um dia, tendo chamado a casa um operario para lhe +encadernar uns livros, foi por este traioeiramente aggredido, recebendo +na cabea um extenso e profundo traumatismo. A partir d'esse dia, +allucinaes auditivas, que at ento parecia no terem existido, +irromperam com extranha violencia; ao mesmo tempo apossou-se do doente +um sentimento intenso de terror e de anciedade que o levou, poucos dias +depois do traumatismo, a projectar-se de uma janella abaixo, fazendo uma +luxao. Simultaneamente, illuses visuaes, confuso constante de +pessoas, rejeio de alimentos e absoluta insomnia. Trazido ao hospital, +persistiu algum tempo n'esta situao; rapidamente, porm, idas de +grandeza, se juntaram. O encadernador, tentando matal-o, foi apenas um +instrumento de quem, por inveja do seu alto genio incomparavel, buscava +desfazer-se d'elle. Tornou-se aggressivo ento, fabricando uma nova +religio, crendo-se superior a Christo, e comeou a manifestar idas +eroticas e allucunaes visuaes: masturbava-se, dizia obscenidades, +proclamava as excellencias da pederastia, dos amores lesbicos, e via +mulheres nas em attitudes lascivas. Mas, subitamente, derivou a idas +hypocondriacas e d'estas a um delirio de humildade, rojando-se no cho, +beijando os ps dos companheiros, chorando, pedindo perdo a todos, +rejeitando os alimentos n'um intuito de penitencia. Pouco a pouco +resvallou no mutismo, a physionomia tornou-se-lhe parada, inexpressiva, +contrahiu habitos immundos, apresentou, n'uma palavra, o quadro da +demencia com accentuada desnutrio. Por mezes persistiu n'este estado, +indifferente a sollicitaes naturaes, deitado sobre bancos ou no cho +da enfermaria, movendo-se como um automato, no respondendo a ninguem. +Julguei-o ento perdido e cheguei a consignar com segurana esta +impresso clinica. Mas um dia, abruptamente, o doente dirige-se a mim, +cumprimenta-me polidamente e diz-me que se sente, emfim, restabelecido, +que deseja sahir, que quer escrever uma carta a um irmo para que venha +buscado. Do pseudo-demente nada restava; a datar d'esse dia ficou o +primitivo delirante, o perseguido-ambicioso quasi sem allucinaes, que +podia viver fra do hospital e que eu, com effeito, deixei sahir algum +tempo depois. Isto passou-se em 1884; de ento at hoje fez o doente +duas novas entradas no hospital, reproduzindo quasi sem variantes o +quadro que vimos de esboar. Conta-me um irmo que o aggravamento da +doena se manifesta sempre por uma subita exploso de allucinaes, +succedendo a excessos venereos e alcoolicos. + +Como interpretar este caso? evidente que os defensores da Verrcktheit +aguda veriam n'elle um excellente exemplar d'esta frma clinica; os que +a combatem, porm, pensariam no hallucinatorischer Wahnsinn de +Krafft-Ebing, na Amencia de Meynert, na Verwirrtheit de Fritsch, no +Asteniche Delirium de Mayser, na confuso mental, emfim. + +Os primeiros invocariam, com Werner, o caracter egocentrico das +concepes delirantes do nosso paranoico; os segundos poriam em +evidencia o contraste entre um delirio de humildade e os delirios de +perseguies e de grandezas, notariam a phase de estupidez ou demencia +aguda que no pertence ao quadro da Verrcktheit, fariam valer o estado +de anciedade, salientariam o phenomeno somatico da desnutrio, +appellariam, emfim, para a etiologia asthenica do caso. + +Ora, emquanto no quadro clinico descripto tudo se reduz a uma acuidade +maior dos delirios persecutorio e ambicioso, que a insistencia das +allucinaes explica de sobra, no seria difficil acceitar o diagnostico +de Verrcktheit, pois que nem a systematisao dos conceitos se perdeu, +nem o seu caracter egocentrico e autophilico deixou de fazer-se notar; e +a mesma anciedade poderia acceitar-se como secundario symptoma de +reaco em face dos erros sensoriaes. + +Mas j muito difficil explicar n'esta ordem de idas a phase de +espirito que conduz o nosso doente a rojar-se no cho, a abater-se +diante dos companheiros, a recusar os alimentos para se penitenciar e a +pedir perdo de imaginarias culpas. Por outro lado, pensando na +etiologia d'este caso, em que concorrem formidaveis elementos de +esgotamento e de asthenia, mais facil explicar por ella do que pela +acuidade do delirio a demencia funccional que por mezes observei. +Segundo a minha pratica pessoal, o onanismo abusivo seria frequentemente +o responsavel de subitas invases allucinatorias, acompanhadas de +reaces emotivas de uma viva feio depressiva e anciosa em paranoicos +averiguados. Assim, na interpretao do caso que citei, como de todos os +de igual physionomia, julgo mais consentaneo com os dados da sciencia +invocar uma complicao psychonevrotica (seja qual fr o nome preferido +para exprimil-a) do que alargar o quadro da Verrcktheit pela creao de +uma obscura variedade aguda. + +Entretanto, comprehende-se que esta questo seja de certo modo +secundaria para ns que, como Tanzi e Riva, dissociamos os conceitos de +Paranoia e de Verrcktheit, vendo n'esta apenas uma habitual, mas no +necessaria expresso symptomatica d'aquella. + +Que os delirios do paranoico sejam agudos ou chronicos; que se +acompanhem ou no de allucinaes; que conservem sempre ou percam por +algum tempo a sua costumada systematisao--eis o que nos no preoccupa +excessivamente, por isso que concebemos a Paranoia como uma constituio +mental anterior a todos os delirios, sobrevivendo-lhes e podendo at +existir independente d'elles. + + tempo, porm, de examinarmos o segundo dos argumentos de Schle em +defeza da Verrcktheit aguda. + +Notando, como Westphal, que ha casos em que de um hallucinatorischer +Wahnsinn se passa immediatamente e sem descontinuidade a um delirio +systematisado, conclue o insigne psychiatra que a Verrcktheit offerece +algumas vezes uma phase inicial aguda. + +Contesta Krafft-Ebing, como vimos em outro logar, os casos invocados por +Schle, proclamando que a transio do hallucinatorischer Wahnsinn +verdadeira Verrcktheit jmais se realisa. Por nossa parte nunca a +observamos tambem; mas de modo nenhum nos sentimos dispostos, por isso +s, a contestal-a. Em materia de facto, pde uma unica observao +positiva ter mais alta significao que toda uma longa experiencia +negativa; e certo que no s muitos dos modernos alienistas affirmam +ter observado casos analogos aos de Schle, mas j em Delasiauve +encontramos a affirmao clara de que a _confuso mental_ offerece na +sua symptomatologia idas morbidas que podem tornar-se o nucleo de um +verdadeiro _delirio parcial_. + +Mas se nos no repugna acceitar a realidade dos casos em que Schle +baseia o controvertido thema da Verrcktheit aguda, cremos que elles +podem interpretar-se de um outro modo. Porque no admittir, por exemplo, +na comprehenso d'esses casos que os delirios asystematico sensorial e +systematisado se succedem como factos morbidos distinctos, tendo cada +qual uma etiologia privativa e uma evoluo especial--nascendo o +primeiro de causas asthenisantes e o segundo da maturidade degenerativa, +marchando o primeiro para a extinco, e o segundo para a chronicidade? +No cerebro eminentemente vulneravel do paranoico as causas depressivas e +esgotantes provocariam a appario de um confuso delirio sensorial, como +outras determinariam a mania ou a melancolia; smente, a psychonevrose, +abalando esse cerebro maximamente predisposto, em vez de liquidar pela +cura, apressaria a maturidade paranoica, isto , o momento psychologico +da ecloso de um delirio systematisado. + +Mas, ainda uma vez: desde que Paranoia e Verrcktheit no so conceitos +equivalentes, a admisso de uma variedade aguda da segunda de modo +nenhum infirma a manifesta chronicidade da primeira. + +Posto isto, consideremos o grupo dos delirios que, embora tendo uma +evoluo por vezes muito rapida, apparecendo sem preparao, +acompanhando-se de multiplas allucinaes e terminando pela cura, +manteem constantemente um apreciavel grau de activa systematisao. + +Pertencem estes delirios ao quadro da Verrcktheit? Parece-nos que a +resposta affirmativa se impe. Com effeito, se a sua marcha contrasta +frisantemente com a dos casos em que as concepes morbidas se +perpetuam, cobrindo dezenas de annos, certo que lhes no falta um +unico dos caracteres essenciaes da Verrcktheit: nem a egocentricidade +das idas delirantes, hypocondriacas, eroticas, persecutorias ou +ambiciosas, nem a coordenao d'ellas em systema, nem o predominio das +allucinaes auditivas, nem a origem essencialmente hereditaria. , +pois, a estes delirios, conhecidos em Frana pelos nomes de +_polymorphos_ ou _d'emble_ que exclusivamente conviria, a meu vr, a +designao de Verrcktheit aguda. + +Os que, como Krafft-Ebing, no admittem esta frma, so constrangidos, +todavia, a fallar na rara _curabilidade_ da Verrcktheit e na sua marcha +por vezes subaguda, o que, no fundo, conceder aquillo que +ostensivamente se nega. Reconhecer a legitimidade clinica da +Verrcktheit aguda, no sentido em que acabamos de a definir, parece-nos, +portanto, inevitavel. + +Por nossa parte hesitamos tanto menos em fazel-o quanto certo que na +Verrcktheit vemos apenas uma possivel manifestao da Paranoia. + +Quando entre os delirios systematisados (Verrcktheit) e a constituio +mental (Paranoia), que elles revellam nos dominios intellectuaes, se +estabelece uma perfeita equivalencia, o reconhecimento de uma variedade +aguda e curavel dos primeiros implica uma perigosa negao da doutrina +que faz da segunda uma doena de evoluo essencialmente chronica e +incuravel, uma degenerescencia, em summa. Mas, precisamente se +encarregam os factos de pr em relevo o lado fraco d'esta doutrina e a +exactido da que sustentamos com Tanzi e Riva. Os delirios +systematisados podem revestir a frma aguda e curar; o que chronico, +porm, e no cura jmais a anomala organisao psychica de que elles +no fazem seno traduzir a maxima intensidade ideativa. Pde ser aguda e +curar a Verrcktheit; o que chronico e no cura a Paranoia. + + + +III--A VERRCKTHEIT SECUNDARIA + +Os delirios systematisados que succedem s psychonevroses; sua +interpretao pathogenica--A opinio de Tonnini; modificao +introduzida--Dissociao dos conceitos de Paranoia e Verrcktheit. + + +A extenso com que na parte historica d'este _Ensaio_ tratamos o velho +thema da Verrcktheit secundaria, to caro aos allemes, permitte-nos +agora limitar muito as consideraes de ordem critica a fazer sobre +elle. + +Disse alguem que, a partir dos trabalhos de Sander e Snell, a pergunta: +_Existir uma Verrcktheit primaria?_ comeou a ser substituida por esta +outra: _Existir uma Verrcktheit secundaria?_ E ns vimos, com effeito, +que a extenso d'esta diminuiu sempre na medida em que augmentava a +d'aquella. Entendamo-nos, porm: se os delirios systematisados que +succedem mania e melancolia de longa durao, no merecem realmente +um logar no quadro clinico da Verrcktheit, que uma doena +constitucional, mas no grupo das psychonevroses, de que so apenas +estados terminaes prefaciando a loucura e revellando j, pela sua mesma +inactiva e apagada coordenao, um enfraquecimento cerebral, +indiscutivel que a observao clinica nos permitte uma ou outra vez +surprehender delirios persecutorios e ambiciosos vivamente +systematisados, activos e tenazes, succedendo, todavia, a psychoses de +manifestaes maniacas, melancolicas e at mesmo apparentemente +demenciaes. Raros, estes ultimos delirios systematisados no o so +tanto, comtudo, que os no tenham observado psychiatras de todos os +paizes. Como interpretal-os? Onde achar-lhes logar dentro das modernas +classificaes? + +A resposta parece-nos poder derivar-se da doutrina formulada por +Tonnini: Estes delirios so paranoicos; e a psychonevrose que os +precedeu, impotente em si mesma para os crear, provocou-os todavia, +estimulando a peculiar actividade ideativa de um cerebro degenerescente. + possivel que, a no se realisar a incidencia perturbadora do elemento +emocional implicado na psychonevrose, esse cerebro tivesse feito a sua +evoluo sem manifestaes delirantes, comquanto houvessem de +caracterisal-o sempre um exaggerado subjectivismo e uma apreciavel +egocentricidade. Vulneravel, porm, elle no pde resistir s causas que +nos espiritos sos determinam as psychoses; uma d'estas installou-se, +portanto. O que dever succeder a partir d'esse momento? Naturalmente, +alguma coisa diversa do que costuma passar-se nos cerebros normaes: em +vez de marchar para a cura ou para a demencia franca, a psychonevrose +apressar aquella _maturidade degenerativa_ de que fallam Tanzi e Riva +e que tem por expresso intellectual um delirio systematisado. J em +manifesto desequilibrio e j canado pela passagem tormentosa da +psychonevrose, o cerebro no poder dar a este delirio secundario a +forte seiva de que se alimentam os primitivos; entretanto, dar-lhe-ha +ainda a fora psychica precisa a uma evoluo que pde ser longa e de +certo modo movimentada. n'este especial sentido que, a meu vr, a +Verrcktheit secundaria deve ser admittida. + +Note-se, porm, que dizemos Verrcktheit e no Paranoia, no que +divergimos de Tonnini. E esta divergencia no s de frma, mas de +fundo, no apenas de nomenclatura, mas at certo ponto de interpretao. +Com effeito, se bem comprehendemos todo o pensamento do escriptor +italiano, a psychonevrose sommar-se-hia com uma simples predisposio +vesanica para determinar a Paranoia, que os delirios systematisados +secundarios symptomatisam; ao contrario, eu penso que a Paranoia +preexiste psychonevrose, embora tendo uma frma mitigada e revestindo +at ao advento d'esta uma feio mal definida, um verdadeiro typo +indifferente. A psychonevrose que, na interpretao de Tonnini, +contribuiria essencialmente para a constituio da Paranoia, no faz, a +meu vr, mais do que accentual-a, provocando a Verrcktheit, isto , +imprimindo-lhe um definido typo delirante. Todas as degenerescencias +teem graus intensivos ou de gravidade: na ordem das paranoicas a mais +grave seria a que mais rapidamente chega maturidade, a mais precoce, a +que desde a puberdade se revella por delirios systematisados, isto , +pela _Verrcktheit originaria_; a menos grave seria a que s attinge a +maturidade por virtude de um abalo emocional, a mais tardia, a que se +manifesta pela _Verrcktheit secundaria_. Mas em qualquer dos dois +casos, como cm todos, a anomala constituio cerebral que na essencia +caracterisa a Paranoia, congenita. E eis porque eu no hesito em +acceitar uma _Verrcktheit secundaria_, como no hesitei em admittir uma +_Verrcktheit aguda_, comquanto sustente a _primitividade_ e a +_chronicidade_ essenciaes da Paranoia. + + + +IV--O RACIOCINIO E OS DELIRIOS PARANOICOS + +Erros doutrinarios de Lasgue e Foville sobre a interpretao +pathogenica dos delirios systematisados; como se perpetuaram na +psychiatria franceza--A autoobservao e o raciocinio no representam um +papel na gnese dos delirios paranoicos--Depoimento dos factos--A +primitividade dos delirios paranoicos, sua origem ideativa. + + +Entre os erros concebidos a proposito da origem, sempre anciosamente +procurada, dos delirios de perseguies e de grandezas, um ha que, +embora contradictado pela experiencia, se divulgou, sobretudo em Frana, +com manifesto prejuizo de uma s pathogenia: refiro-me ao que faz +intervir na gnese d'estes delirios a autoobservao e o raciocinio do +doente. Lasgue, affirmando que o perseguido, normal at ao momento da +invaso da doena, annunciada por um vago, mas profundo mal-estar, se +perscruta, se dobra sobre si mesmo, e acaba, no sem hesitaes, por +encontrar na hostilidade dos homens a interpretao dos seus +soffrimentos, foi o creador d'esse erro funesto, que Foville generalisou +mais tarde, fazendo proceder a megalomania da necessidade que o +perseguido sente de explicar-se os motivos das acintosas miserias +soffridas. + +Repetida como uma sorte de _clich_ por successivas geraes de +alienistas franceses, esta gratuita vista do espirito, que s Morel +repudiou, insinua-se ainda nos livros contemporaneos; e assim que, +embora sem um s caso em apoio, Magnan, maneira de Foville, enumera o +_raciocinio_ entre os fundamentos possiveis da transio, no Delirio +Chronico, da phase persecutoria phase ambiciosa. + +Comecemos por examinar esta singular pathogenia em relao ao delirio de +perseguies a que primeiro se applicou. + +Segundo ella, o perseguido, como um homem so, abruptamente assediado de +obscuras emoes dolorosas, buscaria comprehendel-as, determinar-lhes as +causas, fazendo conjecturas e construindo hypotheses, entre as quaes +est a que, por successivas e mais ou menos demoradas excluses, elle +acceita como a melhor e mais explicativa: a de uma perseguio. + +A apparente nitidez d'esta pathogenia seduziu os espiritos; e, comtudo, +ella radicalmente falsa. + +Em primeiro logar, a observao clinica protesta contra, a normalidade +do perseguido anteriormente invaso do delirio, proclamando-o no s +um predisposto, as mais das vezes hereditario, mas um verdadeiro +candidato loucura, + +Antes de imaginar o seu Delirio Chronico anti-degenerativo, +releve-se-me a expresso, Magnan reclamava para os delirantes +systematisados uma ancestralidade vesanica de duas geraes, pelo menos; +e esta ida, j antes emittida por Morel, a que sempre dominou as +psychiatrias allem e italiana, accordes em acceitar como +hereditariamente invalido o cerebro paranoico. Por outro lado, jmais se +estudou de perto a vida predelirante de um perseguido sem que n'ella se +encontrassem seguras manifestaes de exaggerado subjectivismo, de +autophilia, de egocentricidade, tornando difficil, melindroso e s vezes +chocante o commercio social d'este paranoico. E, como se tudo isto no +fosse bastante para condemnar a ingenua supposio da normalidade de um +espirito, que manh fabricar, sem causas determinantes, um absurdo e +tenacissimo delirio, surge no raro no perseguido a estygmatisao +physica da degenerescencia. + +Em segundo logar, absolutamente inexacto que o inicial symptoma da +doena seja no perseguido, como a theoria inculca, um phenomeno obscuro +de ordem sensivel, uma vaga e confusa emoo de que se encontre +excluido, como nos prodromos de outras affeces, um elemento ideativo. +A experiencia diz precisamente o contrario. + +Quando o perseguido comea, no periodo chamado de incubao do delirio, +a isolar-se da familia e dos amigos, a evitar o convivio, a alterar os +seus habitos de existencia, a irritar-se, se o censuram ou simplesmente +o interrogam, fal-o j por desconfiana do meio, que reputa hostil. +certo que, a titulo de vaga, mas persistente emoo egocentrica, essa +desconfiana, mitigada e ainda compativel com a vida social, o +caracterisou sempre; agora, porm, ella tornou-se definido _sentimento_ +pela clara appario no espirito de uma _ida_ de hostilidade e de +perigo. A inquirio perscrutadora do doente a tudo quanto o cerca, a +procura minuciosa e subtil de provas palpaveis e evidentes da +mal-querena dos outros, a ecloso, emfim, das illuses sensoriaes, +tudo prova, irrecusavelmente, que a morbida sensibilidade do perseguido +se exerce sob o dominio de um pensamento definido, de uma _ida_ que a +orienta, que lhe imprime uma direco, que a conduz. A illuso auditiva, +phenomeno prodromico dos mais precoces e do qual a allucinao ha de +surgir, suppe j um erethismo sensorial a que preside, consciente e +nitida, embora ainda susceptivel de ulteriores desdobramentos, a _ida_ +de uma hostilidade exterior. E mesmo, justamente porque essa +ida est presente no espirito e se lhe impe que o perseguido +paralogisticamente exhibe, como provas de uma mal-querena, +interpretaes aggressivas das palavras mais indifferentes, dos sons +mais insignificativos, dos gestos e dos successos mais incaracteristicos; +cahindo sinceramente n'uma petio de principio, o perseguido prova que +no seu cerebro existe uma ida que o tyrannisa, que o empolga, e que, +tornada um centro de associaes psychicas, lhe vicia o raciocinio. +Que essa ida, como todas, proceda de preexistentes emoes, eis o que +no contestamos, porque tudo na ordem do pensamento directa ou +indirectamente reponta do humus da sensibilidade; mas s depois que +ella espontaneamente appareceu na consciencia que o delirio se +iniciou. No , pois, emotiva, mas ideativa a origem directa e +immediata d'este. + +O que-se passa na melancolia esclarece, pelo contraste, a situao +paranoica. Ali, com effeito, o phenomeno inicial d'ordem emotiva, pois +que se reduz a uma depresso consciente, que estados de cenesthesia +morbida provocam: a tonalidade psychica baixa, o doente sente-se diverso +do que fra, a dr moral invade-o, e ao fim d'algum tempo d'esta +situao anormal que o delirio surge, quer como tentativa de +interpretao do novo modo de ser, quer como adequada expresso ideativa +de um sentimento geral de impotencia. As idas de crime, de peccado, de +doena incuravel, de miseria, de incapacidade, de possesso, n'uma +palavra, todas as idas que formam o contheudo do delirio melancolico, +so ulteriores depresso dolorosa, que o facto morbido primitivo. +Essas idas no procedem do inconsciente, no irrompem de obscuras +emoes por ignorados e mysteriosos processos, mas succedem a um +consciente sentimento de dr, que tem as suas raizes em phenomenos +somaticos apreciaveis. O melancolico sente-se mudado, o que exacto, e +torna-se porisso autoobservador, primeiro, e delirante depois; o +perseguido, esse, sente mudado em relao a si o mundo exterior, o que +falso, o que presuppe uma ideao anormal e, portanto, um comeo de +delirio, que a observao objectiva apenas ajudar a systematisar. +Emquanto o melancolico, abatido e humilhado por um sentimento real de +dr, que a expresso consciente de perturbaes cenesthesicas, se +concentra e se interroga, fazendo um delirio _secundario_, o perseguido, +egocentrico e autophilico, partindo de uma ida chimerica de +hostilidade, abre os sentidos e observa o mundo externo, delirando +_primitivamente_. + +A autoobservao e o raciocinio na gnese do delirio de perseguies no +passam de miragens do espirito. No perseguido a atteno dirigida em +sentido objectivo; e o raciocinio, longe de intervir na formao do +delirio, por elle radicalmente falseado sempre que se trata das +relaes entre o mundo exterior e o Eu. A verdade clinica , pois, +precisamente o contrario do que affirma a doutrina de Lasgue; a verdade + que o delirio surge sua hora, como o fructo amadurece e o gro +germina: espontaneamente, fatalmente. + +Vejamos agora o que se d com o delirio ambicioso que succede ao de +perseguies. + +Haver n'este caso, como pretendia Foville e como saciedade se tem +repetido, uma transformao consciente e raciocinada? + +O que acabamos de dizer sobre a direco exclusivamente objectiva da +atteno do perseguido, faz desde j suppr o contrario. A attitude +reflexiva, que seria necessaria para indagar as causas de uma +hostilidade do meio, no est nos habitos do perseguido; por outro lado +ainda, no de modo nenhum natural que se procurem as origens de um +facto acreditado, como os dogmas, com a inabalavel f, que dispensa +interpretaes e as rejeita mesmo. + +Mas as provas directas da falsidade clinica da doutrina de Foville +abundam. Assim, a observao permitte affirmar que no s o perseguido +nunca formla a pergunta: _Porque me perseguem?_ mas que, interrogado +n'este sentido, invariavelmente responde: _No sei_. O absurdo de uma +perseguio sem causas, de uma hostilidade immotivada no choca esta +ordem de doentes; e debalde que se tenta dirigir-lhes a atteno para +o exame de um assumpto que parece no os interessar. Absorvidos pelas +allucinaes ou empenhados em conjurar os effeitos de uma aggresso +implacavel, os perseguidos no sentem a necessidade de inquirir as +razes d'ella; e todo o insistente convite n'este sentido serve apenas +para os impacientar, quando os no leva a entrevr no solicito +observador um cumplice de imaginarios inimigos. + +Mas ha mais. Se o delirio ambicioso podesse installar-se a titulo de +explicao de precedentes perseguies, nada seria mais facil do que +provocal-o: bastaria suggerir ao perseguido os themas habituaes da +megalomania, deixando-lhe a escolha. Por outros termos: se o raciocinio +bastasse, como candidamente pretendia Foville, a operar a transformao +de uma personalidade,--para fazer-se de um perseguido um megalomano +seria necessario apenas dizer-lhe precocemente o que, segundo o auctor +francez, elle se dir um dia, isto , que, no podendo haver +perseguies sem causa, o encarniamento dos seus inimigos deve +naturalmente explicar-se quer pela inveja dos altos meritos pessoaes do +doente, quer pelo interesse de supprimir um individuo destinado, como +elle o , talvez, a reinar, a dirigir um partido, a instituir uma +religio, a reformar uma sociedade, a mudar a face de uma sciencia. Ora, +a verdade que suggestes d'esta ordem no s no abalam os perseguidos +que, alis, se tornaro mais tarde megalomanos, mas determinam n'elles +ora uma franca hilaridade, ora indignados protestos. Repeti muitas +vezes, no comeo da minha carreira, experiencias d'esta natureza, +conseguindo apenas provocar dos doentes contestaes como estas: que no +esto doidos para desconhecerem a sua situao; que no admittem +zombarias; que as historias phantasticas so boas para entreter creanas +e idiotas; que no digno escarnecer de quem soffre. + +, pois, radicalmente falso e absolutamente contrario aos dados da +observao que o delirio de grandezas apparea como tentativa feita para +explicar perseguies soffridas. A ida ambiciosa, como a de +hostilidade, surge no espirito de um modo espontaneo e inconsciente; do +delirio de grandezas pde, pois, repetir-se o que foi dito do delirio de +perseguies: que elle irrompe sua hora, como o fructo amadurece e o +gro germina. + + s depois de installado por um processo a que so extranhos o +raciocinio e a vontade, que o delirio de grandezas servir para explicar +o de perseguies, como este, por sua vez, servira ao doente para +interpretar os factos da sua vida anterior. s a partir do momento em +que se cr excepcionalmente grande pelo genio, pelo nascimento ou pela +fortuna que o paranoico principia a explicar-se as miserias supportadas. + +Note-se, porm, este facto curioso e imprevisto em face da theoria que +criticamos: o delirio de grandezas, dando um solido ponto de apoio s +idas de perseguio, que esclarece e interpreta,--bem longe de as +radicar, tornando-as definitivamente preponderantes no espirito do +paranoico, tende, pelo contrario, a diminuil-as e a subalternisal-as em +proveito proprio. + +Tal o irrecusavel depoimento da clinica, absolutamente incompativel, +como se v, com a theoria que faz dos delirios paranoicos resultados de +um esforo da intelligencia para comprehender e interpretar vagos e +obscuros estados emotivos. Se essa theoria prevalecesse, a autonomia +nosographica do delirio systematisado de perseguies seria inteiramente +chimerica; e todo o esforo de Lasgue para o destacar da melancolia +delirante resultaria inane, pois que a pathogenia, a despeito de todas +as possiveis differenciaes symptomaticas, identificaria +definitivamente as duas doenas. + +Tendo de voltar ainda a este assumpto, procuraremos ento interpretar as +hesitaes dos perseguidos e megalomanos na exhibio dos respectivos +delirios. + +Por mal comprehendido, esse facto contribuiu no pouco para acreditar a +phantastica doutrina da gnese consciente e reflexiva dos delirios +systematisados. A hesitao, parecendo implicar a duvida, iria bem com a +opinio que faz d'esses delirios _conjecturas_ de um Eu que se observa, +_hypotheses_ de um espirito que se perscruta, buscando dar-se conta de +accidentaes perturbaes emotivas. + +Veremos opportunamente que a interpretao do facto muito outra; que +essas hesitaes no so seno o resultado da lucta que se exerce entre +idas nascidas do inconsciente e o systema de conceitos formados pela +educao e at um certo tempo impostos pelo meio social. + +De modo analogo explicaremos o facto, erroneamente interpretado pelos +psychiatras francezes, da inquietao dos perseguidos no periodo inicial +da doena. + + + +V--AS ALLUCINAES E OS DELIRIOS PARANOICOS + +Erro de Foville sobre as relaes dos delirios systematisados com as +allucinaes; como se perpetuou na psychiatria franceza--Uma antiga ida +de Magnan, exposta por Legrain, sobre este assumpto; falsidade d'essa +ida--Primitividade da concepo sobre a allucinao nos delirios +paranoicos--Uma rectificao de Magnan. + + +Dada a extrema frequencia dos erros sensoriaes, sobretudo das +allucinaes auditivas, na loucura systematisada, tem-se perguntado se +as perturbaes da sensibilidade especial precedem as idas delirantes, +servindo-lhes de base e fornecendo-lhes o contheudo, ou se, pelo +contrario, apenas lhes succedem como uma sorte de confirmao. + +Lasgue, sustentando que as allucinaes auditivas, unicas, segundo +elle, compativeis com o delirio de perseguies, no so nem o +antecedente necessario, nem o consequente inevitavel d'esta vesania, +estabeleceu claramente a independencia essencial dos erros conceptuaes e +perceptivos na mais commum das frmas delirantes da Paranoia. + +Retomando, porm, annos depois a questo, Foville admittiu para ella +duas ordens de solues, desigualmente frequentes: uma, relativamente +rara, em que o delirio primitivo e as allucinaes secundarias; outra, +muito commum e, no delirio de perseguies, constante, em que a relao +inversa se realisa. + +O delirio, dizia elle, pde ou principiar _d'emble_ pelos conceitos ou +affectar primeiro as sensaes e extender-se depois s idas de um modo +secundario[1]. E, analysando cada um d'estes casos, commentava: N'este +ultimo (primitividade das allucinaes) as funces puramente +intellectuaes no so, desde o comeo, intrinsecamente lesadas, antes +continuam a executar-se segundo a logica. Como faz notar Delasiauve, a +faculdade syllogistica persiste intacta: emquanto se exerce sobre dados +exactos, o producto das suas operaes normal e sensato; quando, pelo +contrario, se exerce sobre dados falsos, isto , sobre sensaes +imaginarias ou mal interpretadas, sobre allucinaes e illuses, o +producto encontra-se forosamente em contradico com a realidade. O +delirio das sensaes tem por effeito engendrar o delirio dos conceitos, +sem que a intelligencia seja em si mesmo lesada e sem que ella deixe de +funccionar smente, quando no induzida em erro. Tal um dos modos de +produco e, no hesitamos em crl-o, o _mais vulgarmente observado_ da +loucura parcial ... Mas esta ordem na successo dos phenomenos morbidos, +embora a _mais frequente_, no constante. Acontece tambem _algumas +vezes_ gue a perturbao comea por concepes erroneas, que succedem a +uma ida fixa na ausencia de qualquer allucinao. N'este caso ainda, +faz-se ordinariamente uma propagao analoga que indicamos ha pouco, +mas em sentido inverso. Ao fim de certo tempo, as concepes delirantes +transformam-se em sensaes falsas, o delirio extende-se s percepes; +o doente torna-se allucinado, porque era j delirante, em vez de +tornar-se, como ha pouco, delirante, porque era allucinado[2]. + + [1] Foville, _Obr. cit._, pag. 341. + + [2] Foville, _Obr. cit._, pag. 341. + +Ora, ao passo que o megalomano-perseguido seria as mais das vezes, +segundo Foville, um delirante-allucinado, o perseguido-megalomano, pelo +contrario, seria sempre um allucinado-delirante. + +Por muito singular que se nos affigure, este modo de vr de Foville +sobre a primitividade das allucinaes na Paranoia persecutoria teve um +exito s comparavel ao da sua theoria das origens reflexivas e +raciocinadas do delirio ambicioso. Repetido em milhares de tiragens +pelos alienistas francezes, este novo _clich_ pathogenico perpetuou-se +como o primeiro. Magnan, por exemplo, acceitava-o ainda em 1886 e +dava-lhe curso nos trabalhos dos seus discipulos. Como Foville, o medico +de Sant'Anna admittia que nos delirios systematisados a allucinao pde +tanto ser um symptoma derivado da persistencia de conceitos falsos, como +um phenomeno primitivo sobre que assenta e de que procede a ideao +pathologica. O primeiro d'estes casos dar-se-hia nos _delirios +d'emble_; o segundo no _Delirio Chronico_. Os degenerados, unicos +capazes de fabricarem um delirio sem preparao, e de serem, portanto, +megalomanos-perseguidos, entrariam no grupo dos delirantes-allucinados; +os normaes, unicos a quem se consigna o Delirio Chronico e, portanto, +perseguidos-megalomanos, seriam allucinados-delirantes. + +Eis como, interpretando o pensamento do mestre sobre as relaes da +allucinao com as idas morbidas nos _delirios d'emble_ e no _Delirio +Chronico_, se exprimia Legrain: O mecanismo segundo o qual se produzem +as allucinaes, varia nos dois casos. No Delirio Chronico ellas so +essencialmente primitivas; todo o delirio construido sobre ellas, e se +ellas no existissem, o delirio, que lhes consecutivo, no existiria. +Nos degenerados delirantes, quando existem, as allucinaes formam-se de +um outro modo. So symptomas contingentes da doena, no a sua base +immutavel, pois que numerosos delirios degenerativos evolucionam sem +allucinaes. Quando estas complicam a scena morbida, o proprio +delirio que as _provoca_, as mais das vezes, em virtude do seguinte +mecanismo: Todos os centros cerebraes se encontram em estado completo de +erethismo; o cerebro anterior elabora as idas delirantes e evoca as +imagens nos centros posteriores; as imagens assim evocadas vem +representar-se nos centros anteriores com uma vivacidade tal que so +interpretadas como outras tantas realidades. Assim, a allucinao +encontra a sua causa directa n'uma srie de idas delirantes que a fazem +nascer, e produz-se como um verdadeiro reflexo. O caminho centripeto +parte dos centros anteriores, em que elaborada a ida delirante, ganha +as regies posteriores do cortex, em que a imagem evocada, depois +volta aos centros anteriores, trazendo a imagem, que vem misturar-se ao +delirio e se impe como realidade ... Muito outra a allucinao no +Delirio Chronico: nasce primitivamente, _sur place_, nas regies +posteriores do cortex, sem ser provocada. Uma leso local, lentamente +progressiva, a produz; ella a expresso funccional de uma leso +anatomica. Partindo d'esse ponto, ganha as regies anteriores, que +surprehende realmente. O cerebro anterior, em plena posse do seu +equilibrio, da sua ponderao, interpreta-a como um facto real e deduz +d'ella concluses logicas, que so as primeiras idas delirantes. V-se +ento evolucionar um delirio absolutamente sistematisado, lanando uma +perturbao na intelligencia intacta e ponderada, que reage com todas as +suas energias. No degenerado, a adheso no delirio plena e inteira +desde o comeo; no delirante chronico ella no seno lenta e +progressiva, fazendo-se a systematisao pouco a pouco, merc de +persistentes allucinaes[1]. + + [1] Legrain, _Du dlire chez les dgnrs_, pag. 141. + +Se n'esta passagem de Legrain substituirmos as expresses de _cerebro +anterior_ e _posterior_ pelas suas equivalentes antigas de +_intelligencia_ e _sensibilidade especial_, reapparece-nos a citao +precedente de Foville. Uma velha doutrina, pois, resurge sob roupagens +novas. + +Ser necessario affirmar n'esta altura do nosso trabalho que a +primitividade das allucinaes nos delirios paranoicos ainda uma +fico, que o exame despreoccupado dos factos annulla e apaga? + + incontestavel que, encarando de um modo geral as relaes possiveis +dos erros sensoriaes com os conceitos morbidos, so legitimos e a cada +passo se realisam os casos enumerados por Foville: se ha delirios que +provocam as allucinaes, outros ha, que, ao contrario, as teem por base +e ponto de partida. Isto de tal modo reconhecido que os ultimos +d'estes delirios teem na psychiatria contemporanea o nome consagrado de +_allucinatorios_ ou _sensoriaes_ (Wahnsinn), que allude a um fundamento +perceptivo, como os primeiros teem o de _systematisados_ (Verrcktheit), +que inculca uma coordenao ideativa. Smente, a experiencia clinica +ensina que os deliros sensoriaes ou so absolutamente dissociados e +dispersivos ou apenas attingem uma frouxa coordenao, ao passo que os +delirios francamente systematisados podem, como o persecutorio na sua +variedade litigante, evolucionar sem a interveno de estados +allucinatorios. + +De resto, o depoimento da clinica no seria difficil de prevr. +Allucinaes nascidas _sur place_, sem uma ida que as provoque e lhes +fornea o contheudo, s podem ser, como alis nota Legrain, autonomicos +effeitos de um erethismo dos centros sensoriaes, anatomica ou +funccionalmente compromettidos; mas, sendo assim, ou o cerebro anterior +as corrige e nenhum delirio ento possivel, ou, perdido o _contrle_ +normal, elle as acceita e delira, no n'um sentido determinado, mas em +tantas direces differentes quantas as allucinaes, cujo contheudo +nenhuma razo ha para no suppr variavel e proteiforme como nos +delirios sensoriaes das anemias, das febres, das intoxicaes e das +nevroses. Sem a direco superior de um conceito ou, para fallarmos a +linguagem de Magnan e Legrain, sem a interveno provocadora do cerebro +anterior, os centros sensoriaes, autonomisados e procedendo por conta +propria e exclusiva, exportam, como nos sonhos, para as regies +superiores do cortex, os mais caleidoscopicos elementos de ideao; se, +com materiaes d'esta natureza, um delirio tem de formar-se, elle no +poder ser seno, como o _hallucinatorischer Wahnsinn_ de Krafft-Ebing, +alguma coisa de tormentoso e incoherente. + +Assim, nem _ posteriori_, isto , tomando para base a clinica, nem _ +priori_, isto , partindo da doutrina da percepo, licito acceitar a +primitividade das allucinaes nos deirios systematisados. + +Discutamos, entretanto, no terreno especial da Paranoia persecutoria a +affirmao de Foville, retomada pela escla de Sant'Anna. + +Fallar, como Legrain, de uma leso anatomica dos centros sensoriaes no +delirio de perseguies, , evidentemente, fazer um abuso de linguagem, +pois que jmais uma autopsia denunciou em paranoicos qualquer coisa de +parecido com um desarranjo palpavel e visivel d'essas limitadas regies +do cortex. Perturbaes d'ordem dynamica, alteraes funccionaes, +desequilibrios de movimento cellular, eis quanto o estado actual da +physiologia permitte admittir. N'este sentido, o termo de _erethismo_, +empregado por Legrain, parece-nos feliz. Mas provocado por que causa, +esse erethismo? + +No o diz o escriptor citado, e lamentavel. + +Excluidas, naturalmente, as intoxicaes e as asthenias cerebraes, que +so as causas mais frequentes de estados allucinatorios, no vejo que +nos fiquem para explicar a sobreexcitao funccional dos centros +sensoriaes seno as idas, delirantes; postas estas de parte, nada +resta, a invocar na interpretao do phenomeno,--to importante, alis, e +to essencial, no dizer da escla franceza, que n'elle repousa a doena +inteira. + +Passemos, porm, ao de leve, sobre esta deficiencia de analyse e +admittamos por um instante que uma causa, ainda no definida, vem +provocar e determinar nos centros corticaes da sensibilidade especial um +erethismo de que o cerebro anterior no partilha. O que nos diz a +theoria da percepo que deveria succeder n'esta hypothese? +Surprehendidas pelas extranhas sensaes exportadas d'esses centros +hyperfunccionantes, as regies superiores da intelligencia entrariam com +ellas em conflicto; e o resultado d'este, dada a integridade e +normalidade d'essas regies, a que incumbe a funco suprema do +_contrle_ psychico, seria, indiscutivelmente, a correco, a +rectificao definitiva dos erros sensoriaes. isto, como se sabe, o +que acontece nos casos de illuses e allucinaes em espiritos normaes. +Fallar da integridade de uma razo, que constroe um delirio sobre +percepes falsas, um perfeito no-senso; admittir a normalidade de +uma regio de _contrle_, que centros subordinados perturbam e vencem, +cahir n'uma grosseira contradico. Por si ss, dil-o a experiencia +clinica e ensina-o a theoria da percepo, os erros sensoriaes no +falseiam os juizos, porque, para corrigir as illuses e allucinaes, +dispe o cerebro de recursos, que vo desde a elementar contraprova da +aco de um sentido pela dos outros at ao testemunho alheio e ao +confronto dos dados perceptivos com o preexistente systema de conceitos +e sentimentos, que o fundo mesmo da personalidade s. + +Se os erros sensoriaes no so corrigidos, mas acceites e elaborados +como realidades objectivas, que uma d'estas duas hypotheses se d: ou +o allucinado no empregou os recursos de rectificao e _contrle_ da +percepo exterior, porque, delirante j, viu nas allucinaes uma +confirmao dos seus conceitos; ou os empregou sem exito, porque o +insistente depoimento dos centros sensoriaes em erethismo, acabou por +vencer os argumentos da razo. + +Qual d'estas duas hypotheses se realisa no delirio de perseguies? +Segundo o antigo ensino da escla de Sant'Anna, de que Legrain um +interprete eminente, a primeira teria logar nos perseguidos _d'emble_, +que so degenerados, e a segunda nos delirantes chronicos, que so +normaes at invaso da doena. + + inutil repetir que no acceitamos esta distinco, e que a primeira +das hypotheses formuladas para ns a que tem logar em todos os casos +no s de delerio de perseguies, mas dos outros delirios +systematisados. + +Analysemos, comtudo, as affirmaes de Legrain em relao ao Delirio +Chronico. + +Estabelecendo com Magnan (como o fizera Lasgue para o perseguido) que o +delirante chronico um ser normal at invaso da doena, Legrain +compraz-se em vr na incubao d'esta uma lucta da razo com os morbidos +elementos invasores. Ao passo que o degenerado supportaria, por assim +dizer, o seu delirio,--espontanea manifestao de um desequilibrio +preexistente, o normal _fabrical-o-hia_ lentamente, hesitantemente e +raciocinando sempre. a velha doutrina. Mas como de um raciocinio s +podem surgir concluses falsas quando as premissas o so tambem, +Legrain, maneira de Delasiauve e de Foville, faz das illuses e +allucinaes, nascidas _sur place_ nos centros sensoriaes, o elemento +morbido aggressivo e a premissa erronea de que o cerebro anterior +deduzir, emfim, o delirio. + +Acabamos de vr, e toda a insistencia n'este ponto seria impertinente, +que a incapacidade de corrigir percepes erradas implica deficiencia de +senso critico e, portanto, insanidade mental, anormalidade psychica. Nem +mesmo admittindo com Legrain que o cerebro reage contra a allucinao +invasora com todas as suas energias, poderia evitar-se a concluso, pois +que a derrota denunca a fraqueza e inferioridade d'essas energias. + +Mas ser verdade, ao menos, que o perseguido reaja contra as illuses e +allucinaes incessantemente originadas nos centros sensoriaes +sobreexcitados? De modo nenhum. Bem ao contrario do que Legrain +pretende, as illuses e allucinaes so para os perseguidos, como para +todos os paranoicos, pontos de apoio e no de partida do delirio, +confirmaes e no elementos formativos d'elle, eccos dos erros +conceptuaes e no o seu fundamento, n'uma palavra, precarios symptomas +derivados e no phenomenos essenciaes e primitivos. + +A demonstrao d'esta verdade clinica no ser difficil, nem longa. + +Uma s passagem de Magnan a far. Fallando do que se passa no chamado +periodo de incubao do delirio persecutorio, escreve n'um dos seus +ultimos trabalhos o eminente observador: Os doentes experimentam um +mal-estar, um descontentamento que no sabem explicar-se; tornam-se +apprehensivos, inquietos, _desconfiados, crendo notar certas mudanas_ +na maneira de ser da familia e mesmo dos extranhos. Dormem mal, teem +menos appetite, menos aptido para o trabalho e para os negocios. N'esta +poca poderiam ser tomados por hypocondriacos. Pouco a pouco +_parece-lhes que os observam_, que _os olham de travez_, que os +_desprezam_; duvidam, hesitam, permanecem fluctuantes entre idas +variadas, acceites primeiro, repudiadas em seguida, admittidas pouco a +pouco e dando logar, emfim, a interpretaes delirantes ... O doente +persiste assim perturbado, inquieto, por vezes excitado, todo entregue +s _concepes penosas que principiam a assaltal-o_ e _indifferente a +tudo o que no parece prender-se com o seu delirio_. Os grandes +acontecimentos no o commovem, as perturbaes politicas deixam-no +indifferente, as perdas de dinheiro e as luctas de familia no o +emocionam. Pelo contrario, factos insignificantes, mas que se relacionam +com as suas preoccupaes penosas, que as justificam, adquirem uma +importancia extrema e provocam-lhe a colera. Se uma pessoa se esquece de +o saudar, v n'isto uma injuria voluntaria; se alguem tosse ou escarra +ao p d'elle, se diante d'elle uma janella ou uma porta se abrem, se-uma +cadeira se desloca, reconhece outros tantos testemunhos de despreso. As +provas de benevolencia e de afeio tornam-se zombarias, e o proprio +silencio uma offensa. O vago apaga-se pouco a pouco; hesitao +succede a certeza, e, fortificadas por todas estas provas, as suas +convices tornam-se inabalaveis. N'estas condies, o doente, sempre em +guarda, espia, escuta, surprehende n'uma conversao uma phrase que se +attribue--eis a interpretao delirante; ou se cr aggravado por uma +palavra insignificante, mas cujo som apresenta alguma analogia com uma +injuria grosseira e que elle confunde com esta--eis a illuso. Depois, a +_ida constante de uma perseguio_, a tenso incessante da +intelligencia acabam por _despertar o signal representativo da ida_, a +imagem tonal; n'uma palavra, a allucinao auditiva produz-se[1]. + + [1] Magnan, _Obr. cit._, pag. 237. + +No possivel estabelecer de um modo mais preciso e mais eloquente a +primitividade do delirio e a secundariedade da allucinao. Todo o +commentario seria pallido, todo o retoque prejudicial a este quadro +_d'aprs nature_. + +A questo de saber corno Magnan exprime em 1893 uma opinio +diametralmente opposta de Legrain, que em 1886 se dava como interprete +da escla de Sant'Anna, secundaria para ns e sem interesse para a +sciencia. + +Cremos que n'este caso, como no de Grente, Magnan se contradicta a si +proprio, fazendo do seu Delirio Chronico edies successivas e todas +differentes. + +Felizmente, e isto o que nos importa notar, a correco introduzida +ultimamente no capitulo das relaes entre os erros perceptivos e +conceptuaes, conforme verdade clinica. + + + +VI--AS OBSESSES E OS DELIRIOS PARANOICOS. + +A inquietao dos perseguidos e as hesitaes de certos paranoicos na +exhibio do delirio; como se explicam estes factos--A doutrina classica +das obsesses; sua inexactido--Idas do auctor; inesperada confirmao +d'ellas por J. Sglas--A obsesso um delirio systematico abortado; +este uma obsesso progressiva--Demonstrao; analyse dos factos--Como +se frma o Eu; estratificaes systematisadas--A personalidade e as +subpersonalidades; o atavismo. + + +Se as idas que formam o contheudo dos delirios paranoicos, no traduzem +um esforo de reflexo exercendo-se sobre estados emotivos, nem +reconhecem por causa os erros sensoriaes, como cremos ter provado, a +concluso se impe de que ellas surgem na consciencia maneira de +obsesses. + +Comquanto sustentada por uma parte dos psychiatras allemes e italianos, +esta affirmao est de tal modo em desaccordo com as radicadas +tradices da escla franceza que no ser sem vantagem discutil-a. +Antes, porm, seja-me licito notar que, acceite a origem obsessiva dos +delirios systematisados, dois factos, que os alienistas francezes no +lograram explicar seno phantasiosamente e em contradico com os dados +mais positivos da observao clinica, recebem uma interpretao +simplicissima: refiro-me inquietao dos perseguidos quando o seu +delirio aponta, e s hesitaes de grande numero de paranoicos na +exhibio dos seus conceitos falsos. + +O primeiro d'estes factos, abusivamente comparado pelos psychiatras +francezes ao vago mal-estar precursor das doenas graves, no , em +realidade, mais do que a natural reaco emotiva do Eu, subitamente +empolgado por uma ida penosa, que irrompe do inconsciente; longe de +constituir, como a anciedade melancolica, uma situao primitiva de que +surgiro os erros conceptuaes, um estado secundario, um effeito mesmo +da presena inesperada de uma ida depressiva no campo da consciencia. + +Em que consiste, de facto, essa inquietao? Definitivamente e no +fundo--em sentimentos e actos defensivos; ora, a organisao de uma +defeza suppe a ida de um ataque, de uma hostilidade, de um perigo. Sem +duvida, essa ida s se ter transformado n'um conceito e recebido a sua +inteira systematisao, quando se houver feito o reconhecimento do +inimigo e das causas da aggresso; a partir, porm, do momento em que +obsessivamente ella irrompe e se impe ao espirito, a inquietao +apparece como o grito de alarme da esphera emotiva do perseguido. + +Quanto s hesitaes, tantas vezes observadas, do paranoico na +exteriorisao do seu delirio, qualquer que elle seja, nada mais facil +que interpretal-as. Trata-se ainda, n'este caso, de um phenomeno +secundario, inseparavel do primeiro. Surprehendendo a consciencia pelo +contraste que faz com o systema de conceitos positivos recebidos da +educao, a ida delirante para o Eu alguma coisa de extranho e de +interposto que, tendo-lhe provocado uma forte reaco emotiva, ir ainda +remodelar toda a sua precedente orientao pensante, no sem +difficuldades e combates; a hesitao em affirmar o delirio , pois, o +resultado da novidade e extranhesa das idas que o formam. Longe de ser, +como se pretendeu, a duvida de um espirito que elabora conjecturas e +procura cotejal-as com os actos, essa hesitao traduz o esforo penoso +e vacillante de adaptao do Eu a uma nova ordem de idas, que elle v +surgir e cuja origem desconhece. O paranoico no duvida, porque no +critica. Como a victima de uma suggesto hypnotica activa no procura +evitar o acto ordenado e imposto, ainda quando elle choca, s suas +habituaes inclinaes, mas busca dar-lhe apparencias de espontaneo e +querido, o paranoico, longe de tentar a correco da sua ida falsa, +cuida em reforal-a pela interpretao delirante dos factos. + +Mas s vezes succede tambem que j o delirio se encontra systematisado e +ainda o paranoico o occulta ou apenas o confia do papel, n'uma sorte de +soliloquio. A razo d'este facto est em que o doente, reconhecendo, +pelo que, em si proprio se passou no periodo presystematico, a +extranheza do seu delirio e a formidavel antithese que elle faz com as +idas correntes, procura evitar as inuteis e irritantes discusses que +provocaria, exhibindo-o. o conhecido caso de alguns crentes que, em +vez de propagarem a sua f, penosamente conquistada em repetidas luctas +interiores, se recolhem n'ella, evitando a controversia, sentindo uma +sorte de pudor em desdobrar diante de profanos irreverentes o inabalavel +systema das suas convices religiosas. + +Mas eu prevejo uma objeco a esta doutrina. Como acceitar, dir-se-ha, a +origem obsessiva dos delirios systematisados, se um dos caracteres das +obsesses justamente o de no serem integradas na consciencia, de +subsistirem no Eu em lucta aberta com as disposies preexistentes, +n'uma palavra, de no formarem systema? + +A resposta implica um exame de doutrinas a que vamos proceder. + +Westphal, definindo a obsesso _uma ida que, sem precedencia de um +estado emotivo ou passional, se impe consciencia do doente contra a +sua vontade, impedindo o jogo normal do pensamento, em que se insinua, e +sendo sempre reconhecida como anomala e extranha ao Eu_, foi um dos +primeiros a proclamar a irreductivel systematisao da ida obsessiva. + +Pelo seu lado, os auctores, que ulteriormente mais se occuparam das +obsesses, insistiram sempre no facto de que ellas constituem na +economia psychica uma sorte de _corpo extranho_, releve-se-me a +expresso, para eliminar o qual, inutil, mas consciente e penosamente se +esfora o Eu. Assim, Magnan, definindo a obsesso pathologica _um modo +de actividade cerebral em que uma palavra, uma ida, uma imagem se +impem ao espirito sem interveno da vontade e com uma angustia +dolorosa que a torna irresistivel_, conta, como Westphal, entre os +caracteres pathognominicos d phenomeno (que para elle sempre um +syndroma da degenerescenda psychica), a _consciencia completa_ de um +estado morbido. E.J. Falret, interpretando no Congresso Psychiatrico +Internacional de 1892 as mesmas idas, affirmou no s que as obsesses +so _conscientes_ e _anciosas_, mas que se _no acompanham de +allucinaes_ e se _no transformam nunca em outras doenas mentaes_, +embora algumas vezes e n'uma adiantada phase de evoluo se possam +_complicar_ de um delirio melancolico ou persecutorio. O assentimento do +Congresso as concluses do Relatorio de Falret foi como a consagrao +official da doutrina que faz da ida obsessiva um facto insusceptivel da +assimilao, um producto que o Eu considera sempre extranho, que a +consciencia jmais incorpora, que a vontade combate e contra o qual a +emotividade perpetuamente lana o seu grito de alarme. + +Ser, porm, rigorosamente assim? + +Reconhecendo que a nossa experiencia curta e a nossa auctoridade +nulla, atrevemo-nos, comtudo, desde 1892; tendo por base uma solida +convico, a discutir alguns dos pontos essenciaes da doutrina classica. + +Assim, em conferencias publicas d'esse anno, a proposito de um caso +medico-legal de impulsividade criminosa, sustentamos que a ida +obsessiva no pde ser, nem na vida mental um elemento inerte, e que a +sua actividade, como a de todo o phenomeno psychico, se mede pelo maior +ou menor numero de factos da mesma ordem que ella evoca na consciencia, +o que equivale a dizer--pelas mais ou menos extensas _systematisaes_ +que provoca. Como cada atomo de um aggregado material, diziamos ento, +entra n'elle com uma certa affinidade, cada phenomeno psychico figura no +Eu com uma dse propria de fora systematisante. E a ida obsessiva, +extranha consciencia pelas suas origens confusas, no essencialmente +diversa dos outros factos psychicos, nascidos tambem em grande parte da +cerebrao inconsciente; surgindo, ella evoca, pois, pela sua mesma +affinidade com esses factos, pela sua mesma fora systematisante (de que +as leis de associao no fazem seno constatar a existencia e denunciar +parcialmente as orientaes), idas, emoes, desejos, impulsos, novas +imagens mentaes, em summa. + +Longe de acompanhar-se, diziamos, de uma perfeita e _completa +consciencia,_ a obsesso, representando um comeo de _dissociao +pessoal_, uma sciso do Eu por dois grupos antinomicos de +systematisaes psychicas, a normal e a obsessiva, implica uma +_obnubilao da consciencia_ individual, pois que esta no pde +comprehender-se seno como synthese de estados psychicos harmonicos e +expresso da unidade do Eu. + +Este modo de vr, seja dito de passagem, encontramol-o sustentado com +profuso de argumentos psychologicos e clinicos nas excellentes _Lies +sobre as doenas mentaes e nervosas_ de Sglas, publicadas em 1896. Este +imprevisto encontro do nosso espirito com o do eminente psychiatra, sob +ser-nos lisongeiro, depe grandemente em favor da justeza das idas que +defendemos. + +A _angustia_ que acompanha os estados psychicos, diziamos nas mesmas +conferencias, traduzindo a extranheza da consciencia em face da ida +imposta, est longe de ser um thenomeno invariavel, pois que, no fundo, +elle depende da extenso maior ou menor que tomam as systematisaes +pathologicas em face das normaes. Ha estados em que toda a reaco +emotiva se limita a uma passageira e leve inquietao de espirito; +outros, em que surgem phenomenos criticos de anciedade, pronunciados, +duradouros e graves. Procurando interpretar estes factos, Westphal +collocou-os principalmente sob a dependencia do contheudo das obsesses, +affirmando que, em igualdade de circumstancias, a ida fixa de matar +repugnar muito mais que a de pronunciar uma palavra inconveniente. +Talvez seja assim; mas essa _igualdade de circumstancias_, reduzindo-se, +no fundo, a uma identidade absoluta de disposies affectivas e moraes, +no pde nunca affirmar-se com segurana em dois individuos ou n'um s +em periodos diversos. Dizer que uma ida obsessiva repugna, pelo seu +contheudo, mais ou menos que uma outra, dizer que as systematisaes +provocadas por cada uma valem diferentemente para o Eu. Mas porque? Em +ultima analyse, porque as systematisaes normaes com que ellas entram +em conflicto na consciencia so diversas ou desigualmente organisadas. +medida que a ida obsessiva, quer por fora propria, quer por frouxido +das suas antagonistas, alarga a esphera da sua systematisao, a +dissociao do Eu progride, a extranheza da consciencia diminue e a +_angustia_ reduz-se proporcionalmente. E o limite d'esta reduco, que +theoricamente zero, ter sido attingido, quando no campo da +consciencia no existam systematisaes que directa ou indirectamente +no sejam provocadas pela ida obsessiva. + +Mas, n'esta hypothese dois casos podem dar-se: ou as systematisaes +normaes readquirem, decorrido um certo tempo, a sua supremacia, ou, mais +fracas, ellas se deixam vencer definitivamente pelas systematisaes +pathologicas. No primeiro caso, a consciencia individual restabelece-se, +e da phase de derrota fica apenas a memoria confusa de uma sorte de +estado secundario e de sonho,--o que tem permittido comparar as +obsesses impulsivas a crises de epilepsia psychica; no segundo, um novo +Eu se frma, tendo por substracto associaes pathologicas, isto , um +delirio systematisado. + +Tal foi, nos seus contornos, a doutrina que esboamos em 1892 e +exposemos ainda em conferencias sobre a Paranoia no comeo de 96, +contradictando os que pretendem achar contrastes irreductiveis entre +obsesso e delirio. Insubsistentes no terreno da psychologia abstracta, +esses contrastes no o so menos no campo da clinica, onde Tamburini, +Stephani, Sglas, Catzras e outros demonstraram, contrariamente +cathegorica affirmao de J. Palret, que existem allucinaes sensoriaes +e psychomotoras exclusivamente determinadas pela persistencia de idas +obsessivas. Longe de serem antinomicos, a obsesso e o delirio +approximam-se pela communidade de origem: a obsesso seria, na ordem de +idas que sustentamos, um comeo de delirio systematisado, como este +seria uma obsesso progressiva, desenvolvendo-se custa de successivas +associaes. N'este sentido se interpreta sem esforo a expresso de +_paranoia rudimentar_ por que Arnadt, Morselli e outros designam a +obsesso. + +Mas, porque reputamos fundamentaes estas idas, procuraremos dar-lhes +aqui todo o desenvolvimento que ellas comportam. + +O phenomeno pathologico da obsesso tem, como nota Dallemagne, um +representante physiologico no facto banal de uma ida indifferente que, +sem sabermos como, nos surge na consciencia, interrompendo +disparatadamente o curso das nossas preoccupaes e desapparecendo um +instante depois. No ha aqui, em verdade, nem angustia, nem +irresistibilidade; ha, porm, o phenomeno da emergencia inexplicavel e +extranha de uma imagem, que o jogo consciente das idas no provocou. A +systematisao no existe tambem: um momento presente na consciencia, a +ida desappareceu sem deixar n'ella um vestigio. Imaginemos, porm, que +a ida extranha pertence cathegoria das impulsivas, e concedamos que o +acto n'ella representado seja de natureza cruel: atirar, por exemplo, +linha frrea um companheiro de viagem. evidente que o novo caso +differe muito do anterior. Em primeiro logar, a ida tem desde logo um +comeo de systematisao, por isso que mentalmente nos representamos uma +scena complicada e os seus possiveis effeitos: imagens motoras, imagens +sensoriaes, sentimentos, emoes, idas de leis e principios moraes, +idas de sano penal, tudo entra em jogo, tudo se grupa, em torno da +ida primitiva. A vontade lucta, como geralmente se diz, ou, como melhor +deveria dizer-se, as systematisaes normaes, mais ou menos organisadas +e resistentes, repellem a systematisao anomala e intrusa. Esta, +todavia, no desapparece sem vestigios; impossibilitada de tomar as +reclamadas vias motoras externas, gastou-se na esphera emotiva, +dando-nos um instante de inquietao, um sobresalto, um comeo de +angustia, traduzida, talvez, physicamente n'um subito pallor de face, +n'uma agitao momentanea do pulso. Mas figuremos que a ida se reproduz +ainda, uma vez, duas, muitas vezes. A systematisao, que ella provocou +no inicial momento, repete-se, avigora-se, organisa-se; a lucta das +systematisaes normaes antagonistas renova-se, e d'essa renovao +deriva o prolongar-se na consciencia a presena de uma systematisao +anomala, cada vez mais nitida e mais forte. As imagens motoras faro +nascer o impulso; e este, se as systematisaes normaes o no conseguem +desviar n'um sentido diverso (a convulso, o espasmo, o toque d'uma +campainha de alarme, o grito de aviso) acabar por ser satisfeito, +provocando uma _dtente_, um allivio. + +Os caracteres da obsesso pathologica--origem invluntaria, angustia, +irrisistibilidade, satisfao consecutiva, esto realisados, O que +provocou a appario d'estes caracteres? Em primeiro logar, as +systematisaes determinadas pela ida obsessiva, em segundo, a lucta +d'ellas com as systematisaes normaes. Se a ida obsessiva fosse +incapaz de provocar systematisaes, se fosse indifferente, ter-se-hia +dissipado sem vestigios conscientes, como no caso que primeiro +figuramos; se, por outro lado, uma forte lucta se no tivesse realisado +entre antinomicos grupos ou systemas de factos psychicos, no existiria +angustia concomitante, nem satisfao consecutiva. A obsesso deu-se, +pois, custa, de uma dissociao parcial e transitoria do Eu. Alarmada +e impotente, a consciencia assistiu ao desdobramento de um acto reflexo; +clara ao principio, ella obscureceu-se um instante--aquelle precisamente +em que todo o vasto e harmonico systema de idas, de affectos e +impulsos, que constituem o Eu, se deixou vencer pelo systema antagonista +creado pela ida imposta. + +Que esta seja impulsiva, emotiva ou meramente abstracta, pouco importa, +de resto; o quadro dos symptomas da obsesso em todos os casos o +mesmo, desde que se estabelece lucta entre systematisaes pathologicas +e normaes. n'esta lucta que reside o caracter essencial da obsesso; +tudo o mais secundario e derivado. + +Imaginemos, por exemplo, que a ida de matar surge no espirito de um +criminoso-nato. No encontrando em face d'ella, a offerecer-lhe +resistencia, a longa srie de systematisaes que se comprehendem na +designao synthetica de _senso moral_, essa-ida exteriorisar-se-ha de +um modo puramente reflexo e automatico; fallaremos, ento, de impulso +morbido, mas no ser licito pronunciar o nome de obsesso. + +Figuremos ainda que uma ida, embora no derivada do jogo normal e +logico do pensamento, de natureza a lisongear os nossos gostos, as +nossas aspiraes, os nossos desejos. Insubsistentes e chimericas, as +systematisaes, s vezes complicadas e extensas, que ella gera ao +irromper no nosso espirito, no provocam, todavia, uma lucta, o estado +de espirito assim creado no pde chamar-se obsesso. Tal o caso da +_rverie_, dos castellos no ar, de toda essa phantasiosa ideao em que, +a despeito do testemunho contradictorio da realidade, nos deixamos +apanhar involuntariamente. Quem, apenas remediado ou pobre, se no +sentiu uma vez tomado, sem saber como ou porque, da ida de opulencia, e +no partiu d'ahi para o sonho dos palacios, das equipagens, da arte, da +phylantropia? Comquanto anomalo e inutil, este estado de espirito no +obsessivo, porque no provoca urna _lucta_ de systematisaes. + +Esta , pois, repetimol-o, o signal, o seguro indicador da +obsesso:--aquillo em que ella essencialmente consiste. Mas no poder +essa lucta, que de ordinario se renova, dando s obsesses um caracter +_intermittente_, cessar pela victoria definitiva das systematisaes +pathologicas, o que equivale a dizer--pela constituio de um delirio? +Cremos que sim; e para comprehendel-o basta admittir que a ida +obsessiva , na esphera inconsciente de que procede, um forte centro de +systematisaes organisadas, capazes no s de vencerem a resistencia +das systematisaes normaes, mas de as desviarem em proveito proprio. + +J a victoria intermittente da obsesso sobre as systematisaes +normaes denunca a existencia de ignoradas estratificaes psychicas, +to extensas e importantes, comtudo, que podem por fora propria ou por +fraqueza das suas antagonistas, provocar uma dissociao do Eu e n'um +dado instante occupar todo o campo da consciencia. Que se supponha maior +a sua fora e menor ao mesmo tempo a das systematisaes normaes +inhibitorias, e o triumpho ser definitivo, porque toda a esphera +consciente no conter mais do que associaes pathologicas. Teremos o +delirio systematisado; e ento, bem evidentemente, a dissociao do Eu, +que na obsesso passageira, tornar-se-ha definitiva, substituindo-se +personalidade normal vencida uma outra vencedora. + +Mas d'onde vem esta e como se formou? Eis o que a doutrina da evoluo +permitte explicar. Na sua lenta e progressiva constituio, a +personalidade humana encontra-se successivamente representada por +systematisaes psychicas de uma complexidade crescente, isto , por +associaes e inhibies cada vez mais extensas, traduzindo a aco do +mundo sobre o Eu e a reaco d'este sobre o mundo. Cada nova +systematisao formada, integrando elementos psychicos, uma satisfao +dada s naturaes affinidades d'estes; cada nova inhibio realisada, +dissociando elementos psychicos, provoca a formao de outras +systematisaes em que ellas vo achar novamente logar e novamente +satisfazer uma affinidade propria. Assim se formam lentamente, merc da +hereditariedade, que capitalisa as conquistas do espirito, successivas +estratificaes systematicas de idas, de emoes, de impulsos, n'uma +palavra, successivas _tendencias_, que representam em momentos dados um +espirito, um Eu, uma personalidade, emfim. + +As estratificaes mais recentes so tambem as menos organisadas e as +mais instaveis; os systemas de que ellas se compem, contrariando em +grande parte antigas e habituaes affinidades dos elementos psychicos, +subsistem n'um equilibrio que s o tempo tornar estavel. Mas o tempo, +quando se trata de evoluo, no a vida de um individuo, a de +geraes seguidas; , pois, necessario para que a estabilidade psychica +de uma personalidade se realise que a herana se faa sempre n'um mesmo +sentido, que a orientao ou finalidade do espirito no seja perturbada. +Se este facto se no d, a estratificao mais antiga sobreleva a mais +recente e atravez d'ella rompe total ou parcialmente. Cada personalidade +, pois, n'um dado momento a juxtaposio de subpersonalidades relegadas +para o inconsciente, mas tenazes, persistentes, susceptiveis de uma +integral ou parcial revivescencia. Por traz do _individuo_, que +representa as ultimas acquisies de uma civilisao, est a _especie_, +que representa todas as systematisaes procedentes da aco lenta do +meio, capitalisada pela herana. + +N'esta ordem de idas, as obsesses e os delirios systematisados +apparecem-nos _como resurreies parciaes e mais ou menos extensas de um +Eu ancestral_. da lucta que se estabelece entre este e o Eu de +recente formao que derivam, de um lado, a _angustia_ que acompanha as +obsesses e o allivio que lhes succede quando a _dtente_ se realisa, do +outro, a _inquietao_ dolorosa que faz cortejo aos delirios +systematisados na sua phase inicial e a tranquillidade relativa que +depois surge quando o paranoico definitivamente adquire uma convico, +uma crena, quando, na phrase justa dos alienistas francezes, elle sabe, +emfim, _ quoi s'en tenir_. + +Mas como, repetimol-o, a lucta tanto menos intensa quanto mais forte +o Eu ancestral e mais instavel o de recente formao, a _angustia +obsessiva_ e a _inquietao paranoica_ podem reduzir-se a +insignificantes propores: tal o caso dos impulsos nos criminosos +habituaes e dos delirios _d'emble_ nos paranoicos originarios. + + + +VII--A PARANOIA E A DEGENERESCENCIA + +Extenso do conceito de degenerescencia; desaccordo dos auctores--Causas +de degenerescencia; opinies diversas--A degenerescencia e a observao +clinica; modo de vr de Magnan; opinio de Krafft-Ebing--Necessidade de +um ponto de vista geral; seu caracter anthropologico--A definio de +Morel; o seu defeito essencial--A noo do atavismo em psychiatria; as +idas de Magnan e a sua falta de fundamento--Ponto de vista de Tanzi e +Riva; documentos justificativos--A Paranoia uma degenerescencia. + + +Tem ainda hoje nos livros da especialidade um caracter eminentemente +obscuro e vago a noo da _degenerescencia_. Nada o prova melhor que o +conjuncto de contradictorias opinies sobre a sua mesma extenso e sobre +as suas origens. + +Que psychopatas abrange a degenerescencia? + +Emquanto certos auctores, maneira de Mendel, s consideram degenerados +aquelles que, pela presena de estygmas physicos de uma extrema +decadencia, profundamente se afastam do typo humano commum, outros ha +que seguindo a tradio de Morel, descobrem a degenerescencia onde quer +que surjam indicios de uma constitucional desharmonia de funces +psychicas, de um originario desequilibrio mental, ainda quando +inteiramente compativel com a vida collectiva e mesmo com parciaes +superioridades de intendimento. + +O terreno que pizam os primeiros tem tanto de seguro e incontroverso +quanto de infecundo: reduzida a cobrir, o grupo dos idiotas, alguns +loucos moraes, physicamente disformes, e um ou outro delirante precoce, +somaticamente estygmatisado, a degenerescencia um conceito inerte, sem +valor em clinica e sem applicaes em nosologia psychiatrica. +Suggestivo, o ponto de vista dos segundos , todavia, impreciso, como o +revella a comparao dos auctores, pois que, os mesmos loucos so, +segundo uns e deixam de ser, segundo outros, comprehendidos no grupo dos +degenerados. Assim, emquanto para Magnan no so degenerados uns certos +paranoicos, os delirantes chronicos, para Krafft-Ebing so-no todos, +como vimos; assim, os intermittentes, que a grande maioria dos auctores +allemes e italianos consideram como exemplares degenerativos, formam +para Magnan um grupo de transio entre os degenerados e os +psychonevroticos; assim, ainda, os obsessivos, que para o psychiatra +francez so sempre degenerados, no passam aigumas vezes para Morselli +de neurasthenicos vulgares. + +Este grave desaccordo sobre a extenso do conceito, repete-se desde que a +questo etiologica se aborda. + +Que origens reconhece a degenerescencia? + +Ao passo que uns, como J. Falret, exclusivamente incriminam a +hereditariedade na produco dos degenerados, outros responsabilisam, +como Cotard, as doenas infantis, como Boucherau, as doenas do feto, ou +ainda, como Christian, o estado mental dos paes no acto da procreao. +Pelo seu lado, Magnan reconhece todas estas causas, considerando, +todavia, preponderante e typica a hereditariedade, + +Ora, para se poder fallar da hereditariedade, como agente de psychoses +degenerativas, quando se sabe que ella a causa por excellencia de +todas as doenas mentaes, seria necessario possuir-se um meio de +determinar _ priori_ o momento em que ella deixa de ser uma simples +_predisposio_ generica para tornar-se um factor especial de anomalias +psychicas; por outros termos, seria necessario precisar onde comea o +que Magnan denomina a _impregnao hereditaria_. + +Se isto fosse possivel, teriamos na etiologia um excellente criterio +para separar as loucuras degenerativas das que o no so: todas as +frmas nosologicas exhibidas por loucos impregnados de herana +pertenceriam ao primeiro grupo, como pertenceriam ao segundo as +exteriorisadas por simples predispostos. A analyse clinica, +denunciando-nos depois a symptomatologia e a marcha das psychoses dos +dois grupos, dar-nos-hia meios de reconhecer as equivalencias +hereditarias, se ellas existem, como pretendem Boucherau, Cotard e +Christian. Nada mais simples: dado que uma psychose offerecesse os +caracteres peculiares das hereditarias, seria um degenerado o seu +portador; e, quando a herana morbida no podesse ser incriminada, +outras causas teriam de invocar-se de _igual valor pathogenico_. + +Mas, precisamente succede que ninguem ainda determinou, nem _ priori_ +parece determinavel a tara hereditaria em que a _predisposio_ acaba e +a _impregnao_ comea. + +Nem o _numero_ de psychoses ancestraes, nem a sua _convergencia_ nas +duas linhas de progenitores constituem motivo sufficiente para affirmar +a impregnao hereditaria e a degenerescencia de um louco, pois que a +pratica nos depara s vezes alienados que, tendo, alis, uma pesada +herana psychopatica n'uma das linhas directas ou mesmo uma herana +convergente, exhibem frmas nosologicas insusceptiveis de se +distinguirem,--quer pelos symptomas, quer pela marcha, quer, emfim, pela +terminao, das psychonevroses puras, isto , das loucuras accidentaes, +das loucuras dos simples predispostos. + +Em contraste com estes casos, outros apparecem de um caracter +univocamente admittido como degenerativo, em que, todavia, a analyse +clinica, at onde ella pde ser feita, no surprehende mais do que uma +psychose em qualquer das linhas directas ou collateraes; isto succede, +no raro, nos debeis e imbecis, procedentes de pae ou me alcoolicos. + +Dir-se-ha, talvez, que n'estas consideraes abusivamente restringimos o +papel e alcance da hereditariedade, fallando apenas de psychoses +ancestraes, quando deveriamos com os auctores contemporaneos fallar +tambem, pelo menos, das nevropatias. + +Mas quem no v que n'este novo terreno o problema se complica sem se +resolver? Que para a tara hereditaria de um louco contribuam smente as +psychoses ancestraes ou tambem as nevropatias, ou ainda, generalisando, +as diatheses, seguro que jmais se determinar _ priori_, onde a +_predisposio_ termina e a _impregnao_ principia. + +Tacita ou explicitamente isto reconhecido pelos proprios auctores que, + maneira de Magnan e de Krafft-Ebing, assignalam degenerescencia uma +pluralidade de causas. Buscando na observao clinica dos symptomas e na +marcha das affeces mentaes os indicios da degenerescencia, evidente +que elles abandonam o exclusivo criterio etiologico. + +Mas se, d'este modo, uma fonte de divergencias cessa, outra, como vamos +vr, immediatamente surge. + +Que anomalias symptomaticas e evolutivas da mentalidade psychiatrica +devero ser consideradas como indicios ou estygmas de degenerescencia? + +A este proposito um evidente desaccordo recomea. No sendo as doenas +mentaes em si mesmas seno anomalias do espirito, o problema posto o +de procurar a anormalidade no anormal. Com que criterio? + +Magnan no hesita em adoptar _o estado mental_ do louco antes da invaso +da psychose. Ouamos as suas proprias palavras: O grande grupo dos +predispostos simples, faz-se notar por um caracter essencial, +invariavel, pathognomonico: at ao dia em que cahem na loucura, os +doentes que o formam so julgados _normaes_; comparados aos individuos +que nunca se tornam alienados, nenhuma differena apparente revellam. +que n'elles a predisposio no adquiriu ainda um grau sufficiente para +se traduzir em caracteres especificos. Esta predisposio latente e +no produziu seno um resultado: fazer do cerebro um logar de menor +resistencia e um terreno favoravel, crear uma situao em virtude da +qual as causas de desorganisao do equilibrio intellectual tero uma +influencia mais marcada do que em outros e uma aco mais duradoura e +mais energica. O factor _predisposio_ evidentemente muito variavel +como importancia; o seu valor no pde apreciar-se, falta de criterio +proprio, a no ser entre dois casos extremos. Como quer que seja, a +resistencia cerebral dos predispostos deve variar em razo inversa da +importancia do factor _predisposio_ ... N'uma outra grande diviso dos +predispostos, collocamos os doentes cuja personalidade intellectual e +moral completamente transformada desde a base desde o nascimento pelo +facto da aggravao progressiva do factor _predisposio_. Este grupo +comprehende os predispostos com _degenerescencia_[1]. + + [1] Magnan et Legrain, _Les dgnrs_, pag. 58. + +Nada, como se v, apparentemente mais claro: emquanto o simples +predisposto um ser _normal_ at invaso da doena psychica, o +degenerado _ab ovo_ um ser anormal. Resta smente determinar em que +essa anormalidade consiste. Eis como Magnan se explica a este proposito: +Nos degenerados, a predisposio, qualquer que seja a sua natureza +(hereditaria ou adquirida), produziu uma perturbao profunda das +funces psychicas. Desde a origem, desde o nascimento, fazem-se elles +notar por anomalias quer do sentimento quer da intelligencia, dos +instinctos e das inclinaes, quer de todas estas espheras ao mesmo +tempo. Adquiriram estygmas que os fazem reconhecer immediatamente e +agrupar parte. Alm d'isso a tara degenerativa, de que so portadores, +traduz-se muitas vezes por anomalias physicas, cuja significao vem +junctar-se das anomalias psychicas concomitantes. Todos estes estygmas +so permanentes, nascem com o individuo e s com elle se extinguem. Em +caso algum, estes doentes pensam, sentem ou actuam como os individuos de +cerebro normal ou como os predispostos simples. Degenerados por +accumulao de taras hereditarias, na quasi totalidade dos casos, podem +sel-o, comtudo, algumas vezes pela interveno de momentos etiologicos +potentes, cuja aco desorganisadora se exerce sobretudo nas pocas da +evoluo cerebral, isto , na primeira infancia: doenas agudas graves, +taes como a variola, a escarlatina e a febre typhoide, acompanham-se de +leses cerebraes irreparaveis. Pde-se admittir ainda a aco +degenerativa das doenas fetaes, dos traumatismos, n'uma palavra, de +todas as causas sufficientemente fortes para lesar materialmente os +centros nervosos ou para impedir o seu desenvolvimento. Mas, qualquer +que seja a causa degenerativa, hereditaria ou adquirida, os productos +so identicos, e entre si comparaveis; so portadores de caracteres +clinicos proprios a fazel-os reconhecer em todos os casos, e +significativos da tara hereditaria. Comparados aos seus ascendentes +directos, differem d'elles totalmente no ponto de vista das aptides +cerebraes: encontram-se visivelmente n'uma situao mental inferior; so +seres novos, anormaes, de mecanismo cerebral falseado. A sua situao +mental define-se n'uma palavra: o equilibrio entre todas as funces +cerebraes acha-se destruido e no pde recuperar-se. Fra mesmo dos +casos de verdadeira alienao, esta falta de equilibrio flagrante. +Quando deliram, as suas concepes revestem caracteres pathognomonicos: +surgem s menores causas occasionaes, indicio de extrema instabilidade +do equilibrio mental. Fra das causas moraes, cuja influencia aqui +preponderante em razo da extrema emotividade particular d'estes +individuos, os proprios momentos physiologicos--a puberdade, a +menopause, os menstruos, a prenhez, so causas de perturbao cerebral. +N'elles, as doenas geraes acompanham-se frequentemente de delirio; o +cerebro tornou-se o _locus minimae resistentiae_. Os accessos delirantes +no teem uma evoluo propria: affectam todas as frmas possiveis e +substituem-se com a maior facilidade. A systematisao e a coheso das +concepes delirantes muito fraca. No existe nenhuma tendencia +systematisao progressiva. Emfim, os degenerados de maior tara so +candidatos a uma demencia precoce, quer primitiva, quer +post-delirante[1]. + + [1] Magnan et Legrain, _Obr. cit._, pag. 60 a 62. + +Como se infere d'estas passagens, que citamos _in extenso_, porque +resumem toda a doutrina da Escla de Sant'Anna sobre o assumpto, no ha +verdadeiramente, como poderia parecer, um s criterio, _ posteriori_, o +estado mental predelirante, para determinar a presena da +degenerescencia, mas muitos. Ao lado, com effeito, de uma estygmatisao +psychica, essencialmente consistindo n'um original e irreparavel +desequilibrio de funces cerebraes, apparece-nos a estygmatisao +somatica, a feio polymorpha e a marcha irregular do delirio, e, ainda, +a desproporo entre a causa occasional, que incide sobre o prediposto, +e o effeito que ella produz. + +Ora, no inteiramente facil conjugar entre si todos estes criterios. + +Se o degenerado , como Magnan proclama, um _predisposto maximo_, e se o +grau de predisposio inversamente proporcional ao das causas +occasionaes, porque no degenerado o delirante chronico, no qual uma +vesania irreparavel e perpetua surge as mais das vezes sem causa? +Responder Magnan que o delirante chronico normal at invaso da +vesania. Mas quem no v que, se o eminente alienista se no engana, +affirmando tal, os seus dois criterios brigam? Por outro lado, como j +vimos tambem, a estygmatisao physica apparece algumas vezes nos +delirantes chronicos. Como conciliar, n'estes casos, o criterio das +anomalias somaticas, indicando degenerescencia, com o da systematisao +progressiva do delirio, que a exclue? + +Por outro lado, ainda, se o desequilibrio psychico a principal +caracteristica das degenerescencias, porque no considerar degenerados +os hystericos e os epilepticos, to profundamente desharmonicos sempre +no manifestaes da vida cerebral? + +O criterio clinico de Krafft-Ebing mais extenso que o de Magnan. A +presena de um estado de desequilibrio mental antes da invaso da +doena, sendo para o psychiatra allemo de uma altissima importancia, +no constitue; comtudo, como para o francez, um caracter essencial e +imprescindivel do diagnostico da degenerescencia. Fazendo, com enfeito, +a distinco entre os predispostos simples e os degenerados, +Krafft-Ebing escreve: Pde ser objecto de discusso saber se um +individuo normal at ao apparecimento da psychose, mas procedente de +gerao psychopatica, deve collocar-se n'um ou n'outro grupo[1]. O +valor maior ou menor da causa occasional pde servir para dissipar as +duvidas a este proposito, pois que um dos caracteres distinctivos das +psychoses dos degenerados reside precisamente no facto da sua ecloso +espontanea ou sob a influencia de minimos agentes provocadores. Este +criterio, sobrelevando, na doutrina de Krafft-Ebing, o da presena de um +desequilibrio mental anterior psychose, alarga o ambito da +degenerescencia, introduzindo ahi doenas, que Magnan excluiria sob +pretexto da normalidade do individuo at invaso d'ellas. Esto n'este +caso, por exemplo, alguns delirios systematisados post-menopausicos. + + [1] Krafft-Ebing, _Trattato clinico pratico delle malattie mentali_, + trad. It., vol. II, pag. 3. + +Krafft-Ebing separa-se ainda de Magnan, fazendo da periodicidade um dos +signaes das psychoses degenerativas, no que seguido por consideravel +numero de psychiatras. + +Os confrontos e citaes feitos bastam para mostrar como so numerosas +as dissidencias dos auctores sobre a constituio nosologica do grupo +dos degenerados. + +Concluiremos com Pierret que a _degenerescencia no uma doutrina +medica_ e que _deve reputar-se um crime ensinal-a?_. A nosso vr, tem +tanto de radical e temeraria, como de estreita, uma similhante opinio; +proclamal-a, equivale a desconhecer que a maior parte dos progressos +theoricos da psychiatria se devem precisamente introduco d'esse +conceito, que, ainda vago e controvertido, pde, comtudo, precisar-se. +Porque, devemos notal-o, se as divergencias hora actual so muitas, +no so poucos, nem de insignificante valor no terreno da nosologia, os +pontos sobre que se estabeleceu um definitivo accordo. O que a ns se +nos affigura que todas as difficuldades e todos os debates n'este +assumpto procedem exclusivamente da falta de um ponto de vista geral e +superior. + +Quer considerem a degenerescencia nas suas causas, quer nas suas +manifestaes clinicas, teem os alienistas contemporaneos tratado esta +noo como se ella houvesse nascido no terreno da psychiatria e d'elle +fosse tributaria, quando a verdade que, referivel a todos os seres +vivos, ella pertence biologia, onde tem um significado que no +licito esquecer, e que, nos seus traos essenciaes, dever subsistir, +quaesquer que sejam as suas applicaes. + +Isto viu lucidamente Morel, quando, ao trazer para a pathologia mental +essa noo, subordinou o seu sentido psychiatrico ao anthropologico, e +este ao da biologia. Infelizmente, o preconceito religioso no permittiu +a este homem de genio fazer de um modo correcto essa subordinao, em si +mesma necessaria e eminentemente philosophica. + +O que , na sua inicial accepo biologica, a degenerescencia? O desvio +pejorativo de um typo natural, a perda, no individuo, das qualidades +caracteristicas da especie. Anthropologicamente considerada, a +degenerescencia no pde, pois, significar seno a inferioridade do +individuo em relao ao typo natural humano. Mas qual esse typo? Foi a +este proposito que na doutrina de Morel se insinuou o prejuizo +theologico: esse typo, conservado nas tradies sagradas, teria sido o +homem primitivo, paradisiaco depositario de todas as perfeies +especificas, mas condemnado, _pelo grande facto da queda original_, a +condies degradantes de lucta com a natureza. + +A concluso a tirar d'este modo de vr, seria que todos os homens so +degenerados; e se, com gravissima offensa da logica, Morel a evitou, no +foi seno introduzindo abusivamente a noo de _doena_ no conceito de +degenerescencia, que define como _desvio morbido de um typo primitivo_. +A que vem aqui o extranho qualificativo? Se existiu um typo humano +especificamente perfeito, que as condies, para elle novas, de +conflicto com o mundo comearam a degradar, evidente que essas +condies, pezando sobre os seus descendentes e imprimindo-lhes +caracteres, que a hereditariedade transmitte, so causas para todos +elles de mais ou menos extensos desvios. E estes, ou so sempre morbidos +ou no o so nunca. + +Para escapar a esta concluso, distinguiu Morel entre si essas causas +degradativas, affirmando que umas se limitam a provocar variedades ou +_raas_, emquanto outras conduzem a verdadeiras _monstruosidades_, de +existencia felizmente limitada por uma maravilhosa e providencial +esterilidade. D'estas duas ordens de desvios, s os ultimos +constituiriam degenerescencias, segundo Morel. + +Faz d vr um homem de genio a debater-se contra phantasmas; e mais +entristece reconhecer que os seus erros se transmittiram at ns, +reapparecendo em trabalhos contemporaneos, como os de Magnan. + +Quem no v que os iniciaes desvios de typo normal, qualquer que elle +seja, podem, por condies imprevistas de cruzamento, progredir ou +attenuar-se? E, sendo assim, quem no v tambem que uma anomalia de +ordem psychica ou moral pde tanto desvanecer-se nos descendentes como +transmittir-se e accentuar-se at monstruosidade? O proprio Morel, +reconhecendo a tendencia da natureza reconstituio do typo especifico +normal, admittiu a _regenerao_ ao lado da _degenerescencia_. A +monstruosidade no , pois, a degenerescencia mesma, mas o seu termo, o +seu limite, aquillo para que no processo degradativo se caminha, dadas +infelizes condies geradoras. + +Mas, se o criterio de Morel foi falseado pela interveno de um extranho +elemento religioso, certo que a sua maneira de atacar o problema a +unica legitima. + +, com effeito, como um desvio do typo humano que a degenerescencia tem +de ser definida em anthropologia. Smente, esse typo tem de ser +procurado, no nos dominios da tradio e para traz de ns, mas no +terreno da previso scientifica e para diante. No sendo o homem +primitivo da lenda, que a anthropologia reduziu s humildes propores +de um animal apenas differenciado dos mamiferos superiores, esse typo +um ideal para que podemos suppr que a humanidade caminha e de que, na +sua evoluo, procura incessantemente approximar-se. + +Mas como determinar-lhe os attributos sem cair nas incertezas da +phantasia? Surprehendendo as linhas de evoluo physica e psychica da +nossa especie a partir d'esse remoto representante selvagem at hoje. +Assim, para s fallarmos da evoluo psychica, nota-se que, +intellectualmente, o homem partiu da ideao theologica para attingir a +scientifica, que, nos dominios do sentimento, derivou de um egoismo +feroz para chegar a affectos altruistas, emfim, que, no campo da aco, +procedeu de um automatismo impulsivo para conquistar a vontade. +Conhecida esta orientao, est achado o meio de approximadamente +constituir o typo, cujos regressivos desvios, sejam quaes forem as +causas que os provoquem, constituem degenerescencias no sentido +anthropologico do termo. + +Este sentido, porm, no precisamente o da psychiatria. + +Anthropologicameme considerada, a loucura sempre uma degenerescencia, +porque em todas as suas multiplas frmas implica um desvio regressivo, +total ou parcial, extenso ou limitado, provisorio ou definitivo do typo +que definimos. + +Psychiatricamente, porm, no assim. Se o desvio reparavel dentro da +vida individual, se elle constitue um accidente ephemero, dependendo +muito menos de uma falta inicial e congenita de resistencia do que da +gravidade e continuidade das causas productoras, a loucura no se +considera degenerativa; -o, pelo contrario, se constitue um estado +irreparavel, subsistente, espontaneo ou derivado de insignificantes +causas e accusando, portanto, uma inferioridade constitucional. + +Mas j nas loucuras no degenerativas, nas psychonevroses, o germe da +degenerescencia existe; cruzamentos infelizes o desenvolvero na +descendencia, merc da hereditariedade; e eis porque, podendo ter as +mais variadas causas, as loucuras degenerativas teem sido chamadas +_hereditarias_. Por outro lado, nas frmas degenerativas menos graves, a +regenerao ainda possivel, merc de cruzamentos felizes, pois que a +hereditariedade tanto capitalisa as boas como as mas tendencias. Isto +dizer que a distinco psychiatrica das psychonevroses e das +degenerescencias no tem nada de absoluta, desde que, em vez de +considerarmos os casos extremos das duas escalas, fixamos os mais +proximos. + +Dizer com Magnan que o _atavismo_ no implica degenerescencia, porque um +typo regressivo seria _normal_, emquanto que um degenerado um +_doente_, que o primeiro, entregue a si, caminharia para diante, como +fizeram os o contemporaneos da poca por elle representada, ao passo que +o segundo marcharia para a extinco pela infecundidade, commetter um +duplo erro: no comprehender que o atavismo humano sempre parcial e +incompleto, consistindo na revivescencia _d'algumas_ qualidades +ancestraes, e no reconhecer que a regenerao aos degenerados +superiores se torna, em certas condies, possivel. Pois acaso fatal +que a descendencia de um phobico ou de um impulsivo, que so para Magnan +incontestaveis degenerados, venha a liquidar pela idiotia esteril? + +E esse phobico e esse impulsivo no so, pelo facto mesmo do seu +_terror_ e do seu _automatismo_ indisciplinado, exemplares de atavismo +parcial? + +Comprehende-se que, a no fazermos um livro do que deve ser apenas um +final capitulo d'este _Ensaio_, nos cumpre suspender consideraes, que +o assumpto comporta, mas que se no prendem immediatamente com o nosso +thema. O que acabamos de dizer sobre as degenerescencia em geral, +conjugando-se com o que foi dito sobre o atavismo intellectual dos +delirantes systematisados, justifica largamente a concluso de que a +Paranoia uma degenerescencia. + + + + +BIBLIOGRAPHIA + + +TRABALHOS FRANCEZES: + + +FOVILLE--_La folie avec prdominence du dlire des grandeurs_; + +GARNIER--_Des ides de grandeur dans le dlire de perscutions_; + +GRENTE--_Du dlire chronique_; + +KRAVAL--_Des dlires plus on moins coherents designs sons le nom de +Paranoia_ (Archives de Neurologie, vol. XXIX); + +LEGRAIN--_Du dlire chez les dgnrs_; + +LASGUE--_Le dlire de perscutions_; + +MAGNAN--_Le dlire chronique evolution systematique_; + +MAGNAN--_Leons cliniques sur les maladies mentales_; + +MAGNAN ET LEGRAIN--_Les dgnrs_; + +RGIS--_Manuel pratique de mdecine mentale_; + +SGLAS--_La Paranoia_ (Archives de Neurologie, vol. XIII). + + + +TRABALHOS ALLEMES: + + +CRAMER--_Abgrenzung und Differencial Diagnose der Paranoia_ (Allg. +Zeitschr. f. Psychiatrie, vol. II); + +FRITSCH--_Die Verwirrtheit_ (Jahbcher f. Psych., vol. II); + +KRAFFT-EBING--_Lehrbuch der Psychiatrie_; + +KRAEPELIN--_Compendium der Psychiatrie_; + +MEYNERT--_Klinische Vorlesngen ber die Psychiatrie_; + +MENDEL--_Paranoia_ (Real Encyclopedie); + +MERKLIN--_Studien ber die primre Verrcktheit_; + +SCHLE--_Klinische Psychiatrie_; + +SALGO--_Compendium der Psychiatrie_ + +WERNER--_Die Paranoia_. + + + +TRABALHOS ITALIANOS: + + + +AMADEI E TONNINI--_La Paranoia e la sue forme_ (Archivio italiano per le +malattie nervose, 83-84); + +BUCCOLA--_Sui delirii sistematisati_ (Rivista di Freniatria, vol. VIII); + +TANZI--_La Paranoia_ (Rivista di Freniatria, vol. x); + +TANZI E RIVA--_La Paranoia_ (Rivista di Freniatria, vol. X, XI e XII); + +TONNINI--_La Paranoia secundaria_ (Rivista di Freniatria, vol. XIII). + + + +TRABALHOS INGLEZES E NORTE-AMERICANOS: + + +CLOUSTON--_Clinical lectures on mental diseases_; + +HAMMOND--_A Treatise on insanity_; + +HAC TUKE AND BUCKNILL--_A Manual of Psychological medicine_; + +MAUDSLEY--_Pathlogy of Mind_; + +SPITZKA--_A Manual of Insanity_. + + + + +INDICE + +PREFACIO + + + +PRIMEIRA PARTE + +HISTORIA DOS DELIRIOS SYSTEMATISADOS + + +I--PHASE INICIAL + +De Areteo a Esquirol--Confuso dos delirios systematisados com a +melancolia--A monomania intellectual e as suas frmas depressiva e +expansiva. + + +II--PHASE ANALYTICA + +De Lasgue a J. Falret e de Griesinger a Snell e Sander--O delirio de +perseguies; a megalomania; o delirio dos perseguidores; a Verrcktheit +secundaria; a Verrcktheit originaria--Comeo de interpretao +pathogenica. + + +III--PHASE SYNTHETICA + +De Morel a Magnan; de Westphal a Cramer; de Buccola a Tanzi e Riva--A +loucura hypocondriaca; o delirio chronico; a loucura parcial; a +Verrcktheit aguda e chronica; a Paranoia; a delusional +insanity--Determinao pathogenica. + + + +SEGUNDA PARTE + +EXAME CRITICO DO CONCEITO DE PARANOIA + + +I--O DELIRIO CHRONICO + +A etiologia; a marcha; o prognostico--Confronto com os delirios +polymorphos--A passagem do periodo persecutorio ao ambicioso no +vulgar; a passagem demencia excepcional--O delirante chronico um +degenerado; importante observao pessoal--A prognose dos delirios +polymorphos muitas vezes a do Delirio Chronico--Dois conceitos de +Delirio Chronico no espirito de Magnan; gnese do segundo. + + +II--A VERRCKTHEIT AGUDA + +Dois grupos de psychoses sob a mesma designao; a confuso mental e os +delirios polymorphos--A Verrcktheit e os delirios incoherentes, critica +das opinies de Schle--A Verrcktheit e os delirios systematisados de +marcha aguda; a critica das opinies de Krafft-Ebing--Observao +pessoal--Dissociao dos conceitos de Paranoia e Verrcktheit. + + +III--A VERRCKTHEIT SECUNDARIA + +Os delirios systematisados que succedem s psychonevroses; sua +interpretao pathogenica--A opinio de Tonnini; modificao introduzida +--Dissociao dos conceitos de Paranoia e Verrcktheit. + + +IV--O RACIOCINIO E OS DELIRIOS PARANOICOS + +Erros doutrinarios de Lasgue e Foville sobre a interpretao +pathogenica dos delirios systematisados; como se perpetuaram na +psychiatria francesa--A autoobservao e o raciocinio no representam um +papel na gnese dos delirios paranoicos--Depoimento dos factos--A +primitividade dos delirios paranoicos; sua origem ideativa. + + +V--AS ALLUCINAES E OS DELIRIOS PARANOICOS + +VI--AS OBSESSES E OS DELIRIOS PARANOICOS. + +VII--A PARANOIA E A DEGENERESCENCIA + +Extenso do conceito de degenerescencia; desaccordo dos auctores--Causas +de degenerescencia; opinies diversas--A degenerescencia e a observao +clinica; modo de vr de Magnan; opinio de Krafft-Ebing--Necessidade de +um ponto de vista geral; seu caracter anthropologico--A definio de +Morel; o seu defeito essencial--A noo do atavismo em psychiatria; as +idas de Magnan e a sua falta de fundamento--Ponto de vista de Tanzi e +Riva; documentos justificativos--A Paranoia uma degenerescencia. + + +BIBLIOGRAPHIA + + + +***END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A PARANOIA*** + + +******* This file should be named 14503-8.txt or 14503-8.zip ******* + + +This and all associated files of various formats will be found in: +https://www.gutenberg.org/dirs/1/4/5/0/14503 + + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. If you +do not charge anything for copies of this eBook, complying with the +rules is very easy. You may use this eBook for nearly any purpose +such as creation of derivative works, reports, performances and +research. They may be modified and printed and given away--you may do +practically ANYTHING with public domain eBooks. Redistribution is +subject to the trademark license, especially commercial +redistribution. + + + +*** START: FULL LICENSE *** + +THE FULL PROJECT GUTENBERG LICENSE +PLEASE READ THIS BEFORE YOU DISTRIBUTE OR USE THIS WORK + +To protect the Project Gutenberg-tm mission of promoting the free +distribution of electronic works, by using or distributing this work +(or any other work associated in any way with the phrase "Project +Gutenberg"), you agree to comply with all the terms of the Full Project +Gutenberg-tm License (available with this file or online at +https://gutenberg.org/license). + + +Section 1. General Terms of Use and Redistributing Project Gutenberg-tm +electronic works + +1.A. By reading or using any part of this Project Gutenberg-tm +electronic work, you indicate that you have read, understand, agree to +and accept all the terms of this license and intellectual property +(trademark/copyright) agreement. If you do not agree to abide by all +the terms of this agreement, you must cease using and return or destroy +all copies of Project Gutenberg-tm electronic works in your possession. +If you paid a fee for obtaining a copy of or access to a Project +Gutenberg-tm electronic work and you do not agree to be bound by the +terms of this agreement, you may obtain a refund from the person or +entity to whom you paid the fee as set forth in paragraph 1.E.8. + +1.B. "Project Gutenberg" is a registered trademark. It may only be +used on or associated in any way with an electronic work by people who +agree to be bound by the terms of this agreement. There are a few +things that you can do with most Project Gutenberg-tm electronic works +even without complying with the full terms of this agreement. See +paragraph 1.C below. There are a lot of things you can do with Project +Gutenberg-tm electronic works if you follow the terms of this agreement +and help preserve free future access to Project Gutenberg-tm electronic +works. See paragraph 1.E below. + +1.C. The Project Gutenberg Literary Archive Foundation ("the Foundation" +or PGLAF), owns a compilation copyright in the collection of Project +Gutenberg-tm electronic works. Nearly all the individual works in the +collection are in the public domain in the United States. If an +individual work is in the public domain in the United States and you are +located in the United States, we do not claim a right to prevent you from +copying, distributing, performing, displaying or creating derivative +works based on the work as long as all references to Project Gutenberg +are removed. Of course, we hope that you will support the Project +Gutenberg-tm mission of promoting free access to electronic works by +freely sharing Project Gutenberg-tm works in compliance with the terms of +this agreement for keeping the Project Gutenberg-tm name associated with +the work. You can easily comply with the terms of this agreement by +keeping this work in the same format with its attached full Project +Gutenberg-tm License when you share it without charge with others. + +1.D. The copyright laws of the place where you are located also govern +what you can do with this work. Copyright laws in most countries are in +a constant state of change. If you are outside the United States, check +the laws of your country in addition to the terms of this agreement +before downloading, copying, displaying, performing, distributing or +creating derivative works based on this work or any other Project +Gutenberg-tm work. 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If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is derived +from the public domain (does not contain a notice indicating that it is +posted with permission of the copyright holder), the work can be copied +and distributed to anyone in the United States without paying any fees +or charges. If you are redistributing or providing access to a work +with the phrase "Project Gutenberg" associated with or appearing on the +work, you must comply either with the requirements of paragraphs 1.E.1 +through 1.E.7 or obtain permission for the use of the work and the +Project Gutenberg-tm trademark as set forth in paragraphs 1.E.8 or +1.E.9. + +1.E.3. If an individual Project Gutenberg-tm electronic work is posted +with the permission of the copyright holder, your use and distribution +must comply with both paragraphs 1.E.1 through 1.E.7 and any additional +terms imposed by the copyright holder. Additional terms will be linked +to the Project Gutenberg-tm License for all works posted with the +permission of the copyright holder found at the beginning of this work. + +1.E.4. Do not unlink or detach or remove the full Project Gutenberg-tm +License terms from this work, or any files containing a part of this +work or any other work associated with Project Gutenberg-tm. + +1.E.5. Do not copy, display, perform, distribute or redistribute this +electronic work, or any part of this electronic work, without +prominently displaying the sentence set forth in paragraph 1.E.1 with +active links or immediate access to the full terms of the Project +Gutenberg-tm License. + +1.E.6. You may convert to and distribute this work in any binary, +compressed, marked up, nonproprietary or proprietary form, including any +word processing or hypertext form. 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INDEMNITY - You agree to indemnify and hold the Foundation, the +trademark owner, any agent or employee of the Foundation, anyone +providing copies of Project Gutenberg-tm electronic works in accordance +with this agreement, and any volunteers associated with the production, +promotion and distribution of Project Gutenberg-tm electronic works, +harmless from all liability, costs and expenses, including legal fees, +that arise directly or indirectly from any of the following which you do +or cause to occur: (a) distribution of this or any Project Gutenberg-tm +work, (b) alteration, modification, or additions or deletions to any +Project Gutenberg-tm work, and (c) any Defect you cause. + + +Section 2. Information about the Mission of Project Gutenberg-tm + +Project Gutenberg-tm is synonymous with the free distribution of +electronic works in formats readable by the widest variety of computers +including obsolete, old, middle-aged and new computers. It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.gutenberg.org/fundraising/pglaf. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. 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