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diff --git a/.gitattributes b/.gitattributes new file mode 100644 index 0000000..6833f05 --- /dev/null +++ b/.gitattributes @@ -0,0 +1,3 @@ +* text=auto +*.txt text +*.md text diff --git a/11299-0.txt b/11299-0.txt new file mode 100644 index 0000000..057e2f7 --- /dev/null +++ b/11299-0.txt @@ -0,0 +1,1425 @@ +*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 11299 *** + +THEOPHILO BRAGA. + + +O Cancioneiro portuguez da Vaticana +e suas relações com outros Cancioneiros dos seculos XIII e XIV. + +(Zeitschrift für Romanische Philologie, 1877) + + + +O apparecimento do Cancioneiro portuguez da Bibliotheca do Vaticano, +que encerra quasi toda a poesia lyrica do fim da edade media em +Portugal, veiu mais uma vez provar a superioridade da iniciativa +individual sobre a estabilidade inerte das instituições collectivas +que apenas apresentam o vigor do prestigio official; desde 1847 que a +Academia real das Sciencias de Lisboa deixava jazer no pó do archivo +de Roma este importante documento nacional, e foram sempre ficticios +os esforços para obter uma copia d'elle, que de ha muito devera ter +sido reproduzida no corpo dos _Scriptores_, que forma uma das partes +dos _Portugaliae Monumenta historica_. No emtanto, no estrangeiro o +interesse scientifico muitas vezes se havia occupado do passado +historico de Portugal, e foi a esta corrente que obedeceu o illustre +philologo romanista Ernesto Monaci coadjuvado pelo activo e +intelligente editor Max Niemeyer, restituindo a este paiz o texto +diplomatico do mais precioso dos seus documentos litterarios. Ao +terminar do modo mais consciensioso a sua empreza, escreve Monaci: +"voglia il cielo che tornato il libro in Portogallo, diventi presto +oggetto di studj novelli. È solo nella fonte delle tradizioni patrie +che lo spirito di una nazione si ringagliardisce." (Canz. port., p. +XVIII.) Infelizmente na litteratura portugueza ainda se não +comprehendeu esta verdade salutar, e por isso o talento desbarata-se +em architectar phantasmagorias de cerebros doentes ou em fazer +traducções de romances dissolutos. Acceitando a responsabilidade das +palavras do editor do Cancioneiro da Vaticana dirigidas a esta nação, +cabia primeiro do que a todos á Academia real das Sciencias de Lisboa +responder pela seguinte forma: + +1°. Publicar o texto critico e litterario restituido sobre a lição +diplomatica em grande parte illegivel fóra de Portugal. + +2°. Acompanhar esse texto com todos os dados bibliographicos de que se +possa alcançar noticia, para sobre elles basear a historia externa da +formação do Cancioneiro. + +3°. Acompanhal-o de um bom glossario das palavras empregadas na dicção +provençalesca da poesia palaciana. + +4°. Por ultimo organisar um vasto quadro da historia litteraria de +Portugal no periodo dos nossos trovadores, deduzido dos abundantes +factos historicos que fornece o Cancioneiro da Vaticana. + +É para isto que existem as Academias nos paizes civilisados, que os +governos as subsidiam, e que os seus membros têm o fôro de sabios. Em +quanto a Academia real das Sciencias de Lisboa não cumpre este seu +dever, cumpre-nos dar uma noticia d'este Cancioneiro, longos seculos +perdido pelas bibliothecas estrangeiras. + +N'este codice se encontram as nossas origens litterarias, e as +relações intimas que filiam a litteratura portugueza no grupo das +litteraturas romanicas da edade media da Europa; aqui se acham +representadas as duas correntes da inspiração popular e palaciana ou +erudita, bem como os costumes intimos de uma sociedade que nos é +desconhecida, mas d'onde proviemos; os successos historicos aí têm a +sua nota accentuada; os nomes que figuram nas lendas genealogicas e +nos feitos de armas no periodo da constituição da nossa nacionalidade +aí se encontram assignando os mais saborosos cantares consagrados ás +damas da côrte, que serviam. Finalmente, ali está o documento mais +vasto em que a lingua portugueza se manifesta no seu esforço para de +inconsistente dialecto romanico se tornar uma lingua escripta com uma +grammatica fixa. Um livro assim, onde se acha representado o melhor da +nossa antiga poesia durante os seculos XIII e XIV, é a joia de uma +bibliotheca. Como nos mostraremos gratos ao estrangeiro que assim vem +augmentar os nossos thezouros historicos e restituir-nos o fio perdido +da nossa tradição nacional? Estudando-o. + +A primeira questão que o Cancioneiro portuguez do Vaticano sugere é +determinar as suas relações com os antigos cancioneiros provençaes +portuguezes em grande parte perdidos; esta circumstancia complica o +problema critico, e por isso importa bem determinar aproximadamente o +numero d'essos cancioneiros para se fazer o processo de filiação. Tal +é o intuito d'este nosso primeiro estudo, bastante restricto, por que +determinar o valor historico do Cancioneiro pelas correntes +litterarias n'elle representadas, pela allusão aos grandes successos, +pelo uso de dadas formas poeticas, pelas personalidades dos principaes +trovadores e pelo estado da lingua portugueza, é uma exploração de tal +forma vasta, que qualquer d'estas questões excede as proporções de uma +noticia. Começamos pela critica externa do Cancioneiro, enumerando +todos os cancioneiros portuguezes dos seculos XIII e XIV que +contribuiram para a sua formação, procurando ao mesmo tempo o nexo que +existiria entre elles, e pelas divergencias de texto quaes as +collecções que se perderam sem chegarem a ser conhecidas. + + + + +1. O Livro das Cantigas do Conde de Barcellos. + + +No testamento do Conde D. Pedro, feito em Lalim em 30 de Março de +1350, se lê esta clausula: "Item, mando o meu _Livro das Cantigas_ a +el rei de Castella". Interpretando esta clausula, Varnhagem quiz por +ella attribuir o Cancioneiro da Ajuda ao Conde de Barcellos, +imprimindo-o em 1849 n'esse presupposto, com o titulo de _Trovas e +Cantares... ou antes mui provavelmente o Livro das Cantigas do Conde +de Barcellos_. Esta hypothese cedo caiu diante da evidencia dos +factos; mas além d'este primeiro erro, existe n'esta affirmacão um +outro, que é o julgar o _Livro das Cantigas_ formado de canções +unicamente compostas pelo Conde de Barcellos. Era antigamente vulgar +terem os principes cancioneiro seu, como objecto sumptuario, isto é, +uma collecção contendo as melhores poesias de seu tempo; sabendo-se a +tendencia compiladora e erudita do Conde Dom Pedro, e a sua amisade +com a aristocracia portugueza e gallega por causa do seu _Nobiliario_, +é mais no espirito da historia litteraria a hypothese, que o _Livro +das Cantigas_ era seu pelo facto material da propriedade ou da +colleccionação, e que este titulo designa um cancioneiro contendo +composições de diversos trovadores. Vamos fundamentar esta hypothese: +Primeiramente, o Conde D. Pedro, pelas canções que d'elle restam na +collecção do Vaticano, era um mediocre trovador, e d'elle diz Affonso +XI, a quem elle deixara em testamento _o seu Livro das Cantigas:_ + + Pois se de quant'el tem errado + _serve Dom Pedro_, nem lhi dá em grado. + +Alludia á inferioridade das canções de Bernal de Bonaval, que serviam +ao gosto do Conde Dom Pedro. Em segundo logar, pelo Nobiliario se vê +quanto o Conde era versado nas tradições bretans que adoptava como +factos historicos; e no indice do Cancioneiro de Angelo Colocci se +acham enumeradas como começo d'esse codice: "1. Elis o baço, duque de +Sansonha, quando passou na Gram Bretanha, qual ora chamam Ingraterra, +al tempo del Rey Arthur ad combater com Tristano por que lhi avia +occiso o padre em uma batalha. E andando um dia em sa busca foi por +Giososa Guarda ú era a reyna Isouda de Corualha, e enamorou-se ali +elle, e fez por ella aquesta lais, o qual lais poemos aqui, porque era +o melhor que fora feito.--2. Quatro donzellas, a Morouet de Irlanda, +al tempo del rei Arthur.--3. Dom Tristan enamorado.--4. Dom +Tristan.--5. D. Tristam para Genebra". + +Por este conteúdo do começo do Cancioneiro que pertenceu a Colocci, e +por que no codice da Vaticana mais de uma vez se citam as formas +poeticas bretãs dos _lais_, podemos concluir que esses cinco Lais +pertenceriam ao _Livro das Cantigas_, o qual foi encorporado em uma +grande collecção formando talvez a parte que vae até as canções de +el-rei D. Diniz que eram tambem um cancioneiro avulso. Por este mesmo +codice de Angelo Colocci, de que resta o indice, achamos que antes da +parte que constitue a colecção de el-rei D. Diniz, estavam colligidas +varias canções de Dom Affonso Sanches, bastardo do rei, as canções de +Dom Affonso rei de Leão, as de D. Affonso XI de Castella, e depois +d'estar as do proprio Conde de Barcellos, que são ao todo nove, e +tambem as de seu irmão el rei D. Affonso IV. Não era qualquer +compilador ocioso que poderia satisfazer a sua curiosidade obtendo +d'estes principes e monarchas as canções mais ou menos pessoaes; o +Conde de Barcellos estava em uma posição especial, sabia metrificar, +era estimado na côrte de D. Diniz e na de Affonso XI, e tendo passado +algum tempo em Hesphanha de lá podia trazer canções de varios +trovadores que nunca estiveram em Portugal. Por tanto o seu _Livro das +Cantigas_ fôra formado n'estas condições particulares, e o apreço que +se lhe ligava é que o fez com que o deixasse em testamento ao elegante +trovador Affonso XI de Castella. A posse de um livro de cantigas era +quasi um titulo nobiliarchico; na canção 76 da Vaticana, feita á +maneira de sirvente por Affonso XI contra o Dayão de Calez, diz que +elle tinha um _Livro de Sons_, por meio do qual seduzia todas as +mulheres. Foi tambem pelo seu gosto pela poesia provençalesca que o +Conde de Barcellos manteve a sympathia de D. Affonso IV, filho +legitimo de D. Diniz, e por isso em uma canção de louvor é chamado o +_rimante d'el-Rei_. Por tudo isto é mais crível que o _Livro das +Cantigas_ do Conde fosse o primeiro nucleo com que se formou por +juxta-posição o grande cancioneiro portuguez, do qual um dos +apographos é o codice da Vaticana; dizemos por juxta-posição, por que +se lhe segue o de el-rei Dom Diniz, e porque muitas canções de codice +de Roma se acham aí mesmo repetidas, indicação inevitavel de terem +sido colligidas de fontes diversas. Quando o Conde Dom Pedro falleceu +já era morto Affonso XI, e isto explica como poderia extraviar-se em +Castella esse _Livro das Cantigas_, e como Pero Gonçalves de Mendoza +viria a obter a copia que se guardava em um grande volume em casa de +D. Mecia de Cisneros, e pela primeira vez citada por seu neto, o +Marquez de Santillana. + + + +2. Livro das Trovas de El-rei Dom Diniz + +O corpo das canções de el-rei Dom Diniz occupava uma grande parte do +codice de Dona Mecia de Cisneros; occupava tambem uma parte importante +no apographo de Colocci, bem como no codice da Vaticana. O modo como +esta grande quantidade de canções de el-rei Dom Diniz entrou em uma +vasta compilação explica-se naturalmente, por isso que pelo catalogo +dos livros de uso de el rei Dom Duarte acha-se citado o _Livro das +Trovas de el-rei Dom Diniz_, do qual se pode inferir terem existido +varias copias, por que o numero das canções varia entre as enumeradas +no indice de Colocci e as contidas no codice da Vaticana, contando +este ultimo cincoenta e uma canções a mais. Alem d'isso, na parte do +codice que encerra as canções de D. Diniz, a canção 116 acha-se +repetida outra vez sob o numero 174 com variantes e differente +disposição de estrophes, o que denota que essa parte foi compilada de +copias secundarias, mas classificadas, como vemos pelo titulo das +_Cantigas de Amigo_ dado a um certo genero de canções, especialmente +de imitação popular. É provavel que os autographos que serviam para os +traslados nitidos dos amanuenses fossem por vezes aproveitados por +outros compiladores; de el-rei Dom Diniz andava tambem um codice +poetico em poder dos Freires de Christo de Christo de Thomar. Os +muitos jograes da Galiza, de Castella e de Leão, que frequentavam a +côrte de Dom Diniz, tambem colligiriam esses corpos de canções de +_Serranilha_ e de _Mal-dizer_ que os privados dos monarchas trovaram, +e que elles decoravam para cantarem de officio. Os jograes formaram +collecções dos melhores cantares para recitarem ou acompanharem á +citola, pelo que recebiam dinheiro; o costume de ter jograes de +_Segrel_ ao serviço da casa real levava tambem a formar estes pequenos +cancioneiros escolhidos. + + +3. O Cancioneiro da Ajuda (ou do Collegio dos Nobres). + +O facto de se encontrarem _cincoenta e seis_ canções communs ao Codice +da Ajuda e ao da Vaticana, torna indispensavel o resumir aqui o que se +sabe da historia externa do Cancioneiro da Ajuda. As suas folhas são +de pergaminho, a duas columnas, com pauta para a musica das canções +que se deveria escrever em seguida, e com varias vinhetas separando os +diversos grupos de canções de cada trovador e com letras historiadas. +O cancioneiro está truncado, pois que começa na folha 41, e não existe +o final, não só por incuria dos possuidores, que o baralharam +encadernando-o tumultuariamente com o Nobiliario, grudando algumas +folhas ás capas, mas tambem por que o estado da copia, sem assignatura +ou designação dos trovadores, letras historiadas incompletas, e falta +de notação musical, nos revelam que o codice não foi dado por acabado. +Esta collecção começou-se ainda no reinado de D. Diniz, por que +juntando-se as folhas lê-se escripto no córte d'ellas: _Rei Dom +Diniz_, e d'isto tambem se pode deduzir, que se não perderam muitas +folhas do principio e do fim. D'este codice foram encontradas mais 24 +folhas avulsas na Bibliotheca de Evora, e é tradição corrente que na +de Coimbra existiam algumas outras tambem. + +A inspecção do Codice da Ajuda, confrontado com outros Codices +europeus, mostra-nos que elle pertencia indubitavelmente a diversos +trovadores; Varnhagem notou que existiam dezaseis vinhetas +imperfeitamente coloridas, que estão desenhadas junto ás canções 2, +36, 37, 149, 157, 170, 173, 184, 190, 231, 233, 249, 253, 255, 259 e +fragmento _h_. (Notas ás _Trovas e Cantares_, p. 348.) + +Alem d'este vestigio paleographico, o confronto com o Codice da +Vaticana levou a achar os seguintes trovadores, communs aos dois +Cancioneiros: Pero Barroso, Affonso Lopes Baião, Mem Rodrigues +Tenoyro, João de Guilhade Estevam Froyam, João Vasques, Fernão Velho, +Ayres Vaz, D. João de Aboim, Pero Gomes Charrinho, Ruy Fernandes, +Fernam Padrom, Pero da Ponte, Vasco Rodrigo de Calvelo, Pero Solaz, +Pero d'Armêa, e João de Gaia. Todos estes nomes são de fidalgos +grandes privados de el-rei D. Diniz, e alguns já figuram em doações de +D. Affonso III, como D. João de Aboim e Affonso Lopes Baião; Mem +Rodrigues Tenoyro vivia na côrte de D. Affonso IV, e foi entregue a +Pedro cruel em troca dos assassinos de Inez de Castro.[1] A parte não +assignada e que não se encontra no Cancioneiro da Vaticana será por +ventura o corpo das canções escriptas durante o tempo em que a côrte +de D. Affonso III esteve fixa em Santarem. Alem d'isso a parte commum +tem a particularidade de conservar a mesma ordem nas canções, e ao +mesmo tempo as variantes mais fundamentaes n'essas lições. D'aqui se +conclue, que já existia um Cancioneiro formado, d'onde este da Ajuda +estava sendo trasladado, mas que d'esse cancioneiro existiam +differentes copias formadas, não directamente sobre elle, mas por meio +dos cancioneiros particulares que o constituiram. A parte não commum +ao codice de Roma, prova nos tambem que alguns d'esses cancioneiros +parciaes se perderam, ou eram já tão raros que não chegaram a ser +encorporados na collecção. Admittida a hypothese de que o Cancioneiro +da Ajuda, pelo facto de ter pertencido a el-rei D. Diniz e de andar +encadernado junto do Nobiliario do Conde D. Pedro, fosse o proprio +_Livro das Cantigas_, como primeiro quiz Varnhagem, o facto de +apparecerem aí outros trovadores prova-nos a nossa hypothese, que o +Conde D. Pedro compilara sob esse titulo as canções dos trovadores +seus contemporaneos. O numero de vinhetas imperfeitamente coloridas do +cancioneiro da Ajuda são dezaseis; isto leva a inferir que esse codice +era formado de dezeseis corpos de canções que pertenciam a dezassete +trovadores. De facto a coincidencia aqui é pasmosa: o numero dos +trovadores communs ao Cancioneiro da Ajuda e da Vaticana é de +dezesete! Note-se que este numero é o que se perfaz com os nomes de +_Fernam Padrom, João de Gaya, e Pero d'Armêa_, que achámos alem +d'aquelles que primeiro descobriu Varnhagem. D'este numero se tira a +conclusão que o Cancioneiro da Ajuda pertence exclusivamente a esses +dezessete trovadores, e que as cincoenta e seis canções communs ao +Codice da Ajuda eram as que andavam por cancioneiros parciaes, como as +mais conhecidas, e pelas variantes que appresentam, as mais repetidas. +Alem d'isso, pode suppor-se que o Cancioneiro da Ajuda não foi +acabado, por que o estylo _limosino_ em que está escripto, passou de +moda, preferindo-se os _Cantares d'amigo_, as _serranilhas_, as +_pastorellas_, os _lais_ e as _sirventes_, mudança de gosto +proveniente da grande affluencia de jograes gallegos, leonezes e +castelhanos á côrte de Dom Diniz; e sob o gosto da côrte de Dom +Affonso IV prevaleceram tambem as canções e musicas bretans, cuja +corrente parece ainda reflectida no Cancioneiro da Ajuda, em um +remotissimo vestigio, no fragmento de canção em que se lê a palavra +_guarvaya_, com que o trovador allude aos seus infelices amores. Nas +_Leges Wallice_, XXIII, I, encontra-se o dom das nupcias, _kyvarus_, +que se pagava ao cantor da côrte: "Penkered (musicus primarius) debet +habere mercedes de filiabus poetarum sibi subditorum; habebit quoque +munera nuptiarum, id est _kyvarus neythans_, á feminibus nuper datis, +scilicet XXIIIIor denarios."[2] A connexão historica e a interpretação +litteral mostram que a _guarvaya_ do trovador portuguez é o mesmo +facto ou costume bretão _kyvarus_; a verificação pelos processos da +alteração phonetica pertence para outro logar. Em todo o caso este +vestigio é um dos nexos mais intimos que se pode achar com o codice +perdido de Colocci, em que estavam já colligidos alguns _lais_ +bretãos. + +A musica do Cancioneiro da Ajuda tambem foi abandonada, por que foram +substituidos nos costumes outros instrumentos e outras tonadilhas; no +poema francez de Bertrand Du Guesclin, fala-se de cantores bretãos na +côrte de D. Pedro I de Portugal. Foi já n'esta nova corrente poetica e +com o fervor que ella despertara que se começou a formar o vasto +cancioneiro, de cuja existencia se sabe por quatro apographos. Crêmos +que o compilador que trasladou ou organisou o texto authentico d'onde +saíu o apographo do Vaticano, não soube da existencia do Cancioneiro +da Ajuda, apezar das cincoenta e seis canções communs a ambos. Este +facto será mais amplamente explicado. + + + + +4. O Cancioneiro de Dona Mecia de Cisneros. + + +Na sua _Carta ao Condestavel de Portugal_, escripta antes de 1449, o +Marquez de Santillana, no § XV, diz que se recordava de ter visto, +quando era bastante menino, em poder de sua avó Dona Mecia de +Cisneros, entre outros livros, um grande volume de cantigas.... O +Marquez de Santillana nasceu em 1398, e sua avó Dona Mecia, na +companhia da qual passou a sua infancia, morreu em Dezembro de 1418, +em Palencia. Em primeiro logar "o _grande volume de Cantigas_, e +_outros livros_" citados na carta, existiam em casa de D. Mecia de +Cisneros por que provinham de Garcilasso de la Vega, e de Pero +Gonzales de Mendoza, como claramente o affirma Amador de los Rios: +"passo su infancia en casa Doña Mencia de Cisneros, su abuela, donde +hubo de aficionar-se à la lectura de los poetas en los codices que +poseyeron Garcilasso de de la Vega y Pero Gonzales de Mendoza..."[3] +Garcilasso de la Vega, bisavó do Marquez, morrera em 1351, e esta +data, e as suas relações de parentesco com a aristocracia portugueza +explicam como a elle ou a Pedro Gonzales de Mendoza chegou o volume +das cantigas. Portanto esse grande cancioneiro não existia em Hespanha +antes poucos annos de 1351 e foi pouco antes de 1418 que o joven +Marquez de Santillana o consultou. Pedro Gonzales de Mendoza era +tambem poeta do côrte de Don Pedro e de Don Enrique (Amador de los +Rios, _op.cit._, p. 623), e isto mostra o interesse que o levaria pelo +seu lado a conservar o grande cancioneiro portuguez. + +A descripção que faz o Marquez de Santillana d'esse codice, coincide +com o que existe na Bibliotheca do Vaticano em copia do seculo XVI: +_"un grande volume de Cantigas serranas e dizeres portuguezes e +gallegos"_. São ao todo mil duzentas e cinco cantigas compostas no +genero descripto por Santillana, e os poetas são em grande numero +galegos. Em seguida accrescenta: _"dos quaes a maior parte eram do rei +D. Diniz de Portugal"_. Effectivamente o trovador que mais canções +appresenta no codice da Vatícana é el-rei D. Diniz, cujas composições +estão compiladas entre o numero 80 e 208, sendo ao todo cento e vinte +nove. Accrescenta mais o Marquez de Santillana: _"cujas obras aquelles +que as liam, louvavam de invenções subtis, e de graciosas e doces +palavras"_. Esta affirmação, sobendo-se que o Marquez escreve sobre +uma recordação da sua infancia, não podia resultar se não dos gabos +ouvidos a Pero Gonzales de Mendoza, poeta do Cancioneiro de Baena, +gabos que fizeram com que o livro se conservasse em casa de D. Mecia +de Cisneros, e d'onde se tirara por ventura essa outra copia que hóje +existe em poder de um grande de Hespanha, segundo uma affirmação de +Varnhagem. N'esta mesma carta ao Condestavel de Portugal, allude o +Marquez aos talentos poeticos de seu avô e cita varias das suas +composições: _"E Pero Gonzales de Mendoza, meu avô, fez boas +canções"_. Crêmos que por esta via é que o cancioneiro foi copiado +para Castella, copiado dizemos nós porque se conforma com um grande +cancioneiro já organisado, de que o de Roma é um apographo terciario. +O Marquez de Santillana cita de memoria os principaes trovadores que +vira transcriptos n'essa vasta collecção: "Havia outras (sc. canções) +de _Joham Soares de Paiva_, o qual se diz que morrera em Galiza por +amores de uma infanta de Portugal; e de outro _Ferrant Gonçalves de +Senabria"_. Pela referencia a estes dois trovadores se vê qual o +estado do cancioneiro manuscripto ou volume de Cantigas de D. Mecia de +Cisneros. No apographo da Vaticana se acha uma canção de _João Soares +de Paiva_, quasi no fim da collecção, (n°. 937) ao passo que no +cancioneiro que pertenceu a Colocci e de que apenas resta o indice dos +trovadores (cod. vat. n°. 3217) se acha logo sob o numero 23 o nome de +_João Soares de Paiva_ com sete canções successivas. Em seguida a este +trovador cita _Ferrant Gonçalves de Senabria_, porem no Codice de +Colocci acha-se sob o numero 384 citado _Gonçalves de Seaura_ com dez +canções a seguir. Isto concorda com a phrase do Marquez, referindo-se +a essas canções: "Havia outras....." O motivo d'esta referencia +especial seria por ter este trovador o apellido de _Gonçalves_, de seu +avô, e por isso ainda pertencente á sua linhagem. No Codice da +Vaticana agora publicado, acha-se um fragmento de canções de _Fernão +Gonçalvis_, e só sob o numero 338 outra canção de _Fernão Gonçalves de +Seavra_, a qual corresponde segundo Monaci ao numero 737 do Codice +perdido de Colocci. + +Portanto, o Cancioneiro de D. Mecia de Cisneros era completo pelo que +se deduz da citação d'estes dois trovadores, cujas obras se achavam +antes da folha 42 do actual Codice Vaticano, na qual começa. No +Cancioneiro de Colocci, em vez de _cento e vinte nove_ canções, el-rei +Dom Diniz é representado com _setenta e outo;_ mas ainda assim era uma +grande collecção para o Marquez poder dizer d'ella em relação ao +volume das Cantigas _uma maior parte_. Em seguida a estas preciosas +referencias cita tambem na sua carta _Vasco Peres de Camões_, poeta do +Cancioneiro de Baena e contemporaneo de Pedro Gonçalves de Mendoza por +cuja via seria conhecido em casa de Dona Mecia de Cisneros, e pelos +eruditos que tinham o cuidado da educação do Marquez. Por ultimo, +infere-se que o Codice de D. Mecia era uma copia castelhana, por que +transcreve o nome de _Fernão_ em _Ferrant_, e o de _Seavra_ em +_Senabria_, o que se não pode attribuir a vicio de ortographia do +Marquez de Santillana. Estes topicos bastam para considerar a copia de +D. Mecia mais proxima do texto autographo do que a da Vaticana. + + + + +5. Cancioneiro de Angelo Colocci. (_Catalogo di Autori portoghesi +compilato da Angelo Colocci sopra un antico Canzoniere oggi ignoto._ +Ms. 3217 da Bibl. Vat.) + + +O illustre editor Ernesto Monaci ao estudar o manuscripto do +Cancioneiro da Bibliotheca do Vaticano, n°. 4803, pelas referencias do +texto e paginação de um outro codice ali intercalladas, reconheceu que +deveriam ter existido duas fontes para este apographo. Nas suas +investigações na opulenta Bibliotheca do Vaticano teve a felicidade de +descobrir o Catalogo dos Trovadores portuguezes no manuscripto 3217, o +qual combina na maior parte com o dos Trovadores do Cancioneiro n°. +4803, sendo as emendas d'este ultimo codice da mesma letra do indice +escripto pelo philologo Angelo Colocci, erudito italiano do seculo +XVI. É certo que o Cancioneiro da Vaticana pertenceu primeiramente a +Colocci antes de vir a ser propriedade da Bibliotheca vaticana; +Colocci era um d'esses distinctos eruditos italianos do fim do seculo +XV, que colligiram manuscriptos de todos os paizes e cuja opulencia se +distinguia pela formação de ricas livrarias, taes como Leão X, Bembo, +Orsini, e outros tantos. Colocci morreu em 1549, tendo a sua livraria +soffrido bastante no saque de Roma pelo Condestavel de Bourbon em +1527. Por tanto, entre estas duas datas é que se teria perdido esse +grande cancioneiro, do qual apenas resta o _Catalogo dos Autores +portuguezes_, e que a Bibliotheca do Vaticano adquirira o cancioneiro +n°. 4803, apographo de um outro perdido, mas emendado pela mão de +Colocci sobre o exemplar hoje representado unicamente pelo indice. + +Antes de examinar qual a riqueza da Livraria de Colocci em +manuscriptos portuguezes, surge a questão mais difficil de resolver: +Como vieram estes varios cancioneiros portuguezes para as Livrarias +italianas? + +Sabe-se que os pontifices mais instruidos mandavam procurar em todos +os paizes os mais preciosos manuscriptos; de Leão X escreve Ginguené: +"Não poupava despezas nem rodeios junto das potencias estrangeiras +para fazer procurar nos paizes mais remotos e até nos estados do norte +_livros antigos ainda ineditos_."[4] O modo como estes rodeios eram +efficazes, explica-se pela prohibição de certos livros e pela +instituição da censura, que já no século XV se exercia em Hespanha e +em Portugal, como vêmos pelo _Leal Conselheiro_ de El-rei D. Duarte. +Os livros eram entregues á auctoridade ecclesiastica para serem +examinados, e sob qualquer pretexto de escrupulo não eram mais +restituidos. Basta vêr a quantidade de canções obscenas e irreligiosas +que o Cancioneiro portuguez da Vaticana encerra para se conhecer como +veiu a caír na mão da auctoridade ecclesiastica e como sob ordem +superior esse _livro antigo ainda inedito_ foi remettido para Roma. +Alem d'isto, a paixão pela Renascença da antiguidade, que começou no +seculo XV, fez com que nos diversos paizes decaísse repentinamente o +amor pelos seu monumentos nacionaes. D'esta falta de amor pelo proprio +passado proveiu para Portugal a perda de muitos manuscriptos, como o +da novella _Amadis de Gaula_, de muitos cancioneiros manuaes, como +relata Faria e Sousa, pelo que dizia o Dr. João de Barros no principio +do seculo XVI, que estas cousas se secavam nas nossas mãos. D'esta +falta de estima pelos monumentos nacionaes, veiu o dispersarem-se +pelas bibliothecas da Europa muitos thezouros da nossa litteratura, +como se prova pela existencia da _Demanda do santo Greal_ na +bibliotheca de Vienna, dos livros de Valentim Fernandes na bibliotheca +de Munich, do _Leal Conselheiro_ de D. Duarte, _Chronica de Guivé_ de +Azurara, e _Historia geral de Hespanha_ na bibliotheca de Paris, do +_Roteiro_ de D. João de Castro no Museu britanico, e do _Cancioneiro +do Conde de Marialva_, da _Satyra de infelice vida_ do Condestavel de +Portugal em Madrid. A saida do grande Cancioneiro de Portugal pertence +a esta forte corrente de dispersão. No fim do seculo XV alguns +portuguezes eruditos se distinguiam na Europa pelas suas riquezas +litterarias; em uma _Memória sobre as relações que existiam +antigamente entre os flamengos de Flandres, especialmente os de Bruges +e os Portuguezes_, cita-se: "João Vasques, natural de Portugal, +mordomo de D. Isabel de Portugal, Duqueza de Borgonha:--Vasques +possuía uma Bibliotheca, ou pelo menos diversos manuscriptos de +valor."[5] Entre esses livros figuravam _Histoire de Troie la grant_, +e alguns tinham as armas de Portugal na encadernação, como o velino +_Horae beatae Mariae Virginis_. Tambem no seculo XV figuravam no +estrangeiro os eruditos Diogo Affonso de Mangaancha, Vasco Fernandes +de Lucena, Achilles Estaço, e outros muitos amadores bibliophilos. +Cuidava-se em comprar livros impressos, por meio das Feitorias +portuguezas, mas os manuscriptos sobre tudo os da litteratura medieval +perdiam-se com a mais censuravel incuria. Sabe-se por uma carta de +João Rodrigues de Sá dirigida a Damião de Goes, que el-rei D. Affonso +V mandou vir de Italia Frei Justo, a quem fez bispo de Ceuta, com o +fim de escrever em latim a historia dos antigos reis de Portugal, e +que todos os documentos que lhe foram entregues se perderam na sua +mão, por ter repentinamente fallecido da peste. É natural que estes +subsidios historicos constassem tambem de varios cancioneiros, por que +a poesia fôra um facto importante nas côrtes de D. Affonso III, D. +Diniz e D. Affonso IV; alem d'isso o espolio d'este bispo italiano +seria arrecadado pela auctoridade ecclesiastica e remettido para Roma. +Por todos estes factos parece justificar-se a hypothese de existir na +bibliotheca do Vaticano, antes do saque de Roma em 1527, um d'esses +cancioneiros portuguezes, e que d'aí se dispersaram por essa causa: "A +bibliotheca do Vaticano, tão liberalmente enriquecida por Leão X, foi +saqueada; os livros mais preciosos foram preza de um furor ignorante e +barbaro, como os da bibliotheca dos Medicis em Florença."[6] Pelo +codice 4803, publicado por Monaci, se vê que este Cancioneiro foi +copiado de um outro cancioneiro ja bastante truncado, como observou o +critico editor pelas siglas antigas: _"Manca da fol. II infino a fol. +43"_; e na pagina 10: _"Fol. 97 desunt multa"_; e pela ultima pagina, +na qual se vê que ficou interrompida a copia. + +Alem d'esta deducção, tira-se uma outra, isto é, que o Codice 4803 foi +comparado por Colocci com um outro mais rico e completo do qual só +resta agora o _catalogo dos trovadores_. Os biographos de Colocci +tambem consignam o facto de parte da sua opulenta bibliotheca ter sido +destruida no saque de Roma, em 1527. Este philologo italiano possuia +um decidido gosto pela poesia vulgar italiana, e conhecia a +importancia do estudo das litteraturas novolatinas, como se vê pelo +interesse com que procurava as Canções de Foulques de Marseille, e +pela posse de varios codices com os titulos _Libro spagnolo di +Romanze_, e _De varie Romanze volgare_, por ventura alguns d'elles +provenientes da acquisição de manuscriptos das collecções de Bembo e +de Orsini; seria algum d'estes livros o Cancioneiro da Vaticana, ou +esse outro cancioneiro de que apenas resta o catalogo dos auctores. +N'este catalogo precioso descoberto por Monaci, sob o numero 44-- +_Bonifaz de Jenoa_ segue-se esta referencia a manuscriptos de Bembo: +_"vide bembo Ms. bonifazio Calvo de Genoa."_ E sob o numero 456--_il +Rey don Affonso de Leon_, segue-se esta nota: _"bembo, dice di Ragona, +figlio di Berenghieri."_ A variante do Codice de Bembo _di Ragona_ +seria _d'Aragone_ em vez de _Leon_, isto é, um dos codices parciaes d' +onde se formou o grande cancioneiro parece fixar-se por esta +circumstancia. Sob este mesmo numero segue-se: _"Alia lectio i +Portugal, rey Don Sancho deponit."_ Quer esta observação de Colocci +significar, que este rei D. Affonso em outro codice é citado como rey +de Portugal, o que depoz D. Sancho, facto que caracterisa el-rei Dom +Affonso III, que depoz seu irmão D. Sancho II. N'este caso este +monarcha tambem fôra trovador, o Colocci possuia algum cancioneiro +parcial. No mesmo Indice dos Trovadores, sob o numero 467 onde se +continha as canções de El-rei Dom Affonso rei de Castella e de Leão, +accrescenta-se: _"vide nel mio lemosino"_, no qual se attribuem as +mesmas cantigas de preferencia ao rei de Leão, isto é, em harmonia com +o titulo _di Ragona_, do numero 456. Em uma outra nota que o illustre +Monaci achou no Codice n°. 4817, de letra d'este erudito, se acha a +seguinte referencia a um codice portuguez: _"Messer Octaviano di +messer barbarino, ha il_ libro di portoghesi, _quel da_ Ribera _l'ha +lassato."_ Sabendo-se pela bibliographia, que o manuscripto da _Menina +e Moça_ de Bernardim Ribeiro, foi na primeira metade do seculo XVI +levado para a Italia, imprimindo-se em Ferrara em 1544, cinco annos +antes da morte de Colocci, parece que a phrase _quel_ (libro) _da +Ribera_ se refere a esta novella portugueza. Seria por este tempo que +o cancioneiro portuguez se tornou conhecido em Roma, como dá noticia +Duarte Nunes de Leão, nas palavras _"que em Roma se achou"_, mas sem +dizer que já pertencia á Bibliotheca do Vaticano. A epoca em que este +codice entrou n'esta rica bibliotheca pode fixar-se depois de anno de +1600, por que os livros e manuscriptos de Colocci foram adquiridos +pelo erudito Fulvio Orsini, que os deixou em testamento á Vaticana.[7] +Esta é a opinião de Monaci; não concordamos porém com a sua +interpretação do trecho de Duarte Nunes de Leão quando este escriptor +portuguez diz: "segundo vimos por um cancioneiro seu, que em Roma se +achou, em tempo de el-rei Dom João III..." deduzindo que Nunes de Leão +chegara _a vêr_ esse cancioneiro; em primeiro logar, Nunes de Leão +refere-se a um _Cancioneiro seu_, isto é unicamente de el-rei Dom +Diniz, e não geral, como o de que resta noticia pelo Indice de Colocci +e pelo apographo da Vaticana; isto já é uma prova da informação vaga +do chronista, e alem d'isso a phrase _segundo vimos_, significa: como +se prova, como se deduz. Nunes de Leão conhecia o codice das canções +de D. Diniz que no principio de século XVII se guardava na Torre do +Tombo, como elle diz: _"e per outro que está na Torre do Tombo..."_ ou +talvez pelo que pertencia aos Freires de Christo, de Thomar. Vivendo +no meado do seculo XVII, já o cancioneiro grande havia sido recebido +na Bibliotheca do Vaticano e poderia ter noticia da existencia do +Codice; porém o chronista refere-se principalmente a um _Cancioneiro +de Dom Diniz_, e as referencias de Sá de Miranda, de Ferreira e de +Camões são unicamente aos talentos poeticos de D. Diniz. Como chegou a +Portugal noticia do apparecimento em Roma? Sá de Miranda demorou-se na +sua viagem á Italia, entre 1521 e 1526, e conviveu com os principaes +eruditos italianos, Lactancio Tolomei e João Ruscula, e dava-se tambem +por parente da casa dos Colonas; é possível que, regressando a +Portugal en 1526, quando havia já cinco annos que D. João III reinava, +désse a noticia da descoberta de um cancioneiro em Roma, quando +visitara as principaes livrarias; o facto dos poetas da eschola +italiana alludirem ao talento poetico de D. Diniz, leva a induzir esta +noticia como communicada pelo que trouxe a Portugal esse novo gosto +litterario. + +Em 1527 foi o saque de Roma, e a livraria de Colocci tambem soffreu +com essa devastação; por ventura algum dos cancioneiros acima citados +se perdeu, ou foi talvez adquirido algum d'entre os livros roubados +por esta occasião da Vaticana. É de presumir que o _Libro di +Portoghesi_ fosse o Cancioneiro de que só resta o Indice, e sendo +assim, perder-se-hia em poder de Messer Octaviano de messer Barbarino; +se o libro _da Ribera_ é o manuscripto de Bernardim Ribeiro, impresso +mais tarde em Ferrara, então pode fixar-se a perda do Cancioneiro +n'esse mesmo anno em que morreu Colocci. O inventario dos seus livros, +feito a 27 de Outobro de 1558, nove annos depois da sua morte, +explica-nos como os livros que estavam emprestados ficaram perdidos. +Pelo Indice d'este Cancioneiro, achado por Monaci, vê-se que elle +constava de mil seiscentas e setenta e cinco canções, mais quatro +centas e setenta, omissas no apographo da Vaticana, hoje publicado. + + + + +6. Il Canzoniere portoghese della Bibliotheca Vaticana, n°. 4803. +Messo a stampa de Ernesto Monaci. Halle, 1875. + + +Desde 1847, que o brasileiro Lopes de Moura publicou em Paris um +excerpto do grande Cancioneiro portuguez da Vaticana, contendo as +canções de el-rei Dom Diniz. Como se veiu a conhecer a existencia +d'este precioso codice em Roma? Desde o principio do seculo XVII que +elle entrara na Bibliotheca do Vaticano pela doação dos livros de +Fulvio Orsini; no seculo XVIII, segundo Varnhagem, era citado por um +bibliophilo hespanhol junto com outros codices de poesias catalans e +valencianas; o facto de existir com encadernação moderna e com a +insignia papal de Pio VII (1800--1823) explica-se pela reparação e ao +mesmo tempo pelo interesse que houve em conservar o cancioneiro +formado de cadernos differentes e incompletos, e escriptos com tinta +corrosiva que o pulverisa. Wolf, por intervenção do slavista Kopitar, +mandou fazer as primeiras investigações no Vaticano para descobrir +este codice de que tinha vago conhecimento pela vaga allusão de Nunes +de Leão; foram infructuosas as tentativas; o visconde da Carreira, +embaixador em Roma, avisado por um franciscano (por ventura o P. +Roquete, como se sabe pelo prologo da edição de Moura) conseguiu a +copia da parte publicada em Paris por Aillaud. Desde 1847 até hoje, +nunca o governo portuguez, nem a Academia real das Sciencias +comprehenderam o valor d'este monumento. A reproducção das nossas +riquezas litterarias têm sido sempre feita por estrangeiros, e a +publicação d'este importantissimo cancioneiro foi agora realisada por +um rapaz desajudado de subsidios academicos, mas animado pelo amor da +sciencia. A edição feita em Halle, appresenta todo o rigor +diplomatico, de modo que os erros do copista italiano do seculo XVI +podem restituir-se á leitura do portuguez do codice primitivo; apesar +d'este subsidio, Monaci tentou com um seguro tino critico uma tabella +dos principaes erros systematicos, e um indice das necessarias +restituições que se podem fazer em cada canção; em fim, tudo quanto é +preciso para a intelligencia do texto, existe ali. Monaci conservou a +disposição do manuscripto na reproducção typographica, já a uma ou a +duas columnas, com todos os vestigios das differentes numerações e +siglas referentes a outros codices analogos e mais antigos. Pelo seu +prologo, de uma precisão rigorosa, se vê toda a historia externa do +Cancioneiro. O Codice da Vaticana está em papel de linho, com trez +marcas de agua differentes, tal como se empregava nas edições do +Varisco; a letra é italiana, tal como a dos documentos do fim do +seculo XV e principio do seculo XVI, proveniente de dois copistas, um +que escreveu as poesias, algumas rubricas e notas, outro a maior parte +dos nomes, as numerações e algumas postillas, contando ao todo 210 +folhas. Da descripção d'este cancioneiro conclue-se, pelo estado em +que se acha, que outro ou outros cancioneiros foram n'elle copiados ou +confrontados. A primeira nota que se depara ao abril-o é: "_Manca da +fol. IJ a fol. 43_;" isto quer dizer, que o cancioneiro foi copiado de +um outro codice que já se achava assim fragmentado, mas que mais tarde +foi confrontado com outro que estava completo, como veremos na relação +com o Indice de Colocci. + +Ao começar o texto acha-se outra referencia: "_A fogli 90_" e segue-se +a canção de Fernão Gonçalves, o que parece significar, que n'este +cancioneiro existia outra disposição das poesias á qual se refere este +numero, que continúa a cotar successivamente outras canções, +entremeiando-se com numeros romanos, que parecem estabelecer +referencia a outro cancioneiro. Separemos estas duas ordens de +numeros, por onde deduzimos o confronto com dois cancioneiros; para se +localisar melhor a referencia que era de folhas e verso, indicaremos a +numeração actual das canções: Fol. 91 (canc. 8), 92 (canç. 11); _Fol. +97 desunt multa_ (canç. 43 fine); junto da canção 61, vem a sigla +_Desunt_; junto da 63 vem _car_. 106; junto da canção 299: _"Fol. 141 +Al vo"_ (del volumen?); junto da canção 507 vem: "173 _a tergo"_ e +algumas canções com dois nomes de auctores, como _Martin Campina_ ou +_Pero Meogo_, como forme a attribuição de um ou outro texto (canc. +796.). Por fim termina com esta outra rubrica: _"A fol. 290 è +cominciata una Rubrica e non è finita di copiare"_. Tudo isto prova, +que se fez o confronto d'este apographo existente cum um codice mais +completo, seguindo-se o confronto até á folha 300 d'esse codice +perdido. + +O confronto do Codice por meio da numeração romana não prosegue até ao +fim; apenas se acha LXXXVJ junto da canção 4; LXXXVIIJ junto da Canção +14; LXXXVIIIJ junto da canção 26 _fine;_ XCVJ junto da canção 39 a 45; +XCVIIJ coincide com a referencia anterior, junto da canção 49; XCVIIIJ +á canção 55; CXII á 62; CXIIIJ á canção 70; CXVIJ á canção 77. Esta +numeração romana adianta-se aqui mais do que a arabe, signal de que +havia divergencia entre os dois codices que serviam para confrontação +com o apographo publicado. É certo porem, que a numeração romana +termina antes do corpo das canções de el-rei Dom Diniz, d'onde se +poderá inferir, que até esta parte contribuiu um cancioneiro parcial, +e que de Dom Diniz só entrava no que era numerado em algarismos. Que +existiam diversos cancioneiros, pelas mesmas canções d'este codice se +pode conhecer, como pela canção de D. Affonso de Castella (canç. 76) +em que allude ao _Livro dos Sons_, que era um cancioneiro com que o +Dayão de Cales seduzia as mulheres. Na sua edição Monaci deixou +apontados em um indice fundamental todas as canções repetidas no +cancioneiro, ou aquellas que mutuamente se plagiavam. Da sua +comparação se podem tirar poderosas inducções, para se estabelecer +quantos pequenos cancioneiros haviam servido para formarem o +cancioneiro grande, do qual o apographo publicado é uma copia. É o que +vamos tentar. + +_Pequenos Cancioneiros que entraram na formação do Cancioneiro da +Vaticano_.--A canção 4, de _Sancho Sanches_, apparece repetida com +mais duas estrophes e assignada por _Pero da Ponte_, sob o numero 569; +a 2ª e 3ª strophes da versão de Pero da Ponte, faltam na canção de +Sancho Sanches. As strophes communs têm as seguintes variantes: + + _Sazom foi já_, que me teve em desdem (n°. 4) + _Tal sazom foi_, que me teve em desdem (nº. 569). + + _Que com'é mais j'agora_ seu amor (n°. 4) + _Quando me mays forçava_ seu amor. (n°. 569). + + E ora _já_ que pes'a mha senhor (n°. 4) + E ora _mal_ que pes'a mha senhor (n°. 569). + +Evidentemente estas duas canções foram colligidas de dois cancioneiros +parciaes, e elles mesmos escriptos em grande parte de memoria. + +A canção 13, de Mem Rodrigues Tenoyro, têm apenas uma estrophe, mas +repete-se sob o numero 319 com o nome do mesmo trovador e com mais +duas estrophes que a completam. Deve attribuir-se essa divergencia ao +ter sido colligida de dois cancioneiros, formado por diversos +collecctores. + +A canção 29, assignada por João de Guilhade, repete-se sob o numero 38 +com o nome do trovador Stevam Froyam; existem entre ellas leves +variantes, mas como estão immensamente deturpadas, só pelos dois +textos se reconstruem. Por este facto se vê, que houve compilação de +dois cancioneiros, e que o copista mal percebia a letra e fazia +selecção das canções. + +A canção 116 e 174, do cancioneiro de Dom Diniz, são uma e mesma, +havendo entre estes dois numeros _variantes_, e sobretudo a 2ª e 3ª +estrophe alternadas. Não proviria isto dos originaes, escriptos por +esmerados copistas, que se guardaram na Bibliotheca de el-rei Dom +Duarte; este facto prova-nos, que o corpo das canções de Dom Diniz, +que na collecção Vaticana occupa dos n.'os 80 até 208 proveiu de +copias avulsas de differentes palacianos, e talvez do proprio Conde D. +Pedro. + +A canção 241, do trovador Payo Soares, apparece com o numero 413 +repetida sob o nome de Affonso Eanes de Coton (Cordu); tem apenas uma +rapida variante ortographica, mas tanto o facto da repetição, como o +da attribuição a dois trovadores differentes accusam duas colleções +parciaes. + +A canções 457 e 469 pertencem a Ayres Nunes Clerigo e são uma unica, +com a differença que as trez strophes de que constam, tem os versos +baralhados sem systema; o que se explica pelo caracter jogralesco, +isto é, que foram duas vezes colligidas no tempo em que eram cantadas +a caprixo de Ayres Nunes ou de qualquer outro jogral, que as sabia de +cór; ou então, que provieram de dois cancioneiros onde as duas canções +se differenciavam pela razão acima indicada. + +A sirvente 472 de Martim Moxa apparece sob o numero 1036, em nome de +Lourenço, jograr de Sarria, com variantes fundamentaes, que provam +compilação de dois cancioneiros diversos. O caracter sirventesco fez +talvez que varios jograes regeitassem a paternidade d'essa canção que +verbera os privados da côrte de D. Affonso III. + +O numero 613 e 639 são uma mesma canção de João Ayres, burguez de +Santiago; abundam as variantes entre estas duas composições, signal de +que provieram de duas copias resultantes da monomania dos cancioneiros +particulares. E sob o nome d'este mesmo trovador andam as duas canções +repetidas 634 e 138, tendo esta ultima alem das variantes mais uma +estrophe e um Cabo. + +Em nome do jogral João Servando apparecem repetidas as canções 738 e +749 com variantes fundamentaes entre si: + + Ora vou a Sam Servando, + donas, fazer romaria, + e nom me leixam com elas + hir, cá logo alá hiria + por que vem hy meu amigo. (738) + + Donas vam a Sam Servando + muytas hoje em romaria, + mais nom quiz oje mha madre + que foss' eu hi este dia + por que vem hy meu amigo. (749) + +As outras variantes nas demais strophes são menos reparaveis, mas no +numero 738 ha uma strophe a mais. A pequena distancia a que ficam uma +da outra estas canções, provam-nos que o copista italiano transcreveu +materialmente uma compilação já formada; e por tanto tudo quanto se +pode concluir sobre estas canções identicas liga-se á formação d'esse +cancioneiro perdido d'onde se trasladou o codice da Vaticana. + +Dois casos especiaes se davam n'essa formação do antigo cancioneiro: +1° ou as canções se attribuiam na repetição a dois trovadores +differentes taes como Sancho Sanches e Pero da Ponte, João de Guilhade +e Stevam Froyam, Pay Soares e Affonso Eanes do Cotom, Martim Moxa e +Lourenco Jograr; 2° ou se repetiam em nome do mesmo trovador, como Mem +Rodrigues Tenoyro, el-rei D. Diniz, Ayres Nunes Clerigo, João Ayres, e +João Servando. Para o primeiro caso conclue-se que contribuiram para a +formação do grande cancioneiro pequenos cancioneiros trasladados de +cantares dispersos, por curiosidade, ou tambem apanhados na corrente +oral, porque um só collector notaria os plagiatos. Para o segundo caso +poderiam os jograes terem contribuido com os seus cadernos de cantos e +assim com lições differentes de um mesmo texto que se alterava pelas +continuadas repetições. + +De todo este confronto se conhece a necessidade de estabelecer por +todos os meios possiveis ás relações entre este apographo da Vaticana +e os dois cancioneiros de Colocci, perdido, e o da Ajuda. + + + + +_Relações do Cancioneiro da Vaticana com o Cancioneiro de Angelo +Colocci_.--Antes de Monaci haver descoberto no Ms. n°. 3217 o Indice +do Cancioneiro perdido do erudito quinhentista italiano Angelo +Colocci, ja elle determinara pela forma por que está escripto o +Cancioneiro da Vaticana, que deveria ter existido um original mais +antigo e mais completo. A descoberta do Indice veiu authenticar a +existencia d'esse Cancioneiro perdido e explicar pela letra do proprio +Colocci, quem é que tinha feito o confronto. O illustre Monaci +comprehendeu logo quanto util seria para a critica o comparar a lista +dos trovadores do Cancioneiro perdido com a dos trovadores do +Cancioneiro existente (Appendice I, p. XIX a XXIV); por uma simples +inspecção fica o leitor habilitado a conhecer as profundas relações +entre os dois cancioneiros; o de Colocci continha mil seis centas e +setenta e cinco canções, e o da Vaticana contem mil duzentas e cinco, +isto é, quatrocentas e setenta canções a menos, por ventura as que +occupavam até a _fol_. 90. O numero das canções de cada trovador pode +tambem ser confrontado, porque no Codice de Colocci as canções de +Colocci eram numeradas por algarismos e cada nome de trovador é +precedido pelo numero que limita as canções do antecedente. Assim, +como já acima vimos, as canções de D. Diniz são no Codice da Vaticana +cincoenta e uma a mais do que no de Colocci. Apezar d'isso as notas +_desunt multa_ provam-nos que o Cancioneiro de Colocci era muito mais +rico, como se vê pelos nomes dos seguintes trovadores que faltam no da +Vaticana: + +Diego Moniz, que tinha ali uma canção; Pero Paes Bazoco, com sete +canções; João Velaz, Dom Juano; Pero Rodrigues de Palmeyra; Dom +Rodrigo Dias dos Conveyros; Ayres Soares; Osorio Annes; Nuno Fernandes +de Mira-Peixe; Fernam Figueiredo de Lemos; Dom Gil Sanches; Ruy Gomes +o Freyre; João Soares Fomesso; Nuno Eanes Cerzeo; Pero Velho de +Taveirós; Pay Soares de Taveirós; Fernam Garcia Esgaravunha, do qual +existiam dezessete canções; João Coelho; Pero Montaldo; duas canções +do trovador genovez Bonifacio Calvo; o Conde D. Gonçalo Garcia; Dom +Garcia Mendes de Eixo; El rei Dom Affonso IV, filho de el-rei D. +Diniz, com quatro canções. No Codice de Colocci, as canções de D. +Diniz não estavam em um corpo isolado, apresentando mais quatro +composições destacadas no fim do cancioneiro. Esta parte tambem é +omissa no Cancioneiro da Vaticana, por que aí se encontram outra vez +trovadores dos supracitados, como João Garcia, D. Fernam Garcia +Esgaravunha, Pero Mastaldo, Gil Peres Conde, Dom Ruy Gomes de +Briteiros, Fernam Soares de Quiñones, etc. Pelo confronto do Indice de +Colocci se conhece, que embora se sigam ao texto do Cancioneiro da +Vaticana quatorze folhas em branco, nem por isso ficou muito distante +do fim, por que só deixaram de ser copiadas algumas sirventes de +Julião Bolseyro. D' este confronto se conclue: 1°. que o codice d'onde +se extraíu a copia da Vaticana differia no numero das canções e na sua +disposição do de Colocci; 2º. que as relações mutuas accusam fontes +communs, mas colleccionação arbitraria no agrupamento dos differentes +cancioneiros parciaes. + +_Relações do Cancioneiro da Vaticana com o Cancioneiro da Ajuda_. -- +Lopes de Moura foi o primeiro que encontrou na collecção da Vaticana a +canção de João Vasques, _Muyt'ando triste no meu coraçom_, que existe +anonyma no Cancioneiro da Ajuda. Logo depois, Varnhagem achou mais +quarenta e nove canções communs aos dois codices, e nós mesmo ainda +viemos a encontrar mais seis canções repetidas. São ao todo cincoenta +e seis canções communs, facto importante para estabelecer as relações, +que existiram entre os dois cancioneiros. Em primeiro logar, o +Cancioneiro da Vaticana foi já copiado de um codice truncado, como por +exemplo: a canção 43 tem a rubrica final: _"Fol.97 desunt multa"_ e a +canção seguinte está truncada no principio; porem estas canções de +João Vasques completam-se pelo Cancioneiro da Ajuda, canção n°. 272 e +273 (ed. _Trovas e Cantares_). Isto prova, que embora o Cancioneiro da +Ajuda esteja truncado e por seu turno se complete com algumas canções +do codice de Roma (_y_, das _Trovas_ == n°. 38, _Canc. da Vat._) ambos +provieram de fontes differentes, porque tambem nas cincoenta e seis +canções communs existem notaveis variantes: + + _Nostro senhor_, que lhe bom prez foi dar. (Vatic.) + _Deus_ que lhe _mui_ bom _parecer_ foi dar. (Ajuda) + +N'esta variante o original do codice vaticano mostra-se mais archaico +na linguagem. Na canção 46, de Fernão Velho (no codice da Ajuda, n°. +92) no primeiro verso da 2ª strophe vem uma variante que denota erro +do copista portuguez conservado inconscientemente pelo antigo copista +italiano: + + E _mha_ senhor fremosa de bom _parecer_ (Vatic.) + E _mia_ senhor fremosa de bom _prez._ (Ajud.) + +_Prez_ é uma contracção de _preço_, e d'aqui resultou que o copista +portuguez traduziu inconscientemente; como organisado no paço, o +Cancioneiro da Ajuda seria formado directamente da contribuição dos +muitos trovadores que o frequentavam; o Cancioneiro de Roma era já +derivado de um apographo secundario, truncado no principio, meio e +fim, e em certos pontos mais archaico. + +Na canção 47 da Vaticana (93 da Ajuda) pertencente a Fernão Velho, +vem: + + Quant' eu, _mha senhor, de vós_ receei... (Vatic.) + Quant' eu _de vós, mia senhor_ receei (Ajud.) + + E vos dix'o _mui_ grand'amor que ei (Vatic.) + E vos dix'o grande amor que _vós_ ei (Ajud.) + +A canção 48 da Vaticana, apesar das imperfeições da copia italiana, +pode ser reconstruida pelo typo strophico, porem a nº. 94 da Ajuda +ficou incompleta: + + _Lição da Ajuda: Lição da Vaticana:_ + + E mal dia naci, senhor, E mal dia naci, senhor, + Pois que m'eu d'u vós sodes, vou; pois que m'eu d'u vos sodes, vou; + Ca mui bem sou sabedor ca mui bem som sabedor + Que morrerei u nom jaz al; que morrerey hu nom ey al; + Pois que m'eu d'u vós sodes, vou. poys que m'eu d'u vos sodes, vou, + ............. pois que de vos ei a partir _por mal._ + + ............. E logo hu m'eu de vós partir + ............. morrerey se me deus nom val. + +A canção 53 da Vaticana (Ajuda, nº. 99), tem uma strophe mais +imperfeita do que no codice da Ajuda; mas en compensação tem o _Cabo_, +que falta no codice portuguez: + + _Ajuda: Vaticana:_ + + Meus amigos, muito me praz.... Meus amigos muyto mi praz _d'amor._ + Cá bem pode partir da mayor Ca bem me pode partir da mayor + Coita de quantas eu oy falar, coyta de quantas eu oy falar, + De que eu fuy muyt'_y_ a soffredor; do que eu fuy muyt'ha sofredor + Esto sabe deus, que me foy mostrar _e sabe deus hu a vi bem falar_ + Uma dona que eu vi bem falar e parecer, por meu mal, eu o sey. + E parecer por meu mal, e o sei. + ............. Ca poys m'elles nom querem emparar + ............. e me no seu poder querem leixar, + ............. nunca por outra emparado serey. + +A canção 395, de Payo Gomes Charrinho, repetida no cancioneiro da +Ajuda, n°. 276, tambem revela duas fontes diversas: + + e nom lh'ousey mays _d'atanto_ dizer (Vatic.) + e nom lh'ousey mais _d'aquesto_ dizer. (Ajud.) + + nem _er cuidey_ que tam bem parecia (Vatic.) + nem _cuidava_ que tambem parecia (Ajud.) + + mays _quand'_eu vi o seu bom parecer (Vatic.) + mais _u_ eu vi o seu bom parecer. (Ajud.) + +No codice da Vaticana tem esta canção apenas trez estrophes; porem no +da Ajuda termina com uma quarta: + + E por esto bem consellaria + quantos oyrem-no seu bem falar + nom a vejam, e podem-se guardar + melhor ca m'end'eu guardei, que morria, + e dixe mal, mais fez-me deus aver + tal ventura, quando a fui veer + que nunca dix'o que dizer queria. (Ajuda) + +Evidentemente as alterações de linguagem não foram do copista +italiano, porque, comparativamente, a expletiva _er_ é mais archaica; +e por tanto a omissão da 4ª strophe não foi casual, mas resultante do +estado d'outra fonte. + +A canção 400, da Vaticana, tambem de Payo Gomes Charrinho, tem leves +variantes na canção 278 da Ajuda, mas importantissimas omissões; assim +no Codice de Roma, falta na primeira strophe o verso: + + me quer matar e guaria melhor (Vat.) + +e tambem faltam duas strophes completas com o seu Cabo. + +A canção 428, ainda de Charrinho, tambem no Codice da Ajuda, n°. 285 +offerece leves variantes; porem no Codice da Vaticana alternam-se a +segunda com a terceira strophe, e falta este Cabo da lição da Ajuda: + + E entend'eu cá me quer a tal bem + em que nom perde, nem gaano en rem. + +A canções 485, 486 e 487 da Vaticana, do trovador Ruy Fernandes, +acham-se nos pequenos fragmentos legiveis nas folhas do Cancioneiro da +Ajuda, que serviram de guardas á encadernação do Nobiliario; esses +fragmentos, seguindo a edição do Varnhagem são _m, n, o_; ainda assim +se conhece por elles que existiam divergencias entre os dois codices: + + _Ajuda, (m):_ _Vaticana_, n°. 485: + A _guisa_ de vos elevar a _forza_ de vos elevar + Por mia morte nom _aver_. por mha morte nom _aduzer_. + + _Ibid., (n):_ _Ibid._, n°. 486: + _Amigos_, começa o meu mal. _Ora_ começa o meu mal. + +As canções de Fernão Padrom, n'os. 563, 564, 565, a que achámos as +analogas nos numeros 126, 127 e 128 do codice da Ajuda, tambem +apresentam variantes. + +As canções n°. 566, 567, 568, 569 e 570, que andam em nome de Pero da +Ponte no codice da Vaticana e apparecem anonymas no Cancioneiro da +Ajuda, n'os. 112, 113, 114, 115 e 116 não appresentam mais variantes +que a simples modificação ortographica em _mha_ e _mia_, que poderia +provir das differentes epocas das copias. Esta conformidade entre o +texto da Vaticana e o da Ajuda, leva-nos a concluir que pequenos +cancioneiros entraram na coordenação de um grande cancioneiro, e que +as canções mais conformes são aquellas que andaram em menor numero de +copias antes de se agruparem na collecção geral. + +Já com relação ás Canções de Vasco Rodrigues de Calvelo, apparecem +variantes e deturpações que não provêm do copista do seculo XVI, mas +de codices diversos ja corruptos; a canção 580 comparada com a 265 da +Ajuda tem uma lição menos pura, incompleta, mas differente: + + _Lição da Ajuda: Lição da Vaticana:_ + Per uma dona que quero gram bem ..... que quero gram bem. + + Com'a mim _fez_; ca des _que eu_ naci Como a mim _faz_; que des _quando_ naci + nunca vi ome _en_ tal coita _viver_ nunca vi ome tal coita _sofrer_ + como eu _vivo_ por melhor bem querer como eu _sofro_ por melhor bem querer + + Com'_a mim fez muy_ coitado d'amor Com'el _faz mim muy_ coitado d'amor. + + +A lição da Ajuda termina com este Cabo, que falta no codice da +Vaticana: + + Com'a mim fez, e nunca me quiz dar + Bem d'essa dona, que me fez amar. + +A canção 581, tambem de Vasco Rodrigues de Calvelo, sob a designação +_e_ da lição da Ajuda (ed. _Trov. e Cant._) alem das mutuas variantes, +tem a 2ª e 3ª a strophes alternadas: + + E se _soubess'_em qual coyta d'amor (Vatic.) + Se _lh'eu dissess'_em qual coita d'amor (Ajud.) + + per nulha guisa, _pero m'_ey _sabor_ (Vatic.) + Per nulha guisa, _ca_ ey _gram pavor._ (Ajud.) + +De mais no Codice de Roma falta este Cabo: + + Mais de tod'esto nora lhi dig'eu rem, + Nem lh'o direy, cá lhe pesará bem. + +Na Canção 582, do mesmo trovador, ha esta divergencia: + + E rogo _sempre_ por mha morte a deus (Vatic.) + Et rogo _muito_ por mia morte a deus (Ajud.) + +Na Canção 584, tambem de Calvelos, falta esta terceira estrophe, que +vem no codice da Ajuda: + + Como vós quiserdes será + De me fazerdes mal e bem + E pois é tod'em vosso sen + Fazed'o que quizerdes já... + +A canção 677, de Pero de Armêa, acha-se imitada no codice da Ajuda, +nº. 56, por forma que a da Vaticana apresenta um caracter de maior +vulgarisação, e por isso de proveniencia jogralesca: + + _Lição da Ajuda:_ _Lição da Vaticana:_ + + Muitos me veem preguntar, Muytos me veem preguntar, + mia senhor, a quem quero bem; senhor, que lhes diga eu quem + e nom lhes queró end'eu falar est a dona que eu quero bem + com medo de vos pesar en, e com pavor de vos pesar + nem quer'a verdade dizer, nom lhis ouso dizer per rem, + mais jur'e faço lhes creer senhor, que vos quero bem. + mentira, por vos lhe negar. + +Duas canções de Pedro Solás, confrontadas com as do codice da Ajuda, +acabam de separar definitivamente estes dois cancioneiros: + + _Lição da Ajuda_ (nº. 123): _Lição da Vaticana_ (nº. 824): + + Nom est a de Nogueira _E_ nom est a de Nogueira + A freira, que _mi poder tem;_ a freira que _eu quero bem,_ + Mays _est_ outra _a_ fremosa mays outra mais fremosa + A que me _quer'eu mayor bem;_ _e_ a que _mim em poder tem;_ + E moyro-m'eu pola freira e moir-m'eu pola freira + Mais nom pola de Nogueira. mais nom pola de Nogueira. + ................................................................... + + Se eu a _freira visse o dia _E_ se eu _aquella freyra + O dia que eu quizesse_ hum dia veer podesse_ + Nom ha coita no mundo nom ha coita no mundo + Nem _mingua_ que houvesse nem _pesar_ que _eu_ ouvesse + E moiro-me ... e moyro-me ... + + _Se m' ela mi amasse _E seu aquella freyra + Muy gram dereito faria, veer podess'um dia + Cá lher quer'eu mui gram bem nenhuã coita do mundo + E punh'y mais cada dia;_ nem pesar nom averia_ + E moiro-me ... e moyro-me ... + +Estas duas variantes são elaborações differentes do mesmo trovador em +epocas diversas, e por tanto os dois cancioneiros provêm +effectivamente de duas fontes. A canção 825 da Vaticana, que se acha +sob o numero 124 do Codice da Ajuda, apenas tem a terceira e quarta +estrophes alternadas. O ultimo paradigma entre estes dois +cancioneiros, apresenta uma composição (1061 da Vaticana, 253 da +Ajuda) que pertence a João de Gaya, escudeiro da côrte de D. Affonso +IV, por onde se fixa não só a epoca da colleccionação do codice de +Lisboa, mas em que a fonte do Codice de Roma nos apparece mais +completa: + + + _Lição da Ajuda:_ _Lição da Vaticana:_ + + Conselho, e quer-_se_ matar Conselho e quer-me matar. + E assi me tormenta amor + de tal coyta, que nunca par + ouv'outr'ome, a meu cuydar, + assy morrerey pecador, + e, senhor, muyto me praz en + que prazer tomades por en + non no dev'eu arrecear. + + E bem o _podedes fazer_ E bem o _devedes saber_, etc. + + +Por todos estes factos se vê, que umas vezes o Codice de Roma é omisso +com relação ao de Lisboa, o que se poderia impensadamente attribuir a +incuria do copista; esta hypothese não pode ter logar, porque o +Cancioneiro da Ajuda por muitissimas vezes apresenta eguaes omissões. +Por tanto essas cincoenta e seis canções communs aos dois codices, +entraram n'essas respectivas collecções provindo de codices parciaes e +de differente epoca. + +_Relações do Cancioneiro da Vaticana com o apographo actualmente +possuido por um Grande de Hespanha_. -- No _Cancioneirinho de Trovas +antigas_, Varnhagem dá noticia no prologo, de ter encontrado em 1857 +na Livraria de um fidalgo hespanhol um antigo cancioneiro portuguez, +que, pela canções de el-rei D. Diniz que elle continha, lhe suscitou o +procurar as analogias que teria com o Cancioneiro da Vaticana n°. +4803; tirou copia do citado Cancioneiro, e em 1858 procedeu em Roma ao +confronto do codice madrileno com o da Vaticana. Começavam ambas as +copias com a trova de _Fernão Gonçalves_, seguindo-se-lhe as duas +canções de _Pero Barroso;_ ambos os codices combinam nos mesmos nomes +de trovadores, na ordem das canções, e em geral nos erros dos +copistas. Poder-se-ha concluir que estes dois apographos se derivam +ambos do mesmo original? Não; apezar de Varnhagem não ser mais +explicito na descripção do codice madrileno e guardar no mysterio o +nome do possuidor, comtudo pelas cincoenta composições do +_Cancioneirinho_ se descobrem profundas _variantes_, que se não podem +attribuir a erro de leitura, ainda assim tão frequente em Varnhagem. + +Copiamos aqui essas variantes, para que se conclua pela existencia de +um outro codice mais antigo, tambem perdido. Na canção II, a strophe +3ª _(Cancioneirinho)_ acha-se assim: + + Os cavalleiros e cidadãos + d'aqueste rey aviam dizer + e se deviam com sas mãos poer + outrosi donas e escudeiros + que perderam a tam bem senhor + de quem poss'eu dizer, sem pavor, + que não ficou dal nos christãos. + +Pelo codice de Roma vê-se a strophe construida da outro modo: + + Os cavalleiros e cidadãos + que d' este rey aviam dinheiros + e outrosi donas e escudeiros, + matar se deviam por sas mãos ... (Canç. n°. 708.) + + +Na canção VI, a strophe segunda e terceira _(Cancioneirinho)_ estão +incompletas e interpolladas d'esta forma: + + _Cancioneirinho:_ _Codice da Vaticana:_ + + E as aves que voavam E as aves que voavam + Quando sayam canções quando saya _l'alvor_ + Todas d'amor cantavam todas de amor cantavam + Pelos ramos d'arredor; pelos ramos d'arredor; + + + + Mais eu sei tal que escrevesse mais nom sei tal que _i estevesse_ + Que em al cuidar podesse que em al cuidar podesse + Se nom todo em amor. se nom todo em amor. + +Em pero dix'a gram medo: _Aly stive eu muy quedo + quis falar e nom ousey_ + em pero dix'a gram medo: + -- Mha senhor, falar-vos-ey -- Mha senhor, falar-vos-ey + Hum pouco, se m' ascuitardes um pouco, se m'ascuitardes + Mais aqui nom estarey. _e ir-m'ey quando mandardes_ + mais aqui nom estarei. + + (Canc. nº. 554.) + +Pela lição da Vaticana, onde se vêem as duas strophes completas se +infere que o defeito no _Cancioneirinho_ provem de um texto imperfeito +e differente, porventura tirado do apographo hespanhol. + +Na canção XV _(Cancioneirinho)_ vem uma strophe imperfeita, porque é +formada com duas, que lhe alteram o typo: + + _Cancioneirinho:_ _Codice da Vaticana:_ + + E foi-las aguardar E fui-las aguardar + E nom a pude ver; e nom o pude achar + e moiro-me d'amor. e moiro-me d'amor! + E fui-las atender, + e nom no pude veer + E moiro-me d'amor. + +A canção XVII do _Cancioneirinho_ tem só trez strophes; na lição do +Codice da Vaticana, ha mais esta: + + Estas doas mui belas + el m'as deu, ay donzelas, + nom vol-as negarey; + mas cintas das fivelas + eu nom as cingirei. + +Com certeza esta deficiencia proveiu do apographo madrileno. Na canção +XXI, a strophe 4ª está interpollada, e segundo a lição da Vaticana é +que se conhece a proveniencia de outro codice: + + _Cancioneirinho:_ _Codice da Vaticana:_ + + Cá novas me disserom Ca novas me disserom + Que vem o meu amigo ca vem o meu amado + C'and'eu mui leda. e and' eu mui leda, + poys migu'é tal mandado; + _E cuido sempre no meu coraçom poys migu'é tal mandado + Pois nom cuid'al, des que vos vi, que vem o meu amado. + Se nom en meu amigo, + E d'amor sei que nulh'ome tem,_ + Pois migo é, tal _mandades;_ + Que vem o meu amado. + +Os versos sublinhados do _Cancioneirinho_, são visivelmente d'outra +canção, porque tem outro typo strophico, e essa interpolação não se +pode attribuir a erro de leitura de Varnhagem. + +Na canção XXV, ha uma 4ª strophe, que é repetição da 1ª; na lição da +Vaticana não existe esta forma; evidentemente o editor do +_Cancioneirinho_ seguiu aqui o codice madrileno. + +Na canção XLV falta esta strophe, que pela lição do texto da Vaticana +se vê que é a segunda: + + Nom ja em al d'esto som sabedor + de m'algum tempo quizera leixar + e leix'e juro nom a ir matar + mays poys la matam, serey sofredor + sempre de coyt'em quant'eu viver, + cá sol y cuido no seu parecer + ey muyto mais d'outra rem desejar. + +Na canção XLVI, falta esta 4ª strophe da lição da Vaticana: + + Por en na sazom em que m'eu queixey + a deus, hu perdi quanto desejei + oy mais poss'en coraçom deus loar; + e por que me poz em tal cobro que ey + por senhor a melhor de quantas sey + eu, que poz tanto bem que nom ha par. + +A canção XLVIII encerra a prova definitiva de que o codice madrileno +serviu de base da edição do _Cancioneirinho_, e que esse codice +proveiu de uma fonte diversa do da Vaticana; aí se acham essas duas +strophes, que faltam no codice de Roma: + + O que se foi comendo dos murtinhos + E a sa terra foi bever os vinhos, + Nom vem al Maio. + + O que da guerra se foi com espanto + E a sa terra se foi armar manto + Nom vem al Maio. + +Por outro lado no codice madrileno tambem faltam cinco strophes, por +que são omissas no _Cancioneirinho:_ + + O que da guerra se foi com'emigo + pero nom veo quand'a preyto sigo + nom vem al Maio. + + O que tragia o pendou a _aquilom_ + e vendid'é sempr'a traiçom + nom vem al Maio. + + O que tragia o pendou sen oyto, + e a sa gente nom dava pam coyto, + nom vem al Maio. + +E no final da canção: + + O que tragia pendom de cadarço + macar nom veo no mez de Março, + nom vem al Maio. + + O que da guerra foy por recaùdo + macar em Burgos fez pintar escudo, + nom vem al Maio. + +Indubitavelmente o codice madrileno provém de uma outra fonte, por que +tem omissões e accrescentamentos, que o differenciam do Codice da +Vaticana; mas a ordem das canções e os nomes dos trovadores, communs +aos dois, provam-nos que ambos foram copiados de cancioneiros já +organisados dos quaes um era já apographo. A circumstancia de +começarem ambos pela trova de _Fernão Gonçalves_, e de se lêr no +codice do Roma a nota: _"Manca da fol. ij in fino a fol. 43"_ +provam-nos que o original primitivo já andava truncado e é isto o que +dá a mais alta importancia ao Indice de Colocci do Cancioneiro perdido +que era a cópia mais antiga, por que o monumento diplomatico estava +ainda completo. Monaci não desconheceu o valor das variantes do +_Cancioneirinho_. + +Depois de toda esta discussão sobre os diminutos vestigios que restam +de alguns cancioneiros portuguezes dos seculos XIII e XIV, a +aproximação de numerosos factos secundarios, e as inducções que se +formam sobre elles, exigem uma recapitulação clara para que se possam +tirar a limpo algumas conclusões geraes. Representamos os cancioneiros +que são conhecidos por letras maiusculas, e aquelles cuja existencia +se pode inferir pelas variantes são notados por letras minusculas; com +estes signaes formaremos uma tentativa de filiação de todos esses +cancioneiros em um schema, que poderá, ser modificado á medida que se +descobrirem novos subsidios: + +A.] _O Livro das Cantigas do Conde de Barcellos_,--citado no seu +testamento, e deixado a Affonso XI, tambem trovador. Tendo em vista o +genio compilador do Conde e o andar ligado ao seu Nobiliario o Codice +da Ajuda, cancioneiro de varios auctores, pode-se inferir que o _Livro +das Cantigas_ não era exclusivamente do Conde, mas sim uma compilação +sua. No Cancioneiro da Vaticana encontram-se canções do Conde, de +Affonso XI e grupos de canções do Codice da Ajuda em numero de +cincoenta e seis assignadas por fidalgos da côrte de D. Diniz. + +B.] _O Cancioneiro de D. Diniz (Livro das Trovas de Elrei Dom Diniz;_ +existiu separado em volume pelo que se sabe pelo Catalogo dos Livros +de Uso de el-rei Dom Duarte. Foi encorporado no codice da Vaticana +depois da canção 79. B¹.] Outro, dos Freires de Christo de Thomar. + +C.] _O Cancioneiro da Ajuda_, começa em folhas 41, a parte anterior +está perdida e o final não chegou a ser terminado. Isto explica as +pequenas relações com o Codice de Roma.--As 24 canções achadas na +Bibliotheca de Evora e as guardas da encadernação do Nobiliario provam +o muito que se perdeu d'este cancioneiro. Não se chegou a escrever a +musica das canções, nem a inscrever-lhes os nomes dos auctores que as +assignavam, e por isso conclue-se que não chegou a servir para a +collecção de Roma, que é assignada. Não chegaram a entrar n'elle +canções de el-rei D. Diniz, e portanto entre este e o Cancioneiro de +Roma pode fixar-se a existencia de outro cancioneiro hoje +desconhecido. + +D.] _O Cancioneiro de D. Mecia de Cisneros_, grande volume de cantigas +visto pelo Marquez de Santillana, que o descreve; já continha o +cancioneiro de D. Diniz, e os trovadores do Codice de Roma citados +pelo Marquez. Seria a primeira compilação geral, feita mesmo em +Hespanha? + +E.] _O apographo de Colocci_, perdido talvez pela occasião do saque de +Roma em 1527, e do qual só se conserva o Indice dos Autores. Tinha +intimas relações com o codice de D. Mecia. No principio apresentava +varios _lais_ no gosto bretão e pelos _Nobiliarios_, vemos que o Conde +Dom Pedro se refere ás tradições bretãs, e tambem el-rei Dom Diniz. +Seria esta parte assimilada do _Livro das Cantigas_ do Conde de +Barcellos? + +F.] _Cancioneiro da Vaticana, nº_. 4803; este é menos completo do que +o antecedente, o que prova que foi copiado de outra fonte. Colocci por +sua letra o emendou pelo codice hoje perdido. Tem este cancioneiro 56 +canções similhantes no Cancioneiro da Ajuda, com variantes notaveis, +signal que ambos os Codices se derivam de duas fontes diversas. Tem +uma parte relativa a successos da côrte de Dom Affonso IV, que provem +de cancioneiros extranhos e posteriores ao Cancioneiro da Ajuda. A +ordem dos trovadores não é a mesma do Indice de Colocci. + +G.] _Copia ms. de um Grande de Hespanha_.--Em cincoenta canções +reproduzidas por Varnhagem acham-se variantes fundamentaes com +relações á lição do codice de Roma, signal de que a copia alludida +provém de uma fonte extranha e de epoca differente. + +Os cancioneiros desconhecidos, mas intermediarios aos supracitados são +hypotheticamente: + +a, b.] Cancioneiros anteriores ás collecções da côrte de D. Diniz, com +que se formou e, d'onde se trasladou o Cancioneiro da Ajuda, como se +justifica pelas variantes dos 56 canções reproduzidas no de Roma. + +c.] Cancioneiro perdido, d'onde se não chegou a copiar nem a musica +das canções nem o nome dos trovadores para o Cancioneiro da Ajuda. + +d.] Cancioneiro onde se encorporaram o _Livro das Cantigas_ e +_Cancioneiro de D. Diniz_, o que justifica as differenças entre o +Codice de Dona Mecia e o de Colocci. + +e.] Cancioneiro perdido, cuja existencia se induz das variantes entre +o Cancioneiro da Vaticana, o de Colocci e o do grande de Hespanha. + +Eis por tanto a nossa tentativa de schema de filiação dos cancioneiros +portuguezes dos seculos XIII e XIV: + + a b + \-------/ + c + C ABB¹ + \---------/ + D d + /---------\ + E e + \-/ + G F + +É provavel que esta connexão ache contradictores, porém aí ficam todos +os elementos que pudemos agrupar, para que outros estabeleçam uma +filiação mais verosímil. Só depois de estudada a historia externa do +Cancioneiro da Vaticana é que se pode entrar com desassombro no +desenho da grande epoca litteraria que elle representa. Bem o +desejaramos fazel-o diante dos que estudam as producções do fim da +edade media, para reconstruirmos de novo o livro dos _Trovadores +galecio-portugueses_, escripto antes da posse de tamanhas riquezas. Á +medida que em Portugal fôr renascendo o amor pela tradição nacional, o +nome de Ernesto Monaci figurará como de um benemerito, que restituiu a +este paiz um dos mais bellos monumentos do seu passado historico. + + + [1] Fernão Lopes, _Chron. de D. Pedro_ I, cap. 31. + [2] _Leges Wallice,_ p. 779, 861. + [3] _Obras del Marquez de Santillana,_ p. XX. + [4] _Hist. litter. de l'Italie,_ t.IV, p.17. + [5] _Op. cit_, p.8. + [6] _Ginguené, Hist. litt_, t. IV, p. 41. + [7] _Tiraboschi, Storia della Letteratura italiana_, t. VII, 246. + +*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 11299 *** diff --git a/LICENSE.txt b/LICENSE.txt new file mode 100644 index 0000000..6312041 --- /dev/null +++ b/LICENSE.txt @@ -0,0 +1,11 @@ +This eBook, including all associated images, markup, improvements, +metadata, and any other content or labor, has been confirmed to be +in the PUBLIC DOMAIN IN THE UNITED STATES. + +Procedures for determining public domain status are described in +the "Copyright How-To" at https://www.gutenberg.org. + +No investigation has been made concerning possible copyrights in +jurisdictions other than the United States. Anyone seeking to utilize +this eBook outside of the United States should confirm copyright +status under the laws that apply to them. diff --git a/README.md b/README.md new file mode 100644 index 0000000..6889b73 --- /dev/null +++ b/README.md @@ -0,0 +1,2 @@ +Project Gutenberg (https://www.gutenberg.org) public repository for +eBook #11299 (https://www.gutenberg.org/ebooks/11299) diff --git a/old/11299-8.txt b/old/11299-8.txt new file mode 100644 index 0000000..bb0664f --- /dev/null +++ b/old/11299-8.txt @@ -0,0 +1,1859 @@ +The Project Gutenberg eBook, O cancioneiro portuguez da Vaticana, by +Teophilo Braga + + +This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with +almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or +re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included +with this eBook or online at www.gutenberg.org + + + + + +Title: O cancioneiro portuguez da Vaticana + +Author: Teophilo Braga + +Release Date: February 26, 2004 [eBook #11299] + +Language: Portuguese + +Character set encoding: ISO-8859-1 + + +***START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O CANCIONEIRO PORTUGUEZ DA +VATICANA*** + + + +Produced by Distributed Proofreaders Europe, http://dp.rastko.net +Project by Carlo Traverso and Moises Gaudencio +This file was produced from images generously made available by the +Bibliothque nationale de France (BnF/Gallica) at http://gallica.bnf.fr. + + + + +THEOPHILO BRAGA. + + +O Cancioneiro portuguez da Vaticana +e suas relaes com outros Cancioneiros dos seculos XIII e XIV. + +(Zeitschrift fr Romanische Philologie, 1877) + + + +O apparecimento do Cancioneiro portuguez da Bibliotheca do Vaticano, +que encerra quasi toda a poesia lyrica do fim da edade media em +Portugal, veiu mais uma vez provar a superioridade da iniciativa +individual sobre a estabilidade inerte das instituies collectivas +que apenas apresentam o vigor do prestigio official; desde 1847 que a +Academia real das Sciencias de Lisboa deixava jazer no p do archivo +de Roma este importante documento nacional, e foram sempre ficticios +os esforos para obter uma copia d'elle, que de ha muito devera ter +sido reproduzida no corpo dos _Scriptores_, que forma uma das partes +dos _Portugaliae Monumenta historica_. No emtanto, no estrangeiro o +interesse scientifico muitas vezes se havia occupado do passado +historico de Portugal, e foi a esta corrente que obedeceu o illustre +philologo romanista Ernesto Monaci coadjuvado pelo activo e +intelligente editor Max Niemeyer, restituindo a este paiz o texto +diplomatico do mais precioso dos seus documentos litterarios. Ao +terminar do modo mais consciensioso a sua empreza, escreve Monaci: +"voglia il cielo che tornato il libro in Portogallo, diventi presto +oggetto di studj novelli. solo nella fonte delle tradizioni patrie +che lo spirito di una nazione si ringagliardisce." (Canz. port., p. +XVIII.) Infelizmente na litteratura portugueza ainda se no +comprehendeu esta verdade salutar, e por isso o talento desbarata-se +em architectar phantasmagorias de cerebros doentes ou em fazer +traduces de romances dissolutos. Acceitando a responsabilidade das +palavras do editor do Cancioneiro da Vaticana dirigidas a esta nao, +cabia primeiro do que a todos Academia real das Sciencias de Lisboa +responder pela seguinte forma: + +1. Publicar o texto critico e litterario restituido sobre a lio +diplomatica em grande parte illegivel fra de Portugal. + +2. Acompanhar esse texto com todos os dados bibliographicos de que se +possa alcanar noticia, para sobre elles basear a historia externa da +formao do Cancioneiro. + +3. Acompanhal-o de um bom glossario das palavras empregadas na dico +provenalesca da poesia palaciana. + +4. Por ultimo organisar um vasto quadro da historia litteraria de +Portugal no periodo dos nossos trovadores, deduzido dos abundantes +factos historicos que fornece o Cancioneiro da Vaticana. + + para isto que existem as Academias nos paizes civilisados, que os +governos as subsidiam, e que os seus membros tm o fro de sabios. Em +quanto a Academia real das Sciencias de Lisboa no cumpre este seu +dever, cumpre-nos dar uma noticia d'este Cancioneiro, longos seculos +perdido pelas bibliothecas estrangeiras. + +N'este codice se encontram as nossas origens litterarias, e as +relaes intimas que filiam a litteratura portugueza no grupo das +litteraturas romanicas da edade media da Europa; aqui se acham +representadas as duas correntes da inspirao popular e palaciana ou +erudita, bem como os costumes intimos de uma sociedade que nos +desconhecida, mas d'onde proviemos; os successos historicos a tm a +sua nota accentuada; os nomes que figuram nas lendas genealogicas e +nos feitos de armas no periodo da constituio da nossa nacionalidade +a se encontram assignando os mais saborosos cantares consagrados s +damas da crte, que serviam. Finalmente, ali est o documento mais +vasto em que a lingua portugueza se manifesta no seu esforo para de +inconsistente dialecto romanico se tornar uma lingua escripta com uma +grammatica fixa. Um livro assim, onde se acha representado o melhor da +nossa antiga poesia durante os seculos XIII e XIV, a joia de uma +bibliotheca. Como nos mostraremos gratos ao estrangeiro que assim vem +augmentar os nossos thezouros historicos e restituir-nos o fio perdido +da nossa tradio nacional? Estudando-o. + +A primeira questo que o Cancioneiro portuguez do Vaticano sugere +determinar as suas relaes com os antigos cancioneiros provenaes +portuguezes em grande parte perdidos; esta circumstancia complica o +problema critico, e por isso importa bem determinar aproximadamente o +numero d'essos cancioneiros para se fazer o processo de filiao. Tal + o intuito d'este nosso primeiro estudo, bastante restricto, por que +determinar o valor historico do Cancioneiro pelas correntes +litterarias n'elle representadas, pela alluso aos grandes successos, +pelo uso de dadas formas poeticas, pelas personalidades dos principaes +trovadores e pelo estado da lingua portugueza, uma explorao de tal +forma vasta, que qualquer d'estas questes excede as propores de uma +noticia. Comeamos pela critica externa do Cancioneiro, enumerando +todos os cancioneiros portuguezes dos seculos XIII e XIV que +contribuiram para a sua formao, procurando ao mesmo tempo o nexo que +existiria entre elles, e pelas divergencias de texto quaes as +colleces que se perderam sem chegarem a ser conhecidas. + + + + +1. O Livro das Cantigas do Conde de Barcellos. + + +No testamento do Conde D. Pedro, feito em Lalim em 30 de Maro de +1350, se l esta clausula: "Item, mando o meu _Livro das Cantigas_ a +el rei de Castella". Interpretando esta clausula, Varnhagem quiz por +ella attribuir o Cancioneiro da Ajuda ao Conde de Barcellos, +imprimindo-o em 1849 n'esse presupposto, com o titulo de _Trovas e +Cantares... ou antes mui provavelmente o Livro das Cantigas do Conde +de Barcellos_. Esta hypothese cedo caiu diante da evidencia dos +factos; mas alm d'este primeiro erro, existe n'esta affirmaco um +outro, que o julgar o _Livro das Cantigas_ formado de canes +unicamente compostas pelo Conde de Barcellos. Era antigamente vulgar +terem os principes cancioneiro seu, como objecto sumptuario, isto , +uma colleco contendo as melhores poesias de seu tempo; sabendo-se a +tendencia compiladora e erudita do Conde Dom Pedro, e a sua amisade +com a aristocracia portugueza e gallega por causa do seu _Nobiliario_, + mais no espirito da historia litteraria a hypothese, que o _Livro +das Cantigas_ era seu pelo facto material da propriedade ou da +colleccionao, e que este titulo designa um cancioneiro contendo +composies de diversos trovadores. Vamos fundamentar esta hypothese: +Primeiramente, o Conde D. Pedro, pelas canes que d'elle restam na +colleco do Vaticano, era um mediocre trovador, e d'elle diz Affonso +XI, a quem elle deixara em testamento _o seu Livro das Cantigas:_ + + Pois se de quant'el tem errado + _serve Dom Pedro_, nem lhi d em grado. + +Alludia inferioridade das canes de Bernal de Bonaval, que serviam +ao gosto do Conde Dom Pedro. Em segundo logar, pelo Nobiliario se v +quanto o Conde era versado nas tradies bretans que adoptava como +factos historicos; e no indice do Cancioneiro de Angelo Colocci se +acham enumeradas como comeo d'esse codice: "1. Elis o bao, duque de +Sansonha, quando passou na Gram Bretanha, qual ora chamam Ingraterra, +al tempo del Rey Arthur ad combater com Tristano por que lhi avia +occiso o padre em uma batalha. E andando um dia em sa busca foi por +Giososa Guarda era a reyna Isouda de Corualha, e enamorou-se ali +elle, e fez por ella aquesta lais, o qual lais poemos aqui, porque era +o melhor que fora feito.--2. Quatro donzellas, a Morouet de Irlanda, +al tempo del rei Arthur.--3. Dom Tristan enamorado.--4. Dom +Tristan.--5. D. Tristam para Genebra". + +Por este contedo do comeo do Cancioneiro que pertenceu a Colocci, e +por que no codice da Vaticana mais de uma vez se citam as formas +poeticas brets dos _lais_, podemos concluir que esses cinco Lais +pertenceriam ao _Livro das Cantigas_, o qual foi encorporado em uma +grande colleco formando talvez a parte que vae at as canes de +el-rei D. Diniz que eram tambem um cancioneiro avulso. Por este mesmo +codice de Angelo Colocci, de que resta o indice, achamos que antes da +parte que constitue a coleco de el-rei D. Diniz, estavam colligidas +varias canes de Dom Affonso Sanches, bastardo do rei, as canes de +Dom Affonso rei de Leo, as de D. Affonso XI de Castella, e depois +d'estar as do proprio Conde de Barcellos, que so ao todo nove, e +tambem as de seu irmo el rei D. Affonso IV. No era qualquer +compilador ocioso que poderia satisfazer a sua curiosidade obtendo +d'estes principes e monarchas as canes mais ou menos pessoaes; o +Conde de Barcellos estava em uma posio especial, sabia metrificar, +era estimado na crte de D. Diniz e na de Affonso XI, e tendo passado +algum tempo em Hesphanha de l podia trazer canes de varios +trovadores que nunca estiveram em Portugal. Por tanto o seu _Livro das +Cantigas_ fra formado n'estas condies particulares, e o apreo que +se lhe ligava que o fez com que o deixasse em testamento ao elegante +trovador Affonso XI de Castella. A posse de um livro de cantigas era +quasi um titulo nobiliarchico; na cano 76 da Vaticana, feita +maneira de sirvente por Affonso XI contra o Dayo de Calez, diz que +elle tinha um _Livro de Sons_, por meio do qual seduzia todas as +mulheres. Foi tambem pelo seu gosto pela poesia provenalesca que o +Conde de Barcellos manteve a sympathia de D. Affonso IV, filho +legitimo de D. Diniz, e por isso em uma cano de louvor chamado o +_rimante d'el-Rei_. Por tudo isto mais crvel que o _Livro das +Cantigas_ do Conde fosse o primeiro nucleo com que se formou por +juxta-posio o grande cancioneiro portuguez, do qual um dos +apographos o codice da Vaticana; dizemos por juxta-posio, por que +se lhe segue o de el-rei Dom Diniz, e porque muitas canes de codice +de Roma se acham a mesmo repetidas, indicao inevitavel de terem +sido colligidas de fontes diversas. Quando o Conde Dom Pedro falleceu +j era morto Affonso XI, e isto explica como poderia extraviar-se em +Castella esse _Livro das Cantigas_, e como Pero Gonalves de Mendoza +viria a obter a copia que se guardava em um grande volume em casa de +D. Mecia de Cisneros, e pela primeira vez citada por seu neto, o +Marquez de Santillana. + + + +2. Livro das Trovas de El-rei Dom Diniz + +O corpo das canes de el-rei Dom Diniz occupava uma grande parte do +codice de Dona Mecia de Cisneros; occupava tambem uma parte importante +no apographo de Colocci, bem como no codice da Vaticana. O modo como +esta grande quantidade de canes de el-rei Dom Diniz entrou em uma +vasta compilao explica-se naturalmente, por isso que pelo catalogo +dos livros de uso de el rei Dom Duarte acha-se citado o _Livro das +Trovas de el-rei Dom Diniz_, do qual se pode inferir terem existido +varias copias, por que o numero das canes varia entre as enumeradas +no indice de Colocci e as contidas no codice da Vaticana, contando +este ultimo cincoenta e uma canes a mais. Alem d'isso, na parte do +codice que encerra as canes de D. Diniz, a cano 116 acha-se +repetida outra vez sob o numero 174 com variantes e differente +disposio de estrophes, o que denota que essa parte foi compilada de +copias secundarias, mas classificadas, como vemos pelo titulo das +_Cantigas de Amigo_ dado a um certo genero de canes, especialmente +de imitao popular. provavel que os autographos que serviam para os +traslados nitidos dos amanuenses fossem por vezes aproveitados por +outros compiladores; de el-rei Dom Diniz andava tambem um codice +poetico em poder dos Freires de Christo de Christo de Thomar. Os +muitos jograes da Galiza, de Castella e de Leo, que frequentavam a +crte de Dom Diniz, tambem colligiriam esses corpos de canes de +_Serranilha_ e de _Mal-dizer_ que os privados dos monarchas trovaram, +e que elles decoravam para cantarem de officio. Os jograes formaram +colleces dos melhores cantares para recitarem ou acompanharem +citola, pelo que recebiam dinheiro; o costume de ter jograes de +_Segrel_ ao servio da casa real levava tambem a formar estes pequenos +cancioneiros escolhidos. + + +3. O Cancioneiro da Ajuda (ou do Collegio dos Nobres). + +O facto de se encontrarem _cincoenta e seis_ canes communs ao Codice +da Ajuda e ao da Vaticana, torna indispensavel o resumir aqui o que se +sabe da historia externa do Cancioneiro da Ajuda. As suas folhas so +de pergaminho, a duas columnas, com pauta para a musica das canes +que se deveria escrever em seguida, e com varias vinhetas separando os +diversos grupos de canes de cada trovador e com letras historiadas. +O cancioneiro est truncado, pois que comea na folha 41, e no existe +o final, no s por incuria dos possuidores, que o baralharam +encadernando-o tumultuariamente com o Nobiliario, grudando algumas +folhas s capas, mas tambem por que o estado da copia, sem assignatura +ou designao dos trovadores, letras historiadas incompletas, e falta +de notao musical, nos revelam que o codice no foi dado por acabado. +Esta colleco comeou-se ainda no reinado de D. Diniz, por que +juntando-se as folhas l-se escripto no crte d'ellas: _Rei Dom +Diniz_, e d'isto tambem se pode deduzir, que se no perderam muitas +folhas do principio e do fim. D'este codice foram encontradas mais 24 +folhas avulsas na Bibliotheca de Evora, e tradio corrente que na +de Coimbra existiam algumas outras tambem. + +A inspeco do Codice da Ajuda, confrontado com outros Codices +europeus, mostra-nos que elle pertencia indubitavelmente a diversos +trovadores; Varnhagem notou que existiam dezaseis vinhetas +imperfeitamente coloridas, que esto desenhadas junto s canes 2, +36, 37, 149, 157, 170, 173, 184, 190, 231, 233, 249, 253, 255, 259 e +fragmento _h_. (Notas s _Trovas e Cantares_, p. 348.) + +Alem d'este vestigio paleographico, o confronto com o Codice da +Vaticana levou a achar os seguintes trovadores, communs aos dois +Cancioneiros: Pero Barroso, Affonso Lopes Baio, Mem Rodrigues +Tenoyro, Joo de Guilhade Estevam Froyam, Joo Vasques, Ferno Velho, +Ayres Vaz, D. Joo de Aboim, Pero Gomes Charrinho, Ruy Fernandes, +Fernam Padrom, Pero da Ponte, Vasco Rodrigo de Calvelo, Pero Solaz, +Pero d'Arma, e Joo de Gaia. Todos estes nomes so de fidalgos +grandes privados de el-rei D. Diniz, e alguns j figuram em doaes de +D. Affonso III, como D. Joo de Aboim e Affonso Lopes Baio; Mem +Rodrigues Tenoyro vivia na crte de D. Affonso IV, e foi entregue a +Pedro cruel em troca dos assassinos de Inez de Castro.[1] A parte no +assignada e que no se encontra no Cancioneiro da Vaticana ser por +ventura o corpo das canes escriptas durante o tempo em que a crte +de D. Affonso III esteve fixa em Santarem. Alem d'isso a parte commum +tem a particularidade de conservar a mesma ordem nas canes, e ao +mesmo tempo as variantes mais fundamentaes n'essas lies. D'aqui se +conclue, que j existia um Cancioneiro formado, d'onde este da Ajuda +estava sendo trasladado, mas que d'esse cancioneiro existiam +differentes copias formadas, no directamente sobre elle, mas por meio +dos cancioneiros particulares que o constituiram. A parte no commum +ao codice de Roma, prova nos tambem que alguns d'esses cancioneiros +parciaes se perderam, ou eram j to raros que no chegaram a ser +encorporados na colleco. Admittida a hypothese de que o Cancioneiro +da Ajuda, pelo facto de ter pertencido a el-rei D. Diniz e de andar +encadernado junto do Nobiliario do Conde D. Pedro, fosse o proprio +_Livro das Cantigas_, como primeiro quiz Varnhagem, o facto de +apparecerem a outros trovadores prova-nos a nossa hypothese, que o +Conde D. Pedro compilara sob esse titulo as canes dos trovadores +seus contemporaneos. O numero de vinhetas imperfeitamente coloridas do +cancioneiro da Ajuda so dezaseis; isto leva a inferir que esse codice +era formado de dezeseis corpos de canes que pertenciam a dezassete +trovadores. De facto a coincidencia aqui pasmosa: o numero dos +trovadores communs ao Cancioneiro da Ajuda e da Vaticana de +dezesete! Note-se que este numero o que se perfaz com os nomes de +_Fernam Padrom, Joo de Gaya, e Pero d'Arma_, que achmos alem +d'aquelles que primeiro descobriu Varnhagem. D'este numero se tira a +concluso que o Cancioneiro da Ajuda pertence exclusivamente a esses +dezessete trovadores, e que as cincoenta e seis canes communs ao +Codice da Ajuda eram as que andavam por cancioneiros parciaes, como as +mais conhecidas, e pelas variantes que appresentam, as mais repetidas. +Alem d'isso, pode suppor-se que o Cancioneiro da Ajuda no foi +acabado, por que o estylo _limosino_ em que est escripto, passou de +moda, preferindo-se os _Cantares d'amigo_, as _serranilhas_, as +_pastorellas_, os _lais_ e as _sirventes_, mudana de gosto +proveniente da grande affluencia de jograes gallegos, leonezes e +castelhanos crte de Dom Diniz; e sob o gosto da crte de Dom +Affonso IV prevaleceram tambem as canes e musicas bretans, cuja +corrente parece ainda reflectida no Cancioneiro da Ajuda, em um +remotissimo vestigio, no fragmento de cano em que se l a palavra +_guarvaya_, com que o trovador allude aos seus infelices amores. Nas +_Leges Wallice_, XXIII, I, encontra-se o dom das nupcias, _kyvarus_, +que se pagava ao cantor da crte: "Penkered (musicus primarius) debet +habere mercedes de filiabus poetarum sibi subditorum; habebit quoque +munera nuptiarum, id est _kyvarus neythans_, feminibus nuper datis, +scilicet XXIIIIor denarios."[2] A connexo historica e a interpretao +litteral mostram que a _guarvaya_ do trovador portuguez o mesmo +facto ou costume breto _kyvarus_; a verificao pelos processos da +alterao phonetica pertence para outro logar. Em todo o caso este +vestigio um dos nexos mais intimos que se pode achar com o codice +perdido de Colocci, em que estavam j colligidos alguns _lais_ +bretos. + +A musica do Cancioneiro da Ajuda tambem foi abandonada, por que foram +substituidos nos costumes outros instrumentos e outras tonadilhas; no +poema francez de Bertrand Du Guesclin, fala-se de cantores bretos na +crte de D. Pedro I de Portugal. Foi j n'esta nova corrente poetica e +com o fervor que ella despertara que se comeou a formar o vasto +cancioneiro, de cuja existencia se sabe por quatro apographos. Crmos +que o compilador que trasladou ou organisou o texto authentico d'onde +sau o apographo do Vaticano, no soube da existencia do Cancioneiro +da Ajuda, apezar das cincoenta e seis canes communs a ambos. Este +facto ser mais amplamente explicado. + + + + +4. O Cancioneiro de Dona Mecia de Cisneros. + + +Na sua _Carta ao Condestavel de Portugal_, escripta antes de 1449, o +Marquez de Santillana, no XV, diz que se recordava de ter visto, +quando era bastante menino, em poder de sua av Dona Mecia de +Cisneros, entre outros livros, um grande volume de cantigas.... O +Marquez de Santillana nasceu em 1398, e sua av Dona Mecia, na +companhia da qual passou a sua infancia, morreu em Dezembro de 1418, +em Palencia. Em primeiro logar "o _grande volume de Cantigas_, e +_outros livros_" citados na carta, existiam em casa de D. Mecia de +Cisneros por que provinham de Garcilasso de la Vega, e de Pero +Gonzales de Mendoza, como claramente o affirma Amador de los Rios: +"passo su infancia en casa Doa Mencia de Cisneros, su abuela, donde +hubo de aficionar-se la lectura de los poetas en los codices que +poseyeron Garcilasso de de la Vega y Pero Gonzales de Mendoza..."[3] +Garcilasso de la Vega, bisav do Marquez, morrera em 1351, e esta +data, e as suas relaes de parentesco com a aristocracia portugueza +explicam como a elle ou a Pedro Gonzales de Mendoza chegou o volume +das cantigas. Portanto esse grande cancioneiro no existia em Hespanha +antes poucos annos de 1351 e foi pouco antes de 1418 que o joven +Marquez de Santillana o consultou. Pedro Gonzales de Mendoza era +tambem poeta do crte de Don Pedro e de Don Enrique (Amador de los +Rios, _op.cit._, p. 623), e isto mostra o interesse que o levaria pelo +seu lado a conservar o grande cancioneiro portuguez. + +A descripo que faz o Marquez de Santillana d'esse codice, coincide +com o que existe na Bibliotheca do Vaticano em copia do seculo XVI: +_"un grande volume de Cantigas serranas e dizeres portuguezes e +gallegos"_. So ao todo mil duzentas e cinco cantigas compostas no +genero descripto por Santillana, e os poetas so em grande numero +galegos. Em seguida accrescenta: _"dos quaes a maior parte eram do rei +D. Diniz de Portugal"_. Effectivamente o trovador que mais canes +appresenta no codice da Vatcana el-rei D. Diniz, cujas composies +esto compiladas entre o numero 80 e 208, sendo ao todo cento e vinte +nove. Accrescenta mais o Marquez de Santillana: _"cujas obras aquelles +que as liam, louvavam de invenes subtis, e de graciosas e doces +palavras"_. Esta affirmao, sobendo-se que o Marquez escreve sobre +uma recordao da sua infancia, no podia resultar se no dos gabos +ouvidos a Pero Gonzales de Mendoza, poeta do Cancioneiro de Baena, +gabos que fizeram com que o livro se conservasse em casa de D. Mecia +de Cisneros, e d'onde se tirara por ventura essa outra copia que hje +existe em poder de um grande de Hespanha, segundo uma affirmao de +Varnhagem. N'esta mesma carta ao Condestavel de Portugal, allude o +Marquez aos talentos poeticos de seu av e cita varias das suas +composies: _"E Pero Gonzales de Mendoza, meu av, fez boas +canes"_. Crmos que por esta via que o cancioneiro foi copiado +para Castella, copiado dizemos ns porque se conforma com um grande +cancioneiro j organisado, de que o de Roma um apographo terciario. +O Marquez de Santillana cita de memoria os principaes trovadores que +vira transcriptos n'essa vasta colleco: "Havia outras (sc. canes) +de _Joham Soares de Paiva_, o qual se diz que morrera em Galiza por +amores de uma infanta de Portugal; e de outro _Ferrant Gonalves de +Senabria"_. Pela referencia a estes dois trovadores se v qual o +estado do cancioneiro manuscripto ou volume de Cantigas de D. Mecia de +Cisneros. No apographo da Vaticana se acha uma cano de _Joo Soares +de Paiva_, quasi no fim da colleco, (n. 937) ao passo que no +cancioneiro que pertenceu a Colocci e de que apenas resta o indice dos +trovadores (cod. vat. n. 3217) se acha logo sob o numero 23 o nome de +_Joo Soares de Paiva_ com sete canes successivas. Em seguida a este +trovador cita _Ferrant Gonalves de Senabria_, porem no Codice de +Colocci acha-se sob o numero 384 citado _Gonalves de Seaura_ com dez +canes a seguir. Isto concorda com a phrase do Marquez, referindo-se +a essas canes: "Havia outras....." O motivo d'esta referencia +especial seria por ter este trovador o apellido de _Gonalves_, de seu +av, e por isso ainda pertencente sua linhagem. No Codice da +Vaticana agora publicado, acha-se um fragmento de canes de _Ferno +Gonalvis_, e s sob o numero 338 outra cano de _Ferno Gonalves de +Seavra_, a qual corresponde segundo Monaci ao numero 737 do Codice +perdido de Colocci. + +Portanto, o Cancioneiro de D. Mecia de Cisneros era completo pelo que +se deduz da citao d'estes dois trovadores, cujas obras se achavam +antes da folha 42 do actual Codice Vaticano, na qual comea. No +Cancioneiro de Colocci, em vez de _cento e vinte nove_ canes, el-rei +Dom Diniz representado com _setenta e outo;_ mas ainda assim era uma +grande colleco para o Marquez poder dizer d'ella em relao ao +volume das Cantigas _uma maior parte_. Em seguida a estas preciosas +referencias cita tambem na sua carta _Vasco Peres de Cames_, poeta do +Cancioneiro de Baena e contemporaneo de Pedro Gonalves de Mendoza por +cuja via seria conhecido em casa de Dona Mecia de Cisneros, e pelos +eruditos que tinham o cuidado da educao do Marquez. Por ultimo, +infere-se que o Codice de D. Mecia era uma copia castelhana, por que +transcreve o nome de _Ferno_ em _Ferrant_, e o de _Seavra_ em +_Senabria_, o que se no pode attribuir a vicio de ortographia do +Marquez de Santillana. Estes topicos bastam para considerar a copia de +D. Mecia mais proxima do texto autographo do que a da Vaticana. + + + + +5. Cancioneiro de Angelo Colocci. (_Catalogo di Autori portoghesi +compilato da Angelo Colocci sopra un antico Canzoniere oggi ignoto._ +Ms. 3217 da Bibl. Vat.) + + +O illustre editor Ernesto Monaci ao estudar o manuscripto do +Cancioneiro da Bibliotheca do Vaticano, n. 4803, pelas referencias do +texto e paginao de um outro codice ali intercalladas, reconheceu que +deveriam ter existido duas fontes para este apographo. Nas suas +investigaes na opulenta Bibliotheca do Vaticano teve a felicidade de +descobrir o Catalogo dos Trovadores portuguezes no manuscripto 3217, o +qual combina na maior parte com o dos Trovadores do Cancioneiro n. +4803, sendo as emendas d'este ultimo codice da mesma letra do indice +escripto pelo philologo Angelo Colocci, erudito italiano do seculo +XVI. certo que o Cancioneiro da Vaticana pertenceu primeiramente a +Colocci antes de vir a ser propriedade da Bibliotheca vaticana; +Colocci era um d'esses distinctos eruditos italianos do fim do seculo +XV, que colligiram manuscriptos de todos os paizes e cuja opulencia se +distinguia pela formao de ricas livrarias, taes como Leo X, Bembo, +Orsini, e outros tantos. Colocci morreu em 1549, tendo a sua livraria +soffrido bastante no saque de Roma pelo Condestavel de Bourbon em +1527. Por tanto, entre estas duas datas que se teria perdido esse +grande cancioneiro, do qual apenas resta o _Catalogo dos Autores +portuguezes_, e que a Bibliotheca do Vaticano adquirira o cancioneiro +n. 4803, apographo de um outro perdido, mas emendado pela mo de +Colocci sobre o exemplar hoje representado unicamente pelo indice. + +Antes de examinar qual a riqueza da Livraria de Colocci em +manuscriptos portuguezes, surge a questo mais difficil de resolver: +Como vieram estes varios cancioneiros portuguezes para as Livrarias +italianas? + +Sabe-se que os pontifices mais instruidos mandavam procurar em todos +os paizes os mais preciosos manuscriptos; de Leo X escreve Ginguen: +"No poupava despezas nem rodeios junto das potencias estrangeiras +para fazer procurar nos paizes mais remotos e at nos estados do norte +_livros antigos ainda ineditos_."[4] O modo como estes rodeios eram +efficazes, explica-se pela prohibio de certos livros e pela +instituio da censura, que j no sculo XV se exercia em Hespanha e +em Portugal, como vmos pelo _Leal Conselheiro_ de El-rei D. Duarte. +Os livros eram entregues auctoridade ecclesiastica para serem +examinados, e sob qualquer pretexto de escrupulo no eram mais +restituidos. Basta vr a quantidade de canes obscenas e irreligiosas +que o Cancioneiro portuguez da Vaticana encerra para se conhecer como +veiu a car na mo da auctoridade ecclesiastica e como sob ordem +superior esse _livro antigo ainda inedito_ foi remettido para Roma. +Alem d'isto, a paixo pela Renascena da antiguidade, que comeou no +seculo XV, fez com que nos diversos paizes decasse repentinamente o +amor pelos seu monumentos nacionaes. D'esta falta de amor pelo proprio +passado proveiu para Portugal a perda de muitos manuscriptos, como o +da novella _Amadis de Gaula_, de muitos cancioneiros manuaes, como +relata Faria e Sousa, pelo que dizia o Dr. Joo de Barros no principio +do seculo XVI, que estas cousas se secavam nas nossas mos. D'esta +falta de estima pelos monumentos nacionaes, veiu o dispersarem-se +pelas bibliothecas da Europa muitos thezouros da nossa litteratura, +como se prova pela existencia da _Demanda do santo Greal_ na +bibliotheca de Vienna, dos livros de Valentim Fernandes na bibliotheca +de Munich, do _Leal Conselheiro_ de D. Duarte, _Chronica de Guiv_ de +Azurara, e _Historia geral de Hespanha_ na bibliotheca de Paris, do +_Roteiro_ de D. Joo de Castro no Museu britanico, e do _Cancioneiro +do Conde de Marialva_, da _Satyra de infelice vida_ do Condestavel de +Portugal em Madrid. A saida do grande Cancioneiro de Portugal pertence +a esta forte corrente de disperso. No fim do seculo XV alguns +portuguezes eruditos se distinguiam na Europa pelas suas riquezas +litterarias; em uma _Memria sobre as relaes que existiam +antigamente entre os flamengos de Flandres, especialmente os de Bruges +e os Portuguezes_, cita-se: "Joo Vasques, natural de Portugal, +mordomo de D. Isabel de Portugal, Duqueza de Borgonha:--Vasques +possua uma Bibliotheca, ou pelo menos diversos manuscriptos de +valor."[5] Entre esses livros figuravam _Histoire de Troie la grant_, +e alguns tinham as armas de Portugal na encadernao, como o velino +_Horae beatae Mariae Virginis_. Tambem no seculo XV figuravam no +estrangeiro os eruditos Diogo Affonso de Mangaancha, Vasco Fernandes +de Lucena, Achilles Estao, e outros muitos amadores bibliophilos. +Cuidava-se em comprar livros impressos, por meio das Feitorias +portuguezas, mas os manuscriptos sobre tudo os da litteratura medieval +perdiam-se com a mais censuravel incuria. Sabe-se por uma carta de +Joo Rodrigues de S dirigida a Damio de Goes, que el-rei D. Affonso +V mandou vir de Italia Frei Justo, a quem fez bispo de Ceuta, com o +fim de escrever em latim a historia dos antigos reis de Portugal, e +que todos os documentos que lhe foram entregues se perderam na sua +mo, por ter repentinamente fallecido da peste. natural que estes +subsidios historicos constassem tambem de varios cancioneiros, por que +a poesia fra um facto importante nas crtes de D. Affonso III, D. +Diniz e D. Affonso IV; alem d'isso o espolio d'este bispo italiano +seria arrecadado pela auctoridade ecclesiastica e remettido para Roma. +Por todos estes factos parece justificar-se a hypothese de existir na +bibliotheca do Vaticano, antes do saque de Roma em 1527, um d'esses +cancioneiros portuguezes, e que d'a se dispersaram por essa causa: "A +bibliotheca do Vaticano, to liberalmente enriquecida por Leo X, foi +saqueada; os livros mais preciosos foram preza de um furor ignorante e +barbaro, como os da bibliotheca dos Medicis em Florena."[6] Pelo +codice 4803, publicado por Monaci, se v que este Cancioneiro foi +copiado de um outro cancioneiro ja bastante truncado, como observou o +critico editor pelas siglas antigas: _"Manca da fol. II infino a fol. +43"_; e na pagina 10: _"Fol. 97 desunt multa"_; e pela ultima pagina, +na qual se v que ficou interrompida a copia. + +Alem d'esta deduco, tira-se uma outra, isto , que o Codice 4803 foi +comparado por Colocci com um outro mais rico e completo do qual s +resta agora o _catalogo dos trovadores_. Os biographos de Colocci +tambem consignam o facto de parte da sua opulenta bibliotheca ter sido +destruida no saque de Roma, em 1527. Este philologo italiano possuia +um decidido gosto pela poesia vulgar italiana, e conhecia a +importancia do estudo das litteraturas novolatinas, como se v pelo +interesse com que procurava as Canes de Foulques de Marseille, e +pela posse de varios codices com os titulos _Libro spagnolo di +Romanze_, e _De varie Romanze volgare_, por ventura alguns d'elles +provenientes da acquisio de manuscriptos das colleces de Bembo e +de Orsini; seria algum d'estes livros o Cancioneiro da Vaticana, ou +esse outro cancioneiro de que apenas resta o catalogo dos auctores. +N'este catalogo precioso descoberto por Monaci, sob o numero 44-- +_Bonifaz de Jenoa_ segue-se esta referencia a manuscriptos de Bembo: +_"vide bembo Ms. bonifazio Calvo de Genoa."_ E sob o numero 456--_il +Rey don Affonso de Leon_, segue-se esta nota: _"bembo, dice di Ragona, +figlio di Berenghieri."_ A variante do Codice de Bembo _di Ragona_ +seria _d'Aragone_ em vez de _Leon_, isto , um dos codices parciaes d' +onde se formou o grande cancioneiro parece fixar-se por esta +circumstancia. Sob este mesmo numero segue-se: _"Alia lectio i +Portugal, rey Don Sancho deponit."_ Quer esta observao de Colocci +significar, que este rei D. Affonso em outro codice citado como rey +de Portugal, o que depoz D. Sancho, facto que caracterisa el-rei Dom +Affonso III, que depoz seu irmo D. Sancho II. N'este caso este +monarcha tambem fra trovador, o Colocci possuia algum cancioneiro +parcial. No mesmo Indice dos Trovadores, sob o numero 467 onde se +continha as canes de El-rei Dom Affonso rei de Castella e de Leo, +accrescenta-se: _"vide nel mio lemosino"_, no qual se attribuem as +mesmas cantigas de preferencia ao rei de Leo, isto , em harmonia com +o titulo _di Ragona_, do numero 456. Em uma outra nota que o illustre +Monaci achou no Codice n. 4817, de letra d'este erudito, se acha a +seguinte referencia a um codice portuguez: _"Messer Octaviano di +messer barbarino, ha il_ libro di portoghesi, _quel da_ Ribera _l'ha +lassato."_ Sabendo-se pela bibliographia, que o manuscripto da _Menina +e Moa_ de Bernardim Ribeiro, foi na primeira metade do seculo XVI +levado para a Italia, imprimindo-se em Ferrara em 1544, cinco annos +antes da morte de Colocci, parece que a phrase _quel_ (libro) _da +Ribera_ se refere a esta novella portugueza. Seria por este tempo que +o cancioneiro portuguez se tornou conhecido em Roma, como d noticia +Duarte Nunes de Leo, nas palavras _"que em Roma se achou"_, mas sem +dizer que j pertencia Bibliotheca do Vaticano. A epoca em que este +codice entrou n'esta rica bibliotheca pode fixar-se depois de anno de +1600, por que os livros e manuscriptos de Colocci foram adquiridos +pelo erudito Fulvio Orsini, que os deixou em testamento Vaticana.[7] +Esta a opinio de Monaci; no concordamos porm com a sua +interpretao do trecho de Duarte Nunes de Leo quando este escriptor +portuguez diz: "segundo vimos por um cancioneiro seu, que em Roma se +achou, em tempo de el-rei Dom Joo III..." deduzindo que Nunes de Leo +chegara _a vr_ esse cancioneiro; em primeiro logar, Nunes de Leo +refere-se a um _Cancioneiro seu_, isto unicamente de el-rei Dom +Diniz, e no geral, como o de que resta noticia pelo Indice de Colocci +e pelo apographo da Vaticana; isto j uma prova da informao vaga +do chronista, e alem d'isso a phrase _segundo vimos_, significa: como +se prova, como se deduz. Nunes de Leo conhecia o codice das canes +de D. Diniz que no principio de sculo XVII se guardava na Torre do +Tombo, como elle diz: _"e per outro que est na Torre do Tombo..."_ ou +talvez pelo que pertencia aos Freires de Christo, de Thomar. Vivendo +no meado do seculo XVII, j o cancioneiro grande havia sido recebido +na Bibliotheca do Vaticano e poderia ter noticia da existencia do +Codice; porm o chronista refere-se principalmente a um _Cancioneiro +de Dom Diniz_, e as referencias de S de Miranda, de Ferreira e de +Cames so unicamente aos talentos poeticos de D. Diniz. Como chegou a +Portugal noticia do apparecimento em Roma? S de Miranda demorou-se na +sua viagem Italia, entre 1521 e 1526, e conviveu com os principaes +eruditos italianos, Lactancio Tolomei e Joo Ruscula, e dava-se tambem +por parente da casa dos Colonas; possvel que, regressando a +Portugal en 1526, quando havia j cinco annos que D. Joo III reinava, +dsse a noticia da descoberta de um cancioneiro em Roma, quando +visitara as principaes livrarias; o facto dos poetas da eschola +italiana alludirem ao talento poetico de D. Diniz, leva a induzir esta +noticia como communicada pelo que trouxe a Portugal esse novo gosto +litterario. + +Em 1527 foi o saque de Roma, e a livraria de Colocci tambem soffreu +com essa devastao; por ventura algum dos cancioneiros acima citados +se perdeu, ou foi talvez adquirido algum d'entre os livros roubados +por esta occasio da Vaticana. de presumir que o _Libro di +Portoghesi_ fosse o Cancioneiro de que s resta o Indice, e sendo +assim, perder-se-hia em poder de Messer Octaviano de messer Barbarino; +se o libro _da Ribera_ o manuscripto de Bernardim Ribeiro, impresso +mais tarde em Ferrara, ento pode fixar-se a perda do Cancioneiro +n'esse mesmo anno em que morreu Colocci. O inventario dos seus livros, +feito a 27 de Outobro de 1558, nove annos depois da sua morte, +explica-nos como os livros que estavam emprestados ficaram perdidos. +Pelo Indice d'este Cancioneiro, achado por Monaci, v-se que elle +constava de mil seiscentas e setenta e cinco canes, mais quatro +centas e setenta, omissas no apographo da Vaticana, hoje publicado. + + + + +6. Il Canzoniere portoghese della Bibliotheca Vaticana, n. 4803. +Messo a stampa de Ernesto Monaci. Halle, 1875. + + +Desde 1847, que o brasileiro Lopes de Moura publicou em Paris um +excerpto do grande Cancioneiro portuguez da Vaticana, contendo as +canes de el-rei Dom Diniz. Como se veiu a conhecer a existencia +d'este precioso codice em Roma? Desde o principio do seculo XVII que +elle entrara na Bibliotheca do Vaticano pela doao dos livros de +Fulvio Orsini; no seculo XVIII, segundo Varnhagem, era citado por um +bibliophilo hespanhol junto com outros codices de poesias catalans e +valencianas; o facto de existir com encadernao moderna e com a +insignia papal de Pio VII (1800--1823) explica-se pela reparao e ao +mesmo tempo pelo interesse que houve em conservar o cancioneiro +formado de cadernos differentes e incompletos, e escriptos com tinta +corrosiva que o pulverisa. Wolf, por interveno do slavista Kopitar, +mandou fazer as primeiras investigaes no Vaticano para descobrir +este codice de que tinha vago conhecimento pela vaga alluso de Nunes +de Leo; foram infructuosas as tentativas; o visconde da Carreira, +embaixador em Roma, avisado por um franciscano (por ventura o P. +Roquete, como se sabe pelo prologo da edio de Moura) conseguiu a +copia da parte publicada em Paris por Aillaud. Desde 1847 at hoje, +nunca o governo portuguez, nem a Academia real das Sciencias +comprehenderam o valor d'este monumento. A reproduco das nossas +riquezas litterarias tm sido sempre feita por estrangeiros, e a +publicao d'este importantissimo cancioneiro foi agora realisada por +um rapaz desajudado de subsidios academicos, mas animado pelo amor da +sciencia. A edio feita em Halle, appresenta todo o rigor +diplomatico, de modo que os erros do copista italiano do seculo XVI +podem restituir-se leitura do portuguez do codice primitivo; apesar +d'este subsidio, Monaci tentou com um seguro tino critico uma tabella +dos principaes erros systematicos, e um indice das necessarias +restituies que se podem fazer em cada cano; em fim, tudo quanto +preciso para a intelligencia do texto, existe ali. Monaci conservou a +disposio do manuscripto na reproduco typographica, j a uma ou a +duas columnas, com todos os vestigios das differentes numeraes e +siglas referentes a outros codices analogos e mais antigos. Pelo seu +prologo, de uma preciso rigorosa, se v toda a historia externa do +Cancioneiro. O Codice da Vaticana est em papel de linho, com trez +marcas de agua differentes, tal como se empregava nas edies do +Varisco; a letra italiana, tal como a dos documentos do fim do +seculo XV e principio do seculo XVI, proveniente de dois copistas, um +que escreveu as poesias, algumas rubricas e notas, outro a maior parte +dos nomes, as numeraes e algumas postillas, contando ao todo 210 +folhas. Da descripo d'este cancioneiro conclue-se, pelo estado em +que se acha, que outro ou outros cancioneiros foram n'elle copiados ou +confrontados. A primeira nota que se depara ao abril-o : "_Manca da +fol. IJ a fol. 43_;" isto quer dizer, que o cancioneiro foi copiado de +um outro codice que j se achava assim fragmentado, mas que mais tarde +foi confrontado com outro que estava completo, como veremos na relao +com o Indice de Colocci. + +Ao comear o texto acha-se outra referencia: "_A fogli 90_" e segue-se +a cano de Ferno Gonalves, o que parece significar, que n'este +cancioneiro existia outra disposio das poesias qual se refere este +numero, que contina a cotar successivamente outras canes, +entremeiando-se com numeros romanos, que parecem estabelecer +referencia a outro cancioneiro. Separemos estas duas ordens de +numeros, por onde deduzimos o confronto com dois cancioneiros; para se +localisar melhor a referencia que era de folhas e verso, indicaremos a +numerao actual das canes: Fol. 91 (canc. 8), 92 (can. 11); _Fol. +97 desunt multa_ (can. 43 fine); junto da cano 61, vem a sigla +_Desunt_; junto da 63 vem _car_. 106; junto da cano 299: _"Fol. 141 +Al vo"_ (del volumen?); junto da cano 507 vem: "173 _a tergo"_ e +algumas canes com dois nomes de auctores, como _Martin Campina_ ou +_Pero Meogo_, como forme a attribuio de um ou outro texto (canc. +796.). Por fim termina com esta outra rubrica: _"A fol. 290 +cominciata una Rubrica e non finita di copiare"_. Tudo isto prova, +que se fez o confronto d'este apographo existente cum um codice mais +completo, seguindo-se o confronto at folha 300 d'esse codice +perdido. + +O confronto do Codice por meio da numerao romana no prosegue at ao +fim; apenas se acha LXXXVJ junto da cano 4; LXXXVIIJ junto da Cano +14; LXXXVIIIJ junto da cano 26 _fine;_ XCVJ junto da cano 39 a 45; +XCVIIJ coincide com a referencia anterior, junto da cano 49; XCVIIIJ + cano 55; CXII 62; CXIIIJ cano 70; CXVIJ cano 77. Esta +numerao romana adianta-se aqui mais do que a arabe, signal de que +havia divergencia entre os dois codices que serviam para confrontao +com o apographo publicado. certo porem, que a numerao romana +termina antes do corpo das canes de el-rei Dom Diniz, d'onde se +poder inferir, que at esta parte contribuiu um cancioneiro parcial, +e que de Dom Diniz s entrava no que era numerado em algarismos. Que +existiam diversos cancioneiros, pelas mesmas canes d'este codice se +pode conhecer, como pela cano de D. Affonso de Castella (can. 76) +em que allude ao _Livro dos Sons_, que era um cancioneiro com que o +Dayo de Cales seduzia as mulheres. Na sua edio Monaci deixou +apontados em um indice fundamental todas as canes repetidas no +cancioneiro, ou aquellas que mutuamente se plagiavam. Da sua +comparao se podem tirar poderosas induces, para se estabelecer +quantos pequenos cancioneiros haviam servido para formarem o +cancioneiro grande, do qual o apographo publicado uma copia. o que +vamos tentar. + +_Pequenos Cancioneiros que entraram na formao do Cancioneiro da +Vaticano_.--A cano 4, de _Sancho Sanches_, apparece repetida com +mais duas estrophes e assignada por _Pero da Ponte_, sob o numero 569; +a 2 e 3 strophes da verso de Pero da Ponte, faltam na cano de +Sancho Sanches. As strophes communs tm as seguintes variantes: + + _Sazom foi j_, que me teve em desdem (n. 4) + _Tal sazom foi_, que me teve em desdem (n. 569). + + _Que com' mais j'agora_ seu amor (n. 4) + _Quando me mays forava_ seu amor. (n. 569). + + E ora _j_ que pes'a mha senhor (n. 4) + E ora _mal_ que pes'a mha senhor (n. 569). + +Evidentemente estas duas canes foram colligidas de dois cancioneiros +parciaes, e elles mesmos escriptos em grande parte de memoria. + +A cano 13, de Mem Rodrigues Tenoyro, tm apenas uma estrophe, mas +repete-se sob o numero 319 com o nome do mesmo trovador e com mais +duas estrophes que a completam. Deve attribuir-se essa divergencia ao +ter sido colligida de dois cancioneiros, formado por diversos +collecctores. + +A cano 29, assignada por Joo de Guilhade, repete-se sob o numero 38 +com o nome do trovador Stevam Froyam; existem entre ellas leves +variantes, mas como esto immensamente deturpadas, s pelos dois +textos se reconstruem. Por este facto se v, que houve compilao de +dois cancioneiros, e que o copista mal percebia a letra e fazia +seleco das canes. + +A cano 116 e 174, do cancioneiro de Dom Diniz, so uma e mesma, +havendo entre estes dois numeros _variantes_, e sobretudo a 2 e 3 +estrophe alternadas. No proviria isto dos originaes, escriptos por +esmerados copistas, que se guardaram na Bibliotheca de el-rei Dom +Duarte; este facto prova-nos, que o corpo das canes de Dom Diniz, +que na colleco Vaticana occupa dos n.'os 80 at 208 proveiu de +copias avulsas de differentes palacianos, e talvez do proprio Conde D. +Pedro. + +A cano 241, do trovador Payo Soares, apparece com o numero 413 +repetida sob o nome de Affonso Eanes de Coton (Cordu); tem apenas uma +rapida variante ortographica, mas tanto o facto da repetio, como o +da attribuio a dois trovadores differentes accusam duas collees +parciaes. + +A canes 457 e 469 pertencem a Ayres Nunes Clerigo e so uma unica, +com a differena que as trez strophes de que constam, tem os versos +baralhados sem systema; o que se explica pelo caracter jogralesco, +isto , que foram duas vezes colligidas no tempo em que eram cantadas +a caprixo de Ayres Nunes ou de qualquer outro jogral, que as sabia de +cr; ou ento, que provieram de dois cancioneiros onde as duas canes +se differenciavam pela razo acima indicada. + +A sirvente 472 de Martim Moxa apparece sob o numero 1036, em nome de +Loureno, jograr de Sarria, com variantes fundamentaes, que provam +compilao de dois cancioneiros diversos. O caracter sirventesco fez +talvez que varios jograes regeitassem a paternidade d'essa cano que +verbera os privados da crte de D. Affonso III. + +O numero 613 e 639 so uma mesma cano de Joo Ayres, burguez de +Santiago; abundam as variantes entre estas duas composies, signal de +que provieram de duas copias resultantes da monomania dos cancioneiros +particulares. E sob o nome d'este mesmo trovador andam as duas canes +repetidas 634 e 138, tendo esta ultima alem das variantes mais uma +estrophe e um Cabo. + +Em nome do jogral Joo Servando apparecem repetidas as canes 738 e +749 com variantes fundamentaes entre si: + + Ora vou a Sam Servando, + donas, fazer romaria, + e nom me leixam com elas + hir, c logo al hiria + por que vem hy meu amigo. (738) + + Donas vam a Sam Servando + muytas hoje em romaria, + mais nom quiz oje mha madre + que foss' eu hi este dia + por que vem hy meu amigo. (749) + +As outras variantes nas demais strophes so menos reparaveis, mas no +numero 738 ha uma strophe a mais. A pequena distancia a que ficam uma +da outra estas canes, provam-nos que o copista italiano transcreveu +materialmente uma compilao j formada; e por tanto tudo quanto se +pode concluir sobre estas canes identicas liga-se formao d'esse +cancioneiro perdido d'onde se trasladou o codice da Vaticana. + +Dois casos especiaes se davam n'essa formao do antigo cancioneiro: +1 ou as canes se attribuiam na repetio a dois trovadores +differentes taes como Sancho Sanches e Pero da Ponte, Joo de Guilhade +e Stevam Froyam, Pay Soares e Affonso Eanes do Cotom, Martim Moxa e +Lourenco Jograr; 2 ou se repetiam em nome do mesmo trovador, como Mem +Rodrigues Tenoyro, el-rei D. Diniz, Ayres Nunes Clerigo, Joo Ayres, e +Joo Servando. Para o primeiro caso conclue-se que contribuiram para a +formao do grande cancioneiro pequenos cancioneiros trasladados de +cantares dispersos, por curiosidade, ou tambem apanhados na corrente +oral, porque um s collector notaria os plagiatos. Para o segundo caso +poderiam os jograes terem contribuido com os seus cadernos de cantos e +assim com lies differentes de um mesmo texto que se alterava pelas +continuadas repeties. + +De todo este confronto se conhece a necessidade de estabelecer por +todos os meios possiveis s relaes entre este apographo da Vaticana +e os dois cancioneiros de Colocci, perdido, e o da Ajuda. + + + + +_Relaes do Cancioneiro da Vaticana com o Cancioneiro de Angelo +Colocci_.--Antes de Monaci haver descoberto no Ms. n. 3217 o Indice +do Cancioneiro perdido do erudito quinhentista italiano Angelo +Colocci, ja elle determinara pela forma por que est escripto o +Cancioneiro da Vaticana, que deveria ter existido um original mais +antigo e mais completo. A descoberta do Indice veiu authenticar a +existencia d'esse Cancioneiro perdido e explicar pela letra do proprio +Colocci, quem que tinha feito o confronto. O illustre Monaci +comprehendeu logo quanto util seria para a critica o comparar a lista +dos trovadores do Cancioneiro perdido com a dos trovadores do +Cancioneiro existente (Appendice I, p. XIX a XXIV); por uma simples +inspeco fica o leitor habilitado a conhecer as profundas relaes +entre os dois cancioneiros; o de Colocci continha mil seis centas e +setenta e cinco canes, e o da Vaticana contem mil duzentas e cinco, +isto , quatrocentas e setenta canes a menos, por ventura as que +occupavam at a _fol_. 90. O numero das canes de cada trovador pode +tambem ser confrontado, porque no Codice de Colocci as canes de +Colocci eram numeradas por algarismos e cada nome de trovador +precedido pelo numero que limita as canes do antecedente. Assim, +como j acima vimos, as canes de D. Diniz so no Codice da Vaticana +cincoenta e uma a mais do que no de Colocci. Apezar d'isso as notas +_desunt multa_ provam-nos que o Cancioneiro de Colocci era muito mais +rico, como se v pelos nomes dos seguintes trovadores que faltam no da +Vaticana: + +Diego Moniz, que tinha ali uma cano; Pero Paes Bazoco, com sete +canes; Joo Velaz, Dom Juano; Pero Rodrigues de Palmeyra; Dom +Rodrigo Dias dos Conveyros; Ayres Soares; Osorio Annes; Nuno Fernandes +de Mira-Peixe; Fernam Figueiredo de Lemos; Dom Gil Sanches; Ruy Gomes +o Freyre; Joo Soares Fomesso; Nuno Eanes Cerzeo; Pero Velho de +Taveirs; Pay Soares de Taveirs; Fernam Garcia Esgaravunha, do qual +existiam dezessete canes; Joo Coelho; Pero Montaldo; duas canes +do trovador genovez Bonifacio Calvo; o Conde D. Gonalo Garcia; Dom +Garcia Mendes de Eixo; El rei Dom Affonso IV, filho de el-rei D. +Diniz, com quatro canes. No Codice de Colocci, as canes de D. +Diniz no estavam em um corpo isolado, apresentando mais quatro +composies destacadas no fim do cancioneiro. Esta parte tambem +omissa no Cancioneiro da Vaticana, por que a se encontram outra vez +trovadores dos supracitados, como Joo Garcia, D. Fernam Garcia +Esgaravunha, Pero Mastaldo, Gil Peres Conde, Dom Ruy Gomes de +Briteiros, Fernam Soares de Quiones, etc. Pelo confronto do Indice de +Colocci se conhece, que embora se sigam ao texto do Cancioneiro da +Vaticana quatorze folhas em branco, nem por isso ficou muito distante +do fim, por que s deixaram de ser copiadas algumas sirventes de +Julio Bolseyro. D' este confronto se conclue: 1. que o codice d'onde +se extrau a copia da Vaticana differia no numero das canes e na sua +disposio do de Colocci; 2. que as relaes mutuas accusam fontes +communs, mas colleccionao arbitraria no agrupamento dos differentes +cancioneiros parciaes. + +_Relaes do Cancioneiro da Vaticana com o Cancioneiro da Ajuda_. -- +Lopes de Moura foi o primeiro que encontrou na colleco da Vaticana a +cano de Joo Vasques, _Muyt'ando triste no meu coraom_, que existe +anonyma no Cancioneiro da Ajuda. Logo depois, Varnhagem achou mais +quarenta e nove canes communs aos dois codices, e ns mesmo ainda +viemos a encontrar mais seis canes repetidas. So ao todo cincoenta +e seis canes communs, facto importante para estabelecer as relaes, +que existiram entre os dois cancioneiros. Em primeiro logar, o +Cancioneiro da Vaticana foi j copiado de um codice truncado, como por +exemplo: a cano 43 tem a rubrica final: _"Fol.97 desunt multa"_ e a +cano seguinte est truncada no principio; porem estas canes de +Joo Vasques completam-se pelo Cancioneiro da Ajuda, cano n. 272 e +273 (ed. _Trovas e Cantares_). Isto prova, que embora o Cancioneiro da +Ajuda esteja truncado e por seu turno se complete com algumas canes +do codice de Roma (_y_, das _Trovas_ == n. 38, _Canc. da Vat._) ambos +provieram de fontes differentes, porque tambem nas cincoenta e seis +canes communs existem notaveis variantes: + + _Nostro senhor_, que lhe bom prez foi dar. (Vatic.) + _Deus_ que lhe _mui_ bom _parecer_ foi dar. (Ajuda) + +N'esta variante o original do codice vaticano mostra-se mais archaico +na linguagem. Na cano 46, de Ferno Velho (no codice da Ajuda, n. +92) no primeiro verso da 2 strophe vem uma variante que denota erro +do copista portuguez conservado inconscientemente pelo antigo copista +italiano: + + E _mha_ senhor fremosa de bom _parecer_ (Vatic.) + E _mia_ senhor fremosa de bom _prez._ (Ajud.) + +_Prez_ uma contraco de _preo_, e d'aqui resultou que o copista +portuguez traduziu inconscientemente; como organisado no pao, o +Cancioneiro da Ajuda seria formado directamente da contribuio dos +muitos trovadores que o frequentavam; o Cancioneiro de Roma era j +derivado de um apographo secundario, truncado no principio, meio e +fim, e em certos pontos mais archaico. + +Na cano 47 da Vaticana (93 da Ajuda) pertencente a Ferno Velho, +vem: + + Quant' eu, _mha senhor, de vs_ receei... (Vatic.) + Quant' eu _de vs, mia senhor_ receei (Ajud.) + + E vos dix'o _mui_ grand'amor que ei (Vatic.) + E vos dix'o grande amor que _vs_ ei (Ajud.) + +A cano 48 da Vaticana, apesar das imperfeies da copia italiana, +pode ser reconstruida pelo typo strophico, porem a n. 94 da Ajuda +ficou incompleta: + + _Lio da Ajuda: Lio da Vaticana:_ + + E mal dia naci, senhor, E mal dia naci, senhor, + Pois que m'eu d'u vs sodes, vou; pois que m'eu d'u vos sodes, vou; + Ca mui bem sou sabedor ca mui bem som sabedor + Que morrerei u nom jaz al; que morrerey hu nom ey al; + Pois que m'eu d'u vs sodes, vou. poys que m'eu d'u vos sodes, vou, + ............. pois que de vos ei a partir _por mal._ + + ............. E logo hu m'eu de vs partir + ............. morrerey se me deus nom val. + +A cano 53 da Vaticana (Ajuda, n. 99), tem uma strophe mais +imperfeita do que no codice da Ajuda; mas en compensao tem o _Cabo_, +que falta no codice portuguez: + + _Ajuda: Vaticana:_ + + Meus amigos, muito me praz.... Meus amigos muyto mi praz _d'amor._ + C bem pode partir da mayor Ca bem me pode partir da mayor + Coita de quantas eu oy falar, coyta de quantas eu oy falar, + De que eu fuy muyt'_y_ a soffredor; do que eu fuy muyt'ha sofredor + Esto sabe deus, que me foy mostrar _e sabe deus hu a vi bem falar_ + Uma dona que eu vi bem falar e parecer, por meu mal, eu o sey. + E parecer por meu mal, e o sei. + ............. Ca poys m'elles nom querem emparar + ............. e me no seu poder querem leixar, + ............. nunca por outra emparado serey. + +A cano 395, de Payo Gomes Charrinho, repetida no cancioneiro da +Ajuda, n. 276, tambem revela duas fontes diversas: + + e nom lh'ousey mays _d'atanto_ dizer (Vatic.) + e nom lh'ousey mais _d'aquesto_ dizer. (Ajud.) + + nem _er cuidey_ que tam bem parecia (Vatic.) + nem _cuidava_ que tambem parecia (Ajud.) + + mays _quand'_eu vi o seu bom parecer (Vatic.) + mais _u_ eu vi o seu bom parecer. (Ajud.) + +No codice da Vaticana tem esta cano apenas trez estrophes; porem no +da Ajuda termina com uma quarta: + + E por esto bem consellaria + quantos oyrem-no seu bem falar + nom a vejam, e podem-se guardar + melhor ca m'end'eu guardei, que morria, + e dixe mal, mais fez-me deus aver + tal ventura, quando a fui veer + que nunca dix'o que dizer queria. (Ajuda) + +Evidentemente as alteraes de linguagem no foram do copista +italiano, porque, comparativamente, a expletiva _er_ mais archaica; +e por tanto a omisso da 4 strophe no foi casual, mas resultante do +estado d'outra fonte. + +A cano 400, da Vaticana, tambem de Payo Gomes Charrinho, tem leves +variantes na cano 278 da Ajuda, mas importantissimas omisses; assim +no Codice de Roma, falta na primeira strophe o verso: + + me quer matar e guaria melhor (Vat.) + +e tambem faltam duas strophes completas com o seu Cabo. + +A cano 428, ainda de Charrinho, tambem no Codice da Ajuda, n. 285 +offerece leves variantes; porem no Codice da Vaticana alternam-se a +segunda com a terceira strophe, e falta este Cabo da lio da Ajuda: + + E entend'eu c me quer a tal bem + em que nom perde, nem gaano en rem. + +A canes 485, 486 e 487 da Vaticana, do trovador Ruy Fernandes, +acham-se nos pequenos fragmentos legiveis nas folhas do Cancioneiro da +Ajuda, que serviram de guardas encadernao do Nobiliario; esses +fragmentos, seguindo a edio do Varnhagem so _m, n, o_; ainda assim +se conhece por elles que existiam divergencias entre os dois codices: + + _Ajuda, (m):_ _Vaticana_, n. 485: + A _guisa_ de vos elevar a _forza_ de vos elevar + Por mia morte nom _aver_. por mha morte nom _aduzer_. + + _Ibid., (n):_ _Ibid._, n. 486: + _Amigos_, comea o meu mal. _Ora_ comea o meu mal. + +As canes de Ferno Padrom, n'os. 563, 564, 565, a que achmos as +analogas nos numeros 126, 127 e 128 do codice da Ajuda, tambem +apresentam variantes. + +As canes n. 566, 567, 568, 569 e 570, que andam em nome de Pero da +Ponte no codice da Vaticana e apparecem anonymas no Cancioneiro da +Ajuda, n'os. 112, 113, 114, 115 e 116 no appresentam mais variantes +que a simples modificao ortographica em _mha_ e _mia_, que poderia +provir das differentes epocas das copias. Esta conformidade entre o +texto da Vaticana e o da Ajuda, leva-nos a concluir que pequenos +cancioneiros entraram na coordenao de um grande cancioneiro, e que +as canes mais conformes so aquellas que andaram em menor numero de +copias antes de se agruparem na colleco geral. + +J com relao s Canes de Vasco Rodrigues de Calvelo, apparecem +variantes e deturpaes que no provm do copista do seculo XVI, mas +de codices diversos ja corruptos; a cano 580 comparada com a 265 da +Ajuda tem uma lio menos pura, incompleta, mas differente: + + _Lio da Ajuda: Lio da Vaticana:_ + Per uma dona que quero gram bem ..... que quero gram bem. + + Com'a mim _fez_; ca des _que eu_ naci Como a mim _faz_; que des _quando_ naci + nunca vi ome _en_ tal coita _viver_ nunca vi ome tal coita _sofrer_ + como eu _vivo_ por melhor bem querer como eu _sofro_ por melhor bem querer + + Com'_a mim fez muy_ coitado d'amor Com'el _faz mim muy_ coitado d'amor. + + +A lio da Ajuda termina com este Cabo, que falta no codice da +Vaticana: + + Com'a mim fez, e nunca me quiz dar + Bem d'essa dona, que me fez amar. + +A cano 581, tambem de Vasco Rodrigues de Calvelo, sob a designao +_e_ da lio da Ajuda (ed. _Trov. e Cant._) alem das mutuas variantes, +tem a 2 e 3 a strophes alternadas: + + E se _soubess'_em qual coyta d'amor (Vatic.) + Se _lh'eu dissess'_em qual coita d'amor (Ajud.) + + per nulha guisa, _pero m'_ey _sabor_ (Vatic.) + Per nulha guisa, _ca_ ey _gram pavor._ (Ajud.) + +De mais no Codice de Roma falta este Cabo: + + Mais de tod'esto nora lhi dig'eu rem, + Nem lh'o direy, c lhe pesar bem. + +Na Cano 582, do mesmo trovador, ha esta divergencia: + + E rogo _sempre_ por mha morte a deus (Vatic.) + Et rogo _muito_ por mia morte a deus (Ajud.) + +Na Cano 584, tambem de Calvelos, falta esta terceira estrophe, que +vem no codice da Ajuda: + + Como vs quiserdes ser + De me fazerdes mal e bem + E pois tod'em vosso sen + Fazed'o que quizerdes j... + +A cano 677, de Pero de Arma, acha-se imitada no codice da Ajuda, +n. 56, por forma que a da Vaticana apresenta um caracter de maior +vulgarisao, e por isso de proveniencia jogralesca: + + _Lio da Ajuda:_ _Lio da Vaticana:_ + + Muitos me veem preguntar, Muytos me veem preguntar, + mia senhor, a quem quero bem; senhor, que lhes diga eu quem + e nom lhes quer end'eu falar est a dona que eu quero bem + com medo de vos pesar en, e com pavor de vos pesar + nem quer'a verdade dizer, nom lhis ouso dizer per rem, + mais jur'e fao lhes creer senhor, que vos quero bem. + mentira, por vos lhe negar. + +Duas canes de Pedro Sols, confrontadas com as do codice da Ajuda, +acabam de separar definitivamente estes dois cancioneiros: + + _Lio da Ajuda_ (n. 123): _Lio da Vaticana_ (n. 824): + + Nom est a de Nogueira _E_ nom est a de Nogueira + A freira, que _mi poder tem;_ a freira que _eu quero bem,_ + Mays _est_ outra _a_ fremosa mays outra mais fremosa + A que me _quer'eu mayor bem;_ _e_ a que _mim em poder tem;_ + E moyro-m'eu pola freira e moir-m'eu pola freira + Mais nom pola de Nogueira. mais nom pola de Nogueira. + ................................................................... + + Se eu a _freira visse o dia _E_ se eu _aquella freyra + O dia que eu quizesse_ hum dia veer podesse_ + Nom ha coita no mundo nom ha coita no mundo + Nem _mingua_ que houvesse nem _pesar_ que _eu_ ouvesse + E moiro-me ... e moyro-me ... + + _Se m' ela mi amasse _E seu aquella freyra + Muy gram dereito faria, veer podess'um dia + C lher quer'eu mui gram bem nenhu coita do mundo + E punh'y mais cada dia;_ nem pesar nom averia_ + E moiro-me ... e moyro-me ... + +Estas duas variantes so elaboraes differentes do mesmo trovador em +epocas diversas, e por tanto os dois cancioneiros provm +effectivamente de duas fontes. A cano 825 da Vaticana, que se acha +sob o numero 124 do Codice da Ajuda, apenas tem a terceira e quarta +estrophes alternadas. O ultimo paradigma entre estes dois +cancioneiros, apresenta uma composio (1061 da Vaticana, 253 da +Ajuda) que pertence a Joo de Gaya, escudeiro da crte de D. Affonso +IV, por onde se fixa no s a epoca da colleccionao do codice de +Lisboa, mas em que a fonte do Codice de Roma nos apparece mais +completa: + + + _Lio da Ajuda:_ _Lio da Vaticana:_ + + Conselho, e quer-_se_ matar Conselho e quer-me matar. + E assi me tormenta amor + de tal coyta, que nunca par + ouv'outr'ome, a meu cuydar, + assy morrerey pecador, + e, senhor, muyto me praz en + que prazer tomades por en + non no dev'eu arrecear. + + E bem o _podedes fazer_ E bem o _devedes saber_, etc. + + +Por todos estes factos se v, que umas vezes o Codice de Roma omisso +com relao ao de Lisboa, o que se poderia impensadamente attribuir a +incuria do copista; esta hypothese no pode ter logar, porque o +Cancioneiro da Ajuda por muitissimas vezes apresenta eguaes omisses. +Por tanto essas cincoenta e seis canes communs aos dois codices, +entraram n'essas respectivas colleces provindo de codices parciaes e +de differente epoca. + +_Relaes do Cancioneiro da Vaticana com o apographo actualmente +possuido por um Grande de Hespanha_. -- No _Cancioneirinho de Trovas +antigas_, Varnhagem d noticia no prologo, de ter encontrado em 1857 +na Livraria de um fidalgo hespanhol um antigo cancioneiro portuguez, +que, pela canes de el-rei D. Diniz que elle continha, lhe suscitou o +procurar as analogias que teria com o Cancioneiro da Vaticana n. +4803; tirou copia do citado Cancioneiro, e em 1858 procedeu em Roma ao +confronto do codice madrileno com o da Vaticana. Comeavam ambas as +copias com a trova de _Ferno Gonalves_, seguindo-se-lhe as duas +canes de _Pero Barroso;_ ambos os codices combinam nos mesmos nomes +de trovadores, na ordem das canes, e em geral nos erros dos +copistas. Poder-se-ha concluir que estes dois apographos se derivam +ambos do mesmo original? No; apezar de Varnhagem no ser mais +explicito na descripo do codice madrileno e guardar no mysterio o +nome do possuidor, comtudo pelas cincoenta composies do +_Cancioneirinho_ se descobrem profundas _variantes_, que se no podem +attribuir a erro de leitura, ainda assim to frequente em Varnhagem. + +Copiamos aqui essas variantes, para que se conclua pela existencia de +um outro codice mais antigo, tambem perdido. Na cano II, a strophe +3 _(Cancioneirinho)_ acha-se assim: + + Os cavalleiros e cidados + d'aqueste rey aviam dizer + e se deviam com sas mos poer + outrosi donas e escudeiros + que perderam a tam bem senhor + de quem poss'eu dizer, sem pavor, + que no ficou dal nos christos. + +Pelo codice de Roma v-se a strophe construida da outro modo: + + Os cavalleiros e cidados + que d' este rey aviam dinheiros + e outrosi donas e escudeiros, + matar se deviam por sas mos ... (Can. n. 708.) + + +Na cano VI, a strophe segunda e terceira _(Cancioneirinho)_ esto +incompletas e interpolladas d'esta forma: + + _Cancioneirinho:_ _Codice da Vaticana:_ + + E as aves que voavam E as aves que voavam + Quando sayam canes quando saya _l'alvor_ + Todas d'amor cantavam todas de amor cantavam + Pelos ramos d'arredor; pelos ramos d'arredor; + + + + Mais eu sei tal que escrevesse mais nom sei tal que _i estevesse_ + Que em al cuidar podesse que em al cuidar podesse + Se nom todo em amor. se nom todo em amor. + +Em pero dix'a gram medo: _Aly stive eu muy quedo + quis falar e nom ousey_ + em pero dix'a gram medo: + -- Mha senhor, falar-vos-ey -- Mha senhor, falar-vos-ey + Hum pouco, se m' ascuitardes um pouco, se m'ascuitardes + Mais aqui nom estarey. _e ir-m'ey quando mandardes_ + mais aqui nom estarei. + + (Canc. n. 554.) + +Pela lio da Vaticana, onde se vem as duas strophes completas se +infere que o defeito no _Cancioneirinho_ provem de um texto imperfeito +e differente, porventura tirado do apographo hespanhol. + +Na cano XV _(Cancioneirinho)_ vem uma strophe imperfeita, porque +formada com duas, que lhe alteram o typo: + + _Cancioneirinho:_ _Codice da Vaticana:_ + + E foi-las aguardar E fui-las aguardar + E nom a pude ver; e nom o pude achar + e moiro-me d'amor. e moiro-me d'amor! + E fui-las atender, + e nom no pude veer + E moiro-me d'amor. + +A cano XVII do _Cancioneirinho_ tem s trez strophes; na lio do +Codice da Vaticana, ha mais esta: + + Estas doas mui belas + el m'as deu, ay donzelas, + nom vol-as negarey; + mas cintas das fivelas + eu nom as cingirei. + +Com certeza esta deficiencia proveiu do apographo madrileno. Na cano +XXI, a strophe 4 est interpollada, e segundo a lio da Vaticana +que se conhece a proveniencia de outro codice: + + _Cancioneirinho:_ _Codice da Vaticana:_ + + C novas me disserom Ca novas me disserom + Que vem o meu amigo ca vem o meu amado + C'and'eu mui leda. e and' eu mui leda, + poys migu' tal mandado; + _E cuido sempre no meu coraom poys migu' tal mandado + Pois nom cuid'al, des que vos vi, que vem o meu amado. + Se nom en meu amigo, + E d'amor sei que nulh'ome tem,_ + Pois migo , tal _mandades;_ + Que vem o meu amado. + +Os versos sublinhados do _Cancioneirinho_, so visivelmente d'outra +cano, porque tem outro typo strophico, e essa interpolao no se +pode attribuir a erro de leitura de Varnhagem. + +Na cano XXV, ha uma 4 strophe, que repetio da 1; na lio da +Vaticana no existe esta forma; evidentemente o editor do +_Cancioneirinho_ seguiu aqui o codice madrileno. + +Na cano XLV falta esta strophe, que pela lio do texto da Vaticana +se v que a segunda: + + Nom ja em al d'esto som sabedor + de m'algum tempo quizera leixar + e leix'e juro nom a ir matar + mays poys la matam, serey sofredor + sempre de coyt'em quant'eu viver, + c sol y cuido no seu parecer + ey muyto mais d'outra rem desejar. + +Na cano XLVI, falta esta 4 strophe da lio da Vaticana: + + Por en na sazom em que m'eu queixey + a deus, hu perdi quanto desejei + oy mais poss'en coraom deus loar; + e por que me poz em tal cobro que ey + por senhor a melhor de quantas sey + eu, que poz tanto bem que nom ha par. + +A cano XLVIII encerra a prova definitiva de que o codice madrileno +serviu de base da edio do _Cancioneirinho_, e que esse codice +proveiu de uma fonte diversa do da Vaticana; a se acham essas duas +strophes, que faltam no codice de Roma: + + O que se foi comendo dos murtinhos + E a sa terra foi bever os vinhos, + Nom vem al Maio. + + O que da guerra se foi com espanto + E a sa terra se foi armar manto + Nom vem al Maio. + +Por outro lado no codice madrileno tambem faltam cinco strophes, por +que so omissas no _Cancioneirinho:_ + + O que da guerra se foi com'emigo + pero nom veo quand'a preyto sigo + nom vem al Maio. + + O que tragia o pendou a _aquilom_ + e vendid' sempr'a traiom + nom vem al Maio. + + O que tragia o pendou sen oyto, + e a sa gente nom dava pam coyto, + nom vem al Maio. + +E no final da cano: + + O que tragia pendom de cadaro + macar nom veo no mez de Maro, + nom vem al Maio. + + O que da guerra foy por recado + macar em Burgos fez pintar escudo, + nom vem al Maio. + +Indubitavelmente o codice madrileno provm de uma outra fonte, por que +tem omisses e accrescentamentos, que o differenciam do Codice da +Vaticana; mas a ordem das canes e os nomes dos trovadores, communs +aos dois, provam-nos que ambos foram copiados de cancioneiros j +organisados dos quaes um era j apographo. A circumstancia de +comearem ambos pela trova de _Ferno Gonalves_, e de se lr no +codice do Roma a nota: _"Manca da fol. ij in fino a fol. 43"_ +provam-nos que o original primitivo j andava truncado e isto o que +d a mais alta importancia ao Indice de Colocci do Cancioneiro perdido +que era a cpia mais antiga, por que o monumento diplomatico estava +ainda completo. Monaci no desconheceu o valor das variantes do +_Cancioneirinho_. + +Depois de toda esta discusso sobre os diminutos vestigios que restam +de alguns cancioneiros portuguezes dos seculos XIII e XIV, a +aproximao de numerosos factos secundarios, e as induces que se +formam sobre elles, exigem uma recapitulao clara para que se possam +tirar a limpo algumas concluses geraes. Representamos os cancioneiros +que so conhecidos por letras maiusculas, e aquelles cuja existencia +se pode inferir pelas variantes so notados por letras minusculas; com +estes signaes formaremos uma tentativa de filiao de todos esses +cancioneiros em um schema, que poder, ser modificado medida que se +descobrirem novos subsidios: + +A.] _O Livro das Cantigas do Conde de Barcellos_,--citado no seu +testamento, e deixado a Affonso XI, tambem trovador. Tendo em vista o +genio compilador do Conde e o andar ligado ao seu Nobiliario o Codice +da Ajuda, cancioneiro de varios auctores, pode-se inferir que o _Livro +das Cantigas_ no era exclusivamente do Conde, mas sim uma compilao +sua. No Cancioneiro da Vaticana encontram-se canes do Conde, de +Affonso XI e grupos de canes do Codice da Ajuda em numero de +cincoenta e seis assignadas por fidalgos da crte de D. Diniz. + +B.] _O Cancioneiro de D. Diniz (Livro das Trovas de Elrei Dom Diniz;_ +existiu separado em volume pelo que se sabe pelo Catalogo dos Livros +de Uso de el-rei Dom Duarte. Foi encorporado no codice da Vaticana +depois da cano 79. B.] Outro, dos Freires de Christo de Thomar. + +C.] _O Cancioneiro da Ajuda_, comea em folhas 41, a parte anterior +est perdida e o final no chegou a ser terminado. Isto explica as +pequenas relaes com o Codice de Roma.--As 24 canes achadas na +Bibliotheca de Evora e as guardas da encadernao do Nobiliario provam +o muito que se perdeu d'este cancioneiro. No se chegou a escrever a +musica das canes, nem a inscrever-lhes os nomes dos auctores que as +assignavam, e por isso conclue-se que no chegou a servir para a +colleco de Roma, que assignada. No chegaram a entrar n'elle +canes de el-rei D. Diniz, e portanto entre este e o Cancioneiro de +Roma pode fixar-se a existencia de outro cancioneiro hoje +desconhecido. + +D.] _O Cancioneiro de D. Mecia de Cisneros_, grande volume de cantigas +visto pelo Marquez de Santillana, que o descreve; j continha o +cancioneiro de D. Diniz, e os trovadores do Codice de Roma citados +pelo Marquez. Seria a primeira compilao geral, feita mesmo em +Hespanha? + +E.] _O apographo de Colocci_, perdido talvez pela occasio do saque de +Roma em 1527, e do qual s se conserva o Indice dos Autores. Tinha +intimas relaes com o codice de D. Mecia. No principio apresentava +varios _lais_ no gosto breto e pelos _Nobiliarios_, vemos que o Conde +Dom Pedro se refere s tradies brets, e tambem el-rei Dom Diniz. +Seria esta parte assimilada do _Livro das Cantigas_ do Conde de +Barcellos? + +F.] _Cancioneiro da Vaticana, n_. 4803; este menos completo do que +o antecedente, o que prova que foi copiado de outra fonte. Colocci por +sua letra o emendou pelo codice hoje perdido. Tem este cancioneiro 56 +canes similhantes no Cancioneiro da Ajuda, com variantes notaveis, +signal que ambos os Codices se derivam de duas fontes diversas. Tem +uma parte relativa a successos da crte de Dom Affonso IV, que provem +de cancioneiros extranhos e posteriores ao Cancioneiro da Ajuda. A +ordem dos trovadores no a mesma do Indice de Colocci. + +G.] _Copia ms. de um Grande de Hespanha_.--Em cincoenta canes +reproduzidas por Varnhagem acham-se variantes fundamentaes com +relaes lio do codice de Roma, signal de que a copia alludida +provm de uma fonte extranha e de epoca differente. + +Os cancioneiros desconhecidos, mas intermediarios aos supracitados so +hypotheticamente: + +a, b.] Cancioneiros anteriores s colleces da crte de D. Diniz, com +que se formou e, d'onde se trasladou o Cancioneiro da Ajuda, como se +justifica pelas variantes dos 56 canes reproduzidas no de Roma. + +c.] Cancioneiro perdido, d'onde se no chegou a copiar nem a musica +das canes nem o nome dos trovadores para o Cancioneiro da Ajuda. + +d.] Cancioneiro onde se encorporaram o _Livro das Cantigas_ e +_Cancioneiro de D. Diniz_, o que justifica as differenas entre o +Codice de Dona Mecia e o de Colocci. + +e.] Cancioneiro perdido, cuja existencia se induz das variantes entre +o Cancioneiro da Vaticana, o de Colocci e o do grande de Hespanha. + +Eis por tanto a nossa tentativa de schema de filiao dos cancioneiros +portuguezes dos seculos XIII e XIV: + + a b + \-------/ + c + C ABB + \---------/ + D d + /---------\ + E e + \-/ + G F + + provavel que esta connexo ache contradictores, porm a ficam todos +os elementos que pudemos agrupar, para que outros estabeleam uma +filiao mais verosmil. S depois de estudada a historia externa do +Cancioneiro da Vaticana que se pode entrar com desassombro no +desenho da grande epoca litteraria que elle representa. Bem o +desejaramos fazel-o diante dos que estudam as produces do fim da +edade media, para reconstruirmos de novo o livro dos _Trovadores +galecio-portugueses_, escripto antes da posse de tamanhas riquezas. +medida que em Portugal fr renascendo o amor pela tradio nacional, o +nome de Ernesto Monaci figurar como de um benemerito, que restituiu a +este paiz um dos mais bellos monumentos do seu passado historico. + + + [1] Ferno Lopes, _Chron. de D. Pedro_ I, cap. 31. + [2] _Leges Wallice,_ p. 779, 861. + [3] _Obras del Marquez de Santillana,_ p. XX. + [4] _Hist. litter. de l'Italie,_ t.IV, p.17. + [5] _Op. cit_, p.8. + [6] _Ginguen, Hist. litt_, t. IV, p. 41. + [7] _Tiraboschi, Storia della Letteratura italiana_, t. VII, 246. + + + + + +***END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK O CANCIONEIRO PORTUGUEZ DA +VATICANA*** + + +******* This file should be named 11299-8.txt or 11299-8.zip ******* + + +This and all associated files of various formats will be found in: +https://www.gutenberg.org/1/1/2/9/11299 + + +Updated editions will replace the previous one--the old editions +will be renamed. + +Creating the works from public domain print editions means that no +one owns a United States copyright in these works, so the Foundation +(and you!) can copy and distribute it in the United States without +permission and without paying copyright royalties. Special rules, +set forth in the General Terms of Use part of this license, apply to +copying and distributing Project Gutenberg-tm electronic works to +protect the PROJECT GUTENBERG-tm concept and trademark. Project +Gutenberg is a registered trademark, and may not be used if you +charge for the eBooks, unless you receive specific permission. 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It exists +because of the efforts of hundreds of volunteers and donations from +people in all walks of life. + +Volunteers and financial support to provide volunteers with the +assistance they need, is critical to reaching Project Gutenberg-tm's +goals and ensuring that the Project Gutenberg-tm collection will +remain freely available for generations to come. In 2001, the Project +Gutenberg Literary Archive Foundation was created to provide a secure +and permanent future for Project Gutenberg-tm and future generations. +To learn more about the Project Gutenberg Literary Archive Foundation +and how your efforts and donations can help, see Sections 3 and 4 +and the Foundation web page at https://www.pglaf.org. + + +Section 3. Information about the Project Gutenberg Literary Archive +Foundation + +The Project Gutenberg Literary Archive Foundation is a non profit +501(c)(3) educational corporation organized under the laws of the +state of Mississippi and granted tax exempt status by the Internal +Revenue Service. The Foundation's EIN or federal tax identification +number is 64-6221541. Its 501(c)(3) letter is posted at +https://pglaf.org/fundraising. Contributions to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation are tax deductible to the full extent +permitted by U.S. federal laws and your state's laws. + +The Foundation's principal office is located at 4557 Melan Dr. S. +Fairbanks, AK, 99712., but its volunteers and employees are scattered +throughout numerous locations. Its business office is located at +809 North 1500 West, Salt Lake City, UT 84116, (801) 596-1887, email +business@pglaf.org. Email contact links and up to date contact +information can be found at the Foundation's web site and official +page at https://pglaf.org + +For additional contact information: + Dr. Gregory B. Newby + Chief Executive and Director + gbnewby@pglaf.org + +Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg +Literary Archive Foundation + +Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide +spread public support and donations to carry out its mission of +increasing the number of public domain and licensed works that can be +freely distributed in machine readable form accessible by the widest +array of equipment including outdated equipment. Many small donations +($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt +status with the IRS. + +The Foundation is committed to complying with the laws regulating +charities and charitable donations in all 50 states of the United +States. Compliance requirements are not uniform and it takes a +considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up +with these requirements. We do not solicit donations in locations +where we have not received written confirmation of compliance. To +SEND DONATIONS or determine the status of compliance for any +particular state visit https://pglaf.org + +While we cannot and do not solicit contributions from states where we +have not met the solicitation requirements, we know of no prohibition +against accepting unsolicited donations from donors in such states who +approach us with offers to donate. + +International donations are gratefully accepted, but we cannot make +any statements concerning tax treatment of donations received from +outside the United States. U.S. laws alone swamp our small staff. + +Please check the Project Gutenberg Web pages for current donation +methods and addresses. Donations are accepted in a number of other +ways including including checks, online payments and credit card +donations. To donate, please visit: https://pglaf.org/donate + + +Section 5. General Information About Project Gutenberg-tm electronic +works. + +Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm +concept of a library of electronic works that could be freely shared +with anyone. For thirty years, he produced and distributed Project +Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. + +Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed +editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. +unless a copyright notice is included. Thus, we do not necessarily +keep eBooks in compliance with any particular paper edition. + +Each eBook is in a subdirectory of the same number as the eBook's +eBook number, often in several formats including plain vanilla ASCII, +compressed (zipped), HTML and others. + +Corrected EDITIONS of our eBooks replace the old file and take over +the old filename and etext number. The replaced older file is renamed. +VERSIONS based on separate sources are treated as new eBooks receiving +new filenames and etext numbers. + +Most people start at our Web site which has the main PG search facility: + +https://www.gutenberg.org + +This Web site includes information about Project Gutenberg-tm, +including how to make donations to the Project Gutenberg Literary +Archive Foundation, how to help produce our new eBooks, and how to +subscribe to our email newsletter to hear about new eBooks. + +EBooks posted prior to November 2003, with eBook numbers BELOW #10000, +are filed in directories based on their release date. 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For +example an eBook of filename 10234 would be found at: + +https://www.gutenberg.org/1/0/2/3/10234 + +or filename 24689 would be found at: +https://www.gutenberg.org/2/4/6/8/24689 + +An alternative method of locating eBooks: +https://www.gutenberg.org/GUTINDEX.ALL + +*** END: FULL LICENSE *** diff --git a/old/11299-8.zip b/old/11299-8.zip Binary files differnew file mode 100644 index 0000000..c22be62 --- /dev/null +++ b/old/11299-8.zip |
